Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:04 pm

Saiu desejando a Briand bom apetite.
Alguns dias depois Lourença voltou e ficou muito surpresa com o silêncio e a teimosia de Briand.
Falou com ele longamente tentando persuadi-lo e por fim o ameaçando, possessa de raiva, mesmo o agredindo.
Ele permaneceu inabalável, sem nada dizer.
Ela, então, decidiu deixá-lo sem comer por mais uns dias, mas Saurmont tinha agora sua própria provisão.
O velho vinho vinha diminuindo pouco a pouco sua paralisia das pernas.
Isso fortaleceu ainda mais sua firmeza.
Ele temia o perigo que corria quando sua reserva acabasse; seu sofrimento seria muito maior e...
Certa vez, passadas duas semanas desde seu encarceramento, o Conde entrou na lareira para conferir o que havia sobrado.
Quando revolvia o fundo da lareira, sentiu repentinamente uma corrente de ar frio vindo de uma fenda entre dois grandes blocos na parede posterior.
Intrigado, seguiu atentamente a fenda e bem em cima encontrou um grande pino que provavelmente podia servir a um dispositivo.
Ansioso, apertou o pino e, no mesmo instante, uma das pedras se deslocou e abriu passagem para um estreito corredor.
Briand entrou nele sem vacilar; alguns minutos depois viu uma luz e deduziu que o corredor ia ter na parte oposta à fachada do castelo.
Contentíssimo, retornou para sua escuridão.
A partir desse dia passou a cuidar de sua saúde com esmero; algumas vezes durante o dia friccionava as pernas, esforçando-se em andar para desentorpecê-las.
Logo, para sua grande alegria, verificou a volta de sua saúde.
Mas quando Stanislav e Lourença apareciam, sentava-se em silêncio e imóvel na poltrona, fingindo-se de muito fraco.
Imaginando que o fim do Conde estava próximo, os dois perversos estavam desesperados; dirigiam-se a Briand com mais rudeza para obrigá-lo a revelar seu segredo antes de morrer.
Às vezes, caindo em sua dissimulada amabilidade, Lourença chorava e implorava ao Conde que não a privasse do valioso porta-jóias com tanta teimosia.
Certa noite, quando a pérfida dupla saiu com a ameaça de mais três dias de fome, Saurmont resolveu fugir.
Entre a montanha de objectos e ferros amontoados no canto do quarto, ele encontrou um velho punhal e o afiou em uma pedra.
Colocou sua arma na cintura, se cobriu com velha capa e saiu rapidamente, tendo o cuidado de fechar atrás de si a pedra que dava passagem para o corredor secreto.
Sem perda de tempo Briand se lançou ao banco de musgo e abriu a terra com o punhal.
Logo sentiu debaixo dos dedos as incrustações de pedras preciosas do porta-jóias.
Respirou fundo após tê-lo arrancado da terra; agora estava certo de sua vingança; deixaria a cova aberta para que Lourença visse onde se encontrava o tesouro.
Saiu do jardim através da brecha e, correndo, se dirigiu ao bosque.
O ar puro da noite o refrescou e revigorou.
Pelo caminho entrou a reflectir na sua condição - sim, estava livre e tinha riqueza, mas estava longe de se sentir salvo.
Sua roupa gasta era suspeita; se alguém o visse com o porta-jóias, na certa o tomaria por ladrão.
Era de facto uma situação crítica, mas onde arranjar outra roupa?
Deveras desanimado Briand chegou ao raiar do sol à borda do bosque.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:04 pm

A madrugada dificultava a orientação, mas graças ao luar e ao conhecimento que tinha do caminho, prosseguiu andando adiante com cuidado.
Viu um jovem padre debaixo de uma árvore, dormindo profundamente com a cabeça apoiada num espesso saco de linho.
Pulou de alegria - este encontro era para ele uma verdadeira felicidade.
Sem vacilar, num minuto o Conde se aproximou do rapaz sorrateiramente e o sufocou, sem lhe dar tempo de acordar.
Depois arrastou o corpo até o matagal, onde, após despi-lo, o ocultou sob folhas secas.
Tudo isto terminado, disfarçou-se de padre.
No bolso da batina achou um pergaminho assinado pelo abade, pelo qual ficou sabendo ter o padre o nome de Irmão Félix, pertencente à Ordem de São Bernardo.
Agora sim, estava a salvo.
O porta-jóias foi acomodado no saco de esmolas, onde ninguém suspeitaria de sua presença.
Podia viajar sem temer até retomar a condição de cavaleiro, na primeira oportunidade que surgisse, dirigindo-se rapidamente aos Pirineus.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:04 pm

VIII. A VINGANÇA DE BRIAND

Como se tivesse saído de um pesadelo, com o coração vazio e a cabeça pesada, Diana chegou ao convento.
Sob a influência da calorosa acolhida dada por Clemência, seu pesar e inflexibilidade desapareceram e as lágrimas copiosas aliviaram sua! alma doente.
Chorando contou pouco a pouco a sua amiga os acontecimentos, sua decisão de nunca mais ver René e a terrível descoberta de estar Saurmont vivo.
— É claro que, estando Saurmont vivo, meu segundo casamento não tem valor... - concluiu ela.
Mas, para prová-lo, devo denunciar o Conde e pôr a descoberto toda essa trama vergonhosa, todo esse escândalo, - ela acrescentou em tom de desespero.
— Esqueça tudo isso e se retire do mundo, - observou a Sra. Montfort após breve silêncio.
Em minha opinião os laços estão mesmo terminados; fique no convento.
Aqui, sob o manto do Salvador você estará a salvo, tanto de René quanto de Saurmont.
Além disso, quem aqui fica logo morre e isso é uma grande felicidade para aqueles cuja vida, como as nossas, estão particularmente marcada pelos fardos, acrescentou ela com leve sorriso.
— Você me aconselha a tomar o hábito e eu mesma já pensei em fazê-lo.
Vivendo perto de você ainda poderei encontrar um pouco de felicidade, - murmurou Diana, olhando com tristeza o pálido rosto de sua amiga, com sinais anunciadores de morte próxima.
Clemência não era nem sombra da soberba e brilhante mulher de outrora.
— Não precisa cuidar de mim por muito tempo.
Mas veja o que lhe proponho.
Quando meu lugar de abadessa vagar, você será minha substituta.
Graças aos meus contactos e à ajuda do bispo, isto será fácil de conseguir.
Hoje à noite mesmo conversarei com monsenhor Gabriel.
Na manhã seguinte, após uma longa conversa com o bispo e depois da confissão, Diana vestiu a roupa preta.
A boa Gabriela, com lágrimas nos olhos, comunicou que também ela iria tomar o hábito para não se separar de sua senhora e, como antes, continuar servindo-a.
Durante as seis semanas seguintes a Sra. de Montfort teve sua fraqueza acentuada.
Dois dias antes de seu fim chegou um decreto real destinando como sua sucessora a Sra. Beauchamp.
O documento havia sido trazido pela Duquesa de Nevers, a qual desejava ver Clemência pela última vez.
A amiga e protectora de Diana, a Duquesa, exprimiu seu desejo de participar da cerimónia de ingresso no convento.
Uma noite, antes da admissão de Diana, René chegou ao castelo de Beauchamp.
Esteve ausente por dois meses, viajando por Tupeni com Helena e o Conde Silari.
Durante esse tempo se divertiram à vontade.
A palidez do Visconde, seu aspecto cansado e as olheiras mostravam a que excessos se entregou durante a viagem.
António o recebeu.
Ele também estava pálido e abatido, mas devido à tristeza e à preocupação.
Ao saber da decisão de Diana de se tornar freira, o fiel criado tinha se posto em desespero.
Tal saída ele considerava insensata.
António nunca deixou de ter esperança de os jovens ainda se unirem, ao menos que entre eles fosse levantada uma barreira intransponível.
E essa barreira surgiu - o convento.
António queria que o Visconde tomasse conhecimento da decisão.
Daí, quem sabe?... talvez o perigo de perdê-la o despertasse e ele empregasse todo seu potencial em trazê-la de volta.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:05 pm

Mas, para sua infelicidade, António não conseguiu encontrá-lo em parte nenhuma.
O Visconde partiu sem dizer aonde ia, nem deu notícias durante esse tempo todo.
Em Angers o médico apenas ficou sabendo da partida com o Conde Silari e a nora.
Mas para onde foram e quando voltariam, ninguém sabia.
Após cumprimentar seu senhor, António o seguiu em silêncio até o quarto do menino, o primeiro lugar ao qual Beauchamp se dirigiu.
Beijou o filho carinhosamente e perguntou ao médico:
— Diana está bem?
Se não a incomodo, gostaria de vê-la, - acrescentou ele sem prestar atenção à estranha expressão da ama de leite.
— A Viscondessa não se encontra no castelo.
Peço-lhe, ”Monsieur”, me acompanhar para lhe transmitir o recado deixado por ela, - respondeu António, tomando uma vela e o conduzindo ao dormitório cuja porta estava cuidadosamente trancada.
— O que significa todo esse segredo?
Diga sem rodeios onde está minha esposa.
E quando voltará? - perguntou René, franzindo as sobrancelhas e sentando-se impaciente na poltrona.
— A Viscondessa não voltará mais.
Ela está no convento Sta. Úrsula e amanhã receberá o hábito, respondeu em voz baixa António com lágrimas nos olhos.
René deu um pulo, ficou vermelho e tomou António pelo braço:
— Você enlouqueceu?...
Diana no convento!
Freira!?... Que significa isso?
— ”Monsieur” René!
Uma hora após sua partida a Viscondessa mandou me chamar.
Comunicou sua partida e pediu para lhe dizer que se encontrava na biblioteca durante nossa última conversa.
Com certeza o senhor compreenderá que, depois de ouvir tudo aquilo, já não havia mais lugar para ela neste castelo.
— Você deveria detê-la! - gritou René empalidecendo.
— Com que direito?
Naturalmente eu o teria avisado do que ocorria, se houvesse deixado indicação de seu paradeiro.
Agora é muito tarde! Oh, Sr. René!
O que o senhor fez! - gritou António desfazendo-se em pranto.
Depois, tapando o rosto com as mãos, saiu do quarto, agora tão vazio e silencioso.
Tudo ali a René falava de Diana.
Ali a cama falava do casamento.
Como se ela estivesse presente lhe surgia a imagem de seu rostinho envolto nos cabelos louros sobre o travesseiro.
Num canto se encontrava o espelho, diante do qual adorava ficar.
Lá estava o frasco dela, o bordado e vários objectos seus.
Ela havia deixado tudo, incluindo o próprio filho!
Ele tinha se livrado completamente da esposa incómoda...
A ela se ligou devido a uma fantasia pecadora, vê-la o irritava e conscientemente a traía.
Agora nenhuma obrigação, nem imaginária, iria mais envergonhá-lo.
Ele podia se entregar livremente à vida desregrada, divertir-se com amigos e se dedicar a Helena de Silari, a quem deu preferência aberta, em detrimento de Diana.
Por que não se alegrava nem um pouco por estar livre?
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:05 pm

Por que uma tristeza profunda o oprimia e as lágrimas lhe sufocavam a garganta ao pensar que nunca mais veria essa amiga, sempre paciente, delicada e reservada?
Seus grandes olhos azuis não mais lançariam aquele olhar profundo e perscrutador...
Ele não amava Diana.
Como uma sombra passageira ela havia passado por aquelas paredes e, entretanto, o ódio e o desespero se debatiam nele nesse instante.
René se levantou quase sem forças e lágrimas amargas brotaram de seus olhos.
O Visconde porém possuía um carácter demasiadamente leviano e orgulhoso para se entregar ao desespero e recriminações próprias.
Logo o sentimento de ira superou todos os demais.
Diana o tinha largado sem se lastimar e nem ao menos tentou tocar seu coração.
Teve o desejo de vê-la novamente para agredi-la.
Apesar de tudo queria colocá-la a seus pés, submissa e amável, essa mulher orgulhosa e teimosa, que preferia a solidão do convento a ele.
Totalmente corrompido pelas mulheres sem pudor que sempre o rodeavam, René acreditava piamente ser irresistível.
Ao constatar que Diana não estava cega pela beleza dele, mas sim via e condenava sua nulidade de carácter, se sentia indignado.
Tremendo de emoção se pôs a andar de um lado para outro no quarto.
Mil planos passaram em sua mente agitada.
”Tenho de evitar esta ridícula admissão ao convento!
Farei com que meus direitos sejam respeitados!
Eles estão acima de tudo! - Furioso dizia René.
Provarei que ela não pode ousar proceder assim.
Preciso apenas chegar a tempo e esse maldito convento fica longe...”
Saiu correndo do dormitório e se dirigiu ao aposento de António Gilberto que, admirado, lhe abriu a porta.
— Vista-se rapidamente, enquanto mando preparar os cavalos.
Iremos ao convento de Sta. Úrsula, gritou René.
— Deus! O que deseja fazer, ”Monsieur”?
— Impedir uma loucura!
Tenho direitos sobre essa mulher, pelos diabos!
Eu lhe mostrarei! Eu a trarei de volta.
Ela deve me amar.
Vai me pagar por esta hora!
Ensiná-la-ei como deixar o lar sem a autorização do marido...
António balançou a cabeça:
— Vai ser tarde para evitar.
Quando conseguirmos chegar tudo estará terminado, e, mesmo que assim não seja, qualquer escândalo será inútil, pois o bispo de Angers se encontra lá.
Ele saberá defender a alma que se entrega a Deus.
— Sem discussão!
Irei e lá verei o que fazer, - replicou René batendo o pé.
Uma hora depois o Visconde deixava o castelo na companhia de António Gilberto e dois criados.
Era aproximadamente uma hora da tarde quando chegaram ao convento, imponente edifício se erguendo sobre uma colina na floresta.
Tanto os cavaleiros quanto os cavalos estavam cansadíssimos; cobertos de suor e pó subiram a colina quase passo a passo.
Uma multidão compacta ocupava o pátio.
Pelas portas abertas se ouvia o som dos órgãos e das cativantes canções religiosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:05 pm

Pálido e nervoso René desceu do cavalo e, junto com António, entrou na longa galeria que unia a igreja ao interior do convento.
Nesse momento a multidão abrira alas, empurrando para frente o Visconde que, a contra-gosto, veio parar na primeira fileira.
Seus grandes olhos se fixaram no cortejo que saía da ’igreja.
Inicialmente apareceram senhores e damas entre as quais se encontrava a Duquesa de Nevers; depois vinha o bispo em vestimenta sacerdotal, rodeado por todo o clero e, por fim, uma nova abadessa à frente dos demais.
O olhar de pavor do Visconde se fixou na figura alta e delgada e reconheceu Diana.
E também de repente Diana viu Beauchamp; por um minuto ela se deteve e o encarou com muito ódio.
A seguir continuou caminhando.
René contudo nem percebeu o cortejo que passara a sua frente, sua cabeça começou a girar e ele teria caído se alguns senhores a seu lado não o tivessem segurado.
O Visconde acordou em uma cela destinada a visitantes do mosteiro, com Gilberto e alguns conhecidos seus cercando-o de cuidados.
Os nervos extenuados do Visconde não foram capazes de suportar a tensão:
ora chorava, ora caía em desespero, exigindo com insistência uma entrevista com Diana.
— Basta, Beauchamp!
Fique calmo e se recomponha! - disse-lhe um velho senhor, parente do Visconde, com firmeza e serenamente.
Se gosta tanto de sua esposa não deveria tê-la deixado sozinha por vários meses.
Tentarei conseguir com Mãe Clemência uma entrevista.
Você, porém, terá de se esforçar em reunir suas energias para se portar dignamente.
Diana, agora Mãe Clemência, recebeu o bom velho sem qualquer empecilho.
Ela já se havia instalado em seu novo recinto de onde a Duquesa e o bispo tinham acabado de sair.
A jovem recebeu amavelmente o senhor e gentilmente perguntou o que desejava.
— Venho com um pedido, na qualidade de enviado.
O Sr. Beauchamp lhe pede, o mais breve possível, uma entrevista.
— Para que? - Perguntou a moça surpreendida.
Ele está livre... o que mais quer?
Na verdade não temos nada a dizer um ao outro...
— Generosa dama!
Em sua nova posição é louvável perdoar as ofensas.
Quem poderá ter mais direito à indulgência do que seu ex-marido? - notou o velho senhor.
Diana meneou a cabeça:
— Não, Conde!
Não me tornei irmã de caridade para isso, para dizer palavras hipócritas de perdão.
Não empregarei com o homem que me levou a tomar o hábito palavras evangélicas!
Apesar de tudo, respeitando sua solicitação, receberei o Visconde, se é que ele tem coragem de aparecer diante da mulher que tanto ofendeu!
Comunique-lhe, ”monsieur”, que hoje, após as orações do fim da tarde o estarei esperando aqui.
Mas ao cair da noite ele deve deixar este lugar.
Se está doente, nestes arredores não há falta de pousadas e castelos.
Não poderá permanecer no convento.
Aqui seria apertado para ele...
— Agradeço Mãe Clemência, por ter considerado meu pedido.
Pedirei a Deus Ele cure as feridas de sua alma e derrame sobre a senhora a paz e a tranquilidade - respondeu o velho senhor respeitosamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:05 pm

Quando o Visconde soube que lhe davam um prazo para deixar o convento, ficou com o orgulho ferido.
No primeiro momento queria sair imediatamente, mas o desejo irresistível de ver Diana e lhe falar pela última vez o prendeu.
O próprio René não sabia o que queria lhe falar e o que desejava, mas a tristeza, a angústia e a consciência pesada o levavam a proceder assim’.
Coração batendo fortemente, dilacerado em mil sentimentos contraditórios, René apareceu no aposento da abadessa na hora marcada.
Uma irmã o conduziu à sala de recepção, pequeno cómodo arqueado, mobiliado com austero luxo.
Junto à janela gótica de vitrais coloridos, Diana estava sentada em uma poltrona entalhada.
Ao entrar o Visconde, ela lhe dirigiu um olhar frio.
Trajando larga roupa negra e usando o longo véu, ela ainda parecia mais alta.
— Diana! Diana porque fez isso?
Por que me deixou e a nosso filho?
Apesar de tudo eu a amo - disse René se aproximando rapidamente dela.
A voz do Visconde se entrecortou.
A mágoa e a raiva lutavam nele.
Mas a última venceu:
— Não se rompem laços sagrados e se foge do lar, do matrimónio, deixando todas suas obrigações.
Como ousou fazer isso? Responda!
Com olhar flamejante ele se aproximou dela e a tomou pelo braço.
Diana, no entanto, com um gesto brusco repeliu o Visconde.
Em seus olhos cintilavam faíscas de ódio.
— Não esqueça, senhor Beauchamp, com quem está falando!...
Mas como você veio aqui para esclarecer nossas contas, ouça minha resposta - por que eu fiz isso?
Porque ouvi sua grosseira conversa com António Gilberto!
No mesmo momento morreu qualquer sentimento por você!
Será que pensou ser eu cega e indiferente, não compreendendo que estava sozinha em nossa casa, onde vegetava esquecida, abandonada e desprezada?
Queixou-se que o casamento comigo o obrigava a enorme sacrifício... mas você me perguntou uma vez sequer se eu queria seu sacrifício e se o aceitava?...
Agora eu, por minha vez, lhe pergunto?
Com que direito fez isso?
Homem sem honra!
Zombou de um compromisso sagrado e das obrigações que lhe cabiam; vingou-se de uma mulher inocente por ela não bajular sua vaidade e não poder rivalizar em cinismo com suas cortesãs... eu fui doente, tola e a tal ponto má companheira, que lhe era vergonhoso aparecer onde quer que fosse comigo, respirando a atmosfera de virtude que me cercava.
O que é isso? Eu o livrei de mim mesma!
Depois de avaliar o quão baixo era o seu carácter, sua vaidade mesquinha, seu egoísmo cruel, sem coração, eu o deixei e preferi a cela do mosteiro.
Agora vá embora!
Está livre para procurar a mulher que lhe seja mais afim, que saiba apreciar melhor do que eu sua beleza e seus vícios.
À medida que Diana falava foi enrubescendo; seus olhos brilhavam.
Nesse instante toda a encantadora beleza da moça voltou.
Em sua voz soava uma cruel satisfação ter a possibilidade de finalmente jogar em rosto todo o desprezo sentido pelo marido, aquele que a magoou profundamente.
René recuou como se houvesse levado uma bofetada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:05 pm

Nunca havia ouvido antes um julgamento a tal ponto inclemente de suas atitudes.
A voz incorruptível da consciência, subitamente despertada, lhe murmurou:
ela está certa! Nada você pode contestar a ela!
— Tem razão, Diana, sou culpado - balbuciou o Visconde - mas você também me trata sem a menor piedade e misericórdia!
— Que Deus nos julgue quando nos apresentarmos diante d’Ele.
Com desespero na voz, o Visconde, tocado no fundo da alma, gritou:
— Perdoe-me!
Diana olhou por um minuto seu rosto pálido e aflito.
Depois, respirando fundamente, disse em tom baixo e secamente:
— No dia de hoje fui riscada do mundo dos vivos.
Entre nós está tudo terminado.
Mas crie juízo e abandone a vida desregrada; viva para seu filho e livre a jovem alma dele do seu pernicioso exemplo.
Diga adeus para sempre à vida que leva...
Diana se retirou fazendo um sinal de adeus com a mão.
O Visconde, como um embriagado, sem se despedir de ninguém foi apressadamente ao pátio, montou a cavalo e, na companhia de António, deixou o convento.
Seu coração estava a ponto de estourar e algumas lágrimas caíram sobre a crina do animal.
Tinha adquirido a tão almejada liberdade mas ela não o contentava... o castelo ao qual se dirigia em silêncio e onde ninguém o esperava mais lhe parecia agora vazio e sombrio.
Briand, sem enfrentar maiores dificuldades, atingiu os objectivos de sua viagem; teve de gastar apenas alguns dias de procura para encontrar seu primo, cuja localização não conhecia muito bem.
Este pobre rebento da família, entregue ao alcoolismo, ficou muito surpreso com a proposta do desconhecido, de comprar por uma sólida quantia seus documentos de família, para ele de nenhum valor.
De início, devido a uma ponta de orgulho, recusou, mas ao ver o ouro mostrado por Briand, ficou subjugado.
Sem desconfiar estar abrindo mão de enorme herança, o pobre concordou, preferindo a discreta quantia aos documentos empoeirados.
A transacção foi concluída.
Após o festim, no qual o pobre primo bebeu até cair, Briand, satisfeito, voltou correndo a Paris com os valiosos papéis.
Por uma feliz coincidência havia apenas um ano de diferença entre ele e o homem agora representado por ele.
Por isso, quando apareceu perante as autoridades, estas se surpreenderam somente com o tipo físico comum a todos os daquela família.
Este Saurmont, o novo pretendente, com excepção dos cabelos ruivos e o sotaque espanhol, era um retrato vivo do falecido Conde.
Não houve suspeitas.
Todos acreditaram na história inventada a respeito de seu passado e de como soube da morte do primo.
E, uma vez que seus documentos não foram contestados, o então Eustáquio Felipe de Saurmont foi considerado como o herdeiro por direito do defunto Conde Briand.
Após acertar todos os negócios, Briand, de acordo com a etiqueta, se apresentou ao Rei.
Tão cego quanto sua comitiva, Henrique III também não desconfiou de nada.
Ele amavelmente estendeu a mão ao novo Conde para que a beijasse, deu-lhe os parabéns pela esplêndida herança recebida e acrescentou:
— Fico muito contente em saber que o antigo e glorioso nome de Saurmont não se tenha extinguido.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:06 pm

No que se refere a seu primo, que tão cedo abandonou o mundo, chegaram até nós detalhes desagradáveis de sua vida íntima.
Mas, não julguemos os mortos...
Briand se inclinou até o chão, respondendo ter ele esperanças de que o nome manchado e violado por seu primo, não o seria por ele, o mais fiel e humilde súbdito de sua Majestade!
O encontro com os Duques d’Anjou e de Guise fez com que Briand soubesse a opinião deles sobre o falecido Conde:
um grande canalha, tão grande que todos ficaram felizes por se verem livres dele... o que incutiu em Saurmont estranhas ideias e não melhorou em nada a sua opinião sobre o palácio e os palacianos.
Por isso se apressou em terminar os negócios em Paris e ir a Anjou.
Dois anos e três meses se haviam passado desde sua fuga do Castelo d’Armi.
Entrou em São Germano triunfante e readquiriu a posse de suas propriedades.
Após se instalar no castelo, Briand imediatamente começou a tomar informações sobre as pessoas que lhe interessavam.
A notícia de que Diana havia tomado o hábito o deixou contente - assim ela não pertenceria a ninguém...
Beauchamp estava ausente há alguns meses e António Gilberto cuidava de seu filho.
Quanto a Lourença, ficou sabendo do golpe sofrido; Domskii fugiu levando consigo uma grande soma e todas as jóias da Baronesa que, desesperada, quase se suicidara.
Então Briand achou haver chegado a hora de se vingar.
Todos os seus inimigos e cúmplices estavam mortos; restava apenas Lourença que, sozinha, poderia explorá-lo e arruiná-lo de vez.
A Baronesa tinha de morrer, sendo morta pelas suas próprias mãos.
Até aquela data o Conde sempre sentira seu orgulho ferido por ela.
Certa noite pediu lhe preparassem o cavalo e, bem armado, se dirigiu sozinho ao castelo d’Armi.
Muitas recordações o assediaram.
Seu terrível passado se erguia... viu-se novamente aos vinte anos, indo pela primeira vez por este caminho, sob um nome falso.
O Barão Mailor estava morto, o Conde Briand de Saurmont também e ele novamente seguia este caminho com um nome falso!
Mas não queria temer mais e acabar sendo descoberto... a última hora da megera havia soado...
Perto da brecha ele desceu do cavalo.
O muro, mais arruinado que antes, lhe permitiu passar sem dificuldade e logo avistou o velho e grande castelo sombriamente
A Noite de São Bartolomeu delineado no azul escuro do céu.
Toda sua fachada estava às escuras.
Só de uma grande janela partia fraca e trémula luz.
Era noite de lua cheia.
A pálida luz do luar era reflectida nos vidros da janelas góticas e dava à paisagem um aspecto triste e tétrico.
Por todo canto se sentia o abandono e a negligência.
As raízes haviam invadido os caminhos, as estátuas estavam quebradas e derrubadas, o lago parecia um pântano e a velha moradia senhorial estava em silêncio, parecendo desabitada.
Um sentimento desconhecido, de profunda tristeza, tomou conta de Briand.
Enquanto ele subia pela escada até o terraço na calada da noite, ecoava o som de suas esporas e um estremecimento lhe percorreu o corpo.
Neste mesmo terraço havia visto pela primeira vez René e Diana...
Afugentando lembranças inoportunas, bateu na porta fechada.
O ferrolho não estava trancado e logo a porta cedeu ao seu esforço.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:06 pm

A lua iluminava o quarto vazio.
Sem vacilar Briand tomou o bem conhecido caminho para o quarto de Lourença.
A luz na janela lhe havia mostrado aonde ela se achava.
Ao redor era tudo silêncio e ele não encontrou uma única criatura viva.
A porta estava entreaberta, Briand a abriu e parou na soleira de onde começou a examinar o quarto.
Por todo lado reinava a desordem inacreditável que sempre cercava Lourença.
Sobre a mesa restos do jantar grosseiro.
Ela mesma, suja e despenteada, dormia na cama roncando alto de boca aberta.
O Conde sentiu uma enorme repulsa e a ficou olhando hipnotizado.
Como havia sido tão louco para ao longo de tantos anos permitir a essa criatura repugnante dominá-lo e, por ela, chegar a fazer Diana sofrer?
Deveria ter matado a megera na primeira vez em que ela pronunciou o nome Mailor para o explorar e fazê-lo matar.
Ele fechou a porta e escondeu a chave no bolso.
A seguir, depois de se certificar de que Lourença não tinha arma alguma a mão, sacou o punhal e se aproximou da cama.
Por um minuto olhou para ela, pensando em que morte lhe dar a fim de que ela sofresse mais.
Há tempos havia resolvido envenená-la, agora, porém, lhe surgiu a ideia de também queimá-la viva.
Desta forma a faria sentir a morte duplamente e o fogo liquidaria o corpo repugnante que naquele momento lhe castigava a visão.
Dando um passo para trás, bateu com força o pé no chão e gritou:
— Acorde, Baronesa!
Lourença deu um pulo, esfregou os olhos e, assustada, o viu.
— O diabo a carregue!
Como dorme tranquila se esquecendo do amigo que condenou a morrer de fome? - disse ele.
Vim para rever uma mulher tão gentil como você.
Uma expressão de alegria imediatamente surgiu no rosto obeso de Lourença.
— Briand! - gritou ela, pulando ao chão e se preparando para se lhe lançar ao pescoço.
O Conde a empurrou com força e ela de novo caiu na cama.
— Você se engana, Baronesa d’Armi! - disse ele sério.
Não vim para lhe abrir novamente a mina de ouro.
Não! Vim para castigá-la e me vingar de todos os ultrajes com os quais me cobriu.
Pensa que deixarei que me domine por saber Briand de Saurmont estar vivo?
Como é cega... Você não sai daqui viva!
Pelo olhar dele Lourença viu que seu poder sobre Briand havia acabado.
Ajoelhou-se e, aos brados, lhe pediu inutilmente perdão.
Ele conhecia muito bem essa víbora...
Sabia que se ele queria viver, ela teria de morrer!
Empurrou-a com a perna com tal força que as esporas cortaram o rosto dela; tirou do bolso um pequeno pacote e colocou seu conteúdo num copo.
— Este é um excelente veneno italiano, - disse ele em tom de zombaria.
Aliás não se aflija se por causa dele suas pernas ficarem paralisadas.
Não sofrerá por muito tempo, já que vou por fogo em todos estes trapos para aquecer seus últimos minutos.
A propósito, entregue-me todas suas economias e tudo o que você conseguiu salvar de Domskii... esse dinheiro será usado na construção de um grandioso mausoléu para você, ficando ao lado de seu marido, o Barão.
Enlouquecida de pavor, Lourença rolava pelo chão, mas, decididamente, se recusava a responder.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:06 pm

— O diabo a carregue! Que tonta!
Disse Briand dando uma risada com maldade.
- Vejo, Baronesa que serei obrigado a desenrolar sua língua, empregando os mesmos métodos que me ensinou!
Sempre foi uma mulher engenhosa e não vou prender sua companhia... é uma pena eu não poder deixá-la viver, mas sua lembrança sempre me será cara!
Ao falar isso sacou do cinto o chicote e começou a golpear as costas da megera.
Ela gritou e logo revelou onde escondia as jóias e o dinheiro.
— Tinha que começar assim.
Agora, minha cara Lourença, seja boazinha e beba este copo de vinho.
Com o copo na mão, o Conde se aproximou da Baronesa.
O medo a tornou ainda mais repugnante.
Terrivelmente pálida, manchada de sangue, olhos saltados, as mãos com as quais procurava se defender pareciam garras.
Com um pulo o Conde se pôs ao lado de Lourença, derrubou-a e colocou o joelho sobre o peito dela.
Depois, segurando o copo em uma das mãos, com a outra a agarrou pela nuca e puxou para trás a cabeça.
Ela se debatia furiosamente.
Briand porém a segurava com firmeza e, gole a gole, a obrigou a beber o líquido mortal.
Quando o conteúdo já tinha sido engolido, ele a deixou.
Furiosa e apavorada, Lourença quis se lançar sobre Briand, mas ele sacou seu afiado punhal.
Então ela, espumando pela boca, recuou e começou a rolar na cama.
Briand, contudo, deu um forte golpe e a obrigou a ir para o chão.
De pé, entre ela e a cama, o Conde acendeu a tocha e tranquilamente esperou o veneno agir.
Pouco a pouco o rosto de Lourença foi se alterando e ela passou a se contorcer, gritando como um animal ferido.
Mas ainda não era a agonia...
Quando esse ataque passou, ela se acalmou e permaneceu estendida, imóvel.
A seguir lançou a seu algoz um olhar viperino.
Briand resolveu aproveitar o momento.
Ateou fogo a m monte de trapos e papéis velhos amontoados ao lado da cama.
Ela queria se levantar mas o veneno impedia que movimentasse as pernas e assim, ela, dando um gemido lúgubre, caiu de joelhos.
Briand saiu, andando de costas e ficou no quarto ao lado, observando a expressão de desespero de Lourença, diante do suplício da vingança dupla.
Logo as chamas e a fumaça tomaram todo o quarto.
A desprezível mulher rolava pelo chão como uma possessa, sufocada pela fumaça.
Por fim o fogo chegou a sua roupa e aos seus cabelos que inflamaram.
Agora tudo estava acabado.
Trancando a pesada porta, o Conde abandonou o castelo.
Cinco minutos depois Briand subia para a cela e corria a toda brida para São Germano.
Justiça fora feita e estava livre para sempre.
Nenhuma alma viva sabia do seu segredo!
Alguns dias depois Briand ficou sabendo que Lourença realmente havia morrido e seu cadáver carbonizado tinha sido encontrado entre os escombros.
O fogo havia destruído apenas um telhado do casarão, já que as espessas paredes evitaram que se espalhasse.
O incêndio foi atribuído por todos ao conhecido relaxamento de Lourença.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:06 pm

Finalmente livre de todos os seus inimigos, Saurmont poderia viver feliz, se não o perseguisse e lhe tirasse a tranquilidade a lembrança de Diana. Nem o tempo, nem o ódio que ela sentia por ele acabaram com a paixão incurável.
Nas longas noites de inverno, quando se sentava sozinho diante da lareira, mergulhado na contemplação de suas miniaturas, lamentava-se amargamente por haver ele mesmo expulsado Diana de casa.
Para se distrair visitava os castelos vizinhos, participando de caçadas e tomava parte em jogos...
Assim correu sua vida, por fora brilhante e invejável, mas por dentro vazia e triste.
A Némesis celestial aparentemente não o derrotou como a seus cúmplices, mas ficou junto a sua cabeceira o incomodando em seus deleites, já que ele não conseguia esquecer seus crimes.
Numa escura e chuvosa noite de novembro René de Beauchamp, soturno e pensativo, estava sentado em seu aposento diante da lareira, ora olhando o fogo, ora seguindo preocupado seu filho de quatro anos, que brincava no tapete com o velho cão de caça.
A chama avermelhada iluminava o rosto do Visconde, agora bem mudado e emagrecido.
As olheiras e a palidez doentia haviam tirado sua cor saudável de antes.
Toda sua figura assinalava tédio e cansaço; rugas prematuras surgiam em sua testa.
Os três anos e meio últimos o haviam envelhecido dez anos.
Após seu último encontro com Diana, René, a princípio se trancou em seu castelo.
A reclusão e o arrependimento, contudo, não duraram muito.
Convencido de que tal vida não levava a nada e o acabaria deixando louco, se mudou para Paris.
Lá o Visconde irreflectidamente se atirou loucamente a aventuras amorosas e intrigas políticas.
Nenhuma das duas entretanto lhe dava satisfação.
Sua saúde não suportou tal vida, cheia de excessos e abusos.
Doente, desanimado e cansado de tudo, o Visconde retornou depois de alguns meses para descansar no castelo de Beauchamp.
O encontro com o filho, quase esquecido durante estes anos de aventuras, causou uma estranha reacção na mente de René.
Ele se sentia preso a essa criança desprezada por tanto tempo.
Em algumas semanas amadureceu a decisão de ficar definitivamente no castelo de Beauchamp e de se encarregar da educação de seu herdeiro.
A propósito, o pequeno René justificava todo o amor e o orgulho sentido por seu pai.
Era um menino encantador, esperto e muito inteligente.
Fisicamente se parecia muito com o pai.
De Diana herdara os espessos cabelos dourados que lhe caíam em cachos e o olhar claro e profundo, que em momentos de emoção se tornava penetrante e cruel.
Alguns dias antes, sem motivo aparente o menino adoeceu, deixando o Visconde muito preocupado.
O menino sempre teve a saúde delicada, mas nunca alguém pensou ter ele um acesso tão forte como agora.
Em meio às brincadeiras mais animadas o pequeno subitamente empalidecia e um tremor percorria todo seu corpo.
Ele caía em estado de torpor, desfalecendo, do qual voltava fraco e extenuado.
Se o pai lhe perguntava alguma coisa ele respondia não sentir nenhuma dor e achava que tinha estado dormindo.
Para infelicidade do Visconde, António Gilberto se encontrava, então naquela ocasião, ausente; havia ido visitar um velho parente acamado.
Enviado um mensageiro à sua busca, este não regressou nem mandou notícias.
René, cada vez mais preocupado, acabou por fim chamando o Dr. Lucca, mas o velho médico confessou honestamente não conhecer a doença do pequeno Visconde e em apenas alguns dias o pequeno piorou.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:07 pm

O grave suspiro do menino tirou René de seus pensamentos e o pai logo percebeu estar sozinho para acudi-lo no acesso que se aproximava.
O belo rostinho da criança ficou imensamente branco, seus olhos semicerrados tinham um brilho vítreo, e seu corpinho se debatia em convulsões.
O cão que se encontrava na sala levantou as patas dianteiras, ficou de pelos eriçados e se escondeu num canto de onde começou a uivar e gemer assustado.
O Visconde foi tomado por um vago temor, enquanto um arrepio lhe percorria do ombro aos braços.
Reprimindo esse mal estar René correu a seu filho e o tomou nos braços.
A cabecinha da criança pendeu e ele parou de respirar.
Desesperado, o Visconde levou o filho para cama e empregou tudo o quanto de outras vezes tinha dado bom efeito.
Seu esforço foi válido.
O menino voltou a si, abriu os olhos mas seu olhar era sem vida; permanecia estendido e imóvel.
O pai o colocou em uma cama menor e ele mesmo se sentou a sua cabeceira.
Já em pânico e impaciente, mandou um mensageiro a cavalo buscar o Dr. Lucca; apesar da impotência do médico, admitida pelo próprio, René o esperava angustiado - se não podia curar o menino, que ao menos tentasse aliviá-lo.
Recostado na poltrona, o Visconde seguia temeroso cada movimento do filho.
A sibilante e descontínua respiração era o único ruído a soar na sala.
René se sentia mal; os membros pesavam como chumbo, sentia arrepios e tremores, e uma sensação vaga e indefinida de medo pairava em seu coração.
Aflito por ficar sozinho, ele deixou a ama seca vigiando o menino.
Um estranho ruído acompanhado de pequenos estalos nas paredes e nos móveis chamaram sua atenção; então se levantou e lançou ao derredor um olhar suspeitoso e intranquilo.
Seus olhos se concentraram em um ponto luminoso que pouco a pouco foi aumentando.
Subitamente da escuridão saiu um ofuscante feixe de luz a iluminar urna mulher alta e magra, vestida de branco.
A mulher se aproximou dele. Completamente apavorado, René reconheceu Diana.
Dela partia suave e alva luz que iluminava seu belo rosto, os cabelos dourados e sua roupa.
Ela pairava sobre o chão e logo em seguida uma luminosidade aclarou a caminha do menino.
Passando diante do Visconde sem nem ao menos olhar para ele, Diana, ou sua sombra, deslizou sobre a criança e lhe tomou a mão.
Paralisado, René a tudo assistia em silêncio.
Nunca havia visto mulher tão bela como naquele instante estava Diana.
O olhar dela fixo e cintilante olhando o menino fez seus cabelos ficarem de pé.
E apesar disso ele não pôde deixar de olhar o impressionante espectro.
E agora os dois, um alvo par, ora como um raio, ora como uma tocha, pouco a pouco se erguia do leito.
Depois ocorreu estranha metamorfose:
pontos luminosos se concentraram formando uma nuvem que se distendeu e tomou a forma do menino.
Ele sorridente, radiante mesmo, estendeu a mãozinha e então Diana o pegou nos braços e se voltou.
Por um instante os dois pairaram diante de René e, ao que pareceu, olhando para ele.
E então subiram, se apagaram e sumiram no ar...
O Visconde soltou um grito e, fechando os olhos, se abateu na poltrona.
O ruído de passos, vozes inquietas e a luz o trouxeram de volta.
— Como ”monsieur” se sente? - perguntou Lucca segurando um frasco que mantinha junto ao nariz do Visconde.
— Eu?!... eu me sinto muito bem.
Mas como está o menino? - pediu René, passando a mão sobre a testa fria e húmida.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 8:07 pm

O médico se persignou.
— A inocente alma do pequeno Visconde retornou a sua morada celeste.
Coragem, ”Monsieur”, e se incline perante a vontade do Senhor do Universo! - respondeu em tom baixo o médico, olhando com compaixão o rosto desalentado do jovem.
Não descreveremos o estado de espírito do Visconde, mergulhado em profunda apatia.
Não se ocupou de mais nada após ter terminado os preparativos do sepultamento.
Depois do almoço chegou António Gilberto, indo directamente ao encontro do Visconde; este se reanimou em vê-lo e perguntou de modo irritado:
— Onde se meteu durante tantos dias, apesar de minhas ordens?
O menino morreu em sua ausência!
Talvez seus conhecimentos o tivessem salvado... - disse rispidamente.
— Não me considero culpado, ”Monsieur”, pois acabo de vir de outro leito de morte; ela, que sozinha definhou no convento de Sta. Úrsula tinha mais direitos aos meus cuidados, - respondeu seriamente António.
— Oh! Diana morreu?!
Agora não duvido ela tenha vindo buscar a criança!... - exclamou René muito pálido.
— A Senhora morreu devido a doença cardíaca com a qual muito sofria.
Na verdade eu ouvia que antes de morrer ela frequentemente pronunciava o nome de René... mas quem pode dizer a quem ela se referia?
— É claro que ao filho... - respondeu com amargura o Visconde.
Quando aconteceu que uma mulher, mesmo no seu leito de morte tenha perdoado ao homem que a traiu!?...
Nesse mesmo dia René passou a noite na sala onde se velava o corpo da criança.
Pondo-se de joelhos ao lado dele, o Visconde com olhos húmidos contemplou o rostinho doce e beijou a mãozinha fria.
Um triste sentimento de vazio, de solidão, lhe oprimia o peito.
Como num pesadelo lhe passou pela mente as cenas de sua tumultuada vida.
Que lhe tinha dado a vida?
O que restou? NADA - nem satisfação, nem felicidade.
Ofuscado pelos escândalos, vinhos e jogos, abandonou o lar e desprezou a pura felicidade familiar.
Agora a visão do pequeno caixão lhe dizia na consciência: Você haverá de mudar para a Casa Eterna onde reina a Justiça Inexorável...
O pequeno ataúde foi colocado no jazigo da família, seguindo todo o ritual para a ocasião.
Mas... para o Visconde e António o castelo parecia uma tumba sombria de ambiente difícil de suportar!...
— Vou partir, António.
Não posso mais viver aqui e me esforçarei em achar actividade para esquecer - disse René quebrando o longo silêncio que havia entre os dois.
— Também decidi abandonar o castelo, ”Monsieur”.
— Nesse caso, venha comigo.
Vou ingressar no partido do Duque de Guise.
Se os partidários da Liga vão continuar a falar ao invés de agir, oferecerei meus serviços ao Duque de Parma.
— Não, ”Monsieur”, não o seguirei.
Resolvi ingressar no mosteiro, respondeu o jovem médico em tom sombrio.
Estou farto da vida e das pessoas.
Todos os que eu amava já morreram...
Não estou em condições de servi-los; irei orar por eles.
Ao senhor o mundo e o barulho dos deleites, a mim a paz e o silêncio entre os monges.

§.§.§- O-canto-da-ave
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