Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:45 pm

Nas conversas com o desagradável Mailor, seu tema predilecto era xingar o marido e calcular o ódio que este devia sentir por não receber resposta às suas cartas.
— O querido João endereça seus pedidos às paredes vazias do meu quarto, repetia ela, achando graça.
No que se referia a Briand, pelo visto, ele estava satisfeito com a vida calma que levava.
Não havia feito uma única visita aos vizinhos da propriedade.
Apenas caçava e, de vez em quando, visitava o padre e o promotor mais próximos.
Na realidade, sob essa aparência serena o rapaz continha todo o seu ódio e sua intranquilidade.
Não recebera nenhuma resposta da Espanha.
Ele de bom grado mandaria Henrique a Paris ou ao tio, se esta viagem não exigisse demasiado para as presentes condições em que se encontravam suas reservas.
Também não era só isso que o preocupava. Henrique havia ido secretamente às duas propriedades que Briand possuía em Anjou, uma das quais próxima ao Castelo d'Armi.
Para infelicidade do Conde, ao invés do esperado ouro, o cigano trouxe más notícias:
as propriedades estavam dilapidadas até o último grau pelos agiotas nelas alojados.
Apesar de sua admirável dissimulação, o rapaz, vez que outra, mal conseguia se dominar.
Uma noite, quando o Conde se sentara com Lourença, esta lhe contou que quando ele estava caçando pela manhã, havia chegado um hóspede com uma carta do marido.
Na carta o Barão lhe escrevera coisas ultrajantes e com insistência exigia dinheiro.
Briand quase não a ouvia, absorto que estava em seus próprios problemas.
De repente Lourença lhe tomou a mão e disse:
— Carlos, não confia em mim?
Meu coração diz que você sofre.
Posso até adivinhar o motivo de suas preocupações.
Seus negócios, estão falidos e para um jovem chegar a ser brilhante cavalheiro é preciso muito ouro.
Sei disso e quero propor uma maneira de sair das dificuldades.
— Que maneira é essa? - respondeu ligeiramente surpreendido o Conde.
— Casar.
Briand fez um gesto de desprezo, ao mesmo tempo que um sorriso de sarcasmo era esboçado em seus lábios.
Ele já tivera a oportunidade em Paris de se convencer do terrível ciúme de Lourença, por isso considerou esse conselho uma sugestão de mau gosto e pouco subtil.
Entretanto a Baronesa continuava sem se incomodar:
— Sim, eu quero casá-lo, e casá-lo com a pequena Diana.
A ressonante gargalhada do Conde interrompeu-a.
— A carta do Barão João perturbou sua razão, Lourença.
Casar-me com uma menina de quatro anos!
Isso é cómico.
— Escute-me até o fim, antes de julgar o meu plano.
Nele há muita coisa boa, sem considerar que uma esposa é excepcionalmente cómoda para um marido de vinte anos, observou Lourença calmamente.
Diana tem posses.
A mãe lhe deixou uma grande soma — cem mil "écus" — que está depositada em Anjou.
Só que o seu testamento possui um item tolo que reza que esse dinheiro não pode ser tocado até que a menina se case.
Então esta soma será entregue a seu marido.
Felizmente o testamento não indica quando Diana deve se casar, e nada o impede de se casar com ela e receber os cem mil "écus", cinicamente concluiu Lourença.
Briand nada respondeu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:45 pm

A ideia de comprometer seu futuro não o agradava nem um pouco, mas o estranho poder que a Baronesa exercia sobre ele novamente se fazia sentir.
Sob o olhar agudo das pupilas verdes o pensamento do rapaz se perturbava.
Ele estava inclinado a recusar a proposta de criar para si uma situação que de certa forma o tornasse dependente.
Passando a mão no queixo, respondeu.
— Vou pensar.
Um pouco depois despediu-se da Baronesa e saiu para seu quarto.
Seu aspecto sombrio e preocupado chamou a atenção de Henrique que observou por um bom tempo como o Conde andava nervosamente pelo quarto.
Finalmente perguntou:
— O que há com você, "Monsieur"?
Aconteceu algo desagradável?
Briand estava acostumado a discutir seus problemas com Henrique, o qual considerava um amigo fiel e com quem crescera.
Por isso ele confidenciou sem qualquer vacilação o plano de se casar proposto por Lourença.
Ao serem lembrados os cem mil escudos os olhos do cigano brilharam de cobiça.
— Você concordou, M. Briand?
Rapidamente perguntou ele, esquecendo que o Barão de Mailor se chamava Carlos.
— Não. Não posso me atrever a isso!
Detesto todo e qualquer laço.
Atar meu futuro a essa criancinha é absolutamente ridículo.
Além do mais eu não quero revelar meu verdadeiro nome.
— Bah! pronunciou Henrique com desprezo.
Não vejo a mínima necessidade de fazer isso.
Por que não haveria de se casar sob o nome de Barão de Mailor?
Você possui todos os documentos.
Quando quiser sempre poderá se transformar no Conde de Saurmont.
Cem mil escudos é um belo dote.
Esta soma viria bem a calhar para salvar suas propriedades em Anjou, antes que os malditos agiotas terminem por limpá-las completamente.
Com esse dinheiro ainda poderia evitar que os esplêndidos bosques de São Germano fossem liquidados.
— Isso é verdade.
Mas pense bem, Henrique:
uma esposa de quatro anos e um sogro e uma sogra como o Barão e sua esposa...
Henrique estalou os dedos.
— Não é necessário conseguir tudo de uma vez.
Da Sra. d'Armi e seu marido poderemos nos livrar quando houver ocasião.
A pequena Diana, sem dúvida, substituirá a bela Dona Mercedes, que além de tudo, enciumada, dará cento e sessenta mil de dote.
— Não. Menos de duzentos mil Don Rodrigo não dará por ela.
Mas isso é muito pouco pela sua corcova e sua pretensão - notou Briand, com uma risada, querendo evidentemente refutar os argumentos de Henrique.
A perspectiva de salvar duas propriedades espectaculares e deter a liquidação do bosque que cobria inteiramente a terra de São Germano, terminaram dominando o pensamento de Briand.
Naquele lugar se erguia o castelo herdado, berço do Conde de Saurmont e onde se encontravam os túmulos de seus ancestrais.
Salvar o antigo berço da família da destruição total era para ele um dever.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:45 pm

Por isso, na manhã seguinte, ele comunicou à Lourença que depois de ter reflectido bem em tudo, concordava em se casar com Diana.
A Baronesa, naturalmente, ficou muito feliz.
— Eu sinto que o próprio Deus me inspirou este plano para sua felicidade, Carlos, e para a felicidade da minha cara Diana, gritou ela.
Hoje mesmo escreverei a João e pedirei o seu consentimento.
Estou certa de que ele também ficará feliz.
Só que eu penso, caro Barão, que, tendo em vista a terrível falência dos negócios do pobre João, você deverá dar-lhe uma parte do dote.
Tal providência ajudará sua empreitada e, além do mais, você não pode deixar que o pai de sua esposa fique na miséria.
Briand franziu as sobrancelhas; a negociata tomara um novo aspecto.
Depois de entregar a parte do pai, sem dúvida, a próxima a ser recompensada seria a madrasta.
Naquele momento seu primeiro impulso era desistir da ideia, mas o desejo de se livrar da corja de agiotas o dominara a tal ponto que, a contragosto, ele disse que estava preparado para pagar pelo consentimento do Barão.
Nessa mesma noite Lourença escreveu ao seu marido uma carta de várias páginas.
A Baronesa descreveu minuciosamente a ruína em que se encontravam e a utilidade que teria o casamento proposto, já que liberaria um capital morto.
Diana, é claro, ficaria muito feliz em se casar com um homem bondoso e desinteressado, que renunciaria a uma boa parte do dote para ajudar o seu futuro sogro a sair das dificuldades.
Enquanto esperava a resposta de João d'Armi, Briand resolveu, ainda que fosse um pouco, conquistar a simpatia de sua futura esposa, cuja opinião sobre tão importante negócio não fora pedida.
A menina continuava hostilizando-o, esquivando-se, e raramente conversava com ele.
A ideia de que na igreja, na frente do padre, poderia se repetir uma cena tão ridícula quanto aquela do primeiro encontro não agradava muito ao Barão.
Assim, decidiu começar com uma conversa tranquila.
Briand comunicou sua intenção a Lourença e lhe pediu que o ajudasse.
— Não há nada mais fácil - respondeu ela rindo.
Preciso ventilar o baú no qual se encontram as coisas da falecida Ana d'Armi.
Segundo João lá estão guardados tecidos caros, broches e peles valiosas.
As traças podem estragar essas coisas e meu dever é guardar a herança para a filha.
Convidarei Diana para ver o baú, se isso lhe interessar, o que é bem provável; você poderá chegar a cortejá-la.
Isto, inclusive, lhe dará uma noção de quanto custarão dentro de vinte anos a toalete e os gastos da senhora Mailor - concluiu ela rindo.
Ao quarto de Lourença foram trazidos os grandes baús com a herança de Diana.
A pilhagem ia ter início.
Na opinião da Baronesa tudo aquilo que se pudesse estragar e se amassar devido ao longo tempo dentro dos baús, deveria ser posto de lado para que ela mesma os arejasse com mais frequência.
Na verdade ela queria os objectos para uso próprio.
Afinal o que uma menina faria com tantas coisas assim?
Diana, demonstrando tanto interesse pelas roupas, permaneceu no quarto da Baronesa.
Tocava os panos e os bordados, provava os cachecóis e a cada vestido retirado perguntava:
— Esse aí é para quem?
— Para você, minha querida - Lourença respondia com ternura.
A cada resposta os olhos da criança irradiavam alegria.
A interessante ocupação ainda continuou por muito tempo.
Em determinado momento Briand chegou ao quarto de Lourença.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:45 pm

Ele se esforçaria em conversar com Diana, sem esquecer contudo de trazer consigo doces e brinquedos.
Tal esforço não foi em vão.
No princípio os presentes eram recebidos com um silêncio de desprezo, mas depois com um meio sorriso.
Ao final o Conde conseguiu até pô-la no colo.
É verdade que a testa da menina estava franzida e o olhar era de desconfiança.
Entretanto esses maus sintomas logo se dissiparam quando Briand contou uma história de fadas e outra de bandidos as quais prenderam a atenção da criança.
— Apesar de ser chato, você até que é um bom contador de histórias - disse Diana com toda franqueza.
Como o Conde não se mostrava antipático, este entretenimento sincero aumentava dia a dia.
O pequeno René, como antes, visitava Diana e sem o mínimo ciúme dividia com ela os doces que o seu rival trazia.
O garoto não tinha tempo de ter ciúme, tão preocupado estava.
Ele contou à sua amiga que havia ocorrido um escândalo em sua família.
A noiva do sobrinho do velho Visconde cancelou o noivado depois que a família dela achou um noivo mais rico para a moça.
O rapaz ficou em terrível desespero.
Ele amaldiçoou a traidora e desafiou para um duelo o seu rival.
Visto que o Visconde não permitia ao sobrinho travar o duelo esse começou a rasgar a própria roupa e ameaçou se afogar.
Este problema na família causou forte impressão em René.
Ele não parava de repetir à Diana, palpitante de interesse, todas as palavras do primo, e, ainda representava o desespero e os gestos agitados dele.
Diana se entretinha assim com René, quando chegou a resposta do Barão João d'Armi.
Como previra Lourença, o "maravilhoso" pai consentiu em dar a mão da filha a um desconhecido.
Ele agradeceu à esposa pela ideia original; mandou um abraço ao seu futuro genro e lhe suplicou que adicionasse mil escudos da soma a si próprio.
No final da carta acrescentou:
"Minha cara Lourença - eu bem a conheço e posso confiar completamente na sua escolha.
Mailor deve ser excelente pessoa.
Desse modo apresse o casamento, e assim que receber o dinheiro envie-o para mim por mensageiro.
Ordene ao enviado que não poupe cavalos.
Só se ele empregar dois ou três chegará rápido.
Eu não tenho dinheiro algum e ainda estou devendo muito”.
Nessa mesma remessa foram anexados documentos oficiais destinados ao Promotor em Anjou e ao Sacerdote.
Contentíssima, Lourença se dirigiu naquele mesmo instante a Anjou para executar todas as formalidades indispensáveis.
Da cidade ela trouxe uma fazenda branca, bordada de prata, e uma grande caixa de bombons que, sem dúvida, deveriam deslumbrar Diana, já que nela havia várias figuras de animais, igrejas, um urso, além de dois anjos de bala e de um pão doce.
Tudo estava preparado, só faltava Briand formalizar o pedido.
Lourença abriu na frente do espelho a fazenda bordada, depois de já ter colocado na mesa ao lado a enorme caixa de bombons.
Em seguida chamou Diana.
Ao ver o tecido a menina se lançou ao espelho e contemplando com curiosidade fez sua habitual pergunta:
— Para quem é isso?
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 12, 2016 7:46 pm

— Para você, minha cara, - respondeu Lourença beijando-a.
É para o vestido do seu casamento.
Uma mulher é sempre uma mulher.
— Meu casamento?
Com quem? - perguntou a menina enquanto continuava a admirar o tecido.
— Com nosso amigo, o bom e amável Barão de Mailor.
A menina fez uma cara feia e franziu a testa.
Não dando tempo para que o mal-estar aumentasse Briand pegou a caixa de bombons e oferecendo-a aberta, disse com um sorriso:
— Se você se casar comigo, Diana, eu sempre lhe darei bombons deliciosos como estes e contarei histórias interessantes.
Será que isso é mau?
Diana olhou a caixa de guloseimas e sua face se aclarou.
Nada respondeu, mas assim que pegou a caixa, que mal conseguia segurar, saiu correndo do quarto.
O Conde e a Baronesa soltaram uma ressonante gargalhada.
— O silêncio é sinal de concordância.
Agora ninguém o impede, Carlos, de ordenar a preparação do seu traje de casamento, disse Lourença, enquanto enxugava do seu rosto carnudo as lágrimas da risada.
Curvando-se sobre a tentadora e pesada caixa, Diana chegou ao seu quarto, sentou-se no chão e espalhou à sua volta o tão valioso tesouro adquirido.
A menina estava completamente absorvida nessa tarefa quando entrou René.
Também ele ficou cativado pelos bombons.
Sentado ao lado de sua amiga ele examinou tudo.
Repartiu com ela o cachorro e o servo, e, após isso, ajudou-a a colocar o restante na caixa.
Quando acabou de comer os pãezinhos, perguntou:
— Você ainda não me disse quem teve a ideia de lhe dar essa caixa.
— Ela me foi dada pelo Barão de Mailor, por eu ter me tornado sua noiva.
Além desse presente, minha madrasta também me fará um vestido de noiva, com uma fazenda bordada em prata - respondeu Diana chupando uma pera confeitada.
Para grande assombro dela, René deu um salto e, vermelho de ódio, tomou-lhe a pêra, atirando a fruta ao canto.
— Você quer ser mulher de Mailor?
Ousa se vender somente por uma infeliz caixa de bombons?
Ele bateu a caixa nas pernas com tanta força que os bombons se espalharam para todos os lados.
- Acaso você se esqueceu, sua traidora, de que prometeu se casar comigo?
E então René rasgou sua gola, lançou-se à mesa e começou a arrancar seus próprios cabelos, numa cena exactamente igual a que fizera seu primo Gastão, no momento de desespero.
A princípio a assustada Diana olhava para seu amigo sem entender o motivo da raiva, depois se lembrou da história que ele havia contado.
Da mesma forma que aquela noiva hipócrita ela não cumprira sua palavra. Um remorso amargo tomou conta de seu coração.
Ela tinha medo de servir de motivo para a ruína do noivo enganado.
— René, não se enforque! - gritou ela, que chorando, correu para ele.
Acalme-se!
Eu serei sua esposa, dou-lhe minha palavra de honra.
Devolverei a caixa ao Barão!
Estas palavras acalmaram um pouco René, que parou de gritar e esbracejar.
Depois tomou Diana pela mão, pegou a caixa de bombons e a levou ao quarto de Mailor.
Briand mal acabara de voltar ao seu quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:57 pm

Estava sentado junto à janela, absorto em pensamentos, quando de repente se ouviu uma forte batida à porta e René gritando:
— Abra, senhor Mailor!
Nós precisamos conversar sobre um assunto importante.
O rapaz surpreso, levantou e abriu a porta.
O assombro dele aumentou ainda mais quando viu René com o rosto vermelho de raiva e a gola rasgada.
O menino segurava Diana, que chorava, por uma mão, enquanto que na outra carregava a famosa caixa de bombons.
— Nós viemos devolver os seus bombons - disse orgulhoso o pequeno Visconde.
Diana levianamente aceitou seu presente de noivado, esquecendo totalmente de que me havia prometido sua mão.
Ela não pode se casar com você.
Se não renunciar à sua pretensão, serei obrigado a levá-la à minha casa.
Meu avô está a par de tudo e concorda com nosso casamento.
Ele saberá defender minha noiva.
René obrigou Diana a colocar o presente na porta e a levou, saindo ainda mais furioso pela insensata risada de Briand, encerrando a cena tragicómica.
Voltando ao seu quarto, as crianças continuaram discutindo.
Os gritos e berros foram crescendo e crescendo a tal ponto que o velho Silvestre foi abrigado a levar René para pôr fim à tumultuada cena.
Na manhã imediata, o avô de René veio visitar Lourença, para saber o que acontecera, já que ele pouco havia entendido da narrativa de seu neto que havia regressado doente e terrivelmente agitado.
Lourença lhe explicou que iria casar Diana.
Ao ouvir o nome do noivo, o velho Visconde se surpreendeu e delicadamente observou que, se isso iria ocorrer só para garantir um futuro decente à menina, uma vez que o Barão d'Armi era conhecido de todos, seria mais fácil encontrar um companheiro que fosse de idade aproximada à dela.
A Baronesa, respondendo com frieza, disse que tudo estava sendo feito de acordo com o consentimento da família.
Assim o Sr. de Beauchamp se desculpou e partiu dizendo que não deixaria mais seu neto vir ao castelo.
Daquele dia à data do casamento, Briand esteve ocupado em confortar e divertir sua futura mulher que, de olhar triste e desencantado, raramente se alegrava.
Graças a tal atenção do noivo e sobretudo às histórias, lendas e guloseimas, Diana se animou, e no dia do casamento toda sua alegria infantil estava de volta.
No grande dia, Lourença, desde a manhãzinha trouxera Diana para junto de si, a entretendo, a vestia como uma boneca, ao mesmo tempo que a empanturrava de doces.
Terminado o trabalho, a menina se encontrava encantadora, sem considerar, é claro, o aspecto cómico do seu traje e a coroa de pedras preciosas que adornava seus exuberantes cachos de ouro.
Não havia convidados.
Lourença não era amiga das mulheres da vizinhança, já que estas a evitavam; por isso ela se contentava em ter na cerimónia as pessoas indispensáveis:
as testemunhas, o Sacerdote e o Promotor.
Quando a Baronesa entrou na sala, onde todos estavam reunidos, levando pela mão Diana, uma sensação horrível se apossou de Briand.
Com o coração pesaroso ele tomou a menina pela mão e a conduziu ao altar.
O rostinho sério de Diana durante a cerimónia aumentou ainda mais a sensação de perturbação e melancolia do Conde.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:57 pm

Uma voz interior murmurava que ele estava agindo como um canalha, que era um duplo ladrão:
ao roubar uma consciência inocente tomando-lhe o dinheiro, e a se negar até mesmo a lhe dar seu verdadeiro nome.
Seu olhar estava cravado na menina que se colocara de joelhos a seu lado.
Os olhos grandes e claros da criança dirigiam-se ao Padre, ao mesmo tempo que os seus lábios sussurravam com precisão a única oração que ela conhecia:
"Pai nosso que estais nos Céus..."
Quando Briand colocou o anel em Diana, várias lágrimas rolaram pelo rosto da menina.
Os presentes começaram a recear que a noiva fugisse, porém acabou por se manter séria e calma até o final, permitindo que o marido a beijasse.
Com um estranho ar de dignidade e distinção, recebeu os cumprimentos dos convidados.
Depois do almoço, Diana que havia adormecido, foi levada ao quarto, enquanto Lourença se distraía com os convidados na sala de jogos.
Briand, como sempre, seduzido pelo jogo, perdeu uma grande soma para o Promotor.
Quando o rapaz voltava pelo corredor, percebeu a porta do quarto de Diana aberta.
Influenciado pela intranquilidade moral que o perturbava o dia inteiro, o Conde se deteve e entrou no quarto que estava iluminado por uma lâmpada de cabeceira e duas velas de cera.
As velas estavam sobre a mesa em meio dos restos do banquete.
Ao lado, ainda vestida, Justina dormia profundamente.
Aproximando-se do leito, Briand se inclinou e fitou a adormecida e tranquila Diana.
— Com o tempo ela será muito bonita - murmurou.
Esboçando um sorriso meio malicioso, meio amargo, ele continuou:
e eu nessa época já serei um homem bem de idade, e quem sabe se então René de Beauchamp não será um forte opositor?
Nos dias seguintes Briand andou muito ocupado.
Recebera o recado de Lourença lembrando que antes de mais nada ele deveria pagar ao doce paizinho de sua esposa.
Contudo, graças à sua insistência cansativa, Lourença conseguiu arrancar-lhe mais do triplo do que ele inicialmente calculava dar a ela.
Feito isso, o Conde, por intermédio de Henrique, tratou de liquidar as dívidas que pendiam sobre suas propriedades.
Sob o pretexto de estar caçando, ele visitou às escondidas o Castelo de São Germano.
Ficou tão contente que resolveu usar seu nome verdadeiro e se estabelecer na França.
Para isso esperava apenas o final das conversações com um dos agiotas.
Se este último fosse menos complacente, não estaria negociando directamente com o Conde de Saurmont.
Enquanto seu esposo corria atrás dos negócios, a pequena Baronesa de Mailor se reconciliava com seu amigo René.
Cedendo à própria Diana, Briand escreveu ao velho Conde, pedindo-lhe que, se a raiva de seu neto houvesse passado, permitisse que ele viesse ao Castelo d'Armi.
René que estava muito aborrecido sem Diana, comunicou com dignidade que se resignara ante o facto consumado.
Apesar da decisão tão sensata, o pretendente preterido mostrou uma indisfarçável aversão pelo seu feliz rival.
Quando ficou a sós com Diana lhe perguntou:
— E então, Diana?
Você não é muito feliz ao lado do seu marido velho?
— E por acaso Carlos é velho? - replicou surpresa a menina.
— Quando você for adulta ele será um verdadeiro Matusalém, se é que ele ainda viva tantos anos.
Eu espero que ele morra antes de nós dois nos tornarmos adultos.
Então nos casaremos, salvo o caso de você me trair novamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:58 pm

— Não, não. Desta vez seja mais justo.
Se Carlos morrer de velhice eu serei sua esposa.
Entretanto não posso dizer que sou infeliz.
Ele brinca comigo e à noite me conta histórias.
Até construiu um balanço no meu quarto.
Tudo isso é muito divertido.
Só uma coisa não me agrada:
ele me dá menos bombons agora que antes do nosso casamento.
— Miserável! - René resmungou com desprezo.
Passaram-se alguns meses.
O outono começou.
Como a chuva era constante e as conversações com alguns agiotas se alongavam, Briand, com frequência, ficava em casa e de mau humor.
Não recebera uma única notícia do tio, o que, aliás, pouco o inquietava.
Lourença o importunava com seu amor e suas pretensões.
Chegava a lhe dar asco, e, enquanto não concretizava seu desejo de se livrar dela, ele a aturava.
Seu estranho casamento também o oprimia.
Não obstante, a excepcional beleza e a inteligência invulgar para uma menina daquela idade, aliviavam a condição do rapaz.
A criança se acostumara com ele, e Briand, por sua vez, sempre a levava para brincar em seu quarto, preferindo a tagarelice da sua pequenina esposa à companhia de Lourença.
Uma noite, no fim de maio, Briand estava no quarto com Diana sentada nos seus joelhos.
Ela contava suas conversas com René quando Henrique entrou no aposento carregando um pacote nas mãos.
— O correio trouxe de Paris, Sr. Barão - disse ele, entregando o pesado pacote ao seu patrão.
O nosso antigo amigo albergueiro o enviou, só que os maus caminhos atrasaram a entrega.
O rapaz abriu rapidamente o envelope, tirando de dentro uma folha de pergaminho e uma carta escrita por Rodrigo Guevara.
Ele olhou o pergaminho só por cima.
O papel era um cheque para o recebimento de uma grande soma de um banqueiro judeu em Paris.
À medida que foi lendo a carta seu rosto foi se tornando extremamente pálido.
Arrebatado por uma súbita fraqueza ele caiu em cima da mesa.
— O que há com você, Carlos?
Está morrendo? - perguntou Diana assustada.
Briand se endireitou como se houvesse sido electrizado pela voz da menina.
Seus olhos brilhavam de ódio.
Empurrou a criança com tanta força que ela caiu no chão.
A seguir gritou alto:
— Leve-a, que está me dando nos nervos!
Machucada pela queda, e assustada com tal tratamento, Diana começou o berreiro.
Henrique, sem fazer uma única observação, levantou a menina e a conduziu para Justina.
Quando ele voltou, o Conde, nervoso como um tigre numa jaula, andava pelo quarto.
Seu rosto desfigurado reflectia desespero e terror.
— Provavelmente as notícias que você recebeu são muito importantes...
Por que está assim tão emocionado? - perguntou o cigano de forma amistosa e familiar, permitindo-se esta relação com seu antigo companheiro de jogos.
Briand parou e apertando a mão de Henrique gritou totalmente fora de si:
— Se são importantes as notícias?
Meu tio escreve que Pedro morreu em consequência de uma queda de cavalo.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:58 pm

Ele me está chamando e deseja me casar com Mercedes e me fazer seu herdeiro, compreende?
Basta apenas estender a mão para me apoderar da fortuna de Guevara e dar adeus a algumas infelicidades...
Ficar para sempre ligado a esta maldita criança... maldição!
O Conde segurou as duas mãos atrás da cabeça.
Henrique também empalideceu.
— Que infelicidade! - ele murmurou.
Dentro de um minuto ele se endireitou e moveu-se até às mãos do Conde.
— Não se desespere, Sr. Briand.
Quando o assunto é herança qualquer sentimentalismo seria loucura.
O senhor precisa se livrar da pequena esposa que, sem propósito, está ligada ao senhor.
Livre-se dela, depois nós iremos embora, nos despedimos para sempre do castelo d'Armi e de sua formosa Lourença.
Além disso não se esqueça de que o Conde de Saurmont nunca esteve casado.
Provar sua identidade como o Barão é muito difícil, assim como aqui ninguém sabe seu nome verdadeiro.
Seria sensato não dizer nada sobre isso a Don Rodrigo.
O Conde ouvia e com dificuldade recobrava o fôlego.
— Você está com a razão, Henrique.
Qual seria o preço para isso?
Eu devo ser livre.
Mas de que modo me livrar desses laços fatais e o mais rápido possível?
Meu tio escreve que está debilitado física e moralmente, devido ao último acidente... ele impacientemente espera a minha chegada para me entregar a administração de suas propriedades!...
— Deixe-me pensar até amanhã.
A noite é boa conselheira e tal plano deve ser amadurecido, disse Henrique.
Briand passou uma noite infernal.
A possibilidade de possuir a imensa fortuna que tanto desejava provocou um verdadeiro furacão em sua alma.
Em sua imaginação surgiram terras, o castelo de Guevara e o modo de vida principesco desses poderosos senhores.
A ideia de se tornar proprietário desses tesouros lhe provocou orgulho, cobiça, ambição, abafando definitivamente os fracos protestos da consciência.
Quando o sol surgiu, Briand já era na alma um criminoso.
Sua alma se tornara insensível por causa de apenas uma perspectiva de posse desse ouro!
Sem a mínima hesitação ele entrou no caminho perigoso da maldade, colocando em movimento então a trágica roda que uma vez atingindo alguém, nunca libertaria, mas o empurraria de um crime a outro, enquanto não o esmagasse completamente.
De manhã, quando Henrique chegou, ele encontrou seu senhor calmo, frio e decidido; contudo o Conde se calara e apenas dirigiu um olhar interrogativo.
O outro acenou com a cabeça e sussurrou:
— Eu encontrei e até já tomei as providências; com toda a probabilidade, hoje à noite você estará viúvo.
Você conhece a pequena ponte abandonada numa ilhota no meio da represa; a ponte está muito velha e apodreceu toda.
Ontem à noite eu separei um pouco as madeiras e tirei alguns pregos; agora, quando alguém apenas pisar nela, cairá imediatamente.
Por essa ponte ninguém passa, excepto Diana e o pequeno Beauchamp, pois eles adoram passear na ilhota.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:58 pm

Não será uma grande desgraça se eles se afogarem; a sua liberdade vale isso.
De qualquer maneira não haverá gente para salvá-los, pois essa parte do jardim está sempre vazia.
Briand ficou pálido e um tremor nervoso percorreu seu corpo.
O inevitável assassinato da pequena criatura, para a qual ele jurou amor e protecção, em um primeiro instante provocou-lhe um indescritível pavor, mas ele com a vontade reforçada, reprimiu essa fraqueza.
Em sua imaginação surgiu o altivo castelo de Guevara com suas torres recortadas e essa visão era suficiente para abafar a voz da consciência.
— Bem, Henrique, obrigado, disse ele em tom baixo.
Você pode ter em sua conta a minha gratidão.
Agora sele para mim o cavalo; quero me refrescar.
Agitado com o sossego perdido, o Conde saltou na sela e saiu na carreira.
Ele passou por Angers, tomou a primeira refeição da manhã na casa do promotor com o qual tinha boas relações e se permitiu jogar cartas.
Já era noite quando ele parou, finalmente, diante do recortado castelo d'Armi.
O camareiro lhe abriu os portões.
O rosto aflito do velho e sua voz agitada denunciavam algo de anormal.
Ele exclamou:
— Ah... Sr. Barão, que desgraça nós evitamos na sua ausência!
O Conde estremeceu. Por um instante seu coração parou de bater e o sangue lhe subiu à cabeça.
— Evitaram? Se a desgraça foi evitada, então para que me assustar com os seus estúpidos gritos? - ele gritou de modo severo.
O Conde passou rápido em frente ao assombrado criado, desejando esconder dele a expressão de seu rosto, mas, dando alguns passos ele parou, percebendo que era preciso então perguntar o que havia acontecido.
Voltando a cabeça, ele, de uma forma gentil, perguntou:
— O que aconteceu, meu bom Marcelo?
Você de tal maneira me assustou que eu até esqueci de perguntar sobre isso.
— Desculpe-me se o assustei, senhor Barão, desculpou-se o velho.
A menina Diana, por pouco, não se afogou na represa; para felicidade o afilhado de Justina, Juliano, chegou hoje e acompanhava a criança.
Ele tirou Diana da água.
Mas nós ainda estamos abalados com esse acontecimento!
Eu no mesmo instante destruí a maldita ponte para que tal acontecimento não possa se repetir.
— Agradeço, Marcelo, por esta sensata precaução.
Hoje mesmo ordenarei a Justina que não deixe a criança sozinha sem qualquer cuidado.
Eu estremeço diante da ideia do que poderia ter acontecido.
Habilmente escondendo um sentimento misto de decepção e alívio, Briand entrou no castelo e se dirigiu ao quarto de Diana.
Entretanto apossou-se dele forte desgosto e murmurou:
— O próprio destino está contra mim!
Diana, abalada, com os cabelos molhados, estava sentada na poltrona, diante do fogo vivo que ardia na lareira, enrolada em um xale de lã.
Justina sentada diante da lareira aquecia o vinho e repreendia sua pequena senhora.
Diana, abatida com a sensação de sua culpa, calada baixou a cabecinha.
Justina exclamou gesticulando com vigor, vendo Briand:
— Ah, Sr. Barão!
Hoje o senhor por pouco não ficou viúvo!
E tudo por causa da teimosia da Sra. Baronesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:58 pm

Eu disse umas cem vezes que essa maldita ponte cairia...
Eu avisava, proibia, mas nada... bastava me virar e a Sra. Diana já corria para a ilhota!
Trocando algumas palavras com Justina e expressando sua alegria pelo acontecimento de final feliz dessa aventura, Briand aproximou a cadeira para junto da criança e a abraçou.
Ele sentia como ela estava tremendo de febre; mas a menina estava zangada com ele pela desavença do dia anterior.
Ela tirou seu braço e fechou os olhos.
O Conde não prestou atenção nesse gesto impetuoso; brincava e se esforçava com atitude carinhosa a animar sua pequena esposa.
A chegada repentina da criada de Lourença os interrompeu.
— A Baronesa pede que o senhor vá imediatamente conversar com ela, Sr. Mailor.
Ela está indisposta e não dormiu a noite toda.
Despedindo-se de Diana, Briand seguiu a criada que o conduziu ao aposento da senhora d'Armi.
Ela estava deitada na cama, de olhos fechados e com compressas na cabeça.
Segurou fracamente a mão do Conde.
Parecia tão debilitada que o Conde teve de se inclinar e direcção aos seus lábios que murmuravam com uma voz apagada.
— Estou morrendo, meu amigo!
— O que está acontecendo com você, querida Lourença?
Ontem me pareceu que você estava completamente saudável - disse Briand olhando com desconfiança para a doente.
— A doença pela qual estou morrendo inesperadamente se apossou de mim, mas isso era previsto.
João tanto me traiu e me atormentou que minha saúde se abalou diante de tal sofrimento.
Mas o assunto não é esse.
Você sabe que sempre penso em mim mesma em último lugar.
Estou inquieta pelo destino de minha pequena Diana; jurei educá-la como minha própria filha e me atormenta a ideia de que quando eu morra, ela perecerá.
Jure-me amar fielmente a menina e nunca se separar dela.
Certamente nada mudará dos meus profundos conhecimentos em assuntos de educação, mas, no extremo das medidas, você, Carlos, proteja-a de qualquer perigo.
João é bom mas ele adora gozar a vida na libertinagem.
Ele está pronto a arruinar uma mulher, mesmo sendo ela sua própria filha.
Briand ouvia com crescente espanto.
O que significaria essa conversa e essa fingida doença?
No mesmo instante ele percebeu o olhar mordaz e malicioso de Lourença, que parecia espreitar suas ideias reflectidas em seu rosto.
O Conde se perturbou.
— Afugente tais pensamentos sombrios, querida!
Eu creio que você se restabelecerá.
— Infelizmente!
Para que eu me restabelecerei?
Gemeu a Sra. d'Armi; não sou necessária na terra, e até você, Carlos, não está me compreendendo e tem segredos de intriga por trás das minhas costas; "eu sou seu melhor amigo, em quem você poderia confiar tudo, o amigo que, não olhando para minhas ténues forças, está pronto a ajudá-lo em tudo."
Um mórbido sentimento dominou Briand.
Pela cabeça lhe passou um pensamento de que Lourença sabia de algo e ele notava o tom descontente.
— Com você, querida Lourença, eu não tenho segredo algum e lamento que seu estado doentio lhe incutiu essas estranhas ideias.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:58 pm

A Baronesa nada respondeu; fechou os olhos e ficou pensativa.
O Conde a observando, notou uma vaga expressão maldosa e debochada em seus lábios.
De repente ela abriu os olhos e dirigindo a Briand um curioso olhar, inesperadamente perguntou:
— Você sabe que hoje, por pouco Diana não se afogou?
Estranho acontecimento!
A ponte ainda estava bastante resistente... se ela não estava estragada, pode-se concluir que a estragaram de propósito.
Mas a quem a criancinha estaria incomodando?
O que você acha?
Embora possuindo a capacidade de se controlar, o Conde empalideceu, suportando seu curioso e resistente olhar e perturbando-se.
"Beba vinho, Carlos.
Eu vejo que a possibilidade inesperada de se tornar viúvo ainda o agita.
Mas por que hoje você está tão calado?
Você teve algum pesadelo?
Teve um sonho alegre, excelente?
Por exemplo — seu primo morreu na Espanha e você se tornou o herdeiro!
Briand se levantou bruscamente, sendo atingido pelo sarcasmo; por um instante a raiva e o pavor lhe tiraram a capacidade de falar.
Instintivamente sua mão procurou o cabo do punhal.
Uma vontade indescritível de acabar com seu desprezível segredo.
Com um penetrante e sarcástico olhar, Lourença observava todas as emoções reflectidas muito claramente no rosto pálido e desfigurado de seu amante; sem considerar o perigo a que estava exposta, evidentemente, ela não se mostrava nem um pouco assustada.
Com voz abafada ela disse, destacando cada palavra:
— Acalme-se, querido Conde de Saurmont; deixe em paz o seu punhal!
Esse é um perigoso brinquedo nos homens irritadiços.
Minha morte não o tornará viúvo, mas para livrar o Sr. Mailor não se pode todos os dias destruir pontes.
Com um suspiro rouco Briand se desarmou.
Ele se deixou cair na cadeira e fechou os olhos com as mãos.
Parecia-lhe estar perdendo a respiração por causa da ideia de se encontrar sob o domínio dessa víbora, que o segurava com sua dura e traiçoeira mão e certamente sabia tirar proveito, com muita astúcia, da situação criada.
Sua raiva e desespero eram tão grandes e o futuro parecia de tal forma destruído, que por um instante ele teve gana de cravar o punhal em si mesmo.
Nesse momento uma mão macia o tocou:
— Carlos ingrato!
Você não conhece "seu melhor amigo e leal conselheiro" - disse Lourença com uma voz carinhosa e meiga.
É possível que você esteja pensando que estou louca, que não compreendo que deve enviuvar e que a tal herança, como seja a de seu tio, não pode ser tirada de suas mãos?...
Para mim é muito difícil aceitar sua desconfiança; por enquanto você está me enganando e eu estava pensando à noite toda de que forma melhor poderia pôr em ordem este importante assunto.
Eu o amo tão profunda e desinteressadamente que o cedo à sua prima.
Quero este casamento para que possa aproveitar todas as alegrias da vida.
Na voz da Baronesa ressoava uma expressão intraduzível.
"Meu coração amoroso segue você, vou viver simplesmente perto de você, em algum pavilhão misterioso que você construiu para seu leal amigo Barão Mailor, transformado em Conde de Saurmont".
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:59 pm

Lourença parou de falar, mas vendo que o Conde não lhe respondia, continuou:
— Bem, volte a si e ouça atentamente o plano criado por mim para sua libertação.
O assunto é sério e o tempo urge.
O Conde endireitou-se e enxugou o suor que escorria pela testa; estava pálido como um cadáver, mas seu rosto já apresentava sua rotineira expressão gélida.
Briand decidiu que em certos momentos era preciso se submeter e não desprezar o perigo.
Mas se ela se tornasse muito desagradável ele, no momento exacto, sem piedade, a liquidaria.
— Antes de tudo, começou calmamente Lourença, é preciso forçar Justina a adoecer.
Isso levará alguns dias.
Hoje mesmo você informa que a carta recebida ontem o obrigou a partir rapidamente a Paris devido a um assunto urgente; e lá você, de passagem, se avistará com os parentes.
Você acrescenta que vai levar junto a esposa para apresentá-la a sua família.
Assim como a doença de Justina vai se estender por algum tempo, você resolverá ir sozinho, sem a ama-seca e me pedirá para me juntar a vocês o quanto mais rápido possível.
E assim você partirá, mas como está com pressa e perdeu muito tempo esperando Justina, você escolheu um caminho pela floresta densa, o poupando de grande volta.
Henrique e Roberto, que tão estranhamente se parece com você, o escoltarão.
— Tudo está muito bem!
Apenas eu não compreendo para que me servirá toda essa comédia? - perguntou o Conde impaciente.
— Você agora verá.
No caminho daqui até a primeira parada você deve largar a criança na floresta.
Assim, como Roberto se oporá a isso, você e Henrique o matarão e desfigurarão seu rosto.
Em seguida é necessário vesti-lo com suas roupas, pôr nele os seus anéis e no bolso a certidão de casamento e os seus documentos do Barão Mailor.
De modo que tudo estará acabado.
O bom Barão morto pelos ladrões desaparece para sempre, a morte de Roberto não piorará sua consciência, assim você o matará para que não atrapalhe seu plano, e Diana, se por acaso a acharem, não saberá de nada. Até o assassinato você deverá levá-la para o fundo da mata.
E ela, sem dúvida, ficará logo doente de medo.
Vamos convencer a todos de que facínoras o mataram e o jogaram no bosque.
Durante o tempo dessa conversa Lourença não tirou os olhos do jovem.
Havia um estranho encanto no Conde que a seduzia.
Briand se acalmou.
Eles, de comum acordo, continuaram a discutir detalhes desse abominável crime.
Briand, calmo e contente voltou para seu quarto, onde Henrique o esperava, furioso e preocupado com o fracasso do seu atentado.
Mas quando o Conde desenvolveu diante dele o plano criado por Lourença, o cigano observou com um riso seco:
— É preciso reconhecer que a senhora d'Armi é uma mulher muito inteligente.
Admitamos que em seu projecto existam algumas falhas, mas eu me esforçarei em completá-las.
Alguns dias de atraso me serão muito úteis para esse objectivo.
Os dias seguintes foram para Briand uma constante troca de emoções: terror, remorso e impaciência febril.
Justina começou a sofrer forte dor de cabeça e se enfraqueceu por completo.
A própria Baronesa abnegadamente cuidou dela, deixando-a apenas para cuidar da arrumação das coisas.
Diana, sozinha, admirada com a perspectiva da viagem ficou contente e despreocupada.
Quanto a Henrique, com o pretexto de fazer compras, foi para Angers; à noite do terceiro dia ele voltou e informou Briand que arrumara o importante assunto.
— Como o meu corpo não existirá, então é indispensável que achem pelo menos o cadáver de Roberto - disse ele zombando.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:59 pm

Em Angers encontrei uma pessoa magra e morena como Roberto.
Sob um razoável pretexto eu o levei à floresta e lá o matei.
O corpo dele escondi nos arbustos, perto da plataforma "Cruz Negra".
Esse lugar, eu acho, é o melhor de todos para acabar com Roberto.
Na manhã seguinte Briand anunciou que não poderia esperar mais e que deveria partir ao meio-dia.
Por isso se apressaram nos últimos preparativos para a partida e na hora combinada, junto à entrada principal, os dois cavalos já estavam atrelados à liteira.
Diana vestindo um traje caro, corria em volta do castelo, despedindo-se dos brinquedos, do jardim, do velho cachorro de caça do Barão e principalmente de Lanceio; a despedida desse fiel companheiro de brincadeiras e a briga com o Conde que se recusava a levar o cachorro, trouxeram-lhe amargas lágrimas.
Diana disse a Justina apenas até logo e como a boa mulher estava um pouco melhor, dentro de alguns dias deveria unir-se a eles.
O cuidado com a ama-de-leite pareceu esgotar completamente as forças de Lourença, contudo, com a cabeça enrolada em compressas, mas mantendo-se de pé, ela saiu para acompanhar a partida dos viajantes.
Desfazendo-se em lágrimas, Lourença se despediu dos dois, principalmente de Diana; parecia que ela não conseguia se despedir - a beijava e abraçava; não prestando atenção na febril impaciência de Briand, ela o segurou ainda por uma meia hora nos degraus da escada, dando instruções detalhadas sobre os cuidados de como vestir e alimentar Diana.
Afora isso lhe deu um bilhete, no qual estava mencionado em quais dos inúmeros cestos estavam coisas úteis ao momento e guloseimas.
Por fim tudo foi dito e mostrado.
Briand, a quem toda essa encenação apenas servira para irritar, entrou na liteira, colocou Diana sentada nos joelhos e ordenou partissem.
A menina estava muito contente com o novo divertimento e não parava de tagarelar, ora sentada nos joelhos de Briand, ora mexendo nos cestos dos pastéis e convidando seu acompanhante a comer.
Mas pouco a pouco o silêncio de Briand e seu estranho e chamejante olhar a assustavam.
Ela parou de sorrir e tagarelar e se escondeu no fundo da liteira.
O estado de espírito do Conde o deixava incapaz de conversar com a criança.
Não desistia da decisão tomada, mas algo nele tremia.
Desviava o olhar da menina alegre, que ele implacavelmente trouxe para o sacrifício, em sua ambiciosa cobiça.
Persistente, orgulhoso e ardente ao extremo, Briand não media sua frieza discreta, mas estava preparado para o crime, se no assunto estivessem envolvidos sua ambição de riqueza e grandeza, ou satisfação de suas paixões; mas representar tal comédia, como desejava Lourença, ele achava que não poderia e mesmo não queria.
Passaram-se algumas horas.
Os viajantes se encontravam agora no âmago da enorme floresta e a liteira deveria atingir dentro de meia hora a plataforma "Cruz Negra".
Nesse ponto as estradas se tripartiam:
uma ia para Angers, outra atravessava a floresta, saindo na estrada em direcção a Paris e a terceira conduzia directamente para o castelo de São Germano.
Por essa última, Briand, onerado pelas dívidas e arruinado pelos agiotas, ia ocultamente se reapropriar de suas propriedades.
E chegou o momento de agir.
Energicamente reprimiu os vagos protestos da consciência; o Conde se endireitou.
— Por que você está tão calada, Diana?
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 7:59 pm

Vamos dar uma volta.
A propósito, você colherá flores.
Olhe que estranhas campânulas azuis estão crescendo à beira da estrada!
A menina olhou para ele com uma expressão estranha e curiosa e balançou negativamente a cabeça.
A voz rouca do Conde e seu febril olhar a assustaram.
— Neste caso eu a carregarei um pouco - propôs Briand, ordenando parar.
Vocês vão adiante, disse ele a Roberto e Henrique - eu quero dar uma volta.
Se nós não nos encontrarmos até a "Cruz Negra", então vocês parem lá e esperem.
Trazendo Diana no colo, o Conde ia devagar sob a espessa folhagem, e, furtivamente, se afastava da estrada.
Em vão ele propôs à menina correr e colher um buquê de flores.
Como ela instintivamente estivesse sentindo o perigo ameaçador, Diana enlaçou-se ao pescoço de Briand em silêncio e se apertou contra ele.
O Conde ouviu o palpitar acelerado do seu coraçãozinho e o contacto da meiga e aveludada face lhe provocou um arrepio.
Ele se deteve.
Era preciso acabar.
Os imprevistos dessa hora quase dominaram suas forças.
— Espere-me aqui, Diana, vou deixá-la um instante, ele disse com voz abafada, tentando colocar a menina no chão.
Mas ela desesperadamente se agarrava a ele gritando:
— Eu não quero!
Sem você tenho medo, Carlos!
Em condição de não mais se controlar, o Conde arrancou com força as mãos enlaçadas de Diana, colocou-a à força no chão e se pôs a correr em direcção à estrada.
Os soluços da pequenina lhe davam a sensação de um golpe de lança, mas o orgulho e a cobiça o dominavam, a tal ponto, que abafaram todos os sentimentos humanitários.
Apenas uma vez ele se virou e viu que a menina tentava correr atrás dele, mas de repente ela tropeçou numa raiz, caiu, e, com um gesto infantil de desespero cobriu o rosto com as mãos.
A imagem da criança caída no chão, o pequeno e nervoso rostinho emoldurado pelos cachos despenteados louros, ficaria gravado de uma forma inesquecível na memória de Briand... não olhando mais para trás, ele continuou a correr e logo chegou à liteira que o esperava no prado.
Roberto tendo se virado no seu assento com visível intranquilidade e desconfiança, olhava para a estrada.
Talvez tivesse ouvido os gritos de Diana...
Henrique, de guarda, colocou a mão no cabo do punhal.
— Onde está a criança?
O que fez com ela, Sr. Barão? - o fiel criado perguntou com inquietação, vendo Briand sentando na liteira.
— Eis o que o ensinará a não se intrometer nos assuntos que não lhe dizem respeito! - gritou Henrique, cravando o punhal nas costas de Roberto que caiu no chão sem dar um grito.
— Depressa ao trabalho, Sr. Briand!
Tire-lhe a roupa enquanto eu trarei o substituto, acrescentou Henrique se dirigindo para o matagal de onde apareceu com o cadáver, que jogou perto da liteira.
O trabalho sombrio estava concluído.
Desta vez o Conde ajudou Henrique com vigor.
Para o assassinato do pobre criado Briand se comportou de forma completamente indiferente, recuperando a fria decisão.
Rapidamente tirou a roupa para vesti-la em Roberto e com um tiro de pistola o desfigurou, para eliminar aquilo que o cadáver atrapalhava na semelhança com o Conde.
No dedo do morto colocou o anel de noivado e no bolso os documentos do Barão de Mailor.
Transformaram o segundo cadáver em Roberto.
Depois viraram e devastaram a liteira.
Disfarçados, os dois facínoras depressa deixaram esse lugar de morte e consternação e se dirigiram para o lado oposto que deveriam seguir.
Na primeira estalagem suficientemente distante para não levantar suspeitas, eles trocaram de roupa, trocaram os cavalos e imediatamente se dirigiram à cidade portuária, onde, conforme a situação, Briand deveria aguardar sua cúmplice.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 8:00 pm

V. MAIS UM CASAMENTO

Passaram-se três dias do acontecimento narrado e nenhuma notícia havia então chegado ao Castelo d'Armi, onde Lourença activamente se preparava para a partida, visto que Justina se sentia muito melhor.
No quarto dia, de manhã, chegou um camponês assustado e informou que na noite anterior ele havia encontrado junto à "Cruz Negra" a liteira virada e dois cadáveres nos quais se reconheciam o Barão de Mailor e Roberto.
Diante dessa notícia Lourença perdeu os sentidos.
Todas as pessoas do castelo foram tomadas por autêntico pasmo.
Ninguém sabia o que fazer.
Voltando a si, a Sra. d'Armi deu algumas ordens indispensáveis e demonstrou uma extraordinária actividade e energia.
Mandou avisar as autoridades e se dirigiu pessoalmente ao local do crime.
Com gritos e desmaios provocados pela visão do cadáver de Mailor e o desaparecimento de Diana, Lourença fez todo o possível para procurar sua enteada.
A floresta toda foi vasculhada, em todas as direcções foram enviados mensageiros, mas tudo em vão - nem a menina, nem seu cadáver foram encontrados, como se a floresta a tivesse engolido, ou bandidos a tivessem raptado, matando seu marido.
Lourença parecia ter enlouquecido de desespero.
Gritos e gemidos eram ouvidos por todo castelo.
Subitamente ela informou que precisava ir se encontrar com o Barão João e lhe noticiar a respeito do acontecimento.
Ela partiu deixando a pobre Justina com uma febre fortíssima.
Justina sofria no próprio coração o desaparecimento de sua pupila.
Está claro que a Sra. d'Armi não pensava em ir até o marido e se dirigiu directamente a Barcelona, onde já a esperava o amante agora transformado em Conde de Saurmont.
— Bem, então?
Como tudo saiu?
Briand perguntou preocupado quando ficaram a sós.
— Tudo correu às mil maravilhas, o que aliás sempre ocorre quando os meus conselhos são ouvidos. - respondeu sorrindo Lourença.
A morte do respeitável Barão de Mailor foi constatada de forma legal e enterrado com as honras correspondentes no jazigo do castelo d'Armi.
Toda província está comentando esse assassinato.
— E Diana? - perguntou o Conde com a voz indecisa.
— Ela desapareceu, não deixando sequer vestígio, e você, sinceramente, pode se considerar viúvo.
— Você pensa que ela morreu, Lourença?
— Isso não é provado, mas é muito provável.
Encontrá-la-iam viva em algum lugar?
Eu penso que se isto acontecesse, ela se esconderia de medo na floresta e lá terminaria seus dias.
Pálido, respirando com dificuldade, Briand se encostou na parede; um terrível sentimento de pavor e remorso lhe contraiu o coração.
A imagem da pequena criança com mórbida nitidez se desenhou diante dele.
— Não há nada mais estúpido do que o remorso; é preciso saber suportar aquilo que a coragem faz.
Semelhante fraqueza é indigna de um homem - disse Lourença interrompendo a reflexão do jovem.
Briand se endireitou e limpou o suor que corria em sua testa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 8:00 pm

— Pois não foi mesmo por ninharia que você se decidiu a agir daquela forma; e assim como a situação é irremediável, então me parece que ao invés de se entregar a uma tola compaixão, você deveria se apressar e visitar seu tio, que certamente está surpreso com sua longa ausência - prosseguiu Lourença.
Estas palavras e a costumeira influência que exercia no Conde fizeram efeito.
Ele se acalmou rapidamente e lhe voltou a habitual lucidez.
Chegando em Madrid, Briand temporariamente acomodou Lourença, tendo prometido lhe informar sobre todo o andamento do assunto.
Depois se dirigiu em companhia de Henrique a Pompelum, pois o castelo de Guevara se encontrava nos arredores.
O sol estava se pondo quando Briand subiu a trote a elevada colina; em seu cume fora erguido o antigo castelo.
A visão interior de uma colossal parede e altas e recortadas torres, altivamente desenhadas no azul do céu intensificavam as batidas do coração do Conde.
Nessa moradia de príncipe ele agora entrava na qualidade de dono.
Pela primeira vez desde aquele minuto em que abandonou Diana, ele respirou livremente, a plenos pulmões.
A recordação do crime cometido que o estava dificultando pegar o caminho do castelo já havia sumido e se encontrava num distante passado.
Quando o Conde entrou pela grande porta, alguns criados correram em sua direcção; ajudaram-no respeitosamente a descer do cavalo e informaram que havia visitas no castelo.
Don Rodrigo e as visitas se encontravam na grande sala que dava saída ao terraço.
Avisado da chegada do sobrinho, o velho senhor saiu ao seu encontro.
Beijando o recém-chegado, sussurrou-lhe ao ouvido:
— Quer dizer então que a sua chegada pode ser considerada como uma resposta afirmativa?
— Sim, tio; se a prima conceder a honra de eu me tornar seu marido, respondeu em tom mais baixo ainda.
O velho Conde sorriu e apertou-lhe fortemente a mão.
— Vocês será uma presença desejada.
Eu o apresentarei às visitas como meu futuro genro.
Na sala se reunião uma multidão de senhoras e damas, todos em torno de Mercedes, que, de rosto pálido, se ruborizou de uma forma brilhante e expressiva, quando o primo lhe beijou a mão.
Durante o jantar, Don Rodrigo anunciou o noivado.
O casamento foi marcado para dentro de seis semanas.
O momento seguinte foi muito animado e absorveu definitivamente a atenção toda de Briand.
Orgulhoso e feliz ele esqueceu por completo do passado.
Inicialmente o tio lhe deu a administração de grande parte de suas propriedades.
O velho Conde se sentia cansado e doente.
A morte de seu filho único lhe partiu o coração e ele sentia cansaço pela vida.
Depois Don Rodrigo o conduziu a Madrid e o apresentou ao Rei, como seu futuro genro.
Ele pediu permissão para transmitir aos filhos de sua filha o nome e as propriedades.
Assim como, na ausência de herdeiros directos, eles deveriam passar para algum herdeiro de suas filhas.
Sua Majestade, com benevolência, concordou com este pedido.
Foi dada permissão para receber o nome de Saurmont Guevara após a morte do sogro.
Briand foi condecorado com a "Ordem da Grande Espanha, Primeira Classe".
Um grande contentamento tomou conta de sua orgulhosa alma, quando ele, pela primeira vez, compareceu diante do Rei.
O reflexo desse contentamento foi demonstrado em forma de carinho e amabilidade para com Mercedes, que já havia se desacostumado com isso.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 8:00 pm

Durante o tempo de permanência em Madrid, Briand visitava Lourença.
Ele havia acertado alojá-la em Pompelum, assim como frequentemente a visitava sem chamar atenção.
Finalmente chegou o dia do casamento.
Desejando comemorar festivamente esse dia, Rodrigo convidou para a cerimónia toda nobreza.
Briand estava com um traje coberto de brilhantes; embora Mercedes estivesse ricamente vestida e com jóias da família, não parecia muito apresentável e tinha uma expressão de doente, quando comparada com as esbeltas e bonitas pessoas postadas no altar da capela.
Desde o momento de sua chegada, Briand se encontrava ocupado com a quantidade de assuntos celebrando seu amor-próprio.
Mas quando entrou na capela iluminada e repleta de pessoas elegantes, foi invadido por um sentimento doentio.
Com nitidez mórbida diante dele surgiu a pequena capela sombria e vazia do Castelo d'Armi.
Com enorme esforço de vontade, ele queria afastar essas insuportáveis recordações, mas tudo foi inútil; com uma clareza assombrosa todos os detalhes do seu primeiro casamento passaram pela sua mente.
Ele viu o pequeno e encantador rostinho de Diana, seus longos cachos dourados e a expressão séria dos olhos claros.
Ainda soava em seus ouvidos o "sim" pronunciado com uma sonora voz infantil.
Essa impressão foi tão forte que ele estremeceu.
Seu olhar deslizou tímida e lentamente para uma mulher feia, de perfil esquelético, parada ao lado, de joelhos - sua noiva...
Uma espantosa palidez subitamente se espalhou pelo rosto do noivo, de tal forma que chamou a atenção e o sacerdote olhou espantado para o jovem.
O Conde reuniu toda sua força de vontade para superar essa perigosa fraqueza e conter o tremor das mãos quando colocasse a aliança.
Quando enfim a cerimónia acabou, um verdadeiro suplício para ele, suspirou com alívio.
A nova esposa de Briand estava bem longe de ser como aquela de quem ele se livrara; Mercedes era exigente, loucamente apaixonada por ele, ciumenta e desconfiada.
Ela estava se considerando feia e sentia que, sob a amabilidade fingida do marido, se escondia uma completa indiferença para com ela.
Cada ausência de Briand agitava a jovem mulher e a amabilidade dele em relação a outra mulher a irritava, sendo motivo para cenas desagradáveis.
Já que o jovem Conde não deu motivo para se desconfiar de sua fidelidade, Don Rodrigo tomou posição favorável ao genro e convenceu a filha, mostrando-lhe que tal comportamento imprudente apenas afastaria de si o coração do marido.
Ele falava que Briand não poderia deixar de ser cortês e gentil com as damas.
Ele seria ridículo se levasse a esposa à caçada ou se fosse com ela em viagens de negócios a Pompelum ou a alguma parte de sua propriedade.
Estava claro para Briand a situação das coisas.
Difícil era sustentar uma relação com Lourença.
A propósito, ele não era suficientemente corajoso para desprezar a perigosa amante.
Por isso ele confiara esse assunto a Henrique.
O cigano alugara uma casa solitária no subúrbio de Pompelum e transportou a Baronesa para lá.
Aliás, ela em tais delicadas circunstâncias manifestou uma rara delicadeza.
Fechada em seu refúgio, não saía para nenhuma parte e parecia que não se ofendia com as raras visitas de Briand, absolutamente.
Ela apenas se aborrecia, e o único meio de distraí-la — delicadamente ela sugeriu esse facto a Briand — seria que ele a presenteasse mais frequentemente com jóias preciosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 8:00 pm

Quisesse ou não, o Conde deveria ser atencioso; distrair Lourença e manter seu bom estado de espírito.
Para tal situação as coisas eram terrivelmente difíceis; a ideia da presença da desonesta megera intrigante era para ele constante perigo, oprimindo-o, e a avareza do Conde revoltava Lourença.
Afinal ele já se cansara de sua amante, um tanto velha e sem valia, e considerava não ser mais possível se fingir apaixonado pelas duas diferentes mulheres.
E Briand começou a procurar algum meio de sair dessa desagradável situação.
Ele possuía uma extraordinária mente engenhosa, e, conhecendo até em detalhes a natureza rude, indisciplinada e apaixonada da Sra. d'Armi, armou um plano inicialmente vago nos aspectos gerais.
Um feliz acontecimento o ajudou a realizá-lo antes do que esperava.
Um assunto urgente obrigou Briand a partir inesperadamente para uma propriedade do tio, situada nos arredores de Córdoba; durante a viagem o Conde se resfriou e no dia seguinte da chegada ao castelo se sentiu tão mal que ficou de cama e ordenou ao criado chamar um médico.
— Isso levará muito tempo, senhor. - respondeu o velho criado.
Se for à cidade será então preciso para isso umas vinte horas e o médico mais perto, o velho Peret, está meio cego e surdo.
— Apesar disso é preciso chamar um médico.
Não posso morrer aqui sem qualquer ajuda. - respondeu impaciente Briand.
— Aqui na aldeia temos um médico muito bom.
Ele, em verdade, não possui uma grande fama, mas é excelente.
Se o Sr. Conde permitir eu o trarei; estou convicto de que ele o curará.
— Certamente deve ser algum charlatão!
Mas quem ele curou?
— Primeiramente nosso padre Manoel.
Nem os médicos da cidade, nem romaria em Compostela conseguiram curá-lo, mas Don Alberico colocou-o em pé.
Depois ele salvou uma moribunda, esposa do nosso colector.
— Bem, então vá agora mesmo e o traga rapidamente. - respondeu o Conde.
Briand se apressou em se curar.
Vários assuntos difíceis o esperavam; a possibilidade de que Dona Mercedes suspeitasse de algo em consequência do tardio regresso ao castelo provocou-lhe arrepios.
Passadas duas horas o criado trouxe o doutor ao quarto do Conde que adormecera num pesado sono febril.
Don Alberico lançou em torno de si um olhar curioso.
Pela primeira vez ele atravessava a soleira de um castelo e o luxo da mobília, aparentemente, provocou uma forte impressão no pobre médico de aldeia.
Quando Briand acordou, Don Alberico, com profunda reverência e gesto de humildade, aproximou-se dele e confiou se poderia contar com a benevolência do Conde.
O Conde olhou para ele — para a rara beleza do médico.
Don Alberico se distinguia por ser um puro tipo ocidental, estatura média, excelente complexão, rosto bronzeado e grandes e aveludados olhos pretos.
Este jovem devia ser de origem moura ou judia.
Não olhando para o traje e sapatos gastos, chapéu esburacado, estropiado, que ele agitava graciosamente, sua aparência evidentemente chamava atenção.
O médico se mostrou muito experiente e disse ao cliente que teria de voltar para casa e preparar o remédio que ele mesmo traria ao Conde, já que este tinha presa em se recuperar.
Realmente no dia seguinte Briand se sentia completamente curado, e, apenas cedendo ao pedido do doutor, ficaria na cama até a sua chegada.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 13, 2016 8:00 pm

Fixando o olhar no rosto vivo do médico e interrogando-o sobre seu passado e planos futuros, o Conde ponderava sobre a ideia que lhe aparecera de manhã, cuja realização lhe parecia cada vez mais fácil.
Ele convidou Don Alberico a visitá-lo semanalmente, pois por enquanto ele ficaria no castelo para evitar o retorno da doença.
Assim que ficou sozinho Briand sorriu satisfeito consigo mesmo.
— Esse doutor é esperto, ambicioso e astuto.
É como se ele tivesse sido criado para me libertar de minha sócia.
Lourença não seria Lourença se perto de tal beleza não me forçasse mudar, murmurou Briand.
Eu preciso apenas levá-lo comigo, o que a propósito não será difícil, assim como eu lhe darei mais do que a infeliz prática que aqui lhe é oferecida.
Dois dias antes da partida, o Conde o pagou regiamente e lhe disse:
— Don Alberico! Eu agora me convenci de que o senhor é um excelente médico e gostaria de conservá-lo junto de mim.
Estou pensando ir à França dentro de uns dois
meses para visitar minhas terras e me apresentar à corte.
O senhor me acompanhará e, acredito, posso lhe prometer que sua carreira estará feita.
O médico, radiante, desmanchou-se em expressões de lealdade.
— Espere. Até a minha partida o senhor terá de viver solitariamente em Pompelum.
Eu não posso levá-lo comigo ao castelo de Guevara pois o médico que cuida de meus tios esforçar-se-ia em lhe prejudicar a vida.
O louvável Don Peret defende ciosamente sua posição e de todas as formas procurará lhe prejudicar.
Por isso eu o colocarei em casa de uma conhecida minha.
Esta dama é uma excelente mulher; tive contacto com ela até o meu casamento; negócios a estão segurando ainda em Pompelum.
Tudo saiu segundo o desejo do Conde; Don Alberico foi instalado em um quarto solitário da casa de Lourença.
Este com uma admirável delicadeza avaliou a situação das coisas e manifestou uma extrema discrição, o que provocou em Briand a melhor das impressões sobre a capacidade diplomática do médico.
Lourença devorou com os olhos o espanhol e mal ouvia Briand.
Na visita seguinte o Conde já achou a Sra. d'Armi seriamente doente e Don Alberico à cabeceira.
Mal contendo um riso, ele voltou ao castelo de Guevara.
Agora eu preciso apenas ser mais generoso e ciumento que habitualmente, murmurou ele, e tudo correrá às mil maravilhas pela expressão do meu amável amigo.
Desde esse dia as visitas a Lourença eram muito divertidas.
A Baronesa estava constantemente doente e Alberico cuidava dela.
Apenas as surradas roupas do doutor foram trocadas por roupas de veludo com colarinhos de renda.
Em seu dedo brilhava um magnífico rubi.
Aproveitando esse acontecimento, o Conde manifestou desconfiança e fez uma cena de ciúmes com sua amante.
Lourença astutamente se esforçava em acalmá-lo, mas Briand continuava vigiando, chegando inesperadamente e de todas as maneiras se esforçava para incomodar esse idílio.
Finalmente chegou o momento de Briand efectuar o golpe decisivo.
Certa vez à noite ele veio com uma pesada mala que mandou levar ao quarto de Lourença.
— Ordene agora mesmo que me sirvam o jantar porque eu preciso ir para casa, ele disse.
Vou deixar essa mala até amanhã; nela há dez mil escudos que consegui esconder de meu tio para minhas necessidades pessoais.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:36 pm

Amanhã eu volto a pegá-la.
A propósito, ordene a Alberico vir aqui, preciso falar com ele.
— Você está doente?
A Baronesa perguntou com desconfiança.
— Não, mas o meu tio está, e como o próprio Bartolomeu Peret teme que seja gota, então eu quero aproveitar a ocasião e apresentá-lo a Alberico.
Estou confiante de que ele curará meu tio.
Aí então ele poderá se instalar no castelo e acompanhar Don Rodrigo a Salerossa, onde deverá ficar três meses.
Quero avisar o doutor que amanhã o convidarei para ir ao castelo.
Conforme ele falava, o rosto de Lourença assumiu uma expressão de preocupação e ela apressadamente saiu do quarto.
O jantar foi logo servido e devido a um infeliz acontecimento, Don Alberico não se encontrava presente e Briand devia partir.
Dentro de três dias novamente o Conde voltou a Pompelum.
O estado de Don Rodrigo lhe dava uma boa desculpa para as constantes vindas à cidade.
Para grande satisfação o velho que tomava conta dos portões da casa de Lourença lhe informou que naquela mesma noite em que ele estivera ali, a Baronesa fez as malas e no breu da noite saiu com Don Alberico, avisando que ela estava deixando a cidade para sempre.
Briand percorreu todos os quartos, convenceu-se, como aliás imaginava, de que sua mala e todos os objectos mais ou menos valiosos tinham sumido.
No quarto de dormir, em cima da mesa, ele achou o seguinte recado:
"Querido amigo Carlos!
Eu sempre vou guardar uma boa recordação sua e nos momentos difíceis de minha vida espero encontrá-lo.
Eu tanto colaborei para sua felicidade que seria terrível abandoná-lo para sempre.
No presente momento você é muito incomodo para mim.
Eu me permito fazer um pequeno empréstimo totalmente honesto".
Muito satisfeito com o êxito de sua artimanha, Briand, rindo, rasgou a mensagem que tão bem caracterizava Lourença.
— Tudo correu como havia planeado ...para você o infortúnio por ter se atrevido a fazer isso! - ele resmungou e se dirigiu a galope ao castelo.
Briand já pensava que se tinha livrado de todas as preocupações e, de repente, certa vez de manhã, apareceu Henrique e lhe informou que queria se despedir e se fixar em outro lugar; pelos seus serviços e silêncio ele exigiu uma grande soma.
Briand não poderia dispor de tal soma sem o conhecimento de Don Rodrigo e por isso tentou baixar a pretensão do cigano, mas Henrique insistiu de uma forma tão impertinente que Briand teve que ceder.
Deu o dinheiro sob a condição de que sumisse definitivamente; quando, em uma linda manhã, o cigano desapareceu do castelo, o Conde convenceu Don Rodrigo que o ingrato tinha roubado a quantia que ele mesmo dera.
Desta vez Briand estava confiante de que acabara por completo com os crimes ocorridos - e cada lembrança lhe era odiosa; pela primeira vez ele respirou totalmente livre e entregou-se a todos os prazeres da alta e elevada posição que comprara tão caramente.
Passou-se mais de um ano sem que ocorresse qualquer acontecimento especial.
A vida no castelo corria como antes, apesar de não ser tão ruidosa.
Como Mercedes se preparava para ser mãe, sua fraca saúde exigia tranquilidade e cautela.
Certa vez à noite, quando Briand passeava sozinho perto do castelo, um ciganozinho deu-lhe uma carta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:36 pm

Para surpresa do Conde, a carta era de Henrique, o qual escrevia que havia lhe ocorrido uma desgraça e pediu novo subsídio.
O Conde compreendeu:
essa tranquilidade comprada o conduziria por fim ao definitivo desespero.
Agarrando pelo colarinho o pequeno mensageiro, ele o encheu de chicotadas; depois lhe ordenou transmitir àquele que o tinha enviado que ele sempre poderia encontrar ali a força, nada mais.
O garoto, gemendo, saiu correndo.
Um pouco mais calmo o Conde lamentou que se tivesse deixado arrebatar tanto, mas passados dois meses e Henrique não dando sinal de vida, Briand se tranquilizou, decidindo que o cigano não quis irritá-lo com um novo pedido.
Certa vez, de manhã, desejando conversar com Don Rodrigo, Briand se dirigiu até seu gabinete.
Para sua grande surpresa a porta do gabinete que estava sempre aberta, desta vez se encontrava fechada; ele bateu algumas vezes e não recebeu resposta, embora lhe parecesse ouvir passos e vozes atrás da porta.
Por fim ela se abriu e o próprio velho Conde deixou o sobrinho entrar, e fechou cuidadosamente o ferrolho.
O jovem já se preparava para perguntar, por brincadeira, que significava tal mistério, quando notou uma expressão no rosto do tio que lhe tirou completamente a capacidade de falar.
O velho estava irreconhecível - tremia como se estivesse com febre, pálido, o rosto desfigurado estava salpicado de manchas escuras e os lábios tremiam impedindo-o de falar.
— Tio! Que aconteceu?! - Briand disse finalmente, recuando de terror, enquanto Don Rodrigo caía sem forças numa cadeira.
Diante da pergunta o velho senhor deu um salto como se fosse tomado pela acção de uma corrente eléctrica.
Segurando a mão de Briand, ele o sacudiu com força e advertiu com voz irreconhecível:
— Bandido miserável!
Traidor oculto de minha filha e da honra de meu nome!
Falso Barão de Mailor.
Não pode mais falar.
Briand, derrotado, estava calado e imóvel; apenas uma ideia lhe veio à cabeça:
quem poderia ter falado ao tio sobre o terrível segredo!?
— Ah, miserável!
Mil vezes assassino desonesto, que lançou na morte uma criatura inocente.
Faminto de morte e a criaturinha ligada a você de forma sagrada!... - gritou o Conde.
Mas eu me vingarei de você, bandido!
Eu descubro a minha vergonha e o entrego às mãos da justiça.
Espumando de raiva, cambaleando como bêbado, o Conde mal se arrastou até a escrivaninha, as forças o deixaram e ele caiu na poltrona; com um máximo esforço ele se soergueu e tentou alcançar a pesada sineta colocada ao lado do tinteiro.
Esse movimento fez com que Briand voltasse a si.
Ele entendeu que, se a sineta começasse a tocar, atrairia criados e, para ele, não haveria mais solução.
A honra, posição e até a própria vida, tudo estaria perdido.
Um medo terrível se apossou dele; logo, rápido, e movido mais pelo instinto que por reflexão, ele se jogou em direcção de Don Rodrigo, o agarrou pela garganta e o derrubou da poltrona.
O velho se livrou, tentando gritar; foi então que Briand agarrou uma almofada de veludo e apertou contra o rosto do Conde; a luta continuou silenciosa e desesperada por alguns segundos, mas logo Don Rodrigo retesou os dedos e ficou imóvel.
A almofada caiu das mãos trémulas de Briand; com dificuldade, tomando alento e depois se sentindo cair ele se apoiou na escrivaninha; sua cabeça girava e os olhos como que cresceram fitando o pálido e deformado rosto do cadáver.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:36 pm

Nesse minuto uma mão caiu em seu ombro e uma voz zombadora disse:
— Excelente negócio você arrumou, Barão de Mailor!
O Conde se virou rápido e um grito surdo, furioso, se desprendeu de seus lábios, quando viu Henrique.
Ele estava de pé diante dele, com a mão segurando o cabo do punhal.
— Miserável, Ingrato! Delator! - gritou com voz roufenha.
Henrique o olhou com desprezo e insolência.
— Só quero saber:
quem de nós é miserável?
Em todos os casos você ganhou dos crimes perfeitos cometidos por nós e este, - apontou para o cadáver - é uma prova evidente de que você não é ingrato.
Na outra vez, Sr. Briand, seja generoso com seus cúmplices e não os leve à vingança; agora mesmo eu lhe dou três minutos para reflectir se deseja pagar-me devidamente pelo silêncio sobre este novo crime ou tentar entrar comigo numa luta.
Não será tão fácil me obrigar a calar como a este velho; se eu for o vencedor, eu o entregarei à Justiça.
Aqui está a corda para amarrá-lo.
E ele levantou a mão, na qual estava enrolada uma corda longa e forte.
Enquanto o cigano falava assim com o Conde, este restabelecera o auto-domínio, apesar da raiva.
Briand entendera que aquela não era a hora de discutir ou negociar, e além disso, ele conhecia bem a força hercúlea de Henrique.
— Qual é o preço do seu silêncio? - ele perguntou.
Henrique disse uma grande quantia e citou algumas jóias de grande valor, acrescentando com cinismo que as jóias estavam na gaveta da escrivaninha e o dinheiro no cofre colocado na parede.
Briand nada falou; entregou-lhe tudo que exigia.
Henrique colocou tudo num saco que trazia, apertou um botão secreto na porta, coisa que o Conde nunca havia suspeitado existir, e sumiu...
Sozinho, o jovem retomou sua habitual presença de espírito e com firmeza colocou tudo em ordem, apagando todos os vestígios da luta.
Na escrivaninha ele espalhou contas e papéis, jogou a pena no chão para que todos pensassem estar o Conde trabalhando quando a morte subitamente o pegou.
Em seguida saiu; os quartos vizinhos estavam vazios; o próprio Don Rodrigo dispensara os serviçais e apenas no quarto da frente estava o ajudante.
Briand o avisou que o Conde estava muito ocupado e que tinha proibido que o incomodassem, caso tivesse necessidade, chamaria.
Isso frequentemente acontecia, o que não traria suspeitas.
À hora do jantar o velho criado, preocupado com o longo silêncio do senhor, arriscou entrar em seu escritório; imediatamente altos brados anunciaram a todo castelo sobre o infeliz acontecimento.
Fingindo-se assustado, Briand correu em direcção ao morto.
Sob seu cuidado foram tentados todos os meios para que Don Rodrigo recuperasse os sentidos, mas certamente tudo foi em vão.
Um acontecimento favoreceu o assassino — Bartolomeu Peret, o velho médico do castelo, tinha partido ainda na véspera para ficar alguns dias em casa de sua filha que estava doente.
Então nenhum olhar experiente viu no cadáver sinais suspeitos de morte violenta.
E quando voltou o doutor, Don Rodrigo estava, com toda sumptuosidade compatível com sua posição, enterrado no jazigo da família.
Para a pobre Mercedes a perda do pai e o terrível susto causado pela morte inesperada tiveram consequências desastrosas.
Desde esse dia ela andou doente, e dentro de seis semanas lhe nasceu o filho que lhe custou a vida.
Sua morte trouxe grande alívio a Briand.
Livrou-o do peso de suas mulheres, deixando a ele o filho que lhe garantia todas as vantagens de seu casamento criminoso; enfim ficou único proprietário da colossal fortuna e firmemente se decidiu aniquilar seus cúmplices, se eles aparecessem, em qualquer época.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:36 pm

VI. A CRIANÇA ABANDONADA

Quando Briand desapareceu entre as árvores e Diana compreendeu que tinha ficado sozinha, ficou paralisada de terror.
Não tinha sequer força para gritar.
Apenas eram ouvidos tiros em algum lugar perto, o que fez com que ela saísse do torpor em que se encontrava.
Sob a influência deste novo susto, a criança novamente se pôs a correr.
As fracas perninhas começaram a tremer; ela parou e se apertou contra um tronco de um enorme carvalho, com soluços chamando Justina, António, pessoas do castelo, e até o cachorro Lanceio, fiel amigo.
Mas, infelizmente, apenas o eco respondeu, e por fim, esgotadas as lágrimas, a pequena se silenciou.
Anoiteceu.
As elevadas árvores produziam gigantescas sombras na clareira da relva e sob os ramos já estava completamente escuro.
À medida em que a escuridão aumentava, um novo terror se apoderou da pequena e infeliz criatura; recordava-se de todas histórias de lobos, cobras, fantasmas e diversos monstros, com os quais Justina a distraía nas longas noites de inverno.
Cada som da floresta, o estalido de um ramo seco sob as patas dos cervos, o barulho das folhas, o grito de alguma ave nocturna obrigavam-na a se levantar de terror e se apertar contra o tronco de carvalho.
Além disso a criança estava faminta e gelada, pois o orvalho abundante umedecia suas roupas leves.
Com o corpo todo tremendo, Diana fechou os olhos.
Ela não tinha mais forças para gritar; até o terror pouco a pouco mudou para uma apatia mortal.
Quando a lua surgiu, uma luz suave penetrou através da folhagem, iluminando fracamente a clareira.
Ali pertinho, na floresta densa, se ouviu um forte estrondo.
Dos arbustos saiu um enorme cachorro com pêlos espessos que se dirigiu directamente à criança que estava caída no chão húmido.
Diana não se moveu.
O animal olhou Diana e começou a lhe lamber o rosto.
Diante desse contacto a criança abriu os olhos, transpirando pavor; olhava para o cachorro, o qual tomava por lobo e pensava que ele a iria comer; mas como o monstro aparentemente não se apressava em devorá-la, mas ao contrário, balançava amigavelmente o rabo, Diana de repente pensou que era Lanceio seu amigo, apenas muito maior.
Enlaçou o pescoço do animal e apertou a cabecinha na sua espessa pelagem.
A amizade se selou rapidamente.
Continuando a lamber a menina, o cachorro se sentou ao seu lado.
Feliz, Diana não se sentia mais sozinha, apertava-o contra si e se aquecia com seu contacto.
Dentro de curto espaço de tempo o animal demonstrou impaciência e se levantou como se estivesse preparando para ir embora, mas Diana estava apavorada de terror com o facto de novamente ficar sozinha e se agarrou com força nele; o cachorro se sentou, mas rápido voltou a se levantar, esforçando-se em trazer consigo a menina.
Finalmente os novos amigos se compreenderam.
A menina se levantou e se agarrou com as duas mãozinhas na coleira do seu condutor e foi ao lado dele, o quanto permitiam suas perninhas trémulas e inertes.
Assim andaram bastante; quando Diana parava para tomar fôlego o cachorro pacientemente a esperava ela estava muito pesada e agitada; sua cabeça girava e ela, perdendo a consciência caiu no chão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:36 pm

Seu enorme acompanhante parou no mesmo instante.
Pareceu pensar e decididamente agarrou com os dentes a roupa de Diana e prosseguiu caminho carregando cuidadosamente sua carga.
A uma certa distância da estrada principal onde se bifurcava para a aldeia e o castelo de São Germano, encontrava-se um grande prado rodeado por tão espessos arbustos que da estrada era impossível ver o que lá acontecia.
No meio desse prado estava armada uma fogueira em torno da qual estavam sentadas algumas pessoas:
uma jovem mulher pálida e prematuramente definhada, vigiava a grossa sopa que estava cozinhando; dois garotos vorazes seguiam cada movimento dela; três homens, um dos quais corcunda e anão, e os outros dois eram jovens de porte atlético.
Após todos terem saciado a fome, a mulher despejou o restante em uma louça quebrada, esfarelando os restos de pão e lançando um olhar em volta perguntou:
— Onde está mesmo Merlem?
Ele deve estar faminto e, a propósito, não veio jantar.
— Ele correu para a floresta; pode ser que ele nos traga alguma lebre. - respondeu um dos jovens e assobiou alto.
Um latido distante foi a resposta; dentro de uns dez minutos saiu do bosque o cachorro trazendo nos dentes Diana, com um alegre ganido e colocou sua carga nos joelhos da jovem senhora.
— Senhor! Jesus Cristo!
A criança está morta!
Sim... e ainda é uma pequena dama.
Onde Medem a encontrou?
Todos, com curiosidade, se reuniram em torno dela.
— Não, a menina não morreu, apenas está desmaiada.
Está viva, Maturina!
Ela precisa ser friccionada e colocar em sua boca alguma coisa quente. - disse um dos jovens, trazendo Diana para perto do fogo e esfregando-lhe as mãos.
Graças a tais medidas a pequena logo abriu os olhos e avidamente bebeu uma caneca de leite de cabra e comeu um pedaço de pão, de modo que, tendo sido revigorada, ela se sentiu com forças para responder às perguntas.
Mas o terrível cansaço e o medo passado pareciam que tinham tirado por completo a memória da criança; dela apenas puderam saber que se chamava Diana, que se separara da ama-de-leite Justina, madrasta, cachorro Lanceio, que tinha ido fazer uma longa viagem e Carlos largou-a na floresta, tirando-a da liteira sob o pretexto de colher flores.
Perguntada sobre Carlos, a menina após uma madura reflexão respondeu que ele era seu marido; um receio mortal de ficar novamente sozinha fez com que Diana começasse a chorar e a implorar que não a deixassem na floresta.
— Ah, Deus! Tão pequena e já uma mulher casada!
Mas não tema, menina, nós não a jogaremos como fez seu malvado marido. - garantiu Maturina beijando a menininha.
Quando por fim Diana dormiu nos joelhos da jovem mulher, ela a conduziu para o furgão e a colocou ao lado de seus filhos.
Depois, todos da família de acrobatas viajantes, começaram a discutir como actuar no imprevisto acontecimento.
— É preciso entregá-la a algum funcionário local para ser encontrada pelos seus.
Nós mesmos não podemos percorrer todos os castelos...
— Entregá-la para que matem este anjo?
Pois se a jogaram na floresta para que morresse de fome... - disse Maturina.
— Eu proponho deixá-la. - manifestou o marido da jovem senhora.
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