Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 3 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:37 pm

— Ainda mais! Deixar esta nobre criança acostumada com o luxo, quando nós próprios mal podemos nos sustentar! - observou o anão, antigo palhaço da companhia, encolhendo os ombros.
— Espera, Henriquinho.
Acha que a menina será para nós um peso?
Ao contrário, ela nos ajudará; ela é bonita como um sonho... nós lhe ensinaremos nossa arte; ela se apresentará junto com Mercedes e Jacó e vai percorrer o público.
Essa opinião venceu.
Diana ainda dormia quando o furgão se pôs a caminho na estrada.
Após alguns dias de descanso começaram a ensiná-la a andar na corda e vários outros números.
Nos primeiros momentos dessa nova vida Diana se sentia imensamente infeliz; com gritos e súplicas ela queria que a levassem de volta ao castelo de seu pai, Barão, mas devido a um estranho acontecimento todos os nomes, com excepção de Justina, Carlos, Lanceio, haviam saído de sua memória; as ameaças de levá-la de volta para a floresta foram suficientes para obrigá-la a se calar e fazê-la obediente.
Júlio, irmão do marido de Maturina ensinava-a; fazia isso bondosamente e com paciência.
Ele a via como ágil, graciosa e leve avezinha.
Diana, mais rapidamente do que esperavam, aprendeu a andar sobre a bola, na corda estendida e interpretar com os garotos as pantomimas, sendo que não recebeu nenhuma punição e seu professor, aliás, muito se orgulhava dela.
Passado um mês Diana estreava com sucesso em uma festa de aldeia e trouxe tal sorte que todos da troupe ficaram admirados; desde esse dia ela contou com a simpatia geral dos participantes, a companhia andou por toda França, parando em todo lugar em que se pudesse ganhar dinheiro.
Entretanto essa vida irregular com estranhos costumes agia de modo prejudicial na delicada natureza de Diana.
A comida frugal e insuficiente minava suas forças.
Exercícios cansativos a esgotaram; ela sentia frio dançando em trajes leves nos palcos, nos dias frios e húmidos.
Emagreceu terrivelmente e eram frequentes as ameaças de Maturina para obrigá-la a realizar seu programa.
Mas a boa mulher observou que a criança estava se definhando visivelmente de saudade; previa o momento em que a menina se tornaria não apenas inútil, mas traria tempos difíceis para a pobre família.
— É necessário procurar um médico em alguma cidade e depois lhe dar descanso, todos admitiram unanimemente.
A pequena companhia, concordando com a decisão, se dirigiu a uma grande vila localizada ao lado da cidade, a dois ou três dias de viagem; contavam em encontrar lá não apenas o médico, mas fazer uma abundante colecta, pois lá se comemorava um feriado religioso e tinham organizado uma feira; além disso nos arredores estavam situadas as tropas do Duque de Guise, o que prometia um numeroso e generoso público.
Como já era fim de outono e o tempo estava muito frio para apresentações ao ar livre, a pequena companhia alugou uma barraca na área da feira e se preparou para dar um brilhante espectáculo.
Diana com um vestido rosa e uma estrela dourada de algodão presa aos seus belos cabelos louros estava pronta para a apresentação e Maturina se esforçava, sob todas formas, para convencer a triste e apática criança.
— Apenas hoje se esforce ainda mais, querida, em realizar melhor seus números.
Virão belos senhores que darão a você moedas de ouro e depois eu lhe comprarei um casaco de frio e você vai descansar o mês inteiro.
A apresentação estava se desenrolando; Júlio e seu irmão mostravam uma força prodigiosa, carregando pesos enormes, levantavam um ao outro, e comiam estopa quente; de repente entrou na barraca nova multidão de espectadores; eram oficiais rindo e conversando alto; eles abriram caminho aos empurrões na multidão e se sentaram na primeira fila.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:37 pm

Triste e cansada, Diana apenas havia começado a pantomima com Marcelo e Jacó; ela se apoiava na parede, entretanto a presença de oficiais lhe chamou a atenção.
Com curiosidade começou a examiná-los e de repente seu olhar cresceu com um homem de estatura elevada que trazia no pescoço uma corrente de ouro, na qual estava pendurado algo como um amuleto, rodeado de um clarão; o rosto da criança foi invadido por uma cor viva e brilhante; onde ela já havia visto essa pessoa e essa corrente com uma estrela pendurada?
Diana apertou as mãos contra a testa, a intensidade de suas ideias foi tão forte que lhe causou quase uma dor física; uma luz inesperada lhe iluminou a mente:
a pessoa e a corrente estavam pintados num retrato pendurado no quarto de sua falecida mãe, quarto esse agora ocupado por Lourença.
— Pai! Pai!
Sou eu, ela gritou; e jogando-se precipitadamente à frente, por pouco não caiu do palco.
Diante desse grito o oficial se levantou rapidamente, como de um salto e, desnorteado, olhava para a criança que continuava a gritar e estendia as mãozinhas para ele, depois, perdendo os sentidos, ela caiu no chão.
Criou-se uma confusão geral.
Ele, como era realmente o Barão d'Armi, imediatamente subiu ao palco.
Ainda nada sabia sobre o desaparecimento da filha, mas a semelhança da pequena acrobata, com sua falecida esposa, e o apelo dela o perturbaram.
A apresentação foi interrompida.
Enquanto Maturina trazia Diana à consciência, seu marido e Júlio contavam ao Barão onde e como haviam encontrado a criança, ou, mais fielmente, o cachorro deles e o que aconteceu daí em diante.
Voltando a si do desmaio Diana confirmou o relato dos acrobatas, acrescentando alguns detalhes e de que maneira Mailor a abandonou.
Esse relato enfureceu o Barão.
Derramando lágrimas, ele cobriu de beijos a filha.
Depois, um pouco mais calmo, ele informou que ficaria com a filha e recompensou generosamente os acrobatas pelos cuidados com Diana.
Após uma despedida emocionada dos seus protectores e do cachorro Merlem (para o qual d'Armi comprou uma linda coleira a pedido de Diana), ela se mudou para a tenda que seu pai alugara junto com dois outros oficiais.
Compreendendo todo o incomodo desse tipo devida, d'Armi decidiu levar Diana para seu castelo, com Justina.
Com esse objectivo ele tirou licença e se dirigiu para Angers.
O Barão, a cavalo, colocou a criança diante de si e partiu.
Mas se a viagem divertia a criança, ao mesmo tempo cansou-a extremamente.
O estado doentio da menina se agravava e no terceiro dia desde a partida do acampamento, Diana ficou doente, com febre.
Continuar a viagem era impossível, por isso d'Armi sentiu verdadeiro alívio quando soube de um taberneiro, em cuja taberna tinha parado, que há alguma distância adiante se encontrava um grande monastério feminino.
E o Barão se decidiu ir até lá.
A Abadessa ainda era uma jovem mulher, de rara beleza; acolheu a criança e o seu trágico passado com carinho e interesse.
Comunicou que a menininha ficaria com ela.
Após uma despedida comovente d'Armi partiu.
A doença de Diana foi prolongada e perigosa, mas, graças unicamente aos cuidados maternais da Abadessa e das bondosas irmãs, Diana engordou e se sentiu muito bem em seu novo ambiente.
No monastério se educavam mocinhas até 17 anos dos 9 aos 17, das melhores famílias.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:37 pm

Diana era a caçula.
Ela se divertia correndo pelo imenso jardim, se balançava e, sendo carregada num carrinho, era como se fosse uma boneca - todas brincavam com ela.
Passou-se um ano e subitamente o Barão d'Armi ali apareceu para saber notícias dela e carregá-la com ele.
Trouxe a notícia da morte de Mailor.
O rosto da Abadessa tinha uma expressão de preocupação; estava extremamente ligada a Diana e conservava desconfiança de João d'Armi e, principalmente, de sua esposa pelos ingénuos relatos feitos por Diana.
O coração da Abadessa estava angustiado diante da ideia que a pobre criança novamente ficasse sob o domínio de Lourença, pelo visto mulher perversa.
— Sr. Barão!
O Senhor nada tem contra a ideia de deixar Diana connosco até a maioridade?- ela perguntou após um breve silêncio.
Nós aqui educamos filhas das melhores famílias da França, por isso sua filha receberá educação adequada com sua origem e o senhor estará livre de quaisquer cuidados com ela e isso será para o senhor comodidade; o senhor mesmo diz que frequentemente se vê obrigado a se separar da esposa devido aos negócios... eu gostaria de me ocupar com a menina como se ela fosse minha própria filha.
— Com o mais profundo agradecimento aceito sua generosa oferta, Madre Odila. - respondeu d'Armi contente.
Uma hora depois tudo se havia acertado:
Diana ficaria no Monastério até completar dezasseis anos; o Barão iria visitá-la uma vez por ano.
Pela educação da menina a Madre não quis cobrar e por isso o Barão lhe ofereceu uma bolsa recheada de dinheiro para as necessidades da Igreja e para distribuição de esmolas.
Terminado este assunto o Barão d'Armi carinhosamente se despediu da filha e partiu apressado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:37 pm

II PARTE

I. VELHOS CONHECIDOS


Fim de março de 1569.
Anoitece. Os pedestres que haviam se atrasado nas ruas de Paris se apressavam em chegar em casa quanto antes possível.
Era perigoso para o cidadão comum e ainda mais para uma mulher se aventurarem por uma das escuras ruas parisienses, frequentadas por ladrões e por grupos de rapazes delinquentes, que se divertiam em cortar as capas dos transeuntes e assediar as moças.
Por isso as pessoas corriam para casa e trancavam as portas com fortes fechaduras de ferro.
Assim que o vigia deu o sinal para que as lamparinas e lampiões fossem apagados, toda capital mergulhou na escuridão e no silêncio.
Somente os hotéis frequentados pelos senhores fidalgos fugiam à regra; neles os divertimentos prosseguiam noite adentro, a luz irradiava de suas janelas e as tochas iluminavam a entrada.
Os pajens e soldados tomavam a rua.
Conversavam animadamente enquanto guardavam os cavalos e as liteiras de seus patrões.
Nesse dia em que damos prosseguimento à nossa história, na Rua Grenel , uma grande multidão se reunia numa bela e sumptuosa mansão.
A fachada da casa estava muito bem iluminada pelas tochas e lampiões; junto à entrada, de minuto a minuto parava uma liteira de onde saíam damas e cavalheiros acompanhados de seus criados.
Em determinado momento certo senhor aproximou-se, desceu do cavalo e, acompanhado de um dos criados, entrou no vestíbulo.
Ao adentrar, jogou a capa e subiu rapidamente a escada que levava ao primeiro andar.
Era um homem de estatura elevada, trajado todo de negro.
Somente uma corrente de ouro de grande valor e um "agrafe" brilhante, preso à pena de seu chapéu, quebrava um pouco o aspecto um tanto sombrio de sua vestimenta lúgubre.
— Eternamente de luto, Sr. Saurmont!
Quando o senhor deixará disso e trará ao seu hotel uma moça que o faça esquecer todas as suas perdas? - disse a empregada, alegre e simpática moça, enquanto o Conde beijava sua mão.
No mesmo tom gracejador o moço respondeu que não tinha sorte e que sempre se atrasava em conquistar o coração e a mão de uma dama descomprometida, que, sem dúvida, poderia fazê-lo esquecer de tudo.
Depois de conversar um pouco mais com suas hóspedes, o Conde se dirigiu ao quarto vizinho e sentou à mesa de jogos.
Não notou que desde sua entrada, na primeira sala, uma dama sentada na outra extremidade do quarto mantinha os olhos fixos nele.
Era uma mulher de aproximadamente cinquenta anos, muito gorda, rosto pintado e sulcado de rugas.
Vestia-se com requintado mau gosto, denunciador de sua pretensão em parecer jovem e bonita.
Nesse instante ela se imiscuiu no grupo de damas e cavalheiros que preferiam os jogos de "tamp".
Logo conseguiu ocupar o lugar de um dos parceiros de Briand, pois o cavalheiro todo de negro era ele.
Ao reconhecer Lourença, empalideceu imediatamente; quanto a ela, a Sra. d'Armi, ao que parece, era a primeira vez que ele a via.
Pela faísca rápida que escapava dos olhos da senhora, ele sabia que fora reconhecido.
Aliás, não podia ser de outro modo, visto que Briand pouco havia mudado; tinha agora trinta e dois anos, mas continuava a ser o mesmo de antes, moço alto e encorpado que onze anos atrás seguira em direcção ao hotel "O Carneiro de Ouro" em busca da felicidade.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:37 pm

Durante o jogo Lourença não dirigiu ao Conde uma única palavra em especial.
Somente quando o jogo terminou e todos se retiraram ao refeitório, ela se aproximou e disse em voz baixa:
— Onde você está morando?
O olhar que acompanhou esta pergunta foi tão significativo que Briand compreendeu que sua perigosa cúmplice novamente se punha em seu caminho.
Sem vacilar lhe deu o endereço do Hotel de Saurmont onde agora vivia.
O encontro modificou radicalmente seu estado de espírito, estragando seu apetite a tal ponto que ele, alegando dor de cabeça, se desculpou perante todos e abandonou a animada reunião.
Com raiva e desespero, o Conde voltou para casa.
O passado que considerava esquecido e sepultado para sempre, voltava a assediá-lo.
A mulher pérfida, seu génio do mal, novamente surgia em sua vida, lhe parecendo uma pedra enterrada no peito.
Uma inexprimível melancolia e o pressentimento de uma infelicidade próxima invadiu seu coração.
Torturado por fortes lembranças desagradáveis, verdadeiros pesadelos, resolveu ir se deitar.
Após a morte de Mercedes, Briand passou a se sentir plenamente feliz - era livre, sozinho, possuía enormes propriedades dos Guevara, e seus odiados cúmplices estavam longe.
Apesar de todas as honras adquiridas na Espanha, o Conde se considerava francês.
Sua primeira providência foi legalizar a posse de todas as terras pertencentes ao Conde de Saurmont; em seguida foi a França onde visitou suas propriedades, tratando de colocá-las em ordem e remobilizo seu castelo vazio.
Já havia arrumado tudo, quando de repente o surpreendeu inesperada infelicidade:
seu filho de quatro anos faleceu.
A criança sempre fora doente como a mãe, no entanto nada pressagiava fim tão prematuro.
Isto privava Briand de parte da fortuna da família.
Não obstante lhe ficaram reservados os bens pessoais de Mercedes e as terras que Don Rodrigo havia deixado em testamento para o genro, se por acaso sua filha não tivesse filhos.
Graças a essa precaução e a compra de terras na França, Briand desfrutava de sólida condição financeira.
Ele não tinha interesse pela Espanha e acabou se fixando definitivamente na França.
O acerto de todos os negócios lhe ocupou mais de um ano e depois disso resolveu não adiar mais seu plano de se mudar para a França.
Briand visitou novamente todas suas propriedades com a intenção de escolher uma que lhe servisse de moradia permanente.
Afinal um irresistível impulso o fez visitar São Germano, castelo que era o berço de seus antepassados e o local habitual em que o Conde de Saurmont costumava se recolher.
Há um ano deste episódio, quando retornamos a nossa história ele havia vindo a Paris para se apresentar ao Rei.
Enquanto aguardava o encontro, vivia em completa despreocupação.
No decorrer desses anos nenhum de seus cúmplices havia dado sinais de vida, fazendo com que o Conde até já passasse a considerá-los mortos.
Mas o inesperado encontro com Lourença lhe apagou esta agradável esperança.
Briand se levantou extenuado pela noite de insónia, mostrando péssimo humor.
Para não chamar a atenção, sentou-se como de hábito para o desjejum, mas não conseguiu tocar na comida; estava mergulhado em pensamentos, segurando a cabeça com as mãos, quando o criado entrou anunciando que o Barão João d'Armi desejava vê-lo.
Ele estremeceu...
— É o pai de Diana... lhe perpassou pela cabeça e acrescentou em pensamento:
"Miserável! Na certa descobriu o segredo por meio de minha cúmplice...
Agora os dois vão querer me arrancar dinheiro!"
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:38 pm

Mas Briand se enganara; ele conhecia mal a Sra. d'Armi.
Ela não era capaz de indicar ao seu querido João o caminho para o pote de ouro, pois desejava usufruir dele sozinha.
Se soubesse o segredo, João se livraria dela...
Lourença contudo não desejava o sumiço do marido, já que manipulava o Barão como uma arma dócil.
Tomado de mal-estar que o inquietava, o Conde deu permissão para que a visita fosse recebida.
Passados alguns minutos entrou no aposento um senhor distinto e garboso — o Barão d'Armi.
Estendeu a mão cordialmente ao Conde e transmitiu as lembranças da esposa; depois, visivelmente cansado e ofegante pela marcha rápida, deixou-se cair na poltrona.
Briand fitava o Barão cheio de curiosidade e ao mesmo tempo que lhe respondia com frieza e reserva.
João era um homem alto, apresentando traços já envelhecidos.
Um sorriso alegre não abandonava seu rosto; seus pequenos e penetrantes olhos cinza nunca se fixavam no interlocutor, fugindo de qualquer olhar que pudesse descobrir seus pensamentos íntimos.
O Conde achou dever convidar o hóspede a acompanhá-lo no desjejum, convite este prontamente aceito.
Comendo com grande apetite o Barão tagarelava de tal modo animado, que distraía seu anfitrião; o convidado falava tão alto e tão rápido que suas palavras soavam como um zumbido forte, sendo que Briand começou a considerar os modos dele um tanto divertidos; somente mais tarde ele compreendeu que tal falatório era uma artimanha e que sob a amável e bondosa aparência exterior do Barão se escondia a hipocrisia, a cobiça e a crueldade.
Após a refeição, os dois passaram ao gabinete do Conde.
D'Armi se atirou à poltrona, e, meditando em algo, ora esfregava o queixo, ora revistava os bolsos nervosamente; Briand o fitava em silêncio aguardando a ocasião oportuna para fazer uma pergunta que trazia engasgada na garganta, desde a chegada dele.
Queria saber se tinham tido alguma notícia sobre o destino de Diana, mas, antes que o Conde conseguisse abrir a boca, d'Armi se levantou rapidamente e tirou do bolso uma carta.
Dando-a a Briand, falou em tom alto, sem tomar fôlego:
— Oh! Finalmente me lembrei de que minha esposa me pediu que lhe entregasse este bilhete.
Abrindo a carta Briand leu o seguinte:
"Querido Conde, quando ontem você perdeu quinhentos escudos eu lhe emprestei com todo prazer esta soma.
Pensei que poderia aguardar, mas dificuldades inesperadas me obrigam a lhe pedir que devolva esta bagatela a meu marido."
Saurmont esperava uma chantagem; admirado pelo comedimento do pedido, apressou-se em devolver a quantia ao Barão, que, com visível satisfação, colocou-a no bolso.
O episódio só desviou a atenção do Conde por um minuto; com sua habitual persistência retomou o propósito de perguntar ao Barão a respeito da sorte de sua pequena viúva.
— O senhor sempre vem a Paris, Barão?
Seria agradável poder encontrar sempre o senhor e sua esposa, pessoas com as quais simpatizo muito.
Tem uma grande família? perguntou ele ao mesmo tempo que seu coração começava a bater com mais força.
— Não, nós estamos por aqui só de vez em quando; normalmente ficamos no meu castelo d'Armi, respondeu com calma.
No que se refere a minha família ela é bem pequena.
Sou casado pela segunda vez; de meu primeiro casamento tenho somente uma filha, uma criança que se pode dizer - é mais do que encantadora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:38 pm

O coração de Briand palpitava com mais força ainda.
Esforçando-se ao máximo, ele conseguiu deter o afluxo de sangue que traiçoeiramente ruborizava suas faces.
— Sua filha vive? perguntou ele se virando.
— Bem viva; e eu lhe digo que ela é maravilhosa como um anjo.
A vida de minha pequena Diana é repleta de tragédias; um dia destes contarei suas desditas.
Mas, diga-me, caro Conde: por acaso não somos vizinhos?
Minha propriedade faz divisa com as extensas terras de São Germano, cujo proprietário possui o mesmo sobrenome seu.
— Realmente possuo terras em Anjou e São Germano, lugar que é inclusive o berço de meus ancestrais, respondeu Briand com indiferença.
D'Armi no entanto se encheu de contentamento:
— Oh, nesse caso esperamos ter a felicidade de vê-lo um dia qualquer em nossa casa.
Então lhe mostrarei Diana.
Agora ela ainda se encontra no mosteiro, mas assim que voltarmos ao castelo eu a levarei de lá.
Assim que o Barão partiu, Briand se trancou num aposento, na tentativa de serenar o sentimento pesado que o atormentava.
Não somente Lourença com seu génio pérfido o dominava, mas além disso Diana estava viva e poderia ser uma perigosa arma na mão de seus oponentes.
Esta preocupação superou o pálido sentimento de consciência
aliviada por não ter matado a criança.
Com um suspiro rouco o Conde fechou os olhos e largou o corpo na poltrona.
Ele novamente se viu no bosque com Diana nos braços, que timidamente se agarrava a ele; parecia-lhe que sentia o toque das pequenas mãozinhas e das faces macias da menina ao mesmo tempo que ouvia a voz dela entrecortada pelas lágrimas:
"Será terrível sem você, Carlos!"
Vinha-lhe à mente a imagem da criança em mudo desespero, ajoelhada sobre as folhas.
Que milagre a salvou?
Alguns dias depois d'Armi tornou a visitar o Conde e o convidou com tanta insistência para almoçar que Briand não pôde recusar.
A partir dessa visita reiniciava o estranho poder que Lourença tinha sobre o rapaz.
Ela era carinhosa e amável com Briand, mas sabia manter uma distância prudente, evitando ter que lhe pedir dinheiro emprestado.
Aos poucos e imperceptivelmente readquiria o antigo poder sobre ele; juntamente com o marido ela acompanhava o Conde em seus divertimentos e estimulava as fraquezas dele.
Algumas semanas foram suficientes para que o casal se tornasse indispensável a Briand; em companhia de d'Armi o rapaz passava as noites mais agradáveis.
Para aquela época, o Barão era considerado um homem de elevada cultura; distinguia-se pela inteligência aguçada, por ser um excelente interlocutor e por partilhar com o Conde da paixão pelas ciências ocultas.
Desde o tempo de sua viuvez, Saurmont se aprofundou no estudo da astrologia, encontrando no Barão um óptimo companheiro de conversas sobre o assunto; além disso a Sra. d'Armi soube despertar o interesse de seu "novo" amigo pela política, apresentando-o ao Duque de Guise.
Em breve Briand se tornou membro influente do partido católico.
O receio despertado no Conde ao reencontrar Lourença e o marido se dissipou completamente.
Somente as recordações de Diana lhe traziam certa espécie de angústia.
Aproveitando um minuto apropriado ele perguntou, um tanto vacilante, à Baronesa, de que maneira a menina poderia ter escapado da morte no bosque.
Essa pergunta desagradou bastante a Sra. d'Armi.
— Naturalmente é triste para você que a criança não tenha morrido, ela respondeu com despeito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:38 pm

Seu próprio génio do mal, Briand, fez com que ela fosse poupada.
Somente os mortos calam e não aparecem novamente.
No que toca a Diana, João me contou que a menina conserva bem viva lembrança do episódio.
Quem sabe? Pode ser, inclusive, que ela o reconheça...
— Isso não é possível. - murmurou ele.
— Não diga!...
Na ocasião ela reconheceu João!...
E a Baronesa contou como Diana foi apanhada por acrobatas errantes e de que maneira ela conseguiu reconhecer o pai, apesar de ele estar sentado abaixo do estrado de representação.
Por outro lado, João d'Armi lhe contou a história do casamento de Diana com um odiável Mailor que, fingindo ser pobre, induziu ao erro sua maravilhosa esposa; o Barão elogiava com tanta frequência a beleza da filha que o Conde começou a suspeitar que era seu desejo casá-la com ele.
Essa ideia fazia com que Briand se risse sem motivo.
Sim, o Conde sentia um certo pesar ao ouvir o nome de Diana.
Movido por um pressentimento vago, interrogou os astros sobre o futuro e sobre um possível encontro com Diana - todas as vezes o horóscopo respondeu que a encontraria inevitavelmente e que ela teria um papel fatídico em sua vida.
E assim se passaram alguns meses.
No começo do verão o Barão e sua esposa comunicaram que era imprescindível que partissem para o Castelo d'Armi.
Eles convenceram Briand a acompanhá-los até Anjou e a passar o tempo caçando em São Germano, bosque centenário, famoso pela profusão de animais.
Ainda que estivesse contra a ideia de aparecer novamente no lugar de acção do falecido Mailor, o Conde, como sempre, acabou se deixando convencer por Lourença.
No final de julho de sessenta e nove, os três juntos deixaram Paris.
Chegando em São Germano, Briand, após descansar da viagem, tratou de visitar suas terras e organizar uma caçada que fosse digna de um príncipe.
Com esse objectivo o Conde ia constantemente a Angers.
Devido a um processo o Barão e a esposa também passavam a maior parte do dia na cidadezinha.
No castelo d'Armi até o momento Briand não havia voltado. Um certo impulso irresistível fazia com que evitasse esse lugar repleto de recordações criminosas.
Certa vez, no começo de setembro, o Conde sentiu o desejo de fazer um passeio pelos arredores; o tempo estava estranho, por isso Briand esperava em breve estar no castelo d'Armi.
Sem que ninguém o visse, queria ver o local onde viveu e agiu sob o nome de Barão Mailor.
Distraído, absorto em recordações tristes, ele se afastou do castelo bem mais do que pretendia; caiu a noite quando o Conde percebeu o quanto tinha se afastado.
Voltando-se para trás, esforçava-se em se orientar e encontrar o caminho mais próximo.
Passando pela azinhaga , com surpresa desagradável notou que estava na trilha que levava à Clareira da Cruz Negra.
Um inexprimível sentimento de angústia e medo tomou conta de seu coração.
Sob o dossel espesso do bosque, a escuridão era quase total.
Cansado, o cavalo mal conseguia se locomover a trote curto.
O Conde seguia em silêncio, evitando olhar para os lados, porém ao se aproximar da clareira onde o caminho se bifurcava e no centro da qual havia uma cruz, seu olhar amedrontado insistia em se fixar no local onde em um certo dia Henrique matou Roberto e no qual fora trazido outro cadáver, morto pouco antes.
Nesse minuto o cavalo se sobressaltou, parando tão repentinamente que o Conde quase caiu da sela; o rapaz queria ir embora o mais depressa possível, mas em vão tentou com o esporão e o açoite que o animal saísse do lugar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:38 pm

O cavalo se recusava a prosseguir.
Respirando com dificuldade, pêlo arrepiado, o corpo do bicho tremia todo, ao mesmo tempo que parecia estar pregado à terra.
Briand começou a suar frio.
A aproximação de um perigo desconhecido o enchia de pavor supersticioso; seu olhar perturbado vagueou pela clareira imersa na pálida penumbra.
De repente, por sobre a copa das árvores surgiu o disco lunar.
Sob sua luz prateada Briand viu a alguns passos dois abomináveis fantasmas ensanguentados.
Ele não tinha dúvidas quanto à origem não carnal dessas criaturas, que, como nuvens de prata, pairavam a meio metro do solo.
Deste par disforme começavam a se delinear claramente dois torsos e suas cabeças animadas, apresentando olhos móveis.
Com a rapidez de um relâmpago os fantasmas se colocaram ao lado de Briand, agarrando o cavalo.
O Conde não podia se enganar: era Roberto e o desconhecido assassinado por Henrique.
Um ódio selvagem lhes deformava as feições e inundava de sangue seus rostos; o olhar terrivelmente fixo das criaturas se concentrava em Briand, que emudecido e paralisado, parecia haver perdido até a capacidade de pensar.
Ele, trémulo, endireitou-se; o próprio pavor gigantesco que o paralisava dirigia seus actos.
Aí ele recordou uma formula mágica que - conforme as palavras de um livro de feitiçaria - eram empregadas para afugentar almas perversas; com a mão tremendo apertou a cruz de ouro que trazia pendurada no pescoço e gritou:
"Vade retro, satana!" (recua, satanás!).
O Conde ouviu uma gargalhada estranha e estridente; logo os vultos recuaram e desapareceram no ar.
O cavalo imediatamente se pôs a caminho como se houvessem retirado uma barreira de sua frente.
Briand apenas o guiava maquinalmente; passada uma hora de galope em meio à escuridão ele parou frente às grades do castelo d'Armi.
Atendendo ao ressonante som do sino, o criado veio às pressas lhe abrir o portão.
Mas as forças o abandonaram, as rédeas se lhe escaparam das mãos, e ele teria caído do cavalo se os criados que vieram recebê-lo não o segurassem.
Voltando a si o Conde não disse palavra sobre a visão e atribuiu o desmaio ao seu cansaço enorme.
Mas... o medo experimentado havia sido tão forte que ficou de cama por alguns dias; a ideia de as vítimas sobreviverem à morte do corpo, e, tomadas pelo ódio, sedentas de vingança, poderem perseguir seus assassinos, atormentava-o como um pesadelo.
Esforçava-se ao máximo para se libertar desse terrível trauma; finalmente para se livrar dessa fraqueza supersticiosa, Briand se convenceu de que fora vítima de uma ilusão.
Retornou a Paris, e ao invés de passar seis semanas como planeado, acabou permanecendo todo inverno.
Durante esse tempo se imiscuiu em todas as intrigas do Partido Católico.
Regressou a Anjou somente na primavera de 1570, atendendo aos convites incessantes que Lourença e o marido lhe faziam por carta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 7:38 pm

II. O RETORNO DO CONVENTO

Durante muitos anos, desde o tempo em que recomeçamos o nosso relato, Diana continuou a viver rio mosteiro.
Essa vida monótona e tranquila teve uma influência benéfica em sua saúde.
Agora estava alta, esbelta e se distinguia pela deslumbrante alvura de sua tez.
Os olhos azul-escuros eram emoldurados pelos cílios e sobrancelhas negras.
Os loiros e dourados cabelos da tal coloração que Tissiano imortalizou davam-lhe uma original e extraordinária beleza.
No aspecto moral era uma criança séria, embora de natureza orgulhosa e irascível.
Sobre seu passado trágico ela conservava uma clara recordação e profundo ódio contra o Barão Mailor.
Agora ela compreendia que ele saqueara seus bens e a deixara na miséria, com o título ilusório de Baronesa.
Quando comparava sua vida solitária, sob a dependência material da Abadessa, com a riqueza e amor que cercavam suas amigas, sua alma se enchia de amargor e tristeza.
Nos primeiros anos d'Armi, de tempos a tempos, visitava a filha, mas há oito anos já não vinha visitá-la e todos a tratavam como uma órfã.
Ela, sozinha, ainda tinha esperança, no fundo da alma, de que seu pai apareceria.
Sob tais difíceis circunstâncias a criança cresceu e seu carácter se modificou.
A alegre e confiante menina se transformou em uma insegura e irascível moça, fechada em orgulho.
Em vão Madre Odila lutava contra esses defeitos que perturbavam a amorosa e generosa alma de Diana, capaz de qualquer sacrifício.
Todas suas forças não conduziam a nenhum resultado.
De natureza apaixonada e extraordinariamente agitada, era sempre capaz de se arrastar sob a influência do instante.
Desde o momento em que Diana parou de ser uma boneca para suas amigas, restou-lhe apenas uma amiga - a Condessa Clemência de Montfort.
Ela era seis anos mais velha.
Com amor e protecção constantes, conquistara por completo o coração de Diana.
Clemência também era casada; descendendo de uma família católica nobre, aos seis anos ela já estava casada com um rapazinho de treze, Armando de Montfort, mas como seu maridinho era huguenote, então a família de Clemência resolveu que até os dezasseis anos ela se educaria no convento para que fosse instruída firmemente na fé de seus antepassados.
As duas jovenzinhas frequentemente conversavam sobre seus(15) huguenote destinos.
Só que Clemência falava sobre as festas brilhantes, os presentes principescos, as semanas alegres, as acomodações do Castelo de Montfort; Diana transmitia tristes recordações e contava a criminosa tentativa de abandoná-la na floresta para que todas as possíveis abomináveis maldades lhe ocorressem, imaginadas por seu marido...
Todos os verões o Conde Armando visitava sua esposa.
Ele vinha então com a mãe e com o irmão caçula.
E durante três dias reinava a mais completa alegria na sala de recepção da Abadessa, sempre repleta de presentes e guloseimas, trazidos pelo jovem Conde.
À medida que Clemência crescia e se transformava em encantadora jovem, a separação se tornava para as duas mais difícil.
Mas o jovem casal esperava com impaciência o momento em que finalmente estariam unidos para sempre.
Quando Clemência apresentou seu marido à amiga, logo se simpatizaram.
Desde então Armando trazia presentes para Diana e sempre parte das frequentes encomendas ali chegadas eram para Diana, vindas do Castelo de Montfort.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:21 pm

Clemência estava encantada.
Ela disse à amiga que seu cunhado Raul a achava encantadora e ela e Armando decidiram levá-la consigo, caso seu pai não aparecesse.
Diana iria viver no Castelo de Montfort como irmã e depois a casariam com Raul, que concordou inteiramente com esse plano.
Por mais que esse facto representasse algo de alvissareiro, pertencia ao futuro e o futuro estava distante.
Quando chegou o momento da separação das duas, a pobre Diana chorou amargamente.
Ela acompanhou até a liteira sua amiga que também estava emocionada.
Elas se prometeram escrever mútua e frequentemente.
Quando o último cavaleiro do brilhante cortejo que conduzia a jovem Condessa despareceu ao longe, a triste Diana, em desespero voltou à cela do convento.
Os dias se seguiam e não havia nenhuma modificação no destino da jovem.
D'Armi não aparecia.
A única alegria de Diana eram as cartas que de tempo em tempo chegavam do Castelo de Montfort.
Clemência não esquecia sua pequena amiga e lhe dava algumas informações de sua vida calma e magnífica.
Assim Diana soube do nascimento de seu filho; a morte de sua sogra; o perigo a que ficou exposto Raul numa viagem de negócios a Anjou, quando saiu ferido; a difícil doença de seu filho.
Após algum tempo chegou também uma carta anexada à Abadessa, na qual a Condessa pedia confiar-lhe Diana, assim que completasse dezasseis anos.
A Senhora de Montfort acrescentava que no tempo determinado pela Abadessa ela própria viria buscar a amiga.
Diana, feliz, suplicou à Madre Odila que a libertasse o quanto mais rapidamente possível.
Mas Odila se achava na obrigação de manter a promessa feita ao Barão d'Armi, na qual se comprometera ficar com a jovem enquanto não completasse dezasseis anos e ainda faltavam quatro meses.
Depois então ela, com prazer, a confiaria à Sra. de Montfort.
Nesse sentido Odila escreveu uma carta à Condessa convidando-a a vir ao convento buscar a amiga no fim de setembro.
Passados dois dias após o recebimento da carta, Diana estava no aposento da Abadessa, conversando com ela sobre o pequeno dote que queria prover a jovem, quando de repente retiniu o sino anunciando a chegada de algum visitante.
Após alguns instantes entrou um cavalheiro acompanhado do criado; um largo chapéu de feltro enfiado até os olhos impedia de se ver as feições, mas qual não foi a surpresa das duas mulheres, quando a irmã que tomava conta do portão informou a chegada do Barão d'Armi.
Diana empalideceu terrivelmente e se encostou à parede; a alegria e a emoção lhe tiraram a capacidade de falar, parecendo-lhe que apenas o som desse nome já lhe dava o restabelecimento de sua posição social, de sua família e de protecção legal.
Quando o Barão entrou no aposento, Diana, num impulso, se lançou em seus braços.
D'Armi abraçou-a fortemente e cobriu-a de beijos, mas se lembrando da Abadessa, delicadamente afastou a filha e se aproximou da Madre Odila.
Beijou sua mão murmurando palavras de agradecimento.
— Sua chegada para nós é verdadeira surpresa, Sr. Barão.
Confesso, cheguei a pensar que tivesse morrido...
Logo serão oito anos e como não temos nenhuma notícia... - falou ela com um sorriso de freira.
D'Armi perturbou-se; como de hábito pôs-se a falar sobre assuntos importantes, infelicidades familiares e as exigências do serviço.
Depois, interrompendo, virou-se rapidamente para Diana, e a olhou com admiração.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:21 pm

Daí ele exclamou extasiado:
— Mas você se tornou uma linda mulher, minha filha!
Tal beleza divina lhe é uma completa fortuna!
Agradeço você ter se tornado uma das primeiras belezas da França.
Juro pelo sangue de Cristo que lhe encontrarei um brilhante partido.
A Abadessa franziu as sobrancelhas e voltando-se com olhar severo para d'Armi disse em tom de desaprovação:
— Seu orgulho paternal, Barão, e a alegria do encontro com a filha inspiram-lhe estranhas palavras, pouco cristãs.
A beleza física é um dom frágil e perigoso; frequentemente ocorre ser fatal.
É digno de um profundo pesar aquele que baseia nele suas ambições e esperanças.
Tudo fiz para enobrecer o espírito de Diana e lhe incutir sólidos princípios e virtudes; com a ajuda de Deus que isto não pereça!
Os enfeites da alma irão ampará-la na vida.
O Barão enrubesceu:
— Sem dúvida, respeitável Madre, estava dizendo tolices.
Peço que me desculpe, assim falei em virtude da minha alegria. Que pai não sonha com o futuro brilhante para sua filha?
Concordo com a Senhora que a verdadeira beleza é da alma - isso constitui a felicidade da minha Diana.
— Bem, no essencial nós concordamos.
Mas diga-me, Barão, o Senhor chegou para me raptar Diana?
— Sim e não, estimada Madre Odila.
No momento actual estou indo a Paris por encargo do Duque de Guise, mas dentro de quatro ou cinco dias voltarei a Anjou e, como nessa ocasião ela já terá completado dezasseis anos, então eu, com a sua permissão, virei buscá-la.
Agora mesmo, peço-lhe, pegue este dinheiro e o empregue no enxoval compatível com a origem dela.
A senhora sempre foi tão bondosa para com ela, que eu espero não recuse em me atender este último pedido.
Nessa mesma noite ele partiu, tendo antes combinado todos os detalhes com ambas sobre a partida de Diana.
A alegria de Diana se transformou em tristeza incontrolada.
O pai a desapontou.
Tinha a impressão de que ele havia provocado na Abadessa uma impressão desagradável, o que mais ainda a embaraçava.
Quando foi enviado um mensageiro à Condessa de Montfort com a notícia da mudança do acontecimento, o coração de Diana se entristeceu enormemente.
Mas - o que é próprio da mocidade - o prazer de escolher tecidos, provar vestidos, a despreocuparam e a distraíram.
Queria entrar nesse mundo desconhecido para ela onde tudo parecia fascinante e lhe parecia que o futuro muito lhe prometia.
Mas Diana se sentia profundamente amargurada.
Ao tempo combinado chegou apenas uma carta do pai na qual informava que assuntos imprevistos o obrigavam a adiar a partida em alguns meses e, nas últimas linhas, fixava o mês de abril.
Os meses de inverno passaram como de costume monotonamente na vida do mosteiro.
Apenas um acontecimento muito importante para a comunidade transformou essa vida pacífica:
o velho sacerdote morreu e foi substituído por outro bem diferente em relação às freiras e pensionistas.
O Abade Gabriel ainda era jovem.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:22 pm

Tinha beleza aristocrática, era altivo e tinha maneiras de uma pessoa da alta sociedade.
Logo se estabeleceu um extremo contraste com o velho sacerdote alegre e amante da comida, que tinha morrido de indigestão.
A profunda religiosidade do Pe. Gabriel e sua sombria tristeza faziam com que todos se relacionassem com ele com respeito e simpatia, dado sua existência compenetrada.
As freiras e educandas se curvavam diante da sua branda mas enérgica vontade.
Diana, principalmente, submeteu-se à sua influência.
O olhar triste e severo do Abade tinha o dom de interromper seu acesso de ira e orgulho muito mais rapidamente que todas as longas conversas do calmo confessor ou da persuasão da Abadessa.
À medida que se aproximava à hora da partida Diana considerou todas suas preocupações:
a lembrança da madrasta a perseguia; toda vez que sua figura e seu rosto coberto de compressas surgiam em sua mente, um indescritível sentimento de medo e repugnância lhe apertavam o coração.
A imagem de Mailor também mais vivamente ressurgiu na memória da Diana.
A ideia de ver novamente os lugares onde ele tinha vivido e viver no castelo onde ele tinha sido enterrado lhe encheram o coração de ódio furioso.
Apenas nos primeiros dias de maio chegou a carta do Barão.
Ele se desculpava de não poder vir pessoalmente e enviava uma senhora de confiança e quatro homens para a escolta da filha.
A mulher enviada, alta e magra, não agradou a Diana nem à Abadessa; a futura acompanhante usava uma submissão bajulatória com que se submetia à jovem Baronesa, mas... não havia escolha.
Os últimos preparativos foram rapidamente concluídos e as bondosas irmãs e pensionistas competiam umas com as outras na demonstração de amor àquela que as deixava.
Cada uma lhe trouxe um mimo, um pequeno presente ou palavras carinhosas.
Conforme pedido da Madre Odila, Diana se confessou e comungou na véspera da partida; as palavras do Pé.
Gabriel lhe causaram profunda impressão e nunca ela o fez com tanta humildade e devoção.
— Minha filha. - disse o Abade, quando Diana se pôs de joelhos no confessionário, este momento uso na intenção, não tanto para a confissão, mas para uma conversa séria.
Os pecados aqui cometidos não foram mais que leves faltas.
Agora pecados dos mais diversos tipos, lutas e tentações vão incitá-la quando sair deste refúgio de paz.
O mundo, minha menina, é uma arena de batalhas encarniçadas, onde se chocam todas as paixões e se disputam grosseiramente todos os interesses.
Uma mulher jovem e bonita está mais sujeita a esse perigo do que todos os outros.
Certamente não sei qual o destino que Deus lhe está reservando, e, diante das atuais circunstâncias, você será obrigada a defender os princípios e virtudes que lhe foram aqui mostrados.
Mas, pelo que sei, resistir à maldade, às vezes, é muito difícil.
Nesses minutos é preciso chamar por todas as forças da bondade, pois a maldade cometida por nós, vinga-se de nós mesmos.
Não é Deus, fonte de bondade, que nos pune, mas nossos próprios desejos nos aniquilam e nossa consciência nos julga.
E assim, Diana, seja virtuosa para você mesma.
Tomara que sua alma seja tão limpa que qualquer um possa olhar não a deixando ruborizada!
E que o dever a oriente e a mantenha nas experiências da vida.
Procure não errar.
Após a curta confissão, ele acrescentou:
— Mas agora me diga:
está em paz com todos?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:22 pm

Sua alma não está perturbada pela maldade contra alguém?
Diana, com lágrimas nos olhos, emocionada, o ouvia.
Mas, diante das últimas palavras, com a mobilidade que lhe era característica, levantou a cabeça e seus olhos brilharam de ódio:
— Estou em paz com todos meu Pai; odeio apenas uma única pessoa, o defunto Mailor.
Mas por ele eu nunca pedirei.
— Talvez você não esteja agindo certo, Diana. - disse o Abade, inclinando-se em sua direcção.
Não podemos julgar os mortos, esse direito pertence a Deus.
Esteja certa - a justiça divina é terrível a nós; ela vê aquilo que está escondido de nós e atinge onde nossa mão não pode alcançar.
Sei que este homem agiu criminosamente contra você mas você não pode se vingar por causa dessa Lei da qual lhe estava falando; essa Lei irá derrotá-lo bem melhor que o seu fraco ódio.
Nesse momento Diana se achou derrotada, mas depois disse:
— O senhor está certo, meu Pai!
Se Deus tomar a si a punição dele, que é tão malvado, certamente fará melhor do que eu.
Ele o mandará para o inferno e então já não poderei odiá-lo.
O Padre balançou a cabeça em assentimento e um sorriso melancólico surgiu em seus lábios.
— Você interpreta muito estranhamente minhas palavras.
Deixe pra lá.
No momento actual esqueça seu ódio, Diana, e se coloque plenamente na vontade do Todo Poderoso.
No dia seguinte, após uma difícil despedida de ambas - Diana e Odila - e de intermináveis beijos e bênçãos das bondosas irmãs, Diana abandonou o Mosteiro.
De início a viagem transcorreu sem incidentes; emocionada, ora contente, ora angustiada por se aproximarem do lugar onde havia passado sua infância, ela imaginava o prazer de voltar para o lar e viver com o pai querido, vivendo bem com todos.
Diana, com impaciência, perguntava quando chegariam.
Mas a calada companheira de viagem - Agniessa - a incomodava muito, falando com Diana e se relacionando com ela de forma servil, sempre a bajulando, como se Diana fosse uma nobre especial.
Agniessa tinha conseguido que a mocinha viajasse usando uma máscara para evitar os perigos extremos para uma jovem e linda mulher.
Diana começou a questioná-la sobre a madrasta, a vida no castelo d'Armi, os vizinhos e outros interesses, o que fez a acompanhante se tornar quieta e reservada.
Durante o último pernoite Agniessa se sentiu mal.
Durante a viagem sentiu uma forte dor de estômago que, aumentando a tal ponto, a obrigou a ficar numa aldeia, não aguentando prosseguir.
Diana quis ficar com ela até o dia seguinte, mas o criado que acompanhava a escolta explicou que tinha ordem de chegar nesse mesmo dia, pois o Barão estava impaciente em ver a filha, sendo assim, seria melhor atravessar directamente pelo bosque ao invés de ir por Angers.
Com a possibilidade de se ver novamente naquele bosque Diana se pôs a tremer, rememorando sua terrível lembrança.
Vendo seu pavor o criado, sorrindo, convenceu-a de que a estrada era segura e de que era preciso se apressarem, pois era possível chegar ao castelo no início da madrugada e, em todo caso, quatro homens de escolta eram suficientes para manter os vagabundos e miseráveis a uma considerável distância.
Puseram-se a caminho.
O coração de Diana batia fortemente quando entraram pela estreita estrada do bosque.
As recordações oprimiam sua cabeça.
Tinha até a impressão de que reconheceria, entre os gigantescos carvalhos, aquele em que se escondera naquela terrível noite.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:22 pm

À medida em que a escuridão crescia debaixo da espessa folhagem, aumentava sua intranquilidade.
— Ainda está longe, Tomaz? - perguntou ela afinal, debruçando-se na janela da liteira.
— No mais tardar dentro de uma hora estaremos na clareira da Cruz Negra e de lá até o castelo são exactamente duas horas e meia de viagem. - respondeu respeitosamente o criado.
— Três horas ainda... - murmurou Diana recostando-se no interior da liteira e fechando os olhos.
Transcorreu muito tempo.
Fez-se quase total escuridão.
Cansada e abalada, Diana estava adormecendo quando alguns disparos, gritos e gemidos logo a acordaram.
Em seguida um forte solavanco virou a carruagem de lado.
A portinhola se abriu e duas pessoas mascaradas agarraram a jovem e a obrigaram a sair.
Ela lhes escapou e se agarrando às cortinas gritava por socorro.
Tomaz, com voz desesperada lhe fazia eco:
"socorro! ladrões! bandidos!"
Mas Diana era fraca para se defender durante muito tempo.
Foi então que um bandido conseguiu arrastá-la para fora e ela perdeu os sentidos.
Os atacantes, parecia, tinham vencido totalmente.
Duas pessoas do comboio estavam deitadas gravemente feridas, sobre seus cavalos mortos.
O terceiro também estava morto e apenas Tomaz ainda se defendia desesperadamente, quando apareceu inesperada ajuda.
Três cavaleiros a toda velocidade logo chegaram à clareira, e num piscar de olhos dois bandidos jaziam mortos, o terceiro, ferido, tentava correr.
O restante da quadrilha desapareceu na densa floresta.
O salvador inesperado era Briand de Saurmont, que havia chegado de Paris há oito dias; estava indo ao Castelo D'Armi aonde não ia há seis meses.
Nada sabia sobre a chegada de Diana.
Guardando séria recordação sobre esse antigo lugar, ele havia ordenado acompanhá-lo dois criados.
Saltando do cavalo o Conde se aproximou da liteira e inclinou-se em direcção à impassível viajante.
Ela estava de máscara, mas mesmo naquele ambiente ele notou que ela era jovem e bonita.
— Ah, Senhor Conde!
Foi a própria Virgem Santa Maria que o mandou para nos socorrer. - gritou Tomaz agradecido.
— Como?! É você?!
A quem você está acompanhando? - perguntou Briand admirado.
— A senhorita Baronesa de Mailor, filha do nosso amo.
Fomos buscá-la no Mosteiro.
O Conde estremeceu e no mesmo instante se sentiu empalidecer.
O estranho acontecimento o surpreendeu, fazendo com que reencontrasse Diana quase no mesmo lugar onde a desejou matar...
Mas, conseguindo se controlar, ordenou Tomaz ajudá-lo a levantar as pessoas feridas.
Depois, quase instintivamente, arrancou a máscara de um dos bandidos e a colocou.
Somente após tomar essa precaução é que levantou a jovem que, com profundo suspiro, voltou a si.
— Nada tema, minha senhora - todo perigo já passou, disse ele, respeitosamente, saudando-a.
Ao som de sua voz Diana estremeceu, endireitou-se e, nervosa, perguntou:
— Quem é o Senhor?
— Eustáquio Briand, Conde de Saurmont, vizinho e amigo de seu pai.
Se me permite eu a acompanho até o castelo; agora mesmo darei as ordens indispensáveis.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:22 pm

Não esperando resposta, ele se encaminhou aos feridos, dando ordens, a um de seus criados, para que cuidassem deles.
Mandaria socorro ao chegar ao Castelo.
Levantaram a liteira.
Como um cavalo estava morto, foi substituído pelo cavalo do criado do Conde; o criado montou o cavalo de seu senhor, Tomaz ocupou o lugar do cocheiro.
Briand pediu permissão a Diana para ir junto na liteira, mas se sentou longe dela.
Ela concordou acenando com a cabeça; percorreu a figura do Conde com ar suspeito e lhe demonstrou descontentamento visível com um olhar severo.
Cachos avermelhados iluminaram nitidamente seu encantador rostinho emoldurado pelo exuberante e dourado cabelo.
Briand se sentia completamente cego e um arrepio percorreu seu corpo quando se sentou tão próximo a Diana na liteira.
Ambos ficaram calados.
A jovem procurava intensamente se lembrar do passado, esforçando-se em lembrar onde ela já tinha ouvido essa voz metálica cujo som lhe tinha despertado milhares de recordações vagas.
De repente estremeceu:
lembrou-se de que tal voz era de Mailor e, inclinando-se subitamente a seu acompanhante, perguntou:
— O Senhor frequentava a casa de meu pai, senhor de Saurmont, quando eu era criança e morava no Castelo d'Armi?
— Não, Baronesa.
Apenas no ano passado, em Paris, travei contacto com seu pai.
Não será indiscrição de minha parte se seu lhe perguntar por que a senhorita me faz essa pergunta?
— Bem, pois como o senhor é nosso vizinho, sua voz me é parecida. - Diana respondeu indecisa.
Ela não podia estar errada.
A voz surda, levemente rouca de Saurmont era exactamente a de seu velho Carlos, quando nessa mesma floresta, ele lhe disse:
"vamos passear um pouco.
Você poderá colher as belas campânulas azuis que crescem nas laterais da estrada”.
E isso não se tornou uma simples brincadeira...
Um sentimento de saudade contida, raiva, lástima e estranha adoração encheram a alma de Briand.
A encantadora jovem ali sentada a seu lado era Diana e a ofegante respiração que ele ouvia na estreita liteira provinha dela.
Ela o agradava como ninguém ainda o havia agradado antes, e, além disso, um imenso abismo os separava - ela era sua viúva!
O ódio que ela deveria sentir pelo perseguidor de sua infância parecia lhe dar uma segunda visão, permitindo quase reconhecer Mailor no Conde de Saurmont.
Reprimindo um fundo suspiro, Briand enxugou o suor frio que lhe apareceu na testa.
Seu delito passado lhe surgiu inteiro na mente, desta vez lúgubre e zombeteiro.
Nunca havia imaginado que a ameaça de Némesis poderia ser tão cruel.
Mas ele sentia que, se desejasse desviar a suspeita que havia surgido em Diana, era preciso usar de toda presença de espírito.
Com esforço e boa vontade, reprimiu a furiosa tempestade que irrompia em sua alma e iniciou uma conversa sobre generalidades, na qual ele habilmente dava a entender que quase toda totalidade de sua vida havia passado na Espanha e apenas no ano passado tinha chegado a São Germano.
Diana quase esqueceu a suspeita passageira quando chegaram ao Castelo d'Armi.
Inicialmente o Barão João recebeu a filha com brados de alegria que logo se transformaram em exclamações de raiva, quando soube do atentado contra sua filha que teria sido terrível, não fosse a intervenção do Conde.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:23 pm

Nesses momentos de emoção ninguém notou o aspecto de decepção de Lourença, diante da aparência da enteada; seu olhar venenoso mal ocultou a raiva quando percebeu que Briand havia salvado Diana.
Com seu característico fingimento a Baronesa dissimulou seus sentimentos.
Aproximou-se de Diana, seu rosto gordo com as bochechas caídas, reflectindo bondade maternal e amável ternura.
Briand discretamente se afastou sob pretexto de dar ordens a respeito dos feridos deixados na floresta.
Ao voltar, todos já estavam à mesa de jantar.
Aproximou-se de Diana e a cumprimentou alegremente pela volta ao lar paterno.
A jovem reuniu toda força de carácter para este primeiro encontro face a face.
Uma espantosa palidez revelava toda sua emoção, quando Diana, num grito rouco, olhando para ele, recuou com indisfarçável pavor.
— Eu tenho a infelicidade de parecer algum bandido, tal o pavor que lhe provoco? - lhe perguntou o Conde com um sorriso um tanto constrangido.
— Você é uma criancinha, minha filha?
Como pode se dirigir desta maneira à pessoa que a salvou?
Este é o mais nobre, generoso cavalheiro que conheço. - disse o Barão d'Armi com descontentamento.
Diana se envergonhou.
— Realmente eu estou confusa.
Mas o Conde se parece tanto com o abominável Mailor, que me surpreende; até mesmo na voz, no olhar, e inclusive nos traços do rosto.
D'Armi soltou uma gargalhada, tomando-a pela cintura; Lourença também riu, mas Briand observou com pesar:
— Para mim é muito difícil que o meu tipo provoque tais tristes recordações e eu lastimo profundamente minha semelhança com tão desprezível pessoa.
— Não, não!
Eu agora vejo que Mailor possuía mais estatura e não tinha esses traços finos de rosto.
Depois, estendendo a mão, ela acrescentou com encantadora ingenuidade:
Desculpe minhas palavras imprudentes e minha ideia estúpida de compará-lo com essa desprezível criatura.
— Eu esqueço e peço que essa comparação pouco lisonjeira para minha pessoa apenas não seja transferida para mim, com esse ódio que ele fez por merecer. - Briand respondeu gentilmente beijando-lhe a mão.
Quando conduziram Diana a seu quarto, o Conde também se desculpou e se recolheu a seus aposentos.
Lourença ficou sozinha e enfim deu acesso à raiva reprimida.
Não era apenas não ter conseguido realizar a tarefa arquitectada de livrar-se da enteada, como também agora sentia instintivo ciúme dela por ter provocado uma profunda impressão em Saurmont.
— Cuidado, mocinha imprestável, por se colocar em meu caminho! - resmungou ela fechando os punhos.
Desta vez o imbecil já não pode despregar os olhos dela.
É necessário ir novamente ao esconderijo na Espanha, que desempenhou para mim um bom serviço no assunto de herança.
Quem sabe se lá eu não ouvirei ou verei alguma coisa de útil?
Briand, com passadas largas, andava pelo quarto.
Ele também tirou a máscara de indiferença e cortesia e no seu abalado rosto se manifestavam os mais diversos sentimentos.
A figura sedutora de Diana estava a sua frente como uma visão tentadora.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:23 pm

Seus sentimentos eram extremamente excitantes.
Ele era suficientemente experiente da vida para compreender que nele já havia se instalado forte paixão - por sua própria viúva!...
Com um sorriso sádico ele se atirou à poltrona e fechou os olhos com a mão.
Mas, com sua natureza enérgica, não se desesperava por muito tempo.
Por que não corrigir esse fracasso?
Diana estava livre e o Barão iria entender como felicidade ter um genro como ele.
Isso mesmo - voltaria para sua própria vítima através de um segundo casamento que daria a ela nome, posição, corrigindo completamente o mal cometido e ele se reconciliaria com a felicidade.
Assim ele se acalmou, levantando-se com nova esperança.
Bateram de leve à porta nesse instante e a voz adocicada de Lourença perguntou:
— Posso entrar, meu amigo?
O Conde empalideceu como um defunto; como pudera se esquecer da terrível cúmplice, a criatura grosseira e traiçoeira que se prendia a ele numa paixão sem fim?
Ele a deixou entrar.
— Bem, meu querido Barão de Mailor, como achou sua viúva?
Lourença perguntava medindo o jovem com um olhar cínico e malicioso.
Ela é bastante bonita!
Tão bonitinha e você deve guardar em segredo seus direitos de marido...
Coitadinho! Ah! Ah! Ah!
Encontrando o sombrio e duro olhar de Briand, ela mudou para um tom sério:
— Aliás eu vim aqui provocá-lo a propósito desse curioso incidente, fazendo você falar no assunto.
Lembre se, Briand, que você é muito culpado com o que fez a essa criança - nós a saqueamos... no meu louco amor por você isso me custou muito remorso à consciência.
No momento actual João e eu nos encontramos em situação lamentável.
Espero que você nos ajude com uma pequena soma para sustentar e vestir sua viúva; isso tudo vai ficar muito caro e sua dívida é sustentar a família que ficou em péssimas condições graças a você; assim como a antiga situação de Diana era boa, agora você tem de nos repor o que recebeu dela, nos livrando desta dificuldade.
— Eu lhe darei uma soma suficiente de dinheiro para compensar as despesas pela educação, mas você entende que não tenho comigo tal dinheiro - disse ele com irritação.
— Agradeço, Briand, pela generosidade, da qual não duvidava.
Mas me permita lhe dar um conselho, sugerido pelo meu amor.
Faça correr a Senhora de Mailor - ela odeia o defunto marido, com o qual, por infelicidade, você se parece tão surpreendentemente; você se arriscaria a sofrer contrariedades, caso manifestasse demasiada atenção.
Contente-se com a mulher que você conhece e cuja beleza já atingiu o completo desenvolvimento e que não teme comparação com nenhuma pensionista insignificante!
Não obtendo resposta dele que a ouvia com raiva, deu-lhe um leve beijo.
Depois, balançando muito seu corpanzil feio, saiu do quarto.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:23 pm

III. UM CRIME SEM REMORSO

A algumas "lieves” da residência do Barão d'Armi, no alto de uma colina coberta por verdejante bosque, erguia-se o Castelo de Beauchamp.
Era um amplo edifício, de tipo feudal, com torre e larga muralha.
Uma aleia magnificamente conservada levava ao portão do castelo.
Desde o falecimento do velho Barão de Beauchamp o castelo praticamente deixou de servir como moradia permanente.
Seu jovem proprietário, René, passava a maior parte do tempo em Paris, vindo ali somente para caçar.
Todavia, em um maravilhoso dia de julho, no qual continuamos nossa narrativa, o Visconde chegou inesperadamente ao castelo para repousar em solidão e se ocupar de leituras e afazeres na propriedade.
No aposento do primeiro andar, mobiliado com luxo excessivo e um tanto pesado para o século XVI, um jovem com vinte cinco anos de idade estava sentado em uma poltrona junto à janela.
Tinha sobre os joelhos um velho in-fólio encadernado em couro.
Seu olhar pensativo e distraído contemplava a paisagem que se abria diante de seus olhos.
Do alto da colina se avistava um vale circundado por florestas.
Da janela se podia ver dois caminhos sinuosos guarnecidos pelas sebes.
O primeiro ia para direita e, atravessando o campo, sumia no meio de denso matagal; o outro, contornando caprichosamente o monte, vinha ao castelo.
O antigo companheiro de brincadeiras de Diana agora era um rapaz bonito, de ar altivo e aristocrático; seu rosto pálido contrastava com os traços finos e perfeitos.
Seus grandes olhos verdes eram acompanhados por longas e negras pestanas.
A boca delineada por lábios finos e de cantos levemente caídos, expressava orgulho e obstinação.
Naquele momento tranquilo a expressão de bondade e serenidade do jovem inspirava muita simpatia; no entanto, qualquer observador atento, perceberia que no fundo desses olhos calmos se escondia uma tempestade, e todo um mundo de paixões refugiava-se atrás dos lábios trocistas.
Era visível que algo inquietava René, ainda que seu rosto jovem e despreocupado pudesse dissimulá-lo.
Ele carregava realmente, terrível amargura, que por tê-lo deixado muito abalado, fez com que viesse ao castelo veio em busca de paz e esquecimento.
Quando chegou ao palácio real o Visconde se apaixonou insensatamente por uma dama de companhia da Rainha-Mãe.
Bonita mas rebelde e leviana, Marion de Marillac era o perfeito tipo daquelas mulheres perigosas e sedutoras das quais Catarina de Médicis gostava de se ver rodeada e que chamava de "esquadrão volante".
Marion não era muito rica, porém era ávida de luxo e roupas caras; ansiava conseguir uma situação financeira sólida, mas diversos motivos fizeram com que seu coração ficasse tomado de rancor e de ódio.
Entre as desilusões, a que mais a havia marcado, fora a traição de um jovem fidalgo, pelo qual se apaixonara perdidamente e que a abandonara para se casar com uma rica herdeira.
Amargurada, Marion aceitou sem vacilar a proposta de René, apesar de não lhe ter nenhum afecto.
Cego pelo amor, o Visconde não viu quem era a verdadeira Marion, atribuindo-lhe todas as virtudes que desejava ter numa esposa, e se casou, esperando encontrar a paz e a felicidade ideais.
Mas logo ele se deu conta da realidade e poucos meses após o casamento, todas suas ilusões estavam desfeitas.
Já sabia que a esposa era cínica, desonesta e se casara apenas por dinheiro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:23 pm

Sufocado de raiva e ciúme, René passou dois anos arrastando uma triste vida de casado.
Entretanto a Viscondessa deu fim ao matrimónio rapidamente, fugindo de casa e indo viver na vila do Duque de Guise do qual se fez amante.
É difícil descrever o inferno vivido por René e sua ira descontrolada quando descobriu os rastros da fugitiva.
Ele decidiu matá-la e o teria feito se não houvesse chegado a Paris seu cunhado, Marquês de Marillac, que o deteve a tempo.
Ele mesmo sobreviveu a um matrimónio catastrófico, que o havia transformado num homem sombrio, calado e inclemente para com as fraquezas femininas.
Ele tinha certa influência sobre René, moço nervoso, impressionável e ainda imaturo.
Aimé o convenceu de que uma mulher como Marion não era digna de amor nem de ódio, e que por ela não se pedia sentir nada mais que desprezo.
Além disso, esse desprezo profundo não admitia lamentações ou súplicas e por isso não permitia que as mãos fossem sujas com o sangue da megera.
O Marquês não gostava da irmã, muito mais nova que ele, nascida de um segundo casamento do pai.
Ademais uma parente muito rica, que baptizara Marion, havia deixado em testamento para ela grande parte de sua fortuna, o que feria os direitos de Aimé e até mesmo o revoltava, já que ele mesmo não era rico.
Se ele não fosse um cristão suficientemente bom, não hesitaria em se livrar da irmã através dos meios da época, e não se acanharia em julgá-la sem clemência, induzindo René à vingança.
Todavia, para ter a satisfação de julgar e castigar a irmã traidora, que se atrevera a sujar sua honra, seu nome, devia se armar dum sangue tão frio e cruel quanto o que mostrara à sua falecida esposa.
Este episódio da vida de Aimé havia sido encoberto e mantido em mistério.
Até o próprio René não sabia ao certo sobre a inesperada morte da esposa do Marquês e de seu filho recém-nascido.
Não querendo parecer indelicado, ele sempre evitou perguntar a Aimé qualquer coisa referente ao assunto.
Tranquilizado parcialmente pelo cunhado, o Visconde se encontrava em condições de ir a Anjou.
Depois de passar algumas semanas em casa de Aimé como hóspede, o jovem partiu para seu castelo onde se retirou como um ermitão.
O amor por Marion havia se acabado, mas a solidão e as recordações amargas o oprimiam.
De repente o som estridente e penetrante de uma trombeta de caça arrancou René de seus pensamentos.
Olhou pela janela e viu o jardineiro subindo na direcção da mansão, na companhia de dois empregados.
Ele se levantou, pondo o livro de lado e após ordenar que o jantar fosse preparado, começou a andar de um lado para outro do quarto, à espera de seu cunhado que, conforme havia prometido, viria visitá-lo.
Um quarto de hora se passou quando o Marquês entrou no quarto.
Após um caloroso abraço, René acompanhou seu hóspede à sala de jantar, onde se sentaram à mesa fartamente servida de frios, vinho e frutas.
Marillac comeu com grande apetite, acompanhando os pedaços de carne com bons goles de vinho.
Ele tinha trinta e três anos; era forte, de porte atlético.
A espessa cabeleira loura emoldurava o rosto corado, sulcado por traços grosseiros.
Nos olhos claros brilhavam orgulho e crueldade.
A boca grande, com dentes muito brancos, conferia a sua estampa uma impressão de energia selvagem.
Vestia uma "camisole" lilás de veludo, trazendo o punhal e a espada.
Depois do jantar os rapazes passaram ao aposento já conhecido do leitor, e se sentaram à mesa na qual havia um tabuleiro de xadrez, uma grande jarra de vinho e duas taças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:24 pm

Aimé estava de muito bom humor.
Contava aventuras de caça, entretendo e divertindo o cunhado.
Só quando alguns temas foram esgotados eles começaram a jogar xadrez, o que absorveu a atenção de ambos.
Logo Marillac se endireitou e, enchendo o copo de vinho, disse em voz alta:
— Esqueci de lhe dizer que hoje encontrei uma pequena e encantadora mulher, bela e delicada como uma fada.
"Par Dieu! "- Como diria o grande Carlos IX que pena, René, você esteja casado!
Poderia se entreter e cicatrizar todas as feridas do coração.
O Visconde, concentrado que estava nas combinações do jogo, ergueu a cabeça surpreso.
— Não compreendo suas queixas.
Você é viúvo.
Se essa dama encantadora lhe causou forte impressão, por que você mesmo não tenta cicatrizar suas feridas?
Ao notar que Marillac corava, René acrescentou:
— Mas me diga onde viu a beldade e quem é ela?
— Hoje não foi a primeira vez que encontrei essa menina encantadora.
Eu a tinha visto antes, duas vezes; na primeira eu estava indo para Anjou e a outra, caçando perto da cabana dos mineiros e da clareira da Cruz Negra.
Trajava um vestido simples, azul, que lhe caía muito bem.
Não pude tirar os olhos dela.
Nunca vi pele tão alva, cabelos tão loiros e olhos azuis claros e grandes com tal sedutora expressão de alegria pura e inocente, que tornava seu rosto ainda mais belo e atraente.
Até parece óbvio que seu olhar angelical nunca guardou um sentimento impuro que fosse e seus lábios sorridentes jamais devem ter traído e mentido.
Cada vez mais perplexo, René seguia as palavras de seu cunhado.
— Aimé, Aimé!
Não estou conhecendo você nisso!
Você é inimigo das mulheres e delira como um adolescente!
Quem é essa mulher sedutora? - perguntou ele, caindo na gargalhada.
O Marquês jogou a cabeleira loira para trás e disse:
— Quanto a isso já andei me informando.
Chama-se Diana, Baronesa de Mailor.
É viúva. O Barão a desposou quando tinha cinco anos.
Ele faleceu há dez ou doze anos atrás.
Actualmente a mocinha vive com seu pai na Mansão d'Armi.
Provavelmente ouviu falar dela, não?
O Visconde, pensativo, apoiou os cotovelos na mesa.
O nome Diana despertava nele mil recordações da infância.
Ele se via novamente na Mansão d'Armi, brincando com sua pequena amiga.
Em suas imagens mentais surgiram, por instantes, as figuras de Lourença e de Mailor.
Ao se lembrar da famigerada caixa de bombons, seus ciúmes e a cena que fizera, um sorriso brotou em seus lábios.
— Uma vez que Diana está aqui, devo conversar com ela - disse ele alegremente; depois, dando um tapinha nos ombros do cunhado, continuou:
"Agora não me surpreendo mais com sua admiração.
Ela deve ter se tornado uma verdadeira obra dos céus."
— Você a conhece? - Perguntou Marillac.
— Sim, eu a conheci na época em que se casou com Mailor - éramos então grandes amigos.
Desde então a perdi de vista.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:24 pm

Acho, Aimé, que você deve aparecer na Mansão d'Armi.
Sei que a viuvez o aborrece e a pequena Baronesa o atrai.
Não será difícil para você conquistar-lhe o coração.
Meiga e pura, ela o fará feliz e no novo matrimónio você esquecerá suas mágoas.
O olhar do Marquês se fez carrancudo e com tristeza e ironia falou:
— As mulheres são traiçoeiras.
Tolo aquele que confiar inteiramente numa mulher.
Diana de Mailor ainda não teve sua natureza estragada, mas existe mulher, mesmo a mais depravada que na aurora da vida não fosse inocente?
Quando a atmosfera contaminada do mundo a. estragar, quando as paixões penetrarem em sua alma, quem pode garantir que ela não haverá de mentir e que seu coração venha a trair a felicidade conjugai?
Não. Eu não quero mais me atrever a entrar nesse jogo terrível e novamente correr o risco de me afligir diante do suplício insuportável de ver a mulher amada preferir outro.
Quando a criatura adorada atinge tal grau de degradação, somos obrigados a fazer justiça com as próprias mãos... e se cria um inferno para toda vida!...
Um inferno de remorsos para uma consciência delinquente.
Ademais a honra e o orgulho sofrem tanto que, no fundo da alma, se forma enorme ferida que só a morte pode sanar.
A voz do Marquês foi mudando gradativamente, fazendo com que as últimas palavras saíssem roucas da garganta.
Sua face corou e as veias do rosto se tornaram salientes como se estivessem prestes a estourar.
Sob a torrente de lembranças desagradáveis, Aimé fechou os olhos e, com os músculos das mãos tensos, dobrou o suporte de prata da taça, como se fosse uma vareta, derramando o vinho na mesa.
René o observava com um misto de medo e curiosidade, surgindo-lhe de imediato na mente as lembranças dos sofrimentos que Marion lhe ocasionara.
O interesse que lhe inspirou o cunhado misturou-se à raiva por Aimé ter evitado que ele resolvesse o seu caso à sua maneira.
Por fim o Visconde estava totalmente tomado pelo desejo de conhecer essa tragédia familiar.
— Aimé! Diga-me como você vingou sua honra e por que quer me convencer a não matar Marion? - perguntou com a voz trémula.
O Marquês se sobressaltou.
Sem responder palavra, levantou-se, jogou a vasta cabeleira para trás e começou a andar pelo quarto.
Depois, parando diante de René, disse com um sorriso amargo:
— Você se convenceu de que não teve força para se vingar; não soube conservar a criatura querida, nem amou como eu.
Mas lhe digo:
é preciso cair no inferno para se tornar um verdadeiro satanás.
— Você pensa que eu não sou capaz de me vingar?
Ainda espero lhe provar o contrário. - disse René ofendido e ruborizado.
— Acalme-se, eu não quis dizer isso.
Se você amar novamente será de maneira diferente daquela que amou Marion, que pouco a pouco acabou com o sentimento que você nutria por ela.
Isso foi a sua infelicidade, já que suas mãos não se mancharam com a culpa de assassinar uma criatura que só merece desprezo mas, se uma nova traição apunhalar seu coração, e você amar como eu amei, ao ter consciência de sua própria vergonha, não duvido de que se vingará cruelmente.
Agora escute, matarei sua curiosidade, contarei o que se passou entre mim e minha esposa.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:24 pm

"Casei-me com uma francesa por amor, idolatrando-a cegamente.
A má conselheira, a vaidade, me insinuou que sendo jovem, bonito e gostando dela, não teria dificuldades em conquistar seu coração.
Por dois anos nada perturbou nossa união.
Mas faltava apenas uma felicidade:
termos um filho, um herdeiro.
"Nessa época um triste acontecimento me tirou do lar.
Meu velho tio Bispo adoeceu gravemente e, pressentindo o fim próximo, pediu que fosse vê-lo.
A estima, o respeito, bem como importantes interesses da família exigiam que eu partisse, contudo não tencionava me demorar muito.
O céu, no entanto, quis que fosse diferente.
"Assim me pus a caminho da Normandia.
A enfermidade de meu tio se prolongou por muito tempo, depois do que ainda fui obrigado a ficar para tratar dos negócios da herança e também para me recuperar do meu próprio estado de saúde.
"Todo esse tempo mantive uma activa correspondência com minha querida francesa.
Pedi-lhe inclusive que viesse juntar-se a mim, porém ela se negou, invocando problemas de saúde.
"As cartas dela ora eram lacónicas, secas, ora cheias de carinho; deveriam me dar ideia de seu estado de espírito, contudo estava cego e por isso não percebi o estranho e hesitante acanhamento, a quase vergonha com a qual ela me comunicou que estava grávida.
Não cabia em mim de felicidade.
Os dois meses que ainda deveria passar na Normandia me pareciam uma eternidade.
Nesse ínterim não recebi mais nenhuma carta e comecei a me preocupar seriamente.
"Já havia decidido partir quando caiu em minhas mãos uma carta destinada ao meu criado Lourenço.
A correspondência chegara de Marillac, por isso abri sem vacilar.
Ao lê-la fiquei atordoado.
"A carta era de meu velho roupeiro, o pai de Lourenço.
Cheio de tristeza e indignação o criado fiel perguntava quando regressaríamos, pois contava ao filho o caso infame que se desenrolava no castelo entre minha esposa e um vizinho, e como os dois começaram a se recolher em um pavilhão de caça.
Terminando, o roupeiro comentou que suspeitava, e com fundamento, da verdadeira origem da criança a nascer.
O Marquês parou, respirando com dificuldade.
Dominando-se, continuou:
"Foi um milagre eu não ter perdido o juízo; acho que o ódio e a sede de vingança me mantiveram lúcido.
Nessa mesma noite parti.
Durante a longa viagem tive tempo de me acalmar e reflectir melhor.
"Quando imaginava o rosto alvo e belo de minha esposa, chegava a duvidar de sua culpa.
Então me perguntava se oito meses eram suficientes para esquecer o companheiro amado.
Mas quando o pensamento se fixava no meu feliz oponente, a traição se configurava óbvia.
O Conde Gabriel de Montfort era um dos homens mais sedutores que eu já conhecera.
Consciente de minha vaidade funesta, eu devia reconhecer que ele era mais atraente que eu.
"Essa falta de semelhança entre nós dois ainda mais avivou meu ódio.
Se minha mulher houvesse se apaixonado por um homem parecido comigo seria mais fácil de perdoar.
Conhecia o Conde, esteve em Anjou quando me casei, e pelo visto, se interessou por minha esposa.
Um pouco antes de eu partir ele havia recebido de herança terras pegadas às minhas propriedades.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:24 pm

Com toda certeza, ao vir tomar posse das terras aproveitou a ocasião para me conquistar a mulher.
"Fervia dentro de mim com essa ideia e, convicto, decidi liquidar minha esposa e seu filho.
"Guardar a traição e perdoá-la não podia.
Expulsá-la significaria jogá-la nos braços do amante, que, claro, a acolheria.
Estes pensamentos me ferviam o sangue, e você pode imaginar como eu me sentia.
"Era noite quando cheguei à mansão.
Proibi quem quer que fosse que anunciasse minha chegada.
Passei em frente ao quarto da Marquesa que, naturalmente, não me esperava.
"Deitada no divã, estava tão concentrada lendo um bilhete que nem sequer ouviu meus passos.
De repente notou minha presença.
Sem dúvida nenhuma minha expressão não pressagiava nada de bom, fazendo com que ela empalidecesse e saltasse do divã.
"O bilhete caiu de suas mãos.
Sem dizer uma palavra o apanhei e li.
Era uma carta de Montfort, escrita com tais expressões que não restavam dúvidas de sua culpa.
"Permita-me passar em silêncio pela cena final.
Fiquei totalmente fora de mim.
Desse momento guardo uma pálida lembrança do rosto dela, que também estava fora de si.
Sem vacilar me confessou tudo.
Rastejava de joelhos e implorava para castigá-la da maneira que julgasse melhor, suplicava até que a trancasse em um convento, só não queria que eu me vingasse de seu amante.
"Por que não a matei nessa maldita hora?
Até hoje isto é um mistério para mim.
Entrei em torpor como se estivesse bêbado, só voltando a mim ao raiar do dia, quando a mulher do roupeiro veio dizer que minha mulher havia dado a luz.
A notícia fez com que meu sangue frio retornasse, mas, ao mesmo tempo, despertou um sentimento insuportável de repugnância - algo me angustiava - tinha sede de matar...
"Ordenei à mulher do roupeiro que preparasse um banho gelado para a Marquesa e o filho.
A pobre senhora quase desmaiou, todavia.
Depois de repetida a ordem, retirou-se muda de espanto.
"Algumas horas depois a criança morreu e a mãe foi retirada sem sentidos da banheira, agonizante.
"Recuperando a consciência e pressentindo a morte próxima me mandou chamar.
Recusei-me, era impossível ver seu rosto de novo, contudo o velho Gilberto voltou mais uma vez e, caindo aos meus pés, suplicou que fosse.
"Senhor Conde, repetia ele soluçando, Jesus perdoou seus inimigos e o senhor não quer perdoar alguém que se arrependeu?
Pense bem, já que sua hora também haverá de chegar e Deus lhe fechará as portas do paraíso por ter tido um coração tão duro".
"Fui vê-la, reconsiderando o facto.
Quando olhei a francesinha branca como o travesseiro, com a morte estampada no rosto, meu ódio e minha ira imediatamente se esvaíram.
Via somente seus olhos grandes, cheios de tristeza e sofrimento me fitando.
"Aimé, - murmurou ela estendendo em minha direcção suas mãos geladas e trémulas - perdoe-me por tê-lo coberto de ódio e vergonha.
Você me julgou e condenou.
Não protesto contra sua sentença justa, contudo estou expiando minha culpa - me perdoe!
Não me amaldiçoe nesta hora terrível, para que possa morrer em paz."
"A voz e o olhar dela voltaram a me comover.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 7:24 pm

Ela tinha razão; o castigo fora aplicado e eu poderia tê-la perdoado.
"Duas horas depois tudo estava terminado.
Ela não soltou minha mão e naqueles minutos solenes me pareceu que pensava somente em mim, esquecendo o amante, motivo de sua morte.
"Daí me dei conta de que estava viúvo.
Sentia-me plenamente satisfeito com meu triunfo e minha vingança.
O Marquês se calou e entre os dois amigos seguiu-se um longo silêncio.
— E Montfort?
Você finalmente o matou? - Perguntou René.
— Nós duelamos - respondeu Aimé, levantando a cabeça e enxugando o suor frio do rosto.
O duelo foi até à morte.
Só paramos quando caímos sem sentidos no chão.
Pensei que o havia matado, mas quando me restabeleci fiquei sabendo que ele também havia escapado com vida.
Depois pronunciou o voto - o que mostra que sentiu certa dose de responsabilidade por ter corrompido uma pessoa no caso, ter seduzido a mulher do próximo.
— Como? Pronunciou o voto?
Mas Montfort não era huguenote? - perguntou René.
— O Conde Gabriel era católico, mas... já foi muito longe essa história!
Boa noite! Sinto que preciso de um descanso - respondeu Aimé, despedindo-se de René.
Estando só, o Visconde começou a andar de um lado a outro no quarto.
A história de Aimé lhe havia causado forte impressão e avivou suas próprias recordações amargas.
Mesmo assim, pouco a pouco seu pensamento tomou outro rumo e sua atenção passou a se concentrar em Diana.
Tinha um desejo muito grande de ver sua antiga amiguinha, resolvendo no dia seguinte mesmo ir ao Castelo d'Armi.
Desde que regressara à Mansão d'Armi, Diana levava vida monótona, até mais solitária que no convento, onde as bondosas irmãs e as amigas de estudo formavam uma grande família.
Além disso, quando havia a visita dos pais das pensionistas, sempre tinham muito divertimento.
Agora ela quase sempre estava sozinha.
O Barão passava a maior parte do tempo em Angers ou nas vizinhanças.
Lourença estava eternamente ocupada com "negócios inadiáveis", dizia ela, cujos resultados nunca apareciam.
A única distracção que Diana encontrava era passear a cavalo pelos arredores.
Dia a dia a madrasta se tornava mais antipática para Diana.
Sua hipocrisia despertava repulsa na mocinha educada e meiga.
A ridícula pretensão de Lourença de se conservar eternamente bonita, com suas roupas de péssimo gosto, faziam a jovem moça rir às escondidas.
Cedo Diana percebeu que Lourença se arrumava somente nos dias em que Saurmont vinha visitá-los.
Sabendo disso, Diana se esforçava para não cair em risos ao ver a madrasta obesa e de pena na cabeça, esforçando-se para ser atraente.
Por outro lado, alguma coisa que ela mesma não sabia precisar não lhe agradava no relacionamento existente entre o Conde e Lourença.
De vez em quando um certo olhar estranho, um sorriso ambíguo, ou um gesto mais atrevido de Lourença chocava, ainda que Diana fosse ingénua e pura para suspeitar da verdadeira natureza desse relacionamento.
No que se refere a Briand, naquelas semanas seu estado de humor não era dos melhores.
Um medo muito forte e persistente o consumia por dentro.
Não podia mais viver sem ver Diana, sem se deleitar com sua voz, seu sorriso, e o brilho dos seus olhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72081
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 10 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum