Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:56 pm

Ao mesmo tempo o ciúme selvagem de Lourença e a pouca simpatia de Diana por ele, mal podendo disfarçar, o obrigavam a manter seus sentimentos escondidos.
Mas ele não desistia.
Com a energia que lhe era própria começou agradando Lourença com presentes e delicadeza fingida, para assim poder estar perto de Diana, apesar do mal-estar que causava à moça, quando ela o encarava de frente, como se procurasse algo que pertencia ao odiado Mailor.
Vez por outra ela inesperadamente recordava algum episódio do passado, observando atentamente que efeito isso provocava nele.
Foi assim que em certa ocasião, passando pelo jardim, Diana mostrou uma ilhota no meio do lago e disse:
— Antes havia uma ponte aqui.
Foi destruída depois que ruiu sob meus pés e quase me afoguei.
Isso foi no tempo em que Mailor, não sei por que motivo, queria se livrar de mim - disse ela rindo.
Hoje, é claro, sei que a ponte havia sido desmontada propositadamente.
— Ah! Maldito!
Por que eu não estava aqui nessa época para castigá-lo! - murmurou Briand, para esconder a inquietação que o dominava.
Devido a muitas conversas desse tipo, Briand começou a seguir Diana, sem o conhecimento dela.
Quando ela passeava no jardim ou lia sob a copa de uma árvore, ele se deitava em alguma moita e de lá a admirava, apaixonado.
Diana gostava sobretudo de um relvado no fim do parque.
Lá, debaixo de um carvalho frondoso, havia um banco de pedra rodeado de roseiras e jasmins, e, quase pegado ao muro, meio destruído nesse trecho e coberto de plantas, era o palco preferido para as brincadeiras de René e Diana.
Entrando pela brecha do muro, por dezenas de vezes, o garoto tomava de assalto a colina verdejante, que ainda podia ser vista no relvado, e o castelo, libertando sua pequena amiga.
A fortaleza de areia fora erguida por ele próprio.
No dia imediato à chegada de Marillac ao castelo de Beauchamp, Diana se recolhera ao seu canto preferido, já que desde cedo a cabeça lhe doía.
Pensando estar só, a mocinha desfez suas tranças e se deitou no banco.
Trajando um vestido muito bonito e coberta pela capa, a menina de cabelos dourados estava maravilhosa, como num sonho.
A jovem não suspeitava de que Briand estava escondido a alguns passos dela, devorando-a com os olhos.
Como de costume ele havia seguido Diana desde longe.
Escondido atrás dos arbustos se embevecia, admirando-a.
Nunca a vira tão maravilhosa como nesse minuto.
O coração de Briand batia aflito, quando ele pensava que essa criatura encantadora era sua viúva e lhe pertenceria se a vergonhosa cobiça e perfidez de Lourença não o tivessem persuadido a se livrar dela!
Mal conseguia conter seus suspiros.
— Ah! Mesmo assim você será minha, nem que seja preciso que o próprio Deus ou Satanás se coloquem entre nós, pensou o Conde.
D'Armi me ajudará, e, se a bruxa odienta aparecer no meu caminho, que o Diabo a carregue!
Os pensamentos do Conde foram interrompidos pelo sonoro estalar de galhos sendo quebrados.
Através da brecha do muro entrou um rapaz e depois de agilmente saltar na grama se dirigiu ao jardim.
Surpreso, Briand o fitou.
Era um moço alto e encorpado, calçado com botas de cano alto e tinha como veste um traje de veludo preto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:56 pm

O Conde nunca o vira.
Como um relâmpago lhe surgiu na mente a ideia de que este, provavelmente, seria um conhecido de Diana, companheiro de estudos, por ela apaixonado.
Talvez esta não fosse a primeira vez que ela vinha àquele lugar solitário recebê-lo.
Instintivamente o Conde pôs a mão no cabo do seu punhal, inclinou-se pra frente e, quando se preparava para se lançar sobre seu suposto oponente, a voz de Diana o deteve:
— Quem é o senhor?
O que quer aqui? - perguntou ela, visivelmente assustada.
Ela se levantou e, surpresa, olhava para o desconhecido que dela se aproximava.
— Diana! Minha pequena Diana!
Pois então não me reconhece?
Seu antigo colega de infância? - gritou o moço.
— Meu caro René!
Como não o reconheci? - respondeu Diana, atirando-se aos braços dele e abraçando, sem notar que agora ambos eram adultos.
Beijaram-se afectuosamente, sentando-se lado a lado no banco.
Rindo, olhavam um para o outro.
— O demónio está solto!
O pequeno Visconde! - resmungou Briand irritado ao ver os beijos e os mal contidos risos, lembrando-se da antiga ira infantil do artigo rival.
— Como você ficou bonita, Diana!
Meu Deus, mais bonita que você só os anjos do céu! - gritou contente o Visconde.
A moça corou.
— Você também não está nada mal.
Como cresceu e como lhe fica bem essa barba!
Só que me diga:
por que passou pela brecha do muro ao invés de entrar pelo portão principal, como deve fazer um cavalheiro?
— É fácil explicar.
Ao passar pelo muro vi a passagem e fui tomado pelo desejo de rever nosso lugar de brincadeiras preferido.
Imediatamente notei que você estava aqui, sem pensar em outra coisa, tão feliz estava em vê-la.
— Meu Deus, como estou feliz em reencontrá-lo!
Aqui estou tão sozinha, - disse Diana apertando amigavelmente a mão do Visconde.
Conte-me, René, o que andou fazendo esse tempo todo?
Ainda vive como antes com o avô no Castelo de Beauchamp? - acrescentou ela.
O moço ficou pálido.
A pergunta inocente de Diana fê-lo recordar Marion, e ele, involuntariamente, comparou o encantador rostinho de olhar puro de sua amiga de outrora com a beleza provocante e o olhar cínico e insolente de sua esposa.
— Meu avô morreu, Diana.
Casei-me e agora vivo na corte - respondeu René contemplando curioso os olhos claros da moça.
— Está casado, caro René?
Permita-me cumprimentá-lo e desejar felicidades para você e sua esposa, a qual estimo como irmã - disse alegremente Diana, sem a mínima hesitação.
O Visconde franziu a testa imediatamente, quando notou que a notícia do casamento não a havia inquietado nem de leve.
— Obrigado, Diana, pelos seus bons votos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:57 pm

Mas minha esposa não está aqui e eu não posso apresentá-la a você - respondeu ele secamente; porém dominando-se acrescentou:
E você, que fez depois que nos separamos?
Por que se sente tão sozinha?
Diana rapidamente lhe contou sobre a morte de Mailor, sua vida entre acrobatas errantes e sua ida ao convento e depois o regresso a casa.
— Papai é bom para mim, contudo ele se ausenta tanto de casa que quase não o vejo - disse ela encerrando o relato.
Quanto a minha madrasta, não me inspira confiança.
É estranha, descuidada de seus modos e vaidosa.
Ninguém nos visita a não ser o Conde de Saurmont.
Ele se mostra muito gentil para comigo, mas seu olhar insistente às vezes me assusta.
Imagine só, René, esse Conde se assemelha muitíssimo ao falecido Mailor.
Há momentos que me parece estar vendo e ouvindo o detestável Carlos, e então a raiva e a antipatia se apossam de mim.
Até fui ao túmulo de Carlos, mas de nada ajudou.
A sensação é mais forte do que eu e fujo dele.
Depois de conversarem por uma hora René decidiu partir, sem antes prometer que voltaria no dia seguinte acompanhado de Marillac.
— Venha, venha mesmo.
Traga seu cunhado, mas entre pelo portão principal e não pelo muro, já que isso pode manchar minha reputação de viúva - respondeu rindo Diana.
Pensativo e preocupado, René voltou a si.
A beleza de Diana o havia realmente encantado.
Não conseguia pensar em outra coisa que não fosse em sua amiga de infância.
René a comparava com Marion e, sem se dar conta, começava a sentir um grande ódio por ela; no íntimo lamentava não estar completamente livre.
Marillac apareceu para jantar, depois de ter andado caçando o dia inteiro.
Ele perguntou ao cunhado se havia realizado o desejo de visitar a mansão d'Armi.
René lhe falou do encontro e exprimiu o desejo de, no dia seguinte, voltar à família para reatar a amizade com Lourença.
Mas, quando Aimé, com visível surpresa concordou em acompanhá-lo, René mal conseguiu conter a impressão desagradável que tal afobação lhe causara.
René se vestiu com todo esmero no dia seguinte.
Pela primeira vez, desde a fuga de Marion, ele trocou seu sério traje negro por uma "camisole" azul, e uma capa de veludo dourado; na touca trazia uma pena acompanhada por valioso agrafe de brilhantes e safiras.
Satisfeito com sua aparência, o Visconde se contemplava no espelho quando entrou Marillac.
Admirado e nada contente, René notou que ele também estava arrumadíssimo, e que a roupa de veludo verde lhe ia muito bem.
— "Verto o sangue de Cristo", mas esse matador de mulheres, me parece, está querendo encontrar outra vítima - reclamou com enfado René.
Depois acrescentou maliciosamente:
__Você parece um noivo, caro Aimé.
O Marquês ao ajeitar diante do espelho a gola da renda cara, virou-se e não menos malicioso mediu o Conde dos pés à cabeça:
— E você parece que há muito tempo perdeu o aspecto de infeliz marido abandonado...
— Não posso me apresentar mal, logo na primeira visita à Baronesa - disse o Visconde depois de ficar vermelho.
— Por isso mesmo estou assim - replicou p Marquês, dirigindo-se à porta.
René o seguiu. Os moços atravessaram a saída em silêncio e subiram em seus cavalos à caminho da mansão.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:57 pm

IV. NOIVADO PRECIPITADO

A partir desse dia os tempos passaram a ser maus para Briand.
As visitas frequentes de Marillac e René encheram o coração dele de receio e ódio.
A convivência de Diana com seu amigo de infância, os cortejos indiscretos do Marquês e o modo como Lourença protegia Marillac, aguçaram sua ira.
Mas o Conde não era homem de desistir tão facilmente da mulher desejada.
Com impaciência aguardou o retorno do Barão João, que havia se ausentado por algumas semanas.
Este iria ajudá-lo a conquistar a filha e a refrear a esposa.
Sem suspeitar nem de leve das intrigas e artimanhas que se desenrolavam a seu redor, Diana recebeu os dois moços com a mais pura alegria; via René como irmão, e, na qualidade de homem casado, considerava-o sem segundas intenções.
O Visconde nada lhe falou sobre suas infelicidades conjugais, e a jovem acreditava, de boa fé, em qualquer mentira que ele imaginasse para explicar a ausência de Marion.
As cortesias de Marillac divertiam Diana.
Não sentindo por ele nada mais que simpatia, ela recebia com prazer todos os pequenos presentes e as gentilezas que ele lhe concedesse.
Lourença ficava, evidentemente, não menos contente quando o Marquês lhe enviava flores raras ou uma confortável e bela carruagem para levá-la à igreja mais próxima.
A Diana a companhia dos dois jovens aliviava a constringente intimidade da vida familiar.
Irritavam-na as constantes observações do pai e da madrasta.
Acostumada à delicadeza e comedimento das irmãs e de Odila, chocava-se com a imensa grosseria de Lourença.
Foi numa destas cenas familiares que, ocorrida justamente no dia da partida do Barão João, lhe causou extrema impressão negativa.
O motivo da discussão era a ida à igreja na carruagem do Marquês.
Diana, que era devota habituada a não perder missa, perguntou se não era possível que um padre rezasse missa na capela da mansão.
— Já não chega que eu tenha dado de comer a tais parasitas? - perguntou d'Armi.
— Sim, sim!
Eu sei que você julga supérfluo tudo aquilo que é dispensável a um verdadeiro ambiente senhorial, mas, em compensação é generoso como um rei quando encontra uma belezinha qualquer que o agrade... - observou mordaz a Baronesa.
Por isso escute: quero um padre aqui!
— Verdade? Por quê não convida de novo o Padre Pancrácio?
Só que eu o considero bom demais; seria melhor chamar o pai Deus - este sim, um verdadeiro santo, reparou João.
— Enlouqueceu para me propor esse homem maltrapilho? - Replicou Lourença.
— Nesse caso obrigue o Conde Briand a servir de sacerdote e se contente com esse confessor.
Lourença lhe acentou um soco forte, interrompendo a frase do Barão; trémula de raiva, saltou da cadeira e começou a brigar.
Pálida de medo, Diana saiu correndo.
Ainda que nada tivesse entendido do duplo sentido nas palavras de seu pai, sua antipatia por Saurmont aumentava a cada dia.
Depois de notar que seu bom relacionamento com o Marquês irritava o Conde, ela se mostrou ainda mais amável com Marillac, divertindo-se ao ver o rosto pálido de Briand ficar vermelho, e faíscas de raiva saírem de seus olhos.
Inconscientemente ela jogava com a paixão do Conde.
Lourença, com receio e pesar observava os factos.
Ela conhecia bem Briand, sua energia e persistência.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:57 pm

Sabia que o Conde não desistiria de ter a mulher querida diante de qual empecilho fosse e João o ajudaria nessa empresa.
Por isso ela resolveu criar na própria Diana os obstáculos, se pudesse intransponíveis, para a realização das intenções do Conde.
Sem deixar para depois, decidiu elaborar o mais rapidamente possível um plano de imediata execução.
Certa manhã Lourença mandou chamar Diana que a atendeu a contragosto.
A madrasta estava com ar aflito, olhos vermelhos de chorar e os cabelos cobertos por panos de compressa; a moça a encontrou sentada junto à lareira; fez sinal para que Diana se sentasse no banco, após o que começou a falar com voz suave e mansa sobre seu amor pela enteada e dos cuidados que sempre tivera para com ela, desde pequenina.
Após o comovente início, continuou:
— Minha queridinha!
Há alguns dias reluto em abrir-lhe os olhos para factos que já aconteceram e estão acontecendo ainda e que, inevitavelmente, ao serem revelados, diminuirão o amor e o respeito que sente por seu pai.
Porém, temo que, com meu silêncio, seu ódio ainda venha a ser maior.
Devo lhe dizer que seu pai é um esbanjador, mal gastador da fortuna dos d'Armi e de seu dote.
Vive pedindo dinheiro e, para consegui-lo, pouco se incomoda ou se envergonha de como tem de consegui-lo.
Assim foi que, em troca de alguns milhares de escudos, a entregou a Mailor, dando ensejo para que aquele canalha a roubasse.
Mesmo agora noto que João tenciona empurrá-la para o Conde Saurmont.
Sem dúvida o Sr. Briand é rico e respeitável; uma união com ele encheria seu pai de orgulho, mas, infelizmente, o Conde tem o tipo de carácter que às mulheres só traz infelicidades.
Isso sem falar da antipatia que você sente por ele.
"Saurmont é depravado, leviano e não sabe conter suas paixões.
Quando nos encontramos em Paris ele sentiu por mim uma atracção selvagem e, aproveitando a ausência de seu pai, me obrigou à força.
Ao invés de lavar sua honra, João tomou emprestado do Conde uma quantia grande, que, é lógico, nunca devolverá, fechando os olhos para o episódio odioso.
"Só há pouco tempo consegui superar este jogo vergonhoso:
uma inesperada herança me devolveu a independência.
"Contudo não posso conceber que um homem que humilha uma senhora agora estenda a mão à filha dela, querendo se casar.
"Compreenda: esta confissão é difícil para mim, mas minha estima por você me encorajou a fazê-la.
Permita-me preveni-la - não há dúvidas de que seu pai quer casá-la com Saurmont.
Para evitar futuros contragostos, case-se com o Marquês de Marillac.
Ele sempre a procura e não tardará em fazer uma proposta.
Esse homem bonito e bondoso a fará feliz.
Imensamente pálida, Diana ouviu assustada a madrasta, sem a interromper.
As terríveis acusações levantadas contra o pai a oprimiam e, caindo em soluços, ela fugiu de Lourença.
Trancou-se no quarto e mergulhou em desespero.
A ideia de que o pai era assim tão desonesto a deixava doente.
Mas, à medida que conseguia se acalmar, reflectia:
a antipatia nata pela senhora d'Armi lhe inspirava suspeitas quanto à veracidade dos factos contados por ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:57 pm

Começou a comparar o amor de seu pai com as acusações de Lourença, e no final das contas se convenceu de que a madrasta o caluniara injustamente.
Por outro lado ela não tinha a menor dúvida quanto aos defeitos e vilanices atribuídos a Briand.
A ideia de se casar com ele a fazia tremer; quanto a isso sua madrasta estava certa - seria mil vezes melhor casar-se com o Marquês.
Por isso decidiu que daria seu consentimento assim que ele fizesse uma proposta.
Diana ansiava deixar a casa do pai onde se sentia só.
Até o próprio René andava triste e calado, só aparecendo na mansão de vez em quando.
Não tardou muito para que Briand tivesse a desagradável surpresa de concluir que a atitude de Diana para com ele havia mudado de maneira brusca, passando a lhe ser francamente hostil; repulsa e desprezo quase confessos brilhavam nos olhos dela, mal ele se aproximava.
Com ódio exacerbado, Briand desconfiou que no caso havia a mão de Lourença e resolveu se entender com ela.
Sem perder tempo, dirigiu-se à Baronesa e lhe comunicou que desejava corrigir o delito cometido no passado casando-se com Diana.
— Apresento-lhe meus cumprimentos.
Nossa relação não será em nada abalada por este casamento, e, em contrapartida, você só terá a ganhar com isso, cara Lourença - finalizou ele.
Um sorriso ambíguo brotou dos lábios da Baronesa:
— Guarde-me Deus de impedir que você corrija seus erros!
A propósito, este é um assunto pessoal seu, caro Barão de Mailor, e o consentimento de sua viúva não depende de mim.
Faça o pedido a ela e a João quando ele voltar.
No mesmo dia em que transcorreu esta conversa, Diana recebeu uma carta do Sr. de Montfort, que a havia deixado inquieta e cujo conteúdo não revelou a ninguém.
A Condessa Clemência havia escrito que tencionava estar em breve em Paris, para passar um ano ou dois já que seu marido Armando tinha negócios a tratar na capital.
Todos estavam ansiosos em vê-la.
Para evitar que o Barão João não se colocasse contra a ida da filha a Paris, a Condessa de Montfort, com o concurso do Duque de Nevers, conseguiu que sua amiga fosse designada dama de honra junto à Rainha Elisabeth; a indicação se oficializaria assim que Clemência recebesse da moça uma confirmação, à qual aconselhava enviar directamente ao Duque, um mensageiro honesto que a certificasse da entrega da carta.
Sem vacilar um segundo, Diana respondeu que concordava e ficaria muito feliz em rever os amigos.
Ela desejava ardentemente viver por uns tempos em Paris.
Que objecção o pai poderia ter contra a honra de ver sua filha no palácio?
Até resolvera, caso ficasse noiva de Marillac, impor a condição de que o casamento não se realizaria antes de um ano, uma vez que ela não tinha a mínima vontade de se casar com Aimé.
Além disso Diana queria ver um pouco do mundo, antes de se enterrar numa mansão velha, naquele fim de mundo chamado Anjou.
Dois dias depois chegou d'Armi.
Na primeira noite, logo após o jantar, Briand foi vê-lo em seu aposento.
Após relatar em linhas gerais quais eram seus negócios e propriedades lhe pediu a mão da filha.
O relato convenceu plenamente o Barão e este já se sentia no paraíso.
Abraçou Saurmont, chamando-o de filho e agradeceu aos céus a concessão de tal felicidade a sua filha.
Mas, de repente, sua cara gorda se fechou e ele, titubeante, perguntou se Lourença sabia das intenções do Conde.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:57 pm

— Antes de conversar com Diana eu devo me aconselhar com Lourença.
Seu amor maternal será ofendido se ela for excluída de tão importante assunto, - disse João em tom resoluto.
Briand, pensativo e irónico, seguiu-o com o olhar.
Por um momento o Conde perguntou a si mesmo se d'Armi acreditou naquilo que ele dissera com tanta convicção.
O moço conhecia bem o carácter da Baronesa e sua posição de conselheira enérgica em todos os negócios sujos.
Ao retornar, d'Armi interrompeu os pensamentos do Conde, comunicando imediatamente que Lourença havia concordado com o abençoado casamento que deveria trazer felicidade a sua filha.
— Amanhã de manhã, meu caro Briand, faça a proposta.
Se aquela pequena insensata der o contra, conte comigo, - acrescentou o Barão, contente consigo mesmo.
No dia seguinte, ao voltar de um passeio matinal, Diana colocava as flores nos vasos, flores que lhe tinham sido presenteadas, quando chegou sua criada Gabriela, correndo, e lhe disse que o Conde de Saurmont pedia para falar com ela.
Surpresa, Diana mandou conduzi-lo à pequena sala de visitas, onde ele estivera mais de uma vez com d'Armi.
Quando Saurmont entrou, Diana colocou as flores na mesa e com frieza lhe indicou que sentasse.
— Deseja conversar comigo, Conde? - disse ela.
Bem...?
Briand se aproximou da poltrona, e depois de pegar a mão dela, levou-a calorosamente aos lábios.
— O assunto diz respeito à felicidade de toda nossa vida e de nosso futuro, - declarou ele emocionado.
Diana, sei que não me ama, pois tenho a infelicidade de me parecer com o homem que a fez tão infeliz, inspirando-lhe aversão.
Mas a considero muito boa e justa para repelir, devido a uma semelhança casual, um amor tão profundo e sincero, do qual ninguém pode duvidar.
Concorde em ser minha esposa, Diana!
Seus pais concordaram.
Dedicarei toda minha vida à sua felicidade.
Diana empalideceu.
Ouviu a declaração de sobrancelhas franzidas.
Levantou-se rapidamente do lugar e mediu o Barão com um olhar frio e hostil.
— Sinto muito, Sr. de Saurmont, que eu mesma seja obrigada a lhe dizer que considero sua proposta uma ofensa.
Permita-me observar que sei do vergonhoso relacionamento que manteve e que talvez ainda mantenha com minha madrasta.
Depois disso seu desejo de se casar comigo é um insulto ao meu pobre e cego pai; nunca, ouça bem - nunca serei sua esposa!
Quaisquer que sejam os motivos que estimularam e forçaram a Sra. Lourença a me revelar a verdade, agradeço-lhe muito ter-me mostrado que o senhor não se parece com Mailor somente na aparência, mas também no espírito.
Briand ouvia pálido, com o corpo todo a tremer.
O desprezo contido em cada palavra da moça lhe dava a sensação de verdadeiras bofetadas.
O ódio que sentia por Lourença o estrangulava.
Com sua malícia inerente, a megera enganara todos e vencera a partida.
Após escutar as últimas palavras de Diana, o Conde se levantou e, mal contendo palavras, saiu da sala, dirigindo-se rapidamente ao quarto de Lourença.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:58 pm

No corredor ele encontrou d'Armi.
Foi suficiente olhar o rosto aflito do Conde para compreender que Diana, além de recusar a proposta, o havia ofendido de alguma maneira.
Quando Briand entrou no quarto de Lourença, ela estava tranquilamente ocupada em tirar doces de um grande pote e recolocá-los em um pequeno recipiente.
A Baronesa trajava uma saia de veludo tão amarrotada e manchada, que era difícil descobrir sua cor verdadeira; nos cabelos embaraçados, uma pena presa a valioso agrafe dava um toque estranho.
Emudecido de raiva, Briand parou.
Seus lábios tremiam e se recusavam a obedecer.
O ruído da porta se abrindo fez Lourença se virar e ela, com bondade simulada, olhou para seu amante:
— Opa! Como está inquieto, meu amigo!
A viuvinha sem juízo já recusou sua lisonjeira proposta?!
Mailor, Mailor!
Acaso não sabe que eu o amo demais, para deixá-lo escapar, mesmo que seja para a filha amada?
Há tempos você deveria saber que o meu amor não tolera rivais.
Contente-se com isso e jamais esqueça de que só o meu amor e a sua fidelidade mantêm no fundo de minha alma o segredo do crime do falecido Mailor, deste impostor e assassino do tio.
Não se faça de infeliz, meu amigo!
No desespero de ficar sem você, posso perder a razão, e quando uma pessoa está fora de si, ela mesma não sabe o que faz.
Sendo assim, procure não perturbar meus pensamentos e me amargurar com sua pretensão de se unir a outra!
Eu sei, - continuou ela convencida e satisfeita, balançando seu corpo gordo e sujo, - que não há mulher que seja tão inteligente e bela como eu.
Meus encantos atingiram o máximo, não temendo qualquer comparação, mas eu, por princípio, não suporto uma segunda divindade ao meu lado.
Tamanha era a repulsa na falta de vergonha, fazendo o sangue de o Conde subir à cabeça com tanta força, que ele perdeu seu habitual comedimento e se lançou sobre a megera, dando-lhe fortes bofetadas no pescoço e pelas costas.
Lourença se endireitou, colocando os doces sobre a mesa e gritou bem alto; com destreza e muita rapidez ela empurrou o Conde e, com mãos sujas de geleia, o agarrou pelos cabelos.
Depois, puxando a cara de Briand para trás, imobilizou-o pelo ataque inesperado e lhe deu ela duas bofetadas.
— Vá embora, seu animal selvagem!
Como ousa tratar uma fraca mulher dessa maneira! - acrescentou ela o empurrando e pondo-o para fora com forte soco.
Como um bêbado, quase sem consciência, Briand foi ao quarto que sempre ocupara no Castelo d'Armi.
Mas mal passou a soleira, como que sufocado pelo desespero e pelo ódio, perdeu os sentidos.
Ao ver o Conde de Saurmont passando à sua frente como um verdadeiro furacão, uma terrível ira se apossou de d'Armi.
Admitiria ele que uma criança idiota recusasse um noivo espectacular e que lhe fechasse o acesso a tal mina de ouro?
Não! Nunca! Vermelho de raiva, foi ao quarto de Diana, e, com expressões ríspidas, lhe comunicou que, se a persuasão não lhe devolvesse o juízo, "ele", seu pai, a obrigaria a se casar com Saurmont.
As tímidas objecções da menina foram encobertas pelos quase gritos do pai, que se retirou batendo a porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:58 pm

A pobre Diana, tremendo, nervosa, se encolheu na poltrona.
A angústia era tal que não conseguia chorar.
Lourença estava certa:
o Pai queria forçá-la a um casamento odioso.
De repente foi tomada pelo receio de que o Barão regressaria acompanhado por Briand.
Sem pensar duas vezes, saiu para o jardim e se escondeu na vegetação.
Só então deu vazão às lágrimas.
— Meu Deus!
O que aconteceu com você?
Ao ouvir estas palavras, Diana ergueu a cabeça.
Enxugando rapidamente as lágrimas, ela estendeu a mão a Marillac que chegava à moita, levado pelo seu cão de caça.
— Por que está metida aqui?
Sem o faro de Plutão eu não a teria encontrado, continuou o Marquês, segurando-a pela mão e sentando ao lado dela no banco.
Em tom amigável começou a perguntar a Diana qual era o motivo de tanta tristeza.
Apesar do silêncio dela, ele logo adivinhou o que havia acontecido.
Aflito e irritado, Aimé decidiu que não poderia mais adiar sua proposta a Diana.
Com palavras carregadas de sentimento, ele a convenceu de seu amor, e lhe pediu que o aceitasse.
A proposta, feita em momento tão desesperado, se configurava como uma verdadeira possibilidade de salvação.
Não obstante Diana foi o suficientemente honesta para confessar ao Marquês que, apesar do grande respeito e profunda simpatia que sentia por ele, não o amava apaixonadamente, como uma mulher deveria amar o marido.
Se ele se contentasse com isso, e fosse paciente e indulgente, ela, com prazer, se tornaria sua esposa.
Marillac concordou com tudo.
Então Diana lhe contou sobre sua indicação para Dama da Corte:
— Desejando fugir daqui e conseguir uma situação mais ou menos independente, eu assumiria esse posto.
Em minha opinião não se pode recusar, nem mesmo por um ano, esse respeitável cargo junto ao Rei da França, continuou ela com vivacidade.
Espero que você concorde em adiar nosso casamento e me permita ir a Paris, onde, sem dúvida, nos uniremos.
O rosto do Marquês se alterou.
Não lhe agradava nem um pouco a ideia de adiar o casamento por um ano.
Porém recusar-se a aceitar essa condição e impedir que a moça se colocasse no palácio não lhe parecia razoável, e por isso concordou.
Depois de tudo combinado, Marillac deu um beijo de noivado, levantou-se e alegremente disse:
— Agora comunicarei a seu pai que ele não mais precisa se preocupar em conseguir um bom genro e que, se o Sr. de Saurmont tiver bom senso, deixará a mansão onde não tem mais nada a fazer, a não ser que deseje conhecer minha espada.
D'Armi estava no seu quarto conversando com Briand.
Explicava que havia dito à filha que sua vontade se faria cumprir e, que, por bem ou por mal, a tornaria esposa dele.
O Conde, de cara fechada, ouvia em silêncio.
A chegada do Marquês interrompeu a conversa.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:58 pm

Sem se intimidar pela presença do Conde, Marillac, falando com vivacidade e firmeza, disse ao Barão que Diana lhe dera a mão e que ele ali estava para lhe pedir que endossasse com seu consentimento paternal a palavra da moça.
Completamente desconcertado, de respiração presa pelo espanto, d'Armi olhou para o Marquês sem saber o que falar. Por fim murmurou:
— Mas... Diana o ama? O Marquês franziu a testa.
— Pelo visto sim, já que ela concordou em ser minha esposa, - respondeu ele, endereçando a d'Armi um olhar frio.
A propósito, devo lhe comunicar que estou cumprindo apenas uma habitual delicadeza pedindo seu consentimento.
Sendo viúva, Diana pode a seu critério escolher o marido.
Depois de haver recebido com desdém as escusas do Barão d'Armi, Aimé se desculpou e se retirou.
Assim que ele deixou o recinto, Briand também se levantou.
Estava pálido, sentia um ódio terrível, sem prestar atenção mínima ao palavreado do Barão que, preocupado, tentava convencê-lo de que aquilo não impediria o seu casamento.
O Conde saiu dali, ordenou selar o cavalo e, sem se despedir de ninguém, partiu para a mansão São Germano.
Após passar um dia agradável ao lado da noiva, o Marquês regressou à Mansão Beauchamp.
Lá chegando se encontrou com o cunhado após o jantar.
Marillac não o via já há quinze dias pois René Sr. ausentara para tratar de negócios.
Ao terminar de falar sobre a viagem René observou sorrindo:
— Como você está feliz hoje, Aimé!
Provavelmente teve sorte na caça e abateu um cervo?
Um sorriso de satisfação iluminou o rosto do Marquês e os dentes brancos por debaixo do bigode louro apareceram:
— Melhor do que isso!
Apanhei um verdadeiro bocado real! - disse ele, erguendo sua taça.
Cumprimente-me, René, hoje me tornei noivo de Diana d'Armi.
O Visconde já estava de mão erguida para brindar com ele quando, rapidamente, colocou a taça na mesa.
O Visconde estava rubro:
— Tornou-se noivo de Diana?
Está delirando?
— Parece-me que é você quem está delirando!
O que há de estranho no meu noivado? - retrucou Marillac.
— E Diana concordou em ser sua esposa? - automaticamente perguntou René.
— Que o diabo o carregue!
O que significa essa tagarelice?
Escute bem, não sou um monstro que não sente desejo por nenhuma mulher, ou será que você está com ciúmes? - gritou o Marquês, saltando furioso da cadeira.
René conteve sua emoção e disse secamente em tom tranquilo:
— Sente-se e se tranquilize, Aimé!
Não estou com ciúmes.
Somente a surpresa e a amizade inspiraram minhas palavras.
Sua escolha me parece arriscada.
Ao meu ver Diana não o ama.
Se essa francesa que se casou com você por amor o traiu, o que pode esperar de uma mulher que não o quer?
Diana será sempre tentada, ela é muito bonita para não despertar paixões.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:58 pm

— Porém ela é bem jovem, bem honesta e mais que tudo - uma autêntica interna de convento para ficar me traindo.
Após se tornar minha mulher ela aprenderá a me amar, - respondeu Aimé de rosto pálido.
— Está convencido disso?
Sem dúvida Diana "ainda é" pura e inocente, mas só o futuro poderá provar o que será como mulher.
— Eu a educarei e me esforçarei em remover do caminho qualquer tentação.
Inclusive você, espero, não tente seduzi-la, - observou Aimé, com um ligeiro sorriso desajeitado.
— Deus me livre!
É claro que não atentarei contra sua felicidade, - respondeu o Visconde encerrando a conversa.
Mil sentimentos contraditórios atormentavam sua alma.
Não queria se convencer de que estava apaixonado por Diana mas, ao mesmo tempo, a ideia de vê-la esposa de Marillac lhe causara angústia.
Por qual motivo ela se casaria com um homem tão rude, ao qual não amava e que talvez a matasse como matou a primeira esposa?
"Amanhã mesmo a verei.
Ela me vê como um amigo, um irmão, e por isso haverá de me contar os motivos que a levaram a concordar com este matrimónio, pensou ele."
Não era ainda meio-dia quando o Visconde chegou ao castelo d'Armi.
Através do velho jardineiro que estava cumprindo a função de porteiro, ele soube que, na véspera, o Barão havia partido e que Lourença estava muito doente.
A própria Diana o recebeu.
Na pequena sala de visitas o fogo ardia na lareira, uma vez que, apesar de ser agosto, as paredes da velha construção estavam húmidas.
Diana estava sentada junto à janela.
Trajava, como sempre, um vestido de lã branca.
Em seu colo estava um pergaminho.
Quando René entrou ela o enrolou e o colocou na janela.
Ao primeiro olhar o Visconde notou que ela estava pálida, angustiada e muito triste.
— Vim lhe dar os parabéns, Diana, mas não posso fazê-lo de coração limpo, uma vez que seu noivado com Aimé me parece estranho, disse ele segurando a mão dela e sentando-se a seu lado.
— Você não aprova minha escolha? Por quê?
— Porque você não o ama.
— É verdade, não o amo como deveria, mas o respeito e me esforçarei em amá-lo, - disse ela enrubescendo.
— Mas por que você tem que se casar com ele? - falou René impetuosamente.
Eu a considero uma pessoa inteligente; você é jovem e bonita, pode se casar por amor.
Diga-me francamente, Diana, que motivos a levaram a agir assim?
Acho que tenho o direito de saber.
— Sem dúvida.
Para você, de quem gosto como de um irmão, não tenho segredos.
Desta forma, ouça porque sou forçada a casar com Marillac.
Em poucas palavras ela lhe contou o que a madrasta lhe dissera sobre suas relações com Briand e o inexprimível pavor que lhe causava a ideia de pertencer ao Conde.
Pensando em evitar esse casamento para o qual seria empurrada pela cobiça do pai, ela concordara em ser esposa de Marillac.
— Agora eu compreendo.
Mas Aimé também a fará infeliz.
Ele é terrivelmente ciumento, exigente e rude, - disse René inquieto.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:59 pm

— O casamento só se realizará dentro de um ano; até esse dia poderei me acostumar com o meu destino, - respondeu Diana com tristeza.
A seguir ela lhe contou sobre a sua designação para dama de honra da corte.
Sabendo dessas novidades, o bom estado de espírito do Visconde voltou imediatamente.
Naquele momento ele considerou que um ano era intervalo de tempo muito grande e que, até lá, muita coisa poderia mudar.
Dessa vez deu parabéns a ela de coração limpo, e lhe disse que também iria a Paris para tratar de negócios e lá teria prazer em se encontrar com ela.
Uma descrição brilhante de Paris e de seus palácios, feita por René, fizeram com que a moça logo recuperasse seu estado de ânimo.
A notícia de que Diana tinha sido convidada para ser dama de honra caiu na Mansão d'Armi como uma bomba.
Lourença balançava entre a raiva e a auto-satisfação, mas sabia como conter-se.
No que se referia a d'Armi, no começo indignava-se com a malícia e a dissimulação da filha, mas logo se acalmou e, por todos os meios, se esforçava em apressar o dia da partida.
Enchia-se de orgulho ao pensar em ver a filha ocupando tão respeitável posto junto à jovem Rainha.
Além disso, aproveitando a excelente oportunidade, ele queria se insinuar na aristocracia, depois de visitar o Hotel de Nevers, já que a Duquesa, por meio de uma carta muito amável que acompanhava o documento oficial, convidava Diana para se instalar em sua casa enquanto não arrumasse lugar no Louvre.
Diana sentiu enorme alívio quando a grande carruagem, acompanhadas por três cavalos sobrecarregados e escoltados por quatro criados, deixaram finalmente a Mansão d'Armi.
Despediu-se da madrasta com frieza.
Já do noivo, na véspera à noite, se despediu ternamente.
Marillac ficaria fora por três meses; ia visitar uma velha tia de quem esperava herança.
Depois disso pretendia encontrar-se com Diana em Paris.
Apesar do visível entendimento reinante entre os noivos, às vezes certas palavras angustiavam a jovem tanto que, por um momento, ela se surpreendeu com o desejo de que algum acontecimento imprevisto modificasse o destino.
Durante a viagem Diana chegou até a se esquecer do Marquês.
Seus pensamentos estavam em Paris, no novo mundo onde agora iria viver.
Para ela somente ali seu destino se resolveria.
Seu coração palpitou mais do que nunca quando, finalmente, sua carruagem chegou aos portões da capital.
D'Armi resolveu descansar um dia ou dois na hospedaria de Lourença, antes de se apresentar com a filha no castelo da Duquesa de Nevers.
Ainda que a casa estivesse ocupada por hóspedes, para os donos sempre se arranja um canto.
Passados dois dias d'Armi, todo trajado de negro, sério e orgulhoso como um verdadeiro Senhor, levava a filha ao Hotel da Duquesa de Nevers.
Diana sentia muita timidez nesse palácio, repleto de vida, movimento de cortesãos, pajens e guerreiros.
À primeira vista ela se chocou com a realidade do novo mundo, mas o orgulho nato a ajudou a manter a dignidade.
Quando se apresentou à Duquesa, suas maneiras eram de um discreto comedimento e graciosa timidez, o que causou excelente impressão.
— Ah! Eis por fim a amiga de infância da minha querida Clemência, - disse a Sra. de Nevers, beijando amigavelmente Diana.
Dou-lhe os parabéns, Sr. Barão, por ter uma filha tão encantadora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:59 pm

Deixe-a comigo por alguns dias, eu mesma a apresentarei à Rainha e cuidarei para que ela se instale, - acrescentou bondosamente a amável senhora.
Quando d'Armi partiu, a Duquesa de Nevers levou Diana para seus aposentos.
Após ordenar que preparassem seu traje para a visita que faria à irmã do Rei, Marguerite de France; conversou animadamente com a moça e lhe perguntou sobre sua vida passada.
Ingénua e sincera, Diana lhe contou tudo abertamente e disse, inclusive, que estava noiva de Marillac.
— Marillac? - repetiu a Duquesa, tentando se lembrar da pessoa.
De repente teve um sobressalto e sacudiu a cabeça.
E quando será o casamento? - perguntou ela.
Ao saber de Diana que as núpcias seriam dentro de um ano, e que Marillac não viria antes de três ou quatro meses, a Duquesa disse rindo:
— Nesse caso nem tudo está perdido!
Sua escolha, menina, não é boa.
Recordo que vi o Sr. Marillac.
É um soldado rude.
Sobre seu passado correm maus rumores.
Aqui poderá arranjar um futuro mais brilhante do que se casar com esse palaciano de província.
Não diga a ninguém que está comprometida.
Você é linda, Diana!
Quando terminarmos de arrumar este seu traje que faz lembrar - Deus me perdoe! - tempos do falecido Rei Francisco, você vai brilhar no palácio e só de você mesma dependerá seu futuro.
A Sra. de Nevers era bonita, feliz, adorada, educada nos princípios daquela época; não continha suas paixões e fantasias e considerava a surpreendente beleza de Diana um capital que seria um desperdício não utilizar.
Na manhã seguinte saíram para visitar diversos fornecedores.
E então Diana, penteada e vestida conforme a última moda, presenciava, em companhia da Duquesa, a homenagem à jovem Rainha.
Com grande curiosidade ela observou toda a enfadonha cerimónia de homenagem à soberana; à primeira vista a própria Rainha lhe inspirou profunda simpatia.
Elisabeth da Áustria não era bonita.
Seus traços grosseiros e vulgares eram de pouco encanto, contudo seus pequenos olhos cinzas transmitiam tanta bondade e tristeza que ela, involuntariamente, inspirava simpatia.
A Rainha acolheu de modo benevolente sua nova dama de honra e a autorizou a descansar alguns dias para se habituar a Paris.
Depois de alguns dias Diana deixou o hotel da Duquesa e se instalou no Louvre.
Seus aposentos constavam de um pequeno apartamento com três quartos, vestiário e um aposento para Gabriela, sua camareira.
A moça se sentia felicíssima.
Havia visto apenas o lado externo da vida palaciana e não tinha focalizado ainda os espinhos que se escondiam por debaixo dessa brilhante aparência da corte.
Diana aguardava com impaciência ver o Rei e os demais membros da família real.
Certa ocasião, à noite, Carlos IX chegou de uma caçada em Fontainebleau.
Ao ouvir o som das trompas anunciando a chegada, ela correu à janela que dava para o pátio.
A luz dos archotes, porém, dificultava a visão e a jovem não pode reconhecer o Rei, tendo de se contentar em contemplar o pomposo cortejo.
Até que enfim, durante o primeiro plantão, seu desejo se realizou quando acompanhava sua senhora em um encontro com a Rainha-Mãe.
Catarina de Médicis se encontrava num pequeno salão com quadros e móveis escuros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:59 pm

Sentada numa grande poltrona junto à lareira, ela conversava tranquilamente com um senhor idoso.
Os olhos meio cerrados e os lábios finos lhe davam um certo ar de maldade, apesar de no geral sua fisionomia inspirar bondade.
Trajava um vestido negro e na cabeça um gorro com um longo véu que ainda hoje se pode ver em seus retratos.
Ela se dirigiu à nora com muita delicadeza, mas depois de um minuto de conversa conduziu habilmente a jovem Rainha a um canto do quarto, onde prosseguiu a conversa.
Observando-a, Diana notou que, mesmo estando atenta às palavras de sua interlocutora, Catarina não perdia de vista nada do que acontecia naquela câmara.
Por um segundo uma chama rápida irrompeu de seus olhos, como um relâmpago, direccionado para um dos presentes.
Logo depois chegou o Rei, acompanhado dos Duques d'Anjou e d'Alençon e de vários cortesãos.
O soberano estava visivelmente animado, mostrando excelente estado de ânimo.
As maçãs do rosto rosadas se destacavam no rosto pálido.
— Como você se esqueceu, Carlos?
Será que jogou dados até tão tarde? - perguntou a Rainha Catarina depois dele haver beijado sua mão.
— Não, eu ensaiei dois novos motivos para clarim e depois ganhei uma aposta de meu irmão, o Duque d'Anjou, - respondeu Carlos IX, saudando sua esposa.
— E qual era a aposta, Senhor? - Perguntou com seu sorriso tímido e discreto a Rainha Elisabeth.
— Apostei que poderia girar cem vezes saltando, sem ficar tonto.
O Conde disse que isso não era possível e que após vinte voltas eu perderia o equilíbrio.
Fiz cento e vinte voltas que dariam para balançar a Torre de Nesle, - contou o Rei rindo alto e satisfeito consigo mesmo.
Ouviram-se algumas exclamações de admiração.
O próprio Duque d'Anjou habilmente observou que não se importava em ter perdido a aposta, em primeiro lugar porque o Rei sempre deve estar com a razão, e segundo porque, para dirigir a maravilhosa França, ele devia ter uma cabeça forte.
— "Pâques Dieu", você está certo, Henrique; um punho forte e uma cabeça forte, - gritou o Rei rindo com gosto.
Depois a conversação se encaminhou a outros assuntos.
O Rei discorria sobre a próxima caçada e sobre um livro muito raro que lhe pertencia.
A seguir contou à mãe sobre a nova profecia de Nostradamus e, aproveitando o tema falou que num quarteirão da Rua Temple se instalara um novo astrólogo, muito hábil e misterioso.
Um dos cortesãos que o visitou, contou sobre os milagres e seu conhecimento incomum.
Ao saber disso os olhos de Catarina brilharam.
Após saber quem era esse cortesão, ela conversou com ele longamente.
Diana se surpreendeu, ficando sob uma triste impressão difícil de descrever.
Estava decepcionada.
Imaginara o Rei e a Rainha de maneira completamente diferente.
No que se referia a suas amigas acompanhantes de ambos os soberanos, como a maior parte dos cortesãos, não a agradavam nem um pouco.
Os trejeitos afectados do Rei e seus descaramentos atrevidos no relacionamento com os cortesãos, chocavam de forma inexprimível a jovem pensionista de convento.
As semanas seguintes nada trouxeram de novo.
Diana mantinha zelosamente seu posto junto à jovem Rainha.
As horas livres passava no Hotel de Nevers, onde a Duquesa sempre a recebia cordialmente e lhe propiciava os mais variados entretenimentos.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 7:59 pm

Certa vez encontrou na casa da Duquesa uma jovem dama cuja aparência não lhe agradou.
Era uma mulher alta e magra, de vinte anos.
Seu rosto era alvíssimo, olhos verdes, amendoados e emoldurados pelos cílios longos e negros, cintilavam como os olhos de um gato.
A pequena boca vermelha guardava um sorriso provocante de paixão.
Seu gesticular e toda sua figura mostravam um descaramento cínico e, no fundo das pupilas verdes brilhava algo de cruel e de mau.
Vestia um fino traje:
um vestido azul e, na cabeça, uma touca negra de veludo com penas.
A beleza de Diana, naturalmente, chamou a atenção da dama.
Enquanto a Duquesa apresentava uma a outra, ela lançou um olhar de curiosa maldade sobre a moça.
Ao nome de Viscondessa Marion de Beauchamp Diana se espantou.
Esquecendo a má impressão, ela disse alegremente surpresa:
— Marion de Beauchamp!
Você é esposa de René de Beauchamp?
— Sim, é meu marido, - respondeu enrubescendo levemente a admirada Marion.
— Como sou feliz por finalmente ter conhecido a esposa de meu amigo de infância!
Quantas vezes eu e René lamentamos sua ausência!
Um leve sorriso zombeteiro perpassou os lábios da Baronesa:
— Verdade? Estou muito comovida pelos sentimentos de meu marido para comigo.
Agora me recordo de que ele me falou de sua pequena Baronesa de Mailor e sobre suas frequentes visitas à Mansão d'Armi.
Porém você me será ainda mais próxima.
Ontem recebi uma carta de titia, na qual me relata que meu irmão, Marquês de Marillac se tornou noivo da Senhora de Mailor.
— Sou eu. Só que eu e o Sr. Aimé resolvemos manter em segredo o nosso noivado até o próximo ano.
Com a chegada de duas damas a conversa tomou outro rumo.
Diana quase não tomava parte nela, apenas observava Marion que narrava com assombrosa falta de discrição um indecente caso que havia ocorrido com um dos senhores da corte do Duque d'Anjou.
Quanto mais observava a Sra. de Beauchamp, mais antipatia a tomava.
Por que ela ficou vermelha ao ouvir o nome de René?
Por que ela permanece aqui enquanto ele vive só, na Mansão Beauchamp?
Ela devia amar o jovem, belo e gentil rapaz.
Quando a Sra. de Nevers retornou, após ter acompanhado as visitas à saída, surpreendeu Diana extremamente pensativa e lhe indagou no que pensava.
— Sobre a Sra. de Beauchamp; o que a faz viver aqui, longe de René? - perguntou inocentemente Diana.
A Duquesa sentou na cadeira e deu uma longa gargalhada, depois enxugou as lágrimas e disse:
— De onde você veio, minha criança, que não sabe aquilo que corre em todas as bocas?
A bela Marion abandonou a casa do marido e passou a viver com meu cunhado, o Duque de Guise de quem se tornou amante.
— A mulher de René é amante do Sr. de Guise?!
E a senhora sabe disso! - disse espantada Diana.
A Duquesa caiu novamente em risos.
— Oh! Criança!
Não fique assim assustada.
Henrique de Guise gosta naturalmente de mulheres bonitas e não esconde isso de ninguém.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:50 pm

Se a esposa dele, Catarina, se atormentasse muito, ficaria com os cabelos brancos em três meses.
Aliás não foi ele quem desviou Marion do bom caminho.
Antes dele o Sr. de Surdi a amou e agora dizem que o Sr. d'Anjou está perdidamente apaixonado por ela.
Mas esqueçamos a bela Marion; posso lhe falar de coisas mais interessantes.
Ontem recebi uma carta da Condessa de Montfort - ela virá para o Natal e pede que lhe entregue este bilhete.
Feliz com a notícia, Diana pegou o bilhete.
A alegria de encontrar em breve sua amiga a fez esquecer de Marion.
Passada a agitação, somente no silêncio da noite ela voltou a pensar naquilo que ouvira.
Agora entendia a estranha expressão de René toda vez que a conversa se referia à esposa e, no entretanto, ele queria vir a Paris.
Será que já teria perdoado a traidora?
Os dias que se seguiram não trouxeram novidades.
Maríllac escrevia de tempos em tempos.
Na última carta lhe contou que a doença da tia o segurava e não podia deixá-la assim.
René também não viria, o que aliás Diana achou compreensível.
Ao receber a carta do noivo, sentiu um grande alívio; a cada dia mais lhe pesava o compromisso, já que quando comparava Aimé com os palacianos, ele quase sempre ficava em desvantagem.
A beleza ímpar da moça causou forte impressão no palácio sobretudo desde o dia em que o Rei após observá-la disse:
"Que moça encantadora!".
Desde esse dia o número de admiradores aumentou muito e até o Duque d'Alençon lhe dispensava especial atenção.
O Natal se aproximava.
Certa manhã uma Dama veio anunciar uma visita e Diana, com alegria, viu que era a Condessa de Montfort.
As amigas correram em direcção uma da outra, abraçando-se e beijando-se calorosamente.
Depois de uma animada conversa, Clemência convidou Diana para passar o dia seguinte em sua casa.
A Noite de São Bartolomeu
— Armando e Raul desejam muito vê-la, porém não sabem que você se tornou tão bonita.
Quem sabe - e a Condessa riu maliciosamente _ não irá se realizar nosso antigo plano...?
Diana ficou vermelha, e logo em seguida pálida; deu um suspiro.
Ela lembrou do Conde Raul e de seu noivado, mas irreflectidamente silenciou sobre o último.
Na manhã seguinte Diana se vestiu com requintada elegância.
Clemência e seu marido a receberam de braços abertos.
A feliz e orgulhosa Clemência lhe apresentou seu filho.
A seguir passaram a conversar sobre o passado e o futuro.
— Onde está Raul?
Nós estamos sentados à mesa e ele se atrasa, sabendo da importante visita que temos, - disse Clemência com ligeira insatisfação.
— Ele foi ao Louvre se encontrar com o Sr. de Nancy e deve regressar em breve.
De qualquer forma ele não sabe da visita de Diana, - acrescentou o Conde, sorrindo manhosamente.
Eu queria fazer uma surpresa assim ele viria logo para conhecer sua encantadora amiga...
— Veja, tio Raul! - alegremente gritou Luciano correndo à porta.
O coração de Diana começou a bater com mais intensidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:51 pm

Curiosa, viu um jovem alto e forte que se aproximava rapidamente, enquanto segurava na mão seu chapéu com pena.
A moça o reconheceu imediatamente, já que Raul pouco havia mudado.
Só que sua beleza se tornara a de um adulto, e uma barba rala e sedosa lhe cobria o rosto.
Ele vestia um traje muito elegante.
O olhar do moço, com admiração indisfarçável, caiu sobre o rosto de Diana que, pálida e nervosa, respondeu ao seu cumprimento. No mesmo instante Clemência desatou a rir.
— Por que tanta cerimónia entre velhos conhecidos? Será que você esqueceu, Raul, que a Sra. de Mailor foi minha colega no convento de Nossa Senhora?
O Conde ficou vermelho e surpreendido. Depois de algumas gentilezas e desculpas, ele tomou a mão de Diana e a beijou.
— Pelo reinicio de nossa velha amizade, - acrescentou ele fazendo graça.
À noite Diana retornou para casa com a feliz sensação de que aquele dia fora um sonho.
Raul esteve a seu lado o tempo todo e se recusou acompanhar o irmão a uma reunião de protestantes.
Quando a figura do Conde surgia nas imagens mentais da moça, seu coração batia com estranha força, enquanto que a lembrança de Marillac a fazia tremer.
Com ódio e impensada malvadeza ela comparava a estampa rude e os membros grosseiros de seu noivo com o elegante e belo Raul, de traços delicados e olhos negros como veludo, mãos finas e bem tratadas como as de uma mulher.
A partir desse dia Diana sempre passava suas horas livres no Hotel de Montfort.
Contrariando o bom senso, ela não podia ficar sem ver Raul que, por sua vez, fascinado pela moça, sem saber do noivado, não escondia sua paixão por ela, cortejando-a insistentemente.
— Ao que parece sua casa está predestinada a reunir os seus adoradores, - disse, certa vez, sorrindo Raul.
— Quem pode ser, além de Clemência, de seu e de você, Conde?
Vocês me cercam de todas as atenções, me estragando com mimos, - argumentou Diana enrubescendo.
— Meu médico é uma excelente e honestíssima pessoa.
Chama-se António Gilberto e está certo de que a mãe dele foi sua babá; diz conhecê-la desde o dia em que você nasceu.
— António, o filho da minha querida Justina, aqui?
Oh! Diga-lhe para vir correndo, - gritou alegremente a moça.
Quinze minutos depois...
— Como estou feliz em vê-lo, António!
Como está Justina? - perguntou Diana, estendendo a mão ao moço todo vestido de preto e ele, com olhos brilhantes de felicidade, respeitosamente a cumprimentou.
Teve início, então, uma conversa entrecortada.
Diana fez tantas perguntas ao mesmo tempo ao seu ex-pajem, que ele não sabia a qual delas responder primeiro.
Por causa disso a cena se tornou cómica, um verdadeiro "quiproquó".
— Não! Desse jeito eu nunca saberei nada, - disse Diana por fim.
Venha me ver, António, amanhã pela manhã, no Louvre.
Lá poderemos conversar com mais calma.
Conforme o pedido, no dia seguinte António Gilberto apareceu na residência real.
Conduziram-no às dependências de Diana, que o esperava com impaciência.
Recebendo seu antigo amigo de infância com vinho e salgadinhos, ela lhe pediu que contasse como tinha vivido desde o tempo em que se separaram e de que maneira se tornara médico de Montfort.
— Tamanha felicidade eu recebi graças à protecção de Nossa Santíssima Virgem Maria e as preces de minha boa mãe, - respondeu ele emocionado.
Usando sua permissão, nobre dama, lhe contarei como tudo isso aconteceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:51 pm

"Após seu desaparecimento do Castelo d'Armi, minha mãe passou a se sentir muito mal.
Nada conseguia dissipar a inconformação dela pelo facto de o Barão de Mailor ter planeado algo contra você mas Deus, por justiça, já o castigou, tolerando que o assassino o golpeasse.
"Eu também fiquei muito triste.
O quarto e o jardim, depois do que aconteceu, me pareciam grandes demais.
Eu passava o tempo todo na igreja para a qual a sorte me conduziu, ajudando a velha Madalena nos seus afazeres domésticos.
Nessa época o Pe. Celestino recebeu a visita de seu irmão gémeo, cirurgião muito hábil, que não descansava, nem mesmo durante aquela semana de visita.
Acompanhei o Sr. Gilles por todos os lugares, procurando ser-lhe útil.
Tal afinco despertou nele simpatia por mim, terminando por pedir permissão à minha mãe para me levar a Paris onde, sob sua orientação, tu aprenderia medicina.
Mamãe, agradecida, permitiu, pois eu tinha catorze anos e era preciso pensar no futuro.
Um bom doutor não podia ter carência de pão nesta nossa época agitada , em que guerras, duelos e vários incidentes causam tanto dano a senhores arrebatados e a pessoas de seus séquitos, acrescentou em tom bondoso António.
"Desde o momento em que minha partida foi decidida, minha mãe também decidiu abandonar o castelo d'Armi.
Ela procurou um lugar de ama-seca e o conseguiu numa casa, na qual viveu até o dia de sua morte, dois anos atrás.
Depois de descrever a Diana, que chorava ao recordar sua fiel ama-de-leite, os detalhes da morte de Justina, o jovem continuou:
"Nos anos seguintes me entreguei completamente aos estudos.
Somente duas vezes me foi possível visitar mamãe.
Sobre a segunda visita ainda voltarei a falar.
Assim correu o tempo.
Terminei os estudos e tive a felicidade de ser durante dois anos aluno do conhecido, Ambrósio(28), voltando depois ao meu primeiro professor, que havia adoecido e por isso desejou que eu o substituísse no tratamento de alguns doentes.
"Há uns três anos atrás meu professor, Sr. Gilles, recebeu a notícia de que seu outro irmão, comerciante em Angers, sentindo-se doente, pedia a presença para o acerto de diversos assuntos da família.
Meu pobre patrão, preso à cama devido a uma terrível doença, estava incapacitado de viajar.
Então ele depositou em mim toda sua confiança, pedindo que fosse em seu lugar e resolvesse todos os problemas com seu irmão, de acordo com as instruções dadas por ele.
"Concordei com alegria, uma vez que, próximo a Angers vivia minha mãe a quem eu sempre estava ansioso por ver.
Por isso me esforcei para apressar a partida.
"A viagem foi feita sem qualquer contratempo.
Eu estava bem equipado.
Levei na mala meus instrumentos cirúrgicos e uma caixa de remédios, graças aos quais pude ganhar uma boa quantia durante a viagem.
"Não faltava mais do que um dia para chegar a Angers, quando ocorreu um incidente que mudou meu destino.
Atravessava rapidamente um bosque grande e espesso, com pressa de chegar a um hotel antes que a noite caísse.
De repente ouvi uns gritos e tiros partindo das redondezas.
Esporeei os cavalos e numa curva da estrada vi cinco ou seis bandidos atacando furiosamente três cavaleiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:51 pm

No exacto minuto em que os vi, um dos cavaleiros caiu, quase em seguida um outro cambaleou na sela e deixou cair a arma.
"Lançando-me na defesa do terceiro cavaleiro, atirei com minha pistola nos bandidos, um dos quais caiu.
O cavaleiro matou outro e os demais fugiram.
Já escondidos no matagal, um dos bandoleiros atirou e meu companheiro de combate foi ferido no peito e caiu no solo soltando um gemido.
"Saltei do cavalo e examinei os corpos estendidos.
Logo constatei que o último a cair era um jovem fidalgo rico e os dois que o acompanhavam seus criados, dos quais um estava morto e outro levemente ferido e atordoado.
"Tirando da mala os instrumentos e a caixa de remédios, examinei o ferimento do jovem senhor.
Era grave mas não mortal.
Fiz um curativo preventivo.
"Quando verti um pouco de vinho na boca do ferido e lhe dei sal para cheirar, ele abriu os olhos.
Então o soergui e perguntei quem era, prevenindo-o de que seu caso era muito delicado e inspirava cuidados.
"—Tenhamos esperança de que a sorte nos traga alguém que nos indique o refúgio mais próximo, respondeu o ferido.
Eu estava viajando a negócios.
Meu nome - Conde Raul de Montfort.
— Raul? Era o Sr. Raul? - gritou Diana, ficando vermelha como uma cereja.
— Sim, minha senhora, era ele.
Foi exactamente esse episódio que nos fez encontrar.
Mas continuarei minha narrativa.
Comecei a ficar preocupado por estar no bosque, com os dois feridos, quando por fim fui tirado das dificuldades por um mineiro que retornava a sua choupana.
Fiquei sabendo por ele que nos encontrávamos em terras pertencentes ao Marquês de Marillac.
— Marillac!... - interrompeu Diana fortemente surpresa.
— Sim, Marquês Aimé de Marillac.
Talvez o conheça, senhorita?
Sim, bem... este senhor estava em Paris na casa de seu cunhado e o mineiro me disse que, nas proximidades havia um pavilhão de caça, onde vivia o guarda do bosque e seu filho, os quais, naturalmente, não negariam abrigo a um senhor ferido.
Estimulando sua prontidão com moedas de ouro, eu o mandei para lá a fim de levantar o alarme.
Logo ele voltou com dois homens e uma liteira-maca, na qual colocamos o Conde.
O criado contundido voltou a si e seguiu montado no cavalo, enquanto eu o acompanhava ao lado, escorando-o.
O pavilhão de caça era uma maciça construção de pedra, com alguns cómodos confortavelmente mobiliados.
"Instalando o Conde numa grande cama com colunas, cuidadosamente tratei seu ferimento.
Durante essa operação que o Conde suportou com incomum paciência, ele me disse:
"—Você é muito talentoso para sua idade, mestre António.
Eu o quero a meu lado; não me abandone- até meu pleno restabelecimento.
Compensá-lo-ei generosamente pelo tempo perdido."
"Depois de saber que eu me dirigia a Angers para tratar de negócios de meu patrão, ele prometeu me liberar para realizar minhas obrigações, assim que sua saúde o permitisse.
"Passados alguns dias no tratamento do criado que sobrevivera, este pôde ir ao Castelo de Montfort com a notícia do desagradável atentado.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:51 pm

Permaneci com o Conde me prendendo cada vez mais ao seu encantador e excelente carácter, e cuidei dele o melhor que pude, esforçando-me em alegrá-lo nos longos e aborrecidos dias, levando livros que se encontravam no pavilhão ou lhe contando diversas histórias ocorridas durante minha prática médica.
"Certa noite, quinze dias após a partida do serviçal, um grupo de cavaleiros, encabeçados por dois senhores, parou no pavilhão.
Um deles era jovem e atraente, muito parecido com o Conde Raul.
O outro, surpreendentemente, era meu antigo professor Ambrósio Pare.
O restante do grupo era constituído de homens armados, empregados e cavalos carregados de malas.
"Corri ao encontro deles para recebê-los e conduzi-los ao meu doente.
Ao meu ver, Pare não ficou menos surpreso que eu.
"—Você aqui, António!
Disse ele. Que coincidência!
"Expliquei como chegara até ali e expressei minha alegria em vê-lo.
"O encontro dos dois irmãos me provou que entre ambos reina a relação mais cordial e fraterna.
Mas como lhe transmitir o que eu senti quando o célebre cirurgião se inclinou sobre o doente que eu, até aquele momento, havia tratado sozinho?
Esqueci tudo.
O meu coração começou a bater mais forte enquanto ele, com todo cuidado, examinava o ferimento e o curativo feito por mim.
Por fim, se levantou e me abraçou amigavelmente, dizendo:
" — Você é um excelente jovem, António, e o reconheço como meu aluno.
Eu mesmo não teria feito melhor.
"Emocionei-me.
Tal elogio, saído dos lábios do afamado cirurgião, me elevava a meus próprios olhos.
Alguns dias depois fiquei sabendo que as palavras do renomado cientista, demasiadamente bondosas para aumentar o mérito de quem não o tem, me abriram as portas da carreira.
"O Conde Armando de Montfort, sem se importar com minha idade, me propôs o posto de médico e cirurgião no seu castelo.
Concordei com prazer, feliz por saber que aos vinte cinco anos já tinha o futuro garantido para toda vida.
"Antes de partir, meu novo senhor me deu oito dias para arrumar os negócios de Gilles e abraçar mamãe.
"Meu encontro com ela e as notícias que lhe trazia foram suas últimas alegrias deste mundo, já que três meses depois ela faleceu.
"No que se refere a mim, fui com os dois Condes ao Castelo de Montfort.
— E é feliz lá, António?
— Sinto-me como no paraíso.
O castelo é luxuoso e nunca desfrutei vida tão boa como a que me é proporcionada lá.
Além disso os dois Condes me tratam muito bem e permitem que eu disponha do tempo conforme minha vontade.
Se não tenho doentes no castelo, então me é autorizado sair para tratar dos pobres nas aldeias vizinhas.
Esta vida tranquila e a actividade proveitosa me agradam, me fazem verdadeiramente feliz.
A cada dia sou mais reconhecido ao meu bom senhor.
— Sim, eles são muito bons, gentis e atenciosos, - disse Diana com entusiasmo.
E Clemência é a melhor de todos:
António, com um sorriso, balançou a cabeça.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:51 pm

— Até o ano passado eu não pensava assim, - ponderou ele, já que a Condessa trata os subordinados com muita frieza e desdém.
Ela não mudava suas maneiras arrogantes, mesmo quando se relacionava com pessoas da mesma posição dela.
Mas lhe digo: no ano passado me convenci que debaixo da arrogância da Condessa se esconde um coração amoroso e uma mente justa e atenciosa.
"Nessa época o pequeno Luciano adoeceu com uma inflamação.
Nenhuma vez pensei que ele estivesse perdido, que morresse, mas o Senhor me encorajou e consegui salvar o menino.
"Durante esses dias e nessas terríveis noites, a Condessa não deixou o filho nem por um minuto.
Ela me ajudou com tamanha destreza e energia, que a única coisa que me restava era admirá-la.
Naquele dia, quando lhe disse:
Condessa, seu filho está salvo!
Ela, emocionada, apertou minha mão.
Vendo que fiquei desconcertado com tal sinal de reconhecimento por parte dela, a quem eu considerava muito orgulhosa, ela emocionada disse:
"—Bom António!
Aquilo que você fez por nós não se paga com ouro.
Vi que na assistência a meu filho você colocou uma parte de sua alma.
Por isso agradeço como me sussurra o coração.
"Essa tem sido minha vida até o dia de hoje."
Só que eu não esperava mais por esta grande felicidade em Paris e eis que tenho a alegria de reencontrá-la!
Ah! Que pena minha boa mãezinha não tenha podido viver até este momento!
Profundamente emocionada, Diana lhe estendeu a mão que ele beijou.
E a partir desse dia recomeçou a antiga amizade, por um lado de respeito, por outro lado de sinceridade e fidelidade ilimitadas, como nunca houve antes entre o filho de Justina e de sua pequena senhora.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:52 pm

V. LIVRE ENFIM

Dali para diante o tempo foi para Diana uma mistura estranha de felicidade e dor.
Frequentemente ela ia ao Hotel de Montfort e notava, dia após dia, o amor de Raul aumentando por ela.
O jovem não escondia seus sentimentos e há muito tempo teria feito a proposta, se a própria jovem não tivesse fugido cuidadosamente de cada explicação definitiva.
Ela temia confessar a Raul que estava noiva do Marquês de Marillac; e se ele começasse a desprezá-la pela hipocrisia?
Se ele se afastasse dela com desprezo e se ativesse a outra mulher?
Esta ideia provocou na alma de Diana uma tempestade de ira e ciúmes que lhe prendiam a respiração.
Por outro lado a perspectiva de se casar com Marillac lhe provocava terror.
Só pelo facto de estar com Raul, deleitando-se com sua voz e com sua aparência, ela esquecia o passado e não pensava no futuro.
Tal tensão nervosa actuava nefastamente na saúde de Diana, e Clemência, surpresa, começou a notar a mudança que se passava nela.
Apenas uma coisa sustentava um pouco a jovem: a ausência do Marquês.
Ele não se apressava em chegar a Paris, e, com a alma em paz, se ocupava de seus interesses pela grande herança que lhe tinha sido proporcionada pelo falecimento da tia.
René também não aparecia.
Mas Diana sabia, através da carta do Visconde, que ele se gripara e que poderia chegar a Paris só dentro de cinco ou seis semanas.
A carta de Marillac tirou de Diana a última tranquilidade.
Ele, muito gentilmente, lhe escrevia que os negócios que o haviam prendido em Anjou estavam chegando ao fim, esperando para o fim de maio poder estar em Paris.
Estava se preparando para implorar à noiva reduzir o prazo de experiência e que marcasse o mais depressa possível o casamento deles.
Ela gelou até a medula dos ossos.
Casar-se com Marillac era para ela pior que a morte.
Mas como se livrar dele?
Após três noites de insónia e de lágrimas intermináveis, Diana decidiu contar tudo a Clemência.
Na manhã seguinte se dirigiu com essa intenção aos aposentos da Condessa.
Ela estava sozinha, pois o marido e cunhado tinham ido à Assembleia onde havia uma reunião de protestantes, felizes e orgulhosos com a brilhante vitória alcançada pelo partido deles.
Realmente, não considerando a oposição dos católicos, a fúria e oposição abafadas da Rainha-Mãe, o Rei Carlos há alguns dias confirmara o casamento de sua irmã Margarida com Henrique de Navarra (11.04.1572).
Todos esperavam que essa união consolidasse a paz firmada dois anos antes.
A Condessa de Montfort embora fosse católica, amava demasiadamente seu marido para se relacionar hostilmente com o partido dele.
Nela, uma mulher honrada e casta, causava repugnância o descaramento cínico das damas da corte.
Os boatos de que o Duque d'Anjou tomava banhos de sangue humano, um homem requintado ao mais alto grau, não agradavam à jovem mulher.
Ela, em segredo, alegrou-se quando o povo saqueou os hotéis de alguns italianos, protegidos de Catarina.
A multidão os culpava de roubarem crianças e entregarem à Rainha-Mãe e seu querido filho, para a preparação de banhos de sangue humano.
— O que há com você, Diana?
Já há tempo estou notando você se modificando, tornando-se triste.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:52 pm

É evidente que algo a oprime. Mas o quê?
Eu nem posso imaginar.
A vida lhe está sorrindo e o futuro promete felicidade.
A propósito: você não está vendo que Raul a ama?
Que desgraça você teme quando pode se unir a esse jovem bonito e nobre?
Diante dessas palavras Diana desatou em prantos; lançou-se aos braços da Condessa exclamando com voz entrecortada:
— Ah! Clemência!
É isso que principalmente está me sufocando e tirando minha calma.
Vejo que Raul me ama, mas não posso me casar com ele.
— Não é melhor ser sincera, pequena insensata?
Não será por que você não o ama? - perguntou a Condessa admirada.
— O que você está falando?
Será possível conhecer Raul e não o amar? - respondeu Diana, não percebendo o sorriso que foi provocado por sua resposta ingénua.
Seu rosto queimava e ela prosseguiu:
— Vou lhe contar tudo e peço seu conselho.
Estou noiva - essa é minha infelicidade...
— Você está noiva?!
Mas meu Deus, quem é esse noivo?
O noivo invisível?
Desfazendo-se em lágrimas, Diana contou todos os motivos que a tinham forçado a se atar a Marillac que, apesar de tudo, era melhor que o abominável Saurmont.
Ela lhe contou o seu desespero.
Levada agora por sua obrigação, queria se ver livre da palavra empenhada, vendo-se livre desse casamento - custasse o que custasse.
— Você deve se confessar ao Marquês e lhe pedir devolver sua palavra.
Vai conseguir se casar com ele amando outro? - observou a Condessa em tom sério.
— Mas se ele não quiser desfazer o noivado, então você tem toda razão - custe o que custar devo ser livre.
Raul não irá me desprezar pela minha impulsividade e meu silêncio criminoso...? - disse Diana com timidez.
Clemência se pôs a rir.
— Não tema! Uma pessoa apaixonada não costuma ser tão inescrupulosa.
Aliás, hoje mesmo informarei tudo a ele, visto estar sofrendo muito.
A insistência com que você se esquiva de qualquer explicação o incomoda.
Diana abraçou a amiga e a beijou; recusou-se a almoçar sob pretexto de seu serviço.
Na realidade ela sentia mesmo era necessidade de ficar sozinha para pensar melhor como se comportar em relação a Marillac.
Por alguns dias Diana se esquivou de ir ao Hotel de Montfort.
Era-lhe terrível e vergonhoso se encontrar com Raul.
Mesmo quando a própria Clemência saía com ela, ela se recusava a passar o dia com eles.
Mas um dia, antes do almoço, chegou Raul.
A jovem ficou corada até as orelhas, baixou os olhos, e fez como se não estivesse notando nada, mas o Conde se sentou a seu lado e lhe beijou a mão.
Seu olhar, não considerando a ligeira tristeza, era bondoso e afectuoso em demasia e ela se refez imediatamente.
Sem qualquer palavra ela entendeu que Raul a amava e até tinha esperanças para o futuro - e Diana tomou a firme resolução de se livrar de Marillac.
A partir desse dia lhe voltou a boa disposição de espírito.
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:53 pm

Apenas na calada da noite, quando ela pensava na explicação inevitável e difícil que se aproximava, seu coração se comprimia dolorosamente e já se punha a desejar que o Marquês nunca chegasse.
Chegou o final de maio e uma intranquilidade febril tomou conta de Diana.
Assim, a cada instante, ela esperava ver Marillac, já que ele não lhe tinha respondido à carta.
Certa manhã, quando Diana estava cansada, irritada e ainda na cama, a camareira Gabriela entrou correndo e informou que tinha chegado o Visconde de Beauchamp e desejava vê-la.
Diana, alegremente, começou a se vestir apressada.
O quanto temia a chegada de Aimé se alegrava com a chegada de René.
Sem dúvida, seu amigo de infância a ajudaria e lhe daria um bom conselho.
Nesse instante René assobiava uma ária de caçador, andando pela sala de estar da Dama de Honra.
Ele ainda estava um pouco pálido pela gripe recente e com visível impaciência olhava para a porta por onde entraria Diana.
Com o passar dos meses a imagem da pequena amiga dos jogos infantis mais e mais se apossava dele.
A beleza dela o inebriava, mas com essa admiração se misturava o sentimento de amargor, quase desgosto, porque Diana via nele apenas o amigo.
Uma coisa o irritava terrivelmente - aos olhos dela era apenas um irmão, e não um homem bonito e sedutor, que tinha conquistado tantos corações femininos.
Ele a perdoava por se ter unido a Marillac, por necessidade, mas não podia desculpá-la por não dar a entender que preferia ele ao invés do Marquês.
Em seu ciumento rancor René às vezes esquecia completamente que já era casado.
Quando se recordava desse fato era para pensar de que modo se livraria de Marion, por quem sentia um desprezo gélido.
Com o resultado dessas reflexões, foi que decidiu se utilizar de sua permanência em Paris para se divorciar da devassa com quem havia casado e que havia abandonado o lar.
Mas antes de tudo, deveria colocar um sólido obstáculo ao casamento de Marillac.
Por consciência, não podia permitir que Diana casasse com uma pessoa que tinha matado a primeira esposa.
Poderia acontecer que ele, René, viesse a conquistar o coração de Diana e então o ciúme doentio do Marquês de Marillac incomodaria sua felicidade.
Não! Em todo caso, a jovem deveria ser avisada do que Aimé era capaz.
Com a entrada de Diana se interromperam os pensamentos do Visconde.
Lançou um olhar cheio de admiração à bonita jovem que considerava sua.
Cumprimentou-a de forma fraternal e familiar que caracterizava a relação deles.
— O Marquês veio com você?
Diana perguntou com voz ligeiramente indecisa.
— Não, Aimé chegará dentro de alguns dias, mas, a propósito, quero lhe falar seriamente a respeito dele, - disse o Visconde sentando-se ao lado dela e lhe segurando amistosamente a mão.
Marillac me disse que desejava apressar o casamento.
Antes de vocês se ligarem definitivamente, eu quero, outra vez, repetir que na minha opinião você será infeliz.
Você não ama Aimé e ele será um marido inconveniente.
A primeira esposa se casou por amor e o carácter dele, severo, ciumento e desconfiado, envenenou-lhe a vida.
— Ah! René!
Mil vezes você está certo.
Eu estou apenas pensando numa coisa:
devolver ao Marquês sua palavra.
Mas ele me libertaria da obrigação?
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Re: Conde J. W. Rochester - A NOITE DE SÃO BARTOLOMEU / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 17, 2016 7:53 pm

— Você deve forçá-lo a fazer isso; com esse objectivo eu lhe revelarei uma página do seu passado.
Talvez não me seja conveniente fazer isso, mas eu a amo muito para permitir que você coloque seu destino em mãos tão cruéis.
Ele narrou a Diana, detalhadamente, a aventura amorosa da Sra. de Marillac, sua morte e a da pobre criança, pela vontade cruel do Marquês.
Diga-lhe que você soube por acaso desta triste história e que não pode se tornar esposa da pessoa cuja consciência está carregada por dois crimes.
Diana escutando-o empalideceu terrivelmente.
De facto, na posição de mulher apaixonada ela prestou muito menos atenção ao crime de Marillac do que no excelente motivo para se livrar dele.
— Certamente por nada na terra me casarei com tal criatura!
Como lhe estou agradecida por me ter prevenido! - exclamou a astuta Eva, beijando estrepitosamente o rosto do Visconde.
Mas ela não lhe revelou os motivos por que tanto desejava o rompimento com Marillac.
Cego, com a ideia preconcebida, Beauchamp interpretou essa gentileza como evidência do amor que ela tinha por ele.
Transcorrida uma hora, tendo saído da casa de sua jovem amiga, ele trazia consigo a convicção de que era amado e assim que se divorciasse de Marion nada o impediria de realizar a nova união.
O relato de René acalmou consideravelmente o difícil sentimento que Diana experimentava, à espera da inevitável explicação que daria a Marillac.
O crime não a chocou muito.
Nessa época infeliz de discussões religiosas, crimes, revolução civil, crueldades extremas e de toda espécie eram até certo ponto normais; as pessoas se acostumavam de certa forma a elas.
Para ela o homicídio do Sr. de Marillac quase sumiu na satisfação de encontrar tão excelente pretexto para lhe restituir a liberdade.
Essa confiança se tornava tão grande que, passados alguns dias, Gabriela a informou sobre a visita do Marquês e Diana até não se afastou do grande espelho, diante do qual, pela última vez, observava seu vestido de corte.
Como nesse dia ela estivesse de plantão, o Marquês, tendo entrado na pequena sala de estar, se deteve.
Seu olhar brilhante imediatamente cresceu em direcção à esbelta, elegante figura de Diana em pé, diante do espelho, ajeitando a corrente com a cruz.
A longa ausência, ainda mais fortalecia os sentimentos de Marillac; o suave e inocente rostinho da noiva lhe trazia uma visão sedutora e ele, de todo coração, estava ansioso para apertá-la em seus braços.
Nesse momento a figura da jovem o fascinou.
Até esse instante ele só a tinha visto com vestidos de lã simples, branco, cinza; nunca havia suposto que um vestido luxuoso poderia aumentar tanto sua beleza.
E, realmente, o vestido de veludo azul bordado a ouro, a capa redonda e um pequeno gorrinho com um longo véu, destacavam ainda mais a alvura ofuscante de sua pele e o tom dourado do exuberante cabelo.
Um forte rubor se espalhou repentinamente pelo rosto do Marquês - ele se encontrava a dois passos da jovem.
Abraçando sua cintura fina, ele a puxou e se inclinou para beijá-la.
— Como você é linda e como a amo! - Ele murmurou.
Diana estremeceu.
Escapando de seu abraço, com a agilidade de um lagarto, ela recuou alguns passos.
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