Almas Antigas / Tom Schroeder

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Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:57 am

Almas Antigas
Tom Schroeder

A busca de evidências científicas da reencarnação

A FASCINANTE HISTÓRIA DE UM PESQUISADOR E SUA BUSCA DE EVIDÊNCIAS CIENTÍFICAS DA REENCARNAÇÃO

A fascinante história de um pesquisador e sua busca de evidências da reencarnação / Tom Schroeder

Há muito mais mistérios ente o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia. SHAKESPEARE, HAMLET, ACTO 1, CENA 5


PRIMEIRA PARTE
Prólogo
Crianças que se lembram de vidas passadas
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:57 am

1 - A PERGUNTA

É tarde. Já está quase escuro.
A fumaça de milhares de fogueiras de dejectos paira ao redor da luz dos faróis, à medida que o microónibus avança, aos solavancos, pela passagem estreita e esburacada que faz as vezes de estrada nas regiões desabitadas da Índia.
Ainda faltam várias horas para alcançarmos o hotel, moderna ilha de conforto plantada nesse oceano de terceiro mundo.
Conseguimos escapar de um caminhão que ziguezagueia em direcção contrária usando cada milímetro do imundo acostamento.
Mas escapar não nos traz alívio.
Voltamos abruptamente para a estrada esburacada e logo ultrapassamos uma carroça de madeira que se arrasta pesadamente, puxada por bois de enormes chifres.
Nosso motorista aperta a buzina ao desviar-se dela, numa curva fechada, e eu rezo para que não apareça um outro ônibus, apinhado até o tecto de gente e de animais.
Tento não pensar na ausência dos cintos de segurança, ou no artigo afirmando que a probabilidade de ocorrer um acidente com vítimas fatais é quarenta vezes maior nas estradas da Índia do que nos Estados Unidos.
Tento não pensar em morrer a dezasseis mil quilómetros de casa, sem nunca mais ver minha mulher e filhos.
Entretanto, mesmo preso nessa bolha de medo, consigo perceber a ironia da situação.
No banco de trás, aparentemente despreocupado com os enormes torpedos que espalham lama por todos os lados e que se precipitam em nossa direcção, está um homem alto, de cabelos brancos, com quase oitenta anos, que insiste em afirmar que conseguiu acumular provas bastante sólidas que demonstram que a morte física não significa necessariamente o meu fim, ou o de quem quer que seja.
Seu nome é Ian Stevenson, um médico psiquiatra que há trinta e sete anos vem enfrentando estradas como essa, ou ainda piores, para colher relatos de crianças que afirmam lembrar-se de vidas anteriores, fornecendo detalhes e dados precisos sobre as pessoas que afirmam ter sido, pessoas que existiram e que morreram antes que elas nascessem.
Enquanto luto contra o pavor da morte, ele se vê diante do medo de que o trabalho ao qual dedicou toda a sua vida fique completamente ignorado por seus colegas de profissão – Porquê – pergunta ele, pela terceira vez, desde o início da noite – os cientistas em geral se recusam a aceitar as provas que já temos da reencarnação?
Nesse dia, como nos últimos seis meses, Stevenson demonstrou o que considera “provas”.
Ele me permitiu acompanhá-lo em suas viagens para trabalho de campo, primeiramente nas montanhas ao redor de Beirute e, agora, numa grande extensão de terra na Índia.
Ele respondeu minhas infindáveis perguntas e até me convidou a participar das entrevistas que constituem o cerne de sua pesquisa.
As provas às quais ele se refere não vêm de um modismo da Nova Era, de leitura sobre vidas passadas ou de regressões hipnóticas nas quais alguém diz ter sido uma noiva florentina do século dezasseis ou um soldado das guerras napoleónicas, fornecendo detalhes que podem ser obtidos através da leitura de um romance.
As particularidades trazidas pelas crianças de Stevenson são despretensiosas e muito mais específicas.
Uma delas lembra-se que era uma adolescente de nome Sheila, que foi atropelada por um veículo que seguia por uma estrada recolhendo capim para alimentar animais.
Outra se recorda de ter sido um jovem que morreu de tuberculose chamando por seu irmão.
Uma terceira lembra-se que era uma mulher, no Estado da Virgínia, aguardando ser submetida a uma cirurgia cardíaca à qual não sobreviveria e tentando, sem sucesso, chamar sua filha.
E assim por diante.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:57 am

Em centenas de casos por todo o mundo, essas crianças fornecem nomes de cidades e de parentes, profissões e relacionamentos, atitudes e emoções específicos de um único indivíduo, geralmente desconhecido de suas famílias atuais.
Mas o facto é que as pessoas de quem as crianças se recordam realmente existiram, suas lembranças podem ser comprovadas, comparando-as a eventos de vidas reais, e as identificações feitas podem ser verificadas – ou contestadas – por um grande número de testemunhas.
É isso o que Stevenson vem fazendo há quase quarenta anos.
É esse o trabalho que desenvolvemos no Líbano e, agora, na Índia:
examinar registros, entrevistar testemunhas e aferir os resultados, comparando-os a possíveis explicações alternativas.
Poucos puderam, como eu, constatar de perto o quanto esses casos podem ser convincentes – não apenas em relação aos factos, mas na emoção claramente visível nos olhos e vozes das crianças, de suas famílias e das famílias das pessoas que elas afirmam ter sido.
Tenho presenciado e ouvido factos surpreendentes para os quais não encontrei uma explicação fácil.
Agora, estamos quase no fim de nossa viagem, talvez a última na carreira de Stevenson.
No frio barulhento do microónibus que vai sacolejando ruidosamente noite adentro, começo a pensar que a pergunta de Stevenson não e apenas retórica.
Ele quer que eu, o forasteiro, o jornalista céptico que viu tudo o que ele queria mostrar, lhe dê uma explicação.
Como é que os cientistas podem ignorar a imensa quantidade de provas que lhes são fornecidas?
Começo a reflectir longamente sobre como é difícil falar de provas quando não se conhece o mecanismo de transferência – a forma como personalidade, identidade e memória podem ser transferidas de um corpo para o outro.
Então, paro imediatamente.
Ouço minhas próprias divagações e percebo o que Stevenson realmente está me perguntando:
depois de tudo o que vi, pelo menos eu acredito?
Eu, que sempre olhei para dentro de mim mesmo sem jamais ter visto um sinal ou ouvido um sussurro de qualquer outra vida que não fosse a minha, o que acho de tudo isso?
Ele quer saber.
Está me fazendo uma pergunta e merece uma resposta.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:57 am

2 - SÓ SE VIVE UMA VEZ

A resposta é longa e começa dez anos antes de Stevenson me fazer a pergunta, num pequeno e confortável consultório médico localizado a poucos quarteirões de minha casa em Miami Beach.
A luz da sala é fraca.
O Dr. Brian Weiss, chefe do departamento de psiquiatria do Hospital Mount Sinai, está falando suavemente.
E me conta uma história:
Em 1972, Weiss hipnotizou uma jovem mulher.
Ela estava deitada de costas no sofá, os olhos fechados, as mãos pousadas ao lado do corpo, envolta num lençol imaginário de luz branca, levada a um transe através da voz do médico e da vontade de sua própria mente.
Ele ordenou que ela retrocedesse até suas mais tenras memórias, de volta às raízes da fobia que atormentava sua vida.
Há dezasseis meses Weiss vinha tratando dessas fobias, uma ou duas vezes por semana, mas essa era apenas a segunda tentativa de usar a hipnose.
A primeira sessão revelou lembranças significativas de quando ela tinha três anos – um encontro sexual perturbador com o pai bêbado –, mas não houve nenhuma melhora em seu estado emocional.
Weiss ficou impressionado com o facto de tal revelação não trazer um certo alívio dos sintomas.
Poderia haver uma lembrança ainda mais remota, enterrada com maior profundidade em sua mente?
Weiss decidiu fazer uma sugestão aberta.
Com voz firme, ordenou:
– Volte aos acontecimentos que deram origem aos seus sintomas.
Em transe profundo, ela respondeu, numa voz baixa e rouca.
Longas pausas interrompiam suas palavras, como se falar fosse difícil ou doloroso.
– Vejo degraus brancos que me levam até um edifício... um edifício grande e branco com pilastras...
Estou usando um vestido longo, uma bata feita de tecido rústico.
Meu nome é Aronda. Tenho dezoito anos...
Sem ter certeza do que se passava, Weiss fez algumas anotações.
O sussurro prosseguiu:
– Vejo uma praça de mercado.
Há várias cestas.
Elas são carregadas nos ombros.
Moramos num vale. Não há água.
O ano é 1863 antes de Cristo.
Antes do final da sessão, Aronda havia morrido aterrorizada, arfando e sufocando em meio a uma enchente.
Weiss disse que esse foi o momento decisivo para a moça do sofá.
Seus medos – de sufocar, de afundar, de ficar no escuro – dissiparam-se naquele instante.
Nos meses seguintes, seus murmúrios roucos viajaram pelos séculos.
Ela se tornou Johan, que teve a garganta cortada na Holanda em 1473; Abby, uma serviçal na Virgínia do século dezanove; Christian, um marinheiro galês; Eric, um aviador alemão; um menino na Ucrânia de 1758, cujo pai foi executado na prisão.
Nos intervalos, ela se tornou hospedeira de espíritos desencarnados que revelavam os mistérios da eternidade.
Brian Weiss escreveu um livro sobre essa mulher anónima que ele chamou de Catherine.
Muitas Vidas, Muitos Mestres se tornou um bestseller internacional e é considerado um clássico da Nova Era.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:58 am

Em 1988, quando o livro estava no topo da lista dos mais vendidos, decidi escrever uma matéria sobre o autor para a “Tropic”, revista da edição de domingo do Miami Herald, da qual eu era o editor.
O que me interessava era o próprio Weiss:
ele não era um louco nem um irresponsável.
Aos quarenta e quatro anos, era um médico formado pela Universidade de Yale, nacionalmente reconhecido como perito em psicofarmacologia, química cerebral, toxicologia e mal de Alzheimer.
Ele afirmou que havia esperado cinco anos para publicar seu livro, temendo ser criticado por seus colegas de profissão.
Entretanto, dois anos após ter a coragem de fazê-lo, viu que seus temores não se concretizaram, pelo menos publicamente.
Antes da entrevista, dirigi-me ao director do hospital em busca de sua opinião sobre o trabalho de Weiss.
Tudo o que ouvi foram efusivos elogios:
“Brian Weiss é altamente respeitado, um líder de grande competência em sua área.”
Quando perguntei se sua reputação havia sido prejudicada pelo livro, ele respondeu com um vigoroso “não”.
Outros colegas concordaram:
– Se qualquer outra pessoa tivesse escrito o livro, eu não teria acreditado – disse um deles.
Mas acredito porque sei que Brian Weiss é um perspicaz clínico e pesquisador, perito em diagnósticos.
Fiquei impressionado ao constatar que médicos normalmente conservadores lavavam a sério as afirmações de Weiss quanto a evidências de vidas passadas.
Esse facto não me convenceu, mas acrescentou interesse à história que eu pretendia escrever.
Naquele primeiro encontro em seu consultório, disse a ele que gostaria de satisfazer a minha curiosidade em relação a toda aquela história, o que significava que eu teria que fazer-lhe perguntas um tanto incisivas.
Weiss sorriu com modéstia.
– Toda essa área é muito nova – disse ele.
Existem muitos pontos que ainda precisam ser esclarecidos.
Sentado atrás da escrivaninha, Weiss me expôs, pacientemente, a lógica de seu pensamento.
Há dezoito meses ele vinha tratando de Catherine, uma técnica de laboratório daquele mesmo hospital.
Durante esse período, ele se utilizara da terapia convencional.
Nunca conversaram sobre crenças no ocultismo e Catherine jamais fizera qualquer tentativa de manipulá-lo.
O único ponto incomum em seu tratamento era a total ausência de sinais de melhora.
Isso fez com que Weiss concluísse que, se ela fosse uma trapaceira, deveria ser a mais paciente de todas, pois num estratagema daquele tipo seria necessário que ela passasse dezoito meses fingindo ter uma série de problemas psicológicos, esperando que Weiss sugerisse o uso de hipnose para, na primeira sessão, simular que estava revivendo experiências traumáticas da infância e só então chegar às falsas vidas passadas.
Weiss contou-me que, durante o curso de graduação, ele havia passado centenas de horas observando um incontável número de pacientes com o objectivo de aprimorar sua capacidade de diagnóstico.
Com Catherine, ele teve certeza de estar diante de uma pessoa que tinha genuíno desejo de atenuar os sintomas que a afligiam.
Era uma mulher simples e honesta, dedicada à fé católica que aprendera na infância.
Não era esquizofrénica, nem psicótica, nem maníaco-depressiva e tampouco sofria de múltiplas personalidades.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:58 am

Seu pensamento não era delirante.
Havia também a reacção de Catherine à ideia de vidas passadas.
Parecia pouco à vontade com tudo o que acontecia, pois tal ideia não estava de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica.
Entretanto, ela ficara muito feliz com a rápida melhora de seu estado de saúde e, assim sendo, continuaram com as sessões até que ela sentisse que estava curada.
Não havia nenhum sinal de que Catherine pudesse querer se utilizar da experiência de vidas passadas com qualquer outro objectivo que não fosse o terapêutico.
Ela relutou em assinar a licença de publicação e não obteve lucros com o livro.
Até mesmo agora, explicou Weiss, quando se encontram casualmente no Hospital Mount Sinai, ela nunca demonstra interesse nas implicações metafísicas da experiência que viveu.
Por esses motivos, Weiss percebeu que Catherine não era louca nem trapaceira.
O que o convenceu de que ela estava realmente se lembrando de vidas passadas foi o carácter inteiramente corriqueiro dessas vidas.
Se Catherine aparecesse, por exemplo, como Cleópatra em uma vida e Madame Curie e outra, a credibilidade ficaria comprometida.
Mas ela aparecera como uma serviçal, um leproso, um trabalhador.
Em seu mais profundo transe, Catherine focalizava sua atenção no perfume das flores ou no esplendor de um casamento do qual não podia participar – factos do dia-a-dia, da vida real.
Suas lembranças eram, por vezes, muito detalhadas – em uma vida, ela descreveu o processo utilizado para fazer manteiga; em outra, a preparação de um corpo para ser embalsamado.
Para Weiss, as descrições – embora não muito técnicas – pareciam estar acima do nível de conhecimento normal da paciente.
Certa vez, voltando de uma viagem a Chicago, ela lhe contou que se surpreendera durante uma visita a um museu, quando começou a corrigir as informações dadas pelo guia para alguns artefactos egípcios de quatro mil anos de idade.
Fiquei admirado com a sinceridade de Weiss, mas não com as evidências apresentadas.
Nas histórias de Catherine não havia nenhum detalhe que um apreciador de romances históricos não pudesse inventar.
Ela não falara em línguas arcaicas e não tinha mencionado o nome de uma única pessoa cuja existência pudesse ser confirmada.
Resolvi então passar pela experiência.
Pedi a Weiss que me indicasse um hipnotizador para me submeter à regressão.
Achei o processo relaxante, suave e estranhamente narcisista, mas não tive qualquer sensação de que vidas passadas esquecidas estivessem se abrindo em minha memória.
Em vez disso, percebi claramente que estava tentando prover a hipnotizadora com aquilo que ela queria:
cenas de uma época anterior ao meu nascimento.
Esperei que alguma imagem surgisse na minha mente e tentei enfeitá-la, criando uma situação de vida que lhe fosse adequada – exactamente o que fazia quando escrevia ficção ou começava a adormecer.
Quando relaxei ainda mais, entrando num estado ligeiramente alterado de consciência, as imagens começaram a aparecer sem nenhum esforço intencional.
Mas, ainda assim, elas nunca trouxeram consigo um único vestígio de autenticidade diferente do que se poderia encontrar num devaneio comum.
Percebi que as regressões hipnóticas ainda precisavam ser melhor explicadas.
Outros psiquiatras que entrevistei se mostravam intrigados, embora ainda não estivessem prontos para chegar às mesmas conclusões de Weiss.
Um psicólogo amplamente reconhecido como grande especialista em hipnoterapia e distúrbios relacionados a múltiplas personalidades disse:
– Tenho visto muitos pacientes que, no passado, tiveram experiências marcantes, carregadas de intensa emoção, cujas consequências profundas se fazem sentir no presente.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:58 am

Não posso afirmar que tais experiências sejam lembranças de vidas passadas.
É possível que sejam fruto da fantasia, como acontece nas distorções de memória:
uma forma indirecta de se descrever um problema.
Por exemplo, uma pessoa que diz ter sido estuprada em uma outra vida pode, na verdade, estar expondo uma lembrança incestuosa na infância.
Mas existe uma finalidade por parte do inconsciente.
Não sei ao certo o que está acontecendo com essas lembranças de outras vidas, mas não acredito que sejam uma enganação.
Depois de conversar com outros psiquiatras e de ouvir opiniões divergentes, decidi procurar o maior dos estudiosos, o homem responsável pelo verbete da Enciclopédia Britânica sobre regressões hipnóticas a vidas passadas.
Era o Dr. Martin Orne, na época psiquiatra clínico e professor de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade da Pensilvânia.
Ele tinha muito a dizer:
– Sempre me sinto como aquele personagem de histórias infantis que diz para todos que Papai Noel não existe.
As pessoas que propagam essas ideias não são mal-intencionadas, apenas têm um imenso desejo de acreditar.
Muitos crêem que o que se fala durante a hipnose tem maior probabilidade de ser verdadeiro, quando, de facto, acontece exactamente o oposto.
A hipnose pode criar pseudomemórias.
Lembranças de reencarnações não são diferentes dos casos de pessoas que, hipnotizadas, declaram ter sido capturadas por alienígenas e submetidas a exames físicos no interior de discos voadores.
Esses são os chamados “mentirosos honestos”.
Os terapeutas pedem a seus pacientes que voltem até a causa de seu problema.
Isso é algo que várias pessoas acham difícil fazer e, se não conseguem encontrar a origem nessa vida, regressam a uma vida anterior.
Fantasia, é claro.
Lembro-me de ter desligado o telefone em meu escritório sentindo minha curiosidade satisfeita.
Mais uma vez, como vi acontecer tantas outras em minha vida profissional, uma história que, de início, parecia ter alguma explicação extraordinária acabava se tornando algo simples e comum.
Eu estava agora totalmente convencido de que Weiss havia se encantado com um fenómeno bastante interessante e concluído tratar-se de algo sobrenatural quando, na verdade, o que tal fenómeno demonstrava era a incrível riqueza da imaginação humana.
Weiss afirmava que, ainda que fossem apenas manifestações do subconsciente, as recordações se revelaram excelentes auxiliares da terapia.
Após as regressões, ele havia testemunhado o desaparecimento quase instantâneo de problemas resistentes a qualquer outro tipo de tratamento.
Eu estava pronto para colocar um ponto final naquele assunto quando encontrei um artigo sobre um tal Dr. Stevenson, conhecido como o Professor Carlson de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia, que estava investigando relatos sobre memórias de vidas passadas colhidos em outras fontes:
lembranças espontâneas, experimentadas por crianças ainda pequenas, completamente acordadas, sem qualquer envolvimento hipnótico.
Muitos desses relatos incluíam nomes, endereços e detalhes íntimos da vida de pessoas que as crianças, aparentemente, não teriam como conhecer.
Membros das famílias dessas pessoas foram localizados e as lembranças relatadas foram comparadas com fatos acontecidos na vida real.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:58 am

De acordo com Stevenson, em muitos desses casos as recordações apresentadas pelas crianças passaram no teste da realidade de forma muito convincente.
O que me deixou mais impressionado foi o facto de Stevenson afirmar ter investigado um grande número de casos – na verdade, mais de duzentos em todo o mundo.
Confesso que meu primeiro pensamento foi que se tratava de um maluco delirante que também dizia ter uma gaveta cheia de fragmentos da cruz de Cristo.
Mas, prosseguindo com a leitura, vi que certamente não era esse o caso.
Encontrei uma citação de um artigo de 1975, publicado na respeitada revista médica The Journal of the American Medical Association, afirmando que Stevenson “havia colectado casos cujas evidências dificilmente poderiam ser explicadas com base em quaisquer outras premissas (além da reencarnação) ”.
O artigo também fazia referência a um livro no qual Stevenson reunira seus casos.
Encontrei o livro na biblioteca pública.
O estilo académico dificultava a leitura, mas o esforço valeu a pena:
os casos eram convincentes, até mesmo espantosos, e fiquei bastante impressionado com a aparente imparcialidade e a ponderação demonstradas nas investigações.
Stevenson procurara fatos concretos, específicos e passíveis de verificação, relacionados a vidas passadas e sobre os quais seria impossível, por meios normais, obter-se qualquer tipo de informação prévia.
Segundo seus relatos, ele os havia encontrado várias vezes.
Como é que eu nunca ouvira falar do trabalho daquele homem?
Por que precisei de um dia inteiro na biblioteca para localizar centenas de dados de produção instantânea de lembranças comprovadas?
Se eu estava interessado no assunto, por que não procurar Stevenson?
Essa última pergunta precisou de uma década para ser respondida.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:59 am

3 - O HOMEM ATRÁS DA CORTINA

Nos anos seguintes, continuei procurando em livrarias obras dedicadas à reencarnação e encontrei sempre várias páginas dedicadas a Stevenson.
Foi nesses livros que descobri um pouco sobre sua vida:
formou-se em medicina na Universidade McGill, no Canadá, em 1943, destacando-se como um dos melhores alunos.
Começou como clínico-geral e desenvolveu alguns trabalhos na área de bioquímica, mas acabou se especializando em psiquiatria.
Em 1957, aos trinta e nove anos, Stevenson tornou-se chefe do departamento de psiquiatria da Escola de Medicina da Universidade de Virgínia e foi ali que começou a investigar os relatos de crianças que se lembravam de vidas passadas. Depois de algum tempo, abriu mão de suas obrigações administrativas para se dedicar inteiramente à pesquisa de fenómenos paranormais.
Na literatura popular, além de referências geralmente positivas e de menções não muito críticas a seu trabalho, havia poucas discussões a respeito de suas pesquisas com as crianças.
Alem disso, excepto pelo artigo anteriormente publicado no The Journal of the American Medical Association, os cientistas em geral o haviam ignorado.
Comecei a procurar nos índices de outras publicações menos importantes, tais como The Journal of the American Society for Psychical Research e The Journal of Scientific Exploration.
Essas revistas, cuja existência eu ignorava, tornaram-se uma revelação.
Estavam repletas de discussões sobre assuntos espantosos – aparições, possessões, psicocinestesia, alterações no contínuo espaço-tempo.
Em sua maioria, os artigos pareciam tão sérios quanto uma pesquisa sobre o câncer.
Cada um deles apresentava a metodologia utilizada, uma discussão sensata e imparcial e conclusões bastante prudentes.
Muitas vezes, os autores expressavam seu reconhecimento a Stevenson por haver dado início à investigação científica de temas considerados tabus pela ciência ortodoxa em geral.
Um deles comparou-o a Galileu Finalmente, eu encontrara artigos que se referiam ao seu trabalho de forma crítica, incluindo pesquisas feitas por outros estudiosos que investigaram casos similares.
Alguns desses pesquisadores, apesar de constatarem as mesmas lembranças em crianças e considerarem altamente improvável que elas as pudessem ter obtido de forma normal, diziam que talvez houvesse alguma outra explicação, de natureza paranormal.
Outros pesquisadores, porém, não aceitavam as pesquisas de Stevenson como provas de reencarnação.
De acordo com eles, fazia muito mais sentido considerá-las indícios de alguma forma extremamente desenvolvida de habilidade psíquica.
Na primavera de 1996, encontrei o número de telefone de Stevenson, na Universidade de Virgínia, e disquei achando que ele já estaria aposentado há muito tempo.
Para minha surpresa, ele veio ao telefone.
Identifiquei-me como jornalista e falei-lhe do meu vivo interesse.
Ele me explicou que estava muito envolvido na finalização de mais um volume de sua série de livros e que não poderia se desviar daquele trabalho.
– Além disso – disse ele –, acho que já fui entrevistado o suficiente e não tenho mais nada a acrescentar.
Depois que desligou, enviei-lhe uma carta pedindo que revisse a sua posição.
Disse-lhe que estava mais interessado em observar seu trabalho do que em entrevistá-lo.
Finalmente, em dezembro, Stevenson convidou-me a ir até Charlottesville para discutirmos o assunto pessoalmente.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 14, 2016 11:59 am

Em janeiro de 1997 encontrei-me com ele em seu escritório na Divisão de Estudos da Personalidade da Universidade de Virgínia.
A sala de espera estava repleta de arquivos contendo todas as anotações dactilografadas e transcrições de mais de 2.500 entrevistas feitas por Stevenson durante os vários anos de sua pesquisa.
Numa das paredes podia-se ver um mapa dos Estados Unidos em larga escala, coberto de alfinetes de cabeças vermelhas, pretas e brancas, com a seguinte legenda:
vermelho – casos de renascimento –, preto – experiências de quase-morte –, branco – casos envolvendo fantasmas/espíritos.
No andar superior, alguns dos pesquisadores companheiros de Stevenson estavam reunidos numa sala de conferências, almoçando.
Um deles era um cardiologista que, em suas consultas no centro de saúde da universidade, procurava identificar e estudar pacientes cardíacos que relatavam ter tido experiências de quase-morte – experiências místicas ou extracorpóreas provavelmente causadas por condições clínicas graves, consideradas por alguns como indícios de consciência após a morte.
Perguntei-lhe o que estava tentando alcançar, e ele me respondeu:
– A paz no mundo. Fez um prolongado silêncio e acrescentou:
– Estou falando sério.
Se eliminássemos o medo da morte, o mundo conseguiria um equilíbrio maior.
Não haveria motivos para a guerra.
Stevenson era um homem alto e magro, com uma farta cabeleira branca e um ar um tanto formal.
Quando lhe perguntei se considerava que suas pesquisas haviam “comprovado” a reencarnação, ele respondeu:
– Acredito que, excepto na matemática, nada pode ser totalmente provado em ciência.
Entretanto, para alguns dos casos que conhecemos no momento, a melhor explicação que conseguimos é a reencarnação.
Há um importante número de indícios e acredito que estão se tornando cada vez mais fortes.
Acho que uma pessoa racional pode vir e acreditar na reencarnação com base em evidências.
Adorei a prudência de suas palavras, a fria precisão, a humildade absoluta.
Decidi provocá-lo um pouco.
– O que me incomoda em relação à ideia de reencarnação – expliquei – é o problema óbvio da explosão populacional.
Muito mais pessoas viveram neste século do que em todos os anteriores.
Só algumas delas têm almas reencarnadas?
De onde vêm as almas? Ele não disse nada de imediato, mas parecia olhar para dentro de si mesmo.
Estava claramente reflectindo sobre a minha pergunta.
– Esse não é um ponto de fácil explicação – disse ele, finalmente.
Algumas pessoas sugerem que as almas podem vir de outros planetas:
acredita-se que há biliões de planetas semelhantes à Terra no universo.
Outros dizem que a criação de almas é contínua.
Mas, é claro, não tenho nenhuma prova de qualquer uma dessas afirmações.
Mais uma vez fiquei encantado.
Eu já estava mais do que convencido a passar algum tempo com Stevenson – só precisava fazê-lo aceitar a ideia.
Expliquei que gostaria de acompanhá-lo em seu trabalho de campo.
Disse-lhe que, como um observador leigo, usando minha habilidade jornalística para analisar detalhes num contexto, eu poderia recriar para os leitores a experiência daquele rigoroso trabalho de investigação que ficava apenas sugerindo nas entrelinhas de seus eruditos relatórios.
Poderia descrever o comportamento de seus entrevistados e as características mais subtis que contribuem para aumentar ou mesmo diminuir a credibilidade desses encontros, pois, ainda que subjectiva, a experiência de testemunhá-los forneceria um tipo de informação com o qual também seria possível avaliar os dados colectados.
Na verdade, acrescentei, a avaliação completa da pesquisa seria impossível sem tal experiência.
Stevenson ficou de pensar no assunto.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:56 am

SEGUNDA PARTE
Beirute - Crianças da guerra

4 - O LIVRO DE DANIEL


Líbano. Stevenson estava planeando uma viagem no outono.
Para o Líbano.
Lembro-me vagamente de ter ficado surpreso.
A última vez em que meu pensamento se voltara para essa trágica esquina do mundo, o Líbano e sua capital, Beirute, representavam o inferno sobre a terra, uma zona de guerra urbana em que todos, sem excepção, eram combatentes.
Massacres, sequestros, assassinatos, bombardeios indiscriminados em áreas residenciais, carros-bomba, terroristas suicidas.
No mês de janeiro, a perspectiva de acompanhar não passava de uma ideia longínqua.
Agora, porém, era diferente:
o contrato estava diante de meus olhos, a caneta, em minhas mãos, movia-se pela última linha, assinando o meu nome.
Recordei-me de que, vários meses antes, Stevenson enviara-me, pelo computador, uma mensagem com seus planos.
Abri o correio electrónico e ali estava ela:
“Estou prevendo a realização de duas pesquisas de campo nos próximos meses: para a Índia no início de 1998 e para o Líbano no próximo outono.”
Stevenson tinha amigos e colaboradores em Beirute, que ele havia conhecido em suas viagens anteriores.
Para eles, os problemas que o país atravessava faziam parte da rotina.
Eram comandados por uma mulher, Majd Abu-Izzedin, que trabalhara com Stevenson como intérprete e assistente.
Conheciam-se há mais de vinte anos, desde que um professor da Universidade Americana em Beirute a recomendara a Stevenson como uma excelente aluna.
Depois que a sua cidade foi reduzida a destroços, ela partiu para os Estados Unidos, estabelecendo-se na Virgínia.
Ali pôde levar uma vida pacífica ao lado do marido, Faisal, plantando e vendendo verduras e legumes orgânicos em sua fazenda.
Entretanto, eles haviam retornado ao Líbano no verão anterior para que Faisal assumisse um posto no Ministério do Meio Ambiente de seu país.
Seu filho de dez anos teve que trocar a pacífica e semi-rural Virgínia por uma vida de incertezas num apartamento em Beirute.
A presença de Majd naquela cidade era uma incrível dádiva para Stevenson.
Ela parecia conhecer todas as pessoas e não tinha medo de nada.
Vinha de uma família importante na comunidade drusa.
Uma das diferenças mais importantes entre os drusos e os muçulmanos ortodoxos é que os primeiros acreditam firmemente na reencarnação – uma crença reforçada pelas várias crianças drusas que afirmaram lembrar-se de vidas passadas.
Viajei com Stevenson de Paris.
Depois de horas de voo, a noite caiu sobre o Mediterrâneo e Beirute finalmente surgiu diante de meus olhos, com uma teia de luzes tremeluzentes em meio ao negro da água.
Observei, entretanto, que a teia apresentava alguns buracos.
Somente à luz do dia conseguiria entender o que eles representavam:
imensas áreas destruídas, algumas abandonadas, outras preparadas para a reconstrução.
Mahmoud, o motorista de Majd, acenava no meio da verdadeira multidão que se aglomerava do lado de fora do terminal.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:56 am

No carro, Majd nos acolheu afectuosamente, exclamando com alegria:
– Tenho boas notícias.
Todas as pessoas que você está procurando continuam nos mesmos endereços de dezasseis anos atrás e querem vê-lo.
Stevenson tinha uma série de objectivos a alcançar.
Queria fazer novas visitas a algumas pessoas cujos relatos ele havia pesquisado anteriormente, mas que só agora pretendia publicar.
Também estava em busca de novos casos envolvendo crianças, não para estudá-los, mas para entregá-los aos cuidados de Erlendur Haraldsson, da Islândia, que havia realizado testes psicológicos nas crianças de Stevenson no Sri Lanka e queria expandir sua pesquisa até o Líbano.
Finalmente, planeava visitar novamente algumas das pessoas que havia encontrado há mais de trinta anos, para tentar compreender o papel que as memórias de vidas passadas e alguns comportamentos a elas associados desempenharam no curso de sua existência.
Na manhã seguinte encontrei Stevenson folheando os fichários abarrotados de anotações e resumos de casos relacionados às suas pesquisas de campo.
Uma das pessoas que Stevenson queria rever era Daniel Jirdi, que, quando criança, declarara lembrar-se da vida de Rashid Khaddege, um mecânico que havia morrido aos vinte e cinco anos num acidente de automóvel.
Daniel tinha apenas nove anos da última vez que Stevenson e Majd o entrevistaram, dezoito anos antes.
Fiquei satisfeito ao ler o resumo do caso:
havia muitos detalhes que, se resistissem a uma averiguação cuidadosa, seriam de grande importância.
Para começar – e essa é uma característica presente em todos os casos de Stevenson –, a vida lembrada por Daniel era totalmente comum, sem qualquer brilho:
Rashid era um operário, solteiro, sem filhos, desconhecido, morto num acidente rotineiro – uma pessoa que dificilmente faria parte das fantasias de uma criança.
Mais importante ainda: as famílias envolvidas não se conheciam previamente.
Se fosse verdade, seria difícil explicar como uma criança poderia fornecer dados precisos sobre a vida de um operário desconhecido, que morava numa comunidade diferente da sua e que havia morrido um ano antes de seu nascimento.
Além disso, Daniel começara a fazer tais afirmações assim que foi capaz de falar, o que diminuía ainda mais a possibilidade de fraude.
À medida que a criança vai ficando mais velha, torna-se mais consciente do ambiente que a rodeia e sua capacidade verbal aumenta, assim como seu contacto com o mundo fora de casa.
Como pai, posso afirmar que, aos cinco anos, as crianças coleccionam todo tipo de informações e repetem-nas a todo instante, surpreendendo seus pais:
“Onde será que ela aprendeu uma coisa dessas?”
Mas é absurdo acreditar que uma criança seja capaz de decorar biografias complexas, repetindo-as com precisão, numa idade em que seus colegas ainda estão lutando para aprender os nomes das cores.
Por outro lado, havia um senão na história de Daniel, presente em quase todos os casos de Stevenson:
as duas famílias envolvidas se conheceram antes que ele as entrevistasse.
Ele não teve a oportunidade de testemunhar a reacção da criança no seu primeiro encontro com a família da qual ela afirmava lembrar-se numa outra vida.
Também não ouvira a criança falar sobre a sua personalidade passada antes que suas afirmações fossem comprovadas, ou não, pela família do morto.
Nesses casos, para verificar se as crianças se referiam mesmo a vidas passadas e se suas revelações correspondiam a factos vividos por pessoas já mortas, era necessário não só comparar os relatos daqueles que testemunharam o ocorrido como também avaliar a confiabilidade das próprias testemunhas.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:56 am

As avaliações que Stevenson fazia desses factores em seus relatórios eram, quase sempre, realistas, cuidadosas e relativamente completas, ainda que um tanto sucintas.
Eu sabia que ler sobre os casos seria completamente diferente de avaliar por mim mesmo, olhar nos olhos das pessoas, sentir a vibração de sua voz, observar a expressão de seu rosto, analisar o ambiente e as circunstâncias ao seu redor.
Majd chegou e sentou-se no saguão com Stevenson para planear as visitas.
Comecei a folhear suas anotações sobre o caso Jirdi e encontrei a transcrição de uma conversa quando ela teve com o Daniel em 1979, quando ele tinha nove anos.
Majd perguntou-lhe sobre as circunstâncias que envolveram o acidente que provocara a morte de Rashid Khaddege, o homem que o menino dizia ter sido:
MAJD: Quantas pessoas estavam no carro?
DANIEL: Seis.
MAJD: Quem estava dirigindo?
DANIEL: Ibrahim.
MAJD: Ele é mais velho que você?
DANIEL: Quatro anos mais velho.
MAJD: Você pode vê-lo?
DANIEL: Não. E, se o vir, eu o mato.
MAJD: Como vai indo a escola?
DANIEL: Muito bem. Sou excelente em matemática.
MAJD: Para qual empresa você trabalhava?
DANIEL: Datsun? Não, Fiat!
MAJD: Onde você trabalhava?
DANIEL: Em Beirute.
MAJD: Como aconteceu o acidente?
DANIEL: Nós estávamos no carro quando um outro passou e os passageiros começaram a nos repreender.
Então, o Ibrahim tentou voltar para tomar satisfações, mas o carro rodopiou e bateu.
Eles pegaram o meu amigo, que estava ao meu lado, mas me deixaram lá.
Depois da batida, todos os que estavam no carro foram encontrados do lado de fora.
Também me lembro de cair de uma sacada.
É só disso que me lembro.
Li a transcrição várias vezes, sentindo-me fascinado.
Essa era a primeira vez que eu podia ver como a criança ia respondendo as perguntas, uma por uma, na primeira pessoa, assumindo a identidade de um morto.
O tom prosaico chamava a atenção:
a vítima de um acidente fatal contando como fora jogada para fora de um carro e, logo depois, dizendo que era um óptimo aluno em matemática, numa outra vida, quando era apenas um menino.
Também observei que algumas das afirmações feitas por Daniel naquela entrevista entravam em contradição com dados registrados em diferentes partes do relatório e que haviam sido colhidos em outras fontes.
Por exemplo, a mãe de Rashid afirmou que havia quatro pessoas no carro, e não seis.
Quando perguntado sobre a empresa onde ele (Rashid) trabalhava, Daniel tinha dito Datsun e logo mudara para Fiat, a resposta correta, como se tivesse memorizado as informações e se confundido por um instante.
Algumas das informações feitas por Daniel – principalmente o fato de Rashid ter caído de uma sacada – aparentemente não chegaram a ser investigadas.
Não consegui encontrar qualquer referência ao assunto nos relatórios.
Perguntei a Stevenson sobre a queda na sacada à qual Daniel se referira.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:57 am

Ele me respondeu que, embora pudesse ser interessante, decidira não se dedicar seriamente ao assunto e nem às discrepâncias por mim observadas, uma vez que o menino fora entrevistado muito tempo depois de as famílias terem se encontrado e desenvolvido um relacionamento.
Assim sendo, Daniel poderia estar apenas repetindo, com ou sem exactidão, o que ouvira nas conversas entre as duas famílias ou entre outras pessoas que estivessem comentando o assunto.
Stevenson considerava contaminadas as declarações feitas pelos sujeitos – assim eram denominados aqueles que tinham lembranças de vidas passadas – depois que eles tivessem tido contacto com suas “famílias” anteriores.
Sua prioridade era pesquisar afirmações feitas por crianças e confirmadas por uma testemunha antes de qualquer contacto entre as famílias envolvidas.
Ele observou ainda que nenhuma lembrança era totalmente perfeita, o que poderia demonstrar apenas que a memória em geral apresenta falhas, mesmo quando se refere a uma só vida.
Revendo os relatórios, pude perceber que as informações que os pais de Daniel afirmaram ter recebido dele antes de seu encontro com a família Khaddege eram bastante limitadas.
Uma de suas primeiras palavras foi o nome “Ibrahim”, que ele repetia com frequência, sem que seus pais entendessem a razão.
À medida que foi crescendo, ficou claro que, na mente de Daniel, o nome estava associado a um grave acidente de automóvel.
Quando o menino tinha dois anos e meio, durante um piquenique em família, um adulto tentou dizer “Kfarmatta” (pronuncia-se “far-ma-ta”, apenas com um leve som antes do “f”), nome de uma pequena cidade distante da casa da família Jirdi.
Sem perceber que o filho estava ouvindo a conversa, os pais de Daniel ficaram estupefactos quando o menino, que nunca tinha estado ali, disse:
– É assim que se fala – e pronunciou o nome da cidade com perfeição.
Quando chegaram em casa, o pai quis saber onde ele ouvira aquela palavra.
– Eu sou de Kfarmatta – respondeu Daniel.
Algum tempo depois, quando passeavam de carro por Beirute, o menino e a mãe passaram por uma praia chamada Military Beach.
Daniel fechou os olhos, cobriu-os com as mãos e começou a chorar, enquanto gritava:
– Foi aqui que eu morri.
Mais tarde, Daniel disse que tinha sido um mecânico e descreveu o acidente em detalhes, contando que o automóvel estava em alta velocidade e que ele havia sido jogado para fora do veículo, ferindo-se na cabeça.
O pai de Daniel dizia-se céptico quanto à reencarnação, uma postura não muito rara entre os drusos das grandes cidades.
Ainda assim, o comportamento do filho o impressionara.
Resolveu, então, enviar um amigo a Kfarmatta para saber se havia alguém na cidade que se enquadrasse na história de Daniel – ele ainda não havia mencionado os nomes “Rashid” ou “Khaddege”.
Mas havia detalhes importantes – o nome “Ibrahim”, o lugar e o tipo de acidente, a profissão do morto – que bastariam para que um mero conhecido da família ligasse os factos.
Algum tempo depois, sem qualquer aviso, os Khaddege apareceram para visitar a criança.
Nas entrevistas realizadas por Stevenson em 1979, as duas famílias afirmaram que Daniel reconhecera imediatamente a irmã de Rashid, Najla, chamando-a pelo nome.
Era uma história impressionante.
Entretanto, as incongruências da entrevista com o menino ainda me incomodavam.
No mínimo eram uma prova da dificuldade de se lidar com testemunhos de qualquer natureza.
E eu não estava disposto a esquecer tão facilmente o detalhe de ele ter “caído de uma sacada”.
Decidi que, se tivesse uma chance, perguntaria a respeito.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:57 am

Com essa ideia martelando a minha cabeça, atravessamos Beirute pela primeira vez à luz do dia.
Deixamos o centro e seguimos para o sul, pela estrada costeira.
Dali, tomamos a direcção leste, rumo às montanhas.
Tanques e carros blindados enfileiravam-se ao longo da estrada ou protegiam-se nas carcaças de cimento e aço que um dia formaram o andar térreo dos edifícios.
Quanto mais nos aproximávamos de Kfarmatta, mais desolador era o cenário.
As montanhas, onde se concentrava a maior parte da população drusa do Líbano, haviam sofrido pesados bombardeios durante muitos anos.
Casas de concreto e pedra, destruídas por explosivos e fogo, espalhavam-se pelas encostas íngremes, formando um estranho contraste com as obras de novas edificações, abandonadas antes de sua conclusão.
Quase duas horas depois que saímos de Beirute, chegamos a uma rua imunda no interior da vila de Kfarmatta.
Aquela vila fora o centro de terríveis massacres de drusos civis por milícias cristãs.
Os massacres aconteceram de ambas as partes, mas os drusos sofreram de maneira especial.
Agora, crianças nascidas depois da guerra observavam, com uma curiosidade preguiçosa, a nuvem de poeira levantada pelo Mercedes.
Seguimos até o final da vila.
Mahmoud, então, parou e, pela janela, chamou um rapaz que estava à beira da estrada.
Procurávamos por Najla Khaddege, a irmã mais velha de Rashid, o homem que Daniel afirmara ter sido numa vida passada.
– É preciso saber o nome do pai.
Assim, é sempre possível encontrar a casa – explicou Majd.
Mesmo que esteja morto há mais de quarenta anos, é o nome do pai que eles conhecem.
E foi o que aconteceu.
Naim Khaddege, o pai de Rashid, desaparecera em 1948, na guerra contra Israel.
A família nunca soube ao certo o que aconteceu com ele.
Mas logo que Majd mencionou seu nome o homem apontou para a direcção de onde estávamos vindo.
A casa estava no lugar onde uma vala engolia a estrada.
Era um prédio de três andares, construído com simples blocos de concreto.
Majd saltou do carro, contornou a vala e, ao retornar algum tempo depois, disse que Najla estava em Beirute, mas Muna, a irmã mais nova de Rashid, estava na casa.
– O motivo de minha demora é que ela estava me falando de um novo caso – disse Majd.
A filha de Muna, Ulfat, de vinte e um anos, lembrava-se de ter sido uma das muitas jovens assassinadas pelos cristãos durante a guerra civil.
Stevenson ficou desapontado ao ouvir a idade da moça.
Eu me senti atordoado e um pouco temeroso com a novidade.
Nosso primeiro dia, nosso primeiro contacto, e já tínhamos um novo caso.
Era bom demais para ser verdade.
Acompanhamos Majd de volta ao apartamento.
Fomos recebidos por Muna uma senhora de meia-idade, que usava um mandeel – um lenço de cabeça branco que significa devoção religiosa.
Eu havia sido alertado para não estender a mão para uma mulher que usasse um mandeel:
mulheres drusas casadas e religiosas só podiam ser tocadas por quem fizesse parte de sua família mais próxima.
Muna convidou-nos a sentar num sofá rasgado e trouxe três latas de suco de abacaxi e canudos numa bandeja de prata manchada.
Enquanto bebíamos, ela ia contando a Majd sobre as intensas e terríveis lembranças que sua filha tinha de encarnações anteriores, quando recebera facadas no peito e tivera o corpo dilacerado, aberto em forma de cruz.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:57 am

A moça se recordava de ter passado por um enorme sofrimento antes de morrer.
Muna contou que, quando criança, Ulfat tinha uma irreprimível aversão a facas.
Disse ainda que a filha também se lembrava que, enquanto era torturada, vira pela janela uma amiga de nome Ida e, então, gritara por socorro.
Mas Ida era cristã e nada fez para ajudá-la.
Ao relatar esse facto, os olhos de Muna encheram-se de lágrimas.
Ela explicou que era comum que as vítimas de massacres fossem abandonadas pelos amigos e vizinhos, pois eles tinham medo de ajudá-las.
Não raro, os corpos eram deixados no lugar onde haviam caído e ali apodreciam.
Só eram enterrados após a partida dos cristãos.
Pelos dados fornecidos por Ulfat quando criança, a família de Muna conseguira localizar uma moça que havia sido morta num massacre na cidade de Salina.
Eu quis saber se eles já conheciam a outra família.
Majd traduziu a minha pergunta.
Muna fez um sinal negativo com a cabeça.
Naquele instante, a porta se abriu e uma mulher de cabelos longos e negros entrou na sala.
Era Ulfat.
Estava acompanhada do irmão e um amigo.
Ambos usavam calças jeans, camisetas e bonés.
Tinham uma postura desleixada, como se fossem dois típicos adolescentes norte-americanos.
Ulfat usava um blusão, calças jeans e botas, mas os brincos de prata e a maquiagem conferiam-lhe feminilidade.
Mina explicou o motivo de nossa visita e perguntou-lhe se poderíamos fazer algumas perguntas.
– Não me incomodo.
Podem me perguntar em inglês, se quiserem – respondeu Ulfat.
Não era como eu imaginava.
Esperava encontrar vilas com casebres de chão poeirento, pessoas com roupas tradicionais e costumes totalmente estranhos.
Sabia que alguns dos críticos de Stevenson questionavam o facto de ele usar tradutores, por considerarem que ele não poderia ter certeza de que a tradução era precisa e não seria capaz de compreender um contexto cultural diferente do seu.
Entretanto, o ambiente ali não era mais exótico do que, por exemplo, a casa de meus vizinhos cubanos em Miami, onde os pais falavam mal o inglês e os filhos ouviam CDs de música heavy-metal.
E ali estava uma pessoa com uma experiência de vidas passadas que possuía um videocassete e falava inglês com sotaque americano.
Ulfat sentou-se numa poltrona em frente à mãe e nós começamos a fazer perguntas.
Contou que era universitária em Beirute e que não sabia o que iria fazer quando terminasse os estudos.
Ela ainda se lembrava de sua vida anterior?
– Não muito, apenas nomes.
Quando eu era criança costumava falar sobre isso, mas agora já me esqueci.
Lembro-me do meu nome e sobrenome, do dia em que morri e de como aconteceu.
O nome por ela lembrado era Iqbal Saed.
– No dia em que morri, lembro-me de cada detalhe do que aconteceu.
– Então conte-nos o que você se lembra – disse.
– Era noite. Eu estava caminhando.
Tive medo de entrar numa viela, mas não havia outro caminho.
Notei a presença de uns quatro homens armados.
Assim que eles me viram, atiraram na minha perna.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:57 am

Quando me abaixei e pus a mão na ferida eles viram as jóias que eu estava escondendo na blusa.
Então eles me pegaram.
Antes de me matar, me torturaram muito.
Não consigo me lembrar bem dessa parte.
Mas lembro do momento em que me mataram.
Quando fecho os olhos, eu lembro.
Posso ver como eu estava andando, posso ver tudo o que aconteceu naquela noite.
– Quantos anos você tinha? – perguntou Stevenson.
– Vinte e três.
– Você se lembra de ter essa idade?
Ou alguém lhe disse a idade que Iqbal tinha quando morreu?
– Eu me lembro que morri jovem, mas eles me disseram que eu tinha vinte e três anos.
– Você frequentou a escola em sua vida passada?
– Não acredito que eu tenha ido à escola.
Sentindo-me fascinado, rabisquei algumas anotações.
Ela falava com naturalidade – melancólica, mas sem rodeios.
- Como você se sente em relação a essas memórias? – perguntei.
– Elas me incomodam – disse Ulfat, num repente.
Fez uma pausa e prosseguiu.
– Quando eu era criança, sempre sonhava que alguém vinha me matar, mas agora não tenho mais esses sonhos.
Stevenson pediu a Majd que perguntasse a Muna se ela conhecia alguém em Salina, a cidade onde Iqbal morrera.
Muna respondeu:
– Não, é muito longe daqui.
– Você tem alguma marca de nascença? – perguntou Stevenson a Ulfat.
Essa pergunta referia-se a um dos focos mais atuais das pesquisas de Stevenson:
verificar marcas de nascença que, aparentemente, correspondessem a feridas ou imperfeições em outras vidas.
Ulfat disse que não.
– Alguma dor inexplicada?
– Não.
– Alguma dificuldade física?
De certa maneira, eu esperava que a moça citasse algum detalhe só para agradá-lo.
Mas ela continuava negando:
– Nada disso – concluiu Ulfat.
A próxima pergunta é para Muna – disse Stevenson.
Ulfat teve alguma dificuldade para aprender a andar?
- Não, a menina andou aos onze meses.
Muna continuou a falar e, logo depois, Majd traduziu:
durante a maior parte dos primeiros anos de vida de Ulfar, Muna estivera fora do país.
Foi sua irmã, Najla, que esteve presente na ocasião em que apareceram os primeiros sinais das lembranças de vidas passadas.
Najla contara a Muna que certa vez, quando Ulfat começava a dar os primeiros passos, ela ouviu dizer que os cristãos iriam chegar na vila.
A menina correu, escondendo-se atrás do sofá e disse:
– Eles vão me matar (e desenhou uma cruz no peito), como fizeram da outra vez.
Decidi inquirir Muna sobre o facto de Daniel ter se lembrado da queda de uma sacada.
Para evitar que a pergunta induzisse a uma determinada resposta, pedi a Majd que indagasse apenas se Rashid havia sofrido algum acidente quando criança.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:58 am

Muna pareceu surpresa e respondeu numa rápida explosão de palavras.
Não se lembrava de Rashid ter se envolvido num acidente, mas ele havia caído de uma varanda, aos onze anos, junto com a irmã mais nova, Linda.
A queda tinha matado a menina.
Minha insistência no assunto parecia incomodar Stevenson.
– É uma pergunta para Najla.
Ela deve saber.
Talvez ele pensasse que minha intenção era apontar falhas na história de Daniel.
Ele já me havia dito que aquela entrevista não era válida como prova.
Mas eu estava intrigado.
Afinal, cair de uma sacada não é um acidente comum na vida de uma criança.
Seria aquela lembrança uma memória confusa, relacionada à imensa dor de perder a irmã mais nova?
Ou será que, num de seus encontros, ela ouvira a família Khaddege contando velhas histórias e incorporara a mais traumática de todas ao seu repertório de “memórias” sobre Rashid?
Deixamos a casa e seguimos pelas montanhas.
Nosso destino era Aley, uma cidade bem maior, com uma ampla rua principal, onde edifícios de pedra abrigavam lojas, restaurantes e escritórios.
Eu tinha muito o que pensar durante a viagem.
Primeiro, ficara impressionado com o refinamento e a naturalidade de Ulfat.
Estava claro que ela não gostava de falar sobre suas “memórias” – o fizera para nos agradar.
Seu rosto e sua voz estavam carregados de tristeza.
Aquelas lembranças não lhe trouxeram benefícios, nem atenção especial – na verdade, não tinham nenhuma importância no seu ambiente imediato.
E, quando Stevenson lhe perguntou se sentia alguma dor que pudesse estar relacionada ávidas passadas – um convite para que enfeitasse sua história, caso quisesse impressionar a todos –, ela respondeu, sem hesitar, com um sonoro “não”.
Por outro lado, os terríveis detalhes de suas memórias – as jóias escondidas na blusa, a amiga cristã que tinha ignorado seus apelos, a cruz gravada em seu peito – eram concretos demais, reflectindo a agonia da experiência vivida por Ulfat.
Visualizei uma criança vivenciando a aflição e o horror ao seu redor, e, mais tarde, vendo-os emergir numa metáfora pessoal.
Talvez, em algum lugar, ela tivesse entreouvido alguém contando uma história sobre uma moça chamada Iqbal que fora massacrada daquela maneira.
Talvez ela tivesse dado aquele nome ao seu próprio medo, imaginando ser ela própria a personagem da história.
As palavras de Ulfat deram origem a milhares de perguntas e apontaram para inúmeras direcções.
Percebi que acabara de testemunhar a fase inicial de uma pesquisa, a resposta para uma questão: como Stevenson conseguia localizar aquelas pessoas?
Isso não parecia ser difícil nas colinas drusas do Líbano.
Na verdade, algumas vezes essas pessoas simplesmente batem à sua porta.
A distância até Aley, em linha recta, era de menos de dezasseis quilómetros, mas levamos quase uma hora para percorrer o caminho sinuoso.
Atravessamos toda a cidade, passando pelo centro.
A destruição ali era ainda pior: nas colinas, áreas inteiras estavam em destroços.
Tudo o que não havia sido reconstruído estava desabando.
Perguntei a Majd a respeito e ela murmurou algo sobre “o New Jersey”.
– O quê? – perguntei.
– O New Jersey – ela respondeu.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:58 am

– Um navio de guerra norte-americano que bombardeou as colinas dessa região.
Ele fez um grande estrago.
É incrível como ficamos alheios aos acontecimentos quando estamos em segurança e confortavelmente instalados do outro lado de um ou dois oceanos.
Quando voltei para o meu país, perguntei a vários amigos, jornalistas profissionais, se eles se lembravam de ter lido a respeito do bombardeio do New Jersey ao Líbano.
Nenhum sabia anda.
Procurei nos arquivos do jornal e me deparei com a notícia de que, no dia 8 de fevereiro de 1984, os canhões do couraçado New Jersey e do contratorpedeiro Canon atiraram mais de 550 bombas nas montanhas a leste de Beirute, provocando a morte de dezenas de civis, entre eles mulheres, crianças e idosos.
Atravessamos a área mais devastada de Aley e paramos diante de um edifício de cinco andares.
Daniel Jirdi, agora com vinte e sete anos, morava ali com seus pais, sua jovem esposa e sua filha recém-nascida.
No vidro fosco de uma das janelas surgiu o rosto redondo e agradável de um homem corpulento, que logo abriu a porta.
Seu rosto se iluminou.
– Dr. Stevenson – disse ele, em inglês.
O senhor não mudou nem um pouco.
Daniel estava vestido como se fosse passar a noite dançando num bar de música country.
Na têmpora direita, uma mecha branca contrastava com o negro profundo dos cabelos.
Fomos saudados pela esposa de Daniel, uma linda moça de feições delicadas, que nos cumprimentou repetindo formalmente, em inglês:
– Bem-vindos à nossa casa.
Mais uma vez, Stevenson desafivelou a pesada maleta, tiro as pastas de papel manilha, procurou as fichas que usaria para dar continuidade à sua pesquisa e começou a fazer perguntas.
Ele ainda tinha lembranças?
– Claro – disse Daniel.
– Muitas lembranças. Tudo.
Contou que ainda visitava sua “outra família” uma ou duas vezes por mês.
(“Eu também”, disse a esposa, sorrindo.
“Tenho duas sogras e dois sogros.”)
No mês anterior, sua mãe de outra vida tinha ido visitá-lo, levando um presente para a filha de dois meses.
Ele costumava passar algum tempo com sua outra família “mesmo durante a guerra civil”, dormindo num quarto que mantinham especialmente para ele.
“Um bom negócio”, pensei.
Através da história, em todas as sociedade, o apoio com que se pode realmente contar vem da família.
Quanto mais ampliamos o conceito de “família”, melhor a situação em que ficamos.
A principal maneira de alcançar isso sempre foi o casamento.
Aparentemente, os drusos têm uma segunda opção: que a família de um morto considere plausível a alegação de que tivera uma outra identidade, numa vida passada.
Esse facto não implica que as alegações sejam fraudulentas, mas ressalta uma importante vantagem que pode ser uma motivação para que sejam, consciente ou inconscientemente, inventadas.
Por outro lado, também significa que, por todo o Líbano, famílias que tinham toda a possibilidade de verificar a precisão das afirmações feitas por uma criança e que tinham motivos para tomar todo o cuidado em aceitá-las acabaram por reconhecê-las como verdadeiras de uma forma tão irrestrita que resultou em relacionamentos que duram a vida inteira.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 15, 2016 8:58 am

Stevenson remexia os papéis em seu colo, enquanto aguardávamos em silêncio.
Ele localizou uma página de seus arquivos que continha antigas anotações de uma entrevista com uma pessoa que afirmara que Daniel tinha fobia a carros de corrida.
Esse facto estaria ligado à morte de Rashid num automóvel em alta velocidade.
Em vários de seus casos, Stevenson ficara intrigado ao observar que as crianças pareciam apresentar fobias que, de alguma maneira, relacionavam-se às suas memórias de vidas passadas.
Essa era a razão de seu cepticismo quanto à ideia que há por trás da regressão hipnótica a vidas passadas – a de que “reviver” traumas de outras vidas, através da hipnose, faria desaparecer os sintomas que o paciente apresenta em sua vida actual.
– Quase todas as crianças que estudei lembram-se com detalhes de traumas de vidas passadas – disse-me ele.
– Isso não impediu que elas apresentassem fobias.
Entretanto, ao ser perguntado sobre seu medo de carros de corrida, Daniel mostrou-se surpreso.
– Eu adoro corridas de Fórmula 1 - explicou.
Stevenson fez algumas anotações e prosseguiu:
– Quem estava dirigindo o carro quando houve o acidente?
– Ibrahim – respondeu Daniel.
Depois, fez uma pausa e pareceu sorrir como se tivesse um segredo.
– Eu o vi pela primeira vez há cinco anos.
– Ibrahim?
– Sim. Eu estava em Kfarmatta com Akmoud, um primo de Rashid, para visitar pela primeira vez o túmulo de Rashid.
Vi Ibrahim e o reconheci.
Disse para Akmoud:
“Aquele é Ibrahim.”
– Como você se sentiu?
– Não gosto muito dele.
Stevenson explicou:
– Rashid costumava dizer:
“Se quiser morrer, entre num carro com Ibrahim.”
Comecei a lembrar da transcrição da entrevista com Daniel, dezoito anos antes.
Ele culpava Ibrahim pelo acidente, contando que estavam em alta velocidade e, ao serem repreendidos pelos passageiros de um outro carro, Ibrahim, aparentemente com raiva por ter sido censurado, tentou retornar e alcançar o outro automóvel, perdendo o controlo do veículo.
– Quais são as suas lembranças em relação ao acidente? – perguntei.
Ele nem esperou a tradução.
– Era um conversível – afirmou.
– Eu dizia para Ibrahim:
“Devagar, não corra.”
Então, lembro-me de estar no chão.
– Você disse que visitou o túmulo de Rashid.
Como se sentiu?
Silêncio. Um sorriso.
– Pensei: “A morte não é assustadora.”
Decidi que seria um bom momento para perguntar a respeito de algo que ele havia mencionado quando tinha nove anos:
a lembrança de ter caído de uma sacada.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 9:21 am

– Eu não estava falando de Rashid, que morrera um ano e meio antes de Daniel – disse ele.
– Era uma outra vida.
– Uma vida intermediária – concluiu Stevenson.
Daniel pediu licença e foi até o quarto.
Voltou trazendo a fotografia de um rapaz – Rashid.
– Quando você olha para essa fotografia sente que está olhando para si mesmo? – perguntei.
– Sinto – disse ele. – Sem dúvida.
Perguntei se ele era capaz de consertar carros.
Respondeu rindo:
– Nessa vida actual, não.
Enquanto Mahmoud acelerava montanha abaixo, mergulhando nas luzes dos faróis que vinham na direcção oposta, minha mente exausta continuava lutando contra as últimas palavras de Daniel:
ele não tinha habilidade para consertar carros.
Se esse fosse mesmo um caso de reencarnação, havia uma pergunta:
exactamente que parte do morto teria voltado?
Daniel não demonstrava ter as habilidades aprendidas por Rashid e nem suas aptidões inatas.
Suas truncadas “memórias” eram apenas fragmentos de vinte e cinco anos de uma vida.
Entretanto, ele olhava para o retrato do rapaz e pensava: “Sou eu.”
Nutria um sentimento de afeição pela família de Rashid como se fizesse parte dela.
Reconhecera Ibrahim.
Este era um assunto que Stevenson desconhecia.
Acontecera há apenas cinco anos.
E havia uma testemunha – alguém que seria possível localizar.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 9:21 am

5 - A VELOCIDADE MATA

Um pedaço de papel ficara guardado nos arquivos de Stevenson em Charlottesville durante vários anos.
Nele, uma lista do que ainda precisava ser feito no caso de Daniel.
Um dos itens:
verificar notícias publicadas em jornais sobre a morte de Rashid.
É óbvio que um relato desinteressado da época do acidente confirmando as lembranças alegadas por Daniel, acrescentaria uma veracidade que ultrapassaria muito os limites dos emocionados testemunhos prestados por membros das duas famílias envolvidas.
Mas não seria fácil encontrar tais notícias:
a maioria dos jornais que existiam em 1968 não sobrevivera às décadas de guerras, e os arquivos dos restantes talvez tivessem sido destruídos.
Majd chegou ao hotel na manhã de terça-feira trazendo o endereço do mais importante dos sobreviventes, um matutino chamado Le Jour.
Um elevador pequeno e mal cuidado levou-nos até o quarto andar de um prédio sem qualquer identificação.
Majd explicou o que estávamos procurando:
o relato de um acidente de automóvel envolvendo Rashid Khaddege, no dia 10 de julho de 1968, perto da Military Brach, em Beirute.
Demonstrando má vontade, um homem dirigiu-se até os arquivos e, após alguns minutos de procura, tirou de lá um cartucho de microfilme, colocando-o num antiquado visor.
Rapidamente, as páginas, em árabe, da publicação do dia 11 de julho foram passando diante de seus olhos.
“Depressa demais”, pensei.
Dirigindo-se a Majd, ele disse algo que não precisou ser traduzido:
não havia nada sobre o acidente descrito.
Continuou a pesquisa, agora ainda mais rápida, pelos dias subsequentes.
Finalmente virou-se e balançou a cabeça, confirmando nada ter encontrado.
– Não acho que ele olhou de verdade – disse Majd, aborrecida, quando voltamos para a rua.
– Você notou a rapidez com que ele rodou aquele filme?
Ela pegou o telefone celular e fez uma série de chamadas.
Eu me movia impacientemente, pensando na importância daquele documento, na pequena possibilidade que tínhamos de localizá-lo e no tempo que perderíamos para fazê-lo.
Ainda que os arquivos tivessem sobrevivido, numa cidade grande e caótica como Beirute, acidentes fatais acontecem todos os dias e não era possível garantir que todos fossem noticiados.
De pé, ao meu lado, ligeiramente encurvado, impassível, Stevenson não demonstrava preocupação, como se para ele o tempo não importasse.
– Boas notícias – disse Majd, colocando o telefone de volta na bolsa.
– A Universidade Americana de Beirute possui o microfilme de todos os jornais mais importantes publicados em 1968.
Stevenson decidiu ficar no hotel relendo algumas de suas anotações.
Enquanto isso, Mahmoud levou-nos, Majd e eu, até a Universidade Americana, um delicioso oásis de jardins floridos, num terreno aplainado em meio às montanhas que se espelhavam em direcção ao mar.
Sob a sombra das árvores, um caminho rodeava os edifícios, equipados com os mais modernos computadores e sem nenhum sinal de destruição, onde pessoas elegantemente vestidas circulavam.
Fomos levados ao departamento de microfilmes, que parecia estar localizado num planeta diferente do prédio do Le Jour.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 9:21 am

A sala era ampla, incrivelmente limpa, com arquivos bem etiquetados e modernos visores.
Um homem com os modos, a aparência e o sotaque de Anthony Hopkins em Vestígios do Dia nos mostrou seis jornais que estavam em actividade em 1968 e nos deixou pesquisá-los.
Fui rodando o filme enquanto Majd lia as notícias.
As páginas iam correndo, os dias dançando pela tela numa procissão estonteante.
Nada. Mais um. Nada.
Girei o filme mais uma vez, desanimado.
Era inútil.
Então, Majd gritou:
– Achei! Parei de rodar.
Ali estava ela, uma pequena fotografia no pé da página:
policiais ao redor de um Fiat destruído, com o tecto arrancado.
Majd traduziu:
“Acidente de automóvel em Kornich Al-Manara.”
O artigo começava dizendo que “um acidente de automóvel aconteceu ontem em Manara Corniche, causando a morte de um dos passageiros”.
Dizia que Ibrahim estava dirigindo o Fiat, “tendo ao seu lado Rashid Naim Khaddege, o proprietário do carro.
Ibrahim tentou, em alta velocidade, alcançar um outro veículo, resultando em múltiplas capotagens e na morte instantânea de Rashid Khaddege”.
Não esperava tal impacto.
Ali, na tela, no interior obscuro de um jornal publicado dezoito meses antes do nascimento de Daniel Jirdi, três anos antes de ele afirmar que havia morrido num acidente de automóvel, estava um relato de uma fatalidade rotineira que correspondia quase exactamente à história contada pela criança:
Military Beach, alta velocidade, Ibrahim dirigindo um Fiat, Rashid jogado para fora do veículo.
Ele havia contado tudo aquilo.
E estava escrito:
“tentou, em alta velocidade, alcançar um outro veículo”.
– Majd, é exactamente o que Daniel disse.
Majd olhou para a tela com mais atenção:
– Não, espere – disse ela.
Cometi um erro.
Estava traduzindo rápido demais.
Ele não menciona outro veículo.
Ele diz “tentando, em alta velocidade, alcançar uma curva”, e não um outro veículo.
– Quem sabe eles simplesmente não mencionam o outro veículo ou nem sabiam de sua existência – respondi.
– Isso não quer dizer que ele não estivesse lá.
Mas existem algumas contradições com o depoimento de Daniel.
Ele disse que era um conversível.
A fotografia não está muito clara, mas esse carro, definitivamente, tem um tecto.
Parece quase arrancado, mas está lá.
E o artigo diz que o caro era de Rashid.
Daniel disse que era de Ibrahim.
– O jornal deve ter se enganado – falou Majd.
– A família de Rashid nos falou que ele jamais teve um automóvel.
Imprimimos uma cópia da notícia e voltamos para o hotel.
Já era quase meio-dia quando chegamos:
uma manhã inteira dedicada a verificar um único item de uma lista que fazia parte de um entre milhares de arquivos, contendo dezenas de milhares de itens ainda pendentes.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 9:21 am

Levaríamos a vida inteira para cumprir todos eles.
Stevenson não tinha todo esse tempo.
Ele olhou para o artigo impresso, sorriu e ouviu a tradução de Majd sem fazer comentários.
– Gosto de ter o maior número possível de documentos – disse Stevenson, enquanto guardava o artigo em sua abarrotada pasta.
– Até mesmo os melhores casos costumam apresentar lacunas.
Dizendo isso, saiu do hotel e dirigiu-se imediatamente para o carro.
Tínhamos um encontro com a família Khaddege na casa de Muntaha, a mãe de Rashid, que morava no centro de Beirute.
O filho de Muna, sobrinho de Rashid, um dos meninos que tínhamos visto no nosso primeiro dia em Kfarmatta, nos convidou a entrar numa sala de paredes azuis, manchadas, cobertas de marcas de pregos.
No meio da sala, uma mesa de centro, e sobre ela, a fotografia do casamento de Daniel Jirdi, o filho que eles acreditavam ter perdido e recuperado através da reencarnação.
Muna nos recebeu como se fôssemos velhos amigos.
Sentado numa cadeira à nossa frente, estava um rapaz magro, bonito, um pouco calvo, vestindo calças jeans e camisa pretas.
Fiquei feliz ao saber quem ele era:
Akmad, o primo de Rashid, a testemunha do momento em que Daniel, espontaneamente, reconhecera Ibrahim.
Senti que ele estava ansioso para conversar connosco, mas foi Muna quem começou a falar.
Majd traduziu.
Antes da morte de Rashid, Muntaha estava tricotando um suéter para ele.
Um dia, depois que começaram a visitar Daniel, o menino lhe perguntou:
– Você terminou de fazer o meu suéter?
Muntaha procurou o trabalho inacabado onde o havia guardado anos atrás, após a morte de Rashid.
Desmanchou a parte já feita e usou lã para tricotar uma peça menor, que ofereceu a Daniel.
Quando ela acabava de contar a história, a porta de um dos quartos se abriu de repente.
Emoldurada pelo rectângulo vazio estava uma mulher já velha, observando-nos através da fenda de um xale de cabeça que descia até as sobrancelhas e subia até o nariz, deixando à mostra apenas uma pequena parte de seu rosto miúdo e enrugado: Muntaha.
Muna pegou-o pelo cotovelo e ajudou-a a sentar.
E prosseguiu:
– Minha irmã, minha mãe e eu estávamos aqui, nesta casa, quando uma vizinha veio nos contar que Rashid tinha sofrido um acidente.
Minha mãe perguntou: “Ele morreu?”
A mulher disse que não sabia.
Corremos para o hospital, mas ele já estava morto.
Uma das afirmações de Daniel sobre Rashid era de que ele tinha batido a cabeça quando foi jogado para fora do automóvel.
– Os médicos lhe disseram onde ele foi ferido? – indagou Stevenson.
– Não – respondeu Muna.
– Ele já estava morto.
Nós não perguntamos.
Mas vimos o corpo.
Tinha uma atadura na cabeça.
Alguns anos mais tarde, um conhecido contou para a família que Rashid havia renascido na casa dos Jirdi, em Beirute.
Isso foi em 1972.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 16, 2016 9:21 am

Muna, Najla e uma amiga foram conhecer o menino.
– Daniel não me reconheceu, provavelmente porque eu havia mudado muito.
Depois da morte de Rashid, passei a cobrir a cabeça e usar vestidos compridos – disse Muna.
– Mas ele viu Najla e chamou-a pelo nome.
– Os Jirdi as estavam esperando? – indaguei.
– Não, chegamos de repente, sem avisar.
Não conhecíamos a família.
Daniel ficou muito contente quando nos viu.
Ele disse à mãe:
“Traga bananas para Najla e faça café, porque minha família está aqui.”
Ficamos abismadas.
Rashid gostava tanto de bananas que minha mãe e Najla pararam de comê-las depois de sua morte, pois faziam com que se lembrassem de sua tristeza.
Akmad, que estivera calado até o momento, pigarreou e começou a falar sobre o encontro entre Daniel e Ibrahim, que diferia um pouco do que o primeiro havia nos contado.
Segundo Daniel, ele tinha visto Ibrahim quando se encaminhava para o túmulo de Rashid.
Akmad afirmou que Daniel pedira para ser levado até a casa de Ibrahim.
– Estávamos caminhando numa rua a poucos quarteirões da casa quando vi Ibrahim trabalhando num automóvel.
Eu não disse nada, porque queria testar Daniel.
Mas ele foi logo dizendo:
“Aquele é Ibrahim.”
Akmad continuou a testá-lo, afirmando que ele estava enganado, que aquele não era Ibrahim, mas Daniel insistia em dizer que era.
Ibrahim levou-os até sua casa, sem saber quem era aquele rapaz.
– Eu não os apresentei.
Então, Daniel perguntou a Ibrahim:
“Alguma coisa aconteceu com você em 1968?”
Ibrahim respondeu:
“Não me lembro.”
Mas depois disse:
“Sim, eu me lembro.
Tive um acidente e meu primo morreu.”
E Daniel falou:
“Eu sou o seu primo.”
Ibrahim chorou, atordoado durante quinze minutos.
Ele já ouvira falar de Daniel, mas nunca o tinha visto.
– Ibrahim fugiu depois do acidente.
A polícia nunca investigou – disse Muna, o rosto amargo, esfregando as mãos como se quisesse livrar-se de algo que a incomodava.
– Durante muito tempo – continuou Muna –, Muntaha não falou mais com Ibrahim.
Ele sempre lhe dizia:
“Dirija devagar, Rashid é meu único filho.”
Eles só recomeçaram a se ver durante a guerra, quando as duas famílias fugiram de Beirute e foram para as montanhas.
Perguntei a ela sobre o item do artigo do jornal que contradizia as memórias de Daniel.
O dono do automóvel era Rashid?
– O carro era de Ibrahim – disse ela.
Rashid não possuía nenhum automóvel.
Já na ruía, fiamos sob uma marquise, tentando nos proteger da chuva forte que começara a cair.
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