Almas Antigas / Tom Schroeder

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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:49 am

Várias gerações de sua família viveram naquela região.
Entretanto, tão logo seu irmão menor, Jim, aprendeu a falar, começou a dizer:
“Eu nasci em Dixie.”
Os pais o corrigiam, explicando que ele nascera em Bridgeport, em Connecticut, mas o garoto insistia:
“Eu nasci em Dixie.”
– Não era apenas o facto de ele sempre dizer isso – acrescentou Arlene quando lhe perguntei sobre o assunto.
– Era porque ele falava Dixie.
Em Connecticut, nos anos sessenta, ninguém usava essa palavra para se referir ao Sul dos Estados Unidos.
Perguntei se a família alguma vez pensara que isso tivesse algo a ver com memórias de vidas passadas.
– Está brincando? – disse ela.
– Nós achávamos que se tratava de mais uma prova da criança muito esquisita que ele era.
Então, a família fez sua primeira viagem de carro em direcção ao sul, até a Flórida.
Como a mãe de Arlene tinha recordações mais precisas sobre a viagem, telefonei para ela.
Phyllis Reidy se lembra:
– Éramos muitos: eu, meu marido, minha sogra e as duas crianças, todos na camionete vermelha.
Naquela época não havia essas grandes rodovias e tivemos que seguir pela estrada velha.
Arlene tinha nove anos e Jim, seis.
Uma das primeiras coisas que Jim havia dito quando começou a falar era:
“Eu nasci em Dixie.”
Repetia isso a todo instante.
E, falava de um jeito estranho, com um certo sotaque.
Costumávamos perguntar se ele era de Boston, mas o menino insistia:
“Nasci em Dixie.”
Achávamos graça e ficava por isso mesmo.
– Então – prosseguiu –, quando fomos de carro para o Sul, ele ficou agitado e começou a afirmar, sem parar, que seus avós, seu pai e sua mãe vieram de Dixie.
Eu lhe disse:
“Nós somos os seus pais.”
E ele respondeu categoricamente:
“Não são.”
Estávamos na Geórgia, um pouco ao sul do limite com a Carolina do Sul, e ele parecia ter enlouquecido.
Disse:
“Vou mostrar a vocês onde era a minha casa.
Ali está ela!
É logo ali, no alto daquela colina, atrás daquelas árvores.”
– Ele descreveu a casa? – indaguei.
– Só disse que era uma “casa velha”.
– Vocês saíram da estrada para averiguar?
– Nem pensamos numa coisa dessas – respondeu ela.
Depois daquela viagem, ele nunca mais falou sobre ter nascido em Dixie.
O sotaque durou mais umas duas semanas depois que voltamos e, então, desapareceu.
Embora Phyllis pensasse que Jim sequer se lembraria do incidente, anotei o número de seu telefone e falei com ele.
Jim Reidy mora actualmente em Massachusetts, onde trabalha como engenheiro electrónico.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:52 am

– Você se lembra disso como uma história que sua família lhe contou? – indaguei.
Ou se lembra de ter tido tais memórias antes da viagem à Geórgia?
– Lembro-me de ser capaz de descrever a casa – respondeu Jim.
Sempre pude ver a imagem daquela casa:
o balanço na varanda, o salgueiro chorão, a cerca de madeira.
Também me lembro dos meus pais.
– Quer dizer, os seus pais e os de Arlene?
– Não, estou falando dos meus pais naquela casa.
A imagem dos rostos é um pouco nublada, mas me lembro que eram aristocráticos, pessoas de grande influência.
E eu era o bebé, absolutamente mimado.
Todos faziam rebuliço ao meu redor.
Só me lembro disso.
– O que você concluiu dessa história? – perguntei.
Pensou na hipótese de ter reencarnado?
– Na verdade, não.
Éramos descendentes de católicos irlandeses e a reencarnação não se encaixa nesse ambiente.
Mas pensei que talvez existissem universos paralelos, ou outra coisa assim.
Eu fiquei pensando se valeria a pena ir com Jim até a Geórgia para verificar se ele seria capaz de reconhecer a casa.
Mas ainda que ela existisse e ele a reconhecesse, aonde isso nos levaria?
Ele se lembrava somente de que, em algum momento, um casal aristocrático e seu filho único viveram numa casa com um balanço na varanda e um salgueiro chorão.
Antes dos anos sessenta isso era comum no Sul.
Na prática, toda a história não passara de uma lembrança divertida, mas eu não conseguia parar de pensar nela.
Ali estava uma família que não acreditava em reencarnação e nem cogitava do assunto.
Nunca tinham ouvido falar em Stevenson e em suas pesquisas, que nem haviam sido realizadas quando tudo isso aconteceu.
Entretanto, excepto pela falta de interesse demonstrado pela família, o formato do caso era idêntico ao dos encontrados no Líbano.
Em suas primeiras falas a criança afirma não ser “dali”, mas de algum outro lugar.
Aqueles não são os seus pais, seus pais são diferentes.
“Vou lhe mostrar onde era a minha casa...”
Começava a surgir uma resposta para a pergunta “por que não existem casos por aqui?”.
Existem sim.
Se consegui tudo isso apenas conversando com alguns conhecidos, o que uma pesquisa sistemática me levaria a encontrar?
Nem mesmo Stevenson havia procurado sistematicamente casos de vidas passadas nos Estados unidos.
Entretanto, através de informações e de pessoas que o contactavam cada vez que seu trabalho aparecia nos meios de comunicação, ele acabara reunindo mais de cem casos no país de crianças que faziam afirmações sobre vidas passadas, tendo investigado vários deles em profundidade.
Ao todo, as crianças não têm tantas lembranças específicas como no Líbano e na Índia.
Mencionam poucos lugares ou nomes, às vezes nenhum, tornando impossível a identificação da personalidade anterior.
Na verdade, os únicos casos norte-americanos encontrados por Stevenson nos quais as crianças disseram o suficiente para permitir tal identificação, fornecendo dados sobre outras vidas passíveis de verificação, foram “casos na mesma família”, como o de um menino que afirmava lembrar-se da vida do avô.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:52 am

Entretanto, por mais convincentes que sejam, esses casos familiares apresenta dois pontos fracos.
Um deles, a evidente motivação – a dor da perda e o desejo de fazer com que uma pessoa amada possa retornar – que poderia levar os pais, de maneira inconsciente, a fabricar o caso.
O segundo, a óbvia possibilidade de que a criança, através de canais normais, conheça fatos sobre a vida da pessoa morta, criando, assim, as suas “memórias”.
No aeroporto de Paris, enquanto aguardávamos nosso voo para a Índia, Stevenson havia me falado a respeito de um caso na mesma família, que ele estava investigando em Chicago.
A mãe, funcionária de uma lanchonete, passara por uma experiência trágica com seu primeiro filho – um menino que morrera aos três anos, de um tipo muito agressivo de câncer.
Ele teve um tumor no lado direito da cabeça e outro no olho esquerdo, apresentando ainda paralisia nas pernas.
O menino ainda conseguiu aprender a falar apoiando-se em muletas.
Mas seu estado logo piorou e ele teve que ser hospitalizado, morrendo logo depois.
A mãe ficou desolada e não se conformou nem mesmo após ter tido outras duas crianças.
Quando nasceu a quarta, um menino, ela se convenceu de que era o primeiro filho renascido.
Ele apresentava marcas e imperfeições de nascença que combinavam com as áreas em que a criança morta tivera problemas:
um nódulo na cabeça e um defeito no olho esquerdo, onde se localizavam os tumores, um problema na perna que o faria mancar e um sinal no tórax onde os médicos haviam inserido um tubo quando o primeiro filho estava morrendo.
Esse sinal chegou até mesmo a apresentar uma secreção.
O problema desse caso era que o longo e prolongado sofrimento da mãe em relação á perda do primeiro filho levava a pensar mais na possibilidade da fantasia estar realizando um desejo do que em indícios de reencarnação.
Quaisquer correspondências entre os sinais ou imperfeições de nascença e a doença do primeiro filho poderiam ser apenas uma coincidência capaz de activar na mãe a crença de que a criança havia renascido.
Alem disso, a brevidade da vida do primeiro filho, associada ao desejo da mãe de tê-lo de volta, invalidaria quaisquer afirmações que o filho mais novo viesse a fazer.
Eu sabia que mesmo no melhor caso familiar ainda haveria a fragilidade intrínseca do facto de, desde o nascimento, a criança estar cercada de fontes potenciais de informação sobre a vida anterior que ela afirmava reencarnar.
Ainda assim, quis observar de perto um desses casos.
Afinal, eles constituíam grande parte da colecção de Stevenson no país.
Dentre eles havia a história de uma criança que também vivia em Charlottesville.
Pouco tempo depois de voltarmos da Índia, tomei um avião e fui me encontrar com Stevenson.
A meu pedido, ele havia entrado em contacto com a família, que concordou em conversar comigo.
– Não me importo de voltar para mais uma visita – disse-me Stevenson.
– Há alguns pequenos detalhes que gostaria de verificar outra vez.
E assim, numa manhã, atravessamos juntos as pitorescas colinas ao sul de Charlottesville.
O caso envolvia um menino, agora com nove anos.
Segundo a família, ele se lembrava da vida de um tio que morrera na adolescência, num acidente com um tractor, vinte anos antes do seu nascimento.
Os pais aceitaram o encontro com a condição de que eu não os identificasse pelo nome completo e nem pela localização da pequenina casa onde moravam – situada no meio das montanhas, um lugar de inacreditável beleza.
– Tudo o que conseguem enxergar faz parte de nossa propriedade – explicou-me a tia do menino quando parei na varanda e espichei o pescoço.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:52 am

Ela era a irmã mais velha do morto, uma mulher pequena que trabalhava como conselheira e orientadora numa escola da região.
Sua irmã, muito mais alta, era Jennifer, a mãe da criança.
Ela nos recebeu na sala escura, onde o menino, Joseph, estava acomodado numa poltrona grande.
Quando entramos, ele nos dirigiu um rápido olhar e logo voltou a prestar atenção nos desenhos animados que preenchiam suas manhãs de sábado.
Era roliço como a mãe, com o rosto redondo, cabelos claros cortados com franja e o olhar vulnerável de uma criança com quem as outras costumam implicar.
A tia chegou a comentar que os colegas de escola costumavam chamá-lo de “garoto de fazenda”, zombando dele por morar no campo, num lugar tão afastado.
O tio, um rapaz que tinha abandonado o segundo grau, chamava-se David.
Ele morrera quando o tractor que dirigia virou, esmagando-lhe o peito.
Segundo a mãe, Joseph era asmático desde o dia em que nasceu, o que o fazia perder muitos dias de aula.
– Meus pais ficaram desesperados com a morte de David – disse a tia.
Ninguém toca no assunto.
E certamente ninguém mencionou meu irmão em conversas casuais depois que Joseph nasceu.
Por isso, não seria possível ele ter ouvido nada daquelas coisas.
“Aquelas coisas” eram uma série de afirmações feitas por Joseph que pareciam corresponder à vida de seu tio David.
Ele sempre chamava a avó de “mamãe” e dirigia-se à própria mãe usando o primeiro nome, mas ninguém tinha prestado atenção nisso – afinal, a tia e a mãe também chamavam a avó de Joseph de “mãe” –, até o menino começar a fornecer outros detalhes.
– Um dia, ele estava sentado na calçada da casa de meus pais, olhando para cima.
Nós o observávamos – disse a mãe.
Ele chamou a avó e disse:
“Mamãe, você se lembra quando papai e eu subimos ali e pintamos o telhado de vermelho e eu fiquei com os pés e as pernas cobertos de tinta?
Puxa, como você ficou brava!”
Minha mãe disse: “Joseph?”
Ele não respondeu.
Então, ela exclamou:
“Deus meu, Jenny, era David falando comigo, Porque David pintou o telhado e fez a maior sujeita, tinha mais tinta nele do que no tecto.”
O interessante é que o telhado foi pintado de vermelho em 1962, mas depois nós o pintamos de verde, como é até hoje.
Um dia, estávamos seguindo pela via 11 e Joseph disse:
“Quando eu estava crescendo, não havia casas ali.
Tudo era coberto de árvores, onde costumávamos caçar.”
E uma outra vez estávamos passando pela agência de administração das fazendas e ele falou:
“Eu me lembro que aqui era um milharal.
Costumava ajudar a colher o milho com Garth Clark e Stanley Floyd.”
Eu disse: “É mesmo?”
E ele respondeu:
“É, sim. E nós brigamos por causa de um par de botas.”
Perguntamos se ela conhecia aqueles nomes, se eram mesmo de pessoas com quem David se relacionava.
– Não conheço os nomes – disse ela.
Mas existem muitos homens chamados Clark e Floyd nessa região.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:53 am

A tia nos contou que, de tempos em tempos, Joseph fazia outras afirmações semelhantes e sempre falava como se aquelas “memórias” fossem parte de sua própria vida.
Ele me perguntou:
“Quando vamos brincar com os lençóis no varal como costumávamos fazer?”
Quando éramos pequenos, David e eu fazíamos essa brincadeira.
Entretanto, há mais de dez anos que não dependuramos lençóis no varal.
Usamos uma secadora, como todo mundo.
Enquanto Stevenson ia fazendo uma série de perguntas relacionadas a uma entrevista anterior, comecei a ler as transcrições da mesma.
Quando cheguei a um determinado ponto, quase exclamei em voz alta:
“Uau!” – era sobre Michael, o “amigo invisível” de Joseph.
De acordo com Jennifer, durante muitos anos Joseph teve um amigo imaginário chamado Michael.
Ele ouvia o menino conversar e dizer o nome do amigo, quando estava sozinho no quarto.
Ele até comprou brinquedos para Michael e, quando acrescentou mais um chapéu à sua colecção, comprou um para o “amigo”, para “evitar brigas”.
– Acho engraçado quando brigo com Michael e jogo meu carrinho.
O carro atravessa o corpo dele – disse Joseph, um dia, para a mãe.
– Ele acha que consigo ver Michael – ela comentou.
- E conseguia?
– Às vezes sinto um arrepio nas costas ou um vento passando bem perto.
Uma vez Joseph levou minha sobrinha Jamie para brincar com Michael e ela voltou dizendo:
“Não gosto de brincar com Michael.
Eles são maus para mim.”
Jennifer contou ainda que, algumas vezes, o cachorro rosnava quando Joseph dizia que o amigo estava por perto.
Mas Michael não aparecia há muito tempo.
– Ele ficou zangado comigo e foi embora – explicou o menino.
Joseph jamais deu um sobrenome para Michael ou mencionou qualquer ligação dele com o tio morto.
Mas sua mãe disse que um dia, quando passavam de carro pelo cemitério, o menino disse:
– Vamos parar e procurar o túmulo de Michael.
Fica em algum lugar por aqui, com uma bandeira dos Estados Unidos por cima.
Inúmeras crianças possuem amigos imaginários e as pessoas acreditam em várias coisas.
Mas o depoimento da família quanto às afirmações que relacionam o menino ao tio morto não perde credibilidade pelo facto de Joseph ter um amigo invisível e sua mãe ao menos aceitar a ideia de que Michael poderia ser algo mais do que fruto da imaginação do filho.
Entretanto, como Stevenson disse uma vez, eu não gostaria de apresentar esse caso diante de um tribunal.
Quando estávamos prestes a sair, perguntamos se elas teriam algo a acrescentar sobre palavras ou atitudes de Joseph.
– Tenho certeza de que há muito mais – disse a tia.
Mas nunca anotamos nada.
Então, ao sair da casa, quando a tia estava dizendo algo a respeito de amarrar os sapatos de Joseph, Jennifer exclamou:
– lembrei-me de uma coisa!
Quando era pequeno, Joseph insistia para que comprássemos sapatos grandes demais para ele.
Dizia:
“mamãe, eu sei qual é o meu tamanho, é 40.”
Era um problema.
Ele não desistia.
Tivemos que comprar um par desse tamanho, levar para casa e fazer com que ele usasse só para provar que era grande demais.
– Que número David usava? – perguntei.
Mas já sabia a resposta.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:53 am

17 - A FRONTEIRA DA CIÊNCIA

Aquela semana foi muito agitada para Stevenson em Charlottesville, pois coincidia com a conferência anual da Sociedade de Exploração Científica, da qual ele era um dos sócios fundadores.
Stevenson falara sobre ela no Líbano e na Índia.
Ele tinha esperança de que a Sociedade pudesse lutar contra o isolamento dos estudos parapsicológicos, ajudando a aproximar pessoas como ele da ciência normalmente aceita pela maioria.
Não achei que fosse coincidência o facto de a reunião acontecer por ali, onde Stevenson vivia:
ele era uma figura de grande importância no grupo, a quem todos se referiam com profundo respeito.
No início da semana ele havia feito uma palestra delineando a tónica das futuras discussões.
Na ocasião, discorreu sobre um assunto sobre o qual havíamos conversado na noite em que voltávamos de nosso desconfortável encontro em Sharifpura, argumentando que o tipo de pesquisa de campo que havíamos realizado era válido cientificamente, ainda que não satisfizesse todas as exigências de uma experiência em laboratório.
Não ouvi a palestra, mas li sua publicação.
Estava escrita na linguagem formal que Stevenson costumava usar.
Em sua conclusão, ele conseguiu expressar em apenas três frases os quarenta anos de uma experiência muitas vezes frustrante, assim como sua fervorosa esperança para o futuro.
“As dificuldades aparecem quando as observações relatadas parecem entrar em conflito com os ‘factos’ aceitos pela maioria dos cientistas como algo estabelecido e imutável”, escreveu ele.
“Os cientistas tendem a rejeitar observações conflituantes...
Entretanto, a história da ciência nos mostra que as novas observações e teorias podem acabar prevalecendo.”
Como Stevenson estava sempre muito ocupado, tive bastante tempo para ficar vagando pelo campus da Universidade de Virgínia, um dos mais espectaculares do país.
Na alvorada do século dezanove, quando o campus fora construído, o universo parecia estar oferecendo seus segredos à ciência com enorme rapidez.
Deviam pensar que logo não haveria mais nenhum mistério a resolver.
Toda a Criação se tornaria metódica, serena e bem cuidada, como aquele lugar.
Mais de um ano já havia transcorrido desde o meu primeiro encontro com Stevenson.
Desde então, passara a ler compulsivamente tudo o que encontrava sobre teoria quântica, pesquisas bioquímicas e inteligência artificial.
Era um tipo de assunto quase impenetrável, que permanecia sempre nos limites do meu conhecimento e compreensão.
O pouco que eu sabia me dava a sensação de que o avanço da ciência tem sido muito mais espectacular do que qualquer pessoa, no início do século, poderia sonhar.
Nos últimos tempos, porém, era menos satisfatório.
Quanto mais se avança, mais se tem consciência dos mistérios a serem perscrutados.
Meu conhecimento não era mais amplo do que o da maioria das pessoas.
Mas agora eu tinha um motivo para explorar essa fronteira, uma necessidade de compreender se existia algo que pudesse lançar uma luz, ainda que indirecta, sobre o que eu estava vendo. Desde que terminara meus estudos de física no segundo grau, aquilo que tinha sido colocado como definitivo vinha sendo superado rapidamente por novas descobertas.
Toda a ciência do mundo subatómico baseava-se em mistérios.
Isso não significava que os cientistas não fossem hábeis ou inteligentes, mas as perguntas se multiplicavam indefinidamente.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:53 am

As fronteiras de tudo aquilo que considerávamos realidade eram muito menos definidas do que imaginávamos.
A realidade tinha que ser pensada com categorias absolutamente revolucionárias dos conceitos que nos habituamos a configurá-la, com um nível de sofisticação incompreensível para quase a totalidade dos leigos.
Baseados nessas novas concepções, o agora, o ontem e o que ainda está por vir podem existir – usando uma palavra que só é adequada num mundo tridimensional – simultaneamente.
É esse o problema: nem nossa experiência nem nossa linguagem foram feitas para lidar com uma realidade quadridimensional, pois somos ligados à sequência, à ideia de que um tempo – o presente – existe e os outros são relembrados ou imaginados.
Como seria ver o mundo em quatro dimensões?
Talvez todos os estranhos fenómenos descobertos pela ciência, e outros dos quais os cientistas ainda nem se deram conta, parecessem estanhos para as criaturas tridimensionais condenadas a se deixarem levar através do espaço em quatro dimensões, conseguindo ver somente as sombras do que está fora de sua esfera de percepção.
E quem somos “nós”, afinal?
Geneticistas, biólogos e cientistas da computação têm passado décadas lutando uns contra os outros para serem os primeiros a criar, ou pelo menos definir, a consciência.
Nenhum deles sequer vislumbrou uma solução.
Onde e que tudo isso nos deixa?
Num estado de admiração paralisante?
Ou numa insatisfação produtiva?
Acho que essa insatisfação, pelo menos em parte, explicava a reunião da Sociedade de Exploração Científica, uma federação de cientistas associados de maneira um tanto indeterminada.
O traço comum entre eles era a visão de um espaço vazio entre o que a ciência tradicional não consegue explicar e a ortodoxia científica que descarta sem discussão certas ideias.
Nem todos os membros da Sociedade estavam propondo ideias radicalmente contrárias, como fazia Stevenson.
Na verdade, alguns estavam ali para, antes de tudo, tentar desmascarar quaisquer imposturas.
Mas todos tinham interesse em usar um método científico para estudar assuntos vistos com escárnio pela ciência tradicional, como, por exemplo, a existência ou não de OVNIS, da vida após a morte, da percepção extra-sensorial, das curas mediúnicas, ou mesmo de um mecanismo que responda pelo facto de mulheres que vivem próximas umas das outras terem uma tendência a apresentar períodos menstruais sincronizados.
Desnecessário dizer que tudo isso gerou uma ampla variedade de palestrantes e ouvintes.
Os tópicos iam do sóbrio “Um centro para testar a eficácia de certas terapias alternativas e complementares na redução da dor e do sofrimento em determinadas populações de pacientes” aos temas mais delirantes.
Participantes beirando a paranóia compartilhavam o evento com pessoas de inquestionável conhecimento.
Um dos palestrantes, um demógrafo da universidade Johns Hopkins chamado David Bishai, estava ali para falar sobre a dinâmica da migração, o que explicaria por que a explosão populacional não refuta automaticamente a tese da reencarnação.
Ele vira num programa de televisão, do tipo “mistérios científicos”, uma pessoa dizer que o número de seres humanos que já viveram não seria suficiente para fornecer almas para toda a população actual.
– O erro era óbvio – disse Bishai.
Em primeiro lugar, ele explicou que as mais confiáveis estimativas demonstram que o número de pessoas que já morreram excede em muito o número das que vivem agora.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:53 am

Porém, ainda que isso não fosse verdade, não faria diferença.
Ele desenhou um diagrama no quadro-negro mostrando uma linha que dividia dois lugares hipotéticos, A e B.
O primeiro era o mundo que conhecemos, para o qual os seres humanos imigravam quando nasciam e de onde emigravam após a morte.
– Comecemos imaginando que os seres humanos vêm de um lugar desconhecido e voltam para esse mesmo lugar, que chamaremos de Estado B.
Acho que todos nós podemos concordar com isso.
Do auditório, uma série ascendente de fileiras em semicírculo, uma voz levantou-se em protesto:
– Mas o senhor está partindo do princípio de que todos eles voltam para o mesmo lugar de onde vêm.
Bishai virou-se para o auditório procurando localizar a pessoa que havia falado.
– Muito bem – disse ele. – nem todos nós concordamos com isso.
Mas vamos apenas dizer que chamaremos de Estado B qualquer que seja o lugar de onde eles vêm ou para onde vão.
O que ele queria demonstrar era que, mesmo admitindo que a criação de novas almas não fosse possível, o Estado b poderia ter começado com um altíssimo número delas.
À medida que a população do Estado A aumentava, o Estado b diminuía, mas ainda poderia haver uma grande reserva, que permitiria um crescimento populacional ilimitado no Estado A.
Eu não estava ali para ver Bishai – aconteceu de ele estar falando quando cheguei.
Queria ouvir Jim Tucker, um psiquiatra infantil de trinta e nove anos, que há cinco começara a trabalhar com Stevenson.
Embora não tivesse mencionado o assunto, imaginei se Stevenson não veria em Tucker um possível substituto, pois demonstrava grande admiração por ele.
A palestra de Tucker era sobre os casos que ele havia estudado no Sudeste Asiático, envolvendo o hábito de marcar o corpo de um parente morto com carvão ou alguma outra substância, acreditando que, quando sua alma reencarnasse, o corpo da criança apresentaria um sinal de nascença no mesmo lugar.
Tucker era um homem magro, de cabelos escuros, traços bem definidos e um sorriso agradável.
Mostrou excelentes slides, comparando marcas de carvão num cadáver a sinais de nascença no corpo de uma criança – eram quase idênticos.
E chamou a atenção para um ponto de especial interesse para mim: nas “marcas de nascença experimentais”, como ele as chamava, os casos na mesma família poderiam ser mais convincentes do que os que envolviam estranhos.
Isto porque as chances de uma família encontrar sinais localizados no mesmo lugar onde foram feitas marcas num cadáver não seriam muito grandes se fosse necessário procurá-las em todas as crianças conhecidas – afinal, poderia haver centenas de bebés para inspeccionar –, mas as chances de as marcas correspondentes aparecerem numa criança da família mais próxima eram astronómicas.
Mesmo assim, era isso o que parecia ter acontecido em muitos casos que ele havia pesquisado.
Observei que Tucker demonstrava a mesma serenidade que me deixara encantado na primeira vez que vi Stevenson.
Ele também falava em voz baixa, porém era perfeitamente audível por todo o imenso auditório.
– Existem várias explicações possíveis para esse fenómeno – disse ele.
– Uma delas é que os sinais correspondam às marcas de carvão por uma simples coincidência ou por uma falha de memória da pessoa que marcou o cadáver.
Uma outra interpretação é a impressão maternal – ou seja, que a expectativa da mãe de ter um filho com tal marca influencie a criação da mesma.
A terceira explicação é que alguns desses casos representam a reencarnação de uma personalidade anterior.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:53 am

Após a palestra, encontrei Tucker no saguão e me apresentei.
Perguntei a ele como se envolvera naquele tipo de pesquisa.
Até cinco anos atrás, nunca havia dado importância ao assunto da reencarnação – disse ele.
Mas seu interesse fora despertado ao ler os livros de Stevenson.
A coincidência de ambos viverem e trabalharem em Charlottesville também pesou, mas talvez Tucker jamais tivesse tomado qualquer atitude se não tivesse lido uma notícia num jornal local a respeito de um estudo sobre experiência de quase-morte em pacientes cardíacos, conduzido pela divisão de Stevenson.
Ele telefonou e apresentou-se como voluntário para avaliar se os pacientes estavam ou não próximos da morte quando tiveram suas experiências.
Depois que começara a participar dos almoços do grupo de pesquisas, Tucker tinha sentido cada vez mais interesse no estudo de crianças que afirmavam lembrar-se de vidas passadas.
Ele me perguntou se eu havia lido as críticas dos cépticos sobre a pesquisa de Stevenson.
Disse-lhe que sim e que não me deixara impressionar por nenhuma delas.
– De todos os argumentos – expliquei –, o único que ainda me parece ter força é o facto de pacientes que sofrem do mal de Alzheimer perderem cada um dos aspectos de sua personalidade:
suas memórias, habilidades, temperamentos.
Tudo se desintegra numa correspondência directa com a deterioração física do cérebro.
A questão é: se a destruição parcial do cérebro arruína todos os aspectos de uma pessoa que poderiam ser reencarnados, como imaginar que qualquer coisa pudesse sobreviver à total destruição do cérebro?
– Existe uma resposta-padrão – disse Tucker.
– E acho que é muito boa: é como um rádio.
Se você o danificar, ele não vai mais tocar músicas.
Mas isso não quer dizer que as ondas desse rádio desapareceram.
Significa apenas que não há mais um objecto para recebê-las.
Os cépticos responderiam:
“De onde vêm os sinais do rádio?”
Pode-se também perguntar:
“O que acontece dentro de um buraco negro?
O que existia antes do Big Bang?”
Encontrei-me casualmente com Tucker uma outra vez antes de ir embora de Charlottesville.
Tivemos mais uma longa conversa, ao fim das qual ele expressou uma frustração que eu suspeitava ser compartilhada por Stevenson.
– Gostaria que pudéssemos prosseguir em nossas tentativas de entender os mecanismos que estão por trás desses casos – revelou –, em vez de ficar constantemente tentando estabelecer a legitimidade desse fenómeno.
O problema – disse eu – é que, se você começar a falar sobre o processo de migração da alma antes de saber o que ela é e antes que as pessoas aceitem que é isso o que seus casos provam, parecerá tolo.
Ele concordou.
Seu olhar demonstrava cansaço.
Não era a primeira vez que aquele pensamento lhe ocorria.
A minha vez de participar da conferência da SEC aconteceu na sessão final.
Junto com outras cinco pessoas, eu fazia parte de um painel que discutia a cobertura dada à ciência pelos meios de comunicação.
Cada um de nós estava preparado para falar durante dez minutos sobre algum ponto relacionado ao tema, mas logo descobrimos que nossa presença ali visava permitir que os presentes exprimissem o seu enorme rancor pela maneira como os cientistas “alternativos” eram desprezados, ou mesmo difamados, pelos jornalistas.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jun 24, 2016 9:54 am

Além de mim, havia dois repórteres no painel – um da televisão e rádios locais e um amigo meu do Washington Post, um escritor chamado Joel Achenbach.
Eu havia sido convidado principalmente porque os organizadores da conferência sabiam do livro que estava escrevendo sobre Stevenson, e eu sugeri o nome de Joel, que, em suas próprias palavras, estava escrevendo um livro “sobre alienígenas”.
Joel, uma das pessoas mais inteligentes que já conheci, trabalhou comigo no Herald, escrevendo uma coluna onde explicava a ciência para as massas.
Ele me disse que, entre outras coisas, seu livro jogava por terra a ideia de que nosso planeta foi algum dia visitado por extraterrestres a bordo de OVNIS.
Ao fazer isso, no entanto, ele também discorria sobre a actuação da ciência, defendendo o mesmo conservadorismo e a mesma rigidez contra os quais lutavam alguns participantes da conferência.
Joel não apenas roubou a cena, mas por pouco não desencadeou um tumulto, ao insistir em que a ciência tradicional era assim por uma razão:
ela fazia sentido, não se deixava levar pela emoção, não tirava conclusões apressadas e nem se envolvia em conspirações para abafar a verdade.
Ela apenas exigia provas científicas rigorosas, conseguidas através de meios passíveis de repetição, potencialmente capazes de refutá-las em experimentos objectivos.
Suas palavras causaram protestos categóricos e agressivos por parte de um membro da plateia, mas as justificativas eram inconsistentes, e Joel ouviu-o sem refutá-lo.
Começava a anoitecer quando saí com Joel num automóvel alugado.
Além de termos trabalhado juntos durante vários anos, Joel e eu tínhamos sido colegas de quarto, por um curto período, quando cheguei a Miami e ele acabava de sair de Princeton.
Isso fora há muitos anos, mas o sentimento de liberdade e confiança permanecia.
– Então, qual é o negócio com o tal de Stevenson? – perguntou Joel.
Contei a ele sobre o que tinha visto no Líbano e na Índia, assim como nos dois últimos dias, na Virgínia.
Disse-lhe que, depois de mais de um ano viajando, quase fazendo a volta ao mundo, não podia rejeitar nada daquilo.
Entretanto, por algum motivo, não era capaz de afirmar, de facto, que acreditava.
Ele disse tudo o que eu já esperava ouvir:
como era possível falar seriamente sobre reencarnação quando não se tinha a menor ideia do que seria a alma, ou se ela existia?
E, se as almas realmente existissem, como elas ocupavam um corpo ou se moviam de um para outro?
Aquilo que as crianças demonstravam saber e que parecia desafiar qualquer explicação era mesmo fascinante.
Mas constituía material para um óptimo livro, e não para a ciência.
Por mais que parecesse improvável, a corrente de coincidências e conspirações teria que ser a explicação normal para os casos.
Na ausência de motivos convincentes para acreditar em almas e em sua transferência de um corpo para o outro, uma pessoa racional precisa escolher o improvável e não o inexplicado.
– Acredite-me, tenho reflectido sobre tudo isso – disse.
– É que... O sol já havia se escondido atrás das colinas, a oeste.
Um vento húmido e suave atravessava o automóvel.
E eu entendi.
Finalmente, compreendi o que vinha assombrando a minha mente desde a Índia, talvez até antes.
– Quer ouvir uma longa história? – perguntei.
– Claro.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:18 am

– Logo que terminei a faculdade, no verão de 1976, um amigo e eu decidimos dirigir pelo país até que nosso dinheiro acabasse.
Essa viagem se tornou uma maratona de conversas.
Dirigíamos, ouvíamos música e conversávamos.
Como éramos dois rapazes de vinte e pouco anos, nosso principal assunto eram as mulheres.
Havia duas mulheres na minha vida e percebi que estava associando cada uma delas a uma visão diferente do futuro.
Uma era segura, previsível, quase um abrigo.
A outra, perigosa, arriscada, um salto sem rede.
À medida que a viagem prosseguia e que ouvíamos várias vezes as mesmas fitas de música, na minha cabeça cada uma daquelas mulheres, cada uma daquelas posturas diante da vida, ficou associada a uma canção.
O abrigo seguro era Shelter from the Storm (Abrigo da tempestade), de Bob Dylan.
A selvagem e perigosa era uma daquelas músicas desesperadas de Bruce Springteen, She’s the One (É ela).
– Duas músicas excelentes – comentou Joel.
– Isso mesmo.
E ambas mexiam comigo.
Ambas as mulheres e ambas as músicas.
Meu amigo e eu discutimos esse assunto sob todos os aspectos possíveis.
Conversamos de uma maneira que só acontece quando você tem vinte e dois anos e está desempregado, dirigindo numa estrada vazia, uma hora antes do amanhecer, a um lugar onde nunca esteve.
Como você pode imaginar, essa discussão continuou sem parar, enquanto rumávamos para oeste e os espaços se tornavam mais amplos e mais desabitados.
Visitamos uns conhecidos em Phoenix e tomamos a direcção de Los Angeles, nosso objectivo final.
No caminho, pretendíamos parar e caminhar pelo Grand Canyon.
Mas já era tarde e decidimos seguir mais uma hora para o sul, passar a noite numa área própria para acampar e voltar para o Canyon bem cedo, na manhã seguinte.
A área de acampamento era apenas uma planície ao pé de algumas montanhas.
Embora rodeada de algumas árvores, era quase toda aberta.
Uma estrada de terra levava até lá, atravessando umas três primitivas áreas para acampar, sem água ou luz, apenas um local poeirento para se colocar uma tenda, uma mesa de piquenique e uma fogueira.
Não havia ninguém lá.
Estávamos completamente sós.
Passamos pelas duas primeiras áreas, paramos no lugar mais afastado, montamos acampamento, fizemos uma fogueira e resolvemos subir uma das montanhas.
A essa hora, a tarde já estava no fim e, quanto mais alto subíamos, mais escuro ficava.
Recomeçamos a discutir O Dilema, assunto que já estava me deixando louco.
“Qual delas?” logo se tornou “qual vida?” e, quanto mais conversávamos, mais penoso se tornava fazer a opção “certa”.
Tomar o caminho da ousadia, fazer o inesperado, seria uma atitude corajosa ou apenas tola?
Esse caminho levava à glória ou à perdição?
Tomar o caminho mais seguro seria uma atitude bem fundada e sensata ou um passo covarde em direcção a uma vida de tédio e arrependimento?
– O problema começou a se reflectir nas decisões mais imediatas.
Deveríamos ir para Los Angeles, como havíamos planeado?
Ou seria melhor nos aventurarmos pelo México, uma terra desconhecida?
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:19 am

Deveríamos voltar para a Flórida e procurar emprego, como sempre imaginamos fazer um dia?
Ou ficar ali, no oeste, e recomeçar tudo, sem contactos, dinheiro, contando apenas com o inesperado?
– Acho que você está me entendendo.
Era o momento de decisão.
A hesitação, a completa incapacidade em separar a verdade da ilusão me atormentavam.
– Conversamos durante várias horas.
Quando voltamos para o acampamento, já era tarde da noite.
Eu me sentia exausto.
Meu cérebro doía.
Estávamos ali, atiçando o fogo com pedaços de pau, e meu amigo disse:
“Quem sabe pegamos o carro agora mesmo e seguimos para o México?”
– A ideia realmente me atraía.
Era audaz, impulsiva, arriscada.
Então, comecei a pensar no quanto eu estava cansado, em como, provavelmente, acabaríamos parando na estrada, no meio do nada, para dormir dentro do carro, sentindo-nos como dois idiotas por termos saído daquela agradável área de acampamento e desistido de visitar o Grand Canyon.
Minha cabeça ia explodir.
Gritei: “Espere um minuto!
Essa decisão é igual a todo o resto.”
De repente pude ver como eu passara tantas horas, senão semanas, correndo atrás do próprio rabo.
“Não vou mais fazer isso”, disse então.
“Agora vou aguardar algum sinal.”
– Minha dor de cabeça desapareceu na mesma hora.
Senti-me envolvido por um silêncio insondável.
Ficamos ali, no escuro, ouvindo o fogo crepitar.
– Exactamente sessenta segundos depois, escutamos o som longínquo do motor de um automóvel movendo-se pela noite.
O barulho foi aumentando e vimos luzes de faróis movimentando-se por entre as árvores.
Finalmente, um furgão se aproximou pela estrada de terra.
Lembre-se, a área de acampamento estava totalmente deserta.
O furgão passou pela primeira área, pela segunda, seguiu em direcção onde estávamos, foi até o final e parou bem ao nosso lado.
Joel pulou no assento do carro e bateu com a mão no painel.
– Droga! – exclamou ele.
– É melhor que não seja a música de Springteen.
– A porta lateral do furgão se abriu – prossegui - e o som nos atingiu como um tapa, a voz luminosa, as guitarras estridentes, as marteladas no teclado.
Springteen. She’s the One.
– Oh, que droga! – disse Joel outra vez.
– A música seguiu directo até o ponto em que ele diz:
“E você tenta, só mais uma vez, vencer os obstáculos...”
Então parou, fazendo aquele barulho electrónico que se ouve quando alguém desliga de repente.
As luzes se apagaram, a porta foi fechada e éramos só nos dois outra vez.
Silêncio completo.
Não ouvimos mais nenhum barulho.
Nenhuma voz. Nenhum sussurro.
Nada. Joel riu.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:19 am

– Meu amigo e eu apenas olhamos um para o outro.
Eu disse:
“É engraçado.
Você pede um sinal e consegue.
Um enorme, espalhafatoso, cintilante sinal de néon.
E ainda assim não sabe o que ele quer dizer.
”Meu amigo disse: “Não é óbvio?”
E eu sabia do que ele falava.
Era óbvio que ele queria me dizer que o “sinal” estava me avisando para tomar o caminho da coragem, escolher a mulher perigosa, jogar a cautela para o alto.
Se eu tivesse ouvido a descrição da cena, pensaria a mesma coisa.
Mas ali, no meio de tudo aquilo, nem pensei nessa hipótese.
Ficou logo bem claro para mim que aquela incrível coincidência não poderia ser um guia prático capaz de definir as escolhas que deveria fazer.
Era estranho demais e ao mesmo tempo excessivamente magnífico e trivial.
Tive a forte certeza de que o universo estava rindo de mim, do meu auto-envolvimento, e o mais inesperado aconteceu: a ansiedade que eu sentia simplesmente desapareceu.
– Embora logo tivesse percebido que o “sinal” não era o que parecia, levou muito tempo para que eu o encarasse como o faço agora.
Por algum motivo, recebi essa dádiva, essa extraordinária e irrefutável demonstração de que não se pode analisar o mundo baseando-se apenas no que aparece na superfície.
O universo e o ser humano são muito mais do que máquinas de matéria física, automáticas, vazias.
Existe uma... força em algum lugar, algo que ultrapassa o conhecimento, mas que podemos, em algum nível, sentir e ver e com a qual podemos interagir.
Minha vida tão insignificante e todos os meus assuntos pessoais ligaram-se, de alguma forma, a algo tão gigantesco, tão além de mim mesmo, que poderia coreografar uma pequenina representação como aquela, feita sob medida para a mente de um rapaz confuso.
– Eu senti tudo aquilo profundamente.
Uma área de acampamento vazia, no meio do nada, no meio da noite.
E dois rapazes ali, discutindo tudo em termos de duas canções, durante semanas, e em sessenta segundos, após decidir “esperar por um sinal”, um furgão aparece, toa uma daquelas músicas, só isso, e fecha a porta?
Eu teria pensado que era uma alucinação, mas meu amigo estava ali, de testemunha!
E na manhã seguinte, quando o dia clareou, estávamos finalmente adormecendo quando ouvimos a porta do furgão se abrir, o toca-fitas ser religado, a última parte da música tocar alto, a porta se fechar com força, o veículo tomar a estrada e ir embora.
– Sem dúvida, essa é uma história notável – disse Joel.
– E não duvido que tenha sido exactamente como você se lembra.
Mas não acredito que haja algum ponto mágico em que um acontecimento improvável se transforme em “evidência” de algum fenómeno totalmente novo.
Qual é exactamente o fenómeno?
Como é que o seu cérebro ou os seus sentimentos poderiam fazer com que o furgão e o motorista parassem ali?
Me dê uma teoria por trás do acontecimento e alguma maneira de testá-la.
Essa sua história fala de um acontecimento muito incomum, sem qualquer teoria para explicá-lo, a não ser a existência de algum tipo de fenómeno maior que une as mentes humanas às realidades físicas.
E fica implícito que, se outras pessoas estiverem tentando decidir com quem sair, isso pode fazer com que você dirija um furgão e toque determinada música de Springteen.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:19 am

Pessoalmente, não me sinto sob o controle de forças que emanam do cérebro de outras pessoas.
A solução mais fácil para essa situação, se você quer saber o que eu penso, é dizer que, embora fosse única e excepcional, ela não exige qualquer fenómeno estranho para acontecer:
precisa apenas que uma pessoa leve um furgão até o lugar onde vocês estavam e toque uma música de Springteen.
E foi o que alguém fez, sem ter nada a ver com o seu problema.
É isso o que eu acho.
– O problema com o paranormal – prosseguiu Joel – é que, por definição, ele tende ficar tão distante do normal que, teoricamente, não pode ser medido.
Então, não se pode provar que não está ali e nem provar que está.
E, sendo assim, não posso excluir a possibilidade de existir alguma ligação entre os seus pensamentos e o aparecimento do furgão.
Apenas não acho que seja provável que exista qualquer ligação.
Dessa vez fui eu quem riu.
– É isso – exclamei.
É essa ligação entre tudo isso e aqueles casos de reencarnação.
Eu sabia que havia uma ligação, mas não conseguia identificá-la: o argumento é exactamente o mesmo.
Tenho uma série de fenómenos que não podem ser explicados de forma normal.
Tenho depoimentos e testemunhas que os corroboram.
Você diz:
“Não há como fazer uma experiência para provar ou refutar.”
Eu digo que, sem dúvida, vale a pena procurar outros casos nos quais as testemunhas aleguem ter presenciado eventos similares para, assim, determinar a probabilidade de que sejam explicados através de fraude ou ilusão.
Só que, no meu caso, não preciso me preocupar com a credibilidade das testemunhas, se estão enganando a si mesmas ou mentindo.
Porque eu sou o sujeito e a testemunha, e sei o que aconteceu.
– Então, a questão passa a ser:
“Tudo bem, sei que aconteceu, mas o que isso significa?”
Você diz: “Talvez seja uma coincidência.”
Óptimo, mas eu também quero dizer:
“De jeito nenhum!”
Não posso aceitar que aquilo tenha acontecido sem haver qualquer ligação com o que estava se passando na minha vida.
Da mesma maneira que, agora, desejo declarar categoricamente que não posso aceitar que todas aquelas crianças, todas aquelas famílias e todas as testemunhas estejam simplesmente mentindo, que estejam iludidas, ou erradas.
Aquelas crianças sabem de coisas que não poderiam saber normalmente.
Estou aceitando este facto.
Mas no meu caso, embora eu aceitasse que o que aconteceu naquela noite não era apenas coincidência, não aceitei a explicação que parecia óbvia quanto ao significado do sinal.
Simplesmente senti que não era aquilo.
– E acho – prossegui – que afirmar que “essas crianças sabem o que sabem porque são reencarnadas” me parece simplista demais.
Linear demais.
É aceitar que sabemos o que não sabemos, como, por exemplo, o que é o “tempo”, ou o que é a “identidade pessoal”.
Por isso, estou chegando à mesma conclusão a que já tinha chegado antes:
essas crianças não são importantes pelo que dizem sobre detalhes específicos ou sobre o que acontece após a morte.
Sua verdadeira importância está no que dizem sobre o funcionamento do mundo:
que ele é misterioso, que existem forças maiores em acção, que, de alguma maneira, todos nós estamos unidos por forças que ultrapassam o nosso conhecimento, mas que, definitivamente, não são irrelevantes para as nossas vidas.
Joel fiou em silêncio durante algum tempo.
Quando chegávamos ao nosso destino, ele, como sempre, deu a última palavra.
– Eu aceito isso como uma conclusão pessoal – disse ele.
Apenas não considero isso ciência.
Só mais tarde me ocorreu a resposta adequada:
se não é ciência, talvez devesse ser.


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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:19 am

18 - CRISÁLIDAS

– Você é uma pessoa de sorte, tal como eu – Stevenson tinha me escrito quando eu estava prestes a voar para Charlottesville.
Falei com a mãe daquele caso sobre o qual lhe falei por telefone.
Ela concordou em conversar com você.
Infelizmente, devido a outros compromissos, não poderei acompanhá-lo.
Eu me sentia mesmo uma pessoa de sorte.
Aquela seria a última família que eu iria entrevistar e ela preenchia uma série de lacunas.
Era um caso nos Estados unidos, no qual a criança se lembrava da vida de um estranho.
E não apenas isso, havia também uma chance de que fosse o primeiro caso não-familiar nos Estados Unidos com possibilidades de identificação da personalidade passada.
Na verdade, era estranhamente parecido com a história que Arlene Weingarten tinha me contado sobre seu irmão Jim, o menino de “Dixie”.
Desde muito pequeno, um garoto na Virgínia era obcecado por botas de vaqueiro e calças jeans.
Ele se recusava a usar qualquer outra roupa e falava sempre sobre a “sua” fazenda. Um dia, ele estava com a mãe dirigindo pelo campo, quando começou a gritar:
“É essa a minha fazenda.”
Até o momento em que me dirigi para encontrá-los, os pais não tinham feito nenhuma tentativa para verificar a informação.
Rodei por cerca de duas horas para fora de Charlottesville, até uma área nova que estava se desenvolvendo perto da estrada interestadual.
Era um daqueles lugares em que tudo, das caixas de correio às telhas, era controlado pela associação de moradores e em que um gramado por aparar era considerado alta traição.
Parecia estranho entrar com o Ford alugado na passagem que dava acesso a um cenário tão norte-americano dos anos noventa, sabendo que logo estaria fazendo perguntas similares às que tinha formulado nas montanhas Shouf, no Líbano, e nos casebres de Uttar Pradesh.
Debbie Lentz tinha trinta e nove anos, sedosos cabelos ruivos e uma agradável informalidade.
Ela e o marido eram proprietários de duas prósperas academias de ginástica na cidade, um negócio que ela havia construído com seu próprio esforço.
Tornara-se uma pessoa importante na comunidade comercial e por esse motivo ela não quis que sua história viesse a público com seu verdadeiro nome, que não é Debbie Lentz.
– Você não conhece as pessoas com quem lido – disse-me ela, quando sentamos à mesa da cozinha.
– Pensariam que tudo isso é loucura.
Debbie nunca havia se preocupado com assuntos como reencarnação ou outros temas espirituais da Nova Era.
Considerava-se parte dos milhões de norte-americanos que vivem confortavelmente no mundo secular, sem reflectir muito sobre assuntos espirituais que ultrapassem a ideia geral de que “coisas boas acontecem para pessoas boas”.
Mesmo assim, foi preciso um esforço para que ela se convencesse de que era uma boa pessoa para quem aconteciam coisas boas.
Seu pai, um jovem escritor, morrera de um ataque cardíaco quando ela tinha três anos.
Sua mãe se casara novamente com um homem que se revelara um alcoólatra agressivo que não gostava de crianças.
Quando perguntei se ela já tivera algum sentimento intuitivo de que a personalidade sobrevive após a morte, respondeu:
– Você não imagina quanta vezes fiquei acordada em minha cama, chorando com todas as minhas forças pelo meu pai.
E tudo o que senti foi um terrível vazio interior, um sentimento absoluto de que ele não estava lá.


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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:19 am

Então, onze anos, depois de casar e mudar para o leste, ela descobriu que tinha câncer:
dois tumores na virilha direita.
– A radioterapia destruiu o ovário direito – explicou Debbie.
O esquerdo se salvou, porém, dois anos depois, tive uma gravidez difícil.
Meu médico entrou em pânico e retirou meu ovário, pois havia sangue por todo lado.
Quando acordei e ele me contou, entendi que não poderia mais ter filhos.
Exames de sangue confirmaram que ela não produzia mais estrogénio.
Aos vinte e quatro anos, estava na menopausa.
Passou a fase de reposição hormonal.
Debbie havia trazido dois enormes copos de água bem gelada (“Água nunca é demais no organismo”, disse ela, alegremente, quando me passou o copo – sempre preocupada com a saúde.)
Robert, seu filho de cinco anos, entrou na cozinha.
Eu o tinha visto no pátio externo, pedalando um triciclo.
Observei que vestia bermudas e não calças jeans.
Mas usava grandes botas pretas de borracha que teimavam em escorregar dos pedais.
Ele vinha em direcção à mesa, um belo menino louro, de olhos azuis e expressão grave.
– Mãe, estou cansado – anunciou.
– Agora estou conversando – respondeu a mãe.
Vá brincar ou ver televisão.
Ela voltou-se para mim.
– Essa é a primeira vez que consigo fazê-lo usar bermudas.
Ele se recusava a vestir qualquer coisa diferente de calças jeans.
Só usa botas de vaqueiro desde a época em que começou a falar.
Jamais usou outro tipo de calçado. Usava botas de vaqueiro com o calção de banho quando ia à piscina.
– Ei, Robert – chamei.
Por que você gosta tanto de botas de vaqueiro?
Ele estava deitado em frente à televisão, de barriga para baixo.
– Eu gosto, só isso – respondeu.
Debbie sentou-se à minha frente e continuou:
– Depois que tive câncer, tomei estrogénio durante cinco, seis anos, e não me sentia bem.
Fui então ao oncologista pensando que estava com outro tumor.
Ele pediu uma série de exames.
Quando saí do consultório, um pensamento me veio à cabeça:
“Estou grávida.”
Foi muito estranho.
Fiz um exame de sangue e deu positivo.
Voltei ao médico e ele disse:
“Debbie, esse é o mesmo teste que usamos para encontrar um tumor.
O resultado foi positivo porque existe um tumor.
Você não está grávida.”
Eu respondi:
“Estou, sim.”
Saí dali e, na manhã seguinte, fui ao obstetra.
Fizeram uma ultra-sonografia.
Estava grávida.
Várias bênçãos numa só, segundo lhe disse o médico.
– Ele afirmou que a chance de o meu sistema reprodutor voltar a funcionar e produzir uma criança saudável, depois da menopausa e do tratamento radioterápico, era de uma em um milhão.


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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:20 am

Então, onze anos, depois de casar e mudar para o leste, ela descobriu que tinha câncer:
dois tumores na virilha direita.
– A radioterapia destruiu o ovário direito – explicou Debbie.
O esquerdo se salvou, porém, dois anos depois, tive uma gravidez difícil.
Meu médico entrou em pânico e retirou meu ovário, pois havia sangue por todo lado.
Quando acordei e ele me contou, entendi que não poderia mais ter filhos.
Exames de sangue confirmaram que ela não produzia mais estrogénio.
Aos vinte e quatro anos, estava na menopausa.
Passou a fase de reposição hormonal.
Debbie havia trazido dois enormes copos de água bem gelada (“Água nunca é demais no organismo”, disse ela, alegremente, quando me passou o copo – sempre preocupada com a saúde.)
Robert, seu filho de cinco anos, entrou na cozinha.
Eu o tinha visto no pátio externo, pedalando um triciclo.
Observei que vestia bermudas e não calças jeans.
Mas usava grandes botas pretas de borracha que teimavam em escorregar dos pedais.
Ele vinha em direcção à mesa, um belo menino louro, de olhos azuis e expressão grave.
– Mãe, estou cansado – anunciou.
– Agora estou conversando – respondeu a mãe.
Vá brincar ou ver televisão.
Ela voltou-se para mim.
– Essa é a primeira vez que consigo fazê-lo usar bermudas.
Ele se recusava a vestir qualquer coisa diferente de calças jeans.
Só usa botas de vaqueiro desde a época em que começou a falar.
Jamais usou outro tipo de calçado. Usava botas de vaqueiro com o calção de banho quando ia à piscina.
– Ei, Robert – chamei.
Por que você gosta tanto de botas de vaqueiro?
Ele estava deitado em frente à televisão, de barriga para baixo.
– Eu gosto, só isso – respondeu.
Debbie sentou-se à minha frente e continuou:
– Depois que tive câncer, tomei estrogénio durante cinco, seis anos, e não me sentia bem.
Fui então ao oncologista pensando que estava com outro tumor.
Ele pediu uma série de exames.
Quando saí do consultório, um pensamento me veio à cabeça:
“Estou grávida.”
Foi muito estranho.
Fiz um exame de sangue e deu positivo.
Voltei ao médico e ele disse:
“Debbie, esse é o mesmo teste que usamos para encontrar um tumor.
O resultado foi positivo porque existe um tumor.
Você não está grávida.”
Eu respondi:
“Estou, sim.”
Saí dali e, na manhã seguinte, fui ao obstetra.
Fizeram uma ultra-sonografia.
Estava grávida.
Várias bênçãos numa só, segundo lhe disse o médico.
– Ele afirmou que a chance de o meu sistema reprodutor voltar a funcionar e produzir uma criança saudável, depois da menopausa e do tratamento radioterápico, era de uma em um milhão.


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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:20 am

E na creche ele também não tinha contacto com cigarro.
– Sobre o que mais ele costumava falar? – continuou Debbie.
– Sobre tractores, coisas ligadas à fazenda, trabalhar na fazenda, acordar na fazenda, vacas... havia sempre vacas na tal fazenda.
Ah, ele falou também que um depósito havia sido destruído durante uma tempestade.
Pouco tempo atrás, acho que no inverno passado, eu e ele estávamos sentados assistindo televisão e meu marido acendeu a lareira.
De repente, ele disse:
“Minha mãe costumava ficar perto do fogo quando estava grávida.
Mamãe, deixe eu lhe mostrar.”
Fomos para perto do fogo e ele continuou:
“Ela esfregava a barriga.
Era muito grande.
Ela ficava em pé para se aquecer.”
Nós lhe perguntamos:
“Quantos filhos ela teve?”
Ele respondeu:
“Seis.”
Um dia – prosseguiu –, a mulher que tomava conta de Robert me disse:
“Debbie, qual é o problema com essa fazenda de que ele tem me falado?”
Comparamos nossas observações, e eram as mesmas.
A mãe o havia abandonado, sua irmã o maltratava, possuíam um tractor verde e um pequeno caminhão preto.
Tudo era idêntico.
Achamos muito interessante.
Quando você fala com uma criança, a história muda a toda a hora, mas no caso de Robert a história permanecia a mesma desde o seu nascimento... era quase inacreditável.
Algumas vezes, quando Robert falava da fazenda, sua voz se modificava.
– Era fácil perceber.
A entoação mudava.
Nesse ponto, a imaginação começava.
A história se tornava um tanto sem sentido, como:
“Tinha uma roda-gigante na minha fazenda.”
Você percebia a diferença.
Nossa conversa já durava mais de uma hora e eu estava fascinado.
Mas não alcançamos o mesmo que Stevenson me havia mostrado do outro lado do oceano:
crianças que se comportavam como Robert, porém, fazendo afirmações muito mais específicas que, mais tarde, provavam ser verdadeiras em relação á vida de um estranho.
Essa confirmação fazia toda a diferença, exigindo uma explicação mais profunda para aquele comportamento de que um simples “isso é coisa de criança”.
Antes de ir a Beirute e à Índia, eu teria dado a seguinte explicação para o que Debbie estava me contando:
uma história que demonstra o quanto as crianças podem ser imaginativas e como elas não conseguem distinguir a fantasia da realidade.
Teria também pensado que Debbie estava se enganando quando percebia mudanças na voz do filho no momento em que ele se referia a algo absurdo como uma roda-gigante em sua fazenda.
Teria concluído: que fértil imaginação!
Agora, porém, minha visão era diferente – depois de tudo o que vira, não tinha outra escolha senão levar a história mais a sério.
O menino apresentava outras características estranhas.


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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:20 am

Debbie contou, por exemplo, que, tão logo começou a falar, ele demonstrava um interesse precoce por motocicletas.
– Se estivéssemos numa estrada e ele ouvisse uma motocicleta se aproximar, dizia:
“Mamãe, aquela é uma Harley.”
E era. O mais impressionante é que ele distinguia uma Harley de uma Suzuki.
Não sei como conseguia.
E adorava roupas de couro preto, cabelos longos, brincos, tatuagens.
– Alguma vez você perguntou qual era o nome dele quando morava na fazenda? – indaguei.
– Nunca consegui saber isso.
Ele dizia alguma coisa sobre a fazenda e pronto.
Não respondia perguntas.
Não estava interessado em discutir o assunto.
Estava contando sua história.
Em novembro de 1995, Debbie e o marido compraram a casa onde nos encontrávamos. – estávamos morando aqui há cerca de seis meses e toda vez que precisávamos fazer compras íamos pela mesma estrada.
Um dia, resolvemos encurtar o caminho e, tão logo desviamos, Robert, na época com três anos, ficou agitado no banco de trás, gritando, excitado:
“Minha fazenda, esse é o caminho para a minha fazenda, é esse, é aqui que ela fica!”
Era de arrepiar os cabelos.
Continuamos dirigindo, e eu disse para ele:
“Querido, não vejo nenhuma fazenda.
Ali está a escola onde você vai estudar quando crescer.”
Ele respondeu:
“Não, não, eu sei que é aqui, sei que é aqui.”
Nenhum de nós jamais havia estado ali.
Passamos pela escola e, imagine só, na bifurcação da estrada havia uma fazenda.
Ele estava muito agitado.
“É aqui!”
Como ele sempre se referia a um galpão de depósito, eu lhe disse:
“Meu bem, existe uma fazenda aqui, mas ela não tem um galpão.”
E ele:
“Vá em frente, papai!
Vá em frente, ao lado...”
Ultrapassamos a casa, olhamos para a direita e lá estava o grande e velho galpão.
Ele apontou e disse:
“Viu, eu falei. Está vendo mamãe?”
Quando passamos pela casa de tijolos brancos, vimos vacas pastando.
Alguns meses depois, Debbie ganhou um livro escrito por Carol Bowman, Crianças e Suas Vidas Passadas.
A autora acreditava que seus filhos haviam se lembrado de vidas passadas durante uma regressão hipnótica.
Eu já conhecia o livro e achava que as recordações das crianças eram como todas as outras típicas “memórias” inspiradas pelo estado hipnótico:
elas afirmavam lembrar-se da vida de pessoas de várias gerações anteriores, fornecendo detalhes que poderiam ter sido retirados de um romance ou de um filme passado na televisão.
Devido a tudo o que vinha enfrentando, Debbie ficou impressionada com o que leu.
Entrou em contacto com a autora, que escreveu para Stevenson.
Ele e seu jovem colega, Jim Tucker, entrevistaram Debbie e começaram a investigar a casa que havia levado o menino a um estado de tamanha agitação.
Stevenson encontrou um material muito interessante.


Última edição por Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:25 am, editado 1 vez(es)
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jun 25, 2016 9:26 am

A casa havia pertencido à mesma família desde 1962, e o homem que a comprara havia morrido em novembro do mesmo ano, apenas quatro meses antes de Robert nascer.
O obituário do jornal afirmava que ele tinha oitenta e dois anos e era “corrector de imóveis e fazendeiro”.
Aparentemente, os membros sobreviventes da família ainda moravam ali.
– Actualmente Robert não se agita quando passamos por perto.
Parou de falar tanto sobre isso.
E eu nem sei por que não fui até lá.
– Você acha que existe alguma coisa em relação a Robert que possa estar relacionada a uma vida passada?
– Falei sobre isso com Carol Bowman:
o temperamento dele. Não me parece normal.
Quando é contrariado, tem acessos de fúria, como muitas crianças.
Mas Robert diz:
“Odeio a minha vida”, ou coisas desse tipo, com muita intensidade.
Se ele começa a reclamar, não dá para controlá-lo.
Quando era ainda bebé, eu costumava segurá-lo, até que parasse de se debater.
Mas sempre tive a impressão de que essas demonstrações de mau génio eram muito excessivas para uma criança ainda tão pequena.
Carol e eu pensamos na possibilidade de isso estar relacionado às lembranças:
sua irmã poderia ter feito alguma maldade, algo ruim poderia ter acontecido em outra vida.
O telefone tocou:
era a mulher que tomava conta de Robert.
– Ela está disposta a falar, se você quiser – disse Debbie.
Fiquei interessado.
Enquanto juntava meus pertences, fiz mais uma pergunta a Debbie.
– Robert tem alguma marca de nascença?
– Sabe – respondeu ela –, o Dr. Stevenson me perguntou isso e eu disse que não.
Mas tinha me esquecido dos sinais na cabeça.
Robert tem um aqui – apontou para um local logo acima da linha do cabelo, ligeiramente para a direita, no topo da cabeça – e aqui – moveu o dedo para o meio da cabeça, um pouco à esquerda.
– Ele nasceu com esses sinais, mas só me lembrei disso uns dias atrás, quando estávamos na piscina.
O cabelo dele é tão fino que se pode ver o couro cabeludo quando está molhado.
Pensei que o tal velho, dono da fazenda, poderia ter fotografias, e imaginei se ele teria perdido cabelo, se teria marcas na cabeça.
Não tenho nenhuma pista, mas seria interessante, e acho que preciso avisar o Dr. Stevenson.
Debbie chamou Robert.
O menino veio e parou perto da mãe, que lhe partiu os cabelos, deixando á vista um pequeno sinal, saliente, próximo ao meio da cabeça, e um outro, maior e mais escuro, no alto.
– Na verdade, esse aqui me incomoda um pouco – disse ela, passando os dedos gentilmente sobre o maior.
Eu ia levá-lo ao médico. É escuro demais.
Tenho tido problemas com câncer de pele, que preciso mandar retirar a cada três meses.
Logo após o meio-dia, parti em direcção à casa da babá.
Havia passado a manhã inteira na casa de Debbie Lentz, mas tudo me parecia incompleto.
Não estava acostumado a ouvir somente um lado da história, privando-me da entrevista com a família da personalidade passada, ocasião em que poderia verificar o quanto as palavras da criança correspondiam ou não a uma vida real.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 10:34 am

No caminho para a casa da babá, resolvi obedecer a um impulso.
Pelo celular, telefonei para a casa de Debbie.
Ela atendeu após o quarto toque.
– Debbie, você tem vontade de ir até a fazenda?
Acho que ela estava esperando que eu perguntasse.
– Você se encarrega da conversa?
– Claro, se você quiser.
– Então, vamos.
A babá se chamava Donna e confirmou tudo o que Debbie me contara.
Conversamos por meia hora, e depois atravessei novamente a cidade.
Quando cheguei, havia um problema:
Robert queria brincar com uns amigos e se reusava a ir a qualquer lugar.
– Vamos ver a sua fazenda – disse Debbie, tentando convencê-lo.
De repente, o menino se transformou e foi exactamente como ela descrevera.
Começou a bater os pés no chão e a gritar numa voz angustiada:
– Não! Quero brincar com os meninos!
Isso é uma BESTEIRA!
ODEIO você!
Por que está fazendo isso?
Odeio você! Odeio você!
Isso é uma BESTEIRA!
BESTEIRA! BESTEIRA!
Mesmo assim, subimos na camionete de Debbie e demos partida, com Robert aos berros no banco de trás.
Debbie falava com ele, calma e firme.
Quando o menino calou por um minuto, perguntei o nome dos amigos e ele me respondeu como se nada tivesse acontecido – a raiva foi embora tão abruptamente quanto chegara.
A casa de tijolos brancos na bifurcação da estrada ficava a menos de um quilómetro e meio.
Quando nos aproximamos, pude ver as construções que Debbie tomara como sendo galpões de depósitos.
Olhei para Robert, que estava sentado em silêncio.
Ele inclinou o corpo para a frente e disse:
– Tínhamos uma roda-gigante aqui.
Olhei para Debbie.
Ela não parecia ter ouvido.
Segurava o volante com força.
– Estou muito nervosa – afirmou.
Entramos numa passagem à sombra de árvores e paramos numa área aberta, na frente da casa.
Uma jovem apareceu na porta de entrada.
– Você mora aqui? – indaguei.
– Com minha mãe e minha avó – respondeu a moça.
– Será que poderíamos conversar com sua mãe?
A moça subiu os degraus e falou para dentro.
– Mãe! Tem gente aqui querendo falar com você.
Uma mulher de expressão meiga, aparentando uns quarenta e cinco anos, surgiu à porta.
– Entrem – disse, com a fala arrastada característica do sul da Virgínia.
– Meu nome é Lynn.
Entramos num saguão frio e escuro, apesar do sol que brilhava do lado de fora.
Debbie me seguia, e observei que Robert, atrás dela, segurava-a com força.
Eu não havia pensado em como introduziria o assunto.
Podia sentir o olhar de Debbie.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 10:35 am

– Esse menino está absolutamente convencido de que já viveu aqui – declarei.
Lynn pareceu confusa.
– Meu bem, isso é impossível.
Moramos aqui há muitos e muitos anos.
– O facto é – acrescentou Debbie – que ele acha que passou uma vida anterior aqui.
– Minha querida – disse ela –, acho que não.
Meu pai foi dono deste lugar durante quase quarenta anos.
– O menino não pára de falar na fazenda que teve – expliquei.
E está convencido de que é esta aqui.
Senti um certo alívio nos olhos de Lynn.
– Depois que meu pai a comprou, nunca foi realmente uma fazenda – ela explicou.
Papai era corrector de imóveis.
– Ele tinha algum passatempo, algo de que realmente gostasse?
Robert está sempre falando sobre motocicletas.
Ela balançou a cabeça devagar.
– meu pai jamais gostou muito delas.
Lynn fez uma pausa para reflectir.
– Mas ele possuía caminhões.
– É mesmo? – comentei.
A senhora se lembra de alguma cor especial?
– Branco – disse ela.
– Os caminhões eram brancos.
Eu ia registrando mentalmente:
sem fazenda, sem motocicletas.
Caminhões, mas de cor preta.
– Ele fumava? – indagou Debbie.
– Papai fumava, sim, começou na adolescência.
Robert contou que teve problemas por estar fumando no galpão, aos treze anos - disse eu.
– Alguma vez a senhora ouviu uma história assim?
Ela pensou um pouco.
– Bem, não sobre o meu pai, mas sobre o irmão dele, que morava naquela casa grande atrás da nossa.
Tudo isso era uma única propriedade.
Uma vez, quando eram adolescentes, meu pai e ele estavam levando algumas roupas para a lavandaria, quando o irmão dele que estava fumando deu um piparote no cigarro.
Queimou a roupa toda, não sobrou nada.
É claro que tiveram problemas por causa disso.
Ela reflectiu durante mais algum tempo.
– Nós tínhamos mesmo algumas vacas.
E alguns porcos.
E uma pequena plantação de soja, também.
Ele costumava carregar o caminhão com soja para vender no mercado.
Porcos? Vacas? Soja?
Para mim isso era uma fazenda.
Havia também o obituário:
“Corrector de imóveis e fazendeiro”.
E Robert tinha falado em carregar “grama” da fazenda no caminhão.
Ainda assim, ele não havia fornecido detalhes mais específicos.
Afirmou ter tido seis irmãos e irmãs.
Lynn disse que havia oito crianças na família, uma a mais.
Robert mencionara um galpão sendo destruído numa tempestade.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 10:35 am

Lynn não se lembrava de nada parecido.
O pai nunca tinha falado de uma irmã “má”.
Não tinha nada a ver com tatuagens.
Usava calças jeans e botas de vaqueiro, mas isso era comum.
Havia o facto de ele ter morrido logo antes de Robert nascer, mas, sem dúvida, centenas de outros fazendeiros também morreram.
Comecei a pensar que teríamos que considerar esse caso como “bola fora”.
Foi então que me lembrei de uma pergunta:
– Seu pai tinha algum sinal, alguma cicatriz no corpo?
– Ele tinha muitos fibromas que sempre precisavam ser removidos, tumores fibróides.
Pouco antes de morrer, papai teve que remover um bem grande.
Fiquei tenso. – onde foi isso? – perguntei.
– Bem – disse ela.
Colocou as mãos sobre o alto da cabeça.
No centro, ligeiramente à esquerda:
o local exacto do sinal maior de Robert.
Ela olhou para mim e, depois, para Debbie.
Estava quase chorando.
– Meu pai era um homem maravilhoso – disse, emocionada.
Ele morreu aos oitenta e sete anos de idade.
Há quase seis anos e ainda choro quando falo nele.
Era um homem tão doce, tão afectuoso com as mulheres.
Quando via uma mulher grávida, era sempre tão atencioso.
Lynn virou-se para Debbie:
– Se houver qualquer parte do meu pai guardada no seu filho, eu ficarei muito feliz.
Ela voltou-se para Robert, mas o rosto do menino estava enterrado nas costas da mãe.
Soluçava com força. Debbie tentou virá-lo, mas ele se agarrava a ela desesperadamente.
– O que está acontecendo, Robert?
Lynn agachou-se ao lado dele.
Não precisa chorar, meu amor – disse ela.
Você nunca deve sentir vergonha de nada que disser.
Pode me contar o que quiser.
Vou ter sempre vontade de ouvir.
Eu costumo dizer para as pessoas que um dia vou voltar como uma borboleta.
Juro que acredito nisso.
Quando chegamos no automóvel, Robert estava sereno outra vez.
– Por que você chorou lá dentro? – perguntei.
– Sei lá – respondeu Robert.
Senti vontade.
– Você achou interessante conversar com aquela senhora?
Os olhos do menino brilharam e ele concordou, balançando a cabeça com força.
Chegando em casa, Debbie perguntou;
– Você tem a impressão de que já conhecia aquela senhora, meu bem?
– Tenho, sim – respondeu Robert.
Fez uma pausa e olhou para Debbie.
– Por que sinto isso, mamãe?
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 10:35 am

AGRADECIMENTOS

Terei sempre imensa admiração pela coragem do Dr. Ian Stevenson por permitir que um jornalista que ele mal conhecia o acompanhasse em suas viagens de pesquisa em três continentes, concordando, sem limites ou protestos, com o escrutínio do trabalho ao qual dedicou toda a sua vida.
Sua bondade e cortesia reflectiram-se em seus associados, a Dra. Satwant Pasricha, na Índia, Majd Abu-Izedin, no Líbano, e o Dr. Jim Tucker, nos Estados unidos, assim como em todos os que fazem parte da Divisão de Estudos de Personalidade, na Universidade de Virgínia, e que não pouparam esforços para me prestar assistência.
Devo uma profunda gratidão às inúmeras pessoas que leram o meu trabalho durante o processo de execução, oferecendo-me valiosas opiniões e encorajamento, especialmente Lisa Schroeder, Joel Achenbach, David Fisher, Stephen Benz, Bill Rose e John Dorschner.
Gostaria de agradecer ainda a Bob Tischenkel, que chamou a minha atenção para o trabalho de Brian Weiss.
Juntos, escrevemos um artigo sobre Weiss, publicado na revista “Tropic”, do jornal Miami Herald, que serviu de base para o segundo capítulo deste livro.
Escrever esta obra não seria possível sem o apoio do meu agente, Al Hart, a eficiente orientação de meu editor, Fred Hills, a compreensão de Doug Clifton, do Miami Herald, que me concedeu todo o tempo que considerasse necessário para a sua execução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALMEDER, Robert. “A Critique of the Arguments Against Reincarnation”.
The Journal of Scientific Exploration, 11, no. 4 (1997): 499-526.
CAPRA, Fritjof. The Tao of Psysics. Boston: Shambhala, 1991.
EDWARDS, Paul. Reincarnation: A Critical Examination. Amherst, N. Y.: Prometeus Books, 1996.
MILLS, Antonia, et al. “Replication Studies of Cases Suggestive of Reincarnation by Three Independent Investigators”. Journal of the American Society for Physical research, 88 (julho, 1994).
PENROSE, Roger. Shadows of the Mind: A Search for the Missing Science of Consciousness. New York: Oxford University Press, 1994.
STEMMAN, Roy. Reincarnation: True Stories of Past Lives. London: Judy Piatkus Publishers, 1997.
STEVENSON, Ian. Ten Cases in India. Charlottesville: University Press of Virginia, 1972. __________ .Twelve Cases in Lebanon and Turkey. Charlottesville: University Press of Virginia, 1980. __________ . Twenty Cases Suggestive of Reincarnation. Charlottesville: University Press of Virginia, 1995. __________ . Reincarnation and Biology, Vol. 1: Birthmarks and Vol. 2: Birth Defects and Other Anomalies. Wesport, Conn.: Praeger, 1997.
WEISS, Brian. Many Lives, Many Masters (Muitas Vidas, Muitos Mestres). New York: Simon & Schuster, 1998.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 26, 2016 10:35 am

SOBRE O AUTOR

Tom Schroeder é um jornalista premiado, escritor e redactor há mais de vinte anos.
Representando a quarta geração de escritores de sua família (seu avô era MacKinlay Kantor, famoso escritor, ganhador do Prémio Pulitzer), Schroeder é redactor do caderno “Sunday Stile”, do jornal The Washington Post.
Entre 1985 e 1998, trabalhou como editor executivo da revista “Tropic”, do jornal Miami Herald, onde, entre outras tarefas, foi editor do humorista Dave Barry, colaborador de várias publicações em todo o país.
Em 1996, Schroder e Barry criaram, e Schroeder editou, um romance em capítulos, com a colaboração de pessoas como Elmore Leonard e Carl Hiaassen.
O romance tornou-se o famoso Best-seller do New York Times – Naked Came the Manatee. Em 1995, Schroder e Barry publicaram Seeing the Light, biografia de Clyde Butcher, fotógrafo naturalista dos Everglades, escrita sob a forma de um romance.
Schroeder vive no Norte da Virgínia com sua esposa, Lisa, editora e escritora, e dois filhos: Emily, de dez anos, e Sam, de oito.
Sua filha mais velha, Jéssica, de vinte e um anos, está terminando seus estudos na universidade da flórida.
Autora de uma peça de teatro em um ano, produzida profissionalmente, representa a quinta geração de escritores da família.

§.§.§- Ave sem Ninho
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