Almas Antigas / Tom Schroeder

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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:14 am

Mas estava claro que essa credulidade não era compartilhada por sua mulher, a principal testemunha.
E havia Farouk: ali estava um homem que fora colocado numa posição extremamente delicada com a aceitação da história de Suzanne.
Ele superara o trauma da morte da mulher.
Casara-se outra vez e estava feliz quando essa “criança” apareceu e passou a perturbá-lo com uma persistência assustadora.
E foi mais do que um incómodo em sua vida pessoal, mais do que um espinho em seu casamento.
As afirmações de Suzanne o arrastaram para o meio de um amargo conflito com seus filhos e com os antigos sogros – um problema sério o bastante para fazer sua filha mudar-se para os Estados Unidos.
Entretanto, ele não podia evitar.
Nutria um sentimento profundo pela menina e preocupava-se mais com o bem-estar dela do que com suas próprias dificuldades.
Para todos eles teria sido tão fácil dizer:
“Tudo isso não passou de uma mentira.”
Mas não tiveram coragem de fazê-lo.
No início daquela tarde, voltando para Beirute, desviamos para um beco de onde se tinha uma bela vista do vale.
Majd chamou nossa atenção para uma linda vila mourisca em pleno processo de reconstrução.
Era ali que vivia o doutor Sami Makarem, professor de estudos árabes da Universidade Americana, o homem que a apresentara a Stevenson.
A casa havia sido totalmente destruída e pilhada durante a guerra e estava sendo reconstruída aos poucos.
O nome de Makarem é o primeiro da lista de agradecimentos no livro de 384 páginas que Stevenson escreveu sobre os casos encontrados no Líbano e na Turquia.
Ele o havia auxiliado nos primeiros anos, actuando como intérprete e guia cultural.
Stevenson declarou que Makarem foi o único druso capaz de escrever um texto competente sobre a religião numa língua ocidental.
Eu havia me encontrado com Makarem na noite anterior, na palestra de Stevenson.
Era um homem de grande magnetismo, quase angelical, que falava com precisão, distribuindo as palavras como se cada uma tivesse sido moldada isoladamente, após uma reflexão profunda.
Perguntei a ele se achava que os drusos gostariam de ter provas científicas da reencarnação.
– Os drusos aceitam a reencarnação como verdade – explicou ele.
– Mas na religião drusa o maior objectivo a se atingir é a unidade com Deus, a realidade fundamental nessa vida.
Makarem havia convidado Stevenson e eu para jantar e foi para sua casa que nos dirigimos quando deixamos Farouk.
O apartamento de Makarem parecia um museu abarrotado de peças de arte e antiguidades.
Assim que nos sentamos na sala de visitas, chegou Elie Karam, o psiquiatra cristão que na festa de Majd defendera com veemência a importância das pesquisas dos casos de reencarnação entre os drusos.
Estava acompanhado de sua mulher, uma psicóloga de presença marcante.
– Tenho uma história para lhe contar – disse Karam a Stevenson, enquanto tirava o casaco e se sentava.
Minha assistente assistiu à sua palestra ontem à noite.
Depois, ela foi para casa e comentou o assunto com seu irmão de vinte e cinco anos.
Ambos são cristãos maronitas.
Ele disse:
“Eu tive uma vida anterior.”
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:14 am

Assim, de repente.
Ele nunca tinha falado sobre o assunto.
E contou:
“Só me lembro que eu era um homem alto, que morava nos arredores de Viena e que morri num acidente de automóvel.”
Então, ela perguntou:
“Por que você nunca falou sobre isso?”
E ele respondeu:
“Falei quando tinha quatro anos, mas nossos pais nunca me ouviram.”
– Minha assistente chamou a mãe e perguntou a respeito – prosseguiu Karam.
– Ela não se lembrava de ter ouvido falar sobre uma outra vida, mas disse que o menino tinha uma fobia terrível.
Sempre que entrava num carro começava a gritar desesperadamente, a ponto de, várias vezes, ter sido deixado para trás.
Makarem deu uma boa risada.
– Eu também tenho uma história – disse ele.
Conheço uma família drusa que me contou que, quando o filho era pequeno, falava uma língua estranha que, mais tarde, descobriram ser japonês.
Mas só descobriram isso quando saíram com o menino e ele ouviu alguns japoneses conversando na rua.
Sem que os pais conseguissem detê-lo, saiu correndo e gritando, afirmando que estava entendendo tudo.
Quando o alcançaram, ele conversava com aquelas pessoas, em japonês.
Disse que se lembrava de ter sido um imigrante chinês no Japão.
Lembrou-se até mesmo de seu antigo endereço e escreveu uma carta para sua irmã de outra vida, que resolveu visitá-lo.
Ele falava tanto sobre sua vida passada que sua mãe tinha medo de deixá-lo ir para o Japão, pois temia que ele não quisesse voltar.
Stevenson balançava a cabeça daquele jeito pensativo que lhe era peculiar.
Quando Makarem concluiu sua história, ele disse:
– Espero que alguém estude os vinte e cinco casos que tenho na Birmânia, onde crianças se lembram de ter sido soldados japoneses e exibem características daquele povo.
Ele já havia mencionado aqueles casos.
Muitos foram encontrados numa área ocupada pelos ingleses em 1945, quando o exército japonês estava prestes a sucumbir.
Eram casos interessantes por muitos motivos e certamente contradiziam o argumento dos cépticos de que as famílias e as crianças fabricavam essas histórias para sustentar sua crença na reencarnação: os japoneses eram odiados na Birmânia, onde as tropas de ocupação cometeram muitas atrocidades.
As famílias birmanesas jamais teriam vontade de insinuar que abrigavam em suas casas a reencarnação de um soldado imperial.
– Uma criança, num caso comovente, foi presa pelos habitantes de uma vila e queimada viva – contou Stevenson.
E essas crianças não apenas nascem em famílias birmanesas que não querem ter nada a ver com os japoneses, mas, frequentemente, sonham em “voltar para Tóquio”, acham que a comida birmanesa é temperada demais e que o clima é muito quente.
Reclamam o tempo todo:
“Quero peixe cru e doces, e quero me vestir como um japonês.”
Seja lá o que for, isso não pode ser genético.
Achei estranhamente agradável poder ouvir aquelas histórias sem ter que me preocupar em determinar se seriam verdadeiras ou não.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:15 am

O que me fez lembrar do marido de Galareh.
Contei o que ele havia dito naquela tarde sobre a cura com água benta.
– Vocês conhecem esse homem santo de quem ele falou? – perguntou Stevenson.
Karam riu.
– Há centenas deles – respondeu secamente e, então, prosseguiu.
Uma noite fui ver um curandeiro que tinha se tornado muito conhecido.
Havia dez mil pessoas lá.
O sujeito disse:
“Um de vocês que está me vendo tem um tumor no cérebro.
Mas será curado.”
Mais tarde, encontrei um amigo que tinha um tumor cerebral inoperável.
Contei a ele o que tinha presenciado e ele me disse:
“Era de mim que ele estava falando.”
Acontece que meu amigo estava vendo o curandeiro pela televisão e ficou convencido de que aquelas palavras haviam sido dirigidas directamente a ele.
Disse que, naquele mesmo instante, começou a se sentir melhor.
Estava tão fraco que mal conseguia se mexer e, de repente, sentiu-se bem outra vez.
Agora que estava curado pretendia passar duas semanas na Itália com a mulher.
Conheci a mulher dele também.
Falei com ela e implorei para que o fizesse confirmar a cura através de um exame de ressonância magnética.
“Se não for por causa dele, que seja pelo bem da igreja.
Eles precisam desse tipo de prova”, insisti.
Ela respondeu:
“Ele está bem, mas vou fazer isso porque você está me pedindo, quando voltarmos da Itália.”
Viajaram por duas semanas, como planeado, divertiram-se bastante e, então, ele morreu.
Acho que grande parte da fraqueza não era causada pelo tumor, mas pela grave depressão que ele sentia devido àquela situação.
A simples esperança de que tivesse sido curado deu-lhe novo ânimo.
A euforia de acreditar que havia escapado da morte pode ter trazido uma energia que permitiu que ele se sentisse normal por duas semanas, antes que o tumor o matasse.
“Pelo menos”, pensei, “o pobre homem conseguiu viajar para a Itália e se divertir.”
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:15 am

9 - NEW JERSEY É UM ESTADO DE ESPÍRITO

Pelo menos num aspecto o marido de Galareh estava certo:
um incontável número de crianças que afirmavam lembrar-se de vidas passadas contavam que haviam morrido de forma violenta.
Em nossa primeira manhã no Líbano, Stevenson havia mencionado um estudo segundo o qual cinquenta a sessenta por cento de seus casos na Índia envolviam mortes violentas, embora a violência estivesse presente em apenas cinco a seis por cento das mortes em geral.
Pensei em duas explicações possíveis para esse facto:
a violência ficava tão arraigada à alma que interferia no processo natural de esquecimento, ou então as forças que criavam falsas memórias de vidas passadas tinham uma propensão ao dramático.
Qualquer que fosse o motivo, na época, encarei o assunto como uma questão abstracta.
Mas, após alguns dias no Líbano, eu já podia ver a outra face do problema.
Além de Ulfat, que dizia lembrar-se de ter sido rasgada à faca por saqueadores cristãos, e de Daniel, que acreditava ter morrido num acidente de automóvel, entrevistamos ainda um homem que se lembrava da vida de um menino que morrera estrangulado por um irmão demente e uma mulher que acreditava ter sido uma lavadeira morta pelo marido bêbado.
E ainda era sexta-feira de manhã.
Eu não sabia, mas antes do pôr-do-sol ficaríamos a par de muitas outras carnificinas.
Nossa primeira parada foi novamente em Aley, numa das áreas destruídas por onde havíamos passado no outro dia.
Seguindo as instruções de mais um dos antigos mapas desenhados à mão por Stevenson, Mahmoud estacionou o Mercedes na frente do que um dia fora uma casa de pedra, mas agora era uma carcaça sem tecto e sem janelas, com um enorme buraco no lugar do vestíbulo.
Saímos do carro e Stevenson tentou orientar-se pelos pontos de referência que conseguiram sobreviver à destruição.
Entramos numa rua e seguimos por um declive íngreme, por entre edifícios ainda mais destroçados e um par de automóveis amassados e abandonados, até chegar à casa.
Trinta e cinco anos antes, a jovem Salma, uma moça pobre, morava no andar térreo de uma construção de dois pavimentos situada numa colina.
Ela tomava conta de seus filhos e do marido, um bêbado muitas vezes agressivo, lavando roupa para alunos na universidade nacional de Aley.
Agora, as paredes amarelas, desbotadas pelo tempo, pareciam um queijo suíço, cobertas de buracos do tamanho de um prato, resultantes do impacto de granadas ou do persistente tiroteio de metralhadoras.
A arma que matou Salma, porém, foi a espingarda de caça do marido.
A pessoa que afirmara lembrar-se da melancólica vida de Salma era Itidal Abul-Hisn, uma mulher da classe operária que havia nos contado sua história no dia anterior:
– Ainda me lembro de alguns de meus filhos, ainda posso vê-los.
Meu marido atirou em mim duas vezes, quando eu estava dependurando a roupa para secar.
Só penso nisso quando me perguntam a respeito.
Porém, quando estou sozinha, às vezes eu me lembro.
Ela fez um barulho como se estivesse limpando a garganta e vi que estava chorando.
– Desculpe-me.
Falar sobre uma vida passada deve ser muito doloroso – disse Stevenson, quando a moça conseguiu se controlar.
– Não é isso – respondeu ela.
Não estou chorando por minha vida passada, estou chorando pela actual.
Então, contou que seu marido havia levado o filho de onze meses quando eles se separaram, embora, normalmente, as crianças pequenas ficassem com a mãe.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:15 am

Essa era uma ferida que nunca cicatrizava.
– Algumas vezes, quando estou sozinha, fico pensando:
na minha primeira vida meu marido me matou; na segunda, divorciou-se de mim e levou meu filho.
– Você acha que existe alguma ligação? – perguntou Stevenson.
– Não – disse ela.
É apenas o meu destino.
A irmã de Itidal, Intisar, era muito mais velha e pôde testemunhar as primeiras manifestações de suas memórias de uma vida passada.
– Ela começou a falar nisso aos três anos e parou aos dez – recordou-se Intisar.
– Geralmente, mencionava o facto quando via crianças pequenas.
Costumava pegar doces e escondê-los, dizendo que eram para “seus filhos”.
Também guardava doces para uma criança da vila que, segundo ela, tinha o mesmo nome de um deles.
Dizia:
“Quero voltar para a minha família.
Por favor, me leve para Aley.”
Quando finalmente fomos até lá, ela nos mostrou a casa onde morava.
Agora, estávamos refazendo os passos de Itidal.
Atravessamos uma montanha de lixo e restos de mobília, passamos por buracos em cercas de arame enferrujado e contornamos as laterais do edifício, subindo uma ladeira até atingir uma área estreita, coberta de ervas daninhas, entre o andar mais alto e o prédio vizinho.
Em seu mapa, Stevenson desenhara um círculo indicando uma imensa árvore, o lugar onde Itidal se lembrava de estar dependurando a roupa lavada em sua encarnação passada, como Salma, quando o marido subiu aquela mesma ladeira e atirou.
Agora, a árvore era apenas um toco em meio a latas enferrujadas e retalhos de plástico.
Não havia muito o que se ver, nada que corroborasse a história – excepto pelo toco da antiga árvore.
Entretanto, ao ficar parado ali, no exacto lugar onde um assassinato ocorrera há tantos anos, senti com mais força a obscuridade da vida e da morte de Salma.
Mais uma vez, pensei:
“Se essas memórias são fabricadas de maneira consciente ou subliminar, por que uma pessoa escolheria exactamente aquela vida para se lembrar?”
Mas nosso verdadeiro objectivo ali não era ver a casa.
Subindo a colina, do outro lado da rua, morava um homem chamado Chafic Baz.
Era professor de psicologia numa faculdade e, o mais importante para nossos objectivos, morava naquele endereço há muitos anos.
O apartamento de Baz havia sofrido um incêndio, mas agora estava totalmente reconstruído.
Ele e a mulher nos convidaram a entrar insistindo em dizer, como era costume no Líbano, que a casa nos pertencia e que deveríamos tratá-la como se morássemos lá.
Serviram-nos vinho tinto feito em casa, com as uvas do jardim, e travessas com frutas frescas.
Chafic Baz, que vinha de uma família de classe média alta, disse que conhecera bem Salma e sua família.
– Eram muito pobres – contou.
Ela trabalhava nas casas de outras famílias e lavava a roupa dos estudantes da universidade em sua própria casa.
Ele tinha dezassete anos quando Salma foi morta.
Disse que, como todos ali, sabia que ela enfrentava problemas com o marido.
Tinham sete ou oito filhos e quase nenhum dinheiro.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:15 am

– O marido era um homem magro e rude, muito duro com Salma.
Brigavam o tempo todo por causa das crianças, do dinheiro, de qualquer coisa.
Salma trabalhava muito, como todo mundo.
Rememorei a entrevista com Itidal no minúsculo apartamento em Beirute.
Algumas de suas afirmações haviam me deixado confuso.
Por exemplo, ela disse que tinha sido morta às três da manhã e que estava dependurando roupas naquele momento.
Esse era um horário estranho para secar roupas.
– Você se lembra a que horas ela foi morta? – perguntei.
– Eu ouvi os tiros – respondeu Baz.
Foi antes do amanhecer, talvez às três ou quatro horas.
É claro que fui ver o que estava acontecendo.
Salma estava caída, de costas.
Perto dela, espalhada pelo chão, as roupas que pendurava.
Um outro vizinho também foi averiguar o que tinha acontecido.
O marido nos vira e apontou a arma para o alto das árvores, fingindo que estava caçando passarinhos.
Depois, foi embora.
Corri para onde ela se encontrava.
Fui o primeiro a chegar, mas Salma já estava morta, com um tiro nas costas.
– Por que ela estaria dependurando roupas às três horas da manhã?
– Bem, ela começava a trabalhar de madrugada.
Se quisesse fazer qualquer coisa para a própria família, precisava acordar bem cedo.
Não era uma vida fácil.
Itidal também havia afirmado que seu marido atirara duas vezes - embora Stevenson achasse que ela não mencionara esse fato na entrevista anterior.
– Foi apenas um tiro – disse Baz.
Ele estava a uma distância de dois metros.
Só ouvi um tiro e só havia uma ferida, tenho quase certeza.
– Há mais ou menos um ano – prosseguiu –, eu estava me vestindo para ir à universidade quando vi algumas pessoas do lado de fora, ao redor de uma menina.
Perguntei o que estava acontecendo e eles disseram:
“Essa é a criança que diz ter sido Salma.”
Ela se apresentou a mim.
Pessoalmente, acredito nela.
Já vi muitos casos como esse.
– Alguma vez você encontrou um caso em que não acreditou?
– Não – disse ele.
Acho que são verdadeiros.
O irmão da minha mulher se lembra de duas vidas, mas ele pode não querer conversar sobre isso com vocês.
Minha mãe, de oitenta e oito anos, se lembra de uma vida passada.
Mas ela, definitivamente, se nega a discutir o assunto.
E sei também de um garoto de dez anos que se lembra da vida de um vizinho meu que morreu num bombardeio.
Não falei com ele, mas alguns vizinhos disseram-me que ele esteve aqui e que o viram apontar para mim e dizer meu nome quando eu estava passando pela rua.
Não parei, porque tinha um compromisso.
Mas a família dele mora aqui em Aley, no distrito industrial.
Não é longe. Posso ensinar o caminho a vocês.
Como sempre, Stevenson manteve-se impassível.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:15 am

Na verdade, ele estava em dúvida.
Valeria a pena dedicar algum tempo a uma primeira entrevista de um caso que não teríamos tempo de acompanhar, que talvez nunca revíssemos?
Stevenson reflectia cada vez mais sobre o futuro de sua pesquisa.
Esse futuro, realisticamente falando, não o incluía, mas poderia muito bem incluir Erlendur Haraldsson, o pesquisador que estava aplicando testes psicológicos em algumas das crianças pesquisadas.
Haraldsson já havia feito isso em outros lugares, comparando os resultados das crianças com os de colegas de escola, escolhidos ao acaso.
A ideia era verificar se os meninos e meninas que afirmavam lembrar-se de vidas passadas demonstravam algum sinal de desordens psicológicas ou tendências acentuadas à fantasia.
Os estudos que Haraldsson havia feito até agora não indicavam nenhuma dessas possibilidades.
Na verdade, ele concluíra que as crianças dos casos tinham uma tendência a ser menos sugestionáveis do que os colegas escolhidos ao acaso.
Além disso, na média, alcançavam também uma pontuação mais alta nos testes de inteligência.
No final, Stevenson decidiu que a possibilidade de encontrar algum material que auxiliasse a pesquisa de Haraldsson fazia com que a visita valesse a pena.
Eu tinha meus próprios motivos para querer ir.
Até agora, todas as pessoas que entrevistamos já haviam se tornado adultas.
Suas lembranças eram apenas isso – lembranças.
Por melhor que suas afirmações da infância tivessem sido testemunhadas, imaginei que seria diferente ouvir tudo directamente da boca de uma criança.
O “distrito industrial” não passava de uma estrada tortuosa, esburacada e íngreme que contornava pilhas de automóveis velhos, lixo em brasa e vãos de concreto onde funcionavam garagens, marcenarias e depósitos.
Não parecia um lugar apropriado para se viver.
Após fazer algumas consultas, chegamos a uma oficina.
Um rapaz de cerca de vinte anos apareceu para abrir a porta do apartamento do segundo andar.
– Estamos procurando por Bashir Chmeit – disse Majd, em árabe, explicando a razão de nossa visita.
O rapaz, irmão de Bashir, convidou-nos a entrar.
O apartamento nos surpreendeu:
um oásis todo acarpetado, repleto de plantas, surgindo num desolado fim de rua.
Ficamos sentados numa sala aquecida por um fogareiro a óleo.
Quinze minutos depois, o menino apareceu.
Seu rosto estava corado.
Ele atravessou a sala, deixando um cheiro de colónia no ar.
Parecia um adulto em miniatura, tanto nas vestimentas quanto na maneira de falar.
Sua característica mais marcante, no entanto, era o brilho de madrepérola de sua pele, que parecia ter luz própria.
Trocamos apertos de mãos e ele se sentou no sofá, cruzando as pernas e os braços de maneira decidida.
Ficou ali, perfeitamente controlado, olhando directamente para cada um de nós, aguardando as perguntas.
– Você tem dez anos, não é isso? – começou Stevenson.
– Onze – respondeu o menino.
– Meu aniversário foi há dois dias.
– Você se lembra de uma vida passada?
– Eu me lembro de ter dito ao meu irmão:
“Não sou Bashir. Sou Fadi.”
A porta principal se abriu e os pais de Bashir entraram.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:16 am

O pai nos cumprimentou, sentou-se ao lado do filho e não disse nada.
Bashir mal lhe dirigiu o olhar.
– Eu costumava chorar muito até minha mãe anterior chegar.
Eu me lembrei, chamei a todos pelo nome.
E me lembro de ter sido morto numa casamata.
– Ele usou a palavra dishmi – explicou Majd ao traduzir.
– Na verdade, é um buraco no chão, com sacos de areia e cimento em volta.
– Isso foi no distrito oeste de Aley – prosseguiu o menino.
Eu estava no topo, na parte de cimento do dishmi.
Eles tinham acabado de construir o topo de concreto da casamata e eu ia inspeccionar.
Uma bomba explodiu e uma bala me acertou na garganta.
– Uma bala o atingiu? – perguntou Majd.
– Você não disse que uma bomba explodiu?
– Ele disse “bala” porque não conseguiu achar uma palavra para definir um pequeno pedaço de metal oriundo da bomba – explicou Majd.
– Você quis dizer estilhaço? – perguntei.
– Isso.
Educadamente, Bashir esperou que terminássemos e, então, continuou seu relato.
– Eu caí. Estava inconsciente.
Mas vi meus amigos removerem os feridos e também vi meu carro parado na calçada, um Toyota bege.
Avistei uma pessoa correndo até o meu carro para roubar as jóias que eu tinha escondido.
Costumava guardar minhas jóias ali quando estávamos lutando.
Vi essa pessoa roubando as minhas jóias e pedi aos meus amigos que levassem primeiro os feridos e depois viessem me buscar.
– Você não falou que estava inconsciente? – indaguei.
– Pensei que estava inconsciente, mas conseguia ver e falar com meus amigos.
E, então, não senti mais nada.
– Você se lembra de mais alguma coisa? – perguntou Stevenson.
– Lembro.
Costumava sair com meus amigos Mutran e Bassam.
Eu era membro do Partido Socialista Progressivo, mas não usava uniforme.
Usava roupas civis.
Costumava ajudá-los durante as lutas.
Fadi Abdel-Baki, vizinho de Chafic Baz, tinha apenas dezassete anos quando morreu na guerra civil, em 1978, oito anos antes de Bashir nascer.
Stevenson dirigiu-se aos pais do menino:
– Bashir tem alguma marca de nascença?
– Não – disse o pai.
Mas, quando começou a falar, tinha a voz de um rapaz.
Se vocês o ouvissem de um outro quarto, achariam que se tratava de um homem.
– Havia alguma coisa diferente nele?
O pai respondeu que sim.
– Quando Bashir era um bebé, chorava todo o tempo.
Ficávamos confusos, pois ele era saudável e comia bem.
Mas chorava constantemente, até que viu alguém de sua família passada e, de repente, ficou mais feliz.
Morávamos com um tio, perto do quartel-general do Partido Socialista Progressivo.
Acho que ele viu um de seus amigos, isto é, um dos amigos de Fadi, e um jipe Land Rover que ele, Fadi, havia tomado de uma milícia rival.
Segundo a mãe, Bashir começou a falar aos quinze meses.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:16 am

– Já começou falando frases completas.
Dizia:
“Não sou Bashir, sou Fadi.”
E deu os nomes de seus pais e irmãos de outra vida.
Nós não queríamos procurar a outra família tão cedo – prosseguiu.
– Entretanto, depois de duas semanas, uma tia do meu marido, amiga da mãe de Fadi, disse-lhe:
“Pare de chorar, seu filho pode ter renascido.”
Dois dias mais tarde, a família de Fadi veio nos ver.
Bashir não reconheceu a mãe, mas, quando lhe mostraram um álbum de fotografias, ele a identificou.
Na visita, ela estava usando um mandeel, mas só adquiriu esse hábito depois da morte do filho.
Na fotografia estava sem ele.
Segundo os pais, Bashir também reconheceu nas fotos os irmãos e irmãs de Fadi, assim como alguns de seus amigos.
– Vocês conheciam bem a família de Fadi? – perguntou Stevenson.
– Quando meu filho disse o nome pela primeira vez, sabia de quem ele estava falando – disse o pai.
Eu conhecia a história do rapaz que havia morrido... já o tinha visto uma vez...
Por pouco não tivemos um acidente.
Fadi estava em alta velocidade e quase me atirou fora da estrada.
Saí do carro e gritei com ele.
O rapaz me xingou.
Então, segurei-o pelo pescoço...
Ele sorriu e colocou os braços ao redor de Bashir, sentando-se perto dele.
– Quando agarrei Fadi, alguém me disse de quem era filho e eu logo o soltei.
Enquanto o pai falava, Bashir permanecia sentado, num silêncio impenetrável.
– Você se lembra disso? – perguntei.
Ele balançou negativamente a cabeça.
– Quem você sente que é agora – indaguei –, Bashir ou Fadi?
– Bashir – foi a resposta.
– Quando ele tinha oito ou nove anos – explicou o pai –, começou a dizer:
“Eu era Fadi, agora sou Bashir.”
Ele se virou para o filho e, com voz serena, disse-lhe algo.
O menino pulou do sofá e saiu da sala.
– Pedi a ele que saísse – falou, em inglês – porque não quero perturbá-lo outra vez.
Seu pai anterior morreu recentemente.
Bashir mal conseguia se alimentar.
Ficou com sua outra família do início da manhã até as seis da tarde, exactamente como faria se fosse Fadi.
Estava muito perturbado.
Ficamos preocupados com ele.
Quando Bashir retornou, Stevenson lhe fez uma última pergunta, com o objectivo de determinar se o garoto apresentava alguma fobia que pudesse estar relacionada à sua vida anterior:
ele tinha algum medo?
Bashir sorriu e disse que não.
Sabia aonde Stevenson queria chegar.
– Quando estão atirando – disse ele –, gosto de atirar junto com eles.
Sou um bom guerreiro.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jun 19, 2016 10:16 am

– É um caso meio complicado – comentou Stevenson quando saímos da casa.
O caso de facto apresentava enormes falhas.
As famílias moravam na mesma cidade e até se conheciam antes, o que fazia com que qualquer informação correta fornecida pela criança sobre a vida de Fadi pudesse ter sido aprendida através de seus pais.
Ou os pais poderiam ter interpretado as palavras desconexas do menino de três anos à luz do que já conheciam a respeito de Fadi.
Mesmo assim eu fiquei satisfeito por termos feito a visita.
Aquelas pessoas não estavam nos esperando, não nos tinham convidado.
Estavam cuidando de seus negócios quando, gentilmente, aceitaram a nossa intromissão.
Ficou claro que não esperavam obter nada de ninguém e nem do resultado das afirmações do filho.
Gostei desse detalhe em relação ao caso, como gostei também que Bashir ainda fosse criança.
Tinha visto com os meus próprios olhos a precocidade que Stevenson sempre descrevia em seus relatórios – as roupas, o perfume e a serenidade demonstrados pelo garoto eram intrigantes.
Assim como o relato da morte de um homem numa linguagem infantil:
o estilhaço na garganta, o breve período de consciência antes de morrer, e assistir, como se estivesse distante, seu carro sendo saqueado e seus companheiros removidos.
Ele me fez lembrar das descrições feitas por pessoas cujos casos estavam sendo estudados por colegas de Stevenson – elas se lembravam de ter visto de cima o próprio corpo, em salas de cirurgia ou após acidentes de automóvel.
Levei mais uma certeza desse encontro:
apesar das diferentes circunstâncias de cada um dos casos observados, uma semelhança estava começando a emergir – a certeza com que a criança, em suas primeiras palavras, insiste em afirmar:
“Não sou Bashir, Suzanne ou Daniel.
Vocês não são meus pais.
Essa não é a minha casa.”
Seguimos na direcção leste.
A população se tornou mais escassa.
Os pinheiros se multiplicaram.
A estrada ficou ainda mais íngreme.
Estávamos nos dirigindo para um lugar no meio das montanhas que Stevenson descreveu como “possivelmente o menor vilarejo do Líbano”.
Sua última visita ao local fora em 1971.
O povoado, um beco sem saída de difícil acesso, consistia em uma meia dúzia de construções e umas poucas dezenas de pessoas.
Stevenson tinha estado lá para entrevistar a família de um pobre lavrador chamado Khattar.
Ele apanhava cones e extraía amêndoas de pinheiros, que iam parar em restaurantes finos da Europa e da América, um trabalho que mal dava para alimentar seus seis filhos.
Duas dessas crianças, ambos meninos, afirmavam ter memórias de vidas passadas.
Stevenson havia concentrado sua pesquisa no filho mais velho, Tali, que tinha seis anos quando fora entrevistado, em 1971.
Esse interesse especial era devido a sinais de nascença no corpo do menino que correspondiam aproximadamente a uma ferida sofrida pelo homem de cuja vida ele afirmava lembrar-se, um próspero negociante chamado Said Abul-Hisn (não tinha parentesco com Itidal Abul-Hisn), assassinado seis semanas antes do nascimento de Tali.
Em 22 de junho de 1965, às seis horas da manhã, Said estava tomando café no pátio de sua casa quando um conhecido veio pela rua, aproximou-se dele e atirou.
A bala entrou pelo lado esquerdo do rosto, atravessou a boca, feriu a língua e saiu pelo lado direito.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:34 pm

Ele foi levado para o hospital, onde morreu onze horas depois.
O atirador foi preso e levado para um manicómio:
o crime parecia ter sido causado pelos delírios provocados pela semelhança física entre Said e um homem de quem o assassino guardava ressentimentos.
Tali só começou a falar, com bastante dificuldade, aos três anos de idade.
Segundo seus pais, tão logo conseguiu fazer-se entender, ele disse:
– Não me chamem de Tali.
Meu nome é Said Abul-Hisn.
Não demorou a começar a falar sobre os tiros.
Quando Stevenson o entrevistou, aos seis anos, o menino contou:
– Fui colocado num carro e levado para o hospital.
Minha mulher estava ao meu lado.
Um dos meus dentes se soltou, minha língua sofreu um corte e minhas roupas estavam cheias de sangue.
A família disse que não havia notado nenhum sinal de nascença no menino.
Porém, quando Stevenson o examinou, descobriu um círculo de pigmentação mais intensa, com cerca de um centímetro e meio de diâmetro, no lado direito da face.
No lado esquerdo, uma marca similar, menor e mais apagada, podia ser vista.
Stevenson mediu e fotografou os sinais e, mais tarde, comparou-os com o relatório da autópsia feita em Said.
Descobriu que as marcas de Tali ficavam ligeiramente mais direccionadas para a parte de trás da cabeça do que as feridas causadas pela entrada e saída das balas, mas chegou á conclusão de que isso poderia facilmente ser explicado pela migração que as marcas de nascença costumam sofrer com o crescimento da criança.
Observou também que o desenvolvimento tardio e as dificuldades apresentadas na fala – embora difíceis de serem medidos com objectividade – poderiam ser analisados como um tipo de marca de nascença “funcional”, correspondente à lesão na língua de Said.
Uma questão feita por Stevenson em 1971 obteve uma resposta particularmente interessante.
A última lembrança que Tali tinha de sua vida passada:
cair da cama, no hospital.
As fichas do hospital não faziam menção a esse facto.
Um relatório feito após a morte descreve-a com desolador minimalismo: Submetido à traqueotomia.
Dificuldades respiratórias às 5 da manhã.
Ataque cardíaco. Morte.
Durante uma entrevista, a mulher de Said afirmara que, embora sem provas, alguém havia lhe dito que seu marido sofrera uma queda e morrera de asfixia antes que pudessem recolocar nele o tubo de respiração.
Isso poderia corresponder à tal “dificuldade respiratória”.
E não seria a primeira vez que um relatório hospitalar oficial omitia eventos importantes capazes de desacreditar a qualidade de seu atendimento.
Ainda assim, a viúva de Said se mantinha céptica quanto às afirmações de Tali de que era seu marido renascido, principalmente porque o menino nunca se referira a uma de suas filhas, cuja doença crónica havia sido uma preocupação constante na vida dos pais.
Embora a cidade onde vivia Said ficasse a menos de cinco quilómetros de distância, os pais de Tali disseram a Stevenson que nunca o haviam levado até lá antes que começasse a falar do morto.
Relutaram bastante, pois o menino insistia tanto afirmando ser Said que ficaram com medo de que ele se recusasse a voltar para casa.
Quando finalmente o fizeram, Tali foi levado a uma sala onde algumas meninas estavam sentadas ao redor de uma mesa, inclusive Wafa, uma outra filha de Said.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:34 pm

Perguntaram a ele:
– Você reconhece sua filha?
Segundo testemunhas, Tali sentou-se ao lado da menina e disse:
– Wafa, por que você não vai me visitar?
Após todo esse tempo, Stevenson havia finalmente publicado uma descrição do caso em seu livro mais recente – dois volumes dedicados a marcas e defeitos de nascença.
Agora, embora quisesse saber o que havia acontecido com as marcas de Tali, Stevenson estava mais interessado em fazer uma nova entrevista com a família a respeito de Mazeed, seu irmão mais novo.
O caso de Mazeed – ele se lembrava da vida de um escavador de poços que havia morrido no trabalho, atingido na cabeça por uma cesta de pedras – havia sido publicado somente de maneira resumida e Stevenson queria preencher algumas lacunas antes de incluí-lo num novo volume.
Estávamos dirigindo há meia hora quando alcançamos uma estrada.
A encosta formava um precipício tão íngreme que ali nada podia ser construído.
Aquela era a paisagem mais intocada que tínhamos visto no Líbano, mas a admiração foi vencida pela vertigem – no chão do automóvel, vi meus pés apertando um freio imaginário.
Mahmoud parou antes do final da estrada e, ao sairmos do carro, nos deparamos com um frio inesperado.
Um homem baixo, vestindo uma túnica cinza e as tradicionais calças curtas e pretas, saiu da última casa e veio ao nosso encontro.
– Esse é Khattar – apresentou Stevenson.
Majd disse algumas palavras, o homem concordou sorrindo e nos levou até sua casa de pedra, um pouco mais adiante.
Lá dentro, numa sala de estar escura, alinhavam-se sofás e cadeiras desgastadas pelo uso, onde estavam sentados, em cantos opostos, os dois irmãos, agora adultos.
Perto da porta, Mazeed nos olhava sem muito interesse.
Tali, sentado próximo à parede direita, nos observava através dos olhos semi-abertos, esboçando o que parecia ser um estranho sorriso.
Os irmãos usavam calças jeans, camisa desportiva e botas de trabalho.
Ambos traziam telefones celulares presos à cintura.
Nenhum dos dois se levantou.
Stevenson não pareceu notar a frieza da acolhida.
Sentado no sofá encostado à parede, ele abriu sua maleta.
Majd sentou-se ao seu lado, mais perto de Tali.
Após um minuto, ela se dirigiu a Stevenson:
– Ele disse que se lembra da sua visita, quando era criança.
Você lhe deu um canivete suíço.
Mas diz que você prometeu lhe enviar um livro e não o fez.
Tali recomeçou a falar.
Em sua conversa, identificamos claramente as palavras “New Jersey”.
Majd curvou-se e traduziu em voz baixa:
– Ele diz que não é mais Tali.
Mudou o nome para o de sua vida passada.
E não é só. Ele não parece muito disposto a cooperar.
As pessoas aqui têm ressentimentos contra os norte-americanos.
Um de seus irmãos foi morto no bombardeio lançado pelo New Jersey.
– Nós estamos aqui para conversar sobretudo com Mazeed – disse Stevenson.
Da cadeira onde estava sentado, apoiando-se num cotovelo, Mazeed falou pela primeira vez.
Majd respondeu e isso se repetiu várias vezes, numa conversa calma, porém intensa.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:34 pm

– Estamos discutindo a religião drusa – disse ela, finalmente.
Mazeed perguntou:
– Nós conhecemos a reencarnação e acreditamos nela.
Então, por que precisamos prová-la?
A mãe, usando um mandeel enrolado da maneira mais antiga, logo abaixo do nariz, entrou na sala com uma bandeja de café.
Aceitei uma xícara, na esperança de que aquela demonstração de hospitalidade contrabalançasse o ressentimento que vi guardado no coração dos dois irmãos.
Majd continuou a conversar com eles, sem consultas ou tradução, tentando demovê-los daquele comportamento ríspido, tendo a sabedoria de envolver Stevenson e eu o menos possível.
– Mazeed tem um negócio, uma agência de empregos disse ela, afinal.
– Basicamente, isso significa trazer empregadas do Sri Lanka e encontrar emprego para elas.
Ele diz que também é corrector de seguros.
– Pergunte se ele gosta de seu trabalho – disse Stevenson.
Majd traduziu a pergunta.
– Se não gostasse, não estaria fazendo isso – foi a resposta.
O tom dispensava tradução.
Stevenson remexia em seus arquivos sem muita pressa.
Ele prosseguiu, aos poucos, com a entrevista.
Mazeed ainda se lembrava de sua vida passada?
– Só um pouco.
Ele deu de ombros.
– A guerra nos fez esquecer.
Khattar apareceu na minha frente com uma bandeja de doces, insistindo para que eu aceitasse um.
Depois de hesitar, peguei um.
Ele falou algo para Majd.
– O pai diz que Mazeed parou de falar sobre sua vida passada aos vinte anos.
– Vamos saber como está a saúde dele – disse Stevenson.
Mazeed olhou para cima.
– Fui ferido durante a guerra.
Estilhaços de bombas lançadas pelo New Jersey.
Dirigiu um olhar de provocação para Stevenson e para mim e levantou a mão, exibindo uma cicatriz irregular que seguia até o pulso.
– Fiquei um mês e meio no hospital.
Deixou a mão cair ao lado do corpo.
– Nosso irmão foi morto na vila.
O New Jersey.
No mesmo instante, a mãe apareceu com uma fotografia do irmão morto, um jovem magro que sorria para a câmara.
Um telefone celular tocou com espalhafato.
Tali o tirou do bolso e atendeu.
– A maioria das casas nessa área foi destruída e depois reconstruída – disse ela.
Khattar me levou para o lado de fora e apontou para uma seção de pedras novas que formavam a parte sul da casa.
Juntou as mãos e, então, separou-as repentinamente, imitando o som de uma explosão.
Seus olhos castanhos estavam lacrimejantes, mas não demonstravam amargor.
Quando voltamos, Mazeed continuava a falar – um bom sinal, pensei.
Disse que estava noivo de uma moça em Kfarsalwan, a cidade onde havia morado em sua outra vida.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:35 pm

Ainda se encontrava com sua família anterior.
Havia interrompido as visitas, mas recomeçou a fazê-las há dois anos, quando ficou noivo.
A moça era uma conhecida da família passada.
– Qual vida você prefere? – perguntou Stevenson, lendo o questionário.
– Para mim tanto faz – disse Mazeed.
A vida é dura.
Do outro lado da sala, Tali provocou:
– Somos do terceiro mundo – disse, demonstrando revolta.
Majd traduziu e acrescentou:
– Tali me disse antes que está sem trabalho.
Às vezes, dirige um táxi.
Ele fez alguns cursos de nível universitário na área de negócios, mas não consegue emprego.
Tali inclinou o corpo para a frente e disse algo, de maneira vigorosa.
A resposta de Majd foi longa.
O rapaz balançou a cabeça.
Majd disse mais alguma coisa e Tali a interrompeu.
Majd virou-se para Stevenson:
– Ele disse que não quer aparecer no livro.
Stevenson ajeitou-se no sofá, levantou as sobrancelhas e afirmou:
– Já está lá.
Majd traduziu para Tali, que se levantou e deu um passo na direcção de Stevenson, levantando a voz, quase gritando.
– Ele disse que, se está no livro, exige uma compensação – explicou ela.
– Algum dinheiro ou ajuda para conseguir um emprego.
A sala se tornava cada vez mais fria e a luz, cada vez mais fraca.
Eu não estava gostando muito do rumo que as coisas estavam tomando.
Khattar disse algumas palavras ríspidas para Tali, que respondeu da mesma maneira.
Majd também recomeçou a discutir com ele.
Aproximei-me de Stevenson e falei em voz baixa, mas com convicção:
– Acredito que esse é o momento exacto de sairmos daqui o mais rápido possível.
Tali havia dado mais um passo na direcção de Stevenson e estava quase aos gritos.
Majd falava baixo.
– Já que ele dirige um táxi, talvez pudesse transportar Haraldsson – sugeriu ela, mantendo os olhos em Tali.
Stevenson hesitou.
Cada célula do meu corpo implorava para que ele fizesse aquela oferta.
Ele se ajeitou novamente no sofá.
– Talvez Erlendur nem venha ao Líbano – disse ele, finalmente.
Mas acho que não faria mal se ele nos deixasse um cartão.
Majd traduziu o pedido.
Tali permaneceu imóvel.
Ela pegou uma caneta, Tali hesitou, mas, finalmente, pegou a caneta e escreveu um número numa página das anotações de Majd.
Depois, sem dizer uma única palavra, virou-se e foi ao encontro do frio e da escuridão, do lado de fora da casa.
Algo me dizia que ele ia voltar.
Não gostaria de estar lá quando o fizesse.
O Mercedes subiu as montanhas em meio ao silêncio.
Nossa visita tinha durado pouco mais de duas horas, mas parecia um século.
– Khattar e a mulher estavam muito zangados com Tali – disse Majd.
Houve muitas discussões entre eles que eu não traduzi.
Ele se comportou muito mal. Pode ser.
Mas fiquei pesaroso por termos imposto a nossa presença.
E mais pesaroso ainda por causa do New Jersey.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:35 pm

10 - PARA DETER UM TREM

No dia seguinte, o último de viagens e entrevistas, Tali e Mazeed permaneciam em nossas mentes.
Stevenson estava pensando na pergunta de Mazeed:
por que, sendo druso e crente, deveria ele preocupar-se em comprovar a reencarnação para os que não acreditam?
– É esse o paradoxo – disse Stevenson.
No Ocidente, as pessoas dizem:
“Por que você está gastando dinheiro para estudar a reencarnação quando sabemos que ela é impossível?”
E no Oriente questionam:
“Por que está gastando dinheiro no estudo da reencarnação quando sabemos que ela é um facto?”
Eu estava pensando em algo diferente:
desde a nossa chegada ao Líbano, para onde quer que fôssemos, nós nos deparávamos com casos de reencarnação.
Desde o primeiro dia, quando Ulfat aparecera com suas memórias de ter sido esfaqueada por cristãos, até a noite passada, quando tínhamos ido entrevistar dois irmãos que se lembravam de outras vidas.
A minha sensação era de que, apesar de alguns casos individuais serem extremamente convincentes, havia uma proliferação desenfreada de casos difíceis de aceitar.
Despedi-me de Stevenson no aeroporto Charles de Gaulle.
Ele voaria directo para os Estados Unidos e eu, para Londres, onde passaria a noite antes de ir para casa.
No trem que saía do aeroporto de Heathrow em direcção à cidade, observei os bairros mais modestos passarem pela janela, fileiras e mais fileiras de casas de tijolos com pequenas sacadas e telhados pontudos.
À última luz do dia, logo antes de o trem avançar pela cidade propriamente dita, passamos por um cemitério deserto ao fim de um dia cinzento, repleto de pedras e flores.
Uma figura solitária, um homem num casaco marrom, estava em pé ao lado de um túmulo novo, a terra revolvida a seus pés, flores ainda frescas sobre a pedra fria, outras mais em suas mãos.
Observei-o pela janela, de costas, de perfil, até ver sua expressão devastada, olhando fixamente para a cicatriz rasgada no chão de terra.
Em seu rosto, marcas desenhadas por uma dor profunda, de uma intensidade capaz de envolver um estranho que ia se afastando cada vez mais.
Mas sem o poder de trazer de volta o que ele havia perdido.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:35 pm

11 - A ÚLTIMA RESPOSTA FÁCIL

À medida que a costa ia deslizando sob o ofuscante prateado da asa do avião, senti como se estivesse acordando aos poucos de um sonho.
A dez mil e quinhentos metros de altura e um oceano e meio de distância, o Líbano estava reduzido à pasta preta e maltratada que descansava junto aos meus pés.
Essa pasta nunca saiu do meu lado.
Dentro dela, cinco cadernos de anotações que eu havia completado, da primeira à última página, com simples descrições de nossos encontros, o ir e vir de perguntas ao mesmo tempo corriqueiras e extraordinárias.
Eu havia relatado tudo minuciosamente, reflectindo sobre cada detalhe, procurando observar os acontecimentos sob vários ângulos.
Mas eu não os tinha realmente visto.
Estava perto demais, envolvido demais.
Agora, pela primeira vez, podia perceber os factos em sua totalidade.
O que tinha visto e ouvido nas três últimas semanas fora algum tipo de gigantesca ilusão – ou algo muitíssimo maior.
Eu ainda não sabia em que acreditar e também não entendia por que não conseguia chegar a uma conclusão final.
Seriam as provas ainda insuficientes?
Ou estaria eu relutando em enfrentar as conclusões?
Na mesma pasta estavam inúmeras pesquisas que planejara examinar no Líbano.
Iniciei a leitura de uma enfadonha discussão, com inúmeras notas de pé de página, entre cépticos e defensores da pesquisa e das conclusões de Stevenson.
A maioria dos argumentos usados pelos cépticos podia resumir-se ao seguinte:
as crianças estavam fantasiando, eram os pais que forneciam as informações para que as crianças as repetissem, a necessidade psicocultural de acreditar na reencarnação criara os casos, numa conspiração inconsciente entre pais e filhos, vizinhos e desconhecidos.
Para comprovar seus pontos de vista, os cépticos mencionavam tudo aquilo sobre o que eu já havia reflectido bastante: as inconsistências que apareciam até mesmo nos casos mais convincentes, a possibilidade de ligações entre as famílias passadas e presentes, as várias motivações que levavam ao desejo de ser visto como alguém que renasceu.
Quando terminei a leitura, tive certeza de que nada daquilo conseguiria explicar os acontecimentos que eu havia testemunhado no Líbano.
Mas um dos cépticos, E. B. Brody, usava um argumento diferente:
“O problema”, escreveu, “não está na qualidade dos dados apresentados por Stevenson para provar sua teoria, mas no corpo de conhecimentos e teorias que devem ser abandonados, ou radicalmente modificados, se quisermos aceitá-la.”
Em outras palavras, afirmativas extraordinárias exigem provas extraordinárias.
Do ponto de vista de muitos cientistas ocidentais, a ideia de uma criança incorporar pelo menos uma parte de uma personalidade já morta é, sem dúvida, uma afirmativa extraordinária.
Mas quem poderia dizer que as provas colhidas por Stevenson durante trinta anos também não o fossem?
Mas seriam elas extraordinárias o bastante?
Era essa talvez a pergunta que vinha me atormentando.
Outros autores que desafiavam Stevenson não tinham problemas em relação aos seus dados e nem em considerá-los suficientes para sustentar uma afirmativa extraordinária.
Sua argumentação era quanto à própria afirmativa.
Preferiam dizer que os casos seriam melhor explicados através do facto de uma criança ser especialmente sugestionável, combinada com a percepção extra-sensorial – a habilidade de receber telepaticamente detalhes sobre a vida de uma pessoa morta. Os argumentos referentes à percepção extra-sensorial não se sustentavam:
as crianças não diziam “a personalidade anterior tinha três vacas”, como seria de se esperar de alguém que estivesse recebendo, por telepatia, informações sobre um desconhecido.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:35 pm

Diziam “eu tinha três vacas” e agiam como se acreditassem ser aquela outra pessoa.
Além disso, dificilmente elas exibiam qualquer outro sinal de habilidade psíquica, o que levantava a seguinte questão:
por que uma criança demonstraria habilidade psíquica tão intensa somente em relação a um determinado indivíduo morto?
No fundo da pilha de papéis eu havia agrupado uma outra categoria:
investigações de casos – “estudos de réplica”, como eram chamados – feitas por três cientistas independentes, a convite de Stevenson.
Essa conclusão de uma antropóloga, Antónia Mills, que estudara dez casos na Índia em 1987, era um exemplo típico:
Antes de realizar essa pesquisa, eu estava preparada para concluir que alguns ou, talvez, todos os casos que eu investigaria seriam logros praticados por uma série de razões, como o desejo de uma criança e/ou de sua família de se identificar com uma casta superior.
As investigações não confirmaram essas suposições...
Meus estudos indicam que um pesquisador independente, usando os métodos de investigação de Stevenson, encontrará resultados similares.
Há aspectos de alguns casos que não podem ser explicados através dos meios normais.
Não encontrei nenhuma evidência de que os casos que estudei fossem fruto de fraude ou fantasia...
Assim como Stevenson, concluí que, embora não ofereçam provas incontroversas da reencarnação ou de qualquer processo paranormal ligado a esse fenómeno, os casos por mim estudados fazem parte de um corpo crescente para os quais as explicações normais não parecem ser suficientes.
Um forte endosso.
Antónia Mills, entretanto, fazia parte daquele grupo de pesquisadores acusados pelos cépticos de não serem de facto independentes e de trabalharem para Stevenson.
Isso era de certa forma verdadeiro.
Tais pessoas não trabalhavam para Stevenson, mas recebiam dele alguma ajuda financeira.
Além disso, mantinham um relacionamento pessoal com ele.
Um dos pesquisadores, um psicólogo australiano chamado Jünger Keil, referiu-se directamente ao problema:
Minha consideração por Ian Stevenson pode ser melhor resumida por expressões como admiração profissional e amizade pessoal.
Alguns leitores talvez questionem se essa é uma boa base para um estudo independente.
Entretanto, meu grande apreço por Stevenson não me deixa dúvidas de que ele é capaz de acolher bem quaisquer resultados em seu campo de interesse que sejam baseados em pesquisa sólida, quer favoreçam ou não o seu ponto de vista.
Apesar desse tom sincero, pude entender os motivos que levariam uma pessoa a rejeitar essa certeza.
Por outro lado, não precisava me preocupar com a imparcialidade de Keil ou com a falta dela: eu tinha visto os casos com meus próprios olhos.
Alguns dias depois, ainda estava tentando digerir tudo aquilo quando recebi uma mensagem electrónica de Stevenson:
ele havia marcado a data de sua viagem à Índia, certamente a última vez que iria até lá, e queria saber se eu pretendia acompanhá-lo.
Em muitas ocasiões, e de muitas maneiras, ele já havia dito que as pesquisas na Ásia eram mais penosas, mais perigosas e, geralmente, exigiam mais do que as feitas no Líbano.
Isso me fez hesitar, assim como o tempo e o dinheiro que precisaria investir, mas não cheguei a pensar seriamente numa recusa.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:35 pm

Um dos argumentos mais convincentes contra a aceitação dos casos de Stevenson como prova da reencarnação era a ideia de que eles não passavam de fantasias colectivas, reforçadas pela própria comunidade que as criava e, assim sendo, não poderiam provar nada além da vontade que essa sociedade tinha de acreditar.
Eu havia pensado nisso no Líbano e agora colocava essa questão no contexto da Índia.
Não conhecia quase nada a respeito da cultua indiana tradicional e da crença hindu na reencarnação.
Entretanto, sabia que eram tão diferentes das crenças e da cultura drusa quanto estas das crenças predominantes em Miami Beach.
E também sabia que, se o fenómeno de crianças que se lembram de outras vidas fosse uma criação cultural, as semelhanças entre os casos do Líbano e da Índia seriam apenas superficiais.
E se ao fossem?
E se os casos tivessem as mesmas características daquelas que tínhamos visto em Beirute?
Se fosse assim, eu saberia algo mais:
teríamos que descartar todas as respostas fáceis.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:36 pm

TERCEIRA PARTE
Índia - Crianças da miséria

12 - O LEITERO


À meia-noite, quando pousamos em Deli, um irritante e intenso cheiro de fumaça invadiu a cabine do avião.
Senti um grande alívio ao notar que ela não estava em chamas, mas estranhei quando o cheiro nos seguiu por todo o feioso terminal.
Mergulhamos na noite e descobrimos que o aeroporto inteiro estava envolto numa nuvem de fumaça semelhante a um nevoeiro.
Quando Stevenson e eu saímos, um homem apoderou-se de nosso carrinho de bagagens e, sem dizer uma única palavra, empurrou-o até um local escuro, a uns cem metros de distância, e começou a colocar as malas numa pequena camionete.
Rezei para que fosse um motorista de táxi e não um ladrão.
A saída do automóvel estava bloqueada.
Furioso, ele gesticulou para que eu o ajudasse a empurrar os dois veículos que o enclausuravam.
Logo nos vimos na rua principal de Deli.
Passava de uma da manhã e o lugar estava quase deserto.
A fumaça pairava em frente aos faróis.
Fiquei aguardando o momento de emergir daquela nuvem, mas ela se tornava cada vez mais densa, a ponto de dificultar a respiração.
– De noite é muito pior – disse Stevenson.
- Quer dizer que toda noite é assim? – perguntei.
– Isso vem de todas essas fogueiras de dejectos – explicou, olhando calmamente para a escuridão, aparentemente despreocupado, apesar de seus problemas respiratórios crónicos.
– Talvez hoje esteja um pouco pior do que de costume.
A Índia, assustadora para a maioria dos visitantes ocidentais, era velha conhecida de Stevenson.
Ali ele empreendera sua primeira pesquisa de campo.
Agora, trinta e sete anos mais tarde, essa era provavelmente a última delas.
Nosso hotel era um edifício escuro e mal cuidado, com acomodações extremamente precárias.
Tive um sono irrequieto e acordei com o grasnar estridente de um corvo pousado no beiral da janela.
Um ténue cheiro de fumaça permanecia no ar.
Passamos a manhã esperando pela Dra. Satwant Pasricha, a psicóloga indiana que auxiliara Stevenson em muitas de suas viagens à Índia e que vinha aplicando os métodos dele na realização de pesquisas.
Às onze e cinquenta da manhã, ela apareceu no saguão do hotel – uma mulher baixa, vestindo um sári roxo, com duas sacolas grandes penduradas no ombro direito, um colar de pérolas no pescoço e a marca vermelha de sua casta logo acima do nariz.
Assim que terminamos de nos instalar, fomos almoçar juntos.
Satwant folheou algumas anotações onde havia delineado um possível itinerário dos casos.
Suas maneiras eram gentis e seu sorriso, franco.
Era interessante ver a imagem em carne e osso da Dra. Satwant Pasricha, que aparecia com destaque nas páginas de agradecimento dos livros de Stevenson e que fora responsável por algumas críticas feitas ao trabalho dele.
Satwant era sique, uma das religiões da Índia fundada há mais de quatrocentos anos, que combina elementos do hinduísmo e do islã, numa tentativa de amalgamar as duas doutrinas dominantes do país.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 20, 2016 2:36 pm

Um dos elementos que os siques adoptaram do hinduísmo é a crença de que as almas renascem de acordo com as acções praticadas na vida anterior.
Os honrados eram bem-nascidos e os perversos retornavam para uma vida de sofrimentos – ou até mesmo como animais.
Por causa disso, muitos cépticos se recusaram a levar a sério o trabalho de Satwant.
Eu não me deixei impressionar por essa crítica.
Se Satwant não pode ser considerada apta a estudar esses casos por crer na reencarnação, o mesmo deve acontecer com qualquer pessoa que veja na morte o fim de tudo.
Quando conversamos a esse respeito, Satwant me disse:
– Seja qual for a nossa crença ou nacionalidade, somos cientistas.
Além disso, o que estou observando nesses casos é completamente diferente da maneira com que os hindus vêem a reencarnação.
De facto, Satwant me contou que quando um colega lhe disse que Stevenson estava procurando um psicólogo indiano interessado em conduzir aquele tipo de pesquisa, ela expressou um forte cepticismo.
– Não pensava que casos assim existissem – acrescentou.
– Quando disse isso a ele, Stevenson me falou:
“Espere para ver.”
Então, concordei em examinar um caso.
Primeiro fomos até a vila da personalidade anterior e o irmão nos levou a uma outra vila, onde morava o sujeito da pesquisa: uma menina.
Tivemos que fazer um longo percurso a pé, pelos campos.
Quando finalmente chegamos, a criança se jogou nos braços do irmão e ficou abraçada a ele.
Foi muito comovente.
Ela se lembrava da vida de uma menina que saiu para buscar água, caiu no poço e morreu.
Ao falar das lembranças daquele momento, pude ver que ela estava revivendo todo o terror por que passara.
Não se pode quantificar algo assim, mas foram experiências como essa que me fizeram acreditar que tais histórias poderiam ser reais.
O almoço foi se estendendo devagar e eu já planeava uma sesta prolongada quando ouvi Stevenson dizer:
– Estamos pensando em ver o caso sobre o qual Satwant leu no jornal.
Não é longe daqui.
Dez minutos mais tarde, estávamos num automóvel alugado, mergulhando no caos urbano.
Por toda parte, pessoas, animais, carros, bicicletas e lixo coexistiam numa atordoante profusão, como se inúmeras gerações lutassem para acontecer ao mesmo tempo.
Bois e búfalos, castigados por cangas de madeira, puxavam carroças que balançavam sobre rodas em desalinho.
Mulas e cavalos resfolegavam sob imensas cargas.
Riquixás de dois lugares, puxados por bicicletas, oscilavam com o peso de famílias inteiras.
Pessoas perambulavam por entre imensos depósitos de lixo e choupanas em ruínas, feitas de tijolos sem argamassa, forradas de plástico.
Um fétido canal os separava de jardins lindamente cuidados, repletos de flores e verduras. Homens acocoravam-se atrás das plantas mais altas para defecar – uma necessidade num país onde 700 milhões, entre quase um bilhão de pessoas, não têm acesso à rede de esgotos.
De repente, imensos flancos de cor parda arrastaram-se pela minha janela, tão próximos que poderia tocá-los com a mão.
Espichei o pescoço e dei de cara com as mandíbulas salpicadas de espuma de um camelo, preso por arreios a uma carroça.
À medida que avançávamos em direcção ao norte, as aglomerações deram lugar a campos verdes, repletos de ervilhas e trigo.
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Ave sem Ninho

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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:33 am

De um lado da estrada, trabalhadores – homens, mulheres e crianças – agachavam-se para colher ervilhas.
Do outro lado, de pé, homens urinavam.
Mais adiante, um tractor abarrotado de cana-de-açúcar havia caído numa vala, espalhando a carga pelo chão.
Algumas mulheres, equilibrando potes de barro e de latão na cabeça, surgiram á nossa frente.
Caminhavam em direcção a uma vila formada por casebres e tijolos.
À medida que nos aproximávamos, a estrada de pedras ia se transformando em lama.
O motorista diminuiu a marcha.
O carro trepidou de forma ameaçadora.
– Não será a primeira vez que eu teria que sair e empurrar – observou Stevenson, sem nos trazer maior tranquilidade.
A família que queríamos entrevistar morava na parte mais alta, no final de uma ruela suja e estreita.
A casa era uma estrutura de tijolos com dois cómodos.
Ficava situada no canto mais afastado de um pátio imundo, em frente a um poço do qual se retirava água manualmente.
Três búfalos negros, acorrentados a uma estaca, espantavam as moscas que os rodeavam.
O sujeito do caso, uma menina de sete anos chamada Preeti, pequena para a idade, de rosto redondo, cabelos curtos e pretos cortados como um menino, estava em pé, timidamente, num canto.
Usava uma blusa de algodão grosso com o desenho de dois jogadores de futebol americano e os dizeres:
THE BEST OF THE WEST.
Os pais trouxeram dois bancos de madeira para o pátio e começamos a entrevista.
O pai, Tek Ram, trabalhava na companhia telefónica em Nova Deli.
Ele nos contou que, tão logo aprendera a falar com clareza, Preeti tinha afirmado para o irmão e a irmã:
– Essa casa é sua, não é minha.
Esses são os seus pais, não os meus.
A menina dissera para a irmã:
– Você só tem um irmão, eu tenho quatro.
Contou que não se chamava Preeti, mas Sheila.
E deu os nomes de seus “verdadeiros” pais.
Implorou para ser levada para “casa”, na cidade de Loa-Majra, distante cerca de dezoito quilómetros dali.
Naquele fim de mundo, tão distante geográfica e culturalmente de qualquer outro lugar onde eu já estivera, estávamos recomeçando exactamente de onde havíamos parado em Beirute.
Entretanto, a história ali tomou um caminho curioso.
Os pais de Preeti nunca haviam estado em Loa-Majra e não conheciam ninguém lá.
Por isso, não investigaram a história da filha.
Disseram-lhe que parasse de falar bobagens e ignoraram seus apelos.
O desinteresse inicial da família tornava o caso mais consistente.
Se isso fosse verdade, ninguém poderia dizer que os pais direccionaram a criança ou lhe passaram informações que serviriam de base para suas afirmativas.
A mãe de Preeti trouxe uma bandeja com chá quente, amêndoas salgadas e doces feitos de açúcar e leite.
Isso nos colocou num dilema para o qual já me haviam alertado:
se recusasse, ofenderia meus anfitriões, mas se bebesse ou ingerisse comida preparada na área rural da Índia, correria o risco de contrair alguma doença grave.
Stevenson havia me aconselhado a comer e beber minúsculas quantidades, torcendo para nada acontecer.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:33 am

Foi o que fiz, com certa apreensão, enquanto o pai prosseguia com a história:
– Quando Preeti tinha quatro anos, disse ao leiteiro:
“Essas pessoas não querem me levar para a minha vila.
Você me levaria até lá?”
“Existem leiteiros por aqui?”, pensei.
Mas logo percebi que ele não estava se referindo ao homem da loja de lacticínios que deixa garrafas de leite na porta dos fundos.
O leiteiro, ali, era um vizinho, um operário, que ordenhava a búfala da família em troca de leite.
O leiteiro repetiu a história da menina para uma mulher que havia nascido em LoaMajra, perguntando se ela ouvira falar de um sujeito chamado Karna, cuja esposa se chamava Argoori, que havia perdido uma filha chamada Sheila?
A mulher respondeu que conhecia um homem chamado Karan Singh, apelidado de Karna, cuja filha adolescente fora atropelada e morta por um automóvel quando atravessava a rua.
O nome da esposa de Karna era Algoori.
A notícia chegou até a família em Loa-Majra e alguns homens, entre eles o pai da menina morta, foram visitar Preeti.
Segundo Tek Ram, ela reconheceu o pai e, mais tarde, quando foi com ele até a vila, reconheceu também outras pessoas.
Stevenson e eu havíamos conversado a respeito desses reconhecimentos que apareciam com tanta frequência nos melhores casos estudados.
Pelo menos aparentemente eles constituíam as evidências mais fortes para a comprovação da veracidade das afirmações sobre vidas passadas.
Mas quase sempre eram também problemáticos.
Nas comunidades rurais, os encontros entre as crianças e as famílias às quais elas afirmavam ter pertencido anteriormente costumavam acontecer diante de grande número de espectadores.
Estes poderiam sugerir algo ou simplesmente dirigir o olhar para a pessoa em questão, orientando a criança para que fizesse a escolha certa.
Tentamos obter detalhes sobre como exactamente a família anterior tinha sido reconhecida.
Preeti vira o homem se aproximar?
Tek Ram afirmou que não.
Quando os homens de Loa-Majra chegaram, a menina estava na escola com a irmã.
Elas voltaram para casa e os encontraram ali, à espera de Preeti.
Pedimos para falar com a irmã de onze anos, que tinha nove quando o encontro apareceu.
Como a mãe, ela estava enrolada num xale verde.
Sentou-se no banco ao lado de Satwant e respondeu nossas perguntas em voz baixa.
– Quando nos aproximamos da casa, vimos um grupo de pessoas – lembrou-se ela.
Preeti inclinou-se na minha direcção e disse:
“Meu pai está aqui.”
Mais tarde, segundo Tek Ram, quando lhe perguntaram quem era seu pai, ele foi para perto de Karna Singh e o abraçou.
Desde então, Preeti costuma visitar a família em ocasiões especiais.
O pai disse ainda que antes das visitas ela era solitária, não brincava com outras crianças.
– Depois de estar com eles quatro ou cinco vezes, ela ficou muito mais relaxada.
Parou de se sentir infeliz todo o tempo – explicou.
- Alguma vez ela se referiu à forma como morreu na vida anterior? – indagou Stevenson.
– Tudo o que ela disse foi:
“Caí do alto e morri” – explicou a mãe.
– Uma vez perguntei:
“Como você veio parar aqui?”
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:33 am

Ela respondeu:
“Estava sentada à beira do rio.
Estava chorando.
Não conseguia achar uma mamãe, então vim para você.”
Antes de sairmos, o pai trouxe uma série de recortes de artigos publicados em jornais indianos referentes ao caso de Preeti.
Com orgulho, ele me mostrou um texto britânico com a dedicatória de um professor de filosofia que viera para conversar sobre Preeti.
Na capa, uma citação de Sócrates:
“A vida não perscrutada não vale a pena.”
Enquanto caminhávamos pela estreita viela, de volta para o carro, o motorista aproximou-se furtivamente de mim e disse:
– O senhor deve dar a elas alguma coisa.
Algum dinheiro.
Transmiti o comentário a Stevenson.
– Nunca fazemos isso – explicou ele ao motorista.
Contaminaria a informação.
Longe dos ouvidos do rapaz, Satwant observou:
– Ele pode ter dito alguma coisa para a família, prometido conseguir dinheiro.
Acho melhor falar com eles.
Ela voltou para perto de Tek Ram e falou com ele em voz baixa.
Ao retornar, explicou:
– Ele disse que não estava esperando por dinheiro.
Trabalha numa agência do governo e tem um bom salário.
Acho que ficou constrangido porque o motorista tocou no assunto.
O céu estava claro, mas o sol já começava a se esconder.
Apesar do esgoto aberto aos nossos pés, a noite tinha o cheiro doce do trigo verde.
Enquanto nos afastávamos da vila, mulheres em longos vestidos de seda coloridos e cabeças cobertas por xales amontoavam-se ao redor do poço para encher seus cântaros.
Aquela única entrevista havia tomado quase todo o dia e ainda tínhamos duas horas de viagem de volta a Deli.
Pensei nos arquivos de Stevenson, mais de 2,500 casos de todas as partes do mundo, cada um deles envolvendo inúmeras entrevistas.
Quando estava folheando as páginas dactilografadas e as anotações escritas à mão, não dei o devido valor ao trabalho e à pura energia física que elas representavam.
À medida que a luz se desvanecia, o automóvel seguia em frente, balançando pela estrada estreita e esburacada, cheia de ônibus e caminhões vindos em sentido contrário.
Fiquei pensando que era interessante notar que, apesar da forma violenta com que se dera a morte de Sheila, Preeti não tinha muito a dizer sobre o assunto.
E que, apesar da atenção despertada pelo caso, demonstrada pelos recortes de jornais cuidadosamente preservados, os pais da menina resistiram à tentação de contar que ela afirmara ter sido atingida por um automóvel e nem procuraram se convencer de terem ouvido tal afirmação.
“Caí do alto e morri” não tinha nada a ver com um atropelamento.
A não ser que...
– Se falarmos com a família de Sheila – disse eu –, devemos perguntar se alguém testemunhou o acidente.
Uma vez vi um pedestre ser atingido por um carro.
Ele voou mais de quatro metros, o que, na minha opinião, poderia justificar a menina dizer que caiu do alto.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:34 am

O itinerário de Satwant acabou fazendo com que percorrêssemos todo o Norte da Índia antes de nos dar uma chance de voltar ao assunto do leiteiro.
Seguindo o sinuoso percurso, atravessamos centenas de quilómetros.
Fizemos inúmeras paradas rápidas em Deli, onde ficávamos o tempo suficiente para pegar um outro avião ou trem.
Numa dessas paradas, fomos a Loa-Majra.
No caminho, Satwant mostrou-nos uma descrição do acidente num relatório sobre o caso de Preeti, publicado numa revista indiana chamada Manohar Kahaniyan.
Li a tradução:
Sheila, quinze anos, havia saído com outras mulheres para apanhar capim.
Ela esqueceu a foice e correu de volta para buscá-la, atravessando a estrada.
Li o que aconteceu depois e fiquei surpreso, compreendendo plenamente o sentido da expressão “não acreditar nos próprios olhos”.
Reli a próxima frase bem devagar:
o automóvel atingira Sheila, jogando-a mais de três metros para o alto.
Primeiro fiquei perplexo, depois, desconfiado:
talvez o autor, como eu, tivesse feito especulações e resolvido criar esse detalhe para tornar o relato mais convincente.
Mas o artigo não fazia nenhuma menção ao enigmático comentário de Preeti sobre “cair do alto”.
Não precisa haver nenhum motivo óbvio para se inventar o tal detalhe.
A vila de Loa-Majra era maior do que o lugar onde Preeti morava.
Paramos para pedir informações a um grupo de homens que conversava em frente a uma loja.
Um deles, por coincidência, era irmão de Sheila.
Ele entrou no carro e nos conduziu pela vila, levando-nos até uma estrada de terra, onde ficamos atolados na lama.
Alguns metros adiante se encontrava a entrada do conjunto de casas onde a família morava:
meia dúzia de construções de tijolos ao redor de um pátio de terra batida.
Ficou claro que, embora pertencessem à mesma casta de Preeti, a família de Sheila tinha mais recursos.
Karan Singh possuía uma alfaiataria e era também agricultor.
A notícia de nossa presença logo se espalhou.
Em minutos, uma pequena multidão de vizinhos materializou-se no pátio para observar os acontecimentos.
Enquanto conversávamos, um rapaz lavava roupas na bomba-d’água.
Sob o sol da tarde, o pai de Sheila sentou-se junto a nós.
Seus cabelos eram negros, mas havia fios de barba branca em seu rosto, contrastando com a pele morena.
Calculei que tivesse um metro e setenta e cinco centímetros de altura, o que era importante, pois uma das afirmações de Preeti a Tek Ram era:
“Meu pai é mais alto do que você.”
Entretanto, quando visitamos Preeti, esquecemos de medir Tek Ram ou de perguntar-lhe sua altura.
Stevenson e Satwant perceberam claramente que Karan era mais alto, mas eu só me lembrava de ter visto Tek Ram sentado e não pude ter certeza.
Uma das primeiras afirmações de Preeti aos pais fora:
“Minha casa é grande, a sua é pequena.”
Era inegável que a casa de Karan Singh era muito maior do que a da família de Preeti.
Karan confirmou o que os pais da menina tinham nos contado:
o leiteiro comentara a história de Preeti com uma mulher que ele sabia ter nascido em Loa-Majra.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:34 am

Durante ma visita à sua vila natal, a mulher avistara a esposa de Karan e repetira para ela as afirmações da criança.
No dia seguinte, Karan Singh, um de seus filhos e quatro ou cinco homens da cidade foram ver a menina.
– Estávamos curiosos para verificar se ela estava falando a verdade – explicou.
Pedimos que nos contasse exactamente o que tinha acontecido na ocasião.
Ele nos disse que a mulher que havia contado a história ou levou à casa de Preeti.
A menina, a mãe, o pai, o irmão e a irmã estavam lá, além de um vizinho.
Mas a notícia se espalhou e uma multidão se reuniu no local.
– Queríamos testar a menina e por isso ninguém lhe disse qual de nós era o pai de Sheila, mas Preeti ficava olhando para mim.
Depois de certo tempo, ela recomeçou a brincar.
Então, sua mãe perguntou:
“Você sempre diz que se lembra de seu pai verdadeiro.
Qual deles é seu pai?”
Ela apontou para mim, dizendo:
“Esse é meu pai.”
Um dos vizinhos quis saber:
“Como seu pai se chama?”
Ela disse o meu nome, o de minha mulher e o de nossa vila.
Então, alguém falou:
“Não aponte para o seu pai assim, de longe.
Venha para perto dele.”
Preeti atravessou a multidão e sentou-se no meu colo.
Ela agarrou com força o meu pescoço e não largou mais.
Depois, disse baixinho:
“Por favor, me leve para casa com você.”
Fiquei totalmente convencido.
Além de tudo, ela se parecia muito com minha filha – concluiu.
Stevenson quis saber se ele tinha algum retrato de Sheila.
Um de seus filhos trouxe a fotografia nas mãos.
Nela, uma dúzia de crianças, divididas em duas fileiras.
Karan indicou uma menina no meio da fila superior:
Sheila, aos dez ou onze anos.
Era uma garota incrivelmente bonita, num suéter azul de gola em V, olhando fixamente para a câmara.
Havia mesmo alguma semelhança física entre as duas meninas, embora a diferença de idade dificultasse a comparação.
Naturalmente, presumi que Karan se lembrasse da aparência da filha naquela idade.
Entretanto, muitos dos casos que eu tinha visto não apresentavam qualquer semelhança entre o sujeito e a personalidade passada.
De qualquer maneira, não vi no facto uma prova importante.
Mas talvez o pai estivesse se referindo a algo além da semelhança física, ou talvez fosse apenas o seu próprio desejo:
não era difícil imaginar a emoção que ele sentiu quando a menina pulou no seu colo e se agarrou ao seu pescoço, dizendo:
“Papai, me leve para casa.”
– Você questionou a menina?
Perguntou sobre algum detalhe? – indaguei.
– Havia tanta gente que não foi possível – respondeu ele.
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