Almas Antigas / Tom Schroeder

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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:34 am

– Ficamos até quase meia-noite e Preeti estava muito cansada.
Era sexta-feira.
Prometi que voltaria no domingo, mas ela apenas se agarrou a mim, dizendo:
“Você é meu pai.
Quero ir com você.”
Os pais de Preeti tentaram dissuadi-la, mas ela continuava abraçada a Karan.
Como a mulher que tinha nos levado lá era conhecida da família, eles decidiram deixar Preeti vir comigo.
Tomaram um “tempo” – um táxi de três rodas – para fazer o percurso entre a casa da menina e Loa-Majra.
Pararam no mesmo lugar onde descemos e caminhamos pela lama – cerca de cem metros do lugar onde morava a família.
– Preeti nos conduziu até a casa – contou Karan.
No caminho, ela viu um dos irmãos de Sheila saindo de uma loja.
Sem que lhe pedissem, ela apontou para ele e o chamou pelo nome.
Quando chegaram à casa da família, o lugar estava repleto de amigos e parentes.
Preeti reconheceu todos os irmãos e irmãs.
Perguntavam a ela onde estava alguma coisa e ela apontava.
Depois, Preeti olhou ao redor e perguntou:
“Onde está Munni?
Ela foi para a casa da família do marido?”
Munni era a irmã de quem Sheila era mais próxima.
Ela havia se casado antes da morte da menina e não estava lá quando Preeti apareceu para a visita.
– No dia seguinte, Munni veio ver Preeti, que chorou quando a viu – contou Karan.
Ele disse ainda que, nesse ponto, não tinha mais dúvidas de que Preeti era sua filha reencarnada.
Além disso, no acidente, Sheila havia se machucado na coxa e Preeti apresentava uma marca de nascença ali.
Quando esteve com a família, Stevenson examinou várias marcas na pele de Preeti.
Ele pediu a Karan que fosse mais específico sobre o ferimento na perna da filha.
– Eu mesmo não vi – disse ele.
Mas minha mulher viu.
A mãe de Sheila estava trabalhando no campo.
Mandaram buscá-la.
Ela apareceu pouco tempo depois e Stevenson lhe perguntou onde era a marca de Sheila.
A mãe apontou para a parte externa da coxa direita.
O marido discordou:
– Você disse que era aqui – e apontou para a parte interna da coxa.
A mãe fez uma careta.
Stevenson repetiu a pergunta e ela apontou para a parte interna da coxa direita.
Então, explicou:
– Não me lembro qual era a perna.
– O que a fez acreditar que Preeti era a sua filha renascida? – perguntou Stevenson à mãe.
– Quando ela chegou, eu estava junto com várias outras mulheres e alguém lhe perguntou quem era a sua mãe.
Ela apontou para mim.
Quando um de meus filhos mostrou o irmão mais novo de Sheila e perguntou a Preeti:
“Ele é mais novo ou mais velho do que você?”, ela respondeu:
“Ele era mais novo.
Agora é mais velho.”
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:34 am

No dia seguinte, ela estava brincando dentro de casa e outro de meus filhos disse:
“Ela se parece com a minha irmã.”
Preeti olhou para ele e respondeu:
“Você ainda não acredita que sou sua irmã?”
Meus instintos me dizem que ela é minha filha.
Uma vez, quando estava com Preeti na rua, ela teve medo e falou:
“Pare. Vou ser atropelada outra vez.”
Perguntei-lhe se ela havia presenciado o acidente.
Ela disse que não.
Somente um dos irmãos de Sheila, que estava trabalhando no campo, vira tudo acontecer.
– Ele ficou transtornado durante muito tempo – contou Algoori.
Duas semanas mais tarde, segundo ela, o menino sonhara que Preeti viera sentar-se perto dele.
Ele ficara assustado, pois sabia que não era bom sonhar com os mortos.
– No sonho, Sheila lhe dissera:
“Não tenha medo, eu vou voltar.”
Aguardamos algum tempo pela volta do irmão, para entrevistá-lo.
Após uns vinte minutos, tivemos que ir embora. Ainda queríamos encontrar o leiteiro, do qual sabíamos somente o nome e a vila onde morava.
Voltamos para o carro, acompanhados pelo pai de Sheila.
Tentei avaliar o nível de dificuldade enfrentado por Preeti para guiá-los até as casas.
Não havia muitas opções.
Ela precisaria apenas saber que deveria entrar na primeira rua, em vez de seguir recto, e depois escolher a entrada certa para o complexo de casas onde morava a família.
Obviamente, quando tivesse alcançado aquele ponto, ela teria ouvido as vozes das pessoas que se juntaram para vê-la.
Quando cruzamos a área enlameada, um menino que vestia um blusão azul e branco subiu a rua pedalando uma bicicleta com um enorme fardo de capim amarrado na traseira.
Ele parou e cumprimentou o pai.
Satwant conseguiu ouvir a conversa e depois nos alcançou no automóvel.
– Aquele é o irmão que presenciou o acidente – explicou.
Voltamos para falar com ele, à beira do lodaçal.
O rapaz era dois anos mais novo do que Sheila.
À época do acidente, devia ter doze ou treze anos.
Ele nos disse que Sheila não fora jogada para o alto.
O carro a atingira e a arrastara pela estrada.
Ela caíra de um lado do veículo e seus sapatos foram parar do outro lado.
O irmão descreveu o sonho com Preeti, mas havia uma importante diferença do relato feito pela mãe.
– Ela não disse:
“Eu vou voltar” – explicou.
– Ela se sentou no meu peito e eu estava apavorado.
Ela disse:
“Não tenha medo, você não vai mais ver o me rosto.”
De novo no automóvel, atravessamos uma área relativamente vazia no campo, seguindo por uma estreita faixa asfaltada, com fossos de irrigação em ambos os lados.
Nosso plano era chegar a uma vila chamada Kharkhoda.
Sabíamos que o leiteiro morava por ali, mas não era um lugar pequeno e só tínhamos o seu nome.
Demoramos uma hora para chegar.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:34 am

Durante a viagem, fui fazendo anotações em meu caderno, da melhor forma que pude, levando-se em conta os buracos na estrada.
Estava tentando compreender tudo o que acontecera em Loa-Majra.
Fiz uma lista com os pontos que pareciam confirmar as afirmações de Preeti e os que levantavam algumas questões.
Os itens mais importantes do lado a favor envolviam as múltiplas confirmações dos reconhecimentos feitos pela menina.
Havia também alguns detalhes adicionais que não podiam ser explicados através de sinais de linguagem corporal – como o facto de Preeti notar a ausência da irmã casada de Sheila e perguntar por ela, chamando-a pelo nome.
No lado contra:
embora os pais tivessem tentado fazer uma ligação entre as marcas de nascença de Preeti e as feridas de Sheila, diante das perguntas ficou claro que sua memória estava confusa.
Da mesma forma, na versão da mãe para o sonho do filho, Sheila dizia:
“Estou voltando.”
A versão do rapaz foi totalmente diferente:
“Você não vai mais ver meu rosto.”
Esses dois pontos poderiam indicar um desejo dos pais de fazer com que o caso parecesse melhor do que era.
Não poderíamos ignorar totalmente o facto de o pai de Sheila ter dito que Preeti estava em casa quando ele chegou para sua primeira visita.
A família de Preeti afirmara que ela ainda estava na escola.
Finalmente, havia ainda a torturante possibilidade de uma testemunha contradizer a lembrança de Preeti de ter “caído do alto”, que parecia estar relacionada à maneira com que ela fora jogada pelo automóvel, conforme o relato da revista.
Porém, eu tinha que levar em conta que todas aquelas discrepâncias poderiam ser explicadas.
Talvez a mãe se lembrasse do sonho do menino com mais clareza do que ele próprio.
Talvez o relato da revista estivesse mais próximo da verdade do que o testemunho do irmão – ele era muito criança na época e as memórias de factos traumáticos não costumam ser muito claras.
Talvez as contradições dos pais indicassem imperfeições normais da memória e não uma atitude tendenciosa – ninguém se lembra de detalhes com perfeição.
Cometer alguns erros é normal.
O problema é que a base para a construção desse caso era exactamente a memória.
Chegamos a Kharkoda e estacionamos na agitada rua principal.
Em ambos os lados, lojas com frentes abertas e sem vidros vendiam de tudo, de incenso a programas de acesso à Internet, enquanto gordos porcos e patéticos cães vira-latas disputavam a imundície que corria a seus pés.
Eu já havia aprendido a suportar aquele bombardeio sensorial imaginando que estava na Idade Média, quando os pequenos povoados europeus começavam a expandir-se sem controle, transformando-se em cidades imundas, mas irrefreavelmente vivas – minhas raízes culturais.
Satwant e o motorista saltaram do automóvel e desapareceram numa rua estreita, com calçamento de pedras, que se estendia por entre os contínuos muros de tijolos que cercavam os complexos de casas.
No calor da tarde, Stevenson sentou-se no banco de trás e eu, no da frente, com a janela aberta pela metade.
Depois de algum tempo, o motorista voltou sozinho.
– Sigam-me – ordenou.
Encontramos o homem que vocês estavam procurando.
A casa do leiteiro ficava a meio quarteirão dali.
Era uma construção de tijolos, sem luxo, nos fundos de um pátio sujo.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:35 am

Seu único toque de opulência era uma casa de banhos, do tamanho de uma cabine telefónica, situada na parte da frente, ao lado da bomba d’água.
Uma cortina de plástico vedava a entrada.
O nome do leiteiro era Ranbir Singh.
(Descobri que Singh era um sobrenome muito comum entre os hindus e os siques – significa “leão”, denotando a força da fé – e Ranbirnão era parente de Karan Singh.)
Ele confirmo a história que ouvimos das duas famílias e acrescentou um detalhe importante:
além de ignorarem os apelos da menina para ser levada a Loa-Majra, eles a castigaram por negar que era Preeti.
– Quando fui ordenhar as búfalas, eu os ouvi gritar e bater na criança.
Ela estava chorando.
Quando me viu, veio me abraçar, dizendo:
“Por favor, me leve ate a minha vila.”
Perturbado, o leiteiro procurou a única pessoa de Loa-Majra que conhecia:
a mulher que acabou passando a notícia sobre as afirmações de Preeti para a família de Sheila.
Ele nos contou que, quando a mulher foi falar com Preeti, a menina a reconheceu de imediato, chamando-a pelo nome.
Ele não testemunhou esse facto, mas foi o que a mulher lhe contou.
O leiteiro estava presente quando Karan Singh veio encontrar Preeti pela primeira vez.
Sua versão dos factos era um pouco diferente.
Karan dissera que a menina o olhou por algum tempo e depois foi brincar, até que a mãe lhe pedisse para indicar seu “pai”.
Na versão do leiteiro, assim que viu Karan, Preeti correu e o abraçou.
Ranbir nos levou de volta até o carro.
Faltava ainda visitar uma pessoa:
a mulher que transmitira as notícias sobre as afirmações de Preeti à família de Karan Singh.
Chegamos ao conjunto onde ela morava no início da noite.
Várias famílias se preparavam para o jantar.
Acendiam o fogo para cozinhar usando um punhado de gravetos com os quais faziam arder um grande disco de estrume que queimava como carvão.
Bebés choravam num canto.
A mulher a quem fomos entrevistar era apenas um contorno sob um xale escuro, enrolado duas vezes sobre o rosto.
Ela repetiu quase tudo o que já tínhamos ouvido, mas insistiu em afirmar que, quando foi ao encontro de Preeti, Karan Singh passou primeiro por sua casa.
Mandaram buscar a menina.
E foi naquele momento, e não depois, na casa de Tek Ram, que Preeti identificou Singh como seu “pai”.
– Essa é a terceira versão do reconhecimento.
Talvez a quarta, se contarmos o que o leiteiro disse:
que Preeti reconheceu Karan imediatamente – observei, quando já estávamos na estrada de volta a Deli.
– O único ponto em que todos concordam é que Preeti o reconheceu, em algum momento, em algum lugar.
– Acho que essa mulher só está tentando aumentar o seu papel na história – comentou Satwant.
– É verdade.
Isso acontece às vezes nessas pequenas vilas – concordou Stevenson, cruzando os braços.
Por um minuto, seguimos em silêncio.
– Acho que os cépticos teriam imenso prazer em destruir esse caso – comentou ele.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 21, 2016 8:35 am

– O que você está querendo dizer? – perguntou Satwant.
Virei-me para ela:
– Pode deixar que eu respondo.
Existe essa menina, que está infeliz com os pais.
Está convencida de que eles não a amam.
E talvez essa mulher que acabamos de entrevistar não seja a única de Loa-Majra que se casou com alguém da vila.
Talvez existam outras três ou quatro que conheçam Karan Singh e sua família.
Um dia, Preeti ouve essas mulheres conversando, lembrando-se dos velhos tempos, até que falam de uma menina chamada Sheila, que morreu num acidente.
Mencionam o nome do pai, da mãe, comentam o quanto sofreram com a perda.
E Preeti pensa:
“Será que eu pertenço mesmo a essa família com quem vivo?
Será que aqueles pais que sentem tanta falta da filha não são os meus pais?
Será que eu sou a menina que morreu?”
Porque, mesmo sendo ainda tão pequena, ela já deve ter ouvido falar em reencarnação.
Então, Preeti começou a dizer:
“Vocês não são os meus pais.
O nome do meu pai é Karan Singh.”
O leiteiro ouve tudo e passa a história adiante.
Os pais da menina morta desejam acreditar que a filha voltou.
Então, resolvem ver a criança e encontram uma multidão no local.
Quando perguntam à menina quem é “seu pai”, ela se encaminha até a pessoa para quem todos estavam olhando e Karan Singh interpreta isso como uma confirmação.
O mesmo acontece quando ele leva a criança para Loa-Majra.
Talvez ela se engane no início e corra para a pessoa errada, mas vê outros se afastarem, balançando a cabeça, e encontra a pessoa certa.
E quando ela pergunta onde está a irmã casada?
Talvez tivesse entreouvido alguém dizer:
“É uma pena que Munni não esteja aqui para ver isso.”
Nessa cultura não é difícil concluir que, se a irmã mais velha não está na casa dos pais, só pode estar na casa da família do marido.
Satwant me olhava com um misto de mágoa e admiração.
Quando terminei, ela me perguntou:
– É nisso que você realmente acredita?
Reflecti por um minuto.
– Não – respondi.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:14 am

13 - CIDADE DE VIDRO E DE ESPLENDOR

De manhã bem cedo, tomamos o trem expresso para Agra, a cidade do Taj-Mahal, e vimos o sol nascer na planície descampada da área central da Índia.
– Esses vagões com ar-condicionado são recentes – observou Stevenson.
Você não está tendo uma verdadeira noção do que é andar de trem na Índia.
Ao saltar, a experiência foi suficiente.
Carregadores e pedintes aglomeraram-se à nossa volta e nos seguiram até um estacionamento, formando uma massa tão densa que não conseguíamos dar um passo sem encontrar milhares de braços estendidos.
Nosso hotel ficava dentro de uma área cercada, com arbustos e flores.
Assim, mantinha a aparência impecável, necessária para agradar os turistas que vinham conhecer o Taj-Mahal, que, como a placa na entrada anunciava, podia ser avistado do telhado.
Deixamos as malas e alugamos um minúsculo microónibus Maruti, aparentemente construído com o mesmo material usado na fabricação das latas de Pepsi-Cola.
Sentei-me no banco da frente.
O pára-brisa era tudo o que me separava da estrada.
Levando-se em conta que o lugar estava sempre repleto de animais e de veículos um tanto assustadores, sentei-me como se estivesse assistindo a um filme em três dimensões, sentado na primeira fila.
Agra parecia mais antiga do que as áreas de Deli que visitei.
Era um amontoado de ruínas e grandiosidade – as ruínas eram mais constantes – em meio a um labirinto de ruas excessivamente ocupadas.
Ao longe, as pontas arredondadas do Taj-Mahal erguiam-se majestosamente.
Após duas horas fora de Agra, nos arredores da cidade industrial de Firozabad, pegamos uma estrada empoeirada e entramos num labirinto de passagens estreitas, com mercadorias transbordando de cada uma das pequenas aberturas e uma massa humana que desafiava a limitação da área.
Finalmente, chegamos a um ponto por onde o caro não podia circular.
Saímos com dificuldade e pisamos no chão irregular, tentando desviar do esgoto que escorria pelas valas, sob o sol quente.
Seguimos em frente, com Satwant parando a todo instante para pedir informações.
O ambiente me oprimia.
Para onde nos virássemos havia estrume.
Tivemos que abrir caminho contornando os flancos de um camelo deitado num buraco lamacento.
Acossadas por moscas, crianças imundas se aproximaram e foram nos seguindo quando percorremos os últimos metros em direcção ao nosso destino final.
Satwant passou por uma tábua que servia de ponte sobre o esgoto e abaixou-se para atravessar uma abertura no muro de tijolos e entrar num pátio sujo.
Ali vivia uma menina que afirmava lembrar-se da vida de uma prima que morrera queimada num casebre, naquele mesmo cortiço.
Satwant descobrira a garota através de uma pesquisa feita por um assistente.
Em apenas seis semanas esmiuçando a área, ele conseguiu mais de 150 possíveis casos.
Esse, em particular, tinha chamado a atenção de Satwant porque envolvia uma marca de nascença possivelmente relacionada à vida anterior.
O sujeito da pesquisa ainda era bem jovem, quatro ou cinco anos de idade.
Segundo os pais, desde que começara a falar, a menina afirmava ser a prima que morrera queimada aos quatorze anos, quando montava braceletes usados por toda a Índia.
Eram fabricados nos cortiços das cidades indianas.
Mulheres e crianças trabalhavam o dia inteiro recolhendo os anéis de metal não utilizados e fundindo-os sobre candeias mantidas acesas com querosene – o maçarico de soldar do homem pobre.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:15 am

O trabalho era monótono e perigoso.
A família contou que a menina estava sentada, trabalhando sobre uma esteira trançada que se incendiou quando uma candeia virou.
Não havia ninguém ali para apagar o fogo, que logo a envolveu.
De acordo com Satwant, a família afirmara que a menina tinha nascido com sinais atrás das pernas que correspondiam ao desenho dos fios da esteira, como se esta tivesse ficado marcada a fogo na pele.
Stevenson vinha procurando casos similares a esse há mais de vinte anos.
Cansado das frustrações causadas pelos testemunhos verbais, como o que acabáramos de experimentar em Deli, ele viu na prova muda das marcas de nascença – que em muitos casos correspondiam a relatos médicos sobre a personalidade passada – um possível antídoto.
O minúsculo pátio do complexo de moradias logo se encheu de parentes e curiosos.
Ficamos sentados em bancos de madeira, sob uma cobertura de folhas secas que se projectava da meia-água de tijolos onde morava a numerosa família.
Fora num espaço como aquele, a menos de dez metros dali, que a adolescente queimara até a morte.
O mesmo tipo de esteira trançada que pegara fogo no acidente fatal descansava no chão.
As crianças que estavam nos seguindo amontoaram-se no pátio.
Pude perceber o número delas aumentar às minhas costas, ouvi-las tossir e fungar, sentir suas mãos tentando tocar-me.
A desagradável proximidade fazia o suor escorrer pelo meu pescoço, enquanto cada milímetro do meu corpo se rebelava contra aquela situação.
Poderia uma criança nascer para uma existência tão miserável e sem piedade, ter uma morte terrível e depois renascer algumas casas adiante para mais uma prisão perpétua, soldando braceletes no meio do estrume?
Os mesmos motivos que fizeram tal pensamento me entristecer constituíam um poderoso argumento contra aqueles que consideravam os casos de reencarnação como fruto de um desejo de realização por parte de indivíduos e da cultura como um todo.
Se a crença hindu na reencarnação causava ilusões de memórias de vidas passadas, por que essas ilusões não aconteciam de acordo com a crença básica daquela cultura: o carma?
Em nenhum dos dois casos vistos até agora havia qualquer sinal de que as atitudes da personalidade anterior implicassem uma melhora na situação da pessoa renascida.
A relação entre as duas vidas parecia causal e espontânea, da mesma forma como a localização de uma nova planta se relaciona com a árvore centenária de onde a semente caiu – de acordo com a proximidade, a direcção do vento e o acaso, e não segundo uma ordem moral.
O mesmo acontecia no Líbano.
Se os inúmeros casos drusos eram motivados pelo desejo de reforçar crenças, por que o intervalo entre a morte e o renascimento era de oito meses quando o dogma afirmava que deveria ser zero?
Nós nos acomodamos da melhor maneira possível nos bancos de madeira, nossos joelhos tocando os da mãe, uma mulher de olhos vivos mas extremamente magra, e os do pai, um homem grisalho, atormentado.
Um cão sarnento tentou se insinuar por baixo de nosso banco.
Uma das crianças o golpeou com uma vara e o animal fugiu soltando um ganido.
Satwant teve uma longa discussão com os pais, sem se importar em traduzir.
A mãe estava particularmente agitada.
Três homens de pé atrás dela participavam de vez em quando.
A conversa pareceu chegar a uma conclusão.
Satwant virou-se para mim e explicou:
– A mãe estava com medo de que levássemos a menina connosco.
Stevenson já havia enfrentado aquela reacção anteriormente.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:15 am

Uma vez, ele estava entrevistando a família de uma criança quando uma mulher saiu da inevitável multidão e começou a gritar tão alto que ele não conseguia ouvir as respostas que iam sendo traduzidas.
Finalmente, ele perguntou ao intérprete o que ela estava gritando:
– Está dizendo:
“Vamos matá-lo antes que leve a criança” – explicou ele, sem demonstrar preocupação.
Stevenson conseguiu sair dali sem se machucar.
Dessa vez, Satwant conseguiu evitar a hostilidade.
– Expliquei a ela que o Dr. Stevenson já viu quase trezentos casos por todo o mundo e que seu único interesse é fazer algumas perguntas.
Então, aqueles homens atrás dela perguntaram ao pai:
“O que você vai ganhar com isso?”
Falei com eles que Stevenson é um cientista e que a ciência descobre coisas que, a longo prazo, beneficiam a todos.
Os homens fizeram pouco caso e podem vir a ser um problema mais tarde.
Vamos ver como as coisas vão se desenrolar.
Começamos a entrevista.
Os pais nos contaram que a menina, que ainda não tinha cinco anos, começara a falar com um ano de idade.
Uma de suas primeiras frases completas:
“Fui queimada.”
Ela chamou o tio, pai da menina morta, de “papai” e não se referia ao próprio pai daquela maneira até pouco tempo.
Ainda costumava tirar objectos da casa e levá-los para sua outra família.
Uma de suas primeiras palavras foi o correspondente a “candeia mantida acesa com querosene”, o que tinha causado a morte da prima.
A palavra era sempre pronunciada com temor e acompanhada de um medo intenso do fogo.
Enquanto falávamos com os pais da menina, percebi um movimento do outro lado da porta de entrada, que estava aberta.
Ao fundo, num canto escuro, uma mulher mais velha estava sentada, cobrindo o rosto com as mãos.
Era a mãe da família anterior.
Satwant pediu para falar com ela a sós, dentro da casa.
Quando voltou, dez minutos depois, nos fez um relatório: nos meses anteriores ao nascimento da menina, a mãe da criança morta tinha sonhado várias vezes com a filha.
Quando a mãe do sujeito da pesquisa entrou em trabalho de parto, a mãe da menina morta sonhou que a filha finalmente lhe dizia:
“Deixe minhas roupas na casa da minha tia.”
Surpresa, a mãe perguntou por que deveria fazer aquilo.
Ela respondeu:
“Porque vou ficar lá.”
Sonhos “premonitórios” eram fascinantes, mas esse não acrescentou muito como prova do caso, que já era fraco, por envolver pessoas da mesma família.
Só nos restava agora inspeccionar as marcas de nascença.
A mãe nos trouxe uma criança de cabelos engordurados e rosto bonito.
O pai ergueu a criança, segurando-a sob os braços, e virou-a para que Stevenson pudesse examinar a parte de trás de suas pernas.
Stevenson abaixou-se e seguiu com as mãos o curso das longas e finas listras avermelhadas que corriam verticalmente em ambas as pernas.
Não havia indicação de um desenho entrelaçado.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:15 am

Talvez percebendo a nossa falta de entusiasmo, os pais começaram a contar para Satwant que um dos dedos do pé esquerdo da menina morta era maior do que o normal e que sua filha havia nascido com aquela mesma característica.
Levantaram os pés da criança.
Achei que havia uma ligeira diferença de tamanho, mas não tive certeza.
Satwant tirou da bolsa uma régua de plástico e tentou medir cada dedo.
A circunferência do esquerdo era ligeiramente maior, mas a falta de flexibilidade da régua poderia justificar a diferença.
Além disso, não teríamos a menor chance de encontrar documentos médicos informando o tamanho dos dedos da menina morta.
Stevenson anotou as medidas que conseguiu tirar.
Depois, virou a perna da menina para examinar mais uma vez as marcas avermelhadas, tocando-as de leve com o dedo indicador.
Então, sentou-se e coçou o queixo:
– É tudo muito vago – disse ele.
Qualquer um poderia ter marcas assim.
É exactamente por isso que damos tanto valor a marcas inusitadas que correspondam a algo concreto.
Stevenson já havia estudado alguns desses casos.
O mais impressionante era o de um turco que nascera com uma marca de sangue debaixo do queixo, no lado direito.
Desde que começara a falar, o rapaz, Cemil Fahrici, tinha afirmado lembrar-se da vida de um bandido que atirou em si mesmo, abaixo do queixo, quando se viu encurralado pela polícia.
Stevenson não investiu muito tempo verificando as afirmações porque a personalidade passada tinha um parentesco distante com o rapaz e as famílias envolvidas se comunicavam.
Mais importante ainda:
o bandido era conhecido na região como uma espécie de Robin Hood e todos conheciam detalhes de sua vida.
Finalmente, como no caso da menina queimada, na noite anterior ao seu nascimento o pai de Cemil também teve um sonho prevendo que o bandido renasceria como seu filho.
Por todos esses motivos, Stevenson não viu nas lembranças alegadas por Cemil indícios convincentes a favor da reencarnação – a não ser pela marca no corpo.
Na época em que Stevenson examinou e fotografou o sinal, Cemil tinha mais de trinta anos.
Parecia uma cicatriz do tamanho de uma moeda, com formato de meia-lua, exactamente no lugar onde a parte interna do queixo se junta ao pescoço.
Quando entrevistados, a irmã do morto, que tinha visto o corpo de perto, e o policial, que chegara na casa logo depois do suicídio, afirmaram que a bala tinha entrado por baixo do queixo e saído pelo alto da cabeça.
Imediatamente Stevenson voltou à casa de Cemil e perguntou se ele também tinha marcas de nascença no alto da cabeça.
Sem hesitar, o rapaz mostrou o lado esquerdo da parte superior da cabeça.
Stevenson descobriu ali uma linha fina e sem cabelo, com pouco mais de dois centímetros.
Mais tarde, ele comparou a fotografia da marca de Cemil e a que foi feita na autópsia, mostrando a saída da bala no mesmo lugar. Eram incrivelmente similares.
Ainda assim, percebi que, por mais que os sinais de nascença possam construir evidências, eles carregam uma dificuldade intrínseca:
se uma criança nasce com sinais que fazem lembrar os de uma pessoa morta, esse facto em si já é suficiente para criar um falso sentimento de identificação e gerar falsas afirmativas de memórias de vidas passadas.
Isso não é apenas uma possibilidade hipotética – isso acontece de facto.
No caso do turco, tempos depois, um outro homem que dizia ter sido o mesmo bandido chamou a atenção de Stevenson.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

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Ele tinha uma marca no alto da cabeça (mas não sob o queixo) e afirmava ter lembranças precisas sobre a vida do morto.
Levando-se em consideração que uma só alma não pode gerar múltiplos renascimentos, uma daquelas memórias teria que ser fictícia.
Uma mentira, ou fantasia, inspirada pela marca no corpo.
Entretanto, eu era capaz de imaginar um caso em que as marcas de nascença fornecessem uma prova segura da reencarnação.
Uma criança faria inúmeras afirmações sobre a vida de uma pessoa desconhecida de sua família.
A criança apresentaria marcas de nascença que, a princípio, não teriam nenhuma relação com suas pretensas memórias de uma vida anterior.
Mas essas afirmações seriam específicas o suficiente para levar um pesquisador a encontrar alguém cuja vida correspondesse exactamente às memórias da criança.
Só então, entrevistando a família da personalidade passada, isso viria à tona:
a pessoa morta tinha ferimentos importantes que se relacionavam perfeitamente com as inusitadas marcas do sujeito da pesquisa.
O facto de Stevenson ainda não ter encontrado um caso tão perfeito não significava que não haveria um, em algum lugar.
Dos cento e cinquenta casos em potencial da pesquisa de Satwant, mais ou menos vinte por cento envolviam marcas de nascença de algum tipo.
Muitos deles estavam incluídos no itinerário que ela havia organizado.
Aquela marca, porém, não teve nenhum significado para Stevenson.
Quando estávamos prontos para nos ver livres daquele cortiço indiano e das pessoas que haviam permanecido ali, uma moça, carregando um bebé de oito meses, aproximou-se de Satwant.
Era uma vizinha e trazia a irmã para que a víssemos.
A criança não tinha a mão esquerda.
Imediatamente ficou claro que a menina ainda não havia dito nada que pudesse estar relacionado a uma vida passada, mas algo em seu estado de espírito, segundo a irmã, sugeria tal possibilidade – embora a deformidade não lhe causasse dor, ela costumava ficar observando o coto da mão com tristeza e se mostrava incomodada quando outras pessoas o notavam.
– Ela apresenta alguma fobia? – perguntou Stevenson.
– Ela tem medo de gatos – respondeu um homem que se identificou como o avô da criança.
Mesmo assim, Stevenson achou conveniente medir e fotografar a mão deformada, para o caso de, mais tarde, surgirem afirmações sobre vidas passadas que chegassem ao conhecimento de Satwant.
Ele guardava casos como aquele num arquivo onde havia, por exemplo, o relatório sobre um menino em Agra que tinha nascido com quinze pequenas marcas circulares nas costas e na parte de trás dos braços.
As marcas tinham o tamanho e forma de feridas causadas por pequeninos projécteis a algumas delas apresentavam uma massa interna que, quando apalpada, rolava sob a ponta do dedo.
Não encontramos o automóvel no lugar em que o deixamos.
Alguns meninos haviam cortado o pneu com um prego amarrado a um pedaço de pau, e o motorista estava no borracheiro.
Ficamos sentados na lateral da rua, em frente a uma barraca feita de engradados vazios que servia de oficina para o trabalho do borracheiro.
O serviço demorou tanto que tive tempo para reflectir sobre os dizeres de um imenso cartaz, a uns cem metros dali:
FIROZABAD, CIDADE DE VIDRO E DE ESPLENDOR.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:16 am

14 - MARCADO PARA SEMPRE

Enquanto estávamos em Agra, Stevenson resolveu procurar relatórios médicos referentes ao caso de uma marca de nascença, acontecido numa vila situada a três horas de viagem, na direcção leste.
O sujeito do caso era um rapaz de dezassete anos.
No resumo que Satwant fez do que conseguira descobrir nas entrevistas com a família, um ponto logo me deixou intrigado:
pela primeira vez, nos casos que acompanhei, os sinais relacionados à existência de uma vida passada apareceram antes que a criança fosse capaz de falar.
Os pais disseram que, tão logo aprendeu a andar, o menino sempre caminhava em direcção a uma vila próxima, a menos de dois quilómetros dali.
Estavam constantemente correndo atrás do filho para trazê-lo de volta para casa.
Quando nasceu, ele tinha duas pequenas marcas circulares no lado direito do tórax:
a maior e mais nítida com cerca de três milímetros de diâmetro.
Ambas apresentavam uma ligeira depressão em relação à pele circunvizinha e um fino anel, mais elevado, fazendo o contorno.
Quando aprendeu a falar, segundo o relato dos pais a Satwant, o menino apontou para as marcas e disse:
– Foi aqui que levei os tiros.
Ele também lhes disse o seu “verdadeiro nome” e o nome dos homens que o atacaram de surpresa, após uma noite de bebedeira.
Os pais reconheceram aqueles nomes e sabiam da história do rapaz a quem o filho se referiu.
O assassinato ocorrera vários anos antes do nascimento do menino, na vila que tanto o atraía.
Além disso, o rapaz morto era hindu e os pais do menino, muçulmanos.
A criança se negava a acompanhar as preces da família, não aceitava a religião dos pais e pedia para ser levada de volta para sua família hindu.
Esse facto certamente desagradou aos pais e parecia diminuir muito as chances de que as afirmações da criança tivessem sido inventadas ou, de alguma forma, exageradas por eles.
Stevenson queria encontrar o relatório da autópsia feita na vítima para comparar o lugar da ferida provocada pela bala com as marcas circulares do menino.
Satwant nos disse que o assassinato ocorrera em 1976.
Encontrar um relatório de autópsia feito há vinte anos seria um grande desafio até mesmo em Miami.
E nas áreas rurais da Índia?
Quando expressei meu cepticismo a Stevenson, ele admitiu que não seria nada fácil.
– Temos uma chance em cem, talvez uma em cento e cinquenta, se conseguirmos que a polícia forneça o número do caso – disse ele.
– O negócio é que um caso com um relatório de autópsia vale por dez sem ele.
Saímos de Agra e fomos para Etawah, onde localizamos o distrito policial.
O capitão, usando roupas civis, estava sentado do lado de fora, em frente a uma mesa de madeira colocada na sombra.
Ele nos convidou a sentar e nos fez esperar vinte minutos enquanto remexia uns papéis.
Depois abriu um grande livro de registos com capa de papelão.
Dentro dele, anotações cuidadosamente feitas à mão – todos os crimes registados no distrito no meio dos anos setenta.
Quando, depois de meia hora, todos os relatórios de 1976 já haviam se esgotado e estávamos prontos para agradecer e ir embora, ele virou uma outra página e soltou o corpo na cadeira.
– Aqui está – disse ele.
A data do assassinato era dezembro de 1975, um ano antes do que Satwant tinha pensado.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:16 am

Agora tínhamos pelo menos o número do caso.
– Ainda vai ser difícil, mas as chances a nosso favor melhoraram um pouco – comentou Stevenson.
Voltamos para a cidade em busca do tribunal de justiça, onde esperávamos localizar alguma pasta com o número que acabáramos de descobrir.
O tribunal era um conjunto de prédios amarelos sujos, construídos ao redor de uma praça pública.
No centro dela, um poço e uma fila de pessoas esperando a vez de usar a bomba d’água.
Numa nesga do que deveria ser um gramado, dezenas de pessoas deitadas no chão dormiam.
Entramos no prédio maior.
No saguão e em todos os corredores e escadarias movia-se uma verdadeira multidão, apertando-se no interior mal iluminado, em meio ao barulho constante de vozes e passos.
Nós nos juntamos ao fluxo de pessoas que subia as escadas.
A sala de registos ficava no terceiro andar.
Na antecâmara, seis funcionários entediados nos observaram com descrença.
Um deles dispôs-se a atender os nossos pedidos e nos conduziu até uma outra sala onde pesados livros de registo estavam espalhados por todos os cantos.
O funcionário subiu numa cadeira e retirou um volume do fundo de uma prateleira empoeirada.
Depois de folheá-lo, fechou o livro e voltou para a primeira sala.
Nós o seguimos.
Ele foi até sua escrivaninha e folheou um outro livro de registos.
Quando entramos, ele nos dirigiu o olhar.
– Temo que nunca tenha havido um suspeito acusado nesse caso, nem mesmo julgamento.
Então, não temos nenhum registro – disse ele.
Mas pode ser que vocês consigam um relatório da autópsia se foram até a central de polícia, do outro lado da rua.
No prédio da central de polícia, depois que Satwant entregou um dos cartões de visita de Stevenson, fomos levados até o subchefe de polícia, cercado por um grupo de oficiais conversando.
Satwant explicou o que estávamos procurando.
Logo dez pessoas discutiam se seria ou não possível encontrar o registo que buscávamos.
Trinta minutos depois, recebemos o veredicto: impossível.
Fiquei totalmente convencido de que estávamos perdendo tempo.
Mas Stevenson queria fazer uma última tentativa – o hospital.
Ficava a menos de oitocentos metros dali, mais um desbotado edifício de concreto, com poucos andares.
O administrador nos recebeu e nos mandou sentar enquanto procuravam.
Meia hora depois, Satwant resolveu verificar o andamento da investigação.
Voltou com uma notícia desanimadora:
conseguiram localizar 1974 e 1976, mas não 1975.
Esperamos mais quarenta minutos.
Imaginei que já nos haviam esquecido e, então, Satwant e eu fomos até a sala onde estavam os funcionários.
Eles nos levaram até o quartinho de depósito.
Uma sala sem luz, com prateleiras deterioradas, sobre as quais estavam jogadas, sem qualquer critério, imensas pastas amareladas, abarrotadas de folhas soltas de papel.
Num canto, um homem remexia numa caixa de papelão apodrecido.
Balancei a cabeça desanimado e disse para Satwant que estava na hora de ir embora.
Naquele exacto momento, o homem aprumou o corpo e tirou da pasta um papel tamanho ofício:
o relatório da autópsia. Voltamos para o escritório do administrador e analisamos o relatório.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:16 am

A vítima morrera devido a uma única bala que lhe tinha atingido o tórax.
Assim sendo, não havia nenhuma correspondência óbvia para a segunda marca do sujeito da pesquisa, que era menor e localizada bem mais abaixo, na direcção do abdómen.
O lugar por onde a bala entrara também não coincidia com a marca predominante no sujeito, e a diferença não podia ser explicada pelo crescimento da criança.
– Sem as marcas, esse é apenas mais um caso de assassinato U. P.
– Disse Stevenson, no caminho de volta para Agra.
Uttar Pradesh, um dos estados mais pobres e povoados, era o local onde se originaram quase todos os seus casos na Índia.
Alguns dos casos de assassinato U. P. apresentavam convincentes indícios de reencarnação.
Na história que estávamos pesquisando, eu ainda achava instigante que o menino corresse em direcção á “sua” vila mesmo antes de saber falar e que identificasse a si mesmo como hindu, apesar de ter nascido muçulmano.
Mas a maneira com que Stevenson disse “apenas mais um caso U. P.” deixou claro o quanto ele desejava algo além de instigante – precisava de evidências imprimidas na carne.
O caso do menino muçulmano de dezassete anos não parecia mais ser capaz de lhe fornecer tais provas.
Apesar de tudo isso, Stevenson ainda pensava em visitar a família.
Queria medir as marcas novamente e fazer perguntas à mãe a respeito da localização das mesmas quando o menino nasceu.
Queria também verificar algo que tinha visto no relatório da autópsia:
a bala havia entrado pelo tórax, viajado em diagonal pelo tronco e se alojado, sem sair, logo abaixo da pele, na parte mais baixa das costas.
– É quase certo que havia um hematoma naquele tecido de pele, antes da morte – disse Stevenson.
– Quero dar uma olhadela nas costas do garoto.
E foi o que ele fez, depois de passar mais um dia inteiro dentro de um automóvel, atravessando estradas em péssimo estado, criando hematomas nas próprias costas, para, no final, sentir um grande desapontamento.
– Se eu quisesse me enganar – disse ele, depois do longo e difícil dia – poderia dizer que ele tem uma área na pele das costas que é um pouquinho diferente, mas sou obrigado a considerá-lo “bola fora”.
Stevenson estava se referindo a uma conversa que tivéramos uma vez sobre a pesquisa científica.
Ele dissera:
“Mostre-me um pesquisador que não se inquieta em relação aos resultados e eu lhe mostrarei uma pesquisa malfeita.”
Comparou então seu cuidado com a objectividade científica a um jogo de ténis.
Sendo um homem competitivo, ele desejava loucamente vencer.
Mas não iria trapacear afirmando que uma bola que caiu dentro era bola fora, ou vice-versa.
Na verdade, exactamente por desejar tanto vencer, ele prestava tamanha atenção às linhas.
A pessoa que não se importa em perder ou ganhar tende a ser negligente quanto a esses detalhes.
Viajaríamos de trem para Deli a noite inteira e, ao chegar, faríamos um voo de três horas em direcção ao sul, até Bombaim, e dali para Nagpur.
Nessa cidade, visitaríamos o sujeito de um “caso A” – denominação dada por Stevenson para os casos “anteriores”, nos quais é feito o registro das afirmações da criança antes da identificação de uma personalidade passada.
Nesse caso, a criança tinha se encontrado com a família que parecia corresponder às suas afirmações.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:16 am

Ela fez um considerável número de reconhecimentos que impressionaram o pesquisador inicial, um jornalista indiano chamado Padmakar Joshi.
Stevenson não tinha confiado muito no relato do jornalista.
Porém, numa viagem anterior, ele havia conseguido entrevistar novas testemunhas.
Tomamos o café da manhã com Joshi, num hotel próximo ao aeroporto de Nagpur.
Era um homem franzino, enfático em seus comentários sobre a situação política da índia.
Seu relato jornalístico do caso havia provocado comentários furiosos dos cépticos indianos, que o acusavam de manipular os factos para obter vantagens pessoais.
Era óbvio que ele estava radiante com a nova visita de Stevenson.
Para tirar o maior proveito possível da presença do mundialmente famoso pesquisador, Joshi havia organizado o que poderia ser descrito como uma entrevista colectiva, que se seguiria ao encontro com o sujeito da pesquisa, uma moça de vinte e quatro anos chamada Sunita Chandak.
Segundo os pais, Sunita, aos quatro anos, tinha começado a fazer afirmações a respeito de uma vida anterior.
Dizia ter morado numa vila, Belgaon, e implorava ao pai que a levasse até lá.
O pai ficara impressionado com a intensidade daquele desejo, mas não soubera o que fazer.
Jamais ouvira falar de uma vila com aquele nome, mas reuniu algumas pistas de onde poderia ser.
Sunita criticava a maneira de a mãe preparar a comida, dizendo:
“Por que não faz assim, como no meu povoado?”
Suas preferências sugeriam um estilo de cozinhar característico de determinada região, próxima dali.
O pai pediu à filha que falasse mais sobre tal povoado.
Ameniona contou que havia um tempo, mas não uma escola, e que um rio passava por ali, perto de algumas colinas.
O pai da menina entrou em contacto com Joshi, pedindo ajuda para localizar um lugar como o que a filha descrevera.
Joshi descobriu que havia vinte e oito vilas chamadas Belgaon naquela região.
Dentre elas, nove pareciam corresponder aos detalhes fornecidos pela criança.
Durante alguns meses, Sunita visitou três das vilas que constavam da lista de Joshi.
Nenhuma delas foi reconhecida pela menina.
Naquele momento, o jornalista publicou um relato da história, contendo outras afirmações da menina sobre sua vida passada, na esperança de localizar a família anterior.
Sunita não havia mencionado seu nome ou sobrenome, mas disse que tinha uma irmã chamada Sumitri e que jamais havia usado um sári – o que Joshi interpretou como um sinal de que ela morrera ainda criança, uma vez que, nas vilas indianas, somente as mulheres adultas usavam aquela vestimenta.
Um leitor de uma das seis vilas restantes escreveu dizendo acreditar que morava na Belgaon à qual a menina tinha se referido:
as características geográficas mencionadas estavam presentes ali e ele conhecia uma família cuja primeira filha morrera jovem e que tinha uma outra menina chamada Sumitra.
A menina morta, Shanta Kalmegh, nascera em 1945 e tinha morrido antes de completar seis anos.
No inverno de 1979, quando Sunita tinha cinco anos, a família a levou a Belgaon, cerca de 145 quilómetros onde moravam.
Ao chegar, Sunita mostrou-se hesitante, mas logo anunciou:
“É aqui.”
De acordo com as pessoas que viviam no lugar e que testemunharam a visita, Sunita fez uma série de identificações.
Como sempre acontecia naquelas situações, desde que chegou a menina foi rodeada por uma multidão.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 22, 2016 9:16 am

Como era difícil saber que tipo de estímulos ela poderia ter recebido das pessoas, Stevenson se interessou mais pelos reconhecimentos que aconteceram espontaneamente, ou os que continham informações detalhadas que não poderiam ter sido sugeridas através de linguagem corporal ou de subtis pistas verbais.
As testemunhas disseram que Sunita tinha reconhecido a casa da família Kalmegh, entrara lá e, ao tomar a mão da já idosa mãe da menina morta, dissera:
“Essa é a minha mãe.”
Ambos os reconhecimentos poderiam ter sido influenciados pela multidão.
Mas havia outros cuja explicação não era tão fácil.
Sunita afirmou que existia uma plataforma mais elevada na frente da casa quando “ela” vivia ali.
Na ocasião de sua visita, tal plataforma não estava lá, mas, segundo o pai e o tio de Shanta, havia uma antes da morte da menina.
Dentro da casa, Sunita falou:
“Está tudo mudado aqui”, e apontou para uma parede de tijolos, afirmando que era nova.
A família confirmou que a parede fora construída após a morte de Shanta.
Num outro lugar, ela comentou:
“Era aqui que costumávamos orar.”
Mais uma vez, a família confirmou: havia um altar ali quando Shanta era viva.
Segundo as testemunhas, durante a visita Sunita disse que queria leite.
Pegou um copo, dirigiu-se para uma outra casa perto dali, parou diante de uma parede e falou:
“Aqui ficava a janela por onde comprávamos leite.”
O sobrinho da pessoa que vendia leite naquela casa quase trinta anos antes confirmou que havia uma janela exactamente ali.
Depois, Sunita foi até a casa de um vizinho, apontou para um lugar, dizendo:
“Aqui havia uma escrivaninha onde seu pai costumava escrever.
Meu pai veio aqui, e eu vim com ele.”
O vizinho disse que seu pai, um funcionário público, preenchera muitos documentos numa escrivaninha que ficava ali mesmo.
Embora houvesse uma escola em Belgaon, a afirmação de Sunita de que “havia um tempo, mas não uma escola” era verdade na época em que Shanta tinha vivido ali.
Ao passar na frente de um prédio, ela comentou:
“Aqui ficava uma mercearia.”
Estava certa, segundo o superintendente da vila – a mercearia tinha sido demolida há quinze anos, para dar lugar à escola.
Como provas, esses reconhecimentos, apesar de impressionantes, tinham um problema: a antiguidade.
A morte de Shanta acontecera em 1950, e as confirmações dos relatos de Sunita baseavam-se em lembranças ligadas a factos que, à época da visita da menina, já tinham quase trinta anos.
Entretanto, para a família de Shanta, Sunita havia provado a veracidade de suas afirmações.
Desde então, um relacionamento passou a existir entre eles.
Sunita se tornou uma pessoa importante em Belgaon.
Em sua primeira visita, durante um passeio pela cidade, ela apontou para um terreno vazio próximo à escola e perguntou:
“Voes vão construir um templo aqui?”
Não havia planos para isso, mas os habitantes interpretaram a pergunta como um sinal e acabaram erigindo um templo naquele lugar.
Por causa de nossa visita, os parentes de Sunita haviam se reunido na casa da família de seu marido, várias horas a leste de Nagpur.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:06 am

Ficava numa rua de terra e, apesar da aparência humilde, a casa era de concreto e muito confortável, o que indicava certa opulência.
Pertencia ao sogro de Sunita, um médico homeopata.
Os pais de Sunita estavam lá, especialmente para a ocasião, assim como sua irmã gémea, Anita.
O pai, um homem agradável e de riso fácil, nos disse:
– Sempre falei para Anita:
“Sua irmã me contou onde morava.
Por que você também não me conta?”, mas ela nunca disse nada.
Stevenson tinha grande interesse por casos envolvendo gémeos, pois, quando idênticos, originam-se do mesmo ovo fecundado e têm os mesmos genes.
Por isso, as diferenças de personalidade entre eles não podem ser atribuídas à genética.
A explicação mais comum é que tais diferenças são causadas pelo ambiente, começando pelas posições distintas que assumem dentro do útero e continuando com as experiências vividas por cada um após o nascimento.
Stevenson não acreditava nisso.
Argumentava que os gémeos siameses, embora permanecessem fisicamente ligados, sem capacidade de viver experiências independentes um do outro, possuíam personalidades inteiramente distintas.
Num dos casos mais famosos, por exemplo, um dos gémeos siameses era alcoólatra e o outro, abstémio.
As implicações desta ideia eram óbvias:
talvez algumas das diferenças mais marcantes entre as personalidades dos gémeos idênticos pudessem ser explicadas através da reencarnação.
Stevenson havia coleccionado um bom número desses casos, mas enfrentava um problema prático:
distinguir os gémeos idênticos dos não-idênticos – cuja semelhança não era maior do que a de dois irmãos comuns – não era simples.
A aparência física “idêntica” não garantia que fossem geneticamente iguais.
A certeza só era possível através de minuciosos exames de sangue, realizados não apenas nos gémeos, mas em toda a família.
Na Índia, isso implicaria enormes gastos, além da necessidade de convencer todos os envolvidos a se deslocar até o hospital de uma cidade grande para a colecta do material.
Explorar essa ideia com a família de Sunita era um dos maiores objectivos de Stevenson, mas ele queria deixar esse assunto para o final.
As mulheres nos serviram frutas secas, nozes, tâmaras, passas e chá.
O pai de Sunita cedeu sua poltrona para a filha, uma mulher esguia e bonita, num sári de seda branca, bordado com flores vermelhas e folhas douradas.
Observando Anita, vestida de forma similar, imaginei que não fossem gémeas idênticas:
ela também era bonita, mas tinha o formato do rosto um pouco diferente.
Por outro lado, Stevenson havia-me dito que um em cada vinte pares de gémeos idênticos não é totalmente igual na aparência.
Logo observei que Sunita se referia ao pai como “meu pai de Verni Kotha”, identificando-o com sua cidade natal.
Assim, ela o distinguia do pai de Shanta, o “pai de Belgaon”.
– Acho que ela é mais apegada à família de Belgaon do que à nossa – disse o pai, achando graça.
Sunita logo negou:
– Eu ainda os vejo em ocasiões especiais – explicou ela, num tom defensivo.
Estava claro que a dupla devoção de Sunita era um assunto no mínimo delicado.
– Mas não passo mais tempo com eles do que com meus pais de Verni Kotha.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:07 am

Talvez, antes de me casar e sair da casa de meus pais, eles tivessem a impressão de que eu sentia falta dos meus pais de Belgaon.
Quando você tem dois filhos, um em casa e outro morando fora, tende a pensar mais no que está longe, pois sente falta dele e pode ver o outro a todo instante.
Agora que moro na casa de meu marido, sinto falta dos meus pais de Verni Kotha e dos de Belgaon com a mesma intensidade.
Perguntamos se ela ainda tinha alguma memória visual de sua vida passada.
– Ainda me recordo de algumas coisas – respondeu Sunita.
Por exemplo, lembro-me de brincar com minha irmã mais nova, mas hoje penso muito menos nisso.
É como você ter uma prova, estudar bastante, tirar uma boa nota e, então, desligar-se do assunto.
Eu queria encontrar minha vila e rever minha família.
Quando consegui, parei de pensar nisso com a mesma intensidade.
Sabendo que uma legião de repórteres e fotógrafos estava na frente da casa aguardando a entrevista colectiva, Stevenson decidiu tocar no assunto dos exames de sangue.
Disse que financiaria as viagens até Bombaim, provavelmente a cidade mais próxima onde teriam acesso a testes confiáveis.
Seguiu-se uma breve discussão com os pais.
Virando-se para nós, Sunita disse:
– Sinto muito, mas não estamos interessados.
Existe uma outra coisa que me interessa mais.
Eu me lembro de uma outra vida passada, mas não sei os nomes da vila ou da minha família.
Talvez vocês possam me ajudar a lembrar.
Dois anos depois que voltou de Belgaon, quando tinha sete ou oito anos, Sunita passou a sentir-se dominada por vívidas imagens de rostos que a olhavam com um amor intenso.
Ela sabia que eram seu pai e sua mãe, mas os nomes não lhe vinham à mente.
Só se lembrava que era filha única e que seus pais a amavam muito.
Sua casa era feita de cimento e havia uma árvore no quintal.
Do terraço da casa, ela avistava os trilhos da ferrovia e percebia que a terra ali era vermelha e não amarela, como na região onde estávamos.
Sua família possuía uma loja de tecidos, instalada um pouco mais adiante da casa. Todas as imagens eram da infância.
Satwant disse que planeava voltar alguns meses mais tarde e perguntou se, na ocasião, ela gostaria de se submeter à regressão hipnótica – técnica que Stevenson tentara aplicar, sem muito sucesso, em outros sujeitos com memórias espontâneas.
– Claro – respondeu Sunita.
Estou muito interessada em saber mais.
A mãe de Sunita gemeu, jogando os baços para o alto.
Era difícil dizer se estava simulando ou se realmente se sentia exasperada.
Ainda havia outros pais com quem dividir o interesse e o carinho da filha.
Ela olhou para Sunita e suspirou:
– Acho que seremos sempre os últimos a ter vez.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:07 am

15 - SUMITRA NÃO MORA MAIS AQUI

Tempo e espaço são relativos, e na Índia um espaço mínimo pode levar um tempo enorme.
Partimos de manhã bem cedo em direcção a uma vila chamada Sharifpura, localizada cerca de cento e vinte quilómetros a nordeste de Agra.
Numa rodovia dos Estados Unidos, faríamos o percurso em uma hora.
Levando em conta os bois que passeavam pelas estradas indianas, calculei que precisaríamos de pelo menos o dobro do tempo, talvez até mais.
Entretanto, jamais poderia imaginar, e mal acreditei, que uma viagem de cento e vinte quilómetros pudesse durar seis horas.
E não foi só a duração exasperante da viagem, mas sobretudo os riscos permanentes que corremos em todo o percurso.
Sinais flagrantes Sinais flagrantes do risco eram os restos de três caminhões que perderam o controle e capotaram, caindo fora da estrada.
Pedestres, búfalos, cães, crianças, bicicletas e lambretas iam preparando o caminho para o próximo desastre.
O índice de mortos em acidentes de estrada era assustador.
Enquanto as horas se arrastavam, tentei me concentrar no relato publicado a respeito do caso que íamos visitar.
Entre 1985 e 1987, Satwant, Stevenson e um colega da Universidade de Virgínia, Nicholas McClean-Rice, realizaram dezenas de entrevistas na região de Sharifpura.
O sujeito de seu interesse era uma jovem mulher chamada Sumitra.
Ela havia se casado aos treze anos – um casamento arranjado, como era o costume ali.
Aos dezoito anos, teve um filho.
Um ou dois meses depois, começou a apresentar acessos de um estado semelhante a um transe hipnótico que poderiam durar alguns minutos ou um dia inteiro.
Por duas vezes, o transe deu lugar a uma aparente possessão, na qual Sumitra assumia uma outra personalidade – num caso, uma mulher que havia se afogado num poço; no outro, um homem de uma vila distante.
Essas identidades, entretanto, já não estavam mais se manifestando.
Em 16 de julho de 1985, quando o filho de Sumitra tinha seis meses de idade, ela entrou num novo transe, dessa vez prevendo que morreria daí a três dias.
Em 19 de julho, Sumitra perdeu a consciência.
Os que estavam ao seu lado acreditaram que seu pulso e respiração haviam parado.
O rosto ficou pálido.
Amigos e parentes começaram a se lamentar.
Segundo os sogros de Sumitra, ela ficou como morta durante cinco minutos e, de repente, acordou.
Quando voltou a si, declarou que não reconhecia o lugar onde estava.
Quando as pessoas a chamavam pelo nome, respondia:
“Não sou Sumitra, sou Shiva.”
Ela contou que Shiva havia sido morta pela família do marido com uma pancada de tijolo na cabeça.
Demonstrava grande agitação quando indagava sobre o paradeiro e a situação dos dois filhos pequenos dessa nova identidade.
Sumitra, que agora dizia ser a outra mulher, fez muitas outras afirmações a respeito da vida e da morte de Shiva pelas mãos da família homicida.
Recusava-se a atender pelo nome de Sumitra e insistia em dizer que não reconhecia o filho, o marido, o pai ou a mulher que a tinha educado (sua mãe havia morrido quando ela ainda era muito pequena).
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:07 am

Após algumas semanas, ela voltou a se comportar como mãe de seu filho e mulher de seu marido, mas continuava a dizer que era Shiva, afirmando que só estava cuidando do menino porque “se eu cuidar dessa criança, Deus cuidará dos meus (de Shiva) filhos”.
Referia-se ao relacionamento do marido com ela – Sumitra – como o “primeiro casamento” dele.
Shiva/Sumitra passou a afirmar que pertencia a uma casta superior à da família com a qual estava vivendo.
Mostrava-se consternada diante da ideia de ter que urinar e defecar no campo e não numa latrina, ao lado da casa.
Vestia-se com mais sofisticação e não andava descalça – sempre usava sandálias.
Porém, a diferença mais impressionante relatada pela família era uma acentuada melhora em sua habilidade de ler e escrever.
Sumitra jamais frequentara a escola e sua alfabetização era rudimentar.
Como Shiva, ela mencionou duas faculdades onde afirmou ter estudado e demonstrou ao marido e ao sogro que podia ler e escrever fluentemente.
Alguns meses mais tarde, um homem de uma cidade próxima, que acreditava que a filha de vinte e três anos havia sido assassinada pela família do marido, ouviu falar do caso de Sumitra.
Ele viajou os sessenta e cinco quilómetros que separavam as duas localidades (que, agora sei, significam três horas de viagem) para vê-la.
Quando disseram a Sumitra que “seu pai” a esperava no portão da casa, ela correu ate ele, chorando, e o chamou pelo nome carinhoso que Shiva havia lhe dado.
O homem perguntou sobre os apelidos que a família havia dado a Shiva e ela mencionou dois, ambos correctos.
Depois, identificou várias pessoas ligadas à vida de Shiva, através de fotografias e pessoalmente.
O pai de Shiva tentou enganá-la pedindo-lhe, por exemplo, que reconhecesse a mãe em meio a um grupo de mulheres, quando, na verdade, ela a aguardava dentro de casa.
Segundo ele, a moça passou em todos os testes.
As circunstâncias que cercavam a morte da verdadeira Shiva (talvez eu devesse dizer da original) eram misteriosas.
Em maio de 1985, um tio tinha ido visitá-la na casa dos sogros, onde ela vivia com o marido, segundo os costumes indianos.
Em prantos, a moça lhe contou que a mãe e a cunhada a haviam espancado.
O tio a achou bastante transtornada, mas não deprimida.
Na manhã seguinte, a família do marido de Shiva avisou ao tio que ela estava morta.
Disseram-lhe que ela havia desaparecido na noite anterior e que, quando foram procurá-la, encontraram seu copo sobre os trilhos da ferrovia.
Concluíram que ela havia se suicidado, jogando-se na frente de um trem.
O tio só viu o corpo da sobrinha depois que o levaram para a plataforma da estação.
Observou que o único ferimento visível era uma lesão na cabeça, resultado que não estava de acordo com um atropelamento daquela magnitude.
Pediu então que retardassem a cremação até a chegada do pai, dali a quatro horas, mas a família ignorou o pedido.
Começaram às onze horas da manhã e ainda aceleraram o processo derramando óleo sobre a madeira.
Quando o pai de Shiva chegou, o corpo da filha estava reduzido a cinzas e ossos.
O pai queixou-se à polícia local, que acabou prendendo o marido, o sogro, a sogra e a cunhada de Shiva pelo assassinato.
Mas eles foram soltos por falta de provas.
Sumitra não “morreu”, e renasceu como Shiva dois meses após o crime.
Na ocasião, notícias e detalhes sobre a morte e a vida de Shiva já haviam sido publicados nos jornais locais.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:07 am

Nenhuma pessoa na vila de Sumitra admitiu que tinha lido os relatos ou saber de qualquer detalhe do caso até que ela começasse a fazer afirmações.
Ainda assim, como o relatório de Stevenson alerta, não era possível excluir a hipótese de que Sumitra, ou outra pessoa de seu conhecimento, tivesse lido as notícias dos jornais.
Entretanto, muitas afirmações precisas feitas por Sumitra/Shiva – como os nomes das faculdades onde Shiva estudara – não estavam nos jornais.
À medida que avançávamos, penetrando num território cada vez mais distante, lembrei-me de que a primeira vez que ouvi um resumo desse caso achei que seria um poderoso argumento contra a reencarnação:
o sujeito e a personalidade passada coexistiram – não era um caso em que a alma saía do corpo no momento da morte e entrava num outro antes ou durante o nascimento.
Naturalmente, seria possível (e arrepiante) argumentar que era um caso especial:
talvez Sumitra tivesse mesmo morrido fisicamente em julho de 1985 e a alma de Shiva tivesse assumido o corpo antes que sua decomposição se tornasse irreversível.
E quanto aos transes?
E as aparentes possessões por outras personalidades?
Como explicá-las dentro de uma ideia coerente de reencarnação?
Ninguém declarou que Sumitra morrera antes das possessões.
De onde viriam e para onde foram aquelas personalidades?
Porque eram apenas temporárias?
A situação torna-se ainda mais sombria nesse parágrafo do relatório:
No outono de 1986 (muitos meses depois das primeiras vezes em que ela afirmou ser Shiva), Sumitra ficou confusa durante algumas horas, mas pareceu reassumir sua personalidade usual.
A seguir, a personalidade de Shiva retomou o controle e ainda era a que dominava à época de nossa última entrevista, em outubro de 1987.
Um dos aspectos que mais me impressionavam nas visitas aos casos era a completa sanidade que todos os envolvidos pareciam demonstrar.
Essa impressão era confirmada pelos testes psicológicos realizados por Erlendur Haraldsson, que mostraram a inexistência de qualquer patologia mental nas crianças que afirmavam ter memórias de vidas passadas.
Interessei-me em saber mais sobre o momentâneo ressurgimento de Sumitra.
As palavras do relatório – “pareceu reassumir sua personalidade usual” – eram vagas demais para descrever um fato tão importante.
Tive três horas para pensar, mas a resposta ainda parecia distante.
Na relativa tranquilidade da zona rural, pedimos algumas vezes que o motorista parasse no acostamento para que pudéssemos sair e esticar as pernas.
Stevenson já vinha enfrentando com coragem uma terrível dor nas costas e as paradas periódicas se faziam cada vez mais necessárias.
Durante umas paradas, conversei com ele a respeito do intrigante ressurgimento de Sumitra e perguntei por que o relato do episódio era tão resumido.
– Nossa única fonte de informação foi o marido – explicou – e ele não era uma das testemunhas mais confiáveis.
Perguntei-lhe se haviam insistido no assunto com outras pessoas da vila.
Stevenson não se lembrava com certeza.
Era muito frustrante, pois boa parte do caso era convincente.
Mesmo admitindo que uma mulher semialfabetizada, numa pequena vila, pudesse ter tido acesso a um jornal que circulava numa outra cidade, a muitas horas de distância, e tivesse absorvido todos os detalhes da vida de Shiva, como explicar os reconhecimentos feitos por ela?
E as afirmações precisas sobre o currículo educacional de Shiva, seu conhecimento dos apelidos carinhosos que a família usava para se referir a ela, seu pai e seus dois filhos – nenhum dos quais era citado nas notícias dos jornais?
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:08 am

E quanto à repentina capacidade de ler e escrever atribuídas a Sumitra, habilidades completamente fora do alcance de uma pessoa com o seu nível de instrução?
Perguntei a Satwant se ela havia observado Sumitra ler e escrever.
A resposta foi positiva:
embora pouco à vontade para exibir sua competência, a menina acabara concordando em dar uma mostra de sua escrita.
– Eu diria que era a escrita de uma pessoa do quarto ou quinto ano escolar – disse Satwant.
– Certamente, não era de nível universitário.
Porém, baseados em tudo o que sabíamos de Sumitra antes da mudança, esperaríamos no máximo uma habilidade de primeiro ano.
É mais ou menos como um pianista profissional tentando tocar um piano quebrado.
O som não será igual ao que ele conseguiria produzir se estivesse tocando o seu piano cuidadosamente afinado.
É preciso dar tempo ao novo instrumento.
Depois de nos perdermos algumas vezes, finalmente encontramos alguém que parecia ter certeza de como chegar a Sharifpura.
Saímos da estrada, cruzamos uma ponte de madeira carcomida sobre um canal de irrigação e alcançamos uma trilha de terra desgastada que atravessava campos viçosos, salpicados de flores amarelas.
Mais adiante, o trigal ficava cada vez mais alto e o sulco dos pneus na terra, cada vez mais fundo.
O carro continuava a mergulhar na lama, mas o motorista estava decidido a nos levar até a vila.
Em vez disso, levou-nos para o fundo do atoleiro.
Já era tarde, quase duas horas, e resolvemos fazer o resto do caminho a pé.
Ao sair do carro, um pensamento me ocorreu pela primeira vez:
por menos tempo que levássemos para conduzir nossas entrevistas, ainda teríamos uma viagem de seis horas de volta a Agra.
Seis horas até o banheiro mais próximo.
Desviamos para um lado e Sharifpura apareceu.
Era diferente de tudo o que eu poderia imaginar, feita totalmente de materiais colectáveis em qualquer área próxima, montados sem o auxílio de máquinas – telhados de folhas de junco e paredes feitas de uma mistura de lama, palha e esterco.
Nossa chegada começou a atrair os curiosos.
Alguns nos seguiram pela rua enquanto nos dirigíamos para a casa da família de Sumitra.
Abaixamos a cabeça para atravessar o beiral de folhas que pendia do lado externo do muro, abrimos o portão de madeira tosca e entramos no pátio, seguidos pela metade dos habitantes do lugar.
A sogra de Sumitra não se deixou perturbar pela invasão.
Era uma mulher pequena, de cabelos negros começando a se tornar grisalhos, usando um sári alaranjado e braceletes azul-turquesa nos dois braços.
– Sumitra, agora, mora em Deli – disse ela a Satwant abruptamente.
Ela não mora aqui há sete anos.
Ficamos parados sob o sol, digerindo a notícia – uma viagem de doze horas para nada.
Satwant perguntou pelo endereço de Sumitra na cidade, mas as informações permaneceram vagas, fazendo-nos desconfiar de que não estivessem dizendo a verdade.
A multidão começou a aglomerar-se ao nosso redor, agitada e hostil.
Mesmo assim, Stevenson resolveu que deveria ao menos fazer algumas perguntas e conseguiu confirmar que Sumitra continuara afirmando ser Shiva pelo menos até deixar a vila.
De resto, o resultado de seu esforço foi caótico.
Todos respondiam ao mesmo tempo, riam das respostas e brigavam porque acharam graça.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:08 am

Comecei a sentir tensão no ar e comecei a me perguntar se já não seria a hora de ir embora dali, mas Stevenson continuava a insistir:
– Vamos fazer só mais uma pergunta.
Ficamos lá durante uma hora.
Quando, finalmente, fomos embora, a vila inteira nos seguiu pelos campos, caminhando connosco até o automóvel, enclausurando-nos, empurrando-nos.
Stevenson escorregou, ou foi jogado, e caiu sobre o trigal.
Eu o ajudei a levantar-se e seguimos claudicando pelo resto do caminho.
Partimos em meio a acenos e gritos de adeus.
Quando nos vimos de novo na estrada pavimentada, Satwant disse:
– Tenho muitas reservas em relação a esse caso.
Acho que sabia o que ela queria dizer.
A informação mais interessante que tínhamos conseguido tirar da entrevista foi o facto de Sumitra e o marido já terem passado um ano em Deli uma outra vez, quando Sumitra tinha dezoito anos, um pouco antes dos transes começarem.
Não era muito, mas dava o que pensar.
Talvez Sumitra tivesse gostado da vida na cidade, talvez tivesse tido uma chance de melhorar sua capacidade de escrita e leitura enquanto estivera lá.
A perspectiva de voltar para aquela vila distante poderia ter dado início a um processo de depressão aguda.
Quando ouviu falar do assassinato de uma oca de alta casta, que tinha mais ou menos a sua idade e que morava numa cidade próxima, talvez ela tivesse se apossado daquela personalidade alternativa, usando-a como uma maneira de fugir de uma vida tão limitada.
Os transes poderiam ter sido reais – consequências de um descontrole emocional.
O pai de Shiva, motivado pelo desejo de vingança contra a família do marido de sua filha, pode ter se apegado às afirmações de Sumitra porque elas vinham ao encontro de sua crença de que a filha fora assassinada por eles.
Seu testemunho quanto às identificações feitas por Sumitra/Shiva pode ter sido influenciado por essa motivação secreta.
Mais uma vez, entretanto, ficava uma dúvida.
Apesar de improvável, a história continha os inúmeros e inexplicáveis reconhecimentos feitos por Sumitra.
Seria tudo uma farsa? Fizemos um caminho diferente para voltar a Agra, sem no entanto diminuir o tempo do percurso.
Nas últimas horas, enfrentamos uma intensa escuridão e todos os riscos do caminho.
Senti falta de minha mulher e dos meus filhos, e tomei consciência da distância – meio planeta.
Tentei acalmar meus pensamentos e avaliar o que estava sentindo:
a possibilidade da reencarnação trazia algum tipo de conforto diante de pensamentos mórbidos?
Respondi para mim mesmo: não quero uma outra vida, quero esta.
Stevenson começou a falar sobre uma palestra que deveria fazer na Virgínia, durante uma convenção de cientistas interessados em assuntos que as pesquisas científicas em geral costumavam marginalizar.
Quais são os elementos da ciência que não se pode dispensar?
Essa era a questão que ele planejava explorar.
Basicamente, explicou, ele pretendia questionar algumas das expectativas convencionais.
Um dos problemas era a ideia de que é preciso haver um experimento passível de tantas repetições quanto forem necessárias.
Stevenson sentia que a opinião de seus companheiros lhe era desfavorável porque seus estudos envolviam m fenómeno espontâneo que não podia ser recriado em laboratório.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:08 am

– Mas não se pode recriar também o impacto de um meteoro ou de uma explosão vulcânica – explicou.
– E isso não quer dizer que não seja possível conduzir uma pesquisa significativa a respeito desses fenómenos.
– Mas existe uma certa repetição em sua pesquisa – repliquei.
– Qualquer outro pesquisador pode entrevistar as mesmas pessoas com quem você falou, interrogá-las, verificar a documentação mais importante.
Naturalmente eles vão pensar duas vezes antes de percorrer o longo caminho até Sharifpura.
No escuro, não pude ver se consegui arrancar-lhe um sorriso.
Após alguns segundos, ele prosseguiu:
– Outro problema é a previsibilidade – disse ele.
Na ciência tradicional, uma teoria, para ser válida, deve levar à possibilidade de fazer previsões que possam ser testadas de forma experimental.
Stevenson, por exemplo, havia previsto que o homem que dizia ser um bandido turco teria uma marca no alto da cabeça combinando com a outra que ele apresentava debaixo do queixo.
E estava correto.
Mas aquela fora uma excepção.
Stevenson não podia prever como se daria a migração da alma, ou qual criança começaria a se lembrar da vida de um vizinho e quem seria ele.
Isso invalidava o seu trabalho?
Mais uma vez, pensei que ele poderia estar se esquecendo de um ponto.
– Mas você pode fazer previsões e eu acho que elas são muito importantes.
Em qualquer um dos lugares onde agora existem casos, você pode prever que uma pesquisa séria vai trazer à tona novos casos.
Você pode prever que, ao entrevistar sujeitos e testemunhas, os pesquisadores encontrarão provas de que as crianças fizeram afirmações corretas sobre a vida de uma pessoa e que essas afirmações não poderiam ter sido conseguidas por meios normais.
Stevenson não respondeu.
Pensei que, para fazê-lo desistir de tudo, seus críticos só precisariam provar que a explicação mais plausível para o que ele havia observado não era a reencarnação.
Falei sobre isso durante um longo tempo, porém, quando concluí, ele parecia tão melancólico quanto no início.
Fui tolo ao esperar outra reacção.
Ele estava encerrando o estudo de quase três mil casos nos quais características básicas se confirmavam repetidamente.
Vinha se dedicando a isso há quase quatro décadas e em todo esse período seu trabalho não conseguira ter um peso significativo na balança dos estudos científicos em geral.
Agora, sabia que seu tempo estava quase esgotado.
– Existe um velho aforismo:
“a ciência muda a cada funeral” – disse ele, com certa angústia na voz.
– Há um poderoso conservadorismo no meio científico.
As pessoas não se deixam convencer pelas evidências.
Somente à medida que elas vão morrendo é que as novas ideias começam a ser aceites.
Reflecti sobre aquelas palavras em silêncio, enquanto um novo par de feixes luminosos começava a crescer na noite escura, mirando em nossa direcção.
Então, ele me fez uma pergunta directa:
– Por que as pessoas não podem aceitar essas provas?
Fiquei em dúvida: ele estaria falando das pessoas ou de mim?
Estaria me pedindo que declarasse se aceito ou não as provas?
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:08 am

Respondi com cautela:
– Bem, certamente elas tornam a ideia da reencarnação possível.
Mas será que ela é provável?
Não sabemos o que é a alma.
Não sabemos que mecanismo faria uma alma deixar um corpo e penetrar em outro.
Há muitas coisas que simplesmente não sabemos, e acho que esse é o problema.
– Mas que outra explicação existe para tudo o que temos visto?
Examinei cada possibilidade e, por eliminação, a reencarnação deve ser o que explica tudo isso.
Senti um certo desespero dentro de mim.
Queria ganhar tempo.
– Bem – disse eu –, acho que... a reencarnação é certamente uma explicação razoável para o que vimos.
Mas não estou absolutamente convencido de que não exista alguma combinação subtil entre força cultural e percepção extra-sensorial capaz de criar alguns desses casos.
Uma combinação entre um tipo de percepção extra-sensorial, sugestão cultural e relatos inconscientes de histórias...
Talvez alguma necessidade humana básica esteja se expressando através do inconsciente colectivo e a força desse inconsciente colectivo esteja, de alguma maneira, criando esses casos...
Minha cabeça doía de tanto pensar.
Estava aprendendo agora o que Stevenson aprendera anos antes:
que o caso ideal parece estar sempre acenando na esquina – porém, quando fazemos a curva, nos deparamos com mais perguntas.
Sentia como se alguma força pairasse sobre nossas cabeças, alimentando esses casos com evidências imperiosas o bastante para que não pudessem ser ignoradas, mas não o suficiente para que fossem comprovadas acima de qualquer dúvida.
Mas era tão complicado encontrar uma explicação “normal” para cada um dos casos que isso nos obrigava a reflectir.
E quando casos convincentes se multiplicavam, a reencarnação logo começava a parecer uma alternativa menos fantástica.
Se eu aceitasse apenas um dos casos como autêntico, teria que aceitar muitos outros, ou a maioria deles.
Se a reencarnação fosse possível, pelo menos uma vez, então ela se tornaria uma explicação muito mais simples para Shiva, o leiteiro e os outros, do que a retorcida corrente de conspirações e coincidências que fui obrigada a criar.
Pela primeira vez, fiz a mim mesmo uma pergunta objectiva:
levando em consideração tudo o que vi e ouvi, por que não conseguia simplesmente aceitar a reencarnação como verdade?
Algum factor estava me impedindo.
Era algo que eu conseguia sentir, mas não era capaz de compreender.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 23, 2016 10:08 am

QUARTA PARTE
Estados Unidos
Crianças da casa ao lado

16 - UM LUGAR CHAMADO DIXIE


Quando voltei para os Estados Unidos e falei sobre minhas experiências, ouvi com frequência a mesma pergunta:
por que não existem casos aqui?
Ao mesmo tempo percebi que, em vez de ouvir o que eu tinha a dizer, um número surpreendente de pessoas com quem conversei passou a me contar histórias sobre seus próprios filhos, ou sobre crianças de quem tinham ouvido falar, envolvendo possíveis memórias de vidas passadas.
Quase todas as histórias eram fragmentárias, vagas e não acrescentavam nada.
Uma mulher me contou que a filha costumava dizer:
“Eu me lembro de quando estava no céu.”
Outra disse que, antes de completar dois anos, a filha ficou parada no alto da escada olhando-a fixamente por alguns instantes e, depois de parecer reflectir, disse:
“Estou feliz por ter escolhido você.”
Lembro-me do terror que minha própria filha tinha de bambolês, a ponto de gritar desesperada quando os via.
Fobia ligada a vidas passadas?
Ou alguma inexplicável idiossincrasia?
Ainda assim, algumas histórias foram mais longe.
Uma vizinha que ensinava num jardim-de-infância disse que teve uma pequena aluna que sempre falava da época em que vivera na Virgínia, fornecendo inúmeros detalhes sobre o assunto.
Um dia, minha vizinha perguntou à mãe da criança quantos anos tinha a menina quando se mudaram da Virgínia para a Flórida.
A mãe pareceu confusa e disse:
– Nunca moramos na Virgínia.
Uma mulher que trabalhou como babá me falou que a criança de quem ela cuidava havia lhe contado uma longa história que começava assim:
– Antes de ser quem sou, eu vivia em São Francisco e minha melhor amiga se chamava Bonnie.
Nós estávamos num furgão e morremos num acidente.
Era impossível saber o que eu encontraria se pudesse ir em busca dessas crianças e fazer perguntas aos seus pais.
Talvez a criança que disse morar na Virgínia tivesse lembranças que permitissem identificar o tempo e o lugar.
E a menina que falou sobre ter morrido em São Francisco num furgão com sua melhor amiga, Bonnie, pode agora ter se lembrado de muitos outros factos que permitam a identificação da personalidade anterior.
Se eu pesquisasse os acidentes de trânsito envolvendo mortes acontecidas entre cinco e dez anos antes do nascimento da menina, teria chances de encontrar uma Bonnie que morrera acompanhada de outra mulher num acidente com furgão.
Naturalmente, minha amiga sequer se lembrava do nome da moça e nem tinha certeza de que Bonnie era mesmo o nome da pessoa que também morrera no tal acidente.
Estava contando essas histórias para o meu amigo, Gene Weigarten, editor e colaborador do Washington Post, uma das pessoas mais cépticas que conheci, o tipo de indivíduo que preferia enfiar a mão numa máquina de moer carne do que admitir a possibilidade de acreditar em fenómenos paranormais.
Ele me deixou concluir e depois disse:
– Você se lembra daquela história sobre o irmão de Arlene?
Arlene, a esposa de Gene, tinha crescido em Connecticut.
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Re: Almas Antigas / Tom Schroeder

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