Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:32 pm

“Bem-Aventurados os Pobres de Espírito”
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. Rochester – espírito

Romance

Prefácio

John Wilmot, Conde de Rochester, foi um poeta satírico inglês, de vida dissoluta e vasta cultura, morto aos 33 anos.
Em espírito, Rochester teria ditado à médium Wera Krijanowskaia, entre 1882 e 1920, 51 obras entre romances e contos, dezenas dos quais traduzidos para o português.
Sua temática começa pelo Egipto faraónico, passando por exemplo pela antiguidade greco-romana, pela idade média e pelo século XIX.
Nos romances de Rochester, a realidade navega num caudal fantástico em que o imaginário ultrapassa os limites da verossimilhança, tornando naturais fenómenos que a tradição oral cuidou de perpetuar como sobrenaturais.
Ele revela o inaudito, o elidido, os pontos abissais da história, da lenda e do “pathos” humano.
Rochester é um analista de estados de alma que sincretiza a história com as paixões humanas, assentando-as em narrativas quase sempre vertiginosas nas quais o insólito e o misterioso são invariantes que assinalam seu estilo sem compor uma receita de entretenimento ligeiro, subordinada as formulas de mercado que orientam os romances populares.
Aceitando ou não a obra de Rochester como psicografia, veremos que sua proposta de veridicção afina-se com o ideário realista: de reprodução de uma sociedade e seus pontos de contacto com cronologias históricas. Seus entrechos, rentes a realidade buscam a verossimilhança em digressões vertiginosas.
A referencialidade de Rochester é plena de conteúdo sobre costumes, leis, antigos mistérios e factos insondáveis da história, sob um revestimento romanesco, onde os aspectos sociais e psicológicos passam pelo filtro sensível de sua hiperbólica imaginação. Em sua recriação da realidade, nenhum detalhe é desprovido de interesse; atentando para o seu virtuosismo descritivo, observa-se que certas passagens constroem-se sobre um derramamento estilístico de inclinação romântica.
Os parênteses descritivos de Rochester ora precipitam, ora retêm o curso narrativo, verticalizando e esquadrinhando microscopicamente os espaços físicos e psicológicos.
Ao lado da explosão dos dados emocionais, o autor ajusta as causas que determinam o comportamento humano e, por isso, nenhum dos personagens é gratuito.
Quanto a acção moral a que se propunham os realistas, Rochester oferece indícios quando induz o leitor a reflexão, repelindo simplificações moralizantes e antiéticas sobre o bem e o mal.
A narrativa apenas, aparentemente, tangencia os atractivos dos textos folhetinescos, como o carácter informativo que transparece nos desvãos históricos ou nos fenómenos singulares que põem a ciência e as leis naturais.
Enquanto os mitos persistem no produto folhetinesco, Rochester invalida-os em suas obras, redefinindo, por exemplo, figuras legendárias, como José e Moisés; ultrapassando as crónicas que os sacralizaram.
Sua escritura combina a epopeia e o drama.
Rochester, na linha da imaginação romanesca do século XIX, aproxima-se do “romance total”, que enfeixa o diálogo, o retrato, a paisagem, o maravilhoso, desviando da força mítica do herói para um passado mais longínquo que a idade média (o espaço eleito para a fuga dos românticos), o que há de dramático em seu texto concentra-se na inexorável e precária condição mortal do homem, no que ela tem de permanente e atemporal.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:32 pm

A classificação em Rochester é dificultada por sua expansão entre várias categorias: terror gótico, romance sentimental, sagas de família, aventuras e incursões pelo fantástico.
Sob sua natureza criadora o autor revela os arcanos de civilizações que nos fascinam e apropria-se do que é prosaico ou bizarro, recompondo episódios complexos e identificando relações internas de “tempo, espaço, personagens”, que compreendem seu conteúdo estético, bem como o inventário histórico, a recuperação do real e questões metafísicas ou filosóficas que constituem seu conteúdo ideológico.
Remanejando fórmulas narrativas do romance ao conto, Rochester vai revendo a espacialidade e a temporalidade, empreendendo uma viagem ao enigmático, numa pluralidade de factos revisitados na memória.
A complexidade da transmigração de um determinado grupo de espíritos que se reencontra em sucessivas reencarnações, no plano literário converte-se numa migração de personagens de uma obra a outra.
Pode-se dizer que a sua literalidade actualiza ou reinterpreta questões universais, como conflitos de poder ou formação de valores, fazendo uma fusão do real e do imaginário em atmosferas trágicas, cabendo ao leitor o esforço de preencher os vazios significativos (sobretudo quanto as leis de causa e efeito), reconhecendo nessa tarefa um dos atributos que um texto artístico apresenta em sua contextualização do real.
Assim, do ponto de vista linguístico e estético, Rochester produz um discurso literário e, do ponto de vista referencial e historiográfico, reproduz uma realidade.
Percorrendo a narrativa de Rochester, observamos que capítulos de maior ou menor tensão alternam-se, produzindo expectativas num leitor enredado pela fragmentação narrativa, organizada fora de sequência temporal linear.
Sobre os personagens de Rochester, pode-se dizer que estes não existem a serviço do enredo, para sustentar uma tese de ordem moralizante e criadora de identidades:
eles pertencem a uma narrativa que sonda episódios históricos com instrumental literário, de modo a não perder seus referenciais sob arranjos ficcionais (o que redundaria em personagens moldados consoante o público que se pretende atingir, um dos paradigmas do folhetinesco).
Rochester põe o leitor em contacto com a forma inaugural do mito, no que diz respeito, por exemplo, ao enigma da esfinge (surgida de quase delírio) e suas associações reveladoras, fazendo emergir sentidos que ultrapassam o valor expressivo e denotativo do fenómeno, irrompendo no leitor o fascínio de seus segredos, como em “O Chanceler de Ferro”.
A génese do lendário e do maravilhoso deita raízes nas narrativas populares, que passaram da primitiva oralidade a literatura moderna através de um manancial de textos, de origem anónima ou colectiva, proveniente do oriente e dos celtas.
No fim do século XIX, manuscritos egípcios de três mil e duzentos anos “mais antigos que os textos indianos” segundo Nelly Novaes Coelho, foram encontrados em escavações na Itália, pela egiptóloga Mrs. D'Orbeney.
Nesses manuscritos está o texto-fonte do episódio bíblico “José e a mulher de Putifar”.
Rochester, em “O Chanceler de Ferro” enriquece com detalhes este episódio, sem recorrer a soluções de modernidade.
Revelando as matrizes da depreciação da imagem feminina, que as narrativas populares encarregam-se de difundir, ele adentra os meandros que conduziram a mulher de Putifar a ser acusada de traição.
Quando se refere aos judeus, em três de suas obras, Rochester levanta os preconceitos que consolidaram muitos dos estereótipos que lhes são atribuídos, numa pesquisa da tradição judaica e das marcas históricas que acompanham seu povo a muitos séculos, tendo sido ele judeu em passagens significativas, em diferentes culturas.
Quanto ao foco narrativo, a obra de Rochester ora através do narrador omnisciente, ora através de narradores nomeados, apresenta diferentes versões de um facto, segundo as perspectivas e licenças individuais de que as protagonizou.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:32 pm

Dessa forma em romances como “O Faraó Mernephtah”, “Episódio da Vida de Tibério” ou “A Abadia dos Beneditinos”, uma determinada acção vivida por vários personagens é captada sob diversos ângulos pelo leitor: o enfoque de cada narrador oferece uma observação material e subjectiva, traduzindo suas distâncias interiores e sua vida psíquica.
Assim, por exemplo, vemos em “Episódio da Vida de Tibério”, o depoimento de quatro personagens.
A narrativa se constrói sob diferentes repertórios, num movimento dialéctico de fragmentação (por parte da narrativa) e síntese (por parte do leitor).
Os pontos de vista em Rochester são construídos a partir de visão por trás e da visão com, segundo a definição de Jean Pouillon.
O saber do narrador é ostensivo: ele tudo sabe sobre a intimidade dos personagens, apropriando-se de seus pensamentos e atitudes.
Essa cobertura totalizante atendia a uma preferência dos leitores do século XIX, ávidos pela densidade dos factos.
Como narrador omnisciente, o autor projecta sobre os elementos físicos e psicológicos sua linguagem perita, verticalizando e adensando-lhes os traços exteriores e interiores, compondo imagens feitas de metáforas, antíteses e hipérboles, polarizando no texto a fluidez e o congelamento de cenas com o mesmo impacto.
Os personagens e o narrador sofrem uma simbiose de seus estados mentais, vivendo um pela palavra do outro.
Seu efeito de realidade não se expressa em sua autoridade de narrador e sim em sua capacidade literária de reconstrução, de investigação, possibilitando novas interpretações, permitindo que a ficção e a realidade se confundam na relatividade das vozes de seus personagens, tocando a visão positivista do século XIX, em que a história conta-se a si mesma, espelhando o mundo real pela linguagem.
Sua exaltação sensorial apreende o mundo com os olhos do realista, acrescentando, às vezes, pulsações românticas, não apenas sentindo, mas vendo, apalpando, experimentando, levando o leitor a perceber que a sensação é elemento fundamental no conhecimento do mundo.
Entre poeirentas planícies, templos místicos, arenas sangrentas e fumas hostis, Rochester actualiza, como os matizes de uma pintura, os ignorados espaços da história.
Seu empenho pictórico opõe o descritivismo funcional do Realismo ao descritivismo decorativo do Romantismo, num compromisso do senso real com a imaginação.
Nos textos de proposta realista, o testemunho subjectivo individual romântico cede lugar ao depoimento objectivo e crítico, julgando os factos a partir dos valores condicionados socialmente impulsionados pelo pensamento científico e económico, lembra Nelly Novaes Coelho.
Rochester surge justamente num período de crise da representação simbólica da arte e da fragmentação do indivíduo que, como sujeito textual, não confere com o ideal pleno do herói, pondo em dúvida os valores absolutos.
Por ser depositária de preceitos espíritas e levantar questões metafísicas com competência, a fruição na obra de Rochester transcende a cotação da sensibilidade e o julgamento do gosto:
o leitor divide-se entre o prazer da expansão subjectiva do autor e o cepticismo diante da objectividade dos laivos filosóficos, científicos e históricos que, se não surpreendem pelo real, surpreendem pelo lendário.
Seu universo imaginário é um excedente do real, atestando fenómenos produzidos pelo homem, desnudando mitos e decifrando enigmas.
A combinatória desses elementos pelo jaez de sua escritura é que permite o trânsito de Rochester além da literatura espírita, possibilitando que seus romances encerrem uma sobreposição de textos que lhe dão um estatuto ora documental, ora ficcional, ora fantástico.
Thais Montenegro Chinellato
São Paulo, 17 de Outubro de 1998
obs.: para aprofundamento do estudo sobre a obra de Rochester veja: “O Espírito da Paraliteratura” – Thais Montenegro Chinellato – ed. Rhadu -1989
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:32 pm

Prólogo

À distância de uma hora de Prankenburgo, capital do ducado de mesmo nome, havia uma casa de campo, cercada por um vasto jardim.
A maciça casa de alvenaria de dois andares, enfeitada de ambos os lados por terraços com colunas, não se destacava por sua elegância, mesmo sendo de pretensioso estilo italiano, mas, em compensação, o seu jardim era maravilhoso.
A propriedade chamava-se Rosencheim e a quantidade de rosas que floresciam nas alamedas justificava inteiramente o nome.
No dia em que começa a nossa história, toda a casa fervia numa agitação extraordinária.
A criadagem corria num vaivém, terminando apressadamente os preparativos para o almoço de gala.
As rosas foram podadas para a confecção de guirlandas e para adornar as portas da casa e o embandeirado portão de ferro, inteiramente aberto.
Embaixo dos carvalhos que rodeavam a comprida alameda da entrada, havia uma multidão de curiosos; alguns deles pertenciam à equipe de empregados de Rosencheim, outros eram moradores da aldeia que se distinguia ao longe.
Afastado da ruidosa multidão, estava sentado sobre a grama um velho e abastado camponês que conversava baixinho com uma mulher de meia-idade, que evidentemente envelhecera prematuramente devido ao trabalho.
— Mas que surpresa!
Eu achava mais fácil a Lua descer à Terra do que você visitar a cidade e conseguir encontrar-me aqui, tio André – disse a mulher, rindo.
— Se não tivesse acontecido esta história com a herança da qual lhe falei, é claro que não teria abandonado o meu antigo ninho – respondeu o velho, sorrindo.
— Mas se cheguei aqui, é porque queria vê-la, tia Domberg, e também visitar a minha afilhada, que agora deve completar uns dezasseis anos.
Quando fui ao seu antigo apartamento, lá me disseram que Manchen está estudando em algum lugar e que você trabalha para a senhorita Helena, que irá se casar.
— Sim, a sua mãe me contratou para lavar a louça e ajudar o cozinheiro, porque parece que os noivos viverão esbanjando.
Aceitei esse emprego porque o trabalho de lavadeira é muito penoso e já estou começando a envelhecer.
Descascar legumes é mais fácil do que lavar roupa.
Aliás, espero em breve descansar e viver como fidalga.
— Vejam só!
Será que você também, tia Domberg, está esperando uma herança? – perguntou maliciosamente o velho.
— Não é nada disso!
Veja bem, Manchen está terminando o curso na escola de balé, logo irá debutar no teatro do Grã-ducado e todos acham que ela terá uma carreira brilhante, porque ela é linda como um anjo.
Você mesmo irá se convencer quando a vir.
E ela me prometeu que, assim que arrumar um emprego, irá me chamar para trabalhar como governanta.
— Grandes esperanças, Domberg!
Queira Deus que se realizem!
Mas pode me dizer quem está se casando com a senhorita Helena?
Apesar das disputas de vizinho entre mim e seus pais, tenho muito interesse por essa moça que vi crescer diante dos meus olhos.
A propósito, será que você não sabe como estão a senhora Eguer e sua filha, após a morte do barão?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:33 pm

A sua propriedade foi vendida e a viúva parece ter mudado para a cidade.
— Olhe, posso dar-lhe as mais precisas informações, porque sempre lavei roupa para a senhora Eguer.
Edith e Helena eram grandes amigas no começo, mas ultimamente essa amizade acabou, por causa de um jovem de que ambas gostaram.
— E, obviamente, Edith o surripiou de bem debaixo do nariz da outra, não foi?
Ela é linda!
— Mas é claro que não!
Edith não possui um centavo no bolso, enquanto que Helena, dizem que receberá uma grande bolada e um dote grandioso.
E é ela quem se casará com ele hoje.
— E quem é esse jovem tão prático e calculista?
— Um oficial hussardo, o barão Gunter Vallenrod-Falquenau, um jovem muito bonito e de ascendência ilustre.
Dizem que está cheio de dívidas, mas Helena está louca por ele e sua mãe sonha em ver a filha tornar-se baronesa.
— Mas esse oficial pode estar enganado em seus cálculos!
Eu soube pelo administrador de bens da senhora Rotbach que a situação financeira dela também é precária – notou Andrei.
— Não me diga?!
Em todo caso, ele terá o que merece por sua conduta traiçoeira com respeito à pobre Edith, de quem foi quase noivo.
A coitada da moça noivou por desespero com o barão Detinguen...
Olhe, lá vem de volta a comitiva do casamento.
Venha comigo, tio Andrei!
Vou colocá-lo num lugar onde poderá ver a todos.
Uma longa fileira de carruagens apareceu na estrada, vinda da cidade, e logo a primeira carruagem parou à frente da entrada.
Eram os recém-casados.
O barão Gunter era realmente um jovem bonito, alto e esbelto e seu uniforme de hussardo destacava mais ainda a sua beleza.
O rosto fino e aristocrático, emoldurado por uma barbicha, tinha uma expressão de arrogância e desdém.
Entretanto, uma palidez doentia e um certo fastio, reflectidos em toda a sua aparência, indicavam uma vida agitada.
O barão foi o primeiro a saltar da carruagem; ofereceu a mão à esposa e seu olhar sombrio, deslizando indiferentemente sobre ela, dirigiu-se à moça que descia da próxima carruagem.
Mas a esposa pareceu não perceber aquilo; o barão suspirou e seguiu-a pela escada.
A recém-casada era uma mulher alta e de compleição forte, que tinha uma aparência bonita com o véu e o vestido de noiva rendado.
Tinha um frescor na pele do rosto que poderia disputar em condições de igualdade com qualquer moça do campo; por entre os entreabertos lábios púrpura viam-se dentes bonitos, fortes e de brancura deslumbrante.
Porém os olhos penetrantes e maldosos e os traços vulgares do rosto, privados de qualquer graça, não reflectiam nem bondade, nem inteligência.
Naquele momento, ela transpirava satisfação e ostensivo triunfo.
Logo todos se sentaram à mesa. Havia poucos convidados, mas estrelas e condecorações, que enfeitavam os homens, e diamantes e rendas, que cobriam as damas, indicavam que os convidados pertenciam à nata do mundo da aristocracia e do mundo financeiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:33 pm

Quase em frente aos recém-casados, que ocupavam o centro da mesa, estava sentado um casal jovem ao qual a sociedade também dirigia felicitações e brindes.
Eram Edith Eguer e o barão von-Detinguen.
O barão era um homem muito simpático de uns trinta anos, que não se distinguia pela beleza.
Seus olhos azuis e tranquilos olhavam com indisfarçável adoração o rosto encantador da sua futura esposa.
Edith era realmente fascinante.
Ela era tão esbelta, esguia e delicada, que parecia etérea.
Seus traços não eram regulares, mas transpiravam um extraordinário encanto e a cor do seu rosto era branca e transparente.
Mas o que dava um encanto especial às suas feições eram os seus grandes olhos cinza-azuis, que brilhavam sombriamente sob grandes cílios.
Esse olhar e o desenho da pequena boca cor-de-rosa indicavam um carácter sensual e autoritário.
Naquele momento ela parecia sofrer e estava muito irritada.
E somente quando se dirigia ao noivo, um sorriso bondoso iluminava-lhe o rosto.
O recém-casado também estava emocionado.
Por vezes, seus olhos passavam rapidamente por Edith, mas ao encontrar seu olhar gélido, o rosto do jovem oficial sofria uma leve contracção e seus lábios tremiam nervosamente.
Não se sabe se a baronesa Helena conseguiu captar uma dessas cenas mudas ou simplesmente sentiu o quanto era desfavorável para si a comparação com Edith, o facto é que olhou para ela com ódio e começou a amassar, embaixo da mesa, as rendas com as suas mãos grandes e fortes com tanta força que as rasgou.
Depois do almoço, a noiva recolheu-se ao seu quarto para trocar de roupa.
Ela colocava o chapéu de viagem diante do espelho, quando a porta se abriu e Edith entrou no quarto.
— Vim para despedir-me.
Minha mãe está com uma forte enxaqueca e quer voltar para casa – disse ela num tom cortês e frio.
A baronesa corou fortemente.
Depois de deixar que sua empregada saísse, aproximou-se da amiga e quis abraçá-la.
— Por que tanta frieza, tanta inimizade?
Edith deu um passo para trás e mediu a recém-casada com um olhar de desprezo.
— Pare com esta comédia.
Você está muito enganada, se pensa que vou calar sobre tudo que sei.
Não posso sentir amizade por uma mulher que não poupou meios para possuir o homem que notoriamente não a ama e é amado por mim.
Gunter se vendeu; eu sei muito bem que a situação financeira dele não está boa.
Depois de saber deste facto vergonhoso, deixei de amá-lo e você pode estar segura de que não ficarei no seu caminho.
Não vou fingir que a minha fenda fechou-se hoje; mas, em compensação, vejo com satisfação que o seu marido trata-a com completa indiferença.
Você comprou o seu nome, mas não o seu coração!
Acrescente a isto que você enganou o barão no que se refere aos bens da sua família:
eu sei que sua situação financeira não está nada bem.
Para deitar poeira nos olhos de Gunter e poder fazer o seu dote, vocês empenharam no Dochman os diamantes de família e suas terras em Bless.
Eu, obviamente, nada disse a ele.
— Isto é uma mentira!
É uma calúnia!— exclamou Helena, enrubescendo de raiva e susto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:33 pm

— O futuro mostrará se isto é mentira! – disse Edith.
Só que eu prevejo para você – continuou ela com um tom zombeteiro – que o barão a fará pagar caro, quando souber que foi vítima de uma fraude.
E agora mais uma vez adeus – e, espero, para sempre!...
E sem esperar resposta, voltou-se e saiu do boudoir.
O quarto ao lado estava vazio, mas no corredor Edith encontrou inesperadamente o noivo, que também estava indo vestir o traje de viagem.
Ao vê-la, Gunter empalideceu e, inclinando-se para ela, murmurou surdamente:
— Edith! Por tudo que é santo, não me olhe com tanta frieza.
Diga que me perdoa.
A senhorita não sabe como estou sofrendo; e, mesmo assim, não pude agir diferente!...
Os olhos brilhantes de Edith ficaram enevoados por instantes, mas sua voz estava totalmente tranquila, quando disse com frieza:
— Nada tenho a lhe perdoar, barão!
Espero que hoje o senhor esteja fazendo alusões ao passado pela última vez.
O senhor está casado e agora tem novas obrigações; eu também, daqui a algumas semanas, vou me casar e deixar Prankenburgo.
Assim, os nossos caminhos não mais se cruzarão.
Mas, se o senhor acredita que preciso perdoar-lhe por algo, então faço-o de todo o coração.
Edith estendeu-lhe a pequenina mão enluvada que o barão apertou contra seus lábios.
Uma hora depois, os recém-casados deixaram Rosencheim e viajaram a Nápoles, o destino final da sua viagem de núpcias.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:33 pm

I

O outono já cobrira de ouro e púrpura as alamedas sombreadas de Rosencheim.
As árvores desfolharam e a terra encheu-se de folhas amareladas.
Embora o ar permanecesse quente e os raios pálidos do sol penetrassem através das nuvens, toda a natureza apresentava os traços da tristeza serena que caracteriza o outono.
Numa área circular coberta com areia, em frente ao terraço, estavam espalhados brinquedos: cavalo, espada, capacete e instrumentos de jardinagem.
Um menino de nove anos, em traje de marinheiro, trabalhava aplicadamente na construção de um castelo de areia, enchendo seus bastiões com soldadinhos de chumbo, canhões e até cavaleiros.
A alguns passos do castelo de areia, ao lado do banco onde estava sentada uma idosa governanta fazendo tricô, havia um carrinho de bebé com uma menina de três anos.
Ela era tão miúda que não aparentava nem dois anos. Ocupada com a batalha que se passava à sua frente, a menina revirava distraidamente nas mãos uma boneca que usava um traje medieval e um adorno alto na cabeça.
De repente o menino viu a boneca.
De um pulo só, encontrou-se ao lado da menina e arrancou o brinquedo de suas mãos.
— Dagmara, me dá a Geneviéve de Brabant!
Ela será a rainha presa no castelo que estou tomando de assalto!— exclamou ele.
E sem esperar resposta, pôs a boneca por entre os bastiões de areia e começou a comandar em voz alta tanto o assalto como a defesa, procurando imitar não somente os tiros de canhão, mas também os gritos dos combatentes e dos feridos.
— Será que não dá para parar com esse barulho doido, Desidério? – ouviu-se uma voz irritada vinda do terraço.
Por onde voam seus pensamentos, senhora Golberg?
Por que não faz parar esse jogo insuportável?
A governanta corou e fez uma observação à meia voz ao menino; este, dando mostras de aborrecimento, derrubou com um chute o castelo, junto com os defensores e assediadores.
Depois, puxou o cavalo para si e começou a arrancar os fios do seu rabo.
A baronesa Helena Vallenrod-Fa1kenau chamou novamente a atenção do menino e voltou a bordar.
Suas sobrancelhas e lábios bem cerrados indicavam claramente a raiva mal contida.
Nos anos que se passaram, ela ficara longe de ser bonita.
O seu rosto tornara-se um pouco mais pálido, mas as faces carnudas permaneceram vermelhas, dando-lhe uma coloração especialmente vulgar.
Ela usava um simples vestido cinza e cobria a cabeça com um lenço preto de renda.
O descontentamento e a preocupação que se reflectiam no rosto da baronesa tinham seus motivos.
A vida conjugal da família Vallenrod não era feliz.
Gunter levava uma vida desregrada e era o protagonista de toda sorte de aventuras, que as amigas prestativas logo levavam ao conhecimento da esposa e, com isso, provocavam cenas pesadas e brigas constantes entre o casal.
Por mais legítimos que fossem os ciúmes de Helena, o barão, que jamais amara a esposa, indignava-se com ela, chegando a ficar furioso e, finalmente, passou a sumir de casa por três a quatro dias seguidos, apesar de todo o amor que devotava ao seu único filho.
Além disso, após a morte da mãe, a situação financeira da baronesa Helena ficara muito complicada.
Ela nada sabia sobre os negócios do seu marido, mas tinha sólidas razões para supor que semelhante modo de vida poderia consumir até uma fortuna bem maior.
Como Gunter conseguia sustentar a sua vida desregrada era positivamente um grande mistério para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:33 pm

A pequena Dagmara era a afilhada do barão e o seu aparecimento na casa provocou cenas tempestuosas entre o casal, pois a menina era a filha da ex-amiga Edith, a quem Helena não perdoava por ter sido amada por Gunter.
Desde o casamento elas não se viam, porque os Detinguen moravam numa cidade distante onde se desenrolou o fim do drama da vida do jovem casal.
De natureza apaixonada, Edith se casara sem amor.
A vida enclausurada do seu marido e a sua paixão pela ciência não satisfaziam as aspirações dela à vida mundana com que procurava preencher o seu vazio espiritual.
Acabou acontecendo que Edith apaixonou-se por um oficial brilhante, o conde Victor Helfenberg, que também se apaixonou por ela e, apesar de todos os obstáculos, os jovens logo se casaram.
Mesmo aturdido por esse golpe, o barão Detinguen não vacilou nem por um minuto para dar o divórcio à mulher que amava, colocando uma única condição – que deixasse a filha com ele.
Edith concordou e a reprovação geral agravou-se com a renúncia da mãe à guarda da filha.
Já para o conde Victor esse casamento teve consequências desastrosas, pois fê-lo romper definitivamente com os seus parentes.
Essas desavenças tiveram efeito pernicioso na jovem condessa Helfenberg.
Apesar do casamento feliz, a sua saúde ficou abalada e alguns meses após o nascimento de Dagmara, ela se apagou aos poucos.
O conde ficou absolutamente desesperado.
Não se sabe se foi essa desgraça que o influenciou ou se a doença da condessa era contagiosa, mas a partir daquela data o conde caiu em estado doentio e, ao resfriar-se em manobras militares, apanhou uma tuberculose galopante e, um ano e meio após a morte da esposa, também desceu à sepultura.
Sentindo a aproximação da morte, o conde pensava com tristeza na pequena Dagmara, que deixaria completamente órfã e só no mundo, pois tinha brigado com todos seus parentes e não queria de modo algum pedir ajuda ao seu tio; a mãe de Edith também falecera.
Nessa difícil situação, lembrou-se de seu amigo de infância e colega de escola militar, o seu parente distante, barão Vallenrod.
Apesar de que eles não se viam havia vários anos, ainda assim o conde decidiu nomeá-lo tutor de sua filha.
O conde nem suspeitava que Gunter amara certa vez a sua falecida esposa, e por isso ficou muito grato quando em resposta à sua carta o barão veio pessoalmente e lhe assegurou que amaria e criaria Dagmara como sua filha.
Tudo foi devidamente legalizado.
E então, apesar da raiva e protestos da baronesa Helena, a pequena condessa Helfenberg já havia mais de um ano morava sob o seu tecto.
Gunter amava muito a menina, cujos grandes olhos cinza com textura de aço lembravam-lhe Edith; mas a baronesa odiava a filha de sua rival e fazia-a sentir essa antipatia, mas de modo que seu marido nada percebesse.
No dia em que reiniciamos a nossa narrativa, a baronesa estava sobretudo irada porque o barão, já havia cinco dias, não retornava a Rosencheim.
Essa prolongada ausência deixou-a tão furiosa, que ela resolveu pregar ao marido um sermão que ele jamais ouvira.
O ruído forte da carruagem fez a baronesa erguer a cabeça.
Ela num ímpeto deixou de lado o bordado e, vendo Desidério correr entusiasmado para o terraço, ao ouvir a carruagem se aproximando, gritou em tom autoritário:
— Fique e continue brincando!
Você não vai receber seu pai...
O menino, aborrecido, ficou perplexo e lançou um olhar de soslaio para a mãe; mas não se atrevendo a desobedecer, saiu andando devagar em direcção à governanta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:34 pm

Nesse instante apareceu no terraço o criado, trazendo um cartão de visitas na bandeja de prata.
— Karl Eshenbach, tabelião – leu Helena surpresa.
Você disse a ele que o barão não está em casa?
— Disse, baronesa.
Ele, entretanto, insiste em ser recebido – respondeu o criado.
— Está bem! Deixe-o entrar.
Entrando na sala de estar, ela viu um senhor idoso e com aspecto doentio, que se levantou e inclinou-se respeitosamente.
— Senhora, peço magnânimas desculpas por ousar incomodá-la.
Mas, infelizmente, o senhor barão, com quem tenho um negócio a tratar, não se encontra em casa.
Ontem à noite, também não o encontrei no apartamento da cidade.
— Meu marido deverá voltar logo, creio, por isso peço ao senhor que o aguarde. Se o negócio é muito importante, posso tentar encontrá-lo.
— Agradeço, senhora baronesa, mas não posso mais esperar.
Um importante assunto de família me aguarda na América e tenho exactamente o tempo de que preciso para chegar a Bremen e pegar o navio transatlântico.
Por isso, resolvi aproveitar a sua bondade, pois trata-se de uma simples formalidade.
A missão se refere à pupila do seu marido, a condessa Dagmara von Helfenberg.
A senhora sabe que o casamento do falecido conde Victor acarretou o rompimento total com os seus familiares.
Não obstante, o seu tio, conde Ebergardt, amava o seu sobrinho e está preocupado com o destino da filha dele, que herdou meios muito limitados.
Por isso, ele resolveu dar à pequena condessa o dinheiro que na época estava predestinado ao conde Victor.
Entretanto, ele não quer fazer isto abertamente para não provocar descontentamento por parte de seus filhos e, o que é mais importante, de sua esposa, que tratava com especial hostilidade a senhora Detinguen.
Como a soma destinada a Dagmara foi formada aos poucos com as economias particulares do conde, a sua família não poderá pretender este dinheiro.
Então, eu trouxe comigo duzentos mil marcos que o velho conde está enviando para o barão, como tutor da menina.
Aqui há uma carta:
nela o conde Ebergardt pede ao barão Vallenrod que junte este dinheiro ao capital que ele já tem em mãos.
E como o marido da senhora não está em casa, peço a senhora baronesa que verifique os valores nesta pasta e passe-me um recibo, atestando que a senhora os recebeu para entregar ao seu esposo.
Dito isso, o tabelião tirou da maleta de couro uma pasta grande e uma carta, entregando-as à baronesa.
— Mas é claro, senhor Eshenbach, farei isso com prazer.
Vou agora mesmo verificar os papéis e lhe darei o recibo necessário.
Em poucos minutos tudo foi concluído.
O tabelião leu com atenção o recibo da baronesa, fez uma anotação nele e guardou-o na carteira.
Em seguida, despediu-se, agradecendo cordialmente à dona da casa pela gentileza.
A baronesa juntou o dinheiro e os títulos, contou-os mais uma vez e trancou tudo na escrivaninha e depois, apoiando-se com o cotovelo na mesa, ficou pensativa, carregando o cenho.
— Que futuro brilhante esperava essa Edith, mulher estouvada.
Se esses dois imbecis não morressem, o velho acabaria perdoando-lhes – pensava Helena.
Esta menina repugnante que Gunter enfiou na nossa casa tem tanta sorte quanto a sua condigna mãe!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:34 pm

Duzentos mil marcos!
Junto com o que ela já tem fará uma fortuna considerável.
Devo casá-la com Desidério.
Será um partido brilhante, pois o pobre menino não receberá muito de nós.
E com o que Gunter paga a sua boémia?
Provavelmente, deve ter dívidas.
Da minha parte as coisas também não estão indo bem, pois não é barato administrar a casa do jeito que o barão gosta.
É preciso que a herança de Dagmara ponha em ordem as nossas finanças.
Ela será bonita como a mãe e o nosso menino não irá se opor.
Enquanto isso, é preciso aproveitar o rendimento deste capital para dar uma educação a Desidério, digna de sua origem.
Isto, é claro, não é muito agradável – ela deu um suspiro – mas o que fazer?
E além disso, nunca ninguém saberá!
Recostou-se na poltrona, fechou os olhos e a tal ponto concentrou-se em suas reflexões, que não ouviu o barulho de carruagem chegando.
A carruagem entrou rapidamente no pátio e um oficial da guarda saltou para fora dela.
Era um homem de meia-idade, e na sua cabeça começavam a aparecer os primeiros cabelos grisalhos.
Nesse momento, o seu rosto enérgico e bondoso estava muito emocionado.
Ele proibiu que o criado o anunciasse e dirigiu-se directamente à sala de visitas.
O barulho da porta abrindo, tirou a baronesa da sua meditação.
Descontente por ser incomodada, ela se levantou, dirigindo-se à porta, mas ao ver o coronel Nzenburg, chefe do seu marido, Helena imediatamente adoptou um aspecto gentil e estendeu a mão.
— Que surpresa inesperada, coronel! – disse ela, sorrindo.
Mas o senhor está sozinho!
O meu marido não veio junto com o senhor?
O coronel apertou fortemente a mão estendida e depois a levou aos lábios.
Uma difícil luta interior reflectia-se claramente em seu rosto pálido.
Finalmente, ele disse com esforço, baixo, e pausadamente:
— Eu vim sozinho, baronesa, e trouxe uma notícia triste!
Imploro-lhe, senhora, que seja firme, pense no seu filho e procure colher a coragem necessária em seu sentimento materno para suportar com dignidade o golpe que caiu sobre vocês.
A baronesa empalideceu.
Dominada por um tremor nervoso, encostou-se na poltrona e exclamou com voz rouca:
— Pode falar, coronel.
O que aconteceu com Gunter?
Quero saber de tudo!
— O barão suicidou-se hoje às cinco horas da manhã.
Por esta razão, devo especialmente dirigir-me à sua misericórdia cristã e à indulgência com que temos de tratar as fraquezas do próximo.
Aliás, Gunter condenou a si próprio!
Depois da noite que passou na divertida companhia da bailarina Maria Domberg, o barão foi para o quarto da anfitriã e deu um tiro no próprio coração.
Um grito de animal ferido escapou dos lábios da baronesa.
Uma crise de nervos a derrubou, fazendo-a debater-se no chão, gritando, rindo e soluçando ao mesmo tempo.
O coronel correu para ajudar, querendo segurá-la e levantá-la, mas a baronesa o rechaçava com as mãos e pés com tanta força, que ele desistiu da tentativa e tocou a campainha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:34 pm

Chegaram correndo o criado e a camareira; na mesma hora, Desidério, achando que o papai tivesse chegado, apareceu na porta do terraço, mas vendo a mãe rolando no chão como louca e os empregados tentando em vão levantá-la, gritou e começou a chorar alto.
A cena era tão desagradável, que o coronel aproximou-se da criança e levou-a para o jardim.
Após acalmar Desidério, ele pediu à governanta que levasse as crianças e não as deixasse entrar no quarto da baronesa.
Ao voltar à sala de visitas, tirou duas folhas do seu caderno de notas e escreveu dois bilhetes.
Ele já terminava de anotar os endereços quando na sala entrou o criado, todo vermelho e desolado.
— Foi bom você chegar, Franz, pois eu já ia chamá-lo para dar as instruções necessárias – disse o coronel, entregando-lhe os dois bilhetes.
Um você leva ao doutor Arnold, o outro deverá entregar ao tenente Nchter.
Você ajudará o tenente a transportar o corpo do barão da casa da senhora Domberg para o próprio apartamento.
Evidentemente, você não deve comentar aquilo que irá ver e ouvir! Entendeu?
— Então o nosso barão morreu? – murmurou o criado.
— Infelizmente, sim!
Eu lhe proíbo tagarelar exactamente sobre os detalhes do seu falecimento.
Mas como você vai?
Preciso deixar descansar os meus cavalos e esperar que a minha esposa chegue com o médico.
— Eu selarei o cavalo do barão e irei o mais rápido possível.
Depois de algumas horas, chegaram o médico e a esposa do coronel.
Graças à enérgica ajuda do médico e das palavras de consolo da senhora Nzenburg, a baronesa recobrou a calma suficiente para poder levantar e vestir-se.
Pálida e trémula, ela sentou-se na carruagem junto com a esposa do coronel e Desidério; o médico e Nzenburg embarcaram na outra, e todos partiram para a cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:34 pm

II

A morte do barão Vallenrod-Falkenau emocionou toda a cidade e provocou as mais diversas conjecturas.
A opinião pública estava contra o barão e todos sentiam pena de sua esposa, que, como se sabia, não era feliz em sua vida familiar.
O funeral foi realizado com as cerimónias de praxe.
Os colegas e amigos acompanharam o falecido e renderam-lhe honras militares.
A baronesa, mais calma, ouviu algumas sinceras condolências e voltou para casa, acompanhada pela compaixão de todos.
Com o rosto pálido e desfigurado pela raiva, ela olhava com os olhos fixos e bem abertos para uma série inteira de letras de câmbio e hipotecas que atestavam claramente que nada sobrara para ela.
Rosencheim com toda a mobília, os móveis do apartamento da cidade, prataria, brilhantes e até o capital de Dagmara – absolutamente tudo passara para as mãos de agiotas.
Para ela não sobrou nada, nem uma cadeira.
Agora ficara claro o motivo do suicídio do barão.
O esbanjador sem consciência não quis passar pela desonra e ruína total.
Depois de aliviar-se um pouco com as lágrimas, Helena endireitou-se e ficou pensativa, colocando a cabeça entre as mãos.
Não tinha mais tempo para chorar e muito o que fazer para verificar o que ainda tinha.
Restaram-lhe algumas jóias e uns milhares de marcos, sobras da pequena herança deixada pela avó, que ela gastou aos poucos com passeios, roupas e outras necessidades pessoais.
Porém isso não era suficiente para garantir nem a subsistência mais modesta; e a ideia de apelar para a bondade de parentes e da vergonha que inevitavelmente passaria, fazia-a tremer, parecendo que um abismo sem fundo se abria sob seus pés.
Dominada por um tremor nervoso, Helena foi até a escrivaninha; tinha que contar exactamente o que lhe restara.
Puxou maquinalmente a cadeira para junto da escrivaninha, abriu a gaveta e no mesmo instante estremeceu e jogou-se para trás.
Seus olhos arregalados se cravaram no pacote de títulos e dinheiro que o tabelião Eshenbach trouxera.
O rosto pálido ruborizou-se fortemente e os dedos trémulos reviravam os valores que prometiam riqueza, abundância e futuro garantido.
Uma ideia tentadora passou como um relâmpago pela cabeça da baronesa.
Ninguém sabia da existência desses duzentos mil marcos.
E nem Eshenbach, nem o velho conde Helfenberg jamais pensariam em exigir o dinheiro de volta, porque o primeiro voltaria dos Estados Unidos só Deus sabe quando, e o outro não queria que os demais soubessem sobre o presente que fizera.
Além do mais, a visita do tabelião e a morte de Gunter foram muito coincidentes!
Quem poderia provar, sobretudo depois de alguns anos, que aquele dinheiro não parara nas mãos do barão e que ele não o gastara, como o fizera com o capital que Dagmara herdara do pai?
Quanto mais ela pensava, mais fácil lhe parecia apoderar-se daquele dinheiro sem qualquer risco.
É verdade que aquilo seria um roubo, mas a necessidade estava forçando-a a isso.
Será que ela poderia, por simples remorsos, sacrificar o futuro do seu filho?
Condenar Desidério à miséria, fechando-lhe qualquer caminho para uma carreira brilhante, só para preservar a situação da filha de sua rival que roubara dela, Helena, o coração de Gunter, iniciando com isso a desgraça que hoje a abalava?...
Uma luta desesperada surgiu no coração da baronesa.
Apesar de todos seus defeitos e egoísmo, ela ainda não era uma criminosa e o roubo de uma propriedade alheia inspirava-lhe medo e repugnância.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:34 pm

O rosto desfigurado ora empalidecia, ora ruborizava-se e um tremor percorria o seu corpo.
Mas os pensamentos – servos subservientes do homem, executores espertos de desejos secretos e seus conselheiros traiçoeiros – sussurravam-lhe mil desculpas.
Finalmente, o horror inspirado pela vida que ela teria pela frente venceu todas as hesitações e abafou todos os seus remorsos.
Ainda pálida, mas firme e decidida, pegou a carta do conde Helfenberg e a queimou.
E quando esta reduziu-se a cinzas, ela cuidadosamente as limpou e fechou a gaveta da escrivaninha.
Dando um profundo suspiro, Helena levantou-se.
O fantasma da pobreza e da humilhação fora afastado para sempre.
Agora precisava somente tomar cuidado e agir de maneira a não despertar suspeitas.
Reencorajada, ela começou a andar pelo quarto e, depois de muito reflectir, organizou o seguinte plano de acção.
Começaria a viver do modo mais modesto; depois de algum tempo, ela se mudaria para a casa da sua velha, doente e rica parente da qual cuidaria e depois divulgaria boatos de que recebera a sua herança.
Essa viagem dar-lhe-ia a possibilidade de investir às ocultas o capital roubado.
No dia seguinte a baronesa já começou a pôr o plano em execução.
No subúrbio da cidade alugou uma casa simples com pomar e a mobiliou com o que havia lhe sobrado.
Em seguida despediu todos os criados, deixando somente a babá e a cozinheira e vendeu tudo o que poderia ser considerado supérfluo.
Ela agiu com tanta energia que nem haviam passado dez dias desde os funerais do marido e tudo já estava pronto e ela podia mudar-se para a nova casa.
Depois que a baronesa se mudou para a nova moradia, toda a alta sociedade apressou-se a expressar-lhe a sua disposição amigável e atenção.
A baronesa recebia as amabilidades com lágrimas de gratidão e devolveu as visitas a todos mas, fiel a seu plano, passou a levar uma vida mais modesta e solitária.
Agora ela vivia somente para o seu filho, dedicando-lhe uma ternura ilimitada e mantendo-o sempre perto de si.
Em compensação, ela passou a detestar Dagmara cada vez mais.
A pequena órfã, duplamente roubada, por seu marido e por ela própria, era o “memento mori” vivo do seu crime.
A presença da menina e a sua tagarelice inocente irritavam terrivelmente a baronesa.
Por fim, a babá e Dagmara acabaram sendo definitivamente encarceradas em seus quartos.
Para a felicidade de Dagmara, a bondosa Golberg gostava muito dela e se apiedava dela com todo seu coração: senão a pobre menina estaria muito mal.
A honesta governanta ficou muito indignada quando no verão a baronesa partiu com Desidério para a casa da sua tia enferma, deixando Dagmara sozinha.
A baronesa aproveitou essa viagem para aplicar os duzentos mil marcos.
A sua tia enferma faleceu e logo os amigos de Helena souberam que ela tinha deixado para a senhora Vallenrod uma soma bastante considerável destinada ao seu filho, que lhes garantia inteiramente uma vida folgada.
A baronesa aproveitou essa graça do destino e viajou para fazer tratamento nos banhos de mar, voltando somente no outono já avançado.
A governanta Golberg esperou até que a patroa voltasse e pediu-lhe férias de duas semanas a que tinha direito a cada dois anos.
Golberg, como de costume, passava essas duas semanas na casa do seu genro, um pastor rural que morava bastante longe de prankenburgo.
Em sua casa ela encontrou um simpático senhor de idade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jun 27, 2016 7:35 pm

Ele foi apresentado a ela como o barão Detinguen, mas esse nome não lhe disse nada.
Sem suspeitar do interesse que despertava naquele visitante calado, Golberg contou com detalhes o suicídio de Gunter e, sobretudo, o que aconteceu depois.
— Todos admiram a resignação corajosa da baronesa e a sua bondade por manter em sua casa e criar a pequena Dagmara.
Mas acho que ela está só cumprindo seu dever e cumprindo muito mal.
Em lugar de tentar corrigir o mal causado pelo marido, que gastou o capital da menina, retribuindo com amor e cuidados, a baronesa a menospreza e até pretende deixá-la sem a educação à que a menina tem direito como condessa Helfenberg...
— Dagmara seria a filha do conde Victor? – perguntou, estremecendo, Detinguen.
— Sim, seu pai chamava-se Victor e pertencia a uma das mais nobres famílias.
A baronesa aguarda que Dagmara complete seis anos para enviá-la a uma escola profissional e fazer dela uma operária.
Sem se acanhar com a presença da criança, a baronesa repete diariamente que, para ela, a menina é uma estranha com quem não tem compromisso algum, que é um fardo insuportável e que não pode alimentá-la e vesti-la eternamente.
E sempre batendo na mesma tecla:
“Meu marido trouxe-a para esta casa contra a minha vontade, mas eu não posso mantê-la”.
Quanto ao imprestável Desidério, ela não sabe mais como mimá-lo – concluiu, indignada, a honesta Golberg.
— Pelo menos, vejo que a pequena Dagmara tem uma defensora na pessoa da senhora – notou o barão.
— Sim, mas pouco posso fazer por ela!
Aliás, é verdade que gosto muito daquela menina encantadora e bondosa.
Além do mais, qualquer injustiça me deixa indignada.
Espere aqui, que vou mostrar-lhe a foto dela!
Golberg saiu e voltou em seguida com a foto de Dagmara que fora tirada havia um ano, por vontade de Gunter, pouco antes de sua morte.
Detinguen pegou o retrato com a mão levemente trémula e examinou-o por muito tempo.
Depois, ele o passou para o pastor, que parecia confuso e não intervinha na conversa.
— Olhe, Gothold – disse ele – como ela é parecida com a minha pequena Edith.
O pastor assentiu com a cabeça, mas nada disse.
Pouco tempo depois, Detinguen despediu-se e foi embora.
— Você foi falar sobre os Vallenrod e a sua pupila muito fora de hora!
Será que não sabe que a mãe de Dagmara foi esposa do barão, separou-se dele e casou-se com o conde Helfenberg? – indagou o pastor.
Percebendo a surpresa de Golberg, ele contou-lhe o drama que se desenrolara havia onze anos entre Gunter, Edith e a baronesa e também a história da separação.
— Todos estes detalhes eu soube do próprio Detinguen, porque somos amigos e colegas de universidade.
Eu entendo a emoção dele, pois Dagmara é o retrato vivo de sua filha Edith, que faleceu no ano passado.
Meu pobre amigo adorava a filha e a morte dela abalou-o demais.
Lamento ainda mais pelo seu relato, que despertou aquelas velhas e penosas lembranças, pois Detinguen, dentro de alguns dias, deverá viajar a Prankenburgo para tratar de uma herança deixada por um primo falecido.
Será que você ouviu falar de uma tal “Vila Egípcia”?
— Mas é claro!
Quem na cidade não sabe da existência dessa casa extravagante e daquele ser exótico que morava lá, como uma coruja!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:08 pm

E era ele o primo do barão?
— Sim. O barão quer tomar posse da vila, antes de partir para uma longa viagem ao Egipto e a Índia, que empreenderá junto com um velho cientista orientalista.
Passou-se cerca de uma semana depois dessa conversa.
A baronesa Vallenrod distribuía na estante diversos bibelôs trazidos da viagem, quando lhe entregaram um cartão de visita.
Surpresa, Helena mandou pedir que entrasse o visitante e, um minuto depois, na sala entrou o barão Detinguen.
O barão pediu desculpas por incomodá-la e expressou seu profundo pesar a respeito da desgraça que a atingira.
A baronesa imediatamente adoptou um ar melancólico de resignação à sua sina e enxugou algumas lágrimas inexistentes.
Depois, por sua vez, perguntou o que trouxera o barão à capital.
Ele explicou, em poucas palavras, a herança que lhe coubera e em seguida exprimiu a vontade de ver Dagmara.
A senhora Vallenrod até estremeceu de surpresa.
— Como?!
O senhor quer ver a filha do conde Helfenberg e de sua ex-esposa traidora?
— E por que não? – respondeu Detinguen, olhando severamente e com tristeza nos olhos perversos de Helena.
É verdade que Edith me ofendeu profundamente, e também não posso sentir amizade pelo conde Helfenberg, que destruiu a minha felicidade; mas eles morreram e com os mortos não se ajustam contas, pois os dois já compareceram a um Juiz bem mais terrível que pedirá ao conde satisfações por ter desviado do caminho do dever uma mãe e esposa e ela responderá por portar-se mal comigo.
Eu, entretanto, não posso alimentar nem maldade, nem raiva por uma criatura inocente que nasceu do casamento deles.
A baronesa abaixou a cabeça, pensativa, e depois de um momento de silêncio, tocou a campainha e mandou que trouxessem Dagmara.
Absortos pelas próprias recordações, os interlocutores guardaram silêncio e somente a chegada da criança tirou-os da meditação.
Um pouco confusa, Dagmara parou a alguns passos da porta.
O barão Detinguen ficou emocionado.
Levantou-se num ímpeto, pegou a menina nos braços e olhou para ela com os olhos cheios de lágrimas.
Dagmara estremeceu, vendo-se nas mãos de um “estranho”, mas pareceu não se assustar.
Com o seu pequeno coração de criança sentiu inconscientemente que aquele estranho queria-lhe bem e, de repente, enlaçou-se ao pescoço de Detinguen, apertou a cabecinha de cabelos ondulados contra a face dele, e enxugando-lhe as lágrimas, cochichou:
— Não chore!
Profundamente comovido, o barão estreitou a menina ao peito, beijou-a e voltou para o seu lugar, colocando Dagmara no colo.
A seguir, virou-se para a baronesa Helena, que o olhava com um leve sorriso de desdém.
O barão nem deu atenção a isso e a sua voz ficou severa quando disse:
— Quero fazer uma proposta à senhora e tenho certeza de que ela será aceite.
Quero tomar Dagmara aos meus cuidados, para adoptá-la e fazer dela minha herdeira.
A minha filha faleceu, eu fiquei completamente só e esta criança, pelo menos, dispersará a minha solidão.
Isto livrará a senhora da pupila do seu marido, que deve ser um peso para a senhora, por ser filha de Edith.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:08 pm

Além do mais, ela não tem meios próprios, porque a sua fortuna foi esbanjada pelo barão.
A baronesa ruborizou fortemente.
— Eu cuido e trato de Dagmara, como se fosse a minha própria filha – sussurrou ela.
Detinguen por sua vez sorriu com desprezo.
— Não duvido da generosidade da senhora, baronesa, mas não posso deixar de notar que a sua conduta não combina inteiramente com sentimentos maternos:
a senhora foi viajar com seu filho e deixou a órfã, que foi roubada pelo seu marido, nas mãos de uma empregada, como um peso excessivo.
A vontade expressa da senhora de mandar Dagmara para uma escola profissionalizante e privá-la, de tal modo, de uma boa educação, à qual ela tem o direito indubitável de nascimento, é ainda mais estranha.
É óbvio que o conde Victor não pretendia fazer de sua filha uma braçal quando depositou a sua confiança no barão Vallenrod.
Mas tudo isso faz parte do passado.
Agora espero que a senhora aceite a minha proposta e mande juntar imediatamente as coisas necessárias para a criança até que eu compre novas.
Se a senhora concordar, eu aguardo e levarei Dagmara comigo.
A baronesa, que ouvia tudo com as faces coradas, levantou-se imediatamente.
— Mas, claro!
Claro que não irei me opor à felicidade que coube a Dagmara.
Vou já dar as ordens necessárias.
A baronesa tentava em vão falar tranquilamente e disfarçar a raiva que a possuía.
Nesse instante a porta se abriu com estrondo e na sala entrou correndo Desidério.
O menino conhecia bem demais a mãe e percebeu imediatamente que ela estava furiosa e, por isso, ele, indeciso e confuso, parou à porta.
Vendo que a mãe saiu sem nada dizer, Desidério aproximou-se do barão Detinguen e cumprimentou-o.
O menino ficou extremamente surpreso ao saber que a sua amiga estava partindo para sempre, mas não expressou a menor contrariedade a respeito da futura separação.
“O verdadeiro filho do digno casa!!” – pensou o barão.
Meia hora mais tarde, a pequena mala foi posta na carruagem do barão e Detinguen e Dagmara se despediram de todos.
A menina estava alegre; ela ofereceu seus lábios rosados para Desidério e as crianças se beijaram cordialmente.
Quando a baronesa abaixou-se para beijar Dagmara, esta recuou e afastou-a com a mão.
Contente com a alegria e confiança da menina, Detinguen fê-la sentar-se ao seu lado na carruagem e cobriu cuidadosamente suas pernas com um cobertor de pelúcia.
Ele próprio estava feliz.
Parecia-lhe que o passado penoso ficara para trás e que agora os olhos brilhantes de sua pequena Edith estavam olhando-o e, a partir de então, iriam iluminar a sua vida solitária.
— Que seja abençoada a sua chegada a minha casa!
Não quero saber quem foi o seu pai, querida criança que os Céus me enviaram.
Cresça e, quando eu voltar, você será o apoio e alegria da minha velhice.
A bondosa Golberg continuará a ser a sua educadora e eu terei a certeza de que ninguém a considerará demais e a tratará mal.
A Vila Egípcia, como chamavam a casa do barão Detinguen, tinha uma aparência estranha e era de dimensões pequenas e de somente dois andares.
Tinha seis quartos no piso inferior e cinco na parte de cima.
A ala da vila que saía para o jardim tinha dois quartos decorados no estilo dos templos e palácios antigos do Egipto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:08 pm

O primeiro quarto estava revestido por uma pintura estranha que imitava tapetes; um leito, algumas cadeiras e uma mesa de forma estranha, constituíam todo o mobiliário; além do mais, toda a mobília fora feita com madeira aromática onde estavam espalhadas almofadas com franjas douradas.
Havia duas estantes altas atulhadas de pergaminhos de papiro e in-fólios volumosos encapados com couro.
O quarto vizinho era ainda mais curioso.
Era completamente escuro e fechava-se com porta de bronze; as paredes e o tecto do quarto eram pintados de cor preta; nesse fundo sombrio destacavam-se fortemente escritos hieroglíficos e quadros desenhados com cores vivas, mostrando a viagem de um espírito através dos horrores de Amentis e o seu comparecimento perante Osíris e seus quarenta e dois juízes do reino dos mortos.
Toda a parede do fundo do quarto fora ocupada com a imagem de uma enorme serpente vermelha, que, em pé sobre sua cauda, parecia desenrolar o seu corpo forte e dirigir ao espectador a sua goela ameaçadora e olhos verdes reproduzidos com tanta vida, que pareciam luzir.
O mobiliário desse quarto consistia de um pequeno altar, sobre o qual havia uma estátua do deus Anúbis, com cabeça de chacal, dois grandes baús de madeira junto à parede e sete lâmpadas de bronze penduradas no tecto.
A “Vila Egípcia” ficava a uma hora da capital e situava-se em local montanhoso, entrecortado por um profundo desfiladeiro no fundo do qual agitavam-se as corredeiras de um rio.
Aglomerações de rochas distribuíam-se quase em círculo regular e formavam uma espécie de parede ao redor do amplo vale, separando-o do resto da região.
O barão Detinguen decidiu passar alguns meses na sua propriedade, antes de partir para a longa viagem que havia muito tempo tinha planeado.
Desejava visitar o Egipto, esse país de milagres e monumentos eternos, e também a Índia, o berço de todos os conhecimentos e religiões, para aprender o sânscrito e, se possível, ser iniciado em ciências ocultas.
Desde que Dagmara se mudou para essa casa, o barão não mais se sentiu sozinho e apegava-se cada vez mais à sua queridinha.
Nesse novo ambiente, cercada de amor, a menina começou a desenvolver-se com rapidez inacreditável.
Golberg e a velha Brigitte não cansavam de elogiar o seu carácter encantador.
O barão começou a organizar os seus negócios, fez o seu testamento, nomeando Dagmara a sua herdeira universal, e, finalmente, enviou uma carta para o seu amigo, o pastor Reiguern, pedindo-lhe que cuidasse da menina durante a sua ausência.
A resposta veio rápida e trouxe o consentimento do digno pastor e da sua esposa.
Ficou decidido que Detinguen pessoalmente levaria Dagmara e a governanta para a sua nova moradia e, ao mesmo tempo, se despedira dos seus amigos.
À noite, no dia da chegada deles à casa do pastor, o barão e seus anfitriões reuniram-se no escrito o para acertar definitivamente todos os detalhes.
— Eu calculo ficar cinco anos ausente – disse Detinguen.
Entretanto, pode acontecer que eu não volte mais.
Por isso peço a você, Gothold, guarde para mim os seguintes documentos:
a certidão de nascimento de Dagmara, a certidão de casamento dos seus pais e o atestado de óbito deles.
Eis aqui a cópia notarial do meu testamento.
Deixo com você também esta carteira com cinco mil marcos; este dinheiro é para a educação de Dagmara e para casos imprevistos, como enfermidades e outras coisas.
Finalmente, aqui está um cheque do meu banco.
Você receberá de lá uma soma de dinheiro para os gastos de manutenção da menina, conforme combinamos antes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:08 pm

Agora só me resta agradecer a você e a sua esposa por prometerem amar e cuidar da minha menina como de sua própria filha – concluiu o barão, apertando firme as mãos dos amigos.
— Nós é que temos de agradecer-lhe por lembrar-se de nós!
O senhor sabe como os nossos recursos são limitados e o seu pagamento generoso nos ajudará a educar também os nossos meninos – respondeu emocionada a esposa do pastor e acrescentou:
quanto ao amor, juro amá-la como a própria filha.
Trabalhei cerca de dez anos como orientadora na França e Inglaterra, conheço os dois idiomas e vou ensiná-los a Dagmara brincando.
— E eu – disse o pastor – cuidarei para que a sua alma permaneça simples e sincera e cheia de fé inabalável no Nosso Pai Celestial.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:08 pm

III

A separação do seu pai adoptivo foi muito difícil para Dagmara.
A menina apegara-se a ele a tal ponto que não queria largá-lo, pendurando-se ao seu pescoço.
Por algumas semanas após a partida do barão, a tristeza, o silêncio e a ansiedade da menina preocuparam seriamente o pastor e a sua esposa; mas aos poucos ela foi se acalmando.
O amor de toda a família reconfortou o seu coração saudoso e, após um ano, Dagmara se sentia tão bem na casa do pastor como se tivesse nascido lá.
Graças ao ambiente de amor e paz, à vida regrada e ao ar puro da aldeia, Dagmara desenvolvia-se rapidamente.
O seu organismo frágil ficou mais forte, e o seu carácter começou a apresentar traços que não se deixavam influenciar de modo algum por suas educadoras.
Por exemplo, a menina não tinha nenhuma inclinação para economia doméstica e a mulher do pastor teve de desistir de incutir-lhe amor por tricô, cerzidura e cozinha.
Dagmara não conseguia aprender a terminar razoavelmente o tricotar de uma meia ou preparar pastéis, ainda que gostasse muito dos que sua professora costumava fazer.
— Não! Ela não será nunca uma verdadeira mulher, e dela não sairá uma boa e séria dona de casa!
O seu marido passará fome, a cozinheira irá roubá-la, enquanto a desordem reinará na sua casa – resmungava a esposa do pastor com um desespero cómico, recolocando no lugar as coisas espalhadas pela menina.
Realmente, Dagmara distinguia-se pelo seu relaxamento e este defeito ficou especialmente evidente desde que sua bondosa governanta faleceu após morar três anos na casa do pastor.
— Ainda bem que Detinguen é suficientemente rico para pagar uma camareira para ela e ser indulgente quanto à paixão dela por roupas bonitas – acrescentava Matilda, percebendo que a menina gostava muito de vestir-se bem.
E realmente, um vestido ou chapéu novo faziam Dagmara totalmente feliz e ela sempre escolhia as coisas mais caras.
Além do mais, era muito orgulhosa e a humildade cristã era-lhe completamente estranha.
— Nela fala o sangue materno. Temos de procurar desenvolver a sua religiosidade, que será a única coisa a impedi-la de cometer erros – dizia frequentemente o pastor, sinceramente amargurado, começando com novo zelo a educação religiosa de sua favorita.
Embora seus esforços tivessem maior êxito que os de sua esposa, o pastor não estava satisfeito com o resultado.
Dagmara de facto ouvia-o com atenção, sabia de cor contos e textos evangélicos da Bíblia, mas faltava-lhe o enlevo e paixão por personagens do Velho Testamento e era isso que almejava seu professor.
Às vezes, até mesmo uma observação justa ou uma pergunta inesperada pareciam ao pastor um germe do cepticismo e lançavam-no ao desespero.
Por outro lado, a menina era tão sinceramente devota, honesta, franca e pura até o fundo da alma, que ele se consolava com a ideia de que o tempo atenuaria aquelas tendências contraditórias.
Dagmara se dava muito bem com os filhos do pastor. Os meninos não tinham irmãs e, por isso, mimavam-na e, brincando, passavam para ela seus conhecimentos.
O mais novo, Alfred, era um menino modesto e aplicado, gostava de botânica, desenho e arte e partilhava com ela seus conhecimentos; mas Dagmara se dava melhor com o outro, Lotar, que era uns sete anos mais velho que ela.
Eles liam juntos obras de poetas, declamavam Shiller e Lessing.
Quando Lotar entrou na faculdade e veio visitá-los pela primeira vez usando botas enormes, um boné de cores vivas e uma bandoleira no ombro, o coração da menina transbordou de respeito e profunda admiração.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:09 pm

Os cinco anos que Detinguen marcara para realizar a sua viagem já haviam passado fazia muito tempo, mas em suas cartas ele nem mencionava a sua volta.
Em compensação, descrevia entusiasmado os milagres da Índia, monumentos antigos e a população do curioso país.
Para Dagmara, a leitura dessas cartas sempre era uma festa:
ela as escutava com as faces rosadas e os olhos brilhando de alegria, e depois escrevia intermináveis respostas, mostrando grande interesse por tudo o que se referia a Detinguen.
A menina guardava recordações tão vivas e profundas do seu pai adoptivo que o tempo não parecia apagá-las.
Quando o barão mandou-lhe de Calcutá o seu retrato, ela o pendurou-o à cabeceira de sua cama, beijava-o, cumprimentava-o de manhã e à noite e se despedia dele.
Não sossegou enquanto não foi levada a um fotógrafo da cidade vizinha e mandou um retrato seu ao barão.
Assim, os anos seguiam imperceptivelmente e, aos poucos, Dagmara transformava-se numa moça; ela completou quinze anos e era extremamente bonita, de altura média, bem proporcionada, com pequenos e delicados pés e mãos.
A esbelteza do corpo, a cor maravilhosa da cútis e os grandes olhos cinza-metálicos lembravam a sua mãe; mas os traços do rosto eram exclusivamente seus, apesar de toda a perfeição plástica, e mais enérgicos.
Dagmara também começou a dar-se conta da própria beleza, porque chegavam aos seus ouvidos elogios descuidados e vários olhares paravam nela com admiração.
Certa vez, ao voltar da igreja, Matilda encontrou Dagmara diante do espelho.
Depois de pôr o chapéu na cadeira, ela examinava-se cuidadosamente e armava a vasta cabeleira na fronte.
A antiga cor loura do seu cabelo tomara uma coloração dourada mais escura que combinava com suas sobrancelhas escuras e cílios grandes e felpudos.
— Tia Matilda!
Eu realmente sou bonita – exclamou ela com feliz vaidade.
Hoje, o tenente von-Khaguen, que está visitando o primo, passando diante de mim, disse:
“Veja como ela é encantadora” – acrescentou ela, corando.
A esposa do pastor sorriu.
— Esta frase trivial prova apenas que o tenente acha você bonitinha, mas outra pessoa pode não concordar com a opinião dele.
Em geral, toda mulher que se preza não deve dar importância alguma a elogios casuais vindos de pessoas ociosas que os fazem só por costume.
Ao notar que a moça ficara confusa e corada, a bondosa pastora acrescentou amigavelmente:
— Uma vez que tocamos neste assunto, eu direi o que penso da beleza em si.
A beleza, é claro, é uma dádiva de Deus, mas é frágil e transitória, e é muito insensato orgulhar-se dela.
O seu fascínio está na expressão virginal e pura que transpira de todo o seu ser.
Nas pessoas gastas pelas tempestades da vida, você causa a impressão refrescante de uma flor que acabou de desabrochar.
Enquanto preservar essa harmonia espiritual, sempre será linda; porque somente as paixões e os desejos insaciáveis destroem e empanam a beleza mais brilhante.
Nada há mais feio do que um rosto marcado pelo vício; e não é Deus nem a natureza que fazem o homem assim, mas ele desfigura-se com a própria baixeza.
— Tem razão, tia!
Vou lembrar-me de suas palavras.
A partir de hoje, vou preocupar-me somente com aquela beleza que não teme nem o tempo nem acidentes! – exclamou Dagmara, lançando-se nos braços daquela mulher maravilhosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:09 pm

Algum tempo depois desse acontecimento, a paz e a monotonia do lugar foram interrompidas pela chegada de uma nova pessoa.
O pastor recebera uma carta de uma parente que morava na capital.
Ela comunicava que um amigo do seu marido, muito rico havia pouco tempo, arruinara-se de repente com especulações arriscadas e acabara suicidando-se, deixando a sua única filha sem meios de sobreviver.
Essa menina já estava com dezasseis anos, e fora muito mimada, acostumada a viver com luxo e a seu bel-prazer.
A sua tia acolheu-a, mas o estado moral da menina era horrível e ela percebia tão pouco a sua nova situação, que a velhinha achou necessário colocá-la numa família modesta e trabalhadora, longe do barulho mundano, na esperança de que a vida tranquila e os estudos exercessem influência favorável naquela alma jovem e que a preparassem para uma vida de trabalho e futuras privações.
A família do pastor Reiguern preenchia inteiramente essas condições e por isso a parente pedia ao pastor que aceitasse Dina em sua casa.
Depois de muito pensar, o pastor e sua esposa consentiram, pois o pagamento oferecido era muito bom e era mais uma oportunidade de praticar o bem.
Então, Dina Valprecht instalou-se na casa do pastor e desde os primeiros dias causou uma péssima impressão nos seus novos tutores.
Nem o pastor, nem a sua esposa suspeitavam até que ponto o mal tinha se enraizado nela.
O pastor logo se convenceu de que seria impossível inspirar a verdadeira fé, a resignação e a aceitação naquela alma perturbada em que fervia a revolta amarga contra o destino.
Mas ele receava especialmente que a proximidade de uma pessoa tão cheia de caprichos pudesse exercer má influência na pura e impressionável Dagmara.
Esta, inicialmente, ficou interessadíssima na sua nova amiga e lamentava com ela a desgraça que abalara a recém-chegada.
Mesmo assim, os modos ríspidos de Dina, suas respostas atrevidas, o tom alto demais quando conversava e, principalmente, suas crises nervosas chocavam-na e assombravam-na.
Acostumada ao rígido auto-controle, Dagmara não conseguia entender tal pusilanimidade e relaxamento, mas pela própria bondade natural cuidava da sua nova amiga e escutava curiosa as histórias que abriam perante seu olhar ingénuo de criança um mundo completamente diferente.
Embora tivesse dezasseis anos, Dina já namorara.
Quando estudava no colégio interno, ela foi noiva de um jovem oficial cuja família aristocrata olhava com benevolência esse relacionamento, em vista do enorme dote de Dina Valprecht, que, além do mais, era suficientemente bonita e justificava inteiramente a escolha do jovem.
A morte trágica do pai cortou inesperadamente seu namoro.
Ainda que o noivado não tivesse sido interrompido oficialmente, a partida inesperada do jovem oficial e o silêncio da sua família indicavam claramente o rompimento.
Por essa razão, a tia de Dina não hesitou um minuto em enviá-la ao pastor, ciente de que o futuro lhe reservava a pobreza e o trabalho.
Dina era a única que no fundo do coração ainda alimentava esperanças de uma saída feliz; mas, um mês após se mudar para a casa do pastor, recebeu uma carta da mãe do seu ex-noivo pondo fim a todos os seus sonhos de ter um partido brilhante.
Ao ler a carta, Dina desmaiou, e depois teve uma forte crise de nervos.
Dagmara, que nunca tinha visto ainda uma manifestação semelhante de dor espiritual, pensou que ela estava muito doente e, à noite, esgueirou-se no quarto onde Dina estava deitada, vestida e soluçando inconsolavelmente.
Precisando desabafar sua dor com alguém, sob a condição de segredo absoluto, ela contou a Dagmara os detalhes da horrível traição de que fora vítima.
Essa primeira imagem que, inesperadamente, lhe mostrava um mundo até então desconhecido, onde somente o dinheiro tinha valor, assombrou e desencorajou Dagmara; mas o seu espírito sincero e orgulhoso precisou somente de alguns minutos para compreender e encontrar uma saída condigna.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:09 pm

Agarrando a mão da sua amiga, ela tentou convencê-la ardentemente:
— Esqueça-o, Dina!
Ele não vale suas lástimas se a amava somente por seu dinheiro!
A infelicidade abriu seus olhos e poupou-a de sofrer o resto de sua vida por causa de um amor falso, comprado com seu dote.
— Eu não preciso do amor dele, mas de sua posição – explodiu Dina, levantando-se da cama.
Herbert pertence à alta sociedade e, com a minha beleza, eu poderia me consolar se ele me desposasse.
Confusa, Dagmara guardava silêncio, sem saber decididamente o que responder a tal declaração; mas nesse instante entrou a mulher do pastor.
O seu rosto estava corado e parecia irritada.
— Devo pedir à senhorita Dina que guarde para si suas convicções amorais e que não suje o espírito puro de Dagmara.
Sendo pura e franca, ela lhe deu um óptimo conselho:
é melhor criar independência com os próprios esforços do que ansiar por um vergonhoso casamento comercial, humilhante para qualquer mulher que se respeite.
Sem nada dizer, Dina deu-lhe as costas, virando-se para a parede e a senhora Reiguern levou consigo Dagmara e, depois de fazer algumas observações sobre a noiva abandonada, proibiu sua pupila de conversar tais assuntos íntimos com ela.
Na primavera o interesse de Dagmara tomou um outro rumo; era época de provas de seus irmãos de criação – época de preocupações gerais e emoções.
Finalmente, chegou a correspondência comunicando que tudo correra bem e que Lotar chegaria dentro de dez dias; quanto a Alfred, este recebera um convite para ensinar os filhos de um catedrático.
As condições eram tão vantajosas que ele aceitou e partiu para a Itália com a família do professor para passar lá as férias escolares inteiras.
A chegada dos jovens estudantes sempre foi uma festa para a família do pastor.
Também dessa vez a casa tomou aspecto festivo para receber Lotar.
Vendo com que entusiasmo Dagmara fazia a guirlanda de plantas para enfeitar a entrada e o zelo com que enfeitava o quarto do seu irmão adoptivo com valiosos bibelôs que Detinguen lhe enviava, Matilda disse baixinho ao ouvido do marido:
— O que você diria, Gothold, se a pequena condessa fosse um dia a nossa nora?
— Ficaria muito feliz, pois gosto de Dagmara como de minha própria filha – sorrindo respondeu o marido.
Só não sei se os dois serão felizes.
E será que é bom para um pastor humilde e rural, como será Lotar, ter por esposa esta pequena aristocrata, que já nasceu com o gosto do luxo e detesta cuidar de economia doméstica?
Mas, não vale a pena adivinhar o futuro, minha querida, e seja feita em tudo a vontade de Deus!
No dia da chegada de Lotar, o pastor e Dagmara saíram para encontrá-lo na estação.
Matilda ficou em casa, cuidando da torta e assando o peru, pratos predilectos do seu primogénito.
Dina não saía do quarto, demonstrando completa indiferença à festa familiar que agitava aquele pequeno mundo.
Mas essa apatia mudou rapidamente para um grande interesse quando, no almoço, ela conheceu Lotar.
Ela ficou animada, foi muito gentil, e olhava-o às escondidas, com admiração.
O jovem Reiguern era realmente um rapaz muito bonito, alto como a sua mãe, com uma vasta cabeleira preta, olhos grandes e escuros e rosto pálido e regular, cheio de vigor.
Matilda observava seu filho com uma preocupação indefinida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:09 pm

Parecia-lhe que ele não estava tão alegre e despreocupado como costumava ser, que estava imerso em pesados pensamentos; mas, vendo que ele se animou e passou a tagarelar alegremente com as moças, seu coração materno tranquilizou-se.
As relações entre Lotar e Dina tornavam-se cada dia mais estreitas.
Durante os passeios a pé ou de barco, eles conversavam sem parar e a órfã começou a preocupar-se com a própria aparência.
O vestido de luto cobriu-se de flores multicores que enfeitaram também com muito gosto a sua cabeça e o corpinho do vestido.
As suas jóias foram retiradas dos estojos onde estavam guardadas até então.
Uma vez, durante o almoço, surpreso com o broche de safiras que ela usava, o pastor observou que tais jóias não só não combinavam com o luto da moça, mas também eram absolutamente sem propósito em um ambiente modesto onde não havia ninguém que pudesse apreciá-las.
Dina corou e ficou amuada e, a partir daquele dia, passou a levar as jóias na bolsa, colocando-as somente durante os passeios, longe dos olhares críticos do pastor e da esposa.
Tal maneira de transgredir as ordens dos educadores desconcertava Dagmara, mas ela já se acostumara à experiência e ao espírito prático da amiga e, obviamente, não a entregava.
Mas as surpresas não pararam por aí:
aos poucos ela começou a perceber que Lotar e Dina procuravam fazer passeios a sós, ficavam calados quando ela se aproximava e desapareciam em algum lugar quando ela estava ocupada com as aulas de catecismo.
Ela sentiu-se magoada, mas ainda tinha suas dúvidas.
Será que ela poderia estar sendo demais na companhia da inseparável companheira e do melhor amigo?
Mas Lotar acabou dissipando a sua perplexidade, e certa vez tentou convencê-la a ficar em casa, porque ele queria mostrar à Dina a gruta dos “juízes livres” e esse passeio longo a faria cansar-se demais.
Dagmara satisfez o desejo dele, mas a partir daquele dia, nunca mais foi passear com os dois, negando-se a sair sob vários pretextos.
Passaram-se umas duas semanas desde a chegada de Lotar.
Certo dia, de manhã, Dagmara estava sozinha sob a sombra de um arbusto de lilás lendo um livro; de repente, apareceu a esposa do pastor, que havia esquecido no banco seu tricô e perguntou, surpresa:
— O que está fazendo aqui?
Por que não foi à floresta, junto com Lotar e Dina?
— Eles preferem passear a sós!
Eles me deram a entender que sou demais e os deixo constrangidos.
Nunca, nunca mais vou passear com eles! – respondeu com voz trémula Dagmara, ruborizando.
As faces de Matilda também coraram.
Sem nada dizer, ela foi rapidamente ao escritório do marido.
O pastor preparava tranquilamente o sermão de domingo e fumava o seu comprido cachimbo.
A esposa, emocionada, contou o que soubera de Dagmara e acrescentou:
— Esta menina imoral pretende, evidentemente, virar a cabeça do nosso menino inocente.
Por favor, Gothold, aplique sua autoridade e ponha um fim a passeios a sós, porque podem levar a um escândalo.
— Não se esqueça de que esta menina “imoral” é minha pupila!
Mas acalme-se!
Encontrarei imediatamente o par e vou fazê-los entender – disse o pastor, após ouvir, com o cenho carregado, a esposa.
O pastor vestiu-se rapidamente, pegou sua bengala e saiu.
— Para que lado foram Lotar e a sua dama? – perguntou o pastor a Dagmara, que encontrou no caminho perto da casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:09 pm

— Não sei!
Eles costumam ir ao córrego – respondeu ela.
O lugar que Dagmara indicou ficava bem distante da casa do pastor.
Era um recanto maravilhoso, cheio de carvalhos seculares, entre cujos troncos, com marulho carinhoso, corria um córrego num leito de pedra.
Quando há muitos anos, o pastor chegara à sua paróquia junto com a esposa, ele mandara fazer lá um banco de relva que era sempre muito bem cuidado.
Ao aproximar-se desse lugar, cheio de boas recordações, Reiguern ouviu vozes e, diminuindo o passo, aproximou-se cautelosamente.
No banco, ele viu Dina.
Ela estava sentada com uma coroa de miosótis na cabeça; havia uma corrente de ouro em seu pescoço com um medalhão incrustado de rubis e brilhantes.
À sua frente estava ajoelhado Lotar e falava do seu amor com expressões apaixonadas.
A moça enlaçava-se em seu pescoço e, de vez em quando, os jovens trocavam beijos calorosos.
O pastor ruborizou fortemente, franziu o cenho e sacudiu raivosamente a bengala.
Seu filho não somente se atrevera a virar a cabeça da moça que lhe era confiada como pastor, mas também estava estragando o seu novo traje, que se usava somente aos feriados e deveria servir até o próximo ano.
— É uma ocupação muito agradável, sem dúvida, e faz honra a sua modéstia, senhorita!
Levante-se, papalvo, que brinca de Romeu e suja as calças na grama húmida!
Agora entendo por que vocês não querem Dagmara em seus passeios.
A voz tonitruante de Deus não apavorara tanto a Adão e Eva no paraíso quanto a voz do pastor assustou os apaixonados.
Lotar corou e levantou-se de um salto só e Dina jogou-se para trás, cobrindo o rosto com as mãos.
A repreensão do pai ofendeu profundamente o jovem, que respondeu com voz trémula e indignada:
— Dispense-nos de suas ofensas e suspeitas indecentes!
Dina é minha noiva; ela partilha o meu amor e consentiu em me dar a sua mão em casamento.
— Ah, é? Neste caso, tenho a honra de dar-lhes os meus parabéns – disse o pastor, inclinando-se zombeteiramente.
Você, provavelmente, construirá uma cabana ao lado deste córrego e viverá nela junto com sua esposa, alimentando-se de raízes e bolotas?
Isto será muito poético!
É uma pena que aqui não cresçam figueiras para que vocês possam se vestir quando gastar a roupa, porque não pretendo renová-la de modo algum – acrescentou ele com desdém.
Dina soltou um grito e desabou sobre o banco, fingindo desmaiar; Lotar correu para acudi-la, mas o pastor interpôs-se entre eles.
Sob sua mão forte e severa, o desmaio passou como por encanto, e a moça levantou-se, soluçando alto.
— Acalme-se, meu amor!
A intervenção grosseira do meu pai e o seu escárnio sobre os sentimentos mais sagrados não têm poder sobre o nosso amor! – exclamou Lotar.
— Então, a comédia acabou – interrompeu severamente o pastor.
Levante-se, senhorita, e vá para casa!
Espero que ache o caminho sem a companhia do cavalheiro.
E você, venha comigo sem discutir.
Está entendendo?
O jovem percebeu pelo olhar e pelo tom de voz do pai que este não estava para brincadeiras e seguiu-o sem dizer nada.
No caminho para casa, filho e pai não trocaram nem uma palavra.
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