Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:56 pm

Lembrou novamente como a tia Matilde, nas horas difíceis, pedia conselhos ao Evangelho, abrindo-o em qualquer página.
Dagmara automaticamente enfiou os dedos entre as páginas, abriu o livro e empalideceu emocionada lendo as linhas indicadas pelo dedo.
Num dos lados ela leu:
“Bem-aventurados os pobres de espírito, pois é deles o Reino de Deus”; e no outro lado:
“Muito tenho ainda a dizer-vos, mas vós agora não o compreendereis”.
Trémula, fechou o livro, beijou-o e recolocou no lugar.
O livro sagrado deu a resposta às questões que a atormentavam e esta resposta, séria e profunda, impressionou a jovem.
Não estava ela orgulhosa das partes da ciência que havia adquirido?
E mesmo assim, continuava tão incapaz de compreender e aplicar o conhecimento superior quanto os ignorantes ouvintes do Filho de Deus.
Pálida e emocionada, Dagmara sentou-se novamente na poltrona.
Sentia-se fraca:
a cabeça parecia pesada como chumbo e pelo corpo corria um tremor nervoso, cada nervo tremendo da forte emoção pela qual acabara de passar.
Mas, aos poucos, foi tomada por um estranho torpor.
Não estava dormindo nem acordada; seu corpo parecia paralisado mas ela, entretanto, sentia-se pairando sob o tecto do quarto, cujas paredes foram se abrindo e afastando aos poucos e finalmente desapareceram na distante penumbra.
Agora, diante dela estendia-se uma clareira verdejante e florida, iluminada pela forte luz do sol.
Ela saiu andando por um pitoresco prado, encontrando, por vezes, outras pessoas que passeavam e que a cumprimentavam pacífica e em silêncio com um bondoso sorriso.
Logo notou no horizonte uma grande floresta cuja densa mata a atraía irresistivelmente.
Dagmara entrou corajosamente sob a sombra de árvores seculares e apressou o passo, apesar da penumbra existente sob os densos galhos que se entrelaçavam no alto.
E, de repente, saiu numa grande clareira em cujo centro se elevava uma pirâmide de pedra.
Acima do pesado portal, sobre a entrada, via-se uma inscrição feita a fogo:
“Não existe retorno para aquele que passar pela minha porta”.
— Isto, provavelmente, deve ser assim porque a saída é do outro lado – pensou Dagmara.
Subiu corajosamente os degraus de mármore e bateu à porta de bronze que se abriu imediatamente com estrepitoso rangido e Dagmara entrou.
Por um instante, ela parou, olhou para trás e assustou-se.
Tudo o que existia atrás dela desvaneceu-se e desapareceu num sombrio abismo que se escancarou diante da entrada da pirâmide.
Mas a porta se fechou com estrondo e impediu-a de continuar olhando.
— Preciso logo encontrar a saída do outro lado e sair deste lugar horrível – pensou ela, olhando em volta com medo e curiosidade.
Ela se encontrava numa enorme sala cuja abóbada ia para o alto e parecia perder-se no infinito; por todos os lados reinava uma misteriosa penumbra e Dagmara vislumbrou no centro da sala uma gigantesca estatua; ao longe via-se uma luz avermelhada como a de um incêndio.
— A porta de saída deve estar lá – pensou, e correu naquela direcção.
Mas, ao passar perto da estátua, parou e começou a examinar com espanto a estranha figura sobre um pedestal fosforescente.
Era a imagem de uma mulher com dois rostos e quatro mãos no torso fechado.
O rosto virado para Dagmara era imponente, de uma beleza sóbria e os olhos brilhantes, indevassáveis e desapaixonados olhavam para ela.
Esta estranha imagem segurava na mão uma tocha cujo fogo cortava com seus raios de luz ofuscante a escuridão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:56 pm

— Sou a força do bem, o verdadeiro conhecimento, a sabedoria dos magos!
Conheço todas as leis e já não cometo erros.
Aqueles a quem dirijo, eu conduzo através dos arcanos do saber para a suprema delícia da harmonia e, com o trabalho sem cansaço, abro aos meus seguidores os mistérios da criação, transformando o escravo da carne no senhor da luz.
Das profundezas da dúvida e do sofrimento, ele irá elevar-se para as regiões da luz eterna, dotado do poder de olhar para o abismo sem sentir tonturas e aspirar os aromas do mal, que passarão por ele sem afectá-lo.
E agora, indecisa e curiosa criança, veja o meu segundo rosto, antes de prosseguir no seu caminho.
Por mais que eles sejam diferentes na aparência, são na realidade, a mesma coisa.
Do nosso contraste nasce a harmonia final, alcançada somente com o conhecimento do bem e do mal.
A cabeça iluminada escureceu, a luz da tocha apagou-se e a estátua virou-se para ela com a sua outra parte.
Dagmara tremia e olhava com horror o rosto escuro que apareceu; ele respirava orgulho e crueldade e seus grandes olhos brilhavam com força sombria.
Aquela figura ameaçadora segurava na mão abaixada uma tocha cujo fogo fumacento iluminava com luz da cor do sangue o abismo que se abria a seus pés, no fundo do qual aglomerava-se uma multidão de seres humanos, vomitando maldições e soltando lamentosos gemidos.
— Sou a força do mal!
Também tenho o nome de ciência, mas dentro dela procuro os segredos das forças ocultas da natureza que me dão o poder de fazer o mal.
A minha luz cega a pessoa que me obedece e a força letal com a qual eu armo esta pessoa transforma-se em sua própria fraqueza e morte.
Ele aprende a causar sofrimentos, satisfaz-se com a vingança conseguida, faz o mal pelo mal e sofre ele próprio, pois o mal é a privação e o sofrimento, mas também é o primeiro passo em direcção ao bem.
Tudo saber para tudo amar – este é o objectivo!
Todo ser passa pela escola do meu conhecimento.
Quando você tornar-se poderosa no mal, mas só utilizar as armas de destruição para fazer o bem, somente então estará apta para ser aprendiz da minha iluminada irmã, representante do conhecimento puro, impossível de compreender sem estudar a questão do mal.
Entretanto, o caminho é longo, e são pesados os ferimentos e machucados que sofre todo ser antes de alcançar as portas do céu e abri-las com a chave do mal purificado.
Nesse instante uma nevoa cinzenta cobriu a estatua.
Tremendo de medo e emoção, Dagmara correu na direcção da luz distante, onde supunha que ficava a saída.
Mas, lá chegando, viu que a luz provinha de uma grande fogueira, formada de um monte de tochas.
A luz avermelhada iluminava um altar sobre o qual havia um enorme livro selado com sete selos.
Um ancião, em trajes brancos, debruçava-se sobre ele e parecia estudá-lo.
Seu rosto reflectia cansaço e o suor abundante escorria de sua testa.
— Bondoso ancião!
Poderia indicar-me a saída desta sala?
Não posso sair por onde entrei, pois a inscrição sobre o portão diz que não há volta para aquele que passar por aquela porta – pediu Dagmara, aproximando-se indecisa do velho.
Um sorriso enigmático passou pelos lábios do ancião.
— Você leu as palavras sem entender-lhes o sentido.
Mas leu certo:
para você não existe volta.
Ver, penetrar nos mistérios e depois sair pela mesma entrada só é possível aos eleitos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:56 pm

Veja este livro!
Somente uma mente purificada pode lê-lo sem quebrar os selos.
Quanto a você, pegue uma das tochas da fogueira e vá iluminar a escuridão; e que não aconteça com você o que aconteceu com Prometeu, consumido pelo fogo celestial que havia roubado.
Lá está – a porta que conduz à trilha da vida.
O velho esticou a mão e, no mesmo momento, escancarou-se com estrondo uma porta de bronze que Dagmara não havia notado antes e na sala penetrou uma lufada de ar húmido e frio.
Dagmara estremeceu.
Lá fora havia a escuridão da noite; relâmpagos cortavam o céu negro e a chuva, aos borbotões, açoitava as rochas pontiagudas que apareciam sob a luz dos relâmpagos.
Indecisa, mas sentindo-se impelida por uma força irresistível, Dagmara aproximou-se da fogueira e agarrou uma tocha; apertou-a contra o peito e dirigiu-se à porta.
Mas ao olhar para fora, estremeceu e parou.
— Vá! – disse o velho.
Você leva a luz que lhe abrirá os olhos.
Você verá os pensamentos das pessoas, através da carne; ficará horrorizada com os seus ferimentos espirituais e tentará amenizá-los.
Mas, pelo bem recebido, eles a recompensarão com o mal.
Apesar disso, você deve seguir sempre em frente, se quiser alcançar o objectivo do caminho empreendido.
Com todo o corpo tremendo, Dagmara atravessou a soleira da porta e parou novamente.
Diante dela, a perder de vista, estendia-se uma cordilheira de rochas por entre as quais passava uma trilha que mal dava para se notar, que tinha de um lado rochas escarpadas e do outro lado profundos abismos.
Sob a luz esverdeada dos relâmpagos, aquele quadro tornava-se ainda mais terrível e Dagmara ficou em pânico; a consciência de que estaria sozinha naquela perigosa jornada deixava-a angustiada.
Dagmara virou-se, querendo voltar para a pirâmide, e viu-se, de repente, cara a cara com um ser repugnante que a olhava com escárnio e impiedosa maldade.
— Pare! Voltar é mais difícil do que pensa.
— Quem é você?
O que quer de mim?
— Vou acompanhá-la nesta perigosa viagem que empreendeu e me chamam de dúvida.
Vou persegui-la como sua sombra, mas você só me verá quando olhar para trás.
Se você conseguir chegar ao fim, eu estarei derrotada e desaparecerei para sempre; mas cuidado para não fraquejar e deixar cair a tocha, pois vou derrubá-la e levá-la para o sombrio abismo dos meus domínios.
Soou uma maldosa risada e o ser repugnante desapareceu.
Muda de horror e medo, Dagmara encostou-se à rocha e fechou os olhos.
Nesse instante o contacto de uma mão carinhosa e macia obrigou-a a recompor-se.
Sob a luz avermelhada da sua tocha, ela viu ao seu lado um ser esbelto e jovem com um rosto dócil e abnegado, cujos grandes olhos cinzentos brilhavam com energia não-humana à qual tudo se submetia.
— Você não está só, minha criança!
Pegue a minha mão e aceite a minha ajuda e a conduzirei por esta trilha espinhosa.
Tome um gole da beberagem secreta que trago comigo; ela a ajudará a superar o cansaço e vencer as desilusões que encontrará inevitavelmente em seu caminho.
Sem mim, nem a ciência, nem a fé estarão em condições de ajudá-la.
Retirando um simples cálice, a aparição levou-o aos lábios de Dagmara.
O líquido em seu interior tinha um aroma extraordinariamente agradável e um frescor vivificante.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:57 pm

Revigorada e acalmada, a jovem empertigou-se: o rugido da tempestade e o faiscar dos relâmpagos já não pareciam tão horríveis, e a estreita, sinuosa e íngreme trilha diante dela já não assustava tanto.
Então, ela disse com um sorriso:
— É claro que o aceito como companheiro de viagem!
Mas, diga quem é você?
Por que você se considera mais poderoso que o saber e a fé?
O ser misterioso sorriu.
— Você se surpreende com isso, vendo a minha modesta aparência?
Obviamente, eu não sou tão maravilhoso quanto aqueles dois motores da humanidade, chamados de conhecimento e fé, mas as pessoas somente reparam em mim quando já estão perto do objectivo.
Minha filha, sou a paciência!
A minha ajuda é grande.
Portanto, segure com firmeza a minha mão, pois sempre irá precisar de mim.
Ao nascer na carne ou ao morrer na alma, tanto na terra quanto no espaço, sem mim você certamente irá cair e começar de novo o pesado caminho da ascensão infinita.
Da minha fronte caem gotas de suor sangrento, mas você não deve assustar-se com isso; são gotas nobres – a própria essência de cada esforço seu, cada sacrifício, cada vitória sobre si mesma.
Deste orvalho de sangue cria-se para você uma vestimenta de luz de eterna glória no espaço infinito.
A beberagem que lhe dei é composta de três flores celestiais:
a energia, a inabalável fé no objectivo e o amor à causa para a qual você trabalha.
Se você permanecer fiel a mim, irei refrescá-la com esta beberagem, sempre que enfraquecer.
— Então, vamos, vamos indo!
Junto a você, sinto-me invencível! – exclamou Dagmara e, entusiasmada, seguiu pela íngreme trilha.
Ela mantinha a sua tocha no alto e a chama resplandecente iluminava abismos, rochas e seres sofredores, miseráveis e cobertos de fendas, caídos pelo caminho.
Dagmara ensinava uns, fazia curativos em outros, ajudava e consolava terceiros.
Mas, até aqueles que ela aliviava mordiam-lhe as mãos misericordiosas, cuspiam na sua tocha e atiravam-lhe pedras.
Dagmara sentia-se cada vez mais cansada e dentro do seu coração subia o fel e a ira contra a turba ingrata que a perseguia com apupos, atirava-lhe lama, cobria de desprezo e ofensas, acusando-a dos mais diversos malefícios.
Aquilo tudo começou a ficar insuportável.
Ela queria fugir, mas toda vez que se voltava, encontrava a dúvida, que, com um sorriso malévolo, abria para ela os seus braços.
Esmagando a raiva que fervia em sua alma, Dagmara prosseguiu no caminho, tropeçando a cada passo.
E, mesmo assim, ela afastou raivosamente a mão e o cálice do seu modesto e silencioso companheiro.
— Afaste-se! – gritou ela, fora de si.
Você me irrita com o seu rosto impassível.
Sua beberagem é nojenta e as gotas que caem da sua fronte sobre as minhas mãos queimam e me levam ao desespero.
A imagem do ser cinzento empalideceu, parecendo dissipar-se na escuridão, e Dagmara cansada parou, ofegante.
Encostando-se à rocha, apertou a tocha junto ao peito dolorido e, de repente, percebeu que a chama, que se apagava, havia queimado suas roupas e o seu corpo era uma única ferida.
Dagmara olhou em volta com olhar perdido e cheio de desespero.
Por todos os lados a cercavam rochas nuas, dentadas e profundos desfiladeiros, no fundo dos quais rugiam e ferviam águas invisíveis.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:57 pm

Somente lá longe, sobre uma pequena, mal-iluminada e inacessível plataforma, via-se um altar tombado.
Sobre ele pairava uma nuvem fosforescente e, em seus degraus, jaziam cadáveres ensanguentados e desfigurados.
Entre eles estava parada uma figura – anjo ou demónio – em cujos abundantes cachos de cabelos havia uma coroa de luz e nas costas viam-se duas enormes asas:
uma branca e a outra – negra.
Levantando a mão, esse ser misterioso apontou para a nuvem e pronunciou com voz solene:
— Eis a verdade que procuras!
Oculta, indevassável, ela paira sobre o abismo, e somente aquele que nada teme pode alcançá-la.
Aos pés do altar tombado de sua fé e esperanças estão caídos, desfigurados e ensanguentados, aqueles que fraquejaram.
Eu os venci, pois sou o dragão, guardião da entrada do mistério, e ai de quem ousar lutar comigo, sem estar suficientemente armado para isto.
Dagmara estremeceu de amargura e raiva.
Um profundo ódio pela sua causa ferveu nela; num gesto brusco, ela jogou a sua tocha no abismo e ouviu o seu crepitar ao apagar-se.
Então, uma profunda escuridão a envolveu.
No mesmo instante, do fundo do abismo, surgiu lentamente a zombeteira e triunfante dúvida.
Ela esticou os braços para a jovem e algo empurrou Dagmara para a frente.
De repente, ela sentiu o vazio sob seus pés e precipitou-se para baixo, batendo em pedras afiadas que rasgavam o seu corpo.
Dagmara gritou ... e acordou.
“Graças a Deus!
Foi só um sonho ou alucinação provocada por meus nervos excitados”, pensou.
“Em todo caso, parece um sinal de mau agouro.”
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:39 pm

XI

A notícia de que Detinguen estava gravemente doente e que seu fim estava próximo correu rapidamente e atraiu a atenção de todos.
Saint-André visitava a vila diariamente.
Seu reconhecimento a Detinguen superou o sentimento pesado e doentio que o atormentava na presença de Dagmara, a quem amava sem qualquer esperança de correspondência.
O conde considerava seu dever prestar uma atenção fraternal e amor ao velho, que lhe revelou grandes verdades sobre o mundo invisível e que fez sua alma renascer.
Detinguen, por sua vez, aproveitava os últimos dias para iniciar o rapaz nos mistérios da ciência oculta dentro da capacidade deste.
O duque e a duquesa também visitaram várias vezes o doente.
Somente Desidério não aparecia; ele não conseguia se decidir a encontrar Dagmara, evitando-a a todo custo, a partir do dia humilhante em que ela rejeitou a sua proposta de casamento.
Na manhã seguinte ao famigerado encontro com Dagmara, Desidério acordou nervoso, irritado e muito raivoso.
Ele não somente sofria da dor de cabeça da bebedeira e do amor-próprio ferido, mas teria também de enfrentar a mãe que – como ele bem o sabia – odiava as farras e não suportava quando ele voltava para casa bêbado.
Entretanto, para sua enorme surpresa, a baronesa recebeu-o com muita condescendência quando ele apareceu no desjejum irritado e inchado.
Não houve nenhuma crítica, nem o menor comentário sobre o ocorrido.
Quando Desidério, encantado com tal graça, beijou a mão da mãe em despedida esta enfiou-lhe no bolso um maço de dinheiro e disse, dando um tapinha amigável no rosto:
— Vá e divirta-se, meu garoto!
E esqueça a tristeza.
Tal harmonia continuou a reinar entre a mãe e o filho.
Nunca antes a baronesa fora tão generosa e tão condescendente até para os mais insanos actos de Desidério.
Aliás, havia muito tempo, ela já era uma nociva influência à alma do filho.
Mulher vulgar, sem coração e insolente nos próprios actos e convicções, ela não sabia e nem queria ensinar-lhe os princípios da discrição e honra, que considerava risíveis e absolutamente inúteis.
Ela exagerava nos elogios e admirava a aparência do filho, desenvolvendo a sua vaidade natural e o egoísmo.
Assim acostumou-o a olhar para si próprio, seus interesses e até caprichos, como o centro de tudo, sentindo-se no direito de sacrificar qualquer coisa ou pessoa que o incomodasse.
E, principalmente em relação às mulheres, a baronesa tentava com todas as forças incutir e apoiar em Desidério a sua já conhecida desonestidade.
Ela sempre achou absolutamente natural que um homem tão bonito e brilhante como Desidério deveria satisfazer seus sentidos sem ser atrapalhado.
Na sua opinião, ele tinha o direito de seduzir qualquer mulher que lhe agradasse, não importando se tal mulher fosse a esposa ou o amor do seu melhor amigo, e depois varrê-la do seu caminho se ela o incomodasse.
Esta atitude deveria parecer aos olhos de Desidério como “audácia” e, principalmente, servir como defesa legal da sua liberdade pessoal.
A sociedade devassa e desencaminhada que Desidério frequentava era um solo fértil ao sucesso.
As conquistas fáceis desenvolviam o seu orgulho e vaidade natural.
Por isso a negativa de Dagmara de aceitar o seu amor e nome foi um duro golpe para ele, se não no coração, então no amor-próprio.
Agora ele sentia pela orgulhosa moça um misto de raiva, ódio e uma surda sede de vingança.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:39 pm

E eram estes sentimentos que o impediam de visitar Detinguen; Desidério entendia que tal indiferença da sua parte – ao homem que salvou a sua vida e que o abrigou em casa por alguns meses – era muito ruim para a sua imagem.
Por isso, mesmo contra a vontade, ele decidiu ele decidiu finalmente fazer uma visita a Detinguen, o que já estava ficando inadiável.
Conseguindo habilmente a informação de que Dagmara iria ausentar-se de casa por algumas horas, Desidério decidiu aproveitar essas oportunidade e visitar a vila.
Detinguen recebeu-o amavelmente e, durante a conversa, nenhuma vez mencionou Dagmara, de modo que, Desidério, constrangido, recuperou a sua costumeira pose.
A mudança radical na aparência do velho impressionou-o profundamente e despertou compaixão em sua alma; mas quando o olhar de Detinguen fixou-se nele e parecia enxergar o mais profundo de sua alma, Vallenrod foi novamente tomado de uma obscura sensação de perigo.
— O senhor está vendo o meu futuro, barão? – perguntou com sorriso forçado.
Neste caso, peço-lhe que me diga o que vê.
Recordo que certa vez o senhor previu que eu por duas vezes estaria entre a vida e a morte sob este tecto.
Metade desta profecia já se realizou.
E isso desperta em mim uma forte vontade de ouvir do senhor o que o futuro me trará.
Detinguen meneou a cabeça.
— Não vejo os acontecimentos que o aguardam, mas leio em seus olhos um conturbado passado e um futuro ainda mais agitado.
Se o senhor quiser ouvir os comentários de um moribundo sobre isso, posso contar-lhe com prazer.
— Mas é claro que quero!
Eu o ouvirei com gratidão e respeito que merece um homem a quem devo a vida – respondeu Vallenrod.
— Neste caso, digo-lhe:
abandone sua vida depravada e a perseguição aos prazeres vazios e mentirosos.
O mundo no qual o senhor vive se vangloria do vício, considerando-o como qualidade e não se detém diante de nenhuma baixeza, pois que tal comportamento não traz consigo nenhum castigo.
Entretanto, as pessoas não sabem que todos os seus abusos repercutem cruelmente sobre si próprias, e que não se transgridem impunemente as leis que regem o nosso corpo e alma.
Eu já lhe mostrei um pouco dos mistérios ocultos e o senhor deve compreender que actos imorais, egoísmo e paixões desenfreadas mancham o corpo astral e quebram a corrente mágica que o protege.
E quando esta protecção invisível não mais existir, nada irá protegê-lo das forças fatais, que aguardam a sua menor fraqueza e o menor tropeço para pular sobre o senhor e arrastá-lo ao abismo da provação de vida não cumprida.
Actualmente está na moda zombar da religião, negar a existência de Deus e considerá-Lo inútil só porque Ele não derruba e nem castiga abertamente por todos os abusos e vícios.
Esquecem, entretanto, que a vida é curta e a volta à origem invisível é inevitável, e que seus acusadores e juízes serão as leis que vocês transgrediram.
Repito, barão, ai do mortal que ignorar as leis mágicas e manchar o seu corpo astral, brincando com terríveis e desconhecidas forças como um selvagem brincando com arma de fogo.
Desidério, pálido e emocionado, ouvia tudo em silêncio.
A voz solene e sonora e o rosto magro, emoldurado por longa e grisalha barba, impressionavam.
Parecia-lhe que a voz vinha de além-túmulo, invocando sobre a sua cabeça aquelas duras leis que ele tantas vezes transgrediu.
Detinguen fitava-o com um olhar de profunda tristeza.
Ele sabia que as suas palavras resvalariam sem deixar rastros na couraça intransponível da indiferença, mimo e vício, à qual estava presa a sua jovem mas egocêntrica e vaidosa alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:40 pm

Com profundo suspiro, ele abriu a gaveta da escrivaninha, retirou de lá um envelope lacrado e entregou-o a Desidério.
— Este envelope, barão, contém instruções para o senhor.
Mas não deve lê-las enquanto Saint-André não lhe disser que chegou a hora de conhecê-las.
Prometa-me que não abrirá o envelope até chegar o momento!
— Eu lhe juro que não abrirei! – exclamou Desidério, lisonjeado pela inesperada confiança do mago e satisfeito pela conversa tão desagradável ter tomado outro rumo.
Desidério guardou cuidadosamente o envelope na carteira, mas não teve tempo de dizer nada pois, naquele instante, a porta se abriu silenciosamente e Dagmara entrou no quarto.
Ao ver o barão, ela empalideceu e parou, tomada por uma sensação doentia.
Pareceu-lhe que um sopro de ar pesado e quente atingiu seu rosto e cortou-lhe a respiração.
Desidério percebeu, ao primeiro olhar, que a jovem mudara muito.
Ela parecia mais alta e magra e seus olhos de aço perderam a antiga expressão sorridente e carinhosa; fitavam-no agora de modo sombrio, pensativo e duro, com um olhar frio e hostil.
Além do mais, a repentina palidez de Dagmara lisonjeou o seu amor-próprio e consolou-o pela negativa recebida.
Vallenrod aproximou-se dela com toda a sua peculiar pose e apertou-lhe a mão.
No mesmo instante, sentiu como um choque eléctrico percorrer todo o seu corpo e parar no coração.
Mas a emoção, provocada pelo encontro inesperado, o fez esquecer essa sensação quase imediatamente.
Querendo mostrar desembaraço, ele começou a falar de banalidades, mas Dagmara, cumprimentando-o friamente, estava pouco comunicativa e nem tentou impedi-lo quando ele começou a se despedir.
Assim que o barão saiu, ela sentiu uma estranha fraqueza; encolheu-se numa grande poltrona e rapidamente adormeceu num sono pesado e agitado.
Pouco depois chegou Saint-André e, vendo a jovem dormindo, quis sair sem ser percebido, mas Detinguen fez um sinal para ele aproximar-se.
— Não se preocupe, Phillip!
Ela não vai acordar.
Ajude-me a levantar e ir ao laboratório.
Preciso falar-lhe.
Quero revelar somente a você um importante segredo que aperta o meu coração.
Quando Detinguen contou sobre o acontecido durante a doença de Desidério, Saint-André ficou mudo por instantes e uma palidez espalhou-se pelo seu rosto.
— Santo Deus!
O que o senhor fez, mestre? – murmurou finalmente.
— Isto é horrível:
ela estar ligada a ele!
Desidério é volúvel e esbanjador incorrigível, que jamais gostará da vida familiar...
Ao usar as mulheres ele as despreza; e só se diverte enquanto está seduzindo.
Depois, sem nenhum remorso, abandona-as, assim que se cansar.
— Tudo isso está certo e já o sabia antes de ter feito o que fiz; mas mesmo assim, este destino fatal devia se realizar – respondeu taciturno Detinguen.
Não consegui decidir-me a contar a verdade a Dagmara – continuou ele – e, em caso de ela ter um ataque letárgico, que é muito possível, deixei instruções com Vallenrod.
Entretanto, ele não deve abrir o envelope lacrado até que você lhe diga que isto é necessário.
Eis a cópia das instruções.
Você deve estar presente e certificar-se de que tudo será feito conforme as minhas instruções.
Em nenhum momento deixe-a sozinha com ele!
Prometa-me isto, Phillip!
— Juro-lhe que farei tudo o que depender de mim para que as Suas ordens sejam cumpridas à risca e Dagmara não saiba da verdade – respondeu o conde, apertando a mão do ancião.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:40 pm

Com a aproximação da morte, no espírito de Detinguen instalava-se uma clara paz.
Ele se trancava por dias inteiros no santuário e saía de lá solene e concentrado.
Faltando três dias para a morte, o que só ele conhecia, Detinguen levou Dagmara ao santuário.
Ela usava, pela primeira vez, uma túnica branca de linho; seus cabelos estavam soltos e sobre a cabeça trazia uma coroa de flores de verbera.
O pai ensinou-lhe o ritual de invocações e, em seguida, acendeu as velas e os carvões nos tripés.
Abrindo uma grande caixa metálica em forma de capela, ele mostrou a Dagmara um sino de prata pendurado dentro da mesma.
— Nos momentos importantes da vida, você executará o ritual que ensinei e tocará o sino sete vezes, pronunciando o nome escrito neste rolo de papiro.
A seu chamado, virá aquele que você irá ver agora:
ele é o meu protector e instrutor.
Ele é poderoso, sábio e venceu a dúvida.
Quero entregá-la sob a sua tutela.
Dagmara, pálida, olhava emocionada para o altar sobre cujos degraus logo surgiu a impressionante figura do mago.
Estarrecida com a incrível beleza do desconhecido e o mistério de sua aparição, a jovem ajoelhou-se; o mago aproximou-se e pôs a mão sobre a sua cabeça.
Um calor benéfico correu pelo corpo de Dagmara e ela ouviu uma voz harmoniosa dizer:
— Quando você me invocar, eu aparecerei!
O quanto for forte a sua fé, tão forte será a minha ajuda.
Dagmara levantou os olhos.
O olhar ardente do mago atravessava-a por inteiro, preenchendo sua alma com fé e esperança.
Nesse instante, ele levantou a mão:
uma morna e refrescante corrente bateu directamente no rosto de Dagmara e ela, instintivamente, fechou os olhos e quando os abriu novamente a incrível visão havia desaparecido.
Mas, ela própria e o chão à sua volta estavam cobertos de lindas flores, que espalhavam um aroma absolutamente desconhecido para ela.
— O mestre lhe concedeu a sua tutela.
Seja firme nas provações, minha querida e ele não a deixará – disse Detinguen.
Na véspera do dia que ele sabia ser o último, o venerando sábio disse a Dagmara e Saint-André que iria retirar-se para o santuário e não queria ser incomodado, mas que no dia seguinte à noite eles deveriam estar reunidos no seu gabinete e, quando ouvissem a campainha eléctrica, deveriam subir para juntarem-se a ele.
A noite e o dia passaram para Dagmara numa indescritível tristeza e enfado; ela sentia a aproximação de algo muito ruim e não parava de chorar e rezar.
Perto das seis horas da tarde chegou Saint-André e, juntos foram ao gabinete; e lá permaneceram calados, aguardando, com tristeza e medo, o sinal de chamada.
A campainha tocou perto das nove e meia.
Os jovens estremeceram e apressaram-se a entrar no santuário.
Ele estava iluminado para uma grande solenidade; sobre o altar estava aceso o candelabro de sete velas e nos tripés queimavam aromas agradáveis, mas sufocantes.
Detinguen, numa vestimenta de linho, estava sentado junto à mesa, sobre a qual havia um estranho e grande relógio e um cálice.
No peito do velho luzia uma estrela e o seu rosto parecia transformado e transpirava uma imponente e iluminada paz.
— Aproximem-se, minhas crianças, e os abençoarei neste momento tão solene para mim – disse ele com amor.
Após abençoar e beijar a ambos, Detinguen apontou para o relógio à sua frente.
— Vejam, amigos, este pequeno milagre da mecânica que representa o horóscopo de minha vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:40 pm

O conde e Dagmara abaixaram-se para olhar mais de perto.
A caixa alta e larga, de carvalho negro, tinha um nicho com duas figuras que era difícil dizer se eram feitas de bronze ou cera.
Uma das figuras representava o tempo, com a típica foice e ampulheta; a outra estava coberta por um lençol e segurava, numa das mãos, uma tocha acesa e, na outra mão, o cordão do sininho de prata pendurado no tecto do nicho.
Entre as duas estatuetas místicas havia um grande mostrador de relógio, cheio de círculos e sinais cabalísticos e pelo mostrador corria rápida e silenciosamente um ponteiro vermelho como sangue.
-Vejam! – disse Detinguen.
No tempo, entre o nascimento e a morte flui a minha vida e a de todos.
O pequeno ponteiro púrpura é o sopro da vida, e pelos inúmeros círculos que cobrem o mostrador, vocês percebem que ela já percorreu um longo caminho.
Agora, ela se aproxima do alvo e, assim que o alcançar, o fogo da vida irá apagar-se e o sino soará a hora da libertação, a hora do retorno ao mundo astral.
Ao ouvir aquelas palavras, Dagmara soltou um grito e lágrimas jorraram de seus olhos.
Detinguen apertou-lhe a mão, trouxe-a para si e beijou-a.
— Não chore, querida!
Não encabule com sua fraqueza este grande momento!
Somente um profano choraria assim. Você deve concentrar-se numa pura e desinteressada prece para facilitar a libertação do meu espírito da cobertura corporal.
Pois uma alma que está pronta para partir nada mais é do que prisioneira para a qual estão abrindo as grades da prisão.
A maior prova de amor por mim neste momento solene será a sua calma e a prece.
Dagmara ajoelhou-se em silêncio e apertou a própria testa na mão do ancião.
Ela quis ser forte e tentava rezar.
— Agradeço por este esforço de vontade com que você quer provar a sua afeição – disse Detinguen.
Agora, pegue do altar o lenço dobrado e a vela.
Com o lenço você cobrirá o meu rosto e você, Phillip, acenda a vela e a coloque na minha mão.
Trémulos, os jovens executaram suas ordens, ajoelharam e ficaram num angustiante silêncio.
O conde estava pálido como um fantasma e o corpo de Dagmara começou a exalar frio suor, não a deixando pensar.
Ela estava completamente concentrada na aproximação da misteriosa e terrível desconhecida que chamam de – morte.
De repente soou baixo a voz firme de Detinguen:
— Meu trabalho na terra terminou.
A carne cumpriu o seu papel e retorno para o infinito invisível e incomensurável para comparecer diante Daquele indescritível, Aquele que ninguém pode conceber, Aquele que não tem início nem fim e cujo nome se pronuncia com tremor.
Oh, Ser Supremo!
Tu, a quem tudo obedece, desde o último átomo até a eternidade, sê misericordioso com o sopro que de Ti saiu, e conduz-lho através dos abismos da sabedoria para a sua origem divina.
A voz calou-se e soou um surdo e distante sino.
Um forte ruído como de vento em tempestade encheu o quarto; a tocha que a figura do relógio segurava apagou-se e tudo silenciou.
Saint-André recompôs-se primeiro.
Vendo que Dagmara estava caída sem sentidos, ele aproximou-se de Detinguen, levantou a vela que caiu de suas mãos e retirou o lenço.
O ancião estava morto.
Seu rosto imóvel assumiu uma solene concentração: o iniciado entrou no mistério que corajosamente estudava em vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:40 pm

Com um sentimento misto de tristeza e alegria, Saint-André voltou-se, levantou Dagmara e levou-a para seus aposentos, onde a entregou aos cuidados da camareira.
Em seguida, escreveu duas mensagens:
uma para Dina, pedindo-lhe que viesse visitar a amiga e a outra – a Lotar, informando o acontecido.
Terminado isso, o conde subiu novamente ao santuário, apagou as velas e limpou e guardou os objectos sagrados.
Em seguida, levou com certa dificuldade o corpo do ancião para o quarto contíguo, fechou o santuário à chave e chamou o velho mordomo de Detinguen para ajudá-lo a colocar o corpo no caixão previamente preparado por ordem especial do falecido.
O conde encarregou-se de todos os procedimentos do enterro.
Dois dias depois realizou-se o enterro, sem nenhuma pompa, mas com grande aglomeração de curiosos.
Dagmara estava arrasada.
Durante aqueles dias, Dina mudou-se para a vila: mas imediatamente após o enterro, ela levou a jovem para sua casa, declarando energicamente que não a deixaria ficar naquela horrível casa construída sobre o local dos antigos “sabá” e onde de cada esquina a morte parecia fazer careta.
Mas a permanência de Dagmara na casa da senhora Rambach foi curta.
A jovem duquesa convocou-a ao palácio e lhe disse que a nomeava dama da corte e que os seus aposentos no palácio já estavam prontos.
— Subentende-se, minha querida criança, que você está liberada de qualquer serviço e pode dispor integralmente do seu tempo enquanto o seu luto não passar; e o novo ambiente irá ajudá-la nisso.
Tirando-a das amargas lembranças, que abarrotam a Vila Egípcia, estou somente cumprindo a vontade do seu finado pai.
Dagmara, com lágrimas nos olhos, agradeceu à duquesa e o seu reconhecimento ficou ainda maior quando ela viu que seus aposentos ficavam contíguos ao boudoir da duquesa.
Os aposentos consistiam de três quartos, mobiliados com luxo e conforto e o dormitório parecia um ninho de seda e musselina.
Passaram algumas semanas.
Dagmara vivia isolada e nada podia desanuviar a sua profunda infelicidade, apesar da bondade e simpatia de que foi cercada.
Após a morte do pai, ela caiu numa fase opressiva de solidão.
O doutor Reiguern visitava-a regularmente e ficava muito preocupado tanto com o seu estado geral quanto com sintomas de doença cardíaca que apareceram repentinamente.
O jovem médico tratava-a, aborrecido por ela não querer apelar para os “estranhos mas eficazes”, conforme opinião de Detinguen, remédios que tinha à sua disposição.
— Acalme-se!
Se eu não quiser morrer, então utilizarei drogas mais eficazes do que as suas gotas e comprimidos – respondia Dagmara com um fraco sorriso.
No início de junho Dagmara recebeu permissão para passar dois meses na sua vila.
Sua infelicidade aos poucos acalmou-se e a lembrança de Detinguen perdeu aquela agudez dolorida.
A luz do sol e o verde exuberante davam um aspecto alegre àquela construção peculiar.
Dagmara sentia-se bem, sonhando com o pai nos mesmos quartos onde ele vivia, mas não se decidia a entrar em contacto directo com ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:40 pm

XII

Após o retiro e descanso de dois meses em sua vila, Dagmara voltou à corte e começou a cumprir suas obrigações junto à jovem duquesa, que a tratava sempre com carinho e atenção.
Dagmara estava mais calma, mas continuava triste, pensativa e, na medida do possível, evitava a sociedade.
Por vezes, ela sentia, de repente, uma estranha fraqueza e parecia-lhe que o fluido vital a abandonava.
O sono, antes tranquilo e fortificante, transformava-se frequentemente em algo parecido com letargia consciente, deixando o corpo completamente imóvel e a mente com uma especial e dolorosa sensibilidade.
Naqueles minutos diante dela sempre aparecia, com dolorosa nitidez, a imagem de Desidério.
Ela também notou que aquela inexplicável sensação provocada pela presença do barão, que já acontecia quando seu pai ainda estava vivo, começou a ficar cada vez mais forte.
Ela pressentia a sua chegada e um estranho e ardido odor – mistura de sangue e perfume – anunciava a sua aproximação, mesmo que não o estivesse vendo.
Isto ela comprovou centenas de vezes.
Sentindo um sopro pesado e quente, Dagmara chegava até a janela e, alguns instantes depois, a carruagem de Vallenrod aparecia, vindo pela rua em direcção ao palácio.
E quando ele ia embora, ela começava a sentir frio e cansaço.
A consciência de que estava submissa a uma influência inexplicável e fatal de um homem que não a amava e pelo qual não sentia nem atracção nem respeito, levava Dagmara ao desespero, despertando nela irritação pelo orgulho ferido.
Tentou curar-se da inexplicável doença com os poderosos remédios deixados por Detinguen e percebeu, com horror, que aqueles remédios – em vez de aliviar pioravam o seu estado.
Desidério, por sua vez, também sentia algo estranho nos encontros com a jovem.
A sua imagem aparecia em sua mente com irritante constância, principalmente quando estava sozinho e queria descansar.
A imagem, que ele imaginava ser consequência de sua derrota, aparecia nítida e provocava nele um misto de amor e raiva.
Além disso, ele não tinha esse sentimento com nenhuma das outras mulheres que amou, seduziu e depois abandonou quando já estava satisfeito.
Certa noite, ele sentia-se particularmente irritado, nervoso e sem sono.
Desejando espairecer um pouco, sentou-se na escrivaninha para colocar em ordem seus papéis e, no fundo de uma das gavetas, achou o envelope lacrado que lhe entregou Detinguen alguns dias antes de morrer. Desidério pegou o envelope e ficou olhando-o.
O que conteria aquele misterioso envelope e por que ele só deveria conhecer o seu conteúdo quando Saint-André indicasse?
Ele, de repente, sentiu- se ofendido com tal obrigação e, sob a influência da persistente imagem de Dagmara, compreendeu imediatamente que a carta do mago, muito provavelmente, se referia a ela.
Talvez Detinguen quisesse incumbi-lo de transmitir alguma coisa à jovem.
Em todo caso, aquilo nada tinha a ver com Phillip!
E por que ele precisava de mentor?
E sem muito pensar, Desidério, movido pela raiva, quebrou o selo e tirou do grosso envelope uma folha de papel.
A carta era bem longa.
À medida que lia, o rosto do barão foi empalidecendo e na testa apareceram gotas de suor frio.
Ao terminar, ele deixou cair a carta e encostou-se na mesa:
espanto e horror apertavam o seu coração.
Que ciência terrível e misteriosa!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:41 pm

Que poder ela tem sobre seus adeptos se eles sacrificam até pessoas que, aparentemente, amam!
O que é isso, senão o ídolo de Moloch que exige vidas humanas em sacrifício?
E seria possível a operação de que falava Detinguen?
Desidério lembrou então um artigo de revista, sobre dois cientistas que fizeram uma experiência bem sucedida de transmissão de sensibilidade.
Se um tal de coronel Rosh conseguiu concentrar a sensibilidade de uma pessoa na água do copo, na flor ou numa fotografia e aquela pessoa sentia as picadas executadas sobre a planta ou a foto – ou, enfim, se os médicos podiam transmitir doenças de pacientes para pessoas sadias e depois ambas ficavam curadas, então por que não se poderia despejar a essência da vida de um ser para outro, sem nenhuma alteração aparente na saúde dos mesmos?
Também os médicos não sabem as consequências das suas experiências.
Com profundo suspiro, Desidério escondeu a carta de Detinguen e foi deitar; mas o sono não vinha e ele só adormeceu ao amanhecer, de cansaço.
Quando acordou, estava bem mais calmo.
De dia, os laços que o prendiam a Dagmara já não assustavam e encheram-no de vaidade; agradava-lhe a consciência de ter poder sobre outro ser.
Agora ele entendia a sensação estranha que tomava conta de Dagmara em sua presença.
Aquilo não era paixão oculta, como ele imaginava, mas a acção de forças ocultas.
Desidério quase perdoou a jovem por sua ousadia de tê-lo rejeitado, pela frieza e pelo desrespeito à sua pessoa.
Ela é sua escrava e muito mais do que seria se fosse uma paixão passageira!
Ele adquiriu sobre ela direitos bem mais sólidos do que a igreja concede.
Mas essa ligação era bilateral e ele próprio poderia sofrer graves e inesperadas consequências, o que diminuía muito o favor que Detinguen lhe fizera.
A partir daquele dia, Desidério ansiava de desejo de testar o seu poder.
Era difícil encontrar o momento oportuno, pois Dagmara evitava cuidadosamente ficar com ele a sós.
Desidério, entretanto, era paciente e persistente.
Logo conseguiu saber que a jovem, de vez em quando, passava uns dias na casa de Dina.
E ficou aguardando uma dessas visitas para aparecer na casa da senhora Rambach, certificando-se antes de que a dona havia saído.
Depois de ser informado pelo mordomo que a senhora Rambach não se encontrava mas logo estaria de volta e que a condessa Helfenberg estava sozinha na estufa de plantas, Vallenrod dirigiu-se imediatamente para lá, dizendo que iria esperar a volta da anfitriã.
A estufa era uma ampla galeria de vidro que saía para o terraço, cheia de plantas raras.
Dagmara estava semideitada no balanço entre arbustos de magnólias em flor e tão absorta em pensamentos, que só notou a aproximação do visitante quando este dirigiu-lhe a palavra.
Desidério notou que ela estava muito pálida e nitidamente doente.
Ao som de sua voz, Dagmara estremeceu e seu rosto ficou lívido, depois vermelho e novamente lívido, mas seu olhar como sempre permaneceu hostil e atento.
Com expressão fria ela retirou a mão que o conde segurou mais tempo do que devia.
Isso irritou-o e, quase imediatamente, passou pelo seu semblante um imperceptível sorriso de desdém.
Está tudo acabado, minha querida!
A sua altivez não a salvará do meu poder – pensou ele.
A sua resistência não levará a nada, e você cairá nos meus braços quando eu a desejar.
Parecendo sentir esses pensamentos, Dagmara dirigiu-lhe o seu olhar hostil e desconfiado, mas o bonito rosto do jovem oficial já apresentava uma expressão contida e respeitosa.
Ele começou a falar do tempo e do calor que fazia e, quando Dagmara respondeu que o calor provocara nela uma dor de cabeça, Desidério agarrou rapidamente um leque e começou a abaná-la.
No mesmo momento ele concentrou nela a sua força de vontade, ordenando-lhe que dormisse.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:41 pm

E, para o seu grande prazer, logo percebeu que o rosto de Dagmara assumiu uma expressão cansada e sonolenta, suas pálpebras fecharam-se rapidamente e a respiração tranquila e uniforme indicava que ela adormecera.
Desidério olhou-a com ar triunfante.
Realmente ela era encantadora e destacava-se sobremaneira das mulheres de todos os tipos e categorias que já passaram pelas suas mãos.
Tudo nela era delicado e transparecia nobreza; qualquer toque bruto parecia que iria quebrar a sua figura esguia e graciosa.
Seu espírito, calmo, equilibrado e de pureza virginal harmonizava completamente com a sua aparência.
Mas conseguiria ele acender naquela alma a chama da paixão, e ensinar àqueles lábios rosados palavras de amor?
Desidério inclinou-se, pegando a mão de Dagmara.
Instantes depois ele percebeu que um tremor percorreu o corpo de Dagmara e a palidez de seu rosto alterou-se para um tom róseo.
À medida que ele apertava em sua mão aqueles dedos finos, um fluido vital parecia inundar o corpo da jovem com novas forças e nova vida.
— Dagmara, você está dormindo?
Você me ouve? – perguntou Vallenrod.
— Sim.
— Você percebe que estamos ligados por laços fluídicos que eu comando?
Uma expressão de amargura e tristeza distorceu o rosto de Dagmara, ainda dormindo.
— Sim, eu vejo estes laços.
— E então?
Você está pronta a obedecer voluntariamente, ou devo obrigá-la a isto?
Em outras palavras, você irá pertencer-me, apesar de me dizer “não”?
— Para a minha infelicidade – sim.
— Diabos! Pelo menos, foi sincera.
Então, na sua opinião, pertencer a mim é uma infelicidade?
Então, confesse! Você me ama?
— O senhor me agradava, mas não era amor.
Quando me convencer que o senhor não merece nem respeito nem amor, pelo seu comportamento em relação à minha pessoa, então apagar-se-á qualquer bom sentimento pelo senhor.
Mas contra o seu poder sempre irei lutar – murmurou a jovem, e pelos seus lábios passou um sorriso desdenhoso de desprezo.
Naquele minuto ouviu-se o barulho de carruagem chegando e soou a voz de Dina, que conversava alegremente com alguém.
Desidério ficou irritado por ter sido incomodado numa hora tão interessante, mas nada podia fazer.
Soltou as mãos de Dagmara, executou alguns passes e soprou no seu rosto.
— Acorde! – murmurou
E dirigiu-se rapidamente para a porta, cumprimentando alegremente Dina e Lotar que vinham pelo jardim.
Dagmara abriu os olhos com um suspiro.
Será que estava sonhando?
Não, aquilo era impossível!
Vallenrod, ainda com o leque na mão, descia do terraço ao encontro da dona da casa.
— Olá, Dagmara!
Como você está fresca e rosada hoje!
Nem sinal da antiga palidez! – disse o médico Reiguern, apertando-lhe a mão.
Vejo com satisfação que finalmente acertei no tratamento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:41 pm

Você deve continuar com ele – acrescentou alegremente.
Desidério virou-se e colheu uma rosa, que prendeu na lapela.
— Mas que idiota! – murmurou ele com desprezo.
Não foram as suas drogas que realizaram este milagre, mas o meu tratamento.
Você com a sua ciência é simplesmente um ignorante!
Ah, Detinguen, como você foi hábil naquela hora – acrescentou ele, em pensamento, observando com um sentimento estranho a acção da força mágica no frescor do rosto de Dagmara.
Fazia muito que ele não a via tão alegre e viva.
A partir daquele dia, animado com o duvidoso sucesso do seu tratamento, Lotar começou a visitar Dagmara com mais frequência, e seu sentimento por ela aumentava cada vez mais.
Por prescrição do seu zeloso médico, Dagmara levantava da cama cedo e realizava diariamente longos passeios; o seu local preferido para isso era um pequeno bosque próximo da cidade.
No meio desse bosque existia uma gruta e uma fonte d’água denominada fonte de Nossa Senhora.
O lugar era encantador, cercado por carvalhos seculares entre os quais corriam as águas cristalinas da fonte.
No interior da gruta, no nicho para onde levavam alguns degraus, havia uma imagem da Virgem Maria com o Jesus Menino nos braços:
a pedra escurecera e desgastara sob a acção do vento e o pedestal da imagem estava liso pelos beijos dos fiéis.
Apesar da indiferença religiosa que cada vez mais tomava conta da turba, tanto no nicho como nos degraus sempre havia flores frescas e na lamparina acesa nunca faltou óleo.
Do outro lado da gruta foi instalado um pequeno altar de pedra, sobre o qual duas vezes por ano eram rezadas missas.
A lenda contava que alguns séculos atrás, esta imagem se encontrava na capela do castelo de um cavaleiro, senhor feudal.
Era um homem ímpio e cruel, que matou a sua jovem e crente esposa e casou-se com outra mulher bonita e rica, mas tão má e ímpia quanto ele próprio.
Por insistência da nova esposa, ele livrou-se da filha do primeiro casamento, dando-a a pobres camponeses.
A Virgem Santíssima, padroeira da falecida, apareceu por três vezes em sonho ao mau cavaleiro, ordenando-lhe severamente para trazer de volta a filha e expulsar a indigna mulher; mas ele, na sua teimosia, expulsou a imagem, mandando colocá-la na floresta.
Alguns anos mais tarde, ele adoeceu de repente, perdendo o domínio dos braços e pernas e com o corpo todo coberto de chagas.
Aterrorizado, arrependeu-se, expulsou a esposa e trouxe de volta a filha, que já tinha completado quinze anos.
Delicada e benevolente como a mãe, ela perdoou o pai, rezava por ele e convenceu-o a construir um convento para colocar lá a imagem expulsa do castelo de forma tão sacrílega.
Levou o pai à floresta e ambos começaram a pedir perdão à Nossa Senhora.
A Virgem Maria ouviu as preces da jovem:
certa noite, na gruta jorrou uma fonte d’água e, quando o cavaleiro banhou-se nela, recuperou imediatamente a saúde.
Ao mesmo tempo a jovem recebeu em sonho uma mensagem, dizendo que a Santíssima Virgem desejava que a sua imagem permanecesse na gruta.
Comovido pelo milagre, o senhor feudal distribuiu seus bens entre os pobres e fundou a Ordem dos Templários, onde recebeu a tonsura.
A sua filha também se dedicou ao serviço do Senhor.
E foi justamente esse lugar poético e consagrado pela tradição que Dagmara escolheu para seus passeios.
Muito pouca gente passeava por lá e a jovem, descansando sob a sombra de carvalhos seculares, gostava de observar os pobres que vinham rezar com veneração e fé aos pés de Nossa Senhora.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:41 pm

Certa vez, ela viu junto à gruta um homem idoso e paralítico, em uma cadeira de rodas, acompanhado de uma mocinha.
O rosto do velho, emoldurado por uma barba grisalha, pareceu muito simpático a Dagmara; ele lembrava Detinguen, cuja memória era sagrada para ela.
A partir daquele dia, Dagmara encontrava regularmente aquele interessante casal; eles já se cumprimentavam e até trocavam frases, de passagem, mas a jovem ainda não sabia quem eram seus novos conhecidos.
Certa manhã, chegando à gruta antes do horário habitual, Dagmara encontrou a garota sozinha; ela estava ajoelhada diante da estátua de Nossa Senhora e rezava com tanto fervor, que nem notou a sua chegada.
Dagmara parou em silêncio à entrada da gruta e ficou observando, triste e pensativa, a mocinha em oração.
Houve uma época em que ela própria rezava daquela maneira e era muito mais feliz...
Por fim, a mocinha enxugou as lágrimas da face, beijou os pés da Santíssima Virgem e enchendo um frasco com a água da fonte, já se preparava para ir embora.
Ao deparar com Dagmara, ela ficou vermelha e queria passar rapidamente, mas Dagmara interpelou-a e começou a conversar.
A mocinha gostava de conversar e elas sentaram no banco que havia à entrada da gruta.
Logo Dagmara ficou sabendo de toda a história de sua nova conhecida.
O velho doente chamava-se Eshenbach.
No seu tempo ele foi um tabelião e viveu doze anos na América para onde foi chamado por problemas familiares.
Sibilla, sua sobrinha, era a órfã que ele adoptou.
Dois anos atrás, uma das catástrofes financeiras que nos Estados Unidos constantemente criam e derrubam grandes fortunas arruinou inesperadamente Eshenbach.
O choque provocado por aquela infelicidade teve como consequência um ataque apopléctico, que se manifestou inicialmente como uma fraqueza nas pernas e, aos poucos, transformou-se em completa paralisia.
A perseguição ao devedor de uma grande soma, obrigou o ex-tabelião a voltar para a Europa.
E, como o devedor vivia em Prankenburgo, Eshenbach, então, também mudou-se para cá com a sua tutelada.
— O processo está se prolongando e a doença impede meu pobre tio de acompanhar o caso, sem falar que ele, por vezes, sente terríveis dores em todo o corpo – concluiu Sibilla, enxugando as lágrimas.
Se a senhora soubesse, como ele é bondoso e como é difícil para mim vê-lo sofrer.
Já me convenci que os médicos não conseguem curá-lo, e somente Deus poderá fazer isto se eu rezar adequadamente.
Por isso, venho para cá implorar esta graça a Nossa Senhora.
Estou convencida de que Ela encontrará um meio de ajudar-nos, pois apareceu-me hoje durante o sono e disse:
“Tenha fé!”– acrescentou a mocinha, com os olhos brilhando.
Dagmara estremeceu, lembrando do frasco vermelho com tampa de ouro que continha exactamente a essência apropriada para curar Eshenbach.
Ela há muito tempo queria oferecer sua ajuda ao simpático velho, mas continha-se, pois todos que ajudava ou queria ajudar pagavam-lhe com brutalidade ou ofensas.
Mas, naquele caso, percebendo a indicação directa das forças invisíveis, ela não hesitou.
— Você tem razão, Sibilla!
A Santíssima Virgem ouviu as suas preces e me escolheu como instrumento de Sua vontade.
Eu tenho o remédio que quase certamente irá curar a doença que seu tio tem.
Venha visitar-me na Vila Egípcia amanhã de manhã; qualquer pessoa lhe indicará o caminho.
Eu lhe darei um remédio que, no mínimo, irá aliviar o doente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:41 pm

Sibilla ficou contente, agradeceu e, na manhã seguinte, compareceu pontualmente à vila.
Dagmara deu-lhe um unguento para os pés e gotas que o paciente deveria tomar três vezes ao dia.
Uma semana mais tarde, Sibilla chegou correndo à vila, toda radiante.
O paciente simplesmente renasceu:
voltou o sono e o apetite, as dores desapareceram e as pernas recuperaram a sensibilidade.
Animada com tal sucesso, Dagmara continuou o tratamento e, três semanas depois, Eshenbach veio pessoalmente, acompanhado da sobrinha, agradecer à sua encantadora salvadora.
Dagmara recebeu-os com a costumeira amabilidade e também ficou surpresa com o resultado do tratamento.
O velho rejuvenesceu uns vinte anos; seu andar ficou mais flexível, a cor da pele ficou mais fresca e saudável e os olhos reflectiam vida e energia.
A jovem anfitriã convidou os visitantes para o desjejum.
Começou uma conversa amigável e Eshenbach perguntou, curioso, como ela adquirira tão extraordinários conhecimentos.
— Meus conhecimentos não são grandes.
Eu somente utilizo os frutos dos trabalhos científicos do meu pai adoptivo, o barão Detinguen – respondeu Dagmara com um sorriso.
Por muito tempo ele viveu e estudou na Índia e trouxe de lá os mistérios dos estranhos remédios que o curaram.
— Não seria indiscrição da minha parte, condessa, se lhe perguntar:
o seu pai não seria o conde Victor Helfenberg?
— Sim. Minha mãe inicialmente era casada com Detinguen, mas eles se separaram; e quando meus pais faleceram, o barão de Vallenrod foi nomeado meu tutor e morreu gastando a sua e a minha fortuna.
Meu pai adoptivo me pegou da viúva do barão.
— Mas a senhora, além disso, tinha uma fortuna considerável que, penso eu, o barão não poderia gastar – observou Eshenbach.
— Não, tudo indica que ele gastou tudo, pois o meu pai adoptivo me dizia que eu nada possuía e que era muito maltratada na casa da baronesa Vallenrod, que me odiava.
A minha governanta, que morava lá na mesma época, contava-me que a baronesa me chamava de mendiga e queria colocar-me numa escola profissionalizante.
Como vêem, lá eu teria uma vida de miséria e humilhação se não aparecesse o meu salvador na pessoa do homem, cuja memória é para mim sagrada.
Eshenbach nada respondeu, e parecia estar preocupado com algo.
Depois, despediu-se rapidamente e foi embora.
Alguns dias mais tarde Dagmara soube por Sibilla que seu tio viajara a negócios, mas ocupada com suas coisas, não deu atenção a isso.
Já fazia algumas semanas que ela sentira a volta da doença da qual tinha sarado de forma incrível no dia em que esteve na casa da Dina junto com Vallenrod.
Todos os sintomas misteriosos voltaram com novo ímpeto e não cediam a nenhum tratamento.
A persistência com que a imagem de Desidério a perseguia, irritava a orgulhosa jovem, e nunca o oficial foi tão malquisto por ela.
Tal sensação de desagrado a Desidério aumentou ainda mais quando Dagmara, sem querer, percebeu, chocada, que começara uma estranha relação entre Vallenrod e a jovem duquesa e que eles trocavam bilhetinhos em sigilo.
A consciência de se encontrar sob uma inexplicável influência de um patife que, de forma sacrílega, atentava contra a honra do seu rei e benfeitor, irritavam tanto Dagmara que ela resolveu casar-se, na esperança de que novas obrigações e interesses amenizariam a sua incompreensível doença.
Mas casar com quem?
Admiradores não faltavam, só que a maioria deles eram iguais a Desidério, egoístas e devassos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:42 pm

Dentre todos, a sua escolha recaiu em Saint-André.
Ela notava cada vez mais a delicadeza, a mente desenvolvida e o carácter nobre do jovem conde, mas este, continuava em silêncio, apesar da amizade e afeição que sempre demonstrava.
Num dos momentos de amarga irritação, Lotar declarou-se a ela, implorando casar com ele, e Dagmara não pensou duas vezes; sentia uma profunda simpatia pelo seu amigo de infância, e a ideia de ser sua esposa não lhe era repugnante, pois conhecia a sua nobreza e honestidade.
Então Dagmara disse-lhe “sim” e Lotar, arrebatado pela felicidade, prometeu-lhe que iria ver o pai para arrepender-se diante dele e receber o seu perdão.
Depois o jovem médico pediu à noiva guardar em segredo por três meses a decisão de ambos e somente anunciar o noivado depois de ele publicar o seu trabalho científico que esperava que o deixaria famoso.
Dagmara concordou e, dias depois, Lotar viajou a Berlim para passar três semanas de férias.
No dia seguinte, após a viagem de Reiguern, Dagmara recebeu a visita de Eshenbach.
Ele estava extremamente sério e pediu-lhe alguns minutos para uma conversa em particular.
Surpresa, Dagmara levou-o aos seus aposentos e lá Eshenbach tirou da bolsa uma pasta e colocou-a sobre a mesa.
— Condessa! Vim aqui informá-la de que a senhora foi roubada, da forma mais infame, de uma grande fortuna e as provas deste roubo estão nesta pasta.
E ele contou em detalhes que tinha entregue à baronesa Vallenrod duzentos mil marcos que o velho conde Helfenberg havia deixado de herança para a sua sobrinha.
Pelas informações que recolheu, soube que o barão Gunter matou-se doze horas antes da hora em que ele entregava o dinheiro à baronesa.
Por isso o barão não podia tê-lo gasto e a viúva se apoderou descaradamente do dinheiro.
— Eis os documentos que provam esta apropriação e as cópias notariais dos mesmos – continuou Eshenbach, tirando da pasta um maço de papéis.
Em primeiro lugar, aqui está a carta do velho conde, na qual ele me incumbe de entregar ao barão Gunter o dinheiro destinado à sua sobrinha.
Junto com esta carta havia um cheque e o nome do banco onde estava depositado o dinheiro.
Eis a cópia do meu recibo de recebimento de tal valor em dinheiro do banco, que existe até hoje.
E finalmente, o principal, aqui está a assinatura de próprio punho da baronesa Vallenrod, confirmando o recebimento do dinheiro.
Eu, por acaso, também tenho um documento muito valioso – a conta do hotel onde fiquei de passagem e onde peguei a carruagem para ir à casa de campo do barão.
Com estes documentos e meu testemunho, a condessa poderá abrir um processo contra a criminosa mulher que, além de roubá-la, teve a coragem de maltratá-la e ainda queria transformá-la em uma pobre braçal, enquanto vivia com seu dinheiro e pagava com ele os caprichos do seu filho devasso.
Dagmara, estarrecida, ouvia-o sem interromper.
Suas mãos tremiam quando ela lia e relia os documentos que provavam claramente o roubo do qual ela foi vítima.
Uma tempestade de sentimentos desencadeou-se em seu peito e, instantes após, ela disse com certo esforço:
— Senhor Eshenbach, agradeço este favor, mas antes de empreender qualquer coisa, devo pensar.
Por favor, guarde os originais dos documentos consigo e deixe aqui somente as cópias.
Eshenbach apertou-lhe a mão e retirou-se, após informá-la de que estaria sempre pronto ao seu dispor.
Ficando só, a jovem ordenou que não a incomodassem sob nenhum pretexto.
Depois, jogou-se na cama e tentou colocar os pensamentos em ordem.
Que infinita baixeza e maldade se escondiam sob aquela aparência de séria bondade daquela mulher que não hesitou em roubar uma órfã, já roubada pelo seu marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:42 pm

E, não satisfeita com isso, ela ainda a odiava e maltratava a criança com cujo dinheiro ela própria vivia na fartura.
Um sombrio ódio e uma ardente vontade de vingança ferveu de repente no coração de Dagmara.
Que prazer seria humilhar e destruir a baronesa, colocando-a no banco dos réus.
Mas, esta vingança atingiria também a Desidério...
É claro que ela tinha todo o direito de exigir de volta aquele dinheiro, que seria muito útil principalmente agora que iria casar-se.
Por outro lado, não estava pobre e vivera até agora sem desconfiar da existência daquele dinheiro.
Dagmara ficou indecisa.
A sua natureza bondosa e generosa compadeceu-se do jovem oficial, que, obviamente, nada sabia sobre o roubo; e a condenação da mãe acabaria com sua carreira, seu futuro e mancharia indelevelmente a honra do tradicional nome de família.
É difícil descrever os pensamentos estranhos e sentimentos inesperados que passavam pelo espírito de Dagmara.
Mas, após uma rápida luta entre a vontade de vingança e a compaixão, triunfou a salvação de Desidério e a moça decidiu nada falar, por enquanto.
Cansada com essa luta moral, Dagmara passou toda a tarde sozinha em seu quarto.
Aquele não era o seu dia de plantão e não havia recepções na corte.
O duque fora caçar, a duquesa estava com forte enxaqueca e desejara ficar só.
Para desanuviar os pensamentos, Dagmara ocupou-se com leitura.
Já passava da meia-noite, quando ela apagou a lâmpada e foi para o dormitório.
Era um pequeno quarto, muito bem decorado, com seda rósea e musselina branca.
Pesadas cortinas de seda, amarradas com grossos cordões, separavam este boudoir de uma ampla alcova, em cujo fundo havia uma luxuosa e drapejada cama.
Numa das paredes havia um nicho inteiramente ocupado por um grande espelho.
Dagmara deitou, mas não conseguia dormir; a conversa matinal com Eshenbach absorvia todos os seus pensamentos.
De repente, um ruído parecido com o leve rangido de porta se abrindo obrigou-a a estremecer e levantar-se.
Qual não foi o seu horror, quando o espelho do nicho abriu-se e dali saiu um homem seminu.
O homem quase tropeçou na sua cama e, depois, pálido e mal contendo a respiração, encostou na parede.
Naquele momento Dagmara reconheceu nele Desidério, que levava o uniforme na mão.
— O senhor enlouqueceu, barão Vallenrod, ousando entrar à noite no meu dormitório!
Saia já daqui! – exclamou Dagmara, fora de si de indignação.
A jovem estava encantadora em seus trajes de dormir com larga gola de renda.
Sua face ardia, os olhos faiscavam de irritação e os vastos cabelos negros caíam nos ombros.
Apesar da forte emoção que o fazia estremecer, Desidério olhou-a e em seus olhos acendeu-se uma fagulha de admiração.
— Sshh! – sussurrou ele, vestindo apressadamente o uniforme.
— Pelos céus, condessa, fique quieta...
Nesse instante o duque bateu, de repente, na porta da esposa e se me pegasse com ela, seria o fim de ambos...
E nem estou falando de mim mas da honra e do destino da duquesa, que corre perigo de separação...
Em nome da amizade que ela lhe dedica, salve-a!
— Sacrificando a própria honra? Nunca!
Nada tenho a ver com o seu romance secreto.
O senhor e a duquesa são culpados – e devem colher os frutos dos seus actos.
Eu, de qualquer forma, vou justificar-me e mostrar ao duque o segredo desta porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 04, 2016 7:42 pm

E agora repito, saia daqui por onde entrou!
Não vou permitir que o senhor saia para o corredor de um dos meus quartos.
Naquele instante, do quarto contíguo da duquesa ouviu-se a sonora e irritada voz do duque:
— Você nega?
Mas eu lhe digo que vi na cortina a sombra de um homem.
E não descansarei enquanto não examinar cuidadosamente todos os armários e quartos vizinhos!
Ele gritava tão alto que se ouvia nitidamente cada palavra.
— Ah! Os aposentos ao lado são da condessa Helfenberg?
É difícil que ela esteja com algum cavalheiro, mas não importa!...
Qual dama de companhia está de plantão?
Condessa Vern? Perfeito!
Sua idade e situação permitem-lhe entrar imediatamente no quarto da jovem.
– Minha senhora, vá lá e veja se tem algum homem com a condessa Helfenberg!...
— Meu Deus! – exclamou Dagmara, pondo as mãos na cabeça.
Que vergonha cairá sobre mim pela sua desonestidade!
Mas não vou suportar isso, vou explicar...
— Dagmara! Nenhuma vergonha cairá sobre você.
Você será a minha esposa...
Não nos entregue! – murmurou, implorando, Desidério, agarrando a mão da jovem.
Ela afastou-o com nojo.
Mas essa emoção somada à do dia anterior foi demais para ela.
Tudo começou a rodopiar; ela viu o rosto desfigurado pelo medo do oficial, como através de uma névoa e, em seguida, perdeu os sentidos...
Logo, na porta da alcova apareceu a condessa Vern com uma vela na mão.
Ao ver Dagmara deitada inconsciente e Desidério em pé, ao lado da cama, um sorriso venenoso passou pelos seus lábios.
Ela era famosa pela língua ferina e odiava Dagmara por ter tomado o lugar de dama da corte que planeava para sua filha.
Recuando, ela disse zombeteira e friamente:
— Ah! É o senhor, barão Vallenrod!
Sua alteza, provavelmente, ordenará que compareça ao seu gabinete, assim que o senhor sair deste quarto.
O duque, irritadíssimo, andava sombrio pelo boudoir da duquesa, que, pálida e emocionada, estava inerte no sofá.
Quando chegou a condessa Vern e informou o que viu, o rosto do duque ficou deformado por um arrepio.
Seu olhar, cheio de ódio e desprezo, passou pela duquesa que se aprumou e soltou um suspiro de alívio:
— Você mesmo percebe, Franz, o que provoca o seu ciúme insano!
Sem qualquer motivo provocou um escândalo desses!... - exclamou com irritação a duquesa e, notando o olhar irado do marido, calou-se imediatamente.
— Digam a Vallenrod que estou esperando-o no meu gabinete – disse surdamente o duque, dirigindo-se à porta.
Assim que ele saiu, a duquesa pulou do sofá e, fora de si de raiva, começou a andar pelo quarto.
— Deixe-me só, condessa!
Depois desta horrível cena, quero ficar só – exclamou ela e desandou a chorar.
Quando a condessa Vern saiu, a duquesa trancou a porta à chave e continuou a soluçar tão alto, que se podia imaginar que estivesse tendo um ataque de nervos.
Mas, assim que a porta do quarto vizinho fechou-se, a condessa correu para a passagem secreta, apertou uma alavanca e entrou apressadamente no quarto de Dagmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:46 pm

Esta ainda estava desmaiada e a própria duquesa começou a cuidar dela.
— Vá para a sala de visitas, Vallenrod, e aguarde-me lá!
Devo conversar com Dagmara, assim que ela voltar a si.
Sem dizer palavra, Desidério foi para a pequena sala de visitas dos aposentos de Dagmara e jogou-se numa poltrona.
Sentia-se arrasado.
A impensada intriga que criou poderia terminar muito mal se Dagmara não concordasse em assumir todas as consequências daquele acto.
Vallenrod levantou, aproximou-se da porta e começou a espiar pelo vão da cortina.
À luz da vela acesa sobre a mesa, viu que a pálida Dagmara, já vestida com penhoar, estava encostada à mesa enquanto a duquesa, de joelhos, implorava-lhe que a salvasse e casasse com Desidério.
— Vossa alteza, como pode exigir que eu assuma esta vergonha não merecida, sacrifique a minha honra e felicidade para encobrir esta... – exclamou Dagmara, toda trémula.
A sua voz falhou e, em altos soluços, ela cobriu o rosto com as mãos.
A duquesa levantou-se vagarosamente.
— Então, nada me resta a não ser o suicídio.
O duque não me perdoará e a vergonha que me espera como esposa e mãe é pior que a morte.
Dagmara estremeceu e levantou a cabeça.
Seus olhares se encontraram.
No rosto mortalmente pálido da duquesa lia-se um medo tão desesperado, que a generosa jovem sentiu por ela uma profunda compaixão.
Luiza-Adelaide, percebendo isso, caiu novamente de joelhos diante dela e implorou, com voz abafada:
— Dagmara! Seja bondosa!
O casamento com Vallenrod vai trazer-lhe felicidade.
Deus irá abençoar este seu acto generoso e serei eternamente sua devedora!
O choro convulsivo impediu-a de prosseguir e ela, com um gemido abafado, encostou a cabeça na poltrona.
A grande luta interna pela qual Dagmara estava passando reflectia-se até no seu rosto.
Por fim, a compaixão e um caos de sentimentos que ela própria não conseguia entender triunfaram sobre a sua legítima ira.
Inclinando-se para a duquesa, tocou-a levemente no ombro e murmurou com voz abatida:
— Levante, vossa alteza!
Vou salvar não a sua “dignidade”, mas a esposa e a mãe, da vergonha do divórcio.
Aceito o seu amante para meu marido.
E agora, saia. Preciso ficar sozinha.
Vou mudar-me imediatamente da corte onde vim parar para própria desgraça.
A duquesa rapidamente pôs-se de pé.
— Oh! Eu lhe agradeço muito! – exclamou ela, e correu para a sala de visitas, onde estava Desidério, muito pálido e taciturno.
— Vallenrod!
Estamos salvos graças ao sacrifício da generosa moça.
Vá agora mesmo ver o duque.
Sem dizer uma palavra, o barão saiu dos aposentos de Dagmara.
Parecia-lhe ter-se livrado de um nó de forca.
Estava salvo e, mesmo que lhe fosse impossível implorar pela própria salvação, o acontecido devolveu-lhe a costumeira pose.
Apesar da palidez, ele estava calmo e porta-se com dignidade ao entrar no gabinete do duque.
Este, sentado diante de uma mesa abarrotada de papéis, não estava trabalhando e seus olhos fixaram-se no jovem oficial parado diante dele numa pose respeitosa mas de auto-confiança.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:46 pm

Aliás, essa confiança durou até Desidério encontrar o olhar sombrio e de ódio, e compreender que Franz-Erich não fora vítima da comédia montada diante dele.
— O senhor passa bem as suas noites, barão Vallenrod, seduzindo as damas da corte e transformando o meu palácio em casa de tolerância – disse o duque com voz rouca e severa.
Mas, já pensou nas consequências de tais aventuras?
— Sim, vossa alteza!
A condessa Helfenberg é minha noiva e nós logo casaremos.
— Verdade? Muito bom.
E o senhor deveria fazer isso caso, é claro, a condessa Dagmara não tenha motivos ocultos para não rejeitar tal desculpa da visita... que, por acaso, apareceu em seus aposentos.
— Estou falando isto com o consentimento da condessa – respondeu Desidério, empalidecendo.
— Neste caso, resta saber o que o senhor quer dizer com: logo?
Para mim isto significa “duas semanas”.
O casamento será realizado na capela do palácio, na minha presença e de toda a corte.
Isto será um sinal de minha generosidade e profundo respeito pela condessa Helfenberg.
O senhor entendeu, Vallenrod?
Agora, vá!
Concedo-lhe um mês de férias para os preparativos e a lua-de-mel.
Desidério saiu do gabinete completamente tonto e deixou o palácio.
Mas, em vez de ir directamente para casa, passou na casa de Saint-André.
Este estivera trabalhando até aquela hora da noite, preparava-se para dormir e ficou extremamente surpreso com a inesperada visita do companheiro a uma hora tão imprópria.
A palidez e o nervosismo do companheiro espantaram-no.
— O que aconteceu, Desidério?
Você está com a aparência de quem foi condenado à morte – perguntou o conde, vendo o visitante desabar na poltrona e cobrir o rosto com as mãos.
— É quase isto!
Aconteceu algo que poderia acabar em forca – respondeu Desidério e, com a voz embargada de emoção, contou tudo.
— Mas é desonesto da parte da duquesa desenvencilhar-se da desgraça desta forma.
Como você pôde concordar com isso? – exclamou Saint-André, enrubescendo.
— Queria ver você no meu lugar!
Nem consegui raciocinar.
E como poderia saber para onde ela estava me empurrando?
Pensei que fosse um armário – contestou Desidério irritado.
Imagine a minha situação quando, de repente, me vi diante da cama da condessa!
Mas isso foi muito fortuito, pois ela concordou em abafar esta história, porque o duque desconfia da verdade.
Também é verdade que a duquesa teve de implorar-lhe de joelhos!
— E foi pouco! Pobre Dagmara!
E você, Desidério, é um sujeito de sorte.
Ganhou uma mulher como ela sem mexer uma palha para conquistá-la!
Pelo menos, faça-a feliz, já que o destino os uniu de forma tão estranha.
— E por que você não casou com ela, já que duvida da minha capacidade de ser um bom marido? – perguntou Vallenrod, zombeteiro.
— Apesar de toda a minha atracção por ela e na certeza de que ela me aceitaria como marido, não podia fazer isto, sabendo que ela está ligada por laços invisíveis...
E Saint-André calou-se de repente.
— Ela está ligada a mim – terminou a frase Desidério, pondo a mão no ombro do conde, que ficou pálido e recuou.
— Como?... Então, você sabe!...
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:46 pm

Você leu a carta de Detinguen antes do prazo?
Você sabe que isto é...
— Calma! Não diga aquilo do que pode arrepender-se mais tarde.
Sim, eu li, mas por um infeliz acaso.
Nunca abusei da descoberta deste segredo e você mesmo percebe que o destino nos empurra um ao outro.
— Sim, um destino fatal – disse sombriamente Saint-André.
Mas, será que você irá amá-la como ela merece?
Já parou para pensar sobre a nova vida que inicia e da necessidade de acabar com o passado, as intrigas amorosas e aventuras escandalosas?
Já pensou, seu pândego, que você deve acostumar-se a vida familiar?
Desidério permanecia calado e, jogando a cabeça para trás, fechou os olhos.
Sim, ele já pensara em tudo isso e parecia-lhe que sobre seus ombros caía todo o peso do fardo do casamento que lhe despertava irritação e amargura.
— Meu Deus, como você é aborrecido, Phillip.
Você é capaz de fazer-me um sermão inteiro sobre o idílio familiar; e isto – na nossa época!
Não é nada disso!
Não serei um trouxa para ficar grudado à saia da esposa quando surgir uma oportunidade de divertir-me sem o risco de cair numa armadilha como hoje – pensou Desidério, mas respondeu:
— Está tudo certo!
Sei que devo agora começar uma outra vida.
Aliás, amo Dagmara, apesar de sua excessiva bondade e outras ideias que Detinguen lhe incutiu.
Mas como todos os maridos educam à sua maneira as próprias esposas, também irei reeducar a minha.
— Cuidado! Você pode estragá-la.
Considero muito boa a educação de Detinguen.
Ou, será que você pretende depravar Dagmara?
— Que nada!
Vou guardar rigidamente a benfeitora na minha casa, considerando-a como um purgatório no qual poderei purificar-me, como com água benta, dos pecados mundanos – respondeu Desidério, rindo.
Ignorando o gesto de desaprovação do conde, ele deitou no sofá e acrescentou:
— Posso passar a noite aqui?
Não gostaria de voltar agora para casa.
Na manhã seguinte, Vallenrod já estava absolutamente calmo e tendo pensado em tudo.
Estava feliz e agradecia a Deus por ter-se livrado daquela perigosa aventura.
Precisava agora contar tudo à mãe, conversar com Dagmara e discutir com ela todos os detalhes necessários.
Com esse objectivo, ele dirigiu-se ao palácio, mas lá soube que a jovem já tinha ido embora para a sua vila.
Desidério, então, enviou-lhe um bilhete através de mensageiro e recebeu a resposta que ela estaria esperando-o às seis horas da tarde.
O dia transcorreu extremamente monótono.
Perto das cinco horas da tarde, Dagmara vestiu-se, desceu para a sala de visitas e, depois de andar pelo quarto, debruçou-se na janela, olhando a estrada pela qual devia chegar Desidério.
Com torturante nitidez, lembrou a época quando ficava ali aguardando-o e sonhava com a felicidade de tornar-se sua noiva.
E agora, quando isso virou fato consumado, a esperada felicidade transformou-se em sofrimento, como se a sua alma fosse ferida por uma flecha envenenada.
Dagmara deu um profundo suspiro e apertou a mão junto ao coração, que batia de forma doentia.
Como será o seu destino com um homem que mal saiu dos abraços de outra mulher e entrou, por acaso, no seu quarto?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:47 pm

Será que ele irá casar com ela para salvar a “honra” daquela mulher e a sua carreira?...
Naquele instante ela notou na estrada duas luzes que se aproximavam rapidamente; eram as lanternas da carruagem de Desidério.
Ela se apressou em baixar rapidamente a cortina e sentou-se à mesa onde o criado havia acabado de colocar uma lâmpada.
Todo o sangue do corpo correu para o coração, que passou a bater até quase doer.
Passaram-se alguns minutos de angustiosa espera.
Dagmara ouviu quando a carruagem parou junto ao portão, e depois, os passos, que ela conhecia tão bem, se aproximaram da sala de visitas cuja porta foi aberta pelo criado.
Desidério estava pálido e um pouco acabrunhado.
Dirigiu um olhar indeciso ao rosto abalado e alterado de Dagmara, cujo traje preto destacava sobremaneira a sua mortal palidez.
Mesmo assim, ele aproximou-se rapidamente e quis beijar-lhe a mão, mas ela pareceu não notar esse gesto e somente acenou com a cabeça, indicando a cadeira.
— Que infantilidade, Dagmara! – disse o barão, enrubescendo.
Daqui a duas semanas você me dará a mão para toda a vida, e agora nega um simples cumprimento.
— Parece-me, barão, que a necessidade que nos uniu não nos obriga a desempenhar esta comédia quando estamos a sós.
Desidério endireitou-se rapidamente.
— Você se engana!
Não considero, em absoluto, o nosso casamento como uma comédia, mas uma sólida união que aceito com todos os direitos e obrigações.
Dagmara enrubesceu diante do olhar apaixonado de Desidério mas, levantando energicamente a linda cabeça, disse friamente:
— Compreendo, barão.
Mas suas palavras me obrigam a explicar-me melhor e impor as minhas condições.
Encaro o nosso casamento como uma formalidade que deve ser cumprida para salvar a duquesa das merecidas consequências de suas aventuras amorosas.
Penso que este sacrifício é suficiente e não desejo ocupar o lugar de “legítima” na longa lista de suas amantes passageiras.
Vamos viver juntos sob o mesmo tecto, mas somente como bons conhecidos – e isto é tudo.
— Com que direito, condessa, impõe-me tais condições, que declino desde já – respondeu Desidério, franzindo o cenho.
— O senhor irá aceitá-las, pois este casamento salva também o seu futuro, talvez até a vida e também a situação da duquesa – retrucou calmamente Dagmara.
Ambos estariam mal se me negasse a aceitar isso.
E para liquidar a ambos e recuperar a liberdade, basta-me conversar uns dez minutos com o duque, revelar-lhe o segredo da porta secreta e mostrar o bilhetinho que o senhor perdeu certa vez e que poderia ter sido achado por alguém menos discreto do que eu.
Então o senhor percebe que é melhor continuarmos amigos.
Agora quero a sua palavra de honra que irá respeitar o nosso acordo e concordar com os direitos fictícios.
O barão mordeu os lábios.
— Mas que ingenuidade!
Ela imagina que uma palavra de honra arrancada em tal situação tem qualquer valor.
Mas, aguarde-me!
Quando voltarmos da igreja, eu ditarei as minhas regras – pensou ele furioso, mas respondeu num tom ofendido.
— Nunca insisto com uma mulher, mesmo que seja minha esposa, se ela rejeita o meu amor.
Entretanto, estou muito surpreso com a sua franqueza e... e praticidade.
— O que está em jogo é o meu futuro e não posso sacrificá-lo por excesso de discrição – respondeu Dagmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:47 pm

Seu rosto enrubesceu e ela mediu Desidério com olhar sombrio.
— Então, sobre este assunto, estamos conversados.
Agora permita-me acertar com a senhorita alguns outros detalhes.
Primeiramente, quero pedir-lhe os documentos que devo levar imediatamente ao padre para as proclamações na igreja, pois o duque marcou o nosso casamento para daqui a duas semanas.
Em seguida, gostaria de receber suas indicações quanto à nossa futura moradia e sobre como a senhorita gostaria de dispor das minhas férias.
Talvez queira fazer uma viagem de núpcias?
— Oh, não! – exclamou Dagmara, nitidamente embaraçada.
Não estou disposta a viajar.
Quanto à moradia, penso que é melhor morarmos aqui.
O senhor irá ocupar os aposentos de Detinguen, e eu permaneço nos meus.
Mas chega de falar de negócios!
O senhor desejaria uma xícara de chá?
Desidério aquiesceu e, seguindo a jovem com o olhar enquanto ela ia chamar o criado, pensou maldosamente:
Aguarde-me! Vou ensiná-la a tratar-me como um homem.
O chá foi servido à inglesa, com carne fria, que substituiu completamente o jantar e Desidério não se fez de rogado.
Aparentemente ele havia recuperado a boa disposição de espírito e conversava despreocupado.
A causa disso era que, apesar da falsa situação, da insatisfação e ira de Dagmara, a sua presença, como ele percebeu, provocou nela uma acção benéfica.
A palidez anterior alterou-se para uma cor delicadamente rósea, os olhos brilhavam como antes e, no geral, o rosto encantador de Dagmara reflectia um certo bem-estar.
— Graças a Detinguen, sou para você o mesmo que o ímã para o ferro.
Aguarde-me! Vou dar um jeito nas suas manhas – pensou, com um sorriso diabólico.
Ele encheu a sua taça com vinho e, brindando com a jovem anfitriã, disse alegremente:
— À sua saúde, minha cruel noiva!
— À nossa futura boa relação – respondeu Dagmara, mal esboçando um sorriso.
Ela também percebia aquela influência benéfica e sentia como o seu corpo se enchia de um fluxo de calor revigorante.
Esta nova prova do estranho e poderoso poder de Desidério despertou em seu espírito um sentimento amargo de perigo e descontentamento.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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