Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:47 pm

XIII

A notícia do noivado de Dagmara com o barão Vallenrod espalhou-se pela cidade, provocando intermináveis críticas e fofocas.
O boato sobre o escândalo nocturno no palácio chegou à sociedade e, mesmo que a leviandade da duquesa não fosse segredo para ninguém, apareceram algumas pessoas que lhe davam razão e despejavam sobre Dagmara baldes de indignações e críticas.
A maior fonte dessas maledicências era a baronesa Vallenrod, que ficou possessa ao saber do noivado do filho.
Cega pela fúria e ódio, ela não percebia que Dagmara, casando com seu filho, salvava a carreira deste, sensivelmente abalada pela tresloucada aventura, e que a jovem era vítima de pecados de terceiros.
A baronesa, entretanto, não encontrava expressões suficientemente fortes para envergonhar a pobre moça e sujá-la.
A todos que vinham cumprimentá-la, ela respondia friamente e em lágrimas que agora só lhe restava chorar por aquele rapaz incauto que impensadamente iniciou intrigas de amor com moças tão depravadas que recebem admiradores à noite em seus quartos.
Dizia estar desesperada, mas a honra obrigava seu filho a casar com aquela pessoa suspeita, cuja mãe também foi uma mulher bem depravada.
As fofoqueiras da cidade não hesitaram em espalhar aquelas notícias interessantes, vindas directamente da mãe do noivo e, logo, pela cidade, começaram a correr as mais incríveis histórias.
Diziam que o romance de Dagmara com Vallenrod começou ainda durante a doença deste último e a moça, para evitar suspeitas, provocou habilmente o ciúme do duque.
Diziam também que Detinguen era para Dagmara mais do que pai adoptivo e queria livrar-se dela, fazendo-a casar com alguém; outros afirmavam que Detinguen seduziu a sua ex-esposa e, em seguida, reconheceu a criança que o conde Helfenberg não queria reconhecer como sua.
Em suma, a imaginação das damas corria a todo vapor, mas tudo às escondidas, pois a permanente benevolência e respeito do casal real por Dagmara mantinha fechada a boca das notórias linguarudas.
Muitos dos funcionários da corte até correram para visitar a noiva e cumprimentá-la calorosamente.
Dina foi uma das primeiras a visitar Dagmara.
Ela estava sinceramente feliz com o noivado da amiga com Desidério.
Isto a livrava de um pesadelo:
que a escolha de Dagmara recaísse sobre Reiguern, pois a sua paixão pelo médico já estava no apogeu.
As amigas conversavam abertamente na pequena sala de visitas, diante da lareira acesa.
Os olhos de Dagmara estavam vermelhos de chorar, e lágrimas brilhavam nos seus longos cílios quando ela terminou de contar sobre a horrível noite que decidiu o seu futuro.
— Nem precisei que você me contasse tudo, para desconfiar da verdade – disse Dina emocionada.
A ligação da duquesa com Vallenrod era ostensiva.
Todos na sociedade, inclusive aqueles que não querem confessar, sabem perfeitamente que o barão entrou no seu quarto por acaso e que o casamento de vocês é para salvar a situação.
Só não consigo entender uma coisa:
como o barão conseguiu sair do quarto da duquesa?
Mas isto não importa agora!
É melhor você me contar como pretende viver com o marido que lhe apareceu tão inesperadamente.
Você não o ama, e já o rejeitou uma vez.
A circunstância que os uniu também não pode despertar amor, e sem afecto, o matrimónio é particularmente difícil.
E mesmo com afecto, não é nada fácil.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:47 pm

Dagmara suspirou.
— Isto já acertei com o barão Vallenrod.
Eu lhe disse que o nosso matrimónio é uma simples formalidade, que a nada nos obriga, principalmente a mim, obviamente.
— E você pensa que ele irá se submeter a tais condições?
— Ele as aceitou e me deu sua palavra de honra de respeitar a minha liberdade pessoal.
— Humm! – pronunciou Dina, balançando a cabeça, mas depois soltou uma gargalhada:
— Como você é ingénua, Dagmara!
Agora percebo que você não conhece os homens, particularmente aqueles “minotauros”, que se chamam “maridos”.
Eles estão prontos a lhe prometer qualquer coisa e nada cumprirão do que acharem que é manha de virgem.
— Você acha que ele é capaz de não manter a palavra de honra? – perguntou Dagmara, empalidecendo.
— Não vou afirmar, mas conheço por experiência própria a esperteza dos homens e a tirania da lei, que nos entrega à vontade deles.
A mulher não poderia ter um carrasco mais cruel, refinado e impiedoso do que o homem que se apoia no direito do matrimónio ao amor.
Ai de nós se, além de tudo, o amarmos!
Para nós é uma desgraça se não acariciarmos a sua vaidade, não nos tomarmos suas escravas e não satisfizermos as suas grosseiras vontades!
E isto porque a mulher não tem nenhum direito sobre o homem.
Os direitos que a igreja parece conceder às mulheres são pura ficção, que o homem descarta no momento que lhe der vontade.
Pensa que o meu marido não me fazia sentir todo o peso do seu legítimo poder?
Ele ainda o faz diariamente, não se obrigando a nenhuma fidelidade para comigo.
Desde o primeiro ano de nosso casamento ele já me enganava e, apesar dos seus cinquenta anos, mantém até hoje uma tal de senhora Guirshelmin, esposa de um dos seus engenheiros.
É uma judia bastante interessante e um ano atrás não se destacava pelo luxo.
Agora, em compensação, ela tem diamantes e rivaliza comigo no luxo das roupas que usa.
E eu só tenho o que consigo obter pela esperteza.
Para isso minto, lisonjeio e engano o marido.
O meu digníssimo esposo sempre se irrita quando lhe peço dinheiro e me acusa de esbanjadora.
Eu deixo-o gritar o quanto quiser e, depois, espremo dele duas vezes mais do que é necessário, pois acho absurdo que a amante se enfeite enquanto eu me privo do necessário.
Dagmara olhou com um sorriso para o luxuoso traje de Dina e os magníficos brincos solitários que brilhavam nas suas orelhas.
— O seu “necessário” é bastante bom – observou maliciosamente ela.
— Só faltava que a legítima esposa andasse toda rasgada enquanto a amante veste plumas e paetês.
Ah! Se as jovens moças que sonham com o “idílio marital” soubessem a cruel desilusão que as espera e como o amado, após a cerimónia, tira toda a sua brilhante plumagem.
Se elas soubessem que as frases carinhosas e amabilidades são usadas somente fora de casa!
Ah! Os próprios homens são culpados quando as esposas os traem, pois eles mesmos as empurram para a devassidão.
Dagmara balançou a cabeça.
— Não! Eu vou ignorar Vallenrod, sem dar-lhe a mínima atenção.
Aliás, nem terei o direito de ocupar-me dele!
Mas jamais me rebaixarei a uma vergonhosa ligação – acrescentou ela, com repulsa.
— Isto será muito confortável – para ele.
Ele poderá se divertir à vontade e abertamente, estando certo de que em casa está tudo normal – disse ironicamente Dina.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:48 pm

Quanto a sua intenção de rejeitar o marido e não lhe prestar atenção, vamos ver se você consegue.
Estes senhores não gostam muito da ousadia das esposas de não os notar e possuem um talento particular para lembrar de sua presença.
Eles não descansarão enquanto não nos tirarem da nossa fria indiferença e, se necessário, armarão até um pequeno escândalo.
Resumindo:
marido é um objecto de luxo que só tendo um pode-se dar-lhe o devido valor.
Às vezes penso que, quando São João escreveu sobre a besta do Apocalipse, referia-se exactamente a ele.
— Você só quer me assustar, Dina!
E já lhe falei que o nosso matrimónio será mera formalidade.
Mas mesmo assim, você acredita que Desidério já está tão decaído que não conseguirá se recuperar e gostar de uma vida regrada?
— Falando francamente – sim!
Considero Vallenrod um frio devasso, estragado até os ossos.
E mesmo que o coração dele não participe das suas aventuras, ele só se sente bem numa atmosfera de vício.
Você pensa que ele vai largar as farras, desenfreadas bebedeiras e cada vez mais novas amantes, só porque vocês estarão ligados pela cerimónia sagrada, que ele vê como uma simples comédia?
Claro que não!
Ele continuará a viver a sua vida de solteiro, sem nenhum escrúpulo, rejeitando você em qualquer lugar onde você for atrapalhá-lo.
Quanto às condições que você impôs, o futuro dirá se ele vai respeitá-las.
Você é muito ingénua, Dagmara.
É preciso uma arte especial para domar o cavalo xucro, mau e desobediente que se chama marido:
saber segurar a tempo e, quando necessário, usar as esporas e se prevenir das mordidas, acariciando-o constantemente mas sem jamais confiar.
E o principal, lembre-se:
nunca seja sincera com ele, nunca lhe diga tudo o que pensa e não acredite nas suas juras de amor.
Não existe nada mais efémero do que estas juras, que ele próprio esquece uma hora depois.
A visita de damas da corte interrompeu a sua conversa.
Pouco depois, Dina Rambach despediu-se e convidou a amiga para almoçar na sua casa para conversarem sobre o enxoval e o vestido de noiva.
Mais tarde, após se despedir das visitas, Dagmara ficou sozinha e um sentimento de indescritível tristeza e perigo invadiu-a.
Até aquele momento ela se considerava forte e invulnerável em relação a Desidério, mas as palavras de Dina abalaram tal certeza.
E se realmente, a respeitosa polidez do oficial ocultava uma insolência?
E se ele esquecer que moralmente não tem nenhum direito sobre ela e, com base no ritual sagrado fatal, começar a portar-se como o senhor da situação?
Mas não, aquilo era impossível!
A triste experiência de vida de Dina – mulher vulgar e sem princípios – não podia de modo algum ser aplicada àquele caso.
Afastando energicamente aqueles pensamentos incómodos, Dagmara sentou-se à escrivaninha, decidida a cumprir uma triste obrigação:
escrever a Reiguern e comunicar-lhe sobre a destruição de seus sonhos.
Até agora ela não conseguia se decidir aquilo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:48 pm

Depois de contar os detalhes da horrível noite que tão abruptamente alterou o seu destino,
Dagmara acrescentou:
“Acredite, Lotar, estou sofrendo tanto ou mais que você.
Estará livre, enquanto para mim abre-se uma longa vida de permanente confronto com um homem que não posso amar e que fui obrigada a aceitar como marido para salvar a minha honra que, por mais inocente que seja, foi irrecuperavelmente manchada pela visita de Vallenrod ao meu quarto.
Seria horrível para mim se você cobrisse com seu nome e honra o acontecimento escandaloso que nunca será suficientemente esclarecido para convencer a todos da minha inocência.
A minha decisão foi provocada tanto pela preocupação com o seu bom nome, como pela vontade de salvar a honra da duquesa.
Se pudesse ver o meu estado de espírito, teria pena de mim.
Tente suportar este golpe com a sua costumeira energia e guarde para mim a sua amizade.
Preciso dela mais do que nunca.”
No mesmo dia, à tarde, chegou Desidério.
Ele trouxe para a noiva um grande buquê de flores e um anel que colocou no dedo dela.
— É o sinal visível do nosso acordo – acrescentou amavelmente.
Dagmara foi novamente tomada por maus presságios.
Ouvindo distraidamente o barão falar sobre os detalhes referentes à cerimónia, olhava-o com um sentimento de medo e desconfiança.
Ela queria ler os pensamentos que se ocultavam sob aquela amável e desapaixonada aparência para certificar-se se Dina tinha razão e se, realmente, a hora passada na igreja seria o início de uma escravidão sem saída.
Conseguiria ela captar no olhar tranquilo do barão algum indício de certeza no seu futuro poder sobre ela, ou qualquer sinal do que ele seria capaz ao se tornar seu marido?
Desidério parecia sentir os pensamentos de sua noiva e entendeu a tempestade de sentimentos de medo e indignação que se passava dentro dela.
Ele olhou-a directamente e um sorriso zombeteiro passou momentaneamente por seus lábios.
Dagmara percebeu isso e o sangue subiu à sua cabeça enquanto o coração encheu-se de ódio.
Este sorriso pareceu-lhe a pata do tigre que se estende à vítima para estraçalhá-la.
Oh! por que foi dar a ele o seu consentimento?
Por que se ligou a ele e entregou-se ao seu poder?
A tristeza e o horror apertaram o seu coração e lágrimas jorraram dos seus olhos.
Ela quis correr para os seus aposentos, mas Desidério, observando surpreso o que se passava no seu rosto, não a deixou passar.
— Dagmara, por que está fugindo?
Para que estas lágrimas?
Tenha ao menos um pouco de confiança em mim!
Precisamos tentar encontrar um acordo e amor e não se desesperar pelo futuro antes que ele chegue.
- Deixe-me, barão! – disse ela, tentando livrar-se dele.
Dagmara olhava-o com medo e olhos cheios de lágrimas.
O barão então abraçou-a com mais força e um sentimento estranho encheu o seu coração quando sentiu em seus braços o corpo formoso e esguio da moça.
Lembrou-se do canário que tinha quando garoto e que ele gostava de segurar na mão; o canário se debatia e, para não deixá-lo escapar, era preciso segurá-lo com uma certa força e delicadeza para não sufocar a delicada criatura, que se defendia corajosamente e bicava seus dedos.
Naquele instante, Dagmara pareceu-lhe aquele canário.
Ela também resistia e ele sentia como, sob o seu braço, batia o coração dela; ela era corajosa e assustadiça como um pássaro.
Mas também era muito diferente de todas as suas amigas, mulheres voluptuosas.
Desidério percebia involuntariamente que, para viver com aquela criatura pura e franca, ele precisaria mudar muito a sua vida, para não rasurar aquela inocente alma, cujo odor estranho, parecido com uma brisa aromática de ar fresco, purificava a pesada e costumeira atmosfera do vício.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:48 pm

Tomado por este novo e inesperado sentimento, Desidério beijou os lábios trémulos de Dagmara e soltou-a.
Ela, aproveitando a oportunidade, correu imediatamente para o seu quarto.
Este acontecimento causou também uma profunda impressão em Dagmara e poderia provocar uma aproximação entre os nubentes, se as “boas” e “piedosas” almas não se esmerassem em lhe contar as inúmeras e ofensivas histórias que corriam sobre a sua pessoa.
A certeza de que a sua honra estava irremediavelmente perdida indignava-a, e todo o peso de sua indignação recaía em Desidério como o causador de tudo.
Ela começou a odiá-lo como a causa de sua desgraça.
Além disso, estava deprimida por uma terrível sensação de solidão.
Saint-André não apareceu para parabenizá-la pessoalmente, limitando-se a uma carta na qual afirmava, de passagem, que estava se ausentando para uma viagem de três meses.
Quanto a Reiguern, este respondeu com uma missiva fria mas cheia de amargura e ciúme.
O médico escreveu dizendo que ela não tinha nenhum direito de dispor de si, pois já tinha empenhado a sua palavra com outra pessoa; somente ele deveria julgar se ela estava comprometida ou não com o escândalo, cuja verdade todos conheciam bem demais.
Por outro lado, ele entendia perfeitamente que a condessa Helfenberg preferiu tornar-se baronesa Vallenrod, em vez, de simplesmente, senhora Reiguern.
Portanto, ele considerava o noivado dela com Desidério um acontecimento feliz e respeitosamente enviava os cumprimentos à futura baronesa.
Esta cruel e irónica carta obrigou Dagmara a chorar ainda mais e só aumentou a sua amargura.
Todos os que a amavam abandonavam-na e, no momento da luta, ela ficou sozinha.
E foi com esse espírito que ela recebeu uma carta do pastorado, que lhe causou profunda impressão.
Destacando a importância da cerimónia de casamento da igreja cristã, o pastor acrescentava:
“Minha filha, neste momento, você está passando os dias mais felizes de sua vida.
Está se preparando para unir-se ao homem que ama e que a ama, e o futuro lhe parece um sonho mágico, cheio de esperanças róseas.
Mas, a realidade da vida está sempre longe dos sonhos e a união de dois seres por toda a vida é algo de suma importância e serve de prólogo para muitas desilusões.
Discussões e desentendimentos são inevitáveis na vida em comum e, principalmente, no casamento.
Não sonhe e nem imagine que o seu marido é perfeito e sem pecado:
ele é jovem, trabalha na corte, vive numa sociedade pervertida, cercado de inúmeras tentações e maus exemplos.
Você deve mantê-lo na senda do bem e perdoá-lo até nos casos quando o seu orgulho for ferido, pois o verdadeiro amor tudo suporta e perdoa.
Mas, para ser capaz de tal abnegação, para tão poderoso e verdadeiro amor – reze, minha filha; reze, como o fazia quando criança, sem quaisquer sofismas científicos, somente com o puro ímpeto da alma e o seu Pai Celestial ouvirá e a ajudará”!
Dagmara, num gesto nervoso, amassou a carta e jogou-a na gaveta.
— Pobre tio Gothold!
Ele pensa que ainda tenho ilusões...
Se ele soubesse com quem vou casar!..
Devo amar e perdoar?!
Mas o que vou perdoar a este homem, que é um estranho para mim?
Estou me ligando a ele por necessidade e ele jamais ouvirá de mim nenhuma palavra sincera de carinho.
Eu e ele teremos de nos preocupar com uma única coisa – atrapalhar o menos possível um ao outro.
Ela encostou-se na mesa e pôs as mãos na cabeça.
Rezar!...
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:49 pm

Ah, se ela pudesse, como antigamente, dirigir uma fervorosa prece ao Pai Celestial!
Mas, nesse momento de perturbação espiritual, nem saberia o que pedir aos céus.
Pedir que Desidério se apaixonasse por ela?...
Mas esse pensamento deu vazão a todo o seu orgulho.
Mesmo diante de Deus, ela não queria ficar ruborizada e esmolar amor que não conseguia de outra forma.
Implorar ao Eterno Criador a abnegação e humildade exigidas da esposa, mesmo quando esta ama e é amada? Nunca!
Ela queria acertar as contas com Desidério, lutar com ele e conquistar a própria liberdade.
Apenas a suposição de abnegada submissão já provocava nela um sorriso de desdém.
Então o que pedir, e o que os céus poderiam dar-lhe?...
A cerimónia de casamento foi marcada para as sete horas da noite e às quatro horas Sibilla Eshenbach veio visitá-la.
Somente ela teve permissão para estar presente ao vestir da noiva.
Dagmara recusou a ajuda até de Dina, pois a barulhenta e inquieta mulher seria desagradável num dia tão difícil.
De manhã, Dagmara inspeccionou pela última vez os quartos reformados de Detinguen, que agora estavam destinados a Desidério e ordenou que todos os objectos predilectos do falecido fossem colocados, parte nos seus aposentos e parte no quarto contíguo ao santuário.
Terminada a inspecção, voltou para o seu quarto para mergulhar em sombrios pensamentos, interrompidos pela chegada de Sibilla.
A inocente garota, que adorava Dagmara, estava interessada em tudo.
Ela examinou com curiosidade o luxuoso vestido de noiva, o véu e o buquê de flores.
Depois, sentando perto da noiva, disse alegremente:
— Como a senhorita ficará maravilhosa neste luxuoso vestido de cauda tão grande.
Ao vê-la, o barão ficará ofuscado.
E vou rezar a Deus para que o seu marido ame-a, pois a senhorita merece, e também para que vocês sejam completamente felizes.
Em seguida, seus olhos brilharam e ela acrescentou, séria:
— Também vou rezar a Deus para que Ele lhes dê rapidamente um filho.
Assim vocês estarão completamente felizes, sem nada mais para desejar.
Dagmara estremeceu.
– Filhos?.. Ah, não, ela não vai ter filhos, e nem quer tê-los, pois não seriam lembranças de felicidade e amor mas a ostensiva prova de sua submissão, da bruta vitória do forte sobre o fraco.
E o pensamento de que Desidério poderia não manter a sua palavra já despertava nela um terrível ódio.
Por um momento teve vontade de fugir para esconder-se do futuro que a horrorizava, mas o medo de um grande escândalo refreava-a e, com um surdo suspiro, ela cobriu o rosto com as mãos.
Depois, abraçou apressadamente Sibilla, deu a mão à camareira e retirou-se para o seu boudoir, fechando a porta à chave.
Na parede do boudoir havia um grande retrato de Detinguen.
Dagmara aproximou-se dele e ajoelhou-se.
— Querido pai! – sussurrou, olhando com os olhos cheios de lágrimas para o seu fiel tutor.
Abençoe o caminho de pedras que estou pisando sozinha, abandonada e caluniada por todos!
Que o seu espírito de amor e nobreza esteja comigo e me ajude!
Ela levantou-se e beijou o retrato.
Depois, pegou da mesa o magnífico buquê enviado àquela manhã por Desidério e saiu para a sala de visitas, onde a aguardava a baronesa Shpecht.
— Enfim apareceu, minha querida! – disse aquela, com a sua voz doce e azeda.
A senhorita está simplesmente encantadora, mesmo um pouco pálida!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:49 pm

Aliás, a palidez vai bem a uma noiva.
A baronesa abraçou Dagmara e, dizendo que já estavam atrasadas, saiu na frente para o saguão.
Dagmara seguiu-a automaticamente mas, de repente, ao descer os degraus da entrada veio-lhe a lembrança de sua chegada àquela casa pela primeira vez, da qual estava saindo agora livre, para voltar como escrava.
Ela parou, tomada por uma indescritível tristeza e foi novamente dominada por um insano desejo de fugir e esconder-se do seu destino fatal.
Nesse instante chegou até os seus ouvidos a voz da baronesa, que, sentada na carruagem, gritava:
— Venha, minha querida!
Venha logo!
Esta voz fez com que voltasse rapidamente à realidade.
Ela sentou-se ao lado da baronesa Shpecht, encostou-se no espaldar do assento e fechou os olhos.
Parecia-lhe que a veloz carruagem levava-a para um abismo indevassável...
Na capela do palácio estava reunida toda a corte:
uma multidão de damas cobertas de diamantes e personalidades em uniformes bordados a ouro.
Junto ao altar estava Desidério, cercado de companheiros militares e amigos; pálido mas absolutamente calmo.
Quanto à baronesa Vallenrod, ela não compareceu, alegando estar muito mal de saúde.
Em compensação, Dina, apresentada alguns dias atrás à corte, atraía a atenção de todos com o seu ofuscante traje.
Dagmara sentia-se como num sonho.
O barulho indistinto das vozes e a multidão multicolorida provocavam-lhe calafrios.
Ela parou instintivamente diante do altar bem iluminado e, de repente, ouviu ao seu lado o tilintar das esporas e uma mão tão fria como a sua pegá-la pela mão e conduzi-la uns passos adiante.
O som triunfal do órgão e a voz do pastor obrigaram-na a voltar a si, lembrando-lhe toda a importância da cerimónia em execução.
Não estaria ela jogando-se voluntariamente ao abismo que iria engoli-la?
Que poder era aquele que a empurrava para aquela loucura que o seu bom senso não aprovava?
Seria o amor a Desidério ou o destino cego?...
Mas esses torturantes pensamentos foram de repente abafados por um único – agora é tarde demais!...
Com o sentimento de amargo escárnio, ela começou a prestar atenção às palavras do pastor, que falava sobre o amor em comum, fidelidade, tanto na alegria quanto na desgraça; ao marido, ele recomendava cumprir as obrigações de chefe de família e, à esposa – ser abnegada e obediente ao marido, para estar ligada somente àquele com quem se unirá no espírito e na carne...
Quando alguns minutos depois, Dagmara, de joelhos, voltou a ficar de pé, ela já era, sem volta, a baronesa von-Vallenrod.
A consciência do acto realizado fê-la recuperar a calma exterior, e apesar da palidez mortal notada por todos, ela aguentou firme todas as outras formalidades de costume.
Assim que a carruagem começou a andar, Dagmara soltou um suspiro de alívio.
Finalmente livrou-se de todos aqueles curiosos e maliciosamente maldosos olhares!
Embrulhando-se bem na capa, ela se aconchegou no fundo da carruagem.
Desidério, calado, estava sentado ao lado e também não conseguia falar.
Apesar da pose, o barão sentia-se ofendido pelo desespero de Dagmara e pela ostensiva repugnância que ela sentia, tornando-se sua esposa.
De vez em quando, seu olhar voltava-se para Dagmara, mas a escuridão e o espesso véu impediam-no de ver a expressão do rosto da esposa.
Finalmente chegaram à vila, cujas janelas estavam todas acesas e as portas enfeitadas por guirlandas de flores – uma surpresa preparada pela criadagem da casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:49 pm

Desidério ajudou a esposa a sair da carruagem e juntos dirigiram-se à sala onde estava reunida toda a criadagem para cumprimentar os noivos.
Dagmara ordenou a Jenni para ajudá-la a tirar o véu e as flores, mas não trocou o vestido de noiva, pois o velho José informou que o chá estava servido e ela, com sorriso forçado, convidou o marido ao refeitório.
Raramente dois interlocutores tiveram tanta dificuldade para manter uma conversação.
Dagmara nada comeu, respondendo às perguntas com dificuldade, enquanto Desidério falava de banalidades.
Depois de tantas emoções do dia, ele estava faminto e, querendo eliminar o nervosismo do difícil papel que desempenhava, comeu com grande apetite e bebeu alguns copos de vinho.
Quando recuperou o bom estado de espírito, puxou para perto do seu prato um grande bolo que estava no meio da mesa.
E quando já se preparava para cortar um pedaço, sua atenção foi chamada pela decoração do mesmo.
Sobre o bolo havia um jardim, no meio do qual crescia uma grande árvore enrodilhada de flores com um enorme ninho cheio de ovos e um par de pombos.
— Se acreditarmos na realização de desejos, então este bolo deseja-nos uma grande prole.
O que acha, Dagmara? – perguntou, rindo, Desidério, olhando maliciosamente para a esposa.
Mas ela não estava para brincadeiras.
— Meu Deus, como estas pessoas são imbecis! – disse Dagmara, dando de ombros e cerrando o cenho.
A jovem empurrou com irritação o prato que o barão lhe estendeu com a parte do bolo que tinha a árvore mística e um dos pombinhos caiu, quebrando o pescoço.
— Não gostei deste sinal de mau agouro – observou Desidério, com uma careta.
Dagmara levantou-se.
Estava confusa e nervosa.
— Desculpe-me!
Sinto-me muito cansada e vou me retirar – disse ela com leve reverência.
E, sem esperar resposta, saiu apressadamente, quase correndo para os seus aposentos.
Trocando o vestido por um roupão, ela dispensou a camareira e entrou no boudoir.
Parou por instantes junto à porta, aparentemente em dúvida se a fecharia ou não.
— É claro que ele não ousará entrar – pensou Dagmara, mas, mesmo assim, trancou à chave.
Assim, é mais seguro – concluiu com um suspiro, sentando diante da lareira, que se apagava.
Relaxando na poltrona, Dagmara tentava pensar em outras coisas, mas a sensação de perigo impedia-a disso.
Após alguns instantes levantou-se, pegou um livro, mas também não conseguia ler.
Passou-se mais de uma hora.
De repente, o ouvido tenso de Dagmara percebeu um barulho na escada e passos que se aproximavam, e depois uma mão impaciente tentou abrir a porta.
Dagmara empalideceu, pulou da poltrona e estancou.
— Abra, Dagmara!
Precisamos conversar – disse Desidério, batendo na porta com mais força.
— Desculpe, mas não posso recebê-lo hoje.
Estou indo dormir.
— Pelo amor de Deus, querida, não me deixe na porta!
Você me coloca numa situação ridícula.
— Você pode falar comigo amanhã e, se precisar de algo, perto da sua cama existe uma campainha eléctrica para chamar o criado.
— Eu quero ver você!
Abra imediatamente a porta, estou ordenando!...
Senão vou arrombá-la...
Você entendeu?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:49 pm

— Sim, entendi que você é um insolente!
A porta permanecerá fechada e você não tem o direito de arrombá-la, nem fazer escândalo! – exclamou com raiva Dagmara.
O barão nada respondeu e, ouvindo seus passos distanciando-se, a jovem respirou aliviada.
Mas qual não foi o seu horror e indignação quando, quinze minutos depois, o marido voltou e, em instantes, a chave voou da fechadura, ouviu-se o ranger de uma ferramenta, um som de madeira quebrando e a porta abriu-se.
Na entrada surgiu Vallenrod.
Estava pálido, sombrio e em seus olhos havia algo cruel e mau.
Tudo aconteceu tão depressa que Dagmara, espantada, permaneceu parada em silêncio.
Somente um pensamento – o pensamento que Desidério não desejava permanecer estranho para ela e queria usufruir dos direitos adquiridos algumas horas atrás, passava em sua mente e finalmente extravasou numa exclamação:
— Você é um patife!
Você não está cumprindo a sua palavra!
Desidério aproximou-se dela e disse com voz baixa e surda – mais tarde ela percebeu que isto era sinal de máxima irritação:
— Vamos nos entender!
Não quero deixá-la sem saber das minhas intenções.
Eu nunca vou desempenhar nesta casa o papel ridículo de “inquilino”!
É preciso ser alguém tão inexperiente na vida como você, para imaginar um plano tão idiota e ainda contar com a palavra concedida sob ameaça.
— Um homem honesto é escravo de sua palavra, não importa o motivo que o levou a dá-la e, principalmente, num casamento como o nosso onde o casal se une só para manter as aparências – contestou Dagmara, com olhar flamejante.
Imagino que seja suficiente eu ter sacrificado a própria liberdade e futuro para salvar você e uma mulher devassa.
Não quero pertencer a um homem que, a partir deste instante, não consigo nem respeitar.
E se você não sair imediatamente deste quarto para sempre eu me vingarei.
— Tente! Mas chega de palavras de baixo calão – riu secamente Desidério.
Bem, quanto à sua intenção de expor-me ao ridículo diante das pessoas, desista desde já.
Quero viver como um bom cristão com a minha esposa e não desejo dar motivos para novos mexericos e calúnias.
Portanto, deixe de criancice e vamos tentar ser amigos.
Desidério aproximou-se dela rapidamente e quis abraçá-la, mas ela recuou, encostando-se na escrivaninha.
— Você é o merecido filho de sua mãe, e o roubo está em seu sangue – disse ela, com voz entrecortada e baixa.
Mas, já que você não cumpre a própria palavra – de nunca se impor a uma mulher que rejeita o seu amor – então talvez concorde em vender-me a minha liberdade?
— O que quer dizer com isso? – perguntou Desidério, exaltado.
Dagmara abriu rapidamente a gaveta da mesa e retirou alguns papéis.
— Estas são cópias de documentos, cujos originais estão guardados em lugar seguro.
Estes papéis provam claramente que sua mãe cometeu um crime contra mim.
Eu estou disposta a destruí-los se você garantir, desta vez formalmente, a minha independência pessoal.
Sem uma palavra, o barão arrancou os papéis de sua mão e, à medida que lia, uma palidez mortal se espalhava pelo seu rosto e, por um instante, ele baqueou e encostou-se na poltrona.
— Então, pelo preço do seu silêncio, você quer fechar esta porta para mim? – perguntou ele, após pensar um pouco.
— Sim! O segredo deste roubo jamais sairá destas paredes.
— Então, saiba que eu rejeito esta proposta.
Aproveite o seu pleno direito e exija a sua fortuna.
Já que eu não sou cúmplice do crime, o caso nada tem a ver comigo.
— Mas, como?
Você quer que sua mãe seja levada ao banco dos réus? – murmurou Dagmara, olhando com horror no rosto vermelho de Desidério, em cujo olhar acendeu-se uma maldosa chama.
— Sim, quero – continuou ele, em voz baixa.
Saiba de uma vez por todas que não vou me intimidar.
Aqui ou embaixo, onde quiser, mas nossos quartos não estarão separados!
Se você desonrar, será o nome do seu marido e não de um fantoche...
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 05, 2016 7:49 pm

XIV

Passou-se uma semana do casamento de Dagmara e a jovem vivia num pesadelo.
Perdida na nova situação e sentindo-se ofendida em todos os seus sentimentos, já não sabia o que fazer.
Desidério, conhecendo bem o carácter da esposa, apostou tudo na carta e ganhou a partida.
Ele arrumou os aposentos do casal no andar de cima e, em relação à esposa, adoptou um tom amável, educado e contido.
Isto dava à sua vida familiar uma aparência de total harmonia e somente em certas ocasiões fazia Dagmara sentir a sua presença, mostrando que ela possuía um senhor.
E ela, repentinamente, foi obrigada a manter uma luta domiciliar com um inimigo esperto, corajoso, armado com a experiência de vida devassa e dotado de um carácter persistente e maldoso.
Desde os primeiros dias, ele implantou firmemente o seu poder, que esmagava e destruía Dagmara.
Ela tornou-se calada sob o frio e cruel olhar do seu feitor, cuja boa aparência e palavras de carinho escondiam garras que dilaceravam a sua alma.
Dagmara, entretanto, tinha um carácter por demais enérgico e orgulhoso para não oferecer resistência.
Ela ainda não sabia como se livrar do poder ao qual se submeteu voluntariamente, pois, para cada plano que nascia em sua cabeça, aparecia a mesma assustadora hidra de cem cabeças:
O escândalo público, calúnias e condenação geral, que sem dúvida a esperavam.
Seu marido sempre encontraria “boas almas” prontas a justificá-lo, “boas damas” prontas a consolá-lo e amigos – seus semelhantes – para distraí-lo, enquanto que ela estaria sozinha contra a matilha de caluniadores.
Por fim, compreendeu que era preciso paciência e olhar em volta para aprender a lutar, defender-se e revidar golpes com golpes.
Quando Dina a visitou, notou imediatamente que o plano de vida imaginado por Dagmara não se realizou.
Ela riu, sem nenhum escrúpulo, da desgraça da jovem, mas foi generosa em bons conselhos.
Ao mesmo tempo, aproveitando a franqueza espiritual de Dagmara, obrigou-a a falar de Reiguern e soube, com surpresa, que ele já fora noivo dela e que, furioso com a suposta traição, escreveu-lhe uma carta ofensiva.
— Como ele poderia pensar que eu, por simples vaidade, preferi Vallenrod?
Dina, quando chegar a vê-lo, explique-lhe como foi injusto comigo – observou Dagmara, com lágrimas nos olhos.
— Mas é claro!
Esteja tranquila, eu vou explicar tudo – respondeu Dina distraidamente.
A notícia dessa separação despertou em Dina um certo ciúme, mas também deixou-a muito satisfeita.
O despeitado Lotar seria uma presa fácil e ela decidiu possuí-lo a qualquer custo.
Passaram-se alguns meses.
Dagmara levava uma vida extremamente enclausurada e raramente saía de casa, pois não queria ver ninguém.
A inesperada notícia de que Saint-André largou o serviço militar e viajou para a Índia aumentou ainda mais a sua tristeza.
Dagmara não se encontrou com a baronesa Vallenrod, porque esta inicialmente adoeceu e, depois, evitava sistematicamente encontros com a nora.
Desidério visitava a mãe, mas Dagmara não sabia quais eram as suas relações e se ele a informou dos papéis comprometedores que sua esposa guardava.
E, na verdade, ela nem sabia como o seu marido passava o tempo, pois Desidério não achava necessário informá-la sobre isto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:20 pm

Ela somente notava que o barão voltava para casa frequentemente irado, irritado e com um ar de preocupação.
Por isso Dagmara ficou muito surpresa quando, de repente, Desidério contou-lhe que pediu demissão e, no dia seguinte, apareceu vestido à paisana.
Ela, todavia, estava por demais triste e indiferente para dar a isso maior importância.
Já, na casa da mãe, o barão teve de suportar uma cena terrível.
Ao saber que Desidério desistiu da brilhante carreira; do uniforme e da posição de destaque na corte, a baronesa ficou fora de si, cobrindo o filho de palavrões e acusações.
O barão esperou passar o primeiro estouro e depois declarou friamente que não podia mais viver com dinheiro roubado, ainda que tivesse sido roubado para ele.
Em seguida, contou os detalhes do roubo, enumerando todos os documentos que Dagmara possuía e com os quais sempre poderia abrir um processo.
Esta “crise moral”, aliás, não foi o único motivo que o levou a abandonar a carreira.
A situação do barão perante o duque tornou-se difícil e periclitante.
Desde a aventura nocturna que decidiu a sorte de Dagmara, Franz-Erik expressou por diversas vezes o seu ódio por Desidério, na forma de palavras ríspidas em público e ofensas premeditadas.
Percebendo que, cedo ou tarde, teria de sair daquela situação insuportável, o barão decidiu-se e, assegurando para si um cargo de inspector numa grande siderúrgica de fabricação de equipamento militar, pediu demissão.
O cargo era muito bem remunerado e dava-lhe uma independência definitiva da ajuda da mãe, abrindo um vasto campo para suas gastanças.
E tanto para a esposa, quanto para a mãe, Desidério explicou a demissão, alegando não poder mais viver com dinheiro roubado.
Ao saber que o crime fora descoberto e que a sua fortuna e até a liberdade dependiam da vontade da nora, a baronesa Helena desmaiou e ficou de cama por alguns dias.
O seu ódio por Dagmara cresceu ainda mais, e ela jurou fazer de tudo para criar todo tipo de discórdia entre o casal e até separá-los.
Mas, por mais que Dagmara permanecesse apática e indiferente, a vida de casada criava uma ligação demasiadamente forte para que não percebesse, com tristeza, a estranha mudança que se processou em alguns meses na vida e costumes de Desidério.
O novo ambiente, no qual foi parar, teve uma influência fatídica sobre ele.
Seus colegas na directoria não pareciam os aristocráticos janotas da Guarda Real, e eram de um ambiente diferente, com preferências pequeno-burguesas e frequentadores de casas nocturnas suspeitas que proliferavam nos arredores da capital.
Desidério antigamente evitava tais lugares, temendo manchar seu uniforme e atrair a atenção geral.
Mas, vestido à paisana em trajes parecidos com dominó de baile de máscaras, ninguém reconheceria nele um ex-oficial.
A vida de Dagmara tornou-se cada vez mais solitária e monótona.
Ela evitava voluntariamente as recepções na corte, limitando-se a casos extremamente necessários; e seu marido não a levava ao ambiente que agora frequentava.
Além disso, todas as novidades, tanto as aristocráticas, como as do mundo de negócios, chegavam-lhe através de Dina.
Esta participava de ambas as esferas e comunicava à amiga todas as fofocas e intrigas que aconteciam além das paredes de sua pacífica vila.
Depois de um difícil e triste inverno, chegou finalmente a brilhante e alegre primavera.
O despertar da natureza, entretanto, não teve em Dagmara o efeito dos anos passados:
ela esfriou até para os passeios a cavalo, de que tanto gostava.
Por dias inteiros ficava sentada
junto à janela aberta do seu boudoir, sombria e indiferente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:20 pm

A estranha doença de que sofria antes de casar e que já não a incomodava havia alguns meses, voltou com novas forças. Sua cabeça queimava de febre, o pulso disparava e uma sensação de perigo torturava o seu coração; o mínimo ruído de fora fazia-a estremecer.
Esse mal-estar aumentava à medida que as escapadas de Desidério tornavam-se mais frequentes e prolongadas.
Enquanto isso, só a simples presença do marido já a aliviava; parecia que provinha dele uma corrente de vida e calor que a aliviavam.
A jovem mulher percebia esta força misteriosa mas não conseguia explicá-la.
— Não dá para acreditar que isto seja amor!
Se tal sentimento existisse, como poderia ele resistir a tantas ofensas e ao imperdoável comportamento de Desidério? – pensava ela com raiva e desespero.
Certa vez, após o almoço, Dagmara sentou-se como de costume junto à janela aberta, triste e nervosa, quando, de repente, chegou Dina.
— Você está só? – perguntou ela, beijando a amiga.
— Como sempre!
Acho que você já deveria saber disso – respondeu Dagmara, com irritação e amargura.
— E sabe onde ele está?
— Não, não sei.
Ele saiu pela manhã, levando consigo a sua “armadura”, e não tenho a menor ideia por onde ele anda.
Talvez, você que sabe tudo sobre as diversões de Prankenburg, pudesse me dizer.
Dina jogou-se contra o espaldar da poltrona e soltou uma gargalhada.
— Então você baptizou o fraque de “armadura”?
Isto é engraçadíssimo!...
Bem, não posso dizer com certeza onde ele está exactamente, com toda aquela armadura, combatendo os filisteus ou filisteias.
Mas, desconfio que a maior parte das noites ele passa no “Templo das artes”.
— Que “Templo das artes”?
Nunca ouvi falar disso!
— E daí? E o que você sabe sobre estes assuntos?
O Templo foi construído numa casa nocturna fora da capital, chamada Monte da Trindade.
— Que nome estranho!
— Ele se originou porque lá, no centro de uma sala, existe um monumento de mármore representando abraçados Baco, Vénus e Terpsícore.
Naquele local se reúne a mais fechada sociedade e não se admitem estranhos; somente os membros comprovados têm o direito de introduzir neófitos.
Como o templo de Jano de outrora, também este possui duas faces:
uma está voltada aos profanos e tem uma fisionomia honesta e pacífica a serviço de Terpsícore, Melpómene e outras musas.
A outra face aparece somente com a saída dos profanos, quando entram em cena Baco e Vénus.
Dizem que os integrantes do círculo íntimo sofrem de terrível sede e, após saciá-la, seguem a indicação bíblica, agindo de forma que a mão direita não saiba o que faz a mão esquerda.
Como “mão direita” subentendem-se as pessoas incómodas que se chamam maridos ou esposas e que devem ficar em casa para não constranger as “mãos esquerdas”, quando Vénus se diverte, unindo-os na sorte.
— Meu Deus! Que indecência! – exclamou Dagmara, com repugnância.
— Não seja boba!
As mulheres devem meter o nariz em todos os lugares e saber o que faz o marido.
Aliás, cheguei aqui para levar você comigo.
Vamos passear pelo jardim de um restaurante famoso, onde eu espero mostrar-lhe algumas coisas muito interessantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:21 pm

— Não, deixe-me em paz!
O que eu iria fazer em tal cabaré e o que pensarão as pessoas vendo-me ali?
— Nada de preconceitos!
Vista um chapéu escuro e um véu espesso – e ninguém reconhecerá numa dama discreta a bondosa baronesa Vallenrod.
Dagmara finalmente cedeu à insistência da amiga.
A timidez e a curiosidade ainda lutavam dentro dela quando, apoiada no braço da amiga, ambas entraram num jardim cheio de gente, acompanhadas de um jovem engenheiro junto à senhora Rambach.
Realmente, no meio desse burburinho de pessoas, ruído de vozes e música, ninguém prestou atenção a duas damas discretamente vestidas e cujos rostos estavam ocultos por espesso véu.
Mesmo assim, Dagmara tremia e parecia-lhe que todos a observavam.
Finalmente, chegaram ao restaurante, cujo amplo terraço estava lotado de mesinhas postas e cheio de gente.
— Veja! – disse Dina, parando à sombra das árvores.
Ali! Ali!...
A terceira mesa à esquerda...
Lá está o seu senhor, bem acompanhado.
Na mesa indicada, estavam sentados dois homens na companhia de duas “damas” de aparência duvidosa.
O paletó de Desidério estava desabotoado e o chapéu deslocado para a nuca.
Ele conversava alegremente, ria alto e aparentemente havia bebido muito, pois estava pálido e seu olhar tinha uma expressão descarada e animal que Dagmara nunca tinha observado nele.
— Vamos sair daqui!
Para mim, chega – murmurou Dagmara, puxando a amiga.
— Vamos, vamos! Mas não se preocupe.
Veja, será que dá para ter ciúmes de mulheres daquele tipo?
Dagmara nada respondeu e elas voltaram em silêncio para casa.
Dagmara ordenou que servissem o chá em seu gabinete e tentou conversar sobre outras coisas, mas a palidez do rosto e o tremor das mãos mostravam o seu nervosismo.
— Ouça, eu simplesmente estou com pena de você! – disse Dina, quando elas ficaram a sós.
Será que precisa ficar assim irritada com a revelação de um facto que o simples bom senso já deveria tê-la convencido!
Não me diga que você acreditava seriamente que a constante ausência do seu marido era provocada exclusivamente pelo serviço, sem nenhuma outra causa mais picante?
Se for assim, então você é muito ingénua!
Aprenda de uma vez por todas a realidade da vida e pare de ver as pessoas através de lentes róseas, fabricadas pela sua imaginação.
Só mesmo entre estas paredes e no mundo de magia e ideais que a cercam, ainda vivem heróis de romances.
Já os nossos “heróis” deste fim de século são quase todos do mesmo tipo e confessam o mesmo credo:
não há Deus, não há dor de consciência e deve-se obter de qualquer jeito cada vez mais ouro e prazeres.
Nisto se resume o seu ideal de vida.
— Meu Deus!
Ele estava com uma aparência horrível! – murmurou Dagmara.
— Que aparência?
A aparência de um bêbado e mais nada, e você fica desesperada com isso!
É claro que Vallenrod ficaria furioso se soubesse que você o viu nessa situação de descalabro moral; os homens não gostam de aparecer desse jeito diante das esposas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:21 pm

Mas, você ficar irritada assim, é fazer muito barulho por nada.
Repito:
não se deve ter ciúmes daquelas criaturas.
Elas também precisam viver!
Em todos os tempos, minha querida, lado a lado com as matronas benfeitoras, existiram as bacantes, que até eram preferidas, pois cultuavam o vício e apelavam para as mais baixas paixões.
Então deixe este ar de tristeza e vamos falar de roupas; por pior que seja a desgraça, é preciso sempre estar bem-vestida.
Dagmara sorriu e tentou manter a alegre conversa da amiga, mas esta, percebendo o grande esforço que isto lhe custava, acabou indo logo para casa.
Quando se viu sozinha, Dagmara voltou a ficar preocupada.
Pensamentos tristes zumbiam em sua cabeça e seu coração encheu-se de um sombrio desespero, ao pensar na vida insuportável e na situação sem saída.
Mas seria realmente uma situação sem saída?
Febrilmente ela montava e novamente descartava mil projectos:
em alguns – ela queria livrar-se do marido, em outros – vingar-se dele.
Será que ela era pior do que aquelas vadias que Desidério preferia?
Cansada de tanto pensar, tentou distrair-se lendo algum livro.
Mas sentiu-se incapaz de uma leitura séria, e foi ao gabinete do marido para escolher algum novo livro de romances que lotavam a biblioteca dele.
Procurando as chaves da estante de livros, que normalmente ficava sobre a mesa, ela enganchou por acaso o bordado do vestido na caixa sobre a mesa e esta caiu ao chão.
Com a queda, a tampa da caixa abriu-se e o seu conteúdo espalhou-se.
Dagmara curvou-se e, com profunda repugnância, começou a juntar os objectos para recolocá-los na caixa.
Havia entre eles maços de bilhetes perfumados, fotografias de mulheres com rostos suspeitos e poses audaciosas, fitas de cabelo, luvas dos mais diversos tamanhos, uma meia de seda e até sapatos, de tamanho respeitável, de alguma dançarina.
Mas qual não foi a surpresa de Dagmara quando viu – entre aquele monte de troféus de conquistas fáceis – um grande envelope sobrescrito com a caligrafia solta e característica de Detinguen.
Com profundo respeito, que sempre lhe provocava qualquer lembrança do falecido, Dagmara pegou o envelope aproximou-o da luz da vela – e estremeceu.
A carta estava endereçada a Desidério.
O que teria escrito a ele o velho sábio?
Colocando rapidamente a caixa sobre a mesa, ela examinou o envelope:
estava rasgado, dentro dele havia uma grande folha de papel e a data indicava que a carta fora escrita somente duas semanas antes da morte de Detinguen.
Ela ficou curiosíssima.
A carta, abandonada entre as lembranças de amores e orgias, não poderia conter qualquer segredo.
Sem vacilar um instante, abriu-a.
Mas, à medida que lia, foi empalidecendo e um suor frio cobriu sua testa.
Os olhos bem abertos fixaram-se nas linhas que revelavam o segredo dos laços que a prendiam a Desidério.
Somente agora ela compreendeu que fora sacrificada sobre o altar da ciência.
Fora transformada em escrava pela transfusão, por algum método incompreensível, do seu fluido vital para o organismo moribundo do homem que actualmente a tratava como um ser inútil e descartável.
Agora ela entendia a duplicidade dos seus sentimentos, oscilando eternamente entre a indignação e a atracção.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:21 pm

Nenhum orgulho ou força de vontade poderia livrá-la da terrível força que reivindicava os seus direitos e que criou aquelas circunstâncias estranhas para juntá-los.
E Desidério sabia que ela lhe pertencia, como um objecto inanimado, como um átomo dependente seu sopro!...
Um surdo suspiro escapou do peito de Dagmara.
A consciência de que fora Detinguen, seu mais querido e venerado ideal, pelo qual ela sacrificaria a própria vida e a quem confiou-se sem restrições, justamente ele, feriu-a mais profundamente do que um punhal.
Sem qualquer misericórdia e com fanatismo científico, que não admite direitos do indivíduo e não conhece compaixão, sacrificou-a para a sua ciência secreta...
As palavras da carta fatal dançavam diante do seu olhar embaçado e o coração contraía-se como se ferido por um ferro em brasa.
Dagmara repetia automaticamente as últimas linhas da carta de Detinguen:
“A responsabilidade será do senhor, se este acto de alta magia que lhe salvou a vida, algum dia transformar-se em acto diabólico.”
Cambaleando, Dagmara deu inconscientemente alguns passos e, sentindo-se repentinamente tonta, desabou no tapete...
Os primeiros raios da manhã já começavam a penetrar nas janelas do gabinete quando, no quarto contíguo, ouviram-se finalmente os passos pesados de Desidério.
Cansado do excesso de prazeres da noite passada alegremente, ele entrou no gabinete escuro com cuidado e respirando pesadamente.
De repente, tropeçou em algo no chão.
Desidério abaixou-se e, reconhecendo Dagmara, estremeceu e ficou sóbrio instantaneamente.
Acendeu rapidamente a vela e viu a esposa desacordada no chão, segurando na mão uma folha de papel, que ele reconheceu imediatamente.
Vociferando baixinho ele tirou a carta da mão da esposa, colocou-a no próprio bolso, levantou a mulher e levou-a ao dormitório.
Um sentimento de compaixão e arrependimento despertaram de repente no seu coração e Desidério aplicou o tratamento que Detinguen havia receitado para situações como aquela.
Ele friccionou suas têmporas e mãos e colocou os lábios quentes sobre o local do coração, cujas batidas mal se percebiam.
E logo a poderosa influência da respiração animal fez-se notar.
As batidas do coração ficaram mais nítidas, a face recuperou o tom róseo e os braços e pernas perderam a rigidez.
Dagmara abriu os olhos mas, encontrando o olhar do marido, fechou-os novamente.
— Como se sente, querida?
O que aconteceu? – perguntou carinhosamente Desidério.
— Senti-me tonta e desmaiei, mas agora estou bem melhor – murmurou ela com dificuldade.
Dagmara não queria revelar o verdadeiro motivo do seu desmaio e Desidério preferiu também não tocar naquela questão periclitante.
— Graças a Deus!
Se soubesse como fiquei assustado ao encontrá-la assim desmaiada!
Agora, beba um pouco de vinho.
E, com estas palavras, ele serviu-a de um cálice de vinho.
Assim que ela tomou alguns goles, ele acrescentou:
— Durma, querida!
Isto irá acalmá-la e revigorá-la.
Ele beijou carinhosamente Dagmara e deitou-se.
Minutos após, sua respiração pesada indicava que ele havia adormecido.
Dagmara estremeceu do beijo do marido, do contacto dos seus lábios que beijavam outra mulher, a escolhida, com a qual ele passava dias e noites.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:21 pm

Nunca antes ela havia sentido uma tempestade tão forte como a que se desencadeava em seu íntimo.
Ao sofrimento quase físico do orgulho ferido, juntou-se a indignação do estupro cientifico de que ela fora vítima.
Que motivos levaram Detinguen a sacrificar ao primeiro desconhecido justamente ela, que ele dizia amar?
E tinha tantos remédios maravilhosos!
E quem era Desidério para Detinguen?
Um desconhecido qualquer!
Ah, não! Preciso ler aquela carta com mais atenção!
Talvez contenha algumas indicações que ela não percebeu no momento, devido à grande emoção da revelação.
Dagmara levantou-se, vestiu o penhoar e começou a procurar a carta.
Vendo-a aparecendo do bolso da jaqueta de Desidério, ela imediatamente pegou-a e levou ao seu boudoir.
Lá, à luz do dia e com concentrada atenção e olhar atento, leu e releu a estranha missiva, a sua sentença.
Não havia mais dúvidas:
a ciência a que Detinguen servia era uma divindade cruel, que não admitia compaixão nem perdão no que tange ao cumprimento da lei da iniciação.
Para o triunfo dessa ciência secreta foi necessário manter a vida daquele esbanjador – e ela foi sacrificada!
Ela, que gostava desta ciência!
Que colocou nela esperança e fé e cegamente estendeu as mãos para serem amarradas!
Ah, com que crueldade Detinguen obrigou-a a pagar por seu pão e tutela!
Mas, não estaria ela cega de boa vontade?
Como não enxergava os exemplos tanto do passado, como do presente?
Não seria ela uma vítima da ciência secreta, como a pitonisa de Delfos que o sacerdote torturador fazia sentar no tripé e enquanto os estertores reviravam a infeliz, ele arrancava dela as premonições sobre a morte ou triunfo de pessoas que vinham consultar o oráculo?
Com que direito eles usavam a energia vital delas para satisfazer a curiosidade de terceiros?
E os pobres sonâmbulos publicamente mostrados por hipnotizadores que abusam indiscriminadamente de suas forças e os rebaixam ao nível de objectos insensíveis e inanimados, somente para a diversão e curiosidade da turba!...
Com ar sombrio, e cenho franzido, Dagmara debruçou-se sobre a mesa e pôs as mãos na cabeça.
Naquele instante, ela sentia desmoronar um mundo inteiro de objectivos e crenças e toda aquela harmonia pura que a sustentava.
— Onde está a verdade?
Onde está o Pai celestial que permite abusarem de seus filhos? – murmurava ela com lábios trémulos.
Será que somos apenas um conjunto de átomos racionais que servem somente de matéria-prima para uma terrível máquina que estraçalha, tritura e envia esta massa sangrenta para uma distante e desconhecida perfeição?..
Ela levantou-se e começou a andar pelo quarto.
Lembrou-se então do sonho profético e da inscrição na entrada do templo da ciência:
“Não existe retorno para quem entrar por esta parta!”
Naquele instante, olhou para o grande retrato de Detinguen, e lhe pareceu que os olhos claros e pacíficos do falecido olhavam-na com expressão de zombaria e cruel satisfação.
Ela chamou o criado e ordenou-lhe tirar o retrato da parede e levá-lo ao laboratório.
Depois, retirou da escrivaninha e das caixas todos os outros retratos e objectos ligados à memória do pai adoptivo e levou-os ao santuário, cuja porta trancou à chave, decidida a nunca mais entrar lá.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:22 pm

Durante o seu desjejum, apareceu Desidério, olhando desconfiado o rosto frio e calmo da esposa, que, como de hábito, serviu-lhe café e ofereceu um pedaço de carne fria.
— Você me assustou ontem à noite.
Como está se sentindo? – perguntou, beijando a mão de Dagmara.
— Aquilo foi um mal passageiro.
Exagerei um pouco nas experiências ocultas e lamento tê-lo incomodado – respondeu ela, com indiferença.
Depois a conversa passou para outros assuntos.
Ambos sabiam do malfadado segredo que os unia, mas preferiram não falar sobre isso.
Por alguns dias o barão pareceu redimir-se:
passou mais tempo em casa, tentou divertir a esposa e lia-lhe livros.
Mas as constantes cartas e convites começaram novamente a atraí-lo para fora de casa e, aos poucos, ele voltou ao antigo modo de vida.
E mais uma vez, ele caiu de cabeça no redemoinho da vadiagem insana que destruíam seu corpo e alma.
No fim do outono, Desidério, alegando necessidade de tratamento médico, saiu para uma viagem de dois meses.
Dagmara ouviu distraidamente as explicações do marido, convencida de que ele estava mentindo.
Além do mais, a sua indiferença e desprezo por ele aumentavam a cada dia.
Passado mais de um mês de viagem do barão, Dagmara não recebeu dele nenhuma notícia e sofria, acumulando dentro de si nuvens de maus pensamentos, mesmo acostumada à tais faltas de consideração do marido, que demonstrava abertamente que ela não tinha a menor importância para ele.
E foi com este estado de espírito que ela recebeu a visita de Dina, que parecia muito animada e um pouco preocupada.
— Tem notícias do seu marido?
Sabe por onde ele anda?
Estas foram as primeiras palavras de Dina.
— Não sei e nem estou interessada nisso – respondeu Dagmara, ficando taciturna.
— Pare com esta raiva!
Tenho um plano para dar uma lição em seu querido Desidério.
Se me prometer ficar calma, então venha tomar uma xícara de café lá em casa amanhã e terá uma bela surpresa.
Apesar de tudo, a curiosidade preocupada e doentia incitou Dagmara a aceitar o convite da amiga, mesmo que, inicialmente, pensasse em recusar.
No dia seguinte, na hora combinada, ela chegou à casa de Dina, onde encontrou um grande grupo de pessoas.
Um pouco mais tarde, apareceu um rapaz muito esbelto, que Dina apresentou como engenheiro Zelten; Dagmara surpreendeu-se com a atitude de Dina que, ao apresentá-la ao engenheiro, murmurou tão rápida e incompreensivelmente seu sobrenome que o recém-chegado certamente não entendeu direito.
Aliás, a anfitriã nem lhe deu tempo para comentários; ela falava e ria sem parar, dirigindo-se preferencialmente ao senhor Zelten, que recebera um cargo na fábrica dirigida pelo seu marido e chegara somente havia alguns dias a Prankenburg.
Sem se fazer de rogado, o engenheiro contou que aquela nomeação foi para ele uma agradável surpresa, apesar de ter reduzido o seu período de férias, que passava na praia perto da casa dos seus pais.
— A sua praia recebe muitos visitantes ou só é frequentada por moradores locais? – perguntou Dina, com a maior inocência, e servindo uma xícara de café ao convidado.
— É um lugar adorável!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:22 pm

A nossa pequena cidade ainda não fica superlotada com a afluência de turistas e banhistas, mas, mesmo assim, recebe anualmente um público muito seleccionado que lá encontra paz e diversão, para passar prazerosamente algumas semanas.
— Verdade?
— Podem acreditar.
Eu, por exemplo, conheci recentemente um casal muito simpático:
o barão Desidério Vallenrod e sua esposa.
Fiquei muito feliz em conhecê-los, pois soube que o barão também reside em Prankenburgo.
E por isso, não deixarei de – no mais curto prazo – levar os meus respeitos à baronesa e seu marido.
Enquanto falava, os presentes começaram a se entreolhar e os seus rostos reflectiam nítido embaraço; Dagmara enrubesceu, enquanto Dina continuava sorrindo.
Lançando um olhar malicioso aos presentes, ela observou alegremente:
— O senhor nos conta algo totalmente inesperado!
Nós nem desconfiávamos que o barão pertencia à seita mórmon e sempre o considerávamos como um simples cristão.
— O barão Vallenrod é mórmon?!
Não estou entendendo – disse o rapaz, intrigado.
— Mas como poderia ser diferente?
Eis aqui, em pessoa, a própria baronesa Dagmara Vallenrod, a única legítima esposa do barão Desidério.
Já que todos nós, aqui presentes, estivemos no seu casamento, então podemos presumir que a dama que o senhor encontrou junto com o barão só pode ser a sua esposa mórmon.
Foi impossível descrever o embaraço do jovem engenheiro.
Bastou-lhe ver os rostos confusos dos outros convidados, para entender imediatamente o grande equívoco que cometeu.
Ficando vermelho feito pimentão, ele murmurou uma mistura de desculpas e conjecturas de que certamente havia se enganado e tomou por esposa a irmã ou prima do barão, ou aquele era um outro Vallenrod.
O desespero do infeliz contador de histórias foi tão engraçado e triste que até Dagmara sentiu pena dele e apressou-se em dar outro rumo à conversa; todos respiraram aliviados e a festa continuou.
Mas o pobre engenheiro não conseguia se recompor e, alegando problemas de serviço, despediu-se rapidamente.
Os outros convidados seguiram seu exemplo, provavelmente, com pressa para rir desse periclitante acontecimento e aproveitar para espalhá-lo pela cidade.
Dagmara também resolveu ir para casa.
Apesar da sua calma aparente, ela fervia por dentro.
E não era ciúme, por mais legítimo que isso fosse; fervia a indignação e raiva do patife imoral que ousou ofendê-la, usando o seu bom nome para acobertar uma vadia qualquer.
Após três semanas, quando Desidério voltou, Dagmara já havia recuperado todo o seu sangue-frio e recebeu o marido com a delicadeza de costume, sem perguntar onde esteve, e nem o que fez.
E a vida prosseguiu da mesma forma, com Desidério como sempre divertindo-se longe do lar, enquanto Dagmara continuava na monotonia e solidão.
Perto do ano-novo, aos problemas já existentes veio somar-se mais um:
ela percebeu que estava grávida e, com a sua disposição de espírito, um filho parecia-lhe mais uma carga insuportável.
Desidério recebeu a novidade com aparente satisfação, mas não mudou em nada o seu modo de vida, deixando a esposa doente e irritada sozinha com as suas ideias perigosas.
No fim de maio, Desidério informou, feliz, à esposa que a empresa enviaria alguns funcionários a Paris para visitar uma exposição industrial e estudar diversos aperfeiçoamentos na fabricação de armas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:22 pm

A antecipação dos prazeres que o esperavam em Paris transparecia nitidamente no rosto de Desidério, que, aparentemente, não sentia nenhum remorso por deixar a jovem esposa sozinha e inexperiente no estado em que se encontrava.
Dagmara não disse uma única palavra, mas chorou amargamente quando ficou só.
Ela, doente, estava sendo abandonada num dos momentos mais difíceis de sua vida, como um cachorro.
De repente, uma nova ideia veio consolá-la naquele desespero.
— Vou para a casa do pastor!
Lá onde cresci e onde todos me amam, e pelo menos, ficarei em paz.
Se for a vontade do Senhor levar-me, então, pelo menos os meus últimos dias passarei cercada de cuidados e amor.
Ela não contou a ninguém sobre este seu plano, que pensava em realizar assim que o marido viajasse.
Finalmente, chegou o dia da partida e os cônjuges despediram-se friamente.
Desidério estava envolvido com os próprios preparativos, mas mesmo assim, recomendou à esposa cuidar-se e prometeu voltar para a época do nascimento.
Dagmara permaneceu calada e, no mesmo dia, começou a preparar a sua viagem.
No dia seguinte, ela visitou o tabelião Eshenbach e, sob sua orientação, redigiu um testamento.
Em caso de morte, ela deixava todos os seus bens, inclusive o direito de receber os duzentos mil marcos roubados pela baronesa, para uma instituição de caridade que deveria fundar um asilo de velhos e órfãos.
Parte dos seus bens e o uso vitalício dos lucros de outros capitais ela deixava ao seu filho, na condição de que sua educação deveria ser realizada exclusivamente pelo pastor Reiguern e sua esposa; a Vila Egípcia, com tudo que lá existisse, seria posta à venda.
No dia seguinte, ela partiu.
A camareira Jenni, a única que sabia para onde ia Dagmara, deveria juntar os seus pertences e partir no trem seguinte.
Cerca das sete horas da noite, Dagmara desembarcou na pequena estação e uma carruagem de aluguel levou-a até a cidadezinha, que distava meia hora a pé do pastorado.
Apesar da escuridão que se aproximava, do forte vento e nuvens ameaçando chover, Dagmara decidiu percorrer essa distância a pé.
Seu coração disparou e lágrimas encheram-lhe os olhos quando se aproximou da casinha do pastor.
Naquele instante, sentiu uma tontura e encostou-se a uma pequena coluna emaranhada por vinhedo selvagem.
Os bons velhinhos nem desconfiavam que a sua pequena Dagmara estava tão próxima!
O que diriam se vissem o desespero e a indignação que fervilhavam na alma de sua pupila?
Dagmara puxou convulsivamente a campainha.
Ouviu-se um arrastar de chinelos, o som do ferrolho se abrindo e à porta apareceu Brigitte, a velha criada do pastor, com uma vela na mão.
Ela não reconheceu Dagmara e olhava-a desconfiada, mas quando aquela perguntou-lhe, emocionada, se ela a esquecera completamente, a boa velhinha soltou um grito de alegria e deixou cair a vela.
O barulho chamou a atenção da esposa do pastor, que saiu para ver o que estava acontecendo.
— Santo Deus! Vejam quem chegou!
A nossa pequena Dagmara! – exclamou Brigitte.
Sem dar tempo para a senhora Reiguern se recuperar da surpresa, Dagmara correu para abraçá-la.
— Titia! Querida!
Vim para cá à procura de amor e paz.
Por favor, me aceite como antigamente – murmurou ela.
Profundamente emocionada, a tia conduziu-a ao quarto vizinho que ela tão bem conhecia, onde brincava quando criança e onde tinha sonhos quando mocinha.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:22 pm

Somente depois de a levar lá, a tia beijou-a carinhosamente.
No mesmo instante, a porta do gabinete se abriu e apareceu o pastor, de robe e solidéu preto.
Ele também abriu os braços em boas-vindas àquela que considerava sua própria filha e, depois, dando um passo para trás, começou a examiná-la.
— Como você mudou!
Temo que voltou para cá com a alma doente – disse ele, após um momento de reflexão.
— Sim, tio Gothold!
Ofendida, doente, sem fé nem esperança, vim para cá para morrer entre as pessoas que me amam – respondeu Dagmara, com os lábios tremendo.
Mas a emoção foi demais para ela; deixou-se cair numa cadeira e perdeu os sentidos.
Os velhos, assustados, correram para acudi-la, mas Dagmara logo abriu os olhos.
Matilda, preocupada, ordenou que servissem chá e ela própria foi preparar o quarto onde a recém-chegada outrora morava.
Naquele momento, Dagmara conversava com o pastor, que entendeu rapidamente a situação geral, e quando a jovem quis contar-lhe os problemas de sua vida, a discórdia em seu espírito e a desintegração de sua fé, o bondoso velhinho disse:
— Vamos deixar esta conversa para depois, minha querida criança.
Você está fatigada e precisa descansar.
Daqui a alguns dias nós conversaremos sobre tudo isso.
E o pastor tentou distraí-la, contando pequenas peripécias de sua vida modesta, sobre os lavradores conhecidos e sobre as mudanças que aconteceram por lá.
Sua conversa realmente ajudou, pois os pensamentos de Dagmara tomaram outro rumo e seu espírito encheu-se de uma paz; que não sentia havia muito tempo.
Ao se despedir para dormir, o pastor colocou a mão sobre sua cabeça, como sempre costumava fazer, e disse com fervor:
— Vá dormir em paz!
Que Nosso Senhor Jesus Cristo lhe conceda a fé e a paz que você outrora possuía sob este humilde tecto!
Por instantes pareceu a Dagmara que ela voltara a ser aquela criança e que a profunda fé que soava na voz do velho ressuscitara parcialmente o sentimento que estava apagado dentro dela.
Naquele lugar ainda consideravam Deus como Pai misericordioso e sentiam a Sua proximidade...
Havia muito tempo que Dagmara não dormia tão bem, como naquela noite, numa cama simples, com as cortinas de “cretone” que a escondiam nos melhores anos de sua vida.
Acordou mais alegre e calma; e depois, vestindo-se sozinha, sem ajuda da criada, desceu para o pequeno refeitório onde a cafeteira já fervia alegremente.
Ela contou sobre suas aulas com Detinguen, a sua iniciação nas ciências ocultas e os fenómenos que testemunhou.
Depois descreveu ao pastor a acção das desconhecidas mas terríveis forças da magia branca e negra, que aprendeu a controlar parcialmente.
Entusiasmando-se cada vez, mais ela descreveu o seu perplexo ouvinte a imagem do quadro do universo visível e invisível, onde interagem as forças ocultas nas plantas, animais e no homem e esconde-se uma população especial, surpreendentemente confusa.
— A mente embaça e o coração dispara quando a pessoa atravessa a terrível passagem e, às cegas, anda por uma estreita trilha beirando o abismo criado pela nossa parca consciência.
De cada lado do abismo, a pessoa vê seres que a chamam.
Alguns são seres iluminados e puros, com a palma da vitória nas mãos, que indicam o objectivo distante para onde conduz o aperfeiçoamento e onde nos espera a paz e o amor; outros – são monstros repugnantes e com garras afiadas – que horrorizam e ameaçam mas falam num idioma que as pessoas entendem:
o idioma do ódio e das paixões humanas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:22 pm

Digo que as pessoas “entendem”, pois a alma ferida anseia em pagar o mal com o mal, tenta conhecer o motivo das injustiças e dos sofrimentos que torturam os seres vivos em todos os mundos e em todas as esferas.
Mas o triste lamento do sofrido espírito humano permanece sem resposta...
E sobre este caos desordenado, paira Deus, como uma lei inicial que dirige o infinito criado por Ele na base de imutáveis leis.
Ele é Perfeito, proclama o amor e a igualdade, anuncia a justiça, o bem e a bondade.
Enquanto isso, aos Seus pés estão caídas suas míseras criaturas, corroídas por todos os vícios, dilacerando um ao outro e sempre o mais forte vence o mais fraco e o mau vence o justo.
E as pessoas enlouquecidas clamam:
“Quem és Tu, indescritível e Todo-Poderoso Ser que nos criou como somos?
Será que não consegues ouvir a nossa luta, a nossa discórdia e desespero?”
Mas, como a esfinge continua calada, e o mistério permanece insolúvel, cada um começa a explicá-lo à sua própria maneira.
Uns negam a existência do Ser Supremo, dizendo que tudo é fruto do acaso e seu fim é a destruição; outros, rezam, reverendam, batendo a cabeça no chão, erigem templos e oferecem sacrifícios na esperança de amenizar a suposta ira do terrível juiz que os castiga e tortura, implorando-lhe a Sua bondade e misericórdia.
Esta é a conclusão a que cheguei...
E o que o senhor, titio, pode me dizer para dissuadir as minhas dúvidas, devolver-me aquela confiança na bondade divina que os factos desmentem a cada instante?
Dagmara calou-se, pois a emoção impediu-a de falar, e o pastor, lívido, ouvira tudo em silêncio, com os dentes cerrados.
As palavras de Dagmara perturbaram terrivelmente a sua simples e religiosa alma.
— Ah, Detinguen!
O que você fez com a alma que lhe foi confiada?
Como irá se justificar no dia do juízo?
E você, minha filha, abrindo para mim esse terrível e invisível mundo, somente confirmou as palavras do Apocalipse, de que o livro da ciência deve ser fechado com sete selos e que o ser humano deve evitar de penetrar com o seu olhar naquele abismo onde vive o dragão de língua flamejante e garras afiadas com as quais dilacera qualquer um que dele se aproxime.
Você entrou pela porta que você mesma chama de terrível, viu os seres diabólicos, condenados por suas maldades a permanecer na escuridão do inferno e a terra desapareceu sob seus pés.
Você pergunta: o que é Deus?
Oh, como deve estar embaraçada a sua alma, como deve estar a sua mente obscurecida com trechos da ciência proibida para fazer uma pergunta tão sacrílega!
Você duvida da justiça divina porque ela não castiga o culpado como deveria fazer conforme o seu fraco entendimento humano?
Você duvida da infinita misericórdia de Deus enquanto Ele lhe envia provações?
Oh, como o Salvador estava certo ao dizer:
''Bem-aventurados os pobres de espírito, pois deles é o reino dos céus.”
Dagmara, de repente, foi tomada por um amargo sentimento de indignação.
“Para que lhe servem estes lugares-comuns, frases banais de um servidor da palavra que, cercando-se de uma fé restrita, imagina que está em relações amigáveis com Deus e se satisfaz com explicações que não aguentariam uma crítica mais séria?
Quando a mentira vence – é uma “provação”, e quando o acaso evita alguma infelicidade do cotidiano – é “graça de Deus”.
E este homem, com a sua fé cega, consegue encontrar em tudo a bondade e a justiça Divina, apesar de todas as evidências em contrário.
— Mas existem algumas “provações” bastante estranhas e dificilmente explicáveis – exclamou Dagmara, entregando ao pastor a carta de Detinguen.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:23 pm

Leia isto, tio Gothold, e depois, se puder, explique-me se o que aconteceu comigo foi um acto Divino ou artimanha diabólica!
Com o coração disparado e sem acreditar nos próprios olhos, o pastor leu a estranha carta, que descrevia a operação mágica de transferência da energia vital e que parecia confirmar as convicções de Dagmara.
— Entende agora, titio, por que duvido de Deus, que permitiu tal injustiça e entregou-me como vítima a um homem que não me ama, me ofende e, com o poder que lhe foi concedido, ainda me tortura.
Mas, uma coisa que você não poderá entender é a duplicidade que me aflige.
Se por um lado existe a indignação, desprezo e amor-próprio ferido, por outro – esta escravidão física, que me obriga a desejar a presença do barão, porque necessito do maldito sopro de sua vitalidade; parece-me que fico sem ar, quando ele está longe, e começo a murchar.
Reiguern olhou com profunda piedade para o rosto desfigurado de Dagmara e seus olhos, que brilhavam febris.
O velho pastor era uma pessoa com uma inteligência superior e, se por princípio, evitava penetrar no campo da ciência hermética, mesmo assim acreditava nas forças ocultas da natureza e na vida após a morte sob todas as formas.
O que ele soubera agora somente reforçou sua convicção de que não se deve abrir a cortina do invisível e usar as forças ocultas, cujo mecanismo deve permanecer em segredo.
Por um instante, fez uma profunda e fervorosa oração, implorando ao Senhor inspirá-lo.
Depois, pondo a mão sobre a cabeça de Dagmara, ele disse com devoção:
— Minha mente fraca, educada na simples fé pela palavra do Evangelho, não encontra respostas para estas terríveis perguntas.
Sempre evitei aprofundar-me no labirinto das ciências ocultas e pesquisar o que está escondido dos meus olhos.
O que você me revelou somente me convence o quanto se deve ser forte para entrar ileso neste mundo invisível e que se deve estar completamente livre de quaisquer interesses materiais para utilizar as forças pesquisadas, sem fazer mau uso delas.
Na minha opinião, o crime de Detinguen resume-se ao facto de ele ter colocado você numa luta para a qual não está preparada, por ser muito jovem e cheia de vida.
E seu infeliz casamento com um homem cruel e devasso foi o último golpe que a empurrou ao abismo da indignação, dúvida e renúncia.
Sem dúvida, o Senhor enviou-lhe uma severa provação; mas Ele sabe de algo que nem o nosso coração constrangido e nem a nossa pobre mente conseguem entender.
Renuncie ao seu conhecimento incompleto, apague dentro de si a impotente indignação, entregue-se totalmente ao Senhor, seu criador, e reze.
A prece – é uma força que a ciência reconhece, tanto quanto a nossa fé; a prece – é a ajuda do fraco, a espada que afasta os demónios e o contacto vivo com o nosso Pai celestial.
Eu sou simplesmente um cego, um simples portador da palavra sagrada, mas por centenas de vezes, senti o efeito benfazejo da prece e vi em outras pessoas o efeito do seu poder misterioso.
Reze, então, com toda a sua alma e o bálsamo curador escorrerá sobre as suas feridas.
Você recuperará a fé, armar-se-á de humildade e paciência, não tentará entender tudo e passará a ter fé de que a divina bondade e justiça alcançarão também a você.
A profunda fé e o fervoroso amor que soavam na voz do pastor sensibilizaram profundamente a doente e emocionada alma de Dagmara.
Ela sentiu, de repente, uma incontrolável necessidade de fé, de esperança na ajuda dos céus.
Caiu em prantos nos braços do pastor e balbuciou com voz entrecortada:
— Oh, titio!
Se eu pudesse rezar!...
Talvez pela forte emoção por que passou, somada à gravidez, ou por causa das forças ocultas, a partir daquele dia, a saúde de Dagmara começou a piorar rapidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:23 pm

Ela começou a ficar cada vez mais pálida, magra e passou a ser acometida de fraqueza incompreensível e desmaios repentinos.
A sua fraqueza chegou finalmente a tal ponto que, por vezes, parecia estar em estado letárgico.
O pastor, extremamente preocupado, mandou chamar o médico da cidade vizinha, mas logo convenceu-se de que aquele nada entendia do estado da paciente.
Então, seguindo o conselho da esposa, Reiguern enviou uma carta à Dina; na carta descrevia o estado estranho e perigoso de Dagmara e pedia-lhe enviar algum especialista naquele tipo de doença.
Quando a senhora Rambach recebeu a carta, Lotar estava justamente visitando-a.
Com a sua costumeira prontidão, Dina deixou-o ler a carta e pediu para indicar algum de seus colegas para ir ao pastorado.
Ao saber da doença de Dagmara, o médico empalideceu e o antigo amor despertou nele com novo ímpeto.
Ele sentiu-se profundamente solidário com a infeliz jovem que morria, abandonada por quem devia protegê-la e ajudá-la.
Reiguern despediu-se apressadamente de Dina e dirigiu-se directo para o palácio, onde teve uma curta audiência com o duque.
Voltando para casa, colocou rapidamente as suas coisas numa pequena mala e pegou o primeiro trem para o pastorado paterno.
Com alegria, mas um tremor interior, Lotar, na noite do mesmo dia bateu à porta da casa paterna.
A velha Brigitte não o reconheceu e lhe perguntou o que desejava.
O médico nada respondeu e, passando por ela, dirigiu-se directamente ao gabinete do pastor e abriu silenciosamente a porta.
A visão do velho grisalho e encurvado, sentado triste e pensativo à mesa de trabalho, emocionou-o profundamente.
Quando o pastor voltou-se e levantou, reconhecendo-o, ele balbuciou:
— Pai! Perdoe-me!...
Em seguida, caiu de joelhos e estendeu as mãos ao velho.
E ficaram por muito tempo abraçados em silêncio.
Depois, o pastor chamou a esposa, que quase morreu de felicidade ao ver o exilado que retornava.
Após os primeiros cumprimentos, os três sentaram-se no divã e, enquanto os dois velhos olhavam o filho com orgulho e amor, ele contou-lhes, em poucas palavras, a sua vida, o noivado com Dagmara, o acontecimento fatal que os separou e o sentimento de solidariedade e piedade que o motivaram a realizar o que ele queria havia muito tempo – fazer as pazes com eles.
Depois, a mãe levou-o ao quarto da paciente, que continuava deitada, num estado de ausência letárgica.
E quando Reiguern debruçou-se sobre ela e pegou na sua mão, o seu olhar ardente e amoroso pareceu reanimar Dagmara.
A paciente estremeceu, abriu os olhos e uma expressão de agradável surpresa passou por seu pálido rosto.
— Você veio, Lotar? – balbuciou ela.
— Sim, Dagmara!
Vim para cuidar de você e espero curá-la.
Quero que tudo o que nos separou seja esquecido.
Eu estou sob este tecto como seu irmão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:23 pm

XV

Cansado, e com os nervos à flor da pele, após as aventuras parisienses, numa certa manhã, Desidério voltou à vila.
A repentina fraqueza que passou a sentir nos últimos tempos e que atribuía às inúmeras farras, apressou a sua volta para casa.
Mas, ao chegar, lá ficou surpreso e extremamente irritado pela ausência de Dagmara, que viajara, sem dizer para onde e sem deixar qualquer recado.
Como a criadagem não podia dar-lhe nenhuma pista, o barão foi imediatamente para a cidade à procura de informações e soube, casualmente, que o doutor Reiguern também desaparecera e ninguém sabia do seu paradeiro.
Aquilo o deixou furioso.
Sua mulher não somente ousou abandonar a sua casa, mas aparentemente, fugiu com o amante.
Conhecedor de toda a crónica escandalosa da cidade, ele sabia da ligação da senhora Rambach com o belo doutor, e imaginou que Dina, traída como ele, poderia ter, por ciúme, seguido a trilha do seu amante e da amiga traidora.
Dina Rambach não estava em casa, mas como o mordomo informou que voltaria logo, Vallenrod disse que esperaria e dirigiu-se para o pequeno boudoir decorado com cetim laranja, lugar preferido da anfitriã.
Ardendo de impaciência e raiva disfarçada, o barão olhou o álbum de fotografias, os livros e, depois, começou a andar pelo quarto.
Passando pela escrivaninha e, ao parar para examinar o novo retrato de Dina percebeu a ponta de uma carta que saía da gaveta e onde aparecia o nome de Dagmara.
Não resistindo à curiosidade, pegou a carta enfiada negligentemente no envelope, e a sua atenção foi chamada pela assinatura:
Lotar Reiguern.
Esquecendo a lisura, que proíbe ler cartas de terceiros, e, tomado somente pelo desejo de saber algo sobre Dagmara, Desidério abriu a carta e leu as seguintes linhas:
“Querida Dina, não posso ainda estabelecer a data do meu retorno.
Como já lhe informei, o duque concedeu-me neste caso liberdade total e não vou deixar Dagmara até tudo terminar.
Não fosse por ela, eu estaria completamente feliz aqui.
A alegria dos meus pais de ter o filho perto de si e a vida calma neste ambiente aconchegante e familiar estão me fazendo muito bem.
Somente o estado de saúde da minha querida amiga de infância é que envenena o bem-estar geral”.
“Alguns dias atrás, a pobrezinha deu à luz um menino – uma criança muito fraca, para a qual tivemos de contratar uma ama-de-leite.
Mas, o estado delicado da paciente não é, de forma nenhuma, consequência do parto.
É uma fraqueza estranha, como se a sua força vital se esvaísse de forma invisível; e todas as formas científicas de estancar esta vazão foram infrutíferas.
Dagmara está apagando como uma lamparina sem óleo, como uma flor sem água e a catástrofe final acontecerá provavelmente dentro de alguns dias”.
“É difícil descrever tudo o que passei e sofri junto ao leito de morte da minha querida noiva, que o destino fatal arrancou de mim e jogou nas mãos grosseiras que a mataram. Dina, minhas palavras não devem provocar ciúmes em você.
Primeiramente, não seria digno ter ciúmes de uma mulher tão profundamente infeliz; em segundo lugar, o meu sentimento por ela nada tem a ver com o que nos une.
Eu a amo como mulher, com um sentimento terreno, já o meu amor por Dagmara é por uma criatura espiritual.
Junto com ela, vou sepultar todas as minhas melhores aspirações e as mais queridas lembranças”.
“Tenho mais um pedido!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 06, 2016 8:23 pm

Eu lhe informarei por telegrama quando Dagmara falecer, e depois disso – mas somente depois disso – tome medidas para informar o barão e, principalmente, a sua querida mamãe sobre o feliz acontecimento que os livra desta carga inútil.
Não gostaria que ele aparecesse antes e estragasse os seus últimos momentos, pois sei que a própria Dagmara não deseja ver o seu incomparável marido.
Aqui ela está cercada de amor:
cuidamos dela como membro da nossa família e queremos nós mesmos fechar os seus olhos”.
Mordendo o lábio inferior, Desidério empalideceu e interrompeu a leitura.
Uma nuvem negra cobriu a sua visão.
Então, Dagmara não fugiu com o amante!...
Que estupidez supor algo parecido da parte dela.
Ela foi esconder-se para morrer longe dele por falta de energia vital, pois Desidério colocou-a nessa dependência.
E enquanto ele girava no redemoinho de farras e depravações, nascia o seu filho, parte do seu ser e portador do seu nome.
E esse pequenino tem sobre ele direitos sagrados!..
Mãos estranhas receberam e abençoaram a criança, pessoas estranhas substituíram o pai junto ao leito da mãe doente.
Enquanto isso, ele corria atrás de aventuras e festejava com as amantes...
Agarrando o envelope, Desidério anotou o nome da estação e da aldeia onde morava o pastor.
Em seguida, enfiou a carta de volta na gaveta e saiu, dizendo ao mordomo que não podia mais esperar.
Duas horas mais tarde, ele já chegava à estação de trem, vindo directamente do gabinete do seu chefe, que lhe concedeu uma licença de duas semanas.
No pastorado o dia passou muito agitado.
Desde a manhã, o estado de Dagmara piorou repentinamente.
Ela sofreu ataques de sufocação, o pulso e a respiração estavam praticamente imperceptíveis e somente os calafrios que agitavam o corpo indicavam que a vida ainda não a abandonara.
Lotar, pálido e abatido, não saía de perto da cabeceira da cama.
A criança foi retirada do quarto e colocada junto com a ama-de-leite no andar de baixo.
O pastor e esposa não paravam de chorar e rezar no quarto da paciente.
Perto da hora do almoço, Dagmara ficou muito agitada, abriu os olhos e balbuciou fracamente:
— Ele está vindo para cá!..
Não quero vê-lo...
Ele não me deixará morrer!
Sem compreender o sentido dessas palavras, Lotar atribuiu-as a um delírio e administrou a Dagmara um calmante, fazendo-a cair novamente no esquecimento.
Mas, às seis horas da tarde, ela agitou-se novamente.
O pulso disparou, os olhos abriram-se e o olhar dirigido para o vazio parecia ver algo repugnante, pois ela tentava repelir algo invisível com as mãos e repetia tristemente:
— Não quero que ele venha...
Ele não me deixará morrer!...
— Isto, sem dúvida, é o fim.
Ela não passará desta noite – disse baixinho Lotar ao pai.
— Neste caso, vou administrar-lhe a extrema-unção.
A sua pobre e confusa alma, mais do que nunca, precisa de forças para a grande viagem.
Um sorriso amargo passou pelo rosto do médico.
— Tenho minhas dúvidas sobre a omnipotência dos céus.
Aliás, nesta hora, duvido também da minha ciência.
Talvez Detinguen pudesse ajudar com uma de suas poções mágicas!
Lá, onde os céus e a ciência foram derrotados, é possível que triunfe o inferno.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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