Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:33 pm

O pastor balançou a cabeça.
— É melhor admitir que a ciência, pela qual você trocou Deus, é cega e limitada – disse o pastor, num tom solene.
Não negue o poder do Senhor e não embarace com pensamentos impuros o sacramento que irá acontecer, a última graça, a última ajuda que o Pai Celestial concede à sua criatura que vai para a eternidade.
Lotar baixou a cabeça em silêncio e sentou-se novamente perto do leito.
Um quarto de hora depois, estava tudo pronto para a extrema-unção.
O velho pastor, cheio de fé, levantou com devoção o cálice sobre a cabeça de Dagmara.
— Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso misericordioso Salvador, entrego em Tuas mãos a alma da paciente que se prepara para receber a comunhão com o Teu sangue e corpo.
Tem piedade dos seus sofrimentos, não a julgues por seus pecados, e que seja feita a vontade do nosso pai celestial!
Seus caminhos são insondáveis.
Ele poderá prolonga-lhe a vida ou chamá-la para si.
Conduz-lha, Senhor, na morada da paz eterna.
A voz clara e humilde do ancião pareceu reanimar Dagmara.
A esposa do pastor levantou-a, ela abriu os olhos e olhou com uma indescritível expressão para dentro do cálice que o pastor levava aos seus lábios.
Mas, logo, entrou novamente em coma e somente a fraca respiração indicava que ainda vivia.
A noite se arrastava pesadamente.
Na casa ninguém dormia e a tensão geral era tão grande que ninguém prestou atenção ao barulho da carruagem parando diante da casa.
Nesse instante, Dagmara começou a balbuciar algo, e Lotar só entendeu as seguintes palavras:
— É ele!...
Não o deixem entrar!...
A senhora Reiguern desceu por instantes para ver como estava a criança, quando, de repente, Brigitte abriu a porta e chamou-a, dizendo que chegou um senhor procurando por ela.
A esposa do pastor, surpresa, saiu para o saguão e encontrou um homem alto, luxuosamente vestido, que a cumprimentou cordialmente.
Quando o desconhecido se apresentou, ela recuou com um gesto involuntário de horror e murmurou:
— Oh! Então é o senhor Vallenrod?
— Em pessoa, minha senhora!
Vim visitar a minha esposa e agradecer-lhes por todos os cuidados que lhe prestaram – disse, enrubescendo, Desidério.
Como está Dagmara?
Posso vê-la?
— Ela está muito mal, senhor barão!
Meu marido acabou de administrar-lhe a extrema-unção.
Tenha a bondade de aguardar um pouco:
vou avisar o meu filho, que está cuidando da baronesa.
Enquanto isso, o senhor não gostaria de entrar aqui e ver o seu filho?
Já faz uma semana que ele aguarda o beijo e a bênção do pai.
Desidério seguiu atrás da anfitriã e entrou num pequeno quarto, fracamente iluminado por uma lâmpada com abajur azul.
Lá havia um berço – simples e antigo – no qual um dia dormiram os filhos do pastor.
A ama-de-leite levantou a criança e entregou-a ao barão.
Uma estranha sensação tomou conta de Desidério, quando pegou nos braços o pequeno embrulho de panos, que era o seu filho.
O coração bateu tristemente, quando ele beijou a pequenina testa e a face da criança.
Naquele momento Lotar entrou no quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:33 pm

Vallenrod e o médico mediram-se com olhar hostil e trocaram frios cumprimentos.
No espírito do jovem Reiguern, fervia um indescritível ódio ao insensível esbanjador da vida, que lhe roubou a mulher amada e aniquilou-a sem piedade.
— Peço-lhe que me acompanhe, senhor barão – disse finalmente Lotar, com grande esforço.
Mas devo avisá-lo de que a baronesa está morrendo e, provavelmente, viverá somente mais algumas horas.
A ciência não consegue salvá-la!
Alguns minutos depois, o barão debruçou-se sobre Dagmara e estremeceu de horror diante da terrível mudança que ocorrera na aparência de sua jovem esposa.
Agora ela era somente a sombra da antiga Dagmara.
Mortalmente pálida, os olhos afundados nas órbitas, jazia como morta; mas quando Desidério pegou na sua mão, ela suspirou fracamente.
— E agora, doutor, peço-lhe que me deixe a sós com a minha esposa.
Eu mesmo vou cuidar dela – disse Vallenrod, num tom respeitoso, dirigindo-se a Reiguern, que ficou taciturno.
— A baronesa precisa de repouso absoluto.
— Eu sei. Não me diga que o senhor acha que pretendo fazer aqui uma cena à minha esposa, por ter abandonado de forma tão impensada a própria casa?
Esta não seria a hora apropriada para isto – e um sorriso sarcástico passou pelos lábios do barão.
Ou teme simplesmente deixar-me a sós com ela?
Isto seria um erro.
Não acabou de dizer que ela está morrendo e que a ciência não pode ajudar?
Consequentemente, a sua missão acabou e eu assumo os meus direitos legais.
Quero ficar a sós com a minha esposa, não importa qual seja o resultado final desta noite.
Sem responder palavra, Lotar saiu do quarto.
Descendo a escada, encontrou o pastor, que subia.
— Vamos, pai!
Lá em cima nós seremos demais.
O assassino que acabou de chegar invocou os seus direitos de marido e mandou-me sair do quarto da moribunda, como se eu fosse um estranho.
O velho olhou com tristeza e preocupação o rosto abatido e desfigurado do filho.
— Venha para o meu gabinete!
Lá você me conta o que aconteceu – disse, calmamente.
— Aconteceu que este patife, tentando reparar qualquer dívida, arma-se de seus “legítimos” direitos para me colocar para fora do quarto!
Eu, que tratei e cuidei dela, como da própria irmã!
E este assassino ainda diz ter o incontestável direito de tratar de sua vítima.
Ele, provavelmente, quer se deliciar com a agonia da moribunda e imaginar qual das amantes irá ocupar o lugar dela.
Pobre Dagmara!
Agora entendo a sua frase!
“Ele está chegando!...
Ele atrapalhará a minha morte”...
A sua alma atormentada pressentia a aproximação do seu perseguidor.
Triste e cabisbaixo, o pastor ouvia o discurso irado do filho.
— Eu acho que Dagmara irá sobreviver, e – por mais desagradável que isto seja – a presença deste patife é que a fará voltar à vida – disse o pastor, à meia voz.
Lotar não se conteve e deu um pulo.
— Pai! Nunca imaginei ouvir de você tal absurdo.
Como pode ela amar Vallenrod, após todas as ofensas que ele despejou sobre ela?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:33 pm

O pastor, sem nada dizer, abriu a gaveta da escrivaninha e retirou uma folha de papel dobrado, entregando-a ao filho.
— Leia esta carta do falecido Detinguen e surpreenda-se tanto quanto eu.
Minha mente não consegue entender o terrível mistério que revela esta missiva.
Pode ser que você, um homem da ciência, possa compreendê-la!
Lotar praticamente arrancou a carta das mãos do pai e, encostando-se à mesa, começou a lê-la.
E à medida que o seu olhar passava febrilmente por aquelas linhas, seu rosto foi ficando cada vez mais pálido e um suor frio cobriu sua testa.
Depois, jogando a carta longe, encostou-se no espaldar da poltrona e observou, com voz contida:
— Se isto for verdade, então é um acto diabólico!
A recuperação de Dagmara será a prova da existência desta terrível força.
Então, se for assim, que significado tem toda a nossa ciência?
Ficando a sós com Dagmara, Desidério ajoelhou-se e abriu a sua camisola.
Em seguida, apertou os seus lábios no local do coração, que batia fracamente e apertou em suas mãos as mãos da paciente.
Mal os seus lábios tocaram a pele fria de Dagmara, ela estremeceu como se levasse um choque eléctrico.
Seus olhos abriram-se e o cansado e sofrido olhar parecia procurar algo; mas ao ver o marido, uma expressão de ira e desprezo passou pelo seu rosto emagrecido.
Fazendo um esforço para empurrá-lo para longe, ela murmurou:
— Deixe-me morrer em paz!
Estou cansada desta maldita vida.
Entretanto, estava demasiadamente fraca, para livrar-se dele, e com um rouco suspiro, voltou a cair nos travesseiros.
Desidério aparentemente não prestou nenhuma atenção à resistência da esposa e continuou a pressionar os lábios contra o seu peito.
Dagmara jazia com os olhos abertos, sem poder mexer nem os braços nem as pernas e somente sentindo uma corrente quente circulando por suas veias e aquecendo o sangue já frio.
Logo seu corpo começou a suar abundantemente, seguindo-se um bem-estar geral e uma agradável languidez.
Dagmara fechou os olhos e adormeceu num profundo e pesado sono.
Vallenrod endireitou-se e, sentando à cabeceira da paciente, continuou a segurar as suas mãos, que já estavam quentes e macias.
Ele, por sua vez, estava pálido e, sentindo-se fraco, encostou-se na cama e também adormeceu...
Passaram-se algumas horas – longas e difíceis para Lotar, que andava preocupado pelo quarto.
Os raios do sol nascente despertaram Desidério.
Sua primeira reacção foi debruçar-se sobre Dagmara para constatar que continuava dormindo.
Com um suspiro de alívio e triunfo, ele levantou, espreguiçou-se e murmurou:
— Vou provar àquele médico idiota que consigo fazer milagres, sem os seus remédios.
Desidério lavou-se, bebeu um copo de vinho que encontrou na mesa e depois, saindo silenciosamente do quarto, perguntou ao médico:
— Senhor Reiguern, não poderia subir para ver a minha esposa?
Ela ainda está dormindo, mas eu gostaria de saber como está agora o seu estado de saúde.
Lotar correu para o quarto de Dagmara.
Percebeu de imediato a incrível mudança que ocorreu no estado da paciente.
Não acreditando na primeira impressão, ele auscultou o coração, verificou o pulso e certificou-se de que o organismo de Dagmara funcionava de forma absolutamente normal.
Ainda havia a fraqueza, mas nenhum sinal de agonia.
Aquele homem, sem qualquer conhecimento nem remédio, e usando somente o seu sopro animal, realizou um milagre.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:33 pm

Ele deu ao corpo moribundo aquilo que a ciência não podia dar:
uma nova força vital.
O médico levantou-se.
Estava pálido e taciturno.
— Barão, o senhor é um grande sábio, pois venceu a morte!
Eu, com a minha ciência, sinto-me um cego e ignorante – disse Lotar a Vallenrod, que entrava no quarto.
E sem esperar resposta, saiu do dormitório e trancou-se em seu quarto.
Uma tormenta rugia no espírito de Lotar.
Seu conhecimento, construído por anos de intenso trabalho, estava trincando e ameaçava desmoronar ao se defrontar com leis desconhecidas, cuja existência indubitável ele acabou de comprovar.
E na cabeça, persistia a ideia de que um ignorante, uma pessoa devassa e superficial, salvou a vida que ele, com todo o seu conhecimento, sentenciava à morte.
Depois disso, que valor tinha esta sua ciência, o estudo trabalhoso da máquina humana e do seu complicado mecanismo?
Não seria esta ciência simplesmente letra morta comparada à corrente revigorante que penetrava na raiz da doença?
A pureza da ciência experimental, que somente reconhecia como verdade o que os olhos vêem e o bisturi puder pesquisar, desmoronava como um edifício sem fundações.
Diante dele erguia-se um mundo invisível com seus segredos, que ele negava ou desdenhava, somente porque tal mundo não era perceptível à visão nem ao tacto.
Ele zombava do magnetismo terapêutico e das sugestões hipnóticas, considerando-os charlatanismo, dava de ombros quando ouvia falar dos testes de De-Roche sobre a exteriorização da sensibilidade, chamando-os de pura imaginação e indignos da atenção de um “cientista”.
E agora, de repente, um trovão arrasou o seu orgulho, provando quão pouco ele sabia.
A carta de Detinguen tirou definitivamente a venda de seus olhos, cegando-o com uma luz brilhante; o velho também falava de transmissão da corrente vital, das ainda desconhecidas leis da electricidade, do poderoso pigmento que alimenta os corpos astral e material, das substâncias invisíveis, da capacidade dos corpos de comunicarem-se entre si através de meios invisíveis ao olho despreparado.
Tudo isso estava escondido no éter transparente e era imperceptível aos cinco sentidos.
De repente, no cérebro do materialista convicto, surgiu mais um pensamento estarrecedor:
e se, em algum lugar, nos infinitos abismos do desconhecido e, tão real como o fluido invisível que preencheu e ressuscitou o jovem organismo moribundo, existir Deus – o Ser primário e Todo-Poderoso?
E, sendo tão imperceptível aos grosseiros sentidos, só puder ser percebido por suas acções e não por Sua presença visível?
O olhar indeciso do médico parou sobre o grande Crucifixo pendurado na parede.
Será possível que seu pai tinha razão na sua simples e irremovível fé e, realmente, neste mundo são bem-aventurados os pobres de espírito, aos quais pertence o reino dos céus?
Lotar foi embora do pastorado no dia seguinte ao da milagrosa cura de Dagmara.
Desidério ficou e, quando terminou a sua licença, levou a esposa com o filho para a vila.
Triste e ainda com uma palidez doentia, Dagmara voltou à casa que não esperava mais ver.
A vida solitária e monótona que a aguardava acenava-lhe novamente com tristeza e desespero; mas à medida que suas forças voltavam, voltava também a sua energia natural.
Para preencher o vazio espiritual, ela passou a ler e trabalhar com entusiasmo.
Certo dia, ela destrancou o santuário e começou a folhear o grande arquivo das ciências ocultas.
Aquele livro destruiu-a e talvez pudesse salvá-la.
Dagmara tentou invocar Detinguen e pedir explicações sobre o horrível atentado que cometeu; mas a invocação não surtiu efeito – Detinguen não apareceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:34 pm

Surpresa e inconformada, Dagmara concluiu que ainda estava demasiadamente nervosa e, para que a experiência desse certo, ela precisaria primeiramente acalmar-se.
Mas aquilo era fácil de compreender mas difícil de fazer e, quanto mais infrutíferas eram as suas tentativas, mais aumentava o seu nervosismo.
Após estudar cuidadosamente o livro de invocações, ela decidiu realizar a grande e solene invocação com todas as regras do ritual.
Faltando pouco para a meia-noite, Dagmara entrou no santuário e executou todos os preparativos.
Acendeu as sete velas do candelabro que ficava sobre o altar, encheu de água o recipiente de cristal e jogou ervas aromáticas sobre os carvões em brasa dos tripés.
Em seguida, pronunciou em voz alta as invocações prescritas.
Enquanto folheava o livro de invocações, seu olhar parou repentinamente sobre a seguinte frase:
“Os grandes e puros espíritos só podem ser invocados com a alma em paz e coração livre de ódio e ira.
Em caso contrário, a mesa do banquete será cercada por vagabundos, bandidos e impuros que dominarão o anfitrião”.
Dagmara estremeceu, percebendo que não se sentia nada tranquila e que seu coração estava cheio de raiva.
Um medo obscuro dominou-a e ela quis desistir da experiência; mas das paredes e dos móveis já se ouviam batidas e ruídos; à sua volta começaram a girar manchas fosforescentes e o quarto esfriou de repente.
Em seguida, ela percebeu que seus pés e mãos ficaram pesados e na testa surgiu um suor frio.
Sem poder se mover, ela caiu contra o espaldar da poltrona e, apesar da paralisia do corpo, sua mente estava clara e os sentidos adquiriram uma extraordinária agudez.
Ela ouvia ruídos estranhos, aromas estonteantes sufocavam-na e o espaço à sua volta foi preenchido por seres bizarros e horríveis, que pareciam sair de uma nuvem espessa e escura, atravessada por relâmpagos, que cercou o altar e o tripé.
Algumas das criaturas pareciam esferas fosforescentes transpassadas por algo semelhante a flechas, outras – pareciam serpentes aladas e pássaros com caras de cães ou chacais, e alguns com rostos humanos.
Todas essas repugnantes criaturas aglomeravam-se em volta do recipiente de cristal para beber água, que fervia ao seu toque.
Um gigantesco morcego que pairava sobre o altar elevou-se de repente e, voando pesadamente dirigiu-se em direcção a Dagmara, aterrissando diante dela sobre o volumoso livro aberto.
Os grandes e verdes olhos do monstro olhavam para Dagmara com expressão de maléfica zombaria e a pressão daquele olhar fê-la ficar em pânico; quis correr, gritar, mas não podia mover-se e com crescente horror assistiu à estranha transformação do morcego
O corpo dele encheu-se, esticou-se e tomou rapidamente a forma de um homem jovem extraordinariamente fino e esbelto, vestindo uma túnica estreita e vaporosa, que parecia ser feita de uma teia de prata.
Todo ele, inclusive o rosto, manteve a cor cinza do morcego; sobre a testa, por entre os cabelos encaracolados, viam-se pequenos chifres e nas costas havia enormes asas dentadas.
Inclinando-se para Dagmara, que estremeceu com o frio que dele emanava, disse com voz sonora:
— Eu vim a seu chamado.
Sou a personificação dos sentimentos que a atormentam.
O outro não virá.
Ele gosta de vítimas entusiasmadas que se sentiriam felizes sob os golpes do machado; mas eu – sou um dos corpos que sofreu, proferiu maldições e acabou “mal”, como se costuma dizer.
Agora, desencantado, tanto da justiça divina como da humana, divirto-me à minha maneira, observando a eterna comédia do mal premiado e do bem perseguido.
Será que você ainda não se convenceu de que, quanto mais fizer o bem, tanto mais a odiarão para livrar-se da gratidão que devem a você, e que nisso se resume exactamente a explicação da maior parte dos seus desgostos?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:34 pm

O louco que realizou a sua iniciação também acreditava na força do bem e trouxe-a em sacrifício a esta utopia, de um modo que ninguém pode salvá-la.
E isto porque aquele a quem você está ligada pertence ao nosso meio.
Fiquei com pena de você e vim para dar-lhe um conselho que vai salvá-la:
procure tentações, ame o calor no sangue que atordoa a alma cansada, abuse de amores proibidos com todos os detalhes ardentes – e você não mais será estranha a todos com aquela sua mísera bondade e estúpido peso na consciência; você não estará sozinha, ninguém mais a odiará e não vão tratá-la como a um cão.
Quem vive com lobos deve uivar como lobo!
E por que você odeia o vício?
Ele é poderoso e dirige tudo!
Aprenda a usá-lo.
Lisonjeie a baixeza humana, submeta-se à insolência, sufoque o próprio orgulho e dignidade, finja onde lhe for lucrativo, seja insistente quando quiser atingir um objectivo, feche os olhos para as fendas das pessoas e – o principal – minta!
Minta sempre.
Minta aos outros e para si própria!
Tudo, tudo o que lhe parecer errado, cubra com a mentira e esta mentira prestativa irá justificar e desculpar você e lhe fará esquecer a própria queda.
Você quer se livrar da corrente invisível que a amarra ao marido.
Para livrar-se destes odiosos grilhões existe um remédio que aqueles outros não indicarão, mas eu vou revelar a você.
Comece a agir como ele.
Quando todo o seu ser ficar inteiramente tomado pela corrente animal do vício e, só então, esta ligação começará a enfraquecer.
Quando as suas secreções fluídicas forem do mesmo tipo, a troca mútua irá interromper-se e, finalmente, a corrente desaparecerá por si própria.
Mas, isto subentende que você terá de se esforçar e pecar bastante para atingir este objectivo.
— Quem é você, ser maléfico, que me dá conselhos tão satânicos? – perguntou Dagmara, horrorizada.
Um sorriso esperto passou pelos lábios do estranho conselheiro.
— Eu já lhe disse – sou um amigo que se apiedou de sua juventude, e das lágrimas e desgostos que lhe machucam a alma.
Ao tropeçar no caminho da fé, você já não é mais a iluminada sacerdotisa do êxtase ofuscante e está perdida entre o céu e o inferno, culpando um e recuando diante do outro.
Não é na solidão que você poderá curar-se!
Misture-se na multidão humana:
a respiração envenenada dela é contagiosa, e circulando entre as pessoas, você irá querer seus vícios e desejará embriagar-se com os prazeres estonteantes.
Experimente acotovelar-se entre eles e o “pecado”, que é bem menos repugnante do que o silêncio de uma noite solitária, a alcançará sob as mais variadas formas.
Enfeite-se não com a bondade, mas com seda, veludo, flores e jóias; excite os sentidos; ouça as carinhosas palavras de amor – e você aprenderá a deliciar-se com os prazeres da vida material.
Dagmara tentou levantar.
Parecia-lhe que os terríveis olhos esverdeados queimavam e sufocavam-na.
Seu esforço foi inútil e ela, com a mão trémula, tentou apalpar a cruzinha de ouro que trazia no peito.
— Ele não a salvará, pois não tem mais sobre você o poder de antigamente, – sussurrou o ser misterioso, com uma sonora gargalhada.
— A cruz não protege aqueles que só se escondem atrás dela; ela é invencível somente nas mãos da pessoa que se crucifica na cruz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:34 pm

Mas você, infeliz, que está irremediavelmente morrendo aqui à toa, vou salvá-la contra a sua vontade!
A visão começou a desvanecer-se, diluiu-se numa massa negra e desapareceu.
Dagmara sentiu tudo girar e lhe parecia cair num sombrio abismo.
Quando voltou a si e, fatigada, levantou-se da poltrona, o santuário estava com a aparência habitual:
as velas continuavam acesas e a fumaça da defumação formara uma leve nuvem que pairava no tecto.
— Que pesadelo horrível! – murmurou Dagmara, com tremor na voz, colocando em ordem as coisas que usara.
Ela meditou longamente sobre o pesadelo surpreendentemente horrível que teve no santuário e cujos detalhes lembrava com incrível nitidez.
Parecia-lhe ainda ver os olhos verdes e ardentes do conselheiro demoníaco, ouvir a sua sonora voz e o assobio estridente.
Na tarde do mesmo dia, ela recebeu a visita da baronesa Shpecht, que veio trazer um convite da duquesa para um grande baile de máscaras no palácio.
Além disso, a baronesa também convidou-a para a festa de noivado de uma de suas filhas, que seria realizada na sua casa com a presença de importantes personalidades.
O primeiro desejo de Dagmara foi declinar o convite, mas quase imediatamente surgiu-lhe outra ideia.
Para que ficar trancada numa casa vazia, onde se sentia estranha e inútil?
Para que condenar-se à eterna solidão? Não.
Ela precisava divertir-se, sair desse seu monótono e solitário lar e procurar diversão entre as pessoas.
Dagmara não falou ao marido sobre a visita da baronesa Shpecht nem sobre a sua intenção de participar daquelas festas.
Já havia transcorrido um ano que Dagmara desaparecera do cenário mundano e, por isso, a sua volta provocou grande sensação.
Todos a olhavam com curiosidade, achando que ela cresceu e ficou mais bela, apesar da expressão amarga e de desdém da boca e do sombrio brilho dos olhos, resquícios dos sofrimentos espirituais passados.
Por estranha coincidência, naquele dia, Desidério devido a uma forte dor de cabeça, voltou para casa mais cedo e surpreendeu-se com a ausência da esposa.
Estava tão acostumado à vida solitária dela, que ficou irado com essa saída, sobre a qual não havia sido informado.
Ele se acalmou, imaginando que ela teria ido visitar Dina.
Mas, quando o relógio bateu meia-noite e depois uma hora e Dagmara não voltava, ele começou a ficar furioso.
Como não sabia aonde ela tinha ido, nada podia fazer, a não ser armar-se de paciência e esperar.
Foi ver como estava a criança e depois voltou ao dormitório.
Quando já se preparava para dormir, ouviu o som da carruagem que parava diante da casa.
Desidério ficou aguardando, mas como Dagmara demorava a aparecer, ele próprio foi ao boudoir, abriu a porta e estancou.
Diante do grande e bem-iluminado espelho, Dagmara, num vestido de baile, tirava as luvas.
O vestido rosa, enfeitado de rendas e as flores nos cabelos, presos por uma presilha de brilhantes, iam-lhe muito bem, destacando a sua delicada e original beleza.
— Mas o que é isso?
De onde vem você vestida desse jeito, se não for segredo? – perguntou o barão, com voz surda, sinal de grande irritação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:34 pm

Dagmara voltou-se e seus claros olhos brilharam, mas, em seguida, um frio olhar passou pelo marido.
— Estou voltando do baile da baronesa Shpecht.
O sangue subiu à cabeça de Desidério.
Ele sabia que no baile deveria haver muita gente e o aparecimento de sua mulher sozinha iria obviamente provocar muitos comentários e fofocas.
— Parece-me que você poderia ter-me comunicado sobre este convite.
Eu acreditava que você tivesse mais tato e nunca imaginava que iria sozinha a um baile, quando o bom-tom exige que você se apresente na sociedade acompanhada do seu marido.
— Eu achei que você não teria tempo para ir comigo, e nem imaginava que isto iria interessá-lo; além do mais, você disse que iria a um torneio de hipismo.
E todos, já há muito tempo, estão acostumados a me ver sozinha.
E não tenho a mínima intenção de declinar todos os convites dos amigos:
não sou freira e não frequento o meio que você frequenta.
O olhar de Desidério fulminou-a raivosamente, mas ele nada disse e voltou para a cama.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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XVI

A partir daquele dia, Desidério ficou furioso com maior frequência, pois Dagmara, aparentemente, voltou a interessar-se pela vida mundana e passou a sair com maior assiduidade.
Ela ia ao teatro, à casa de Dina ou da baronesa Shpecht, ou visitava uma das duquesas.
Escolhendo preferencialmente os dias quando o marido não estava em casa, ela recebia a visita de Domberg, Reiguern e outros amigos.
Isto também desgostava profundamente o barão, mas a sua própria forma de vida não lhe permitia proibir à esposa de sair ou receber visitas.
Dagmara parecia gostar da admiração que a cercava.
Mas como era uma mulher atenta, percebia que em todos aqueles olhares exaltados, aquela atenção cavalheiresca e conversas maliciosas não havia amor, mas a lama da devassidão.
Ela sabia que cada um dos seus admiradores estava somente aguardando um momento seu de irritação e fraqueza para levá-la à degradação.
Entretanto, a sua pura e honesta alma recuava com horror diante desses métodos de “consolo” de muitos matrimónios infelizes.
Apesar dos problemas de sua vida de casada, a degradação ainda a assustava, mas a ira e a indignação passaram a dominá-la cada vez mais e o orgulho ferido incitava o forte desejo de vingança.
Dagmara se preparava cuidadosamente para o baile no palácio.
Ela ansiava agora pela atenção que lhe negava o marido, e por isso queria ficar bela e causar impacto.
Desidério não recebeu o convite e provavelmente não sabia e nem quis perguntar se a esposa iria ou não ao baile.
Saindo do serviço, ele foi directo à casa de Varesi e eles resolveram almoçar juntos e, à noite, farrear num restaurante fora da cidade.
Dagmara, como de costume, não foi saber onde e como o marido pretendia passar o tempo, mas a indiferença e a desatenção da parte dele mais uma vez agitaram em seu espírito aquele amargo desgosto contra Desidério.
Com tal estado de espírito ela começou a se vestir para o baile e o espelho lhe mostrava que ela nunca esteve tão bela como naquele instante.
A jovem mulher provocou enorme impacto não só pela aparência, mas também pela extraordinária animação.
Nunca a haviam visto tão alegre e coquete, e, ao mesmo tempo, tão mordaz e maldosamente zombeteira.
Dagmara nem imaginava que, desde a sua chegada, alguém a observava de longe e, imiscuído na multidão de convidados, não tirava os olhos dela.
Este discreto observador era Saint-André, que havia voltado do Oriente somente à véspera do baile.
E, assim que soube por um amigo que Dagmara estaria no baile, conseguiu através de antigos contactos um convite ao baile do palácio.
Este mesmo amigo lhe contou os detalhes do seu infeliz casamento e assim que a viu, ele percebeu que aquilo era verdade.
Conhecendo-a bem, percebeu imediatamente que a alegria de Dagmara era artificial e que em sua animação febril soava uma completa instabilidade espiritual.
Após dançar, cansada, Dagmara pediu ao seu acompanhante para levá-la ao jardim de inverno, que naquele momento estava praticamente vazio e onde havia um agradável frescor.
— A senhora está pálida, baronesa, e parece cansada.
Permita-me permanecer ao seu lado enquanto descansa – disse Friedrich Domberg, conduzindo a sua dama ao divã de musgo artificial.
— Se o senhor não enjoar de ficar sentado aqui comigo em vez de dançar, então fique – respondeu Dagmara negligentemente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:35 pm

Os olhos de Domberg brilharam de paixão.
— A senhora está sendo cruel, baronesa, fingindo não saber que onde estiver, lá estará a minha felicidade.
Um sorriso de desdém passou pelos lábios de Dagmara.
— O senhor é muito amável, barão!
Estou cercada de tantos admiradores e lisonjeadores que vou acabar ficando vaidosa.
Antes de casar, ainda moça, nunca tive tantos admiradores e amigos dedicados; sinceramente, eu nem suspeitava que tinha tanto encanto.
Um forte rubor cobriu o rosto do jovem oficial.
— Eu entendo, baronesa – respondeu ele com animação.
Infelizmente, existem muitos homens levianos que vêem na senhora somente uma esposa enganada e abandonada, e encaram-na como caça.
Mas ao rotulá-los com o seu desprezo, a senhora deveria abrir uma excepção para aqueles que a amavam sincera e honestamente ainda antes do seu casamento.
Existe alguém cujos sentimentos pela senhora nunca mudaram.
Diga uma palavra e este alguém colocará aos seus pés a sua mão e o coração.
Aliás, para que falar por indirectas?
Meus sentimentos já lhe são conhecidos.
Aceite o meu amor e o meu nome e vamos iniciar uma nova vida.
Com a ajuda do príncipe Otton-Friedrich me incumbo de conseguir a sua separação do homem que não a merece.
E Domberg, inclinando-se, olhava de forma ardente e apaixonada nos olhos constrangidos de Dagmara.
Mas ela não teve tempo de responder, pois, naquele instante, detrás de um grupo de laranjeiras, surgiu a figura alta de um homem que se aproximou dela rapidamente e fez-lhe profunda reverencia.
— Conde Saint-André!
O senhor aqui? – exclamou ela, levantando-se apressadamente e estendendo-lhe ambas as mãos.
A palidez e a sombria expressão do olhar do conde indicavam que ele ouviu a conversa; mas a alegria na voz dela e o gesto com que o recebeu fizeram imediatamente seu rosto mudar de aspecto.
— Sim, sou eu!
E cheguei somente ontem – respondeu o conde, beijando calorosamente as mãos estendidas para ele.
Ambos estavam felicíssimos.
Ele – por encontrar novamente a pessoa com quem sonhava dia e noite; ela – por ter novamente ao seu lado um verdadeiro amigo, que conhecia seu segredo fatal, um homem nobre e bondoso que se afastou quando soube que ela pertencia a outro.
Ah! Se não fosse o acto criminoso de Detinguen, ela poderia ter sido a amada e respeitada esposa de Saint-André.
Quando ambos dominaram a emoção e a consternação provocada pelo encontro inesperado, viram que estavam sós.
Domberg desapareceu com o coração cheio de raiva.
Ele não precisou de resposta para entender que, se um dia Dagmara se separasse de Desidério, iria escolher para marido o conde e não a ele.
Saint-André sentou perto e examinou Dagmara com um olhar tão estranho, que ela ficou ruborizada e perguntou:
— Parece que eu mudei, já que o senhor está me olhando desta forma!
— Infelizmente, sim!
A senhora está muito mudada.
Não consigo ver aquele seu olhar alegre, o sorriso malicioso e a antiga alegria de viver.
Não vejo felicidade nos seus olhos, baronesa!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:35 pm

— Felicidade?
Esta palavra já não existe para mim, e da antiga Dagmara que o senhor conheceu nada restou.
Mas aqui não é lugar para estas conversas.
Venha visitar-me amanhã.
Acredite, estou felicíssima de encontrá-lo novamente!
O senhor me lembrou do passado feliz e irreversivelmente morto.
A aproximação de outras pessoas pôs fim a esse diálogo e eles dirigiram-se para o salão de baile.
Saint-André também tomou parte na diversão geral e até dançou, o que era inusitado para ele.
Deve-se acrescentar que ele dançou mais com Dagmara.
Naquela noite, uma surda irritação atormentava Desidério e ele voltou para casa mais cedo.
A notícia de que a esposa foi ao baile não podia obviamente tranquilizá-lo e ele andava pelo boudoir, irado como um tigre na jaula, quando finalmente chegou Dagmara.
— Que novidades são estas?
Que mania é esta de sair “batendo pernas” por aí sem minha autorização? – perguntou ele irado.
De onde você vem tão tarde da noite?
Dagmara, que naquele instante tirava o colar e os brincos, voltou-se e mediu o marido com um frio olhar de desprezo.
— Cheguei do baile do palácio e “bato pernas” visitando amigos, pois não sou obrigada a guardar paredes vazias.
Você não sai sozinho?
Enfim, há muito que todos sabem que você pouco se interessa por mim e me dá plena liberdade para fazer o que quiser.
— Você não acha que está exagerando na sua liberdade?
A minha condescendência nunca se estendeu à renúncia dos meus direitos ou à sua libertação das obrigações em relação a mim.
— Não me diga!
Que estranha condescendência! – disse Dagmara num tom zombeteiro.
Em todo caso, parece-me que chegou o momento de nós conversarmos com franqueza e acertarmos as contas.
Espero que você me deixe falar primeiro e fazer um resumo de todas as ofensas e mágoas com que me presenteou.
Você criou para si uma vida que me excluía completamente e nunca teve tempo para mim; as suas traições ostensivas não são segredo para ninguém e o facto de você passar dias e noites com suas amantes é um “segredo de polichinelo”.
Sem a mínima vergonha, você leva estas “damas” consigo para as bebedeiras e festas onde qualquer um pode vê-lo.
E, provavelmente, para mostrar-me as suas conquistas, você espalha pela casa a sua correspondência secreta.
Estou pronta a reconhecer a minha nulidade aos seus olhos, mas não quero fazer você passar vergonha diante do seu harém e companheiros de copo pelo mau gosto que teve ao se casar comigo.
Não exijo a sua presença nos lugares que frequento, para livrá-lo da sensação desagradável de aparecer em público com uma esposa digna de pena como eu, incapaz de elevar o amor próprio do brilhante cavalheiro, que tem sucesso somente porque o destino lhe concedeu uma aparência atraente mas enganadora, por trás da qual se esconde um espírito miserável.
Você não é capaz de um verdadeiro amor e o seu coração responde somente ao sussurro da lisonja ou atracção animal.
E somente por eu não possuir armas tão poderosas para acariciar suficientemente a sua vaidade, você me cobre de desprezo.
Mas não pense que o meu silêncio é estupidez ou ignorância dos seus feitos:
eu sei de tudo e entendo o seu comportamento para comigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:35 pm

Você se engana cruelmente se imagina que eu, partindo de um falso amor-próprio, vou tentar esconder de todos a minha infeliz vida familiar.
Não! Que a sociedade julgue por si mesma!
Estou cansada da eterna solidão e clausura e quero, como todos, viver entre as pessoas do meu meio.
Você não pode me proibir isto, pois transgredindo as suas obrigações para com a esposa, perdeu qualquer direito à minha pessoa.
Se ainda lhe sou fiel, é somente porque até agora não gostei de nenhum dos homens que me consideram um “objecto sem dono” que pertencerá por direito a quem conseguir pegá-la.
Desidério empalideceu e ouvia em silêncio esse inesperado sermão.
Pela própria leviandade, nunca pensou na indecência do seu comportamento; mas tudo o que ele ouviu – era a amarga verdade.
Cada palavra da esposa doía-lhe como chicotada, e ele nada podia responder.
Então, virou-se e saiu rapidamente para o dormitório.
No dia seguinte, Saint-André apareceu na vila e Dagmara recebeu-o sozinha, pois o marido, como sempre, estava ausente.
A anfitriã e o convidado sentaram-se no boudoir e começaram a conversar amigavelmente.
— Leio em seus olhos que a senhora sofreu demais e me culpo amargamente por tê-la deixado sozinha, quando a minha respeitosa amizade poderia ser-lhe útil – observou o conde, com um suspiro.
— É verdade!
Mas tanto naquela época, como agora, continuo tão só como somente um ser humano consegue ficar.
A solidão do deserto é menos terrível que a solidão na própria casa – disse Dagmara e seus olhos encheram-se de lágrimas.
— E a senhora não tentou procurar apoio na ciência, naqueles mistérios que nos deixou o nosso respeitável mestre?
— Não! – respondeu Dagmara rispidamente, com um brilho no olhar e enrubescendo.
— Não! Odeio a maldita ciência que me condenou e renuncio a ela.
Nem quero lembrar do mestre que foi o meu carrasco!
Ele próprio destruiu todo o bem que realizou na nefasta hora quando roubou de mim a força vital, acorrentando-me a um homem que me pisa e colocando a minha vida a seu bel-prazer.
— Mas como?
Como sabe disso?
Que insensatez da parte de Desidério de contar-lhe isto! – exclamou Saint-André, empalidecendo.
— O senhor se engana.
Encontrei por acaso a carta de Detinguen que me condenava à mais baixa escravidão que poderia imaginar a magia negra.
A carta estava num monte de “troféus”, bilhetes amorosos, retratos de amantes e contas de restaurantes – respondeu Dagmara, rindo.
— Mas se a senhora encara assim os laços que a prendem a Desidério, então – a senhora não o ama, como eu supunha? – murmurou Saint-André.
O ciúme causara muitos sofrimentos ao conde, e agora ele sentia que um grande peso saía do seu coração.
— Sim, houve um tempo que eu o amava, quando a ideia de me tornar sua esposa parecia-me a maior felicidade e eu ansiava viver somente para ele; mas ele sufocou todos estes sentimentos com as próprias mãos.
E sabe o senhor – ela inclinou-se para o conde com os olhos brilhando e lábios trémulos:
— quando aprendi a odiá-lo?
Nas longas noites, doente, passando sozinha angustiantes e insones horas, enquanto ele momento vivia em festas e bebedeiras, participava de orgias com mulheres vadias e voltava para casa somente ao amanhecer.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:35 pm

— Pare! Não se enerve assim!
Lembre-se de que a senhora é mãe e procure consolo e apoio no próprio filho.
O sorriso inocente da criança irá aliviar os sofrimentos que este indigno lhe causou – disse o conde, segurando a mão trémula de Dagmara.
Seu coração batia fortemente, cheio de felicidade, compaixão e esperança.
— Não! – disse Dagmara, balançando tristemente a cabeça.
A criança não me consola.
Ao olhar para ela, lembro todo o inferno que passei antes do seu nascimento, quando doente, inexperiente e sofrendo, ficava sempre sozinha, abandonada aos cuidados dos criados.
Ah! Que ideias passavam pela minha cabeça quando percebia que ele não tinha tempo de cuidar de mim grávida e que para mim tudo era demais.
Enquanto ele farreava em Paris, eu viajei para a casa do meu antigo educador, o pastor Reiguern; lá nasceu a criança e aquelas bondosas pessoas cuidaram de mim, como se fosse a própria filha.
Mesmo assim, eu estava morrendo e faltavam algumas poucas horas para a liberdade, mas naquele momento, infelizmente, o barão voltou.
Ele não quis largar a sua diversão e o seu fluido diabólico devolveu-me a vida...
Uma vida vazia e sem sentido, numa casa onde não existe um lar e que mais parece um hotel onde o marido aparece só para dormir e às vezes almoçar, quando não tiver nada melhor para fazer, ou passar a noite para recuperar energias para, no dia seguinte, reiniciar a sua vida devassa.
Nestas condições, o que pode significar para mim esta criança?...
Ela calou-se por falta de voz e as doentias batidas do coração não a deixavam respirar.
O conde beijava em silêncio as mãos frias de Dagmara e serviu-lhe um copo d'água, pedindo para acalmar-se.
A partir desse momento, entre eles estabeleceu-se uma relação completamente nova, cheia de confiança mútua e amizade sincera.
Ele tornou-se um assíduo visitante da Vila Egípcia e sua presença provocava uma sensação desagradável em Desidério, o que aliás era mútuo.
Assim passaram-se alguns meses.
Saint-André visitava a Vila Egípcia cotidianamente.
Os jovens ficavam sempre a sós e se apegavam cada vez mais um ao outro.
A paixão do conde atingiu o auge e Dagmara, quase inconscientemente, correspondia aos seus sentimentos.
No deserto que a cercava, o ardente amor do conde encheu de vida a sua alma atormentada.
Ela confiava nele inteiramente, sentindo-se muito bem em sua companhia e as horas até a sua chegada passaram a transcorrer lentamente; em compensação a ausência de Desidério trazia-lhe um verdadeiro alívio.
Este era o estado das coisas.
Esta situação, obviamente, não podia continuar indefinidamente e uma declaração definitiva era inevitável.
Certa noite, os jovens tomaram seu chá e dirigiram-se ao boudoir.
Contrariando o costume, não conseguiam estabelecer uma conversa; o conde estava aparentemente nervoso e andava pelo quarto, enquanto Dagmara reclinou-se na poltrona e fechou os olhos.
De repente um beijo ardente na mão fê-la estremecer.
Ela endireitou-se e encontrou o olhar de Saint-André, fitando-a, pela primeira vez, com indisfarçada paixão.
Sem prestar atenção ao embaraço da jovem mulher, ele puxou uma poltrona, sentou-se e, sem largar a mão dela, disse com voz embargada:
— Dagmara!
Não posso mais ficar calado, vendo a vida solitária e o sofrimento espiritual acabarem com você.
Eu a amo com todas as forças da minha alma e quero arrancá-la deste inferno!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:35 pm

— O que você está dizendo?
E os laços fatais que me ligam ao...
Ela calou-se e passou a mão pelo rosto pálido.
— Eu sei. Mas o segredo fatal não me deterá.
Estudei cuidadosamente os tratados de ocultismo sobre as estranhas leis de transferência de fluido vital e sobre as mágicas relações entre os seres vivos.
Cheguei à conclusão que, se entre você e ele se interpuser um grande amor, a poderosa influência deste amor agirá sobre a ligação invisível, como uma espada afiada, e tomando conta de todo o seu ser, absorverá o que agora, com base naquela lei, sente necessidade de Desidério.
Se você, por sua vez, entregar toda a sua alma a esta pessoa, então estarão lutando como dois fiéis parceiros contra estes laços fatais e sairão vencedores, quebrando-os.
O benigno e terapêutico fluido do amor mútuo curará os ferimentos invisíveis causados por este rompimento.
Li a descrição de um caso parecido num antigo livro sobre magia e estou pondo aos seus pés este sentimento de amor sem limites nem barreiras.
Eu a amo, Dagmara, como somente pode-se amar a uma mulher, mas quero ter sobre você direitos legais para chamá-la de minha, diante de Deus e das pessoas!
Penso que Desidério não se oporá à sua libertação, para continuar a vida devassa sem qualquer empecilho; talvez ele até case com alguma de suas vadias com as quais está se divertindo neste minuto.
Ele não dá nenhum valor aos laços que unem vocês e não a ama, provando isso com cada um dos seus actos e, por isso, não pode dar valor à esposa, que rebaixa diante de todos.
Assim, posso exigir que ele me ceda a pessoa que despreza e não quer amar.
Mas, para ter esta conversa decisiva com ele, preciso de sua permissão.
Dagmara, você quer ser minha esposa?
Permite-me, com a ajuda do meu amor e conhecimento, apagar todas as nossas mágoas do passado?
Ela ouvia, por vezes pálida, por vezes ruborizada.
Os tons sinceros de sua voz e do nobre e amoroso olhar faziam Dagmara renascer.
Parecia-lhe estar despertando de um horrível pesadelo e o seu fino rosto começou a reflectir o amanhecer de uma nova vida.
Levantando para o conde os seus puros olhos, que ardiam com a fé e esperança, ela disse com sinceridade:
— Sim, eu quero amá-lo, Phillip e quero pertencer a você!
Eu lhe imploro – liberte-me!
Nesse instante o conde abraçou-a, apertou-a contra o seu peito e cobriu de beijos ardentes seus lábios e olhos.
O amor dele, por tanto tempo reprimido, finalmente libertou-se.
Dagmara, feliz, encostou a cabeça em seu ombro e, pela primeira vez, sentiu a felicidade do verdadeiro amor esquecendo completamente que entre ela e Saint-André se interpunham os direitos de Desidério.
Mas teria ele ainda direitos sobre ela?
Não, não tinha, pois ele próprio recusou-os...
Naquele dia, Vallenrod decidiu voltar mais cedo para casa e descansar bem para o dia seguinte.
A notícia de que o conde estava com a sua esposa deu-lhe a ideia de ouvir a conversa deles.
Ele se esgueirou até a porta do boudoir e testemunhou a declaração de amor e de toda a cena seguinte.
Quando viu Dagmara nos braços do conde, que a cobria de beijos, e a esposa feliz com o olhar cheio de amor aceitando os carinhos – ficou possesso.
Sua mão agarrou a cortina e cada veia do seu corpo tremia como em febre; mesmo assim, não correu para os apaixonados e nem lhes gritou:
“Eu me porei entre vocês armado dos meus direitos legais e impedirei o seu caminho para a planeada felicidade”.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 7:36 pm

O que atrapalhou foi o medo de passar por marido ciumento e ser ridicularizado por Varezi, o que foi mais forte que a ira.
Desidério saiu silenciosamente e trancou-se no quarto.
E, como um tigre, começou a andar de um lado para outro, fervendo por dentro.
Havia chegado a hora que pressentia e que nebulosamente temia; no seu caminho aparecera um outro que exigia dele a esposa, que ele negligenciava.
— Entregá-la? Nunca! – murmurou Desidério, cerrando os punhos e jogando-se no divã.
Aos poucos, seus agitados pensamentos acalmaram-se e a ira esfriou, deixando em seu lugar um sentimento agudo e amargo que ele, debalde, tentava espantar.
Uma voz que havia muito estava calada, sussurrava-lhe:
“Alguma vez você deu o devido valor à mulher, que largava por dias e semanas inteiras, sem jamais imaginar que um outro poderia tomar o seu lugar?
Você sempre a deixou sozinha e nunca se interessou em saber o que ela fazia e como passava os longos e solitários dias e noites.
Você sempre tratou-a com grosseira e cruel indiferença.
Você próprio destruiu em Dagmara o respeito, a confiança e o amor por você.
Que direito tem você agora para indignar-se, quando nela despertou finalmente um sentimento humano e ela indignou-se contra o homem que zombou dos mais sagrados direitos?
Ela quer cair nos braços daquele que lhe promete amor e tutela e que falou com ela a linguagem da paixão, o que ela nunca ouviu de você.
A carícia falsa e mentirosa não engana o instinto do coração”...
Um pesado suspiro escapou do peito de Vallenrod.
A condenação de sua consciência deixava-o desesperado, e amanhã viria Saint-André e diria:
“Entregue-me Dagmara!
Você não lhe dá o mínimo valor e a partida dela não trará nenhum vazio na sua vida.
Você não a ama, porque ninguém maltrata o ser amado, como você está fazendo”.
Mas ele não queria entregar Dagmara; ele acostumou-se à ideia de que Dagmara – é sua incontestável propriedade e que neste tranquilo aconchego, com ela sempre contida e humilde, ele encontrará paz quando se cansar da vida devassa, do barulho e das orgias.
Estava claro que não seriam as suas amantes – chacais nocturnas, às quais entregava a saúde e a bolsa – que cuidariam dele; elas precisam dele somente como fonte de ouro e delícias.
E, de repente, ele lembrou dos misteriosos laços criados por Detinguen.
Se aqueles laços romperem-se, como disse Saint-André, não estaria ele ameaçado de morte, devido à falta de força vital e o corpo e a alma, destruídos, negarem-se a servir-lhe?...
Um frio suor cobriu sua testa e ele, em raivoso desespero, enterrou a cabeça nos travesseiros.
Assim que o conde saiu, Dagmara também se sentiu mal e estava desconfortável consigo mesma.
Parecia-lhe ter-se desviado do caminho do dever e honra.
Ela não lamentava ter aceito o amor de Saint-André e concordou que ele a libertasse, pois achava isto seu incontestável direito.
Mas não devia ter-se deixado levar por aquele instante e aceitar os beijos de Phillip, enquanto a lei não cortasse os laços que a uniam a Desidério.
Como toda alma pura e correta, ela se culpava pelos beijos do conde e lhe parecia que havia manchado toda a tortura que suportara até então e que agora, ela não poderia olhar para o marido com a costumeira coragem e desprezo.
Torturada pela tristeza e inquietação interior, ela dirigiu-se ao dormitório e já se preparava para deitar quando, de repente, estremeceu e quase gritou.
A cortina levantou-se e na porta apareceu Desidério, de robe e com uma vela na mão.
Dagmara ficou assustada como se tivesse visto um fantasma e, tremendo por dentro, olhava para o marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:23 pm

Ela não percebeu a palidez do barão, nem o tom surdo de sua voz, quando ele perguntou com disfarçada calma:
— O que você tem?
Parece que você não está bem!
— Não, estou bem.
Simplesmente, me sinto muito cansada – respondeu Dagmara com voz baixa, sem olhar para o marido.
Desidério mediu-a com um longo e fulminante olhar.
“Mesmo que eu nada tivesse visto, só a aparência dela demos traria que ela sente-se culpada.
A ingénua criatura ainda sofre por causa dos beijos de Saint-André.
E, entretanto, provavelmente logo irá se entregar a ele inteiramente” – pensou ele.
Repentinamente, um sentimento novo:
um misto de piedade, amargura e paixão despertaram em seu espírito.
Aquela mulher delicada, pudica e contida, que ele negligenciava e ofendia de todos os modos, num instante adquiriu aos seus olhos o valor que tinha para o conde.
Agora, quando ele devia entregar Dagmara e quando, por sua própria culpa, um outro conquistou o coração, que deveria pertencer-lhe, ele novamente queria tê-la, afeiçoá-la a ele e despertar nela a paixão.
Desidério dirigiu-se rapidamente para ela e, puxando-a para si, quis beijá-la, mas Dagmara estremeceu e tentou repeli-la.
Naquele momento ela se achava tão criminosa, que não tinha o direito de receber um beijo do marido, que a considerava irrepreensível; e o facto de ela ter falado de amor com outra pessoa parecia-lhe monstruoso e ela quis gritar:
“Deixe-me!
Eu lhe paguei na mesma moeda, e meus lábios ardem ainda dos beijos de outra pessoa!”.
Mas ela sentia-se sufocada e somente conseguia repetir:
— Deixe-me!... Deixe-me!...
O choro convulsivo impediu-a de continuar.
De repente, um novo horror obrigou-a a esquecer tudo.
Seu olhar encontrou o rosto vermelho do marido, cujos olhos ardiam de paixão e, pareciam fulminá-la.
Dagmara viu-o, pela primeira vez, como amante, do modo como ele aparecia às suas “damas”, violento, incontido, tomado por um instinto animal.
Mas os nervos dela estavam demasiado tensos para suportar essa comoção moral e um profundo desmaio mergulhou-a num benigno esquecimento.
Assustado com a explosão da própria paixão, o barão debruçou-se sobre a esposa, lívida como a gola do seu penhoar.
Ele percebeu a luta reflectida em seu rosto, no qual parecia ter-se congelado uma expressão de indescritível sofrimento.
E mais uma vez aquele sentimento agudo e amargo de ira e compaixão apertou o coração de Desidério.
Naquele instante ele amava e odiava Dagmara; amava como um ser que lhe pertencia, e que ele tanto torturou; e odiava por ela estar se entregando a outro, permanecendo surda à sua paixão.
Sombrio e taciturno ele colocou a jovem mulher na cama e saiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:23 pm

XVII

Desidério chegou por último ao local de reunião dos caçadores e, antes de tudo, começou a procurar Saint-André com os olhos.
Este estava numa roda de oficiais e conversava alegremente.
Um tremor raivoso passou pelo corpo do barão.
Ele, entretanto, não conseguiu conversar a sós com o conde – as outras pessoas sempre atrapalhavam.
A impaciência de Desidério e a sua excitação febril cresciam cada vez mais.
Finalmente, depois do toque de recolher, quando os caçadores dirigiram-se ao pavilhão, onde seria servido o jantar, Saint-André ficou um pouco para trás dos outros caçadores e Desidério aproveitou a oportunidade.
Levando o seu cavalo para perto do conde, soprou-lhe no ouvido:
— Vamos virar por este atalho!
Eu preciso falar-lhe.
O conde olhou-o com leve surpresa e, sem nada dizer, virou o cavalo para uma trilha que levava a uma pequena clareira.
Lá, ele parou e, medindo com um olhar frio o rosto desfigurado do seu acompanhante, perguntou rispidamente:
— O que você quer?
— Eu gostaria de perguntar desde quando você começou a seduzir esposas dos outros? – disse surdamente Desidério, com os dentes cerrados.
O rosto do conde corou, mas nos seus olhos acendeu-se uma sombria chama.
— Pare!...
Nem mais uma palavra!... – exclamou ele, levantando a mão.
Não ouse jogar lama em mim e na esposa que você fez infeliz!
Você não pode julgar, pois o seu comportamento e desprezo ao dever superam em muito os pecados dos outros.
Sim, eu amo Dagmara!
E como você não lhe dá valor e a considera um peso morto, então peço-lhe que a liberte, concedendo-me o direito de casar com ela.
— Se ela é um peso ou não para mim, não é da sua conta – Contestou Desidério, com os lábios tremendo e olhos em fogo.
Saiba somente uma coisa:
eu não a libertarei!
Não porque comecei a lhe dar valor, após vê-la em seus braços, mas porque você apareceu na minha casa com o objectivo de seduzir a mulher que leva o meu nome.
— Você não tem o direito de agir assim!
Ela é um ser vivo que o Senhor e a lei confiaram a você para amar e proteger e não para torturar e destruir.
Você perdeu o seu direito sobre ela!
— Isto nós ainda vamos ver!
Em todo caso, antes de voltar para cá, você deveria ter escrito uma carta para mim sobre isto e aguardar a minha decisão.
Mas, para castigá-los pela traição escondida, saiba que eu nunca vou entregá-la a você!
— Neste caso, você é um patife! – exclamou Saint-André, fora de si.
Num ímpeto de ira, e com os olhos injectados de sangue, Desidério, virando rispidamente o cavalo, que empinou, sacou do bolso um revólver e apontou a arma para o conde, que também sacou o seu revólver.
Espumando pela boca, e absolutamente fora de si, atiraram um contra o outro e, quase ao mesmo tempo, ouviram-se dois tiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:23 pm

Saint-André, abrindo os braços, começou a balançar na sela e caiu sobre o corpo do cavalo, que deu um salto e jogou o cavaleiro nos arbustos.
Desidério ficou mortalmente pálido e a arma caiu de sua mão.
Com os olhos esbugalhados, como um autómato, ele desceu do cavalo e deu alguns passos na direcção de Saint-André.
A névoa sangrenta que ofuscava sua mente dissipou-se e ele quis certificar-se se não cometera um assassinato, mas nesse instante sentiu uma tontura, uma dor aguda transpassou o seu peito e ele foi inundado por um sopro de calor.
Pareceu-lhe estar caindo num escuro abismo, e Desidério desabou na areia.
O aparecimento de dois cavalos sem cavaleiros e a sela de um manchada de sangue provocaram uma confusão geral, ainda mais que a ausência de Saint-André e Vallenrod já havia sido notada.
Os caçadores saíram ruidosamente do pavilhão e começaram a procurar os ausentes.
Uma hora depois, em volta dos dois corpos caídos em poças de sangue, juntou-se uma exaltada multidão.
Entre os convidados estava o doutor Reiguern e também o médico militar que examinaram e constataram que o conde estava morto e que o estado de Vallenrod, que ainda vivia, era praticamente sem esperanças.
Os caçadores montaram rapidamente padiolas de galhos de árvores e levaram os corpos do morto e do ferido ao pavilhão, de onde, nas carruagens do príncipe, eles foram levados à cidade.
O jantar interrompido foi cancelado e os caçadores dirigiram-se rapidamente para suas casas, impressionados com o infeliz acontecimento.
Voltando a si após o desmaio, Dagmara percebeu que estava sozinha.
Sentindo um mal-estar e cansaço, ela ficou na cama mais que o habitual e, quando finalmente levantou, Jenni informou-a de que o barão fora caçar.
O dia passava tristemente.
Atormentada por um nebuloso medo, ela não conseguia encontrar um lugar para si e andava pelos quartos sempre pensando sobre a declaração de amor de Saint-André e a cena nocturna com o marido, que despertou nela ira e repugnância.
Dagmara ansiava por paz, vida familiar e um amor caloroso e verdadeiro, e não tinha dúvidas de que Desidério lhe devolveria a liberdade.
Mas, depois da inesperada cena de paixão do marido, começou a temer que obter a anuência do barão não seria tão fácil.
À medida que o tempo passava, sua excitação febril aumentava e ela não conseguia explicar o motivo da nebulosa tristeza e pressentimento de algo terrível que lhe apertava o coração.
Naquele dia ela não esperava a visita de Saint-André e a ausência de Desidério era-lhe indiferente, havia muito tempo.
Quando começou a escurecer, Dagmara deitou no sofá do seu boudoir e tentou dormir, tomando previamente gotas calmantes que habitualmente lhe proporcionavam algumas horas de sono.
Desta vez o remédio não funcionou e ela ficou deitada, virando de um lado para outro.
De repente, o seu ouvido excitado percebeu o som de carruagem chegando, barulho de vozes e correria no saguão.
Dagmara levantou-se e desceu para a sala de visitas.
A porta de entrada estava aberta e ela ouviu nitidamente lá embaixo passos medidos e pesados de alguns homens que pareciam carregar algo volumoso, e a voz preocupada do velho José, dizendo:
— Por favor, senhores, levem para cima!
A baronesa está nos seus aposentos e o dormitório do barão fica lá.
Com a mão trémula, Dagmara, agarrou uma vela e correu para o saguão.
Lá ela viu três homens desconhecidos subindo pela escada.
O primeiro ela reconheceu imediatamente pela aparência animal – era o Varezi, considerado por ela o génio mau do seu marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:24 pm

— Baronesa, desculpe aparecer aqui com más notícias.
Tenha coragem.
Seu marido sofreu um acidente durante a caçada e trago-o aqui gravemente ferido.
— Onde e como aconteceu este acidente com o barão, dando-me o prazer de sua presença?
Apesar de toda a pose e costumeira insolência, Varezi ficou vermelho com o tom da pergunta.
— A caçada do príncipe teve um duplo acidente e Vallenrod não foi a única vítima deste dia fatídico.
Nós encontramos o barão gravemente ferido, caído a alguns passos do corpo do conde Saint-André, que foi morto com um tiro no coração.
Dagmara estancou.
O tecto parecia desabar sobre sua cabeça, o candelabro que segurava ficou muito pesado e uma nuvem negra escureceu tudo ao seu redor.
Phillip morreu!...
E com ele morria o seu futuro e perdido para sempre o pacífico aconchego de amor onde esperava esconder-se...
Ela balançou e teria caído no chão se Varezi não a segurasse.
Naquele instante apareceram os carregadores trazendo o ferido, acompanhado por Lotar.
Vendo que Dagmara desmaiara, o médico correu para ela, ajudando Varezi a levá-la à sala de visitas e colocá-la no sofá, para depois ir cuidar da instalação do ferido.
Meia hora depois, Varezi e seus dois companheiros foram embora.
Quando Dagmara voltou a si, seu primeiro olhar encontrou Lotar debruçado sobre ela.
Mas agora ela só tinha um único pensamento e, levantando-se do sofá, apertou convulsivamente a mão do doutor.
— É verdade que Saint-André morreu? – perguntou ela, preocupada.
Lotar empalideceu e ficou taciturno:
a primeira pergunta de Dagmara fora sobre o conde e não sobre Desidério.
— Sim, ele morreu.
Mas não vai me perguntar sobre o estado do seu marido?
Dagmara baixou a cabeça.
— Ele vai morrer? – perguntou ela, após um instante de silêncio.
— É difícil responder.
Seu estado é muito grave, mas a natureza às vezes encontra meios desconhecidos.
Quer que eu trate do seu marido?
Pelo menos, perto de você estará seu dedicado irmão.
— Muito obrigada!
Vou ficar muito feliz, sabendo que você está comigo – murmurou Dagmara, estendendo-lhe ambas as mãos, que ele levou aos lábios.
— Neste caso, vamos comigo!
Você me ajudará a colocar as compressas frias na cabeça e no ferimento.
Não tema, ele já foi enfaixado.
Eu vou embora agora e mando para cá uma enfermeira.
De manhã estarei de volta.
Ela levantou como num sonho e seguiu o doutor.
Desidério parecia em coma.
Lotar escutou a sua pulsação e passou a Dagmara algumas instruções e, em seguida, despediu-se, prometendo retornar o mais rápido possível.
Ficando só, Dagmara sentou-se sem forças na poltrona à cabeceira do paciente e começou a olhar o pálido e deformado rosto do marido, fracamente iluminado pela lâmpada sob o abajur azul.
E na sua mente começou a fervilhar um caos de tenebrosos e desesperados pensamentos.
O gemido do ferido interrompeu-os e ela debruçou-se sobre ele.
Agora Desidério tinha febre:
seu rosto ardia e os olhos queimavam como brasas de carvão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:24 pm

Ele não reconhecia a esposa; de seus lábios saíam palavras desconexas, e aos poucos, passou a delirar.
Começou um tempo difícil.
O jovem e resistente organismo do paciente lutava tenazmente contra a destruição, mas o estado dele melhorava e piorava e a sua morte era esperada a qualquer momento.
Dagmara raramente aparecia junto ao leito do marido, pois lá estava de plantão a baronesa; mas Reiguern lhe contava tudo o que acontecia por lá e acompanhava atentamente as fases da luta entre a vida e a morte.
Numa de suas conversas francas, Reiguern confessou a Dagmara que sabia sobre o segredo fatal de sua vida, e começou a perguntar sobre os misteriosos laços criados por Detinguen; Dagmara, sem vacilar, contava-lhe tudo o que sabia com um triste sorriso no rosto.
— Mas o pior de tudo isso – acrescentou ela – é que eu sinto a corrente que emana dele e, às vezes, a sua vida desregrada reflecte em mim.
Assim, muitas vezes eu sei quando ele está bêbado.
Nessa hora entro num estado estranho que não consigo explicar; não estou acordada, nem estou sonhando, é uma paralisia, durante a qual parece que estou inspirando vapores de vinho e esse repugnante odor me sufoca e provoca taquicardia.
Além disso, esse estado é acompanhado por estranhas visões:
ou é o rosto pálido de Desidério que me persegue como num pesadelo, ou me aparecem lugares desconhecidos e ajuntamentos de pessoas desconhecidas, cujo comportamento imoral causa-me nojo.
E vejo tudo isso com tão incrível nitidez que até nas ruas encontro e reconheço algumas pessoas que vi nessas visões.
Parece que a vida desregrada de Desidério reflecte-se em mim através desses profundos desmaios e, ao mesmo tempo, sua corrente vital mantém-me viva...
— Que surpreendente e terrível mistério!
Maldita seja a hora em que foi realizado este negro acto! – murmurou Lotar, cerrando os punhos involuntariamente.
Nas longas horas de silêncio e solidão, quando nada interrompia os sombrios pensamentos de Dagmara, ela passou a pensar muito sobre o futuro que a esperava e decidiu que se Desidério morresse, ela iria viver somente para o filho e continuar, bem ou mal, a própria infeliz existência.
Mas, se ele sarasse, ela deveria desaparecer.
Certo dia, Lotar comunicou a Dagmara que a vida triunfara e que Desidério estava fora de qualquer perigo.
A jovem mulher ficou cabisbaixa.
O restabelecimento do marido significava a volta da monótona, solitária e vazia existência, envenenada pela amargura e orgulho ferido.
Não, para ela – chega!...
— O destino decidiu – pensou ela – quem deve desaparecer: sou eu...
Tenho muito menos a perder do que ele...
Após tomar tal decisão Dagmara acalmou-se e, com incrível sangue frio, começou a executar os preparativos que julgava necessários.
Não desejando deixar atrás de si qualquer coisa relacionada à ciência secreta, começou a destruir sistematicamente tudo o que fora reunido no laboratório e biblioteca de Detinguen.
A cada noite ela queimava no quarto do seu boudoir, em partes, ervas secas, pós e manuscritos, observando friamente como ardiam em fogo multicor os preciosos remédios e antigos papiros.
Finalmente, chegou o dia que Dagmara estabeleceu para o seu desaparecimento.
Ela sabia que ninguém iria atrapalhá-la, pois Desidério, após o almoço, ia a um alegre piquenique fora da cidade que, conforme disse, os amigos organizaram para comemorar a sua recuperação.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:24 pm

De manhã, ela escreveu duas cartas:
uma – a Eshenbach, com as últimas instruções, a outra – ao pastor e sua esposa, na qual pedia para que rezassem por sua alma sofredora.
“Se existe a justiça Divina e um juiz imparcial— assim terminava a carta – então, confio na Sua misericórdia.
Ele não me condenará por voltar antes de ser chamada.
Morro, porque não posso mais viver”.
Escrevendo mais algumas palavras ao marido, Dagmara foi para o seu quarto.
Lá, começou a pôr em ordem suas jóias, objectos, e contas.
A fria decisão não enfraquecia em nenhum instante, e quando Desidério veio despedir-se dela, como de costume, nada percebeu de anormal.
À noite, Dagmara trancou-se no dormitório e vestiu um branco e bordado penhoar; o branco – era a cor dos magos e da inocência e ela tinha direito a isso.
Parou por um instante diante da cómoda e, com sombrio olhar, mirou-se no espelho.
Seria possível que aquela pálida visão, que a morte já parecia ter marcado com o selo agourento, era realmente ela?...
Então, agarrou o frasco com o veneno e, apertando-o convulsivamente na mão, saiu rapidamente do quarto, fechou a porta atrás de si e dirigiu-se para o quarto do filho.
Lá tudo estava quieto; somente ouvia-se a respiração sonora da babá, que dormia no quarto vizinho.
Dagmara aproximou-se silenciosamente do berço e, afastando a cortina de renda, inclinou-se sobre o pequenino, que dormia.
Era uma criança linda – delicada e esbelta, como a mãe; naquele instante a sua face um pouco pálida ficou mais rósea do sono, as sobrancelhas cheias destacavam os olhinhos fechados e os cabelos encaracolados espalhavam-se pelo travesseiro; em sua despreocupada e graciosa pose, o garotinho estava encantador.
Dagmara olhou longamente para o filho, como se querendo gravar para sempre na memória cada traço do rosto da criança de quem se despedia; seu coração batia febrilmente e lágrimas quentes correram pela face.
O amor maternal, reprimido durante tanto tempo no espírito doente de Dagmara pela infeliz junção de circunstâncias, despertou poderosamente no momento de despedida.
Mas, até esse sentimento puro e sagrado coloriu-se imediatamente com a bile que transbordava de todo o seu ser.
— Será que devo deixá-lo aqui, meu adorado anjo, para ser ignorado como a mãe, para que o pai o envenene moralmente com seu exemplo contagioso? – pensava ela.
Vou deixar você para servir de brinquedo para alguma mulher decaída que irá ocupar o meu lugar, ou para ser educado pelo meu impiedoso inimigo que lhe ensinará a odiar a minha memória e estragá-lo tanto quanto a todos eles?...
Dagmara estremeceu e um pensamento monstruoso passou-lhe pela mente.
Ela ajoelhou-se e apertou o rosto húmido contra o berço.
Mas essa fraqueza não durou mais de um minuto.
Estava toda trémula e pálida, quando levantou-se com ar decidido e olhou a criança com um olhar de fogo agourento.
— Mas, é verdade!
Por que devo deixá-lo?
Morra comigo!
Não devo deixar nada para ele.
E isto seria um crime?
Oh, não! livrar você de uma vida assim será um ato de suprema misericórdia.
Não o amei tanto quanto deveria, a tal ponto estavam reprimidos e destruídos meus sentimentos; mas, neste momento, pago a minha dívida de amor, matando-o, meu filho – eu que nunca matei nem uma mosca e sempre amei e respeitei em cada ser vivo o sopro Divino.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:24 pm

Rapidamente, como se temendo arrepender-se, Dagmara aproximou-se da mesa, pegou uma colher de leite e colocou nela algumas gotas de veneno; em seguida, voltou ao berço e levantou cuidadosamente a cabecinha da criança.
Por instantes ainda vacilou, tremendo como em febre e a mão fria recusando-se a obedecer; mas rapidamente recuperou o autocontrole e introduziu a colher na boquinha do pequenino.
Este abriu os olhos, sorriu e, reconhecendo a mãe, engoliu obedientemente o líquido mortal.
Deixando cair a colher, Dagmara inclinou-se e deixou um longo e quente beijo na rosada testa do filho, que condenou à morte.
Em seguida, endireitou-se e saiu do quarto com passo firme.
Dagmara foi quase correndo para o santuário e começou a preparar-se para a grande invocação.
Junto ao seu leito de morte, ela queria reunir todos os seres do outro mundo que, tanto no bem como no mal, entraram em sua vida.
Acendeu o candelabro de sete velas e cobriu com ervas sagradas as brasas dos tripés e, quando as nuvens aromáticas encheram o quarto, despejou o veneno no cálice das cerimónias sagradas e mágicas, diluiu com vinho e esvaziou-o num gole.
Pálida como uma sombra e com os olhos em fogo, ela inclinou-se sobre o último livro mágico que guardou para aquele momento e, com voz sonora, começou a pronunciar os encantamentos, enquanto a mão fria apertava convulsivamente o cordão do sino pendurado no tecto.
Detinguen dizia que aquele sino fora executado por um processo especial e terrível, de diversos metais, fundidos à noite sob uma constelação especial.
No momento certo do ritual, ela puxou o cordão e o misterioso sino soou com um som tremido, agudo e lamentoso como o pranto humano.
De repente, Dagmara balançou e em seus olhos tudo escureceu.
Com um surdo gemido, deixou-se cair na poltrona onde morreu Detinguen e um frio paralisou o seu corpo.
Mas, a escuridão à sua volta dissipou-se rapidamente e ela viu o santuário iluminado por uma luz vermelha como sangue.
O sino continuava a tocar e, ao seu chamado, apareciam de todos os lados, das paredes e do tecto, seres repugnantes, semi-animais, semi-homens, que Dagmara já tinha visto uma vez; junto com eles veio também o morcego de olhos verdes – o traiçoeiro conselheiro do mal.
O ser demoníaco parou diante de Dagmara e, inclinando-se sobre ela, olhou-a com um olhar que respirava maldade e cruel zombaria.
— Bem, cheguei para cumprimentá-la – sacerdotisa da ciência iluminada e das utopias celestiais – pelo brilhante cumprimento de sua missão.
Esta missão era, sem dúvida, atraente e grandiosa.
Pense só:
vencer todos os seus sentimentos humanos, até os mais básicos, e salvar a alma que, entretanto, ah, ah, ah! – não quer ser salva de jeito nenhum.
Uma aguda dor atravessou a cabeça de Dagmara e, diante dela, abriu-se, como uma negra cortina, mostrando quadros sentimentais de um passado distante.
Naquele instante ela compreendeu o mistério de sua vida – a provação que deveria saldar os erros do passado e libertá-la.
Ela, entretanto, não suportou a provação e aumentou a sua culpa com o assassinato da criança...
Tudo isso significava que Detinguen foi simplesmente um instrumento colocado no seu caminho de vida, e ela o amaldiçoou e rejeitou seus ensinamentos que deveriam iluminá-la para aliviar a provação...
Um profundo arrependimento e amargo desespero atormentavam a sua alma.
Oh! Por que não percebeu isto a tempo?...
— Bem-aventurados os pobres de espírito – insultava a voz de demónio com escárnio.
Quem não consegue carregar a cruz não deve colocá-la nos ombros!
O demónio e a sua matilha satânica caíram sobre Dagmara e começaram a sufocá-la com a sua respiração fria e malcheirosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:25 pm

Naquele instante, brilhou uma luz ofuscante e surgiu uma segunda procissão – de seres iluminados, cobertos por uma névoa prateada e com rostos puros e pacíficos.
Na frente vinha Detinguen com uma expressão triste, vestindo uma túnica cinza coberta de manchas vermelhas e trazendo no peito a estrela dos iniciados.
Ao seu lado, num traje branco ofuscante, vinha o desconhecido – seu misterioso mestre.
A guarda iluminada também aproximou-se de Dagmara e ela sentiu que estava se separando do seu corpo frio.
Percebeu então que duas forças terríveis iriam disputar a sua confusa e sofredora alma, como a uma presa.
As forças do bem atacaram as forças do mal; o reino da luz chocou-se com o abismo da escuridão com um ruído sinistro, como contra uma parede sólida, e o ar encheu-se de relâmpagos de luz.
De repente Dagmara ouviu a voz de Detinguen gritando-lhe:
— Ajude-nos com o ímpeto de sua fé a salvá-la!
Você ainda acredita no bem, ou admite somente o mal como a força dirigente?
Uma terrível dor atormentava a mente de Dagmara.
Ela mal estava em condições de formular qualquer pensamento, mas, ouvindo o chamado do pai adoptivo, foi tomada por um desejo desenfreado de retornar ao bem e conseguir o perdão de suas fraquezas.
Junto com isso, em sua alma despertou o enorme desejo de saber, desvendar o irritante mistério da existência, expulsar o inimigo de sua paz – a dúvida – que a atormentava com a doentia tristeza da indecisão que encobria a compreensão de Deus.
De repente teve a impressão que o santuário abriu-se e as paredes desapareceram na névoa distante, no fundo da qual apareceu aos poucos uma gigantesca cúpula azul incrustada de estrelas.
Diante dela estendeu-se um espaço infinito e lá, em perfeita ordem, seguiam nebulosas de estrelas com seus milhões de sóis, girando em volta de um centro luminoso que representava uma colossal, grandiosa e delicadamente delineada imagem.
Na meia luz que reinava sob a enorme abóbada, levantavam-se e passavam as imagens de Osíris, Júpiter, Buda, Sakia-Muni e outros cultuados, que a fraca mente humana usava para encarnar o Ser tão indescritível e incomensurável como o infinito dirigido por Ele e absolutamente incompreensível para uma mente limitada.
Finalmente, acima de toda aquela visão, surgiu o morro Gólgota com o Cristo crucificado, ofuscando tudo com a sua luz. Em seguida, tudo ficou oculto por uma nuvem.
Agora, no fundo escuro desenhou-se uma gigantesca cobra que se esgueirava, assobiando aos pés do Divino, tentando enrolar-se nele e feri-lo com o ferrão venenoso.
Nas costas de escamas do monstro aglomerava-se, agitada e aos empurrões, uma multidão de pequeninos seres humanos que, imitando a cobra, também tentavam insultara Divindade, mas caíam inutilmente e eram jogados no abismo onde ferviam as forças desenfreadas do caos.
Naquele instante, ouviu-se a distante, mas nítida voz do desconhecido mestre de Detinguen:
— O ser, cheio de maldade infernal, que se esgueira aos pés da Divindade, é a dúvida, mas o seu ferrão somente fere os cegos, que não querem entender que tanto o movimento dos sistemas planetários, como a constante troca de substâncias astrais e a actividade de todos os seres que povoam os mundos e esferas invisíveis, tudo é controlado pela mesma grandiosa e imutável lei do aperfeiçoamento.
Através de uma série de vidas, lutas e sofrimentos, esta lei conduz os seres sofredores, miseráveis, atormentados pela dúvida e rancor para o centro da luz eterna.
A outra lei, tão imutável quanto a lei do aperfeiçoamento, é a lei do Karma, que semeia o caminho do progresso com provações e obstáculos que o próprio homem cria com as suas más acções.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:25 pm

Dagmara compreendeu então que ela também era um daqueles insectos que se arrastavam sobre as costas da dúvida, um daqueles átomos que rangiam os dentes e insurgiam-se contra a imutável lei; mas diante da grandiosidade dessa imensidão e poder, ela sentiu-se infinitamente mísera e fraca e seus sofrimentos pareceram-lhe passageiros e insignificantes.
Ela entendeu que a sua luta fora inútil e para se purificar, para atingir a luz e aproximar-se da Divindade, é necessário passar pelo funil de sofrimentos.
O espírito que permite o triunfo da carne, ele próprio se castiga, condenando-se a recomeçar o difícil trabalho da elevação.
A atormentada alma de Dagmara, que sempre procurou a luz e ansiava pelo bem, encheu-se de enorme desejo de aproximar-se do objectivo divino da verdade e luz.
Ela arrancou de dentro de si a dúvida que a consumia e o ímpeto de submissão, fé, amor e súplica de perdão pareceu levá-la para longe da terra e seus malefícios.
Dagmara não viu como as forças do mal recuaram e deixaram passar a armada de luz, mas sentia o sopro quente e a profunda beatitude que a envolvia.
Ajudada por Detinguen e pelo mago, ela facilmente elevou-se para uma atmosfera transparente e azulada, indo em direcção ao distante centro da luz...
No restaurante da moda, no meio de seus velhos companheiros, Desidério comemorava pela décima vez o seu milagroso restabelecimento.
A festa havia chegado ao apogeu; os rostos vermelhos dos companheiros de copo, o desarranjo dos trajes e as conversas desinibidas denunciavam que os vinhos e licores, jorrando à vontade, já tinham causado seu efeito.
De repente, Desidério, que gargalhava de uma anedota picante de Varezi, empalideceu, deixou cair o copo e jogou-se no espaldar da poltrona, sentindo forte tontura.
Foi como se uma estrela de fogo tivesse atravessado seu peito e uma aguda dor instalou-se em seu coração; o barão teve a impressão de que estava morrendo.
Em seguida, a sensação de queimadura foi substituída por um frio gélido e Desidério sentiu que caía num abismo escuro e, diante de seus olhos, pairava Dagmara, mortalmente pálida, que Detinguen e um desconhecido numa túnica de branco ofuscante levavam consigo.
A sensação fria da toalha húmida com que enxugavam seu rosto obrigou Desidério a abrir os olhos.
Em volta dele juntaram-se os companheiros, preocupados e surpresos.
— O que você tem?
De repente, começou a desmaiar como uma mocinha nervosa.
Está doente? – perguntou Varezi, servindo-lhe uma taça de champanhe.
Vallenrod recusou o vinho e pediu uma xícara de chá.
— Comigo está tudo bem.
Só estou sentindo uma leve tontura e uma estranha dor no coração – respondia ele às perguntas das “damas”.
Desidério tomou o chá, tentando rir e continuar a conversa interrompida, mas rapidamente percebeu que não estava para brincadeiras.
Uma estranha inquietação que nunca havia sentido antes, apertava o seu coração e a forte dor no peito quase impedia-o de respirar.
Um quarto de hora após, ele levantou-se e, alegando não estar se sentindo bem, dirigiu-se rapidamente para a vila.
Já eram cerca das três horas da manhã quando o barão voltou para casa e, torturado pela sensação de perigo, foi rapidamente ao dormitório.
A cama de Dagmara estava vazia, o que nunca acontecera até agora.
Onde estaria?
Irritado e atormentado por um obscuro pressentimento, Desidério passou pelo quarto da esposa e não a encontrando em lugar nenhum, entrou no gabinete e viu sobre a escrivaninha uma carta endereçada a ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 7:25 pm

Abrindo apressadamente o envelope, ele leu o seguinte:
“A vida que você me deu é uma carga insuportável.
Por isso estou voluntariamente cortando os laços que nos unem e que me obrigam a viver em dependência de sua energia vital.
A minha morte nos livrará a ambos destas correntes, que lhe pesavam tanto” ...
À medida que lia, o rosto de Desidério foi ficando cada vez mais pálido, a carta caiu de suas mãos trémulas e ele saiu correndo do quarto.
Examinando mais uma vez o recinto, correu para o santuário; a luz acesa no corredor indicava que ele estava na pista certa e Desidério puxou a maçaneta da porta.
Aromas sufocantes enchiam o amplo ambiente, sob a luz agourenta das velas acesas sobre o altar; mas o olhar horrorizado de Desidério fixou-se na grande poltrona onde jazia Dagmara.
No longo e branco traje, ela parecia um fantasma; sua cabeça contrastava com o veludo escuro do espaldar da poltrona, seus olhos estavam fechados e no pálido rosto marcado pelo selo da morte, congelou-se uma expressão clara de triunfo.
Ele balançou como se tivesse recebido um golpe de marreta na cabeça e encostou-se na parede.
Tudo girava à sua volta e ele repetia maquinalmente:
— Não é possível!...
Não é possível!...
De repente, endireitou-se, correu para Dagmara e começou a sacudi-la.
Em seguida, ajoelhou-se, começou a massagear suas mãos e têmporas e soprar no seu coração.
Tudo em vão.
A jovem mulher permaneceu fria e imóvel, e sua cabeça caiu para o lado.
Percebendo que seus esforços eram inúteis, Desidério levantou-se.
Ele sentia tonturas, os pensamentos se misturavam e, repentinamente, naquele caos surgiu o nome de Reiguern.
Talvez ele, um cientista, ajudasse e encontrasse um antídoto.
Esperançoso, Desidério corria para o gabinete quando encontrou pelo caminho o velho José.
— Um médico!... Mande trazer para cá o doutor Reiguern! – bradou ele, com voz esganiçada.
— O senhor tem razão, barão, é preciso chamar o médico!
Não sei o que houve com a criança, mas ela está imóvel, como morta! – exclamou a babá, pálida e com o corpo todo tremendo.
— A criança, como morta?... - repetiu Desidério, estremecendo da cabeça aos pés.
Empurrando os criados e fora de si, correu para o berço; mas vendo o pálido e imóvel corpo do menino, compreendeu imediatamente que havia perdido para sempre também o filho.
Não suportando aquele novo golpe, o barão caiu sem sentidos no tapete.
Quando voltou finalmente a si, a sua louca excitação foi substituída por uma sombria apatia.
Ao ser informado que José foi buscar o médico, Desidério pegou o corpo da criança, arrastou-se cambaleando até o santuário, sentou-se na cadeira ao lado da poltrona onde jazia Dagmara e ficou olhando-a com um olhar apagado e irracional.
Abatido e moralmente arrasado, Desidério encostou a cabeça em brasa no espaldar da poltrona e não se mexeu.
Reiguern encontrou-o nessa posição; pálido, calado, sentado com a criança morta nos braços.
O médico, estarrecido, estava completamente desesperado.
Tentou de tudo o que lhe oferecia a ciência para devolver a vida à mãe e à criança, mas estava tudo acabado e restava-lhe somente atestar a morte delas.
Colocando o menino ao lado da mãe, Reiguern pegou Desidério pelo braço e levou-o ao dormitório.
Tudo o que certa vez vivia e animava o local, transformou-se em cinzas...
Quando, na manhã seguinte, o médico e Desidério entraram no santuário para recolher os corpos, pararam estarrecidos na porta.
Alguém enfeitara o leito de morte e todo o chão com grande quantidade de rosas de cores e aroma magníficos, desconhecidos nos países nórdicos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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