Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:10 pm

Ao chegar ao gabinete, o velho fechou a porta e, endireitando-se, disse severamente:
— Se você não tivesse vinte e dois anos, eu tirana o chicote da parede, que você já experimentou há cinco anos atrás, quando ousou ter namoricos com a filha do jardineiro.
Eu esperava que, se você não estivesse totalmente curado de sua leviandade, pelo menos, limitasse as suas aventuras à cidade onde vive e na qual tem bastante tempo para entregar-se à devassidão.
Mas, começar um namoro tolo com a moça que me foi confiada para criar é simplesmente aviltante.
Agora, ouça a minha decisão e ordem.
Jamais darei o meu consentimento para seu casamento com esta moça sem-vergonha e estabanada.
Sendo coquete de nascença, ela, com o tempo, comercializará a própria beleza e cobrirá de infâmia a família em que entrar.
Ela não presta para esposa de um humilde pároco rural e jamais se tornará uma boa e simples dona de casa.
É óbvio que, depois do que aconteceu, vocês não podem ficar sob o mesmo tecto.
Por isso, você partirá hoje mesmo para a cidade no trem das onze; até chegar a hora, você não sairá do seu quarto e deverá juntar as suas coisas.
Eu proíbo qualquer correspondência com ela, pois isso somente comprometeria os dois.
Entendeu? Agora vá para o seu quarto!
Ouvindo o pai, Lotar ficou pálido e por várias vezes abriu a boca como se quisesse interrompê-lo, mas toda vez ele se continha.
Por fim, ele aproximou-se do pai e disse com voz entrecortada:
— Pai! Você está errado desde o início.
Não quero ser um pastor, porque não tenho vocação para essa profissão.
Em vez de teologia vou agora estudar medicina.
Não posso ser um hipócrita e mentiroso, balbuciar pregões e acreditar num Deus cuja existência é possível, mas que não foi comprovada pela Ciência.
Simplesmente, acho indigno ensinar às pessoas as tolices bíblicas e exigir que elas acreditem.
Ainda no ano passado eu queria lhe dizer isso, mas o medo de causar-lhe um desgosto me deteve.
Mas agora não posso mais ficar calado.
O pastor ficou petrificado e o seu rosto, sempre fresco e róseo, começou a empalidecer.
Depois de um silêncio curto, mas penoso, ele respondeu com a voz levemente trémula:
— Será que é o meu filho, a minha carne e o meu sangue, que está me declarando que não acredita em Deus e chama a Escritura Sagrada de “tolices bíblicas”?
O que aconteceu com você, Lotar?
De quem foi a influência nociva que contaminou o seu espírito a tal ponto?
Pois não foi na casa beata do seu pai que você aprendeu a desprezar tudo que é sagrado!...
O pastor calou-se por um minuto e passou a mão na testa, mas depois endireitou-se e, medindo o filho com olhar severo e de desprezo, continuou:
— Estou longe de querer impedir a sua nova vocação:
um padre ateu, que rejeita a religião, seria uma vergonha para a nossa honrosa função.
Seja um médico, digno representante dos médicos modernos, cínicos e cúpidos, que extorquem de antemão o pagamento das consultas, colocam na parede a taxa de honorários, protelam a doença dos ricos e negam-se a ajudar os pobres que não forem capazes de lhes pagar.
— Pai! Por que ofender pessoas respeitáveis?
O médico, tanto quanto o pastor, é um representante da paz, o consolo dos sofredores – interrompeu Lotar, tremendo.
— Sim, se o seu coração está aquecido com a fé em Deus e a Sua justiça!
Felizmente, você não ficará constrangido com tais ninharias.
Você praticará livremente a sua medicina e terá o direito de, irresponsavelmente, tratar e matar pessoas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:10 pm

Os sofrimentos do próximo encherão a sua carteira e isto lhe dará a possibilidade de gozar de todas as “coisas boas da vida”.
Agora, uma última palavra.
Pelo dever de pai, continuarei enviando-lhe o dinheiro necessário para o seu sustento e para pagar a universidade, mas eu o proíbo de passar pela soleira da minha casa.
— Você está praticamente me expulsando, pai!
Mas eu não posso mentir e professar uma fé que não tenho! – disse Lotar, desesperado.
— Não mais o verei!
Uma pessoa que nega Deus e as escrituras sagradas não pode ser meu filho!
Vá embora, saia!
Já ouvi o suficiente de você – respondeu o pastor, indicando a porta ao filho.
Lotar saiu correndo do quarto.
Estava todo trémulo e só percebeu a mãe quando ela o agarrou pelo braço e sussurrou com voz forçada:
— Lotar, como você nos magoa!...
O rapaz lançou-lhe um olhar ardente.
— Meu pai me expulsa de casa porque não posso trair as minhas convicções e ser pastor.
Isso é um despotismo sem precedentes!
Mesmo o próprio pai não tem direito de impor ao filho uma carreira que este detesta!
Ele não tem direito de escarnecer dos sentimentos mais sagrados do seu filho, insultar a mulher que ele ama e, depois de tudo isso, jogar-lhe dinheiro como esmola!
Não quero essa caridade!
Vou trabalhar e estou disposto a sofrer, mas não aceitar qualquer coisa dele.
Assustada com a sua agitação, a esposa do pastor tapou rapidamente a boca do filho com a mão e levou-o para fora.
No quarto do filho ela o fez sentar-se ao seu lado no sofá e disse, com tristeza e amor:
— Volte à razão, Lotar!
Não repila, por orgulho inoportuno e criminoso, a mão do seu pai e a ajuda que ele lhe oferece!
Esta será a única ligação entre vocês, que espero um dia faça você voltar ao tecto paterno.
— Não, mamãe, não!
Não posso aceitar nada dele!
Dê-me um pouco de dinheiro para começar e depois seguirei o meu próprio rumo.
— O que eu posso lhe dar é uma ninharia, uns setenta e cinco marcos; e você tem a sua frente um longo curso de medicina – disse Matilda, magoada, secando as próprias lágrimas.
— Não fique triste, mamãe! – disse Lotar, mais calmo.
Tenho alguns planos para o futuro.
O temor de uma cena semelhante à de hoje me fez ficar calado ou já no ano passado teria confessado que não gosto de teologia.
Prevendo um futuro penoso para mim, eu já trabalhei neste inverno, graças à ajuda dos meus amigos médicos.
E tive tanto êxito nisso, que, trabalhando com afinco, pretendo entrar no segundo ano do curso no outono.
Além disso, o catedrático Bern, que me patrocina e sabe dos meus planos, propõe, se for necessário, hospedar-me na casa dele na qualidade de instrutor de seus filhos, também futuros médicos. Com o que ele pretende me pagar, poderei viver tranquilamente, esperando que chegue o outono.
Agora, mamãe, por favor, traga a minha roupa.
Quero partir o mais rapidamente possível.
Já caía o crepúsculo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:10 pm

O quarto de Lotar estava silencioso; a mala fechada e as gavetas abertas indicavam que tudo estava pronto para a partida, mas o viajante, deitado na sofá e escondendo o rosto no travesseiro, parecia esquecido disso.
Ele suspirava penosamente, deprimido com o peso dos últimos minutos que passava sob o telhado paterno.
Não ouviu os passos leves na escada e nem percebeu quando a porta se abriu e na entrada surgiu Dagmara, indecisa.
Estava muito pálida e com os olhos vermelhos de lágrimas; segurava nas mãos uma caixinha.
Ao ouvir o seu nome, Lotar levantou-se; os olhos dele também estavam chorosos.
— É você, Dagmara?
O que quer? – perguntou, num tom cansado.
A moça aproximou-se rapidamente dele.
— Lotar! Desculpe-me!.
Sou a única culpada de sua desgraça! – exclamou ela, entre soluços.
— Você, querida?
Como assim? - perguntou Lotar, apertando-lhe amistosamente a mão.
Dagmara contou rapidamente a sua conversa com a tia naquela manhã e que julgava ter sido responsável pela raiva do pastor e por tudo que aconteceu depois.
— Ouvi sua conversa com titio e me culpei demais pela minha conduta tola.
Mas, naquela hora eu estava brava por você preferir Dina a mim – concluiu Dagmara, traindo ingenuamente o seu primeiro ciúme de mulher.
Lotar já tinha idade para entender esse traço do jovem coração feminino e, por isso, sentiu-se ao mesmo tempo confuso e lisonjeado.
— Sou eu quem deve pedir desculpas por ofendê-la, querida Dagmara!
Acredite em mim, eu amo você!
Acredite que eu continuo amando você como antes, e de todo o coração.
Quanto ao resto, é possível que este seja o meu destino e por isso eu a libero de qualquer responsabilidade – respondeu ele, beijando a mãozinha da moça.
Acalmando-se um pouco, Dagmara sentou-se no sofá e segurou pelo braço o seu irmão de criação.
— Se você realmente desculpa a minha tagarelice boba, não deixe de aceitar aquilo que está nesta caixinha – disse ela num tom brejeiro.
Você sabe o quão generosa é a mesada de Detinguen.
Jamais eu consegui gastar todo o dinheiro e economizei uns quatrocentos marcos.
Pegue-os! Eles ajudarão você a arranjar-se.
— Mas, não! Nunca! – exclamou o estudante, corando fortemente e repelindo a caixinha.
— Lotar! Não seja bobo e teimoso! – implorava Dagmara.
Tome este dinheiro, porque é demais para mim.
Não preciso dele e, no entanto, ele livrará você de muitos aborrecimentos.
Não sou sua irmã?
Que escrúpulo tolo é esse?
Aceite como eu também aceitarei sem qualquer hesitação a sua ajuda, quando um dia precisar.
O olhar confiante e bondoso, a voz terna e insistente da moça quebraram o orgulho de Lotar.
Realmente, aquele presente inesperado poderia livrá-lo de muitas dificuldades.
Emocionado com a atenção dela, ele abraçou Dagmara e eles se beijaram como verdadeiros irmãos.
— Obrigado, querida maninha!
Você está me dando este dinheiro com tanta cordialidade, que aceito sem hesitação o seu presente generoso.
Só Deus sabe quando nós nos veremos novamente, mas eu me lembrarei deste momento por toda a vida e ser-lhe-ei eternamente grato.
A moça respondeu com um aperto ardoroso de mão e os dois por instantes ficaram em silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:10 pm

De repente, Dagmara inclinou-se e, olhando inquietamente nos seus olhos, perguntou indecisa:
— Por que você não ama mais a Deus?
Será que não acredita mais em Sua bondade e omnipotência?
Os olhos escuros de Lotar acenderam-se.
— Desejo de todo o meu coração que você preserve a sua crença ingénua na Sua bondade e justiça e jamais venha a usar o escalpelo crítico de Sua obra.
Mas então, guarde-se aqui, neste canto perdido, longe de qualquer contacto com estranhos.
Mas se você encontrar outras pessoas, olhar o mundo com os olhos abertos, comparar tudo que atribuem a este Deus invisível com aquilo que acontece na Terra, compreenderá por que não quis ser o Seu cultor.
Não é por acaso o dito:
“Abençoados os pobres de espírito”.
Mas não estou suficientemente cego para acreditar sem entender e sou por demais honesto para enganar os outros, pregando incoerências conscientemente.
Dagmara estremeceu.
Pareceu-lhe que a Terra começava a balançar sob os seus pés, a face de Deus enevoava-se e a Sua magnitude e omnipotência ficavam empanadas.
Percebendo o efeito que provocaram suas palavras, Lotar sentiu-se feliz por abalar a fé simples, infundida na alma pura dela por seu pai.
— É isso, Dagmara – continuou ele.
A fé cega ensinada sobrecarrega a consciência, paralisa a vontade e cria uma adoração ao tirano impiedoso que prescreve fraternidade, manda perdoar as ofensas e amar ao próximo, mas ao mesmo tempo, joga a pessoa desarmada no meio das feras selvagens, que se aproveitam e despedaçam o simplório que acreditou na “fraternidade” e “amor ao próximo” pregados pela religião, mas que não se aplicam em lugar nenhum.
Um pesado suspiro escapou do peito oprimido de Dagmara.
O “mundo” que ela aspirava a conhecer o mais rapidamente possível tomou, de repente, um aspecto monstruoso e repugnante.
— Não se assuste antes do tempo, minha maninha – consolou-a Lotar, levantando-se.
É possível que o destino tenha piedade de você e não a prive do paraíso imaginário que os seus olhinhos claros querem ver.
Bem, é hora de partir.
Adeus, Dagmara!
Seja feliz e não se esqueça deste pobre exilado! – Lotar a beijou.
Agora vá e chame Wilgelm para levar a minha mala.
Lotar partiu sem se despedir de ninguém e não deixando nenhum bilhete para Dina, que, voltando do bosque, soluçava com um ar de vítima torcendo os braços e acusando o pastor de crueldade indigna.
Matilda e Dagmara choravam em silêncio.
Parecia que uma nuvem de chumbo ficara suspensa sobre a casa, outrora tão alegre e cheia de tranquilidade.
Mas, os escândalos não pararam por aí.
Dois dias após a partida de Lotar, Dina sumiu de madrugada, levando consigo um pouco de roupas e as suas jóias.
Furioso, o pastor partiu imediatamente com o resto de suas coisas para devolvê-las à senhora que havia lhe confiado a órfã e para eximir-se de qualquer responsabilidade posterior.
Reiguern supunha que Dina tivesse ido para a casa de sua tia.
O que ele diria se soubesse que a insensata garota encontrara um jeito de conseguir o endereço de Lotar e mandara a carruagem levá-la da estação de trem directamente para o apartamento dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jun 28, 2016 7:10 pm

Ele não estava em casa e a hospedeira do estudante, viúva idosa de um funcionário público, surpreendeu-se extremamente com a chegada de alguém tão jovem e bonita.
Mas o aparecimento de Dina não foi bem recebido por Lotar; a sua falta de tato e descaramento chocaram-no.
Além disso, os últimos acontecimentos e a dura luta pela sobrevivência que o aguardava deixaram-no mais sóbrio, obrigando-o a encarar o caso com maior seriedade.
Apesar do encanto que lhe causava a beleza de Dina, ele percebeu que o amor deles era uma loucura, que se passariam ainda muitos anos antes que ele pudesse pensar em casar e que era muito provável que a moça, habituada ao luxo, se sentisse infeliz no ambiente modesto que ele poderia oferecer-lhe.
Lotar então comunicou decidido à Dina que, dentro de alguns dias, ele se mudaria, como mentor, para a casa do doutor Bern e, por isso, ela não poderia ficar na casa dele e devia pedir à hospedeira que a levasse à casa da sua tia.
Essa declaração inesperada pôs Dina fora de si.
Gritando e chorando, ela exigiu um casamento inadiável, acusando-o de roubar seu coração para divertir-se e depois abandoná-la, submetendo-a assim à tirania e às acusações da tia.
Lotar permaneceu firme, mas a cena esfriou-o definitivamente e ele, involuntariamente, começou a comparar o rosto de Dina, ardente e deformado de raiva, à face inocentemente tranquila de Dagmara, com grande vantagem para a sua “maninha”.
Lotar suspirou aliviado quando a carruagem que levava a filha do banqueiro desapareceu.
Além do mais, agora ele não estava em condições de namorar:
precisava trabalhar bastante e lutar para abrir o caminho para a independência e prosperidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:08 pm

IV

Enquanto a órfã, roubada e quase esquecida pela baronesa Vallenrod, crescia longe, esta continuava a morar em Prankenburgo e não se desviava nem um pouco do seu plano.
Vivia com “abundância modesta”, suficiente para manter-se em pé de igualdade com as pessoas do seu antigo círculo de relações.
Era amada e respeitada na sociedade, que a considerava uma mulher generosa e de rara energia.
A educação do filho, ela levava muito a sério.
Quando Desidério entrou na escola militar, a baronesa Helena não despediu o professor do seu filho.
Manteve-o e ele ia buscar o menino na escola aos domingos e fanados, acompanhava seus estudos durante as férias e estava sempre com ele quando Desidério saía.
Essa precaução tinha suas razões, pois, quando Desidério entrou na adolescência, começou a manifestar bem cedo inclinação para as aventuras amorosas.
E, nesse sentido, a baronesa era inexorável.
Ela não queria que seu filho se tornasse devasso como o pai e conduzia-o energicamente pelo caminho certo, removendo escrupulosamente todas as tentações.
Desde cedo ela incutia em Desidério um profundo desprezo pela pobreza e até pela “modesta abundância” que eles próprios gozavam.
Não se cansava de repetir que para alguém portador de nome tão eminente como o dele, qualquer posição média seria humilhante e que o dever dele consistia em contrair, com o tempo, um matrimónio conveniente que dourasse seu antigo brasão e trouxesse riqueza, a única coisa capaz de lhe proporcionar consideração e respeito na vida.
Moças bonitas e virtuosas, mas pobres, também foram sendo sistematicamente desmistificadas.
Para a baronesa elas eram aranhas perigosas, que sempre aspiravam a, de modo imperceptível, “capturar um marido” e por isso ele tinha de tomar muito cuidado em relação a elas.
A baronesa também incutia no seu filho a reverência para com qualquer representante do poder e riqueza, pois para fazer uma boa carreira, ele deveria reverenciar e bajular.
Quando Desidério foi promovido a oficial e designado para um regimento de hussardos, ele comprovou que as lições da sua mãe não haviam sido em vão.
Já havia alguns anos, Desidério levava uma vida agradável e desafogada de “leão-de-salão”, quando a sua atenção e também a atenção de toda a cidade foi atraída por rumores estranhos que corriam sobre a “Vila Egípcia”.
Todos conheciam a vila, mas poucos eram os que visitavam o lugar, que gozava de má fama.
Diziam que na casa, que permanecera vazia durante muitos anos, instalara-se um bruxo que nunca saía de lá, mas, à noite, a casa ficava iluminada por uma luz fosforescente, nas janelas corriam fogos vermelhos e, por vezes, ouvia-se um canto agradável.
Mas isso não era tudo.
Esse desconhecido “mago” fazia curas milagrosas e tratava doentes que os médicos recusavam.
Esses boatos se confirmaram quando uma mendiga que todos conheciam e que fazia trinta anos estava paralítica foi curada.
Ela contava em alto e bom som, para que todos ouvissem, que o seu filho a tinha levado num carrinho à sua aldeia natal para uma festa religiosa anual.
Uma chuva torrencial obrigara-os a parar diante da “Vila Egípcia”.
Lá, um homem idoso com barba comprida e grisalha encontrou-a e, depois de perguntar sobre o seu traumatismo, mandou que a levassem a uma sala que tinha uma mobília que ela jamais vira na sua vida.
Lá a mendiga adormeceu e, quando acordou, a sua doença desapareceu sem vestígios.
Abandonando as muletas e o carrinho, ela voltou para a cidade andando com as suas próprias pernas e, desde então, glorificava por toda a parte o milagre que lhe aconteceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:09 pm

Nem haviam cessado os rumores sobre essa ocorrência, quando começaram a falar sobre um cego que recuperara a vista, depois sobre um gotoso que voltou a dominar novamente as mãos e as pernas paralisadas, também uma criança que ficara curada quando estava para morrer devido a crupe e sobre outros milagres desse tipo.
O clero inquietou-se, sentindo por trás de tudo isso relações com o demónio; os médicos alarmaram-se mais ainda porque a concorrência do “mago” ameaçava não somente abalar a sua autoridade científica, mas também tirar seus ganhos.
Entretanto, um caso inesperado logo os acalmou.
A esposa enferma de um banqueiro rico foi pessoalmente visitar a vila, esperando ser atendida; mas o seu cartão de visita foi devolvido com a seguinte inscrição:
“Peço desculpas por não atendê-la, mas a senhora é rica o bastante para dirigir-se a luminares da ciência.
Quanto a mim, só ajudo pobres infelizes, cuja cura não pode causar danos materiais aos médicos”.
Esse caso aguçou extremamente a curiosidade geral.
Começaram a tomar informações e ficaram surpresos quando souberam que esse “mago” morava na vila havia dois anos; soube-se também que o nome dele era barão Detinguen, que levava uma vida solitária junto com a sua filha única, moça jovem e bonita que também nunca ia a lugar algum e que toda manhã, tanto no inverno como no verão, andava a cavalo na companhia de um velho criado.
Desidério transmitiu todos esses rumores à sua mãe, interpretando-os a seu modo.
O nome de Detinguen nada dizia para ele, mas para a baronesa relembrou o passado penoso.
A filha única de Detinguen era certamente Dagmara, que ela considerava desaparecida para sempre.
Esta ressurgia novamente em seu caminho e, ainda por cima, cercada de atenção geral.
Os protagonistas destes boatos nem suspeitavam da curiosidade que provocavam e continuavam a levar a sua vida calma e solitária.
Entretanto, antes de prosseguir a nossa história, achamos que não seria demais olhar para trás, nos anos passados.
Alguns meses depois do acontecimento que mergulhou em melancolia a casa do pastor Reiguern, este recebeu uma carta de Detinguen avisando que retornava da Índia e pedindo ao seu amigo pastor que levasse Dagmara para a “Vila Egípcia”, onde decidiu instalar-se definitivamente.
Reiguern respondeu imediatamente, pedindo ao barão para deixar a moça em sua casa até a sua primeira comunhão, na primavera.
“Esta festa realizar-se-á em seis semanas ou, no máximo, dois meses após a data de sua chegada – escrevia o pastor.
Espero que, apesar de sua impaciência para ver a sua filha adoptiva, você me conceda esta protelação.
Eu me apeguei demais a esta moça e ficaria muito feliz em abençoá-la num dia tão significativo”.
O consentimento de Detinguen não demorou a chegar e veio acompanhado de uma carinhosa carta à Dagmara e um breviário com uma encadernação cara.
Dagmara estava num estado de espírito muito estranho.
Lamentava deixar a casa, onde passou onze anos, e a família à qual se unira.
Por outro lado, o coração atraía-a ao pai adoptivo, que ela endeusava, apesar da longa separação e do mundo desconhecido no qual se preparava para entrar.
Com esse estado de espírito, no dia da Ascensão, ela pela primeira vez ajoelhou-se diante do altar do Senhor e recebeu a comunhão com veneração.
Toda sua alma virginal estava cheia de fé, entusiasmo e gratidão pela graça concedida.
Pura e clara, trajando um simples vestido branco, ela própria parecia uma visão celeste.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:09 pm

No mesmo dia, à noite, a senhora Reiguern deveria levar Dagmara a Prankenburgo.
Após um modesto almoço de despedida, o pastor chamou-a ao seu gabinete.
Estava sério e concentrado e Dagmara notou, surpresa, que sobre a mesa diante do Crucifixo estavam acesas duas velas e um livro luxuosamente encapado.
O velho pastor beijou a moça, depois conduziu-a até a mesa, fez com que ela se ajoelhasse e disse com voz emocionada e reverente:
— Minha cara criança!
Amo você profundamente, como se fosse minha própria filha e não somente filha espiritual!
Gostaria que a sua vida fosse tranquila, feliz e sem tempestades; creio firmemente que somente a fé profunda e inabalável será capaz de conceder estes bens preciosos.
Neste instante, quando vamos nos separar por muito tempo e talvez para sempre, acho necessário dar-lhe alguns últimos conselhos perante a face do nosso Pai, Jesus Cristo.
Vivemos num tempo obscuro de negações, rebaixa-se e despreza-se a pura e simples fé que professavam nossos pais.
Esta fé já não satisfaz os espíritos confusos.
E isto significa que os arrebatados vícios humanos derrubaram a represa construída pela religião e a humanidade, assustada com o monstro que ela própria invocou, procura uma outra força, uma outra fé para refreá-lo.
Percebendo que estão caindo num abismo e conscientes de terem perdido a âncora da verdadeira salvação, as pessoas apegam-se a diversas quimeras, mostrando novamente o milagre da mistura de línguas.
Cada homem cria a sua própria religião e fé e o seu próprio código moral e já não quer entrar em acordo com o seu vizinho.
Finalmente, as pessoas não conseguem mais se entender e, exactamente como na época da torre de Babel, começam a falar línguas diferentes; todos se perderam no escuro labirinto de sofismas, cheio de abismos sombrios.
Gostaria de preveni-la sobre este perigoso caminho; ainda mais porque pressinto que você sofrerá tentações e diante de sua inocente visão abrir-se-ão várias teorias, brilhantes mas vazias.
Irão abrir para você amplo campo de pesquisas interessantes e perigosas no mundo misterioso que a sabedoria Divina ocultou de nós e onde nos proibiu de penetrar.
Então, minha filha, seja firme na hora dessas tentações!
Se você precisar de apoio, dirija-se a mim.
Preserve como o maior tesouro a sua fé simples:
somente ela lhe servirá de farol e dissipará todas suas dúvidas.
Seja bondosa e pratique o bem para si própria!
Seja pura para agradar a Deus e para salvar a sua alma; ame o próximo, não porque ele mereça isso, mas porque esse é o seu dever.
Não se indigne com a insignificância moral das pessoas e não as despreze, achando que você é melhor; e que a sua caridade e a ardente e pura fé reguem as suas almas ressecadas como um orvalho vivificante.
O pastor calou-se por um instante, sufocado de emoção, depois ergueu os olhos para o céu e continuou:
— Senhor, em suas mãos eu entrego o espírito que me confiou!
Como um jardineiro vigilante, cuidei deste germe jovem, tratando suas raízes e galhos!
Abençoe, Senhor, este meu trabalho!
Que a sua criatura cresça, trazendo, como uma figueira, flores e frutos!
Dagmara levantou-se, toda em lágrimas e lançou-se aos braços do velho pastor.
Naquele momento parecia-lhe que a sua fé era tão forte, que ela não sentia medo de ataque algum...
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:09 pm

Aqueles momentos de despedida anuviaram o espírito de Dagmara e ela chegou a Prankenburgo com o coração apertado.
Mas quando viu a vila, pitorescamente localizada num penedo, a impressão da penosa separação da casa do pastor desapareceu e Dagmara agora só pensava na alegria de encontrar novamente o generoso homem que a livrara das necessidades e preocupações da vida, abrindo-lhe paternalmente a sua casa.
Detinguen recebeu-a no saguão.
A ternura sincera e carinhosa com que ele abriu seus braços para Dagmara dissipou imediatamente a sua timidez e ela correspondeu ao beijo do seu protector com o ímpeto da antiga menina.
— Que seja abençoada a sua chegada sob o meu tecto, minha querida criança, enviada a mim por Deus como um raio de sol para iluminar e aquecer a minha velhice! – disse com emoção Detinguen.
Eles passaram para a sala de jantar e o barão agradeceu cordialmente à senhora Reiguern pelos cuidados e amor para com a sua filha adoptiva, convidando-a a passar alguns dias na casa.
Mas a esposa do pastor recusou, dizendo que seu marido estava triste e solitário, ao ficar sozinho na casa vazia após a partida de Dagmara, sua última alegria; tinha pressa em voltar para casa e decidiu partir no mesmo dia, à noite.
Então Detinguen, que desejava conversar com a senhora Reiguern a sós, sugeriu que Dagmara fosse dar uma olhada nos seus novos aposentos preparados no andar superior e que aproveitasse para trocar o traje de viagem.
A moça, cheia de alegria e curiosidade, seguiu o velho criado e este conduziu-a até a escada onde a encontrou uma criada jovem de uniforme bonito, a qual lhe beijou a mão e lhe disse que fora posta à disposição da jovem senhorita.
A escada em espiral, coberta com um grosso tapete, terminava numa pequena sala de recepções decorada com flores, e uma porta fechada com uma pesada cortina de pelúcia cor de romã era a entrada para os aposentos de Dagmara.
Os aposentos compreendiam um dormitório, uma sala de estar e uma biblioteca ou gabinete.
Ao lado da porta de entrada havia duas estátuas de bronze que representavam pajens; um deles segurava uma lâmpada em forma de tocha, enquanto o outro segurava a cortina.
Detinguen decorara os cómodos de sua filha adoptiva num estilo gótico que combinava inteiramente com os vidros multicoloridos das janelas ogivais, as lavradas portas de carvalho e os tectos arqueados.
Toda esta luxuosa decoração causava uma impressão um tanto severa e triste, somente atenuada por inúmeras flores raras e bibelôs caros, espalhados pelas mesas e estantes.
Dagmara, acostumada à simplicidade puritana da casa do pastor, não se sentia à vontade entre as poltronas com encostos altos e armários lavrados como rendados. O que a desconcertava especialmente era a grande cama com cortinado de leito de brocado esverdeado.
Porém, quando ela se aproximou da janela aberta, soltou uma exclamação de admiração.
Daquela altura, diante dela estendia-se uma ampla e maravilhosa vista.
De um lado via-se uma planície com sua vegetação verde-escura e imponentes ruínas da Ordem dos Templários, e junto ao sopé, serpenteava a faixa amarela de uma grande estrada; ao longe, através da névoa azulada, distinguia-se a cúpula da catedral, as torres altas da câmara municipal e a massa branca das construções da capital.
Dagmara ficou admirando a paisagem.
Finalmente, ela estava em casa...
Neste luxuoso abrigo aguarda-a uma vida tranquila e despreocupada; aqui, como na humilde casa do pastor, ela estará cercada de amor e atenção...
Oh! Como o Senhor foi misericordioso e como arranjou maravilhosamente o destino da órfã.
Com que devoção ela sempre rezará para Ele!
Vai dedicar toda a sua vida ao pai adoptivo, vai amá-lo e procurar alegrar a sua velhice, sem nunca esquecer a sua dívida de gratidão ao pastor e à sua esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:09 pm

A criada Jenni arrancou Dagmara de seus pensamentos, propondo-lhe trocar o traje; a moça rapidamente trocou-se e desceu correndo para a sala de estar.
— E então, minha querida, você ficou satisfeita com seus aposentos?
Gosta deles ou deseja mudar alguma coisa? – perguntou sorrindo Detinguen.
— Gostei de tudo, papai, de tudo que você preparou para mim com tanto amor! – respondeu alegremente Dagmara.
Tudo é tão bonito e magnífico!
Como posso merecer tanta bondade da sua parte?
— Você já mereceu com o que acabou de dizer, comprovando-me a sua modéstia e gratidão.
Você não é a minha filha de sangue, mas pressinto que o amor e confiança criarão entre nós uma ligação não menos forte – respondeu o barão, emocionado.
A senhora Reiguern partiu após o jantar.
Despedindo-se de sua maravilhosa professora, Dagmara soluçava amargamente e por muito tempo não conseguiu acalmar-se, e Detinguen nada dizia, deixando-a desafogar-se chorando.
De repente, ela assustou-se, preocupada com a ideia de que a sua tristeza pudesse ofender o pai adoptivo.
Levantou-se de um salto da poltrona e correu para ele.
Enlaçando-se em seu pescoço e apertando a face húmida contra a face do barão, ela perguntou, preocupada:
— Papai! Você não está bravo comigo por chorar tanto pela partida da tia Matilda?
Agora que estou aqui, você pode achar isto uma ingratidão da minha parte.
Mas, não pude me conter.
Ela e o tio sempre foram muito bons para mim!
Detinguen a fez sentar-se no banco ao seu lado e, sorrindo, respondeu, passando a mão com carinho na sua cabeça:
— Não, minha querida, não estou nem um pouco bravo.
E, ao contrário, sinto-me feliz, vendo que você sabe valorizar o amor que lhe é dispensado.
A separação sempre é difícil, e ainda que na minha casa você viva mais luxuosamente, espero que jamais esqueça a família honesta que a ama e onde foi criada.
Então, não disfarce as lágrimas que honram você!
Agora, minha criança, vá e descanse de todas as preocupações do dia de hoje.
E, realmente, Dagmara estava tão emocionada que, ao voltar ao seu quarto, não conseguiu dormir por muito tempo.
O novo ambiente a impressionara demais, excitando a sua imaginação e, quando finalmente adormeceu, teve um sonho estranho.
Ela se viu dormindo numa cama grande, iluminada pela luz suave e azulada de um balão brilhante e transparente, e ela parecia estar em seu interior.
De repente, à sua cabeceira apareceu um anjo de extraordinária e encantadora beleza.
Todo o seu ser irradiava uma luz ofuscante, mas as suas asas eram escuras e elevavam-se sobre a cabeça, como uma névoa escura.
Ele segurava numa mão uma tocha e na outra – uma espada flamejante.
Este ser misterioso inclinou-se sobre ela e olhou-a com um olhar tão penetrante que ela estremeceu.
Depois, abaixando a tocha, ele incendiou o balão transparente que a cercava e que queimou estalando.
Dagmara teve a impressão de que um sopro de ar frio a transpassou completamente e, em seguida, ela foi tomada por uma correnteza de fogo.
Enquanto ela, muda de horror, olhava para o anjo, este pronunciou com uma voz profunda:
— Eu queimei a ingenuidade da sua fé para abrir a sua mente para uma nova luz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:09 pm

Darei a você asas para que possa elevar-se acima da rude e cega humanidade; vou revelar-lhe leis desconhecidas e a iluminarei com luz espiritual, que lhe permitirá ver através do corpo carnal e ler os pensamentos dos homens.
Você se tornará receptível às vibrações do bem e do mal; o calor espiritual do bem irá aquecê-la, mas você tremerá de frio ao tocar o mal.
Com estas palavras, ele tocou-lhe a testa com a espada flamejante e Dagmara sentiu algo como um raio que atravessou o seu cérebro.
No mesmo instante, o ambiente que a cercava abriu-se como cortina e ela viu uma aglomeração de estranhos seres que se lançaram ao seu encontro.
Terrivelmente assustada, ela caiu de joelhos e exclamou, implorando:
— Anjo terrível!
Deixe-me com a minha fé ingénua e não abra para mim os abismos do mundo invisível!
Tenho medo de cair lá.
O anjo nada respondeu e, abrindo, as suas potentes asas, elevou-se no ar, agitando a atmosfera com tanta força, que pareceu a Dagmara ter sido carregada como um grão de poeira e arrastada pelo turbilhão.
Para onde?...
Ela não soube dizer, pois logo acordou, coberta de suor frio.
— Que sonho horrível! – murmurou ela.
E, levantando-se rapidamente da cama, correu para o Crucifixo pendurado na parede e rezou ardentemente.
Em seguida, um pouco mais calma, ela deitou novamente para dormir e, desta vez, acordou bem tarde.
Dagmara viu o barão somente durante o desjejum.
Quando ele perguntou se ela havia dormido bem, a moça contou-lhe o sonho.
Detinguen escutou com visível prazer e depois disse , sorrindo:
— Esta visão, minha querida criança, tem um significado profundo e me comprova que você está predestinada a ser iniciada nos grandes mistérios.
A dor que você sentiu comprova como é difícil obter o verdadeiro conhecimento e como é penoso livrar-se de preconceitos.
Acredite, minha filha, somente a ciência faz o homem ser independente da sociedade de pessoas vulgares, de suas falsas amizades, de sua curiosidade ociosa e do contacto perigoso com seus vícios.
O ignorante corre atrás do ouropel mundano e procura contacto com pessoas tão cegas e pervertidas como ele, porque tem a necessidade de preencher com algo a sua vida vazia.
Já o sábio carrega dentro de si próprio uma inesgotável fonte de satisfação e eu sinto, Dagmara, que você tem capacidade para ser iniciada nesta elevada ciência.
Se você quiser estudar, ficarei feliz em ser seu professor.
Mas sem a sua boa vontade haverá escuridão por todos os lados: tanto dentro de você própria quanto ao seu redor...
— Mas claro, papai, eu quero estudar; especialmente se você for o meu instrutor – respondeu Dagmara e seus olhos começaram a brilhar.
— Terei prazer em orientá-la nos estudos!
Então, começaremos a trabalhar com você, assim que eu fizer o plano dos nossos estudos.
Certa manhã, cerca de uma semana após essa conversa, o barão convocou Dagmara ao seu gabinete de trabalho.
De lá, os dois subiram por uma escada em caracol para a torre, cuja sala redonda estava cheia de estantes com livros diversos e rolos de papiro antigo.
— Aqui se encerra uma partícula daquela ciência infinita, cuja cartilha nós pretendemos aprender – disse o barão com um alegre sorriso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:10 pm

Aviso-lhe que é necessário ter muita paciência.
Aliás, espero que você venha a se interessar pela ciência que serve de base a todas as outras ciências que desejo lhe transmitir.
Esta ciência é a História, mas a História verdadeira.
Aquela que é descoberta nas ruínas de cidades mortas, sob a picareta de pesquisadores e não somente nas lendas que obscurecem a nossa mente.
E o barão não se enganou.
A História dos povos desaparecidos e suas culturas absorveram completamente a atenção de Dagmara.
A Índia, Babilónia, Egipto renasceram diante dos seus olhos encantados e Detinguen, que pessoalmente visitara todos esses lugares, ilustrava suas aulas com histórias vivas e descrições de gigantescas cidades em cujas muralhas desenvolviam-se os destinos do mundo antigo.
Dagmara ouvia-o com interesse palpitante e um tremor nervoso percorria o seu corpo quando o barão colocava em suas mãos alguns objectos, dizendo:
— Esta estatueta pertence à época de fundação do templo na Babilónia, restaurada por Nabucodonosor.
Este amuleto tem cinco mil anos e foi tirado do peito de uma múmia.
Esta flor seca foi retirada de uma grinalda, feita na época de Moisés por alguma mulher para enfeitar o corpo de seu filho.
O tempo passava para Dagmara como num conto de “Mil e uma noites”.
Ela lia ou escutava as histórias profundamente interessantes de Detinguen, cativada pelos novos horizontes que se abriam perante a sua mente, e sentia-se feliz.
Entretanto, se a História dos povos despertou-lhe grande interesse, esse interesse duplicou quando passou a estudar doutrinas religiosas e o seu olhar admirado aprofundou-se na escuridão dos séculos, seguindo milhares de curvas do pensamento humano no seu longo e lento conhecimento do Pai do Universo.
Agora Dagmara via a unidade da Divindade em Suas manifestações mais diversas e frequentemente, durante a oração da noite, sentia-se confusa.
O Deus misericordioso, simples e humano que satisfazia a sua mente de criança, começava a tomar a medida gigantesca de toda a existência, sendo inconcebível na Sua manifestação; atrás do azul do Seu trono, abria-se o mistério do Universo, sem começo nem fim.
Agora o antigo Deus, a quem ela simplesmente adorava e nem tentava conhecer, parecia-lhe terrível.
Com mão corajosa levantou a cortina que O cobria, tentando penetrar nos mistérios do infinito e da fonte do poder invisível e misterioso.
E, de repente, descobriu, horrorizada, que o mal reinava por toda a parte, que todas as forças da natureza serviam de armas de destruição e que era possível invocar os habitantes do universo invisível, seres dotados de uma certa vontade e de maldade infernal.
Dagmara ainda não vira esse mundo misterioso, mas o seu professor lhe disse:
— Você verá esses seres do outro mundo e os dominará porque eu irei armá-la com a força que os subjuga.
Dagmara ansiava por essa iniciação com curiosidade e horror.
O próprio Detinguen apaixonou-se por essas pesquisas conjuntas, percebendo, com profunda alegria, como o espírito da moça se desenvolvia rapidamente.
Ele admirava a inteligência flexível de Dagmara e a sua natureza pura, bem dotada de forças misteriosas com as quais ele sabia lidar.
Ele próprio suportou nove anos de uma rígida iniciação num templo na Índia, sob a direcção de um sábio ancião, cuja confiança e amor ele soube cativar.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:10 pm

Sendo um trabalhador escrupuloso e incansável, um paciente e bem desenvolvido idealista, o barão era o verdadeiro tipo de “adepto” antigo e penetrou profundamente, com todas as fibras da sua alma, no estudo das ciências ocultas, desenvolvidas na Antiguidade e tratadas com menosprezo em nossos dias.
Apaixonou-se por esses conhecimentos, vivia somente deles e, apesar do seu profundo amor por Dagmara, levava-a consigo ao labirinto do invisível, decidido a fazê-la uma sacerdotisa dos mistérios e aproveitar as capacidades que ela possuía para penetrar mais profundamente no mundo misterioso que o atraía como um abismo atrai aquele que olha dentro dele.
Dagmara não entendia o perigo que a ameaçava e nem suspeitava do isolamento a que seria condenada pela sua condição especial.
Ela não imaginava que esses conhecimentos e convicções iriam afastá-la da sociedade, se lhe fosse destinado viver lá, e na qual as pessoas não conseguiriam entendê-la.
Dagmara não percebia que já estava levando uma vida solitária, que estudava e lia obras que não combinavam com a sua idade e compreensão e que estava enriquecendo a sua inteligência com conhecimentos demasiadamente grandes para sua cabecinha de dezanove anos.
Essa vida exclusivamente intelectual reflectiu-se até na sua aparência exterior e o seu rosto, antes rosado e encantadoramente infantil, ganhou uma expressão concentrada e severa e nos seus grandes olhos cinza brilhava a mente de uma pessoa adulta.
Até aquele dia, pai e filha sentiam-se felizes e estavam satisfeitos com a sua vida solitária sem preocupar-se com o que acontecia fora de casa.
Eles nem imaginavam que os favores prestados a alguns infelizes atraíam a atenção geral e que, por todos os lados, estavam sendo vigiados por curiosos que ansiavam penetrar naquela vila, apelidada pela sociedade de “Castelo Brosselion” e conhecer o “mago Merlin” e a sua filha, a “fada Viviana”.
A visita da esposa do banqueiro foi o primeiro aviso, mas Detinguen rejeitou aquela proposta tão energicamente, que pensou ter-se livrado de qualquer outra tentativa indiscreta.
Infelizmente, logo percebeu que estava errado.
Ele nem suspeitava que se encontrava às vésperas de mais um ataque perigoso, de outro género.
No regimento onde servia Desidério, havia um jovem oficial amado por todos os companheiros, graças a seu carácter aberto e brando e Vallenrod era o seu melhor amigo.
E eles tinham o apelido de “os inseparáveis”.
Para extrema consternação de seus colegas de regimento e desgosto profundo das damas da capital, esse jovem bonito e amável estava doente havia cerca de um mês.
Um tumor cresceu em seu rosto, causando-lhe dores agudas e resistia a qualquer tratamento.
Apesar de todas as pomadas e esparadrapos, o repugnante tumor continuava a crescer e as expressões preocupadas dos médicos indicavam que eles estavam impotentes para lutar contra ele.
A doença misteriosa do conde Saint-André servia de inesgotável tema de conversas no clube de oficiais.
— Em que anda pensando tanto, Vallenrod?
Será que se apaixonou?
Ou talvez, os credores estão lhe apertando?
Por que anda concentrado feito uma coruja? – perguntou um dos oficiais.
— Pare de falar besteira!
Estou pensando no pobre do Saint-André, que está cada dia pior.
Um dos seus olhos já está completamente fechado e o nariz parece o meu punho; mas o pior de tudo é que o tumor está descendo para a garganta e ameaça sufocá-la.
E os malditos médicos não conseguem ajudá-lo e só falam de cirurgia.
— Ah! Se esse monstro do “Merlin” resolvesse curá-lo!
Mas, infelizmente, ele só tem atracção por pedintes – observou um jovem oficial.
— Mas que grande ideia! – exclamou Desidério, dando um soco na mesa.
O “Merlin” vai curar o Phillip e basta!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:10 pm

— Mas como você vai obrigá-lo? – perguntou ironicamente um dos companheiros.
— Ele não. Vou obrigar a “fada Viviana” a convencer o pai.
Uns dias atrás, eu dei um jeito para encontrá-la em seu passeio.
Eu lhes juro que nunca vi um rosto com cor tão maravilhosa e olhos tão lindos.
E que formas!
E Desidério, entusiasmado, beijou a ponta dos próprios dedos e todos riram.
— Então, usando a desculpa da doença de Saint-André, você quer abrir caminho até a fada e seduzi-la?
— Não é nada disso!
Iremos todos juntos, como uma comissão.
Eu somente serei o orador.
A proposta original do barão Vallenrod foi aceita por unanimidade.
Na manhã seguinte, os jovens oficiais reuniram-se perto da vila e ocuparam uma posição tal, que, quando Dagmara voltasse do passeio, passaria por eles.
E não tiveram de esperar.
Logo apareceu a amazona, acompanhada pelo velho criado.
Ao ver que oficiais barraram a estrada em toda a sua largura, a moça refreou o cavalo e uma expressão de descontentamento perpassou no seu rosto.
— Será que os senhores podem deixar-me passar ou devo voltar atrás porque a pacífica estrada está sendo ocupada pela força militar? – perguntou Dagmara, medindo com olhar zombeteiro o oficial que vinha à frente do cortejo.
Os representantes cumprimentaram-na respeitosamente, inclinando a cabeça.
Depois Desidério saiu à frente e disse com uma nova reverência:
— Nobre “fada Viviana”, gentil proprietária do “castelo Brosselion”!
Não nos julgue mal!
Se tomamos a liberdade de detê-la aqui é porque queremos implorar a sua protecção.
Um de nossos companheiros está muito doente.
Os médicos foram incapazes de ajudá-lo e querem recorrer à cirurgia, cujo resultado provavelmente será fatal.
Sobrou-nos uma única esperança, que é o seu pai, cujos conhecimentos extraordinários curaram muitos sofredores.
Pedimos à senhorita a gentileza de ser a nossa intermediária e que passe a seu pai o nosso pedido colectivo.
Um sorriso alegre perpassou pelo rosto fresco de Dagmara.
— Eu só posso simpatizar com seu procedimento, inspirado pelo amor ao próximo.
Mas vocês devem compreender que não posso prometer pelo meu pai.
Conversarei com ele e passarei o seu pedido.
Mas a quem devo mandar a resposta se ele consentir?
— Para mim! – apressou-se a responder Desidério.
Aqui está o meu cartão de visitas e o endereço.
Dagmara olhou com curiosidade para o cartão e leu:
“barão Desidério von Vallenrod-Falkenau”.
Ela levantou a cabeça e olhou com maior atenção para o oficial.
O nome “Desidério” despertou nela uma vaga lembrança.
Ela esquecera a sua estadia na casa da baronesa, sobre a qual ninguém jamais lhe falava, mas o nome do amigo de infância ficou vagamente em sua memória.
A imagem do menino, quase apagada na sua memória, parecia tão pouco com o brilhante oficial à sua frente, que ela nem se esforçou para lembrar o passado.
Cumprimentou levemente com a cabeça os jovens oficiais e dirigiu-se rapidamente a galope para casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:10 pm

— E então? Eu não disse?
Ela não é fascinante?
Agora ganhamos a causa do pobre Phillip! – exclamou Vallenrod, triunfante.
— Tem toda razão! Ela é maravilhosa!
Você tem de conseguir do velho “Merlin” o consentimento para casar-se com ela.
É verdade que ela definha na solidão!
O mago lhe dará uma caixinha cheia de pó mágico e você terá tanto ouro, quanto tinha Aladim do livro “Mil e uma noites”, e nunca mais precisará apelar para sua severa mãezinha.
— A sua ideia não é tão má!
Vou pensar nisso quando a conhecer melhor – respondeu Desidério, rindo de todo o coração.
À noite, o jovem oficial recebeu um bilhete lacónico com os seguintes dizeres:
“O enfermo deverá aparecer na minha casa sozinho, entre oito e dez horas da noite.
Ludvig von Detinguen”.
Depois de ler o bilhete, Desidério levantou-se rapidamente do sofá.
Eram já seis e meia e não tinha um minuto a perder.
Ele encontrou o doente deitado de roupão no seu quarto.
Um algodão cobria o seu rosto e ele estava de péssimo humor.
— Deixe-me em paz!
Eu nem penso em entregar-me às mãos desse charlatão.
Além disso, será que posso sair numa noite tão húmida? – resmungava o conde, virando o rosto para a parede.
Mas não conseguiu dissuadir Desidério com essas ninharias.
— Você será um tolo se não aproveitar esta oportunidade única de curar-se!
Não me diga que prefere morrer sob o bisturi do cirurgião? – disse ele energicamente.
Sem prestar atenção ao companheiro, Desidério mandou o ordenança preparar a carruagem.
— Como seu amigo, eu protesto contra a sua loucura – continuou ele.
Além disso, o simples bom-tom o obriga a vir comigo, pois a filha de Detinguen, a nosso pedido, intercedeu por você junto ao pai.
— Ela é bonita? – perguntou o conde, cedendo um pouco.
— Encantadora!
Só que, com essa aparência, você não conquistará o seu coração.
Portanto, levante e vista-se!
Um quarto de hora mais tarde, enrolado como múmia, Saint-André embarcou na carruagem com Desidério, que decidiu ir com ele e aguardar no veículo até que o doente saísse da casa do “mago”.
No saguão o conde foi recebido pelo velho mordomo que o conduziu a uma pequena sala de visitas, na qual havia uma mesa preparada com chá, conhaque e biscoitos.
— Sirva-se do chá e aqueça-se, senhor, enquanto o barão não vem – disse o velho, saindo.
O conde começou a examinar com curiosidade a sala luxuosamente mobiliada em estilo gótico.
Nas paredes havia alguns quadros de pintores famosos e nas estantes – vasos antigos e raros.
Esse exame foi interrompido pela chegada do barão, cuja aparência impressionou muito o conde.
Por um minuto o barão observou o rosto inchado e desfigurado do rapaz e, em seguida, disse com benevolência:
- Tentarei curá-lo, conde, mas para isso preciso da sua completa obediência.
— Entendo. Estou inteiramente ao seu dispor.
— Neste caso, siga-me.
Eles passaram para o gabinete, cujas paredes negras estavam cobertas de escritos hieroglíficos.
A lâmpada pendurada no tecto iluminava o quarto e sua luz avermelhada reflectia na água do recipiente colocado sobre um suporte de pedra.
Numa banqueta junto à parede, havia um traje de linho branco, cuidadosamente dobrado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:10 pm

— Tenha a bondade de despir-se completamente, conde, e vestir esta túnica branca.
Assim que o senhor se trocar, chame-me.
Também retire do rosto o algodão e os curativos – disse Detinguen, desaparecendo por trás de uma porta coberta por uma cortina e que parecia estar guardada por uma esfinge alada.
Ficando só, Saint-André coçou atrás da orelha.
— Mas que estranho!
O meu rosto está doendo tanto que só falta gritar e este homem manda-me despir-me e passar frio neste traje leve!
Mas que demónio este Detinguen!
Mas, aguarde-me, feiticeiro!
Se não me curar, vou fazer a sua “fama”!
E, mesmo resmungando, o conde despiu-se.
Mal colocara a túnica de linho, quando a cortina se abriu e Detinguen entrou no quarto.
Ele também havia trocado o seu traje por uma longa vestimenta branca; portava sobre a cabeça um adorno de sacerdote egípcio e trazia no pescoço uma corrente de ouro com um medalhão enfeitado de pedras preciosas.
— Lave o rosto e as mãos na água deste recipiente – disse ele ao jovem oficial.
— Mas fui proibido de molhar o tumor – observou Phillip, desconfiado.
— Faça o que estou mandando e nada tema! – ordenou rispidamente Detinguen.
O conde obedeceu como se dominado pela vontade do barão.
O contacto com a água fez Phillip sentir picadas por todo o corpo, e uma terrível dor no olho e na parte da cabeça afectada pelo tumor.
Entretanto, ele não ousou falar nada, pois o olhar duro do barão parecia subjugá-lo definitivamente.
Em seguida, silenciosamente, ele pegou a vela que Detinguen lhe entregou e dirigiu-se ao quarto contíguo.
Entraram numa grande sala iluminada por uma lâmpada acesa no fundo do recinto sobre um pequeno altar, em cujos lados havia dois tripés com carvões em brasa.
Num nicho, directamente em frente ao altar, havia uma estátua coberta com um pano branco, cujos contornos desenhavam-se fracamente na penumbra.
A mesa do altar estava bem iluminada pela lâmpada.
Sobre ele viam-se uma taça, um espelho, uma espada larga e brilhante e alguns outros objectos que Phillip não teve tempo de observar, porque o barão conduziu-o directamente à mesa do altar e mandou que se ajoelhasse.
E ele obedeceu, apesar do horror sobrenatural que o dominava.
Detinguen cobriu o rosto do oficial com um pano vermelho e colocou por cima uma porção de uma substância preta que, provavelmente, acendeu, pois o conde ouvia o estalido de fogo e sentiu um forte e resinoso odor.
O barão, nesse momento, elevando e baixando o tom de voz, pronunciou algumas palavras rítmicas num idioma desconhecido para Phillip.
Em seguida, mandou o conde levantar-se e ofereceu-lhe a taça contendo um líquido avermelhado.
Saint-André não conseguiu definir se era água ou vinho, mas o efeito do líquido foi tão forte que ele balançou e cairia no chão se Detinguen não o amparasse.
Depois o barão praticamente levou-o nos braços até o leito e deitou-o nas almofadas.
Phillip sentia-se muito estranho.
Ele não estava dormindo e tinha todos os sentidos, mas não conseguia fazer o mínimo movimento e nem emitir nenhum som.
Seu corpo todo estava paralisado e somente o cérebro funcionava, enquanto uma dor aguda atormentava a parte do corpo afectada pelo tumor.
Horrorizado e mudo, o conde olhava para a figura alta de Detinguen ao seu lado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Estendendo as duas mãos sobre a cabeça de Phillip, o barão continuava a sua canção estranha, ora murmurando palavras incompreensíveis, ora levantando a voz fortemente.
Parecia ordenar e exigir algo; as veias de sua testa incharam, os olhos dele brilhavam como fogo e todo o corpo irradiava uma luz azulada que se concentrava nas pontas dos dedos, de onde saíam raios brilhantes.
Após um certo tempo, que pareceu uma eternidade ao conde, Detinguen pegou a espada do altar e aproximou-se do leito.
— Ele vai matar-me!
Caí nas mãos de um louco – passou como um raio pela cabeça do jovem oficial, horrorizado.
O conde ainda não conseguia mexer-se.
Então, a espada abaixou e ele sentiu a lâmina queimando-lhe a face e a testa; pareceu-lhe que o sangue jorrou e cobriu o seu rosto e pescoço, mas não teve tempo para pensar nisso, pois a sua atenção foi completamente absorvida por uma incrível visão.
Detinguen recuou e levantou a espada, em cuja ponta, soltando gemidos surdos, um ser vivo contorcia-se como uma serpente.
A estranha criatura não tinha contornos nítidos, o seu corpo parecia uma massa negra e gelatinosa, atravessada por uma faixa cor de sangue; a cabeça repugnante e sem forma lembrava a de um anão com olhos verdes e fosforescentes de cobra.
Aproximando-se dos tripés, o barão jogou um punhado de certa erva que queimou imediatamente com chama luminosa e na qual Detinguen por várias vezes mergulhou a ponta da espada.
A criatura misteriosa, pendurada na espada, torcia-se, soltando gemidos agudos e lastimosos e, finalmente, transformou-se numa fumaça cor de sangue, enchendo o quarto com um odor putrefacto.
A atenção do conde estava tão absorta naquele espectáculo extraordinário, que nem percebeu que, com a dispersão da fumaça, voltava-lhe o domínio das mãos e pés.
Somente quando passou instintivamente a mão na testa, notou que o seu estado paralítico passara.
Soltando um profundo suspiro de alívio, solevantou-se no leito e, ainda não conseguindo falar, olhava em silêncio para Detinguen, que limpava tranquilamente a espada.
Ao ver que o doente se recuperara, o barão aproximou-se dele.
— O senhor está curado – disse ele.
Escapou de um mal que ia destruí-lo!
Os frutos de nossos abusos, meu jovem, por vezes adquirem uma forma surpreendentemente real.
Detinguen inclinou-se e cochichou algumas palavras ao ouvido e Saint-André atirou-se para trás, soltando um grito rouco.
Ficou completamente pálido e todo o seu corpo tremia como se tivesse febre.
— Quem é o senhor?
É um deus ou demónio?
Como sabe o que está somente na minha consciência? – exclamou Phillip, fora de si.
— A minha ciência mostrou-me a causa da doença que precisava combater – respondeu tranquilamente Detinguen.
Não se deve esquecer, conde, de que os crimes e abusos cometidos na escuridão nem sempre passam impunes, mesmo que as pessoas não os vejam.
Portanto, seja prudente em seus actos para não atrair a Némesis das leis desconhecidas.
Agora, vista-se!
O senhor está completamente curado.
Como um bêbado, balbuciando mecanicamente palavras de agradecimento, Phillip retornou ao gabinete de trabalho, trocou de roupa e saiu junto com o barão.
Um criado aguardava-os no corredor com o capote do conde.
— Adeus! – disse Detinguen, estendendo-lhe a mão.
O conde apertou-a convulsivamente e saiu, quase correndo, esquecendo o algodão e suas faixas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:11 pm

A paciência de Desidério sofreu um penoso teste.
Ele achava que seria convidado a entrar, quando soubessem que acompanhava o seu amigo, mas nada disso aconteceu e ele foi obrigado a ficar sentado sozinho e amuado na carruagem em frente à porta fechada, por mais de duas horas.
Estava furioso e xingava a si próprio e a Detinguen, quando finalmente a porta se abriu e Saint-André saiu correndo da casa .
Ao ver o amigo, iluminado claramente pelas lanternas da entrada, Desidério ficou completamente estupefacto e esqueceu a irritação.
O rosto do conde, mesmo muito pálido, não mostrava nenhum sinal daquele tumor repugnante que o deformara horrivelmente durante tantos meses.
— Phillip! Você ficou curado!
É um verdadeiro milagre! – gritou ele.
Quando o conde entrou apressadamente na carruagem sem nada dizer, ele acrescentou:
— Como gostaria de conhecer esse homem misterioso, que possui conhecimentos tão extraordinários!
— Ele!...
Ele é... um demónio! – exclamou Phillip, apertando a cabeça com as mãos.
Notando a perplexidade de Desidério, ele continuou, recompondo-se com dificuldade:
— Não me pergunte nada agora!
Talvez mais tarde lhe conte o que aconteceu.
Após trocar de roupa, Detinguen foi para a pequena sala de visitas onde costumava passar as tardes com a sua filha.
Dagmara estava à janela e acompanhava com os olhos a carruagem, cujo ruído das rodas ainda se ouvia ao longe.
— E então, papai?
Curou o oficial? – perguntou ela, com curiosidade.
— Sim, curei-o!
Só que ele espalhará por toda cidade que sou um “bruxo” e tenho parte com o demónio!
— Ora, isto será uma terrível ingratidão da parte dele! – exclamou Dagmara com indignação.
O barão sorriu com desprezo.
— Não existe animal mais ingrato que o homem!
Só o homem possui a capacidade especial de pagar cada favor, cada ajuda com calúnia ou infâmia.
Mas isto, é claro, não significa que não devemos fazer bem às pessoas, não pela sua gratidão – pois não podemos exigir deles aquilo que não podem dar – mas para cumprir o dever imposto a nós pelo Senhor.
Quando você entrar na sociedade e se defrontar com as pessoas, minha querida criança, entenderá isso e também as grandes palavras de Jesus Cristo:
“...pedirás um pão, mas te darão uma pedra”.
Essa pedra é o egoísmo deles que não permite nenhum culto, senão o do seu próprio eu.
Mas não se deve mostrar o espelho da verdade a esses inválidos morais, repugnantes e cobertos de tumores espirituais, pois são cegos em relação às suas fraquezas e se gabam desdenhosamente de suas fendas.
Por isso é necessário que os saudáveis e que enxergam estendam-lhes a mão amiga, pois trata-se de débeis mentais.
— Muito obrigada pela obrigação tão agradável de ajudar esses miseráveis para receber em troca várias insolências – disse Dagmara com uma careta.
Detinguen sorriu.
— Felizmente, para não assustar os “salvadores”, todos esses tumores espirituais são encobertos com vestidos modernos e elegantes, casacas ou uniformes.
Acontece também que, quanto mais brilhante for a sua aparência externa, mais contaminados estarão internamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:11 pm

Ladrões e assassinos encontram-se não somente nas prisões.
Os infelizes que furtam sob a pressão da fome ou assassinam sob influência dos vapores de vinho são, frequentemente, menos perigosos do que os elegantes malfeitores frequentadores de salões da sociedade, que encobrem seus crimes com ouro e títulos.
Eles são bajulados e até engrandecidos pelos mesmos actos que a lei pune severamente quando são cometidos por algum pobretão!
Dagmara deu um suspiro.
— Papai, você diz com frequência que me predestinou para trazer aos homens a luz da verdade superior.
Confesso que esta missão começa a assustar-me.
Você acabou de dizer que os homens são traiçoeiros e ingratos, pois eu não me sinto suficientemente candosa e indulgente para sacrificar-me por eles.
No geral, não entendo a “justiça” que permite oprimir os fracos ou bondosos, e que dá força, poder e êxito aos maus.
Para mim, particularmente, as pessoas ainda nada fizeram de ruim, mas como já os conheço tão bem por você e com tudo que li, creio que estou bem armada contra a maldade deles.
O barão balançou a cabeça.
— As suas armas são ainda muito fracas, minha cara criança, e o seu coração honesto estremecerá quando se chocar com o vício e calúnias e as línguas venenosas a ferirem como estilete.
As pessoas a odiarão, pois você será uma viva reprimenda aos seus actos vergonhosos.
Mas é necessário passar por tudo isso, pois somente na luta é que o espírito testa as suas forças e prepara-se para o combate.
O rosto de Dagmara anuviou-se.
— Mas por que exactamente eu tenho de assumir esta missão, deixando o abrigo pacífico ao seu lado para iluminar pessoas que me odiarão por causa disso?
Apoiando-se na mesa, Detinguen olhava para o espaço com um olhar estranho e indefinido.
— Veja, minha filha, existe uma lei terrível, estabelecida pela vontade desconhecida!
Esta lei escolhe as almas e impõe-lhes o dever irrevogável de trazer luz à escuridão, para fazer lembrar às pessoas o quanto elas são fracas e insignificantes.
Como o trovão e o relâmpago que limpam o ar demasiadamente denso, assim também a voz dessas pessoas, dirigidas e inspiradas por esta força terrível, soa como um trovão, sacudindo a consciência e despertando o renascimento religioso e social.
Esta mesma lei ou a mesma vontade inabalável cria também as circunstâncias que transformam pessoas simples e bondosas em profetas da sua época, arrancando-as da simples e pacífica felicidade para jogá-las no centro da tempestade que abala a humanidade.
Muitas vezes o seu campo de actividade é restrito, mas o objectivo é sempre o mesmo.
O mal não pode causar sofrimentos para as forças do reino celestial dos princípios, ele retorna de volta ao ambiente de onde surgiu.
A epidemia fluídica que contamina o ar, os corpos e almas, grassa entre os homens; vícios de todos os tipos contaminam as pessoas, privando-as de qualquer noção da verdade, arrastando-as à destruição.
Este mal reina igualmente nos palácios e nos casebres.
E nestes locais é que surge, fatalmente, um portador da luz da verdade; ele deve seguir e aclarar a escuridão, deve iluminar, apesar das dificuldades que encontrar.
Como ele vê, então é obrigado a dizer aos cegos que o cercam o que está vendo.
Toda pessoa reflecte como num espelho os seus princípios e convicções.
Assim também, este arauto da verdade não conseguirá esconder a sua luz interior, que transparecerá em seus actos e palavras.
Contra a sua vontade, ele torna-se a palavra viva da verdade, o profeta das grandes verdades professadas por ele e, qualquer pessoa que dele se aproximar será atingida em maior ou menor grau por sua luz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jun 29, 2016 7:11 pm

Mas para isso o profeta deve pessoalmente misturar-se na multidão e sacrificar-lhe toda a bondade e luz que tiver.
Tais portadores da luz são sempre infelizes.
A multidão os odeia e enlameia como os bandidos, acostumados a assaltar em becos escuros, que detestam e procuram destruir as lâmpadas cuja luz revela e ilumina os seus crimes.
— Papai! Parece-me que esta lei é extraordinária e não está de acordo com a justiça de Deus! – notou Dagmara, escutando o barão com atenção.
Detinguen sorriu.
— Sim, assim parece do limitado ponto de vista humano!
Eu próprio não conseguia achar uma justificativa para a lei da caridade estabelecer tal divisão entre a luz e a escuridão.
Mas o que se há-de fazer?
O homem é impotente ante a força cega e terrível que o empurra para dentro do grande mecanismo do universo; seja um átomo do mal ou do bem, eles são igualmente necessários para o equilíbrio das grandes correntes de atracção e de repulsão que sustentam o movimento cíclico universal.
Cada átomo tem que produzir tanta quantidade de bem ou de mal, de luz ou escuridão, quanto for necessário para que tudo esteja em equilíbrio.
E cada pessoa leva a sua cota de sacrifícios e de trabalho para a ordem perfeita do universo, que nos abarca de todos os lados, nos tritura um contra o outro com amor e ódio, e desse amálgama disforme de sentidos variados deve surgir um fogo que irá aquecer e iluminar.
E esta ciranda prossegue eternamente, de vida em vida, de reino em reino, de esfera em esfera, arrastando consigo todos os seres vivos que gritam, gemem e resistem, incapazes de seguir o fluxo comum.
Mas se tal partícula for grande demais para passar pela máquina, ela cai imediatamente e depois se levanta outra vez com a nova onda.
E assim continua até que ela se transforme e não mais sirva para a esfera correspondente.
É por isso que há tanto sofrimento em toda parte.
Tudo morre, transforma-se e aparece numa existência nova, mais capaz de prosseguir na vertiginosa corrida para um objectivo desconhecido.
O barão calou-se.
Dagmara nada comentou e um sentimento penoso e amargo apertou-lhe o coração.
O futuro claro e cheio de esperanças que projectava para si logo anuviou-se.
Por trás da cortina do destino ocultavam-se leis desconhecidas, sofrimentos e a incontrolável aspiração a um objectivo desconhecido...
Ela levantou-se com um suspiro penoso, despediu-se do pai e recolheu-se ao quarto.
Triste, ajoelhou-se para fazer a oração da noite e as lágrimas brilharam nas suas faces rosadas.
Oh! Como o pastor estava certo quando lhe disse:
“Preserve a sua fé simples e ingénua se quiser que a sua vida seja poupada de tempestades”.
Agora, neste infinito com leis imutáveis que se abriu diante dela, ela tinha dificuldade de encontrar Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:18 pm

V

A cura milagrosa do conde de Saint-André alvoroçou a cidade e, durante a semana, ele era o assunto principal.
Em todos os salões, as pessoas ansiavam ver o herói desta aventura e saber dele os detalhes da cura extraordinária.
Mas logo todos se desiludiram porque o jovem insistia em manter silêncio sobre tudo que lhe aconteceu na Vila Egípcia e a sua aparência mudou tanto, que era difícil reconhecê-la.
Pálido, pensativo e calado, Phillip se esforçava para ficar só; nem Desidério conseguia extrair algo dele e morria de curiosidade.
Certa manhã, ao voltar das aulas, Vallenrod acompanhou o amigo até a casa dele e, após o desjejum, que o conde nem provou, Desidério sentou-se no sofá e acendeu um charuto.
Por alguns instantes, ele ficou observando o conde, que andava pelo gabinete, pensativo, e, não aguentando mais, exclamou:
— Ouça aqui, Phillip!
Se você quiser que eu continue seu amigo, não me atormente com o seu silêncio!
Desde que sarou, você mudou terrivelmente.
Será que esse Merlin demoníaco não lhe retirou a alegria, o amor às mulheres, às farras e a tudo aquilo que embeleza a nossa vida?
Se você não está preso a algum juramento, então lhe imploro, conte-me o que aconteceu!
O conde parou, ficou em silêncio por instantes e respondeu:
— Está bem!
Você sempre foi discreto e bom companheiro.
Por isso vou revelar-lhe toda a verdade.
Você mesmo vai perceber que o acontecido comigo supera a mais prodigiosa imaginação.
E o conde contou em detalhes o que viu, e acrescentou:
— Após ponderar friamente sobre tudo isso e, com base no que me contou Detinguen, cheguei à conclusão que as nossas más acções atraem sobre nós certos seres especiais que podem nos engolir como bacilos da cólera ou tísica.
— Tem certeza de que não foi alucinação ou de que você foi vítima de algum truque? – perguntou Desidério, empalidecendo.
Saint-André meneou a cabeça.
— O facto evidente de eu estar curado prova que não fui vítima de mistificação.
Além disso, Detinguen revelou-me algo que ninguém poderia saber e que me convenceu dos seus conhecimentos extraordinários.
— Você me diria o que ele lhe mostrou?
Phillip vacilou por alguns instantes.
Depois, começou a falar e seu rosto foi ficando ruborizado.
— Já que comecei, então vou confessar-lhe tudo!
Tenho plena confiança na sua discrição.
— Juro pela minha honra que serei mudo como um túmulo!
— Está bem!
E agora, ouça.
O meu pai já completou sessenta anos; além disso, devido a um acidente de caça, seu rosto está bastante desfigurado.
E tudo isso não o impediu de – após vinte anos de viuvez – casar-se pela segunda vez, com uma moça de dezoito anos.
Minha madrasta é uma mulher muito bonita, coquete e voluptuosa.
Você percebe que tal matrimónio, desigual em todos os sentidos e baseado somente em cobiça, não poderia satisfazê-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:18 pm

Como sabe, este verão passei as férias com meu pai e, infelizmente, agradei à minha madrasta.
Percebendo isso, eu deveria ter partido imediatamente, mas não o fiz; e quando o meu pai ficou seriamente doente, o diabo me tentou e esqueci que a condessa Gertrudes era a esposa do meu pai...
A partir desse momento fatal, passei a sentir-me mal, mas pensava que era dor de consciência.
Entretanto, o meu estado piorou cada vez mais e, por fim, transformou-se naquele tumor estranho que não cedia a nenhum tratamento.
E então, aquele homem extraordinário explicou-me que tal mal era a encarnação fluídica do meu erro.
Sem o saber, transgredi algumas leis que desconhecia e estas me castigavam!
Graças a Deus, esta lição não foi em vão.
Quero me redimir e conhecer estas leis secretas que controlam nossas vidas.
Para isso vou ser aprendiz do barão Detinguen.
— Também quero!
Por favor, arranje isto para mim quando estiver com ele! – exclamou Desidério, animado.
— Você? Não acredito que sua mãe aprovasse esta intenção.
Ela detesta Detinguen e o chama de extravagante.
— E daí? O que me interessa é o seu maravilhoso conhecimento! – replicou Desidério, franzindo o cenho.
— Está bem!
Transmito seu pedido ao barão e hoje mesmo, à noite, lhe trarei a resposta.
Estou indo para lá agora mesmo e – Phillip olhou para o relógio – Detinguen respondeu à minha carta, comunicando que estará me esperando às seis horas...
Vallenrod aguardava o amigo, já pronto para sair.
— E então?
Ele concorda em nos ensinar?
— A você, não!
Diz que não chegou ainda a hora da sua iniciação.
Quanto a mim, ele concordou, mas com alguma dificuldade.
A vontade do jovem barão Vallenrod de visitar Detinguen aumentou mais ainda, a partir do momento em que este não o aceitou como aprendiz.
O carácter de Desidério possuía a característica de, teimosamente, desejar conseguir a qualquer custo o que lhe era proibido e desprezar o que já tinha ou o que lhe ofereciam.
E para satisfazer esta teimosia, ele era incrivelmente insistente.
Os relatos do amigo sobre as interessantes experiências presenciadas pessoalmente atiçavam ainda mais o desejo.
Além disso, a beleza de Dagmara deixou-o muito impressionado e ele estava irresistivelmente atraído pela Vila Egípcia.
Apesar dos anos que se passaram, ele lembrava-se bem da companheira de brincadeiras infantis, da menina Dagmara, que um dia foi levada embora por um desconhecido.
Ao saber que a “fada Viviana” era a filha adoptiva de Detinguen, Desidério concluiu que a moça, provavelmente, era a sua amiga de infância e decidiu esclarecer esta questão.
Certa vez, durante o almoço, ele perguntou de repente:
— Diga, mamãe, com que direito Detinguen levou embora aquela menina que estudava comigo?
Por que você a entregou a ele?
Uma expressão de profundo desgosto passou momentaneamente pelas feições da baronesa, mas a pergunta pegou-a de surpresa, sem dar-lhe tempo para inventar uma mentira.
Além do mais, seu filho não era mais um menino e ela não ousava recusar explicações que ele podia facilmente conseguir de terceiros.
Então contou, em poucas palavras, que conhecera um pouco a mãe de Dagmara, mulher coquete e vulgar, que casou com Detinguen por interesse, imaginando ser ele muito rico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:19 pm

Mais tarde, percebendo seu engano e não suportando viver com um homem que, já naquela época, se ocupava de misticismo, a baronesa seduziu um amigo do pai de Desidério, fazendo-o apaixonar-se por ela e casar, apesar da oposição da família.
Arruinados pelo próprio perdularismo, o conde e a esposa morreram, e a órfã foi adoptada pelo bondoso Gunter.
— Quando Detinguen perdeu a própria filha e, aparentemente, perdoou a mulher que o abandonou, pediu-me autorização para adoptar Dagmara.
Eu não pude recusar, pois ele garantia a ela um futuro independente, o que eu não poderia fazer.
Aparentemente, ele gosta muito dessa criança e talvez não queira que alguém fale a ela sobre a sua passagem por uma família estranha.
Portanto, vou pedir-lhe que, quando a encontrar, não tente lembrar-lhe a antiga amizade entre vocês.
— Não esquecerei este conselho, mas gostaria de conhecer Detinguen, pois o seu conhecimento extraordinário me interessa muito.
— Desidério!
Peço-lhe que deixe esse homem em paz e pare de ocupar-se com estas maluquices!
Não acredito nos boatos sobre esse charlatão.
E suas visitas podem ser entendidas de forma bem diferente! – exclamou a baronesa, cujo rosto se cobriu de manchas vermelhas.
Percebendo que o filho ficou mordendo as pontas do bigode e nada respondeu, ela continuou:
— Você não gostaria que o seu interesse por Detinguen fosse interpretado como causado por Dagmara.
Se ela é parecida com a mãe, então deve ser bonita.
— Ela é linda!
Mas, além de beleza, ela possui algo encantador.
Seus olhos claros reflectem uma consciência que não condiz com a idade; e, em certos momentos, parece-me que seu olhar de aço atravessa a pessoa como uma espada.
O rosto da baronesa expressava desconfiança e ódio.
— Um dos motivos para evitar o seu encanto é que ela não tem posses! – observou surdamente a baronesa.
Já lhe falei que Detinguen nunca foi tão rico como todos pensavam; e depois, disseram-me que suas viagens e experiências alquímicas acabaram por arruiná-lo; isto significa que Dagmara não é partido para você.
E tem mais.
Não quero que você se interesse pela filha adoptiva desse “mago” suspeito.
Portanto, seja cuidadoso nas suas visitas, já que não pretende obedecer-me e evitar de ir lá.
Desidério nada respondeu, permanecendo sentado, apoiando-se na mesa.
A explicação da mãe teve nele o efeito de um balde de água fria.
A beleza e a extraordinária delicadeza de Dagmara atraíam-no muito, mas este sentimento ainda não havia adquirido forma.
Ao saber da pobreza da moça, todo aquele encanto pareceu desvanecer-se.
— Por favor, mamãe, mande acordar-me às oito horas.
Devo estar pronto às dez.
— Vai a algum lugar à noite?
— Vou à casa dos Domberg.
Hoje é aniversário de sua filha e ela está dando um baile – demorou para responder Desidério.
— Será que os jovens do seu círculo frequentam a casa daquela mulher?
— Mas é claro!
O filho dela entrou para o nosso regimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:19 pm

O próprio príncipe Otton-Friedrich disse hoje que espera ver-me na casa da senhora Domberg.
E isso equivale a uma ordem.
— Será que o príncipe pretende casar a sua filha ilegítima com alguém da alta sociedade?
— Sem dúvida!
Todos sabem como ele gosta daquelas crianças e Berta irá, obviamente, receber um rico dote.
A baronesa ficou por um certo tempo observando a figura esbelta e o rosto bonito e atraente do filho.
— Talvez você esteja na lista dos pretendentes!
Essa senhorita interessa-se por você?
Um sorriso de desprezo e vaidade insinuou-se nos lábios de Desidério.
— É bem possível!
Em todo caso, já me fizeram entender que a vaga de ajudante-de-ordens do duque Franz – visto que o conde Leven deverá aposentar-se – pode ser facilmente minha, o que não seria nada mau.
— Ah! Parece que este negócio está sendo conduzido às claras.
E a moça é bonita?
— Bem, não é feia!
Mas a beleza dela é rude e sem delicadeza; além disso, ela é mimada e se vangloria muito do seu duvidoso parentesco com o príncipe.
Resumindo – é uma pessoa vulgar de alma e corpo, mas será muito rica!
E que importa a quem devo vender-me, se o que vale é o dinheiro e não a nobreza e qualidades morais da futura esposa!
E sem esperar resposta, Desidério deu a volta e saiu do quarto.
A baronesa foi para seus aposentos, caiu no divã e cobriu o rosto com o travesseiro.
Apesar de todo seu cinismo e ambição, ela não suportava a ideia de ver Desidério casado com a filha da decaída que arruinou o pai dele, levando-o ao suicídio.
— Uma terrível ironia do destino – murmurou, cerrando os punhos.
Logo o seu pensamento se distraiu e concentrou-se em Dagmara, este “memento mori” viva.
Será que ela aparecerá novamente em seu caminho!...
— Oh, meu Deus!
Se Desidério gostar daquela menina que seu pai e eu... será terrível.
Melhor seria ele casar com Berta Domberg do que com a filha de Edith!— resmungou ela, e seu rosto inchado transfigurou-se numa expressão de incontida raiva.
Maria Domberg, candidata à sogra do jovem barão Vallenrod, era a filha daquela mesma faxineira que trabalhava na casa de Helena no dia do seu casamento.
Desde a sua estreia no palco, a dançarina obteve grande sucesso e fez rapidamente uma “brilhante” carreira.
Isto frequentemente acontece com pessoas daquele tipo, que vivem da devassidão e não recuam diante de nada.
O príncipe Otton-Friedrich apaixonou-se por ela e a dançarina conseguiu adquirir uma ilimitada influência sobre este seu amante de alto escalão, que não se importava nem com a sua devassidão quase ostensiva e nem com o carácter detestável.
Ambos os filhos – Friedrich e a filha, que ela pretendia transformar em baronesa Vallenrod – tiveram uma óptima educação.
Mas, a formação moral – a educação do coração e dos sentimentos – não podiam receber da mãe devassa, saída do restolho do povo.
A filha parecia muito com ela e era bonitinha, provocante e ávida por dinheiro e honrarias.
O príncipe procurava, entre os jovens da alta sociedade, um marido para sua amada filha; mas também aqui ele se defrontava com grandes dificuldades.
Os jovens ricos e com títulos permaneciam surdos às suas indirectas.
Então, a sua escolha recaiu sobre Desidério Vallenrod, cujas posses pequenas e linhagem antiga apresentavam as condições desejadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:19 pm

A vaga de ajudante-de-ordens junto ao duque foi lançada como a primeira isca para o jovem oficial e o convite pessoal para o baile de aniversário de Berta foi mais do que uma indicação directa do que pretendiam dele.
Quando Desidério chegou ao baile, já havia uma multidão de convidados.
Ele foi subindo a escada, enfeitada com passadeiras, folhagens exóticas e estátuas, com uma estranha sensação.
A senhora Domberg, ao lado do seu augusto amado, recebeu Vallenrod com particular benevolência.
O príncipe chamou imediatamente o jovem Domberg, que conversava perto dali com outro oficial e ordenou-lhe que apresentasse o barão à irmã.
Berta Domberg era o oposto do irmão.
Enquanto ele era pálido, taciturno e deprimido, a moça era cheia de vida, sentindo-se à altura de sua “brilhante” posição.
E a julgar pelo olhar ousado e cheio de curiosidade e também pela forma como recebeu Desidério, percebia-se que ela já sabia das intenções dos pais.
Com incrível desembaraço para sua idade, Berta começou a conversar com o barão, conseguiu mantê-lo perto de si e arranjou um jeito de dançar a sua primeira dança com ele.
Surpreso com a autoconfiança da moça, Desidério correspondia de forma contida e amável aos seus trejeitos coquetes.
Desempenhando o seu papel, o barão, por sua vez, examinava Berta com curiosidade.
A jovem era muito parecida com a mãe mas tinha muito menos graça natural; era bonita mas vulgar, e seu rosto não reflectia inteligência nem bondade.
Os braços grandes e fortes e as palmas das mãos largas indicavam a sua origem plebeia.
Uma sensação de peso e um calafrio interior apertaram o coração de Desidério:
a imagem da mulher dos seus sonhos e que chamaria de sua era bem diferente.
Os olhos negros e penetrantes de Berta e sua voz sonora e aguda inspiravam-lhe quase repulsa. Obviamente ele jamais sentiria por ela algo mais que fria indiferença e, sem o perceber, começou a compará-la a Dagmara, cuja imagem apareceu em sua mente.
Diante de seus olhos surgiu, como viva, a graciosa amazona cujos movimentos transpareciam extraordinária delicadeza, e, no fino e aristocrático rosto de grandes e inteligentes olhos, congelou-se uma expressão de orgulho e desprezo.
O barão suspirou e, com certo esforço, afastou de sua mente essa imagem tentadora de sua mente.
Ele não podia deixar-se dominar por aquela imagem, pois o destino o conduzia a um caminho absolutamente diferente.
A partir daquele dia, Desidério começou a ser convidado com frequência à casa da Sra. Domberg para almoços, festas e recitais.
Em outras palavras, tentavam abertamente atraí-lo para o seu círculo íntimo.
Berta, por sua vez, demonstrava claramente que ele a agradava.
A baronesa Vallenrod parecia insatisfeita e ofendida, mas não se opunha às frequentes visitas do filho à casa da dançarina aposentada e, aparentemente, conformava-se em silêncio com a preparação do acontecimento.
Em compensação, Saint-André observava com crescente desaprovação o comportamento do seu amigo e a atitude da baronesa em relação a esse matrimónio, que parecia horrível ao conde, deixava-o profundamente indignado.
Certo dia, o conde propôs a Desidério passar uma tarde com um amigo doente, mas aquele recusou o convite, dizendo que tinha sido convidado à casa dos Domberg, onde seriam discutidos os temas dos quadros vivos que pretendiam montar em breve.
Saint-André levantou-se e começou a andar pelo quarto; finalmente parou diante do amigo e disse com recriminação:
— Desidério, você não se envergonha de correr toda hora para esse covil de lobos e curvar-se diante da desavergonhada amásia do duque, cujo verdadeiro lugar seria numa casa de detenção, se o amante de alto escalão não a protegesse do justo castigo da lei?
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