Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:20 pm

Você vai se vender por tão pouco?
Acredite, você merece muito mais!
Eu teria nojo de encostar nessa riqueza, acumulada com predatoriedade, usura e devassidão.
Não venda a sua alma, Desidério!
Deixe que algum oportunista com passado duvidoso e um nome desconhecido case com a filha da Sra. Domberg.
Ela não merece o barão Vallenrod-Falkenau!
Um rubor cobriu o rosto de Desidério.
Num supetão, jogando fora o charuto, respondeu com amarga irritação:
— Para você, Phillip, é fácil falar, pois é rico e não tem problemas de dinheiro.
Além disso, fico surpreso com a sua susceptibilidade:
houve tempos quando você procurava nas mulheres não somente uma benfeitora!
O conde aproximou-se do amigo e abraçou-o, com um olhar caloroso e fraternal.
— Você tem razão, Desidério!
Antes eu também procurava somente diversão e este passado não me permite criticá-lo por negociar a própria consciência.
Mas, gosto de você e queria dividir a verdade que me abriu os olhos.
Comecei a estudar as grandes leis que nos dirigem e compreendi como é horrível o nosso modo de vida.
Dando liberdade aos baixos instintos, nós empurramos a nossa razão até o nível de uma simples sagacidade animal, tornando-a incapaz de se elevar a interesses maiores.
Acredite-me, a vida nos é dada não para que embruteçamos, tornando-nos animais e rastejemos diante do vício, por ser ele poderoso e humilhar o bem.
Somos vis até para nós próprios, mentimos e adulamos por não termos coragem de chamar as pessoas e coisas pelos seus verdadeiros nomes.
É verdade que sou rico, mas já começo a perceber que as coisas não se restringem ao ouro.
Desidério, permita-me – como seu melhor amigo – pagar todas as suas dívidas secretas e, quando você estiver livre delas, deixe esta sujeira e desista desta vida sem objectivo pela qual pagaremos muito caro depois.
Desidério ouvia calado.
Estava pálido e nervoso.
— Vejo que Detinguen já o influenciou fatalmente.
Todos vão achá-lo meio doido – respondeu ele, com riso forçado.
Saint-André sorriu.
— Só porque percebo o quanto estamos dissolutos? É bem possível!
Aliás, para mim decididamente não faz diferença.
Considero a influência de Detinguen benéfica.
Quando entro na casa dele, todas as minhas preocupações e interesses mesquinhos ficam lá fora.
Naquela casa não existe nada para impressionar, tudo é igual, limpo e simples.
No meio daquela tranquilidade imutável, até a menor das almas encontra paz.
— Ah! Agora entendo.
É a “fada Viviana” que transforma a Vila Egípcia num cantinho de paraíso terrestre! – exclamou Desidério, soltando uma gargalhada.
Phillip enrubesceu.
— Você está errado!
A “fada Viviana” tem um efeito benfazejo sobre mim, afastando com a sua presença todos os sentimentos ruins; quando ela olha com aqueles olhos límpidos e claros, então, acredite, qualquer cumprimento vulgar estanca nos lábios e a virgindade, que transpira de todo o seu ser, afasta todos os pensamentos sujos.
— Talvez eu também sentisse essa influência benéfica, se fosse admitido nesse círculo privilegiado – observou Desidério, com um profundo suspiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:20 pm

— Farei o que puder para conseguir permissão e apresentar você.
— Obrigado!
Só que minha mãe não deve saber disso.
Ela não quer que eu visite Detinguen.
Uma semana depois, o conde declarou, todo radiante, que conseguira a tão almejada permissão e que Detinguen convidava ambos para um almoço.
Desidério ficou muito satisfeito.
Preparando-se para ser apresentado à “fada Viviana”, ele se vestiu meticulosamente, pois o que mais o atraía a esse encontro era a beleza de Dagmara.
Detinguen recebeu os jovens com sua costumeira hospitalidade.
Ao cumprimentar Desidério, ele segurou-lhe a mão e olhou de modo estranho o rosto do jovem oficial.
— E então, barão?
Será que o senhor percebeu em mim algo terrível como aquele tumor do Phillip?— perguntou Desidério, tentando dissimular a preocupação que o assolou.
Pode zombar!
O senhor vem de um mundo onde zombam de tudo – respondeu calmamente Detinguen.
Mas, eu vejo algo.
Vejo o senhor por duas vezes ferido mortalmente, deitado entre estas paredes e lutando contra a morte...
— Mas, vou sobreviver? – perguntou Desidério, muito impressionado com aquelas palavras.
— Oh, sem dúvida!
O senhor passará por tudo isto e muito mais – respondeu Detinguen, com um sorriso enigmático.
A chegada de Dagmara mudou o rumo da conversa.
Num vestido branco de casimira, com uma fita azul-clara nos abundantes cabelos escuros, ela parecia a Desidério ainda mais atraente do que como amazona e esta impressão aumentava à medida que conversavam.
Dagmara não se destacava pela beleza clássica, mas representava um perfeito tipo aristocrático: transpirava graça e delicadeza e sua mente flexível e seus conhecimentos extraordinários davam às suas palavras beleza e interesse especial.
Ao conde, que via frequentemente, Dagmara tratava quase como amigo, sem o mínimo sinal de coquete, o que irritava vagamente Desidério; ele emburrava toda vez que Dagmara dirigia a palavra ao conde, olhando-o directa e astutamente.
Após o almoço, Detinguen sugeriu a Dagmara que mostrasse aos convidados o museu da casa.
Saint-André levantou-se imediatamente e, pegando um candelabro aceso, disse, sorrindo, que, na qualidade de ajudante do guardião do museu, ele se encarregaria de iluminar o caminho da “fada Viviana”.
— E quem teve a ideia de chamar-me de “Merlin”? – perguntou Detinguen, com um sorriso.
— Todos – respondeu Desidério, contando em tom humorístico todos os boatos que corriam sobre a Vila Egípcia e seus misteriosos habitantes.
Conversando alegremente, os jovens passaram por um longo corredor e, em seguida, Dagmara apertou uma alavanca.
Abriu-se imediatamente uma maciça porta disfarçada em baixos relevos e Desidério, surpreso, viu-se numa grande sala mal-iluminada pela luz tremeluzente das velas.
— “Fiat lux”! – disse alegremente Saint-André, girando um botão.
E nas paredes e no tecto acenderam-se lâmpadas eléctricas, iluminando com clareza armários e vitrines que se estendiam ao longo das paredes e diversos recipientes e estátuas colocados sobre as mesas; no centro da sala havia algumas caixas douradas compridas, cobertas de hieróglifos.
Nitidamente orgulhosa da impressão que aquela maravilhosa colecção provocou em Desidério, Dagmara conduziu-o de vitrine a vitrine explicando, com desembaraço de arqueóloga, as antiguidades assírias, sírias, gregas, egípcias, etc. coleccionadas pelo seu pai adoptivo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:20 pm

Vallenrod ouvia atentamente e fazia perguntas, curioso, sem tirar os olhos da pequena boca rósea, que lhe revelava todo o mundo antigo.
A moça explicava tudo com tal simplicidade, que parecia não perceber os extraordinários conhecimentos que possuía.
— Aqui estão os objectos que podem ser os mais interessantes da nossa pequena colecção – disse Dagmara, dirigindo-se a uma das caixas que se encontravam no meio da sala.
Ela levantou a tampa de madeira, uma tampa de vidro e depois um véu de tecido.
Todos os presentes viram um rosto escuro, quase negro e perfeitamente conservado de um jovem de aproximadamente vinte e cinco anos.
— Vejam! O clássico país dos milagres conservou para nós restos mortais de pessoas contemporâneas da gigantesca civilização, cujos restos admiramos – disse ela, olhando para Desidério com seus maravilhosos e inteligentes olhos.
Ele, com um misto de curiosidade e repugnância, debruçou-se sobre a múmia.
— Quem terá sido ele?
Será que o prantearam, quando, tão jovem e belo, ele repousava em Osíris?
Seria interessante se ele desejasse responder a esta pergunta! – observou Desidério.
— Seu nome era Khnum.
Sua função – sacerdote do Sol.
Vivia na cidade de Tel-el-Amarna, a assim chamada “capital dos dissidentes”, fundada pelo faraó Amenófis IV1.
Quanto à infelicidade que provocou com a sua morte, na ausência de factos comprovados, podemos admitir algumas suposições.
O belo Khnum foi morto com uma punhalada no coração; ainda percebe-se o ferimento.
Mas quem poderá dizer de quem foi a mão que desferiu o golpe:
um fanático religioso ou um adversário ciumento? – concluiu Dagmara, com um sorriso.
— E a senhorita não sente medo ou repugnância ao tocar este cadáver? – perguntou Desidério.
— Oh, não!
Khnum não me parece um cadáver – respondeu a moça, com simplicidade.
Mas, o senhor, pelo jeito, estaria mais interessado nesta maravilhosa múmia de mulher!
Não é verdade?
Isto não é melhor do que um belo sacerdote? – acrescentou ela, com malícia.
— A senhorita acertou!
Eu nunca trairei a minha preferência por damas.
A jovem egípcia estava realmente ainda bela, tinha um rosto bem formado e clássico e usava compridas tranças, negras como o azeviche; no seu peito brilhava um formidável amuleto de esmeralda em forma de escaravelho e a conversa naturalmente passou para talismãs.
Detinguen tinha uma grande colecção de talismãs de todas as épocas.
Depois, pelo facto de o corpo da egípcia ter sido encontrado no mesmo nicho do corpo do sacerdote, os jovens imaginaram um verdadeiro romance.
O tempo passou tão depressa em tais conversas, que todos ficaram espantados quando o antigo relógio de parede bateu meia-noite.
Desidério, ao se despedir, recebeu de Detinguen o convite para visitá-los.
— Você tem razão, Phillip!
Naquela casa existe uma atmosfera especial.
Lá você se sente muito bem – exclamou ele, extasiado, assim que entraram na carruagem.
— É verdade.
Lá reina uma atmosfera de inteligência, que reanima e rejuvenesce, se posso expressar-me assim – respondeu o conde.
— Agora você se convenceu de que é possível passar uma noite alegre e agradável sem bebedeiras, carteado ou conversas fúteis – acrescentou amigavelmente.

(1) Akhenaton (que se traduz por "o espírito actuante de Aton"), cujo nome inicial foi Amen-hotep IV (ou, na versão helenizada, Amenófis IV), foi um faraó da XVIII Dinastia egípcia.
A historiografia credita esta personalidade com a instituição de uma religião de cunho monoteísta entre os egípcios, numa tentativa de retirar o poder político das mãos dos sacerdotes, principalmente aqueles do deus Amon da cidade de Tebas.
Para concentrar o poder na figura do faraó, Akhenaton instituiu o deus Aton como a única divindade que deveria ser cultuada, sendo o próprio faraó o único representante dessa divindade.

(Nota do digitalizador)


Última edição por Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:21 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:20 pm

VI

Certa manhã, após o serviço, Phillip propôs a Desidério um passeio a cavalo.
O dia estava lindo e Vallenrod concordou com prazer.
Os jovens cavalgaram em silêncio, cada um imerso nos próprios pensamentos.
O conde falou primeiro.
— Desidério! Quando irão anunciar o seu noivado com Berta Domberg? – perguntou ele, olhando atentamente para o rosto preocupado e desgostoso do amigo.
Desidério puxou as rédeas com tamanha força, que seu cavalo relinchou e empinou.
— Nada ainda foi decidido – disse ele, com irritação.
Mas estou extremamente surpreso com o seu interesse por este negócio!
Não é você que vai casar com Berta Domberg!
— Jamais faria isto – respondeu calmamente o conde.
Mas diga-me, Desidério, você conhece os detalhes da morte de seu pai?
— Não! Mas há muito tempo desconfio que existe um mistério sobre este triste acontecimento – disse Desidério, enrubescendo.
Minha mãe sempre manteve silêncio sobre tudo o que se referia à morte do meu pai; e eu não me sentia à vontade de ficar perguntando sobre isso a terceiros.
Sua morte deixou sobre mim uma pesada e indelével impressão:
ainda lembro como minha mãe maldizia o falecido parada diante do seu caixão!
Na época pensei que fosse o desespero pela nossa ruína provocada por meu pobre pai; mas agora, começo a desconfiar que existiam outros motivos.
Se você conhece a verdade, Phillip, então imploro-lhe – revele-a para mim!
— É difícil para mim, mas sinto-me na obrigação de abrir-lhe Os olhos.
Uns dois anos antes de morrer, seu pai, já endividado mas não falido, começou a frequentar assiduamente a casa da Sra. Domberg.
Apesar de ela ser amante do príncipe Otton-Friedrich, como era notório, mesmo assim correu um boato geral acusando-a de uma ligação secreta com o barão Gunter, bonito e famoso por sua generosidade.
Isto coincidiu com a época em que o príncipe Otton-Friedrich se desentendeu com a dançarina e foi embora da capital.
No mesmo ano da viagem do príncipe, seu pai suicidou-se com um tiro, na casa dos Domberg durante um banquete que se transformou numa verdadeira orgia.
Eu soube de todos estes detalhes através do meu tio, que participou do banquete.
Seu pai se portava estranhamente: ou ficava loucamente feliz, ou ficava taciturno e silencioso, bebendo sem parar.
Após o jantar, ele saiu da sala e somente o tiro de revólver, que ecoou dos aposentos da Sra. Domberg, fez todos lembrarem-se dele.
Meu tio e mais algumas pessoas correram para lá, mas seu pai estava caído na cama, esvaindo-se em sangue.
Ele havia desferido dois tiros no próprio peito, mas o primeiro tiro foi abafado pelo barulho da festa.
Percebendo a palidez de Desidério, Saint-André acrescentou:
— Desculpe-me por trazer estas tristes recordações, mas faço-o porque gosto de você.
Desidério estremeceu e murmurou surdamente:
— Obrigado por avisar-me enquanto ainda não é tarde. E virando repentinamente o cavalo, galopou para casa.
Chegando lá, Desidério trancou-se no quarto e proibiu ser incomodado.
Ele estava tomado por uma excitação febril, e em sua alma fervia um caos de diferentes e amargos sentimentos.
A imagem de seu pai surgiu diante dele como real, com o rosto pálido, desiludido ou cansado da vida, com ocasional e estranha expressão de sofrimento.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:21 pm

Ao mesmo tempo, lembrou as contínuas brigas e cenas que aconteciam entre o falecido e sua mãe.
De repente, ele estremeceu e passou a mão pela testa húmida.
Sua mãe, que sabia daquele passado, concordava em silêncio que ele – Desidério – casasse com a filha da horrível mulher que a envergonhara, sendo como todos diziam, a amante do seu marido e em cuja casa seu pai se matara!...
Desidério procurava em vão explicar aquele comportamento.
Com fundo suspiro, sentou-se à escrivaninha e pegou a grande foto do pai, tirada no ano de sua morte, que a baronesa havia deixado na gaveta da velha cómoda onde ele, por acaso, a encontrou.
Ele ficou olhando a foto por longo tempo e depois, voluntariamente, começou a comparar a bela cabeça de Gunter ao retrato, na parede, da baronesa em seu vestido de noiva.
Até o próprio filho podia perceber que aquela mulher, nova e frágil mas vulgar, não possuía nenhum encanto e delicadeza, que são parte essencial da beleza feminina.
Será que o pai se sentia infeliz com isso e fugia do próprio lar, procurando o esquecimento em todo tipo de devassidão?...
Cobriu a cabeça com as mãos, procurando pensar e tentando avidamente encontrar alguma coisa que lhe indicasse a pista certa.
De repente, estremeceu e bateu com a mão na testa.
Ele lembrou-se de algo que encontrara havia dois anos e de que havia esquecido totalmente.
Entre as coisas que restaram com a baronesa, após a devastação que se seguiu à morte do marido, havia um pequeno armário.
Certa vez, Desidério o encontrou casualmente no depósito:
ele lembrava-se bem do armário, pois o pai sempre guardava lá doces e bugigangas.
E o barão Vallenrod não se esqueceu do seu achado.
Quando ele, após a reforma montava os seus aposentos, exigiu também aquele armário, limpou-o de velhas garrafas e lixo e colocou-o no seu gabinete para guardar valores e perfumes.
Mas, durante a limpeza, Desidério apertou por acaso um botão oculto, tomando-o por um prego.
Imediatamente abriu-se um compartimento secreto, no qual ele viu uma pequena caixa com as iniciais do falecido barão.
Não encontrou a chave e um sentimento estranho o conteve de contar à mãe sobre o seu achado.
Depois, ele acabou esquecendo-se de tudo isso.
Sem perder um minuto, Desidério correu para o armário e tirou do compartimento secreto aquele objecto que tanto o interessava.
Quando o encontrou pela primeira vez, apesar da curiosidade, teve pena de quebrar aquele objecto delicado.
Mas agora, sob forte excitação e desejo de saber de qualquer forma o motivo fatal da morte trágica do pai, ele queria ver o seu conteúdo de qualquer jeito.
Sem vacilar, Desidério pegou um canivete e quebrou a fechadura.
Com as mãos trémulas, retirou da caixa um pacote de cartas amareladas pelo tempo, amarrado com uma fita, uma luva que parecia de mão de criança, algumas rosas secas e um ramo de jasmim.
Seu coração batia fortemente quando ele tocou aquelas coisas tão caras ao falecido.
Morrendo de curiosidade, ele abriu lentamente o envelope e de lá caíram duas fotografias descoradas pelo tempo.
Numa delas estava seu pai, mas essa imagem em nada parecia com a foto da escrivaninha.
Nessa foto ele parecia feliz, despreocupado e cheio de esperanças.
Depois Desidério debruçou-se avidamente sobre a outra foto feminina e exclamou surdamente:
— Dagmara!
Mas a ilusão desvaneceu-se imediatamente.
A “fada Viviana” não podia ser o original daquela foto, mesmo que os traços fossem os mesmos.
O rosto da moça da foto, vestida num delicado traje de baile, transpirava orgulho, consciência da própria beleza e fortes paixões indisciplinadas; aquela beleza devia encantar e receber a admiração de todos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:21 pm

Desidério ficou apreciando a mulher que seu pai amava; agora ele o entendia cada vez mais e o desculpava.
Apesar do seu amor pela mãe, Desidério era obrigado a confessar que ela não podia competir com o original da foto.
Sem dúvida, Dagmara era a filha daquela mulher encantadora, que seu pai nunca conseguiu esquecer, que foi acompanhada para o túmulo pelo conde Helfenberg e que foi tão amada por Detinguen que, em sua homenagem, adoptou a filha do seu rival.
Por fim, ele deixou a foto de lado e abriu as cartas.
Inicialmente, leu uma série de bilhetes que eram assinados ou por Edith ou pelo seu pai.
Esses bilhetes estavam cheios de frases de amor, alegria e esperança de felicidade próxima.
Depois, vieram duas longas cartas.
Numa delas, o barão era sutilmente repreendido pelo silêncio e longa ausência; a outra carta estava cheia e acusações directas.
“Gunter, já faz três semanas que você não aparece e nem dá notícias o que acontece?
Será que você está doente, ou ocupado com os negócios, ou devo acreditar no que todos estão falando e eu própria já começo a desconfiar, mesmo me envergonhando disso?
Será verdade que você está se vendendo a Helena, que sempre teve inveja da minha felicidade e recorre aos mais baixos truques para possuí-lo?
Será que você esqueceu as juras de amor a mim e colocou à venda o seu coração!?
Ainda não estou certa disso, Gunter, mas cuidado!
Se o seu silêncio continuar, vou expulsá-lo do meu coração, como um patife e vagabundo que, em vez de conseguir a própria independência através do trabalho, está se vendendo à uma criatura traiçoeira que você não ama, só para conseguir luxo e conforto.
Se isto for verdade, então vá viver com a mulher que o comprou, e eu invoco sobre você o castigo dos céus.
Que seja esmagado pelo cabresto que você próprio vestiu.”
Respirando pesadamente, Desidério abriu o último bilhete, que continha somente algumas linhas:
“Barão, estou devolvendo, junto com o bilhete, as suas cartas mentirosas juras de amor e a sua foto, que, por direito, pertence à sua futura esposa.
Tenha a bondade de devolver a minha foto, pois não quero que ninguém a tenha, além do meu noivo, o barão Detinguen”.
Com as mãos trémulas, Desidério pôs de volta na caixa todas aquelas lembranças do drama secreto, guardando-a novamente no compartimento oculto do armário.
Ele decidiu não falar à mãe sobre aquilo, mas a imagem dela, em seu espírito, manchou-se consideravelmente.
Ela, através de intrigas, roubou o noivo da amiga, enquanto ele – seu pai – vendeu-se para a infelicidade de ambos e a maldição de Edith o perseguia.
Ele, então, para calar o arrependimento e a consciência, irreflectidamente levava uma vida desregrada, e, num choque de insanidade, gastava a fortuna pela qual sacrificou a sua felicidade.
Depois, o pensamento de Desidério passou para Dagmara.
Agora ele não mais se surpreendia com a repugnância que a baronesa tinha pela filha de sua rival e também compreendia o amor do pai por aquela menina.
O retrato vivo daquela que ele perdeu por sua própria culpa.
Para Desidério, a jovem deixou de repente de ser estranha e lhe parecia que certos nós secretos os uniam.
Ele foi tomado de uma incontida vontade de ver seu rosto encantador e os maravilhosos olhos – límpidos e claros – cujo olhar desvanecia quaisquer maus pensamentos.
Depois começou a pensar em Berta Domberg.
Não, ele não iria casar-se com ela – isto estava definitivamente decidido – mas cortar de repente as relações com a ex-dançarina era difícil e arriscado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:22 pm

Raciocinando friamente, Desidério decidiu afastar-se paulatinamente.
Ele nunca duvidou que, apesar de todos os cuidados, tal ofensa aos Domberg lhe custaria a vaga de ajudante-de-ordens.
Entretanto, a sua revolta era tão grande, que ele decidiu ser firme e soltou um pesado suspiro, dando adeus às esperanças que se desvaneciam.
Mas certo dia, o príncipe-herdeiro, uma criança de quatro anos, de repente, adoeceu perigosamente de pneumonia.
Foram chamados os melhores médicos e tentados todos os meios indicados pela ciência, sem resultado.
A doença da criança piorava a cada hora e os médicos finalmente declararam que não havia qualquer esperança de salvar o paciente.
O duque, que adorava o filho único, ficou desesperado, enquanto que Luísa-Adelaide – mulher superficial e volúvel, que usava o seu amor maternal como um novo enfeite – enlouquecia, chorava, gritava e desmaiava, deixando as pessoas próximas sem saber o que fazer com ela.
Desidério também participava activamente dos acontecimentos.
Desde a manhã, ele tivera uma ideia que não se decidia expor.
Mas, quando o desesperado e mortalmente pálido duque saiu do quarto do filho doente e declarou que não havia mais esperanças, o barão decidiu-se.
— Vossa Alteza! – disse ele, cordialmente.
Desculpe-me por ousar importuná-lo nesta difícil hora, mas considero minha obrigação lembrar-lhe que por perto mora um homem cujos conhecimentos incríveis e secretos aparentemente possuem forças desconhecidas.
Estou me referindo ao barão Detinguen.
Permita-me consultar o barão, já que os sábios doutores reconheceram-se incapazes de salvar a valiosa vida do herdeiro do trono.
O duque levantou-se rapidamente e seus olhos brilharam.
Ele se agarrou àquela fraca luz de esperança, como um afogado se agarra a qualquer palha.
— Mas é claro!
Agradeço-lhe, Vallenrod, pelo sábio conselho.
Meu Deus, como não me lembrei disso?
E agora, meu amigo, não perca um minuto: mande preparar a carruagem e vá buscar Detinguen.
Se necessário, fustigue os cavalos!
Já passava da meia-noite, quando a carruagem com os cavalos exaustos e cobertos de espuma branca estancou diante dos portões fechados da Vila Egípcia.
Foi difícil convencer o velho porteiro a deixar entrar um visitante àquela hora tão imprópria, mas o nome do duque funcionou tanto com o porteiro como com o mordomo e, minutos depois, Desidério foi levado ao gabinete de Detinguen, onde, em poucas palavras, transmitiu o pedido do duque, implorando ao barão vir imediatamente ao palácio, pois o infeliz pai depositava nele todas as esperanças.
Detinguen concordou sem pestanejar.
Vestindo-se rapidamente, colocou numa grande caixa alguns frascos com tampas douradas, caixinhas com pós, maços de ervas secas, um recipiente de porcelana, velas de cera e um pequeno tripé.
Depois, seguiu Vallenrod, que insistia em carregar a valiosa caixa que despertou nele um vivo interesse.
Quando Detinguen chegou ao palácio, o duque andava impacientemente pelo gabinete.
— Agradeço a sua vinda! – disse, apertando-lhe a mão.
E, sem esperar pela resposta, levou o barão ao quarto do doente.
Lá, em volta da cama da criança, estavam as babás e algumas pálidas e desconsoladas damas.
O médico havia saído do quarto para atender à duquesa, que tivera um ataque de nervos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:22 pm

Detinguen debruçou-se sobre a cama do doente e o duque, ao ver a criança deitada, imóvel e mal respirando, virou-se e exclamou, com voz contida:
— Ele está morrendo!
— O senhor me chamou tarde demais – observou Detinguen, tocando a cabeça, o peito e os braços da criança doente – mas, mesmo assim, não acho a cura impossível.
Só que pediria a vossa alteza e a todos os presentes para saírem do quarto, deixando-me a sós com a criança e o barão de Vallenrod, que não se oporá em me ajudar quando for necessário.
O duque saiu imediatamente, levando consigo todos, inclusive as babás, e Detinguen ficou sozinho com Desidério, extremamente interessado no que iria acontecer ali.
O barão abriu a caixa e, enquanto retirava de lá dois frascos e uma caixinha, pediu a Vallenrod para encher uma bacia com água, colocar os carvões que trouxeram sobre o tripé e acendê-los.
Quando isto foi feito, o barão jogou na água um pedaço de uma substância vermelha e adicionou algumas gotas de um líquido incolor.
O tripé foi colocado na cabeceira da cama da criança doente e Detinguen jogou sobre os carvões uma porção de erva e algumas pitadas de pós de diferentes cores que retirou de diversos saquinhos de seda.
A erva acendeu-se, estalando, iluminando o quarto e espalhando um forte, resinoso e vivificante odor.
Molhando um pedaço de tecido com a água, que assumiu uma coloração rósea, Detinguen enxugou o rosto e todo o corpo da criança.
Por um minuto, Detinguen ficou observando a criança doente e, em seguida, acendeu aos pés da cama o candelabro de sete velas, elevou os braços sobre a criança e estancou.
O barão estava de costas para Desidério, mas este, de repente, sentiu uma grande fraqueza nas pernas.
Depois foi dominado por tal sonolência que se sentou na poltrona e encostou a cabeça, pesada como chumbo no seu espaldar.
Mais tarde, Desidério não soube dizer se dormiu ou quanto tempo demorou aquele estado de torpor.
Quando voltou a si, sentiu frio e lhe pareceu que um vento soprava sobre ele, como se a janela do quarto estivesse aberta.
Essa sensação desapareceu rapidamente e toda a sua atenção concentrou-se sobre Detinguen, que se debruçava sobre o enfermo, colocando em sua boca colheradas da mesma água rósea que havia passado em seu corpo.
Naquele momento o barão levantou a cabeça e fez-lhe um sinal para aproximar-se.
Vallenrod ficou surpreso ao ver que a palidez mortal da criança havia desaparecido, uma abundante transpiração cobria todo o corpo e a respiração regular indicava um profundo sono.
— Sim, ele está dormindo!
Agora não há mais perigo.
Efectuou-se uma reacção completa – respondeu Detinguen à muda pergunta estampada nos olhos de Desidério.
Entretanto, chegamos no momento exacto.
Se tivesse passado uma hora a mais, eu nada poderia fazer – acrescentou com um sorriso.
— Que ciência fantástica!
Como deve ser maravilhoso ter o poder de salvar a vida humana e secar as lágrimas de infelizes! – murmurou Desidério, apertando calorosamente a mão do barão.
No rosto de Detinguen apareceu um claro e triste sorriso irónico.
— Meu entusiasmado rapaz, então foi sua a ideia de trazer-me até aqui?
E com isso prestou-me um péssimo favor!
Não há rosas sem espinhos e, agora que salvei a criança, sobre mim irá desabar toda a multidão de médicos.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:22 pm

Com raiva da própria incapacidade, eles começarão a inventar mentiras e calúnias para denegrir a verdadeira ciência – a ciência que eles desprezam e afastam, mas que é a única a fazer milagres e que realmente dá armas e forças aos seus servos dedicados para lutarem com sucesso contra a morte.
— Mas o acontecido desta noite mostrou claramente a ignorância deles, para ousarem falar muito – respondeu Vallenrod, ajudando Detinguen a guardar na caixa os objectos trazidos.
Terminado isso, o barão abriu a porta do quarto contíguo.
O casal real estava a sós.
A jovem duquesa, que chorava silenciosamente, levantou-se imediatamente da poltrona e quis ver o filho, mas Detinguen segurou-a pelo braço.
— Silêncio, vossa alteza!
O seu filho está salvo, mas o organismo está tão abalado que precisa de repouso absoluto.
— Podemos nos aproximar em silêncio e olhá-lo? – perguntou o duque.
— Sem dúvida!
Vão e vejam que o pequeno príncipe não corre mais nenhum perigo.
Após ver a criança, o duque, extasiado e radiante, aproximou-se de Detinguen e abraçou-o fraternalmente.
— Não encontro palavras para expressar-lhe a minha gratidão – disse ele emocionado.
O senhor prestou-me um favor que não tem preço.
Não esqueça que eu sou seu devedor por toda a vida!
— As suas palavras são para mim o pagamento mais do que suficiente pelos meus esforços.
Mas permita-me, vossa alteza, fazer mais uma última prescrição sobre o enfermo.
Pegue este frasco; seu conteúdo deve ser diluído em água e dado à criança para beber assim que ele acordar.
— Pode me dar!
Farei isso eu mesmo! – disse o duque, feliz.
Confirmando as previsões de Detinguen, os médicos não ficaram muito entusiasmados com a rápida e boa recuperação do pequeno príncipe.
Ofendidos e irritados, ficaram pensativos em volta da cama da criança.
Mas como admitir que uma ciência diferente da deles havia conseguido aquele milagre?
— Eu bem que avisei a sua alteza que no organismo da criança sempre se escondem forças desconhecidas! – observou venenosamente o médico-chefe.
E o seu colega, professor Hente, acrescentou com empáfia:
— E eu não previ que haveria uma crise e que ela poderia ser benigna?
Em todo caso, agora será fácil curar completamente a criança.
Quando estas palavras chegaram aos ouvidos do duque, este desandou a rir e contou isto a Detinguen, que fez mais algumas visitas ao seu pequeno paciente, que se recuperava rapidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jun 30, 2016 8:22 pm

VII

Cerca de três semanas após estes acontecimentos, chegou o dia de aniversário do príncipe herdeiro e o casal real resolveu comemorar festivamente o seu restabelecimento.
Detinguen ficou extremamente surpreso ao receber o enviado especial, que entregou para ele e sua filha o convite para a festa.
O bilhete da duquesa, que acompanhava o convite, era tão amável e carinhoso que era praticamente impossível recusar.
Mas esta honra pouco agradava ao barão.
Absorto em seus estudos, ele desprezava a sociedade.
Já Dagmara ficou entusiasmada e aguardava com impaciência o dia em que diante dela finalmente abrir-se-iam as portas daquele mundo desconhecido que ela tanto queria conhecer.
E quando, no dia da festa, Dagmara entrou saltitante no gabinete de Detinguen para mostrar a sua linda roupa nova, ele olhou-a com amor e um indescritível ar de tristeza. O infortunado e distante passado acordou em sua memória.
Diante dele dançava Dagmara, feliz e orgulhosa de sua beleza, mostrando o seu vestido de seda de cor azul-clara, bordado com rendas brancas e buquês de miosótis e uma coroa dessas flores enfeitando seus lindos cabelos negros e cacheados.
— Você está adorável, minha pequena coquete! – disse Detinguen com um bondoso sorriso.
Mas, ainda falta algo no seu traje.
Espere que eu vou completá-la.
Ele abriu a gaveta da escrivaninha, retirou de lá um estojo e entregou-o a Dagmara.
Ela abriu impacientemente o estojo, soltou um grito de felicidade ao ver um maravilhoso colar de pérolas orientais e pulou ao pescoço do barão num impulso de gratidão.
Este balançou a cabeça, perguntando:
— Não me diga que você dá tanto valor a este enfeite?
— Isto não é um enfeite, papai, mas uma coisa maravilhosa e cara!
Quando se entra na sociedade, então é agradável enfeitar-se.
Além disso, você sabe como eu gosto de pérolas.
No palácio, a jovem duquesa recebeu a adolescente condessa Helfenberg com especial atenção.
A duquesa propôs a Dagmara participar do bazar e pediu a autorização de Detinguen.
O barão foi obrigado a concordar, percebendo o olhar indócil e suplicante da filha adoptiva e o fez com um profundo suspiro.
Pensativo, encostou-se a uma coluna e ficou observando os presentes entretidos em animada conversa.
Ele se sentia mal, o ar parecia pesado e sufocante no meio daquela festiva e barulhenta multidão, envolta em interesses vulgares.
Olhava com tristeza para Dagmara, sua pupila e filha em espírito, educada na pura atmosfera da ciência e do saber superior.
Enquanto isso, parado à pequena distância da festiva e barulhenta reunião, Desidério não tirava os olhos dela, aparentemente inebriado com o estranho encanto que transbordava de todo o seu ser.
Realmente, Dagmara destacava-se sobremaneira de outras jovens e adolescentes, pálidas, cansadas e descoradas, pela cor brilhante do seu rosto, seu extraordinário frescor e pela mente desenvolvida que fulgurava em seus olhos.
De repente, Detinguen estremeceu e o seu olhar preocupado começou a passar de Desidério para Dagmara e de volta.
— O que são estas correntes que se entrecruzam entre eles?
Seriam traços análogos em suas frontes?
Ou reflexos indicativos de relações que aconteceram em outras vidas? – pensou ele.
Repentinamente, ele foi tomado por um forte desejo de ir embora e levar Dagmara consigo, livrando-a da influência daquele novo ambiente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:49 pm

Mas, imediatamente, suspirou e baixou a cabeça.
— Imbecil!
Como ouso tentar livrá-la do seu destino, destas poderosas correntezas que irão despojá-la de suas ingénuas ilusões?
Minha pobre Dagmara!
Você estará só entre esta multidão que irá odiá-la se não conseguir arrastá-la para a própria imundície e rebaixá-la ao seu nível.
Mas, quem sabe?
Pode ser que ela algum dia me critique por ter-lhe dado tanto poder de assimilação e perspicácia, colocando-a intelectualmente acima do ambiente em que terá de viver.
Tomado por uma vaga sensação de perigo, o barão saiu da pequena sala de estar e, aproveitando o momento certo, despediu-se alegando cansaço e saiu do palácio levando consigo Dagmara.
Como o barão já havia pressentido, a sua visita à corte abriu uma brecha e agora ele já não poderia enclausurar-se como antes.
Já Dagmara transformou-se em assídua frequentadora do círculo da corte.
Certa vez, ao voltar para casa, ela contou a Detinguen tudo o que ouviu e acrescentou:
— É surpreendente como todas aquelas pessoas só pensam em casamento!
Não importa o assunto que comecem, ele sempre acaba no casamento.
Há alguns dias, a duquesa começou a perguntar-me se estou apaixonada por alguém e de quanto será o dote que você dará por mim.
Parecia um interrogatório!
Eu ri e respondi que você ainda não expressou vontade de vender-me e penso que dificilmente eu poderia ser comprada.
— Bravo, minha querida! – respondeu Detinguen, puxando Dagmara para si e beijando-a na testa.
Você respondeu muito bem!
Só o pensamento de que alguém poderia casar com você só pelo dinheiro já me estremece o coração.
Como poderia haver felicidade entre um casal que está ligado pelo cálculo e não pelo amor?
Você está entrando no mundo, minha pobre criança, e na sua idade o amor é muito traiçoeiro; portanto, seja cuidadosa, cuide bem do seu coração e não confie nas pessoas.
Você ainda não sabe como são espiritualmente maléficos aqueles senhores jovens de corpo mas velhos de coração e quanta impiedade, egoísmo e vícios se ocultam sob a delicada aparência do homem “mundano”!
Você é bela demais para não atrair a atenção dos homens, que em sua maioria estão acostumados a vitórias fáceis.
Assim, ao deparar-se com a sua virtude, um desses homens poderá casar facilmente com você; mas ele indubitavelmente irá vingar cruelmente a própria derrota.
Você pagará caro pela aquisição de sua valiosa pessoa e terá uma amarga desilusão quando retirar a máscara do rosto jovem e atraente que esconde a careta de sátiro.
Tudo isto irá causar-lhe grande sofrimento.
Então, repito, seja cuidadosa.
Dagmara ficou cabisbaixa.
É difícil relacionar-se num mundo de desconfiança e enxergar inimigos em todos à sua volta.
E se aqueles pontos de vista foram sugestionados pela desilusão e desconfiança próprias da velhice?
Naquele instante, Saint-André entrou no quarto.
Ele estava muito pálido.
Pelo seu semblante e olhar perdido, percebia-se que ele ouvira as palavras de Detinguen, e este perguntou com um sorriso:
— O senhor ouviu a nossa conversa?
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:49 pm

O conde enrubesceu, mas respondeu sem vacilar:
— Sim... e peço encarecidamente desculpas pela minha indiscrição.
Durante alguns minutos ouvi suas palavras que, infelizmente, foram mais do que justas.
Não passei eu próprio por todos os abismos do vício quando a vossa benfeitora mão me arrancou desta lama?
Mas, parece-me que o senhor exagera os perigos que podem ser encontrados neste nosso, infelizmente, depravado mundo.
As bases morais e a imaculada pureza da alma da condessa Dagmara irão protegê-la contra quaisquer fraquezas; seu orgulho, energia e o intelecto extraordinariamente desenvolvidos, estarão de guarda contra quaisquer erros.
Mesmo que digam que o amor tudo perdoa e suporta, condessa, estou convencido de que a senhorita deixará imediatamente de amar uma pessoa que não pudesse mais respeitar!
Ele se inclinou e seu olhar penetrante tocou os claros olhos de Dagmara, que o olhava pensativa.
Detinguen balançou a cabeça e uma estranha expressão soava em sua voz quando ele observou:
— A vida, meu querido Phillip, é cruelmente zombeteira!
Ela costuma nos provar toda a nulidade das nossas posturas, obrigando-nos a assumir a mais repulsiva para nós; a pessoa que desdenha a traição, a vida com certeza a ligará à dita traição; e o orgulhoso – ela com certeza obrigará a curvar-se precisamente diante de quem este despreza.
A vida, com esperteza diabólica, obriga-nos a suportar aquilo que condenamos com nosso espírito e intelecto.
— Eu admito, papai, que no geral você está certo e a nossa fraqueza humana frequentemente nos obriga a negociar com a consciência – disse Dagmara com animação.
Mas, na minha opinião, existem circunstâncias em que tais fraquezas são inadmissíveis; por exemplo:
não se deve casar com um homem que se despreza, mesmo se, por infelicidade, apaixonar-se por ele.
Isto, aliás, é impossível, pois o amor se baseia no respeito e ambos são inseparáveis.
— Mas, condessa, a senhora está esquecendo que existe um ditado popular que diz que o amor tudo suporta e perdoa – observou o conde Saint-André.
— Mas não a traição e nem vícios.
Uma mulher direita deveria renegar toda a sua base moral para apaixonar-se por tal homem.
— Percebe-se agora, Dagmara, que você nunca se apaixonou e não conhece este sentimento poderosíssimo que quebra todos os nossos princípios, como se fossem gravetos e nos submete à sua vontade, sem perguntar se gostamos disso ou não.
É nas uniões matrimoniais que impera esta lei incompreensível, criando surpreendentes situações e gerando uma atracção irresistível entre pessoas que tudo parece separar e, mesmo assim, eles, frequentemente contra a própria vontade, continuam atados um ao outro.
O mais tragicómico é que ambos imaginam estar agindo livremente.
Das desconhecidas profundezas do seu ser, surgem os auxiliares do destino que criam ilusões e incutem esperanças que nunca se realizarão, mas que inexoravelmente conduzem ao objectivo estabelecido pelo incompreensível e impiedoso destino.
Como resultado, é muito comum vermos pessoas de bem casarem com pessoas devassas e mulheres puras como anjos virarem esposas de egoístas depravados que não sabem amá-las nem dar-lhes o devido valor.
— Ouvindo você, papai, eu sinto calafrios!
Mas, apesar de suas agourentas palavras, eu me permito ignorar o destino e declarar que só vou casar com o homem ideal!— exclamou Dagmara, com uma sonora risada.
— Tome cuidado!
Pois o destino, só por castigo, pode arranjar-lhe como marido o mais imprestável dos idiotas – respondeu alegremente Detinguen.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:50 pm

Todos riram.
Depois a conversa derivou para outros assuntos e não podia deixar de fora o baile de máscaras, que era a coqueluche do momento.
Dagmara contou que, para aquele baile, a duquesa inventou uma loteria na qual seriam sorteados os homens e a dama que ganhasse o cavalheiro designado a ela pelo destino teria de ficar a festa toda com ele.
— Aí está a oportunidade para você testar a jocosidade do destino.
Se ela escolher para você algum notório pândego como o barão de Vallenrod – observou Detinguen.
— Ah, não! Eu prefiro o Heiguenbriuk – retrucou Dagmara, às gargalhadas.
Os interlocutores a acompanharam, pois ela se referia a um rapaz louro, rosado, imberbe e extremamente tímido, apelidado de “querubim”.
Finalmente, chegou o dia da festa.
O grande salão de recepções do palácio foi transformado num fundo de oceano.
Nas paredes colocaram-se quadros com longínquas paisagens oceânicas.
Em todos os cantos viam-se estranhas grutas, gigantescos galhos de corais e enormes algas marinhas.
Por toda a sala foram distribuídas cadeiras em forma de rochas e conchas que foram sendo ocupadas pelos convidados, trajando as mais estranhas fantasias.
Somente o duque e sua mãe, sentados na primeira fileira, contentaram-se com uma simples fantasia de “dominó”.
O fundo do salão estava oculto por uma cortina que estampava ondas do mar e, quando ela foi levantada, apareceu um mágico e peculiar quadro vivo que provocou frenéticos aplausos.
De um lado do cenário, havia uma galera espanhola de popa em madeira trabalhada e dourada.
A galera estava tombada de lado, com o casco arrebentado.
A tripulação, vestida com trajes pomposos da época de Velásquez, estava dispersa em poses pitorescas por entre os escombros de mastros e cordames.
Algumas sereias pareciam vagar por entre os afogados, examinando-os com curiosidade.
Em frente ao navio destroçado, sobre um tablado alto, estava o trono da rainha do mar, que era interpretada pela própria duquesa.
Ela estava inteiramente enrolada em gaze e sobre a sua cabeça havia uma coroa de flores com lâmpadas eléctricas ocultas; os raios de luz reflectiam no fundo róseo da concha que servia de trono.
As sereias formavam belos grupos em volta e aos pés de sua rainha.
Este belo quadro foi iluminado em sequência com fogos de artifício brancos, amarelos, azuis e verdes.
De repente, as figuras, até então imóveis, adquiriram vida; as ninfas e sereias, como uma revoada de borboletas, espalharam-se pelo navio e começaram a retirar dele diversos objectos, que colocavam sobre rochas e folhas de enormes flores.
Quando o bazar ficou pronto, a rainha desceu do trono e, por mímica expressiva, deu a entender que convidava para a festa todos os habitantes das profundezas e, através de sorteio, escolheria os cavalheiros para as suas damas.
A seu sinal, os pequenos delfins trouxeram dois vasos:
num deles estavam nomes masculinos, no outro – os femininos.
A duquesa retirava um bilhete de cada vaso e dois tritões, ao som das trombetas, anunciavam os nomes dos pares que ficariam unidos por toda a festa.
Começou uma divertida procissão que provocou a gargalhada geral.
Diante dos convidados, passavam solenemente polvos, tartarugas, peixes de todos os tipos e até esponjas.
Oferecendo o braço às encantadoras sereias, eles conduziam-nas ao centro do salão e enfileiravam-se para dançar a “polonaise” que abriria o baile.
Os afogados foram distribuídos por último e um deles foi sorteado para Dagmara.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:50 pm

Ao ouvir o nome de Desidério, o rosto encantador da sereia enrubesceu e ela, emocionada, aproximou-se do seu afogado.
À ordem da rainha, ela e suas colegas deveriam ressuscitar as vítimas do desastre.
Muitos obedientemente ressuscitavam, como por exemplo, o “querubim”, que se levantou rapidamente mal a dama lhe encostou um dedo; mas muitos, e entre eles, Desidério, insistiam em não ressuscitar por mais que as sereias constrangidas insistissem.
A duquesa, que naquela noite estava muito alegre, ria até as lágrimas, e finalmente, ordenou:
— Para estes cadáveres teimosos devem ser tomadas medidas extremas!
Edda, Rosa e Hermínia, beijem a testa dos pobres afogados.
Este fluido vivificante irá obrigá-los a ressuscitar.
As jovens inicialmente ficaram encabuladas.
Mas logo a jovem condessa Edda von-Raven, dengosa e excêntrica, decidiu-se rapidamente e encostou os lábios nas negras mechas de cabelo do seu cavalheiro, que imediatamente abriu os olhos e, de joelhos, beijou o vestido e depois a mão de sua encantadora salvadora.
As outras sereias, seguindo o exemplo, ressuscitaram rapidamente os seus afogados.
Somente Desidério permanecia deitado, inerte e Dagmara, agitada, debruçou-se sobre ele, indecisa.
Ela percebia que um vacilo prolongado poderia comprometê-la, pois aquela simples brincadeira adquiriria um significado mais profundo.
Mesmo assim, ela não conseguia decidir-se e um estranho sentimento de repulsa passou em sua alma.
De repente, ela teve uma ideia.
Pegando rapidamente o seu leque de penas, fez com ele uma leve cócega nas narinas do barão.
E, imediatamente, um forte espirro anunciava que o último afogado fora ressuscitado.
Na sala houve uma explosão de gargalhadas, e o duque gritou alegremente:
— Bravo, fada Viviana!
É isto que eu chamo de saída diplomática de uma situação crítica.
Só Desidério não conseguia rir: o seu amor-próprio foi ferido e ele ficou numa situação ridícula diante dos presentes.
E foi derrotado por aquela insolente garotinha!
Mas ele era demasiadamente mundano e experiente dissimulador para demonstrar a raiva que o sufocava e, por isso, foi o primeiro a rir e rapidamente pôs-se de pé.
— Condessa, a senhorita fica me devendo – disse alegremente, beijando a mão de Dagmara.
E ela nem suspeitava que o tom seco e as veias inchadas na testa eram sinais de profunda ira; Dagmara também não percebeu o seu olhar venenoso e pungente enquanto conversava com as damas.
Terminada a primeira dança, Desidério deixou a sua dama e o resto da noite tratou-a friamente, insistindo em cortejar a filha de um diplomata estrangeiro.
Inicialmente Dagmara ficou chateada e sentiu-se ofendida, apesar do seu sucesso com outros cavalheiros que, um atrás de outro, convidavam-na para dançar.
O mais ardoroso dos fãs era Fritz Domberg.
Desidério, apesar da raiva, não perdia de vista a dama que abandonou e ficava especialmente aborrecido com a corte de Domberg.
Ele desprezava o jovem colega pela sua origem e sempre teve em relação a ele uma frieza contida, o que os mantinha afastados.
Dagmara captou um desses olhares de desprezo, mas a baronesa Shpecht, sentada perto dela também era muito observadora.
Enquanto Domberg foi buscar sorvete, ela comentou, rindo, com a vizinha:
— Parece que Vallenrod ainda não perdoou Domberg.
— Mas eles estão brigados? – surpreendeu-se Dagmara.
— Não, mas Domberg roubou dele uma actriz de circo.
Fritz Domberg é rico, enquanto Desidério é obrigado a pagar mais com sentimentos do que com o bolso.
Os homens não esquecem tais coisas.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:50 pm

VIII

Passaram-se seis semanas desde o baile de máscaras.
Dagmara continuou a visitar a corte, mas com menor assiduidade.
Ela voltou aos seus estudos e a sociedade mundana desiludiu-a de tal forma que, de tempos em tempos, ela própria se surpreendia com isso.
Domberg continuava a cortejá-la e, aparentemente, procurava uma oportunidade para apresentar-se a Detinguen.
Já Desidério só apareceu uma única vez na vila, numa visita oficial como enviado da duquesa.
Tal era a situação quando ocorreu algo inesperado.
Detinguen e a filha trabalhavam na torre, no quarto cujas janelas davam para a estrada que levava à cidade.
De repente, Dagmara olhou pela janela e exclamou.
— Santo Deus!...
Pai, veja!...
Um cavalo disparou e está arrastando o cavaleiro.
Ambos correram para a janela e viram como os outros dois cavaleiros tentavam em vão alcançar o cavalo raivoso.
De repente, dos portões da vila surgiu um homem, segurou as rédeas que se arrastavam pelo chão e agarrou-se ao pescoço do cavalo.
Alguns instantes depois, o animal estancou.
O salvador era o jovem cavalariço de Detinguen e os dois cavaleiros – oficiais hussardos que, apeando dos cavalos, aproximaram-se do colega ensanguentado e com uniforme rasgado:
a sua perna ainda estava presa ao estribo.
Detinguen e Dagmara desceram rapidamente da torre.
Quando saíram ao portão, o ferido já tinha sido levantado e colocado no banco de jardim.
Um dos oficiais segurava-o enquanto o outro enxugava o seu rosto ensanguentado.
— É o barão Vallenrod!
Oh, meu Deus! Ele morreu!... – exclamou Dagmara com dó.
Enquanto Detinguen dava as ordens necessárias para levarem o ferido para dentro de casa, um dos jovens oficiais contou a Dagmara que eles acompanhavam Desidério ao pavilhão de caça, a serviço do duque e o barão montava um cavalo que comprara havia poucos dias.
Todos aconselharam-no a não montá-lo, pois até o antigo dono não escondia o forte temperamento do animal.
Desidério, entretanto, contando com a sua perícia e experiência de ginete, caçoou de todos os avisos.
E, realmente, durante um certo tempo o cavalo se comportou bastante bem.
Mas no caminho de volta do pavilhão, o cavalo se assustou repentinamente com o vendedor de panelas de ferro e disparou sem obedecer às esporas nem ao chicote.
Depois, com um salto inesperado para o lado, jogou o cavaleiro para fora da sela e arrastou-o consigo.
O ferido foi colocado num dos quartos no andar térreo; e enquanto o despiam, Dagmara correu até o gabinete do pai para preparar os unguentos e faixas.
Detinguen descobriu na cabeça de Desidério uma profunda e perigosa fenda; ele também estava com o braço e a perna deslocados e o corpo coberto de arranhaduras, fendas e machucados.
Balançando a cabeça, Detinguen começou por recolocar no lugar o braço e a perna, enfaixou a cabeça e cobriu o corpo do paciente de compressas.
Terminando o trabalho, pediu aos oficiais que voltassem imediatamente à cidade para chamar os médicos e também providenciar a transferência do ferido para a casa dele.
— Eu fiz tudo o que dependia de mim para prevenir uma perigosa infecção.
O resto é trabalho de médicos e da mãe do ferido – acrescentou o barão, apertando as mãos dos oficiais, que agradeceram calorosamente a sua ajuda.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:50 pm

O ferido caiu num pesado coma, respirando com dificuldade e por vezes emitindo gemidos de dor.
Detinguen, de cenho franzido, andava pelo quarto, enquanto Dagmara preparava calada uma beberagem refrescante, por vezes olhando para o ferido com profunda compaixão.
Toda vez que Detinguen reparava naqueles olhares, ficava ainda mais taciturno.
O acontecido não lhe agradava nem um pouco.
Como médico, ele compreendia perfeitamente que transferir o ferido para a cidade era praticamente impossível e, por outro lado, não queria deixá-lo em casa por causa de Dagmara, cujo coração juvenil poderia criar um perigoso afecto pelo paciente.
Desidério era suficientemente belo para agradar a uma mulher e suficientemente vaidoso e superficial para aproveitar o tempo de convalescença e conquistar o coração de sua bela enfermeira.
Aquilo seria uma agradável diversão para ele, mas para Dagmara seria uma amarga desilusão, pois ela era demasiado pobre para que aquele digno representante da “dourada” juventude, narcisista, depravada e avarenta casasse com ela.
Envolto em seus pensamentos, Detinguen sentou-se junto à mesa onde a moça continuava a preparar a beberagem e, de repente, o corpo do barão começou a tremer; sua cabeça foi jogada sobre o espaldar da poltrona e a sua respiração ficou pesada e intermitente.
Dagmara debruçou-se sobre ele, assustada.
Ela já conhecia aquele estranho estado do barão, quando diante dele abria-se uma visão do futuro e de seus lábios saíam palavras proféticas.
Naquele instante Detinguen arregalou os olhos penetrantes e vítreos e, agarrando a mão da moça, murmurou surdamente:
— Não tenha pena dele!
Tenha cuidado com o homem que está deitado lá, semimorto, para que ele não seja fatal para você!
Seria melhor que ele tivesse morrido do que cruzado o seu caminho!
E eu já não estarei mais aqui para protegê-la...
Ah! Se fosse possível saber de antemão todos as obscuras voltas do destino – o ser humano conseguiria fugir deste abismo que o atrai como o fogo que atrai as borboletas e as queima.
Dagmara, pálida e trémula, ouvia essas entrecortadas mas significativas frases e naquele momento sentia um quase ódio por Desidério.
Às vezes este sentimento estranho e inexplicável ilumina o espírito do homem como um raio que ilumina o céu, alertando sobre a ameaça de perigo e obrigando a tremer de medo diante do desconhecido.
Mas o homem acredita somente naquilo que ele próprio quer e só se lembra do raio profético quando o trovão ribombar e a tempestade se desencadear sobre ele, como castigo por ignorar o aviso do destino.
Tal tipo de raio reforçou a vaga desconfiança e a surda repulsa que por vezes despertava no espírito de Dagmara a presença de Desidério.
Era algo indefinido, quase um sentimento de ódio.
— Pai! – dizia ela, encostando os lábios na mão de Detinguen, quando ele estremeceu e endireitou-se.
Eu nunca vou me separar de você!
Nunca vou amar ninguém e nem casar com o homem que você diz ser fatal para mim e que irá nos separar!
Sem nada responder, Detinguen abraçou-a carinhosamente.
Algumas horas depois, chegou o cirurgião da corte acompanhado de outro médico e uma enfermeira.
Mas o estado de Desidério piorava nitidamente e, após um cuidadoso exame, ambos os “homens da ciência” declararam que o seu estado era irremediável.
— Eu não sou médico, mas me parece que ele pode ser salvo – observou Detinguen.
O cirurgião-chefe sorriu com desdém.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:51 pm

— Dizem que o senhor é um mago.
Pode ser, barão, que a sua ciência “misteriosa” consiga parar a inclemente morte que bate à porta deste quarto, mas nós – simples mortais – devemos reconhecer a nossa incapacidade de salvar este jovem.
O crânio está fendido e a perda de sangue é enorme; portanto, tudo aponta para uma inflamação cerebral, cujo resultado será fatal.
Vejo-me na obrigação de avisar a baronesa Vallenrod sobre o estado desesperador de seu filho.
Dar-lhe esperanças significaria somente reforçar o choque que a espera.
— A baronesa está viajando.
Mas o conde Saint-André comprometeu-se a avisá-la do infeliz acidente assim que ela voltar, hoje à noite – acrescentou o outro médico.
O dia transcorreu com dificuldade.
Desidério teve febre e delirava, contorcendo-se na cama.
Por vezes seus altos gemidos chegavam ao gabinete de trabalho onde Detinguen, preocupado, andava taciturno de um canto para outro, parando a cada vez que a voz do paciente chegava até ele.
Por fim, ele jogou-se na poltrona e fechou os olhos.
— Meu Deus!
O que fazer?
A vida deste homem está em minhas mãos.
Mas devo eu salvá-lo, sabendo que isto será fatal para Dagmara?
Meu Deus!
O destino cruel quis que ele quebrasse a cabeça diante dos meus olhos e trouxe-o para morrer justamente sob o meu tecto!...
Estou na posição de um homem que vê alguém se afogando e deixa-o morrer por não querer molhar as mãos.
Ah, minha ciência! Você, sabedoria de mago – que aceitei como benéfica – está pronta para fazer de mim um criminoso!
Por que fui ter este conhecimento fatal, que me condena a tal sofrimento?...
Por que não conservei a fé pura, a simples credulidade que tudo espera do Céu...
Sim, Reiguern estava certo:
somente a fé é que traz felicidade! Oh, Jesus – o mais misericordioso e sábio dos enviados divinos!
Somente agora compreendo a profundidade de Suas palavras:
bem-aventurados os puros de coração e os pobres de espírito!
O quarto ficou em silêncio por muito tempo, quebrado somente pelos profundos suspiros do velho.
De repente, Detinguen estremeceu.
Um sopro leve passou pela sua face e uma voz surda, como se chegando de muito longe, sussurrou-lhe ao ouvido:
— Você é um cego!
Em vez de perceber nisto uma provação, culpa a ciência; mas não esqueça que, em relação a esta última, você tem obrigações.
Seu dever é aplicar o conhecimento em todo lugar onde se deparar com alguém doente.
Detinguen permaneceu sentado imóvel, prestando atenção ao leve crepitar que se ouvia no quarto e que por instantes transformava-se num harmónico e longínquo badalar de sino.
A luz da lâmpada sobre a escrivaninha apagava-se aos poucos e o abajur azul-claro jogava profundas sombras e, perto da janela, começou a formar-se uma névoa fosforescente.
De repente, a pesada cortina da janela se abriu, deixando entrar um raio de luar que iluminou a esbelta figura de cera de um homem vestido de branco.
O rosto do estranho visitante, bronzeado e ostentando uma pequena barba negra e crespa, destacava-se por sua incrível beleza.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:51 pm

Os grandes olhos negros e penetrantes brilhavam tanto que era difícil suportar por muito tempo seu olhar; a mão transparente com finos dedos segurava as dobras macias, sedosas e finas de sua túnica; no seu dedo indicador havia um anel com uma pedra que brilhava como safira.
Ao vê-lo, Detinguen levantou-se e, com os braços em cruz, fez uma profunda reverência.
— Mestre!
Você veio pessoalmente para tirar-me as dúvidas?
Você sentiu a tristeza da minha alma?
Oh, diga-me, ordene!
Devo ou não, a serviço da ciência, executar este acto misericordioso e salvar o corpo já condenado à destruição?
O misterioso visitante balançou a cabeça.
— Não, não vim aqui para ordenar, mas sim conversar sobre as dúvidas que obscurecem seu espírito.
Você tem medo de accionar a “roda do destino” e colocá-la em movimento fatal?
É esta conclusão humana que o detém?
— Sim, mestre, pois prevejo consequências fatais para um ser que amo muito! – respondeu surdamente Detinguen.
Se o caso fosse somente comigo, não vacilaria em salvar a vida deste homem!
Mas você sabe que adquiri o conhecimento muito tarde e o meu corpo, desgastado pela idade, já não possui mais a força vital capaz de provocar a corrente poderosa que estanca e afasta o fluido destruidor da morte.
Você sabe quem eu devo utilizar para salvar o ferido.
Tenho eu o direito de utilizar a vítima para salvar o carrasco?
Tenho eu o direito de sacrificar uma criatura pura e inocente, cheia de nobres aspirações, para livrar da morte um homem egocêntrico, gélido de coração e estragado por influência da sociedade devassa, que provocará uma tempestade destruidora na vida de sua salvadora?
Mestre! Nos pratos da balança foram colocadas duas vidas e ambas têm direito à existência.
Mas qual delas devo condenar:
uma ao sofrimento, e a outra – à aniquilação?
Ordene, mestre, e pela força do seu saber superior, o seu servo irá obedecer-lhe!
O misterioso visitante novamente balançou a cabeça.
— Você se engana!
Eu não tenho o poder de decidir o destino das pessoas.
Eu próprio sou somente um servo das leis superiores que tudo dirigem.
Tal como você, eu também aceitei o lema:
“Aplique o conhecimento que lhe foi transmitido onde aparecer a ocasião!”.
Você prevê um futuro de sofrimentos e grandes provações para sua filha e acha que não tem o direito de sacrificá-la para salvar o seu futuro algoz?
Mas tem certeza de que ela é somente uma “vítima” e não uma “devedora”, condenada a pagar uma velha dívida?
Ou você se esqueceu das existências passadas e da terrível e implacável lei do Karma:
quem gera – com uma má acção – uma certa corrente cármica, deve arcar com as consequências.
Não é o acaso, mas a acção desta lei que colocou Dagmara frente a frente com o barão Vallenrod e juntou à sua volta todos os personagens do drama do passado no qual você também tomou parte.
Não tenho permissão para desvendar-lhe os pormenores do que se passou; mas saiba que você e sua filha jogaram na lama um homem que, ainda hoje, sente por você um surdo ódio, e neste corpo, ele adquiriu e desenvolveu muitas daquelas más qualidades que, actualmente, você lhe apregoa.
Por ódio e lucro vocês acabaram matando aquele que agora podem salvar.
Eu lhe proíbo qualquer alusão à sua filha sobre o que acabei de revelar-lhe!
Ela se aperfeiçoou no espaço e, antes de reencarnar novamente, decidiu redimir terminantemente a sua culpa para libertar-se do fardo do passado.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:51 pm

Mas a lei cármica é terrível pelo facto de nunca deixar a pessoa saber o que houve e o que irá acontecer, e esta é obrigada a extrair de dentro de si forças e compreensão para resolver o problema:
pagar o mal com o bem, amar aquele a quem odiava, sacrificar-se e superar o egocentrismo que provoca a indignação.
A pessoa, muitas vezes, não consegue suportar a sua provação; mas para Dagmara esta provação é atenuada pela sua compreensão do mundo invisível e da alta ciência que revela a lei que dirige os nossos destinos.
Não me diga que você é tão presunçoso que acredita ter forças para parar ou postergar a fatalidade?
Não se iluda!
O destino é inalterável.
Ele nos persegue como se fosse a nossa própria sombra, encontrando sempre para as provações tipos, situações ou ferramentas e gerando os sofrimentos necessários para a aniquilação da carne e a libertação do espírito dos grilhões corpóreos.
No lugar do perseguidor que você quiser eliminar, aparecerão outros dez.
O que está predeterminado deve realizar-se para que o espírito teste as forças adquiridas na sua luta perene.
Eu lhe contei.
Agora, você deverá julgar e decidir como cumprir a sua obrigação.
Você tem ainda três noites para decidir se deseja servir à ciência...
A luz do dia já se esgueirava através da cortina entreaberta da janela, quando Detinguen acordou do profundo sono.
Ele endireitou-se vagarosamente, enxugou a testa molhada de suor e encostou-se na mesa.
Nesse instante, chegou aos seus ouvidos o gemido surdo do ferido e ele estremeceu.
— Oh! Por que eu não permaneci ignorante?
Esta traiçoeira e maliciosa ciência!
Por que fui levantar o véu que ocultava os mistérios? – murmurava com amargura.
Depois, o barão chamou o velho mordomo e, vestindo-se, foi ver o ferido.
A enfermeira queixou-se de que o paciente passara uma noite muito agitada e declarou que o médico, que fazia pouco havia se retirado, não deu nenhuma esperança de recuperação.
Detinguen, calado, aproximou-se da cama e, franzindo o cenho, começou a olhar para o paciente, deitado em pesado coma.
Seu rosto ardia, os lábios estavam ressecados e os olhos afundados.
O barulho de rodas de carruagem chegando arrancou o barão de seus tormentosos pensamentos.
Ele saiu rapidamente do quarto e dirigiu-se à sala de visitas, imaginando que havia chegado a mãe de Desidério.
Dagmara entrou na sala ao mesmo tempo que ele e o abraçou.
Ela estava muito pálida e, aparentemente, passara a noite em claro.
Perguntou imediatamente sobre o paciente, mas Detinguen não teve tempo de responder-lhe, pois entrou um dos criados para informar da chegada da baronesa von-Vallenrod e do conde Saint-André.
Dagmara dirigiu-se amavelmente à recém-chegada, mas de repente estancou e ficou confusa, olhando-a de maneira hostil.
Aquela mulher alta, gorda, de rosto inchado e vulgar, com um olhar frio e severo, despertou imediatamente nela lembranças adormecidas.
Ela lembrou que essa mesma mulher era o espantalho de sua infância e isto então significava que Desidério era exactamente aquele menino com quem ela brincava quando vivia na casa dessa mulher.
Todos esses pensamentos e recordações passaram como um raio na mente de Dagmara, enquanto Detinguen amavelmente cumprimentava a baronesa Vallenrod.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:51 pm

— Permita-me, senhora, apresentar a minha filha e lamentar que, somente devido a esta triste situação, tenho o prazer de receber a sua visita – disse ele de modo amável mas contido.
Pela aparência calma da recém-chegada, o barão concluiu que ela ainda não sabia da verdade.
— Pois é, foi um acontecimento lamentável – respondeu calmamente a baronesa.
— Foi um caso terrível!
A senhora já sabe do grave estado do seu filho?
Devo informá-la disso antes de conduzi-la a ele.
O rosto rosado da baronesa empalideceu imediatamente.
— Disseram-me que ele se machucou um pouco e o senhor me fala de estado grave.
Oh! Fui enganada!...
Ele morreu? – exclamou a baronesa, apertando convulsivamente as mãos de Detinguen.
— Calma, minha senhora!
Seu filho ainda está vivo e vou levá-la até ele; mas o estado dele é desesperador e necessita de repouso absoluto.
A baronesa ficou parada por instantes, toda trémula; de repente, sua volumosa figura oscilou e caiu na poltrona num forte ataque de nervos.
Ela enlouqueceu, soltando gritos, rindo histericamente e arrancando seus próprios cabelos.
Detinguen pediu para Dagmara buscar um remédio apropriado, enquanto ele próprio, com a ajuda de Saint-André, segurava a baronesa.
A moça, assustada, correu até o laboratório e trouxe alguns fortes remédios que fizeram a baronesa voltar a si.
Quando ela prometeu controlar-se para não ter manifestações de infelicidade tão agitadas, Detinguen levou-a ao quarto do paciente, mas ao ver o filho terrivelmente mudado, ela fraquejou novamente.
Caindo de joelhos diante da cama, ela encostou o rosto no cobertor e tentava conter o choro convulsivo que estremecia todo o seu corpo.
Era, provavelmente, a primeira vez que esta mulher, má e egoísta sentia-se profunda e sinceramente infeliz; o olhar ausente de Desidério feriu-a bem fundo no coração.
Dagmara, que os seguia em silêncio, apertou-se a Detinguen.
No seu coração generoso e bom surgiu uma profunda solidariedade e ela esqueceu o sentimento hostil e de repulsa que tivera pela baronesa quinze minutos atrás.
Seus olhos estavam cheios de lágrimas quando ela olhou suplicante para Detinguen e sussurrou emocionada:
— Papai! Será que a nossa ciência não pode salvá-la?
Quantas Vezes já tiramos pessoas dos braços da morte?
Será que desta vez não conseguiremos?
Detinguen estremeceu e, abraçando Dagmara, respondeu em voz baixa e trémula:
— Nós tentaremos salvá-lo.
O dia transcorreu sob grande tensão.
A baronesa ocupou um lugar na cabeceira do leito de Desidério, mas em vez de ajudar a enfermeira, só atrapalhava, tendo crises de desespero, ao menor gemido do paciente, que ameaçavam transformar-se a qualquer instante em ataques histéricos e lágrimas não paravam de jorrar de seus olhos.
À tarde a senhora Vallenrod ficou tão fraca que o médico achou por bem dar-lhe um forte narcótico e ordenou-lhe que fosse imediatamente dormir.
Bastante contrariada, a baronesa obedeceu, e depois de Detinguen jurar que ele pessoalmente manteria o paciente sob observação, ela se retirou conduzida por Dagmara para um quarto preparado para ela.
Apesar da desgraça, a baronesa olhava com curiosidade a jovem que, com voz baixa e calma, dava as últimas ordens aos criados quanto à arrumação do quarto da hóspede.
“Ela é muito parecida com a mãe” – pensava a baronesa.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:51 pm

“Dagmara parece mais séria, mas é tão perigosa quanto Edith.
Se Desidério não estivesse tão doente, nem deveria ficar por aqui.”
E quando Dagmara retirou-se após desejar-lhe boa-noite, a baronesa acompanhou a sua formosa e delicada figura com um olhar sombrio e hostil.
Dagmara foi para o seu quarto e, trocando o vestido por um simples penhoar branco de casimira, dispensou a camareira, sentou perto e ficou pensando.
Não tinha sono e uma multidão de lembranças veio-lhe à mente.
Com uma clareza doentia ressurgiram as cenas penosas e os maus tratos que recebia da baronesa e do filho, que nunca perdia a oportunidade de jogar nela a culpa de todas as suas travessuras.
Com o desenrolar do novelo, uma lembrança trazia outras.
Por fim, ela lembrou-se de um facto particularmente amargo da sua infância que aconteceu uns dias antes de sua partida e que a impressionou muito.
Desidério quebrou um grande vaso chinês, de que a baronesa gostava muito e, querendo fugir da responsabilidade, correu imediatamente para a mãe, dizendo que Dagmara quebrara o vaso.
A baronesa ficou possessa e castigou cruelmente Dagmara, chamando de mentiras deslavadas todas as desculpas da inocente criança.
Não satisfeita com o castigo imposto, a baronesa deixou-a trancada por um dia inteiro sem comida.
Somente à noite, quando a baronesa foi com o filho ao teatro, a bondosa Golberg libertou-a, deu-lhe comida e carinho.
A amarga ira encheu o coração de Dagmara, e ela energicamente tentava afastar estes sentimentos.
Deus a tirou das mãos de sua perseguidora, e premiou-a com anos de vida feliz e pacífica por aqueles meses de sofrimento.
Agora, o Pai Celestial enviava-lhe mais uma oportunidade de cumprir o Seu grande mandamento e pagar o mal com o bem.
Como poderia ela, em tais condições, ficar guardando um mísero rancor?
A entrada de Detinguen interrompeu os pensamentos de Dagmara.
Percebendo a palidez e o ar preocupado do pai, Dagmara correu para abraçá-lo e perguntou:
— Você está doente, papai?
Ou o nosso paciente piorou?
— Não, minha criança, não!
Vim buscar você para realizarmos o encantamento que deverá parar a morte do corpo condenado de Desidério – respondeu, sério, Detinguen.
Mas antes, devo mais uma perguntar-lhe se você quer me ajudar e se concorda em sacrificar a sua vitalidade para salvar a vida dele.
— Mas, é claro que sim, papai! – respondeu sem vacilar Dagmara.
Eu cederei de bom grado a minha vitalidade para salvar esta jovem vida e também salvar para a baronesa, de quem não gosto, o seu único filho.
As forças superiores nos dizem para que sejamos misericordiosos com o próximo.
Vamos, papai, aja conforme as leis da sua ciência.
Confio totalmente em você.
Detinguen, calado, apertou-a contra o peito e juntos saíram do quarto.
Uma hora depois, Detinguen dispensou a enfermeira, dizendo-lhe que cuidaria sozinho do paciente e, mais tarde, Dagmara se juntou a ele.
Enquanto o barão colocava na mesa o conteúdo da caixa que trouxera consigo, a jovem, encostando-se aos pés da cama, observava o paciente cujo pálido rosto já parecia ter a marca da morte.
E aquele bondoso e piedoso olhar pareceu provocar um efeito revigorante, Desidério abriu os olhos e murmurou:
— Água!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:52 pm

Dagmara deu-lhe a beberagem preparada pelo pai e ele, revigorado, agarrou-lhe a mão e sussurrou, olhando-a com súplica:
— Salve-me! O seu pai pode fazer isso.
Eu quero viver!
A vida é tão bela!
Dedicarei todo o resto da minha existência a provar-lhe minha gratidão.
— Confie em Deus!
O senhor vai viver e meu pai irá curá-lo – respondeu Dagmara com a sua característica bondade infantil, piedosamente apertando-lhe a mão.
Um sorriso desdenhoso e indescritivelmente amargo passou pelo rosto de Detinguen.
Sua voz soou severa, quando ele disse, aproximando-se do paciente:
— A gratidão, meu jovem amigo, é um dos mais raros dons dos céus.
Em geral, a pessoa esquece o bem obtido, logo que não precisar mais dele.
Mas este não é momento para discussões filosóficas.
Feche os olhos e fique deitado tranquilamente.
Sem se ocupar do paciente, Detinguen fez Dagmara sentar-se numa poltrona perto da cabeceira da cama e executou alguns passes sobre sua cabeça.
Momentos depois, a garota caiu em sono profundo, jogando a cabeça para trás.
Detinguen colocou então sobre a mesa um recipiente com água, prendeu em sua borda uma vela de cera, torceu as suas pontas em forma de ferradura e acendeu-a.
Em seguida, levantou as mãos e concentrou-se com tal tensão que as veias incharam em sua testa.
Alguns instantes depois, aproximou-se de Dagmara, deitada e desfalecida, pegou sua mão fria e imóvel e colocou-a na mão do ferido.
Abriu um frasco de formato estranho e borrifou com o seu conteúdo a cama e o vestido da moça, sussurrando palavras rítmicas e incompreensíveis. Um estranho e sufocante aroma inundou o quarto.
A partir do momento em que a mão da moça foi colocada na mão de Desidério, este foi tomado por um profundo torpor.
Ele estava completamente consciente mas não podia mexer-se.
Aos poucos, foi sentindo como um frescor fortificante que começou a preencher o seu corpo.
O peso na cabeça enfraquecia aos poucos, a fenda já não doía tanto, e todo o corpo começou a suar abundantemente, o que o aliviava sobremaneira.
Ele percebeu que da mão de Dagmara saía uma corrente vivificante, passando como uma torrente de fogo por suas veias em direcção ao coração e batendo nele com tal força que ele sentia estremecer.
Desidério sentia como o fluxo quente enchia-o de nova vida; seus pulmões alargavam-se, os nervos fortaleciam-se e as forças se renovavam.
Com um suspiro de enorme alívio, Desidério abriu os olhos.
Seu primeiro olhar recaiu em Dagmara.
Ela jazia pálida e imóvel como um cadáver, e parecia que toda a vitalidade do jovem organismo havia passado para o corpo do paciente.
Nesse minuto, Detinguen pronunciou com voz baixa e solene:
— A morte os ligou e a morte os separará.
A fusão dos elementos irá atraí-los um ao outro; que a sua união seja de amor e não de ódio!
O grande mistério das forças ocultas realizou-se!
Os pensamentos de Desidério começaram a misturar-se e ele, quase imediatamente, caiu num profundo e fortificante sono.
Então Detinguen levantou Dagmara e levou-a para seu quarto.
Colocando-a na cama, ele começou a massagear as suas mãos e pés, que estavam frios, executou alguns passes sobre a sua cabeça e, em seguida, despejou em sua boca o conteúdo do frasco que trazia no bolso.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:52 pm

O torpor de Dagmara desapareceu rapidamente.
Seu rosto readquiriu a costumeira cor delicadamente rósea e logo a respiração tranquila e uniforme mostrou que ela estava dormindo profundamente.
Detinguen olhou-a com amor, mas em seu rosto permanecia a preocupação e a sua voz tinha uma profunda tristeza quando ele sussurrou:
— Obedeci à lei da iniciação.
Que este acto de alta ciência não se transforme em acto diabólico.
No dia seguinte, chegaram os médicos e constataram perplexos que o paciente tivera uma reacção “milagrosa” e incompreensível.
A inflamação desaparecera completamente e a fenda, mesmo que ainda dolorida, já não oferecia nenhum perigo e precisava somente de simples curativos para fechar-se em definitivo.
Desidério, feliz e grato, declarou que devia a sua cura exclusivamente à ciência misteriosa do barão.
Os médicos deram de ombros, mas não retrucavam, e o velho cirurgião-chefe confessou com sinceridade:
— Não podemos ir contra os factos.
Uma certa magia que nós, simples mortais, desconhecemos, realizou este milagre com o senhor.
Atesto isto sem qualquer explicação.
Agora, só posso receitar-lhe simples curativos, tranquilidade e silêncio total para que o restabelecimento completo aconteça sem dificuldades.
A baronesa ficou muito feliz e expressou ao barão o seu ardente reconhecimento.
Ela visitava o filho todo dia, sentando-se ao lado de sua cama; mas à medida que a recuperação avançava, as suas visitas começaram a rarear.
E quando Desidério levantou da cama pela primeira vez, ela quis levá-lo para casa.
Detinguen opôs-se a isto, dizendo que a cabeça do paciente ainda não podia suportar nem o menor estremecimento e a baronesa cedeu; mas alguns dias após, ela disse ao filho que iria ausentar-se por duas semanas para visitar uma amiga muito doente.
Na realidade, a baronesa de Vallenrod não suportava a presença de Dagmara.
Embora a moça não demonstrasse nenhuma raiva, e nunca dissesse uma única palavra sobre o passado, só a presença dela já irritava a baronesa.
As semanas seguintes foram para Desidério como um sonho encantado.
Ele não só sentia que estava se recuperando fisicamente mas também o seu espírito se deliciava com a paz e um interesse intelectual que ele nunca havia experimentado.
Pela primeira vez na vida ele estava numa pacífica e saudável atmosfera de uma verdadeira vida familiar e as horas passavam imperceptivelmente em conversas agradáveis e sempre instrutivas.
Agora ele entendia o deslumbramento que Saint-André experimentava na companhia do venerando sábio e de sua filha.
Com ingénuo egoísmo, ele ficou feliz quando seu amigo foi repentinamente chamado pelo pai para resolver problemas familiares e ele pôde deliciar-se sozinho da companhia de Detinguen e, principalmente, de Dagmara.
A encantadora garota despertava nele um interesse cada vez maior.
A doença aproximou-os involuntariamente e criou entre eles relações amigáveis que lhes lembravam a infância, mesmo que nenhum do dois jamais tivesse falado do passado.
A baronesa voltou da viagem e Desidério restabeleceu-se definitivamente, mas, não conseguia decidir-se a deixar a vila.
Ele percebia que os encantos de Dagmara eram perigosos, pois na sua opinião, ela não era suficientemente rica para casar com ele e, além disso, sua mãe nunca aprovaria essa união.
E, apesar da voz da razão, ele não ia embora.
Quando Saint-André voltou, ficou bastante surpreso com a atitude do amigo e, sem acanhamento, disse-lhe que estava mais do que na hora de ele sair de lá.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:52 pm

— Se por bondade e delicadeza, o barão e sua filha não lhe dão a entender que você deve ir embora, então você mesmo deveria perceber que a sua presença excessivamente prolongada nesta casa está comprometendo a condessa Helfenberg.
E isto é uma retribuição muito malcriada pelo favor que lhe fizeram.
Desidério, enrolando a ponta do seu bigode, olhou de forma suspeita para o amigo, mas nada respondeu e... ficou.
Alguns dias mais tarde, Saint-André retomou o assunto, mas desta vez num tom menos amigável.
— A sua permanência aqui já está servindo de troça a todos e é motivo das mais animadas discussões.
Berta Domberg acha que você ficou noivo – observou ele.
Um forte rubor cobriu a face pálida de Vallenrod.
— Que bobagem!
Eu nem penso nisso!
— Tenho certeza disso.
Mas, é mais um motivo para acabar com todos estes maldosos boatos – respondeu secamente o conde.
Devo dizer-lhe que, ontem, na casa da baronesa Shpecht, a sua mãe disse que não sabe como arrancar o filho das “garras do feiticeiro”, que o mantém aqui na esperança de capturá-lo para sua pupila, enquanto esta testa em você a força de suas poções mágicas.
Todas as mexeriqueiras da cidade estavam lá, e isto obviamente garantirá a divulgação suficiente da fama que Dagmara e seu pai adquirirão pela sua amizade.
A voz de Saint-André soava com irritação e desprezo e Desidério, ferido em seu orgulho, saltou da poltrona raivoso.
— Mas isto é uma detestável mentira!
Não posso acreditar que minha mãe pudesse dizer palavras tão injustas e de pouco tacto! – exclamou irado.
— Você poderá verificar isso facilmente.
Só estou transmitindo o que ouvi no clube de oficiais – respondeu secamente o conde.
No dia seguinte Desidério deixou a casa hospitaleira onde lhe salvaram a vida.
Da parte de Detinguen e sua filha a despedida foi amigável e da parte de Desidério foi calorosa.
Ele recebeu o convite de visitar a vila quando o seu serviço e as obrigações mundanas o permitissem.
Ao chegar em casa, ele sentiu um estranho vazio e a lembrança de Dagmara perseguia-o de forma doentia.
A calúnia espalhada pela mãe era extremamente desagradável e, mesmo que ele nem pensasse em casar com Dagmara, a ideia de que Saint-André pudesse fazê-lo deixava-o furioso.
Ele começava a sentir uma certa hostilidade pelo conde e já alimentava um ódio por Friedrich Domberg, que cortejava Dagmara abertamente.
Apesar da cena agitada com a mãe, Desidério continuou a frequentar assiduamente a vila.
Dagmara recebia-o amigavelmente como também o barão, que não prestava atenção a boatos; mas Vallenrod, para desarmar as más línguas e esconder da sociedade as suas intenções, passou também a frequentar a casa dos Domberg.
Ele manobrou com tanta perícia, que logo ninguém mais sabia se ele preferia Berta ou Dagmara.
Tal era a situação, quando surgiu na cidade uma nova beldade que atraiu a atenção do jovem pândego.
O posto de engenheiro-chefe das minas de carvão, próximas à capital e de propriedade do duque, foi ocupado por um nativo do norte, um certo Von Rambach.
Antes, ele administrara com sucesso grandes minas e ficou famoso com o livro que escreveu sobre extracção de carvão.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 01, 2016 7:52 pm

Sua indicação provocou uma surda insatisfação entre os engenheiros locais e ele foi recebido com hostilidade, mas Rambach parecia não notar isto.
Era um homem entre quarenta e cinco e cinquenta anos, míope, pouco comunicativo, desajeitado, e tão ocupado com a própria especialidade, que, para ele, nada existia além disso.
A sua esposa, em compensação, foi reconhecida por todos como muito amável e encantadora.
Dina Von-Rambach era uma mulher da sociedade e era tão alegre e amável quanto o seu marido era calado e contido.
Visitando a todos, obrigou toda a cidade a falar dos seus luxuosos vestidos.
Logo a sua sala de visitas transformou-se no centro dos maiores representantes do mundo financeiro e burocrático e, principalmente, da juventude “dourada”, da qual fazia parte Desidério Vallenrod.
E foi por ele que Dina Von-Rambach ficou sabendo da Vila Egípcia, que a espantou pela sua original arquitectura e por que lá moravam Detinguen e sua filha adoptiva.
— Como?
Então Dagmara Helfenberg mora aqui? – surpreendeu-se Dina.
— Ela é minha amiga de infância, e vou visitá-la amanhã mesmo.
Tenho as melhores lembranças do seu carácter maravilhoso.
Desidério não via por que para ele poderia ser desagradável a possibilidade de uma amizade entre Dagmara e Dina Von-Rambach e ofereceu-se para acompanhá-la, mas Dina recusou sua proposta, dizendo que preferia ir sozinha e avisar Dagmara por carta da sua visita.
Quando, no dia seguinte, Dina chegou à vila, Dagmara viu-a da janela e correu para receber sua antiga amiga no saguão.
Enquanto elas se dirigiam à sala de visitas, ambas olharam-se com curiosidade.
— Como você ficou linda, Dina! – exclamou Dagmara.
E que maravilhoso chapéu!
Vejo que seus gostos não mudaram nem um pouco – acrescentou, rindo.
— Da semente de Carvalho só pode nascer um Carvalho.
Eu permaneci excêntrica como sempre.
E você, minha pequenina “santinha” transformou-se em “fada Viviana”, a dona do castelo “Brosselion” – respondeu alegremente Dina.
Diga-me, continua a manter contacto com a família dos Reiguem? – perguntou ela, após um instante de silêncio.
— Claro que sim!
Nós nos correspondemos regularmente e no verão passado o tio e a tia vieram visitar-nos.
Eles envelheceram muito e se sentem solitários.
Felizmente, Alfredo foi designado como auxiliar do tio Gothold.
Isto foi uma grande alegria para eles.
— E por onde anda o filho mais velho – Lotar?
O que aconteceu com ele? – perguntou surdamente Dina.
— Com ele não tive nenhum contacto desde que saiu do pastorado.
Ouvi dizer que se formou médico e já goza de óptima reputação.
Dina passou a mão no rosto, como se quisesse espantar um pensamento incómodo e, em seguida, mudou de assunto.
Com a sua peculiar animação, contou a Dagmara que, após fugir da casa do pastor, ela ficou alojada na casa de outra parente – uma mulher severa e séria – que a vigiava como a uma prisioneira.
E foi na casa daquela mulher que ela conheceu o marido, aceitando casar-se com ele para livrar-se daquela situação.
— Ernest é um molenga.
Avarento, ciumento e insuportável.
Mas aceitei ser sua esposa, para obter o status de mulher casada; além disso, a sua riqueza seduziu-me.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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