Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:51 pm

Infelizmente, em vão!
Não recebi o quanto imaginava.
Digamos que o matrimónio tem algumas qualidades; mas ele é também uma humilhante escravidão.
É muito difícil pagar o pão de cada dia obtido desta forma – acrescentou Dina.
E com uma franqueza que provocou um mal-estar em Dagmara, ela contou algumas cenas desagradáveis de sua vida conjugal.
O ódio ao marido, que soava em cada palavra, espantou e entristeceu a jovem.
— Pobre Dina!
Vejo que o luxo e os prazeres não lhe trouxeram felicidade.
Mas por que não esperou?
Talvez encontrasse uma pessoa de que gostasse.
Parece-me horrível viver com uma pessoa que você odeia.
Os olhos negros de Dina faiscaram e ela soltou uma sonora gargalhada.
A ira e a tristeza soaram em sua voz quando disse:
— Minha ingénua fada Viviana!
E você ainda acredita no amor?
Isto só é possível dentro das paredes do seu castelo encantado; na vida real as pessoas são dirigidas pela ambição, cálculo, hipocrisia e sensualidade.
A única satisfação verdadeira que a vida nos dá é a riqueza e a vingança.
Dagmara, você não imagina a alegria que se sente quando conseguimos vingar-nos de alguém que nos ofendeu.
Lembra que tive um noivo antes da minha mudança para a casa do pastor?
Quando meu pai faliu e morreu, a família dele deu-me as costas com desprezo.
Imagine que, no ano passado, encontrei-o em Berlim.
Ele sempre foi loucamente apaixonado por mim e se arrastou aos meus pés, como um verme, implorando o perdão.
Eu permaneci impassível e senti-me triunfante, vendo o seu sofrimento.
Lembro-me também de outro homem, o Reiguern!
Ele prometia casar comigo, mas depois, achando-me incómoda, mandou-me ficar com a tia.
A voz de Dina soava com ódio e seus dentes brancos mordiam nervosamente o lábio inferior.
— Lembre-se, Dagmara, de que todos os homens são cruéis, egoístas devassos e traidores.
Contra eles a mulher tem o direito de utilizar todo tipo de esperteza e mentira.
O seu famoso “amor” nada mais é do que uma baixeza calculada ou um capricho momentâneo.
E, somente quando você começar a pagar-lhes na mesma moeda, passando a maltratar e enganar da mesma forma que eles nos enganam e, depois, jogá-los fora como um lenço usado – somente então você será feliz, todos a admirarão e eles começarão a arrastar-se aos seus pés e permitirão com prazer que você os chute.
Os olhos de Dina faiscavam sombrios e o ódio e a amargura deformaram o seu bonito rosto.
Dagmara olhava-a com horror.
Sua natureza pura e harmónica era incapaz de descer ao abismo cavado no espírito sensual de Dina pelas más tendências naturais do género humano e da esperteza.
Dina percebeu o que Dagmara sentia e, agarrando-lhe a mão, apertou-a sofregamente.
— Eu lhe inspiro medo e repulsa, não é verdade?
Isto porque você permaneceu com a alma pura e sem vícios, pois o seu benfeitor compôs a essência do seu carácter.
Mas o ideal que você almeja – e que não existe na Terra – fará de você uma infeliz.
E você, desarmada, cairá sob os golpes dos maus.
Creia-me, não sou mais aquela doida pensionista:
Sou uma mulher madura pela experiência e não pela idade.
Já bebi da taça dos prazeres da vida, por vezes com paixão, por vezes com ódio, e convenci-me de que se deve sempre estar alerta, sempre pronta para defender-se dos inimigos que nos cercam.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:51 pm

Cada uma das pessoas que lhe aperta a mão com sorrisos e adulações – a jogará na lama e a caluniará assim que você virar-lhes as costas.
Todos vão invejá-la em tudo – até em seus “pecadinhos” – que condenam não por temerem o mal, mas somente porque não podem competir com você ou porque estão impossibilitados de pecar.
Não me repudie, Dagmara:
sinto-me bem demais na atmosfera pura que a cerca.
Perto de você não preciso fingir, nem mentir e isto, às vezes, é muito difícil.
Nas últimas palavras de Dina percebia-se verdadeiramente todo o caos que reinava em sua alma.
Dagmara, comovida, beijou-a solidariamente.
— Venha visitar-me sempre!
Juntas tentaremos restaurar o equilíbrio do seu espírito.
— Mas, espero que você também me visite.
Não vou permitir que fique definhando no seu velho castelo.
Você irá trabalhar no meu aperfeiçoamento, enquanto eu vou armá-la para a luta da vida – respondeu
Dina já recomposta e readquirindo rapidamente o bom humor.
A partir desse dia, as amigas passaram a encontrar-se assiduamente.
Apesar do abismo que separava suas opiniões e convicções, elas se aproximaram, discutiam, julgavam uma a outra, mas sem qualquer amargura ou ressentimento.
A energia de Dina e sua grande experiência em relação ao mundano e da vida em si influenciavam Dagmara, apesar desta desaprovar muitas atitudes da amiga.
Dina, por sua vez, apegou-se sinceramente a Dagmara, que era a única pessoa cujo conselho ouvia e pelo qual estava pronta a sacrificar algo.
Essa proximidade não agradou nada a Desidério e ele, certa vez, expressou a Saint-André a sua surpresa sobre Detinguen permitir que sua filha visitasse uma pessoa tão leviana e de reputação duvidosa.
— Concordo com o barão, cuja opinião é que a condessa Dagmara não precisa temer nenhuma contaminação moral.
Já a sua influência pura pode ser benéfica para a senhora Rambach – respondeu calmamente o conde.
E a conversa mudou para outros assuntos.
Desidério ocultou a insatisfação e mais tarde, com a sagacidade que lhe era peculiar, evitava encontrar as duas amigas juntas, visitando-as separadamente.
Entretanto, um dia o infeliz acaso trouxe Dagmara à casa de Dina, justo quando lá se encontrava Vallenrod.
A conversa ficou amena e Desidério retirou-se rapidamente, alegando problemas no serviço.
Mal ele saiu, Dina soltou uma forte gargalhada.
Notando o espanto de Dagmara, ela observou ironicamente:
— Você percebeu como o pobre barão ficou calado e sisudo?
Ele estava se sentindo como uma raposa que caiu na armadilha.
— E por quê?
— Porque, em sua presença, ele deve portar-se como “Catão”, e isso o impedia de fazer o papel de conquistador na minha frente.
Preciso contar-lhe que ele quer ser meu amante e...
Ela calou-se por um instante, percebendo que o rosto de Dagmara enrubescera.
— Ah! Está com ciúmes, querida?
Bem, neste caso prometo-lhe que, para sua satisfação, vou botá-lo “pra correr”.
— Mas é claro que não!
Não me interessam as aventuras do tenente Vallenrod.
E se você quer sujar-se, arrumando um amante, para mim pouco importa quem ele seja.
— Não importa o que digam, mas amo a vida, o amor e brilhantes.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:52 pm

E o pensamento de ter um amante há muito não me assusta.
Mas, Deus me livre escolher o Desidério, quando percebo que isto não lhe agrada!
Francamente! E para quê?
Posso trocá-lo pelo conde de Stal.
Ele é mais rico e – o principal – mais generoso que Vallenrod.
Você enxerga nele inúmeras qualidades ideais?
E eu lhe digo que é igual aos outros e ainda pior, porque quer deliciar-se sem abrir a carteira, pensando que só a pessoa dele já é suficiente.
Este tipo de homem não terá sucesso com mulheres que se respeitam.
E eu, decididamente, não farei nenhum sacrifício, desistindo do seu amor “desinteressado”.
Dagmara nada respondeu e baixou a cabeça.
Realmente, ela tentava encontrar em Desidério boas qualidades, pelo facto de ele agradar-lhe mais do que os outros; e agora uma voz interior soprava-lhe que Dina estava certa.
Este sentimento ficou mais forte quando ela percebeu que Desidério repentinamente começou a tratar Dina com ódio mal disfarçado.
Criticava a sua falta de moral, sentia pena do marido e dava a entender que ela saía com um dos seus colegas.
Dagmara achou que era seu dever avisar Dina dos boatos que corriam sobre ela, mas esta só fez rir.
— Caluniando-me, o senhor Vallenrod tenta vingar-se da derrota.
E eu zombo de sua fúria.
Ah, se você visse a cara do “conquistador irresistível” quando mantive a minha promessa e botei-o para fora de casa!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:52 pm

IX

Naquela época, uma notícia inesperada deixou Dagmara muito preocupada e provocou longas discussões na corte do duque.
O velho médico do duque faleceu e todos esperavam que o lugar do falecido fosse ocupado pelo seu genro e assistente; mas Franz-Erich nomeou para aquele alto e bem remunerado posto um médico muito jovem que obtivera grande notoriedade, graças a algumas curas incríveis.
Este escolhido do destino não era outro senão Lotar Reiguern que, afortunadamente, conseguira salvar a filha do duque, já à beira da morte.
Ao saber da nomeação do amigo de infância, Dagmara ficou felicíssima e foi imediatamente visitar Dina para contar a novidade.
Mas a preocupação e a palidez desta obrigaram Dagmara a reflectir e chegar à conclusão que Dina ainda guardava pelo seu ex-namorado um sentimento que não saberia dizer se era amor ou ódio.
A chegada do novo médico-chefe, sua apresentação à corte e as visitas – tudo isso foi tema dos assuntos da cidade durante uma semana.
Uns não cansavam de elogiar o conhecimento, amabilidade e a bela aparecem do recém-chegado; outros, em sua maioria partidários do pretendente ao cargo, criticavam o jovem médico de todas as maneiras, acusando-o de materialista, ateu e radical, transformando-o quase num criminoso nacional e inimigo do duque.
Dagmara irritava-se com tais críticas, lançando-se ardentemente em defesa do amigo e aguardando com impaciência ver pessoalmente em que ele se transformara depois de todos aqueles anos.
Finalmente, uma semana depois, uma luxuosa carruagem parou em frente à Vila Egípcia e o criado entregou a Dagmara o cartão de visitas do doutor Reiguern.
Contente, ela ordenou que o recebessem e correu ao seu encontro.
Encontraram-se no gabinete anexo à sala de visitas.
— Finalmente você apareceu, Lotar! Eu já imaginava que você havia se esquecido de mim! – exclamou, estendendo-lhe ambas as mãos.
O rapaz segurou-as e por várias vezes levou-as aos lábios.
— Você me repreende por algo em que também não acredita.
Mas antes de desmentir a sua não-merecida suspeita, permita-me agradecer por esta recepção tão amigável que nem ousava esperar – respondeu Lotar, olhando-a com gratidão.
Dagmara riu.
— Você não tinha motivos para imaginar que iria recebê-lo com cerimónias.
Venha comigo! Quero mostrar-lhe a sala de visitas e a biblioteca.
Meu pai está ocupado no laboratório, e não posso agora apresentar você a ele; mas fica para o almoço e, enquanto lhe sirvo o desjejum, nós conversaremos.
Isto se concordar em ser nosso prisioneiro.
— Entrego-me inteiramente à sua disposição e, se me permitir, ficarei aqui pelo tempo que Tanhauser passou na gruta de Vénus.
Dagmara, que subia a escada à sua frente, virou-se e ameaçou-o com o dedo em riste.
— Nota-se que o amor ocupa seus pensamentos.
Não é à toa que dizem que você virou a cabeça de todas as mulheres da cidade.
Aliás, isto é desculpável: você é um rapaz muito bonito.
— Pelo amor de Deus, Dagmara, não fale assim!
Mesmo que a sua opinião seja lisonjeira para mim, ela já foi dita por tantas bocas pouco simpáticas que, francamente, estou farto.
— Calma! Nem sempre vou mimá-lo com elogios – respondeu ela, rindo.
Após o desjejum, os jovens passaram para a pequena sala de visitas.
Dagmara pediu-lhe que contasse o que acontecera durante todo aquele tempo de separação.
Lotar descreveu de forma sincera e entusiasmada todas as peripécias de sua vida de trabalho, lutas, infortúnios e, finalmente, o triunfo, quando chegou ao topo, adquirindo a independência financeira.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:52 pm

Quando terminou o seu relato, houve um prolongado silêncio.
De repente, Dagmara aproximou-se e perguntou:
— Lotar! Por que não faz as pazes com o seu pai?
A pobre tia sofre muito com o desentendimento entre vocês.
Reiguern suspirou profundamente.
— Meu pai não quer isto.
Ele não pode perdoar as minhas convicções anti-religiosas e também o facto de ter trocado a carreira de pastor pela medicina.
Entretanto, será que dá para comparar a mísera subsistência de um pastor de aldeia à posição brilhante que conquistei
e que me dará a independência e tranquilidade na velhice?
— E você continua a não crer em Deus? – perguntou baixinho e timidamente Dagmara.
O jovem médico levantou a cabeça e seus olhos flamejaram.
— Mais do que nunca, duvido da Providência.
É preciso ver como vejo todo dia – a morte, sofrimentos e miséria sob todas as formas.
É preciso visitar todos aqueles horríveis covis onde vegetam e morrem os desafortunados para não acreditar na invenção da “misericórdia divina”.
Eu não poderia ser um sacerdote, pois é o sacerdote que vem para consolar estes infelizes, falando-lhes de “misericórdia” que não existe e de “justiça” que é a mais cruel das injustiças, ou ainda prometendo o distante “paraíso” como recompensa pela vida, que foi um inferno para eles.
E ainda ameaça a menor queixa com a ira celestial que condena e dizima estes pobretões, antes mesmo que eles pequem.
Não, eu nunca vi um Deus justo e bom; por todo lugar, o destino do homem é dirigido pelo cego, bruto e impiedoso acaso.
Dagmara baixou a cabeça.
Ela lembrou das dúvidas que perturbavam a sua consciência, à medida que o seu conhecimento aumentava e transformavam a sua ideia inicial do Deus patriarcal, bondoso e simples, a Quem dirigia as suas preces infantis.
— Dagmara!... Você também não acredita em Deus como antes!
– exclamou Lotar, captando a expressão estranha no rosto da moça.
A jovem levantou a cabeça e o seu olhar límpido e tranquilo como um raio de luz iluminou os olhos sombrios e flamejantes do seu interlocutor.
— Não, Lotar, eu creio em Deus com todas as forças do meu espírito, mas entendo-O de forma diferente da que achava anteriormente.
Agora, para mim, Ele já não é mais o Deus do Velho Testamento:
parcial, vingativo e intolerante, ou seja, uma imagem distorcida do Ser Supremo, na forma que criaram para si as pessoas, rebaixando-O ao nível de seus interesses vulgares e dotando-O de suas próprias ambições e fraquezas. Não!
O Deus que venero é uma força criadora que dirige o universo, um Ser Supremo que não pode ser compreendido pela nossa fraca mente.
Ele paira sobre este universo infinito e incomensurável como Ele próprio, em permanente criação e mantém a ordem e a harmonia que nós vemos por todo lugar no infinito com suas leis imutáveis.
A vontade Dele, que não podemos entender, dirige com igual distinção a vida e o destino, tanto de uma nebulosa quanto de qualquer átomo; as leis químicas estabelecem a permuta de todas as substâncias, mas a existência destas leis imutáveis garante a harmonia de suas inter-relações, pois estas leis são as mesmas para tudo no mundo, desde o átomo até as estrelas.
Isto significa que Deus não julga e nem condena.
O próprio homem transgride as leis às quais é submetido, alterando com isso o equilíbrio e transformando-se em vítima da própria desordem.
Os grandes pensadores dos templos chamaram Deus de “Indefinível”.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:52 pm

“Aquele que sempre existiu e não tem fim”.
Deste ponto de vista, Deus – é o início de tudo que existe, de cuja grandeza temos somente uma vaga ideia, que está longe demais das nossas misérias humanas e não pode ser confidente das nossas tristezas.
Apesar disso, existe uma ligação directa de nós com o Ser Supremo – é a prece sincera e fervorosa, um impulso de nossa alma, que é originária de Sua respiração e que através de purificação e sofrimento, almeja retomar novamente à fonte de origem.
O rosto encantador de Dagmara animava-se à medida que expunha a sua crença e a luz do conhecimento superior luzia em seu olhar.
Lotar ouvia-a em silêncio, como se estivesse encantado.
A grandeza desse conceito filosófico de Deus deixava-o perplexo; abalava as suas convicções materialistas e enfraquecia as armas cunhadas contra o “Jeová” de Moisés.
— De onde aprendeu isto?
Quem lhe ensinou tal conceito de Deus?
— Sou pupila do meu pai adoptivo, que passou muito tempo na índia, estudando a sabedoria dos antigos.
Diante das grandes verdades ensinadas e comprovadas por esta ciência antiga, o ateísmo derrete como cera no sol.
Lotar, aquela benéfica não-existência que aparentemente consome a existência humana com um gás decomposto – não existe.
A alma humana é indestrutível e eterna, como Aquele que a criou; e a morte – é simplesmente um tipo conhecido de transformação de matéria, que passa, sob certas condições, do estado sólido para gasoso.
Você sabe que na natureza nada se perde, transformando-se e vivendo sob nova forma.
Acrescente aos seus estreitos conhecimentos a ciência do ocultismo, estude o enorme campo do espiritismo, a função capital da influência do espírito sobre o corpo e então você obterá a verdadeira chave para aliviar realmente o sofrimento humano.
Meu pai não é médico, mas cura doenças reconhecidas como incuráveis pela sua medicina.
Lotar ouvia-a com os olhos brilhando.
— Tudo o que me disse é por demais interessante.
Você está abrindo para mim ideias novas e surpreendentes, que coloco acima do palavreado vazio clerical com o paraíso chato e o inferno infantil.
Estou querendo, cada vez mais, conhecer o seu pai adoptivo.
— Você o verá no almoço.
— Espero que ele me permita visitá-los mais vezes, para descansar do meu trabalho cansativo.
Muitas vezes me sinto só e fraco.
— Você sabia que aqui na cidade mora Dina, sua antiga paixão?
Só que ela está casada com o engenheiro Rambach!— informou Dagmara, sorrindo maliciosamente.
Um sorriso de desprezo passou pelos lábios do jovem médico.
— Numa das casas que visitei, encontrei a senhora Rambach, mas fiz de conta que não a conhecia.
— Por quê? Você ainda sente raiva por ela ter casado?
Eu sei que você era louco por ela e queria casar.
— Felizmente não o fiz e ela foi suficientemente esperta para casar sem me esperar – respondeu zombeteiramente Lotar.
— Mas Dina é muito bonita e tem muitos admiradores.
— Até demais!
Ouvi sobre isso boatos não muito lisonjeiros ao seu marido.
Além do mais, ela não me agrada.
Seus modos são muito espalhafatosos e seu olhar demasiadamente atrevido.
Mesmo sendo um “materialista”, nas mulheres eu procuro ideais e aquele imperceptível encanto benéfico.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:53 pm

— Pobre Dina!
Ela ficará muito desapontada quando perceber quão severamente você a julga. Suspeito que ela guarda de você as melhores recordações – disse Dagmara, rindo.
Mas venha!
Já estão chamando para o almoço e meu pai não gosta de esperar.
A partir desse dia, Lotar virou um assíduo visitante da vila e passava lá todas as suas tardes livres.
Nessas visitas sempre começavam barulhentas mas amigáveis discussões entre o velho sábio ocultista e o jovem ateu, cada um defendendo as próprias teorias.
Lotar ficava vermelho e nervoso quando Detinguen afirmava que todos os médicos são ignorantes, que tacteiam na escuridão da matéria e se negam terminantemente a iluminar esta escuridão com a luz da alma.
Saint-André por vezes estava presente às discussões, mas a sua participação sempre era modesta.
Ele passou a diminuir as suas visitas a Detinguen.
O rapaz percebia que o seu sentimento por Dagmara assumira dimensões perigosas e, como a garota tratava-o como um irmão, ele receava dar maior vazão a seu amor, que o deixaria infeliz.
Já Desidério continuava a visitar a casa de Detinguen.
Só que agora ele era motivado pelo surdo ciúme do jovem médico, mas, para evitar suspeitas comprometedoras, ele com a sua típica “racionalidade” e ambiguidade continuava a cortejar Berta Domberg.
Desidério executava tão bem suas manobras que as comadres da cidade se atrapalhavam e não conseguiam decidir qual das duas moças tinha maior chance de ser a escolhida.
Dagmara era muito observadora e percebeu que Saint-André a amava e, por isso, analisava seriamente o próprio coração.
Ela se afeiçoou muito àquele simpático rapaz, mas, infelizmente, só sentia por ele amor fraternal e o pensamento de casar com ele repugnava-a.
Quanto a Desidério, ela sentia algo bem complexo, que por vezes não entendia.
Em sua presença, ela sentia um surpreendente bem-estar e parecia que dele emanava uma vitalidade, enchendo-a de novas forças e energia.
Quando Desidério deixava de aparecer por alguns dias, ela era dominada por um torpor e um estado de nervos crescente que desapareciam imediatamente com a chegada do rapaz.
Ela chegava a adivinhar a sua vinda pela sensação agradável de calor e um tremor interior que a irritavam, ainda que, após esses indicadores infalíveis da chegada do barão, seguisse-se um bem-estar geral.
Um acontecimento inesperado convenceu ainda mais Dagmara de que Desidério tinha sobre ela uma inexplicável influência.
Certa vez, numa reunião no palácio da duquesa enviuvada, a alta roda ocupava-se do jogo da moda – adivinhação de pensamentos.
Desidério desempenhava o papel principal, pois as suas ordens eram mais bem executadas pelos sugestionados.
Dagmara, pensativa e nervosa, recusou-se a participar das experiências e estava sentada à distância, quando dela se aproximou Vallenrod que, sorrindo, levantou as duas mãos e bradou:
— Caprichosa fada Viviana!
A senhorita se nega a participar do nosso jogo?
Neste caso, ordeno-lhe que durma!
Dagmara sentiu algo queimando o seu coração e uma corrente de fogo percorreu o seu corpo.
Sentiu-se tonta, o olhar apagou e sua cabeça caiu sobre o espaldar da poltrona.
Desidério, surpreso com o efeito inesperado da sua brincadeira, debruçou-se rapidamente sobre a adormecida e pegou na sua mão.
Certificando-se de que ela se encontrava num estado de completa catalepsia, ele assustou-se e tentou despertá-la o mais rapidamente possível com passes magnéticos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:53 pm

Conseguiu fazê-lo com certa dificuldade, pois a duquesa e os outros presentes atrapalhavam, criticando-o por tentar experiências tão perigosas.
Quando Dagmara acordou, sentiu uma terrível fraqueza e recebeu friamente as desculpas do barão, que afirmava que não queria e nem previa aquela situação inesperada.
Em seguida, ela foi rapidamente para casa.
A partir daquela tarde, Dagmara sofreu uma estranha mudança.
Todo o seu amor-próprio se ressentia, ao pensar que estava submissa ao misterioso poder de um homem em quem não confiava, percebendo instintivamente que, apesar da amabilidade e visitas constantes, ele não a amava com sinceridade.
Entretanto, mesmo convicta disso, ela ansiava pela sua presença e o olhar e aperto de mão de Desidério pareciam influir nos seus fluxos vitais.
Dagmara se perguntou, assustada, se aquilo não seria um amor inconsciente pelo barão, mas logo convenceu-se de que o seu espírito estava livre e que somente seu corpo estava escravizado por alguma força poderosa, que a vontade e orgulho não conseguiam vencer.
A descoberta dessa situação teve um efeito terrível em Dagmara.
Ela emagreceu, ficou pálida, perdeu o apetite e o seu estado nervoso era preocupante.
Desidério logo percebeu a influência que tinha sobre Dagmara, e por vaidade, convenceu-se de que provocava uma forte paixão na moça.
Detinguen, entretanto, vigiava Dagmara com sombria preocupação, conhecendo bem demais a causa psíquica e física do seu estado.
Ele próprio também estava doente.
A doença do coração, da qual padecia havia tempos, começou a piorar:
às vezes ele sentia tonturas e uma forte dor no peito quase o impedia de respirar.
Certa vez, um ataque semelhante ocorreu com ele na presença de Reiguem.
O jovem médico ajudou-o e depois observou num tom de brincadeira mas sério:
— Querido barão.
Apesar de todo o respeito que tenho pelo seu conhecimento, gostaria de servir à sua e à minha ciência.
Permita-me auscultá-lo e depois prescrever-lhe alguma beberagem insuportável que o senhor engolirá com desprezo.
O senhor deverá fazer isso por Dagmara e por seus amigos.
O barão sorriu.
— Estamos sós e posso dizer-lhe com sinceridade que, para a doença que tenho, não existem remédios.
Para a morte, quando chegar a hora, qualquer ciência é inútil.
E digo-lhe mais.
Não tenho mais do que oito ou dez meses de vida.
Ausculte-me e irá convencer-se de que estou certo.
Lotar, após examinar o paciente, ficou pálido e, em silêncio, encostou-se na escrivaninha.
— E então, meu amigo?
Por seu semblante percebo que o meu diagnóstico estava correto.
Entretanto, quero a sua opinião sincera – continuou Detinguen, apertando amigavelmente a mão do médico.
Pensa que tenho medo da morte?
Acredite-me, ela é assustadora somente para os ignorantes, que imaginam que tudo termina no túmulo e que o seu ser transforma-se em nada.
Para mim, a morte é uma transformação periódica, uma conhecida fase da vida, necessária para o aperfeiçoamento do espírito.
Só não gostaria que Dagmara soubesse do meu estado.
Seria muito difícil para ela.
Dagmara, às voltas com o seu problema espiritual, evitava a sociedade, alegando que a doença do pai lhe tomava todo o tempo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:53 pm

Até Dina ela passou a ver mais raramente e nem percebeu a mudança ocorrida no carácter e maneiras da amiga.
Dina ou mergulhava no turbilhão de prazeres, surpreendendo a todos com suas artes, vestidos e denguices, ou trancava-se em casa, isolando-se, inacessível aos inúmeros admiradores desesperados.
Essa inconstância de carácter teve início a partir do dia em que recebeu a visita de doutor Reiguem.
Lotar foi visitá-la como médico, convidado por Dina para ver o marido, que se resfriara seriamente.
O jovem médico fingiu não reconhecê-la, mas quando ficaram a sós no gabinete, aonde foi conduzido pela senhora von-Rambach para prescrever a receita, Dina tocou a sua mão e perguntou com voz trémula:
— Senhor Reiguem!
O senhor não me reconhece ou não quer reconhecer?
Lotar levantou a cabeça e o seu olhar calmo e gélido suportou o ardor dos brilhantes olhos de Dina.
— Pensei que não seria agradável à senhora se eu a reconhecesse.
— Mas por quê?
Nunca me arrependo dos meus actos e não considero crime acalentar sonhos que, na verdade, foram destruídos rapidamente pela realidade.
Lotar ficou um pouco sisudo e respondeu, evitando o periclitante tema:
— A senhora tem razão.
Os sonhos da adolescência devem desvanecer-se pela razão que a senhora chama seriamente de “realidade”.
Eis a receita.
Por favor, dê este xarope ao seu marido nos horários prescritos. Amanhã eu volto.
— Volta como médico ou como velho conhecido? – perguntou Dina, com um sorriso forçado.
Reiguem fez uma reverência.
— Já que a senhora permite, não deixarei de aproveitar este amável convite.
A partir desse dia, começou uma estranha relação entre os ex-apaixonados.
O doutor aparecia frequentemente nas recepções na casa de Dina e percebia que ela se consumia de paixão por ele.
Mesmo assim, ele nunca passou dos limites da razão contida, permanecendo surdo e cego a todos os seus avanços.
Não que tivesse receio de cair na rede da perigosa sereia, mas é que havia um novo e poderoso sentimento que o deixava indiferente a todas as seduções de Dina Rambach.
Esse sentimento era por Dagmara.
Sua delicada beleza, sua alma pura e orgulhosa, e a mente extraordinariamente desenvolvida – tudo isso encantava o jovem médico e em seu espírito calou fundo o desejo de torná-la sua esposa.
Ele encarava Saint-André, Domberg e Vallenrod com olhar ciumento, entretanto, logo percebeu que precisava preocupar-se somente com o asqueroso Desidério, que odiou pela preferência que a moça lhe dava.
Todavia, o que mais irritava Lotar eram os boatos que corriam sobre Dagmara e Vallenrod.
Este último passou a frequentar cada vez menos a casa dos Domberg e a cortejar abertamente a condessa.
E o fazia sem nenhum cuidado, pois sabia que nem Detinguen e nem sua filha nada fariam para dominá-lo.
Esta era a situação quando, um dia, Dagmara voltou do passeio antes da hora costumeira e soube pelo velho mordomo que Saint-André e Desidério estavam no gabinete de Detinguen, aguardando a volta dele da cidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:53 pm

Antes de subir para seus aposentos para trocar o traje de amazona, Dagmara dirigiu-se ao gabinete.
Ela queria dizer aos jovens que seu pai voltaria dentro de uma hora e oferecer-lhes algo para comer.
O grosso tapete abafou o som de seus passos e, absorta nos próprios pensamentos, ela não prestou atenção à conversa em voz alta, que provinha do gabinete.
De repente, Saint-André pronunciou o nome dela, fazendo-a estremecer e parar indecisa a alguns passos da porta.
— E eu repito, se você é uma pessoa honesta, então vai pôr um fim a esta comédia indigna.
Todos aguardam o anúncio de seu noivado e os companheiros acham que é sua obrigação.
Você manobrou espertamente entre Berta e a condessa, mas finalmente deixou a Domberg.
Isto é perfeitamente compreensível, pois você acredita que a sua posição com o duque está bem firme.
Neste caso, você deve se declarar à Dagmara – dizia Saint-André com amargura e irritação.
A voz de Desidério tremia de raiva, quando ele respondeu:
— Ora essa! Quero ver quem irá obrigar a declarar-me, se não tenho nenhuma intenção de casar!
— Se não tem tal intenção, então preserve a reputação da moça e não finja ser seu pretendente.
Você levou este jogo longe demais.
Se não quer que as pessoas honestas considerem-no um patife, deve casar com a condessa Helfenberg, isto é, se ela o aceitar como marido.
Ah-Ah! – respondeu Desidério com um riso irónico, que repercutiu mal em Dagmara.
Aquela pequena exclamação continha tanta autoconfiança e vaidade, não permitindo nem sombra de dúvida quanto à aceitação da proposta, que o rosto da moça ficou vermelho.
Dagmara correu para seus aposentos e, jogando-se no divã, chorou convulsivamente.
Um sentimento de indescritível tristeza e de amor-próprio ferido apertou o seu coração.
Apesar do que diziam de Vallenrod, Dagmara acreditava que ele a amava e procurava neste sentimento um alívio para a humilhante consciência de ser escrava de sua força oculta.
Se ele a amasse, esta estranha prisão não seria um grande mal e ela se submeteria de bom grado.
Apesar da instintiva desconfiança que por vezes despertava ela se consolava, sonhando com o futuro e vendo em Desidério qualidades espirituais tão atraentes quanto a sua aparência externa...
E agora, de repente, ela fica sabendo que ele não a ama, usando-a como cobertura para o seu jogo duplo, que deveria garantir para ele a vaga de ajudante-de-ordens e, ao mesmo tempo, livrá-lo de Berta Domberg.
Dagmara franziu o cenho e em seus olhos acendeu-se um sombrio fogo.
Então, Dina estava certa:
sob a luxuosa embalagem, o barão escondia um coração frio, um egoísmo cego e vaidade.
Se agora ele a pedisse em casamento, iria fazê-lo por insistência dos companheiros, para preservar a reputação dela, que comprometera arbitrariamente...
E ele não tinha dúvidas de que seria aceito com entusiasmo – o expressivo riso de Desidério soava zombeteiro em seus ouvidos.
Com o rosto em brasa, Dagmara pulou do divã.
— Vou mostrar-lhe que ele não é nem um pouco irresistível e que não quero o seu sacrifício.
Vou deixar que continue livre para todas as suas futuras sujeiras! – pensava ela, andando nervosa pelo quarto.
Mas esse nervosismo foi passageiro e, parando diante da pia da toalete, Dagmara lavou o rosto com água fria.
Ela sentiu um vazio interior, seu universo de sentimentos e esperanças desmoronou e desapareceu num abismo sem fundo.
Mas a sua alma, bondosa e disciplinada na arte do autodomínio não vacilou; uma hora depois ela apareceu na sala de visitas e nada, excepto a palidez, demonstrava a tempestade que havia passado em sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:53 pm

Ela conversou como sempre, e os dois oficiais saíram sem suspeitar que ela ouvira a sua conversa.
Ao voltar para casa, o barão trancou-se em seus aposentos e, por muito tempo, estudou o problema que o preocupava.
Era difícil evitar o casamento, devido à opinião pública e isto significava que devia submeter-se.
Quanto ao assentimento de Dagmara, ele não duvidava disso nem por um segundo.
A garota era sem dúvida encantadora, honesta e lhe agradava muito, também devia levar-se em conta o seu poder oculto, que seria muito importante, principalmente a partir do instante em que tal poder estivesse inteiramente à sua disposição.
Além disso, ela era tão ingénua e confiante que nunca iria incomodá-lo.
Ele poderia continuar a sua costumeira vida de solteiro, com liberdade ainda maior, pois livrar-se-ia do rígido controle da mãe.
Esse inesperado pensamento fez Desidério endireitar-se.
Ele percebeu que se livraria de uma incómoda e cansativa carga e saltaria para a liberdade.
É claro que ele amava muito a mãe e reconhecia seus cuidados, amor e sacrifícios, mas ela sufocava-o, obrigando a relatar-lhe as suas façanhas e constantemente inventar mentiras para relaxar a sua vigilância ciumenta.
Ele sempre sentiu a sua mão pesada segurando firmemente a carteira.
É verdade que ela não ligava para suas aventuras amorosas e nunca o repreendeu por façanhas que a sua própria consciência rotulava timidamente como más e indignas; mas tal condescendência da mãe era um prémio demasiadamente pequeno por sua tirania geral e a liberdade irrestrita era infinitamente preferível.
Apesar da inabalável decisão de casar, Vallenrod passou uma semana sem aparecer na Vila Egípcia.
O motivo disso é que não tinha coragem para contar à mãe sobre a sua decisão.
Ele temia a sua ira, sabedor do ódio que a baronesa nutria pela filha de sua antiga adversária, que não perdoou nem no túmulo por Gunter amá-la...
Mas, um dia, ele ordenou que selassem o seu cavalo e foi tomar o desjejum, decidido firmemente a falar com a mãe.
Ele quase não tocou na comida, tomando apenas alguns copos de vinho.
A baronesa observava-o em silêncio e finalmente perguntou:
— O que você tem, Desidério?
Estou observando há alguns dias que você está muito estranho.
Está com dívidas ou problemas no serviço?
Desilusões amorosas?
E por que ontem você não foi à casa dos Domberg?
Já é a terceira vez que você declina indelicadamente o convite deles.
Na minha opinião, você deve dar um basta a isso e declarar-se à Berta.
Ela é um partido brilhante.
A maravilhosa propriedade Erlengof foi adquirida em nome dela.
Desidério levantou-se, colocou o copo na mesa e disse surdamente:
— Eu nunca vou casar com a filha de uma ignóbil porca que nos arruinou e em cuja cama meu pai suicidou-se.
Minha esposa será a Condessa Dagmara von Helfenberg.
Eu a comprometi e devo casar-me com ela.
A baronesa endireitou-se; seu rosto pálido cobriu-se de manchas vermelhas e os lábios trémulos negaram-se a obedecer.
De repente, ela jogou-se sobre o filho, agarrou-o pelo braço e, agitando-o com força, gritou com voz sibilante e irreconhecível:
— Patife! Idiota vulgar!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:54 pm

Para que foi seduzir aquela meninota?
Já não lhe chegavam as suas amantes?
Desidério afastou a mão da mãe e, recuando, disse com olhar flamejante:
— Eu não a seduzi e nem tinha intenção de fazê-lo!
O meu jogo duplo para manter a vaga de ajudante-de-ordens e enganar a Domberg obrigou-me a comprometer Dagmara!
Vou agora à vila e volto de lá noivo!
Prepare-se para isso!
Minha decisão é inabalável.
Não esqueça que você deve minha vida a Detinguen e sua ira gratuita faz você simplesmente bisonha.
E, sem esperar pela resposta, saiu correndo de casa, montou no cavalo e galopou para a vila.
A baronesa, vendo-se só, começou a correr feito louca pelos quartos e, por fim, teve um forte ataque de nervos.
Caiu no divã, soltando fortes gritos e risadas agudas que deixaram a camareira aterrorizada, imaginando que ela havia enlouquecido.
A rápida corrida ao ar livre acalmou um pouco Desidério.
Chegando ao bosque que ficava a caminho da vila, ele conteve o cavalo e virou para uma trilha fora da estrada.
A trilha era mais longa mas, em compensação, não tinha poeira.
Imerso nos próprios pensamentos, Desidério ia a passo lento quando, de repente, ouviu o tropel de outro cavalo e, por entre as árvores, viu Dagmara que se aproximava, vindo da direcção oposta pela mesma trilha.
Nervosa e triste, ela ordenou que lhe selassem um cavalo e decidiu dar um passeio sozinha, como fazia sempre que queria ficar só.
Ao ver o barão, ela ficou levemente emburrada.
Aquele encontro não lhe agradava, mas Desidério não deu a mínima importância a aquele mau sinal.
Ele percebeu com vaidade que Dagmara estava mais pálida e magra e que nos cantos de sua boca surgira uma amarga dobra.
“Ah!” – pensou ele.
“Ela está triste com minha longa ausência.
Mas mesmo sem a mínima vontade da minha parte, vou agora dissipar esta sombria preocupação e transformar o lírio em uma rosa.
E, convenhamos, ela não é nada má”— acrescentou ele, com ar de conhecedor, admirando a formosa e esguia figura de Dagmara.
Estocando o seu cavalo, ele aproximou-se rapidamente da jovem.
— Condessa – disse ele, depois dos cumprimentos – permita-me acompanhá-la até a vila.
Eu estava dirigindo-me para lá na esperança de encontrar a encantadora anfitriã sozinha.
Precisamos conversar sobre um assunto muito importante e gostaria de fazê-lo o mais brevemente possível.
Dagmara estremeceu imperceptivelmente, mas sua voz estava firme, quando respondeu:
— Pode falar, barão.
Neste instante o bosque está tão vazio quanto a minha sala de visitas.
O que quer me dizer?
Uma profunda ruga surgiu na lisa testa de Desidério.
A resposta de Dagmara e o seu tom não lhe agradaram nem um pouco.
“Vejam só!
Esta garotinha ainda quer exibir-se, quando sei que está ardendo e definhando à espera de minha declaração.
Ela me paga!”
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:54 pm

Este pensamento passou momentaneamente na cabeça do barão, mas o seu rosto expressava a mais profunda ternura.
Aproximando-se de Dagmara, ele pegou-a pela mão e murmurou com a voz carinhosa, que tantas vezes o ajudou a atrair em sua rede mulheres incautas que ele queria possuir:
— Eu te amo, Dagmara!
Se o quisesses, já terias notado isso há muito tempo.
Decidi finalmente declarar-me; peço-te a mão para tornar-te a companheira da minha vida.
A jovem ouviu-o cabisbaixa.
Ela tentava captar naquelas palavras uma única nota de sinceridade, ou um impulso do coração.
Não encontrando nada parecido, sua alma encheu-se de severa amargura e ela respondeu friamente:
— A sua proposta me lisonjeia, barão, mas não posso aceitá-la.
— A senhorita não me quer? – murmurou Desidério, não acreditando nos próprios ouvidos.
— Não quero, pois não posso ser esposa de um homem que vai casar comigo somente por questão de honra e por insistência de seus companheiros – disse Dagmara, sublinhando cada palavra e olhando-o com desprezo.
Desidério empalidecia e ruborizava.
Foi invadido por uma fúria insana; parecia-lhe ter recebido uma bofetada.
Conteve-se com dificuldade e disse por entre os dentes:
— Condessa!
A sua rejeição é uma ofensa para mim.
Com que direito faz isso?
Os olhos cinzentos de Dagmara escureceram e o seu olhar sério encarou desafiadoramente os olhos indignados de Desidério.
— Pelo direito incontestável de dispor de minha própria pessoa.Mas vou expor-lhe a razão da minha negativa.
Não preciso de que casem comigo por “questão de honra”, porque não me acho comprometida com as suas constantes visitas.
E, para livrá-lo de quaisquer suspeitas quanto à falta de nobreza em relação à mulher cuja reputação, em sua opinião, o senhor manchou, posso anunciar abertamente que o senhor pediu a minha mão em casamento e eu recusei.
O senhor está livre, barão Vallenrod!
Não sou mais necessária para livrá-lo de Berta Domberg, e eu mesma considero o senhor livre de quaisquer obrigações para com a minha pessoa.
E, sem esperar a resposta, ela virou rapidamente o cavalo e galopou para longe.
Desidério permaneceu imóvel no lugar.
Sua cabeça girava e uma terrível fúria interior quase o impedia de respirar.
Nunca antes a sua vaidade sofrera tão duro golpe; e o papel de vítima submissa do cumprimento da honra” que ele pretendia desempenhar não deu certo.
Além disso, ele estaria numa situação ridícula se a verdade fosse revelada.
E aquela fraca e ingénua meninota que o amava – ele tinha certeza disso – ousou dizer-lhe “não” e demonstrar-lhe o seu desprezo!
Naquele instante um profundo ódio por Dagmara encheu seu coração e ele cerrou os punhos, mordendo nervosamente os lábios.
Mas quem poderia ter contado tudo a ela, abrindo-lhe os olhos e transformando o seu amor em inimizade e desprezo, pois ela certamente o amava?
Aquele olhar límpido, que nunca mentia, confirmou isso inúmeras vezes.
Apesar da raiva, Desidério sentia também uma amarga tristeza, pois desde que perdeu Dagmara, ela adquiriu aos seus olhos um valor especial.
Andando pelos arredores por algumas horas, Desidério retornou à cidade.
Seu cavalo estava exausto e ele, depois do prolongado passeio, parecia calmo, mas só externamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:54 pm

Além do mais, ele não conseguia decidir-se a voltar para casa e, então, foi directo à casa de seu companheiro, que festejava a sua promoção a tenente, com grande almoço e bebedeira.
Quando Desidério chegou, todos os presentes, entre os quais algumas actrizes, já estavam sentados à mesa e receberam-no com gritos de boas-vindas.
O banquete era farto e o vinho corria a cântaros.
Desidério, levado pelo ambiente animado e alegre, bebia copos e mais copos, superando a todos com o seu comportamento livre e gracejos picantes.
Após o banquete, todos passaram para o salão de visitas.
Primeiro começaram a cantar e tocar, depois dançaram e jogaram cartas; enquanto isso a bebedeira prosseguia.
Já eram cerca de três horas da madrugada quando todos saíram.
Dois criados levantaram Desidério da poltrona com dificuldade, conseguiram vesti-lo no uniforme e o enrolaram no sobretudo do patrão, pois o sobretudo do barão fora levado por engano por um dos convidados.
Em seguida, colocaram-no numa carruagem e ordenaram ao cocheiro levá-lo para casa.
Pálida e com lábios cerrados, a baronesa Vallenrod, cheia de fel e raiva, aguardava a volta do seu filho.
Ela estava parada junto à janela que dava para a rua, o que lhe permitia ver de longe a chegada de alguém.
Onde estaria ele?
Não é possível que ficasse na casa de Detinguen até àquela hora.
Provavelmente, alguns companheiros o arrastaram para uma farra, que sempre o deixava num estado horrível no dia seguinte.
A baronesa odiava tais reuniões e, preocupada com a saúde do filho, castigava-o, privando-o de subsídios.
Desidério sabia disso e, cuidadosamente evitava ser visto pela mãe após as oferendas a Baco excessivamente grandes.
Pois, por mais absurdo que fosse tal despotismo materno, ele tinha de obedecer.
Dessa vez, entretanto, ele perdera completamente a capacidade de pensar e, por isso, deixou que o levassem para casa.
Quando a carruagem parou na entrada da casa, a baronesa percebeu que suas suspeitas não a enganaram.
Levantou-se para chamar o estafeta, mas depois mudou de ideia e foi rapidamente à sala de visitas para receber o filho no saguão, com um sermão sentido.
Ela ouviu Desidério subir as escadas com dificuldade; depois, a mão trémula começar a procurar o buraco da fechadura sem conseguir acertá-lo com a chave.
Finalmente conseguiu e entrou no saguão, jogando ao chão o sobretudo, que mal se mantinha sobre os ombros.
De repente, ele viu a mãe e algo parecido com surpresa passou pelo seu pálido e desfigurado rosto ao vê-la de pé àquela hora.
Ele encostou-se na parede, pois as pernas trémulas recusavam-se a obedecer-lhe e, com o olhar turvo, ficou encarando-a .
A baronesa olhava-o, muda de raiva.
Tudo aquilo significava que ele voltava de uma bebedeira e naquele instante estava incrivelmente parecido com o seu finado pai.
Quantas vezes Gunter voltou para casa no mesmo estado, com o uniforme desarrumado, camisa aberta, olhos afundados e vítreos – a personificação da boémia.
Ao lembrar disso, Helena estremeceu e cerrou os punhos.
Certa vez, quando Desidério tinha dezasseis anos e frequentava a academia militar, ele voltou para casa completamente bêbado; naquela ocasião, a baronesa agarrou o chicote das trémulas mãos do filho e deu-lhe uma violenta surra que este não esqueceu por muitos anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 02, 2016 7:54 pm

Ela faria isto novamente e com prazer, mas Desidério já não era um menino e o espancamento já passara para a história.
— Parece que você comemorou bem o seu noivado!
Embevecidos pelo triunfo, Detinguen e sua futura esposa receberam-no bem! – disse ela com voz trémula de raiva.
Os olhos de Desidério acenderam-se.
— Acalme-se!
Ela não quis casar comigo – respondeu roucamente.
— Não quis casar com você? – repetiu a baronesa, desconfiada e ofendida, desta vez, no orgulho materno.
Ela é uma débil mental?
— Provavelmente! – respondeu Desidério, com leve ironia.
Em seguida, ziguezagueando e segurando-se nas cadeiras, ele se arrastou para o quarto.
A baronesa o seguiu, ouvindo-o dar encontrões nos móveis e tirar as botas com forte ruído; depois disso veio o ruído de vidro quebrado e tudo silenciou.
Então a baronesa voltou em silêncio ao seu quarto.
“Então ela não o quis para marido!...
Será que não o ama?
Ou tal resposta foi sugerida a ela pelo diabólico orgulho herdado da mãe?” – pensava ela, despindo-se e esquecendo que, se Dagmara visse Desidério do jeito que ele estava naquele momento, teria ficado feliz com a própria decisão.
“Graças a Deus que tudo aconteceu assim e me livrei dela.
E devo desculpar esta arte do meu filho.
Isto é absolutamente natural depois de tal ofensa à sua vaidade.
Pois é, Deus sabe o que faz” – concluiu a baronesa as suas elucubrações, esticando-se prazerosamente no leito.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:54 pm

X

Dagmara voltou para casa extremamente agitada.
Estava satisfeitíssima por ter dito “não” a Desidério e jogado na sua cara a hipocrisia e a baixeza de seus actos e descontado aquele desdenhoso “Ah Ah!”.
Mas, ao mesmo tempo, sentia-se cansada, nervosa e atormentada por uma tristeza que nunca havia sentido antes.
Quando Detinguen chegou, percebeu imediatamente pelo brilho febril dos olhos, lábios tremendo de nervosismo e palidez de Dagmara, que acontecera algo.
Ele desconfiou que aquela agitação fora provavelmente provocada pela declaração de Desidério e, querendo certificar-se disso, sentou-se perto de Dagmara e perguntou, abraçando-a carinhosamente:
— Você está nervosa, minha querida criança.
O que aconteceu?
Você sabe que sou seu melhor amigo e que pode confiar em mim!
— Eu sei, papai!
Eu estava aguardando-o ansiosamente para dizer que hoje Vallenrod me propôs casamento e eu não aceitei...
Detinguen estremeceu e seu rosto ficou sombrio.
— E por que você decidiu esta questão tão importante sem me consultar?
— Porque sabia de antemão que você iria aprovar o que fiz.
Papai ele é uma pessoa indigna, do tipo daqueles que você me falou.
Você próprio não gostaria de ver-me casada com alguém que não poderia respeitar.
Com o rosto vermelho e olhar faiscante, Dagmara contou-lhe tudo o que acontecera entre ela e Desidério.
Detinguen ouviu com atenção e levantou-se, com um profundo suspiro.
— Só posso aprovar o que fez, minha querida criança.
A sua dignidade feminina fez você agir assim.
E retirou-se para o gabinete, alegando ter um trabalho inadiável.
Mas, em vez de trabalhar, começou a andar pelo quarto com o semblante sombrio e preocupado.
Por fim, jogou-se na poltrona e cobriu o rosto com as mãos.
— E então, o acto de alta sabedoria transformou-se em acto diabólico!
Como pude ligar esta vida juvenil àquele patife?
Será que tinha o direito de agir assim, sem seu consentimento e sem revelar-lhe toda a verdade?
Confessar agora – seria impossível e sem sentido!
O crime está feito.
Abusei da confiança de um ser inocente e entreguei-a em sacrifício à minha ciência.
Como um Sheilok, eu obriguei-a a pagar com o seu próprio corpo o bem que fiz.
Ele levantou de supetão da poltrona e, agitado, começou novamente a andar pelo quarto.
— Eis o dragão que guarda a entrada para o mundo desconhecido, que resolvi estudar.
Ele deixou-me entrar e fiz-me seu aprendiz mas, em troca, fui obrigado a entregar-lhe o que tenho de mais precioso.
E quantos inocentes morreram nas garras do minotauro insaciável, chamado ciência!
Nós – adeptos das ciências ocultas, criticamos a cruel vivissecção dos cientistas modernos, que através do sofrimento do ser vivo, tentam compreender os segredos da acção da matéria.
E nós somos melhores? Nem um pouco!
Somos somente mais sofisticados.
Sob o nosso bisturi, em vez de sangue, corre a própria essência da vida; utilizamos sem vacilar a força vital do ser e o fazemos sofrer, para despertar aqueles eventos misteriosos que deverão fazer a turba ingrata e imbecil crer na vida após a morte.
Assim já se fazia nos templos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:54 pm

Hoje, o irracional rebanho humano critica e odeia de todas as formas os infelizes que possuem o dom destas misteriosas capacidades, e somente porque eles lhes permitem conhecer o mundo invisível.
Mas que direito tenho de julgar, se eu próprio sacrifiquei um ser delicado e puro a um homem que irá pisar a quem ele deve a vida?
– O abismo atraiu-me!
Vou desaparecer e estarei inacessível ao julgamento humano; mas o mal que fiz sobreviverá a mim, e quem irá pagá-lo com sofrimento imerecido será um ser inocente.
Oh! Como são felizes os pobres de espírito...
E com um rouco gemido, Detinguen caiu no divã e cobriu a cabeça com travesseiros.
Passou-se bastante tempo até que ele levantou-se de repente e com ar de cansado.
— Devo ver como ela está!
Uma grande excitação de ambas as partes pode ter consequências perigosas.
O barão acendeu a vela e dirigiu-se ao quarto de Dagmara.
Já amanhecia, mas o quarto estava completamente escuro, graças às espessas cortinas fechadas.
A fraca luz nocturna era insuficiente para iluminá-la.
Detinguen aproximou-se silenciosamente da cama e iluminou cuidadosamente a adormecida.
Sobre a almofada, Dagmara dormia tão pálida quanto a branca cambraia de sua camisola; mas aquele estranho sono era muito parecido com desmaio, pois as suas mão estavam frias e a respiração quase imperceptível.
— Eu estava certo, ela está em completo e profundo transe – murmurou Detinguen.
Colocando a vela sobre a mesinha de cabeceira, ele começou a executar passes mágicos.
Pela forte tensão da força de vontade, as veias da sua testa incharam e ele começou a suar, mas Dagmara permanecia como morta.
Respirando pesadamente, o barão sentou-se e enxugou o rosto.
— A idade e a doença tiraram de mim as últimas forças.
Não tenho vitalidade suficiente para este jovem organismo – pensou, abatido.
Um minuto após, levantou-se decidido e tirou de dentro da roupa algo parecido com um talismã em forma de estrela em cujo centro estava incrustada uma pedra semelhante a diamante, mas com brilho e reflexos muito mais fortes.
Levantando com um gesto imperioso o talismã, Detinguen pronunciou um encantamento rítmico, levantando e baixando a voz.
Após alguns minutos, da parede perto da janela começou a levantar-se uma nuvem avermelhada, cujo movimento obedecia exactamente ao canto do invocador.
Aumentando e condensando-se aos poucos, a nuvem tomou a forma semitransparente de um homem que parecia levantar-se da cama.
Apesar do reflexo avermelhado, seu rosto estava mortalmente pálido até sob a luz vermelha que o iluminava, os olhos afundados nas órbitas e exalando um sufocante odor de mistura de vinho e sangue.
Detinguen recuou como se recebesse um forte golpe.
— Seu animal!
Seu animal, embebido de elementos de alcoolismo e devassidão, volte para onde veio! – exclamou o barão, diante da aparição, levantando o braço num gesto imperioso.
Mas a estranha aparição, aparentemente não o percebendo, passou silenciosamente por ele e desapareceu nos cortinados da cama.
— Santo Deus!
Ele é mais forte do que eu! – exclamou Detinguen, já sem forças, encostando-se no móvel e fechando os olhos.
Mas essa fraqueza foi passageira.
O barão recuperou-se e correu para a cama.
A aparição havia sumido e ele, com a mão trémula, constatou que o corpo de Dagmara estava novamente morno e flexível.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:54 pm

O rosto encantador adquiriu a cor rósea e a respiração normal e profunda atestava que agora ela dormia um sono reparador.
— Ah! – murmurou Detinguen com lábios trémulos.
Se até aquela carniça fluídica foi capaz de levantar a força vital, então sinto-me inútil com a minha ciência.
A natureza venceu-me.
Detinguen virou-se e saiu do quarto quase correndo.
Chegando aos próprios aposentos, sentou-se na poltrona e com as duas mãos apertou o peito onde o coração batia fortemente.
O terrível cansaço e a forte emoção provocaram um ataque da sua doença.
Duas horas mais tarde, a camareira despertou Dagmara.
Muito assustada, ela contou que o velho José, preocupado com o amo, que não chamava para vestir-se, entrou no gabinete e viu o barão deitado e desacordado no tapete.
Sem saber o que fazer, ele imediatamente enviou um emissário a cavalo para chamar o doutor Reiguern e ordenou a ela, Jenni, avisar a senhorita sobre o acontecido.
Dagmara, assustada e pálida, vestiu rapidamente um penhoar e desceu para o gabinete do barão.
Detinguen já estava deitado no divã, e José tentava reanimá-lo sem sucesso.
Mas Dagmara era aprendiz de Detinguen.
Com calma e decisão, difíceis de se esperar de uma garota impressionável ela examinou o pai.
Conhecia os ataques a que seu pai sofria e sabia que meios devia utilizar.
Correu imediatamente para o laboratório e trouxe de lá uma caixa com remédios.
Primeiramente, friccionou os braços e as têmporas do paciente com uma certa essência, enchendo o quarto com um aroma estimulante; em seguida, após injectar algumas gotas no paciente, ordenou que trouxessem carvões em brasa e jogou sobre eles um punhado de ervas para que Detinguen pudesse aspirar a fumaça.
Um minuto depois, o barão moveu-se e abriu os olhos.
Ao ver Dagmara, pálida e chorosa, debruçada sobre ele, uma expressão de profunda amargura passou-lhe pela face.
— Enfim você voltou a si, papai!
Que susto levei! – exclamou alegremente a jovem, beijando-lhe carinhosamente a mão.
Como está se sentindo? – acrescentou.
Fiquei tão assustada, que nem sei se usei os medicamentos certos.
— Você escolheu-os maravilhosamente bem, minha fiel enfermeira!
Já me sinto muito melhor.
Agora dê-me mais um copo d'água com dez gotas do conteúdo deste frasco lilás.
Óptimo! E, para reforçar, vou beber um copo de vinho, mas somente daquele que está trancado no meu cofre secreto.
Pegue a chave e encha o copo com o cantil de opala.
Mas não se esqueça de colocar tudo de volta no lugar.
Meia hora mais tarde chegou Reiguern.
Ele examinou o barão, que já havia recuperado as forças depois de beber o copo de vinho.
Depois, ao cumprimentar Dagmara, que, preocupada, enchia-o de perguntas, disse, com um sorriso forçado:
— Minha querida e maravilhosa colega!
Você nada deixou para mim.
O estado do barão é bastante satisfatório dentro do que é possível na presente situação.
Dou-me por vencido diante dos estranhos, mas, sem dúvida, eficientes remédios que você utilizou.
— A sua ciência é mais limitada do que a minha, porque o senhor admite somente a matéria – respondeu com um sorriso, Detinguen.
Estas ciências são irmãs, e quando se unirem para trabalhar em conjunto, iluminarão o mundo inteiro com uma intensa luz.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:55 pm

— Eu vejo aqui ervas, extractos, pós – ou seja, uma farmácia.
Tudo isso me atrai tanto quanto o fruto proibido.
O senhor permitiria satisfazer a minha curiosidade?
— Com prazer!
Dagmara, mostre a caixa ao seu amigo.
O senhor poderá abrir todos os frascos e cheirar o seu conteúdo, excepto estes dois frascos negros, pois seu aroma é mortal.
Assim que Lotar examinou, cheirou e apalpou tudo, ele ficou sério e pensativo.
— Vejo aqui amostras de uma flora desconhecida e ingredientes que nenhum dos nossos químicos jamais analisou.
Confesso sinceramente que nesta hora sinto-me um completo ignorante.
— Não posso revelar estes segredos a não-iniciados.
O senhor somente riria de muitas coisas se lhe contasse a sua utilidade.
Quanto a isso, as nossas opiniões divergem enormemente – disse Detinguen.
Em seguida, ele ordenou a Dagmara para fechar a caixa e levá-la ao laboratório.
Quando o médico foi embora, o barão adormeceu e acordou somente à noite.
Ele se sentia bem mais animado e ordenou que lhe trouxessem algo para comer.
Depois, conversou alegremente com Dagmara, mas perto das onze horas mandou-a dormir.
— Vá, minha filha, e durma em paz!
Estou me sentindo muito bem.
Posso afirmar que a doença irá deixar-me em paz por algum tempo.
Já tomei os remédios necessários e logo também irei dormir.
Ficando só, Detinguen ficou profundamente pensativo.
Quando soaram as doze horas, ele levantou-se e entrou no santuário.
Vestindo uma túnica de linho, acendeu um candelabro de sete velas e os carvões dos tripés onde jogou um punhado de pó, que queimou com chama colorida, perfumando o ambiente.
Caindo de joelhos diante do altar, ele levantou-se em seguida e, levantando os braços, começou a cantar uma estranha canção.
Passara-se cerca de um quarto de hora.
De repente, na frente do baldaquim de veludo sobre o altar, apareceu uma nuvem fosforescente e piscaram raios coloridos.
Um sopro de ar quente e perfumado passou por Detinguen e, sobre os degraus do altar, ele viu o mesmo misterioso visitante que já lhe havia aparecido uma vez.
Como da primeira vez, a aparição estava usando uma túnica transparente de um branco ofuscante; e os grandes e luminosos olhos do desconhecido fitavam Detinguen com olhar profundo e inquisidor.
— Saudações, mestre! – disse o barão, curvando-se respeitosamente.
Quero informar-lhe que a matéria da minha imagem terrena está se destruindo.
Não temo a hora quando o meu “eu” espiritual abandonar este invólucro corporal, mas gostaria de preparar-me para isto.
Um iniciado não pode morrer como um homem comum.
A morte não deve pegá-lo de surpresa e ele próprio deve ir ao seu encontro.
Peço-lhe uma graça, mestre!
Diga-me o dia e a hora em que o espírito do seu aprendiz irá elevar-se ao espaço!
— Você tem razão.
Temer a morte é típico de ignorante, que em sua cegueira, agarra-se à carne e tem medo da destruição que ele acha que vem após a morte, se a sua vida não está ocupada pelas brutas necessidades corporais – respondeu o desconhecido, com a sua voz surda e metálica.
A hora do seu renascimento espiritual aproxima-se e chegará em seis semanas; na quinta-feira, dia trinta de abril, virei buscá-lo à meia-noite.
Esteja calmo!
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:55 pm

A grande passagem será somente um sono leve e agradável, como o sono de um cansado viajante após longa caminhada.
Saiba que a própria vitalidade corta os cordames que a prende à matéria bruta.
Somente aquele que teme a destruição, na grande hora, agarra-se à velha roupa e, horrorizado, vacila entre as duas forças que disputam a sua vítima.
O tempo que lhe resta é mais do que suficiente para acertar as suas coisas terrenas.
Além disso, você deve utilizá-lo para passar as últimas instruções à sua filha.
Três dias antes de sua morte você deve iniciá-la naquilo para o que ela está totalmente capacitada.
À citação do nome de Dagmara, o rosto de Detinguen ficou sisudo e uma expressão doentia e amarga distorceu os seus lábios.
O desconhecido levantou a mão.
— Eu vejo a sua preocupação, dúvidas e arrependimentos.
Será que você esqueceu que arrepender-se daquilo que está feito é o mesmo que pegar água com peneira; duvidar significa – desarmar-se.
O iniciado deve temer somente uma coisa – transgredir as leis cujo poder e imutabilidade ele compreende.
A moça que você ama segue seu caminho, sob a influência do karma que ela própria criou por seus actos e desígnios durante longos séculos do passado; e o sofrimento actual é o crisol pelo qual deverá passar a sua pura e bondosa alma para testar as suas forças, superar as últimas fraquezas e elevar-se para uma esfera superior.
É para essa grande batalha que você vai prepará-la; deve adverti-la sobre o perigo do rancor e da dúvida, e cobri-la com a couraça dos sábios contra as flechas envenenadas com que vão feri-la os seres inferiores.
A sua missão consiste nisso e não em vãos arrependimentos!
E agora, até a hora da sua libertação.
A aparição fez um sinal de despedida com a mão e, empalidecendo, dissipou-se no ar.
Com o rosto expressando grande alegria e entusiasmo, Detinguen caiu de joelhos e rezou fervorosamente.
Depois, voltou para o seu quarto e adormeceu em paz.
Nos dias seguintes o barão ocupou-se activamente para colocar em ordem todos os seus negócios.
Ele teve um encontro com o tabelião e escreveu algumas cartas, que lacrou e guardou na escrivaninha.
Terminado isto, suspirou aliviado e iniciou com ardor a segunda parte da missão:
passar os últimos ensinamentos a Dagmara.
Todo dia, desde a manhã, Detinguen e a moça dirigiam-se ao laboratório.
Lá e no quarto contíguo, que Dagmara ainda não conhecia, trabalhavam no inventário do conteúdo de muitas caixas e armários, que eram a farmácia do venerando sábio.
Tudo foi dividido em três categorias:
na primeira estavam os frascos e pós, na segunda – plantas e raízes e, finalmente, na terceira – unguentos e metais.
Cada medicamento recebeu uma etiqueta com o nome, propriedades e método de utilização.
A estes dados, Detinguen acrescentava explicações verbais que Dagmara anotava cuidadosamente e que a interessavam extremamente.
Vendo o seu esforço, o barão sorria bondosamente.
— Pois é, minha cara criança!
Estou abrindo-lhe um grande campo de actividade:
actividade beneficente e cheia de interesse científico.
Você estará em condições de não somente estudar e curar as doenças externas e internas do corpo, tratadas com tanta imperfeição pela medicina moderna, mas também as doenças do cérebro, possessões, encantamentos – ou seja, todo o campo dos males espirituais, uso e mau uso das forças ocultas, não pesquisadas e desprezadas pela “ciência” moderna.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:55 pm

Somente o hipnotismo, que os cientistas não podem negar, já trouxe muitas surpresas, mesmo que represente um ínfimo ramo da enorme árvore do mundo desconhecido para eles.
Vê estes cadernos?
Neles reuni a lista das misturas necessárias, que você conhece, mas muito superficialmente, isto é, a teoria de tratamento por aroma, cor e som.
Eles lhe indicarão o grau da doença e meios que devem ser aplicados.
Estes sete vidros, cada um com uma cor especial do prisma, contêm uma substância muito valiosa que deve ser utilizada com cuidado.
Estes extractos são compostos de sucos de frutos, folhas e raízes, cultivadas por um método muito especial, sob a influência das constelações, influências benéficas que eles devem oferecer.
Uns floriam sob os raios escaldantes do sol, outros sob os raios prateados da lua e, finalmente, outros que nunca viram a luz e cresceram na profunda escuridão das cavernas.
É difícil descrever o que se passava na alma de Dagmara naqueles dias de muito trabalho.
Às vezes, os novos horizontes que se abriam diante dela ofuscavam-na, fazendo esquecer-se de tudo.
Mas, frequentemente era assolada por pensamentos sombrios que enchiam seu coração de tristeza.
Ela via e sentia que seu pai estava morrendo; em seu olhar já se notava aquela estranha expressão que indicava a próxima separação da alma do corpo.
Aquela mesma expressão, mas num grau muito inferior, ela havia observado em seus animais de estimação:
no pássaro, no esquilo e em dois pequenos cachorrinhos.
Todos eles, quando morriam em suas mãos, olhavam-na com o mesmo estranho olhar, cheio de tristeza, afeição e despedida, que dá ao animal agonizante uma expressão humana.
Naquele momento solene, o animal, aparentemente, consegue extrair de dentro de si a fagulha Divina, que cochila subconscientemente durante o seu estado animal.
No ser humano, o fogo que anuncia a separação do espírito da matéria aparece tão nitidamente que Dagmara não podia estar enganada e a infelicidade que se avizinhava encontrava-a fraca e desarmada.
Mesmo assim, ela tentava ser forte e estudava com afinco todos os procedimentos mágicos para a preparação de remédios, anotando meticulosamente todas as indicações de Detinguen.
Certa vez, eles estudavam juntos o uso de diferentes essências.
O barão retirou de um cofre secreto uma pequena e aparentemente antiga caixinha dourada, cuja tampa estava enfeitada com pedras que Dagmara não conhecia;
o interior da caixinha era coberto por um esmalte cujas faixas estavam pintadas das cores do arco-íris e no fundo havia um frasco chato e volumoso com uma pesada tampa de ouro.
Dagmara inclinou-se, por curiosidade, para melhor examinar o frasco feito de uma substância parecida com madrepérola mas transparente como cristal, permitindo ver o líquido no seu interior que parecia ouro líquido. Um aroma pesado mas fortificante enchia a caixinha.
— Veja só, papai!
Parece até que desta caixinha a gente aspira vida! – exclamou ela.
— Maravilhosa comparação!
Esta substância, é quase a própria vida – respondeu Detinguen, sorrindo.
Em casos de gangrena, mordida de cobra, animal raivoso ou envenenamento, ou seja, em todos os casos de decomposição do sangue, este líquido faz milagres, restabelecendo os elementos vitais, bastando para tanto que o coração ainda esteja batendo.
Mas este remédio deve-se utilizar com muito cuidado, pois uma dose excessiva mata com a rapidez de um raio e a etiqueta no frasco contém todas as indicações necessárias.
Você deve economizar bem este remédio.
A tampa é feita de modo a deixar passar uma única gota por vez e que deve ser diluída com água na proporção indicada.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:55 pm

Mas, repito, use este remédio somente em casos extremos e esconda-o até do seu marido.
No mesmo dia, à tarde, Detinguen e Dagmara estavam a sós no gabinete.
Percebendo que a jovem estava distraída, o barão colocou a mão sobre a sua cabeça e perguntou afectuosamente:
— Em que está pensando, minha querida filha?
— Em você, papai e sobre a incapacidade da ciência que, apesar da sua omnipotência, não consegue devolver-lhe a saúde e nem prolongar-lhe a vida! – exclamou Dagmara, derramando amargas lágrimas.
Detinguen olhou-a com amor e solidariedade.
— Minha querida!
Já faz muitos anos que esta ciência mantém a minha vida.
Se os meus dias não podem ser prolongados além dos limites normais, então devo culpar somente a mim e não ao conhecimento sagrado.
Comecei tarde demais a vida de sábio e na juventude, como tantos outros, gastava minhas forças e a essência vital.
Agora elas acabaram e o desgastado mecanismo da máquina corporal deve parar.
Mas, querida filha, vou aproveitar o assunto para dar-lhe alguns conselhos.
Há muito tempo que pretendia fazê-lo mas nunca me decidia.
Espero que você fique firme e me escute com aquela calma que eu tenho direito de exigir da minha pupila.
— Vou tentar, papai! – murmurou Dagmara, levando aos lábios a mão do ancião.
— Eu, realmente, devo despedir-me de você, fisicamente, mas para seu consolo e manutenção vou deixar, em primeiro lugar, uma modesta poupança, suficiente para garantir a sua independência; em segundo, deixo algo muito mais valioso – o conhecimento que lhe abrirá um vasto campo de trabalho útil.
Você estará em condições de amenizar o sofrimento do próximo; e fazer o bem é um enorme prazer.
Mas para aprender a dar-lhe o devido valor e utilizá-lo, é preciso submeter-se às condições específicas correspondentes.
Em primeiro lugar, não fale a ninguém do seu conhecimento, pois irá despertar somente inveja e calúnias.
Use-o somente em pobres, humildes e desafortunados, dos quais o cruel destino retirou os últimos meios de vida e para os quais a saúde é equivalente ao pão de cada dia.
Leve a salvação e a luz aos miseráveis casebres e covis!
E vendo suas lágrimas secarem e a esperança renascer, você sentirá uma paz e alegria que serão a sua recompensa por muitas e inevitáveis contrariedades da vida.
Tente o quanto possível evitar pacientes ricos e fortes.
Seus sofrimentos geralmente são frutos de vícios e abuso de prazeres, e, por isso são um castigo merecido; e além disso, são amenizados pelo conforto e certeza de um futuro garantido.
E o principal, não procure entre eles algum ideal.
Absortos exclusivamente na parte material da vida, eles não são capazes de compreendê-lo e nem se dignam a procurá-lo.
Quando digo “materialista”, não estou me referindo às pessoas que negam Deus, e são vaidosos adeptos de uma ciência limitada; materialista – é um escravo da carne, dos prazeres baixos e instintos animais, que, com suas paixões desenfreadas, rebaixa a própria dignidade humana da qual tanto se vangloria.
São espíritos indisciplinados – cruéis como animais selvagens e que não reconhecem nenhuma lei, excepto a da satisfação das próprias vontades, desprezando ao mesmo tempo qualquer obrigação, qualquer fé e qualquer amor puro e desinteressado.
A relação com tais pessoas é difícil para o ser humano purificado.
Principalmente quando ele está encantado pelo sonho, enlevado pelo entusiasmo da pregação e cego pela própria luz, imaginando que consegue iluminar e transformar estes escravos de Mammon (N. do trad.: deus da Fortuna dos antigos sírios e judeus), cuja auto-estima e tendência aos vícios é mais dura que o granito dos obeliscos.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:55 pm

Ai do idealista que não perceber que esta mudança deve ser feita lentamente e com a frieza de um cirurgião e a paciência de uma formiga. Deve-se semear um solo não preparado sem nenhuma esperança de colheita.
É terrível o momento quando cai a venda que cobre a visão do entusiasmado sonhador e diante dele aparece, em toda a sua nudez, a asquerosa realidade, a achincalhada realidade do cotidiano, despida de tudo o que cobria e enfeitava a sua miséria.
Ai daquele que, nesse difícil momento, deixar cair das mãos o seu facho de luz, pois o fogo, ao se apagar, queimará a ele próprio, deixando somente um cadáver vivo que o espírito abandonou.
É sobre este desastre espiritual que queria preveni-la, minha querida filha!
Dagmara, pálida e trémula, ouvia-o e, de repente, lágrimas jorraram de seus olhos.
— Pai! – exclamou ela, com certo rancor.
Por que você me tirou a minha fé simples e a feliz ignorância, inculcando em mim esta moral inaplicável e esta procura de um ideal que nunca vou encontrar?
Agora você está indo embora e deixando-me sozinha nesta multidão que irá odiar-me e ofender-me e da qual estou separada por convicções incompreensíveis para ela.
Não seria melhor morrer do que saber de antemão que vai ser vencida e infeliz?
Esta explosão de infelicidade e tristeza da filha fez o coração de Detinguen apertar-se dolorosamente, pois a acusação era justa.
Ele tirou dela tudo e, em troca, não deu nada.
Ele a separou dos seus semelhantes e na hora da luta, a abandona sozinha somente com o que ela aprendeu.
Mas, trazendo à memória a clara imagem do mago e suas últimas palavras, ele afastou energicamente a fraqueza momentânea.
Endireitando-se rapidamente, ele agarrou a mão de Dagmara e com a voz firme e convincente disse:
— Tudo o que você desabafou é a amarga verdade, minha filha!
As pessoas vão-na odiar, invejar, caluniar e não vão entendê-la.
Entretanto, você não pode evitar esta luta, esta tortura moral, quando a dúvida e a indignação contra os seus carrascos inesperados entrarão em luta com a fé adquirida e o conhecimento das leis inabaláveis, disputando a sua alma desesperada.
Qualquer pessoa deve passar pelo crisol destes sofrimentos e, se nesta difícil hora ela sair vencedora, abandonará o nosso sombrio inferno, libertar-se-á dos grilhões da carne e elevar-se-á às claras regiões do reinado da verdade eterna.
É para esta vitória que você deve preparar-se e, depois, lutar.
Deixando atrás de si a turba que a ofende, você elevar-se-á à altura do seu conhecimento, como numa luminosa biga, esclarecida e apaziguada com o puro ensinamento dos magos ao qual, somente então, dará o devido valor.
Você não mais precisará levar a luz às pessoas; você a arvorará como Moisés fez com a cobra de cobre, e quem se aproximar desta luz com fé, ficará curado de suas fendas e renascerá para uma nova vida.
Mas quem não crer, voltará a cair na escuridão da redenção e de novas provações.
É exactamente assim, minha querida, que se deve entender a missão dos grandes e pequenos pregadores da verdade:
suportar sozinho a provação com sofrimento, queimar o corpo para renascer das cinzas como um ser desapaixonado que não mais odeia e não se distrai com sonhos irrealizáveis, mas, devido à harmonia dos sentimentos, delicia-se, inabalável, com a suprema bem-aventurança da alma humana, aplicando seu conhecimento não para indivíduos, mas para toda a humanidade.
Se você me entendeu bem, então enfrentará corajosamente as provações que a aguardam, pisando em espinhos e desprezando a dor e as feridas – só para alcançar o luminoso objectivo.
Dagmara ouvia-o, ruborizando e empalidecendo.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:56 pm

Ela entendeu as palavras de Detinguen; mas aquela humanidade à qual ela devia sacrificar o seu conhecimento e trabalho e pela qual iria passar por grande desespero no seu trabalho, não tinha para ela uma forma definida e não a atraía.
Repentinamente, surgiu nela um sentimento único:
despertou a vontade de felicidade, amor e fé em seus semelhantes, ânsia pelo idealismo, que enfeita tudo que lhe é caro e ao qual as pessoas se ficcionam, sofrendo, mas sem perder a esperança.
E por que exactamente ela deve desistir de tudo, isolar-se, matar todas as suas ilusões – e tudo isso pela humanidade ingrata, por um objectivo distante que lhe parece impossível de atingir?
— Pai! – exclamou ela, caindo de joelhos e virando o rosto febril para Detinguen.
Não morra!
Não me abandone sozinha com esta carga de conhecimento e responsabilidade que estão acima das minhas forças!
Meu espírito orgulhoso e rebelde não conseguirá nem submeter-se nem perdoar.
Apavora-me cumprir esta missão que irá retirar dos meus olhos a venda que oculta de mim os defeitos humanos!
O ideal que você descreveu é detestável para mim!
Parece-me que a impessoalidade e a passividade que este ideal exige é um egoísmo supremo, disfarçado pelo apelido de altruísmo e beneficência.
Você diz que vou parar de odiar, mas, em compensação, também não vou mais amar; não mais me distrairei com sonhos e, absorta numa indiferença harmónica, vou observar impassivelmente a luta e sofrimento dos outros?...
Sinto que isto está acima das minhas forças e que, sem você, não estarei em condições de viver entre estas pessoas, das quais tudo me separa: convicções, a moral e o conhecimento!...
Não morra, pai, e não me deixe sozinha, para que eu tenha pelo menos um ser que possa amar sem perigo!...
Detinguen atraiu-a para si e beijou-a na testa.
— Minha querida!
Nunca na minha vida lamentei tão amargamente por ter gasto com tanta leviandade o capital da vida!
Você acha que eu iria embora se pudesse ficar?
Mas você está envolvida na própria infelicidade.
Será que esqueceu que somente o meu corpo irá morrer.
O meu espírito permanecerá com você, irá amar e cuidar de você como nesta vida.
Você irá invocar-me e conversaremos; e então, poderei melhor do que agora explicar-lhe os problemas da vida e esclarecer as suas dúvidas.
Vou ajudá-la na sua luta e recebê-la na entrada do mundo invisível, aonde – espero – você chegará solene e purificada.
— Não pai, isto não será a mesma coisa!
Aprendi o suficiente e sei que quando a matéria se desintegrar, haverá entre nós o invisível.
Estaremos em dois mundos diferentes, controlados por leis imutáveis.
E o meu espírito confuso e abalado pelas preocupações da vida conseguirá manter o equilíbrio e a concentração necessários para invocá-lo?...
Não é a toa que os iniciados se isolam e fogem das pessoas vulgares, preparando-se para entrar no mundo invisível e comunicar-se directamente com os espíritos livres.
Detinguen suspirou.
— Confiei demais em suas forças, minha querida, e o seu pessimismo simplesmente me assusta; parece-me estar ouvindo outra pessoa e não a minha orgulhosa e corajosa Dagmara.
Aliás, espero que esta fraqueza seja temporária.
Mas vamos deixar este pesado assunto para outro dia.
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Re: Conde J. W. Rochester - Bem-Aventurados os Pobres de Espírito / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 03, 2016 7:56 pm

Detinguen tentou mudar de conversa, mas a jovem estava tão nervosa e preocupada, parecendo que suas lágrimas não teriam fim.
Abatida de corpo e alma, ela, finalmente, foi para o seu quarto.
Com a cabeça pesada e o coração apertado, ela deixou-se cair na poltrona e o seu sombrio e cansado olhar ficou vagando pelos objectos à sua volta.
Olhou para o Crucifixo de marfim instalado num nicho e depois para o retrato do pastor.
Os olhos claros e bondosos do velho pareciam encará-la com súplica e participação.
De repente, ela lembrou um episódio de sua infância que a impressionou muito.
Reiguern estava perigosamente doente de tifo e os médicos não davam nenhuma esperança.
A esposa do pastor, chorando copiosamente, chegou ao gabinete de trabalho do marido onde já estava Dagmara, toda desconsolada.
Ambas choravam amargamente quando a tia Matilde chamou Dagmara para perto de si e disse:
— Vamos rezar!
Se os homens não conseguem salvá-lo, vamos apelar para a misericórdia do Senhor, que é omnipotente.
As duas ajoelharam e começaram a rezar com profunda fé e fervor.
A prece tinha palavras simples, misturadas com lágrimas, mas o apelo que se elevou ao altar do Eterno era puro e fervoroso!
Por nenhum momento Dagmara duvidou da bondade de Deus e da misericórdia de Cristo, seu Filho Divino.
Dagmara tinha esperanças e aguardava que Eles desceriam dos céus para visitar o pastorado e devolveriam a vida e a saúde ao seu fiel servidor.
E a esperança não foi em vão!
Naquela mesma noite o pastor caiu num sono profundo, durante o qual aconteceu uma crise benigna.
Na manhã seguinte a tia Matilde acordou Dagmara com beijos e dizendo, com lágrimas nos olhos:
— Levante-se, querida!
Vamos agradecer ao Senhor por sua infinita bondade.
Ele ouviu a nossa prece. O tio vai viver.
Dagmara passou a mão pelos olhos húmidos.
Seria aquela lembrança um aviso?
Não deveria ela agora rezar pelo pai?
Mas esse pensamento foi passageiro e Dagmara, sem forças, fechou os olhos e encostou a cabeça no espaldar da poltrona.
Ela sabia de antemão que agora a sua prece seria inútil, pois tudo acontece de acordo com as leis imutáveis e se a força vital do seu pai estava esgotada e iniciara-se a separação do espírito do corpo, então nada no mundo poderia pará-la.
E o Grande Espírito Divino, em Sua infinita sabedoria, não interromperia esta separação somente porque um átomo racional qualquer sentia-se muito infeliz com a realização daquela lei da transformação, que diz:
morrer para renascer de novo e aperfeiçoar-se continuamente.
Tomada por uma inquietação nervosa, Dagmara levantou-se e andou pelo quarto.
Depois, parou diante da mesinha de cabeceira sobre a qual havia um Evangelho que, certa vez, o pastor lhe presenteara para consolo nos momentos difíceis da vida.
Dagmara pegou o livro inconscientemente e um sorriso amargo passou por seus lábios.
Há quantos anos não abria aquele livro, fonte ilimitada de força e consolo para tantos milhões de pessoas!
O que poderia lhe dizer um livro que ela analisava com critério científico e procurando uma interpretação hermética?
Mesmo assim, Dagmara guardava-o com todo cuidado, como lembrança de um sonho feliz, um brinquedo preferido que sempre lembrava o mundo de fé, consolo e esperanças que aquele livro lhe desvendava antigamente.
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