Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:54 am

Do Amor Nasce o Perdão
Alceu Costa Filho

Espírito Xisto

Outros livros psicografados pelo médium Alceu Costa Filho:

Com o Espírito Cornélio Pires
- Ao Entardecer de uma Existência
- O Tempo de Cada Um

Com o Espírito Xisto Vinheiros
- Nas Margens do Grande Rio

Com o Espírito Nina Arueira
- O Diário de Sofia

Com o Espírito Filipe
- Entre Amigos
- À Sombra da Luz
- Razões para um Dia Feliz
- Na Poeira dos Séculos
- Para Vocês com Saudade
- Memórias da Mediunidade
- O Portal da Consciência


Nota ao autor

O nome real dos personagens foi omitido por serem factos recentes, com desfecho final há pouco mais de uma década.
As falas dos personagens foram transcritas para uma linguagem objectiva, a fim de deixar a leitura mais agradável.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:54 am

Sumario
Prefácio


Instruções de Firmino
Cenira e Altamiro
A volta de Juarez
O encontro com o coronel Getúlio
Desentendimentos
Afinidade de vibrações
Na casa de Sebastiana
A caravana espiritual
A visita de Maria Tereza
Explicações
Mistérios adormecidos
A chegada de Calixto
Revelações de Sebastiana
De volta ao passado
Espiritismo
Preparativos
O Evangelho no lar
Durante o sono
A cobiça no lugar do ódio
José Augusto e Juarez
Na França do século XVII
O aviso de Filipe
A partida de Altamiro
Pressentimentos
Amparo espiritual
Meses depois
Sebastiana socorre Sérgio
O sofrimento de Sérgio
A reacção de Getúlio
Unidos pela ambição
Renovação
A missão de Xisto
O retorno de Getúlio e Sérgio
A despedida

Considerações gerais
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:54 am

Prefácio

Os valores estabelecidos pelo homem não podem fugir à seguinte regra:
”Onde está o tesouro, ali está o coração”.
Na presente obra, isso nos é demonstrado com clareza, quando a ambição e a cobiça elegem seus valores e afastam qualquer outro sentimento que possa impedir sua acção.
Até mesmo o ódio existente entre algoz e vítima é eliminado, objectivando a união de forças em prol de um propósito comum.
Os exemplos de perdão que nos foram legados por Cristo, consequência do amor que alimenta a nossa evolução, estabelecem novos e reais critérios de vida, que determinam não nos ofendermos quando amamos.
Assim, irmão querido, a história que você irá conhecer leva os corações envolvidos ao perdão, como consequência natural de quem passou a amar e não se permite mais ofender.
A vida de Getúlio e a de Sérgio, contadas com riqueza de detalhes, irão beneficiá-lo muito na aquisição e na manutenção dos valores eternos e comuns a todo cristão.
Que o Espírito de Verdade nos ampare hoje e sempre.
Esse seu irmão em Cristo,
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:55 am

Instruções de Firmino

A estrada de terra não era diferente das demais existentes naquela região, excepto pelos numerosos buracos que se formaram depois das últimas chuvas.
Altamiro, único beneficiado pela estrada, ainda não conseguira um tempo para providenciar os reparos.
Enxada nas costas, lá ia ele pensativo a caminho de casa.
Afinal, era sábado.
E, além de água, ele não levara nada para acalmar o estômago.
Eu caminhava a seu lado, a sondar-lhe o pensamento, juntamente com Firmino, que me recebera carinhosamente momentos antes, quando me apresentei como ”o colaborador” que ele solicitara aos seus superiores.
”Este é Altamiro”, falou-me Firmino.
”É ele que iremos assistir nos próximos dias.
O presente reuniu, para ajustes no exercício do perdão, devedores do passado, sendo nosso irmão um dos envolvidos.
Alguns factos que remontam a sua infância, quando presenciou cenas que ajudaram no desfecho do drama vivido por ele, determinam nossa presença ao seu lado nos dias de hoje.”
Enquanto Firmino falava, um sentimento familiar fazia crescer em mim uma profunda simpatia por aquele amigo.
Tinha certeza de que em algum momento de nossas experiências no corpo de carne nossos passos nos conduziram pela mesma estrada.
Firmino, que notara a brusca mudança em meu semblante, advertiu-me:
”Meu irmão, não convém a nós, devedores voltados para as tarefas de amparo no exercício de amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, questionar o porquê da tarefa para a qual fomos convidados a cooperar! Argemiro, nosso benfeitor maior, o enviou como cooperador por você estar familiarizado ao perdão.
Aconselho-o, meu querido Xisto, se desejar mais esclarecimentos, submeter-se à paciência, pois o tempo irá responder a todos nós o porquê de nossos compromissos!
Enquanto isso, procuremos servir com amor e dedicação, fazendo nossa parte na causa que abraçamos.”
As palavras de Firmino levaram-me de volta à realidade, e assim me expressei:
”Meu querido irmão, peço-lhe perdão pelo momento de indisciplina, e espero que o aceite como reflexo da minha pequenez, como aprendiz na prática do servir.”
Firmino afagou-me os ombros carinhosamente e pude sentir, naquele momento, que seu sorriso demonstrava com sinceridade o que ia em seu coração.
Em seguida, ele sugeriu nos anteciparmos a Altamiro no seu retorno ao lar, quando então eu conheceria sua esposa.
Assim o fizemos.
Encontramos Cenira estendendo algumas roupas recém-lavadas.
A casa era simples, mas confortável, dentro daquilo que os recursos e a vida no campo poderiam lhes oferecer.
”Estão juntos há cinquenta anos”, falou Firmino.
”Pais de um casal de filhos, eles viram com tristeza quando os dois completaram a maioridade e decidiram não seguir os passos deles na lida com o campo, partindo para a cidade em busca de trabalho.
Desde esse dia, os filhos se comunicaram poucas vezes, por cartas esparsas, e nunca mais retornaram ao convívio dos pais.
Em um primeiro momento, eles se dirigiram à cidadezinha próxima, para onde o pai, aos domingos, levava as verduras para a feira, aproveitando para fazer as compras da casa.
Depois de permanecerem alguns dias ali, viajaram para a capital em busca de melhores oportunidades.
Os pais só vieram a saber disso muitos dias depois da partida deles, quando um bilhete lhes foi entregue.
A dor da saudade os fez envelhecer rapidamente, mas também os aproximou mais.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:55 am

Cenira e Altamiro

Observamos então que, enquanto cuidava de suas obrigações, Cenira pensava:
”Por onde andarão meus filhos?
Há dez anos não os vejo!
Juarez sempre foi revoltado com a nossa vida no campo, e Maria Tereza espelhava-se no exemplo do irmão.
Quando será que tornarei a vê-los?
Tudo começou quando o filho do Dr. Sérgio voltou de férias.
Ele passou a frequentar nossa casa, tornando-se amigo de Juarez e Maria Tereza.
Foram em vão minhas advertências de que eles viviam em mundos diferentes!
”Doutor Sérgio sempre foi um homem abastado.
O pai desapareceu quando ele ainda era um rapazola.
Desde esse dia, ele assumiu a direcção dos negócios da família.
Casou-se cedo, e um casal de gémeos logo chegou para alegrar o seu lar.
Mas, aliada à alegria dos filhos, veio a perda da esposa, que sucumbiu durante o parto.
José Augusto e Carmem sempre tiveram tudo o que o padrão do pai podia lhes oferecer.
”Sempre falei para Juarez e Maria Tereza não se envolverem muito com eles, pois nossa realidade de vida era outra.
Mas deu no que deu!
A revolta crescia no coração deles à medida que se relacionavam mais com os filhos do vizinho.
Ele era dono de uma imensa terra voltada para a criação de gado, enquanto nós possuíamos apenas um pedaço de terra do qual mal conseguíamos tirar dinheiro para o sustento da casa e para algumas despesas extras.”
Cenira foi interrompida em suas lembranças pela chegada do marido, que, como de hábito, ao se aproximar da casa, assobiou chamando a atenção dos cães.
Os animais correram ao seu encontro.
”Coitado do meu Altamiro!
Com essa idade e ainda trabalhando dessa forma!
Nesses anos todos, nunca o vi reclamar de nada, nem mesmo quando perdemos aquele pedaço de terra para o Dr. Sérgio, justamente aquele alto de morro de onde vem a nossa água.
Nem da ingratidão dos filhos ele reclama!”
- Olá, Cenira!
Tem alguém aqui dentro reclamando por comida!
É o danado do estômago!
Eu lhe dei água, mas ele não ficou satisfeito!
- Já cansei de ouvir essa história, meu velho.
Sempre pondo a culpa no coitado do estômago!
Vamos! A comida já está pronta.
Vá se lavar!
Após o almoço, enquanto Cenira lavava os pratos, Altamiro comentou:
- Cenira, nos últimos dias tenho sentido muita falta dos nossos filhos!
Já faz um bom tempo que eles não dão notícias!
-Eu também tenho sentido, Altamiro!
Somos pais, e isso é natural, mesmo depois de tanta ingratidão!
- Não diga isso, mulher!
Ingratidão de filhos para com os pais é coisa bem pior!
Por falar em filhos, você já reparou que o filho do Dr. Sérgio está por aí?
Ainda ontem encontrei com Filomeno, aquele novato que trabalha para o Dr. Sérgio, e ele me falou!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:55 am

- Ouvi dizer que os dois filhos se casaram, mas ainda não têm herdeiros!
- É, o tempo passa!
Eu me lembro de quando o Dr. Sérgio era um rapazola.
Certa vez eu o encontrei lá na mata.
Um encontro que jamais esqueci!
Eu tinha cerca de dez anos, e ele, dezoito.
Como Altamiro se calou, Cenira, demonstrando irritabilidade, falou:
- Altamiro, todas as vezes que você começa a me contar essa história, ela acaba aí, justamente nesse trecho!
O que você esconde dentro desse coração, meu velho, que não tem coragem de falar?
Eu soube, por outras pessoas, que você, seu pai e o Dr. Sérgio passaram a se desentender após o desaparecimento do pai dele!
Dizem que o velho foi comido por uma onça e que só acharam alguns pedaços da roupa dele sujos de sangue!
- Em parte, Cenira, isso é verdade.
Depois da morte do pai, o Dr. Sérgio assumiu a fazenda com a autorização da viúva.
Desde esse dia, ele e meu pai passaram a se desentender, a contra gosto de dona Deolinda, mãe do Dr. Sérgio, que sempre tivera por meu pai uma grande amizade.
As desavenças duraram quase oito anos, até que meu pai foi picado por uma cascavel e faleceu.
Por essa época, dona Deolinda também faleceu.
Dizem que ela morreu de desgosto, mas eu não posso afirmar!
- Dizem também, Altamiro, que as suas terras eram bem maiores e que o Dr. Sérgio andou lhe roubando alguns alqueires!
- Roubar não é bem o termo, Cenira!
Ele alegou para minha mãe que seu pai havia cedido ao meu alguns alqueires a título de empréstimo e disse que os queria de volta.
Alegou ainda que tinha em seu poder documentos que provavam isso.
Minha mãe, temerosa de uma questão judicial, que na certa perderíamos por falta de recursos para custear as despesas com um advogado, concordou sem reclamar.
Até hoje não se sabe se realmente as terras são dele ou nossa.
Mas estou satisfeito com o que tenho!
- E o que temos, Altamiro?
Este é apenas um pedaço de terra!
Por isso nossos filhos nos abandonaram!
Você me desculpe, mas minha sogra criou você para ser um Jesus Cristo, e não para ser um homem que briga por seus direitos!
- Olha, Cenira, já conversamos várias vezes sobre isso.
Quando eu morrer, você pode agir como quiser, mas por enquanto as coisas têm de ser do meu jeito!
- Altamiro, como dizia sua mãe:
”Atrás dessa moita tem coelho!”
Se ela, que era íntima de seu pai e era sua mãe, achava tudo isso esquisito, por que eu não posso achar também?
Altamiro, irritado com a conversa, se levantou e buscou a sombra da varanda, enquanto pensava:
”Afinal, ela não deixa de ter razão!
Mas não posso lhe contar toda a verdade!
De que iria adiantar?
Só serviria mesmo para manchar a lembrança dos mortos!
Mas uma coisa é certa:
isso tem me incomodado muito nos últimos tempos.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:55 am

A volta de Juarez

Enquanto estava ali, pensativo, Altamiro notou que um cavaleiro seguia em direcção à sua casa.
Cenira, que também o notara, foi lhe fazer companhia na varanda.
- Quem será, Altamiro?
- Ainda não reconheci, Cenira!
À medida que o cavaleiro se aproximava, o coração deles, que a tudo observavam, aumentava o ritmo do batimento.
- Não pode ser, Cenira!
Parece o nosso Juarez!
- Oh, meu Deus, é ele, Altamiro!
É o nosso Juarez.
Eles correram ao encontro do jovem, que rapidamente apeou do cavalo e foi em direcção aos dois.
Um longo e demorado abraço, entre lágrimas e sorrisos, uniu os três.
Passados os primeiros minutos, quando as emoções se asserenaram, o jovem foi conduzido ao interior da casa para refazer-se da viagem.
Enquanto Cenira preparava algo para Juarez comer, ele comentou:
- Estava com saudade de vocês.
Vim porque não recebi nenhuma resposta de todas as cartas que lhes mandei.
Porque, papai, o senhor nunca me respondeu?
Será que nunca fui perdoado?
- Mas que cartas, meu filho?
Nos últimos cinco anos, nem um bilhete recebemos!
- Como assim, meu pai?
Nos últimos dois anos, escrevi para o senhor uma carta por mês!
- Mas nenhuma chegou até nós, meu filho!
E Maria Tereza?
Ela também nunca mais nos deu notícias!
Juarez se calou diante da pergunta e da afirmação do pai e pensou:
”Oh, meu Deus, eles não sabem de nada!
Maria Tereza não os procurou!
Coitados! Vai ser um choque para eles quando souberem de tudo! Conto para eles?
Acho melhor esperar mais um pouco.”
Diante do imprevisto, Juarez mudou de assunto e passou a falar de si:
- Pai, mãe, logo que saí daqui sofri muito.
Passei fome, dormi muitas vezes ao relento, pois os recursos que conseguia mal davam para pagar a pensão para Maria Tereza.
Por fim, trabalhei numa lavra de extracção de pedras preciosas e consegui ganhar um bom dinheiro.
E agora estou de volta!
Pensei que talvez pudéssemos melhorar as coisas por aqui, e então eu poderia ficar trabalhando com vocês.
O que acham?
Altamiro imediatamente respondeu:
- Meu filho, já estou velho demais para inovações!
Mas estas terras são de vocês.
E, como donos, vocês têm o direito de fazer delas o que bem quiserem...
Antes de prosseguir, Altamiro notou no olhar de Cenira um lampejo de vitória e terminou a frase dizendo:
- Desde que respeitem os limites e não entrem em atrito com nossos vizinhos!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:56 am

Cenira, compreendendo o recado, baixou a cabeça e falou:
- Mas onde estão suas coisas, meu filho?
Você voltou só com a roupa do corpo?
- Não, mamãe.
Deixei tudo guardado lá na estação!
Eu comprei aquele animal para vir até aqui.
vou precisar da ajuda do papai e da sua charrete para buscar minhas coisas!
- Faremos isso amanhã, meu filho!
Hoje é dia de matar a saudade.
Fale-me sobre sua irmã.
Por que ela não veio?
Juarez, franzindo a testa, demonstrou dificuldade em falar sobre a irmã, o que despertou a atenção de seus pais.
Cenira comentou:
- O que foi, meu filho?
Alguma coisa errada?
Ela ainda está viva?
- Está tudo bem, mamãe!
Acalme-se! Eu vou contar.
Maria Tereza está muito bem.
Há alguns anos ela se casou.
Ainda não tem filhos, mas é uma mulher casada.
Por isso ela não pôde vir!
- Mas se casou sem nos falar nada?
E isso, Altamiro, não é ingratidão?
- Ela deve ter lá seus motivos!
Deixe o Juarez falar.
Conte-nos mais, meu filho!
Nós o conhecemos?
É gente boa?
- Olhe, papai, no princípio eu me dava muito bem com ele, mas com o tempo nossa amizade acabou.
Os pontos discordantes entre nós eram muitos e, para não complicar a vida de Maria Tereza, eu preferi me afastar.
Não existe mágoa ou ódio entre nós, apenas discordamos em nosso ponto de vista.
Mas ele é de uma família boa e ela está bem-casada!
Agora, me falem de vocês!
Como estão as coisas por aqui?
Enquanto prosseguiam as descobertas de ambos os lados, Firmino fez um gesto para nos retirarmos.
Do lado de fora da casa, ele falou:
”Meu irmão, agora vou levá-lo para conhecer Getúlio, um coronel a peso de moeda que comprou o título do governo no passado.
Vamos visitar a casa de Sérgio, onde certamente o encontraremos!”
A pouco mais de dez quilómetros da casa de Altamiro, erguia-se imponente uma construção ao estilo inglês do século dezoito.
Algumas elevações no telhado lembravam as torres dos castelos medievais.
Impecavelmente pintada e cercada por um grande jardim, onde alguns empregados cumpriam suas obrigações, destacava-se a sede daquelas terras.
Firmino então me esclareceu:
”Desde o seu nascimento, aqui vive Sérgio, cujo título também foi comprado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:56 am

Vive aqui também, em espírito, o nosso amigo coronel.
Logo ele perceberá nossa presença e virá encontrar-se connosco.
Ele mantém aqui um pequeno exército de colaboradores que com ele se afinam e o auxiliam em seus propósitos.
Convém lembrar que esses colaboradores lhe foram cedidos por companheiros e afins que militam nas sombras.
Observe os vultos que se movimentam inquietos:
são seus colaboradores!
Embora não possam nos ver, eles sentem a nossa presença.
Vamos aguardar!
Logo ele virá encontrar-se connosco!
Enquanto isso, vou passar-lhe alguns dados que julgo importante você tomar conhecimento para obtermos êxito em nossa missão.
”O coronel Getúlio foi pai de Sérgio em outra existência, pelo menos até que Sérgio completasse dezoito anos, quando ele passou a desconsiderá-lo como filho.
No passado, como irmãos consanguíneos, tornaram-se inimigos ferrenhos devido a disputas por terras recebidas como herança.
Ao retornarem ao corpo de carne, nenhum dos dois conseguiu praticar o perdão incondicional, nem mesmo como pai e filho, embora tivessem se comprometido a fazê-lo.
As disputas renasceram do passado, culminando com a morte trágica do coronel.
Enquanto o coronel, numa crise de ciúme, discutia com a esposa, Sérgio tomou a defesa da mãe.
”Quando as agressões físicas começaram, o coronel foi empurrado por Sérgio e, ao rolar pela escada, teve morte instantânea, tendo o pescoço quebrado.
Deolinda, mãe de Sérgio, após ser agredida pelo marido e ao ver os dois ainda trocando agressões, não suportou e desmaiou.
Assim, ela não viu o desfecho da contenda.
Sérgio então tomou a decisão de desaparecer com o corpo.
Falaria para a mãe que o pai, ao vê-la desmaiada, desistiu das agressões e decidiu partir.
Assim o fez!
Munido de algumas ferramentas e protegido pela vegetação abundante, ele arrastou o corpo do pai até a mata próxima e ali o enterrou, tomando o cuidado de retirar sua jaqueta, e alguns pertences, que usaria mais tarde para sugerir que sua morte se dera por animais selvagens.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 07, 2016 9:56 am

O encontro com o coronel Getúlio

Prosseguindo, Firmino continuou a esclarecer-me:
”Nosso irmão Getúlio, após alguns meses no plano espiritual, se deu conta do que havia acontecido e jurou vingança.
Aliando-se a antigos companheiros das sombras, ele instalou-se como morador na antiga residência.
Sérgio, depois de ser confirmada a morte do pai pelas autoridades, passou a ser o senhor daquelas terras.
Ele casou-se cedo e, após o nascimento do casal de gémeos, numa das investidas do coronel Getúlio, sofreu uma queda de cavalo, ficando paralítico e sendo obrigado a ficar confinado em casa.
Desde esse dia, o coronel instalou-se definitivamente ao seu lado e passou a influenciá-lo nas decisões mais íntimas, já que Sérgio passou a comungar com as vibrações do coronel.”
Nisso, notamos que alguém se aproximava.
Seu aspecto era de um viajor após longa e penosa jornada.
Barba por fazer, cabelo em desalinho, roupas gastas e um ar de importância davam àquele irmão uma imagem sinistra.
Firmino, que se calara, comentou:
”Mantenhamo-nos em condições de sermos vistos, meu irmão.
Já sou velho conhecido na casa!”
”Sem bom dia ou boa tarde!
Vão logo explicando o que vocês querem aqui!
Você, Firmino, é um sujeito teimoso.
Quantas vezes eu já lhe falei para não ultrapassar o portão sem antes pedir minha autorização?”
”Não desrespeitei sua vontade, coronel.
A questão é que seus assessores nem sempre estão em seus postos!
Agora, por exemplo, ninguém estava de guarda no portão!
Mas não precisa se preocupar!
Estamos apenas de passagem.
Viemos abraçar seu neto e a esposa.”
”Para começar, ele não é meu neto.
E, se fosse, eu não iria permitir nunca esse casamento.
Onde já se viu?
Casar-se com a filha daquele sujeito!
Se a árvore não é boa, o fruto também não pode ser.
E, se o fruto não é bom, o que dizer da semente?
Já estou providenciando o sumiço deles daqui.
Aquele coitado do Sérgio já concordou comigo, mesmo não sabendo de quem ela é filha.
É apenas uma questão de tempo!”
”O coronel talvez desconheça, mas temos um interesse muito especial por essa moça e não gostaríamos que nada de mal lhe acontecesse.”
”O máximo que posso fazer é ouvir sugestões, mas me reservo o direito de decidir sobre elas!
Portanto, acho melhor você não se intrometer onde não foi chamado!
E fique sabendo que em nada me intimida a presença do seu guarda-costas!”
”Peço-lhe perdão, coronel, por não lhe apresentar meu amigo, que é muito mais um anjo da guarda do que um guarda-costas!
Ele veio de outras esferas com a missão de solucionar a contenda aqui existente antes que ela faça mais vítimas.”
”Olhe aqui, Firmino, até agora aceitei sua presença na casa por você não interferir em minhas decisões, muito embora já tivesse sido avisado de que um dia o senhor iria mostrar as unhas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:39 am

Mas aqui mando eu, e ai daquele que atravessar o meu caminho!”
”Compreendo seu ponto de vista, coronel, mas acima de nosso querer existe a determinação de Deus, e contra ela nada podemos fazer.
Fomos instruídos para proteger e amparar o jovem casal, e o propósito da nossa presença aqui hoje é cientificá-lo dos nossos objectivos, pois esperamos sua cooperação!”
”Isso nunca!
De mim você não precisa esperar nada!
E não me venha com essa história de vontade de ”Deus, pois até hoje nunca conheci alguém que O tenha visto.
Portanto, não posso acreditar no que não vejo.
E por hoje já chega!
Vocês conseguiram estragar o meu dia!
Vou até o quarto daquele infeliz que se diz meu filho e, quando eu voltar, não quero vê-los mais por aqui!”
”Peço-lhe desculpas, coronel, mas, como lhe dissemos, somos responsáveis pela segurança do jovem casal.
Assim, antes de nos retirarmos, precisamos vê-los!
Com sua licença, sugiro que o coronel vá cuidar de seus interesses, pois iremos cuidar dos nossos!”
Enquanto nos retirávamos, notei que o coronel, irado, permaneceu por alguns instantes nos observando.
Em seguida, numa atitude animalesca, totalmente descontrolado emocionalmente, ele voltou-se para um ancião, que zelosamente cuidava de algumas roseiras, e desferiu-lhe um violento soco.
Como o ancião não esboçou nenhuma reacção, o coronel avançou sobre ele, desferindo-lhe sucessivos golpes.
Firmino, atento ao meu interesse pela cena, comentou:
”Este a quem ele ataca é nosso amigo Amaro.
Nasceu aqui nestas terras e conhece toda a história da família.
É também um excelente médium e dono de um perfeito controle emocional, uma conquista de anos de vida dentro dos princípios de fé que lhe foram repassados por seus irmãos escravos.
Observe suas reacções.
Ouçamos sua fala:
- Está bravo hoje, coronel?
Topou com uma pedra no caminho, não é mesmo?
Deus Nosso Senhor não desampara quem precisa.
Já estava sentindo falta de sua braveza.
Pelo visto, ela agora vai virar rotina!
Vou rezar para o senhor, coronel, agora mesmo.
Escuta só:
”Pai nosso que estais no céu...”
O coronel, indignado, conseguiu forças para correr em direcção à casa, enquanto o ancião continuou a podar suas roseiras, agora cantarolando alguns cânticos numa língua para nós desconhecida.
Firmino então comentou:
”É sua fé, Xisto.
Ele canta na língua de seus pais uma oração a Deus em que um velho pai roga ao Mais Alto por seu filho desamparado e doente.
É um hino de louvor a Deus que testemunha a fé que habita o seu coração”.
Por sugestão de Firmino, nós nos dirigimos ao interior da casa, onde mais empregados do que moradores se movimentavam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:40 am

Firmino, mostrando conhecer bem os cómodos, indicava o caminho, evitando, conforme dizia, um encontro com o coronel, que na certa estava ao lado de Sérgio.
Essa era a única maneira pela qual ele ainda conseguia sentir-se dono e senhor daquelas terras.
Voltei-me para Firmino e comentei:
”Meu irmão, conforme suas explicações, noto que, mesmo tendo o verdugo jurado vingança, ele não pôde executá-la, sob pena de fechar a porta que lhe possibilita dirigir a fazenda!”
”Sim, meu irmão.
A ambição e a cobiça se tornam maiores do que o ódio quando se confrontam em um interesse comum!
Até mesmo Sérgio se submeteu à cobiça, aceitando a presença do antigo inimigo como sócio, em que os interesses são comuns.
É um caso de obsessão mútua1, no qual não existe obsessor e obsedado:
a perfeita sintonia de vibrações existente entre eles assim o determina.
Mas voltemos para a nossa tarefa de hoje, cujo objectivo é amparar outros corações.”

l - FRANCO, Divaldo P.; MIRANDA, Manoel Philomeno de. Loucura e Obsessão. FEB (Nota do Editor).
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:40 am

Desentendimentos

Encontramos o jovem casal em uma sala próxima a conversar. Firmino então comentou:
”Este é José Augusto, filho de Sérgio.
E esta é Maria Tereza, sua esposa, filha de Altamiro e de Cenira.”
Notando a minha surpresa, Firmino continuou:
”A vida é repleta de surpresas, meu caro Xisto.
A filha ausente e supostamente distante se encontra muito próxima!
Vou fazer com que eles mesmos relatem seus motivos para sua melhor compreensão.”
Firmino se aproximou de Maria Tereza e impôs-lhe a destra.
Ela, por sua vez comentou:
- José Augusto, estou com muita saudade dos meus pais!
Estamos tão perto deles e não posso abraçá-los.
Por quanto tempo vamos ficar nesta situação?
- Minha querida, nós já conversamos sobre isso!
Papai, como você viu, não anda bem de saúde, e eu não posso contrariá-lo, pois isso certamente agravaria sua situação.
Se ele souber que você é filha do Sr. Altamiro, é capaz até de me deserdar!
Eu nunca soube o motivo, mas sei que os dois não se entendem desde que eram rapazes.
Papai não me perdoaria nunca se soubesse sua origem.
Por favor, tenha um pouco mais de paciência!
- Mas, José Augusto, não é preciso contar a seu pai quem eu sou!
Quero apenas abraçar os meus pais.
Tenho certeza de que eles concordariam com a nossa decisão e nos apoiariam!
- Não podemos correr o risco, Maria Tereza.
Aguente mais um pouco!
Maria Tereza, sem nada responder, se dirigiu ao seu aposento, buscando a intimidade dele para seu pranto.
José Augusto permaneceu pensativo:
”Por que as coisas têm de ser assim?
Nunca questionei meu pai sobre os reais motivos dessa contenda.
Estamos em 1985, e isso deve ter se passado a muitos anos atrás!
Como é possível alguém alimentar ódio por tanto tempo?
Vou até o quarto de meu pai.
Quem sabe já é hora de ele contar-me essa história?”
Pelo caminho, sem que percebesse, José Augusto cruzou com o coronel Getúlio, que seguia falando sozinho e no momento não percebia a nossa presença:
”Esse meu enteado é um fraco mesmo!
Se ele morrer, como vou continuar administrando minhas terras?
Agora mesmo ele está lá, num morre não morre.
Acho melhor eu desistir dele e procurar outra porta!
Quando ele morrer, vai ficar tudo nas mãos do José Augusto, seu filho!
Acho melhor eu ir preparando o menino para receber minhas ordens!
Com ele vai ser mais fácil, pois ele não está paralítico.
Escute só!
É só eu sair de perto que ele fica me chamando!
Já estou mesmo é ficando cansado dele!”
”Firmino, pelo que percebo, estabeleceu-se uma interdependência entre os dois!”
”Sim, Xisto.
É impossível separá-los sem sequelas graves para ambos!
O coronel não sabe disso, e sua intenção de abandonar Sérgio para concentrar atenção em José Augusto invariavelmente determinará a Sérgio sua expulsão do corpo físico!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:40 am

Como a um peixe aprisionado em um pequeno recipiente com água, vai lhe faltar oxigénio!”
Como o coronel se dirigia apressado ao quarto de Sérgio, onde há alguns minutos estava José Augusto, nós o acompanhamos.
Ele praguejava:
”Pare de me chamar!
Já estou indo.”
No quarto, José Augusto havia se acomodado na cabeceira da cama do pai e lhe pedia esclarecimentos referente à sua contenda com Altamiro:
- Pai, veja se o senhor me compreende!
Tenciono assumir minhas responsabilidades aqui na fazenda e preciso saber de tudo para melhor conduzir os negócios!
Sérgio, que até então ouvia o filho sem comentar coisa alguma, com a presença do coronel que o enlaçava, respondeu colérico:
- Olhe, José Augusto, meus desentendimentos com o vizinho datam do meu nascimento.
Tudo começou na época em que seu avô Getúlio ainda era vivo e que minha mãe Deolinda não soube respeitá-lo.
Ela nunca odiou os pais de Altamiro!
- Mas, papai, o que houve para dar origem a tanto ódio?
— Isso eu não posso responder.
Só posso dizer que o pobre do seu avô Getúlio até hoje não tem paz.
Ele vive vagando por esta casa sem encontrar seu caminho.
Eu jurei a ele, alguns anos atrás, que faria de tudo para ajuda-lo castigar os descendentes daquele infeliz, que teve um único filho: o Altamiro.
- Mas o senhor não acha, meu pai, que tudo isso foi há muito tempo e que é hora de esquecermos?
- De forma alguma, e você tem por obrigação continuar a contenda!
Nada de intimidades com aquela família!
Mandei você e sua irmã para longe daqui para fugir da amizade inconveniente dos filhos de Altamiro.
Eu não acredito em Deus, mas na Bíblia não está escrito que ”os filhos pagarão pelo erro dos pais na terceira e na quarta gerações”?
Da segunda eu cuidei enquanto pude.
Fiz tudo que estava a meu alcance.
E, se não fossem essas pernas paralisadas, eu também cuidaria da terceira geração.
Mas essa é uma tarefa que vou passar para você!
- Sinto muito, meu pai, mas isso vai de encontro aos meus princípios!
No meu entender, se existia alguma desavença entre meus avós e aquela família, ela morreu com eles.
E, se existe uma desavença entre você e o Sr. Altamiro, ela vai morrer com vocês!
Eu não vou me indispor com eles por algo que aconteceu antes mesmo de eu nascer.
As palavras de José Augusto deixaram o coronel descontrolado.
Ele passou a gritar colérico com Sérgio, que comungava com a sua sintonia:
”Dê-lhe uma corrigenda!
Não permita tamanha falta de respeito!
Mostre sua autoridade.”
Sérgio, perfeitamente sintonizado, captou as palavras e falou:
- Olhe aqui, meu rapaz, essa é a minha vontade.
Se não fosse hoje um entrevado, eu o levaria para o tronco, como meu pai fazia com os negros e com outros que ousavam desacatar suas ordens, e lhe aplicaria uma corrigenda!
Mas vou fazer melhor, vou estabelecer algumas condições para que você seja meu herdeiro.
Caso você não as cumpra, passarei tudo para sua irmã!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:40 am

A principal delas é não se relacionar com ninguém daquela família e não poupar esforços para que eles percam o pouco que ainda lhes resta.
Essa é a minha vontade e a do seu avô, o coronel Getúlio.
Agora me deixe descansar em paz!
Sérgio com a respiração ofegante sentia-se desfalecer, enquanto o coronel, abraçado a ele, falava-lhe:
”Muito bem, muito bem!
É assim que se fala!
Não se preocupe:
você não vai morrer agora!
Eu estou aqui do seu lado.
Vamos! Respire calmamente que eu o ajudo.
Vamos!”
Observamos então que Sérgio, sob a influência do coronel, se recuperava, conseguindo controlar os batimentos cardíacos e o fluxo sanguíneo.
A perfeita sintonia existente entre eles os tornava uma só pessoa.
Dois espíritos se beneficiando de um só corpo!
Voltei-me para Firmino e comentei:
”Meu amigo, esse é um processo que irá perdurar por muitos anos!
Os componentes que se fundiram, oriundos de ambas as partes, são altamente comprometedores.
Ambição e vingança, ódio e cobiça aliados, como nesse caso, determinam um amanhã com resgates dolorosos.”
”Sim, meu irmão, e isso nos pede dedicação e carinho no hoje para melhor nos ajustarmos aos nossos afazeres.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:40 am

Afinidade de vibrações

Depois da conversa com o pai, José Augusto se retirou contrariado, indo ao encontro de Maria Tereza, com quem desabafou:
- Maria Tereza, estou vindo do quarto de meu pai, onde tivemos uma discussão!
Perguntei sobre os motivos do desentendimento dele com sua família, e foi como jogar lenha na fogueira.
Discutimos e ele me falou que vai fazer constar em seu testamento uma cláusula que proíbe a mim de me relacionar com qualquer pessoa da sua família, sob pena de perder o direito à herança!
Acho que vamos ter de tomar uma decisão mais séria no tocante à nossa vida!
Não devíamos ter voltado para cá!
Gostaria realmente de saber o que houve no tempo de meus avós que fez nascer esse ódio que persiste até hoje.
- José Augusto, nunca ouvi meu pai fazer nenhuma reclamação referente à sua família.
Parece-me que não existe problemas por parte dele!
E sua mãe, José Augusto?
Ela nunca comentou nada?
- Você se esqueceu que minha mãe morreu durante o parto?
Eu e minha irmã fomos amamentados por dona Sebastiana, que cuidou de nós até partimos para estudar fora.
Por falar nisso, precisamos visitá-la.
Quero que ela a conheça!
Papai nunca nos permitiu tratá-la com carinho, nos proibindo até mesmo de comentar com as pessoas que fomos amamentados com o seu leite!
- Pelo que você me falou, ela é esposa do Sr. Amaro.
Quem sabe os dois podem nos ajudar?
- Não sei, Maria Tereza.
Tenho medo de despertar a ira de meu pai contra eles!
Afinal, eles já estão bem velhinhos!
- Mas não temos a quem recorrer, José Augusto, e não sei quanto tempo suportarei viver tão perto de meus pais e não vê-los!
- Está bem, Maria Tereza.
Mas, antes de visitarmos dona Sebastiana, vou conversar com o Sr. Amaro e pedir a opinião dele!
- Então vá, meu querido.
Ainda a pouco eu o vi cantarolando uma música e cuidando do jardim!
Enquanto José Augusto se dirigia ao encontro de Amaro, vimos uma cena que muito nos impressionou:
o coronel Getúlio passou por nós carregando no colo o espírito de Sérgio, tal qual os símios fazem com seus filhotes.
E Sérgio, desligado do corpo em plena luz do dia, se deixava levar pelo sócio.
Firmino, notando meu espanto, comentou:
”O que vemos, Xisto, é uma manifestação da interdependência2 existente entre eles.
Essa interdependência é gerada a partir da afinidade de vibrações e alimentada insistentemente por propósitos menos dignos!
Nosso amigo Sérgio, mesmo em espírito, não tem controle sobre as pernas, dependendo de Getúlio para transportá-lo.
Já Getúlio, habituado há anos a agir por meio de Sérgio, prazerosamente se submete.
Todos os dias esta cena se repete, às vezes até mais de uma vez por dia:
Getúlio leva Sérgio para percorrer a fazenda e faz sugestões, determinando afazeres.
Sérgio, quando está desperto em corpo de carne, chama seus subordinados e lhes determina funções com um minucioso conhecimento de causa.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:41 am

”Tornou-se então uma simbiose?
Ou seja, um não consegue ficar sem o outro?”
”Sim, Xisto.
Do Mais Alto me foram passadas instruções para não deixarmos de prestar assistência aos dois, quando esta se apresentasse oportuna, porém para priorizarmos a assistência aos demais membros das famílias envolvidas.
Foi dito que, no momento adequado, medidas seriam tomadas destinadas a auxiliá-los.”
”Compreendo, Firmino.
Argemiro disse ser para breve o retorno de Altamiro ao nosso meio, bem como o de Sérgio.
Pediu-nos para prestar toda assistência que nos fosse solicitada, estendendo nossa acção para além das fronteiras do lar de Altamiro!
Que Deus nos dê forças para sermos dignos de tanta responsabilidade, meu irmão.”
”Muitas de nossas perguntas, Xisto, serão respondidas pelo tempo.
Tenho certeza de que o passado nos reuniu nos acontecimentos de hoje.
Confiemos na justiça divina e façamos a nossa parte.”
Nesse momento, Firmino convidou-me a ir ao encontro de José Augusto, que já havia se encontrado com Amaro.
Estavam sentados à sombra de uma palmeira a conversar:
- Senhor Amaro, preciso visitar a madrinha Sebastiana, mas de forma que meu pai não fique sabendo, para que não haja represálias.
Quero apresentar ao senhor e a ela a minha esposa e também trocar algumas ideias.
- Eu já a conheço, meu filho!
Ela é filha do Altamiro e de dona Cenira.
É gente de coração bom!
Vocês vão ser muito felizes, meu filho, mas têm de rezar muito para Deus protegê-los!
- Então me responda, Sr. Amaro:
acha que posso visitar a madrinha Sebastiana?
- Você vai, meu filho, e leva a menina junto.
Eu fico aqui.
Se o coronel desconfiar de alguma coisa, eu sei como cuidar dele!
- Que é isso padrinho?
Não vai me dizer que o senhor também acredita nessa história de que a alma de meu avô anda vagando por aqui?
Meu pai me falou isso ainda à pouco!
- Meu filho, o seu pai sabe o que está falando!
Depois que ficou entrevado na cama, ele e a alma do seu avô são que nem unha e carne: um não vive sem o outro!
O menino pode acreditar!
O velho Getúlio carrega ele no colo para baixo e para cima.
Eles combinam muito!
O coronel Getúlio vê.
O Dr. Sérgio fala.
O Dr. Sérgio come e o coronel fica enfastiado.
Eles são que nem a corda e a cabaça ali do poço:
uma precisa da outra para trazer água aqui para cima!
Pode acreditar, meu menino.
Tem mais de vinte anos que as coisas são desse jeito!
Você e sua irmã eram molecotes quando tudo começou.
José Augusto ficou pensativo por alguns instantes, para depois comentar:
- Desde que eu me entendo por gente, escuto falarem sobre esse assunto, mas o interessante é que ouço sempre falar da alma de meu avô, como o senhor acabou de dizer, e não ouço nada sobre a da minha avó.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:41 am

José Augusto calou-se, dando asas à sua imaginação:
”É melhor eu não me envolver nesse assunto.
Não entendo nada disso mesmo!
E se tudo for verdade?
Nesse caso, como lidar com isso?”
Amaro, notando que o amigo se deixara levar por seus pensamentos, falou, chamando-o à realidade:
- Olhe aqui, meu filho!
Você pode até não acreditar, mas essa é a verdade, e qualquer dia, meu menino, você vai ficar de frente com ela!
Por que vocês não vão agora visitar minha velha?
O coronel passou por aqui ainda à pouco com o Dr. Sérgio agarrado no lombo dele.
Eles foram lá para os lado do canavial, e minha casa é para o outro lado.
- É melhor mesmo, vou aproveitar essa hora e buscar Maria Tereza.
Vamos a pé, para não despertar a curiosidade dos outros!
Até outra hora, meu padrinho.
- Até, meu filho!
Deus lhe proteja!
Em poucos minutos, José Augusto chegava ao jardim acompanhado da esposa.
Como se estivessem a passear, eles se dirigiram ao pomar, de onde buscaram, por meio de atalhos, chegar à casa de Sebastiana.
A moradia era simples, cercada por um chão muito limpo, onde algumas criações transitavam.
As janelas estavam abertas, e as portas, trancadas.
José Augusto comentou:
- Ela não está em casa!
Quando criança, eu vinha até aqui todos os dias para brincar no riacho que passa nos fundos da casa, onde existe a horta.
Vamos até o riacho!
Talvez ela esteja por lá!
Nos fundos da casa havia uma horta, onde hortaliças e legumes bem cuidados davam mostras de terem sido regados a pouco, a julgar pelas folhas ainda molhadas.
Despreocupados, os dois caminhavam por entre os canteiros em direcção a um pequeno pomar quando a voz de dona Sebastiana se fez ouvir:
- Oh, moleque!
Se veio roubar fruta, prepare o lombo, porque já cortei a vara!
José Augusto de imediato reconheceu a voz carinhosa de sua madrinha Tiana, como a chamava na intimidade e, é claro, longe de seu pai.
Ele se virou e deparou com aquela figura enorme que embalara seus sonhos quando criança e carinhosamente fizera com que ele e a irmã viajassem no tempo com as histórias contadas para distraí-los, mas que também sabia aplicar uma corrigenda quando necessário.
- Madrinha, que saudade da senhora!
- Vem cá, meu filho.
Deixe essa velha abraçá-lo e matar a saudade!
Meu menino já está um homem-feito.
José Augusto correu ao encontro da madrinha e deixou-se envolver por aqueles braços enormes.
Passados alguns minutos, quando ambos os corações se serenaram, Sebastiana cochichou no ouvido do jovem:
- Quem é aquela moça bonita que está ali, olhando para nós dois?
Não vai me dizer que é sua mulher?
- É sim, madrinha!
É ali que meu coração está preso!
Eu a trouxe até aqui para que a senhora a conheça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:41 am

- Vem cá, minha filha.
Escute aqui o coração dessa preta!
Me dê um abraço.
Maria Tereza, ao se ver envolvida pelo abraço carinhoso de Sebastiana, sentiu um arrepio por todo o corpo.
Seu coração identificou ali as vibrações de amizade e carinho que o reencontro depois de um longo tempo trouxera à tona!
Assim, emocionada, ela entregou-se ao choro, permitindo que as lágrimas escorressem pela face.
Sebastiana, acostumada a identificar vibrações de qualquer natureza, não deixou passar despercebido e comentou:
- Ih, eu já conheço essa menina!
Já vi esse choro antes!
Que Deus abençoe vocês dois!
O que Deus juntou o homem não consegue separar.
Graças a Deus os filhos estão juntos.

2 - KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, capítulo 9, questões 473 e 474. Petit Editora: São Paulo/SP (Nota do Autor Espiritual).
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 08, 2016 9:41 am

Na casa de Sebastiana

Sebastiana, abraçada à Maria Tereza, os conduziu para dentro da casa.
Era uma moradia modesta, mas bem cuidada, onde as vibrações harmoniosas podiam ser sentidas com naturalidade.
Na cozinha de chão batido, os três acomodaram-se.
José Augusto reviveu, em seus pensamentos, as horas alegres que ele e a irmã ali estiveram ao lado de Sebastiana:
- Madrinha, até hoje essa água está a jorrar! - comentou José Augusto, referindo-se à água que era levada por calhas de bambu até um tanque.
- É porque nós cuidamos da fonte, meu filho!
Se a fonte é boa, a água também é!
Mas me conta:
por que a tristeza no coração?
- Madrinha, quando somos crianças, não damos atenção aos acontecimentos do dia-a-dia, mas, quando nos tornamos adultos, nós os lamentamos.
Minha Maria Tereza é filha do Sr. Altamiro, mas meu pai não sabe, e só hoje me dei conta do ódio que existe no coração dele pelo meu sogro.
Não sei como agir, madrinha.
Ele, sem saber de nada, proibiu-me de qualquer relacionamento com a família do Sr. Altamiro, justificando-se nos acontecimentos do passado!
Talvez a senhora saiba de alguma coisa que possa ajudar-me a resolver esse problema!
- Meu menino, a vida é igual a esta água que corre dia e noite:
não importando se nós queremos ou não, ela segue em frente!
Tem muita coisa guardada no passado que pode responder para o menino as dúvidas que tem!
Mas eu pergunto, meu filho:
nós vamos desenterrar o que já está enterrado?
Vocês estão preparados para isso?
Como nenhum dos dois respondeu, Sebastiana continuou:
- Tudo começou quando sua avó teve o casamento arranjado num negócio de boi.
O seu bisavô foi quem arranjou tudo.
Dona Deolinda só conheceu o Sr. Getúlio no dia do casamento.
Ela era uma menina, tinha só treze anos, e o Sr. Getúlio era homem-feito, beirando os trinta.
A menina apanhava quase todo dia porque ainda gostava de brincar de boneca, e o Sr. Getúlio não a perdoava nem pela sua idade.
Sebastiana parou de falar, levou as mãos ao rosto e, como se estivesse receosa pelas lembranças, comentou:
- Hoje, meu filho, é só o que eu posso contar.
Daqui para frente, só depois que eu conversar com as almas e elas me autorizarem!
- Novamente a história das almas!
Madrinha, é justo que eu e Maria Tereza paguemos por erros e desentendimentos que nada têm a ver connosco?
- Aí é que o filho se engana.
Vocês tem culpa, sim.
É o passado, meu filho. É o passado.
Decepcionado por não ter ouvido o que queria, José Augusto olhou para Maria Tereza em busca de apoio e ela comentou:
- Dona Sebastiana, a senhora quer nos dizer que, sendo a terceira geração dessas famílias, estamos pagando pelos erros cometidos pela primeira?
- Isso mesmo, minha filha.
Mas vocês não estão pagando pelos erros dos outros, não!
Vocês estão colhendo o que plantaram.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:27 am

E não me chame de dona:
me chame de madrinha.
O seu pai, minha menina, sabe da história toda e está calado até hoje.
Acho melhor os filhos rezarem mais.
Vocês falaram do ódio do Sr. Sérgio pelo Sr. Altamiro, mas hoje a coisa não é bem assim, não!
No coração de seu pai, meu filho, existe mais cobiça e ambição do que ódio.
Ele roubou alguns bons alqueires de terra do vizinho e tem medo que ele descubra!
Ódio existiu no passado, quando a cobiça não tinha se instalado ainda no coração dele.
Seu avô, meu filho, o coronel Getúlio, foi um homem muito ruim.
Ele matou muitos negros e mandou matar muitos brancos também!
Só tinha ambição e cobiça no coração.
Hoje ele fica por aí, que nem alma penada, agarrado ao Dr. Sérgio!
- Tudo isso é muito confuso para nós, madrinha.
- Os filhos não se preocupem, não!
Vamos fazer o seguinte:
vocês vêm aqui em casa toda semana, quantas vezes quiserem. vou ensinar a vocês tudo o que aprendi com meus pais e eles com os pais deles.
Minha mãe falava que a verdade fica escondida até nós sabermos perdoar, e essa é a Lei de Deus, meus filhos!
Então vamos esperar mais um pouco.
Os filhos concordam?
- A senhora está dizendo que vai nos ajudar a resolver esse problema, madrinha?
- Vou sim, meu filho.
Mas primeiramente vocês vão aprender muita coisa, para que a verdade traga só paz.
Agora vocês vão comer um doce de figo em calda que eu fiz e levar uma cuia cheia dele de presente para o Sr. Altamiro e para dona Cenira.
Vão também aproveitar e falar para os dois que estou precisando conversar com eles.
- Madrinha Sebastiana, então a senhora acha que posso visitar meus pais?
- É só madrinha, minha filha.
Nada de Sebastiana.
Leve ela, meu filho, e converse com os dois.
Eles vão entender tudo.
Na hora da luta, meu filho, quanto mais amigo do lado da gente, melhor é!
E o Sr. Altamiro é um homem de coração muito bom!
Vão escondido e evitem falar sobre esse assunto para o coronel não descobrir e atrapalhar o passeio de vocês!
Os filhos vão saborear o doce de figo antes ou depois de comer o feijão que eu estou cozinhando ali no fogão?
Aproveite, meu filho, e bote mais um cavaco de lenha ali!
- Não podemos ficar, madrinha.
Papai já deve ter notado a nossa ausência!
- O que é isso, meu filho?
Você agora é um homem-feito e ainda por cima casado.
Não tem de dar muita satisfação, não!
Quanto menos os filhos falam dos passos que dão, melhor é.
Vocês vão comer aqui hoje.
Vai ali, minha filha.
Dentro daquela cabaça tem fubá de moinho, vou aproveitar a água que está fervendo e ensinar a menina a fazer um angu.
Os três já estavam há um bom tempo nesse clima de confraternização quando Firmino sugeriu que nos retirássemos:
”Xisto, deixemos que os laços que os unem se solidifiquem ainda mais.
Voltemos às nossas obrigações!”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:27 am

Já passavam das quatro horas quando José Augusto e Maria Tereza chegaram em casa!
Assim que entraram, eles foram informados por um dos empregados de que Sérgio exigia a presença do filho imediatamente.
José Augusto pressentiu que as coisas não estavam bem e, voltando-se para a esposa, comentou:
- Não falei, Maria Tereza, que meu pai já devia ter notado nossa ausência?
- É, você falou, meu querido, mas não se esqueça das palavras da madrinha!
Você já é adulto e também um homem casado.
Não tem de ficar dando muita satisfação, não!
Depois de algum tempo em silêncio, José Augusto respondeu:
- Você e a madrinha têm razão, Maria Tereza, vou até o quarto saber o que ele quer.
José Augusto, mesmo sabendo o que iria enfrentar, não vacilou e, para espanto do coronel Getúlio e de Sérgio, entrou no quarto como se nada tivesse acontecido:
- Boa tarde, meu pai.
Soube que o senhor está me procurando!
Não vim antes porque só cheguei agora.
Eu e Maria Tereza fomos visitar dona Sebastiana e acabamos ficando para o almoço.
Mas do que o senhor está precisando?
Eu posso ajudá-lo?
- Eu não preciso de nada nem de ninguém.
Você não tem o direito de sumir assim, sem nenhuma explicação.
Da próxima vez me avise, pois, se tivesse falado que estava com a intenção de ir à casa daquela macumbeira, eu o teria proibido!
- Um momento, meu pai!
Antes que o senhor continue, precisamos esclarecer algumas coisas!
Eu não tenho nenhuma obrigação aqui na fazenda, muito embora tenha estudado zootecnia.
Em todo lugar que vou, noto que não me permitem participar de nada, e já descobri que é por ordem sua!
Mas não me importo, meu pai:
se não tenho obrigações, aproveito para passear.
Quanto a lhe dar satisfação, meu pai, os tempos são outros.
Nunca lhe faltarei com o respeito devido, mas já sou um homem casado, e não ficaria bem lhe pedir permissão para passear com minha esposa, não é mesmo?
Bem, o senhor mandou me chamar e aqui estou.
Getúlio, que se encontrava recostado na cama amparando Sérgio, estava boquiaberto, sem acção.
Já Sérgio aguardava as instruções de Getúlio para agir.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:27 am

A caravana espiritual

Getúlio, após recuperar-se do susto causado pela atitude de José Augusto, não vacilou em demonstrar sua suposta autoridade:
”Fale para este pirralho que aqui quem manda é você, Sérgio!
Fale para ele ter mais respeito, senão você o deserda!”
Sérgio, como um bom médium, perfeitamente sintonizado com o comunicante, repetiu palavra por palavra, e a reacção de José Augusto não se fez esperar:
Meu pai, com todo respeito que lhe devo, estou pronto para deixar esta casa na hora em que o senhor determinar.
Quanto a me deserdar, essa é uma decisão sua.
Minha irmã tem razão quando fala que estas terras são amaldiçoadas e que meu avô soube bem plantar aqui a discórdia e a ambição.
E o senhor foi pelo mesmo caminho, meu pai!
Por que o senhor acha que ela não vive aqui?
É pena, meu pai, mas não podemos levar para a outra vida nossos bens materiais.
Deserdando-me, o senhor não vai ter para quem deixar a fazenda, uma vez que Carmem já afirmou não se interessar por ela!
Bem, quanto a me chamar de pirralho, vou tomar como uma manifestação carinhosa de pai para filho.
Já que o senhor não está precisando de nada, peço sua licença para me retirar.
José Augusto se afastou sem esperar resposta, deixando os dois sem oportunidade de revide.
Getúlio, abraçado a Sérgio, desabafou sua ira sobre ele:
”É culpa sua que não soube criá-lo!
Se tivesse usado mais o chicote, no lugar dos tapinhas, isso não estaria acontecendo.”
Sérgio instintivamente respondeu, em pensamento:
”Não sei quem está certo!
O senhor, meu pai, me educou a base do chicote e acabamos brigando a ponto de acontecer o que aconteceu.
Esse menino é diferente de nós!
Ele dá pouco valor à terra.
Acho que não posso contar com ele para assumir a fazenda, não!”
”Nem me fale isso!”, respondeu Getúlio.
”Se não for ele, quem será?
Estas terras pertencem a você e a mim, meu sócio.
Não vamos deixá-las entregue às baratas.
Temos de encontrar um meio de continuar comandando as coisas por aqui!
Vamos dar uma volta para refrescar a cabeça.
Trate logo de dormir.”
Em poucos minutos o coronel Getúlio seguia em direcção ao campo, levando Sérgio como uma criança agarrada ao colo da mãe!
Já passavam das nove horas da noite quando os dois regressaram.
Sérgio então, retomando seu corpo, despertou, para em seguida lançar mão de uma sineta na cabeceira de sua cama.
Ao accioná-la, foi prontamente atendido por um empregado, a quem determinou que lhe preparasse uma refeição.
Enquanto isso, Getúlio, deitado ao seu lado, dava asas à imaginação, sonhando com um possível retorno ao corpo de carne como único e absoluto senhor daquelas terras.
Afastei-me dos aposentos, deixando os dois entregues à simbiose que os unia até mesmo durante as refeições, e dirigi-me à varanda.
Quando lá cheguei, encontrei Firmino, que comentou:
”Xisto, alguns trabalhadores me informaram que uma caravana fará uma parada de refazimento nas imediações, onde buscará, junto à natureza, recursos para os doentes amparados.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:27 am

Proponho irmos ao encontro dela e oferecermos nossa cooperação!”
”Claro, Firmino, eu mesmo já procurei estes sítios em busca de refazimento para nossos amparados quando em tarefas de socorro às quais as caravanas se dedicam!
Por aqui estive várias vezes, sem saber o drama que se desenrolava nesta casa.”
”Quando o trabalhador está pronto, o trabalho aparece”, - disse Firmino sorrindo, enquanto seguíamos em direcção ao campo.
Não muito longe dali, quase na divisa com as terras de Altamiro, encontramos alguns trabalhadores vestidos a carácter para as tarefas a que se dispunham.
Ao perceberem nossa presença, eles foram ao nosso encontro:
”Que a paz do Mestre Jesus esteja convosco, meus irmãos!”, falou um senhor.
Esse senhor trajava largas calças e botas de cano longo até os joelhos.
Trazia na cabeça um chapéu de abas largas enfeitado com penas, e a tiracolo, um pequeno alforje, com alguns pertences que não consegui identificar.
Ele lembrava os velhos conquistadores espanhóis e ingleses de alguns séculos atrás.
Também trazia à nossa lembrança a figura querida dos bandeirantes brasileiros!
Firmino, que notou minha fuga mental, respondeu ao amigo:
”Ficamos felizes em vê-los por estas paragens, meu irmão.
Como aprendizes no exercício do bem, colocamo-nos à disposição para auxiliá-los!
Eu e meu companheiro estamos em tarefa de auxílio na região, mas no momento estamos livres para cooperar.”
”Obrigado, meu irmão!
Já fomos alertados da presença dos irmãos nestas terras.
Fomos também instruídos por nossos líderes nessa caravana a nos identificarmos aos irmãos Xisto e Firmino, oferecendo-lhes nossos préstimos.
Presumo que são os irmãos em questão.”
”Sim, meu amigo. Este é Xisto.
Por notarmos a movimentação na região, aqui estamos!”
”Estamos fazendo uma varredura no local porque aqui montaremos um hospital de campanha, onde serão ministrados os primeiros socorros àqueles que deles necessitarem!
Hoje estamos atendendo a alguns encarnados libertos pelo sono, mas a maioria será desencarnados, vítimas de males diversos.
Eles receberão socorro antes de prosseguirmos nossa jornada.
Somos liderados por Tobias, habituado a essas caravanas há muitas décadas.
Acredito que, quando aqui chegar a caravana, os irmãos encontrarão muita oportunidade de servir.
Peço-lhes perdão por não me apresentar.
Chamo-me Calixto, um servidor de vocês!”
”Eu e Tobias somos velhos conhecidos.
Participamos juntos de muitas caravanas!
Ficarei feliz em poder abraçar meu velho amigo”, comentei, dirigindo-me a Firmino.
”Vejamos em que podemos ser úteis, Xisto.”
Enquanto aguardávamos, Calixto, que havia pedido permissão para se afastar e continuar cuidando das suas tarefas, comandava uma dezena de trabalhadores que isolavam toda a área, tomando o cuidado de manter dentro desta uma pequena queda d’água.
Em poucos minutos, grande movimentação se fez ouvir, e em seguida pudemos ver a caravana se aproximando.
Dez maças estavam ocupadas, e logo no meio da caravana pelo menos vinte irmãos eram amparados enquanto caminhavam abatidos e com sequelas que deformavam seu corpo fluídico.
Tobias logo me identificou e dirigiu-se ao meu encontro, envolvendo-me num forte abraço.
”Soubemos por Argemiro que estaria na região, meu amigo.
Fomos instruídos a lhe prestar toda a assistência que estivesse ao nosso alcance nas tarefas em que se empenha ao lado de Firmino, a quem temos o prazer de abraçar pela primeira vez.”
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:28 am

”Ficamos felizes e agradecidos, Tobias.
Talvez precisemos realmente de alguma ajuda.
Mas vamos em primeiro lugar, aproveitando a trégua que a noite nos proporciona em nossa tarefa, cuidar de ajudá-lo com seus amparados.
Antes da sua partida, retornaremos ao assunto e veremos no que poderá nos ajudar!”
”Está bem, meu amigo.
Já conhece a rotina de trabalho em uma caravana como essa. vou deixá-los à vontade para nos auxiliarem.
Pretendemos partir ao alvorecer, quando, espero, todos estarão prontos.”
Deixando-nos à vontade, Tobias se uniu aos outros companheiros no atendimento aos necessitados.
Misturamo-nos a eles.
Sem que percebêssemos, estávamos afoitos no trabalho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 1 de 4 1, 2, 3, 4  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum