Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:28 am

A visita de Maria Tereza

O sol já ameaçava despontar quando Tobias se aproximou para as despedidas:
”Meus irmãos, incumbi Calixto e mais alguns companheiros de, após encerrarem suas tarefas com os encarnados que se beneficiaram do atendimento, se apresentarem a vocês, ficando disponíveis para auxiliá-los!
Só nos resta rogar ao Mestre Jesus que nos ampare em nossas tarefas e que os abençoe pela ajuda prestada esta noite.”
Após um longo abraço, Tobias se retirou, liderando sua caravana de paz e esperança.
Fizemos nossa prece de agradecimento a Deus e rogamos ajuda para o dia que se iniciava.
Os primeiros raios de sol já iluminavam a natureza em nosso derredor.
Enquanto observávamos um beija-flor, que agradecido tomava seu banho matinal no orvalho ainda nas folhas da vegetação, Firmino convidou-me para uma visita a Altamiro e Cenira, comentando:
”Conforme as recomendações de Sebastiana, devemos esperar para qualquer momento a visita de Maria Tereza a seus pais.
Vamos nos adiantar e prepará-los.”
Chegando na casa de Altamiro, nós o encontramos com Cenira na cozinha.
Estavam eufóricos com a presença do filho que ainda dormia.
Cenira se esmerava na preparação do desjejum, buscando em suas lembranças a predilecção alimentar do filho.
Altamiro, que a tudo observava, vendo o entusiasmo e a alegria da esposa, brincou, dizendo:
- É, minha velha...
Se você fizer mais uma guloseima, vamos ter de tomar o café fora da mesa!
Meu estômago manda agradecer tamanha variedade!
- Deixe de bobagem, Altamiro.
Estou feliz, sim!
Muito feliz!
Eles conversavam despreocupados e não notaram que Juarez, já em pé, observava a felicidade deles!
Juarez não pôde, naquele instante, furtar-se de pensar na irmã:
”Como vou explicar a eles?
Só Deus para me ajudar num momento desse!”
Nisso, Cenira notou sua presença e correu para abraçá-lo, conduzindo-o à mesa, orgulhosa pelas guloseimas que a compunham.
Altamiro, então influenciado por Firmino, comentou:
- Minha velha, com o entusiasmo de ontem, acabamos nos esquecendo da nossa prece nocturna!
Queria pedir a vocês que me acompanhassem numa oração a Deus nesta manhã, agradecendo a felicidade que o momento nos proporciona.
Isso se você não se incomodar, meu filho!
- De forma alguma, meu pai!
O senhor faz a prece e nós o acompanhamos.
Está bem assim?
- Claro, meu filho, claro.
Altamiro, com toda simplicidade que marcava sua personalidade, estabeleceu um diálogo com o Mais Alto, agradecendo o retorno do filho ao lar e pedindo pela filha ausente.
Ao término de sua prece, todos estavam emocionados e ficaram calados.
Permaneceram assim por alguns instantes, até que o silêncio foi quebrado por Altamiro, que falou:
- Sinto como se Maria Tereza estivesse aqui do nosso lado, embora não possamos vê-la!
Juarez, receoso que o assunto fosse adiante, falou:
- Meu pai, conto com sua ajuda hoje para irmos até a cidade buscar minhas coisas!
- Vou sim, meu filho.
Mas vamos deixar para amanhã.
Algo me diz que devemos ficar todos juntos hoje.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:28 am

Não se assuste:
são manias de velho com um coração cheio de saudade!
”Xisto”, falou Firmino, ”não seria melhor nos assegurarmos de que o jovem casal vai obedecer às sugestões de Sebastiana?”
”Boa lembrança, Firmino!
Eu farei isso indo ao encontro deles, enquanto você permanece aqui.
Está bem assim?”
”Façamos dessa forma.
Permanecerei preparando o coração deles para o reencontro.”
Dirigi-me então à residência de Sérgio, onde o encontrei ainda adormecido.
Percebi, pela ausência do coronel, que os dois tinham saído para conferir as terras!
À porta dos fundos, uma charrete aguardava o jovem casal, que se apressava em arrumar-se.
Maria Tereza tinha mais dificuldade.
Afinal, fazia dez anos que ela não via os pais.
Enquanto isso, José Augusto a apressava:
- Temos de sair antes que meu pai acorde, para evitar dissabores.
Seus pais nem vão notar sua roupa, Maria Tereza.
Não se preocupe tanto com esses detalhes.
- É um momento importante para mim, José Augusto, vou aproveitar e levar todas as cartas de Juarez e entregá-las com atraso de anos.
A conversa dos dois foi interrompida pela voz de Sebastiana, que do lado de fora da casa cantarolava uma canção religiosa.
José Augusto, que já estava pronto, correu ao seu encontro, afirmando:
- O que é isso, madrinha?
A senhora vai acabar acordando o papai!
- Vou não, meu filho.
A alma dele está lá para as bandas do curral agarrada ao coronel Getúlio.
E eu estou cantando para afastar as coisas ruins do caminho de vocês.
Se os filhos vão de charrete, eu vou junto.
Preciso conversar com o Sr. Altamiro.
Já estou até arrumada!
- Fico feliz com sua companhia, madrinha.
Já estamos de saída. Aguarde só um momento!
- Eu estou aguardando, meu filho.
Deixe a menina se embonecar.
Hoje a festa é dela!
Percebemos quando Sebastiana pensou:
”Eu vou por garantia.
Se os ajudantes do coronel perceberem onde eles estão indo, vão querer atrapalhar.
Eu estando junto, eles respeitam.”
Como tudo estava bem encaminhado, fui à casa de Altamiro e cientifiquei Firmino dos acontecimentos que estavam por vir!
A charrete ao longe foi percebida, primeiramente por Cenira, que da janela da cozinha observava o filho ao lado do pai enquanto eles vistoriavam algumas criações:
- Você está esperando visita, meu velho?
Olhe lá na estrada!
Altamiro, depois de olhar atentamente para o veículo ainda ao longe, respondeu:
- Apenas eu não, Cenira: nós três.
Se meu coração não estiver mentindo, vamos ter um alegre domingo!
- Ah, meu Deus! Não fale assim, meu velho.
Você acaba me matando do coração!
- Olhe lá, minha velha.
São três pessoas: duas mulheres e um homem.
Preste atenção na do meio.
Parece com sua irmã ou não parece, meu filho?
- Acho que meu pai está certo, minha mãe!
Aquela é Maria Tereza e o marido.
Que Deus nos ajude!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:28 am

Explicações

Cenira largou seus afazeres e correu ao encontro do veículo que se aproximava, gritando:
- É Maria Tereza, é minha filha!
Graças a Deus! É ela mesma!
Altamiro correu para parar o veículo, enquanto Maria Tereza buscava o abraço dos dois.
- Oh, meu Deus!
Como o Senhor é bom!
Meus dois filhos em casa.
Olhe, Altamiro, como está bonita nossa filha!
É difícil descrever a beleza de momentos como esse observados do plano em que nos encontramos.
As vibrações se entrelaçavam em um espectáculo de cores, identificando os sentimentos sublimes emanados do coração dos que se reencontravam!
Mantivemo-nos a distância, respeitando a privacidade do momento.
Mas não pudemos nos furtar de sermos envolvidos pelas vibrações carinhosas que ali estavam sendo geradas, e também nos emocionamos sem poder conter as lágrimas!
José Augusto e Sebastiana não ousaram interferir naquele abraço interminável e mantiveram-se afastados.
O rapaz, ao notar a presença de Juarez, envolvido pelas vibrações do momento, dele se aproximou e falou:
- Não sabíamos que você estava por aqui, Juarez!
Estou mesmo precisando lhe falar.
Espero que me escute.
Você sempre esteve certo, meu amigo.
Foi um erro da minha parte querer conduzir as coisas do meu modo.
Espero que me perdoe e aceite minha amizade com meu pedido de desculpas!
Tudo deu errado lá em casa.
O problema é bem maior do que eu supunha!
Meu pai não está nada preocupado se me casei com uma moça pobre ou rica.
O problema é outro!
Por isso, insisto que você me desculpe, Juarez.
E espero que possamos colocar uma pedra sobre nossas divergências.
Sejamos amigos novamente!
- Não tenho mágoa, José Augusto.
Profundos sentimentos nos aproximam nesta vida, e é melhor não perdermos a oportunidade que temos de viver em paz.
Juarez, num gesto fraterno, estendeu a mão ao amigo, e ele prontamente o abraçou.
A cena não passou despercebida por Maria Tereza, que se emocionou ainda mais!
Sebastiana, em seu canto, aguardava que o coração deles se acalmasse quando José Augusto, aproximando-se dela, chamou sua atenção, falando:
- Madrinha, este aqui é o Juarez.
Ele é meu cunhado, mas ocupa lugar de irmão em meu coração.
- Quem é irmão deste menino é também afilhado desta velha.
Dê-me um abraço, menino Juarez!
Sebastiana, do alto de seu quase um metro e noventa, abraçou Juarez carinhosamente e comentou:
- Ih, Senhor Jesus Cristo!
Olhe só quem está aqui!
Esta velha já viveu muito, conhece muita gente!
É por isso que você não atende minhas orações!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:28 am

Você já está aqui de volta!
Deus o abençoe, meu filho!
- Obrigado, dona Sebastiana.
A senhora sempre teve um lugar no meu coração!
Aprendi a gostar da senhora só pelas histórias que José Augusto e Carmem me contavam.
Fico feliz em poder abraçá-la e peço a Deus que a proteja em sua missão de anjo da guarda!
- Não fale assim, meu filho!
Eu não mereço elogio.
Ainda faço muita coisa errada, e é por isso que estou de castigo nesta Terra até hoje!
Foi muito bom encontrá-lo de novo.
Nisso, Maria Tereza aproximou-se, abraçada aos pais, em busca do carinho do irmão:
- Juarez, que bom você estar por aqui!
Precisamos muito conversar. Preciso lhe pedir...
- Não continue, Maria Tereza.
O importante é que estamos todos juntos agora!
Vivamos o hoje e o amanhã e esqueçamos os dias difíceis do passado!
Você não vai apresentar seu marido para o papai e para a mamãe?
- Foi tanta felicidade que acabei me esquecendo!
Maria Tereza abraçou José Augusto e, voltando-se para seus pais, falou:
- Papai, mamãe, este é meu marido, o José Augusto.
Ele é filho do Dr. Sérgio!
Espero que vocês nos perdoem por termos nos casado sem comunicar nada, mas vamos lhes dar os motivos.
Tenho certeza de que compreenderão!
Cenira abraçou José Augusto e comentou:
- Nós já o conhecemos, minha filha.
Quando adolescentes, ele e a irmã vinham conversar aqui com vocês!
Altamiro teve sua fisionomia transformada ao saber quem era o marido da filha, mas mesmo assim se aproximou de José Augusto e falou:
- Como vai você, meu rapaz?
É claro que nos lembramos de você!
Estamos felizes com a escolha da nossa filha.
E seu pai? Como ele está?
Quando o vi pela última vez, você ainda nem tinha nascido!
- Ele está bem, Sr. Altamiro.
Ele tem seu próprio mundo e vive bem nele!
Sebastiana, em um canto, sentiu que todos se acalmaram e falou:
- Agora os compadres já podem abraçar esta velha, que também está com saudade!
- Dona Sebastiana, a senhora me desculpe, mas é muita felicidade para meu coração tão pequeno!
Cenira abraçou a amiga que não via há um bom tempo enquanto conduzia todos para a casa.
Maria Tereza correu para o seu antigo quarto abraçada à mãe, enquanto José Augusto e Juarez se dirigiram para uma pequena baía onde alguns animais se alimentavam.
Sebastiana e Altamiro ficaram a sós, e ela aproveitou para lhe falar:
- Achei que o compadre ia fraquejar das pernas quando soubesse com quem sua filha se casara.
- Quase, dona Sebastiana. Faltou muito pouco!
O mundo é pequeno mesmo, não é?
- É sim, compadre.
Já faz muitos anos que tivemos aquela conversa.
O senhor se lembra?
- Lembro sim, dona Sebastiana.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 09, 2016 9:29 am

Se não fosse pela sua ajuda, eu não estaria vivendo em paz com minha consciência nos dias de hoje.
Eu lhe devo muito!
- Deixe disso, compadre.
Era a vontade de Deus que estava sendo feita!
Agora nós precisamos conversar para ver como vamos explicar isso tudo para os meninos!
- É, dona Sebastiana...
E para Cenira também, pois ela não sabe de nada!
Estamos com um grande problema nas mãos.
- O pior, compadre, é que o Dr. Sérgio nem sabe quem é a menina que se casou com o filho dele!
- Eles não contaram a ele, dona Sebastiana?
- Não contaram, não, compadre.
E agora as coisas se complicaram.
Eles querem contar e estão atrás de um conselho.
Vão querer se aconselhar com o senhor!
As coisas estão mais difíceis.
A alma do coronel Getúlio ainda anda por lá.
E o compadre conhece aquele homem:
ele era tão ruim que até a fome tinha medo dele, e está do mesmo jeito ou pior.
Sabe, compadre, a alma da finada dona Esmeralda, mulher do finado Sr. Januário, que eu não sabia por onde andava até ontem, falou para mim, há muitos anos, que um dia a verdade teria de ser dita, doesse a quem doesse.
Mas como nós vamos saber que já está na hora?
- Não sei, dona Sebastiana.
Eu nunca desacreditei na vida depois da morte.
Para mim, a senhora, que conversa com as almas, deveria pedir a todos da família que já morreram para nos ajudar nesse momento!
- Ih, compadre!
Quase todos já nasceram de novo!
Januário, Esmeralda, Deolinda e até seu pai Francisco:
estão todos por aí, entre nós!
Só o coronel Getúlio ainda está do lado de lá e nós estamos aqui na Terra!
É compromisso, compadre. E dos grandes!
- Não sei, dona Sebastiana.
A senhora é bem mais velha do que eu e já viu muita coisa.
Acreditar que a gente continua vivo eu acredito, mas que nascemos de novo...
Isso eu não sei, não senhora!
- E, compadre, mas o senhor vai acreditar quando souber por onde anda aquele povo todo!
Vamos precisar de muita reza, compadre, para Deus clarear nosso caminho.
Tem muita alma ruim lá na fazenda que só quer atrapalhar, mas, de uns dias para cá, tem dois anjos bons andando por lá.
Meu velho Amaro já os viu ralhando com o coronel, e eu também já os vi lá na minha casa e aqui na do compadre hoje!
Acho que eles estão aqui para nos ajudar!
- Tomara que assim seja, dona Sebastiana.
Vamos precisar de muita ajuda quando tivermos de contar toda a verdade.
Nisso, Juarez e José Augusto se aproximaram.
Juarez então comentou:
- Dona Sebastiana, gostaria de ter em meu coração uma pequena parte da fé que a senhora tem para melhor servir no que fui destinado.
As palavras de Juarez, pronunciadas com naturalidade, causaram um impacto em Altamiro e Sebastiana, deixando-os momentaneamente sem resposta.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:02 pm

Mistérios adormecidos

Altamiro, impressionado com as palavras do filho, pensou:
”Juarez nunca demonstrou interesse por religião!
Que conversa estranha é essa?”
Sebastiana, refeita do impacto causado pelas palavras de Juarez, disse-lhe:
- Olhe, meu filho, a vida é uma escola.
Quanto mais a gente vive aqui nesta Terra, mais a gente aprende!
Nós aprendemos a ter fé porque sofremos muito.
É pouca gente, meu filho, que tem fé sem sofrer!
- É sim, dona Sebastiana.
Espero não ter de sofrer muito para que minha fé seja pelo menos do tamanho de um grão de mostarda, como disse Jesus!
- Ora, ora, meu filho - falou Altamiro.
Desde quando você é voltado para coisas de Deus?
Você está falando igual a um padre!
- Desculpe, meu pai.
Essa é uma história que ainda não tive tempo de lhe contar, mas ainda o farei!
Nisso, Cenira chegou à porta e os convidou para almoçar.
Ficou então estabelecido que todos ficariam para o almoço.
Enquanto as três senhoras cuidavam dos preparativos, os homens conversavam sobre as actividades do campo.
A certa altura da conversa, José Augusto, que não conseguia mais se conter, comentou:
- Senhor Altamiro, quero lhe agradecer pelo apoio, aceitando meu casamento com Maria Tereza.
Realmente nos casamos às escondidas de nossa família, excepto de Juarez, que participou de tudo!
O motivo de assim agirmos é a intolerância de meu pai em relação ao senhor e à sua família.
Confesso-lhe que tenho buscado de todas as formas que estão a meu alcance as respostas para tanto ódio.
Gostaria de pedir-lhe alguns conselhos, pois não sabemos, eu e Maria Tereza, como agir!
- Olhe, meu filho, existem tantos mistérios adormecidos no passado que tenho até receio de tocar no assunto.
Seu pai, o Dr. Sérgio, tem lá seus motivos para não gostar de mim.
Não que eu lhe tenha feito algum mal, mas meus olhos registaram cenas nas quais ele era o protagonista.
E, se eu revelasse essas cenas, poderia comprometê-lo muito.
Eu ainda era um menino.
Daí o rancor dele em relação a mim.
Quanto aos desentendimentos entre seu avô Getúlio e meu pai, eles têm origem antes mesmo do meu nascimento.
Portanto, meu filho, essa árvore tem suas raízes no tempo.
E como fazer essas revelações sem magoar ou correr o risco de abrir velhas feridas?
- Mas é justo, Sr. Altamiro, Maria Tereza e eu termos nossa felicidade prejudicada por algo em que não tivemos participação?
- Compreendo, meu filho, mas sinceramente não sei o que lhe responder, e prometo não poupar esforços para amenizar essa situação.
Juarez, que até então a tudo ouvia atentamente, se expressou:
- Se vocês me permitem uma opinião pessoal, aprendi que nada fica encoberto para sempre e que nossa vida obedece a directrizes traçadas por nós mesmos no ontem, sendo o hoje apenas o seu reflexo.
- Juarez - falou José Augusto -, só mesmo sua crença para dar essa resposta.
Mas estamos falando de vida, da realidade contida no momento em que vivemos!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:02 pm

- Eu também estou falando disso, meu amigo!
Como explicar o facto de vocês estarem passando por tantas dificuldades sem terem participação nas origens do problema?
- Do que vocês estão falando, meus filhos?
Não estou entendendo nada!
- Perdoe-nos, meu pai.
Durante esse tempo que fiquei fora, abracei uma crença religiosa.
Com calma, vou explicar-lhe os detalhes dessa crença.
Ela oferece muitas respostas, principalmente sobre factos que, se observados apenas sob o prisma da vida actual, não conseguimos esclarecimentos!
- Ele é um reencarnacionista, Sr. Altamiro - falou José Augusto.
Essa sua crença foi o motivo do nosso desentendimento há alguns anos!
No entanto, sou obrigado a reconhecer que, mesmo não entendendo do assunto, tenho de concordar com Juarez na maior parte das vezes.
Mas como resolver o problema que vivemos actualmente?
- Só por meio do perdão, meu amigo.
E só se chega a ele pelo amor.
- Mas como perdoar, Juarez, ou exigir que sejamos perdoados se não sabemos os motivos?
- Saber os motivos, José Augusto, só iria reabrir as feridas, em vez de auxiliar na cicatrização.
Os ensinamentos são:
”Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.
- Mais uma vez eu lhes pergunto:
os dois poderiam me colocar a par do que estão falando? - indagou Altamiro, querendo entender a conversa deles.
- Estamos falando, meu pai, de perdoar aqueles que nos ofendem, de amar quem nos odeia e de confiar em Deus para a solução dos nossos problemas.
- Olhe, meu filho, as palavras são muito bonitas, mas por certas pessoas elas são impossíveis de serem praticadas!
- Façamos então nossa parte, meu pai!
Com cada um buscando em sua consciência uma maneira de ajudar, tenho certeza de que encontraremos uma resposta sem precisar magoar ou ferir quem quer que seja.
- Dona Sebastiana pensa da mesma forma que Juarez, Sr. Altamiro.
Por isso estamos aqui, buscando pela exposição de nosso problema conseguir a sua ajuda.
Estou certo de que podemos contar com Juarez.
Antes que Altamiro pudesse dizer qualquer coisa, Cenira chegou à varanda, convidando-os para o almoço.
Durante todo o dia, não se tocou mais naquele assunto.
Mas, na hora da despedida, Altamiro, dirigindo-se a José Augusto, falou:
- Meu filho, peço que espere mais um pouco antes de falar a seu pai!
Dê-me mais três dias antes de tomar qualquer decisão!
- Claro, Sr. Altamiro.
Só em sabermos do seu interesse em nos ajudar, ficamos mais tranquilos!
- Eu farei contacto, meu filho.
Mas espero que, estando tão perto, vocês não deixem de nos visitar.
- Nós estaremos sempre aqui, papai - falou Maria Tereza.
Daqui em diante, as coisas vão ser bem diferentes.
Eu prometo!
- Temos certeza disso, minha filha, e ficaremos muito felizes!
Juarez vai ficar por aqui connosco.
Vamos tocar juntos o trabalho, se Deus quiser!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:02 pm

Enquanto se despediam, Altamiro aproximou-se de Sebastiana e comentou:
- Nas suas orações, dona Sebastiana, peça por nós.
Amanhã vou fazer uma visita para a senhora e para o Sr. Amaro, para trocarmos algumas ideias.
- Vá sim, Sr. Altamiro, e leve seu filho.
Meu coração me conta que ele vai nos ajudar a resolver muita coisa!
Amanhã eu explico tudo para o senhor!
Cenira, que se aproximava, ouviu o final da conversa e falou:
- Nós vamos visitá-la, sim, dona Sebastiana.
Afinal, temos de pagar a visita.
- Eu estou esperando, comadre Cenira.
Estou falando aqui com o compadre para amanhã vocês mandarem o menino Juarez lá em casa para buscar uma cuia de doce de figo em calda.
Estou com uma gamela cheia, comadre!
Até mandei a menina Maria Tereza trazer um pouco hoje, mas a cabeça dela ainda não está boa para lembrança e ela acabou esquecendo.
- Vamos mandar, sim, dona Sebastiana, e depois vou combinar com Altamiro a nossa visita.
Despediram-se.
Nós seguimos em direcção à fazenda, onde Getúlio e Sérgio estavam impacientes com a ausência dos dois.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:03 pm

A chegada de Calixto

Como já era final de tarde quando José Augusto e Maria Tereza chegaram à fazenda, logo eles se recolheram nos seus aposentos.
Com a chegada dos dois, os ânimos de Getúlio e Sérgio se acalmaram.
Eles ficaram aguardando ansiosos por José Augusto para ouvir suas explicações, mas elas não chegaram.
Já passavam das nove horas da noite quando um dos auxiliares do coronel Getúlio adentrou a casa em busca de seu chefe e o encontrou no quarto de Sérgio, onde foi recebido com impropérios:
”O que você está fazendo aqui, Leocádio?
Quantas vezes já disse que vocês estão proibidos de entrar na casa?
Seja qual for o motivo por você estar aqui, espero que seja importante o suficiente para o livrar da corrigenda!”
”O senhor me desculpe, coronel, mas é urgente.
Lá fora no pomar está cheio de soldados armados!
Eles chegaram e foram entrando sem a menor cerimónia!
São mais de dez, coronel!
O que eu faço?”
”Que conversa boba é essa, Leocádio?
Soldados nas minhas terras?
Onde já se viu tamanha idiotice?
Vamos lá!
Quero ver isso de perto.”
Adiantamo-nos ao coronel e deparamos com Calixto, que terminara seus afazeres com seus comandados e, conforme instruções de Tobias, se apresentava a nós.
”Seja bem-vindo, Calixto!
Não o esperávamos tão cedo!”, falei.
”Irmão Xisto, já cumprimos nossas obrigações no dia de hoje e aqui estamos para atendê-los, conforme instruções de Argemiro, nosso mentor, e de Tobias, nosso responsável imediato!
Ao cruzarmos os limites desta fazenda, encontramos um bom número de irmãozinhos que, pela vestimenta, identificamos de imediato como pertencentes à falange dos ”pseudo-justiceiros”, cujo chefe é um velho conhecido nosso.
Num primeiro momento, eles esboçaram táctica de defesa, mas logo desistiram e embrenharam-se na mata.”
”Eles vivem por aqui, Calixto.
São doze no total e estão aqui a título de empréstimo sob o comando do coronel Getúlio, antigo senhor destas terras que por aqui ainda se encontra!
Agora, ele está verificando, in loco, a veracidade das informações que lhe foram passadas.
Por ora, meu irmão, gostaríamos que reafirmasse para ele seu propósito de permanecer alojado nestas terras.
Ele naturalmente não perceberá nossa presença e identificará somente o amigo e seus comandados.”
Logo notamos o coronel se aproximando seguido por meia dúzia de subordinados.
”Hei, quem são vocês?
E o que fazem aqui?”, falou o coronel, dirigindo-se a Calixto.
”Somos o que o amigo vê:
guardiões a serviço de Jesus!
E vocês? Quem são?”
”Sou o dono destas terras e exijo que saiam daqui o mais rápido possível.”
”Impossível, meu amigo!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:03 pm

Reconhecemos como dono destas terras Deus.
Como estamos a serviço de Seu filho Jesus, estamos acobertados pelo direito de uso.
E, pelo que posso observar, o amigo já perdeu o corpo físico há um bom tempo.
Assim sendo, perdeu também o título de depositário destas terras.
Portanto, não reconhecemos os direitos reivindicados pelo amigo.
Avisamos de antemão que aqui repousaremos todas as noites durante os próximos dez dias, pois fazemos parte de um exército a serviço de Jesus e estamos travando intensas batalhas contra as forças do mal nesta região.
E, se o amigo fizer o favor de respeitar nossos direitos, eu o convido a se retirar das terras de nosso Mestre Jesus, para que possamos refazer nossas energias em paz.”
O coronel Getúlio ficou apreensivo por alguns instantes e logo respondeu:
”Vou relevar as bobagens que você falou e deixá-los descansar, desde que não interfiram na rotina da fazenda!”
”Meu amigo, por enquanto não nos foi determinada nenhuma acção contra vocês.
No entanto, se houver alguma ordem nesse sentido, fique certo de que não hesitaremos em cumpri-la!”
Fingindo não compreender as advertências de Calixto, Getúlio se afastou em direcção à casa seguido pelo bando.
Lá chegando, ele passou suas instruções:
”Pelo que pude perceber, eles estão de passagem.
Não vamos entrar em atrito desnecessariamente.
Procurem evitar passar por ali enquanto eles estiverem aqui.
Assim, evitaremos um confronto.
Há muita terra a patrulhar longe daqui!
E você, Leocádio, vigie seus homens para que não percamos nenhum, caso haja um confronto com eles.”
No interior da casa, Getúlio encontrou Sérgio liberto do corpo e apreensivo.
Ele o esclareceu, dizendo tratar-se de alguns viajantes que pediam pousada.
”Xisto”, falou Firmino, ”pelo que Calixto falou, estarão ele e seus seguidores à nossa disposição nas próximas dez noites.
Como pretende o amigo utilizar esse recurso?”
”A ideia, meu irmão, é espalhar nossos colaboradores por toda a fazenda, impondo aos seguidores do coronel o confinamento na área externa e consequentemente a sua debandada.
Enquanto isso, acentuamos nossa presença dentro da casa.
Nosso amigo Calixto sabe como agir em situações como essa.
Aproveitemos portanto sua presença!”
Por toda a noite, os espíritos amigos, sob as ordens de Calixto, caminharam pelas terras próximas à casa da fazenda, levando insegurança ao bando do coronel Getúlio.
Por várias vezes durante a noite, Leocádio procurou o coronel, solicitando providências que nunca foram tomadas.
Finalmente o dia chegou.
Leocádio e seu bando aguardavam ansiosos pela saída de Calixto, que antes de partir se aproximou da vegetação próxima, onde ele sabia que estava escondido o bando, e falou em voz bem alta:
”Tenho um recado para seu chefe, Leocádio!
Diga ao coronel que logo mais à tarde estaremos de volta.
E dessa vez um número bem maior de companheiros estará connosco.
Portanto, vamos utilizar uma área bem maior do que a que utilizamos esta noite!”
Depois de deixar o recado, Calixto partiu com seus seguidores.
Firmino, que estava ao meu lado, dirigindo-se a mim, falou:
”Xisto, Altamiro se comprometeu a visitar Sebastiana hoje.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:03 pm

Acho melhor estarmos presentes, a fim de auxiliá-los no entendimento!”
”Sim, meu amigo!
Precisamos agilizar nossa participação, pois o tempo está reduzido e nos cobra uma maior intervenção.
Hoje faremos com que Sebastiana revele a Altamiro e a Juarez o envolvimento dos amigos nos acontecimentos que deram origem aos conflitos do momento.
Mas antes façamos nossa prece, rogando ao Mais Alto protecção e amparo nas tarefas a que nos dispomos no dia de hoje.”
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:03 pm

Revelações de Sebastiana

Logo após o desjejum, Altamiro começou a se preparar para a lida.
Foi quando Juarez adiantou-se e falou:
- Meu pai, gostaria de acompanhá-lo hoje!
Há muitos anos não faço isso!
- Claro, meu filho.
Se sua mãe não se importar...
- Fique à vontade, Juarez.
E você, Altamiro, não se esqueça de ir à casa do Sr. Amaro e da dona Sebastiana buscar o doce que ela ofereceu!
- Está bem, Cenira. Farei isso!
A caminho do campo, Juarez comentou:
- Espero não estar a incomodá-lo, meu pai.
- De forma alguma, meu filho.
Estava preocupado.
Não sabia como levá-lo à casa de Sebastiana sem despertar a curiosidade de sua mãe.
Graças a Deus tudo se encaminhou!
Mas, meu filho, enquanto caminhamos, por que você não me conta sobre essa sua religião?
- Está bem, meu pai!
Tudo aconteceu em um daqueles dias em que a saudade e o remorso nos castigam.
Um colega de trabalho, notando meus olhos vermelhos, aproximou-se de mim para conversar.
Trabalhávamos perto um do outro.
Ao término do dia, eu voltava para casa com um livro contendo valiosos ensinamentos dessa doutrina que nos esclarece a razão de nossas dores, lutas e sofrimentos.
E, desde esse dia, não mais me afastei dos estudos.
Acreditamos no perdão de Deus em relação aos nossos erros, uma vez que Ele nos permite retornar quantas vezes forem necessárias ao corpo de carne, a fim de repará-los.
Somos, portanto, reencarnacionistas, espíritas, cristãos!
É uma religião, meu pai, cujos fundamentos datam de milénios.
Seguimos os ensinamentos de Jesus, procurando perdoar a quem nos ofende e lutando para aprender a amar nosso próximo como a nós mesmos.
Temos Deus como pai e Jesus como filho.
- Bem, meu filho, estou muito velho para mudanças, mas uma coisa eu aprendi no cultivo da terra:
se o fruto é bom, só pode ter vindo de uma árvore boa, e sei que Jesus também falava isso!
Não tenho nada contra sua religião.
Pelo contrário:
gostei de ouvi-lo falar e gostaria de aprender mais a respeito dela!
Dona Sebastiana também acredita em algo parecido.
Falou-me ela ser você o avô do Dr. Sérgio que nasceu outra vez.
- Isso eu não sei dizer, meu pai.
Mas respeito muito dona Sebastiana.
Ela é uma boa médium.
Minha mãe disse que ela já passou dos cem anos.
É verdade?
- Não sei, meu filho.
E não se atreva a perguntar, se não quiser ouvir xingatório.
Caminhavam os dois assim, conversando, quando os deixamos.
Adiantando-nos na chegada à casa de Sebastiana.
Nós a encontramos conversando com Amaro enquanto ele empilhava alguns pedaços de lenha ao lado do fogão:
- Então, meu velho, como você já sabe, é isso o que aconteceu:
todos apareceram de novo e nós dois ainda nem fomos!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:03 pm

- Eu aprendi, minha velha, que, quanto maior nossos pecados, mais tempo vivemos na Terra!
Assim, é melhor pagarmos o que devemos e não reclamarmos!
- Eu não estou reclamando, meu velho. Estou só comentando.
E melhor você esperar um pouco mais antes de ir para a lida, pois estamos esperando visitas.
E, se elas vierem, será agora cedo.
Você já está atrasado mesmo!
É o Sr. Altamiro e o filho.
Quando você abraçar o Juarez, levará um susto, meu velho.
Você não vai nem acreditar quem está nascido ali!
— E quem é, minha velha?
- Não vou contar, não.
Vamos esperar para ver se você confirma meu pensamento!
Logo o latido dos cães anunciou a presença de estranhos nas proximidades da casa.
Sebastiana comentou:
- São eles!
Amaro, vai prender os cachorros e mande eles entrar enquanto eu acabo de fazer esse café.
Não falei que nós levantamos tarde hoje?
Amaro foi à porta e chamou os cachorros, prendendo-os a um pedaço de corda.
Em seguida, foi até o portão receber os visitantes:
- Compadre Altamiro, como vai o senhor?
Este deve ser o menino Juarez!
Entre e dê um abraço neste velho!
Altamiro se adiantou e abraçou o amigo e vizinho, para em seguida apresentar-lhe o filho, a quem Amaro estendeu os braços, sob o olhar atento de Sebastiana, que se aproximava.
Juarez, atendendo ao convite de Amaro, o abraçou.
Amaro então comentou:
- Ih, Virgem Santa!
Não é que você tem razão, minha velha.
Este aqui é o Sr. Januário.
Está aqui um homem de coração bom!
Nunca deixou usarem chicote nos negros!
Sebastiana, satisfeita pela confirmação de Amaro, falou:
- O café está pronto, e sem um gole de café ninguém consegue prosear.
Vamos entrando, minha gente.
A casa é de vocês. Fiquem à vontade.
Só não esqueçam de limpar os pés.
Vocês entendem:
é costume e nós respeitamos.
Você também, meu velho!
- Está tudo bem, dona Sebastiana.
Viemos para aquela prosa.
Conforme a senhora pediu, trouxe meu filho Juarez!
— Sentem-se. vou colocar o café na caneca e pegar aquela broa, e aí nós aproveitamos para comer também.
Terminado o café, e estando todos acomodados, Juarez percebeu que era hora de iniciar a conversa que os tinha levado até ali naquela manhã:
- Dona Sebastiana, o Sr. Amaro disse quase a mesma coisa que a senhora quando me abraçou.
A senhora pode explicar-me melhor?
- Posso sim, meu filho.
Você não lembra, mas quem está aí dentro deste corpo é a alma do Sr. Januário.
E, sem eu falar nada, meu velho confirmou isso.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:04 pm

Agora o filho me responda, só para eu comprovar:
você gosta de doce de abóbora, de café temperado com canela e rapadura e de carne de sol seca?
Tem mania de cocar os cotovelos?
Tem uma marca na canela direita, onde a falecida Piedade acertou-lhe um coice?
É temente a Deus Nosso Senhor?
Responda-me, meu filho: você tem esses gostos3?
- Sim, dona Sebastiana.
Confirmo tudo o que a senhora falou, excepto a marca na perna.
Mas isso não quer dizer...
- Então é você mesmo, o Sr. Januário - falou dona Sebastiana, impedindo que ele continuasse sua resposta.
- Até o nome é parecido!
Altamiro, confuso com toda aquela conversa, não se conteve e falou:
- Mas o que tudo isso tem a ver com os nossos problemas, dona Sebastiana?
- Ora, meu filho, quem começou tudo isso?
Não foi o Sr. Januário quem comprou a menina para casar com o coronel Getúlio?
- Foi ele sim, minha velha - falou Amaro.
Mas ele comprou porque o pai dela a estava vendendo por algumas patacas a qualquer um.
Ele a comprou por dó!
Quando ele trouxe a menina para casa e dona Esmeralda deu-lhe um banho e a vestiu com roupa limpa, Getúlio botou o olho de urubu em cima dela.
Então o coronel resolveu casar os dois!
Ela ainda brincava de boneca.
A meu ver, o Sr. Januário não fez nada de errado.
E não é por eu estar na presença dele que falo isso.
Ele era mesmo um homem muito justo!
Dona Esmeralda não concordou com o casamento.
Mas mulher naquele tempo sabia ficar no seu lugar e...
Sebastiana, que a tudo ouvia atentamente, nesse instante resolveu intervir:
- Você não acha, meu velho, que está falando muito para sua idade?
O coração vai ficar cansado e vai faltar-lhe fôlego!
- Bem, meus amigos - falou Juarez, tentando manter o equilíbrio entre o casal.
Pela conversa de vocês, tudo começou com a atitude do Sr. Januário de levar a menina para casa!
Mas o que isso tem a ver com o problema que José Augusto e Maria Tereza estão enfrentando?
- Tem muita coisa, meu filho - prosseguiu dona Sebastiana.
Dona Deolinda, avó de José Augusto e mulher do coronel Getúlio, quando fez quinze anos conheceu o moleque Francisco, pai do Sr. Altamiro, que na época tinha só dezassete anos.
Ele era neto do espanhol que chegara com a família fugido lá da terra dele.
Mas quem vai contar essa parte da história é o compadre Altamiro.
Toma aí um gole de café, compadre, e põe a cabeça para funcionar.

3 - As marcas de outras encarnações são possíveis conforme as lesões sofridas pelo perispírito (N.A.E).
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 10, 2016 2:04 pm

De volta ao passado

Altamiro, ainda confuso com toda aquela história de reencarnação, não compreendeu a sugestão de Sebastiana e falou:
- Dona Sebastiana, por acaso a senhora está pedindo que eu conte a história da minha família?
- Isso mesmo, meu filho.
Conta o que você sabe!
- Bem, meus bisavós chegaram ao Brasil ainda meninos.
Faziam parte de um grupo de seis famílias que fugiram da Espanha devido a perseguições religiosas.
Anos depois, eles acabaram se casando.
Desse casamento nasceu apenas um filho, que também seguiu a tradição, casando-se com uma conterrânea.
Novamente apenas um filho nasceu:
foi meu pai que, quando novo, não soube conter seus impulsos, como a maioria dos jovens, e acabou enamorado por dona Deolinda depois de um encontro casual no campo.
Sem saber que ela era a mulher do coronel Getúlio, ele lhe propôs um namoro, que foi aceite, porém às escondidas.
Ela afirmou ser empregada na casa do coronel Getúlio.
Disse também que ele tinha sua custódia e a proibia de namorar.
O romance dos dois durou três anos, até que um dia o coronel os encontrou e toda história veio à tona.
Dizem os antigos que ela apanhou muito do coronel durante todo o tempo em que ele esteve vivo.
Desde esse dia, os desentendimentos entre meu pai e o coronel passaram a fazer parte da vida dos dois.
Com o tempo, meu pai veio a se casar com aquela que foi minha mãe e ele e dona Deolinda nunca mais se encontraram.
- Bem, meu pai, está explicada a razão do ódio do Sr. Getúlio por meu avô, mas qual a razão do Dr. Sérgio odiar tanto o senhor e a nossa família?
Altamiro olhou para Sebastiana como se estivesse a pedir ajuda.
Ela então, compreendendo, falou:
- Meu filho, seu pai vai lhe contar um segredo muito triste.
Só ele, eu, meu velho e o Dr. Sérgio conhecemos esse segredo.
Tudo o que o filho ouvir terá de guardar para si.
É um segredo muito grande!
- Eu prometo que guardarei, dona Sebastiana.
Não sei porque vocês estão me contando tudo isso, mas peço a Deus que me dê forças para bem executar minha parte nessa história.
- Bem, meu filho, eu estava com meus dez anos quando certa vez, à procura de ninhos de juritis, cheguei nas imediações da sede da fazenda do coronel Getúlio.
Foi então que, escondido na mata próxima, presenciei o coronel discutindo com a esposa na varanda da casa sob o olhar assustado do Dr. Sérgio, um rapaz na época.
Eu podia ouvir os gritos, mas não compreendia as palavras.
Em um certo momento, o coronel Getúlio agrediu a esposa com um bofetão e ela caiu desmaiada, sendo amparada pelo filho.
Ele a levantou nos braços e a carregou para dentro da casa, retornando em seguida.
Iniciou então uma discussão com o pai, que acostumado a não ser contestado passou a agredi-lo fisicamente.
Doutor Sérgio, em pleno vigor físico, conseguiu revidar os ataques do pai e, após desferir-lhe um golpe, jogou-o pela escada.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:03 pm

Como ele ficou imóvel após a queda, o Dr. Sérgio, prevendo o que acontecera, olhou em volta, constatou que não havia nenhuma testemunha e só então desceu as escadas, vindo a verificar que o pai tinha morrido com a queda.
Refeito do susto, ele arrastou o corpo do pai até a mata próxima, onde eu estava escondido, e, de posse de algumas ferramentas, cavou sua sepultura, tomando o cuidado de, antes de enterrá-lo, recolher uma peça de roupa do coronel e alguns pertences que estavam no bolso dele para, conforme viemos a constatar mais tarde, simular serem seus restos mortais após ele ter sido devorado por animais.
Quando tudo estava consumado e eu já não conseguia mais conter o tremor que me tomava de assalto, fui descoberto pelo Dr. Sérgio, que avançou sobre mim.
Como ele não conseguiu me alcançar, gritou, prometendo vingança contra meus pais se eu contasse para alguém o que tinha visto.
Na fuga, encontrei abrigo nesta casa, onde dona Sebastiana amparou-me e eu lhe revelei tudo o que tinha presenciado.
Depois de me acalmar, ela me fez prometer segredo e conduziu-me até minha casa, alegando que tinha me encontrado perdido.
Depois daquela triste manhã, nunca mais voltei às terras do Dr. Sérgio e só o vi muitos anos mais tarde, quando ele foi à nossa casa reivindicar a parte das terras que dizia serem dele.
Altamiro, emocionado, aceitou o café que Sebastiana lhe ofereceu enquanto ela falava:
- Quando o Dr. Sérgio voltou para casa, depois de enterrar o pai, encontrou sua mãe acordada e amparada por duas empregadas.
Uma delas era eu.
Ouvi com essas orelhas que a terra há-de comer quando ele falou para dona Deolinda que o coronel tinha partido de vez e dito que nunca mais voltaria.
Quando retornei para minha casa, quase na hora do almoço, encontrei o moleque do seu pai sentado na minha cozinha.
Cerca de trinta dias depois, um negro achou os restos da roupa do coronel rasgados e sujos de sangue junto ao riacho, assim como o relógio de bolso dele e outras coisas.
Aí o Dr. Sérgio falou que foi uma onça que o atacara.
É essa a história, meu filho.
É por isso que o Dr. Sérgio tem raiva de seu pai!
- Depois de tudo o que vocês me contaram, creio que vai ser bem difícil o Dr. Sérgio aceitar Maria Tereza!
- Estive pensando nisso esta noite...
E se eu procurasse o Dr. Sérgio e exigisse dele que aceitasse o casamento dos dois, sob pena de tornar público os factos que presenciei quando criança?
- Não acho uma boa ideia, meu pai!
Seria como reabrir as feridas.
- Mas, meu filho, se ainda existe ódio por parte dele, é sinal que elas ainda não cicatrizaram.
E só existe por parte dele, pois nunca lhe desejei mal.
- Olhe, meu pai, acho que já ouvi muito por hoje.
Se fui o avô do Dr. Sérgio, ainda devo ter alguma influência sobre ele.
Acho melhor eu procurá-lo em seu nome, meu pai!
- Os filhos dão licença, mas este velho aqui acha que o menino tem razão, pois o coronel ainda está por aí e pode ser que ele dê ouvidos ao pai - disse Amaro.
- Acho que por hoje chega desse assunto - falou Altamiro.
É melhor pensarmos com calma antes de tomarmos uma decisão.
Amanhã pela manhã voltaremos a nos falar.
Está bem assim?
- Está, sim, compadre - falou Sebastiana.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:03 pm

É melhor a gente aproveitar e rezar para Deus Nosso Senhor e para os anjos bons que estão aqui ouvindo nossa conversa.
Fechem os olhos que vou fazer uma oração.
Após a prece de Sebastiana, Juarez e Altamiro se despediram.
Ao abraçar Altamiro, Sebastiana cochichou no seu ouvido:
- Você fez bem em não contar tudo, meu filho.
Tem coisa que é melhor nós escondermos.
Às vezes não é preciso falar.
- É, sim, dona Sebastiana, pelo menos até que a vida determine o contrário.
Nós nos retiramos também para buscar, por meio da prece, novas instruções de nossos superiores.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:03 pm

Espiritismo

Enquanto seguiam para o campo, Juarez e Altamiro dialogavam:
- Meu pai, como eu já decidi:
vou ficar por aqui!
Espero que o senhor e mamãe me aceitem de volta!
- Aquela sempre foi e será sua casa, meu filho.
Isso só nos traz alegria.
- Hoje à noite, meu pai, nós vamos nos reunir com mamãe e instituir o estudo do Evangelho no Lar.
Essa é uma prática comum nos lares em que a Doutrina Espírita é o sustentáculo, cooperando por meio do estudo das palavras de Jesus para a paz e a harmonia.
- Desde que você tenha paciência comigo e com sua mãe, participaremos com muito prazer.
Enquanto falava, Juarez dava mostras de sua perfeita sintonia com Firmino, que lhe sugeria as palavras.
- Meu pai, não existe idade para nos voltarmos para os ensinamentos de Jesus!
Suas palavras vêm sendo estudadas e vividas há dois mil anos por jovens e adultos de culturas diversas.
Ele fornece para todos os seus ensinos o lenitivo e a orientação para a paz e o progresso do espírito!
Hoje vamos buscar minha bagagem. Eu trouxe alguns livros que muito ajudarão você e mamãe a entenderem melhor essa doutrina maravilhosa.
Prosseguiam os dois absortos em sua conversa quando ao longe divisei um amigo que se aproximava.
Permaneci à espera, enquanto Firmino prosseguia junto de Juarez e Altamiro!
Surpreso, identifiquei o amigo e irmão com quem estou ligado pelos laços do passado, pelo sentimento único que une todos aqueles que buscam seguir a Jesus.
”bom dia, meu querido Xisto!”, falou-me Filipe, envolvendo-me em um afectuoso abraço!
”Estou feliz em revê-lo, meu irmão.
Que bons motivos o trazem até nós?”
”Trago-lhe algumas instruções do nosso querido Argemiro, conforme sua solicitação, e o meu apoio como cooperador ao seu lado.”
”Fico feliz em tê-lo connosco Filipe.
Que Deus nos ampare!”
”Xisto, meu irmão, conforme Argemiro disse-me, a presença de Calixto e seus comandados vai dispersar o bando de Leocádio.
Assim, nosso irmão, o coronel Getúlio, ficará sozinho.
As instruções que trago são para não insistir no afastamento de Getúlio, pois tal procedimento culminará com o desencarne prematuro de Sérgio.
Não há como exigir, no momento, que um caminhe sem o outro.
Procure, meu irmão, daqui para frente, dialogar com eles enquanto prossegue em sua tarefa de ajudar Firmino em seus afazeres.
Por ora, são essas as instruções que trago, e aproveito para renovar meus propósitos em servir, colocando-me à sua disposição.”
”Deus lhe pague, meu amigo.
Prosseguiremos então conforme nos determina o Mais Alto.”
”Firmino conseguiu convencer Juarez a instituir o estudo do Evangelho no lar de Altamiro a partir dessa noite.
Eu me comprometo a estar presente nesse primeiro encontro.
Na impossibilidade, pedirei a Tobias que me represente.
Que Deus o proteja, Xisto.
Outros afazeres determinam meu retorno!”
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:04 pm

Filipe abraçou-me carinhosamente e se afastou, quando então aproveitei para fazer uma prece de agradecimento a Deus.
Parti em direcção à fazenda e parei para observar Getúlio e Sérgio que passavam!
Nosso irmão Sérgio, com as pernas entrelaçadas na cintura do coronel, estava agarrado em seu ombro.
A estranha figura, vista ao longe por quem não os conhecia, dava a nítida ideia de duas cabeças e troncos unidos da cintura para baixo, tal a naturalidade e desenvoltura com que se movimentavam.
Lembrei-me então das palavras de Filipe e reconheci que realmente uma separação acarretaria sérios transtornos para ambos.
Prossegui em direcção à fazenda.
Lá chegando encontrei José Augusto e Maria Tereza se preparando para sair:
- Você tem certeza, José Augusto, de que ele ainda está dormindo?
- Absoluta, minha querida.
Além disso, deixei recado com o empregado que fica na sua porta e um bilhete informando que passaremos o dia fora.
Disse que iremos até à cidade e só retornaremos à noitinha.
- Não é essa a nossa intenção, José Augusto.
Vamos apenas dar um passeio e fazer uma visita a dona Sebastiana!
- Eu sei, Maria Tereza.
Mas é melhor que ele nos aguarde só para a noite, mesmo que não seja essa a nossa intenção!
Depois de reforçarem as instruções ao empregado, José Augusto e Maria Tereza, fazendo uso de uma confortável charrete, seguiram em direcção à casa de Sebastiana.
Resolvi, então acompanhá-los.
No caminho, cruzamos com o coronel e Sérgio, que ficaram a observá-los.
Getúlio comentou:
”Sérgio, esse seu filho vai lhe dar muito trabalho.
Ele não dá nenhum valor para estas terras!”
”E melhor assim, meu pai.
Menos um para dividirmos.”
”Nisso você tem razão.
A divisão é sempre dolorosa, e dividir em duas partes é melhor do que em três!”
”Aonde será que eles estão indo, meu pai?”
”Não faço a menor ideia, mas aquele é o caminho da casa da velha macumbeira.
Isso é que eu não entendo:
uma velha que não serve para nada ainda viva na Terra e eu, cheio de vida, com tantas responsabilidades, sem meu corpo!
Mas não se preocupe!
Não o estou responsabilizando!
Já havia levado tombos piores do que o daquele dia em que brigamos e não sofri nada.
E naquele tombinho tinha de quebrar o pescoço!
Acho, Sérgio, que existem muitas mentes contra nós dois.
Veja você também:
bastou um empurrãozinho para que caísse do cavalo e ficasse paralítico!
Não sei, não!
Mas parece que alguém se aproveitou de nossas atitudes para complicar as coisas.”
”Olhe, meu pai, estas terras despertam muita inveja e cobiça, e têm muitas pessoas desejando apoderar-se delas!
O que me preocupa mesmo é o amanhã, pois meu corpo já está em frangalhos.
E, se eu morrer como o senhor, como cuidaremos da fazenda?”
”Nem me fale, Sérgio!
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:04 pm

Esse é um problema para o qual ainda não encontrei solução!
Mas vamos deixar de conversa.
Ainda temos muita cerca para conferir!”
Partiram os dois rumo aos seus objectivos.
Aproveitei para sugerir mentalmente ao irmão Firmino que não se preocupasse com minha ausência.
Prossegui em direcção à casa de Sebastiana.
José Augusto e Maria Tereza já haviam chegado e estavam a conversar alegremente:
- Minha velha hoje está contente.
Nunca recebemos tanta visita num dia só!
Imaginem os filhos que ainda a pouco saíram daqui o compadre Altamiro e seu filho, que é o Sr. Januário e que responde hoje pelo nome de Juarez.
- É uma pena não os termos encontrado, Sr. Amaro.
Eles vieram passear?
- Não, minha filha - falou Sebastiana.
Eles vieram prosear sobre o problema de vocês e também buscar o doce de figo em calda para dona Cenira!
- A senhora me desculpe, dona Sebastiana.
Eu acabei esquecendo-me de levar ontem!
- Não tem problema, minha filha.
Fique com aquele para vocês.
Seu pai e seu irmão também esqueceram de levar o doce.
Largaram a vasilha aqui em cima da mesa!
- Vamos fazer o seguinte? - falou José Augusto.
Vamos nós quatro lá na casa deles levar o doce.
Estou com a charrete grande hoje.
Ela comporta quatro pessoas confortavelmente!
— Vamos fazer diferente, meu filho!
Vocês almoçam comigo e nós quatro tomamos o café da tarde na casa de dona Cenira e do compadre Altamiro.
Não precisa ficar preocupado com o meu velho.
Ele hoje tirou o dia de folga por causa da cama, que não deixou ele se levantar.
Enquanto a conversa alegre prosseguia na casa de Amaro e de Sebastiana, notei que dois senhores trajados de forma simples me observavam a distância, como se aguardassem permissão para se aproximar.
Caminhei em direcção a eles e um deles dirigiu-se a mim, falando:
”bom dia, irmão Xisto.
Cuidamos de uma gleba de terra nas proximidades e fomos instruídos para nos apresentar ao senhor com a finalidade de preparar o ambiente para as orações de logo mais!”
”Agradeço aos amigos e aceito feliz a ajuda!
Nós nos reuniremos na casa de Altamiro, onde se realizará o estudo do Evangelho no Lar.”
”Sabemos onde fica, meu irmão, e lá estaremos a partir das três horas da tarde para executarmos nossas tarefas.
Que o irmão tenha um bom-dia!
Estaremos à sua disposição a qualquer hora!”
”Tenham também um bom-dia, meus irmãos.
Que Jesus os proteja!”
Assim que eles se retiraram, coloquei-me a pensar na grandeza de Deus, que fornece todos os recursos de que precisamos para nossa caminhada, e muitas vezes menosprezamos os valores de que somos depositários!
Rapidamente, o propósito de Juarez em promover o estudo do Evangelho no Lar naquela noite havia se propagado, e do Mais Alto reforços já haviam sido enviados.
Retornando ao convívio de Sebastiana e dos demais, pensei:
”Providenciarei para que estes quatro também participem do banquete de logo mais”.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:04 pm

Preparativos

Ficou então decidido que José Augusto e Maria Tereza ficariam para o almoço e que à tarde os quatro fariam uma visita a Altamiro e Cenira.
Aproveitei o momento de paz e me retirei para cuidar de outros afazeres.
Alguns minutos antes das três horas da tarde, cheguei à casa de Altamiro.
Firmino, visivelmente entusiasmado, foi receber-me:
”Seja bem-vindo, Xisto.
Chegou cedo para a reunião de hoje!”
”Pelo visto os acontecimentos são promissores!”
”Sim, meu irmão.
Como já sabe, iniciaremos hoje nossa reunião, cuja semente, temos certeza, produzirá frutos de amor e esperança em muitos corações!”
”Assim também creio, meu irmão!
Todo lar em que a prática da prece ocupa seu lugar invariavelmente atrai mentes voltadas para o bem e o amor.
Os primeiros sinais de reconhecimento do Mais Alto já se fazem notar, Firmino.
Fui procurado por Filipe com algumas instruções de nosso querido Argemiro.
Ele prometeu estar presente na primeira reunião pessoalmente ou de forma representativa, quando em seu nome Tobias aqui estará.
Dois companheiros, guardiões da natureza, também me procuraram e se comprometeram a aqui estar por volta das três horas da tarde, quando então farão a preparação do ambiente em redor, eliminando miasmas e criando barreiras fluídicas de protecção ao lar.
Como pode ver, Firmino, basta um passo em direcção à luz para que nos sejam fornecidos todos os recursos de que precisamos para prosseguir.
Mas para tanto é preciso que façamos a nossa parte, dando os primeiros passos!”
”Fico-lhe grato pelas notícias, meu amigo!
E feliz em saber que obtivemos a aprovação do Mais Alto em nossos propósitos!
Estamos aguardando Altamiro e Juarez retornarem da lida para estabelecermos o horário dos trabalhos.”
”Esqueci de lhe dizer, meu amigo: pode aguardar a presença de Sebastiana, Amaro, José Augusto e Maria Tereza, que não tardam a chegar!”
Firmino, a meus olhos, parecia uma criança no dia de seu aniversário ansioso pelo momento das festividades.
Às três horas da tarde em ponto os dois companheiros encarregados da preparação do ambiente chegaram à casa de Altamiro.
Comuniquei a Firmino a presença dos dois e nos dirigimos ao encontro deles, que não haviam ultrapassado os limites físicos estabelecidos por uma cerca de arame.
”Boa tarde, meus irmãos”, falei.
”Sejam bem-vindos em nome de Jesus!”
”Boa tarde, irmão Xisto.
O mesmo para você, irmão Firmino.
Ficamos gratos pela oportunidade do trabalho e aqui estamos dispostos a executá-lo! - disse um deles.”
”Pois não, meus irmãos”, continuei a falar.
”Irmão Firmino é o responsável espiritual pela residência e, tenho certeza, está feliz pela presença amiga de novos colaboradores!
Os amigos poderiam nos dizer o nome de vocês, para que nos tornemos mais íntimos nesse trabalho de esperança e amor em nome de Jesus?”
”O irmão Xisto nos perdoe, mas, em consequência dos nossos erros no passado e por orientação de nossos superiores, é imperativo abolirmos nosso nome convencional, que poderia facilmente nos identificar em situações de erro que ainda lutamos para reparar.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:04 pm

Nós substituímos nosso nome por elementos da natureza.
Assim, pode chamar-me de Jatobá e meu amigo de Aroeira:
dois servos de Jesus a seu serviço.”
”Temos certeza, meus irmãos, de que nos entenderemos bem nas tarefas.
Estamos aguardando a chegada de Altamiro e de seu filho Juarez para determinarmos o horário de início da nossa reunião.
E, a julgar pela movimentação, os dois se aproximam.”
”Pedimos então licença aos amigos para prosseguirmos em nossos deveres e obrigações”, falou Jatobá.
Eles só ultrapassaram os limites estabelecidos pela cerca quando Firmino disse-lhes que ficassem à vontade, permitindo-lhes também acesso ao interior da casa.
Realmente eram Juarez e Altamiro que se aproximavam, a conversar:
- Pai, como vamos explicar para mamãe que fomos à casa de dona Sebastiana para buscar seu doce e o esquecemos?
- Não se preocupe, meu filho.
Falaremos a verdade.
Afinal, nós o esquecemos mesmo!
Está aí um motivo justo para voltarmos lá amanhã.
- Então vou deixar isso por conta do senhor.
Marido e mulher se entendem melhor!
A alegria de Cenira em tê-los mais cedo em casa a impediu de ficar chateada com o esquecimento deles, mesmo porque, antes que pudesse esboçar uma reacção, ela pôde avistar ao longe, esquivando-se dos buracos da estrada, a charrete de José Augusto com quatro passageiros, o que a deixou com o coração a bater mais apressado.
- Veja só, Altamiro!
É Maria Tereza e dona Sebastiana!
- Boa tarde, comadre Cenira!
Estamos de volta.
- Seja bem-vinda, dona Sebastiana, ainda mais que trouxe minha filha.
Seja bem-vinda mesmo!
Enquanto se cumprimentavam, Maria Tereza comunicou à mãe que tinham estabelecido visitá-la à tarde, após o almoço na casa de Sebastiana, e que pretendiam se reunir para um lanche e para matar a saudade.
Sebastiana então falou:
- Olhe, comadre, os homens estiveram lá em casa, pegaram uma prosa e esqueceram a vasilha de doce de figo em calda em cima da mesa.
Agora nós a trouxemos.
Já a entregou para ela, minha filha?
- Não, madrinha.
A vasilha ficou com o Sr. Amaro.
Enquanto conversavam, comentei com Firmino:
”Temos que estabelecer com Juarez um horário para o início do estudo do Evangelho no Lar, a fim de convencermos os recém-chegados a participar.”
”Sim, Xisto. Faremos isso!”
Firmino se aproximou de Juarez e o envolveu num abraço fraterno.
Em seguida, Juarez comentou:
- Hoje vamos iniciar o nosso estudo do Evangelho no Lar.
Faremos o estudo das palavras de Jesus à luz da Doutrina Espírita.
Porque vocês não participam?
Tenho certeza de que papai e mamãe ficarão felizes com a presença de todos!
- Não podemos, Juarez - comentou José Augusto.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:05 pm

- Como retornar à noite por esta estrada cheia de buracos?
Mesmo porque nosso compromisso com a dona Sebastiana e o Sr. Amaro foi de uma visita rápida.
- Isso nos deixaria felizes mesmo, José Augusto falou Altamiro.
E mais ainda se pudéssemos contar com a presença de dona Sebastiana e do Sr. Amaro!
Sebastiana, depois de cochichar no ouvido do marido, comentou:
- Nós ficamos, sim, compadre.
Mas queremos primeiramente saber a hora que começa e a hora que acaba!
Juarez conferiu o horário no relógio do pai e falou:
- O horário que for estabelecido terá de ser cumprido, pois amigos espirituais estarão presentes e, como nós, eles têm seus compromissos.
O que acha o senhor, meu pai, de marcarmos o início para cinco horas da tarde, com horário de encerramento previsto para às seis horas?
- Não vejo inconveniente, meu filho.
Creio ser um bom horário para todos.
Os amigos não acham?
- Achamos sim, compadre — respondeu Amaro.
Desse jeito nós ficamos!
Cenira, satisfeita, abraçou a filha e falou:
- Então vamos para a cozinha, vou preparar um café para nós.
- Eu trouxe aqui uma broa com queijo, comadre, para inteirar o café!
- Não precisava se incomodar, comadre.
Vocês são de casa!
- Precisava sim, comadre.
Trouxe também o doce de figo em calda.
Minha gamela está cheia!
Oh, meu velho, pegue a vasilha de doce de dona Cenira!
- Ih, minha velha, não tem jeito, não!
Eu a esqueci na beirada da janela quando folguei as mãos para fechar a porta!
- Mas do chapéu você lembrou, não é velho?
Do fumo e do cachimbo também!
Cenira, percebendo a situação constrangedora de Sebastiana, falou:
- Não preocupe, não, comadre.
Eu mesma vou lá na sua casa buscar.
Assim aproveito para lhe fazer uma visita.
Enquanto a conversa prosseguia, afastamo-nos e, aproveitando a sombra de algumas árvores, pusemo-nos a pensar em como agir com Getúlio e Sérgio.
De noite, tentaríamos conduzir Altamiro e Juarez, libertos do corpo físico, até os aposentos de Sérgio, para buscar uma aproximação.
Estávamos assim a pensar quando ouvimos a voz amiga do nosso irmão Filipe:
”Não tema, meu irmão!
Jesus em sua sabedoria saberá prover-nos do necessário para essa tarefa!
Alguns companheiros, que tomei a liberdade de convidar, estarão presentes logo mais ao nosso lado para o estudo do Evangelho no Lar, e eles certamente nos auxiliarão nesse intento!”
”Graças a Deus, Filipe.
Ficamos felizes em vê-lo.
Venha! Vou apresentar-lhe os envolvidos, bem como os anfitriões que nos receberão para o estudo de hoje.”
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:05 pm

O Evangelho no Lar

Filipe me acompanhou até o interior da residência, onde lhe apresentei os irmãos presentes.
”Pelas informações que obtive, Xisto, ainda falta uma irmã”, falou Filipe.
”Sim, meu irmão.
Trata-se de Carmem, a irmã gémea de José Augusto, que vive em outra localidade!”
”Como nos falta ainda algum tempo antes do início dos trabalhos, sugiro que façamos uma visita à residência de Sérgio para melhor avaliarmos nossos procedimentos desta noite, quando levaremos Altamiro e Juarez até ele!”
”Isso confirma sua presença logo mais ao nosso lado Filipe?”
”Sim, meu irmão, com a permissão de Jesus!
Sugiro ainda que Firmino aqui permaneça ultimando os preparativos enquanto nos ausentamos.”
Nós nos afastamos em direcção à fazenda.
Logo na chegada, encontramos três integrantes do grupo de Leocádio conversando:
”Já estou a serviço do coronel há cinco anos e nunca presenciei uma situação tão confusa como a que estamos vivendo.
A presença dos soldados é um desrespeito aos nossos direitos e não temos permissão para enfrentá-los!
O velho coronel está perdendo a fibra, e isso me deixa temeroso quanto ao nosso futuro, pois, quando uma estrutura como essa começa a sentir os efeitos da pressão externa, que altera seus procedimentos, é sinal de que está prestes a ruir.
Já passei por isso antes e sei o que estou dizendo.”
Enquanto falava, o irmão estimulava o desânimo para a luta nos que o ouviam.
Como nosso tempo era restrito, Filipe sugeriu que prosseguíssemos.
Passamos por mais dois irmãos, que estavam posicionados na varanda da casa.
Filipe falou:
”Na intimidade do lar não existem colaboradores?”
”Não, Filipe.
A acção deles está restrita à área externa da moradia, por determinação do próprio coronel Getúlio!”
”Isso em muito facilitará nossos trabalhos desta noite!”
Conduzi nosso irmão até os aposentos de Sérgio, onde o encontramos às voltas com algumas contas e anotações.
O coronel Getúlio, abraçado a ele, dava suas sugestões!
Filipe, após observá-los por algum tempo, comentou:
”Aí está um caso de perfeita simbiose, que une corações, sentimentos e propósitos comuns.
Não há como separá-los no momento sem causar-lhes sequelas graves no perispírito, mesmo porque seriam atraídos um para o outro, como o metal o é pelo imã!
Esse é um processo que demanda tempo e dedicação, com esclarecimento e reforma íntima por parte dos envolvidos.”
”Mas, Filipe, como explicar o facto de a atracção que um exerce pelo outro os ter unido tão profundamente em tão pouco tempo?”
”Xisto, amor e ódio não são aquisições de momento, mas construções alimentadas por séculos, e os dois irmãos aqui presentes se expuseram tanto à sua influência que se tornaram parte dela.
Isso confirma os princípios exercidos pela atracção que nos une quando vibramos na mesma faixa de sentimentos.
Lembremo-nos do seguinte:
onde se situa o coração, ali está presente o nosso paraíso!
Cada um de nós, ocupando o degrau que nos é próprio na escala, sofre as consequências do meio em que vibra.
A comunhão de sentimentos e vibrações destes irmãos no hoje determinará no amanhã encarnações em que eles estarão juntos, unidos pelos sagrados laços que nos ensinam que:
’Onde está o tesouro, ali está o coração’.
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Re: Do Amor Nasce o Perdão - Xisto / Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 11, 2016 8:05 pm

Não devemos nos esquecer ainda de que o hoje é o amanhã de nosso ontem.
Portanto, os sentimentos que unem esses irmãos vêm ganhando força e vida através do tempo.”
Calei-me ante as explicações de Filipe, que, vendo-me ausente, perdido em pensamentos, falou:
”Xisto, meu irmão, a todos nós é permitido chorar.
Mas não devemos permitir que as lágrimas dificultem a visão do caminho que temos de percorrer!”
Compreendi rapidamente as palavras de Filipe, pois já estava a procurar nos refolhos de meu passado aqueles a quem eu estivera unido por ideais e sentimentos comuns.
Filipe, então, continuou a alertar-me:
”Façamos uma prece, Xisto.
Solicitemos ao Mais Alto que nos ajude nas tarefas desta noite.
E, como teremos estes aposentos como palco, comecemos a prepará-lo!”
Uni meu coração e sentimentos na prece proferida por Filipe.
Quando terminamos, pude notar que alguns pontos luminosos se destacavam, pairando no ar, em contraste com a luz nublada ou opaca que reinava naquele ambiente e que, até então, passara despercebida aos meus olhos, embora outras vezes tivesse sentido a atmosfera asfixiante daquela alcova.
Notamos que, quando um desses pontos luminosos atingiu nosso irmão Getúlio, ele mostrou-se inquieto, demonstrando intolerância à luz.
Sérgio também sentia os reflexos da prece e respirava com dificuldade.
Filipe então falou:
”Xisto, nossos irmãos têm dificuldade em se aclimatar às novas vibrações em decorrência dos sentimentos que alimentam.
Faremos nossa parte nos trabalhos de hoje, mas não devemos esperar muitos resultados, pois Altamiro e Juarez têm pouca importância para eles, embora Getúlio e Sérgio ainda guardem algum ressentimento em relação aos dois.
Mas os sentimentos maiores que eles nutrem no momento são a cobiça e a ambição, e não o ódio!
Partamos, Xisto.
Voltemos à casa de Altamiro.”
Faltavam poucos minutos para às cinco horas da tarde quando cruzamos o portal de entrada da casa de Altamiro.
Encontramos todos na sala, onde Juarez tinha determinado que fosse realizado o estudo do Evangelho no Lar.
”Filipe, meu irmão, de maneira clara podemos notar a diferença nas vibrações do ambiente que agora nos encontramos em relação àquele de onde viemos!”
”Sim, Xisto, mas observemos que os princípios que as estabelecem são também sentimentos direccionados pelo tesouro que afecta o coração!”
Antes de eu poder dizer alguma coisa, tivemos a atenção voltada para a movimentação na parte externa da casa.
Firmino, que foi verificar o que acontecia, retornou acompanhado pelos irmãos Aroeira e Jatobá, que tinham terminado suas obrigações e solicitavam permissão para assistir aos trabalhos.
Por meio da sugestão de Firmino, Juarez formou sua mesa de estudos e pontualmente às cinco horas da tarde proferiu a prece inicial da primeira reunião prática do grupo espírita que se formaria mais tarde.
Acompanhamos os trabalhos, que, sob o comando de Firmino, prosseguiram com o estudo das seguintes palavras de Jesus:
”Muitos os chamados e poucos os escolhidos”.
Foram sessenta minutos de estudo, em que a perspectiva de respostas às dúvidas dos presentes aguçava-lhes a curiosidade, incentivando a participação.
A fluência nas respostas de Juarez sob a influência de Firmino a todos satisfazia, até a Sebastiana e Amaro, que nunca haviam participado de uma reunião como aquela, mas cuja experiência de vida, adquirida nas inúmeras décadas da actual existência, lhes proporcionava um melhor entendimento das palavras carinhosas de Juarez.
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