Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:06 pm

EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO
Wera Ivanovna Krijanovskaia

Romance de Roma Imperial ditado pelo Espírito de J. W. ROCHESTER

DUAS PALAVRAS DO TRADUTOR

As obras mediúnicas ditadas pelo Espírito do Conde de ROCHESTER, apesar de quase centenárias, continuam a despertar grande interesse, mesmo porque, com a evolução da mente, o homem se volta, na actualidade, aos postulados da Doutrina Espírita, o Consolador prometido por Jesus no Evangelho.
Já não mais o satisfazem dogmas e rituais impostos pelas igrejas e sacerdócios organizados, ante uma Doutrina de Evolução e Aperfeiçoamento.
Qualquer afirmativa de Bem-aventurança graciosa ou negociada, assim como ameaças de condenação eterna e sofrimento eterno, destrói-se por si mesma.
Graças aos ensinamentos trazidos pelos Espíritos prepostos do Cristo de Deus e coordenados por Allan Kardec, o homem conhece hoje o porquê da sua condição actual, como consequência do passado e que alicerça o futuro.
As Leis de Causa e Efeito e a de Reencarnação ou vidas iterativas estruturam a evolução do Espírito, oferecendo-lhe oportunidade de resgate e expiação, de novas experiências na crosta terrena, depurando-se enriquecendo-se de conhecimentos e amor, as duas asas do aperfeiçoamento espiritual sem término no tempo e no espaço.
A colecção dos escritos de ROCHESTER oferece documentação prática dessas leis através da revelação de vidas sucessivas de personagens ligados àquele espírito desde a mais remota Antiguidade, (tendo sido, ele próprio, o Faraó Mernephtah, que enfrentou Moisés) facilitando as verificações pela história profana no que lhe diz respeito.
Entre as conhecidas, podemos citar:
O CHANCELER DE FERRO, do antigo Egipto; A RAINHA HATAS-SO, O FARAÓ MERNEPHTAH, HERCULANUM, IN HOC SIGNO VINCIS, A ABADIA DOS BENEDITINOS, A VINGANÇA DO JUDEU e EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO, ora oferecido ao público ledor.
Analisando as diferentes actuações, em sucessivas reencarnações de Espíritos ali figurantes verifica-se o maior ou menor progresso realizado pelos mesmos, em séculos de lutas e expiações, comprovando, assim, a Lei de Evolução. Igualmente, habilita explicar o motivo, para muitos misterioso, das ojerizas, prevenções e antipatias gratuitas entre certas pessoas, bem como a simpatia e afinidade demonstradas por outras.
Contactos, convivências ou relações mantidos outrora em existências pretéritas, surgem como impulsos na conformidade da natureza desse mesmo passado.
Sem o propósito de doutrinar ou induzir o irmão que caminha a nosso lado a pensar ou sentir connosco no quadro de nossas crenças, contudo, sentimo-nos felizes, com ROCHESTER, em oferecer-lhe os meios de libertação mental que, por misericórdia de acréscimo, chega para todos à hora aprazada, pois, as lições práticas contidas nos seus ditados, em forma sugestiva de romance ou de depoimentos pessoais, constituem excelente vereda aberta à compreensão dos problemas da vida e do destino do Ser.

Rio, fevereiro de 1960.
B. BICUDO.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:07 pm

DEPOIMENTO PESSOAL

Ditei a Rochester o que segue, pedindo-lhe transmitir ao espírito que ele conhecia e com o qual me encontro, em sucessivas reencarnações.
É com o maior desprazer que vou falar de uma existência que me retracta numa época bem torpe, mas dedico este episódio de minha vida ao espírito de Lélia, embora saiba que mais de uma pessoa lerá com interesse esta exposição feita pela boca do verdadeiro Tibério, e não do personagem descrito pelos historiadores.
Meu reinado, minha vida e a dos meus contemporâneos pertencem à história; mas, os que a escreveram tanto acrescentaram, desnaturaram e rectificaram os factos, sob a impressão do momento, que, da maior parte dos homens desse tempo, nada mais ficou de verdadeiro, além dos respectivos nomes.
Envergonho-me do passado, agora que séculos e vidas expiatórias me hão moderado e tudo transformado em mim; a simples lembrança de minha malícia e crueldade faz-me tremer.
No episódio que vou contar, abusei do meu poder saciando covardemente essa crueldade numa indefesa mulher, que, por contingência de guerra, caiu nas minhas mãos.
Queria-lhe o amor, mas nunca pude obter o que buscava, desde séculos, com toda a tenaz obstinação do meu carácter.
Contava sempre que a minha maldade lhe vencesse a resistência, que a crueldade a subjugasse; todos os meus esforços foram vãos e, contudo, jamais a poupei, sempre a espreitei no seu aspecto extenuado, se as suas forças e o seu orgulho se tinham esgotado, entretanto, por mais infeliz ou desgraçada que ela fosse, não cedia e me conturbava sem cessar:
“Mata-me, tu não o podes fazer duas vezes!”
Essa resistência me enraivecia a tal ponto que era capaz de matá-la; contudo, jamais deixou de preferir a morte.
Assim continuava o combate através dos séculos, não para a posse do corpo, que o poder me conferia, mas para a posse da alma, que nada podia conquistar.
Era ainda herdeiro da coroa, ao tempo em que se desenrola este episódio de minha vida — vida sinistra em que morri como tinha vivido.
Guerreava então os germânicos, mas a campanha já havia terminado.
Vitorioso, retirei-me para um campo entrincheirado, a fim de aguardar a chegada de algumas legiões ainda retidas pelo inimigo.
O acampamento era campo de diversões.
Bebedeiras, devassidão com as prisioneiras, constituíam agradável passatempo.
Por mim, dava festas na minha barraca, armada no meio do campo e decorada com o luxo fabuloso da época; tudo o que havia de mais precioso tinha sido prodigalizado para ornar a habitação do herdeiro do trono.
Contando então cerca de quarenta anos, sentia-me insaciável de prazer.
Uma tarde, reuni os comandantes das legiões, tribunos e outros comandantes de unidades; junto a mim se encontravam, de um lado a minha bela favorita Febé, e de outro Sejano, homem da minha confiança.
Os guardas pretorianos, imóveis como estátuas de bronze, guardavam o interior e o exterior da tenda.
Em dado momento, vieram dizer-me que uma das legiões retardatárias acabava de chegar trazendo grande número de prisioneiros.
— Muitas mulheres? — perguntei a Sejano.
Sejano pôs-se a rir, dizendo:
— Já não tendes tantas?
Nem sabemos que fazer das que aqui se encontram e será preciso enforcá-las ou queimá-las, porque não é possível alimentá-las todas e encaudá-las ao exército.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:07 pm

Entretanto, o centurião me respondeu que traziam apenas três, pois as demais haviam perecido na viagem, por fadiga ou às mãos da soldadesca.
Dessas três, duas eram velhas e agonizavam; a terceira, era jovem e noiva de um chefe germânico chamado Hilderico.
E acrescentou que essa prisioneira era uma verdadeira diabinha, que dera muito trabalho para deixar-se conduzir; que também combatera, mas vendo a derrota dos seus, cedera o cavalo ao noivo e este havia fugido, caindo ela prisioneira; que durante o trajecto, várias vezes, tentara suicidar-se e que somente por ser jovem e bela, haviam-na trazido para que eu decidisse da sua morte.
— Muito bem! — respondi — veremos e, se não me agradar, Sejano poderá tomá-la; tragam-na aqui.
Instantes após, abria-se o reposteiro da barraca e entraram escravos conduzindo nos braços uma mulher, que depuseram de pé, à minha frente.
Fitei-a e meus olhos ficaram cravados nela, como que fascinados.
Sem dúvida, o passado estava esquecido, o homem Tibério nada recordava; mas a alma acabava de reconhecer o seu fatal antagonista de muitas etapas terrenas.
A jovem que aí estava diante de mim não retraçava uma beleza clássica, nem possuía, ao demais, o puro tipo germânico; antes parecia inculcar um misto de raças; muito delgada, porte médio, rosto pequeno e redondo, modelado por traços delicadíssimos, grandes olhos azul-escuros e um brilho metálico, de expressão algo tigrina, a revelarem muita teimosia e ódio feroz à minha pessoa.
Não baixou a cabeça como faziam os demais prisioneiros, em cujos semblantes se poderia ver, claramente, temor e desespero; ao invés, mostrava-se altaneira e olhava-me, cheia de ódio e audácia.
Fiquei tão surpreso quanto interessado.
Com que contava ela?
Não saberia diante de quem se encontrava?
Trazia um vestido branco de lã, sujo pela viagem, uma capa azul pendente dos ombros, pulsos algemados.
Percebi, desde logo, que estava extremamente fatigada, pois palidez mortal lhe cobria o belo rosto, e, não obstante, se mantinha de pé em atitude insolente, como se nada temesse.
Isso me revoltava.
— Sabes diante de quem te encontras? — perguntei-lhe.
Por que de joelhos não pedes graça como os demais prisioneiros?
Ela demonstrou imediatamente que não tinha a língua algemada como os pulsos:
— Não suplico graça senão aos deuses e não a um tirano como tu; mata-me; não poderás fazer-me maior mal, pois tudo perdi e não me interessa viver. (1)
Jamais havia encontrado mulher tão atrevida, que falasse como quem comandava.
— Cala-te! — exclamei — ninguém te pediu opinião e farás o que te for ordenado.
Desdenhoso sorriso se esboçou nos lábios da prisioneira:
— Ordena e verás se te obedeço; podes fazer tudo; bater-me, torturar-me, matar-me, jamais te obedecerei.
Eu estava interessado no mais alto grau; aquela frágil criatura, que mal se sustinha nas pernas vacilantes, falava com tom gigante; notei, também, que seu rosto era fascinante e que a obstinação feroz condizia admiravelmente com os seus traços infantis.
— Sou Tibério,— disse-lhe — meu nome deve ser conhecido e temido por ti e pelos teus.
Eu te ensinarei não somente a obedecer-me, mas também a amar-me, pois te reservo para mim.
Voltando-me para Sejano, que aguardava ansioso a decisão:
— Não te suponhas com força para domar este pequeno tigre; eu próprio o farei; e tu, Febé, não ouses invejá-la; conheço-te e advirto:
se fizeres cair um só cabelo da cabeça desta jovem, mandarei decapitar-te; dou-te minha palavra e tu sabes que a cumpro.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:07 pm

Não concederei a ninguém a glória de dominá-la; eu mesmo o farei, e para isso, atentai todos vós a quem a confio, para que não lhe aconteça o menor mal ou venha a fugir, sob pena de terdes a cabeça decepada.
Agora, Febé, toma conta da prisioneira, a fim de que se alimente e cuide da sua higiene, porque mal se aguenta.
Quanto a ti, jovem, é preciso que me ames e convém que não recalcitres.
Como te chamas?
Em lugar de responder, virou o rosto, muda.
— Como te chamas? — repeti.
Nada...
— Como te chamas? — bradei furioso.
— Para ti não tenho nome, compreendes?
Deixei, lá atrás, tudo:
nome, pátria, pais, noivo, amor; aqui sou objecto sem nome, e aquilo que todos que me são caros pronunciaram, tu não o saberás.
— Oh! — exclamei — mandarei espancar-te até a morte, se não me responderes.
— Por que falas tanto em lugar de executar? - exclamou a diabinha, cujo faro feminino tinha percebido já, até que ponto sensível me havia tocado.
Piquei petrificado, pois mulher alguma ousara ainda dizer-me tais coisas.
— Acreditas que teus berros me amedrontam?
Podes matar-me.
Se me espancares, morrerei mais depressa e eis tudo, porque minhas forças me abandonam; com o meu cadáver farás o que te aprouver, mesmo uma iguaria com que te repastes.
Levantei-me e bati o pé.
— Como ousas responder dessa forma, insensata, a mim, futuro imperador?
Esmagar-te-ei com o meu poder, louca!
Ela não baixou a cabeça, antes me fitou com insolência:
— Faço ideia muito relativa do teu poder, que não me impressiona:
mostra-mo, então, porque apenas vejo que te enraiveces muito.
Ordenei aos guardas que a pusessem perto de mim.
E dirigindo-me a ela, disse-lhe:
— Aproxima-te e segura a minha taça.
Obedeceu, recebeu a taça que um escravo acabava de encher e, inclinando-se, derramou-a sobre a minha cabeça.
Não soube mais o que fazer.
Para um tal crime de lesa-majestade, devia matá-la, não podia mesmo inventar outra punição.
Febé chorava de tanto rir, repetindo:
— Mas é louca, a ferazinha!
Fiz-me enxugar, lavei-me e, braços cruzados, aproximei-me dela.
— Que fizeste? — perguntei — estas em teu perfeito juízo?
— Sim,— respondeu — sou filha de um chefe e jamais desempenharei papel de serva, mesmo para um futuro imperador.
— Ah! recusas por orgulho?
Pois bem; ordeno que me obedeças.
— Deixa-me antes repousar, manda enforcar-me, queimar ou afogar, à tua escolha, contanto que acabe com isto.
Percebi-lhe o desejo de morrer.
— Isso nunca!
Antes hei-de possuir-te.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:07 pm

Pela primeira vez, ela recuou apavorada; teria esquecido o poder que eu tinha sobre os prisioneiros?
De repente disse com voz mudada e terna:
— Deixa-me morrer honestamente; sou noiva de Hilderico e tu aí tens tantas prisioneiras para satisfazer-te a concupiscência e crueldade...
Não desejo viver, a morte é a única graça que te peço.
Oh! amava então esse Hilderico, de quem já ouvira gabarem a coragem!
Esse pensamento me tornou sobremaneira insensível.
— Nada de morte; viverás e hás-de ser minha, por bem ou por mal.
Ela pôs-se a rir às gargalhadas.
— Amar-te a ti?
tão feio, com essa cabeça e essa cara raspadas?
Nunca viste Hilderico e por isso não podes fazer ideia de algo semelhante.
Diante dessa resposta digna de uma selvagem, apenas os semblantes dos guerreiros permaneceram impassíveis.
Estranha expressão de constrangimento se esboçou nos demais convivas.
Provei uma nova e maior decepção porque me julgava assaz bonito.
No mesmo instante, ela cambaleou e teria baqueado se não a houvesse amparado.
Coloquei-a a meu lado e só então lhe notei uma ligadura ensanguentada.
Atentei para os seus guardas, eles empalideceram e me disseram que ela havia tentado matar-se e que havia quatro dias vinha recusando todo e qualquer alimento.
Experimentei, então, verdadeiro terror, imaginando que pudesse morrer nas minhas mãos, antes que a domasse e transformasse em mulher amável, que me achasse bonito.
— Vós me pagareis tudo isto! — exclamei.
Derramei vinho nos seus lábios e ela acabou por voltar a si, mas, tão fraca que apenas respirava.
Levei-a para o meu palácio em Roma, instalando-a num aposento de cuja chave não me separava.
Eu próprio levava-lhe as refeições, mas não conseguia que se alimentasse.
Só podia forçá-la a comer um pouco, empunhando chicote ou punhal.
Era então minha amante, não tive outra tão rebelde e de uma vida estranha.
Detestava-me a tal ponto que só comia de olhos fechados.
Eu queria tornar-me amado sem o conseguir, apesar da maior severidade.
Deixava-a sem comer amarrada no leito, privada de liberdade e movimento e nada obtinha; só respondia às minhas palavras com desdenhoso silêncio.
Dizia-lhe:
Se não te tornas mais amável, não reaparecerei senão quando me rogares de joelhos.
Nem assim respondia, e os dias se passavam e eu me sentia obrigado a voltar para junto dela.
Certa feita, precisei ausentar-me de Roma por oito dias.
Confiei a chave do seu quarto a um criado, com ordem de levar-lhe as refeições; mas, pouco depois, me esquecia disso e, por um motivo qualquer, fiz decapitar o detentor da chave.
Quando voltei, foi preciso arrombar a porta e fui encontrá-la quase morta de fome.
Teria passado terríveis momentos, pois tinha as vestes esfarrapadas, os anéis de ferro da algema lhe haviam penetrado profundamente na carne e coberta de sangue.
Certamente, quisera desembaraçar-se da corrente, sem o conseguir.
Só a custo de muito trabalho, conseguiu-se reanimá-la e procurei, então, ser mais indulgente.
Nada, porém, lhe abrandava o carácter atrevido.
À proporção que corria o tempo eu me tornava mais estranhamente ligado a ela.
O ódio manifesto que me votava, aquela resistência de todos os momentos, irritavam agradavelmente os meus nervos esgotados.
Visitava-a todos os dias, muitas vezes levava-a a passear, se bem que ela preferisse a prisão ao ar puro em minha companhia.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:08 pm

Cerca de um ano assim correu, até que um dia notaram que vários homens rondavam a parte do palácio onde ficava a prisão de Lélia, os quais pareceram suspeitos.
Informado de que haviam chegado a Roma numa embarcação, fi-los vir à minha presença para interrogá-los.
Estava a refrescar num terraço tendo-a perto de mim deitada sobre almofadas, quando se apresentaram os detentos.
O primeiro era um rapagão de notável beleza; cabelos louros, longos e encaracolados caiam-lhe pelos ombros e os grandes olhos azuis rebrilhavam de orgulho e energia.
Ao ver Lélia, soltou um brado de alegria, que tratou, em seguida, de disfarçar desviando o olhar.
Eu sabia que eles eram germânicos e uma vaga desconfiança se apoderou de mim.
— Como te chamas? — perguntei.
Ergueu altivamente a cabeça e já se dispunha a responder, mas, no mesmo instante seus olhos se fixaram em Lélia e calou.
Voltei-me bruscamente e percebi ainda o gesto suplicante que ela lhe dirigia para que se calasse.
— Ah! — pensei — este é o Hilderico, mais belo do que eu!
Ele recusou-se identificar-se, mas, pela tortura, consegui que os companheiros revelassem a sua identidade.
Prendi Lélia a sete chaves e ordenei a morte de Hilderico pela seguinte forma:
enterrado até o pescoço, com a cabeça exposta ao sol.
Em redor da cova um muro de pedra, circular, e no recinto fechado mandei lançar ratos esfomeados de três dias, que entraram a roer o belo Hilderico com voracidade inaudita, com o que me deleitava através de uma abertura adrede preparada no muro.
Lélia, no auge do desespero, queria a todo preço rever Hilderico.
Então, por vingar-me das suas insolências, levei-a ao local e, erguendo-a, fi-la espreitar pela abertura.
Ao ver Hilderico sem nariz e orelhas, lábios, faces carcomidas, irreconhecível e disforme, ficou acabrunhada.
— Pois bem — disse-lhe — ainda sou mais feio do que ele?
Ela que, por princípio, jamais me respondia, voltou-se nesse momento e eu fiquei positivamente horrorizado com a expressão do seu rosto:
os olhos injectados de sangue, a boca escumante, atirou-se a mim qual besta fera, tentando estrangular-me.
Seus dedos enterraram-se no meu pescoço como pinças de ferro e meus guardas tiveram grande trabalho para me desenvencilhar da sua fúria.
Após este segundo crime de lesa-majestade, reuniu-se um conselho que decidiu fosse ela exposta às feras no circo, na primeira função.
Eu, porém, me sentia tão ligado a ela, que, apenas expedida a sentença, começava a voltar atrás; parecia-me não constituir suficiente vingança vê-la espedaçada pelas feras; eu mesmo poderia puni-la bem mais severamente.
Minha dignidade, porém, não permitia retractar-me e conceder-lhe o perdão por iniciativa própria.
Fiz-lhe saber, então, que, se publicamente e de joelhos me pedisse perdão, eu lho concederia.
O gladiador Astartos(2), que deveria vigiá-la até o dia do espectáculo, foi incumbido de conduzir a negociação.
Tive com ele várias conferências a respeito, e como fosse um belo tipo de moço, o ciúme começou a espicaçar-me e avisei-o de que, sob pena de morte, deveria mostrar-se pouco compassivo com a prisioneira, reservando-me eu próprio para esse ser ingrato ao qual desejava conceder, excepcionalmente, uma proposta de perdão.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:08 pm

Ela respondeu por intermédio de Astartos, que preferia mil vezes a morte ao meu perdão.
Exasperei-me.
No dia aprazado, fui ao circo e logo que me instalei no camarote, senti-me possuído de penosa angústia ao pensar que ela ia ser estraçalhada e devorada.
Os gladiadores foram os primeiros a penetrar e tomar posição na arena; depois, abriu-se pequena porta e entrou Lélia.
Estava toda de branco, um cinto prateado à cintura, solta a soberba cabeleira loura, encimada por uma grinalda de flores.
Havia ordenado que lhe fosse dado tudo que pedisse e ela quis assim preparar-se para morrer.
Entretanto, no momento decisivo, parece que lhe fraquejou a coragem, porque se apoiou no muro e tapou o rosto com as mãos.
Abriu-se uma jaula e gigantesco tigre saltou na arena rugindo.
Lélia deu um grito o caiu de joelhos, não voltada para mim, mas para o tigre, que estacou um instante, surpreso e indeciso.
Aproveitei o lance:
conheciam as condições que havia imposto para conceder-lhe a vida.
Elevei a voz:
— Ela pede graça, gladiadores; salvem-na, se possível!
Procurei não parecer muito solícito, mas o populacho bradava também: «graça! graça!»
O tigre, que já havia espertado com a minha exclamação, ainda não tivera tempo de começar o ataque, porquanto, nesse instante, entraram na arena um leão, uma pantera e outros animais.
As feras rugiam lugubremente e se entreolhavam, prontas a disputar a presa; haviam cercado Lélia desmaiada, e apenas o ciúme recíproco lhes impedia começar o repasto.
Impossível qualquer tentativa de salvação.
Não obstante os gladiadores terem-se colocado entre as feras para dispersá-las, Astartos se lançou corajosamente sobre o leão, que, com a língua avermelhada, já lambia a alabastrina espádua de Lélia, e desviando-o com vigoroso golpe de sabre, arrebatava-a para uma das jaulas vazias, ali encerrando-a.
Salva!
Não prestei grande atenção ao resto do espectáculo, durante o qual os gladiadores mostraram toda a sua coragem e agilidade, tendo mesmo mais de um sacrificado a vida.
Meu pensamento vagava longe.
Determinei que Lélia fosse conduzida ao palácio e desde que lá cheguei, permaneci junto dela, embora já fosse tarde.
Ela dormia e como estava extenuada, logo que tentei reanimá-la, com dificuldades abriu os olhos para fechá-los em seguida, recaindo novamente inerte, como morta.
Permaneci a seu lado algumas horas e voltei aos meu aposentos muito contente por ter-se ela ajoelhado diante do tigre.
Ela mesma dará os pormenores de nossa vida em comum; aqui mencionarei apenas que, ao cabo de dois anos, fugiu em um navio pirata, fretado pelo irmão para libertá-la.
Empreendi a perseguição, sendo logo encontrado o navio.
Determinei, então, fosse incendiado e gozamos o belo espectáculo de um barco em chamas, no meio do oceano, em fundo enegrecido pela fumaça.
A equipagem atirou-se ao mar para salvar-se.
Ordenei aos pretorianos capturassem Lélia viva, se fosse possível.
Nesse instante, lobriguei-a no convés incendiado e vi que se atirara ao mar.
Meus soldados se precipitaram igualmente.
Avancei minha embarcação e breve minha bela companheira, retirada das ondas, era-me restituída a debater-se como louca, a arrancar-se dos meus braços para mergulhar de novo.
Enraivecido ao extremo por ver uma obstinação tão tenaz, saquei do punhal e enterrei-lho no flanco.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:08 pm

Tombou inerte banhada em sangue.
Passado o furor, arrependi-me vivamente do feito.
Conduzi-a ao palácio, onde o médico declarou que apenas teria algumas horas de vida.
Pensou-se a ferida; mandei que todos se retirassem; queria ficar sozinho com a agonizante, levada ao seu próprio quarto.
Há momentos em que o tirano mais poderoso, o assassino mais endurecido, experimenta arrependimento e remorsos.
Era o que me sucedia então.
Cabisbaixo, permaneci junto do leito onde ela jazia inanimada; apenas um cirro se lhe escapava da garganta e a respiração lenta e difícil, indicava que o coração estava prestes a terminar o seu último e doloroso esforço.
Eu sabia que tudo estava perdido e aguardava o fim.
Prestes a respiração pareceu parar; inclinei-me e vi que seus olhos se reabriam como em plena consciência.
Nossos olhares se encontraram e constatei que a morte não lhe alterava o ser; a boca não mais podia falar, mas os olhos exprimiam todos seus pensamentos; envolveu-me num último olhar saturado de ódio implacável, de desprezo esmagador; depois amorteceu, a respiração cessou; apalpei-lhe o coração, já não batia, estava morta!
Que sentimento estranho domina o coração do homem quando ele sente a própria incapacidade diante de um cadáver, cuja impassibilidade parece ridicularizar o seu poder!
Eu era Tibério, o futuro imperador!
Mas ali meu poder havia esbarrado nos seus limites.
Nem meu amor, nem meu ódio, puderam algo sobre aquela mulher, cujo cadáver agora afrontava a minha autoridade!
Certamente, ninguém percebeu meus sentimentos.
Abandonei a sala mortuária, impassível; nada em meu rosto traía qualquer emoção ou arrependimento; e, no entanto, sentia-me profundamente acabrunhado até as profundezas do meu ser.
Determinei pomposos funerais e depois minha vida retomou seu curso normal; não me tornei nem mais nem menos cruel do que fora até então; matei à fome minha mulher e minha mãe, pereci asfixiado por aqueles que acreditavam que eu ainda viveria muitos anos.
O momento da morte pareceu-me longo atordoamento, durante algum tempo não pude compreender minha situação; enfim, percebi que tinha deixado a Terra e, errando no espaço, vi muitos personagens poderosos, que, relegados à solidão, gemiam dolorosamente.
Eu mesmo presenciei o desfilar de TODAS, TODAS as minhas vítimas; todos aqueles nos quais cevara minha crueldade, vinham com seus sofrimentos cercar-me em delírio; Lélia também não faltou!
E depois, apesar de tantos séculos de provas e expiações, combateremos ainda as nossas más paixões até o momento em que, abrandadas e dominadas, sejamos capazes de nos amarmos com verdadeiro sentimento cristão, tal como prescrevem as leis divinas.
Mas, até agora, as paixões inferiores despertam em nós um ódio recíproco, talvez um pouco mais atenuado que outrora; dissimulado sob as cinzas dos séculos, despertando sempre em cada uma das nossas encarnações terrestres.

1 Convém advertir que ela falava a língua dos romanos - porque era filha de romana, que lha ensinara.
2 Este gladiador era, nesta encarnação, o mesmo que mais tarde veio como Conde de Rochester.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:08 pm

TIBÉRIO - NARRATIVA DE LÉLIA

O descrever esta vida e muitas outras, cheguei por vezes a duvidar da justiça divina que, tão frequentemente, me colocou sob o poder desse monstro, para corrigi-lo, sem considerar o que isso me custava.
Morrendo quase sempre na flor da idade, século houve em que tive duas encarnações; e se uma era tranquila, a seguinte tornava inevitável meu encontro com Tibério.
Será que eu fora criada para fazer dele um homem virtuoso?
Aqui tudo contarei, sem nada ocultar, porque ele, Tibério, silenciou muita coisa, máxime o que diz respeito à Febé, cúmplice que sempre o acompanhou em todas as encarnações em que fui sua presa.
De facto, ela sempre foi o obstáculo contra o qual esbarravam ainda as minhas boas intenções.
Tibério só manifestou indulgência para com essa criatura nefasta em todas as vidas em que combatermos, eu para o bem, ela para o mal.
Ela sempre o dominou e isso não é de estranhar, porque seus crimes e profunda perversão moral tornavam-na mais atraente para ele do que eu.
Também tenho meus defeitos, muito grandes mesmo, mas, em todas as minhas encarnações sempre me esforcei por dominar as paixões e aspirei despertar em mim sentimentos humanos; nunca fui cruel por prazer, para regozijar-me friamente com os sofrimentos alheios, tal como eles que sempre se alegraram com a desgraça de quantos se lhes aproximavam.
Na vida de Tibério, de Derblay, de Saurmont e noutras biografias em que não tenho mencionado o seu nome, duas mulheres desempenharam um papel principal.
A Febé cabia a parte funesta e, por fim, ele sempre acabava-nos eliminando.
Abro esta narrativa partindo do tempo em que me encontrava na Germânia, em companhia dos meus, e quando se iniciava a desastrosa guerra com os Romanos.
Minha família compunha-se de pai, mãe e dois irmãos já homens feitos.
Minha mãe era uma romana aprisionada pelos nossos, quase criança; cresceu na tribo assimilando nossos costumes e mesmo a religião, e acabara casando com meu pai, grande chefe de uma das tribos alemãs, a quem muito amava.
De sua origem romana apenas lhe ficou o conhecimento da língua latina, que nunca esquecera e me ensinara.
Resolvida a guerra com os romanos, antes da abertura das hostilidades, foi celebrada grande festa para toda a tropa reunida.
Em vasta planície levantaram-se as barracas rodeadas pelos carros e demais coisas inúteis, que o nosso exército de bárbaros levava no seu séquito.
Ergueram-se altares ornamentados de flores e folhagens, todos vestiam as melhores roupas e a festa começou por imensos sacrifícios aos deuses, para obter feliz sucesso.
Depois, começaram as danças ao ritmo dos cantos selvagens dos nossos guerreiros a prolongarem-se até alta madrugada.
Esse dia foi para mim duplamente feliz, pois celebrou-se também o meu noivado com Hilderico, jovem chefe já afamado ao qual me ligava com amor recíproco.
A guerra começou e, com ela, tempos bem duros; entretanto, eu me sentia feliz acompanhando meu pai e os guerreiros; participava de todos os combates, embora me mantivesse um tanto à retaguarda, e não era mulher indefesa, pois em caso de necessidade sabia muito bem combater; montava a cavalo como uma Valquíria e manejava perfeitamente o arco e o dardo.
Adorada pelos soldados e por todos respeitada, porque nossos costumes eram severos e a mulher ocupava, na família, posição e consideração destacadas, quase em paridade com o homem, jamais qualquer rude guerreiro que se aproximasse de mim, esqueceu o respeito devido ao meu sexo.
Cercavam-me de todo conforto compatível com a situação; dormia no campo, onde, à noite, me preparavam uma cama feita de lanças reunidas, cobertas com pelegos; acendia-se a fogueira perto da barraca e nada me faltava.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:08 pm

Para mim os melhores bocados e o primeiro trago de vinho.
Vivia assim tranquila, feliz e lisonjeada...
Entretanto, oh! Deus, que sorte horrível me estava reservada!
A luta tornou-se desfavorável para nós.
Tibério, o futuro imperador, comandava os exércitos romanos, que, mais disciplinados e melhor equipados, nos guerreavam sem tréguas.
O inimigo esforçava-se, sobretudo, por aprisionar o maior número possível de mulheres, a quem um triste destino aguardava na longínqua Roma, onde a depravação — dizia-se — atingira as raias do inacreditável.
Também, nós, fizéramos juramento de morrer voluntariamente, antes que nos rendermos vivas às mãos do inimigo.
Dentro em pouco empenhou-se grande batalha na qual meu pai tombou gravemente ferido.
Nesse dia, tristemente memorável, o exército romano apresentava grande superioridade numérica e fomos esmagados.
Os soldados caíam um por um, nossas fileiras rareavam a olhos vistos.
Esquecendo toda a prudência, eu combatia furiosamente ao lado de Hilderico, pois odiava de morte os romanos.
Já no fim do combate, caiu morto o cavalo de Hilderico e ele próprio ia sendo sacrificado.
Um soldado romano já o havia lançado por terra e alçado o braço para desferir o golpe mortal.
Vendo o perigo, galopei para o local, ergui o alfange e de um golpe fendi o crânio do romano.
No mesmo instante saltei do cavalo, dizendo:
— Toma-o, és chefe, tua permanência aqui será a desonra; cumpre-te comandar os nossos, foge!
Ele montou e partiu como um relâmpago.
No mesmo instante, fui envolvida por furiosa soldadesca que me teria degolado, se um oficial não me protegesse, notando-me a beleza e a mocidade.
Tentei suicidar-me, mas fui impedida, conseguindo apenas ferir-me.
Algemaram-me, então, e partimos para o acampamento de Tibério.
Não direi da trágica viagem e dos maus tratos que suportei.
Os romanos, apesar de se julgarem muito superiores a nós em civilização, eram muito mais grosseiros que os nossos selvagens guerreiros.
Enfim, chegamos.
Tibério, ao que diziam, deveria decidir da minha sorte.
Ordenou fosse conduzida à sua presença e, como me recusasse a andar, carregaram-me até lá.
Recordo-me ainda, perfeitamente, o interior dessa barraca, onde, ao redor de uma mesa posta com luxo até então por mim desconhecido, um grupo de homens ricamente vestidos e de rostos afogueados pelo vinho, mantinham-se recostados e coroados de flores.
À cabeceira da mesa, num leito mais elevado e mais enfeitado que os outros, vi um rosto cujo aspecto me inspirou terror e asco.
Face raspada, olhos enervados, tinha uma expressão de crueldade e desconfiança qual leão em atitude indolente; recostado com uma das mãos apoiada no joelho, inclinava-se para frente a fim de melhor me observar.
Cingia uma toga encarnada e tinha um aro de ouro na cabeça; rico e brilhante colar pendente do pescoço.
A seu lado, um homem alto, gordo, de rosto congesto e avinhado, expressão sórdida e insolente.
Do outro lado, assentada, uma mulher de saia curta, verde, bordada a ouro, deixando ver as pernas inteiramente nuas até os joelhos.
Da blusa insuficiente, não falarei; seu rosto não era feio, mas de traços grosseiros, faces caídas, avermelhadas pela bebida e os grandes e desavergonhados olhos negros que me observavam, transparentes de ódio e zombaria.
Mantinha soltos os cabelos negros, que lhe caíam em massa sobre os ombros, encimados por uma coroa de flores encarnadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:09 pm

Tibério descreveu, ele próprio, o que se passou então, mas, prudentemente calou que foi a minha referência à sua fealdade que o levou a espancar-me e que desmaiei sob os seus golpes.
Oh! quanto o abominava! Sua presença era-me odiosa!
Conduziu-me a Roma e encerrou-me numa sala razoavelmente mobiliada, mas de janela gradeada.
Febé era a minha guardiã e livre Deus os detentos de uma tal carcereira.
De começo, procurou mostrar-se amável, mas pouco a pouco lhe percebi toda a crueldade.
Tibério, que sempre procurou justificar as próprias culpas, mentiu ao dizer que havia proibido me tocassem.
Febé e Sejano podiam atingir-me, sobretudo Febé, que devia fazer-me comer a força.
Assim que, de uma feita, esteve a ponto de estrangular-me, forçando-me a engolir o alimento, porque eu estava amarrada e quase privada de movimentos.
Noutra ocasião, deu-me vinho fervendo, derramando-o tão desastradamente que me queimou a boca, pescoço e braços.
Tibério não lhe fazia a menor advertência.
Uma vez, mordi-a no peito com tal gana que ela enfermou algumas semanas.
Assim foi que o meu algoz passou a servir-me pessoalmente, pois não confiava em Sejano e desejava conservar-me para si.
Tibério era um carácter tão teimoso e cruel, que parecia não alimentar qualquer sentimento de humanidade.
Convenceu-se de que devia ser amado por mim e imaginava que o conseguiria pela crueldade.
Repetia frequentemente que eu devia amá-lo, mas por sua vez não o fazia.
Visitava-me todos os dias para sondar meu íntimo e sua insolência chegou a ponto de pretender que eu dissimulava o meu afecto à sua pessoa!
Essa presunção ridícula ter-me-ia feito rir em qualquer outra circunstância, mas a horrível situação em que me encontrava, havia-me desabituado de fazê-lo.
Depois de falar, ordenar, gritar, sobrevinham os acessos de furor e saía dizendo:
— Olha, não voltarei senão quando estiver quebrada a tua teimosia e houver experimentado todos os sofrimentos de um amor desdenhado.
Para me suscitar ciúmes, trazia Febé, abraçava-a e acariciava diante de mim, encenando ternuras amorosas.
Meu coração, porém, estava longe de Roma, não dava atenção a essas representações ridículas.
Febé detestava-me, mas não se atrevia a ferir-me directamente; conhecia a fundo o carácter de Tibério e exercia grande influência sobre ele; sabia aguardar os momentos favoráveis para tecer alguma intriga, encontrando quase sempre acolhida.
Durante muito tempo, eu de nada soube e só mais tarde percebi que, permanecendo longas horas junto de mim, sem jamais obter uma resposta, ela me deixava para ir dizer a Tibério que eu lhe havia assacado os mais terríveis ultrajes.
Sejano, seu amante, confirmava e jurava ter testemunhado ou sabido o que eu dissera a Febé e tanto excitavam Tibério, que ele parecia um verdadeiro tigre quando aparecia, sem nunca aludir, entretanto, as mentiras que lhe contavam.
Havia no carácter de Tibério qualquer coisa de covardia, uma baixeza, que mesmo os séculos não puderam corrigir inteiramente; nas outras encarnações que de conjuguei com ele, essa fraqueza constituiu sempre o fundo do seu carácter, sobretudo em face dessa mulher ordinária que ele temia estranhamente, apesar da sua alta posição e ferocidade.
Um dia em que, de novo, eu fingia, por que não queria confessar-lhe o meu amor, levantou-se e disse:
— Pois bem! Parto e não me verás até que, por tuas súplicas e plena confissão de teu amor, eu consinta em perdoar-te.
Vou procurar Febé, que me é mais dedicada e tem por mim verdadeiro amor.
Com isso esperava enciumar-me, mas nada respondi e lá se foi ele.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:09 pm

Veio a tarde, transcorreu a noite, surgiu o dia sem que me trouxessem o menor alimento.
Amarrada ao leito, achava-me até privada de movimentos e, nessa horrível posição, experimentei todas as torturas da fome e da sede.
Fase terrível essa.
Queria desembaraçar-me do leito maldito, ao qual estava atada; pedia, gritava, tudo em vão.
Boca ressequida, língua colada ao véu palatino, ardiam-me os olhos, tinha desmaios; os anéis das algemas haviam penetrado profundamente na minha carne pelo esforço que fazia para desembaraçar-me; o sangue corria, eu me debatia delirante, louca.
Por fim, fiquei como que envolta numa, nuvem, meu corpo queimava; pensei que o tecto desabava sobre mim, que os muros se fendiam em círculos de fogo; depois, sobreveio um último desmaio e perdi os sentidos.
Pensei que estivesse morrendo.
Mas, seria tão dolorosa a separação da alma e do corpo?
Passado algum tempo, que não posso precisar, pareceu-me que despertava; senti sacudir-me fortemente e despejar qualquer coisa em minha boca.
Abri os olhos e vi o meu perseguidor Tibério, lívido, assustado, a sacudir-me, quase a quebrar-me os ossos.
Vendo-me reabrir os olhos, colocou-me na cama e busquei dar-lhe a entender que vivia para não ser maltratada por aquela forma.
Mais tarde, vim a saber que, por abominável intriga, forjada por Febé e Sejano, o homem que guardava a chave do meu quarto e que deveria trazer-me alimentos, tinha sido decapitado.
Tibério não arredou pé e quando me viu pouco melhor, disse:
— Tudo isso é fruto da tua teimosia estúpida em não querer confessar teus verdadeiros sentimentos para comigo.
A presunção do tirano não lhe permitia compreender que era incapaz de me inspirar paixão e assim se manteve em mais de uma existência.
Nem sempre, porém, dispôs dos meios de tirano para me dominar e contentava-se, então, em praticar crueldades que lhe permitia a época em que vivíamos e a posição que ocupava.
Essa dissimulação de minha parte e que ele no seu íntimo não acreditava, sempre o exasperou e conduziu à maldade; nunca, porém, experimentou o único meio que me poderia reconduzir-lhe.
O amor não se inspira pela violência, mas pela nobreza e bondade da alma, que fazem esquecer ofensas e despertam afeição.
Sua presunção e orgulho não lhe permitiam manifestar tais sentimentos.
Além disso, Febé e Sejano, constituíam-se fiadores dedicados da sua desmoralização e dos seus vícios, de que tiravam partido.
Em muitas existências Febé concorreu comigo, mas também sempre recusei combatê-la.
Tibério não contribuía para isso, porque, constantemente, me preferiu.
Quanto a mim, tenho um espírito que me é caro e simpático: o de Helderico; quando o reencontro, esqueço tudo mais.
O médico prescreveu passeios; eu devia respirar ar puro, se quisesse restabelecer-me.
Tibério consentiu em que o fizesse, mas unicamente na sua companhia.
Muitas vezes também repousava num terraço, deitada sobre almofadas, mas raramente trocávamos palavra.
Tibério tinha um génio pouco comunicativo e absorvia-se nos seus pensamentos; e eu, por mim, me encontrava em tal estado de espírito, que mais me aprazia calar.
Certa feita, conduziram a esse terraço onde me encontrava, como de costume, vários prisioneiros.
(Soube mais tarde que eles haviam rondado a minha prisão).
Vendo-os, quase desmaiei de alegria e terror; é que entre eles reconheci Hilderico e meu irmão Raimundo.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:09 pm

Tibério percebeu a alegria de Hilderico ao ver-me e seus olhos brilharam sinistros.
Após breve interrogatório, fê-los recolher à prisão.
Até então, apesar dos meus padecimentos, gozava relativa calma, mas daí por diante, sabendo que Hilderico e meu irmão se encontravam perto de mim, todo o meu estoicismo desapareceu.
Queria vê-los a qualquer preço.
Tibério não aparecia e eu o aguardava com tal impaciência, que, cada passo me fazia estremecer.
Ele não vinha.
Então — coisa incrível— decidi-me a comunicar-lhe que desejava vê-lo.
Mesmo assim, não atendeu.
Meu desespero era indescritível.
Febé, que se mantinha a meu lado, dizia:
— Enfim, vês que Tibério te abandona e não atende ao teu chamado.
Mas o que ignoras é que os prisioneiros, que viste, vão ser mortos e o belo jovem louro terá os olhos vazados e o nariz cortado.
Eu tapava os ouvidos para não ouvir essas horríveis confidências e pedia insistentemente que chamassem Tibério.
For fim ele veio, mas acompanhado de numeroso séquito.
Ao entrar, deixou a porta aberta e disse de modo a que todos ouvissem:
— Enfim, o amor dominou teu orgulho e mandaste chamar-me.
A uma bela mulher é preciso tudo perdoar.
A raiva se apoderou de mim e exclamei:
— Não foi por isso que te mandei chamar, tirano!
Não pude continuar, porque Sejano bateu a porta com violência, para nos separar da comitiva.
Tibério estava fora de si.
— Então, por que me chamaste?
Como ousas desdizer-te?
Desde que me avistas, retomas tua insolência e neste caso retiro-me sem te ouvir.
Como se tratasse da vida de Hilderico e de Raimundo, eu estava completamente fora de mim.
Tibério abriu a porta e quis sair.
— Fica! — exclamei.
Ele saia devagarinho, apenas movia os pés.
— Fica, Tibério.
Mas não parecia ouvir-me.
— Eu te suplico, fica.
Voltou-se e disse:
— Por que mo pedes?
Não cales, nem escondas o motivo de tanta insistência, porque, de outro modo, não mais me verás.
A raiva me sufocava:
se lhe dissesse que desejava falar dos prisioneiros, estaria tudo acabado, ele não mais voltaria.
Corei de vergonha e revolta; ele queria forçar-me a declarar, diante do seu séquito, que o retinha por amor, e eu preferia, contudo, ter a língua cortada a dizer semelhante coisa.
Começou a sorrir...
Como já disse, ele era a fatuidade personificada.
Mantinha, indolentemente, uma das mãos na cintura e outra acariciando o queixo.
— Pois bem, Lélia, bela Mara!
Vês? Desde o momento que me tornei caro a ti, os deuses permitiram soubesse teu verdadeiro nome — e voltando-se para o séquito.
Vede, entretanto, como ela se sente acanhada em confessar que me ama!
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:09 pm

Fraquezas da alma feminina!
Mas o tempo urge, Mara, por que me chamaste?
Como choras!
Não chores, confessa somente a verdade!
Meu coração batia na iminência de romper-se.
Poderia sacrificar Hilderico e Raimundo?
Retruquei, pois, com voz apenas inteligível:
— Pesava-me a tua ausência, pois que te amo!
Com extraordinária precipitação Tibério voltou-se e fechou a porta.
Estava radiante com a vitória.
A agudeza do meu ouvido pode perceber um riso abafado por trás da porta, mas ele nada ouviu.
Então, pedi que me mostrasse os prisioneiros, que lhes concedesse a graça de regressarem ao seu país.
— Bem — respondeu — se diante de todo o meu séquito disseres aos prisioneiros que me amas a ponto de não mais desejares voltar à tua pátria, mesmo com minha aquiescência, eu lhes concederei graça e os reenviarei a seu país.
Prometi. Para salvar-lhes a vida estava pronta a jurar que alimentava uma paixão insensata pelo verdugo.
Chegou o dia marcado para a audiência.
Tibério me presenteara com magníficos vestidos para esse ato; queria mostrar que me proporcionava luxo.
Apresentei-me, pois, com rico vestido todo bordado a ouro, capa encarnada e coberta de jóias preciosas, e assim fui conduzida ao salão.
Tibério estava sentado num estrado atapetado de veludo, rodeado dos seus cortesões e pretorianos.
Fez-se assentar junto do estrado e mandou entrar os prisioneiros, que se apresentavam sãos e salvos.
Vendo-me, manifestaram grande alegria.
Disseram a Tibério que estavam dispostos a negociar meu resgate, para levar-me.
Tibério, com aquela voz profunda e impassível, respondeu que concordava em entregar-me.
— Vede, acrescentou, que não lhe falta nada; tenho-a mantido comigo, mas, se ela o quiser, não me oponho a que vos acompanhe.
O olhar dos prisioneiros recaiu sobre mim.
Minha palidez e a mudança do meu aspecto fez, certamente, com que duvidassem da verdade, mas não ousei, sequer, dirigir-lhes um olhar de inteligência, em atenção à vida deles.
— Então, Lélia — prosseguiu — resolve:
queres voltar para junto dos teus, ou preferes ficar comigo e mandar dizer a teu pai que és feliz e se ele desejar ver-te será bem recebido?
Foi então que proferi a mais horrorosa mentira, que jamais a angústia impôs a um coração humano. Respondi:
— Amo Tibério e não desejo separar-me dele por coisa alguma deste mundo...
Inútil, porém, que meu pai venha visitar-me, pois está velho e ficará plenamente satisfeito sabendo que sou feliz.
A essa altura, Tibério inclinou a cabeça para trás, fechou os olhos e parecia sonhar.
Vencido o angustioso momento, experimentei passageira alegria quando abracei meu irmão.
A Hilderico contentei-me em apertar-lhe a mão.
Depois, aconselhei-os a que partissem o mais depressa possível, para levar notícias a meu pai, dizendo-lhe da minha parte que não mais deveria inquietar a meu respeito, porque me sentia inteiramente feliz.
Tibério estava satisfeito.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 12, 2016 8:09 pm

Separamo-nos e não mais vi os prisioneiros.
Dias depois, quando tive novamente a ideia de não mais dissimular meus sentimentos diante dele, ficou possesso.
Eu acabava de lhe dique o detestava e que meu coração havia seguido Hilderico.
— Vem, quero mostrar-te qualquer coisa — disse.
Conduziu-me a um pequeno pátio, onde vi um muro de pedra muito alto, com uma porta fechada.
Em vez de abri-la, ele suspendeu-me nos seus braços e enfiou-me a cabeça pela abertura existente no muro.
Fiquei espantada, mas, de pronto não atinei o que significasse tudo aquilo. Do solo emergia uma cabeça, rodeada pelos louros anelados cabelos de Hilderico, porém estava irreconhecível e rodeado por quantidade de ratos, que se empurravam mutuamente para melhor devorá-la!
O nariz, as faces e mesmo os olhos, haviam desaparecido, tragados pelos vorazes roedores; e dessa massa sangrenta, horripilante, que não mais parecia uma cabeça escapavam-se, de tempos a tempos, gemidos que nada tinham de humanos.
Fiquei petrificada e admiro-me de não haver enlouquecido naquele momento.
Voltei-me, atirei-me a Tibério com tanta raiva que me não recordo do que fiz, senão que desejava matá-lo.
Arrancaram-me de cima dele.
Os assistentes estavam estarrecidos; o furor me cegava; abri passagem, corri para o cercado; queria passar através da abertura, era impossível.
Voltei-me então para Sejano que o estupor tinha colado ao solo, tomei-lhe o alfanje e abri a portinhola lançando-me sobre Hilderico.
Levantei a arma e lhe rachei o crânio.
Era um benefício que o livrava do suplício atroz.
Só então percebi que os ratos começavam a subir na minha roupa.
Horrorizada, desmaiei.
Quando voltei a mim, estava na minha prisão e lá fiquei só durante longas horas, até que chegou Febé.
Seu olhar cintilava com expressão de satânica alegria.
— Enfim — disse — tua maldade vai custar-te a vida; morrerás pelos teus crimes e para desafrontar o atentado à pessoa de Cláudio Tibério Nero.
É preciso ter os miolos às avessas para arriscar uma tal aventura!
Teu irmão voltou ao seu país, mas, somente depois de lhe cortarem as orelhas e o nariz.
Isto, entretanto, não impediu Tibério de apossar-se da importância do teu resgate.
Ele, por sua vez, muito sofreu, tem o pescoço inteiramente ferido, mas não pode resistir a tentação do ouro; neste momento está contando o dinheiro em companhia de Sejano e diz que enriquecerá o tesouro do império.
Não me admirei dessa nova infâmia, pois conhecia a sórdida avareza de Tibério.
Febé continuou a contar novidades muito agradáveis.
— Sabes que se reúne um conselho para Julgar-te pelo atentado à pessoa de Tibério?
Terás as mãos cortadas e serás queimada viva.
— Tibério não consentirá que eu seja mutilada,— respondi.
Ou me matará, ou morrerei com todos os meus membros; ele apenas desfigura aos que me são caros.
Ela estava furiosa, mas ficou junto de mim para me torturar, falando do suplício de meu irmão, como lhe haviam cortado as orelhas e o nariz, e como ficara ridículo depois disso!...
À tarde desse mesmo dia, compareci perante o conselho, para ser julgada.
Firme e tranquila, aguardava a morte; eles não podiam ir além.
Tibério estava sentado no centro da sala, pálido e assaz inquieto; mostrando no pescoço a avaria dos meus dedos, manchas azuladas e ranhuras que ainda sangravam; seu aspecto demonstrava (supondo-se que isso fosse possível) maior crueldade e impassibilidade que de costume.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:14 pm

Sejano lá estava junto dele e de numerosos patrícios, seus conselheiros.
Levada por dois soldados armados, mantive-me de pé, aguardando a sentença.
Quando Sejano começou a longa e pomposa arenga em que relatava a minha ingratidão e o atentado afrontoso que, só graças aos deuses, não tinha se consumado contra a pessoa do futuro imperador, glória e esperança do povo romano, Tibério aprovava com a cabeça; e quando falou da minha ingratidão, voltou o rosto para o meu lado e, pretendendo demonstrar bondade para comigo, suspirou, fechou os olhos com ar triste e pensativo.
Eu sabia que estava perdida e dei livre curso à minha cólera e desespero.
— Sim — disse — é verdadeiramente lamentável que um tal tirano, desprovido de todo sentimento de humanidade, não tenha perecido às minhas mãos.
Qualquer outro teria feito o mesmo, vendo infligir a um ente amado tão infernal suplício.
Tentaram interromper-me, principalmente Sejano, que continuava a falar para abafar-me a voz, a repetir uma série de acusações desprovidas de sentido; com isso atrapalhava e me impedia de continuar. Vendo que não podia dizer o que queria, impacientei-me!
— Oh Sejano! falas muito para obstar que diga a verdade, mas fica certo que tu mesmo perecerás às mãos deste monstro; crês que tua baixeza e co-participação em todos os seus crimes te garantirão?
Enganas-te: tão logo te tornes suspeito, ou importuno, desaparecerás; lembra-te, então, das minhas palavras.
Tibério não olhou para o seu lado e depois de haver discutido, ainda por algum tempo, a maneira mais cruel de me punir, decidiu lançar-me às feras do circo.
No dia seguinte fui levada às prisões do circo e entregue a um gladiador encarregado de custodiar as vítimas destinadas ao espectáculo mais próximo.
Esse gladiador, belo homem chamado Astartos, inspirou-me logo a maior confiança e muita simpatia.
Conduziu-me a uma prisão escura, de paredes nuas e húmidas, onde havia apenas um feixe de palhas.
— Não ficarás só— disse ele ao recolher-me — há aqui outra mulher também destinada ao circo.
Saiu. A obscuridade não me permitiu de pronto distinguir os traços da pessoa que lá estava deitada sobre a palha; mas, quando meus olhos se habituaram ao ambiente, percebi uma mocinha muito pálida e assaz bela.
Sua expressão denotava energia incomum e teimosia que devia igualar, pelo menos, à minha.
O infortúnio comum nos aproximou rapidamente e vim a saber de Veleda (esse o seu nome) que, tal como eu, preferia a morte a um tirano, abominável.
Depois, descobrimos que ainda um elo nos unia: sua mãe fora germânica, caída prisioneira e desposada por um negociante de perfumes.
Veleda era fruto dessa união.
Contou-me que tinha vivido feliz em Pompeia, até que lá chegasse o procônsul Gálio, que a perseguia com o seu amor e lhe cortara a existência, ordenando, finalmente, que fosse lançada às feras, devido ao seu insolente atrevimento e insistente teimosia.
Ela própria vos dará os pormenores dessa horrenda história.
Pouco depois nos separaram e soube, por Astartos, que Gálio a retomara, levando-a consigo para Pompeia e que, a uma nova tentativa de fuga, fê-la morrer num banho de vapor e decapitar um moço patrício que a amava e havia tramado a evasão.
Novamente só, Tibério várias vezes ainda propôs, por intermédio de Astartos, conceder-me perdão se lhe pedisse publicamente, o que sempre recusei, pois queria morrer.
Até que enfim, chegou o dia trágico.
Apesar da minha coragem, experimentei grande terror e fui tomada de íntima fraqueza ao aproximar-se a hora do suplício.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:14 pm

O lúgubre rugido das feras muitas vezes me acordara durante a noite; entretanto, devia aprontar-me convenientemente para morrer; tinha o vestido rasgado e sujo, após tantas vicissitudes suportadas e não queria aparecer em público naquele estado.
Pedi outras vestes.
Por ordem de Tibério, Astartos levou-me ricas e elegantes, com que me preparei pela última vez na vida, qual supunha.
Terminada a tarefa, fizeram-me sair e entrei na arena.
O imenso anfiteatro regurgitava, maravilhoso, e, no camarote imperial, Tibério trajado com luxo, mantendo a cabeça curiosamente inclinada para frente, estava rodeado por Sejano e outros cortesãos.
Meus nervos cederam; inteiramente trémula, apoiava-me contra o muro e cobria o rosto com as mãos; não desejava, no último instante de vida, contemplar o semblante odioso do meu verdugo.
Abriu-se uma jaula e um tigre pulou na arena.
Vendo-o tão próximo, de olhos verdes pestanejantes, quase sentindo no rosto seu hálito inflamado, caí de joelhos e desmaiei.
Quando voltei a mim, supus que estivesse morta e deparando o rosto de Tibério a fitar-me, repeli-o apavorada, exclamando:
— Ainda tu?
Não ficarei jamais livre, nem mesmo depois da morte?
Esta exclamação muito o contrariou; entretanto, estava satisfeito por haver-me recuperado e procurava mesmo mostrar-se bondoso e amável, à sua moda.
Mas depois do ocorrido, vinha muito tarde; eu não lhe suportava a presença senão com grande sacrifício.
Uma vez restabelecida, recomeçou a vida habitual, monótona, só interrompida a intervalos por suas cenas de ciúme ou de raiva, por causa da minha dissimulação ou falsidade — como ele dizia; de um modo geral porém, nada de grave me sucedeu.
Lembro-me somente de uma ocorrência que me deixou funda impressão, começando por me divertir bastante, mas depois quase fazendo perder a vida.
Entretanto eu já estava habituada a correr tais riscos.
Nesse dia, realizava-se em Roma grande festa popular.
Por toda parte alegria, jogos, diversões.
Depois do almoço, os cortesãos de Tibério se dispersaram e, como entardecia, ele deliberou dar um passeio pelos jardins.
Pobre criatura obrigada sempre a lhe fazer companhia, fui, seguida de algumas outras.
Caminhando, aproximamo-nos de pequeno peristilo contornado por colunas e que constituía dependência do palácio.
Dali partia um sussurro de vozes.
Tibério parou e, com um gesto, ordenou silêncio; ouviu-se então distintamente a voz de Febé, que falava de Tibério; espreitei através dos arbustos e reconheci-a no pequenino terraço, de vestido curto e rosto esfogueado pelo vício, rodeada de rapazes, todos de costas para nós.
Se ela não estivesse embriagada, não falaria do seu terrível senhor; no estado em que se achava, porém, tagarelava sem peias e, se não desvendava graves segredos, ao menos falava de fraquezas, faceirices e fatuidades de Tibério.
Foi então que fiquei sabendo que ele disfarçava secretamente os defeitos com maquilhagem, embora desdenhasse aparentemente todo artifício para se tornar mais bonito.
Também contava que, muitas vezes, fazia-se admirar por ela, inteiramente despido, para demonstrar-lhe que era igual a um Apoio nas formas.
Com as explosões de riso que esta revelação provocou, notei que Tibério experimentara um tremor nervoso em todo corpo e fiquei apavorada; nesse instante Febé, para coroar tamanha leviandade, gabava-se de possuir um amante, (cujo nome revelou), enquanto Tibério acreditava ser o único amado por ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:14 pm

Este não mais se conteve.
— Prendam-na! — berrou.
Em tal ouvindo, Febé rojou-se-lhe aos pés, pedindo perdão.
Insensível, mas menos cruel que de costume, ele decretou para o jantar um suplício a fim de punir os culpados, não de morte, mas de degradação moral.
O infeliz que com ele dividia o amor de Febé foi posto em baixo da mesa, para comer a restos que os convivas lhe atiravam, em sinal do mais profundo desprezo; Febé, ao invés, montada num enorme suíno, segurando-lhe a cauda, passeava ao redor da mesa, conduzida por dois escravos.
Sua atitude era tão grotesca, que até eu, que nunca ria, fi-lo gostosamente, para maior gáudio do tirano.
Ela lamentava-se quando passava junto de Tibério, mas tanto que se lhe aproximava, um escravo aplicava-lhe pancadas na nuca com uma espécie de vassoura, para obrigá-la a baixar a cabeça; o porco grunhia horrivelmente e a alacridade era geral.
Quanto ao seu cúmplice, esse lá estava em baixo da mesa, com os bacorinhos amarrados às mãos para compartilharem do que lhe davam, e ainda sujeito aos pontapés que os convivas estavam autorizados a lhe aplicar, prazer que Tibério foi dos primeiros a experimentar.
Após o jantar, o desgraçado recebeu duas terríveis bofetadas e os escravos o expulsaram a pontapés.
Por fim, desapareceu, feliz sem dúvida por haver pago tão barato o seu delito.
Febé prosternou-se, lacrimante, aos pés de Tibério, a implorar perdão; mas para ela ainda não estava tudo acabado.
Os convidados retiraram-se ficando apenas eu e os íntimos.
Então, Tibério mandou chicoteá-la em sua presença
Quatro escravos seguravam-na e ele próprio lhe prendia a cabeça com os pés.
A execução começou.
Eu permanecia junto dele, segura pela mão, mas corava de vergonha e voltava o rosto para não ver a cena hedionda.
Percebendo meu desgosto e constrangimento, Tibério pôs-se a rir e para resguardar minha sensibilidade, cobriu-me a cabeça com a própria toga.
Terminado o castigo, Febé toda chorosa ajoelhou-se para beijar os pés do algoz e insistir no seu perdão.
Ele estava satisfeito e observava-me para conhecer o efeito que me causava aquela humilhação.
Experimentei profunda aversão por essa mulher ignóbil, que ainda beijava os pés do seu carrasco, depois de tais ultrajes.
Por mim, tê-lo-ia estrangulado sem temor!
Com olhar sinistro e desconfiado, fixo em mim, ele disse:
— Por que, Mara, tens um ar tão desdenhoso?
Vês como se vingam os agravos à minha pessoa?
Descuidei-me e respondi imprudentemente:
— Podes esperar toda a vida, que te não beijarei as mãos, quanto mais os pés.
Ê preciso ser mulher bem ordinária para fazê-lo.
De resto, sereis sempre bons amigos, porque onde não há honra não pode haver ofensa.
— Ah! — exclamou com a voz inteiramente mudada.
Mara, tua língua te custará a vida, apesar da minha indulgência sem limites para contigo.
Inclinou-se para mim, ameaçador:
— Achas que sou indigno de que me beijem os pés; pois bem, eu te forçarei a fazê-lo, a ti que tanto desdenhas o teu futuro imperador.
Um tal ou qual terror se apoderou de mim; arrependia-me de haver arriscado semelhante ofensa, mas, minha convivência com Tibério me havia ensinado certas pequenas manobras que podiam ajudar a dominá-lo (não fosse eu mulher); assim, apesar da profunda aversão que lhe votava, servia-me desses pequeninos meios para tornar mais tolerável a situação.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:14 pm

Minha força era a delicadeza do meu físico, pois, extremamente fraca, desarmava-o sempre; suas mais violentas manifestações de cólera se extinguiam diante das minhas lágrimas e da palidez (meios, aliás, de que raramente me servia).
Devo confessar, apesar de tudo, que a convivência me habituara a esse homem, a despeito do meu ódio, porque eu não o deixava jamais, visto que me guardava como gato ao rato.
Conhecia-lhe as fraquezas, e, astuciosa, as explorava; quando ele me cobria de grosserias e insolências, procurava acalmá-lo, emprestando à voz uma entonação terna e cheia de escusas.
Naquele lance, arrependia-me do que dissera.
Sem dúvida, não acreditava que ele pudesse forçar-me a praticar um ato degradante, beijar-lhe os pés; mas, ainda dessa feita, temia-lhe a violência.
— Então — prosseguiu — levanta-te e vem beijar-me o pé!
Levantei-me.
— Estás louco! — respondi — bem sabes que o não faria jamais.
— Ah! — berrou já fora de si — pois isso te custará a vida.
Em vez do punhal, tomou do chicote que tinha servido para Febé.
O momento se tornava crítico e previ que a cena poderia acabar mal, porque, embora sempre mantivesse atitude que importava em obediência, a qualquer um outro alto personagem, talvez concordasse em conceder esse testemunho de respeito, sem me sentir muito humilhada, mas tratando-se dele, eu preferia a morte antes que lhe dar tal satisfação.
Mesmo quando me ameaçava brandindo o punhal, não cedia.
Para abrandar-lhe a cólera, porém, propus abraçá-lo espontaneamente e ele concordou de pronto.
Fizemos as pazes.
A necessidade me fizera hábil comediante, quando, sem constrangimento aparente, passava os braços pelo seu anguloso pescoço e lhe beijava os lábios pintados, sem, entretanto, tisnar os meus.
Um dia, ao findar esse ano, Febé veio procurar-me e confidenciou que meu pai e meu irmão Aleric se achavam ocultos em Roma; haviam fretado um navio, tramando minha fuga; de tudo estava informada, e como a minha presença lhe fosse incómoda, desejava que me evadisse e me ajudaria a fazê-lo na primeira ocasião que Tibério se ausentasse de Roma por dois ou três dias.
O plano surtiu efeito, tudo correu a contento e passei um dia feliz a bordo, livre e rodeada por meu pai e meu irmão.
Mas o destino devia cumprir-se.
Tibério regressou inesperadamente e me perseguiu sem trégua nem vacilações.
Não estávamos ainda muito longe, quando vimos o mar coalhar-se de embarcações cheias de soldados romanos.
Aqueles barcos ligeiros, muito bem dirigidos, cedo nos alcançaram; fomos cercados e recebemos uma chuva de archotes acesos.
Logo envolvidos pelas chamas, desesperada e furiosa com a perspectiva de perder novamente a liberdade, atirei-me ao mar atrás de meu pai e de meu irmão, mas os soldados me retiraram das ondas e me entregaram ao perseguidor.
Tibério, vendo que eu preferia a morte à sua companhia, arrancou do punhal e feriu-me o peito mortalmente.
Longa e dolorosa foi a minha agonia.
Minha alma não se separou do corpo senão lentamente.
Já agonizante, percebi que Hilderico vinha ao meu encontro.
Quando tudo tinha acabado, lancei um derradeiro olhar aos meus despojos mortais e vi Tibério ainda abraçado ao meu cadáver,
Decorrido muito tempo, muitos anos para os homens e um instante no mundo dos espíritos, nos encontrávamos todos reunidos e, contudo, ó nosso julgamento não tinha sido marcado, porque faltava Tibério.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:15 pm

Ele reinava ainda, arrogante imperador, desfrutando todas as honras e saciando-se de crueldades.
Certa feita, passou entre nós um murmúrio, que massas transparentes transmitiam umas às outras.
— Tibério atinge o fim; vamos recebê-lo e conduzi-lo a julgamento.
Achava-me com Hilderico e também quisemos ir ao seu encontro.
À nossa passagem, muitos espíritos se nos juntaram, formando logo um verdadeiro exército.
Todos tínhamos sido tiranizados por aquele que íamos recepcionar.
Em massa compacta, movendo-nos qual nuvem tempestuosa, baixamos ao palácio de Tibério.
As sentinelas de guarda às portas, imóveis qual estátuas, não puderam opor-se à nossa invasão.
Numa alcova decorada com luxo real e francamente iluminada, estava um velho estendido no leito.
Havia mudado bastante desde a época em que eu o deixara; a velhice acentuara ainda mais os traços angulosos dando-lhe o fácies de uma crueldade ainda maior; parecia
enfraquecido, mas, nos olhos encovados brilhava uma chama lúgubre, cheia de energia e orgulho.
Entre os visitantes invisíveis, muitos o contemplavam cheios de ódio e enraivecidos, comprimindo-se ao redor, enquanto ele apoiava-se num dos cotovelos e meditava.
Não via, sem dúvida, aqueles inimigos, mas foi tomado de opressão mais forte e profundo suspiro lhe escapou do peito.
— Dentro em pouco — murmuravam as massas flutuantes e cheias de ódio — deixaras este asilo que te colocou acima da justiça humana.
Nesse momento, um homem togado entrou de mansinho, aproximou-se e tomou-lhe o pulso, dizendo logo a seguir:
— Todo o perigo, passou; ainda viverás muito tempo.
Um riso escarninho agitou a turba insaciável, que apertou mais o cerco.
O homem saiu e a cabeça do poderoso imperador recaiu nos travesseiros.
— Que os deuses sejam louvados — murmurou ele — viverei por muito tempo.
Os espíritos se agitam:
— Eles vêm, eles vêm!...
Essas palavras passaram entre nós como um sussurro.
Com efeito.
Alguns homens entram; dois escravos assentados perto do leito se levantam e depois ficam imóveis; os recém-vindos investem para Tibério.
Ele ergue-se, compreende o perigo; seu rosto se torna lívido, os olhos se dilataram; procurou uma arma e não encontrou, quer levantar-se, mas o corpo não obedece; grita, mas a voz, que durante cerca de quarenta anos congregou massas de homens e de exércitos, à menor suspeita, desta vez, permanece sem eco.
A multidão transparente de espíritos se comprime entre os assassinos e parece tudo dirigir; percebem-se suspiros roucos e, depois, abafado estertor.
Eu me quedava à parte, com outros espíritos, quando uma vibração toda espiritual, somente a nós, perceptível, anunciava a morte de Tibério.
Instantaneamente, no meio dos espíritos, aparecia um feixe de fios luminosos, qual fuso que se desenrola, e imediatamente o perispírito de Tibério se mostrou já condensado.
Confinado e envolvido, recuou apavorado, mas a massa nevoenta o reteve e se elevou no espaço com o seu troféu, enlaçado e mantido por centenas de fios luminosos.
Os demais espíritos afastaram-se para dar passagem ao nosso estranho cortejo, que conduzia, enfim, à justiça e à expiação, a alma daquele que perdera todo o poder terrestre e agora nada mais era que um grande culpado, abandonado à sanha de milhares de inimigos.
LÉLIA*

*NOTA: Lélia é o mesmo Espírito que figurou em Faraó de Mernephtah com o nome de Amaragda; em "Herculanum" como Virgínia; em "Abadia dos Beneditinos" como Rosannda e foi a médium Wera, filha de importante família russa, que Rochester preparou para receber os seus ditados.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:15 pm

NARRATIVA DE VELEDA

Nasci em Pompeia, filha de abastado negociante.
Nossa casa de comércio achava-se num dos melhores quarteirões da cidade e negociava em vinhos, óleos aromáticos e perfumes.
Titus, meu pai, já velho e doente, tinha entregue todos os encargos do negócio a mim e a Tito, meu irmão adoptivo.
Minha mãe, há muito falecida, era germânica aprisionada pelos romanos.
Eu dirigia o negócio e atendia os fregueses auxiliada por Tito, que o surtia em mercadorias.
Assim vivíamos, tranquilos e felizes em nossa mediocridade, que nada parecia dever perturbar.
Ao tempo em que começo este depoimento, contava os meus dezassete anos e era tida como beldade das mais notórias de Pompeia; acabava de contratar casamento com Tito, coisa que meu pai mais almejava, certo de que, sob nossa direcção, o negócio prosperaria. Tito era um belo rapaz, que qualquer ricaça pompeiana desposaria de bom grado; mas a verdade é que ele me adorava e preferia a qualquer outro, partido.
Cumpria-me desenvolver muita actividade para atender à clientela, pois a casa era muito afreguesada e, devo confessar, minha pessoa lhe emprestava grande atractivo, pela formosura que atraíra muita gente; jovens e ricos patrícios raramente deixavam passar um dia sem adquirir alguma coisa das mãos da «bela Veleda».
Uma tarde, regressando das compras, Tito mostrou-se muitíssimo entusiasmado, dizendo:
— Sabem o que se propala?
Uma das legiões, que voltaram da Germânia, com Tibério, vai aquartelar aqui; mas o principal é que o procônsul Gálio, vem igualmente residir nesta cidade.
Consta, ao demais, que já se cogita de preparar-lhe magnífica recepção.
Também exultei com a notícia, pois há muito não se realizavam festas dessa natureza.
Não se passaram muitos dias e correu por toda a cidade que «o ilustre Gálio, amigo e companheiro de armas de Tibério, vindo da Germânia coberto de glórias, resolvera fixar-se na cidade natal, a fim de repousar das fadigas da guerra, e que, desejando homenagear o regresso do grande cidadão, honra da pátria, o Senado local resolvera que se lhe preparasse uma recepção triunfal.
A notícia alvoroçou a pequena cidade e todos se preparavam, cuidando também de aumentar, na medida de suas possibilidades, o brilho da manifestação.
Foram erguidos arcos de triunfo engalanados de flores e folhagens, constituídas comissões para ir ao seu encontro, as moças de Pompeia, à entrada da cidade, deveriam entregar-lhe flores e valiosos presentes.
Entre as mais belas, participei dessa comissão feminina, e a questão da minha Claudette me absorveu inteiramente.
Depois de muito pensar, decidi-me por um vestido cor-de-rosa, enfeitado com pregas de ouro e um véu branco marchetado de estrelas douradas..
Chegado o dia solene, coloquei sobre os cabelos louros uma coroa de rosas e, num último olhar ao espelho de metal, dei-me por satisfeita.
Nada obstante, sem motivo justificável, vaga inquietação, um estranho mal-estar foi-me possuindo aos poucos, e, corno houvesse esperado aquele dia com grande impaciência e alegria, não podia compreender-me a mim mesma.
Tito também observou meu nervosismo.
— Que te falta ainda, Veleda? — perguntou.
Estás-me parecendo esquisita; numa ocasião como esta tudo te enfada, nada te satisfaz.
Vamos. O ar puro dissipará o mau humor.
Tomou-me a cesta de flores e folhagens, e, a certa altura, nos separamos porque ele fazia parte doutra comissão.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:15 pm

Colocaram-me na primeira fileira de moças e aguardamos.
Junto à porta de acesso à cidade, alcatifada de folhas e decorada com magníficas cortinas, comprimia-se a multidão de cabeflas ondulantes como vagas marulhosas e todos os olhares se concentravam na direcção em que deveria apontar o cortejo.
Eu sobraçava convulsivamente minha cesta florida e o mal-estar, a inquietação que me haviam torturado em casa, aumentavam de instante a instante nessa expectativa.
Apesar do calor abrasante, sentia frio e febre, tendo os olhos como que cravados no arco de triunfo, cuja metade se ocultava atrás da massa popular.
— Estás doente, Veleda? — perguntou uma das moças vizinhas — vejo-te tão pálida e trémula!...
Nada respondi, porque no momento um eco longínquo me chegava aos ouvidos.
Eram as aclamações frenéticas dos que saudavam a passagem de Gálio.
Todos os meus sentidos se concentraram na vista; a mole popular, electrizada, acabava de se dividir em duas, enquanto os batedores abriam alas em grandes brados, precedendo o brilhante cortejo.
À frente os prisioneiros; depois os soldados e finalmente Gálio, de pé, num carro dourado, ostentando a purpurina toga.
O sol se lhe esbatia na armadura e no capacete em revérberos de ouro, rodeado de numerosos oficiais qual se fora o próprio deus da guerra.
Quando o carro passou rente a mim, inclinei-me reverente e lhe atirei aos pés as flores da cesta.
Imediatamente estremeci.
Gálio acabava de parar e inclinava-se para mim.
Fixou-me um olhar que me feriu como acerado punhal partido de uns olhos pardos como os do tigre e cheio de admiração não disfarçada.
— Quem és e como te chamas, bela rapariga?
Balbuciei uma resposta: a emoção me sufocava, e quando dei acordo de mim o carro tinha desaparecido na massa popular e somente as exclamações indicavam a direcção do cortejo.
Cercaram-me, felicitavam-me por ter merecido a honra de ser notada por Gálio, mas, sempre muito orgulhosa, não podia regozijar-me com aquele triunfo inesperado.
Não compreendia o motivo dessa tristeza e sentia, apenas, que a admiração de Gálio me era odiosa.
De regresso a casa, comentou-se o imprevisto incidente e meu pai disse, abanando a cabeça:
— O mal é maior que a honra; ser bela e identificada por um tirano, não pressagia nada de bom.
Que os deuses nos preservem de uma desgraça!
Ouvi hoje muita coisa a respeito de Gálio, mas nada ouvi de bom; cruel e libertino, tal como Tibério, seu ilustre amigo.
— A propósito — interrompeu Tito — conversei com alguns soldados da legião que acaba de chegar e me contaram coisas interessantes da guerra, inclusive que Tibério trouxe da Germânia uma jovem prisioneira, filha de um chefe, a qual se deixara aprisionar cedendo o seu cavalo ao seu próprio noivo para o salvar.
Essa bela e corajosa mulher chama-se Lélia.
Tibério leva-a consigo por toda parte e ela o destrata horrivelmente, ao que se diz.
— Aí está uma coisa de que eu duvido muito — disse meu pai.
Uma rapariga prisioneira, sem protecção, maltratar Tibério!
Ele já a teria matado há muito tempo.
— É com efeito inacreditável— acrescentou Tito — mas pretende-se que ela o maltrata de todas as maneiras.
Não sei por que o nome dessa Lélia desconhecida me, chocou.
Seria por mera compaixão? Minha mãe também fora germânica.
Qual o crime dessa pobre moça arrancada à família, ao noivo, e posta sob o jugo de Tibério?
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:16 pm

Muitas vezes, não sabemos onde nascem as ideias; mas, fosse pressentimento ou o que fosse, o certo é que pensava comigo mesma:
Se alguém viesse igualmente arrancar-me Tito, ou meu pai, e se fosse Gálio, por exemplo, como não o odiaria e maltrataria!
Eu justificava Lélia.
Gálio quis retribuir dignamente a magnífica recepção que lhe haviam tributado os conterrâneos; organizou festas, jogos e representações no circo, e a que eu e Tito não faltamos.
Um dia, houve uma festividade nocturna em que tudo resplandecia à luz das tochas.
Ele perambulava familiarmente entre a multidão para fruir da alegria que proporcionava aos pompeamos.
Também lá estávamos eu e meu noivo confundidos na massa popular.
Já muito longe notei que o procônsul caminhava seguido de vários escravos carregando sacos de moedas e cestas contendo quinquilharias, que distribuía de passagem.
Ora parava para falar a um pacato negociante, ora dirigia uma palavra ou um sorriso a alguma bonita moça, mas seus olhos brilhantes não demoravam em ninguém; pareciam buscar qualquer coisa e perscrutavam avidamente a multidão que o cercava.
O rumo seguido devia fazê-lo passar junto de mim; instintivamente, quis recuar e desaparecer entre a multidão, mas o destino havia criado uma barreira intransponível de corpos humanos, que se comprimiam para a frente e não me deixavam qualquer brecha de escapamento. Involuntariamente, apertei mais fortemente a mão de Tito, que, no momento se inclinava para mim, dizendo:
— Gálio vai passar e estou certo que falará contigo; diz-lhe, então que sou teu noivo e ele nos dará talvez um presente, pois está distribuindo ouro.
Nada respondi, mas a ideia de receber um presente de Gálio me repugnou no mais alto grau.
Não tive, contudo, tempo de meditar, pois o procônsul se aproximava e parava diante de mim.
Seus olhos, que continuavam a perscrutar a turba, deram comigo e um sorriso de contentamento lhe aflorou no rosto seco e anguloso.
— Ah! a bela Veleda — disse, pois não havia esquecido o meu nome.
Aproximou-se lesto e tomou-me a mão apertando-a com efusão.
Eu estava como que aniquilada; sentia dever responder-lhe alguma coisa, mas faltava-me a palavra.
Vendo-me assim perturbada, sorriu.
— Acalma-te, bela menina, eu te protegerei e dispensarei amizade.
Tito me apertou o braço querendo, sem dúvida, lembrar os presentes esperados.
O olhar arguto do procônsul percebeu o sinal de inteligência:
— Que é isso? — perguntou franzindo o cenho. Já Tito ensaiava uma resposta, quando interrompi:
— Este é meu irmão — disse tomada de emoção; eu era mulher e a mulher acabava de compreender o sentido e o alcance das palavras de Gálio e a expressão que as acompanhara; meu coração me advertiu que Tito acabava de correr terrível perigo; ele ficou aturdido, mas compreendeu pela expressão do meu olhar que devia conter-se.
— Onde moras, Veleda?
Como poderia esconder-lhe o endereço? Disse-lho.
— Muito bem; irei a tua casa fazer algumas compras.
Inclinei-me profundamente.
Então, tirou de si magnífica jóia e ma entregou dizendo:
— Usa-a como penhor da minha estima, e que Júpiter te conserve a saúde.
Curvou-se, enquanto o seu olhar cintilante mergulhou no meu.
Depois, estendeu o braço para um dos sacos contendo peças de ouro, que os escravos conduziam, tomou um punhado e deu a Tito, seguindo após nos apertos de mão.
Eu sufocava, faltava-me o ar.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:16 pm

— Vamo-nos embora quanto antes — disse a Tito — não posso aqui ficar mais tempo, falta-me o ar.
— Estás no teu juízo, Veleda? — retrucou ele — não vês que a festa apenas começou e haverá uma...
— Vamos, quero ir-me embora — conclui, interrompendo-o resoluta.
Cedeu, como sempre, à minha vontade, tomamos o caminho de casa.
Lá chegando, deixei-me cair num divã e explodi em soluços; depois lancei fora o pegador que acabava de receber.
Tito, que me observava espantado, comentou para meu pai:
— Veleda é insensata; Gálio nos cumulou de gentilezas e nos prometeu vir e sem dúvida fará grandes compras.
— Não passas de um idiota — disse meu pai — se Veleda chora, deve ter motivos sérios para fazê-lo.
Levantei a cabeça.
— Se prezas a vida e o nosso futuro, Tito, não digas jamais, por enquanto, que és meu noivo, porque Gálio quer nos perder; não viste o seu olhar desconfiado e ameaçador, ao indagar quem eras?
Tito bateu na testa:
— Ah! tolo que sou!
Agora tudo compreendo; mas não podia imaginar que um tal personagem pudesse olhar-te com tais intenções.
Agora, que fazer? Como salvar-nos?
Meu pai abanou tristemente a cabeça:
— Fugir — disse — é irritá-lo desde logo; um tirano tão rico e poderoso, é capaz de tudo.
Meu conselho é aguardar e agir segundo as circunstâncias.
No dia seguinte Gálio foi à loja.
Assentou-se e lhe ofereci vinho, que bebeu, à minha saúde; depois de haver conversado e feito vultosas compras, despediu-se sorrindo amavelmente e apertando-me a mão.
Na tarde desse mesmo dia, ocupada na arrumação de umas mercadorias, entrou na loja uma tal Cláudia.
Eu a conhecia; era tida por feiticeira, intrigante e agenciadora de amantes para os patrícios ricos.
à chegada dessa criatura tão mal-afamada, fez-me subir o sangue à cabeça, pois compreendi o que significava a visita; temendo-lhe, porém, as bruxarias, procurei dissimular a raiva e convidei-a a sentar-se, oferecendo-lhe doces e vinho.
Depois de haver comido e bebido, disse olhando-me com admiração:
— Como és bela, Veleda.
Tua sorte, não pode vegetar numa loja obscura; acredita-me, eu leio o futuro e ele te promete riqueza e amor de um homem poderoso.
— Boa Cláudia,— respondi — sinto-me tão feliz que nada mais desejo que viver e morrer nesta casa.
Nenhuma riqueza, o amor do próprio Tibério, não poderia substituir a ventura de meu casamento com Tito, de quem sou noiva, como sabes.
— Maluquinha — retrucou Cláudia — desprezas a sorte e repeles um futuro de que não fazes nenhuma ideia; escuta, vou descrevê-lo.
Encostei-me à mesa, cruzei os braços.
— Fala, mas, ainda que me mostrasse os esplendores do Olimpo, nem assim me tentarias.
— Criança, ouve antes de falar: tu deixarás esta pobre vivenda para habitar um palácio ornado de colunas de mármore; poltronas estofadas e bordadas a ouro, ao invés destas cadeiras de pau; escravos dedicados adivinharão na tua fisionomia a menor expressão dos teus desejos; encantarão teus olhos com danças e os ouvidos com os seus cantares; as iguarias mais raras, os vinhos mais deliciosos, ser-te-ão servidos em baixelas de ouro; esses vestidos de lã serão troçados por outros de seda preciosa, com jóias dignas de tua beleza; teus pequeninos pés jamais tocarão o pavimento das ruas; quando deixares teu palácio serás levada em liteira dourada, recostada em macias almofadas; fruirás sempre a companhia de um homem poderoso e poderás dizer a ti mesma, com satisfação:
aquele diante do qual todos se inclinam até o pó, curva-se diante de mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:16 pm

Aceita o amor daquele que me envia e ele colocará a teus pés todas as delícias do inundo.
Ouvi, contendo a respiração:
— E que deverei fazer para obter o céu na terra?
— Somente amar o potentado que me fez sua mensageira, acompanhar-me permanecendo em minha casa o tempo necessário para mudar os andrajos que te cobrem por vestidos de seda e pedrarias.
Eu respirava com dificuldade.
Ódio e desprezo sufocavam-me.
— Vou dizer-te, Cláudia, o que se pede em troca desta riqueza:
é a minha honra, e o homem que te envia é Gálio; compreendi seus projectos vendo-te entrar.
Agora, se a minha mensageira e leva-lhe a resposta.
Jamais. — ouviu? — jamais pretendo amá-lo; desdenho o seu ouro, tanto quanto o seu amor, e desejo unicamente que me deixe em paz.
Transmite-lhe isso.
Cláudia levantou-se:
— Louca que és — disse — tu te perdes porque Gálio te ama e não é homem para renunciar a uma coisa que deseja tão apaixonadamente.
Curva-te, senão quiseres perder-te com todos os teus!
— Não, não! — exclamei fora de mim — vai-te, jamais pertencerei a Gálio.
Ela partiu e corri para junto de meu pai, a fim de inteirá-lo da malfadada ocorrência.
Ele torceu as mãos, desesperado:
— Eis a desgraça que eu previra — disse — minha pobre Veleda, se os deuses não nos salvarem, estamos todos perdidos.
Nesse momento abriu-se a porta e Tito entrou seguido de um rapaz.
— Veleda, pai, vede quem aqui está— disse prazenteiro.
Voltei-me e reconheci no recém-chegado um amigo de infância, Marcos, filho de um rico mercador de trigo, que havia estudado medicina e se tornara médico de Tibério.
Abraçamo-lo cordialmente, eu e meu pai, dizendo-lhe este:
— Que feliz acaso aqui te traz, meu caro Marcos?
Não estás mais adido à corte de Tibério?
— Vim passar apenas umas semanas, visitar minha velha mãe e resolver negócios urgentes.
Tibério só a contragosto me concedeu esta licença, porque precisa frequentemente de mim.
Fechamos então a loja para conversar mais à vontade.
— Conta-nos algumas novidades de Roma e da corte — disse meu pai — lá no centro do mundo político tudo podes saber.
Marcos apoiava-se na mesa e denotava tristeza e sofrimento.
— Escuta — disse-lhe tocando no ombro — é verdade que Tibério trouxe da guerra uma jovem germânica que o maltrata?
Aguardava a resposta com ansiedade.
Se, de facto, uma mulher ousava maltratar Tibério, um futuro imperador, maior direito me assistia de fazer o mesmo a Gálio, se ele ousasse aproximar-se.
 minha pergunta, súbita palidez cobriu o rosto de Marcos.
— Que os deuses nos preservem sorte igual a da pobre Lélia!
Feliz, tu, Veleda, por não teres sido focalizada por um tirano; bela qual és, procura fugir dos olhares de um potentado, porque, em lhe caindo em graça, terás em perigo a própria vida.
Não pude conter um profundo suspiro.
Tarde vinha o aviso; a desgraça me atingira; queria, entretanto, colher o maior número possível de informações sobre essa companheira de infortúnio, que combatia em Roma o que certamente me competia fazer em Pompeia.
— Meu Deus! — acrescentou Marcos — em retribuição ao tratamento que Tibério lhe dispensa, Lélia o maltrata muito pouco.
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Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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