Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 2 de 3 Anterior  1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:16 pm

Tive ocasião de vê-la ainda no acampamento, logo que a apresaram.
Trata-se de uma jovem selvagem, aferrada aos seus afins e que se julga muito ilustre, porque é filha de um chefe.
Durante a viagem, esteve gravemente enferma, conduzida em liteira, entre a vida e a morte e sob os meus cuidados.
Tibério já se interessava tanto por ela que vinha vê-la a todo o instante, repetindo:
— Marcos, é preciso que viva; toma nota!
Fiz para isso todo o possível, e, embora se trate de uma constituição delicadíssima, poucos dias depois de chegarmos a Roma, ela se restabelecia.
Tudo ia bem quando, uma noite, fui despertado em sobressalto:
— Vem ao palácio depressa, quanto antes — dizia o escravo.
Corri até lá, levando a botica dos remédios.
Ao entrar, fiquei estupefacto:
Tibério estava de pé, lívido e ensanguentado; colar e roupa em frangalhos; pescoço, braços, mãos, rosto, tudo coberto de ferimentos.
Fecha as portas e pensa-me — ordenou o imperador.
Obedeci e apliquei-lhe pomadas e emplastros.
Quando terminei, disse:
— Salva a besta!
Olhei, espantado, ao redor, porque acreditava que estivéssemos sozinhos e só então percebi, no chão, um corpo inerte e, ao lado, um chicote.
Recuei apavorado, era Lélia, exânime, com o corpo crivado de horrorosas equimoses.
Ouvindo Marcos, meu coração batia angustiado; era o poder de que me falara Cláudia, a tirania do forte contra o fraco, era o que me esperava.
Então, perguntei ofegante:
Que fizeste?
— Ergui-a e auscultei-lhe o coração, que batia fracamente.
Nesse momento, infernal ideia me ocorreu e perguntei a mim mesmo se o melhor remédio não seria facilitar a morte da infeliz criatura.
Em assim falando, Marcos levantou-se e comprimiu a fronte com as mãos.
— Tibério é me odioso — acrescentou — vocês não sabem o que é servir a um tirano detestado, que desejaríamos enforcar e ao qual somos obrigados a demonstrar humildade, obediência, admiração por seus pretendidos méritos.
Quando quis erguer Lélia, Tibério se aproximou e me auxiliou a colocá-la no leito; seus olhos cruéis e desconfiados, não se despregavam do corpo inerte da moça.
— Reanima-a e te recompensarei regiamente — disse, abaixando-se para escutar se o coração ainda batia.
A miserável me mordeu levando-me a puni-la, pois do contrário não teria tocado neste miserável esqueleto; mas, que fazer agora?
Prescrevi logo um banho quente.
Tibério não me largou um instante e ajudava-me juntamente com as negras, no banho à enferma, que continuava desacordada, e a pensá-la e acomodá-la.
Oh! como é bela, Veleda; se tu a visses!
Terminadas as ligaduras, Tibério assentou-se à beira do leito, segurava a mão de Lélia e perguntava a cada instante:
— Marcos, ela ainda vive?
Oh! eu lhe pagarei estas horas de inquietação.
Depois inclinava-se:— Lélia, Lélia, gata selvagem, escuta; eu perdoo os teus crimes, olha-me! — e abraçava-a.
Tudo aquilo me revoltava por tal forma que nem sei como dizê-lo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:16 pm

Por fim, sentiu-se fatigado e deitou-se noutro leito, ficando eu junto da enferma.
Desde que um ronco sonoro e estentórico anunciou que Tibério dormia profundamente, a moça reabriu os olhos e me fixou suplicante, tomando-me a mão:
— Marcos, mata-me; é um ato de caridade.
Já minha mão mergulhava na caixa de remédios para dar-lhe a morte desejada, quando, fixando-a, não tive coragem e pus-me a tremer.
— Lélia — disse-lhe — pede-me tudo que quiseres, menos a morte, porque não me sinto com forças para tanto.
Apertava-lhe a mão, quando, nesse instante, Tibério levantou a cabeça:
— Ah, conversais!
De um salto veio para junto de Lélia, que fechou os olhos e calou-se.
— Marcos, tenho gana de mandar degolar-te, por causa dos teus remédios que atuam como narcóticos na doente — e seu olhar, cruel e perscrutador, procurava descobrir na minha fisionomia o que presumia estivesse no meu coração.
Lélia abriu imediatamente os grandes olhos azuis.
— Ah! é um milagre,— disse Tibério; Marcos, teus remédios são bons e não desejo tua cabeça; vejo que ela sabe apreciar devidamente a excelência do teu tratamento, sobretudo para casos como o de hoje.
Ela fitou-o com desprezo:
— Abominável tirano, odeio-te, e se te aproximas experimentarás outra vez os meus dentes.
A estas palavras, o monstro pôs-se a rir, mas, contrafeito.
— Conheço os teus dentes, pequena víbora que aqueço em meu regaço; mas, não desanimo; tu hás-de amar-me um dia!
— NUNCA, NUNCA! — respondeu ela.
— Esta vida de médico se me torna odiosa de dia para dia — acrescentou o rapaz enquanto caminhava agitado.
Apesar das nuvens tempestuosas que se acumulavam sobre minha cabeça, eu era muito jovem e ingénua para não esquecer tudo, para não
satisfazer minha curiosidade de momento.
Assim, quis obter de Marcos notícias dos amigos de infância, que ainda viviam em Roma.
— Diz-me, Marcos, que é feito do nosso belo Astartos e como vive ele em Roma?
E Agripa?
Com este deves estar frequentemente, pois não é certo que ele serve na guarda de Tibério?
Marcos sorriu.
— Astartos é um verdadeiro astartos no horizonte do circo; sua beleza maravilhosa faz as mulheres perderem o juízo e acredita-se que mais de uma ilustre patrícia o admira muito mais do que deseja.
Em geral, os pais e os maridos vislumbram traições quando o belo gladiador passeia pelas suas vizinhanças.
É preciso acrescentar, de resto, que ele possui uma coragem incomparável; é o primeiro domador de feras e nada mais surpreendente que ver os leões submissos ao seu olhar.
A propósito, lembras-te de Febé, que fugiu há alguns anos?
Ainda eras menina quando isso aconteceu, mas o caso deu que falar, porque o velho pai dela morreu de desgosto.
Pois bem, agora se fez amante de Tibério, após uma vida muito acidentada.
Começou com procedimento muito irregular em Roma, depois, amasiou-se com Astartos, que a fez dançarina do circo.
Um dia, durante uma representação, Tibério agradou-se dela e tomou-a para si, presenteando Astartos com uma taça de ouro para o indemnizar.
Fiquei espantada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:17 pm

— Como — perguntei — Tibério mantém as duas ao mesmo tempo, Febé e Lélia?
— Não. Febé não é mais a sua favorita, apenas conserva o lugar junto dele, lisonjeando-lhe desmedidamente a fatuidade e fingindo uma paixão louca, além de chamá-lo um deus.
É uma criatura ordinária, que associa igualmente Sejano.
Tibério sabe dessa ligação, mas nada diz, muito preocupado com Lélia, que lhe dá muito o que pensar e Febé desempenha perfeitamente os dois papéis.
Nesse momento, Tito saiu para trazer alguns refrescos.
Então Marcos me disse:
— Veleda, tenho um encargo junto de ti, da parte de Agripa.
— Que é? — perguntei.
— Quando Agripa te reviu na sua últirna viagem a Pompeia, tua beleza lhe causou tal impressão que não pode mais esquecer-te e incumbiu-me de consultar-te se consentes em esposá-lo.
Esta revelação caiu sobre mim como um raio.
— Ama-me Agripa, então? — repliquei admirada.
— Sim — acrescentou sorrindo; somente temo que ele tenha chegado tarde demais, porque Tito me disse que eras sua noiva; entretanto, não quis ocultar-te esse pedido.
Talvez pudesses mudar de opinião.
Agripa é um partido inesperado; rico, patrício, constitui em todos os sentidos um outro destino que te não pode dar Tito. Pensa nisso.
Baixei a cabeça e meditei.
Conhecia Agripa da mais tenra infância; era um belo moço, mas muito exaltado, caprichoso, querendo sempre mandar em todos, até mesmo em mim; ao passo que eu dominava Tito, que só fazia o que me convinha e agradava.
Ê verdade que Agripa era patrício, mas isso pouco me tentava.
Meu carácter inflexível e dominador detestava toda espécie de sujeição; aqui eu era senhora absoluta, minha vontade, meus caprichos, eram leis; com Agripa, seria preciso conformar e esforçar por satisfazer-lhe todos os desejos, porque sempre julgaria haver feito um favor e um grande sacrifício desposando-me.
Seria desdenhada e mal vista pelas outras patrícias, por causa de minha origem plebeia; todo o meu orgulho se manifestou diante dessa hipótese.
Não, melhor seria permanecer no meu lugar, dirigindo Tito.
Expliquei tudo isso a Marcos, que me ouvia atento.
— Tens muita razão, admiro o senso e clareza do teu raciocínio.
Uma velha cabeça de filósofo não pensaria melhor que o teu cérebro de dezassete anos.
No dia imediato e nos que lhe sucederam, Cláudia recomeçou suas visitas e insinuações, transmitindo-me da parte de Gálio promessas sempre mais sedutoras.
Eu dissimulava e procurava ganhar tempo, mas Tito, por mim informado da finalidade dessas visitas, cometeu grave imprudência.
Um dia, encontrando-a novamente comigo, indignou-se e, encolerizado, proferiu contra Gálio pesadas injúrias; depois, pegando Cláudia pela nuca, atirou-a escada a baixo.
Sem prever as terríveis consequências deste episódio, rimos a mais não poder da maneira cómica como saiu a intrujona.
Na manhã seguinte, ocupava-me em transvasar óleo perfumado de uma grande ânfora para pequenos vidros, quando um reunir de armas ressoou na porta e um oficial, seguido de alguns soldados, entrou na loja.
Aterrorizada, meu coração cessou de bater.
Que significava aquilo?
Nossa incerteza não demorou muito: o oficial desenrolou um pergaminho e leu uma ordem de prisão para Tito, por insultos graves e ameaças de morte proferidas contra o procônsul Gálio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:17 pm

Banhada em lágrimas, atirei-me nos braços de Tito, queria defendê-lo; meu velho pai acorreu também, mas nada conseguimos.
Os soldados me repeliram brutalmente, ligaram os pulsos de Tito, puseram-no entre eles e foram-se.
Tito mostrou-se firme e corajoso; não pronunciou qualquer palavra imprudente, exortando-me apenas que tivesse calma.
Depois que ele se foi, terrível desespero se apoderou de mim e de meu pai; Tito, nosso auxiliar e arrimo, prisioneiro e talvez condenado à morte.
Era horrível! Sentimos que era preciso tentar salvá-lo, mas não sabíamos como fazer.
À tarde, veio Marcos. Cobrimo-lo de perguntas; ele, acostumado na corte, devia saber como agir, a quem nos dirigirmos para salvar Tito.
Abanou tristemente a cabeça:
— É um caso difícil— disse.
Sabeis que o poderoso é sempre justo, mesmo que seja mil vezes injusto e tirânico.
O único conselho que eu posso dar é irem os dois se prostrarem aos pés de Gálio, num dia de audiência; melhor ainda, se forem amanhã à casa dele, à hora do almoço; eu vos introduzirei, porque sou um dos convidados.
Haverá lá muita gente e talvez ele não ouse, diante dos convivas, revelar suas verdadeiras intenções relativamente a Veleda e solicitarão graça para Tito.
No dia seguinte preparamo-nos e fomos para as proximidades do palácio, aguardar a chegada de Marcos, que, inicialmente, procurou encorajar-nos, dizendo que Gálio muito o estimava por sua condição de médico de Tibério; que tivera mesmo ocasião de tratá-lo durante a guerra, e prometeu interceder na medida do possível, sem despertar suspeitas.
Após essa ligeira digressão, penetramos no átrio.
Compacta massa de escravos e criados entravam e saíam do interior, conduzindo enormes travessas de assados e pastelarias, grandes ânforas de vinho e cestas dos mais belos frutos.
Nos degraus de mármore que conduziam ao interior, estava disposta uma fileira de soldados.
Quiseram impedir-nos o acesso, mas Marcos, familiar da casa, disse:
Deixai passar esta pobre gente, eu a conheço; querem implorar uma graça ao procônsul.
Então deixaram-nos entrar, atrás de Marcos, para um extenso peristilo sustentado por colunas de mármore branco, onde nos foi mandado esperar.
Lancei ao derredor um olhar curioso.
Luxo fabuloso me cercava.
Cortinas de seda escarlate bordadas a ouro, ornamentavam as portas; piras enormes espalhavam ondas de perfume; dando alguns passos à frente, pude entrever a sala do banquete, que aparecia através das colunas.
Extensa mesa, sobrecarregada de baixelas preciosas, estava posta e rodeando-a, refestelados em leitos de repouso, acomodavam-se os convivas ricamente vestidos e coroados de rosas; escravos e raparigas circulavam enchendo de vinho as taças vazias.
Esforcei-me por distinguir Gálio e imediatamente o reconheci:
coberto de jóias, coroa de louros à fronte, permanecia recostado, apoiando-se no cotovelo; rosto afogueado, erguia, no momento, a taça em honra a uma jovem prisioneira germânica, que lhe servia o vinho em atitude desesperada.
Era, pois, o luxo de que me falara Cláudia.
Comprimi o coração, que parecia romper-se de tanto bater; um ódio feroz contra Gálio me sufocava.
Dirigir-lhe uma súplica parecia-me um tal suplício, que, por vezes, preferia mesmo a morte de Tito a essa humilhação; depois, uma voz interior me dizia: é inútil o sacrifício; nada fará por nós.
Nesse momento, fomos chamados e introduzidos, na sala, por um escravo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 13, 2016 7:17 pm

Quando nos aproximamos de Gálio, ele estava quase assentado; um sorriso de triunfo e contentamento iluminou sua fisionomia cruel.
— Ah! a bela Veleda — disse — tu te Lembraste da amizade e protecção que te prometi; que posso fazer a favor da mais linda das pompeianas?
Nada respondi; a dor, o desespero me tolheram a palavra; meu pai, porém, falou e intercedeu por Tito.
Gálio não se mostrou absolutamente agastado e respondeu com bondade:
— Minha cara gente, jamais pretendi punir esse moço louco pelas suas imprudentes palavras; mas o nosso augusto imperador precisa de novos soldados para cobrir as baixas sofridas por nossas legiões, durante a guerra.
Assim, convocam-se aqui recrutas e pensei honrar Tito fazendo dele um soldado; não aceito senão os jovens mais belos e robustos; ele experimentará a glória de defender a pátria e elevar o nome romano de vitória em vitória.
Espanto, ódio, raiva, quase me fizeram desmaiar; como era astucioso e pérfido!
E como habilmente mascarava o seu ato de violência e de ciúmes, sob uma falsa aparência de honra!
Mas, suplicar, ainda, seria em vão; os princípios de honra da época impediam intercedesse para livrar alguém convocado para defender a pátria; seria um ultraje para ele e para nós e isso acarretaria nódoa infamante à família que assim procedesse.
Gálio continuou com uma naturalidade cheia de benevolência:
— Partirá dentro de poucos dias, mas permito que se despeçam dele, entregando-lhe tudo que quiserdes, como bagagem e dinheiro.
Depois, fez-nos sentar noutra mesa e mandou servir-nos abundantemente; mas nada podia atravessar minha garganta fechada; eu compreendia o miserável mais que ninguém e minha raiva impotente tornava-me quase louca.
Chegado o dia da partida de Tito, fui com meu pai para junto da porta da cidade, a fim de aguardar o contingente.
Era aquela mesma porta onde, semanas antes, encontrava-me de pé com a minha cesta de flores e suando frio, presa de inquietação inexplicável.
Agora compreendia aqueles pressentimentos e ressentia-me dos terríveis sucessos.
Levamos embrulhos com roupas, dinheiro e provisões secas; enfim, o que de melhor dispúnhamos.
Os soldados pararam, coroados de flores e acompanhados de gritos de alegria e votos de boa viagem da turba.
Tito estava triste e pálido; atirou-se ao pescoço de meu pai e me apertou fortemente contra o peito; mas o adeus foi breve porque devia retomar o lugar entre os companheiros.
Silenciosos e desesperados, reentramos em casa.
Tudo estava vazio; mortal silêncio parecia reinar na loja, cada objecto lá deixado por Tito queimava-me os olhos; por outro lado, todo o trabalho que ele desempenhava revertia sobre nós.
Eu chorava amargamente, pensando na felicidade desfeita e meu ódio a Gálio aumentava dia a dia, quando pensava no ato de injustiça, violência e na minha incapacidade para vingar-me; então, o sangue me subia à cabeça e dizia de mim para mim que, se ele ousasse apresentar-se, bem saberia mostrar-lhe p meu ódio e o meu desprezo.
Vários dias decorreram, eu começava a me tranquilizar, supondo que Gálio havia limitado sua vingança em arrebatar-me Tito e abandonando os primitivos projectos, melindrado com a minha ingratidão, em repelir suas belas propostas.
Desgraçadamente, estava iludida. Homens do temperamento de Gálio, jamais abandonavam uma vítima escolhida.
Certa manhã, achava-me sozinha na loja, quando grandemente surpresa vi entrar o procônsul acompanhado de vários guardas, que deixou atrás da porta.
Aproximou-se sorrindo, com ar muito amável.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:10 pm

Saudei-o reverente, mas, sem pronunciar palavra.
Vinha escarnecer da minha dor e rasgar meu coração.
Vendo-o olhar ao redor, ofereci-lhe uma cadeira e pedi suas ordens.
— Por que ordens? — disse amavelmente, devorando-me com os olhos — eu nada ordeno, bela Veleda; ao contrário, só aspiro realizar todos os seus desejos.
Esbocei uma fria cortesia:
— Agrada-vos tripudiar de mim, procônsul; nada posso desejar nem querer, porque sou pobre, ínfima, e vós sois rico e poderoso, comprovando-o muito bem o arrebatar-me o noivo.
Ele levantou-se franzindo o cenho:
— Toma cuidado, rapariga, em não te lembrares por mais tempo desse noivo; ele partiu e deve combater para glória da pátria; resta-te maior compensação: eu!
Far-te-ei feliz e rica; és bela, Veleda, como Afrodite; teus cabelos dourados me enfeitiçaram; amo-te e deves pertencer-me.
E, com rápido gesto enlaçou-me pela cintura, apertando-me apaixonadamente contra o peito. Inclinou o rosto horrível e me beijou de forma a sufocar-me, com os seus lábios pintados.
A surpresa e o desgosto imobilizaram-me um instante: a seguir, como que embriagada pela cólera e sem medir consequências, esbofeteei-o com toda a força das minhas mãos muito pequeninas, mas nervosas; depois, o repeli com tal energia que, tropeçando, foi cair sobre enorme ânfora cheia de óleo, que se quebrou cobrindo-o do seu conteúdo e destroços.
Com o espantoso alarido, acorreram os guardas; viram ainda Gálio caído, com as bochechas inchadas e vermelhas; eu, de pé como um tigre, de punhal na mão.
Compreenderam tudo e se aproximaram do procônsul que se levantou, voltou-se para mim e mostrando os punhos cerrados, exclamou:
— Oh! animal! caro me pagarás!
Todas essas emoções tê-lo-iam enfraquecido, ou quereria somente demonstrar como o havia maltratado?
Certo é que dois guardas o sustentavam por baixo do braço para poder andar, e assim se foi sem ordenar minha prisão, o que muito me admirou.
Corri para meu pai, que trabalhava no pátio e tudo lhe contei.
— Infeliz! que fizeste! Estas perdida!
Foge imediatamente; vai-te a Roma, onde estão Agripa, Astartos e uma velha parenta minha.
Compreendi que ele tinha razão e entrouxei apressadamente alguma roupa indispensável; em seguida dizendo-lhe um triste adeus, dirigi-me para uma das portas da cidade.
Ao aproximar-me, alguns soldados me cercaram, exclamando:
— Ah! miserável! Querias fugir?
Bem se vê que cometeste uma acção má!
Prenderam-me.
Gálio havia dito que se eu tentasse fugir, era porque me considerava culpada.
Conduziram-me ao palácio do procônsul.
Como estivesse muito doente, ordenou que me encarcerassem até que o seu estado de saúde lhe permitisse julgar-me pelo atentado à sua pessoa.
Por mim, estava tão irritada contra ele, que permaneci calma e, indiferente a tudo o que ocorria.
Sentia-me mesmo satisfeita por ter podido maltratá-lo a tal ponto, e isso saciava a raiva impotente que me causara a partida de Tito.
Por semelhante prazer a morte não passava de bagatela.
Recordei Lélia, que também suportava todos os suplícios, pelo prazer de vingar-se do seu perseguidor.
Os que me escoltavam abriram pesada porta e me entregaram a um horroroso carcereiro.
Tomou de uma tocha, abriu segunda porta e me fez um gesto para que o acompanhasse.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:11 pm

Não opus a menor resistência e com o meu embrulho na mão (pois não mo arrebataram), acompanhei-o.
Descemos uma escada que me pareceu interminável; o ar começava a tornar-se húmido e abafadiço; por fim, paramos diante de uma porta que o guarda abriu, empurrando-me para dentro de um compartimento sombrio.
O ruído da chave girando na fechadura me advertiu que estava encarcerada.
Meus nervos, superexcitados pelas emoções do dia, começaram a fraquejar; a cabeça pôs a rodar e perdi os sentidos.
Quando voltei a mim, procurei orientar-me no meu triste aposento; era um compartimento estreito e escuro, com um buraco no tecto que deixava coar fraca claridade.
O chão e as paredes estavam húmidos e como que cobertos de uma camada de lodo viscoso e escorregadio; a um canto, um molho de palha à guisa de leito, e, sobre grande pedra servindo de mesa, uma ânfora com água e uma côdea de pão.
Reflecti e encarei a situação corajosamente; de pronto, devia submeter-me a tudo e, graças aos deuses, não me encontrava de todo desprovida de meios.
No pacote que levara comigo, havia provisões de boca e até uma quartinha de bom vinho.
Primeiramente, retirei do embrulho um capote que vesti e um vestido de lã; cobri a palha suja e húmida que devia servir de leito, assentei-me e comi.
Reconfortada, guardei cuidadosamente o sobejo e em seguida a uma ardente súplica a Júpiter e às Eumênides, para que me concedessem sobre Gálio uma vitória estrondosa, adormeci.
Assim passaram quinze dias de monotonia apenas interrompida pela chegada do carcereiro, que, silenciosamente, me trazia pão e água.
O pão eu escondia como se o tivesse comido, enquanto me alimentava, economicamente das minhas provisões.
Triste, mas ainda não desesperada, aguardava o julgamento.
Entretanto, o tempo acabou por me parecer muito longo; esgotaram-se as provisões, veio a fome.
O ar húmido e confinado da prisão me adoecia; a companhia dos ratos e baratas, que formigavam, era-me odiosa; a paciência e a resignação atingiam o seu limite.
Com a cabeça descansada nas dobras do capote, pensava no meu terrível destino e em meu pai, que devia estar desesperado com a minha sorte.
Uma tarde em que não mais esperava o carcereiro, ele apareceu ordenando que o acompanhasse.
Levantei-me, mas as pernas me tremiam e vacilavam; desde que fui reclusa, faltou-me ar e privei-me de movimentos, agora a cabeça rodava e o guarda teve que amparar-me.
Assim auxiliada, subimos a interminável escada; passamos vários compartimentos e corredores, até que me fez atravessar elegante
peristilo, guardado por duas sentinelas e entrar num aposento, onde me fechou.
Tudo me parecia um sonho.
Encontrava-me numa sala magnífica e brilhantemente iluminada; a mesa coberta de pratarias estava repleta de iguarias as mais apetitosas e um leito ali preparado parecia convidar ao repouso.
Enormes bandejas douradas, cheias de flores, perfumavam toda a sala, na qual me encontrava sozinha; olhei ao redor espreitosamente, mas nada vi; era tudo deserto, vazio, silencioso.
Por fim, percebi ao fundo da sala uma porta entreaberta; deslizei até lá em ponta de pés e lancei um olhar para dentro; era um banheiro elegante, esplendidamente iluminado, mas sem vivalma, como o resto do apartamento.
Entrei e pus-me a examinar tudo: na banheira de mármore branco estava preparado um banho; sobre a mesa perfumes e todas as miudezas que fazem o encanto da mulher; no leito, maravilhosos vestidos.
De toda aquela magnificência, a água lépida e aromatizada foi o que mais me seduziu.
Sentia-me impregnada da umidade da enxovia, tinha as vestes mofadas e sujas, os membros entorpecidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:11 pm

Não pude resistir à tentação.
Fechei a porta e me despi; banhei-me e perfumei-me deliciosamente.
Ninguém me incomodou.
Dispunha de muito tempo para concluir a toilette; assim, penteei, trancei e perfumei a cabeleira que me cobria qual manto dourado até os pés; não pude suportar a roupa quase apodrecida e escolhi, entre os vestidos colocados sobre a cama, uma blusa branca de seda oriental e uma capa verde inteiramente coberta de rendas prateadas.
Assim preparada, experimentei um grande bem-estar; ainda uma vez dei volta às duas salas tudo examinando escrupulosamente, mas não pude descobrir nenhuma traição; tudo estava silencioso e deserto.
Em todo caso,— pensei — permanecer aqui prisioneira é mais agradável que lá na cela subterrânea».
Desejava possuir uma arma, como medida de precaução, mas não pude descobri-la apesar de minuciosa busca.
Fatigada e faminta, assentei-me à mesa, não resistindo à tentação das iguarias, comecei a comer.
Jamais saboreara iguaria; tão finas; comia um pouco de tudo com a maior tranquilidade, apenas intrigada com o motivo que levara Gálio a retirar-me da infecta prisão para instalar-me tão luxuosamente.
Acariciei a ideia de que ele pretendesse abrandar meu génio, supondo que na cela ficaria ainda mais rancorosa do que nesse magnífico apartamento.
Sombrios e tristes pressentimentos me empolgaram.
Afastei a travessa das frutas e apoiei a cabeça nas mãos.
Que futuro me aguardava, que lutas me reservaria e qual o seu desfecho?
Recordei o tempo em que, feliz e sossegada, vivia com Tito e meu pai, até que o capricho e a violência de um tirano me fossem usurpar a felicidade.
Agora, ali estava prisioneira e entregue à sua discrição.
Minha beleza era a causa da minha desonra.
O sangue subiu-me à cabeça.
Mas, como vingar-me?
Estrangulando-o? Apunhalando-o?
Sim, vingar-me, ainda que a custo da própria vida.
Essa resolução inabalável me acalmou, reconfortando-me; aliás, no momento, tudo me parecia inofensivo e nenhum perigo me ameaçava.
«Sem dúvida — pensei — ele supõe que todo este luxo me tentará...
Mas está enganado».
Assaz contente com a ideia do seu desapontamento, servi-me de um licor avermelhado, muito doce e agradável ao paladar; bebi com prazer, mas fui logo tomada de estranho langor; as pálpebras pesadas cerravam-se contra minha vontade; apoiei a cabeça no braço e, sem nada suspeitar, adormeci profundamente.
Deveria ter decorrido muito tempo, antes que reabrisse os olhos e pudesse recobrar a consciência, reconhecendo-me no leito de que não me havia servido e percebendo, espantada, que Gálio dormia tranquilamente a meu lado.
A realidade do quadro me iluminou como um raio.
Compreendi que estava desonrada. Insensato furor apoderou-se de mim.
Como impelida por uma mola, saltei nos pés; o sangue borbulhava como lava, subia ao cérebro e me embriagava!
Apertei a cabeça entre as mãos e, com desesperado esforço. reconquistei uma calma aparente.
Queria morrer, mas saboreando, antes, a agonia do miserável.
Só pensava em como fazê-lo sofrer o mais possível.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:11 pm

Meu olhar percorreu a sala e fixou a porta de entrada; uma chave maciça estava na fechadura; não pensei em fugir, porque por trás estariam, certamente, os guardas de Gálio.
Ao demais, eu não mais queria viver.
Rápida qual sombra, deslizei até a porta; fechei-a com duas voltas, retirei a chave conservando-a convulsivamente na mão; apanhei o único facho que ardia sobre a mesa e que iluminava lugubremente o aposento; fechei a sala de banho e ateei fogo às cortinas, aos móveis, à mesa e, finalmente, à roupa de Gálio.
Retirei-me em seguida para um canto afastado, de olhos fixos no meu perseguidor, espreitando o seu despertar.
As línguas de fogo lambiam as paredes e o tecto, tudo consumindo; negra e espessa fumarada encheu logo a sala, dificultando a respiração.
Eu sabia que ia igualmente perecer, mas, primeiramente teria tido a satisfação de ver asfixiado e carbonizado o torpe inimigo.
E regozijava-me com o seu sofri mento e desespero.
Selvagem alegria me invadia e dava graças aos deuses, em fervorosa prece, por terem assim atendido aos meus votos de vingança.
Nesse instante Gálio despertou em sobressalto.
Assentou-se, esfregou os olhos e depois, com uma exclamação de terror, saltou do leito.
As vestes em chamas o envolveram numa cortina de fogo; olhos esbugalhados de louco, arrancou a roupa do corpo.
Estava atordoado o miserável!
Com gritos de terror atirou-se contra a porta.
Encontrando-a fechada, um impropério de raiva escapou-se-lhe dos lábios.
A fumarada acre e espessa ocultava-o às minhas vistas, além de que não tinha tempo para procurar-me.
Debatia-se como doido e dava urros de fera; esmurrava a porta e rebolcava-se no assoalho, impotente contra o elemento destruidor que eu desencadeara contra ele.
Por fim, calou-se imóvel, estendido.
Eu também mal respirava, pois a fumaça me asfixiava.
Por que me mantinha ainda de pé, quando ele, homem robusto, já havia sucumbido, não o saberia explicar; mas, nesse momento, golpes de machado advertiam-me que os guardas fiéis forçavam a porta.
A ideia de que Gálio escapasse, apesar de tudo, renovou num instante as minhas forças.
Com um grito selvagem, atirei-me a ele e, com a chave maciça que ainda segurava, esbordoei-lhe com todas as forças o rosto e a testa.
Foi quando a porta cedeu despedaçada, deixando penetrar uma corrente de ar puro e benfazejo.
Ainda percebi, como através de um véu, o rosto de Gálio ensanguentado e desmaiei...
Não sei quanto tempo assim estive após aquele terrível momento.
Quando recobrei os sentidos, entreabri os olhos e vi que estava deitada em modesto leito, num grande quarto pobremente mobiliado, e ao fundo do qual Cláudia conversava animadamente com um desconhecido.
Fechei os olhos não querendo dar a perceber que havia recobrado os sentidos e me esforçava por compreender o assunto da conversa.
O que disso conclui, foi muitíssimo útil e me inspirou a conduta a seguir, depois daquele ato de terrível vingança que o desespero me impusera.
__ Pensais, Graco, que a pobre criatura está realmente louca e assim permanecerá, senão para sempre, ao menos por alguns anos? — perguntou Cláudia.
__ Sim,— respondeu o homem assim designado — é o meu parecer e isso mesmo já declarei hoje ao procônsul.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:11 pm

Ê pena, disse-me ele, pois se não estivesse louca, fá-la-ia pagar caro o estado lastimável em que fiquei; mas, que fazer com uma demente?
No meu ímpeto, às minhas palavras; já não queria fingir; a vida era-me odiosa.
Eles me ouviram espantados; depois Graco declarou que eu havia recuperado a razão e que ia comunicar a Gálio quanto se passava.
Fiquei só, mergulhada em tristes conjecturas sobre o tremendo passado e o crime odioso que acabava de praticar.
Depois de longas horas, Cláudia voltou para dizer:
— Olha, criatura desnaturada, apesar dos seus sofrimentos, Gálio vai chegar até aqui e tu podes tremer diante da sua justa indignação.
Seu coração está transformado pelo teu nefando crime.
Permaneci indiferente a tais ameaças, mas o pensamento da vinda de Gálio, me produziu um tremor de frio global.
Rever o responsável pelos meus infortúnios e pelo meu crime, ultrapassava minhas possibilidades de autodomínio.
Enterrei a cabeça nos travesseiros e tapei os ouvidos para não lhe ouvir os passos nem a voz, quando aparecesse.
Não sei quanto tempo assim estive, até que Cláudia me sacudiu rudemente:
— Veleda, ajoelha-te aos pés do teu benfeitor e pede-lhe perdão.
Levantei a cabeça e, olhos flamejantes de ódio, fixei Gálio deitado num leito ali trazido por quatro escravos.
Seu rosto e braços ainda estavam ligados e cicatrizes de inúmeras queimaduras eram bem visíveis.
Cercava-o numeroso séquito de oficiais, guardas e escravos, além de dois padres.
Quando nossos olhares se encontraram, ele cobriu o rosto com as mãos e disse:
— Servidores dos deuses, falai a esta criatura desnaturada, explicai-lhe quanto é odioso o seu crime e dizei-lhe que, se não quiser arrepender-se, desencadeareis sobre, ela as implacáveis Eumènides.
No primeiro momento, os dois padres me inspiraram grande respeito; mas a essas palavras, compartilharam do meu ódio.
Deviam desencadear as Eumènides contra mim, a vítima que havia sido assassinada moralmente e apenas se havia defendido!
À vista disso, Júpiter era injusto e a deusa da justiça deixava de existir.
No momento, ao menos ainda não sofria nenhuma das torturas que iam desencadear sobre mim e deixei-me levar, de alguma sorte, por minha teimosia.
Os dois padres, um pertencente ao templo de Júpiter e outro ao de Juno Lucino, protectora dos recém-nascidos, se aproximaram e me exortaram a reparar meu crime pela humildade, deprecando perdão aos deuses e a Gálio.
Diante do meu mutismo e indiferença, entoaram um canto lúgubre e cadenciado, o qual dizia que as Eumènides haviam costurado minha língua e entorpecido meus membros, o que significava ter Némesis, a terrível deusa da vingança, desencadeado sobre mim toda a sua cólera.
Depois, trouxeram uma tripeça, um dos padres lançou no fogo perfumes e após uma evocação aos deuses, declarou que eles, os deuses, exigiam um sacrifício expiatório.
A um sinal de Gálio, abriram-se as por tas da sala e com grande espanto vi entrai mais dois padres, vestais e multidão de servidores do procônsul.
Armaram um altar, nele colocando estátuas de Júpiter, Juno e Némesis.
Depois, todos os assistentes se prostraram, face em terra, enquanto os padres e as vestais começaram a cantar.
Lúgubres pensamentos me assaltaram ao ver aqueles aparatos.
Trouxeram uma bezerra branca e uma ovelha preta; mas, antes de as imolar aos deuses, os padres se aproximaram de mim, cantando e me exortaram, ainda uma vez, a pedir perdão aos Imortais e a Gálio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:11 pm

A esse tempo eu já era um espírito forte, algo céptico.
Não vendo as Euménides que deveriam apoderar-se de todos os meus membros e me tirarem o coração, roendo-o.
Recuperei pouco a pouco toda a calma; mas os cantos, os ruídos, as vestes brancas das vestais e todas aquelas cerimónias, irritavam-me os nervos sobre excitados e cobri o rosto para nada ver.
Imolaram a bezerra e como não me aproximasse para molhar as mãos no sangue da vítima expiatória, me agarraram e arrastaram até junto do altar.
Sacrificaram a ovelha preta e, depois de consultadas suas entranhas, o padre declarou que os deuses recusaram aceitar o sacrifício expiatório e me abandonavam à fúria das Euménides.
Tal sentença me revoltou.
O sangue germânico e selvagem de minha mãe começava a ferver dentro de mim. Levantei-me e cruzei os braços, para bem demonstrar que ainda gozava da liberdade dos meus movimentos e da minha palavra.
— Não creio nas Euménides — disse — não as vejo nem sinto; mas a ele, o tirano, (apontei o procônsul), elas o segurarão e o perseguirão por sua violência e crueldade.
Arrancou-me do seio de minha família, desonrou-me e induziu-me ao crime, seu filho, nenhuma divindade poderá ordenar-me que o ame; matei-o sacrificando-o aos deuses, para que me vinguem do procônsul.
Sim! — continuei Voltando-me para ele — sobre tua cabeça detestável, Gálio, invoquei a vingança dos teus deuses e dos da minha mãe, muito mais terríveis ainda.
A estas palavras Gálio desmaiou.
Mas, recobrando os sentidos imediatamente; posse de joelhos e elevou os braços ao céu, sustentado pelos padres:
— Poderosos deuses, reunidos no Olimpo e tu, Júpiter, conheceis minha bondade para com esta criatura indigna; imploro-vos não permitais que os deuses vingadores germânicos (que brevemente combaterei de novo) aceitem o sacrifício de meu filho para se vingarem de mim.
Oh! poderoso deus da guerra, Marte, por quem sacrificarei alegremente minha vida!
Não é por mim que peço, mas pela glória e felicidade do povo romano.
Se os deuses dos germanos lhes concederem a vitória, minha derrota e desonra serão também dos romanos.
Exclamações frenéticas dos assistentes quase abafaram as vozes das vestais que cantavam e dançavam uma composição sacra.
Novas vítimas foram imoladas e os padres leram nas suas entranhas que Júpiter e Marte prometiam proteger Gálio e defendê-lo dos deuses vingadores dos germânicos, lisonjeados com o sacrifício de Veleda.
Depois, Gálio se levantou, bateu com o pé e mostrou-me os punhos:
— Entendeste, animal sem coração?
Selvagem exaltação empolgou-me; perfilei-me e elevei os braços ao céu:
— Tu apenas sacrificas animais, exclamei; mas os imortais apreciam muito mais as vítimas humanas; o sacrifício de uma mãe imolando o filho sempre foi aceito.
Deuses implacáveis dos germânicos, confio-vos a minha vingança.
Brados de indignação se fizeram ouvir e Gálio ordenou que fosse enclausurada no templo, para ali viver o resto da vida; os padres, porém, lhe disseram que os deuses exigiam fosse entregue às feras do circo:
«A poderosa Juno — disseram — quer que a mulher, que agiu com ferocidade animal, pereça pela mesma forma».
Até o momento de ser transportada para Roma, estive recolhida ao templo; mas, no imo do coração, me retornara inteiramente aos deuses de minha mãe; as Euménides não se apresentaram e isso mais me aferroava numa crença nova; meu ódio selvagem contra Gálio havia mesmo extinguido os remorsos pelo assassínio de meu filho.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:12 pm

Durante minha estadia no templo, soube que Gálio, o grande comediante, fingia-se desesperado após a morte do filho; que fizera à criança solenes funerais; que andava de cabeça baixa e vivia muito retraído, não consentindo a aproximação de ninguém.
No dia de minha partida, vestiram-me de branco e toda a comunidade religiosa me acompanhou às portas da cidade, entoando cânticos lúgubres por que eu ia, enfim, expiar meu crime sofrendo morte horrorosa.
Durante a viagem que me pareceu interminável, minha exaltação diminuiu pouco a pouco e um torpor vizinho do embrutecimento me invadiu; finalmente, um dia, o pequeno cortejo parou diante de sólido edifício de pedra; abriu-se uma grande porta e franqueamos vasto pátio.
Aos chamados da escolta acorreram gladiadores ricamente vestidos; um deles, ao avistar-me, disse:
— Ah! trazem uma mulher para os jogos do circo; é preciso chamar Astartos, pois é ele quem cuida sempre dos prisioneiros.
Astartos veio imediatamente e reconheci nele o belo amigo da infância.
Reconhecendo-me, empalideceu terrivelmente, mas logo se dominou.
Passou recibo aos condutores e, tomando-me pela mão, disse:
— Muito bem, agora podeis retirar-vos e tu, rapariga, segue-me.
Conduziu-me a uma prisão subterrânea, dependente do circo, porém muito menos asquerosa que a do palácio de Gálio, onde definhei.
Fechou atrás de si todas as portas e quando ficamos sós, abraçou-me ternamente e disse:
— Minha pobre Veleda, que infeliz destino te conduz até aqui!
E sou EU, EU, o amigo de infância, que te devo lançar às feras!
É horrível!
Caminhava agitado e, por fim, assentou-se junto de mim, tomando-me as mãos:
— Ê preciso tudo fazer para salvar-te.
Hoje mesmo irei prevenir Agripa; seria atroz que perecesses dessa forma.
Tem calma e repousa; amigos velam por ti e agora vou buscar alguma coisa para te reconfortares.
Saiu e voltou logo, trazendo alimentos, vinho e roupa; procurava dar-me todo o conforto possível naquele lugar e eu permanecia relativamente tranquila.
Havia sido condenada por Gálio, poderoso amigo de Tibério e contra ele que poderiam fazer Astartos e mesmo Agripa?
Na tarde do dia seguinte, cochilava quando a porta do cárcere se abriu de chofre e divisei Astartos seguido de outro homem.
Fizeram entrar uma mulher, que, após alguns passos incertos, deixou-se cair num banco de pedra.
Depois nos trancaram de novo e retiraram-se.
Permaneci deitada, observando em silêncio a recém-vinda, cujos traços não podia distinguir na obscuridade ambiente.
Súbito a mulher empertigou-se e, aproximando-se, perguntou:
— Quem sois?
— Uma companheira de infortúnio — respondi — porque vossa presença aqui prova que, sem dúvida, a mesma sorte nos aguarda.
Chamo-me Veleda; e vós?
Minha companheira, aliás jovem e bela, suspirou profundamente:
— Aqui chamam-me Lélia, mas meu verdadeiro nome é Mara.
Estremeci. Lélia, a Lélia de Tibério!
Por um estranho acaso, o destino me colocava em presença da mulher cuja sina triste me pareceu outrora um reflexo do meu futuro, e nós duas nos encontrávamos condenadas à morte pelos tiranos de quem éramos joguetes; nossa vida e felicidade, apenas haviam servido para satisfazer seus caprichos; tornadas supérfluas, entregavam-nos ao suplício.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:12 pm

O nome de Lélia bastou para despertar minha simpatia; atraí-a para junto de mim, sobre a palha e trocamos confidências sobre a nossa desgraçada existência. Quando concluímos, Lélia apertou-me a mão:
— Apesar de tudo — disse — somos fortes e indomáveis porque preferimos a morte aos nossos verdugos; eles não nos podem matar duas vezes, e olha, Veleda, sabem que a morte é a menor das punições a nos infligir; é por isso que temem matar-nos.
— Sim,— respondi satisfeita — dizes a verdade, Mara; agora porém, chegamos ao fim; a morte vai-nos libertar e subtrair a esta vida indigna.
— Sim, a libertação vem próxima e sinto-me feliz por nunca mais ver Tibério; oh! (e comprimiu com as mãos o peito ofegante) não preciso dizer-te quanto o detesto; quando incendiaste o palácio de Gálio, experimentaste toda a profundeza desse sentimento.
Não poder vingar-me de Tibério como aspira minha alma!
Abraçamo-nos e desde esse momento nos ligamos por estreita amizade, reunidas pela comunhão de nossas desgraças e pelo ódio selvagem aos nossos perseguidores.
Dias depois, durante a noite, despertei sobressaltada com o ranger dos gonzos da porta e por uma luz que caía perpendicularmente sobre meu rosto.
Lélia dormia e eu me levantei e aguardei curiosamente quem poderia vir, aquela hora, a nossa prisão.
Com grande surpresa, vi entrar Astartos empunhando uma tocha, acompanhado de Agripa e Marcos.
Há tanto tempo que não via um rosto amigo, que, avistando Agripa experimentei imensa alegria.
Foi ele o primeiro a se aproximar e a abraçar-me ternamente:
— Em que triste situação te reencontro, minha pobre Veleda! — disse comovido — que morte te preparam!
Mas é preciso salvar-te!
Assentou-se a meu lado, absorvido nos próprios pensamentos.
Voltei-me para cumprimentar Marcos, de quem me havia esquecido no primeiro momento de emoção.
Vi-o ajoelhado perto de Lélia e parecia desesperado, falando-lhe do seu amor.
— Não te desesperes, Marcos — respondia Lélia — se me amas, deves alegrar-te com a minha morte; poderias, porventura, ver-me sofrer e pertencer a Tibério, sem sentires ciúmes?
Hilderico tê-lo-ia feito em pedaços; nós, os alemães, amamos diferentemente; se Hilderico o visse maltratar-me, matar-me-ia primeiro e em seguida a ele; tu, pelo contrário, pretendes curar as feridas abertas pelo seu chicote.
Vai-te! Não sabes amar!
Nesse momento Agripa apertando fortemente minha mão, disse:
— Devo salvar-te, Veleda; tenho amigos poderosos, tudo se arranjará embora isso deva custar-me a vida.
— Meu bom Agripa — contestei reconhecida — agradeço tuas boas palavras, mas não arrisques a vida por mim; estou perdida, desonrada e, depois de tudo que se tem passado, como posso desejar a vida?
Qual será o meu futuro?
Além disso, Gálio não abandonará sua presa; ele está furioso por lhe haver queimado uma orelha.
Agripa pôs-se a rir:
— Como foi isso?
Mas é de lamentar profundamente que lhe não houvesses feito o mesmo com o nariz; este, Veleda, é que devia ter sido queimado!
Mas, a respeito de Gálio, devo contar-te uma novidade:
ele vem a Roma onde é esperado dentro de alguns dias; seu dedicado amigo Tibério enviou-lhe um convite nesse sentido; ouvi-o dizer a Sejano:
«Convidei Gálio para o espectáculo do circo, onde será punida a besta pelos seus crimes».
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:12 pm

Ouvi tudo isso hoje — acrescentou Agripa — porque estava de serviço; Tibério anda muito irritado; à mesa, esbofeteou Febé e quando Sejano teve a infeliz ideia de se vangloriar da própria severidade para com Lélia, olhou-o de esguelha e aplicou-lhe um soco tão violento que o sangue esguichou do nariz; e como um escravo se abaixasse para apanhar o punhal que havia caído, deu-lhe um pontapé que lhe quebrou o maxilar.
Há dias já que ele se vem mostrando insuportável, não perdoando a ninguém; se lhe apresentam uma lista de condenações, faz uma cruz sem mesmo ler.
Ontem, foi ao quarto de Lélia e fechou-se por dentro; quando saiu, encontraram em frangalhos a colcha de seda que guarnecia a cama; tudo revirado, o busto de Lélia em pedaços, no chão.
Ao jantar falou-se novamente na próxima chegada de Gálio e Tibério começou a blasonar:
«É estranho que o amigo Gálio tenha caído em semelhante armadilha; mas eu afirmo que ele é um homem fraco, sem carácter; Lélia jamais ousaria tocar-me com um dedo sequer; soube submetê-la a mim; Gálio, porém, deixa-se bater, esbofetear e aleijar, porque ela até lhe queimou uma orelha, quebrou-lhe sete dentes e avariou-lhe uma vista.
Estivesse ela aqui e eu lhe ensinaria como se doma semelhantes feras.
Eu domei Lélia — continuou — que se tornou delicadíssima, por fim, e jamais teria consentido na sua condenação se ela não tivesse imprudentemente dito que desejava estrangular-me.
Era do meu dever evitar tal atentado contra mim, a esperança do império.
— Digo-lhe, Veleda — prosseguiu Agripa — a gente se cala por temor, mas não é possível conter o riso quando esse tirano ciumento, enfatuado, fala assim tão descaradamente diante de nós.
Eu mesmo já ajudei arrancar Lélia do seu pescoço; dezoito dentadas é quantas lhe tem dado, além de lhe haver decepado a metade do dedo mínimo; ele tem o rosto todo marcado de cicatrizes que diz ser erupção, e isso diante de nós, que sabemos a verdade.
Agripa entrou a rir de novo.
-— Conta a Veleda a história da semana passada — disse Astartos, rindo igualmente.
— Ah! é verdade.
Uma história extraordinária, começou Agripa.
Há seis ou sete dias, durante o almoço, Tibério mentia e se gabava, como de costume; todos se mantinham sérios, mas Febé, que goza de muita liberdade com ele, atreveu-se a rir; Tibério, então, aplicou-lhe tamanho soco na nuca, quebrando-lhe dois dentes no rebordo da taça em que bebia, no momento.
Furiosa, entregou-se a uma cena pouco edificante para ser relatada, e após haver escarrado em Tibério, sumiu-se.
Durante três dias ninguém lhe soube do paradeiro.
Tibério que se sente inteiramente só, depois que Lélia foi recolhida à prisão, mandou procurá-la por toda a parte.
Havia-se refugiado em casa de Astartos, que a reconduziu depois de lhe haver aplicado formidável sova, por sua revolta e desobediência para com o poderoso Tibério.
— Deu-me um saco de moedas pela minha lealdade — acrescentou Astartos, rindo e mostrando os seus lindos dentes brancos.
Apesar da nossa infeliz situação e da terrível sorte que nos aguardava, não pudemos deixar de compartilhar da hilaridade dos nossos amigos.
— Sabei — disse Astartos — que de uns dias para cá tenho uma entrevista com Tibério todas as manhãs; ele manda me chamar e pergunta pela sua prisioneira.
Quer saber se ela não manifesta desejo de lhe pedir perdão; ele, a indulgência personificada, consentiria, talvez, em perdoá-la; sempre me adverte desconfiadamente:
— Diga-lhe, pois, da possibilidade de ser perdoada!
Toma cuidado, gladiador!
— Inclino-me sempre muito respeitosamente e lhe digo que me confiou uma verdadeira fera.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 14, 2016 7:12 pm

Marcos não tomou parte em nossa conversa; caminhava agitado; de repente, parou e torcendo as mãos, disse:
— Que poderia, pois, fazer, poderosos deuses, para te salvar, pobre Lélia?
Agripa ainda pode tentar libertar Veleda; é patrício, rico, dispõe de amigos influentes; mas eu, pobre médico do tirano, que poderei fazer?
Juro, entretanto, que se ele te mata, se te expõe às feras, o primeiro medicamento que lhe receitar será um veneno.
Lélia levantou-se:
— Faz-lo, Marcos, se eu viver, se ele me perdoar; mas não se eu morrer, pois então serei livre e feliz.
Depois de nos ter ainda encorajado, pro metendo fazer tudo pela nossa liberdade e deixando boas provisões, despediram-se.
O tempo corria de maneira assaz suportável; Astartos passava connosco boa parte do dia, a pretexto de convencer Lélia a pedir perdão; divertia-nos com as novidades da cidade e da corte e anedotas sobre Tibério e Gálio; à noite vinham Marcos e Agripa, que nos relatavam os esforços empregados para nossa libertação; no íntimo, porém, eu duvidava muitíssimo que lograssem sucesso.
Uma tarde Astartos preveniu-nos que os nossos amigos não viriam, por estarem de serviço, e nos deitamos.
Com surpresa, fui despertada pelo ranger da pesada porta!
Abrindo os olhos deparei com Astartos que, empunhando uma tocha, procedia um homem revestido de toga.
Tipo de fisionomia seca e antipática, olhos cruéis e penetrantes, que pareciam sondar o ambiente.
— Onde está Lélia ? — murmurou.
Duvidei que fosse Tibério.
Astartos levantou o archote. Imóvel e indiferente, iluminou Lélia, que dormia, não tendo mesmo percebido a entrada dos dois homens.
Tibério deixou cair a toga e, de braços cruzados e cenho carregado, fixou Lélia.
Como se a pobre criatura sentisse o olhar do perseguidor, começou a agitar-se como presa de um pesadelo, revolvendo-se na enxerga.
— Lélia, Lélia — disse Tibério, apressurado.
A essa voz, ela despertou em sobressalto e o seu primeiro olhar caiu sobre o tirano:
— Oh! — disse, recuando — mesmo em sonho ele não me concede nenhum repouso; como um pesadelo me persegue!
— Lélia — disse Tibério — alma danada, reconsidera que estás vendo o teu benfeitor; é o pavor do suplício que te tira a razão. Confia ainda.
Se te mostrares compassiva e diante de todos me pedires graça pela tua enorme ingratidão para com o teu amigo, senhor, futuro soberano e benfeitor, que substituiu junto de ti pai, irmão, marido, TUDO!
— MENTIROSO, mentiroso! — berrou Lélia que de um salto se pôs de pé diante dele.
Um ódio feroz que jamais lhe adivinharia nos traços infantis, rosto contraído e olhos brilhantes como brasa, pareciam devorá-lo.
— Convence-te, finalmente, tirano abominável, de que és impotente diante da minha resolução de morrer.
Jamais curvarei a cabeça diante de ti, ainda mesmo que me cortasses em pedaços.
Carrasco! Ousas dizer que substituis para mim pai, irmão, marido?
Quem, senão uma outra Febé, te aceitaria por marido, monstro de cara raspada com os teus músculos salientes como nervos de boi!
Eu estava admiradíssima e amargamente arrependida de não ter assim insultado Gálio, mostrando-lhe a sua feiura, a ele que se acreditava tão bonito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:57 pm

Tibério tremia como tomado de febril acesso; mas, não tocou em Lélia, que se mantinha diante dele em atitude agressiva.
— Infeliz criatura — disse por fim, após se ter acalmado um pouco — Gladiador Astartos, estais tão cego a ponto de não ver que ela perdeu a razão?
Ê preciso chamar Marcos — disse comprimindo as frontes com as mãos.
Devo consultar os deuses e perguntar se lhes é agradável a punição de uma louca.
Pobre criatura!
Vai, gladiador, prevenir Marcos; mas, eu te acompanho e esperarei atrás daquela porta, porque é perigoso ficar junto de loucos.
Nesse momento seus olhos me descobriram.
— Quem está ali? — perguntou apontando-me com o dedo.
— É Veleda,— respondeu Astartos, a mulher condenada pelo procônsul Gálio por ofensas graves contra a pessoa dele.
— Oh! oh! é aqui o antro dos leões, duas loucas reunidas...
Retirou-se para junto da porta, dizendo:
— Conheço a história de Gálio; pobres criaturas; elas pecam na sua loucura, pois de outra forma não se revoltariam contra os seus benfeitores.
Lélia, fora de si, quis atirar-se a Tibério, mas este já havia desaparecido atrás da porta e apenas um naco de pão duro o atingiu na nuca.
— Veja, Veleda!
O miserável pretende que estejamos loucas, oh! o infame!
Sentou-se, esgotada; eu também, muito perturbada, mas resoluta.
— Tranquiliza-te — disse apertando-lhe a mão — embora nos chamem de loucas, isso não impedirá detestá-los, ameaçá-los e matá-los se houver ensejo de o fazer.
Ao fim de algum tempo, a porta se abriu de novo e Tibério entrou seguido de Marcos e Astartos; este último voltou-se para colocar um segundo archote na cantoneira de ferro e percebi também que mordia os lábios para não rir.
Escondi a cabeça na palha, porque ria igualmente.
Tibério conservou-se de pé e olhou para Lélia.
— Examine-a, doutor — disse — mas toma cuidado, porque é uma louca perigosa.
Lélia se levantou.
— Por que esta comédia? Mentes!
Queres fazer crer que estou louca a fim de que as injúrias que te assaco, não provenham de um cérebro equilibrado.
Agora já não me aflijo, mas repito:
jamais te pedirei perdão; odeio-te e prefiro a morte a ti.
Tibério baixou a cabeça como se estivesse consternado.
— Vê, doutor?
O pior é que os loucos falam sempre como pessoas ajuizadas.
Pobre Lélia, reconhece, entretanto, o teu benfeitor, que jamais te fez mal.
Pretendeu tocar-lhe no braço, ela recuou contrariada.
— Eia! pobre criança — disse Tibério — retiro-me sem me sentir ofendido, porque não estás no teu juízo perfeito; mas se o recuperares e te arrependeres da ingratidão para com o teu benfeitor, estou sempre pranto a perdoar-te.
Gladiador, observarás cuidadosamente e me avisarás ao menor indício de lucidez.
Parou diante de mim e me examinou atentamente.
— Astartos, esforçarás ao mesmo tempo em agir relativamente a esta infeliz; o amigo Gálio também tem um coração caridoso e perdoará mediante um arrependimento sincero.
Tiranos infames e mentirosos, pensei comigo mesma.
Quem vos leva a sério?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:58 pm

E acrescentei em voz alta:
— Odeio o procônsul; ele poderá aguardar eternamente o meu arrependimento; se a segunda orelha o incomoda, que venha aqui persuadir-me.
Lélia havia assentado no banco e tapava os ouvidos com as mãos; Tibério estava roxeado e tremia de raiva.
— Oh! — disse — é afrontoso estar entre duas insensatas! — e estendeu o braço a Marcos.
Veja, doutor, creio que a emoção muito forte pela dor que me inspira a loucura desta pobre criatura, que tenho ainda a fraqueza de proteger, me produziu febre.
Marcos tomou-lhe o pulso, e inclinando-se, disse:
— Devo confessar que vosso estado é muito grave e exige imediato e absoluto repouso, para que as forças não vos abandonem.
— Ah! — murmurou Tibério — já me sinto muito mal, com efeito, e não me posso aguentar.
Cambaleou e caiu nos braços de Marcos e de Astartos.
Durante esse colóquio, Lélia levantou-se sobre os cotovelos e vendo o inimigo estendido, cabeça derreada e olhos fechados, instantaneamente como um relâmpago, tirou a sandália do pé e aproximou-se, aplicou-lhe com ela duas formidáveis bofetadas.
Como se houvesse experimentado um choque eléctrico, Tibério saltou nos pés sem nenhum sinal de fraqueza; a boca lhe escumava e já queria atracar-se com Lélia, quando Marcos o conteve:
— Apenas um gesto, uma emoção a mais, será inevitável a ruptura do coração.
Tibério desfaleceu nos braços do médico, porém, com maior prudência que antes, manteve os olhos abertos.
— Conduzam-me para fora daqui — murmurou.
Nossos amigos não esperaram segunda ordem e eu, muito imprudentemente, dei uma gargalhada, antes que a cabeça raspada houvesse transposto os umbrais da prisão.
— Olha, animal — vociferou ele ao mesmo tempo que me ameaçava com um gesto — pagarás esta risada!
— Pobre louca — disse Marcos dando de ombros.
Lélia, após o seu ato de indignação, havia prudentemente desmaiado quando notou cólera de Tibério com os braços erguidos sobre a sua cabeça.
Tão logo a chave rodou na fechadura, ela saltou nos pés e atirou-se ao meu pescoço:
— Vê, Veleda, como o tenho maltratado; que repita ainda que não ouso tocar-lhe, sequer!
Abracei-a e felicitei-a por sua rara coragem.
Na noite seguinte vieram os três amigos, como de costume e nos fizeram muito rir.
Agripa e Marcos contaram que, ao chegar em palácio, Tibério dissera a todos os presentes ter visitado as prisões e, por acaso, avistado Lélia de quem já se tinha totalmente esquecido; que, vendo-o, a infeliz se lhe agarrara à toga, e prostrada a seus pés lhe implorara graça; que isso por tal forma o comoveu que desfalecera, batendo de encontro à parede, coisa muito extraordinária, resultando as duas manchas roxeadas, iguais, nas duas faces.
— Hoje — falou Agripa — vai reunir o conselho privado para decidir a sorte de Lélia, porque não queria resolver por si mesmo.
Sejano, que, creio, queria desembaraçar-se de ti, declarou que se implorasses perdão ao teu benfeitor, de joelhos e diante de todos, era possível concedê-lo; Tibério dirigiu-lhe um olhar furioso, porque não propusera que te fosse concedida uma absolvição plena e incondicional.
— Quando deixei o tirano — disse Marcos, rindo — embora contra a vontade, ele estava acamado.
Eram-lhe aplicadas compressas de óleo de rosas nas bochechas, que Febé renovava de vez em quando; todos se admiravam grandemente dessas estranhas manchas, de contornos tão regulares.
— Gálio chegou esta noite — acrescentou Agripa — fui eu quem o introduziu no palácio.
Como desejaria aplicar-lhe boas espaldeiradas em vez de lhe prestar honras!
Mas, não te desesperes, Veleda; penso ainda poder salvar-te.
Sorri tristemente, sem responder; havia-me por tal forma habituado à ideia de morte próxima, que não mais temia esse terrível instante e calmamente o aguardava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:58 pm

Lélia passava mais agitada; seu temperamento nervoso lhe proporcionava momentos de lúgubre desespero; queria muito morrer, mas preferia um outro género de morte que não atirada e estraçalhada pelas feras; apesar da sua coragem, tremia, apavorada com a lembrança de tal sofrimento.
Alguns dias se passaram sem qualquer novo incidente.
Uma noite, entretanto, de novo se abriu a porta da prisão e Astartos conduzindo um archote, introduziu dois homens: eram Gálio e Tibério.
Gálio parou prudentemente perto da porta e seu olhar percorreu a sombria prisão; vendo-me, seus olhos brilharam; aproximou-se rapidamente e fixou-me num misto de paixão e ferocidade.
— Como te encontras aqui, Veleda? — perguntou.
A prisão, os sofrimentos, a separação de teu pai, amoleceram teu coração de ferro?
Queres implorar meu perdão, aceitar meu amor e ser feliz?
Responde; teu futuro depende das palavras que pronunciares.
Percebi que ele se mantinha em atitude reservada e prudente; respondi com dignidade, sem me exaltar:
— Odeio-te, Gálio, tu o sabes de há muito; jamais te amarei; nenhuma prisão, nenhuma separação modificará este meu ódio; teu amor é me mais detestável que qualquer suplício; quero morrer, convence-te.
Gálio amarfanhou nervoso o pano da toga e suspirou fundo:
— Não sabes o que é a morte no circo, Veleda; do contrário, preferirias o meu perdão; és bem ingrata, quando venho em pessoa propor-te a paz e o perdão, a despeito de todo o mal que me fizeste.
Queimaste-me uma orelha e...
— Não me arrependo senão de uma coisa — interrompi — não te haver matado ou, ao menos, queimado a tua língua infame.
— Cala-te, insensata! minha infinita indulgência te perdoou todo o passado e te proponho a paz, eu! o procônsul, o herói Gálio e tu, plebeia, ainda ousas insultar-me!
— Nunca mais te rebaixes, então, a propor-me teu perdão — disse-lhe com desprezo; aspiro somente a morte, que me livrará de ti e do teu amor odioso.
— Ah! — disse ele, e cruel sorriso lhe frisou os lábios.
Queres ser livre!
Pois bem! não morrerás, acompanhar-me-ás a Pompeia onde já passamos tão belos tempos!
Voltou-se para Astartos:
— Gladiador, tu a terás sob tua guarda até a minha partida e então a entregaras aos meus homens.
A essas palavras, apoderou-se de mim um desespero incoercível, sapateava de raiva:
— Queres ser queimado todo inteiro, tirano infame, então leva-me; mas se te aproximares de mim, arrancar-te-ei os olhos com as unhas e te morderei por toda parte onde alcancem meus dentes.
— Ta, ta, ta — fez Gálio.
Que mulherzinha de maus instintos! mas, como prevines, o perigo não é tão grande e saberei subjugar-te.
Compreendi só então o erro e a fraqueza em que incorrera; voltei-lhe as costas; não queria mais falar-lhe e atirei-me às palhas.
A voz de Lélia, porém, me fez lembrar dela e de Tibério.
Sem dúvida os dois tiranos haviam tramado esse perdão e Lélia, como eu, obteria graça contra a sua vontade.
Mas eu me equivocava; o conselho havia decidido que ela implorasse perdão diante de todos e seus olhos inflamados, davam muda resposta às insinuações de Tibério.
— Abençoados sejam os deuses por depender de mim e não de ti este perdão — disse no momento em que comecei a prestar atenção — receias que eu morra, porém nada podes fazer porque tua fatuidade te impede de perdoar-me sem que eu me humilhe diante de ti.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:58 pm

Jamais o farei, pois morro contente.
Tibério estava agitadíssimo.
— Víbora, serpente, ordeno que me peças graça; não quero que morras; Lélia, ingrata criatura, lembra-te de todos os meus favores e pede perdão ao teu benfeitor.
Ela alçou os ombros:
— Deixa-me sossegada; dentro de poucos dias estarás livre de mim.
Tibério assentou-se, muito inquieto.
— Mas, Lélia — acrescentou — se eu pedisse para suplicar graça, mesmo que fosse fingida, para que tivesse apenas o pretexto de te perdoar?
És ingrata, Lélia; tanto tenho cuidado de ti depois de trazer-te do campo de batalha; submete-te, eu assim o quero.
Ela voltou-lhe as costas e pôs-se a rir:
— Pede-me de joelhos que te suplique graça, mas diante de todos.
Ele levou a farsa ao ponto de apoiar a cabeça com as mãos, como um homem desolado.
— Lélia, tua teimosia me acabrunha e enferma, o que pedes é impossível e não posso aceitar; já faço por ti coisas inacreditáveis.
Lamento o teu destino.
E mergulhou a cabeça inteiramente nas dobras da toga.
Um movimento de Gálio me fez reparar nele. Havia-se apoiado à parede e zombeteiro sorriso lhe pairou nos lábios.
Fixando-me, sua fisionomia retomou imediatamente uma expressão triste e séria.
— Ora, aí estão — disse — duas conquistas que fizemos, duas feras metidas pelo capricho dos deuses em corpos de mulher.
Tibério nada respondia, continuando a chorar; então Lélia levantou-se e aproximou-se dele, disse:
— Acaba com esse fingimento, meu caro Tibério; conheço essas manhas; não mais me enganas e tuas fingidas lágrimas não despertarão minha compaixão.
Tirano miserável, sem coração, jamais me tiveste amor, porque do contrário serias outro para mim; contudo, bem me conheces e sabes que nunca pedirei graça; deixa, pois, de enxugar com a toga os olhos secos. Ê inútil.
Perdoo-te o passado, morro por tua ordem e é essa a maior caridade que me fizeste até hoje.
Vendo-se desmascarado, Tibério levantou-se e foi atirar-se nos braços de Gálio.
Vi, novamente, estranho sorriso pairar nos lábios deste, que a seguir, em atitude muito respeitosa, o amparou e conduziu para fora da prisão.
Astartos os precedeu, grave e impassível, erguendo bem alto o archote para iluminar o caminho.
Uma vez sós, não pudemos conter o riso, apesar da nossa triste situação, tal o quadro exótico e ridículo que ofereciam os dois tiranos apoiados um no outro.
Astartos esteve ausente cerca de meia hora.
Após haver colocado o archote na cantoneira de ferro, veio compartilhar da nossa hilaridade, rindo até às lágrimas.
— Ah! — disse por fim — que seria se as minhas caras amigas pudessem ter assistido à cena cómica que acabo de presenciar! Imaginem que, saindo daqui, Tibério logo desmaiou e se fez carregar até o palácio.
Enquanto o colocavam na liteira, Gálio torcia as mãos, enxugava os olhos e repetia:
— Dizer que um homem como Tibério é tão incompreendido!
Se fosse eu, vá lá; mas ele! Ê horrível!
Observei nesse instante que o tirano entreabria um olho e observava Gálio, fechando-o imediatamente.
Finalmente, cercado de guardas, de Gálio e Marcos, lá se foi ele num estado deplorável.
Convocado pelo imperador para assistir a um conselho, declinou de comparecer, desculpando-se».
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:58 pm

— Sim — disse Lélia — é um hábil comediante.
A princípio eu o tomava a sério.
Uma vez, após tê-lo repelido duramente, assentou-se e pôs-se a soluçar.
Sabia que nem pancada, nem ameaças de morte me comoviam; estávamos sós e guardava no bolso a chave do compartimento.
Acreditei na realidade das suas lágrimas e vendo-o tão desolado, penalizei-me; aproximei-me e lhe falei com ternura.
Levantou-se para sair e cambaleava.
Não sei porque, desconfiei que fingia, mas
faltava-me uma prova; cerquei-o diante da porta e, pondo-me de joelhos, disse:
«Perdoa, Tibério, haver-te ofendido por tal forma»— e fingi um desmaio, tudo observando de olhos semicerrados.
Ele parou, deixou cair a toga e riu satisfeito; de lágrima, nada!
Aproximou-se e procurou erguer-me, mas a satisfação por tê-lo assim desmascarado me entusiasmou, levantei-me sozinha e confessei-lhe minha desconfiança.
Mostrou-se envergonhado, ausentou-se alguns dias, mas logo esqueceu o episódio e de tempos a tempos recomeçava as mesmas artimanhas; sempre que lhe recordo esse episódio, desaparece.
Depois dessa noite não mais vimos nossos perseguidores e o tempo corria dolorosamente; cada qual absorvida nos próprios pensamentos:
Lélia imaginava o suplício próximo, e eu o terrível futuro que me aguardava.
Gálio, a quem detestava mais que a morte, me retomaria, para impor-me seu odioso amor e eu não encontrava meios de salvação.
Agripa procurava consolar-me prometendo tudo arriscar para subtrair-me ao procônsul; e eu o ouvia desesperada, porque o poder de Gálio escudado em Tibério parecia-me sem limites.
Em profunda apatia, aguardava o futuro, disposta unicamente a empregar uma resistência férrea em quaisquer circunstâncias.
Um dia bem triste ainda, me aguardava em meio a tantos sofrimentos morais — o da execução da companheira de infortúnio, a que me havia extremamente afeiçoado no convívio do nosso cárcere.
Certa manhã, Astartos pálido e agitado aproximou-se de Lélia.
— É para hoje a carnagem — disse tomando-me a mão — Tibério assistirá ao espectáculo, pois já se restabeleceu.
A despeito da sua coragem, Lélia empalideceu e cambaleou, mas, reagindo, pediu vestidos adequados.
Uma hora depois, Astartos voltou com uma bandeja cheia de aviamentos.
Ajudei a pobre Lélia a vestir-se e choramos amargamente durante as horas que nos restavam.
Marcos veio, por sua vez, apertou Lélia nos braços e expressou desesperados adeuses.
Astartos também chorava e, por fim, lá se foi ela com o meu último beijo.
Fiquei só, de olhos pregados na enxerga que lhe servira de leito.
Cobri o rosto e as lágrimas borbulhavam ao considerar o pavoroso suplício que lhe estava reservado.
Os muros da prisão me impediam de ouvir distintamente os ruídos exteriores, entretanto, percebia o rugir dos leões e, a contragosto, a imaginação desenhava o quadro que deveria estar se desenrolando no circo:
Lélia a entrar na arena, as feras a se precipitarem sobre ela, estraçalhando-a...
Depois, nada mais que destroços ensanguentados e deformados...
Tapava então os ouvidos e enterrava a cabeça na palha.
Enferma e martirizada de tanto tempo, minha excitação nervosa pouco a pouco se transformou em delírio.
O corpo ardia, julgava-se na arena; leões, entre os quais um com a cabeça de Gálio, avançavam e me atacavam de todos os lados; em seguida, pareceu-me ver entrar Astartos carregando o cadáver de Lélia; meus ouvidos zumbiam e perdi os sentidos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:58 pm

Quando voltei a mim, estava sozinha, uma semiobscuridade enchia o calabouço.
Meu coração se confrangia dolorosamente à lembrança esmagadora da realidade; naquele momento Lélia estaria bem longe do número dos vivos; nada restava dela...
Chorava e reflectia, aguardando ávida mente cada passo que ecoava no corredor, Astartos não viria contar-me detalhes horríveis dos últimos momentos de Lélia?
Finalmente, após uma espera que pareceu eternidade, ouvi passos precipitados; a porta se abriu e Astartos entrou, seguido de Agripa.
— Lélia vive e está salva! — foram as suas primeiras palavras —Tibério levou-a para o palácio.
Assustada, ela caiu de joelhos diante das feras e Tibério pretendeu que o fizera para pedir-lhe graça.
Salvei-a com risco da própria vida e sinto-me feliz por isso.
É o egoísmo do coração humano que prefere para o ser amado a pior vida a uma libertação.
Depois me preveniu que Gálio partiria no dia seguinte para Pompeia e determinara minha recondução, pela manhã, ao seu palácio.
Fiquei aniquilada.
Agripa estava fora de si; a raiva e o ciúme devoravam-no, mas, dominou-se e me disse:
— Acalma-te, Veleda, não estarás só nem abandonada; tomarei férias de algumas semanas e te acompanharei a Pompeia; lá, farei o impossível para te libertar e, se o conseguir, fugiremos para a Germânia.
Quando os irmãos e o noivo de Lélia aqui estiveram para libertá-la, relacionei-me com eles; são homens honrados e corajosos, um dos irmãos evadiu-se graças à minha intervenção e ao partir, disse-me:
«Meu reconhecimento e o da minha tribo estão ao teu dispor; se algum dia tiveres necessidade, manda em nós». Iremos para junto deles —acrescentou cerrando os punhos; prefiro viver entre os selvagens a estar submetido a tiranos que escarnecem todos os sentimentos humanos.
Todavia, por enquanto, suplico-te dissimules teu ódio a tudo, suportando, sem jamais irritar o verdugo, até que tenhamos tudo pronto para nossa fuga.
Atirei-me aos braços de Agripa agradecendo o seu devotamento; prometi conformar-me com os seus desejos, por mais penosa que me fosse a submissão.
No dia seguinte, após triste despedida de Astartos, retomei na comitiva de Gálio o caminho de Pompeia.
Levada em liteira, pude sonhar à vontade com os meus projectos de evasão.
Muitas vezes Gálio aproximou o cavalo da minha liteira e procurou entabular conversação comigo.
Respondia-lhe com discreta frieza, mas sem irritação e isso parecia surpreendê-lo.
Regozijava-me intimamente ao pensar na sua raiva impotente, quando soubesse da minha fuga sem poder seguir-me.
Uma vez chegados, Gálio me permitiu ir a casa de meu pai, que encontrei muito mudado e envelhecido.
Foi uma triste entrevista.
Ele conhecia e aprovava os projectos de Agripa.
— Ide, meus filhos, eu vos seguirei com todas as nossas economias, pois nada me prende aqui.
Estou velho e apenas vos tenho como tesouro único neste mundo.
Mas o tempo corria sem que se apresentasse ensejo favorável.
Gálio mantinha-me reclusa com tais precauções que me levavam ao
desespero.
Várias vezes havíamos fixado a data da fuga, sempre em vão, porque Gálio me guardava com a maior vigilância.
Visitava-me todos os dias.
Eu mostrava-me sempre reservada, mas sem ódio aparente, buscando atenuar-lhe a desconfiança pela submissão e fingindo-me conformada com o destino.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:59 pm

Pouco a pouco, pareceu acreditar e relaxou a vigilância.
Fixamos, então, novamente o dia da fuga.
Por feliz acaso, à tarde, quando ele veio honrar-me com a sua visita, estava ligeiramente alcoolizado e dormiu profundamente.
Então, levantei-me e sem perda de tempo, muni-me das cordas e do emplastro visguento que meu pai me havia dado para o caso; colei-o à boca de Gálio e amarrei-o fortemente ao leito:
«Antes que se desembarace de tudo isto — pensei — já estarei longe»; depois, tirei-lhe do bolso a chave do corredorzinho que comunicava com os seus aposentos, onde, apenas dois escravos montavam guarda e aos quais havíamos previsto ministrar um narcótico.
Gálio começou a agitar-se e saí qual sombra, mas atrás de mim percebi grande barulho; era ele que se debatia no leito.
Corri o mais que pude para o jardim, através de uma portinhola que dava para uma rua deserta e junto da qual deveria encontrar Agripa e meu pai.
Quando me aproximava, ouvi gritar:
— Veleda fugiu; ela não pode estar longe!
Não era a voz de Gálio, mas evidentemente, ele tinha-se feito entender.
Corri de perder o fôlego, mas ao chegar à pequena porta vi brilhar os capacetes de dois soldados que se atravessaram à minha frente e me agarraram.
Gálio havia desconfiado da minha docilidade e só a meu lado é que aparentava diminuir a vigilância; exteriormente, dobrara as sentinelas.
Amaldiçoei a fatalidade do destino, mas resistir seria loucura; reconduziram-me diante de Gálio que estava de pé, junto de uma mesa, pálido e perfeitamente são; haviam-lhe tirado o esparadrapo, mas as bochechas, lábios e queixo pareciam queimados.
Os dois soldados que me escoltavam insinuaram-me prostrar-me a seus pés, pedindo graça, mas eu estava possuída de um ódio tal que me não movia, preferindo morrer a humilhar-me numa súplica.
Avistando-me, os sentimentos mais diversos se lhe retractaram no rosto; deu um passo à frente e mergulhou no meu o seu olhar brilhante.
Adivinhou, sem dúvida, meu pensamento através do meu olhar, porque respirou dolorosamente, passou a mão na fronte e disse com voz fremente de cólera:
— Réptil ingrato a quem amei, enquanto existires, minha vida correrá perigo; minha indulgência e estima me farão correr risco de morte horrível a cada momento.
Pela minha pátria, que precisa da minha vida, devo massacrar-te como se faz a um animal peçonhento.
Voltou-se e, com mão trémula, firmou um pergaminho que estava em cima da mesa.
— Morre, pois, ingrata; morre sufoca da, como querias que eu morresse.
Virou as costas e saiu sem me fitar.
Um oficial superior tomou o pergaminho e me conduziu a um quarto vazio, onde fiquei reclusa, até o momento do suplício.
Compreendi que tudo havia terminado — Pobre Agripa! — pensei.
— Dentro de algumas horas estarei morta, mesmo antes de saberes da minha condenação.
Estranhos pressentimentos me assaltaram, enquanto aguardava o terrível momento; involuntariamente fui tomada de glacial tremor ao conjecturar o género de morte que me destinavam:— asfixiada pelo vapor — dissera o oficial— e o cérebro superexcitado fazia me sentir a humidade do banho e do vapor espesso que me sufocava.
De pé, respirava com dificuldade, parecendo-me faltar o ar no vasto compartimento.
Cobri o rosto; era realmente o fim e não dispunha de arma para dar cabo da vida por forma diferente; um acesso de raiva e desespero impotentes me assaltou; desfalecia e o solo me faltava numa espécie de torpor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:59 pm

Não sei quanto tempo assim estive, até que a porta se abriu e entraram alguns homens armados; leram-me um acto de condenação do qual nada compreendi; meu coração estava para estourar de tanto bater; chegara o momento da morte e, por mais forte e enérgico que fosse meu espírito, o corpo tremia e a matéria experimentava toda a agonia.
Agarraram-me, conduziram-me por cor redores, vestíbulos e escadarias intermináveis, até que paramos diante de pequena porta; as paredes estavam húmidas, um ar quente e pesado me envolvia.
Nesse momento abriu-se a porta e recuei apavorada; um vapor espesso, esbranquiçado e abrasador, escapou-se do interior e me sufocou; não deram tempo a que resistisse; braços nervosos me empurraram para o interior e a maciça porta se fechou atrás de mim.
Dei alguns passos vacilantes, pois o vapor cáustico me sufocava, entrando pelos ouvidos e nariz; o sangue subiu à cabeça aos borbotões, senti dor atroz como se o crânio estalasse e caí por terra.
Meus pensamentos se baralhavam; sufocava-me horrorosamente, sentia-me como que mergulhada numa pasta húmida e pegajosa; cada partícula do corpo parecia contrair-se ao contacto do ferro em brasa.
Por fim um choque terrível, que pareceu arrancar-me as entranhas e estilhar o cérebro em milhares de átomos dolorosos.
Perdi os sentidos.
A primeira sensação, ao despertar, foi a de um calor agradável a envolver-me; todos os membros ainda doridos, mas, parecendo de extrema leveza, porque eu me elevava rapidamente no espaço cheio de um frescor dos mais agradáveis; admirada e confusa, olhei para mim mesma e depois para o que me cercava e fiquei deslumbrada.
Sem maior dificuldade, mesmo sem querer, elevava-me facilmente qual uma sombra em atmosfera azulada e transparente, que projectava por toda parte reflexos fantásticos; e eu, — sonhava ou me encontrava numa festa esplêndida?
Havia trocado as vestes comuns por longa túnica flutuante, fina e transparente como um vapor rosado, reflexo da atmosfera azulada que me circundava.
Era eu mesma!
Reconhecia-me nos braços, nas mãos, mas eram róseos, transparentes e vaporosos; a cabeleira opulenta e dourada, era bem minha, mas despida do seu peso, cercando-me qual manto de ouro impalpável.
Duvidando de mim mesma, estendi os braços nessa atmosfera estranha, apalpei-me, mas a mão atravessava sem obstáculos, qual massa vaporosa que se refazia imediatamente.
— Estarei na região dos bem-aventurados? — perguntava a mim mesma — onde os deuses, comovidos pelas minhas dores, me haviam colocado na mansão do Olimpo?
Comecei a lobrigar seres flutuantes, vaporosos e transparentes, mudos como eu, sem descerrar os lábios, a trocar somente fios eléctricos-luminosos e nos compreendemos: eram amigos que me recebiam, interrogavam e censuravam-me por ter cometido grande falta, matando meu filho.
Conversávamos ainda, quando, rapidamente a atmosfera se iluminou de alvinitente claridade e vimos, então, flutuar acima de nós uma entidade de beleza surpreendente e fulgurante como um sol.
Reconhecemos o protector do nosso grupo e curvamo-nos diante dele!
— Espírito de Veleda — disse — cometeste um crime ao defender tua honra!
Enorme é o teu crime, mas, por tua dolorosa morte expiaste, em parte, esse assassínio; vai-te, pois, por enquanto, repousar no espaço como espírito errante e preparar-te, segundo tuas forças, para a próxima encarnação.
Desapareceu dissipando-se na atmosfera; meu caminho e destino, como espírito, tinham sido determinados.
Após haver-me orientado sobre a nova estância, o pensamento se voltou para a Terra e quis rever o lugar em que havia deixado os despojos mortais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:59 pm

Meu espírito atravessou sem dificuldade aquele vapor espesso e mortal, tremendo, às vezes, à lembrança dos sofrimentos morais que tinham sido muito maiores que os do corpo.
Vi por fim, estendido no chão húmido a prisão carnal que acabava de deixar.
A morte não tinha desfigurado meus traços e, na sua imobilidade, meu cadáver assemelhava-se a uma bela estátua de alabastro.
Entretanto, afligia-me dolorosamente, porque acabava de experimentar essa emoção tão penosa para o espírito, quando reconhece sua incapacidade para comunicar-se com os encarnados; a inteligência se desdobra e, muito mais esclarecida pela separação da matéria, permanece, todavia, muda, diante do ser amado.
Agripa estava ajoelhado junto da morta, a cabeça apoiada nas mãos, chorando amargamente.
Em vão inclinei-me para ele, toquei sua cabeça, disse-lhe que ali me encontrava e que a morte corporal não era a morte dos sentimentos e da afeição; que o corpo espiritual é mais belo que o da terra.
Ele não me ouvia, não se mexia e eu me afligia no meu desespero impotente.
Imediatamente, a pesada porta se abriu e apareceram soldados armados no umbral.
Prenderam Agripa, conduziram-no a uma prisão e lá o encerraram.
Colei-me a ele como se fosse uma sombra, não o abandonando um instante.
Assisti, assim, o julgamento iníquo que o condenou e acompanhei-o ao suplício.
Revi Gálio e todo o meu ser só transpirou vingança:
ah! — pensei com satisfação projectando-lhe maus pensamentos — ignoras que não me aniquilaste, que meu ódio sobreviveu à destruição do corpo; que sou uma entidade inacessível e disposta a seguir-te, molestar, inspirar, obsidiar com recordações, temores, remorsos, numa palavra:
fazer-te experimentar a sensação da presença de um inimigo sobre o qual não mais podes exercer qualquer vingança.
Agripa recebeu a morte com o estoicismo de um romano e a calma de um inocente; um único golpe de machado lhe decepou a bela cabeça.
No mesmo instante, envolvi-o com o meu perispírito e esforcei-me, com os seus amigos, por cortar os fios que ainda o ligavam à matéria.
Imediatamente estava entre nós, leve, flutuando e mais belo que antes.
Passadas as primeiras expressões de alegria pelo nosso reencontro, decretamos contra Gálio uma vingança implacável; em vão o protector do grupo e os amigos procuraram dissuadir-nos, dizendo que o ódio materializa e ensombra o espírito; que a Némesis pertence à Justiça
Divina e ao Conselho Supremo.
Repelimos toda sugestão nesse sentido e nos apegamos a Gálio como dois fiéis companheiros infatigáveis; com o pensamento seguíamo-lo por toda parte, perturbando-lhe o sono, tirando-lhe o sossego, contrariando-lhe todos os projectos.
Finalmente, ele partiu para a Germânia, onde a guerra começara.
Inspiramos-lhe os planos mais desastrosos e em consequência experimentou derrotas sobre derrotas.
Um dia em que se travava grande batalha, decidimos, se possível, por termo aos seus dias, porque, até então, havia sido poupado pelas armas assassinas.
Para um vivente da terra, seria curioso espectáculo se pudesse ver, qual vemos, o aspecto de um campo de batalha:
todos os mortos cercados por espíritos flutuantes, que ajudam os novos companheiros a se desembaraçarem do corpo mutilado, caído por terra; ouvir as milhares de descargas eléctricas anunciando cada uma a desencarnação de um espírito, semelhante ao brado de despedida do seu fiel companheiro.
Nesse ambiente pesado e grosseiro, no meio dessa violenta emigração, passamos como tempestade, vomitando o nosso ódio e preparando a perda do inimigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 15, 2016 7:59 pm

Coberto com as suas magníficas armas, mas triste e inquieto, Gálio mantinha-se de pé no seu carro, acompanhando com olhar colérico as peripécias do combate.
Agripa barrou a passagem dos cavalos projectando-lhes violentamente fios eléctricos, que o tornavam visível aos animais espantados; e assim, em comunicação com eles que, assustados, de crinas eriçadas, corcoveavam diante da aparição.
Depois, dispararam passando como relâmpago sobre montes de cadáveres e destroços de viaturas.
Os musculosos braços de Gálio foram impotentes para contê-los assim desembestados.
Eu me colava com ele, envolvendo-o com um fluído estonteante; a cabeça lhe rodava, soltou as rédeas e rolou por terra.
Corpulento germano que passava na ocasião, foi aproveitado como excelente intermediário, ou antes, como um bom médium.
Apossamo-nos dele fluidicamente; dirigi o seu olhar para essa rica presa; Agripa inspirou-lhe rapacidade e ódio nacional contra o romano; nossa vontade o estimulou e sustentou; ele levantou, então, o machado que brilhou por um instante ao sol, para cair em seguida sobre a cabeça de Gálio.
Ajudados por seus numerosos inimigos invisíveis, cercamo-lo e seguramo-lo, arrancando-o do corpo; em seguida, na atmosfera turvo-avermelhada das nossas paixões apareceu, mantido por centenas de fios luminosos, o perispírito de Gálio, reunido, mas terrivelmente apavorado e flutuando como atordoado.
Contentes com a descarga do nosso ódio, conduzimo-lo a julgamento e à Némesis esperada.

VELEDA
NOTA DO TRADUTOR:Veleda, entre outras reencarnações, veio na pessoa de Frei Benedito, no romance "Abadia dos Beneditinos", editado em português pela LAKE.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 75754
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 62
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 2 de 3 Anterior  1, 2, 3  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum