Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 3 de 3 Anterior  1, 2, 3

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 7:59 pm

NARRATIVA DE ASTARTOS

Nasci no rico solar de um patrício romano chamado Agripa, onde minha mãe Teodora dirigia os trabalhos domésticos; ela fora ama-de-leite do pequenino Agripa, filho único do patrício que perdera a esposa ao dar à luz o menino.
Tive uma infância alegre e me desenvolvi rapidamente.
Carácter violento, ousado até a temeridade, ávido de perigos, não conhecia medo nem obstáculos quaisquer, os exercícios mais perigosos constituíam minha paixão.
Minha pobre mãe receava muito pelas minhas aventuras e tremia quando eu montava cavalos redomãos ou me punha, no pequeno pátio empedrado de nossa casa, a provocar os bois de serviço, para que investissem contra mim, agitando-lhes com um pano vermelho e quanto mais irritados ficavam, mais me alegrava.
Quando o animal se enfurecia eu parava, cruzava os braços e exercitava sobre ele a força dominadora do meu olhar.
Este exercício perigoso sempre triunfou e meu olhar fascinador domou os mais rebeldes.
Aos dezoito anos sobreveio um incidente que decidiu do meu futuro.
Haviam levado ao circo um tigre enorme, que, por infeliz acaso, se escapou da jaula.
Solto pelas ruas, espalhou-se o pânico entre o povo que fugia horrorizado, gritando desesperadamente.
Estava eu precisamente no pátio a jogar o disco, quando os clamores e os tumultos de fora me despertaram atenção:
— O tigre! O tigre soltou-se! — bradavam vozes desesperadas; mata a todos que encontra de passagem!
Sem mais reflectir, tomei do meu cutelo (para o caso do meu olhar não ter acção sobre o animal) e corri à praça do mercado, em cujo ângulo residíamos.
Minha pobre mãe que, dessa vez, me julgou irremediavelmente perdido, tentou impedir-me a passagem:
— Astartos, oh imprudente, olha que arriscas a vida; proíbo-te que saias!
Eu, porém, não estava habituado a ouvir outra voz que a das minhas paixões, e a ideia de subjugar um tigre me perturbava.
Aspirava à celebridade por todos os poros de minha alma violenta e, sem atender aos soluços maternos, lancei-me à praça que o tigre já havia juncado de cadáveres de muitas vítimas.
No momento que lá surgi, o enorme animal agachado, com o focinho sangrento, preparava-se para investir num velho estimadíssimo magistrado, que, aterrorizado, havia caído de joelhos recomendando-se aos deuses.
De um salto barrei o caminho ao tigre, que, à vista do meu aspecto atlético, parou rugindo e abanando a cauda.
Essa atitude apenas durou um instante e logo se preparou para atirar-se a mim; tive, porém, tempo de cruzar os braços e fixá-lo.
Dirigi meu olhar para as suas pupilas esverdeadas com toda a força do meu querer, fez-se um silêncio de morte, eu respirava penosamente, mas não deixava de fitar a fera, que demonstrava ter já perdido a agilidade.
De pronto, os olhos se lhe fecharam, oscilou e estendeu-se preguiçosamente no solo.
Sem desviar os olhos, aproximei-me, agarrei-o pela juba e o reconduzi à jaula.
O terror e o espanto paralisavam os espectadores da cena, ao verem-me levar o tigre.
A massa de curiosos, tudo esquecendo, seguiu-me e quando as sólidas barras de ferro isolaram o inimigo comum, um eco de alegria e admiração reboou e a multidão entusiasmada precipitou-se, carregando-me nos braços, em triunfo, até a minha casa.
Minha mãe me abraçou, chorando, eu não me sentia mais sobre a terra.
Fui cumulado de presentes, dizia-se abertamente que era lamentável vegetasse eu em Pompeia; que meu futuro e glória estavam no circo de Roma, onde me tornaria estrela de primeira grandeza.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 7:59 pm

Sôfrego de sucesso, amando o perigo e as emoções violentas, segui estes conselhos e, com os bolsos bem recheados, parti para Roma.
A notícia da façanha facilitou minha recepção com alegria e decidiu-se a estreia no circo no primeiro grande espectáculo, ao qual devia assistir Tibério, com sua mãe e a esposa.
Até o dia solene, vivi contente; não estava sozinho naquela cidade, onde encontrara dois amigos sinceros: meu irmão de leite, Agripa, que servia na guarda de Tibério, e Marcos, amigo de infância, embora pouco mais velho do que eu, médico da corte.
No dia do espectáculo, obtive estrondoso sucesso; dominei todas as feras que se me apresentaram; estava cansado, mas feliz e envaidecido; os frenéticos aplausos da multidão me embriagavam; recebi uma coroa de flores e um colar de ouro.
Quando me inclinei diante da tribuna de Tibério, a mão branca de Júlia lançou-me uma echarpe de seda e a expressão do seu olhar dizia claramente que o homem era admirado quanto o gladiador.
Após tantos séculos decorridos e tão diversas encarnações terrestres, creio poder afirmar, sem fatuidade, que na minha vida de Astartos fui de uma beleza admirável; alto e esbelto, minha mãe de origem grega, havia-me transmitido em toda sua pureza o tipo e as formas das antigas estátuas; minha cútis tinha a palidez mate dos homens muito apaixonados; cabeleira negra, abundante e anelada, olhos grandes, negros, penetrantes, molduravam um conjunto que bem podia tentar as mulheres.
Em seguida à representação é afastamento do público, houve grande banquete para os gladiadores, dançarinas do circo, seus parentes e alguns convidados.
A festa se prolongou, degenerando em formidável orgia em que se bebia e cantava.
A alegria, o alarido e os gritos eram espantosos.
Pronunciei, então, uma arenga em meu próprio louvor e questionei com um gladiador invejoso dos meus sucessos.
Exaltamo-nos em recíprocas bravatas, enumerando sucessivamente as de que nos sentíamos capazes, quando um criado do circo se aproximou e me tocou no ombro: — Gladiador Astartos, vem daí que alguém deseja falar-te.
Levantei-me, e acompanhei-o.
Debaixo de grande portal, um negro ricamente vestido me aguardava; inclinou-se profundamente e disse-me que uma pessoa desejosa de beneficiar-me o havia incumbido de levar-me à sua presença.
Experimentei grande surpresa, pois, aquela hora, quem poderia querer ver-me?
Essa ingénua ignorância apenas se desculpava porque me encontrava em Roma havia quinze dias; mais tarde não me admiraria quando, após os espectáculos, um criado de confiança vinha falar-me de uma protectora.
Mas, muito intrigado, acompanhei o mensageiro até que parou diante de pequena porta duma ala do palácio de Tibério, habitada pelos escravos.
Tirou do bolso uma echarpe de seda:
— Tenha confiança em mim, gladiador; devo vendar-lhe os olhos.
Eu não conhecia perigo e comecei a pensar que o episódio teria um fim aventuroso.
Deixei-me vendar.
O cicerone tomou-me a mão e seguimos.
Depois de muito andarmos, parou; percebi ao derredor um fru-fru de cortinas preciosas, ao mesmo tempo que aspirava deliciosos perfumes.
— Tira a venda — disse uma voz suave.
Obedeci e fiquei aturdido no umbral de uma alcova cujos reposteiros sumptuosos acabavam de ser descerrados atrás de mim; um luxo fantástico me cercava; vi, então, pequena mesa coberta de áurea baixela com iguarias apetitosas e ânforas cinzeladas; mas, o que cativou inteiramente minha atenção, foi a existência, no fundo do quarto, de um leito sobre estrado guarnecido de tapetes purpurinos.
Sedutora mulher ali estava deitada — ou melhor — recostada em almofadas de seda bordada a ouro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 7:59 pm

Braços nus, carregados de pulseiras, cabelos desnastrados até os joelhos, mas, oculto o rosto por espesso véu.
— Astartos — disse a mesma voz meiga — aproxima-te, meu amigo; quero proteger-te e amar-te.
Aproximei-me inteiramente perturbado e, caindo de joelhos, beijei-lhe as mãos.
— Que fiz para tornar-me o mais feliz dos mortais?
— Tua beleza e coragem fazem de ti um semideus; toma e bebe.
Passou-me a taça cheia e bebi um vinho capitoso, que me reanimou.
Ajoelhando nos degraus do leito, troquei com a desconhecida ternas palavras amorosas.
Mas, como o vinho me subisse à cabeça, a mão audaciosa pretendeu levantar o véu que cobria o rosto da bela desconhecida.
— Desgraçado, a que te arriscas? — disse, desviando-me a mão.
Levantei e cruzei os braços:
— Desejo ver-te e se não te pejas de aceitar o meu amor, não deves esconder-me teu rosto.
— Cruel Astartos! não posso; exiges o impossível.
— Para a mulher que ama, nada é impossível.
Ela insistiu na recusa, eu agastei-me.
— Pois bem — disse — deixo-te; não posso amar uma criatura que não confia em mim.
Voltei-me e dirigi-me para a porta, certo de que não me deixaria sair.
Não me enganava.
Um grito aflitivo logo me fez voltar.
O véu tinha caído e contemplei o belo rosto de Júlia, a mulher de Tibério.
Meu sangue gelou; aquela aventura podia custar-me a vida; mas, apesar de tudo, Júlia era sedutora na sua rica toilette.
Atirou-se-me aos braços e tudo foi esquecido: o terror e Tibério.
Depois disso, raras noites passei no circo; a atitude muito apaixonada e o ciúme feroz de Júlia me desgostaram e fizeram aborrecê-la de pronto.
Não ousei, contudo, demonstrar esses sentimentos, temendo provocar ódio e vingança.
Via-me obrigado a esperar, impacientemente, que ela elegesse outro amante.
Entretanto, enchia-me de ouro e de presentes, tomando-me o mais rico gladiador de Roma.
Eu não trocaria então minha vida pela de um deus.
As mulheres me cortejavam e Júlia tinha razão de enciumar-se,
pois, deixava-me seduzir por toda parte.
Tive também a muita sorte de não me haver encontrado jamais com Tibério nos apartamentos da rainha.
Ele nunca desconfiou da afeição apaixonada que inspirei à ilustre esposa.
Não tinha aliás muito tempo para a espionar, porque se entregava a toda sorte de divertimentos.
Mais de dois anos assim passaram.
Por fim, minha mãe adoeceu e desejou ver-me.
Despedi-me de Júlia, que, só a contragosto, consentiu na minha ausência.
Ainda assim, cumulou-me de presentes para minha mãe.
Cheguei a Pompeia aureolado como um semideus.
Meus triunfos eram conhecidos e falava-se à socapa das concessões de Júlia; fui festejado, adulado e em recompensa distribuía punhados de ouro e brindes diversos.
Durante a estadia em Pompeia, travei conhecimento com Febé, filha de um rico agricultor da redondeza, chamado Glauco; ela fora à nossa casa para cuidar de minha mãe e logo percebi que lhe havia despertado uma paixão tão violenta quanto a de Júlia.
Nunca fui mau e logo um terno amor nos uniu; mas, em mim, esta paixão diminuiu com incrível rapidez, enquanto que em Febé aumentava sempre.
Enfim minha mãe se restabeleceu»
Comuniquei-lhe até que ponto era vítima da paixão daquela moça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 7:59 pm

— Partirei secretamente — disse — para evitar dolorosas despedidas.
Minha mãe concordou; abençoou-me e parti às escondidas, desaparecendo de Pompeia como uma sombra.
Mas, apenas vencido um dia de marcha, eis que Febé foi alcançar-me, montando um cavalo branco de espuma; cobriu-me de censuras e declarou que, por coisa alguma do mundo, me abandonaria.
Isso me exasperou de tal forma que tomei de rebenque (éramos já muito familiares para que me sentisse constrangido diante dela) vergastando-a como merecia e ordenando que regressasse a Pompeia.
Ela, porém, suportou pacientemente a minha brutalidade e ficou.
Tal manifestação de humildade e afeição, sensibilizou-me; disse-lhe então que consentia em fazê-la dançarina do circo, mas que se precatasse de
ser infiel ou imprudente, porque, do contrário, o chicote entraria novamente em cena.
Mostrou-se de humildade extrema e tudo prometeu.
Continuamos a viagem para Roma.
Com grande e geral espanto, instalei-me com ela no meu apartamento do circo, e, para acalmar a curiosidade dos companheiros, disse-lhes que ela possuía grande vocação para as danças e a trouxera para ensaiar convenientemente e apresentá-la no circo, o mais breve possível.
à noite, muni-me da chave que Júlia, a minha poderosa senhora, me dera e, bem a contragosto, dirigi-me para o palácio de Tibério.
Dissimulei o melhor que pude minha presença, para não nos comprometer.
Atravessei sem dificuldade o corredor secreto, e, abrindo a porta, espreitei, através das cortinas, o interior da alcova já bem conhecida, e onde, por ocasião da primeira visita, magnífica mesa guarnecida e perfumes estonteantes me haviam perturbado.
Vi Júlia recostada no leito, abraçando pelo pescoço um homem ajoelhado numa almofada diante dela.
Trocavam frases amorosas.
Surpreso um instante, permaneci mudo.
Tinha um rival?
Satisfeitíssimo, levantei a cortina e me apresentei aos dois amantes, fingindo grande espanto.
Vendo-me, Júlia deu um grito tapando o rosto; o oficial levantou-se de um salto e desembainhou a espada; empertigando-me arrogantemente, disse:
— Peço perdão de haver perturbado a vossa entrevista; mas, eis o que devo restituir.
E coloquei a chave na mão do jovem patrício estupefacto:
— Aqui tem a chave da alcova e do coração — acrescentei.
Virando-me para Júlia, inclinei-me profundamente e lhe disse em tom imperioso:
— Vós mesma assim o quisestes e não ouso me insurgir contra os vossos desejos.
Saí lépido e radiante por me haver desembaraçado de tão perigosa aventura.
Desde então, não mais a vi.
Tempos depois, entretanto, soube por Marcos que um oficial da escolta de Tibério havia perecido, acusado de haver levantado a vista para a augusta e real senhora.
Por nada deste mundo teria querido rever tão perigosa criatura.
Febé habituara-se rapidamente à sua nova situação e os gladiadores lhe agradavam muito; por questão de amor-próprio, eu não poderia tolerar tal coisa e nunca essa criatura relaxada e pérfida fora submetida a tão rude e severa disciplina; desde que eu virava as costas, ela tramava alguma infâmia; mas, como já desconfiava, surpreendi-a muitas vezes e então a espancava sem compaixão.
Por fim, ela já me temia como ao próprio fogo e isso constituía o seu único freio.
Certa feita, exasperada, tentou envenenar-me e o acaso me salvou.
Teria podido usar de represália, mas me contentei, após uma punição exemplar, com encerrá-la numa jaula onde a sovava três vezes por dia, ao levar-lhe as refeições.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:00 pm

Um dia, Marcos deu-me um pó que adicionei ao alimento, provocando-lhe vómitos e ela acreditou ter sido envenenada; rolou, então, a meus pés, pedindo perdão.
Fingi dar-lhe um antídoto, desculpando-a.
Depois de muito trabalho e exercícios de alguns meses, Febé tornara-se uma dançarina digna de figurar no circo.
Comprei-lhe vestidos adequados e um dia apresentei-a na arena.
Sua estreia foi um grande sucesso.
Linda de corpo, jovem, robusta, de traços acentuados, com opulenta cabeleira negra e belos dentes, grandes e muito claros.
Não agradaria a uma pessoa de gosto apurado, mas o seu desempenho artístico valeu-lhe aplausos frenéticos da multidão e Tibério mostrava-se admirado.
Envaidecida, vendo que agradara, sobre passou-se e praticou maravilhas.
No dia seguinte um oficial da guarda imperial foi chamar-me a palácio.
Supus que o futuro imperador quisesse exprimir-me pessoalmente sua satisfação e apresentar cumprimentos por ter preparado uma dançarina tão hábil.
Aprestei-me e segui o oficial.
Fez-me entrar numa sala luxuosamente decorada onde avistei Tibério deitado numa cadeira preguiçosa, acariciando com os dedos o colar de ouro.
Com um gesto afastou os presentes e fiquei a sós com o temido e poderoso herdeiro do império.
Durante alguns instantes, cravou-me os olhos cruéis e penetrantes.
— Gladiador Astartos, quanto queres pela tua «Bestia?» — disse finalmente.
Compreendi de pronto:
o bom Tibério pretendia desembaraçar-me da víbora, que nenhum gladiador quereria.
— Nada vale tanto como um instante de prazer para o meu ilustre senhor e futuro soberano; basta-me a alegria de lhe ser agradável — respondi, inclinando-me reverente.
Um sorriso de íntimo contentamento iluminou o rosto anguloso do potentado.
— Bem, gladiador; lembrar-me-ei de ti; conta com a minha protecção.
Quando me enviarás essa mulher?
— Dentro de uma hora — respondi em voz baixa, acrescentando.
Meu augusto senhor, cedo-a, mas devo prevenir-vos que, com ela, é preciso usar sempre do chicote; é uma víbora que morde a mão que a sustenta e trai o benfeitor.
Tibério sorriu:
— Bem, envia-me o teu chicote com ela.
Tomou de cima da mesa uma taça de ouro ricamente cinzelada e ornamentada de camafeus:
— Bebe — disse — e guarde-a como lembrança.
Bebi à sua saúde e depois de agradecer, retirei-me satisfeitíssimo.
Chamei dois escravos e retornei à casa.
Febé preparava no momento a nossa refeição.
Não experimentava qualquer contrariedade em pensar que ia separar-me da minha doméstica, pois temia sempre ser envenenado por ela e sentia-me feliz por desembaraçar-me dos seus préstimos.
— Veste-te, bruta! — disse-lhe, desenrolando o chicote.
Olhou-me espantada, acreditando que houvesse descoberto alguma das suas infâmias.
— Ofertei-te a Tibério — continuei — e ele me pediu que te enviasse com o chicote que te mantém rigorosamente obediente.
Mas, não te regozijes muito com a aventura e que o fausto não te perturbe o miolo; aqui não recebeste senão pancada; mas, se irritares Tibério, que não é de brincadeiras, tua cabeça servirá de pasto aos porcos; sou eu que te digo; toma cuidado, pois, com esta minha última recomendação.
Vestiu o melhor que tinha e depois de uma despedida muito respeitosa, acompanhou os dois escravos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:00 pm

Depois disso não a vi senão durante as representações em que Tibério quis que ela figurasse.
Apesar da sua nova situação, o amor frenético que ela sentia por mim não arrefeceu, mas como todas as suas demonstrações ficavam sem resposta, pouco a pouco passou a votar-me um ódio surdo e implacável e eu amaldiçoava o dia em que encontrara essa mulher pérfida e dissoluta.
O tempo escoava-se em festas, orgias e jogos diversos.
As mulheres mais belas e ricas de Roma queriam-me por amante, porque minha beleza e coragem as embriagavam e lhes transtornavam a cabeça.
Eu estava tão rico que poderia deixar o circo e viver confortavelmente.
Minha velha mãe gozava de grande abastança.
Contudo, eu adorava aquela vida perigosa, cheia de incidentes que, muitas vezes, me punha a dois dedos da morte; minha força e destreza, porém, sempre me fizeram triunfar.
A essa altura, estalou nova guerra com os Germânicos.
Tibério partiu para a campanha levando consigo Febé e Marcos, seguido de numerosos patrícios.
Fiquei à vontade, sem temer ciúmes intempestivos, pois muitos patrícios combatiam para glória da pátria.
Entretanto, como tudo tem fim neste mundo, um belo dia chegou a desagradável notícia de que Tibério e o exército vitorioso regressavam a Roma.
Batedores anunciaram em todos os quarteirões da cidade que os romanos, após grandes vitórias sobre as tribos germânicas, regressavam a seus lares, carregados de despojos e conduzindo inúmeros prisioneiros de ambos os sexos.
Resolvi, também, praticar um ato de caridade, tomando uma das pobres prisioneiras para criada (uma das mais belas, está visto) e ela parecia sentir-se muitíssimo feliz com a sorte que mais de uma patrícia invejaria.
No dia marcado para a entrada triunfal de Tibério, toda a cidade e sobretudo as ruas que o cortejo deveria percorrer, estavam magnificamente ornamentadas e atapetadas; foram construídas tribunas para as vestais e os principais patrícios.
Todos os logradouros foram invadidos pela multidão, até mesmo nos telhados viam-se espectadores.
Coloquei-me defronte da tribuna das senhoras e, como chegasse cedo, vi-a encher-se pouco a pouco.
A mãe de Tibério e Júlia, esta toda de branco e coberta de jóias, foram as últimas a chegar, acompanhadas de numerosos patrícios e escravos.
Com a presença delas, iniciou-se o desfile.
Após os soldados, veio a presa de guerra; depois, a massa de prisioneiros e em seguida um carro puxado por cavalos brancos, conduzindo Tibério, que, de pé, envolto numa toga encarnada e coroado de louros, saudava com as mãos o povo estúpido que o aclamava de passagem com frenética algazarra.
Pouco adiante do carro ia, como última das prisioneiras, uma rapariga que atraiu minha atenção e provocou murmúrios do povo, porque já se havia espalhado o boato de que Tibério trazia uma prisioneira de nome Lélia, que o detestava e maltratava por todas as formas. Acrescentava-se, mesmo, que, quando do seu primeiro encontro, ela lhe havia despejado na cabeça todo o vinho de uma taça que ele lhe havia ordenado que segurasse.
Eu sabia muito mais ainda, a esse respeito, porque na véspera, à tarde, Marcos tinha ido visitar-me e muito me falara do carácter enérgico dessa jovem selvagem.
Compreende-se, pois, a curiosidade com que fixei essa Lélia, vendo-a aparecer.
Linda mulher de olhos grandes e azuis, soberba cabeleira loura, solta e anelada caía-lhe até a cintura.
Vestia costume branco com uma capa azul; um braço e ombro envoltos em ligaduras.
Tibério parecia a alegria personificada.
Quando, porém, o cortejo passou diante da tribuna das patrícias, Júlia fixou um olhar ávido e curioso no rosto mortalmente pálido da prisioneira.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:00 pm

Esta, sem dúvida, sabia ou compreendeu diante de quem se encontrava, porque, subitamente corou de vergonha, deu alguns passos vacilantes, estacou e levando a mão ao peito, caiu desmaiada na poeira da rua.
Tibério inclinou-se vivamente; manchas vermelhas afluíram-lhe ao rosto.
Eu sabia por Marcos que todas as ordens relativas à prisioneira partiam dele; assim, ninguém ousou tocá-la nem socorrê-la.
A expectativa se fez silenciosa, geral, profunda.
Júlia comoveu-se e pareceu dar ordens aos pajens; alguns se levantaram e desceram conduzindo frascos; mas, antes que chegassem ao meio da rua, Tibério em atitude feroz ordenou que levantassem Lélia e a colocassem aos seus pés, atravessada no carro:
A ordem foi imediatamente cumprida e o cortejo prosseguiu mais depressa para o palácio.
Observou-se, então, que Tibério se retraiu e parecia distraído e de olhos quase sempre baixos.
Cheguei a casa muito intrigado com tudo aquilo.
à tarde, apareceu Marcos e falou longamente dessa aventura, referindo o orgulho tão raro da rapariga, que não suportava afrontas sem revidar com raiva e ódio verdadeiramente selvagens.
Passaram-se meses sobre este incidente.
O circo me tomava quase todo o tempo e, contudo, graças a Marcos, sempre obtinha novidades frescas da corte.
Soube, então, que Febé se tornara amante de Sejano, o poderoso conselheiro de Tibério, mas este simulava ignorar essa ligação; muito mais preocupado com a jovem germânica, que o maltratava sem tréguas e, apesar disso, ele adorava a seu modo, guardando-a como a menina dos olhos.
Decorreram assim muitos meses sem que eu tornasse a ver Lélia.
Uma tarde, porém, um portador de Tibério me intimou a acompanhá-lo até o palácio, levando o meu alfange.
— Ele quer castigar um pouco a insolente selvagem, acrescentou o mensageiro — que recusa confessar-lhe abertamente o seu amor, e essa dissimulação o irrita ao mais alto grau.
Chegando a palácio, levaram-me a uma sala ricamente decorada.
Na extremidade da mesa, ainda posta, Marcos de pé, impassível, com a sua caixa de medicamentos e ligaduras, pronto para tudo.
Tibério andava de um lado para outro, agitado, de braços cruzados às costas; percebi que tinha uma orelha pensada e, conhecendo por Marcos os detalhes da sua vida íntima, imaginei que provavelmente se houvesse aproximado de Lélia para abraçá-la, e que os dentes da pequenina fera se cravaram naquela orelha sempre surda, quando ela repetia: abomino-te!
Cumprimentei detendo-me respeitoso junto à porta, fixando curiosamente a heroína de. tantas aventuras.
Ela estava tranquilamente assentada num divã, apoiada em almofadas bordadas a ouro.
Dessa vez, pude analisá-la a meu gosto; era uma jovem de dezanove anos no máximo, muito franzina; rosto encantador, somente os olhos de um azul de aço traduziam expressão feroz e rancorosa; as mãos delicadíssimas repousavam, naturalmente cruzadas, sobre os joelhos; vestia costume branco e um laço dourado lhe retinha os cabelos louros e crespos.
Tibério que, durante todo esse tempo,, continuava a passear nervoso de um lado para outro, parou subitamente à minha frente:
— Gladiador — disse em tom grave - vou confiar-te esta jovem criminosa.
Trouxeste o cutelo?
Bem, leva-a e sem perdei tempo faze dela um ensopado para as tuas feras.
Marcos estremeceu e seus olhos me fixaram com pavor.
Tibério fitou-a querendo observar o efeito da ameaça.
Ao nosso constrangimento, porém, ela correspondeu com uma estridente gargalhada.
Tibério ficou vermelho de raiva.
— Insolente! exclamou — ousas rir da minha severidade!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:00 pm

— Bah! — retrucou Lélia — tantas vezes me tens ameaçado com a tua severidade e os teus carrascos, de me fazerem em pedaços, que já não tenho mais medo.
Acaba logo com isso, pois a ti prefiro tudo.
— Cala-te, bestial — esbravejou, batendo o pé — ainda ousas raciocinar em minha presença!
— Em tua presença — repetiu ela desdenhosamente — sempre em tua presença, porque não me deixas um instante de sossego, embora eu não sinta nenhum prazer em falar contigo.
E levantou-se:
— Vamos, gladiador; faze de mim um repasto para tuas feras; é sempre melhor do que ser dia por dia uma presa de Tibério.
Estendi o braço para agarrá-la cumprindo a ordem, mas Tibério tornou-se inquieto e posse a caminhar a passos precipitados, parando a cada instante.
Quando alcançamos a porta, precipitou-se rápido como um falcão para junto de Lélia.
— Ah! queres ir!
Pois, ficarás; viverás e hás-de amar-me, pequena víbora; agora, pede-me perdão por me haveres magoado a orelha.
Sim, porque a verdade é que não ousaste morder-me e eu quis somente punir-te pela tua insolente intenção.
Tomou-a nos braços e colocou-a no divã.
— Acalma-te — prosseguiu — o terror tornou-te pálida.
Se tiveres a coragem de confessar-me o teu amor, não considerarei tudo isso mais que simples exaltação de espírito.
Ainda que eu seja o futuro imperador e constitua praxe considerar divindade um personagem do meu quilate sem lhe atribuir sentimentos e paixões humanas, eu prometo desculpar-te.
Lélia o fitou muito espantada.
— Divindade, tu?
Em que templo ouviste dizer semelhante coisa?
Por que pensar que receio declarar um amor que não existe?
Não sou Febé, que ora beija os pés e ora te bate.
Tibério empertigou-se:
— Infeliz! Se assim falas para me despertar a ideia de te justiçar, toma cuidado!
— Vai-te! — disse-me em seguida — uma vez que ela pede graça e, a meu mal-grado, lhe perdoo; vai-te — repetiu.
Sem dúvida, minha presença o constrangia em face da própria dignidade.
Saí muito admirado do carácter estranha do futuro imperador, que, positivamente, suportava todas as grosserias de Lélia sem muito se ofender, interpretando-as de forma singular.
Mais de um ano se passou após este incidente, sem ocorrer acontecimentos dignos de menção, quando um dia, ocupado em distribuir ração às feras ouvi chamar:
«Astartos, Astartos!»
Era um dos meus colegas.
— Vem imediatamente, trouxeram uma prisioneira que o procônsul Gálio envia para ser lançada às feras.
Como fosse eu quem sempre recebia os condenados, interrompi a tarefa e fui ao pátio.
Lá deparei com um grupo de camaradas que examinavam curiosamente a recém-vinda.
Aproximei-me também, mas, desde que vi a prisioneira, parei estarrecido, pois acabava de reconhecer Veleda, amiga da infância, filha de um rico negociante de perfumes, cuja loja ficava fronteiriça à casa de Agripa.
Eu e esse irmão de leite havíamos passado agradáveis momentos em casa dela; brincávamos com o filho adoptivo do bondosa negociante e com a filha, a pequenina Veleda; eles, quando o pai não estava em casa, nos davam a mancheias os perfumes que queríamos e agora era essa mesma Veleda que me entregavam para fazê-la morrer de morte horrível.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:00 pm

Tomei de pronto a deliberação de tudo fazer para livrá-la, mas, aparentemente, dominei-me para não despertar desconfianças, mostrando qualquer interesse pela prisioneira.
Preenchendo rapidamente as formalidades necessárias, conduzi-a para o cubículo e indaguei o motivo que a arrastara aquele triste lugar.
Veleda se mostrava triste e muito cansada, mas, ainda assim, contou-me em poucas palavras a sua triste história; depois, esgotada, assentou-se na palha da prisão.
Agitado, procurava observá-la.
Minhas recordações da infância me assaltavam de tropel; revia-me na loja, assentado no chão, encharcado de óleo perfumado, que as suas pequeninas mãos esforçavam em vão, em desesperadas fricções, para empastar-me a cabeleira e que escorria em grossos filetes pelo meu pescoço, braços e roupa, enquanto Tito e Agripa furtavam os potes de tinturas.
Depois, recordei o dia de trágica memória, em que quebramos grande cântaro de óleo de rosas; Tito queria suicidar-se; Veleda torcia as mãos repetindo:
— Que dirá papai?
E nós, os malfeitores, olhávamos consternados o rio aromático, sem saber o que fazer.
Por fim, ganhamos coragem e tomamos de outro cântaro, recolhemos o óleo.
O que faltou, foi completado com outra qualidade de essência menos preciosa.
Tito esqueceu prontamente a ideia do suicídio e se consolou, dizendo que a parte perdida seria paga pelos fregueses.
Pobre Veleda!
Como estava mudada!
Não era a mesma daqueles tempos felizes!
Havia quatro anos que nos não víamos.
Ela se desenvolvera e era agora uma mulher de beleza invulgar.
Vou tentar, aliás, descrever aqui essa vítima da tenaz e brutal paixão do procônsul Gálio.
Extremamente delgada e franzina, de porte médio e cútis branca e resplandecente das mulheres louras; o rosto pálido, porém, iluminado por grandes olhos negros, velutíneos, a rebrilharem com sombrio orgulho; um rosto pequeno e rosado; a expressão severa e enérgica emprestavam-lhe aparência de mais idosa do que realmente era.
Mas o que sobressaía, à vista, era a cabeleira de um louro dourado, que, em massa de incrível opulência, estendia-se até os tornozelos, qual manto ondulante.
Pés e mãos de pequenez rara e uma ideal perfeição de formas completavam a harmonia de conjunto, que, repito, integrava uma beleza sem par.
Naquele instante, a expressão sinistra dos olhos e a contracção rancorosa dos lábios toldaram um pouco a harmonia dos seus traços admiráveis.
Após havê-la encorajado quanto possível, encarcerei-a e corri a avisar Marcos e Agripa.
Este último, loucamente apaixonado por Veleda depois da última viagem a Pompeia, um ano antes, resolveu tudo fazer para salvá-la.
Quanto a Marcos, apesar de todo o interesse que votava à Veleda, estava muito absorvido com os próprios pesares depois de uma ocorrência que os seus amigos sabiam bem dolorosa.
Tentaram libertar Lélia, mas o plano fracassara, sendo presos seu irmão e o noivo, de nome Hilderico, jovem cuja beleza ultrapassava de muito a minha; jamais vi tão belos cabelos louros e anelados, nem mais admiráveis olhos de um azul profundo como o mar.
Tibério, abjectamente enciumado, mandou enterrar o infeliz Hilderico até o pescoço, deixando a cabeça de fora para que ratos esfaimados a devorassem.
Como coroamento de crueldade, levou Lélia a ver o afrontoso suplício aplicado ao homem amado.
Louca de raiva, ela atirou-se à garganta de Tibério e tê-lo-ia estrangulado se Agripa não a retirasse, aliás com grande dificuldade, ficando o tirano caído, sufocado.
Um tal ato de violência, praticado diante de tantas testemunhas, não podia ficar abafado:
Lélia foi submetida a julgamento pelo Conselho privado de Tibério e condenada a morrer no circo, estraçalhada pelos leões.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 16, 2016 8:01 pm

A infeliz criatura foi entregue à minha guarda e levei-a à mesma prisão em que se encontrava a minha amiga da infância.
Cedo, estreita amizade as reuniu, porque nada melhor que desgraças e ultrajes comuns para aproximar almas.
Todos os nossos pensamentos, nessa ocasião, se concentravam nos meios de salvar as duas prisioneiras, mas as dificuldades eram enormes, sobretudo com relação à Lélia.
Constantemente, antes de visitar as prisioneiras, aqueles amigos se reuniam em minha casa e discutíamos o assunto.
Os dois jovens apresentavam um estranho contraste:
Agripa fogoso, impulsivo, orgulhoso da sua condição e fortuna, zangava-se frequentemente, porque lhe parecia que duvidávamos da eficácia dos seus planos; estava convencido de que salvaria a mulher amada; Marcos, pálido, apreensivo, torcia as
mãos repetindo com desespero:
«Nada posso, á não ser entregá-la a Tibério.
Ah! sorte maldita!»
Empregando minha força dominadora, acalmava os arroubos de um, consolava e animava os desfalecimentos do outro e restabelecido o equilíbrio, descíamos ao calabouço.
Certa manhã, Tibério mandou chamar-me.
Introduziram-me na sua alcova.
Estendido num canapé, parecia preocupado e fitou-me com expressão rancorosa.
Talvez suspeitasse no belo gladiador um rival junto da mulher que tencionava matar dentro de poucos dias.
Falou-me da possibilidade de um perdão (covarde tirano que só experimentava os temores da perda quando as coisas já haviam sido levadas ao extremo).
— Previne-te — concluiu ao despedir me — se me ocultas que a infeliz criatura confia em mim, porque existe a possibilidade de que a minha infinita indulgência lhe perdoe os seus crimes.
Depois deste colóquio, ele próprio foi visitar a condenada, primeiro só, depois acompanhado de Gálio.
Veleda descreveu essa visita dos verdugos.
Enfim, chegou o terrível dia do suplício de Lélia.
Desde cedo, quando ela assim o quis, dei-lhe novos vestidos; ao levar-lhe a última refeição, (na qual não tocou), fiquei impressionado com a sua beleza e o contraste entre ela e Veleda.
Mais alta que esta, também delgada e elegante, Lélia possuía um rosto de criança, sorridente, claro e rosado; olhos grandes, azuis e brilhantes; dir-se-ia radiosa aurora ao pé da sisuda e sinistra Veleda, tão imobilizada e pálida que se poderia tomar por uma estátua, não fossem as sombrias chamas dos seus negros olhos.
Lélia estava pronta.
As duas jovens permaneciam abraçadas.
Quando lhes anunciei o momento da separação, tudo fizeram para se manterem calmas e após um derradeiro adeus Veleda atirou-se na enxerga e mergulhou a cabeça para esconder as lágrimas.
Lélia, lábios trémulos, cambaleava; apoiava-se em mim e assim a levei para fora da prisão.
No corredor, estava Marcos encostado à parede.
Ocultava com as mãos o rosto pálido.
Quando Lélia o avistou, aproximou-se rapidamente e tocou-lhe na mão:
— Marcos, meu amigo, não te desesperes por não teres podido salvar-me; sou feliz porque prefiro a morte à vida; roga apenas aos deuses para que meu sofrimento não seja longo.
Marcos soluçava; tingiu-a de encontro ao peito, desesperado.
Nesse momento, sapateados e longínquo rumor anunciaram, a impaciência do público.
Glacial suor inundava-me a fronte.
Urgia separá-los.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:52 pm

— Coragem, meus amigos; submetei-vos ao inevitável!
Ela desprendeu-se de Marcos e seguimos.
— Lélia — disse, apertando-lhe a mão — sou inocente pela tua morte, não passo de simples instrumento.
— Sei, Astartos — respondeu apertando-me também as mãos — e te agradeço todas as atenções.
No momento de abrir a portinhola e introduzi-la na arena, ouvi o baque surdo de um corpo que rolava pesadamente no piso do corredor...
Era Marcos!
Gostei desse acidente, pois isso era melhor que ter consciência do terrível momento que se aproximava.
Nesse instante, foram soltas as feras; afastei-me e permaneci de pé, semilouco deixando todo o trabalho aos demais gladiadores.
Não desejava presenciar o horroroso espectáculo.
Imediatamente, a voz de Tibério se fez ouvir, aquela voz seca e estridente, de timbre metálico:
«Gladiadores, salvai-a se for possível!
— Sim, sim, graça para a condenada, vociferou a turba».
Essas palavras me reanimaram.
Tudo esquecendo, em dois saltos me coloquei no meio da malta esfaimada, que já lambia a presa desmaiada e caída na arena.
Uma raça sobre-humana me invadiu, saquei do alfanje e desferi golpes a torto e a direito.
Os demais gladiadores me secundaram, mas ainda me restava um último inimigo.
Corpo a corpo,
defendia Lélia contra um enorme tigre.
A temível fera se tinha alçado nas patas traseiras e permanecíamos abraçados.
Já os dentes do animal começavam a dilacerar-me a carne das espáduas e as garras tremendas a se me cravarem nos rins.
O público, electrizado pelo espectáculo, gritava com frenético entusiasmo, sem imaginar que se tratava de um combate mortal e que um momento de desfalecimento seria a minha ruína.
A dor atroz da espádua parecia paralisar-me o braço; meu alfanje caiu; uma nuvem passou-me pelos olhos e suor glacial inundou-me a fronte.
Gritos de terror anunciavam o receio da multidão em perder o seu gladiador favorito.
Ouviam-se gritos das mulheres e a palavra — perdido — passou-me pela mente como um relâmpago.
Recuperando novamente as forças, mergulhei meu olhar intrépido nas pupilas esverdeadas do tigre, que se imobilizou pouco a pouco.
Seus dentes se descerraram, as garras afrouxaram, o pelo se eriçou; todo ele tremeu, cambaleou e abateu-se a meus pés.
Agarrei-o pelo couro do pescoço e, baixando a cabeça para não desviar o olhar, conduzi-o à jaula, deixando cair a grade.
Aclamações frenéticas colimaram a vitória; sangrando, mas radiante de contentamento, inclinei-me ante à multidão e, nesse instante, grosso colar de ouro caía-me aos pés, atirado pelo próprio Tibério,
Mandei logo retirar Lélia e corri para junto de Marcos ainda desfalecido no corredor.
— Levanta-te — disse sacudindo-o — ela está salva; vem prestar-lhe tua assistência.
Ele voltou a si e correu como louco para a jaula vazia, onde haviam depositado Lélia.
Pobre rapaz, que se regozijava em ver que o joguete do seu rival estava salvo!
Eu, teria tido coragem para matá-la e nunca para contemporizar em partilha.
Findo o espectáculo, Tibério foi aonde estava Lélia.
Lá também acorri, após haver-me lavado e feito pensar.
— Conduzam-na para minha casa — ordenou — e tu, gladiador, me acompanharás para receber uma recompensa digna da minha satisfação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:53 pm

Vamo-nos quanto antes — acrescentou fixando um olhar apaixonado no rosto pálido de Lélia ainda desacordada.
Por mim, desdenhava qualquer recompensa do tirano, mas não ousava desobedecer-lhe abertamente; cumpria-me acompanhar os escravos que conduziam a pobre prisioneira.
Introduziram-me no quarto onde a depositaram num leito de ébano esculturado.
Marcos, aparentemente impassível, ocupava-se em preparar uma poção reconfortante.
Dentro de poucos minutos, Tibério entrou precipitado; parecia muito contente e nos saudou cordialmente.
Bateu-me no ombro dizendo:
— És um herói, Astartos.
Tirou do dedo um anel com magnífica esmeralda e me presenteou:
— Guarda-o como lembrança da minha estima; repito, és um herói, embora não tenhas combatido num campo de batalha.
Inclinei-me profundamente.
— Ah! já estás aqui, doutor — disse Tibério lançando um olhar desconfiado à bela e imperturbável fisionomia de Marcos, que descreverei de passagem: era de porte médio, muito bem proporcionado; seu rosto de traços bem regulares, traduziam lealdade e bondade; olhos pardos e grandes, atraíam-lhe simpatia.
Lélia acabava de reabrir os olhos, mas, muito depauperada, repousava nas almofadas, como se estivesse toda fracturada.
Tibério aproximou-se vivamente e se debruçou para ela, naturalmente com intenção de abraçá-la.
Não vi o que se passou, porque seu corpo se interpunha, mas, ao recuar rapidamente notamos que uma das suas bochechas parecia inchada.
Ele não disse palavra, mas ficou desapontado e muito irritado.
Nesse momento entrou um negro conduzindo uma bandeja cheia de moedas.
— Toma esse ouro, Astartos — disse Tibério — e vai-te com Marcos.
Ouvindo a ordem, Lélia deu um grito.
Sem dúvida a companhia do tirano, a que já estava desacostumada, era-lhe por isso ainda mais odiosa.
Ele sorriu aquele seu sorriso satânico e disse, colocando a mão sobre a dela:
— Acalma-te, Lélia, tenho muito o que te dizer; há muito que não nos falamos pessoalmente, e vocês dois podem sair.
Seu rosto estampava uma ferocidade implacável; possivelmente Lélia conhecia aquela expressão, porque recaiu nos travesseiros como desfalecida.
Marcos afastou-se cambaleante.
— Repousa, doutor — disse-lhe Tibério — noto que trabalhas muito; tua saúde me é muito preciosa, por causa da cara Lélia; vai repousar, pois hoje não tenho mais necessidade dos teus serviços, mas deixa-me algumas gotas fortificantes.
Olhar perturbado e como que embriagado, Marcos tirou um vidro da sua botica e lho apresentou.
Tibério fitou-o e afastando-lhe o braço, disse:
— Marcos, vejo-te muito perturbado; seria perigoso, talvez, aceitar o teu remédio; se te enganasses no vidro?
Vai, vai com a tua botica, pois poderá fazer mais mal do que bem; minha estima, espero, constituirá o melhor elixir para esta louquinha, quando se convencer que o meu perdão é sincero e completo.
Levei Marcos para minha casa.
Estava desesperado e tive muita dificuldade em acalmá-lo.
No dia imediato, já tão agitado, pelos acontecimentos da véspera, despedi-me de Veleda, que Gálio reconduziu a Pompeia.
Agripa, loucamente apaixonado, partiu igualmente, e não mais os revi.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:53 pm

Só muitos meses mais tarde, soube do fim trágico desses dois amigos.
Haviam tramado fugir juntos, mas a tentativa de evasão foi descoberta e Gálio,
furioso, condenou Veleda a morrer sufocada num banho de vapor e de pois, supondo com justa razão que ela não poderia ter maquinado a fuga sem auxílio externo, mandou espionar Agripa, de quem muito suspeitava a louca paixão.
Este, sabedor da condenação de Veleda, a peso de ouro, conseguiu chegar até o local do suplício, disfarçado em foguista, esperando poder salvá-la no último momento.
Chegou tarde, porém, Veleda já estava morta.
Surpreendido pelos guardas junto do cadáver, foi preso e alguns dias mais tarde decapitado.
Quando readquiri um pouco mais de calma, depois dessas tristes ocorrências, retomei a faina habitual, vivendo muito bem com a bela prisioneira que elegera e que mui to me estimava.
O amor de Febé não diminuíra; mas, como sempre foi repelido e desdenhado, ela dissimulava os próprios sentimentos.
A presença da jovem germânica em minha casa despertou-lhe feroz ciúme e percebi que arquitectava qualquer vingança diabólica; todavia, a atenção que Tibério me dispensava, constituía um freio para ela, pois, apreciando minha destreza e habilidade, ele chamava-me muitas vezes a palácio para distraí-lo nos seus momentos de enfado, afastando os seus familiares.
Conversávamos ou jogávamos uma partida de dados.
Uma tarde, ocupava-me em afiar minhas armas, quando chegou todo esbaforido um mensageiro de Tibério, para que fosse encontrá-lo sem tardança.
Lélia havia fugido num barco, e, sabendo que eu era excelente mergulhador e tão bom nadador como atirador de arco, queria ter-me a seu lado, para dar-lhe caça.
Bem contra vontade, mas não ousando desobedecer, conformei-me com a ordem recebida e cheguei no instante mesmo em que ele embarcava, porque queria estar presente no momento da captura.
Colocou-me na sua embarcação, que se mantinha um pouco atrás das outras, para evitar qualquer perigo.
Marcos, desesperado, postara-se junto de mim; Tibério, muito nervoso, tinha o rosto coberto de manchas roxeadas; seus olhos pareciam devorar o mar.
— Ah «bestia» ingrata! — dizia — ela me pagará tudo isto!
Bateu na testa e acrescentou:
— Tolo que fui, pois ela se mantinha muito amável nestes últimos tempos; eu devia prever uma traição — mostrava os punhos cerrados.
— Se contas comigo — pensava eu, fixando-o,— para rever essa desgraçada, muito te enganas, pois se a tiver nas mãos serei o primeiro a afogá-la.
Parecia que voávamos cortando as ondas e, breve, avistamos no horizonte longínquo um grande navio de comércio, que, com todas as velas desfraldadas, empregava os maiores esforços para escapar-se.
Vã tentativa, porque nossos barcos muito ligeiros, embora sobrecarregados de soldados, eram superiormente dirigidos e a distância diminuía de instante a instante.
Mantinha-me de pé com os braços cruzados; Tibério ofegava de impaciência.
— Lá, lá está a traidora, a ingrata!
Astartos, imagina algum meio para apressar mais rapidamente aquele barco maldito; tu tens sempre ideias divinas.
— Estou pensando, meu augusto senhor, mas os deuses me são hoje desfavoráveis, porque meu cérebro nada encontra.
Infelizmente haviam já imaginado, sem minha intervenção, um processo eficiente: dos barcos próximos ateariam fogo, por meio de archotes inflamados, no malsinado navio.
Caía a noite e contemplamos, então, um espectáculo grandioso e sinistro: sob a um céu pardacento, destacava-se a silhueta de um navio incendiado, envolto em fumo, e cujas linhas sobressaíam como se fossem de metal fundido.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:53 pm

O clarão a vermelhado do incêndio iluminava extensamente o mar, os nossos barcos e os metais brilhantes dos soldados; um cenário horrível e grandioso, repito.
Brados e maldições angustiosas se fizeram ouvir; a equipagem começou a jogar-se ao mar; Tibério de pescoço esticada, repetia aflito:
— Onde está ela? A ingrata ousará deixar-se queimar?
Nesse instante, apareceu no convés uma esbelta figura de mulher bem conhecida de todos nós.
Evidentemente, a infeliz fugia ao incêndio, porque vimo-la atirar-se ao mar.
Tibério de pé, gritava, gesticulava de raiva e impaciência e lançou-se tão violentamente para a frente que acreditei, por um instante, fosse precipitar-se ao mar para recolher a cobiçada presa.
Marcos também queria atirar-se, mas, com mão de ferro o detive:
— Idiota — murmurei — deixa-a morrer.
Ele deixou-se cair pesadamente num banco.
Nesse instante Tibério voltou-se para nós e seu olhar penetrante percebeu a cena muda.
— Ah! traidores! — exclamou empertigando-se e indicando o mar — a água, gladiador, onde jogas a tua cabeça!
Sem reflectir, atirei-me ao mar e me dirigia para o ponto onde Lélia mergulhara, quando, ao aproximar-me, um soldado de uma barca que nos precedera, retirava o garfo de ferro que havia lançado mui acertadamente e com o qual alcançara o vestido de Lélia.
Esta apareceu balouçando sinistramente à flor das águas.
Um brado de alegria se escapou do peito de Tibério.
Regressei à embarcação, no momento em que os seus angulosos braços estendidos para fora recebiam o corpo de Lélia das mãos do soldado.
— Possuo-te, «bestia», e agora não mais irás livremente — disse.
Envolveu-a num manto de lá e com um gesto chamou Marcos:
— Vê se ela vive; a danada é capaz de ter morrido de raiva; já ouvi falar de casos semelhantes; agora — disse voltando-se para mim — explica a cena muda que percebi entre ti e este cara-amarela.
Respondi inclinando-me:
— Detive meu amigo Marcos porque é um péssimo nadador e o devotamento aos vossos interesses tê-lo-ia levado, certamente, à morte; temi, também, privar o meu senhor do seu médico, num momento em que lhe podia ser muito necessário.
Eis porque o retive e foi apenas o que percebestes, mesmo porque — acrescentei perfilando-me — jamais fui traidor.
Marcos, que havia examinado Lélia, levantou-se.
— Ela vive, o coração pulsa — disse em voz baixa e trémula.
— Sendo tão bom médico — disse — por que não te curas a ti próprio?
Surpreendo em ti estranhos desfalecimentos e tudo isso me admira.
Seus olhos cruéis mergulharam avidamente nos de Marcos, que continuavam pregados no chão.
Nesse comenos, Lélia reabria os olhos e o rosto de Tibério iluminou-se.
— Ah! malévola criança, recobras os sentidos?
Como única resposta, ela despegou-se dos braços de Tibério, que não esperava por uma tal manifestação de força, e atirou se novamente na água.
Ele segurou-a pelos vestidos e, louco de raiva, tirando o punhal da cintura, berrou:
— Morre, miserável e abjecto esqueleto!
A arma brilhou e desapareceu inteiramente no flanco de Lélia.
Um duplo grito ecoou.
Marcos quis sustar o braço do arrebatado, mas era muito tarde.
Lélia tombou agonizante; o sangue borbulhava da ferida.
Tibério caiu em si; apenas os flocos de escuma nos cantos da boca, demonstravam a raiva que o possuíra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:53 pm

— A «bestia» me enlouqueceu — disse — Salve-a, Marcos!
Depois de examinar o ferimento que cobriu com uma echarpe de seda, Marcos se perfilou e disse:
— Por enquanto nada posso afirmar.
Tibério entristeceu.
Levava consigo a presa, mas, não pronunciou palavra durante o regresso.
Antes de atracar, confiou-nos o corpo de Lélia com a recomendação de levá-lo ao palácio.
Depois, auxiliado por dois oficiais, desembarcou e sem voltar a cabeça, acomodou-se na liteira e partiu.
Chegados ao palácio, dirigimo-nos directamente para o apartamento de Lélia.
Tibério ceava, disseram-nos.
Trocamos a roupa da doente por outra enxuta.
Marcos examinou novamente a ferida e eu permanecia junto dele porque as mãos lhe tremiam nervosamente e recusavam obedecer-lhe.
Finalmente, voltou-se e disse:
— A ferida não é mortal; ela se restabelecerá.
— E tu a deixarás viver? — perguntei fora de mim, indignado.
Nesse momento Lélia parecia mais um cadáver que pessoa vivente; reabriu os olhos e com um gesto chamou Marcos.
Ele se aproximou.
— Em nome do amor que me consagras — disse juntando as mãos — acaba com esta tortura que se chama vida; serás covarde e infame se me deixares viver; não sofres, então, vendo-me assim martirizada?
Mata-me depressa, antes que ele volte, porque depois, será impossível.
Marcos torcia as mãos.
— Não posso — repetia — e assentando-se num tamborete, cobriu o rosto com as mãos.
Inclinei-me para ele e pus a mão no seu ombro:
— Marcos, és indigno de ser homem, pois vejo-te menos corajoso que uma mulher!
Não queres, então, te vingar de Tibério e ao mesmo tempo praticar um ato de caridade?
Tens em mãos a arma com que podes mortalmente feri-lo.
Ele se levantou com o rosto esfogueado; abriu a caixa de remédios e, com mão febril, tomou de um frasco cujo contendo vazou numa compressa; depois correu para junto de Lélia, que o não perdia de vista, e, retirando o primeiro curativo, substitui-o por esse último.
— Sim — disse exaltado e ofegante — morres!
És a maior vingança que posso exercer contra Tibério.
Lélia alçou para ele os olhos grandes e brilhantes e perguntou:
— É mesmo a morte que me concedes e não um calmante que me faça viver?
Ele ergueu as mãos para o céu:
— Imploro o perdão dos deuses para o que acabo de fazer; este dia não terá amanhã para ti; desta vez, Lélia, vais morrer!
Apertei-lhe a mão emocionado; pareceu inteiramente transfigurado.
Uma firmeza que lhe não era comum, transparecia-lhe do rosto.
Debruçou-se para a moça e abraçou-a.
Nesse momento, o ruído das sentinelas que apresentavam armas, anunciou a aproximação do verdugo.
Havia terminado a ceia em que o havíamos tão bem servido.
Apenas retomáramos atitude indiferente, abriu-se a porta e ele, despido da toga, apareceu no umbral.
Com um golpe de vista penetrante, inteirou-se de toda cena:
— Ah! estais ainda reunidos!
Que fazes aqui, gladiador?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:53 pm

— Marcos me enviara à sua casa para trazer ataduras e alguns ferros, que acabo de lhe entregar — respondi saudando-o.
Tibério inclinou a cabeça:
— Muito bem.
Ah! a ingrata com os grandes olhos abertos é um bom sinal, penso...
— Preciso falar-vos — interrompeu Marcos inclinando-se — mas não aqui.
A um sinal de Tibério, reunimo-nos os três no compartimento em que velavam as sentinelas.
Tibério encostou-se à parede e disse:
— Fala agora; que tens a comunicar-me?
Marcos inclinou-se novamente:
— A arma trespassou o pulmão, toda a ciência humana é impotente; Lélia não passará desta noite.
Julguei do meu dever prevenir-vos, mas não o poderia fazer diante da moribunda.
Uma palidez esverdeada, entremeada de manchas vermelhas, cobriu o rosto e o pescoço de Tibério, que se apoiou mais fortemente na parede, enquanto com as mãos amarfanhava nervosamente as próprias vestes.
Os lábios lhe tremiam.
Nada respondeu, Cabisbaixo.
Fez-se um silêncio de morte.
Por fim, empertigou-se.
O rosto se tornara impassível e cruel, como de costume.
— Muito bem, Marcos; teus cuidados são supérfluos; eu próprio velarei a moribunda.
Reentrou no aposento e fechou a porta a chave.
— Pobre Lélia! — exclamou Marcos desesperado — só com ele, que morte horrível!
Retiramo-nos para um pequeno vestíbulo, de onde podíamos notar a saída de Tibério.
Gostaria bem de saber o que se passava no interior, mas as sentinelas não abandonavam o corredor.
Marcos continuava impassível qual esfinge; somente um suor frio lhe carinhava a fronte e notei que minhas palavras de consolo não eram percebidas.
Finalmente, pelas três horas da madrugada, abriu-se uma porta e passos apressados ecoaram no corredor.
Tibério saíra, sucumbido, pálido como um cadáver.
Sem olhar ao redor e sem mesmo fechar a porta, dirigiu-se para os seus aposentos.
Entramos então no quarto de Lélia; estava morta.
Uma grande calma e profunda satisfação lhe transparecia do rosto.
Marcos ajoelhou-se junto do cadáver e eu afastei-me devagarinho para não perturbá-lo na sua compunção.
Profundamente emocionado, voltei para casa e, por distrair-me, entrei a trabalhar um leopardo que me mordera um braço.
Desejava domesticá-lo, mas nisso, havendo-me acalmado um pouco, deitei-me e adormeci.
No dia seguinte, Tibério me chamou para domar um magnífico cavalo com que lhe presentearam.
Recebi ordem de me dirigir em seguida aos seus apartamentos, para arrancar os dentes a dois pequenos tigres.
Chegando ao palácio fui logo ver Marcos.
Estava profundamente abatido e muito desfigurado.
Fiz, também, curta visita à morta, então já ricamente vestida.
Terminados os outros encargos, introduziram-me no quarto de Tibério.
Deitado num canapé, folheava pergaminhos; assustei-me com a sua palidez e incrível expressão de ferocidade retratados no rosto.
Com minha chegada, ergueu a cabeça e apontou-me os dois tigrezinhos seguros por um escravo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:54 pm

— Ocupa-te com essas duas feras — disse — quero assistir à operação; depois, aqui ficarás alguns dias, a meu serviço.
Os animais foram conduzidos para perto do canapé, seguros por negros e arranquei-lhes os dentes com a destreza habitual.
Depois, tive a honra de permanecer junto do tirano, a fim de o distrair, pois se achava muito triste; afastava os familiares e a mim era dado diverti-lo no seu isolamento; toda noite, por algum tempo ele permanecia junto do corpo de Lélia, mas sua fisionomia se tornara impenetrável.
Chegado o dia dos funerais, ordenou que a pira crematória fosse armada num dos pátios do palácio e, de pé, junto a janela, assistiu à cerimónia.
Tudo se fez com grande pompa.
Embora Lélia houvesse conservado a religião dos seus maiores, uma legião de sacerdotes nossos foi convocada.
Colocaram o féretro sobre a pira, com todos os rituais e cânticos em uso.
Conservei-me de pé, no centro do pátio, entre os assistentes, mas não tirava os olhos do rosto de Tibério, que, apoiado à janela, acompanhava todos os detalhes com um olhar enraivecido.
Quando acenderam a pira, mudou várias vezes de cor, o fogo já se propagara por toda a parte, quando, num dos lados declinou um pouco e a cabeça da morta tornou-se visível por um instante, como para dizer um último adeus.
Percebeu-se distintamente o perfil de Lélia iluminado pelas chamas; depois, a fumaça tudo encobriu.
Tibério, diante desse quadro, recuou bruscamente.
Pouco depois, fui chamado para junto dele, a fim de jogar os dados.
Quando entrei, ele estava sozinho e andava pelo quarto a passos precipitados; por fim, assentou-se e começou a jogar; a partida já durava silenciosamente muito tempo, quando surgiu um padre que havia assistido aos funerais.
Trazia magnífica urna — tudo que restava de Lélia...
Depois de tê-la depositado sobre a mesa, retirou-se.
Tibério interrompeu o jogo e entrou a cismar profundamente; depois abriu a urna e com dois dedos retirou um pouco de cinza, dizendo:
— Vês ? É tudo o que resta da criatura teimosa e má!
Eu a reduzi a cinzas; terrível é o meu poder!
Inclinei-me profundamente e ele acrescentou:
— Sabes, gladiador, o que pretendem os padres egípcios?
— Não — respondi.
— Pois bem: eles acreditam que isto renasce (designando os cinéreos resíduos).
Então, a ser verdade, isto renascerá com toda a sua coragem e insolência indomável, que eu, o futuro imperador, não pude vencer.
Empurrou bruscamente a urna.
— Não, não quero mais combatê-la; depois que a vi, não tive mais sossego; os egípcios são loucos insolentes; além disso, (pálido sorriso lhe descerrou os lábios) Tibério não pode renascer senão imperador e isto não será ainda tão mau.
Tomou os dados.
— Vejamos qual de nós ganhará.
Se fores tu, gladiador, a pretensão dos egípcios é falsa; se for eu, é verdadeira.
Atirou os dados e ganhou.
Nesse momento, débil mas bem conhecida risada feriu nossos ouvidos.
Tibério ergueu-se de olhos esbugalhados, tomou-me do braço e murmurou com voz trémula:
— Ouviste a risada?
De quem era? De quem? — e batia o queixo.
Responde! Reconheceste a risada?
Fala, ordeno-te!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:54 pm

As pernas lhe dobravam, a fisionomia tornou-se horrorosa.
Eu mesmo tremia.
Intrépido diante de qualquer perigo humano, sentia-me agora ali desfalecer diante do invisível, um suor frio cobriu meu corpo.
— Lélia! Foi ela quem riu! - Exclamei fora de mim.
Tibério largou-me o braço, recuou, e com o dedo me apontou a mesa em que tínhamos jogado.
Ao lado dos dados ainda reunidos, meus olhos apavorados descobriram um camafeu bem reconhecível: era uma pedra preciosa, na qual estava gravado o retrato de Tibério; engastado em forma de medalhão, suspenso por uma corrente de ouro.
Pertencia a Lélia, oferta de Tibério.
A moça deveria usar sempre aquela jóia e Tibério jamais consentiu que a tirasse, até mesmo para ser incinerada.
Recordava-me perfeitamente de que, momentos antes, nada havia sobre a mesa, além da urna e dos dados; meus olhos estavam como que pregados no camafeu, trazido por mão invisível e o riso, o sinistro riso de Lélia, ainda timbrava em meus ouvidos.
— Ah! — exclamou com voz abafada — os mortos voltam, então?
Que significa isto, gladiador?
Nada pude responder e apenas enxugava o suor que me cobria o rosto.
Pouco a pouco Tibério recobrou seu natural; passou a mão pela fronte como querendo afastar dolorosos pensamentos:
— Que jamais uma palavra desta história escape dos teus lábios, gladiador, se é que tens amor à vida?
É, pois, verdade que se revive e ela riu-se.
Teria dissimulado um sentimento de ternura para mim, pobre Lélia?
Tomou o camafeu, beijou-o acrescentando:
— Se bem-vindo da parte de quem vens, tu que sobreviveste ao fogo.
Chamou os guardas e despediu-me.
Daí por diante, evitou sempre permanecer sozinho; à noite distribuía soldados ou escravos nos degraus do leito.
Naturalmente, guardei o segredo, só a Marcos contei a estranha ocorrência.
Pouco tempo depois da morte de Lélia, Gálio foi a Roma, a negócios.
Preparava-se nova guerra, da sua comitiva fazia parte o seu médico Graco.
O procônsul visitava Tibério amiudadas vezes e, uma tarde em que estavam reunidos, ocorreu esta cena, que me foi relatada por um dos presentes.
Falava-se da morte de Lélia e Graco, que tinha escutado com a maior atenção, perguntou:
— Ficou bem esclarecido que o ferimento era mortal?
A essas palavras Tibério ordenou que lhe trouxessem uma certa caixinha.
Abriu-a e, com espanto dos presentes, retirou ataduras impregnadas de uma substância enegrecida.
— Examine isto, doutor — disse apresentando as ataduras a Graco.
Este material estava embebido em bálsamos aplicados pelo Dr. Marcos.
Estais de acordo com a eficácia do remédio?
Graco, que há muito invejava a posição de Marcos, tomou da faixa, examinou-a como entendido e levantou-se:
— Tibério, meu augusto senhor e futuro soberano, fostes traído e enganado, este bálsamo, aparentemente saudável, era um veneno mortal.
Marcos estava presente, mas, triste e pensativo, não se tinha metido na conversa.
Tibério fixou nele um olhar penetrante e cruel:
— Eu desconfiava da verdade: médico de nervos frouxos, tu muito requestaste a bela Lélia e eu te predisse que teus nervos te perderiam.
Responde, traidor que me enganaste, quem te permitiu tocar na minha bem-amada?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:54 pm

Marcos viu-se perdido.
Levantou-se e, cruzando os braços, disse:
— Sim, tirano, eu matei-a.
Por muito tempo fraquejei, porque a amava; mas, quando a feriste, não mais desejei continuasses a cevar nela a tua crueldade.
Mata-me, pois não desejo viver.
Tibério sorriu, com aquele malicioso sorriso todo seu.
— Vede que traços de sua passagem nos deixou essa linda Lélia!
Prendam-no — ordenou, apontando Marcos.
Amanhã será julgado por assassínio e traição.
Uma hora mais tarde eu era prevenido desse funesto acontecimento.
Marcos, que praticava muita caridade, contava numerosos e devotados amigos; tentaram salvá-lo e a peso de ouro ele evadiu-se com o seu carcereiro, embarcando ambos num navio de comércio.
Quando Tibério soube da fuga, insensata raiva se apoderou dele.
Fez perecer em torturas horríveis mais de trinta pessoas suspeitas de cumplicidade no feito, mas esse massacre não o acalmou.
Batia cornos punhos, sapateava e gritava:
— De que me servem todas estas miseráveis cabeças em troca da do traidor?
Felizmente, esse furor se anulava porque Marcos estava a bom recato.
Com o correr do tempo fui me sentindo assaz isolado, tinha perdido os melhores amigos, os companheiros da infância e resolvi casar-me.
Queria desposar a jovem prisioneira que estava a meu serviço, meiga e encantadora criatura extremamente devotada, mas quando Febé soube desta novidade, tomou-se de terrível acesso de ciúme; ainda que possuidora de dois raríssimos tesouros — Tibério e Sejano — foi à minha casa e desfechou uma cena injuriosa, jurando vingança e prometendo assassinar minha esposa.
Meu casamento se realizou sem novidade; mas, tempos depois, Tibério (para festejar um acontecimento de que não me recordo), ordenou grande espectáculo no circo, no qual Febé devia tomar parte como dançarina.
Preparando-me para o festival, tristes pressentimentos me assaltaram; uma inquietação me torturava; mantinha-me abstracto e abatido.
Com o coração cerrado, despedi-me da jovem esposa, perturbada e lacrimosa diante das minhas apreensões.
Entrei na arena.
Devia combater sucessivamente, nesse dia, um leão, um tigre gigantesco e dois leopardos.
Esperei o primeiro inimigo, impassível como sempre; mas desde que o tigre saiu, notei nele estranha agitação; rugia surdamente, o pelo estava eriçado e meu olhar parecia haver perdido a força.
Estava muito ocupado em dominá-lo, quando repentinamente mão invisível abriu segunda jaula e o leão apresentou-se furioso, pelo eriçado, batendo com a cauda nos flancos; investiu-me pelas costas e pousou as patas nos meus ombros, rugindo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 7:54 pm

 frente o tigre, por trás o leão: senti-me perdido e um grito se me escapou.
Nesse instante dois leopardos saíram, por sua vez, e atrás da grade vi Febé a olhar-me com expressão escarninha.
Um combate mortal, medonho, travou-se entre mim e a malta; eu sentia o hálito quente dos leões, seus dentes e garras rasgavam-me a carne, clamores e brados de terror repercutiram no ambiente, todos os gladiadores armados acorreram mas, feras irritadas me cercavam igualmente, e assim não puderam defender-me.
Caí de joelhos segurando o alfanje com mão desfalecente; o tigre abaixou a enorme goela à minha garganta.
Dando um último grito, enterrei o ferro no peito da fera.
No mesmo instante senti dor atroz, parecia-me que o cérebro explodia, que os olhos saltavam das órbitas; sucumbi como que galvanizado, um peso enorme a sair de mim, arrancando-me todos os membros como se eu fosse retalhado em mil pedaços.
Depois, qualquer coisa como se um raio me ferisse.
Quando recobrei consciência de mim mesmo, elevava-me numa atmosfera transparente e azulada; ao derredor se comprimiam seres flutuantes e leves, que me cobriam de fios luminosos, parecendo que me tiravam de qualquer coisa pesada que ainda me retinha.
Meu olhar voltou-se para a Terra e vi o circo; na arena, estendida sanguinosa massa informe, conservava intacta apenas uma bela cabeça anelada.
Uma avalanche de espectadores se comprimia à volta do cadáver.
Alguns passos adiante, estendido também o tigre, meu valente competidor.
A centelha indestrutível acabava também de se desprender da sua massa corporal; espíritos de animais, de evolução superior à sua, auxiliavam-no a se destacar.
Liberto e feliz, lancei-me no espaço, rodeado pelos meus velhos amigos e protectores.

ASTARTOS
NOTA DO TRADUTOR:O gladiador Astartos encarnou, através dos séculos Faraó Mernephtah, no romance do mesmo nome; Caius, em "Herculanum"; Conde de Rabernaum, em "Abadia dos Beneditinos"; e o próprio Conde Rochester, na sua existência terrena com o nome de John Wilmot (1648-1680), cortesão e poeta inglês.

§.§.§- O-canto-da-ave
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70314
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - EPISÓDIO DA VIDA DE TIBÉRIO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 3 Anterior  1, 2, 3

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum