O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

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O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:38 am

O Diário de Sofia
Alceu Costa Filho

Pelo espírito Nina Arueira

Entre a vida e a morte, Sofia vive uma experiência fantástica.
Ainda ligada ao corpo físico - está hospitalizada, em estado de coma -, sente-se viva e consciente, mas incapaz de qualquer gesto ou movimento.
E nessa condição dramática que Sofia descobre uma nova realidade: a vida espiritual.
Uma narrativa emocionante que retracta a situação daqueles que, impedidos de agir sobre o corpo físico, se encontram em situação intermediária no mundo dos espíritos, transitando entre dois planos de vida.
Páginas inesquecíveis de uma história que se revela, na verdade, o portal de entrada para um mundo novo, que se abrirá, um dia, para todos nós.

Aos leitores e leitoras da Petit Editora

Nos sentimos muito felizes quando nossos livros alcançam as mãos daqueles que são a razão de ser do nosso empreendimento: nossos leitores e leitoras.
É pensando em vocês que investimos nossos esforços para ampliar a qualidade das publicações da Petit Editora.
Essa busca de excelência se inicia na avaliação criteriosa do original, que é realizada por analistas capazes, qualificados para essa tarefa.
Aprovado o texto, o trabalho prossegue, na direcção da melhor produção editorial e gráfica.
Finalmente, o livro está pronto para ganhar o selo Petit, símbolo de leitura atraente e lazer inteligente.
Para levar adiante o nosso ideal, contamos com sua valiosa colaboração:
indique este livro para seus amigos.
Estamos certos de que sua participação vai nos aproximar, ainda mais, do nosso objectivo:
transmitir, ao maior número possível de pessoas, mensagens que traduzem a certeza de que somos espíritos eternos, destinados a um mundo de paz e de felicidade, que já se prenuncia no horizonte de nossa vida.
Agradecidos por sua preferência e atenção, nos despedimos, desejando que a leitura que se inicia possa iluminar sua jornada terrestre, e que, muito em breve, possamos nos encontrar em novas páginas, escritas ou inspiradas pela Espiritualidade Maior, que acompanha a todos aqueles que perseveram, determinados, no caminho do bem.

O Editor
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Ave sem Ninho

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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:38 am

Alceu Costa Filho

Nasceu em Bicas, estado de Minas Gerais.
Aos dez anos, mudou-se com a família para Belo Horizonte.
Estabeleceu seu primeiro contacto com a Doutrina Espírita aos quinze anos.
Um ano depois, iniciou suas actividades como médium.
Participou de inúmeros movimentos que resultaram na criação de alguns grupos de estudos, como por exemplo:
Cenáculo Espírita Aba Josepho, Cenáculo Espírita Camilo Chaves, Grupo de Estudos e Práticas Espíritas e Grupo Espírita Fraternidade.
Em 1983, fundou em Belo Horizonte, o Cenáculo Espírita Fraternidade, onde exerce até hoje suas funções de médium e activo participante das tarefas assistenciais da casa.

Agradecimentos

Aos amigos e irmãos do Cenáculo Espírita Fraternidade, encarnados e desencarnados, que nos possibilitam ser um simples instrumento na divulgação de nossa doutrina.
Muitos amigos se foram, outros estão ausentes por imposição da distância física, mas todos que de mim se aproximaram e que deixaram ensinamentos que me proporcionaram a oportunidade de servir.
A minha esposa, Simone, dedicada companheira, mão amiga, ombro fraterno, meu sincero reconhecimento, a quem dedico, em nome de nossos mentores espirituais, os louros de nossa conquista como espíritas.
A meus filhos, meu eterno reconhecimento.
A Filipe, nosso amigo, orientador e mentor espiritual, nosso pedido de perdão por sermos ainda um instrumento tão insignificante de comunicação entre os dois planos da vida.
A Nina, nossa eterna gratidão.
As casas espíritas que a tem como mentora e orientadora, o nosso respeito e carinho.
A todos aqueles que de alguma maneira fizeram ou fazem parte de minha jornada de aprendizado, o meu muito obrigado...
...as palavras nem sempre podem expressar os sentimentos do coração.
Obrigado, Nina!

Alceu Costa Filho
BELO HORIZONTE, ABRIL DE 2002
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:38 am

Depois de ocorridos, os factos e os acontecimentos, assim como a verdade, caminham inalterados sob a influência do tempo.
Todos possuímos nossa verdade, fruto de fatos que marcaram nossa vida no passado, edificando o nosso presente.
A Doutrina Espírita, em sua função esclarecedora, conduz o homem encarnado pelas trilhas da verdade e do esclarecimento mediante um farto material literário que tem sido colocado à disposição de seus seguidores, facilitando-lhes o aprendizado e a evolução.
Irmão e amigo, aproveite bem as páginas deste livro que chega às suas mãos, considerando-as sempre mensagens endereçadas a você por Deus!
Ninguém foge dos compromissos regeneradores que nos possibilitam entender e vivenciar a Doutrina Cristã.
O amor, princípio básico da evolução, sempre vivenciado nestas páginas, quando alimentado pela acção benfazeja do estudo, nos conduz à prática, com resultados de reforma íntima e com sementes de amor e fé.
Em O diário de Sofia, a vida nos ensina, por meio da história dos espíritos que compõem o conteúdo, que a fé em Deus transforma dor em aprendizado, tristeza em alegria, esperança em realização.
E, quando as lágrimas molharem a sua face, irmão querido, veja-as como manifestações felizes de seu ser a traduzir-se em palavras de seu coração, como louros da conquista da paz sobre o desespero, do amor sobre ódio, de sua vitória com Jesus na conquista de seu amanhã!
Em seu apostolado cristão, nossa querida Nina Arueira confirma seu papel de coluna de sustentação da fé em Cristo, largamente difundida nesta obra.
Com seu exemplo de fé, ela é um marco na história de nossa doutrina.
Deus lhe pague, querida Nina.

Haja paz, com Jesus,
BELO HORIZONTE, 10 DE JULHO DE 2001
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:39 am

"É impossível para mim saber se lá fora é noite ou é dia.
Há quanto tempo estou presa a este leito?
Não sei precisar.
Só me recordo da forte dor de cabeça e do zumbido que me fez perder a consciência, que só vim recobrar aqui no hospital!
Digo recobrar, mas é parcialmente, pois vejo e ouço todos sem conseguir movimentar nem mesmo as mãos.
Até quando, meu Deus, vou ficar assim?
Quantos aparelhos, quanta ansiedade, quanto medo!
Será que eu morri?
Será que chegou minha hora?
Como saber? Aí vem a enfermeira novamente.
Tenho tentado conversar com ela, mas é tudo em vão.
Não consigo movimentar meus lábios nem emitir nenhum som.
Oh, meu Deus, ajude-me!"
A enfermeira, confiante de que eu a ouvia, à medida que conferia os instrumentos, falava:
- E então, Sofia, vamos viver?
Você é forte. É uma garota tão linda!
Lute, menina, não se entregue ao desânimo!
Muitas pessoas a amam e esperam que volte o mais rápido possível; afinal, já faz quinze dias que você entrou em coma.
Pense em Deus; todos têm rezado muito por você, mas é preciso que queira viver.
Vamos, menina. Lá fora está um dia lindo!
"Eu quero, eu preciso.
Oh, meu Deus, eu preciso me levantar!"
De repente ouvi uma outra voz:
"Acalme-se, Sofia.
Procure controlar-se. Não existe o fim.
É só uma mudança de estado.
E quem lhe garante que já é chegada a sua hora?
Mesmo que não me veja ainda, acredite: estou sempre por aqui.
Eu e muitos outros amigos estamos sempre por aqui para ajudá-la.
Vamos rezar, Sofia, pois Deus não nos priva da ajuda de que necessitamos".
Quem era ele? Não sabia.
Mas sempre que o ouvia eu me acalmava.
Lentamente adormeci ouvindo as orações.
Quando despertei, estava mais calma e confiante; continuava no hospital, presa ao leito e a todos os aparelhos.
Sentia-me sozinha, e o barulho quase silencioso dos aparelhos era para mim um tormento.
Onde estaria a enfermeira que conversava comigo?
E aquela voz amiga que me acalmava?
Oh, meu Deus, estava sozinha novamente.
Passei a chorar convulsivamente, talvez de medo, de desespero. Quem sabe?
Tentei me mover, mas só fiz aumentar o barulho dos aparelhos ligados a mim; então me resignei às lágrimas.
Ouvi o barulho da porta se abrindo e mamãe entrou acompanhada de Selminha, minha amiga desde os meus primeiros passos.
Observei-as.
Elas choravam em desespero, ao passo que eu relembrava alguns factos que marcaram os dias alegres que passara junto delas.
Meu vestido azul-claro era lindo!
A leveza do tecido me fazia voar pelos meus sonhos de debutante naquela noite.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:39 am

Eu estava linda!
Era assim que eu me sentia e sem dúvida estava, pois, em comparação às outras cinco debutantes, eu era a mais cortejada pelos rapazes e estava ganhando a aposta que fizéramos.
Foi uma noite linda, inesquecível, em que muitos sonhos deram vida a meus pensamentos; foi uma interminável noite de sonhos em que me tornei uma princesa, tendo a meus pés um reino e súbditos.
Quem poderia avaliar o que se passava no meu coração naquela noite?
Sabia intimamente que ela era única e queria vivê-la intensamente, o que me fazia ser a mais notada e feliz.
A dor do mundo, a miséria, as lágrimas, a fome, para mim, naquele momento, nada mais eram do que acontecimentos existentes em um outro mundo; afinal, era a minha noite de quinze anos!
Lá estava Selminha, minha amiga de muitos anos, a confidente, a companheira, aquela que me ajudou com meu primeiro namorado.
Seu vestido rosa contrastava com sua pele morena, bronzeada pelo sol, pois acabara de chegar da casa dos avós que viviam no campo em uma confortável fazenda.
"Selminha, minha amiga, ajude-me.
Ouço e vejo todos, mas ninguém me atende e meu corpo se recusa a atender às minhas ordens.
Por favor, minha amiga, ajude-me!"
Selminha, captando as vibrações de minhas palavras, falou à mamãe:
- Parece que foi ontem, dona Leda, que estávamos comemorando quinze anos, e já se passou um ano e meio.
Não consigo esquecer a alegria de Sofia naquela noite.
Seu rosto sempre alegre e sorridente dava mostras de que vivia em um outro mundo, bem diferente do de agora, sem dor e sem sofrimento, só de alegria e de sonho.
Não consigo me conformar, dona Leda, com a ideia de ela não mais acordar.
Por quê, dona Leda?
Porque Deus faz isso com a gente?
Mamãe só chorava, e nada respondeu.
Agitada, confusa e tensa, empreendi um grande esforço na tentativa de abraçar Selminha, mas o máximo que consegui foi movimentar alguns dedos, resultado este que nem foi percebido por nenhuma das duas.
Desmaiei. Não sei realmente o que houve, mas perdi a consciência!
Só voltei a mim quando uma voz conhecida pronunciava meu nome com carinho:
- Sofia. Hei, Sofia.
Vamos tomar um banho, menina?
Seja boazinha e continue a viver, está bem?
Sabe, ontem senti saudade de você.
Estava de folga e não pude vê-la.
Soube que sua mãe esteve aqui com uma amiga sua.
Espero que tenha ficado contente.
Seus cabelos são lindos, menina.
Qual a cor de seus olhos?
Vejamos se acerto.
Sua mãe tem olhos claros, e seu pai, olhos castanhos.
A cor de seus cabelos é igual a de seu pai, sua boca é como a de sua mãe, mas você se parece mais com seu pai.
Seus olhos são castanhos!
Acertei? Hei, Sofia: e o namorado?
Ele já esteve aqui?
Quero conhecer o privilegiado.
Como você está ficando cheirosa!
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:39 am

Um banho faz bem.
Pronto, minha querida!
Agora vamos virar um pouco.
Assim! Você não fala nada, mas sei que está aí e que qualquer dia vai se sentar na cama e conversar bastante.
Eu conheço você, menina.
Ou melhor, meu coração conhece.
Hoje estou com mais tempo livre.
As outras duas pacientes que estavam aqui desistiram de ficar na Terra.
Assim, posso cuidar mais de você!
Será que Nair - era esse o nome da enfermeira - acreditava em tudo o que estava falando?
Realmente sabia que eu estava ali?
Não havia como eu saber, mas sua presença me fazia um grande bem, pois me dava esperança de continuar viva.
Quantos dias já haviam se passado?
Selminha e mamãe teriam voltado e eu não as teria visto?
Gostaria que mamãe me ouvisse.
Queria contar tanta coisa para ela!
Precisava do seu colo, de suas mãos a afagar meus cabelos.
Precisava ouvir as histórias de sua juventude.
Precisava adormecer e sonhar que era sua amiga naquele tempo.
Precisava sonhar com papai jovem e bonito a cortejá-la sob o olhar atento de vovó Constância.
Oh, mamãe! Sentia o cheiro gostoso do bolo que nos servia no café da tarde quando tudo era sonho, alegria e projectos.
Quanta saudade, mamãe, da minha infância, das brincadeiras, de minhas bonecas!
De Brígida, minha boneca favorita.
Esperava poder revê-la, pois estava bem guardada junto com algumas roupas daquela época.
"Nair, não vá embora.
Fique comigo. Estou com medo."
"Calma, Sofia, nós estamos aqui, e me garantiram que hoje você conseguirá me ver.
Basta que se esforce um pouco", falou uma voz tranquilizando-me.
"Quem é você? Ou melhor, o senhor?"
"Um amigo que a ama muito e que tem rezado por você!"
"Como se chama? Eu o conheço?"
"Pode me chamar de Mário.
Acho um bonito nome.
Você não acha?
Nós nos conhecemos, sim.
Somos amigos antigos. Você não se lembra agora, mas com o tempo se lembrará!"
"Fico feliz que alguém me ouça.
Mas como pode ser? Não consigo falar com ninguém e com o senhor eu consigo?
Será que estamos mortos?"
"Sofia, minha filha, não é hora de falarmos nesses pequenos detalhes.
Mas, para que não fiquem dúvidas, vou tentar esclarecê-la:
veja tudo como se fosse um grande sonho; você está dormindo e eu faço parte desse sonho.
Isso é a realidade:
ali está seu corpo adormecido, em coma, e aqui estamos nós como personagens de seu sonho real."
Antes de poder compreender direito o que meu amigo Mário queria me dizer, ouvi a voz de Nair:
- Sofia, voltei.
Trouxe um livro e vou lê-lo em voz alta para que você possa escutar.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:39 am

Se não gostar, pode falar que eu paro, senão acharei que está gostando. Está bem assim?
Nair colocou uma cadeira junto à minha cabeceira e, com o livro nas mãos, iniciou sua leitura.
Desviei minha atenção de Nair e procurei por Mário, porém não o encontrei.
Nair lia bem perto de meus ouvidos, mas, mesmo assim, não conseguia me concentrar no que ouvia.
Há quantos dias eu estava ali?
Onde estariam mamãe e papai?
Por que não estavam junto de mim?
Oh, meu Deus, quando isso iria acabar?
Nair parou a leitura e comentou:
- Lá fora está uma noite tão feia, menina.
Está relampejando muito, com promessa de muita chuva!
Quanta gente vai sofrer se cair essa tempestade?
Quantas pessoas não têm o conforto de um tecto para morar?
Por outro lado, a chuva é uma bênção para a terra.
Então era noite, e choveria!
Eu nunca tivera medo de relâmpagos nem de trovões.
"Nair, cante alguma coisa.
Estou ficando com sono.
Senhor Mário, Nair, não me deixem sozinha.
Acho que vou dormir."
Acordei com o barulho dos trovões.
Foi quando percebi que meu sono obedecia a curtos períodos.
Nair ainda estava lendo seu livro, agora silenciosamente, e isso me deu alguma segurança, pois não estava sozinha.
Meu pensamento vagava buscando respostas e fazendo premonições quanto ao meu amanhã.
Como era possível estar acontecendo aquilo justamente comigo, que ainda tinha uma vida pela frente?
Seria Deus justo como pregam todas as religiões?
Custava a acreditar que tudo teria um fim!
Ouvi a voz amiga de Mário e, em seguida, ele tornou-se visível1 para mim.
"Deus é sempre misericordioso, Sofia, e nunca abandona Seus filhos, especialmente em momentos de dor e sofrimento!"
"O senhor escuta meus pensamentos?"
Mário deu um sorriso e comentou:
"Vamos fazer o seguinte, Sofia:
daqui para frente, nada de senhor.
Vamos nos ver muito, e eu não sou tão velho assim!
Quanto a escutar seus pensamentos, não o faço.
É você que, na maioria das vezes, como ainda não tem total domínio sobre seu perispírito2, dá-lhes forma e vida."
"Um momento, Sr. Mário.
Não entendi nada do que falou!"
"Esqueça, minha querida.
Mas nada de senhor daqui para frente.
Estamos combinados?"
"Está bem", respondi.
Mário e Nair, cada um habitando o seu mundo, eram para mim espíritos protectores, em especial porque eu estava vivendo dividida
entre dois mundos, o material e o espiritual.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:39 am

Pensava nisso enquanto me esquecia da presença deles e me entregava novamente às interrogações:
"Será realmente verdade tudo o que estou passando?
E se eu não acordar desse sonho?"
Estava assim, absorvida em meus pensamentos, quando Nair se levantou e disse:
- Vou sair mas não demoro, Sofia.
Está na hora de visitar outros leitos!
No quarto ao lado estão mais três jovens:
dois garotos e uma menina linda.
Mas no máximo em quinze minutos estarei de volta.
Nem percebi quando Nair saiu e fechou a porta.
Suas palavras me causaram um grande impacto:
"Então existem mais doentes como eu?
Jovens também.
Como será que estão lidando com o problema da doença?"
Nesse momento observei Mário, que me estendia a mão, convidando-me a levantar-me.
Instintivamente tentei erguer meu corpo.
Foi quando Mário, sorridente perante minha inocente atitude, afirmou:
"Você não precisa do seu corpo para se movimentar, Sofia, embora ainda esteja ligada a ele!"
"Como não preciso, Mário?
Não estou compreendendo!"
"Seu corpo, Sofia, é apenas o vestuário de sua alma, que lhe permite transitar entre os homens, fazendo parte de sua sociedade.
Seu espírito é livre, e não necessita dele para se locomover entre nós."
"Realmente devo estar sonhando.
Tudo é muito confuso!"
Mário, sempre com um sorriso nos lábios, não me contestou.
Pacientemente permaneceu ali, a observar-me.
Em certo momento ouvi um ruído e imaginei ser Nair que estava de volta, mas, quando dei por mim, vi um garoto de mais ou menos doze anos.
Estava de pé ao lado de minha cama e me falou:
"Moça, como você está?
Não estou vendo nenhum machucado em você.
Por que está aqui?"
Assustada com a visita inesperada, sentei-me no leito sem perceber e falei:
"Quem é você?
O que está fazendo aqui?"
"Meu nome é Sérgio e estou machucado.
Fui atropelado enquanto empinava pipa.
Estou dormindo no quarto aqui ao lado. E você?
Por que está aqui?"
"Acho melhor você ir embora, garoto!
Tem gente que não vai gostar de ver você aqui no meu quarto."
"Não estou fazendo nada de errado.
Só queria saber quem estava aqui."
Entre resmungos e reclamações, Sérgio se dirigiu à porta e foi recebido por uma senhora que me cumprimentou sorridente e o guiou pela mão.
Só então percebi que estava sentada na cama, enquanto meu corpo permanecia deitado!
Fiquei espantada, e o impacto da surpresa me deixou paralisada por alguns segundos; em seguida, retomei a minha posição.
"Meu Deus, que loucura", pensei.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:40 am

Nisso Nair, que retornara ao quarto e estava parada em frente ao meu leito, comentou:
- Você se mexeu, menina!
Isso é um bom sinal.
Não adianta tentar me enganar.
Veja, seus pés estão descobertos e eu sempre os mantenho agasalhados.
Ah, menina, você ainda está por aqui.
Graças a Deus!
Nair tinha razão: meus pés estavam descobertos, quando eram sempre mantidos agasalhados por ela.
Isso era um bom sinal como ela dissera?
Eu não saberia explicar.
"Estou ficando com sono novamente.
Nair, meu amigo Mário, não saíam daqui.
Não me deixem sozinha."
Um barulho no quarto me fez acordar.
Nair não estava por perto.
Uma outra enfermeira me dava um remédio pelo soro que estava ligado a meu braço.
Era como se eu não estivesse ali.
Não me dirigia uma única palavra.
Ela fazia tudo de forma mecânica e totalmente ausente do ambiente.
Quando ela se preparava para sair, a porta se abriu e Nair entrou no quarto, para espanto da enfermeira, que lhe disse:
- Você ainda não foi embora, Nair?
- Tentar eu tentei, mas está faltando uma funcionária na sala de cirurgia e a supervisora me convocou para trabalhar mais este turno, substituindo você, que irá prestar serviço no centro cirúrgico.
- Mas por que eu e não você, Nair?
- Porque você está descansada e lá se exige mais serenidade.
Eu não daria conta.
- É sempre assim:
a corda sempre arrebenta do lado mais fraco mesmo.
Esta paciente já foi medicada.
Faltam os outros quatro do sector ao lado.
Trabalhar no CTI é moleza.
Nenhum doente reclama.
Assim é fácil fazer hora extra.
Olhe para esta menina: vai acabar ficando aqui a vida toda.
- Não fale assim, Estela.
Ela está ouvindo e também tem nome, um bonito nome.
Chama-se Sofia. É minha amiga.
- Não sei como você consegue apegar-se tanto aos pacientes, Nair!
Eu, quando termino meu plantão, esqueço tudo e todos e procuro viver minha vida.
Sei lá se amanhã não serei eu que estarei aqui!
- Vá, Estela.
Já a chamaram até pelo alto-falante.
Você vai se dar bem lá no centro cirúrgico.
- Tenho certeza, Nair.
Um bom plantão para você e melhoras para você, viu, Sofia?
Nair, visivelmente nervosa com a atitude da colega, fez a verificação dos medicamentos para, em seguida, de posse da bandeja com os vários remédios, sair silenciosamente do quarto.
Novamente sozinha, deixei meus pensamentos me conduzirem no tempo.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 17, 2016 10:40 am

Lembrei de quando papai nos levou, de férias, para passar alguns dias na praia.
Eu estava com quatorze anos, e aquele verão foi lindo.
Selminha foi connosco, depois de muita insistência de minha mãe com dona Rita, mãe dela.
As duas combinaram que, quando voltássemos, mamãe e eu iríamos junto com elas passar alguns dias na fazenda dos avós de Selminha.
Naquele verão namorei pela primeira vez.
O nome do garoto era feio, mas ele era lindo!
Saíamos, Selminha e eu, todas as tardes para passear.
Era quando me encontrava com Amantino, enquanto Selminha ficava vigiando, no caso de papai ou mamãe aparecer.
Foram quinze dias maravilhosos!
Pena que meu namoro durou apenas cinco dias, pois Amantino era muito atrevido e mandão.
Coisa de menino com mania de homem!
Então deixei de ir a dois compromissos marcados com ele e nunca mais nos vimos.
Acho que a família e ele foram embora!
O retorno de Nair ao quarto me levou de volta à realidade.
Assustei-me quando ela comentou:
-Tenho de arrumá-la, menina.
O doutor vem aí e não pode vê-la assim.
Vou escovar um pouco seus cabelos.
Desculpe-me se machucá-la.
Nair passou uma toalha húmida no meu rosto, escovou meus cabelos - dentro do possível, é claro - e me recompôs na cama.
Em seguida, saiu, retornando alguns minutos depois com o médico:
um senhor já bastante idoso acompanhado por mais dois bem mais jovens.
Após me examinar e conferir as anotações, ele comentou com os colegas:
- O quadro está estacionado.
Não houve progresso nem regressão no mal.
Talvez a cirurgia seja a única solução plausível, mas me mantenho temeroso quanto à extensão do problema.
Vamos aguardar mais algum tempo.
Ela é jovem e merece essa chance.
Provavelmente, se ela tivesse a minha idade ou a de vocês, já estaria bem longe daqui!
São os mistérios que a ciência ainda não conseguiu desvendar!
Entre os jovens, as reacções sempre são imprevisíveis.
Podemos chegar aqui na próxima semana e a encontrar tomando sorvete na lanchonete.
Bem, mas no momento vamos fazer pequenas alterações na medicação para ver se conseguimos modificações favoráveis em seu quadro clínico.
Nair, assim que sairmos, permita a entrada do pai dela, que está aí fora, e, por favor, identifique para mim, em relatório, a frequência cardíaca dela durante essa visita e no momento em que ele sair.
Não se esqueça de identificar com clareza no relatório que foi um pedido meu.
"Então papai está lá fora!
Oh, meu Deus, obrigada!
Papai, quanta saudade!
Enfim vou poder abraçá-lo."
Os médicos demoraram ainda alguns minutos antes de se retirarem.
Conversaram sobre a doença da qual eu era portadora.
Mas dei pouca atenção ao que falavam; afinal, papai tinha chegado e ia resolver tudo, como sempre fazia.
Lembrei-me de quando minha bicicleta quebrou.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:53 am

Fiquei o dia todo sem poder brincar; à noite, não consegui dormir enquanto papai não chegou, e, depois de abraçá-lo, contei-lhe o problema.
Ele me garantiu que pela manhã tudo estaria resolvido, como de facto aconteceu no dia seguinte.
Estava com onze anos e a mania era brincar de bicicleta na rua tranquila onde eu morava.
Selminha era minha vizinha.
"Papai vai dar um jeito de me tirar daqui.
Tenho certeza de que não vai se conformar em deixar-me sozinha.
Quem sabe acordo desse sono cheio de sonhos mirabolantes."
Assim que o doutor saiu, Nair correu para me arrumar novamente, enquanto comentava:
- Vou deixá-la bem bonita para seu pai.
Se você pudesse sentar, ficaria bem mais fácil.
Oh, menina, de onde eu conheço você?
Por que sinto tanta simpatia por você?
Assim está melhor!
Pronto, você está óptima!
Fique firme aí com esse coraçãozinho que vou buscar seu pai.
Foi o mais longo minuto de minha vida, mas papai finalmente entrou no quarto acompanhado de Nair, que comentou:
- O senhor pode ficar à vontade.
Estarei do lado de fora.
E não precisa se preocupar com nada.
Está tudo normal e ela passa muito bem.
Quando Nair saiu, esperei que papai fosse abraçar-me, desligar todos aqueles aparelhos, me recolher nos braços, como quando eu era criança, e me levar para a casa.
Mas, ao contrário disso, ele ficou ali, parado em pé, a olhar-me, sem dizer uma só palavra.
"Como você é lindo, papai!
Estava enganada quando o via somente como um velho enrugado.
Suas mechas de cabelos brancos lhe dão um ar de seriedade."
Ele não era um velho rabugento, não!
Era meu pai!
Teria sido óptimo conhecê-lo quando mais novo, sem tantas obrigações e compromissos.
"Abrace-me, papai.
Por favor, abrace-me."
Só então ele voltou a si, e só mais tarde compreendi que seu silêncio era de dor por me ver presa àquele leito.
Sua voz soou como a própria esperança quando ele se dirigiu a mim:
- Filha, filhinha, você está bem?
Estamos com saudade.
Quando você vai se levantar daí?
Me desculpe se eu chorar, coisa que você nunca viu, pois eu sempre tive o cuidado de esconder, mas para mim é muito triste vê-la nesse estado e nada poder fazer.
Papai se aproximou e carinhosamente passou a acariciar-me o rosto e os cabelos, enquanto algumas lágrimas molhavam seu rosto maduro.
"Como é bom ter o senhor por perto, papai!
Tenho confiança de que o senhor vai resolver essa situação e logo estarei novamente em casa."
Como se me ouvisse, papai falou:
- Filhinha, sinto-me um fraco por não poder livrá-la desse mal.
É difícil, minha filha, sentir-se impotente quando mais precisamos e queremos resolver uma situação.
Nunca me senti assim antes, e, justo agora que você precisa muito de mim, não consigo ajudá-la.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:53 am

Sua mãe tem rezado todos os dias; às vezes, durante quase o dia todo, quando não está chorando.
Antes de entrar, conversei lá na portaria com um senhor e me informei se poderia ficar alguém aqui com você.
Fui informado que não, pois o quarto é pequeno e comporta três pacientes.
Mas, pelo que vejo, você está sozinha.
Vou voltar e insistir para que alguém fique aqui com você.
Papai calou-se, na esperança de uma resposta, e, por mais que me esforçasse, eu não conseguia sequer abrir os olhos.
Ele continuou ali, de mãos dadas comigo a acariciá-las, cabisbaixo, sem dizer nem mais uma palavra, e, embora soubesse que ele estava chorando, eu não conseguia ver seus olhos, pois ele se colocara estrategicamente, de forma que eu não podia ver o seu rosto.
"Papai. Ah, papai!
Sinto tanta falta de vocês.
Do meu quarto, da rotina de casa.
O que faço, papai?"
Nesse instante ouvi uma voz amiga.
Era Mário, que se tornou visível para mim e falou:
"Olá, Sofia! Então, está com visita?
Seu pai e um homem bom e também um velho conhecido meu".
"Mário, por favor, me ajude a conversar com ele, me ajude pelo menos a abrir os olhos para que ele saiba que eu estou viva!"
"Ele sabe, Sofia.
Pode estar certa de que ele sabe."
"Mas não é justo!
Deus não pode fazer isso comigo!"
"Fique calma, Sofia, e confie.
Os acontecimentos que nos envolvem criando situações muitas vezes dolorosas, como a que você vive no momento, fazem parte da colheita de cada um, e não há como fugir disso.
Procure olhar pelo lado positivo, aprendendo a valorizar mais a vida, tudo e todos que dela fazem parte, especialmente aqueles que compõem o seu restrito mundo individual.
Deus está presente em todo momento, Sofia.
Veja que você ainda mantém a lucidez, mesmo não tendo o domínio sobre seu corpo, enquanto muitos acompanham e sentem todas as dores que são impostas ao corpo.
Por isso, agradeça a Deus em lugar de reclamar, minha filha!
A situação pela qual você passa é um momento de sublime aprendizado para todos nós, incluindo seus pais e amigos.
Estejamos confiantes em Deus e esperemos pelo amanhã, que certamente nos trará novas e grandes realizações."
Mário se calou e, envergonhada, desviei meus olhos dos seus, procurando os de papai.
Já refeito, mas com os olhos vermelhos, ele me falou:
- Vamos sonhar um pouco, minha filha?
Ou melhor, vamos programar uma bela viagem à fazenda dos avós de Selminha?
Vamos, Sofia?
Assim que você melhorar, eu lhe asseguro que vamos até lá.
Dona Rita já me fez prometer.
Vai ser óptimo, minha menina!
Veja se consegue vencer esse mal e voltar a ficar connosco.
"Eu prometo, papai.
Eu juro que vou conseguir!
Não sei o que houve nem como superar este momento, mas vou vencer.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:53 am

E, além do mais, não estou sozinha.
Tenho dois amigos que muito têm me ajudado.
Mário, que disse ser seu velho conhecido.
Quando eu puder, vou pedir mais detalhes a ele.
E a enfermeira Nair, minha protectora aqui.
Ela tem sido meu anjo da guarda.
Acho que ela não é casada, pois nunca a ouvi falar de filhos, marido ou problemas domésticos.
Só sei que ela tem sido minha segunda mãe, papai."
Nesse momento alguém bateu à porta e aguardou.
Papai retirou um lenço do bolso, passou pelo rosto e enxugou os olhos, para só em seguida ir atender.
Era Nair com uma bandeja nas mãos.
Dirigindo-se a papai, ela falou:
- Trouxe um lanche para o senhor.
Não estou apressando a visita, mas o tempo já se esgotou, e, se chegar alguém, o senhor está a lanchar, por isso permaneceu mais alguns minutos.
Sua presença faz muito bem a ela!
- Obrigado, senhora, mas não vou lanchar.
Não tenho condições.
- Estou certa disso, mas pelo menos use o lanche como pretexto para ficar junto dela mais um pouco.
- O que a senhora acha do estado dela?
O doutor comentou alguma coisa?
Talvez, como está aqui acompanhando tudo, a senhora possa me acalmar um pouco, dando-me alguma esperança.
- Sempre existe uma chance, sobretudo na idade dela.
Não sou médica, mas já vi recuperações incríveis quando todos os recursos não mais adiantavam.
Ela está bem.
O doutor falou numa possível cirurgia como recurso final, mas ainda não se definiu, pois o mal deixou de progredir.
Acho que em mais um dia ou dois teremos uma definição, com a ajuda de Deus.
- A senhora acha que a operação seria o melhor?
- Como lhe disse, não sou médica; sou apenas uma enfermeira que conta com a experiência do dia-a-dia.
E, acima de tudo, também amo muito esta menina, mesmo sem ela nunca ter me dirigido uma palavra.
Vejamos a cirurgia como uma possível solução, e não como um mal.
Vamos continuar fazendo nossa parte e esperar a determinação de Deus.
Acho que ela é dona de grandes chances de recuperação.
- Fico mais tranquilo e agradeço pelo interesse.
Existe alguma coisa que possamos fazer pela senhora em agradecimento à sua atenção com a minha menina?
- Estar junto dela me é o suficiente, mesmo porque lá fora não tenho ninguém mesmo.
A vida não me permitiu viver com os meus entes queridos mais do que alguns poucos anos.
Fiquei viúva quando completei cinco anos de casada e minha filha tinha dois aninhos.
- Sinto muito.
Como é mesmo o nome da senhora?
- Nair.
- Sinto muito, dona Nair.
Mas e sua filha?
Não vive com a senhora?
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:53 am

- Não, senhor.
O bom Deus determinou que ela acompanhasse o pai quando fomos vítimas de um acidente de ônibus; só eu escapei.
Ela seria hoje bem mais velha que sua Sofia se estivesse por aqui; para ser mais precisa, estaria com vinte e três anos.
No começo sofri muito, mas encontrei Deus na religião, e desde esse dia compreendo que não somos donos nem de nossa vida; assim, como podemos querer possuir privilégios sobre a vida dos outros?
- O que a senhora está falando é uma realidade, porém muito difícil de aceitar.
Os dois continuaram a conversar por mais alguns minutos.
Não me importei de não ser mais o alvo das atenções, pois a simples presença de pessoas em meu quarto, e queridas, me fazia feliz e trazia de volta a rotina do dia-a-dia.
Nair, por fim, despediu-se de papai, garantindo-lhe que estaria presente a meu lado em todos os instantes.
Ela se retirou, pedindo que papai também o fizesse.
Mário permanecia fiel, com sua presença, sempre no mesmo lugar, sentado em uma cadeira esquecida e encostada na parede a cerca de dois metros de meu leito.
Sempre sorridente, transmitia uma paz contagiante que me fortalecia.
Quando papai me beijou a testa e se despediu, Mário comentou:
"Vamos, Sofia.
Dê-lhe um sorriso para que ele possa ir mais tranquilo.
É só fazer um esforço.
Vamos. Eu a ajudo!"
Senti as mãos de Mário sobre minha cabeça, e uma vontade enorme de me comunicar com papai tomou conta de mim, quando então ouvi seu comentário alegre:
- Você está sorrindo, Sofia?
Graças a Deus.
Dona Nair tem razão:
você ainda está connosco!
Obrigado, minha filha, muito obrigado pela esperança que você me deu.
E não tente me enganar.
Isso foi um sorriso, sim!
Sua mãe e Selminha vão ficar felizes quando lhes contar.
Fique com Deus, minha filha.
Amanhã estarei de volta, e espero esse sorriso novamente.
Fique em paz, minha menina!
A porta se fechou e papai desapareceu.
"Estou sozinha novamente", pensei.
"Não diga isso, Sofia.
Ainda resta este velho amigo por aqui!"
"Não sei como conseguiu fazer isso, mas dei um sorriso para ele!"
"Eu nada consegui. Foi você, Sofia.
O mérito é todo seu.
Além disso, não seria justo deixá-lo partir sem que você demonstrasse o amor que sente por ele.
Minha querida, é hora de esquecermos um pouco de nós e nos voltarmos para Deus em prece.
Você me acompanha?"
"É claro, Mário!
Hoje estou me sentindo bem mais calma.
Preciso ter mais fé em Deus."
"Foram muitas as surpresas até agora, mas muitas outras ainda estão reservadas para você hoje.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:54 am

Basta apenas que confie em Deus como Pai e Senhor."
Durante a prece de Mário um sono diferente tomou conta de mim.
Era como se estivesse vendo um filme do qual fazia parte.
A praça estava cheia, e o cheiro de mar indicava que estávamos perto dele.
Atrás do casario antigo, pude notar os mastros dos navios, que confirmaram minha previsão.
Muitos negros acorrentados com seu corpo desnudo estavam amontoados em um canto.
À nossa frente, a praça fervilhava de pessoas.
O burburinho era intenso.
Vendedores ambulantes gritavam oferecendo vários produtos:
de verduras e animais até tecidos importados.
Senhores bem vestidos eram carregados em liteiras3 por escravos.
Senhoras trajando longos e enfeitados vestidos se misturavam ao vaivém de marujos de diferentes nacionalidades.
Encontrávamos meu pai e eu - que não era o mesmo de hoje, embora suas feições me lembrassem alguém muito querido - sentados no alto de um palanque.
À minha frente havia um grande livro em que valores eram anotados.
Estávamos na Bahia, uma das muitas portas de entrada de escravos no Brasil; a época não saberia precisar.
Meu pai era um leiloeiro de escravos, todos recém-chegados, desembarcados em praias próximas, longe das autoridades.
Trémulos, famintos e assustados, eles eram conduzidos até o palanque, isso depois de limpos e de terem seu corpo untado com óleo, para que ficassem reluzentes à luz do sol, valorizando-os mais.
Meu pai fazia a venda entre lances e propostas, mas nunca fechava uma venda sem antes me consultar, pois eu trazia em meu livro o valor de cada negro.
E bastava um olhar, um aceno com a cabeça, para que ele entendesse o sim ou o não.
O cheiro forte do esgoto, em sua maioria a céu aberto, e dos detritos da feira misturava-se à brisa do mar, o que amenizava um pouco aquele odor desagradável, tão comum em dia de forte calor.
Repentinamente, me vi caminhando por ruas íngremes em direcção àquele que seria o meu lar, levando na bolsa os lucros do dia, enquanto papai ficara para trás, bebendo e comemorando com os amigos e com outros negociantes, entre eles muitos marujos e capitães.
A lembrança daqueles rostos, jovens e maduros, estava gravada em minha memória.
O choro desesperado proveniente da separação das famílias também.
Corações apaixonados que viam destruídos todos os seus sonhos; crianças a chorar pela falta da protecção dos pais; estes a clamar pelos filhos; mãos estendidas ao céu; lágrimas; gemidos; apelos desesperados; o barulho estridente da chibata, e ao cair da noite a praça voltava à calma e os negociantes, como meu pai, comemoravam com seus fornecedores os lucros.
Eu não conseguia apagar de meus pensamentos essas lembranças.
Estava em casa, em pé de frente para a janela, olhando o mar distante.
Era ainda jovem e não atingira a casa dos vinte anos.
Fortes dores de cabeça dificultavam meu equilíbrio.
Enquanto me apoiava na janela procurando respirar o ar que faltava aos meus pulmões, uma forte dor no peito fez-me cair no chão.
Agora, caminhava por uma estrada escura e era perseguida por negros revoltados que juravam vingança.
Eu corria desesperada, chamando por Deus e fazendo apelos de perdão.
Voltei ao tempo actual e lá estava Mário, com um sorriso alegre nos lábios.
"Como pode isso, um sonho dentro de outro sonho?", comentei, dirigindo-me a Mário, que prontamente me respondeu:
"Não foram sonhos, Sofia, mas sim uma realidade vivida por você em outra época, uma visão de uma de suas vidas passadas.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:54 am

Mas não fique preocupada.
No momento certo você entenderá o porquê disso tudo".
"Vidas passadas, Mário?
Não entendo nada sobre isso. Estou cansada.
Quero voltar para casa, ser novamente Sofia com seus dezasseis anos, viver, sorrir, cantar, sonhar. Quero viver!"
Fiquei chorando por um longo tempo e não mais vi Mário, porque realmente não queria vê-lo, embora tivesse certeza de que ele estava ali, junto de mim.
Ele representava uma realidade que eu lutava para esquecer.
E Nair? Por onde andaria?
Era dia ou noite?
Por quanto tempo dormira?
Queria me levantar dali.
E qual foi meu espanto ao ver que estava de pé, ao lado de meu leito, e meu corpo permanecia imóvel com os olhos fechados.
Naquele momento não quis saber detalhes.
Caminhei em direcção à porta e para minha surpresa não precisei abri-la.
Saí, atravessando-a, e deparei-me com um corredor à minha frente.
Tinha a intenção de sair correndo em direcção à minha casa, mas meu espanto foi ainda maior quando rapidamente atingi a porta de entrada e desci correndo os degraus.
Deparei-me com um grande número de pessoas, algumas chorando, outras machucadas e deitadas no chão.
O quadro era assustador.
Fiquei paralisada. Foi quando duas senhoras se aproximaram de mim e uma delas falou:
"Deixe de ser irresponsável, menina.
Desocupa logo aquela cama para dar lugar para nós.
Não vê que somos idosas e estamos jogadas aqui no frio?
Você é muito mal-agradecida.
Conseguiu uma cama quentinha e fica fazendo pirraça igual a uma criancinha.
Vá logo embora ou então vê se morre e dá a vaga para nós.
Tenho certeza de que vamos tirar muito mais proveito dela do que você."
Corri de volta para o leito, temerosa pela acção das duas mulheres.
Fiquei assim por um longo tempo, até que Nair entrou no quarto e falou:
- Teve uma boa noite, Sofia?
Hoje estou de folga, mas me ofereci para ficar aqui com você e a supervisora concordou.
Vivo sozinha mesmo!
Aqui pelo menos tenho companhia!
Trouxe dois bons livros que vou ler para você.
Seu pai e sua mãe devem vir hoje, e vou deixá-la bem arrumada para o horário de visita!
Mas o que houve com você?
Ninguém a cobriu à noite?
Já entendi, você se movimentou.
Bem sinal, menina!
Deixe-me conferir o relatório da enfermeira da noite.
Aqui diz que você se descobriu três vezes essa noite.
Doutor Celso vai gostar de saber disso!
Nós vamos vencer, menina, nós vamos vencer, com a ajuda de Deus!
Nair passou a arrumar-me.
Escovou meus cabelos, lavou meu rosto com água morna, trocou minha roupa de cama.
Em pouco tempo eu estava "limpa e perfumada", como gostava de dizer sempre que acabava de cuidar de mim.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:54 am

- Estou arrumando você mais cedo hoje para ver se o Dr. Celso nota a melhora com mais facilidade.
Gostei muito de seu pai.
É uma pessoa muito simpática.
Ele me lembra muito meu marido: o modo de falar, os cabelos e até mesmo os olhos.
Sabe, minha menina, ontem, quando saí daqui, fui rezar por você.
Espero que tenha sentido meus pensamentos.
Enquanto Nair falava, eu reunia em meus pensamentos tudo o que me acontecera na noite anterior, desde a imagem querida de papai quando me visitou até o momento actual.
Arrepiei-me toda em me lembrar daquelas duas mulheres, do mercado de negros, da estrada escura, daqueles que queriam se vingar de mim. O que seria aquilo?
Sonho ou realidade, como me dissera Mário?
Era muita coisa de uma só vez!
Como poderia Deus ser justo se permitia que aquelas pessoas fossem vendidas como animais, que fossem arrancados do seio da mãe os rebentos que ainda estavam a mamar?
Separar corações que se amavam.
Não via nenhuma acção da Justiça Divina naquilo tudo!
O mesmo acontecia comigo, presa àquele leito, vendo fantasmas e conversando com gente que já morrera!
Lembrei-me de quando mamãe me mandava dar esmolas a uma velhinha que passava lá em casa, às vezes até três vezes na semana.
Eu ficava feliz em ouvi-la dizer:
- Deus lhe pague, minha filha.
Deus lhe dê vida, saúde e um bom casamento.
Sempre acreditei que, fazendo a caridade como nós fazíamos, estávamos garantindo para nosso futuro a realização de nossos sonhos.
Mas, ao que parecia, as palavras da velhinha não foram ouvidas por Deus, pois, pelo que percebera, estava entre a vida e a morte, portanto sem a vida e a saúde que ela me desejava e sem o bom casamento.
Este estava totalmente fora de cogitação.
Então perguntei a Deus:
"Onde está Sua justiça que me obriga a deixar de viver minha juventude para ficar presa a esta cama, quando muitos da minha idade desfrutam do prazer de viver?
Que me deixa experimentar o mundo lá fora e depois me proíbe de sair?
Dá-me o conforto de um lar e o carinho de pais queridos e me proíbe de desfrutar.
Onde, meu Deus, está Sua intervenção?"
Nesses instantes ficava de ouvidos atentos a espera de respostas.
Nair me fez voltar à realidade com suas palavras:
- Sabe, menina, aqui neste hospital nós temos uma ala onde ficam as crianças pobres.
Lá é tão triste, Sofia!
A maioria é abandonada pelos pais que não têm como criá-las; quando adoentadas, elas se tornam mais dispendiosas para as famílias.
Algumas quase nunca recebem visitas.
O único carinho que recebem vem das enfermeiras que cuidam delas.
É de dar pena, minha menina.
Agradeça a Deus por ter familiares e pessoas que muito a amam e preocupam-se com você.
Apesar do mal que a atormenta no momento, você é muito feliz.
Pense muito nisso, minha menina.
Assim que você acordar, vou levá-la para conhecê-las e para que ofereça um pouco de carinho a elas.
Isso vai fazer muito bem a você.
Não sei por que estou lhe falando tudo isso.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:54 am

Talvez seja porque todos nós temos uma forte tendência de ser mal-agradecidos com Deus quando achamos que merecemos mais do que temos.
Mas Deus é muito justo, minha menina, e nunca abandona Seus filhos.
Aprendi que a vida nos dá e a vida nos toma quando perdi meu marido e minha filha.
No início me revoltei, mas hoje fico pensando:
"Se acredito em Deus, por que duvidar de Seus desígnios?"
Minha amiga Nair se calou, e lágrimas silenciosas traziam uma mensagem de seu coração para Deus.
Estava envergonhada de mim mesma e esperava que Deus estivesse me ouvindo naquele instante, pois a resposta às minhas interrogações estavam nas palavras amigas daquele coração de mãe e esposa.
Lembrei-me de mamãe, que me mandava rezar todas as manhãs antes de eu sair para a escola.
Como fui errada!
Poucas vezes a obedeci!
"Que se faça a Sua vontade, meu Deus, acima da nossa."
Iniciei minha prece solitária consciente de que Deus me ouviria e me daria forças para entender tudo o que se passava, bem como o Seu amor para comigo.
Envolvida pelas vibrações de minha prece, notei a presença de Mário em seu lugar habitual.
Como eu, ele mantinha seus olhos fechados e certamente seus pensamentos voltados para Deus, me acompanhando solidário.
Ao término de minha prece, ainda com os olhos cheios de lágrimas, me dirigi ao amigo querido:
"Mário, perdoe-me.
Tenho me sentido muito insegura ultimamente.
Não me deixe sozinha.
Você é o único com quem eu posso conversar!"
"Não se preocupe, Sofia.
Eu nunca saio de perto de você.
Esta é minha obrigação.
Mesmo quando você não me vê, fique certa de que estou por perto.
Não só eu, mas também outros amigos queridos que você soube cativar em outros tempos!
Linda prece, menina, e suas palavras foram sinceras.
Tenho certeza de que muita coisa vai mudar em seu coração a partir deste momento."
"Mas é muito difícil, Mário, esquecer de tudo.
Diga-me se já é chegada a minha hora de morrer."
"Isso é desígnio de Deus, Sofia.
Mas vamos ser realistas:
você está em coma há dezassete dias e só agora apresenta alguma melhora.
Procure aproveitar bem os benefícios que a situação lhe proporciona, procurando na dor que assola o seu coração os ensinamentos que Deus lhe envia.
Não tenha medo, minha querida.
Estamos todos sob a protecção do Pai e de Seus mensageiros!
Nossa função a seu lado é ajudá-la na compreensão dos acontecimentos do momento, como eternos compromissados que somos pelos laços fraternos que nos unem há muitos séculos.
Minha mão amiga e meu ombro solidário estarão sempre presentes a seu lado, e em breve você compreenderá a grandiosidade da Justiça Divina, que permite reencontros em exercício do amor, em substituição ao ódio, construindo um amanhã de paz para todos nós!
Por hora, viva, minha menina, acredite na vida, seja ela em corpo de carne ou em espírito, e ame a Deus e a dor que a visita nos dias de hoje; assim vencerá as difíceis noites de seu passado, quando o sol da fé vier visitá-la no amanhecer que se aproxima."
Nair terminara de me arrumar e, sentada, estava pronta para iniciar a leitura de um dos livros quando se voltou para mim, dizendo:
- Que é isso, menina?
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:54 am

Chorando por quê?
O que significam estas duas lágrimas?
Nada disso!
Estou aqui do seu lado e não quero vê-la chorando.
Vou enxugar seu rosto.
Pacientemente Nair passou a limpar meu rosto, não conseguindo conter suas próprias lágrimas.
Fomos interrompidas pela chegada do doutor e de seus dois assistentes:
- Bom dia!
Como está nossa paciente hoje? - perguntou o médico aproximando-se de mim.
Enquanto isso, Nair passava para as suas mãos uma prancheta contendo as anotações em forma de relatório.
Parecia-me que era de fácil compreensão para o doutor, que franzia as sobrancelhas enquanto lia.
A conversa entre eles nunca me interessava.
Por isso, enquanto trocavam ideias, entreguei-me ao sono suave que me envolvia.
Misteriosamente me vi de volta à cidade em que meu pai era leiloeiro e comerciante de escravos.
Agora era outra época:
as mesmas ruas, as mesmas casas, mas outras pessoas transitavam por ali.
Um quadro triste se apresentava para mim: uma mulher de aproximadamente vinte e cinco anos chorava copiosamente olhando algumas fotografias.
Pela vestimenta escura que trajava, pude identificar que estava de luto.
Silenciosamente a ouvi reclamar, por entre abundantes lágrimas:
- Oh, meu Deus.
Que crimes cometi para merecer tanto sofrimento?
Primeiro, a dor da viuvez, com a morte de meu querido.
Sozinha não consegui, nem à custa de muito trabalho extra, recursos para criar meus dois meninos, um de dois e outro de três anos.
Agora essa doença que me destrói por dentro e me obriga a me separar deles.
Meu Deus, deixe-me morrer sozinha.
Não quero ir para nenhum sanatório.
Quero morrer aqui, onde vivi com meus filhos e meu marido, no meu lar.
Enquanto a ouvia, observava seus traços e aos poucos a identifiquei como sendo eu mesma em outra vida.
Um de seus filhos era meu pai da actualidade, porém ainda criança.
Repentinamente o quadro se alterou e me vi sozinha em meus últimos momentos de posse daquele corpo.
A naturalidade com que visualizava essa nova situação dava-me mostras de minha confiança em Deus, agora renovada e fortalecida.
Vi minha vida, dor e morte por duas vezes nesses meus sonhos, e tudo era completamente diferente do que eu era e representava hoje.
Mas, nessa última vida, papai estava ali como meu filho e eu o doei a outras pessoas por não ter como alimentá-lo e por não querer transmitir minha doença a ele, e assim também o fiz com meu outro filho.
As longas noites de trabalho extra junto à máquina de costura me presentearam com uma tuberculose.
Quando morri, tinha vinte e cinco anos.
Papai, que era meu filho, tinha dois, e seu irmão, três.
Meu pai actual nunca me contara detalhes de sua vida.
Fiquei a me perguntar se ele me perdoara quando eu era sua mãe, dona Rosalinda.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 8:55 am

Vagarosamente fui despertando, e ainda pude ouvir o doutor dar as últimas instruções a Nair:
- Não se esqueça, Nair:
vindo aqui o pai ou a mãe, mande-o procurar a administração, pois não podemos operá-la sem uma autorização por escrito do responsável.
Quando o doutor saiu, Nair ficou pensativa por um tempo e mesmo sem ter certeza de que eu a ouvia, comentou:
- Tenho boas notícias, menina.
O doutor mandou eliminar a medicação.
Em pouco tempo você poderá abrir os olhos e saberemos como você se sente, para em seguida definir se será necessário operá-la.
Vamos confiar, minha menina.
Tenho certeza de que seu anjo da guarda está aí do seu lado e lhe dará toda a força.
Realmente alguma coisa estava sendo feita, pois podia sentir as modificações.
Sensações de calor e frio percorriam meu corpo e me sentia mais cansada, o que me obrigava a ficar deitada junto de meu corpo.
Com o passar de algumas horas, comecei a sentir os mesmos sintomas do mal que me levaram àquele hospital:
fortes dores de cabeça e dores no peito, que dificultavam a minha respiração e faziam com que eu movimentasse meu corpo.
Emitia tristes e constantes gemidos, enquanto Nair, preocupada, esmerava-se na conferência dos instrumentos e nas anotações.
Haviam se passado oito horas desde que o Dr. Celso mandara retirar o soro e conseqüentemente a medicação que me sedava.
Mas as dores eram insuportáveis.
Com muito custo, abri os olhos de meu corpo físico e falei com dificuldade:
- Nair, estou aqui! Ajude-me, Nair.
Minha cabeça e meu peito doem muito.
Desmaiei em seguida para só despertar horas mais tarde, já com tudo normalizado.
Nair acariciava minhas mãos enquanto falava:
- Você nos deu um grande susto, menina.
Mas fiquei feliz em ouvi-la falar meu nome.
Enfim, vi a cor de seus olhos.
São castanho claros, iguais aos de seu pai.
Ele e sua mãe estiveram aqui.
Espero que você os tenha visto.
Sua mãe chorou muito, mas seu pai conseguiu confortá-la!
Selminha também esteve aqui e conversamos muito.
Ela me contou muitos segredos e peraltices de vocês!
Espero que tenha visto os três.
A experiência do doutor não deu certo.
A medida que você ia despertando do coma induzido, sua situação tornava-se de risco.
As dores voltaram e você ficou realmente muito mal.
Então chamei o doutor, que determinou que retornássemos com a medicação, e tudo voltou ao normal.
Nair prosseguia com seus comentários, enquanto de mãos dadas com Mário eu me voltava para Deus em prece:
"Senhor, fazei com que eu compreenda Seus desígnios, respeitando Suas determinações e retirando delas o ensinamento de que preciso para continuar".
Adormeci durante a prece e me vi de volta à praça na qual se realizava o leilão de escravos.
Naquela manhã, um casal de negros chamou minha atenção.
Reparei na preocupação deles, ainda jovens, com o casal de filhos.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:53 am

Normalmente, nos minutos que antecediam ao leilão, eu examinava de maneira detalhada a "mercadoria" para avaliar os preços mínimos de venda, mas me detive a observar o casal que misteriosamente chamava minha atenção.
O carinho para com os filhos, a atenção entre eles e a preocupação em esconder a nudez de seu corpo e a dos filhos faziam-me entender que ali não estavam simples nativos retirados de sua tribo, mas pessoas educadas e civilizadas.
Já havia conhecido outros, mas a cor da pele deles para mim os definia como escravos.
Porém, aquele casal mexeu comigo, e em meu coração brotou uma vontade súbita, movida pelo remorso talvez, de ajudá-los.
Durante toda a manhã até o meio da tarde evitei que subissem ao palanque ou que alguém os separasse.
Quando chegamos ao término do último lote, Antenor, o capataz que nos auxiliava prestando seus serviços como disciplinador, conduziu o casal e os filhos até minha presença e falou:
- A srta. dona Menina - era assim que todos me chamavam, embora meu nome não fosse esse - quer que eu separe eles ou vai vender junto?
- Não, Antenor. Estes quatro eu vou levar para mim. Não vou vender.
- Me desculpe, srta. dona Menina, mas seu pai não vai gostar!
Pouco me importei com as afirmações de Antenor.
Paguei ao dono dos quatro uma quantia bem abaixo do que valiam, alegando que mães com filhos pequenos tinham pouco valor comercial, pois, quando separadas destes, normalmente morriam de desgosto e, se não fossem separadas, pouco produziam, uma vez que as crianças requeriam muita atenção.
O francês que era o dono deles não discutiu.
Vendo o dinheiro, aceitou minha oferta e desapareceu na multidão!
Chamei por papai e expus meus propósitos, que não foram bem recebidos.
Ele alegou falta de serviço para tanto negro, já que nossa morada era pequena.
Demonstrou ainda preocupação com o aumento da despesa com mais quatro bocas para alimentar.
Então apresentei minha intenção de assumir as despesas, assim como fizera na compra deles.
Com a parte dos lucros que ganhava, fiquei com eles sob minha responsabilidade!
Papai, que nunca discutia minhas vontades, mesmo quando eu criava algum empecilho, concordou!
Instalei o casal no porão de nossa casa, fazendo-os saber que me prestariam serviço, mas já lhes concedendo alforria de soltura para partirem quando bem quisessem.
Essa era uma forma de diminuir o remorso que já dominava o meu coração.
O rosto deles me era totalmente estranho, nunca os tinha visto, mesmo porque vieram do outro lado do mundo.
Mas em meu íntimo sentia-os conhecidos e queridos em meu coração.
Uma mudança rápida na situação me levou de volta a meu quarto no hospital.
Mário ainda estava a segurar minha mão.
Nair lia seu livro em voz alta.
"Outro sonho", pensei.
"Será que fui tão ruim assim?
Algo me diz que tudo isso é verdade e que não tenho como fugir dela.
O que será que foi feito daqueles quatro negros?
Será que foram embora antes de minha morte, naquela tarde?"
Procurei esquecer do sonho.
Parecia ouvir uma música suave, vinda não sei de onde, que me mantinha calma e reconfortada.
Dei asas a meus pensamentos e passei a lembrar de minha vida como algo já muito distante da realidade que vivia no momento.
Os colegas da escola; o bate-papo despreocupado com as amigas; a hora do intervalo; os finais de semana, nos quais Selminha e eu sempre tínhamos uma festa para ir e um de nossos pais sempre chegava para nos buscar pontualmente no melhor momento da festa.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:53 am

Tempos de sonhos e fantasias que marcaram a realidade da minha adolescência e me faziam conhecer a saudade.
Será que Rosângela ainda namorava o Serginho?
E Sandra? Será que tinha conseguido reatar com o Duarte?
E Marcos? Será que ainda se lembrava de mim?
Engraçado como me habituara com as balas e os chocolates que ele me levava, e eu os aceitava como prémio, deixando que ele alimentasse o sonho de um dia ser meu namorado.
Como será que a vida continuara para eles sem mim?
Conforme já pudera perceber, a vida não parava.
Ela continuava como um trem em movimento, enquanto nos mudávamos de um vagão para o outro, vivendo momentos e situações das quais não podíamos fugir, como passageiros que éramos.
Mas chegava a um ponto em que não havia mais nenhum vagão disponível: chegávamos ao último.
Quando saltávamos do trem, este prosseguia sua viagem e iniciávamos outra etapa de nossa vida.
Aqueles que ficavam no trem passavam a ser lembranças de nosso passado.
Já me conformara com a situação.
Se não tinha direito a uma vida normal, de uma adolescente de dezasseis anos, era porque não fizera por merecer, adquirindo esse
direito.
Não que Deus estivesse a me castigar pelos meus erros, mas eles faziam parte da minha bagagem, da qual não podia simplesmente me desfazer.
O engraçado era que todos esses pensamentos afloravam naturalmente, como se estivessem adormecidos dentro de mim.
Mas me sentia bem assim!
Sem revolta, mágoas ou remorsos.
Alguém estava me ajudando a lembrar e a compreender tudo isso. Talvez Mário, não sei.
Mãezinha! Como era bom lembrar de minha infância junto dela.
Sentia que, se me esforçasse um pouco, conseguiria retornar ao tempo em que vivia dentro dela, pela facilidade que a situação me oferecia, mas preferia ser criança, ter três ou quatro anos, e ser cuidada por ela, receber o beijo carinhoso de papai, segurar em suas mãos grandes e passear pela rua onde tudo também era grande:
as árvores, as pessoas, os carros, os animais, os outros meninos e até mesmo a minha Brígida, que era grande demais para ser minha boneca.
Mas o tempo passara e descobrira que tudo tinha um tamanho normal, que eu é que era muito pequena.
Que pena, mamãe, que tudo passava e nós crescíamos.
Lembrei-me dos primeiros dias no hospital, quando julgava ser tudo um grande mal.
Naquele momento já sabia que muitos outros sofriam como eu, e às vezes até mais, e compreendia que não era um grande mal, que a minha compreensão de Deus e da vida é que ainda era muito pequena, que me faltava conhecimento.
Mãezinha! Sentia que não poderia voltar a correr pela casa nem lhe dar os netos que prometera.
Mas Deus sabia o porquê, e nós compreenderíamos isso com o tempo, mais tarde.
Tinha certeza disso! Paizinho!
Naquele momento, tinha a convicção de que não conseguiria atender às exigências dele para ter um genro.
Brincando ele afirmava que, se não fosse torcedor do mesmo time de futebol pelo qual ele torcia, não serviria!
Sabia que não ia partir naquele dia, mas sabia também que não voltaria ao colégio, que meu pai não mais teria de me buscar nas festinhas de final de semana e que ele não teria de ir me visitar no hospital.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:53 am

Prometi a eles que, quando chegasse a hora, eu avisaria antes.
Algumas lágrimas apareceram no canto de meus olhos e Nair achou que era por causa da leitura.
Assim, fechou o livro e afirmou:
- Que livro danado de triste!
Ainda bem que não é realidade, não é mesmo, Sofia?
Vou sair um pouco, mas volto já.
Vou ver se consigo um livro mais alegre.
Quando Nair saiu do quarto, Mário falou:
"Sou suspeito para falar, mas Nair tem um bom coração.
Ela sempre foi assim".
"Você a conhece há muito tempo, Mário?"
"Há muito tempo, minha menina.
Há muito tempo nos conhecemos!"
"E a mim? Você me conhece?
Ou melhor, eu conheci você?"
"Sim, a alguns anos atrás."
"Ah, mas aí eu nem tinha nascido!"
"Eu sei, minha menina.
Mas vamos aproveitar que Nair saiu e dar um passeio em um jardim aqui perto?"
"Mas como, Mário?"
"É simples, minha querida:
basta querer, assim como você fez quando quis voltar para a casa e chegou até a parte externa do hospital.
Venha! Me dê sua mão que eu a ajudo.
O lugar aonde vou levá-la é lindo, e talvez Selminha esteja lá esperando por você!
Vamos, menina. Peça a Deus forças por meio da prece."
Em pouco tempo Mário me conduzia, e eu não precisava dar nenhum passo.
Rapidamente ganhamos a rua, onde a luz da lua, com suas estrelas companheiras, a tudo iluminava.
Sem nenhum esforço, consegui afirmar do fundo de meu coração:
"Obrigada, meu Deus!"
Chegamos a uma grande praça onde extensos jardins floridos impregnavam o ambiente com um perfume inigualável.
Simetricamente distribuídos, os canteiros repletos de flores misturavam-se à grama verde e bem cuidada.
Pedras traçavam caminhos entre as flores, sempre nos conduzindo a pequenas ilhas em meio ao verde, onde bancos acomodavam grupos de pessoas a dialogar alegremente.
Impressionada com o que estava vendo, voltei-me para Mário e, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele afirmou:
"Esqueça os detalhes, minha menina, e aproveite o momento.
Aqui estão reunidos muitos corações que vivem situações semelhantes à que você vive actualmente, e os demais são instrutores espirituais ou afectos que, aproveitando o sono do corpo físico, se encontram com seus entes queridos.
Vou ficar aqui neste banco.
Por que não se aventura a dar alguns passos sozinha?"
Respirei profundamente buscando equilibrar-me e ensaiei os primeiros passos.
Foi quando passou rente a mim um senhor amparado por uma jovem.
Pude ouvi-lo comentar:
"Você viu, minha filha?
É uma mocinha ainda!
E, se está aqui, seu corpo está em algum hospital.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Por essas e outras é que não acho Deus justo!"
Lembrei-me de quando pensava assim e da insegurança que me mantinha presa ao leito.
Comparei isso com a felicidade de possuir a confiança em Deus e com a oportunidade que a fé me proporcionava no momento.
Pensei em voltar e afirmar àquele senhor que estava feliz e que Deus estava sendo justo comigo, mas não o localizei entre tantos.
Continuei a caminhar, e mais alguns passos adiante me detive a observar um grupo de quatro jovens como eu, que conversavam animadamente alguns metros à minha frente.
Repentinamente um deles se virou e, olhando fixamente para mim, afirmou:
"Olha ela ali! É Sofia!"
Liderados por Selminha, eles me abraçaram alegres.
Experimentei a alegria do reencontro, esquecendo até mesmo de que não estava na Terra.
Sorrimos e choramos para em seguida nos acomodarmos sentados na grama, onde permanecemos em uma alegre conversação até que, um a um, eles foram se retirando, depois de nos abraçarmos em despedida, sempre amparados por alguém, ficando por último Selminha.
Foi quando Mário se aproximou e falou:
"Creio que já é hora, Sofia.
Estamos aqui há quase duas horas e Selminha precisa partir.
Mas pode lhe prometer uma surpresa para dentro de poucos dias".
Alguém que eu não conhecia amparou Selminha, e, após nos despedirmos entre lágrimas e promessas de amizade sincera, eles partiram rapidamente.
Só, procurei o ombro de Mário, indo despertar já no hospital, com Nair deitada ao meu lado, na cama que ela cuidadosamente arrumara horas antes.
Mário voltou à sua cadeira e eu me perdi em meus pensamentos.
Ainda envolvida pelas alegrias e surpresas do reencontro da noite, despertei quando Nair já estava em pé conferindo as medicações.
Minha vontade era correr ao seu encontro e lhe contar as maravilhas vividas por mim na noite que se fora.
Nair, como se ouvisse meus pensamentos, voltou-se para mim e comentou:
- Não sei por quê, mas acho que você teve uma óptima noite, menina.
Hoje tenho algumas novidades e espero que você entenda, Sofia!
O doutor decidiu operá-la e seus pais concordaram.
Está tudo programado para agora de manhã.
Se Deus quiser, você vai se sair bem dessa, menina!
Agora tenho de prepará-la.
Não é nada doloroso, mas tenho de raspar seu cabelo para evitar infecção e facilitar o trabalho do doutor.
Grossas lágrimas eclodiam de meus olhos enquanto Nair raspava meu cabelo.
Não eram de revolta, mas, como uma jovem mulher, eu perdia um importante instrumento utilizado pela vaidade feminina.
Tentava me consolar, afirmando para mim mesma que se esse era o preço que teria de pagar para que tudo voltasse ao normal, que estava tudo bem!
Nair sofria mais do que eu.
Estava a lamentar, não poupando palavras:
- Tem horas em que essa vida castiga muito a gente.
Uma menina tão nova sofrendo tanto!
Meu Deus, é muito sofrimento para esta criança.
Nesse momento, vi Mário se aproximar de Nair e a envolver num abraço.
Em seguida, ela se calou, depois de fazer um curto e significativo comentário:
- Está bem, Senhor, seja feita a Sua vontade aqui na Terra como no Céu!
Papai e mamãe foram me ver cedo, quando Nair ainda me preparava.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Choraram bastante. Estavam muito abalados.
Acho que a cena os impressionou.
Saíram rapidamente, após me beijarem!
Nair continuou seu trabalho enquanto Mário, agora em companhia de duas jovens senhoras, conversava em um canto do quarto.
Em seguida, ele se aproximou de mim e comentou:
"Sofia, a operação deve durar de quatro a seis horas.
Nesse período, você vai ficar sob os cuidados destas duas amigas; eu e outros companheiros estaremos auxiliando o doutor em seu trabalho, para que tudo transcorra bem."
Enquanto Mário conversava comigo, fui colocada em uma maca e conduzida pelo mesmo corredor por onde caminhara algumas horas antes, quando meu amigo me proporcionara momentos de alegria e felicidade no reencontro com meus colegas. Estranhamente me vi de pé, amparada pelas duas amigas de Mário, enquanto meu corpo, unido a mim por um extenso fio, entrava na sala de cirurgia.
Não vi mais nada.
Lentamente fui abrindo os olhos e notei que não estava no mesmo quarto de antes.
Muito mais aparelhos estavam ligados a mim.
Eu nada sentia, mas podia notar a palidez de meu corpo e o facto de minha cabeça estar toda enfaixada, o que me deixou preocupada.
Onde estaria Nair que não estava a meu lado? E Mário?
"Não quero ficar sozinha.
Por favor, meu Deus, não quero ficar sozinha."
"Você não está sozinha, Sofia. Estamos aqui."
Era a voz de Mário, que com dificuldade consegui ver ao meu lado.
"Já acabou, Mário?"
"Sim, Sofia. Já acabou."
"Onde está Nair?"
"Descansando, mas passará a noite ao seu lado!
Dentro de pouco tempo vão retirá-la deste quarto e levá-la para o anterior.
Aqui você está em observação, mas seu estado já inspira confiança."
Aliviada pela presença amiga de Mário, cedi ao sono.
Quando despertei, já estava de volta a meu quarto no hospital.
Nair encontrava-se sentada à minha cabeceira lendo um livro só para ela, pois não lia em voz alta.
"Desculpe-me, Nair.
Mas, toda vez que você lê para mim, me dá sono e não consigo ouvi-la!"
"Ela não a ouviu, Sofia", falou-me Mário.
"Mas assimilou suas palavras com carinho.
Precisamos conversar, minha menina. Já se sente forte o suficiente para darmos um passeio?"
Diante de minha indecisão, Mário, como na noite anterior, me deu sua mão e me conduziu.
Chegamos à praça, já minha conhecida, antes mesmo de o sol se pôr no horizonte e nos acomodamos.
Mário sentou-se no banco, e eu, sobre a grama.
Muitas pessoas caminhavam ou formavam pequenos grupos.
Mário esperou que eu ficasse mais à vontade e me falou:
"Estamos perto do hospital, mas em um plano diferente.
Este é um local de refazimento, onde espíritos em fase de transição entre os dois mundos vêm buscar conforto e energia.
Observe que muitos grupos estão unidos em prece.
A operação que você sofreu, Sofia, por um lado foi um sucesso, pois foi possível restaurar a parte afectada, o que proporcionará a você um despertar sem dores no plano físico, mas por tempo limitado.
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