O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Calculo de quinze a vinte dias para que um novo quadro se instale, e aí se dará o seu passamento.
Minha missão ao seu lado, como já lhe afirmei, é ampará-la, preparando-a para esse momento, quando finalmente estará livre de seus compromissos na presente existência".
"Você quer dizer que vou morrer, Mário?"
"Procure ver a situação sob outro prisma, Sofia.
Seu corpo deixará de existir, mas seu espírito, que é imortal, voltará livre para o nosso meio, de onde você está ausente há quase dezassete anos."
"Não tenha receios em falar comigo, Mário.
Sei que já morri outras vezes!"
"Muitas, minha querida, muitas vezes.
Todos nós já passamos por isso!
É como o fim do ano lectivo:
a escola se fecha temporariamente e voltamos para a casa em tempo integral, até que outros cursos nos sejam oferecidos."
Calei-me, e uma preocupação me veio à mente:
"Como preparar os meus pais para o facto de terem de aceitar minha partida?"
"Você terá de quinze a vinte dias para isso, Sofia, e sei que conseguirá, pois sua fé, fortalecida nesses dias de aprendizado, lhe faculta garantias de sucesso."
Mário se calou.
Preocupada, comecei a pensar:
"Então finalmente chegou minha hora.
Vai ser bem difícil me desapegar de tudo:
de meu lar, de meus pais que me amam, dos amigos que me dedicam amizade.
E sou ainda tão nova!
Pouco vivi, pouco desfrutei".
Enquanto estava perdida em meus pensamentos, notei um casal que passava.
O senhor, já idoso, comentou com a jovem em que se amparava:
"Você se lembra, minha querida, quando lhe falei da menina?
É esta aí! Não acho justo!"
Rapidamente me veio à mente a lembrança da noite anterior, quando pensei em procurar aquele mesmo senhor e explicar que estava muito feliz.
Levantei-me e estendi a mão para cumprimentá-lo, ao que ele acedeu de forma prazerosa.
Então comentei:
"Não pude deixar de ouvir o seu comentário ontem e hoje, e sinto-me na obrigação de ajudá-lo a compreender o que se passa, se o senhor me permitir, é claro".
"Sim, moça.
Estou mesmo curioso para saber o que faz uma jovem tão bonita aqui nesta fronteira."
"Realmente me preparo para o meu grande momento, mas isso não me preocupa, pois compreendi que tive tempo mais do que suficiente para realizar aquilo que estava previsto.
Mas o que eu queria afirmar para o senhor é que sou uma pessoa feliz, muito feliz, aqui ou na Terra.
No entanto, não fui sempre assim.
Revoltava-me com facilidade e não enxergava as belezas em meu derredor, até que um dia compreendi que nada somos além de um velho baú cheio de roupas em desuso que insistimos em guardar.
Então, meu senhor, me voltei para Deus, e tentei, como ainda tento, assimilar Seus ensinamentos, e as coisas foram ficando cada vez mais claras para mim.
Aconselho o amigo a fazer o mesmo.
Volte-se para Deus e confie em Seus desígnios.
Mas que fique registado que sou muito feliz e que estou muito feliz com tudo o que tem me acontecido, graças ao bom Deus."
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Ficamos em silêncio por algum tempo.
Então, ele pegou minha mão, se despediu e afirmou:
"Para vocês que são jovens é tudo mais fácil.
Enxergam tudo cor-de-rosa!"
Em seguida saiu amparado pela mão amiga de sua acompanhante.
Mário então se aproximou e comentou:
"Esse nosso irmão desde ontem não mais possui um corpo físico, mas ainda insiste que é seu direito fazer o que bem quer e pelo tempo que quiser, sem ter de dar satisfação a ninguém, nem mesmo a Deus.
Sua preocupação com seus interesses é tanta que ainda não se deu conta dos acontecimentos à sua volta.
Nem mesmo a filha que o ampara poderá interceder por ele se ele não se esforçar!"
"Então ele ignora que seu corpo morreu?"
"Em seu íntimo ele já sabe, minha menina, mas se recusa a aceitar.
Todas as oportunidades lhe estão sendo oferecidas, e, como em nossa passagem pela Terra tudo obedece a uma disciplina de tempo em que o livre-arbítrio de cada um é respeitado, esperamos que nosso irmão modifique sua maneira de pensar antes que se esgote o prazo e ele perca a companhia da filha, que tem sido sua luz nessa estrada."
"Mário, há alguma possibilidade de se estender meu prazo na Terra?"
"Os desígnios de Deus são indiscutíveis.
Mas, avaliando seu aproveitamento, não vemos necessidade de deixá-la presa à carne por mais tempo!"
"Presa à carne, Mário?
E se eu estiver satisfeita por lá?"
"Muitos por preguiça, se satisfazem com pouco, Sofia, o que acredito não ser o seu caso.
Outros se esforçam muito por bens e aquisições transitórias, apegando-se à vida no corpo de carne, o que também não é o seu caso.
Por isso minha afirmação 'presa':
você se iguala a um pássaro ansioso pela liberdade."
Mário tinha razão:
parecia-me que tudo tinha acontecido há muito tempo.
Calei-me, fiz da grama macia meu leito e, de olhos fixos nas constelações que embelezavam o céu, adormeci ali.
Não sei quanto tempo dormi, mas acordei disposta e refeita, quando Mário, tomando-me pelas mãos, me conduziu por entre vários grupos de pessoas em direcção ao meu quarto.
Ao lado do meu leito encontravam-se o Dr. Celso e Nair, que estava sendo instruída em seus procedimentos profissionais:
-A qualquer anormalidade pode me chamar, Nair; meu plantão se estende até às oito horas.
O quadro dela é tranquilo e permanecerá assim por alguns dias, mas logo terá de ser sedada novamente, pois não suportará as dores.
O mal cresceu, Nair, e já toma uma boa parte do cérebro.
Fizemos o que nos era possível, mas o mal está forte, livre e absoluto, expandindo-se rapidamente.
A ciência nada mais pode fazer além de poupar-lhe um pouco de dor.
Nair ouvia tudo cabisbaixa.
Quando o Dr. Celso saiu do quarto, ela não conseguiu conter as lágrimas e comentou:
- Tudo se repete, igualzinho ao que aconteceu com minha Brígida, quando me afeiçoei a ela e o Senhor a levou, meu Deus.
Dê-me forças para conviver com isso novamente.
"Brígida", pensei.
"Mas esse é o nome de minha boneca preferida, que guardo com muito carinho."
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Mário, que ouvia tudo ao meu lado, pousou a mão sobre meus ombros e comentou:
"Sofia, minha querida, Brígida era o nome da filhinha de Nair.
Ela desencarnou quando iniciava seus primeiros passos e suas palavras eram ainda distorcidas.
Nair sofreu muito com a sua partida, pois, como você já sabe, naquela época ela perdeu dois preciosos tesouros de seu coração e, como quando se casara, ficou novamente sozinha.
Nair foi criada em uma instituição de amparo a crianças e nunca conheceu nenhum familiar seu".
"Coitada de minha querida Nair, Mário!
Sinto por ela um amor muito grande, de tamanha grandeza que às vezes fico a pensar se não fomos íntimas em outra existência."
"Os desígnios de Deus são perfeitos, minha menina.
Buscando no passado as respostas, todos nós encontramos razões que justificam os afectos e desafectos que fazem parte de nossos dias atuais.
Houve um tempo em que Nair viveu seu grande sonho de ter uma família.
Casou-se, organizou um lar e junto do companheiro viveu os anos que lhe foram permitidos, alguns dos quais abrilhantados pela presença de Brígida, que foi sua conquista maior e final.
Mas seu marido e sua filha também tinham um passado, e o presente lhes determinou a colheita obrigatória.
Minha menina, vejo no brilho de seus olhos que está ansiosa por abraçar Nair.
Faça-o, beije suas mãos e se acomode em seu colo, pois você foi Brígida, a filha querida de seu coração."
"O que você está me dizendo, Mário?
Fui a filha de Nair?"
"Sofia, façamos uma prece."
Enquanto Mário fazia por nós a prece, de olhos fixos em Nair, como se um grande véu se levantasse, eu me vi ainda criança no colo dela.
Vi-me sendo cuidada por ela.
Vi os afagos carinhosos, a ternura e o carinho com que ela me ensinava as primeiras palavras, enquanto eu tentava imitar o movimento e o som de seus lábios:
-Vamos, queridinha.
Repita comigo: mamãe, papai, titio.
Não pude me conter diante daquela visão e corri, em espírito, para seus braços, permanecendo abraçada a ela por um longo tempo, até que Mário, carinhosamente, conduziu-me ao descanso junto ao meu corpo.
Lentamente abri os olhos e vi Nair cochilando debruçada sobre meu leito.
Algo diferente estava acontecendo.
Sentia-me pesada, as costas doíam, o soro ligado ao meu pé me incomodava, tinha sede.
Procurei por Mário e notei que minha visão do mundo era diferente, limitada a poucas cores, sem vida.
O que estaria acontecendo comigo?
Ouvi a voz carinhosa de Mário a soar dentro de mim:
"Essa, minha menina, é a visão que tem o 'pássaro Sofia' em seu retorno à gaiola.
Você está de volta ao seu corpo físico, mas continuamos perto de você".
Assustei-me e instintivamente tentei sentar na cama, fazendo com que Nair despertasse assustada:
- Meu Deus! Tudo bem, Sofia?
Você está bem?
- Sim, Nair.
Estou um pouco cansada, mas estou bem. Tenho sede.
- Você passou por uma operação muito difícil, mas se saiu bem.
É melhor repousar mais um pouco.
Vou buscar a água.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:54 am

Nair levou a água que eu solicitara e me acomodou no leito.
Antes de me perder em uma nova viagem ao passado por meio do sono, pude lhe dirigir algumas palavras que estavam presas à minha garganta:
- Eu sei quem é você e tudo o que fez por mim.
Deus lhe pague e me dê tempo para retribuir todo esse carinho e amor.
Adormeci. Estava de volta ao meu antigo lar, na Bahia, novamente antes de minha morte naquela existência!
O calor forte me fez buscar a brisa da tarde na janela.
Foi quando observei as árvores frutíferas em nosso quintal e desci a escada seduzida pela imagem da goiabeira coberta de frutos na qual sanhaços e sabiás banqueteavam.
Apesar de estar absorvida em satisfazer minha gula, notei quando a escrava que eu havia comprado e alforriado há alguns meses se aproximou de mim, gesticulando.
Apontava para a goiabeira.
Entendi que ela pedia permissão para também apanhar alguns frutos.
Fiz um sinal afirmativo com a cabeça e ela passou a escolher os mais bonitos e saudáveis frutos, colocando-os em uma pequena cesta, o que tomei como sendo a manifestação de um egoísmo desmedido.
Parei de colher e fiquei a observá-la a encher a pequena cesta.
Quando esta estava repleta, a escrava se aproximou e a colocou a meus pés, afastando-se ao encontro dos filhos, que nos observavam a distância.
Se ela se voltasse e fixasse seus olhos em mim, veria que eu estava corada de vergonha pelo julgamento antecipado que fizera de suas atitudes.
Enquanto olhava para aquela jovem mãe, pude notar que a imagem dela, como o piscar de uma luz, era sobreposta pela de Nair.
Assustei-me e a situação persistiu, o que me deixou confusa!
A visão se desfez.
Voltei a meu quarto no hospital, no qual Nair permanecia ao meu lado, com os olhos fixos em mim, e Mário, sentado em sua habitual cadeira, sorria.
Aproximei-me dele e o interroguei:
"Mário, tive mais um daqueles sonhos.
A imagem de Nair se misturava com a de uma negra que eu..."
"Não precisa continuar, minha menina.
Vou satisfazer sua curiosidade.
Nair foi sim aquela mãe que você salvou, juntamente com os filhos, dos martírios da escravidão há tanto tempo.
Já naquela época existiam fortes laços que as uniam."
Abaixei minha cabeça e me acomodei em uma cadeira próxima à de Mário, enquanto observava meu corpo, vestuário de um espírito que tinha sido a fria e calculista srta. dona Menina, a pequenina e frágil Brígida e que naquele momento era Sofia, que estava prestes a despir-se daquele corpo e voar livre ao encontro de seu passado na alegre oportunidade dos reencontros do presente e, certamente, das alegrias do futuro.
Segurei a mão de Mário e comentei:
"E você, meu amigo?
Permanecerá a meu lado nesses dias em que estarei me despedindo do meu corpo?"
"De forma constante, Sofia!
Você não terá dificuldades em ouvir-me ou ver-me.
Estamos por demais unidos sob a bênção de Deus!"
"Se Deus permitir, com tempo e meios, gostaria de passar aos meus atuais amigos e familiares tudo o que tenho vivido e aprendido nesses dias em que estou em coma."
"Quem sabe, Sofia?
Deus é dono de sábias decisões que muitas vezes demandam tempo para serem tomadas devido à incompreensão dos envolvidos."
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 8:55 am

Coloquei minha cabeça nos ombros de Mário e passei a pensar na alegria de meus pais e na de Selminha ao me verem acordada.
Mal podia esperar essa hora.
Deus realmente era todo perfeição.
Então, Nair e eu estávamos ligadas pelos laços do amor que uniram um dia mãe e filha e, voltando mais ainda no passado, pelo gesto de agradecimento daquela mãe que eu, por orgulho ou remorso, salvara, juntamente com sua família.
Só Deus sabia o teor das respostas, mas o importante era que estávamos juntas.
Onde mamãe e Selminha, e também Mário, teriam feito parte de minha vida ou onde e quando eu teria feito parte da vida deles?
Mário interrompeu meus pensamentos e falou:
"Sofia, o dia está nascendo e com ele uma nova etapa em sua vida.
Está confiante, menina?"
"Mário, me leve para ver o sol nascer antes de acordar junto ao meu corpo!"
Mário, então, me conduziu pelas mãos.
Pude sentir o calor da vida aquecer meu espírito, enquanto sua luz me permitia observar a grandeza de Deus a expressar-se na pequenina gota de orvalho caída na pétala da flor à minha frente.
Enquanto isso, duas outras gotas brotavam de meus olhos, trazendo a mensagem enviada por meu coração, que dizia:
"Obrigada, meu Deus, pela bênção da vida e pela felicidade de poder conhecer o amor.
Acordei. Nair, prestativa, se movimentava pelo quarto entre uma actividade e outra, enquanto eu não a perdia de vista.
Tinha vontade de lhe contar tudo o que se passara.
Mas será que ela compreenderia?
Talvez até me considerasse desequilibrada em consequência de minha doença.
Mas gostava tanto dela!
Mário, que estava a meu lado, falou:
"Não se prive, Sofia, de demonstrar carinho e amor.
Só os recusam aqueles totalmente voltados para o mal".
As palavras de Mário tiveram uma acção decisiva, e então me dirigi a Nair:
- Que horas são, Nair?
- Já passa das sete.
- Você nunca tem folga, Nair?
- Por que a pergunta, menina?
- Durante todo esse tempo que estou aqui, não me lembro um momento em que eu não tivesse a alegria de sua companhia!
- Como pode a menina saber disso se estava dormindo a maior parte do tempo?
- Nair, dê-me sua mão.
Sei de sua dedicação, de suas lágrimas, de seu amor por mim, de suas dores e da saudade que sente de seu marido e de Brígida.
Nair me abraçou e comentou:
- Você nem me conhece e eu fico envolvendo-a em meus problemas de foro íntimo.
- Não pense assim, Nair.
Deus nos reserva muitas surpresas a cada dia que nasce, e tenho certeza de que nos próximos dias elas serão tão boas como as que vivemos agora.
Temos muito a conversar, Nair, e o sentimento que nutro por você é de filha para mãe; pode estar certa disso.
Mas e meus pais?
Quando virão ver-me?
Estou ansiosa para abraçá-los!
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:35 am

- Talvez à tarde, menina.
Depende do doutor liberar as visitas.
Deve ser ele que está batendo à porta.
A porta foi aberta, permitindo a entrada do médico, que como sempre estava acompanhado de seus dois assistentes, já conhecidos meus.
- Desculpe a porta trancada, doutor, mas estava arrumando a menina - comentou Nair.
- Bom dia! Como vai nossa paciente hoje?
Quando a operei, pude ver todos os pensamentos dentro desta sua cabecinha, e tinha cada um de dar medo!
Sorrimos todos, e o Dr. Celso passou a examinar-me, não poupando recomendações de completo repouso destinadas a uma recuperação mais rápida.
Mas, no íntimo de meu coração, eu sabia que cada minuto era um passo a mais em direcção ao fim de meus dias na Terra e que eles estavam tentando me agradar.
"Sofia", falou Mário.
"A verdade da qual você é conhecedora lhe permite disciplinar suas atitudes e aproveitar bem o tempo que lhe resta.
Não desperdice isso julgando ou condenando o procedimento de seu próximo, quando ele apenas visa ao seu bem-estar.
Cada um procede e vive conforme sua compreensão.
O importante é que saiba estar agradecida àqueles que, prestativos, até mentem na tentativa de fazê-la feliz."
Num piscar de olhos compreendi a extensão do conselho de Mário e me dirigi ao doutor:
- Doutor, meus pais poderão me visitar hoje?
- Sua rápida recuperação lhe garante esse direito, Sofia.
Mas vamos com calma.
Um pouquinho de cada vez.
Nada de visitas demoradas e quarto cheio.
Se você fizer tudo direitinho, em três ou quatro dias deixarei você passar alguns dias em sua casa. Combinado?
- Combinado, doutor.
Mas vamos deixar esse assunto para depois, pois não sei se seria justo eu voltar para casa neste estado.
- A decisão é sua, Sofia.
Bem, eu já vou, pois encerro meu plantão agora.
Ficará em boas mãos.
Nair cuidará de você. Tenha um bom dia!
E cuidado com os pensamentos!
Assim que o doutor saiu, Nair não se conteve e falou:
- A menina acha justo privar seus pais de sua presença em casa só porque está em convalescença?
- Não, Nair, não é esse o caso.
Nós duas sabemos que me resta pouco tempo, e não quero substituir a imagem que meus pais tem de mim correndo alegremente pela casa.
Isso só iria lhes causar mais sofrimento no futuro.
Você não acha?
- Vou fazer de conta que não ouvi nada, Sofia, e respeitar seu ponto de vista.
É preciso querer viver, menina!
Você está se entregando à desistência com muita facilidade.
- Nair, eu gosto muito de você e tenho certeza de que você estará ao meu lado todos esses dias, pois, como doente, vou precisar muito de seus serviços e, como alguém que lhe tem muito amor, vou precisar de sua mão amiga e de seu amor de mãe.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:35 am

Notei que Nair estava ficando confusa e encabulada com minha franqueza, que desnudava seus sentimentos em relação a mim.
Então me calei, pois no íntimo sabia que seria ela que ficaria ao meu lado nos dias que viriam.
Fiquei a meditar.
Foi quando então, cansada fisicamente, me entreguei ao sono reparador, que se achegava de mansinho, impedindo minhas pálpebras de permanecerem abertas.
Já passavam alguns minutos do meio-dia quando acordei e perguntei as horas à Nair.
Como uma sede intensa tomava conta de mim, pedi a ela que me servisse um copo com água.
Em seguida, ela ofereceu-me o almoço, o qual recusei.
- É uma refeição leve, menina.
O doutor falou que você tem de se alimentar!
Sorri com a preocupação carinhosa de Nair, que, não se dando por vencida, falou:
- Se você se alimentar, eu prometo uma surpresa.
- O que é Nair? Conte-me!
São meus pais que estão chegando?
- Nada disso. Já telefonei para seus pais, e eles virão às três horas, no horário de visita.
Então, vamos comer?
O caldo que Nair me serviu carinhosamente me fortaleceu.
Enquanto me alimentava, ela satisfez a minha curiosidade:
- Tem alguém aí fora que não aguentou esperar o horário de visita.
Quando lhe telefonei avisando que você tinha acordado, dirigiu-se imediatamente para cá, e insiste em ser a primeira pessoa a vê-la.
Não foi fácil convencer o pessoal da portaria a deixá-la entrar.
- É Selminha!
Diga-me, Nair: é Selminha?
- É ela mesma, minha filha.
Termine de comer que vou chamá-la.
- Já chega, Nair.
Não quero mais. Estou satisfeita.
Você pode me arrumar um pouco para eu receber Selminha?
Nair foi até sua bolsa, retirou de lá um lenço e o colocou sobre a minha cabeça, fazendo com que eu esquecesse os problemas que a realidade do momento me impunham, atendendo a todos os quesitos que minha vaidade de adolescente exigia.
Finalmente a porta foi aberta e Selminha entrou no quarto.
Ela não conteve as lágrimas, que se misturavam a seu sorriso de felicidade.
Passados os primeiros instantes, quando já estávamos mais equilibradas, Nair nos falou:
- Vamos fazer um trato?
Vou sair um pouco, dar uma volta e depois ficar na sala de espera ao lado.
Enquanto isso vocês ficam à vontade para conversar.
Sofia, você não pode se levantar.
E Selminha não pode sair do quarto antes do horário de visita.
Concordamos com Nair, prometendo seguir à risca suas recomendações, e então ficamos a sós.
- Dói muito, Sofia?
- Agora não, Selminha.
Mas me diga: como estão todos lá no colégio?
- Estamos terminando as provas e logo estaremos de férias.
Dona Lucy nos falou que você fará suas provas assim que se recuperar.
Mas não se preocupe. Vou ajudá-la.
Como já fiz as provas, anotei as questões que considerei mais difíceis, e você poderá estudar mais sobre elas.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:35 am

Não terá problemas.
E não venha me falar que é cola, pois não é!
- Está bem, Selminha.
Talvez eu precise disso mesmo.
E sua mãe, seu pai? Estão bem?
Durante um tempo razoável ficamos ali, revivendo nossos momentos, até que resolvi contar para Selminha as minhas previsões para os próximos dias.
Para meu espanto, Selminha não se abalou.
Fiquei intrigada e perguntei:
- O que foi, Selminha.
Você não se assustou com a possibilidade de perder sua amiga?
- Não é isso, Sofia.
Mas você falou com tanta segurança que acabou me convencendo. Infelizmente!
- Como se eu não conhecesse minha melhor amiga.
Sei que daqui não sairei com vida, Selminha.
Também sei que tenho uma doença no cérebro que não tem cura.
Meus pais não sabem nem vão saber disso, espero.
- Se depender de mim, eles não saberão, Sofia.
Não vou mentir para você depois de tudo o que me falou.
Ontem, enquanto você estava sendo operada, eu estava aqui à espera de notícias.
Nair sabe, pois foi ela que me ajudou a entrar.
Ouvi dois médicos conversando no corredor próximo de onde eu estava.
Um deles era o Dr. Celso, que cuida de você.
Escutei quando eles comentaram sobre sua doença, portanto tive a noite toda para chorar e me convencer da ideia de que minha melhor amiga e irmã...
Selminha não conseguiu terminar, pois as lágrimas a impediram.
Eu a abracei na tentativa de acalmá-la, mas também não me contive.
Com muito esforço nos acalmamos, e então comentei:
- Vou lhe contar alguns sonhos que tive e você vai ficar abismada, minha amiga!
Passei então a relatar à Selminha, com toda riqueza de detalhes possível, meus sonhos e visões.
Falei sobre Mário, Nair, Brígida, srta. dona Menina, e não pude deixar de notar a palidez de Selminha quando lhe falei sobre dona Rosalinda, minha avó, mãe de meu pai.
- Por que o susto, Selminha?
- Não sei, Sofia, mas me assustou essa última história.
- O que você acha disso tudo, Selminha?
- Não sei, Sofia. É tudo tão espantoso.
Você não andou lendo alguns livros nesses dias?
- Como, Selminha, se eu estava em coma?
Tenho certeza de que muitas pessoas ficariam abismadas com essas histórias e falariam que é fruto da minha imaginação.
Mas como negar tudo isso, Selminha?
É tudo tão real!
Selminha se manteve calada, como se estivesse a ordenar seus pensamentos.
Voltei-me então para a cadeira de Mário, e lá estava ele a sorrir para mim.
Pensei em Nair e senti o amor dela por mim e o meu por ela.
Impossível: não havia como negar que tudo era real!
Os soluços de Selminha me levaram de volta à realidade:
- O que foi, Selminha?
- Se tudo for verdade, Sofia, você vai mesmo morrer!
- Creio que sim, minha amiga, creio que sim.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:35 am

Nós nos calamos.
Em silêncio, cada uma, perdida em suas recordações, sentia esvaírem-se todas as possibilidades de projectos e sonhos para o futuro.
Foi quando, talvez por sugestão de Mário, me veio a ideia de registar tudo em forma de um diário.
Selminha poderia me ajudar, e esse seria nosso último segredo.
Fiz a proposta a ela.
- O que você acha, Selminha?
- Eu aceito. Virei todos os dias.
Vai ficar lindo!
De forma natural, voltei-me em direcção ao local em que Mário se encontrava e falei:
- E você, Mário? O que acha?
"Óptima ideia, menina", respondeu-me em pensamento.
"Mas você tem de ficar atenta ao que vai escrever, pois suas palavras serão sua mensagem, e é preciso que as pessoas que tomarem conhecimento dela não recebam uma mensagem de dor e sofrimento, mas uma de esperança e fé."
Voltei-me alegremente para Selminha.
Só então me lembrei de que ela não conseguia ver Mário.
Percebi, pela palidez de seu rosto, que ela estava preste a desmaiar.
- O que foi, Selminha?
Você não está passando bem?
- Com quem você estava falando, Sofia?
Esclareci Selminha com detalhes sobre quem era Mário, mas ela se manteve arredia à ideia de conversar com uma "alma do outro mundo".
Compreendi seu receio; afinal, embora fôssemos duas adolescentes, eu já vivia a realidade de meu amanhã, enquanto Selminha...
No horário previsto para visita, mamãe e papai chegaram, completando minha felicidade naquele dia. Choraram muito.
Mamãe não concordava em me ver com o cabelo raspado e papai procurava consolá-la de todas as formas.
Às duas horas permitidas para visita foram maravilhosas, e foi nesse período que pedi a papai que me comprasse um caderno para as anotações, o que ele, juntamente com Selminha, providenciou rapidamente.
O porteiro ia de quarto em quarto avisando o término do horário de visita.
Foi quando comentei rapidamente com papai e mamãe o carinho e a dedicação de Nair para comigo durante aqueles dias.
- Ela não me é estranha, minha filha - comentou papai.
Quanto ao carinho e à atenção, pudemos notar isso, pois nos telefona todos os dias, pela manhã e à noite, dando notícias suas.
Oportunamente vamos convidá-la para um almoço, com todos nós lá em casa.
Todos se despediram, até Selminha, que me confidenciou no ouvido:
- Vou chegar cedo amanhã novamente.
Descobri que, se eu der a volta por trás do hospital, posso passar por uma porta que tem lá nos fundos e chegar ao refeitório dos funcionários.
De lá para cá é um pulo!
Sorri feliz, pois Selminha me fazia voltar aos meus dezasseis anos, afastando os pensamentos tristes, consequentes da dor do momento.
Nair, após me servir o jantar, recostou-se na cama ao lado e comentou:
- Vou dormir um pouco, pois já me habituei a cochilar neste horário.
Mas às dez horas estarei acordada para lhe dar a medicação.
- Está bem, Nair. Por favor, dê-me algumas folhas de papel e um lápis.
Vou escrever um pouco para desenferrujar as mãos!
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:35 am

- Tudo bem! Mas não se levante sozinha, menina.
Me promete isso?
- Eu prometo, Nair. Bom sono!
De posse das folhas de papel e do lápis, não sabia como iniciar meus escritos; foi quando Mário me sugeriu as primeiras frases; daí para frente, escrevi tudo o que me veio à mente, até que Nair levantou-se pontualmente, como previra, e me deu alguns medicamentos, comentando:
- As quatro horas tem outra dose.
Você ainda não se cansou de escrever, menina?
- Ainda não, Nair.
Vou lhe contar um segredo e preciso de sua compreensão, pois vou depender de sua ajuda.
- O que foi, menina?
- Estou escrevendo um diário e gostaria que você me ajudasse.
Não me peça para lê-lo e guarde-o para mim.
Só você e Selminha sabem disso.
Ela virá todos os dias para me ajudar a escrevê-lo.
- Pode contar comigo, menina.
Além do mais, estou muito velha para ler segredinhos de duas meninas como vocês!
Sorri, agradecendo à Nair pelo carinho, e continuei a escrever até altas horas, até que o sono tomou conta de mim, e o sonho não se fez esperar, trazendo-me mais uma história para ser registrada nestas páginas.
Lá estava eu de mãos dadas com Mário.
Eu era ainda uma criança e mal conseguia acompanhar seus passos, íamos viajar, e mamãe não parava de falar que iríamos conhecer meu tio César, que morava noutra cidade.
Eu chamava Mário de papai e Nair de mãe.
Acordei assustada: era Nair que se preparava para me medicar.
Depois de tomar os remédios, não consegui mais dormir.
Estava impressionada com o que sonhara.
Mário não estava por perto justamente naquele momento que eu precisava de esclarecimentos.
Os primeiros raios de sol certamente já estavam sendo exibidos pelo dia, que nascia naquela manhã quente.
Sabia-o pela brisa que chegava até mim depois de percorrer os corredores do hospital.
Nair se levantou e aproximando-se falou:
- Eu vi que você não dormiu depois que lhe dei os remédios às quatro horas.
O que foi, menina?
O que a está incomodando?
- Não foi nada, coisa de adolescente, Nair.
Não se preocupe.
Após o banho, que pude tomar naquela manhã ajudada por Nair, que me conduziu em uma cadeira de rodas até ao banheiro, fiz um lanche.
Quando pressenti que Nair estava livre para conversarmos, falei:
- Nair, como se chamava seu marido?
E vocês estavam viajando para onde quando aconteceu o acidente?
- Estávamos vindo para esta cidade, menina.
Meu marido queria se encontrar com o irmão que não via havia muitos anos, embora trocassem muita correspondência.
Ele nos trazia orgulhoso para nos apresentar ao único membro existente da família dele.
Já havia se comprometido com o irmão de visitá-lo outras vezes, porém nunca fora possível concretizar seu sonho, e naquele Natal ele estava certo de que conseguiria.
Porém, entrou a mão do destino e eles não se encontraram.
Resolvi me mudar para cá, na esperança de conhecer o irmão dele e quem sabe meus sobrinhos; assim eu teria novamente uma família.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:36 am

Infelizmente meu marido destruíra todas as cartas recebidas do irmão, alegando que elas pertenciam ao passado, ante a perspectiva de revê-lo, e eliminando assim para mim toda a possibilidade de conseguir seu endereço.
Mudei-me para cá há vinte e um anos e, por mais que tenha tentado, não consegui localizar meu cunhado.
Nair se calou.
Sua respiração entrecortada por curtos suspiros me indicava que ela se controlava para não entregar-se às lágrimas.
- Desculpe-me, Nair, por fazê-la reviver um passado tão triste.
- Que nada, minha menina.
Triste foi somente a perda de meus dois entes queridos naquela viagem frustrada, pois os anos anteriores foram alegres e felizes.
- Ainda bem, Nair, que você pensa assim e não esquece os bons momentos.
É isso que estou aprendendo a fazer com a ajuda de Deus, que agora é uma coisa bem concreta para mim!
Mas você não me disse o nome de seu marido, Nair. É segredo?
- Não é não, menina.
Ele se chamava Mário, e era muito bonito.
Um arrepio percorreu todo o meu corpo, e as reacções logo se fizeram notar, pois Nair comentou:
- Procure dormir um pouco, menina.
Está acordada desde as quatro horas.
É melhor descansar!
Assim que me refiz do susto, voltei-me para a cadeira em que Mário ficava e o encontrei sorrindo.
Ele levou o dedo indicador aos lábios, fazendo-me entender que deveria ficar calada.
Mas minhas descobertas naquele momento mexeram com meus sentimentos, e eu mal podia conter as lágrimas.
Nair, vendo meus olhos fechados, afastou-se, supondo que eu estava dormindo.
"Meu Deus", pensei.
"Então Mário foi meu pai e marido de Nair?!
Não era coincidência meu sentimento para com eles!
A atenção e o carinho deles para comigo tinham suas razões no passado, onde um dia seus corações me ofertaram carinho e amor.
E Brígida?
Lembro-me de minha mãe actual me perguntando onde tinha ouvido aquele nome que coloquei em minha boneca!
Jesus, não me desampare e me ajude a unir as contas dispersas do rosário de minha vida.
Ajude-me a compreender tudo isso."
Naquela manhã e nas seguintes Selminha foi me ver, mas a presença de minha amiga não me estimulava a escrever; eu o fazia somente depois que ela ia embora.
Sua presença me proporcionava momentos alegres e descontraídos.
Ela me contava as novidades de nossa rua e de nossos amigos.
No quarto dia após minha operação senti os primeiros sinais de que minha doença progredia.
Comecei a perder o controle de minhas pernas e as dores de cabeça começaram a voltar e rapidamente passaram a me incomodar.
Em princípio não comentei nada com Nair, mas na tarde do sexto dia eu mal podia abrir os olhos.
Foi quando ela percebeu que algo estava acontecendo e comunicou ao médico, que prescreveu uma medicação via soro, aliviando minhas dores.
Com o retorno do soro, meus movimentos ficaram ainda mais limitados.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:36 am

Pressenti que as coisas caminhavam para um fim.
Meu amigo Mário, sempre ao meu lado, comentou naquela manhã, após a visita do doutor:
"Minha menina, a vida segue seu curso e os dias, como instrumentos do tempo, cobram sua parcela de nossa vida.
É preciso começar a preparar todos para sua partida, Sofia.
Nossos superiores acham desnecessário estender seu prazo neste leito, por isso nos aconselham a dar liberdade ao pássaro o mais rápido possível".
"Mas eu preciso acabar meu diário."
"Compromissos mais importantes estão reservados para você, embora compreendamos a importância de seu livre-arbítrio."
"Mário, quero lhe fazer uma pergunta que está guardada em meu peito há vários dias.
Por que você não permitiu que eu contasse a Nair sobre sua presença?"
"Este não é o momento, minha querida.
Isso poderia perturbar seu coração, prejudicando o aprendizado ao qual você se submete.
No momento certo, tudo será revelado.
Agora procure descansar, pois vou levá-la a um passeio."
Em pouco tempo Mário me conduziu por extensos e floridos jardins, tendo à nossa frente um grande prédio pintado de azul-claro, quase branco.
Subimos uma escadaria que nos separou dos jardins.
Na porta do prédio, notei uma placa enorme com os dizeres:
"Vinde a mim todos vós que sofreis, pois serão consolados - Jesus".
"Onde estamos, Mário?"
"Poderíamos chamar de hospital, mas preferimos:
'Núcleo de recuperação e amparo Renascer'".
"Explique-me melhor, Mário."
"Aqui é uma casa de amparo e socorro àqueles que retornam de sua jornada na Terra depois de atravessar processos dolorosos como o que você está passando.
Considere aqui um hospital, em que os recém-chegados, naturalmente habilitados por seus méritos, recebem a ajuda de que precisam."
Minha atenção se voltou para uma jovem que aparentava ser da minha idade e era amparada por uma enfermeira.
Caminhava com dificuldade.
Ao passarem próximas a mim, pude acompanhar um trecho da conversa delas, enquanto caminhavam vagarosamente:
"Enfermeira", disse a jovem.
"Eu quero voltar para a casa.
Quando o doutor vai me dar alta?
Estou com saudade de meus pais.
O tratamento aqui não está valendo para nada.
Eu não melhoro!"
Voltei-me para Mário e perguntei:
"Mas você não me falou que este é um hospital onde é amparado aquele que já deixou de existir na Terra?"
"Sim, menina, mas muitos ainda não sabem disso ou se recusam a aceitar a verdade, e por aqui permanecem até que se conscientizem.
Vamos entrar!"
Mário conduziu-me pelas amplas enfermarias repletas, nas quais pude ver todo tipo de sofrimento.
Idosos e jovens, homens e mulheres, todos agarrados à possibilidade de ainda estarem na Terra, quando já não possuíam mais o corpo físico.
Chegamos a uma grande porta de onde partia uma estrada com pouco movimento de pessoas.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:36 am

Mário comentou:
"Pronto, menina.
Aquela era a porta de entrada.
Transpostas suas passagens, que são as enfermarias, chega-se até aqui, à saída.
Esse processo pode demorar horas, dias ou séculos, mas nem todos obrigatoriamente passam por aqui.
Tudo é uma questão de opção feita no íntimo de cada um."
Enquanto Mário falava, eu assimilava seu ensinamento, e no meu íntimo eu me propunha a superar a necessidade de passar por ali.
Deus me daria forças e eu venceria.
Estava certa disso!
"Vamos voltar, Mário.
Estou cansada e preciso pensar em tudo isso que aprendi aqui.
Voltemos."
Estranhamente na manhã do nono dia após minha operação, eu estava no meu quarto, que tinha uma ampla janela que me permitia ver o céu azul ou repleto de estrelas quando senti que minhas mãos obedeciam com dificuldade às ordens que eu lhes endereçava.
Chamei Nair e lhe comuniquei o facto.
Doutor Celso logo chegou e, tentando me acalmar, falou:
- Isso é um processo normal, Sofia.
É uma consequência da medicação que você está usando.
Vai durar apenas alguns dias.
Depois vai se regularizar.
Mas no meu íntimo eu sabia que ele estava escondendo a verdade, pois eu já o ouvira explicar para papai e mamãe, por ocasião de uma de suas visitas, que isso iria acontecer quando o mal de que eu era portadora estivesse destruindo todos os canais de comando de meu cérebro para meu corpo.
Apavorei-me.
Como iria continuar a escrever minhas lembranças?
Mário então sugeriu a colaboração de Selminha, que até o momento tinha dado sua participação lendo e discutindo comigo as frases, a pontuação etc.
Os recursos que me restavam para a comunicação certamente iriam extinguir-se, e então passei a ditar para que Selminha escrevesse, o que justifica a mudança de caligrafia no decorrer do meu diário.
Era o décimo segundo dia após minha operação e, mesmo estando de olhos abertos, não conseguia enxergar com nitidez.
Assustada, buscava refúgio nos conselhos de Mário:
"Sofia, minha filha, você conseguiu se manter até aqui com disciplina e fé em Deus.
Não fraqueje nos últimos quilómetros de seu destino.
Para prosseguir, busque a força e o consolo na prece".
Enquanto Mário falava comigo, adormeci sob a acção magnética de sua mão sobre a minha cabeça.
Estávamos de volta à praça, e ele me guiava pela mão!
"Quero que conheça algumas pessoas, Sofia!"
Nós nos aproximamos de um grupo de jovens: três moças e dois rapazes. Uma da moças se adiantou:
"Mário, querido amigo. Há quanto tempo não aparece!"
"Hoje faz três dias que nos encontramos, Marly!"
"Uma fracção de segundo longe dos afectos queridos significa uma eternidade, Mário", respondeu a moça.
"Fico lisonjeado, Marly.
Quero lhe apresentar Sofia, uma grande amiga.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:36 am

Em parte de meu passado desfrutei a oportunidade de tê-la como filha, e no momento ela passa por uma fase de transição."
"Seja bem-vinda, Sofia!"
Diante de minha hesitação, Mário dirigiu-se a Marly:
"Sofia está em processo final de libertação, ainda temerosa e insegura.
Temos buscado auxiliá-la nesta fase, e, pensando nisso, a trouxemos até você, Marly.
Achamos que sua experiência poderá ajudá-la bastante".
"Aprendemos que o mal não deve ser comentado", começou a falar Marly.
"Mas posso adiantar-lhe, Sofia, que não existe efeito sem causa, e Deus nos poupa de muitas andanças pelo nosso passado para não revivermos nossos erros novamente.
Aqueles que desfrutam dessa oportunidade podem se considerar agraciados, porém conheço poucos que tiveram esse privilégio.
Não sei qual a sua dor no momento, mas terminei meus dias na enfermaria de um hospital, sozinha e longe do carinho dos meus parentes.
Foram muitos os meus erros, e entre eles está o de abandonar a segurança de meu lar e o carinho de meus pais.
Queria ser livre, não dar satisfação a ninguém, viver minha própria vida, mas, como um filhote que sai do ninho antes de saber usar suas asas, meu prazo ficou limitado a poucos meses.
A sífilis me conduziu à enfermaria de um hospital.
Envergonhada, não fiz contacto com meus pais e passei meus últimos dias na Terra entre a revolta e a dor, sozinha, sem a mão de um amigo ou a protecção de um familiar querido.
Como se não bastasse, abandonei meu corpo físico sob intensa revolta; quando despertei deste lado da vida, estava em um local bem diferente desta praça maravilhosa.
Era um local em que doentes e mutilados fugiam de sua consciência buscando abrigo nas sombras abundantes1.
Foram doze meses de muito sofrimento.
A palavra 'irresponsável' tornou-se uma amiga inseparável, povoando noite e dia meus pensamentos."
Marly parou por alguns instantes e enxugou uma lágrima que insistia em cair.
Com um sorriso tímido, nos fitou e prosseguiu:
"As longas noites de luta com minha consciência por fim foram vencidas quando me lembrei de Deus.
Caindo de joelhos, implorei Sua protecção e Seu perdão, e assim fiquei até que a névoa se dissipasse, me permitindo a visão de uma porta pela qual passei para receber o amor e o carinho de amigos e irmãos como Mário.
Essa estrada foi opção minha, Sofia, pois a revolta me impedia de ver Deus como minha esperança e abrigo.
Mas para quando está previsto o seu retorno?
Quem sabe você se torne uma das nossas!
Somos um grupo de amigos com o objectivo de amparar jovens que aqui chegam ainda presos à incompreensão e à revolta".
Ficamos conversando por algum tempo.
Mário afastou-se, nos deixando a sós, e só então lhe perguntei:
"E seus pais, Marly?
Como reagiram à sua partida?"
"Meus pais!
Como os tenho feito sofrer, Sofia!
Eles ainda não sabem.
O amor que eles têm por mim os impede de aceitar os acontecimentos.
Ainda não sabem de nada.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 9:36 am

Acham que fui raptada, e até hoje alimentam a esperança do meu retorno.
E os seus pais?
Como se comportam diante da possibilidade do seu afastamento do círculo familiar na Terra?"
"Acredito que estejam cientes da iminente separação, mas nunca aceitarão tal fato sem revolta ou lágrimas."
"Quase sempre é assim, Sofia.
Nossos familiares têm dificuldade em entender a situação!
Digo isso pelas situações que já presenciei.
Muitas vezes, as lágrimas e a revolta dos que ficaram repercutem no equilíbrio e na recuperação daqueles que retornaram.
Mas tenho notado que a religião ajuda muito aqueles que a praticam.
Seus pais seguem alguma?", quis saber Marly.
"Íamos à missa todos os domingos e seguíamos as orientações da Igreja."
"Já é um começo, Sofia.
Mas bom seria se eles ouvissem alguns conceitos sobre a vida após a morte, sem os rigores do Inferno ou a angelitude do Céu."
"Mas, Marly, acho que o problema maior sou eu.
Não consigo aceitar o facto de encerrar minha vida na Terra tão jovem.
Em momentos como este ou estando ao lado de Mário, tenho forças, mas, quando estou sozinha, não consigo manter-me estruturada."
"Veja ali meus amigos e amigas.
Nenhum deles retornou para cá depois de completar a sua idade.
Todos vieram antes disso!
O mais importante, Sofia, é estarmos confiantes em Deus, pois outras vezes teremos de voltar à Terra em um novo corpo, uma vez que lá é a escola onde adquirimos conhecimentos e a arena de nossas lutas na reconciliação com nosso passado."
"Estou ciente de tudo isso, Marly."
"Então não vejo problema algum.
Você está apenas ansiosa na expectativa do inevitável para todos nós."
"É mais ou menos isso, Marly."
"Lembre-se de seu tempo de colégio, Sofia.
É como o primeiro dia:
não conhecemos ninguém e estamos sozinhos, pois papai e mamãe nos levaram apenas até a porta."
Mário aproximou-se e Marly lhe dirigiu a palavra:
"Irmão Mário, Sofia tem um grande coração e conseguirá vencer com facilidade as dificuldades que ela supõe existir.
Se Deus nos permitir, estaremos entre aqueles que irão recebê-la deste lado da vida".
"Temos certeza, Marly, de que você não poupará esforços para isso.
Mas agora temos de ir.
Compromissos ainda existem para Sofia no orbe terrestre."
Uma música suave enchia o ambiente, e Marly voltou a se dirigir a Mário:
"São nove horas pelo relógio da Terra.
Neste horário fazemos nossa prece em sintonia com os corações queridos que nos auxiliam e nos amparam, buscando na oração a comunhão com Deus.
Nossa colónia, Sofia, é perto daqui.
Oportunamente nós a levaremos lá.
É um lugar lindo e maravilhoso, no qual a mão de Deus não poupou esforços".
Marly nos convidou a participar da prece e aceitamos.
Ainda com dificuldade para compreender tudo o que se passava, segui junto com Mário até o grupo de amigos que havia se instalado sobre a grama macia, formando um círculo do qual passamos a fazer parte.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:30 am

Notei então que muitos outros grupos se formaram com o mesmo objectivo, e, ao som harmonioso da música que parecia sair das plantas e das flores em nossa volta, Mário foi convidado a fazer a prece em nome do grupo.
Uma paz indescritível tomou conta de mim, quando minha fé em Deus tornou-se quase palpável.
Envergonhada, compreendi que eu era apenas mais um de Seus filhos e que outros existiam com suas lutas e dificuldades nos dois planos da vida.
Quanto tempo durou eu não posso afirmar, mas me lembrei de meus pais, de Nair e de Selminha como personagens de meu passado, mas habitando meu coração.
Encerrado o momento de prece, os grupos voltaram às suas actividades normais.
Mário abraçou Marly e os companheiros.
Nós fizemos o mesmo. Marly comentou:
"Sofia, Mário me confidenciou que você está registando tudo em um diário para ser lido após seu retorno para cá.
Quem sabe você poderia me auxiliar?
Preciso de ajuda para que meus pais tomem conhecimento de minha partida.
Já obtive autorização de nossos instrutores para isso.
Vivendo meus progenitores na mesma cidade que os seus, quem sabe consigamos isso por meio de seus escritos?"
Indecisa e lisonjeada com a tarefa, não consegui responder, mas Mário falou por mim:
"Creio que Sofia não poupará esforços para favorecê-la, Marly, já que o canal aberto por ela pode ser utilizado por todos.
Aguardamos sua visita com mais detalhes, mas agora é necessário que partamos".
Voltando-se para mim, Mário falou:
"Selminha já está impaciente e pronta para acordá-la, Sofia.
Ela já a espera há um bom tempo e só não a acordou graças à intervenção de companheiros nossos que permanecem junto ao seu corpo".
Rapidamente estávamos de volta ao meu quarto.
Lembrei-me de meus problemas, mas de uma forma bem mais tranquila e confiante:
"Vou começar ainda hoje a preparar todos para minha partida.
Será melhor assim.
Minha morte é inevitável mesmo!"
Pude notar quando Selminha começou a sussurrar junto a meus ouvidos:
- Sofia. Oh, Sofia.
Acorde que já está na hora.
Pare de se fingir de morta, senão eu vou embora.
Não pude conter o sorriso e abri os olhos.
Selminha assustada falou:
- Ah, Sofia. Não precisa me assustar!
Estou aqui esperando você acordar há muito tempo.
Enquanto Selminha me colocava a par das novidades, eu me esforçava para distinguir detalhes de seus traços, mas meus olhos nada me mostravam.
Tomei a decisão de nada comentar para não preocupar mais ninguém.
Em certo momento, Selminha me perguntou:
- E então, Sofia?
Teve algum sonho hoje para a gente colocar no diário?
- Tive, sim, Selminha.
Mas, enquanto eu lhe conto, vê se não chora.
Combinado?
- Ah, não sei, Sofia! Você só me conta coisa triste!
Relatei para Selminha a história de Marly e, enquanto a escrevia, ela comentou com espanto:
- Meu Deus! Ontem foi uma freguesa de mamãe lá em casa experimentar um vestido e contou um caso parecido com o dessa moça.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:30 am

Mas não me lembro de ela ter falado o nome das pessoas envolvidas.
Ai, Sofia, que medo!
E se for o mesmo nome?
Eu morro primeiro que você, Sofia, e de medo!
Sorri perante o temor de Selminha.
Pude constatar pelas suas palavras a distância já existente entre nós duas.
E, para assustá-la ainda mais, perguntei:
- E quando eu morrer, Selminha?
Você vai ter medo de mim também?
- De você não, Sofia. Eu a conheço.
Continuamos a fazer as anotações no diário e depois prosseguimos em uma animada conversação.
Nair foi recolher a bandeja do almoço e comentou:
- Vocês podiam se recompor um pouco.
Partam dez minutos para o início das visitas.
Hoje é domingo. Vocês se esqueceram?
Nair e Selminha arrumaram o quarto e logo papai e mamãe entraram me abraçando felizes.
- E então, menina?
O doutor já falou o dia de sua alta?
- Não, papai, ainda não.
Mas acho melhor vocês não alimentarem muita esperança, não!
- Que é isso, minha filha?
Deus é grande e não vai deixar nada de ruim acontecer a você, não! - disse mamãe, esperançosa.
- O problema, mamãe, é que a vida vista sob outro prisma tem outro significado, e nós, na maioria das vezes, quando pedimos ajuda a Deus, pensamos somente na vida do corpo físico.
Nas Leis de Deus, tudo é perfeito.
Veja a senhora que até a fruta lançada no chão pela acção do vento obedece Suas leis, quando deita na Terra suas sementes e estas originam novas árvores, produzindo mais frutos.
Os filhos são como o fruto das árvores: quando são retirados da protecção e do convívio dos pais, é para que possam se transformar em nova fonte de vida.
- Nossa, minha filha, que palavreado estranho!
Ninguém aqui vai morrer, não!
- Vai, sim, mamãe. Todos nós vamos.
Cada um em seu tempo certo!
Papai, pressentindo aonde eu pretendia chegar, insistiu para mudarmos de assunto.
Selminha chamou mamãe até a janela e então eu comentei:
- Papai, me conte alguma coisa de sua vida.
Nunca soube nada de sua família!
Papai não conseguiu esconder sua surpresa perante meu pedido e comentou:
- Por que isso agora, minha filha?
- Ora, papai, o pouco que sei é que vovó morreu quando o senhor ainda era criança, mas que, antes disso, ela tinha doado vocês, os filhos, com receio de contaminá-los com a doença de que era portadora.
- É essa a história, minha filha!
- Papai, seja bonzinho e me conte os detalhes.
E seu irmão, meu tio?
Ele morreu?
- Não sei, Sofia.
Creio que sim, pois nunca mais tive notícias dele!
Sempre foi assim: nós trocávamos muita correspondência.
Mas depois ele simplesmente sumiu.
Nossas cartas começaram a ser escritas quando ainda éramos meninos.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:30 am

Eu tinha doze ou treze anos, não me lembro bem.
Mas nunca conseguimos nos encontrar, pois, sempre que ele se comprometia a esse encontro, não comparecia.
- O senhor nunca mais teve notícias dele?
- Nunca mais, minha filha.
A última vez foi muito antes de você nascer.
Poucos dias antes do Natal, ele me escreveu confirmando sua vinda, mas não apareceu e não deu mais notícias.
Nessa época, conforme escreveu, já estava casado e com uma filhinha de dois anos, e afirmava estar ansioso para que eu a conhecesse.
Mas nem da criança nem da mãe tive notícias.
Como eu nunca soube o nome delas, ficou difícil qualquer contacto.
A essa altura da conversa, meu coração parecia querer sair pela boca.
Não podia ser coincidência!
Tinha de haver algo mais do que isso!
Olhei para Nair.
Ela estava acomodada em um canto do quarto com o pensamento distante, não prestando atenção em nossa conversa.
Voltei-me para papai, me enchi de coragem e perguntei:
- Papai, como era o nome de seu irmão, meu tio?
- Ele se chamava, ou ainda se chama, Mário.
Logo papai notou as duas lágrimas silenciosas, que não consegui conter, e carinhosamente as enxugou, comentando:
- Eu não queria conversar sobre isso para não deixá-la ainda mais triste, Sofia.
Olha só: você está chorando!
- Mas é de alegria, papai.
Estou feliz por ser quem sou e pela família que tenho.
Amo muito todos vocês, papai.
Não só você e mamãe, mas também nossa querida Nair, que tem sido uma mãe para mim.
Trate-a muito bem, papai.
Seu maior sonho está prestes a se realizar:
dentro em breve ela terá uma família.
Tenho certeza de que meu tio Mário não vive mais entre nós, por isso ele não fez mais contacto com o senhor.
Ore por ele, papai, e peça a Deus para ampará-lo, pois ele é uma pessoa muito boa, muito mais do que um irmão.
- Por que você está falando dessa forma, menina?
- Papai, o senhor é bem mais forte do que a mamãe.
Sejamos francos um com o outro:
sei que não me levantarei mais deste leito e que meus dias neste corpo estão contados.
Assim, gostaria que o senhor se voltasse mais para Deus, para que esteja bem forte quando chegar o meu momento de partir.
Papai, emocionado, chegou mais perto de mim, fazendo-me entender que mamãe não poderia me ouvir falando daquela forma, e comentou:
- Sofia, minha filha, tenho sofrido muito com esse pensamento e tenho também perguntado a Deus se é justo, caso isso venha a acontecer.
Mas é tão difícil receber Suas respostas!
- Nós sabemos o que vai acontecer, papai.
Vou lhe confidenciar um segredo.
Meu corpo está parando devagar.
As mãos, as pernas e agora as vistas não estão desempenhando mais suas funções.
É como uma chama que se extingue vagarosamente.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:30 am

Ao mesmo tempo, papai, vou me sentindo como um passarinho preso na gaiola, ansioso por voar.
Quanto a Deus ser justo, meu pai, não devemos duvidar disso, pois Ele é muito mais do que isso; além do mais, a vida continua, tanto para aqueles que partem como para aqueles que ficam.
E eu partirei feliz, pois estarei consciente de que minha doença teve um lado positivo para todos nós: uniu corações que estavam separados.
- Concordo com você em parte, minha filha.
Mas esperá-la formar-se no ventre de sua mãe, vê-la nascer, cuidar de você, vê-la crescer e alimentar mil sonhos para depois vê-la partir é muito difícil.
Muito difícil mesmo!
E, mesmo que exista vida após a morte, como afirma, você estará lá, e nós, aqui, portanto estaremos separados.
- Oh, papai.
Preciso tanto que o senhor compreenda isso!
Não se rebele contra Deus e contra a vida, meu pai.
A Terra é apenas uma escola; quando nos formamos, temos de ceder lugar a outros, o que vem a ser o meu caso.
- Você está falando igual à mãe de Selminha, que agora frequenta um centro espírita.
Agora não: já sei dessa história há cerca de quatro anos.
Será que ela andou colocando alguma coisa na sua cabeça?
- Papai, meu querido, na minha cabeça nada foi colocado, nem mesmo a doença que carrego, pois ela nasceu aqui.
Não vejo problema na mãe de Selminha estar frequentando um centro espírita.
O Espiritismo é uma religião como qualquer outra.
- Mas eles dizem que conversam com os mortos.
- Claro! Por que não?
E o senhor trate logo de começar a frequentar um, para podermos conversar depois que eu partir.
Papai não conseguiu esconder o sorriso ao ouvir minhas palavras em tom de brincadeira e continuou:
- Se sua mãe ouvisse nossa conversa, já estaria passando mal.
Ela já foi ao centro espírita duas vezes com a mãe de Selminha.
- Papai, prometa pensar em tudo o que lhe falei.
Minha partida é inevitável, mas, quando isso acontecer, o senhor compreenderá que tudo tinha uma razão de ser e que foi conforme o previsto por Deus.
Nunca se esqueça de Nair, papai.
Ela é muito especial para mim!
- Eu sei, minha filha.
Você sabia que ela tirou férias e permanece dia e noite junto de você?
Isso é um mistério para nós.
O Dr. Celso chegou a me perguntar se ela era da família, tamanha a dedicação com que cuida de você.
- E o senhor ainda me diz que Deus não é justo, papai!
Quantos doentes estão abandonados nos hospitais?
O que Nair está ganhando com tudo isso?
E Deus, papai. Ele interfere nos ajudando muitas vezes acima de nosso merecimento.
Por que o senhor não frequenta um centro espírita com a mamãe?
- Estou muito velho para isso, minha filha.
Acho que já passei da hora de ficar procurando religião!
- Papai, e se eu lhe pedir?
- Está bem, menina.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:30 am

Você não perdeu a mania de fazer chantagem com o seu pai.
Eu vou até lá hoje à noite com sua mãe e a de Selminha ouvir o que eles pregam.
- Obrigada, papai.
Tenho certeza de que o tio Mário também está feliz.
- O que é isso agora, menina?
De onde tirou isso, que seu tio está feliz?
O espanto de papai me fez rir e lhe respondi:
- São coisas de quem está com um pé de cada lado da vida, papai.
- Acho melhor a gente mudar de assunto.
Conte-me: como Selminha faz para entrar todos os dias pela manhã sem que ninguém a proíba?
- Nem lhe conto, papai.
É melhor o senhor não saber, senão vai brigar com ela.
Enquanto ela puder vir, ficarei muito satisfeita.
Papai se calou e, notando minha dificuldade para falar, atendeu à sugestão de Nair para que eu me calasse um pouco, pois, conforme ela, eu estava falando sem parar desde manhã com a chegada de Selminha.
- Está bem, Nair - respondi.
Dez minutos está bom?
- Já é alguma coisa, menina.
Sua garganta está pedindo isso.
Compreendi o que se passava e obedeci a Nair sem nada comentar.
Nesse instante, enquanto me mantinha recolhida conforme prometera, notei que tio Mário chegava acompanhado por duas moças.
Não contive minha alegria e me dirigi a ele, falando:
- Tio Mário, o senhor desapareceu!
Imagine só, o senhor é meu tio Mário!
Tio Mário, sorrindo como sempre, fez sinal para que eu me calasse, chamando minha atenção para as pessoas que estavam à minha volta no quarto.
Assustadas, elas olhavam para mim, pois, sem perceber, eu comentara em voz alta meus pensamentos.
Envergonhada, mantive meus olhos fechados como se estivesse dormindo.
Ouvi Nair falar para todos:
- É resultado da medicação.
Vocês não precisam se preocupar.
Ela provoca alucinações e muito sono.
Enquanto Nair falava, tio Mário e suas duas amigas, já conhecidas minhas, se aproximaram e me abraçaram afectuosamente.
Ele comentou:
"As duas estarão por perto nas próximas horas, Sofia.
Vieram para nos ajudar".
"Se vocês estão pensando que estou pronta, estão muito enganados.
Ainda falta eu terminar meu diário, tio Mário!"
Tio Mário sorriu, enquanto as duas se afastavam alegando outros compromissos imediatos, mas não sem antes justificar sua presença como uma simples visita de amigos.
Agora bastava eu fechar os olhos e logo me desprendia do corpo, talvez porque já estava mesmo me despedindo da querida Terra.
"Não seja tão dramática, minha sobrinha:
seja realista objectivando apenas o seu bem-estar.
E não explore a dor com outro objectivo que não seja o de aprender e evoluir."
"Estou tentando, tio Mário.
Estou tentando viver dessa maneira, mas sei que ainda tenho muito o que aprender sobre a Justiça Divina."
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:31 am

"A Justiça Divina se resume numa simples lição, Sofia: colhemos sempre o que plantamos.
Boa ou má, a colheita pertence sempre àquele que deitou as sementes no solo."
Tio Mário tinha razão. Eu estava errada.
Minha dor era maior do que a de alguns, mas bem menor do que a de muitos.
Isso eu já aprendera.
Envergonhada, mudei de assunto:
"Tio Mário, por que o senhor nunca conseguiu fazer com que papai soubesse o que lhe aconteceu?"
"Minha menina, acabamos de falar sobre direitos e deveres, plantio e colheita.
Muitas vezes me abracei a seu pai em prece na expectativa de fazê-lo compreender a situação em que eu me encontrava, mas nada além de lembranças adornadas pela saudade consegui estimular.
Então compreendi que para receber é preciso fazer jus e estar pronto para utilizar aquilo que recebemos como alavanca de nosso processo evolutivo.
Veja sua luta momentânea, Sofia.
Você a está transformando em instrumento para o nosso reencontro e esclarecimento."
"Como assim?"
"O que pensa em fazer com seu caderno de anotações?
Você registrou ali tudo o que se passou desde o momento de seu despertar aqui no hospital, bem como lembranças de momentos felizes de sua actual existência.
Além disso, identificou afectos do passado no presente e localizou desaparecidos, e vai aproximar aqueles que se amam com seus registos.
Isso seria possível sem sua dor do momento?
Torno a lhe perguntar:
o que pensa em fazer com seu caderno de anotações quando retornar ao nosso convívio?"
"Ainda não havia pensado nisso, tio Mário."
"Então, minha filha, se vai deixá-lo para que outros leiam, insisto para que não registe lágrimas de revolta.
Registe esperança. Não registe sofrimento.
Registe aprendizado.
Leve uma mensagem de fé e confiança em Deus àqueles que o lerem."
"Obrigada, tio Mário.
Vou pensar muito sobre isso!
Falta muito, tio Mário, para tudo se encerrar?"
"Não, minha filha, apenas o tempo necessário, conforme a determinação de Deus."
Calei-me pensativa.
Que destino daria a meu diário?
Tio Mário tinha razão:
minha doença estava servindo para unir muitas pessoas.
Sem falar em tudo o que estava aprendendo sobre a vida e Deus!
Voltei-me para Selminha e mamãe, que ainda conversavam junto à janela.
Mamãe dizia:
- Ela se chama dona Carmem e tem um grande coração, Selminha!
Sofreu muito com o desaparecimento da filha há oito anos, mas ainda alimenta esperanças de encontrá-la.
Convidei-a para vir aqui e fazer uma prece para Sofia, e ela virá ainda hoje.
Espero que César e Sofia não se importem.
O que você acha, Selminha?
- Sofia não vai se incomodar.
Ela mudou muito nos últimos dias.
Tem horas que não a reconheço, que ela fala coisas que nunca imaginei que entendesse.
Parece que ela está mais feliz do que quando corríamos pela rua!
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:31 am

- Notei mesmo, Selminha, que ela está muito mudada.
Está crescida e madura.
Porém está falando coisas estranhas.
O doutor nos disse que é reflexo das altas doses de remédio que ela está tomando.
- Não acredito que seja só isso, não.
Tem alguma coisa a mais, e com isso eu estou também ficando mais séria, mais compenetrada.
- Quando ela sarar, tudo vai voltar a ser como antes, Selminha!
- A senhora acredita mesmo nisso, dona Leda?
Sofia afirma que nunca mais vai se levantar e voltar para a casa, e fala com tanta convicção que já estou convencida disso!
- Não diga uma coisa dessas, Selminha.
Deixe de ser pessimista!
- Desculpe-me, mas não é pessimismo, não.
Sofia me convenceu disso.
Mamãe se deixou abater pelas palavras de Selminha e permitiu a luta de seus sonhos com a realidade do momento.
Abracei-me a ela em espírito, abri meu coração a Deus em prece - na esperança de lhe transmitir as verdades descobertas por mim, para que ela também sentisse a força da fé, que nos permite ter Deus a guiar nossos passos - e lhe sussurrei no ouvido:
"Mãezinha, estaremos eternamente unidas como estamos hoje.
Confie em Deus, mãezinha. Estou feliz.
Fico feliz só em saber quanto a senhora me ama.
A vida nos reserva, no amanhã, longos e felizes momentos, pois o amor que une a todos nos dá esse direito".
Mamãe, debruçada na janela, vertia grossas lágrimas, enquanto eu me unia a tio Mário em pensamento naquele momento tão sublime para buscarmos Deus em prece.
Fiquei abraçada à mamãe por minutos, que foram eternizados em nossas lembranças.
Nesse momento, à minha frente, passou um cortejo de crianças, todas cantando alegres canções que eu nunca tinha ouvido.
Tio Mário então me confidenciou:
"São amiguinhos que se encontram, Sofia.
Na ala infantil, um menino de cinco anos retornou ao convívio de seus amigos após passar um período na escolinha da Terra.
Veja como é difícil identificar quem é ele.
Estão todos tão felizes!"
O grupo de crianças desapareceu no horizonte, sempre guiado por responsáveis espirituais.
Foi quando pude notar entre eles as duas amigas e irmãs que estiveram a me visitar minutos antes.
Preocupada com mamãe, voltei-me para tio Mário e lhe falei:
"Tio Mário, como vou fazer para tranquilizar minha mãe?"
"Convide-a mentalmente para um passeio pelo hospital, Sofia, e a conduza pelos corredores.
Eu estarei esperando vocês. Não receie.
Proceda como se estivesse fisicamente ao lado dela."
Sem me permitir nenhuma pergunta, tio Mário se afastou, e fiz conforme ele me instruiu.
Para meu espanto, mamãe enxugou o rosto e, voltando-se para papai, falou:
- Vou dar uma volta por aí, sozinha, porque preciso pensar um pouco, César.
Assim que Sofia acordar, peça à Selminha para me chamar.
Conduzi mamãe como tio Mário me instruíra e caminhamos pelo extenso corredor, quando o vi acenar de uma das portas de acesso à parte central do hospital.
Lá existia um jardim com flores e uma pequena capela.
Tio Mário então, em pensamento, sugeriu à mamãe que caminhasse pela pequena praça e me falou:
"Sofia, deixe-a só.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:31 am

Pedi a colaboração de amigos que se prontificaram a me atender".
Observei quando um casal ainda jovem seguiu o mesmo trajecto de mamãe.
Estavam abraçados e pensativos.
Um espírito que exercia a função de amiga espiritual deles os seguia.
Ao passarem por mamãe, que chorava convulsivamente recostada em uma árvore, a jovem senhora não se conteve.
Sob a influência da amiga espiritual, ela se aproximou e falou:
- O que foi minha, senhora?
Por que tantas lágrimas?
Mamãe se levantou, descobriu os olhos e fitou o rosto também marcado pelas lágrimas da jovem senhora, comentando:
- Pelo que posso notar, você também estava chorando.
Será que sua dor é igual à minha?
A jovem senhora, sempre sob a influência da amiga espiritual, comentou alguma coisa com o companheiro, que se afastou em direcção a uma porta.
Ela se voltou para mamãe e falou:
- Vamos nos sentar aqui para conversar.
Meu irmão tem de resolver alguns assuntos ali na administração.
Podemos aproveitar esse tempo para nos conhecermos.
- Você tem algum parente internado aqui, minha jovem? - perguntou mamãe.
- No momento não, minha senhora. Mas já tive.
- Você é que é feliz.
Imagine você que minha filha de dezasseis anos está internada aqui e, pelo que já entendi, não há mais esperança.
Acho que vamos perdê-la.
Nesse momento o irmão da jovem senhora se aproximou e falou:
- Helena, preciso de você lá na administração.
Só você pode assinar os papéis!
- Eu já vou, Ricardo. Me aguarde lá.
Voltando-se para mamãe, ela comentou:
- É meu irmão.
Ele tem sido meu amparo nos momentos mais difíceis.
Se não fosse ele, não sei como conseguiria vencer toda luta pela qual eu tenho passado.
E, como o jovem voltou a solicitar sua presença, ela voltou-se para mamãe, deu-lhe um abraço e comentou:
- Agradeça a Deus, minha senhora, por ter podido ter sua filha por dezasseis anos.
Meu filho morreu esta manhã.
Ele tinha apenas cinco anos.
Não faz um ano eu enterrei meu marido vítima do mesmo mal.
Deus sabe o que faz.
Minha vida agora está em Suas mãos, pois presumo que também sou portadora da mesma doença que os vitimou.
A senhora notou que eu estava chorando, mas não era de revolta ou desespero:
era apenas a saudade antecipada que estava me incomodando.
Vá, minha senhora, fique ao lado de sua filha e aproveite o tempo que lhe resta.
O amanhã só a Deus pertence.
A jovem senhora deu um beijo carinhoso no rosto de mamãe e se afastou, deixando-a em choque.
Induzida por tio Mário, mamãe se dirigiu a uma pequena sala.
Lá chegando, constatou ser ali um pequeno necrotério.
O corpo de um menino de aproximadamente cinco anos estava colocado sobre a mesa com algumas flores a enfeitar-lhe.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:31 am

Mamãe, ainda mais assustada, voltou imediatamente para meu quarto e, após tomar um copo de água, se dirigiu a Nair:
- Dona Nair, sem querer entrei no necrotério.
Tem o corpo de um menino lá. Tão novo.
Que coisa mais triste de se ver!
- Ele morreu hoje cedo, dona Leda.
Estava internado há mais de trinta dias.
O pai dele morreu aqui também há quase um ano.
É um quadro triste, mas é a realidade e não temos como fugir dela!
- Para mim é muito difícil aceitar a morte.
Olho para minha Sofia e fico sem saber como reagiria se ela viesse a falecer.
- Temos de estar preparados para tudo nessa vida, dona Leda.
E só em Deus conseguimos forças para superar determinadas situações.
- Meu marido me contou o drama que a senhora viveu anos atrás.
Perder um familiar já é difícil.
Imagino perder o marido e a única filha!
Tenho uma conhecida, que por sinal virá visitar Sofia hoje, que também perdeu uma filha, isto é, perdeu em termos, pois a filha desapareceu e ela não sabe se foi raptada ou se está morta.
Ela é da religião espírita e dona de uma fé inquebrantável, por isso a convidei para vir visitar Sofia e fazer uma oração por ela.
Enquanto mamãe prosseguia seu diálogo com Nair, tio Mário se aproximou de mim e comentou:
"Ela irá superar, Sofia.
Lá no íntimo ela já está preparada.
Confiemos em Deus.
Espero que você agora esteja mais confiante, minha menina!"
"Oh, tio Mário! Foram tantas coisas nos últimos dias que já estou ficando sem forças e ansiosa para tudo terminar.
Tenho pedido a Deus que me perdoe e me ampare para que tudo termine bem."
Bateram à porta e Selminha correu para atender.
Ela voltou e dirigiu-se à mamãe:
- É para a senhora, dona Leda.
A convite de mamãe, uma senhora entrou no quarto e mamãe falou:
- Deixe-me apresentá-la a todos.
Esta é Sofia, que está descansando agora por recomendação médica.
Este é meu marido.
Enquanto mamãe fazia as apresentações, tio Mário chamou minha atenção para a porta de entrada.
Foi quando a sorridente Marly teve acesso ao quarto e nos abraçou:
"Fiz o que pediu, irmão Mário.
Trouxe os detalhes para Sofia me ajudar".
Voltando-se para mim, Marly falou:
"Sofia, esta é dona Carmem, minha mãe!"
A Justiça de Deus não mede esforços quando registra sua intervenção em nossa vida.
Ali estava a mãe de Marly, que tinha ido levar-me o benefício das vibrações fraternas de uma prece e receberia as respostas que esperava há tantos anos.
Fui despertada por Nair já quase no término do horário de visita:
- Sofia, minha filha, suas visitas já vão embora.
Converse um pouco com elas.
Abri os olhos e pedi desculpas a todos por deixá-los sem minha presença.
As mudanças eram muitas, e tinha dificuldade em me manter acordada.
Chamei por Nair e lhe confidenciei o que se passava.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 9:31 am

- Não se preocupe, menina.
E efeito do remédio. Acho bom você voltar a descansar enquanto tem vontade.
- Não, Nair. Quero ficar mais um pouco com meus pais.
- Você é quem sabe, menina.
Você é quem sabe!
Papai se aproximou de meu leito, acomodando-se em uma cadeira bem perto de mim.
- Papai, pense bem em tudo o que lhe falei e não deixe de cumprir o que o senhor prometeu.
- Eu o farei, minha filha. Prometo.
- Vou deixar Selminha com algumas incumbências e gostaria que o senhor a auxiliasse nas resoluções.
- Você está falando como se fosse viajar, Sofia.
Pare de pensar nessas coisas!
- Papai, é um mundo maravilhoso para onde todos vamos.
Tenho feito muitas incursões por lá nos últimos dias, e sempre em boa companhia.
- Acho melhor mudarmos de assunto, menina.
Não estou gostando nada dessa conversa.
- Oh, papai. O senhor é tão bom para mim!
Eu lhe agradeço por tudo!
Dona Rosalinda também agradece.
Ela está muito feliz.
- Sofia, já está na hora de irmos embora.
Amanhã estaremos de volta.
Fique com Deus, minha filha. Deus a abençoe!
- Seja paciente com mamãe.
Ela precisa de tempo para aceitar os factos.
Promete, papai?
- Prometo, Sofia. Agora fique com Deus.
Pude notar a dificuldade de papai em conter as lágrimas.
Com muita dificuldade, consegui levar minha mão até o seu rosto e enxugá-las.
Papai pegou minha mão, beijou-a e se afastou, permitindo que os outros se despedissem de mim.
Quando dona Carmem se aproximou, não me contive e falei:
- Deus lhe pague pela prece, dona Carmem.
Nossa querida Marly lhe pede a bênção e manda-lhe um beijo.
Dona Carmem, ao lado de mamãe, empalideceu, apoiando-se no ombro da amiga.
Mamãe, na tentativa de amenizar a situação, comentou:
- Não se assuste, dona Carmem.
Minha Sofia está sob efeito de medicamentos e tem algumas alucinações.
- Mamãe, a verdade é sempre a verdade.
Não importa como a vemos ou a acção que fazemos para modificá-la.
- Sofia, minha filha, Marly é a filha de dona Carmem que desapareceu há alguns anos.
- Eu sei, mamãe.
Ela é uma linda moça, com um grande coração.
Mamãe não entendeu nada.
Despediu-se rapidamente de mim e saiu abraçada a dona Carmem, seguida por papai.
Selminha então se aproximou e comentou:
- Não sei o que está se passando em sua cabeça, Sofia.
Foi outro sonho?
- Foi, Selminha.
E, como os outros, foi cheio de realidade e compromisso.
Mas é sempre possível notar a presença de Deus nesses sonhos.
- Então não vou embora.
Vou ficar mais um pouco para você me contar o sonho enquanto o escrevo em nosso diário.
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