O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 9:45 am

Isso se Nair deixar.
- Nair, me faça um favor:
preciso conversar um pouco mais com Selminha.
Você nos dá cobertura?
- Vou lá na portaria conversar um pouco com eles e evitar que venham conferir o quarto. Está bem assim?
- Sua presença não nos atrapalha, Nair.
Mas, se você acha que é melhor sair, tudo bem.
Nair saiu do quarto e Selminha apoiou-se no meu leito, fazendo-o de mesa para que pudesse escrever.
Enquanto ditava à Selminha todo o ocorrido, como vinha fazendo, notei que ela estava chorando:
- O que foi Selminha?
Por que as lágrimas?
- Não é nada, não, Sofia.
Mas alguma coisa me diz que estamos chegando ao último capítulo desta história.
- Esta é uma história sem fim, Selminha!
Ela tem: passado, presente e futuro, mas não tem fim.
Somos imortais, minha amiga.
Nossa alma é imortal e nosso amanhã está cheio de reencontros, como diz o tio Mário.
Tudo o que lhe ditei é a pura verdade, minha amiga.
As descobertas, os reencontros, nosso passado.
Tudo é verdade, Selminha!
Não é simplesmente uma história. É a nossa história!
- Eu acredito, Sofia, mas já sinto saudade de você e sei que você vai partir em breve.
- Selminha, tio Mário está ali naquela cadeira e comenta que o amanhã aqui na Terra certamente nos dará a grande oportunidade do reencontro.
- Muitas histórias foram contadas e registradas aqui no nosso diário, mas você reparou que eu não fui citada nem uma vez?
Não tive resposta para Selminha.
Realmente ela tinha razão.
Onde estava sua presença em minha vida?
Onde estava a fonte de nossa amizade?
Onde estava a origem dos sentimentos que nos aproximavam?
Tio Mário então me despertou para a realidade de sua presença com um simples raspar de garganta e eu lhe perguntei:
"Onde, tio Mário? Quando?"
"Bem, Sofia, primeiramente acalme Selminha e diga-lhe que tenho por ela grande apreço.
Laços profundos e sólidos nos unem.
Diga-lhe também que vamos conversar um pouco e que você, Sofia, será nossa intérprete.
É pouca coisa, minha menina!"
Realmente Selminha estava bastante assustada quando lhe transmiti as palavras de tio Mário, mas concordou em ouvir:
- Selminha, minha amiga e querida irmã do passado.
Muitos séculos registam nossa história de aprendizado na Terra, fortalecendo o carinho que nos une.
Dentro em pouco seu compromisso durante esta passagem de Sofia pela Terra estará encerrado, quando o amanhã reservará para as duas grandes possibilidades de reencontro.
Você se lembra do pai da srta. dona Menina?
O mercador de escravos para o qual a filha era a escrevente e cuidava de todas as anotações?
Hoje os papéis se inverteram: a filha dita e ele escreve.
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Ave sem Ninho

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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 9:45 am

Pai e filha no ontem retornaram como amigas do coração.
Deus lhe pague Selminha, e aceite o meu beijo de carinho.
Estávamos pasmas. Como podia ser?
Preferimos não pensar nos detalhes e nos abraçamos, solidificando ainda mais, nessa transfusão de sentimentos, os elos que nos uniam no presente.
Choramos muito, e então, após nos refazermos, Selminha me confidenciou sua preocupação com minha saúde:
- Você quase não consegue falar, Sofia!
Quando eu a abracei, você não conseguiu levantar os braços; dependeu da minha ajuda.
- Selminha, peça à sua mãe para deixar você passar a noite de hoje comigo!
Alegue que Nair está muito cansada e que você se ofereceu para me fazer companhia.
Tenho certeza de que ela vai deixar.
- Vou fazer isso, Sofia.
Estou de férias mesmo, portanto não existe empecilho!
Acho melhor então eu ir agora.
Assim você aproveita e descansa um pouco, para logo mais conversarmos muito.
Mas e Nair? Será que ela vai concordar?
- Deixe Nair por minha conta.
Quando sair, arranje um jeito de chamá-la.
Pode deixar que converso com ela.
- Está bem, Sofia, mas eu não posso passar pela portaria, não; já está fora do horário de visita.
- Então esqueça.
Antes de você sair, toque a campainha para mim.
Se não for Nair a atender, mandarei chamá-la.
Vá, Selminha.
Quanto mais cedo for, mais cedo voltará!
Tanto os pais de Selminha quanto Nair foram convencidos de que essa seria uma atitude benéfica para mim e concordaram.
Selminha chegou por volta das seis e meia da tarde, com tanta bagagem que parecia que ia viajar.
Já àquela hora um sentimento de adeus tomava conta de meu coração, deixando-me apática entre sentimentos de alegria e tristeza.
Minha respiração estava mais difícil e um torpor acompanhado por calafrios percorria-me todo o corpo em pequenos intervalos.
Perguntei à Selminha as horas e ela me respondeu:
- São onze e quinze, Sofia.
Você está dormindo desde a hora que cheguei e ainda não conversamos nada.
- Selminha, minha amiga.
Acho que conversaremos pouco hoje.
Algo me diz que estou de partida.
Vejo tantas luzes, tantas pessoas em meu derredor.
- Você ainda deve estar sonhando, Sofia.
Acho melhor você me contar esse sonho para que eu possa escrevê-lo.
- Vi uma grande estrada, Selminha, toda iluminada e florida, e no fim desta vi um ser muito iluminado.
Parecia ser Jesus.
Não aquele pregado na cruz, mas um Jesus diferente, com as mãos estendidas em minha direcção.
Ao longo dessa estrada, muitas pessoas me acenavam:
papai, mamãe, Nair, você, dona Lucy - nossa professora - , e dona Carmem.
Eram muitos, Selminha, e eu sabia que era uma despedida.
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Ave sem Ninho

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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 9:46 am

Enquanto isso, aquele Jesus diferente sorria e me dizia.
"Sofia, eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Venha, Sofia. O Senhor, meu Pai, a fará deitar em verdes campos sob Sua protecção!"
Aí eu acordei, Selminha.
Mas tenho certeza e convicção desse meu sonho.
- Que coisa linda, Sofia!
Se a morte for assim tão bonita, não tenho medo dela, não.
"Só mesmo Selminha com sua maneira simples de falar e ver as coisas para me fazer sorrir num momento desse", pensei.
"Sofia", falou tio Mário.
"A simplicidade de Selminha não descaracteriza a realidade do momento, mas exalta nossa fé em Deus.
Amanhã a vida continuará, como o rio que segue seu curso, e você verá as novas cores do sol, quando já despertará em nosso meio.
Você já iniciou sua caminhada na estrada que viu, e todos nós a aguardamos ansiosos."
As palavras de meu tio não me causaram nenhuma surpresa ou espanto, e no meu íntimo pedi a Deus forças para vencer meus últimos momentos junto àquele corpo doente.
Vamos, Sofia. Conte-me mais!
- Minha amiga, nada mais tenho a contar de meu sonho, mas vejo muitas luzes, ouço muitas vozes e sinto uma paz muito grande.
- Acho que vou acordar Nair, Sofia.
Você está tão esquisita!
- Não faça isso, Selminha.
Deixe Nair descansar um pouco mais!
Conforme disse tio Mário, a vida vai continuar, e então amanhã eu já terei passado por ela, farei parte do ontem!
"Sofia", tranquilizava-me tio Mário.
"Os dias passam obedecendo ao calendário do tempo, mas a vida continua e você não será parte do ontem como afirma.
Não se esqueça de que seu corpo é apenas a gaiola que aprisiona o pássaro, que sua alma é eterna como é o amor de Deus para connosco.
Não esmoreça, minha menina.
É apenas uma transição."
- Obrigada, tio Mário.
Que Jesus me perdoe por fraquejar!
- Sofia, eu não vim aqui para ficar de fora da conversa, não!
Com quem você está falando?
- Minha querida amiga.
Ficarei com você o máximo de tempo possível, mas vai chegar um momento em que, embora a chama da vida esteja alimentando meu corpo, eu já não poderei falar com você.
Prometa-me que irá ler nosso diário para as pessoas que vou lhe indicar, mas somente depois que eu partir, na noite de Natal.
Prometa que vai ser muito feliz, que vai casar e ter filhos.
É preciso que você tenha filhos para cumprir sua missão aqui na Terra.
Isso quem me afirmou foi o tio Mário!
Eu estarei sempre por perto, alimentando o amor que nos une há tanto tempo.
Marly acabou de chegar com muitos amigos.
Eles cantam hinos e sorriem.
- Pare de falar um pouco, Sofia.
Você está tão cansada!
- Não posso, Selminha.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 9:46 am

O relógio não pára e daqui a pouco já é dia vinte e dois.
Continue a escrever, minha amiga.
Mamãe, papai, vocês estarão se perguntando:
"Vai acabar assim? E a última página?"
A última página será escrita pelo futuro, quando a vida nos oferecer a oportunidade de estarmos juntos novamente.
Hoje já me faltam forças até mesmo para ditar à Selminha o que ela deve escrever.
A porta da gaiola já se abriu.
Custa-me conter a vontade de sair e alçar voo com toda a plenitude de minhas forças, obtida no amor de vocês e na protecção carinhosa de Deus, nosso Pai.
Há toda uma eternidade à minha frente, papai.
Mamãe, é a vida que nasce:
amigos, família, estudo, pessoas, lares, flores, sol e Deus.
É tudo o que me espera nessa mudança de lado.
Eu os amo muito. Sempre amarei.
Papai, mamãe, meu beijo de agradecimento por terem sido meus pais. Até breve!
- Sofia, acho que vou chamar Nair.
Não estou gostando nada disso.
Sua voz está quase sumindo!
- Não precisa, Selminha.
Tio Mário já está fazendo isso.
- O que foi, Selminha? - falou Nair preocupada.
Ela não está passando bem?
- Não sei, Nair, mas acho que minha amiga está morrendo.
- Nair, chegue mais perto.
Eu a amo muito - falei com muita dificuldade.
Só Deus para definir o amor que tenho por você.
Obrigada, muito obrigada, mamãe Nair, tia Nair.
- Fique calada, Sofia.
Seu pulso está muito fraco.
Toque a campainha, Selminha.
Precisamos de um médico!
- Que horas são, Selminha?
- Meia noite e vinte, Sofia.
Mas isso é momento de se preocupar com as horas, minha amiga?
- É difícil ficar perto de você sem sorrir, minha amiga.
Você não ouve as vozes?
Não pare de escrever.
- Eu não ouço nada, Sofia.
- Fique quieta, menina.
Vamos transferi-la para o balão de oxigénio.
Aguenta firme, minha menina.
Não nos deixe ainda.
- Não posso.
A porta da gaiola já está aberta e o pássaro não resiste mais.
Oh, meu Deus, quanta paz!
Selminha, minha amiga, então está combinado para a noite de Natal.
Nós nos encontraremos lá em casa.
Peça a ajuda de papai e reúna todos.
Vou dormir, Nair, Selminha.
- Que Jesus a ampare!
Vamos rezar, Selminha.
Este pássaro não cantará mais preso na gaiola.
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Re: O Diário de Sofia - Alceu Costa Filho

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 9:47 am

Palavras de Nina

Sofia desencarnou às primeiras horas do dia vinte e dois de novembro de 1962, tempos depois de se despedir de Nair e ditar para Selminha suas últimas vontades, entre elas a de que o diário fosse lido por esta, página por página, na noite de Natal daquele ano, quando presentes no plano físico estariam seus pais, Nair, duas colegas do colégio, dona Lucy, sua professora, e quatro espíritas, entre eles os pais de Marly.
No plano espiritual estariam Mário, Sofia, Marly, alguns amigos e naturalmente esta que vos escreve, unida a todos pelos laços fraternos do amor de Jesus, que nos une como uma grande família, cuja origem está encoberta pela poeira dos séculos.
O diário de Sofia foi lido por Selminha na noite de Natal de 1962.
Uma noite memorável e inesquecível para todos nós!
No ano seguinte à sua leitura, este se perdeu em um desastre ecológico em que o lar de seus familiares foi envolvido.
Hoje, com a permissão de sua protagonista principal, trinta e nove anos após terem se passado os factos que relatamos aqui e no ano em que nossa querida Sofia completa quinze anos de seu retorno à Terra, fomos convidadas por nosso querido irmão Mário para ajudá-lo a reconstituir este diário e trazê-lo a público, tendo por objectivo estimular o coração de vocês no amor a Deus e na fidelidade a Seus princípios, bem como no perdão, que nos conduz à realização do amor com Jesus!
De todos os citados, somente Nair já desencarnou, retornou ao nosso plano e exerce actividades espirituais em colónia próxima à nossa querida e saudosa "Campos", no interior do Estado do Rio de Janeiro.
Os demais, cujo nome original foi preservado, ainda permanecem na escola da Terra em tarefas de aprendizado com Jesus.
Com todo nosso amor, ontem, hoje e sempre, sua irmã em Cristo.
Ao terminar a leitura deste livro, provavelmente você tenha ficado com algumas dúvidas e perguntas a fazer, o que é um bom sinal.
Sinal de que está em busca de explicações para a vida.
Todas as respostas que você precisa estão nas Obras Básicas de Allan Kardec.
Se você gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhecê-lo também?
Poderia comentá-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a alguém que talvez esteja precisando ou até mesmo emprestar àquele que não tem condições de comprá-lo.
O importante é a divulgação da boa leitura, principalmente a literatura espírita.
Entre nessa corrente!

1 Os espíritos de ordem elevada apresentam um corpo perispiritual mais subtil.
Para se fazerem visíveis entre nós, utilizam-se de fluidos densos, extraídos do ambiente terrestre, modificando, provisoriamente, a condição do seu perispírito, dando a ele a forma que mais lhes convém. (Nota do Editor.)
2 Perispírito: Substância vaporosa sem imaterial, que serve de primeiro envoltório ao espírito e liga a alma Perispírito:
Substância vaporosa semi-imaterial, que serve de primeiro envoltório ao espírito e liga a alma ao corpo.
Nos encarnados, serve de intermediário entre o espírito e a matéria.
Nos espíritos libertos do corpo físico, constitui-se o seu corpo fluídico. (N. do E.)
3 Espécie de cadeirinha coberta, sustentada por dois longos varais e conduzida por dois animais ou dois homens, um colocado à frente e outro colocado atrás. (N. do E.)
4 Sombras abundantes: são locais denominados de Umbral:
ambiente trevoso e infeliz criado pela força do pensamento de milhares de criaturas em desajuste. (N. do E.)

§.§.§- Ave sem Ninho
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