Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:30 pm

ABADIA DOS BENEDITINOS
Wera Ivanovna Krijanovskaia

Conde J. W. Rochester (espirito)

ÍNDICE

CAPÍTULO I

A narrativa de Pater Sanctus

CAPITULO II
Relato de Hugo de Mauffen
(O Espirito de Hugo de Mauffen se recorda de 1242)

Narrativa de Lotário de Rabenau

Epílogo

CAPITULO I


A NARRATIVA de PATER SANCTUS

O corpo que me serve de invólucro para viver e lutar, neste ano de 1884, repousava calmamente; e ninguém, que assim o visse, suspeitaria nele mais que um homem adormecido.
Contudo, a verdade é que tenho desligado, em parte, os fios materiais que me prendem a esse corpo e o fazem funcionar.
Deixemo-lo, então, repousar e abastecer-se de força vital, enquanto com o perispírito me elevo na atmosfera transparente - pátria do espírito - que a retina humana não pode perceber.
Este espaço mais próximo da Terra se destina à actividade dos espíritos em relação com os encarnados; e só com o auxílio de seus amigos invisíveis pode a criatura terrena mergulhar nos segredos do passado, imemorial e nebuloso.
Assim eu, hoje S. M., vejo-me esta noite face a face com Rochester, que me diz:
- Queres tu, Pater Sanctus da Abadia dos Beneditinos, volver à era de 1242 e confiar-me algumas páginas desse tempo remoto, para que as transmita aos viventes da Terra?
Ouvindo aquele nome - personificação de criminoso passado - estremeci no meu perispírito; rasgou-se-me um como véu diante dos olhos e, tal como através de lanterna mágica, revi altaneira em seu rochedo, a velha abadia circundada de muralhas de ameias, com estreitas janelas góticas, longos corredores escuros, celas pequenas e vazias, mas, sem embargo, fervilhantes de pensamentos criminosos.
Depois, em desfile de tela animada, o jardim, o refeitório, etc.
Um arrepio sacudiu-me o corpo espiritual e vi, também, as masmorras e alçapões que ali se abriram para tantos infelizes.
E aquele monge de hábito negro e traços acentuados era eu mesmo, Pater Sanctus, que passava humilde, cabisbaixo, olhos semicerrados e lábios em prece, a maquinar um crime!
Acolá, no fim do corredor, a biblioteca com os seus tesouros:
estantes pejadas de massudos volumes, encadernações preciosas e poeirentos manuscritos; a secretária alta em que trabalhava, noites inteiras, à luz de mortiça lamparina.
Aí apresentou-se-me, também, aquele que muitas vezes compartilhava da minha tarefa e de quem me fizera amigo e braço direito nos planos tenebrosos.
Só à pronúncia do nome Pater Sanctus, desdobravam-se cenas e mais cenas ante meus olhos, parecendo-me que ainda apertava a mão daquele esguio e pálido monge de olhar impenetrável e profundo, e que, só pela cruz de ouro pendente do pescoço, se distinguia dos quinhentos irmãos que o rodeavam.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:32 pm

Ele era o mais calado, o mais discreto de todos.
Nunca se aborrecia abertamente; dir-se-ia que apenas se movia e vegetava...
E, no entanto, prior do convento, era ele quem sustinha e desdobrava com mão de ferro toda a malha de intrigas e crimes que se agitavam fora da comunidade.
Rochester também se transfigurou a meus olhos, e o Conde de Rabenau, um dos atores principais desse antigo drama, se me deu a conhecer.
Esmagado, então, pelas recordações, curvei a fronte e consenti em ditar esta minha confissão de culpa.
Quando comecei a sentir que era gente, ao tempo em que inicio esta narrativa, ou seja, em princípios do século XIII, não passava de um menino de 4 a 5 anos, ignorando quem fossem meus pais e onde nascera. Morava no torreão de um velho castelo em ruínas, sob a guarda de um soldado veterano e de sua mulher, que muito me estimavam, mas não eram meus pais.
A parte ainda habitável do imponente edifício conservava-se rigorosamente fechada, e tudo quanto dela sabia é que, no cofre do meu guardião, existia um molho de chaves daqueles compartimentos onde nunca eu entrara.
Minha existência transcorria descuidada, relativamente feliz, e nada me faltava; comia e brincava à vontade, ora trepando às árvores para colher frutos ou ninhos, ora correndo pelos jardins e varando os compartimentos da parte arruinada: o castelo de Rabenest.
Assim cheguei à idade de 12 anos.
Uma noite, reunidos para a ceia, junto do fogão em que ardia e crepitava uma chama clara, enquanto lá fora sibilava o vento e chovia a cântaros - lúgubre concerto a que se misturava o pio dos mochos aninhados na torre - ouvimos, de súbito, um tropel de cavalos que nos alarmou.
A seguir, vozes de alô, alô, ó da guarda!
Meu pai adoptivo tomou da parede um archote e saiu.
Acompanhei-o.
O vento forte apagou a luz, mas nós pudemos distinguir um grupo de cavaleiros.
Aproxima-te - disse a meu pai, em tom imperativo, o cavaleiro mais próximo - e mostrando-lhe o anel, acrescentou:
- em nome do conde de Rabenau, manda abrir o castelo.
Meu pai se inclinou humilde e reverente, dizendo:
- Inteiramente às ordens, dignai-vos seguir-me.
Correu a buscar o molho de chaves, ordenando ao cavalariço que tomasse conta dos cavalos.
Notei, então, que o grupo se compunha de seis pessoas, inclusive quatro homens de armas, todos de viseira baixa.
O homem que falara a meu pai era um tipo imponente, de olhar severo e altiva fronte.
O segundo mantinha-se cabisbaixo e pareceu-me que sobraçava alguma coisa sob o manto.
Os quatro homens da escolta acompanharam-nos a distância.
Tomei também o meu facho e ajudei a aclarar a estreita e tortuosa escada de acesso aos compartimentos ainda habitáveis, até que paramos diante de maciça porta. Entramos.
Era um salão grande como eu jamais vira.
Teto baixo, formado de enormes vigas e estreitas janelas, ou antes, seteiras, que mal coavam a luz do dia, ao centro, grande mesa escura de carvalho e cadeiras da mesma cor, de alto espaldar brasonado.
De frente, às janelas, sobressaía a grande chaminé da lareira.
Meus pais adoptivos, auxiliados pelo zagal, apressaram-se a tudo dispor e logo o escuro salão tomou aspecto mais hospitaleiro.
Acenderam os candelabros de prata, puseram lenha ao fogão, e já uma temperatura agradável se derramava no ambiente.
Dos seis personagens, apenas dois se haviam sentado.
Quando os dois cavaleiros levantaram a viseira, observei-os curioso:
o que me parecia ser o chefe, tinha um rosto insinuante, de uma palidez mate, mas não doentia, emoldurado por uma barba curta, sedosa e anelada.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:32 pm

Os grandes olhos negros, transpirando energia e autoridade, tinha um fulgor difícil de afrontar.
De súbito, reparando em mim, perguntou:
Quem és tu?
- Eu... eu... - respondi gaguejante, pois aquele homem não me inspirava confiança - eu?
E fiz menção de fugir.
-Sim, tu mesmo, meu sapinho - disse, agarrando-me pelo braço.
- Sou - gritei em tom já alterado pelo temor e a indignação que me causara o epíteto - sou Ângelo, filho adoptivo de pai Hilberto.
Ouvindo meu nome, o fidalgo estremeceu, largou-me o braço e, tomando um candelabro, aclarou-me o rosto, como se quisesse fitar-me bem.
Depois, cenho carregado, deixou escapar um ah! e prosseguiu:
- Olha, Bruno, vê se lhe descobres traços de alguém...
O outro ergueu a cabeça, encarou-me de olhos fatigados, estremeceu também e disse emocionado:
- É o retrato de Rosa...
- Cala-te - retrucou, deitando furtivo olhar aos quatro homens da comitiva.
Depois, inclinando-se para o companheiro, entraram a conversar baixinho.
Isso me levou a examiná-los e a concluir que o que me falara era um jovem de 22 anos, quando muito, enquanto o outro deveria ter mais de 40.
Muito pálido, lábios retraídos, dava impressão de amargura e tristeza.
Só, então, reparei que ele tinha ao colo uma menina de cinco ou seis anos, profundamente adormecida.
Seus cabelos louros, fartos e anelados, pareciam uma auréola, o que me deu a impressão de estar vendo um anjo.
Quando terminou a conversa, mandaram-me embora bruscamente.
Afastei-me, como que sonhando, e só dei por mim quando o casal de bons velhos me apareceu lá na torre.
Aí, enquanto concluíamos a modesta ceia, repentinamente interrompida, mãe Brígida contou que os dois cavaleiros tinham discutido calorosamente depois que ela foi acomodar a menina, muito dócil e encantadora, por sinal.
Fui dormir nervoso e só despertei no dia seguinte, sacudido por mãe Brígida, a gritar-me:
- Avia-te daí, meu palerminha, todo mundo está de pé e os hóspedes já vão longe.
- Como?
foram-se embora? - repeti desapontado.
Não todos; sossega.
E rindo-se:
- o fidalgo mais velho e a pequena ficam morando aqui.
Patusca ideia de gente rica, não é? - acrescentou alçando os ombros - morar nestas brenhas e num castelo em ruína!
Esta velha mansão de Rabenest só pode servir para os pobres da nossa laia, que se consideram felizes, desde que tenham um tecto para se abrigar e um pouco de pão que lhes engane a fome.
Alguns dias se passaram sem que tornasse a ver o fidalgo e a menina.
Nossa vida retomou o ritmo habitual.
A única alteração consistia no cuidadoso preparo das iguarias destinadas aos recém-vindos, a cargo de mãe Brígida, e no meu trabalho de transportar da adega as garrafas de vinho velho.
Mãe Brígida contava maravilhas de candura e beleza da mimosa Nelda, honrada com a tarefa de vesti-la e niná-la.
Um dia, aventurei-me até o jardim e lá se me deparou a menina assentada na relva, a brincar com as flores.
Vendo-me com um passarinho na mão, chamou-me e assentei-me a seu lado, para lhe mostrar a avezinha que acabara de apanhar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:32 pm

Nelda acariciou-lhe a cabecita com os dedinhos róseos e pediu-me que lha desse.
Consenti, de bom grado e ela ficou encantada.
- Vem dai, - disse, tomando-me a mão - vamos procurar papai; ele nos dará uns docinhos.
Mãos dadas, escadas acima, varamos pelo corredor, até que paramos diante de uma porta entreaberta.
Espreitando o interior, Nelda me fez entrar em uma sala cujo aspecto me impressionou:
aclarada por uma única janela, ali se deparava uma porção de livros espalhados pelos móveis e até no assoalho.
Junto da grande secretária, sentado, com a face apoiada nas mãos, o idoso fidalgo lia massudo alfarrábio.
- Pai! - gritou a pequena - veja que bonito passarinho, que me deu o menino!
Você não me dá um docinho para ele?
À voz da filha, o cavaleiro voltou-se e, dando comigo, corou; depois, ergueu-se e inclinando-se espalmou a mão nas minhas costas, enquanto eu lhe notava o semblante alterado e os olhos castanhos, de extrema doçura. - Toma lá e regala-te com o teu novo amiguinho...
Nelda não se fez rogada, encarrapitou-se numa pilha de livros e entramos a saborear os finos bombons cristalizados.
Depois, passou a mostrar-me os seus brinquedos e tudo quanto lhe parecia interessante.
- Que é que tem ali dentro? - perguntei, curioso, apontando os livros.
O cavaleiro, que passeava a longos passos, ouvindo a pergunta, deteve-se e assim me falou sorridente:
- Ali há muita coisa bela e útil.
Já sabes ler?
- Não! - respondi.
- E quererias aprender?
Conhecer outras línguas, saber o que se passa noutras terras, compreender porque há estrelas à noite, conhecer a virtude das plantas para manipular remédios, saber, em suma, o que os homens fizeram antes de nós, ou seja a história dos povos?
Eu estava mudo, o peito opresso, mas, enfim, desabafei:
- Oh! se quero... Sim! Saber algo mais que saltar muros e pilhar ninhos; compreender o que fazem as estrelas nos céus!
Meu entusiasmo desatou nos lábios do fidalgo um sorriso expressivo e o seguinte convite:
Neste caso, procura-me diariamente e tudo te ensinarei; mas, olha, a coisa não é fácil.
A partir daí, passava a maior parte do meu tempo junto do senhor Teobaldo, nome este que só mais tarde soube não ser legítimo.
Uma vez adquirido o sabor da leitura, passei a viver exclusivamente para os livros, neles estimando preciosos tesouros.
Desde que comecei a estudar, o tempo corria com a rapidez dos meteoros e eu me esforçava sem tréguas.
O mestre, competente e bondoso, alegrava-se com os progressos do discípulo.
Cedo familiarizado com o latim, logo me absorvi no estudo da Medicina e da Astronomia.
As horas de folga eram dedicadas a Nelda e a uma orfãzinha que o destino encaminhara ao castelo de Rabenest.
A esse tempo o filho único de meus pais adoptivos voltou ao lar, gravemente enfermo, em consequência de um ferimento sofrido em combate, pois era soldado.
Casado, longe dos pais, e porque também lhe falecesse a esposa, trouxera consigo a filhinha Gertrudes, robusta e linda criança, mais ou menos da idade de Nelda.
Semanas após, falecido o pai, ficou a menina Gerta ao cuidado dos avós.
O Sr. Teolbaldo houve por bem colocá-la junto de Nelda, para servi-la e distraí-la; Nelda, porém carinhosa e boa, via na órfã menos uma serva que uma companheira e amiguinha de infância, não obstante a disparidade de génios.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:32 pm

Viva, caprichosa e arrebatada, a pequena Gerta se afeiçoou a mim singularmente.
Eu tinha, de facto, absoluto império sobre aquela criatura tão impulsiva, a ponto de lhe acalmar, com um simples olhar, os frequentes acessos de cólera.
Mais de sete anos assim transcorreram, de vida pacífica, sem episódios dignos de menção.
Eu completara, então, meus 19 anos e muito havia adquirido em saber e boas maneiras, com a convivência do Sr. Teobaldo que - coisa estranha num homem de nobre estirpe - jamais saía do castelo e tampouco recebia visitas.
A esse tempo, a chegada imprevista de um hóspede proporcionou grande alegria ao solitário castelão.
O recém-vindo, homem de bela aparência, apenas se dava a conhecer pelo nome de Edgar; mas eu logo deduzi do seu porte altaneiro e maneiras elegantes, que se tratava de um homem de nobre linhagem.
Notei, também sua grande afeição ao Sr. Teobaldo, que era, suponho, seu compadre, ou parente.
Surpreendido com o desenvolvimento e atractivos de Nelda, no esplendor dos seus treze anos, o Sr. Edgar se propôs levar a jovem para companhia da avó a fim de - dizia - apresentá-la à sociedade e dar-lhe a remate indispensável às jovens da sua condição.
Nisso, como em tudo mais, sempre me abstive de intervir, mantendo-me discreto, até que um dia o Sr. Edgar entrou a conversar comigo e nossa palestra foi interessante para ambos, visto que, a partir desse dia, nos tornamos amigos inseparáveis.
Demorando-se no castelo mais de três meses, esse tempo foi mais que suficiente para cimentar entre nós uma amizade indestrutível.
Certa manhã, o Sr. Teobaldo me chamou ao gabinete e disse, apertando-me a mão:
Caro Ângelo, a sorte favorece-te; o amigo que apenas conheces pelo nome de Edgar é filho do Conde de Rouven, um dos fidalgos mais poderosos desta região.
Pois bem: ele quer levar-te consigo, angariar-te uma posição social e eu não posso nem devo deixar de aconselhar-te que o sigas.
Compreendi que era loucura recusar o convite e, um belo dia, retendo as lágrimas, deixei, em companhia de Edgar, o velho tecto que abrigara os sonhos mais calmos da minha existência.
Edgar chegara ao castelo de Rabenest escoltado apenas por alguns soldados veteranos; mas, à certa altura do caminho, esperava-o numeroso séquito de escudeiros e homens de armas - um cortejo realmente digno do herdeiro dos Rouven.
As variadas impressões de uma viagem primária, apagaram desde logo as penosas mágoas.
Quando o amigo me advertiu que estávamos para chegar, não pude afastar uma impaciente e vivaz curiosidade.
Deixamos a última estação de pouso, ao romper da aurora, e conversávamos a cavalo, um tanto à frente da escolta, quando, de uma curva da estrada, magnífica paisagem surgiu aos nossos olhos.
Era um vale de colinas arborizadas.
Sobre um rochedo maciço assomando as cercanias, o vasto e sombrio edifício!
- Vês? - disse apontando-o - aí tens uma jóia da nossa região - a Abadia de São Benedito.
É um pequeno ducado este rico mosteiro; quinhentos irmãos nele se abrigam, e em que condições!...
Ali, segregado do mundo, pairando acima de todas as fraquezas humanas, reside a santa comunidade.
Entretanto, o reverendo-prior tem mão de ferro, cujo peso se faz sentir por toda parte.
Levantei a cabeça e examinei com interesse a imponente construção cercada de muralhas, a elevar-se altaneira no seu granítico pedestal.
Mas, sem saber porquê, a visão daquele Convento me deu uma sensação de angústia e de tristeza, até então nunca sentida.
Batia-me o coração penosamente, como se a simples visão do negro edifício houvesse estendido espesso véu sobre os meus anos de mocidade feliz e descuidosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:32 pm

Edgar também baixara a cabeça, como que absorvido em tristes cismares.
E assim prosseguimos, silenciosos, nossa jornada.
Horas mais tarde, parávamos junto à ponte levadiça do castelo de Rouven, vasta fortaleza rodeada de fossos profundos e torreões maciços.
Quando Edgar se deu a conhecer, a ponte desceu e penetrei na mansão, acompanhando o jovem conde, que respondia displicente às atitudes respeitosas da criadagem.
Apeando no pátio de honra, um escudeiro logo anunciou a Edgar que seus pais estavam à mesa, pelo que subimos logo ao salão de jantar, algo parecido com o de Rabenest, embora mais rico e mais bem conservado.
Como estivéssemos em fins de outono, grande lume ardia no fogão e lançava revérberos avermelhados no madeiramento das paredes.
Ao centro da sala estava a mesa, de tamanho regular, ostentando preciosa baixela; assentados em torno, em cadeiras brasonadas, três comensais se deparavam:
uma senhora muito bem vestida, um homem maduro, de altivo e belo semblante, e um rapaz de doze anos mais ou menos.
- Seja bem-vindo, meu filho, - disse o castelão, erguendo-se e abraçando Edgar.
Depois, dando comigo, encarou-me com altivez e espanto.
Corei e, pela primeira vez na vida, experimentei a amargura de não possuir foros de nascença.
Edgar, porém, tinha-me tomado a mão.
- Pai, este rapaz é o meu amigo Ângelo, que deseja ficar ignorado, mas eu respondo pela sua nobreza.
- Basta - disse o Conde, estendendo-me a mão e convidando-me a sentar - continuemos nosso jantar.
Edgar beijou a mão da madrasta, abraçou o irmãozinho e assentou-se a meu lado.
Encetou, então, animada palestra, derivada para o campo da Astrologia, que muito interessava ao Conde Hildebrando de Rouven.
Muito versado, para não dizer profundo conhecedor do assunto, minha palestra encantou o fidalgo e me granjeou sua amizade.
- Felicito-vos, meu jovem amigo - disse, quando, terminado o repasto, nos reunimos em torno do fogão - sois um sábio como raros se encontram na vossa idade, sobretudo entre pessoas da vossa classe mas, dizei-me:
conheceis também as esgrimas de lança e de espada, a equitação etc.?
Pergunto, porque teremos aqui torneios, (sorriu) e eu suponho que desejareis brilhar perante o belo sexo, pela destreza e coragem, tanto quanto perante os homens sensatos, pela vossa inteligência e sabedoria. Corei, nada respondi.
A destreza das armas, apanágio da nobreza da época, faltava-me de todo.
Edgar interveio:
- Pai, bem vês que Ângelo tem levado uma vida de sábio,
antes que guerreiro, e está muito jovem para trocar uma por outra.
Sim, certamente - disse Hildebrando, sem demonstrar surpresa - mas essa falha involuntária é fácil de reparar; e para isso tem ele, desde já, as minhas equipagens ao seu dispor.
O velho Bertrand, sabeis, é um mestre de armas como poucos, e o nosso jovem amigo cedo aprenderá tudo que deve saber um cavaleiro.
Demais, havemos de empreender frequentes caçadas.
Tudo isso constitui benéfico exercício, reparador de energias, após as exaustivas elucubrações do espirito.
E, voltando-se para mim:
- Breve o teremos rijo de corpo e de alma...
Curvei-me, agradeci tanta bondade e, findo o jantar, Edgar acompanhou-me ao quarto de dormir.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:33 pm

Logo que ficamos a sós, desabafei:
- Olha que me estás fazendo passar por aquilo que não sou, e sinto-me confuso e envergonhado.
Não te incomodes, eu respondo pelo que houver; tu mesmo não sabes quem seja e bem pode suceder que em ti floresça o rebento de um tronco ilustre.
Coragem, meu Ângelo, verás que tudo acabará bem.
A partir desse dia, entrei num regime de vida activa e trepidante para compensar o sedentarismo estudioso de até então:
- caçava, montava a cavalo, esgrimia a lança e a espada, adquirindo bem depressa a destreza e o vigor necessários.
O velho Bertrand mostrava-se encantado com os meus progressos e chegava a felicitar-me, tanto quanto eu mesmo.
Às vezes, em noites de luar, subia com o conde à torre mais alta do castelo e entretinha-me a explicar-lhe as maravilhas do firmamento e suas relações com os destinos humanos.
Edgar, que jamais negligenciava um projecto concebido, ajeitou
em bons termos a madrasta, para acolher Nelda.
Enviando um portador ao castelo de Rabenest, dentro de sete meses, tínhamos Nelda em Rouven, acompanhada de Gertrudes.
Não direi da alegria do nosso reencontro, senão para notar que o ambiente doméstico muito se animou com a presença da jovem, que soube cativar todos os corações com a doçura do seu carácter e a vivacidade da sua inteligência.
Um dia, quando jantávamos, a trompa tocou anunciando visita.
O escudeiro acorreu a declarar que era o conde Lotário de Rabenau, acompanhado pelo filho.
Ouvindo pronunciar esse nome, estremeci.
Lotário era o dono do castelo de Rabenest e, logo que entrou, identifiquei o rosto pálido, os olhos negros e a expressão inquieta do jovem cavaleiro que acompanhara o senhor Teobaldo na memorável noite em que o vi pela primeira vez.
O senhor de Rabenau pouco havia mudado nos oito anos decorridos.
Aproximou-se, altivo e displicente, segurando a mão do filho, meninote de seus nove a dez anos, louro, olhos azuis, uma bonita criança, enfim.
Excepto D. Matilde, todos se ergueram para saudar o visitante.
Lotário beijou com galanteria a mão da castelã e apertou cordialmente a de Hildebrando.
- Trago-vos meu filho - disse - o meu herdeiro, ou seja o que de mais caro tenho no mundo; isto porque ainda não tiveste ensejo de o conhecer, pois este meu Kurt é tão débil e enfermiço que me força a retê-lo em casa.
Assim se exprimindo, o conde punha nos olhos e na voz uma nota indefinível de paternal ternura, ao passo que acarinhava com os dedos a sedosa e anelada cabeleira do menino.
- Ah! senhor Edgar - exclamou, estendendo a mão ao jovem conde - há muito que vos não vejo e eis que vos encontro homem feito e, seguramente, prestes a receber as esporas de cavaleiro.
Eu me sentia impressionado e inquieto.
Iria o conde revelar minha verdadeira condição?
Não obstante os anos decorridos, poderia, talvez, reconhecer-me...
Meu coração parou quando seu olhar me envolveu, como que analisando-me as feições.
Tal como da outra vez, singular inquietação se lhe manifestava nos olhos; e não foi sem custo que os desviou, quando Nelda interferiu, apresentando-me:
- Ângelo, o meu melhor amigo.
Mas o conde já se dominara.
- Perfeitamente - disse - e estendendo-me a mão:
lembro de já o ter visto e folgo de o encontrar aqui.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:33 pm

Antes da ceia, o conde de Rabenau aproveitou um instante em que ficamos a sós, para dizer-me com chispas de fogo no olhar:
- Elas por elas, meu rapaz; conheço o senhor Ângelo e endossarei a nobreza do seu berço; mas Deus o livre de lembrar-se de Rabenest, do seu hóspede solitário e do conde Rabenau, que lá passou uma noite...
Repito, portanto: silêncio, porque, "elas por elas."
Fiquei aparvalhado!
Sem o querer, via-me emaranhado em teia misteriosa e deveria guardar segredo de coisas cujo sentido me encontrava na dependência do conde de Rabenau; mas, ainda que assim não fosse, como e por que haveria de trair o Sr. Teobaldo, a quem tanto prezava?
Prevenido por Edgar, abstivera-me de qualquer insinuação ou referência ao solitário hóspede de Rabenest.
Nelda e Gertrudes também guardaram, a respeito, a maior reserva.
Durante a ceia, detive-me a observar o conde de Rabenau e, posto não me inspirasse simpatia, admirei-o e senti-me involuntariamente subjugado por singular fascínio.
Ele seria capaz de fazer lançar aos seus pés quantos lhe experimentassem o olhar ardente e dominador.
Naquele momento, parecia possuído de franca alegria, fisionomia entreaberta e iluminada por espiritual sorriso; palavra fácil, colorida, a evocar episódios imprevistos, originais e interessantes.
No dia seguinte, despediu-se e partiu com o filho, acompanhado por numerosa escolta.
Muitas semanas após, não me saía da mente a cena daquela noite e o perfil do singular personagem.
Nesta altura, vale mencionar alguns episódios e impressões, que produziram, no futuro, grandes acontecimentos e profundas alterações na minha vida, tanto quanto na de Edgar.
Vivendo na intimidade dos Rouven, de há muito percebera o profundo e mal contido ódio entre a madrasta e o enteado, ódio apenas superficialmente disfarçado por enganosas aparências.
Muitas vezes, quando a Sra. Matilde se julgava inobservada, eu lhe surpreendia os olhares implacáveis cravados no jovem conde; e este, por sua vez, não se referia à madrasta sem deixar de trair os mesmos sentimentos.
Para comigo a condessa demonstrava sempre a maior benevolência.
Eu podia, aliás, gabar-me de ser então um belo rapaz, alto, esbelto, possuidor de basta e negra cabeleira e de uns olhos cor de aço.
Não ignorava, tampouco, o valor de tais predicados, mas a verdade é que, dotado de temperamento frio, as mulheres pouco me interessavam.
Nelda, contudo, por seu carácter meigo e rara beleza, me avassalara o coração.
E esse amor era tanto mais intenso e vivo quanto me cumpria ocultá-lo cuidadosamente.
Antes de tudo, tinha-lhe admirado, como artista, o porte clássico, os grandes olhos cristalinos, o talhe esbelto e flexuoso, admiravelmente proporcionado.
Apesar de seu dezasseis anos completos, continuava a tratar-me como amigo de infância.
Assim, passávamos horas a fio, na mais doce intimidade, e subitamente, pouco a pouco, o amor se me infiltrou no coração.
Gertrudes, que continuava junto de Nelda no seu papel de amiga e serva, também ganhara corpo e se apresentava robusta morena, de olhos e cabelos negros, um tipo de sensual beleza, em tudo contrastante da loura e clara Nelda.
Também ela, a Gerta, se considerava minha amiga de infância e seus olhares de fogo me acompanhavam por toda parte, embora a subalternidade da sua condição lhe impusesse as maiores reservas.
Um dia, a sós com a dona do meu coração, entramos a falar do grande torneio em perspectiva e para o qual o duque reinante convidara a nobreza.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:33 pm

A família Rouven não podia deixar de comparecer.
Edgar havia-se armado cavaleiro um ano antes e desejava tomar parte nas justas, e Nelda deveria apresentar-se em público, pela primeira vez, no palanque da condessa Matilde.
À simples conjectura de que tantos homens iam ter ensejo de contemplar a criatura amada, negro ciúme se apossou de mim.
- Ah! Nelda - falei amargurado - antevejo o que se vai passar; você vai ver muitos cavaleiros formosos, que ficarão deslumbrados, apaixonados; depois se casará e, então, terá soado a hora de nossa separação. - Só casarei com o homem da minha predilecção - respondeu baixando a cabeça.
- Sem dúvida, retruquei; mas, o certo é que você vai ver e amar, talvez, algum dos nobres cavaleiros que lá se encontrarão.
- Já fiz minha escolha - balbuciou.
Sobressaltei-me; o coração queria arrombar o peito...
A quem poderia ela amar?
Edgar... talvez.
Ele era belo, Poderoso, sedutor.
As- ideias baralhavam-se-me no cérebro, estendi a mão e gaguejei emocionado:
- Quem será o venturoso eleito?
Diga-me como se chama, confie na minha amizade.
Intenso rubor lhe cobria as faces, mergulhou nos meus os seus olhos límpidos, e disse sorridente:
- E se fosses tu, Ângelo, não me quererias por castelã?
Parecia-me um sonho, abracei-a em transportes de louca alegria e trocamos juras de amor e de fidelidade eterna.
Hora de inebriante ventura, os momentos que me proporcionou foram os melhores de toda a minha vida; mas, foram também o toque de rebate para o despertar de minha alma prestes a se aniquilar no desespero. mesmo com o coração enceguecido, não previste que breve haverias de ter o ser abafado e comprimido entre as paredes de um claustro, para que tua raiva impotente procurasse uma válvula de escapamento a todos os crimes.
Desde esse dia, o universo pareceu não mais existir para mim.
Passei a viver num mundo fantástico, povoado de sonhos e de esperanças deliciosas.
Preocupado comigo, mal poderia atentar no ambiente que me cercava.
Mas sempre pude, enfim, notar que Gertrudes havia mudado extraordinariamente.
Muito pálida, calada, indiferente, como que se me esquivava.
Supondo se tratasse de qualquer íntimo desgosto, procurei tratá-la com maior ternura, uma vez que, ditoso qual me sentia, quisera que todos o fossem igualmente.
Na mesma noite do colóquio e confissão de Nelda, tudo revelei a Edgar, que me ouviu solícito, como sempre, e prometeu proteger-me caso fosse mister.
Confiou-me por sua vez as preocupações que começavam a lhe sombrear o futuro.
Também ele amava e era amado, mas as circunstâncias o impediam de proclamar a sua escolha.
O barão de Falkenstein pai de sua eleita, homem mau e irascível, alimentava velha inimizade à família Rouven, e o meu amigo previa perigoso rival na pessoa de um cavaleiro que nos visitava muito.
Esse rapaz chamava-se Ulrich de Waldeck e era sobrinho da condessa Matilde.
Se bem que muito rico, era odiado em toda a região, por sua cupidez, orgulho e desregrada conduta.
No físico, tão repelente quanto na alma; corpulento, mal proporcionado, um rosto sempre coberto de espinhas, cabelos ruivos.
Claro que não podia deixar de odiar a Edgar, despeitado com a bela aparência do meu nobre amigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:33 pm

Só muito tarde pude conhecer, em toda a extensão, as intrigas de que esse homem foi instrumento.
Com o ardor da sua paixão, Edgar me descrevia a rara beleza e a inteligência da sua adorada Maria, acabando por exibir várias composições poéticas da sua lavra.
Além da inquietação que lhe causava a rivalidade de Waldeck, tinha de proteger-se contra o ódio da madrasta.
Já de algum tempo que lhe vinham insinuando, um pouco de parte, que conviria renunciar à sua herança em benefício do irmão mais moço e tomar ordens no convento dos Beneditinos, deixando entrever, de futuro, a suprema investidura abacial.
Essa perspectiva não era de tentar o jovem Rouven, ávido de amor e liberdade.
Sabia, ademais, que o plano só poderia partir da madrasta que, impaciente por consumá-lo, deixara-o escapar uns dias antes.
Assim, depois de longa conversa, ela própria tentara persuadi-lo e ele, indignado, revoltado com tamanha ousadia, não só repelira a ideia, como desejava casar-se, certo de que o conde o apoiaria.
Alguns dias se passaram, após essas confidências recíprocas, quando, certa manhã, um homem se fez anunciar.
Era um mensageiro de Maria de Falkenstein, que lhe comunicava ter sido chamada pelo pai e advertia de que se casaria com Waldeck.
A jovem donzela protestara, declarando-se noiva de Edgar, o Barão lhe respondera, com estúpida gargalhada e forneceu intimação para que o casamento se realizasse dentro de poucos dias.
Ao receber tais informes, Edgar não pôde conter-se; mandou selar a montaria a fim de procurar o rival e provocar uma reparação pelas armas.
Vendo-o assim exacerbado, não quis deixá-lo partir sozinho.
O Sr. Ulrich nos recebeu em sua sala de jantar, cercado de alegre companhia.
Mal avistou Edgar, gritou insolente:
- Conde de Rouven, presumo saber a razão de sua visita; mas, creia que nada adianta, pois tenho a palavra do barão e a bela Maria será minha esposa, queira ou não.
- Nunca! - disse Edgar, arrancando da espada - pois eu aqui estou para impedi-lo.
- Mas de que modo? - chasqueou Ulrich.
Quererá arrebatar-me a noiva?
- Sim, se tanto for preciso - respondeu Rouven fora de si - fá-lo-ei; mas, antes disso, quero matar, como a um cão, o indigno cavalheiro que se impõe a uma mulher ao invés de protegê-la...
Lançando a seguir um olhar de ostensivo desprezo aos circunstantes, o amigo afastou-se e retomamos o caminho de casa, visto que tentar a entrada na residência de Filikeinstein seria loucura.
Meu amigo estava exasperado e a sua última esperança dependia do próximo torneio.
Lá, diante do duque e de toda a nobreza, provocaria o rival a um combate de morte.
Esses dias foram para mim tão aflitivos que nem mesmo cogitei do meu problema amoroso.
O dia impacientemente esperado chegou afinal.
Dia auspicioso de alegria para milhares de criaturas, mas que a mim sobrecarregava de ideias sinistras e negros pressentimentos.
Por isso, não me separei de Edgar um só instante, até que ele montasse a cavalo para encaminhar-se à liça.
Enquanto os escudeiros o armavam, notei, alarmado, que estranha, intermitente palidez lhe visitava o espírito...
Estás indisposto?
Sentes alguma coisa? - pervinde.
- Nada, não é nada; apenas ligeiro peso de cabeça, que a figura de Waldeck bastará para curar.
Isto dizendo, saltou à sela e eu me encaminhei para o palanque da condessa Matilde.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:33 pm

Sem nome e sem linhagem confessável, os jogos eram-me proibidos.
Lá chegando, sentei-me atrás de Nelda, que, no seu vestido de brocado azul e um diadema de pérola na cabecinha loira, afigurara-se-me um anjo.
Após trocarmos um olhar apaixonado, comecei a examinar o quadro esplêndido:
bandeiras tufadas ao vento, tribunas ricamente atapetadas regurgitando de cavaleiros e nobres damas cobertas de jóias; na liça e nos portões, a multidão de escudeiros e pajens com suas vestes multicoloridas, os cavaleiros de reluzente armadura e soberbas montarias que relinchavam de impaciência.
Edgar mantinha-se à distância, pois Waldeck ainda não havia chegado.
Quando o duque e sua família tomaram lugar no palanque de honra sob um pálio dourado, os jogos começaram.
Alguns combates de somenos já haviam começado, quando, de repente, assomou na entrada, coberto de poeira, o cavaleiro Waldeck.
O cavalo que montava, escumante, precipitou-se ao encontro de Edgar e o cavaleiro bateu-lhe com a lança no escudo, passou a desafiá-lo em altas vozes, exprobando-lhe o rapto da esposa, consumado por mercenários da casa de Rouven, como se comprovara por uma divisa achada no local.
E acrescentava que o jovem conde o tinha ameaçado com esse rapto, em seu próprio castelo, perante testemunhas.
Edgar protestou, indignado...
Que não, que nunca praticaria uma acção indigna de um cavaleiro.
Mas Waldeck insistia, colérico, e o duque mostrava-se indeciso.
Foi quando o acusador tonitroou:
- Pois que o cavaleiro de Rouven se obstina em negar a verdade, apelo para o juízo de Deus e o provoco, confiante na vitória da verdade e da inocência, sobre a mentira e o crime.
Febril agitação sacudiu a assembleia:
em todos os grupos se cochichava e comentava.
Em nosso camarote, bem se vê que reinavam os mais tumultuosos sentimentos.
O Sr. Hildebrando abandonou a tribuna para juntar-se ao filho e eu, não sei porque, concentrei toda minha atenção na senhora Matilde.
Notei que ardente rubor lhe esfogueava o rosto; os olhos coruscavam e os lábios se lhe contraíam num ricto nervoso, ao mesmo tempo que agarrava e comprimia a mão do filho.
Vaga suspeita me confrangeu o coração e desci, acabrunhado, procurando acercar-me do amigo que, calmo, estendeu-me a mão e disse:
- Estou inocente, devo triunfar:
mas, que terão eles feito de minha pobre Maria?
Nesse ínterim os arautos faziam evacuar a liça, fincavam duas bandeiras, apregoavam os nomes e as condições da luta.
Seria a pé, à espada, ambos completamente armados.
Regressei ao palanque, coração aos pulos, na expectativa do prélio iminente.
O duque, que muito considerava e estimava Hildebrando, mandou convidá-lo para assistir ao duelo a seu lado, no palanque ducal.
Ao primeiro sinal, os campeões se defrontaram, formando perfeito contraste.
De um lado, Ulrich, retacado, maaciço, braços de gigante; doutro, o rival delgado, elegante, franzino, mas tendo a seu favor habilidade e destreza incomuns.
A um aceno do duque, os contendores se chocaram: ofegante, fascinado, incapaz mesmo de formular uma prece pelo amigo, eu seguia estarrecido o quadro emocionante.
A princípio, a luta se manteve equilibrada, via-se que Waldeck procurava fatigar o adversário, valendo-se de golpes falsos, que o obrigavam a manter-se coberto; Rouven, entretanto, impulsivo e nervoso por temperamento, impacientava-se cada vez mais, e, avançando sempre, culminou num embate indescritível!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:34 pm

Silêncio de morte reinava no ambiente, apenas quebrado pelo retinir das armas, enquanto o sangue corria e avermelhava a arena.
De repente, Waldeck se descobriu e acutilou tão brutalmente o peito de Edgar, que o vi oscilar e cair de joelhos.
Ulrich aproveitou o momento e lhe fez saltar a espada das mãos.
Ferido o meu amigo?
Simplesmente aturdido?
Fosse como fosse, a verdade é que fraquejava a olhos vistos.
E Waldeck atirou-se a ele e o derrubou de vez.
Um ah! de surpresa e espanto escapou de todas as bocas!
O vencedor apoiou o joelho sobre o peito do vencido, que parecia desacordado.
Depois, erguendo a espada, voltou-se para o duque a quem, somente, por direito, cabia decidir a sorte do vencido.
Edgar, segundo as leis vigentes, vencido em combate acabava de perder nome, nobreza, e direitos de progenitura.
Momento soleníssimo, inolvidável!
A multidão silenciosa como que deixara de respirar, petrificada.
Apenas o conde de Rouven, mais lívido que um espectro e de olhos desvairados, balbuciava frases incoerentes.
O duque, visivelmente comovido, apertou a mão do infeliz pai, pronunciou em voz alta a palavra "graça".
Meu amigo foi removido da arena, desacordado e a festa perdeu todo o atractivo.
A família ducal retirou-se, espectadores e campeões se dispersaram tumultuariamente.
Os Rouven, por sua vez, retomaram o caminho do lar, excepto o Sr. Hildebrando que, incorporado ao respectivo cortejo, acompanhou o filho até o Convento dos Beneditinos.
Quanto a mim, desesperado, impaciente, aguardava notícia do malogrado amigo, perguntando a mim mesmo se deveria desejar-lhe a vida ou a morte.
A condessa procurou aparentar grande sofrimento, mas a verdade é que lhe não vi nos olhos uma lágrima.
Dentro de alguns dias o conde regressou, acabrunhado, soturno, encanecido.
Disse-me que Edgar estava gravemente enfermo e que, não obstante, o caridoso monge que o assistia esperava salvá-lo.
É verdade que, para o mundo, deveríamos considerá-lo definitivamente perdido; mas, ainda assim, no seu egoísmo de pai, queria que vivesse e tudo faria para lhe comprovar a inocência, pois sabia que Edgar estava isento de culpa.
O tempo se escoou, melancólico, sem que me fosse permitido rever o amigo.
Só o conde o visitava, até que um dia me comunicou que estava fora de perigo, porém, num estado de exaltação indescritível.
Agora, o herdeiro do nome, do título e da fortuna da casa de Rouven, era Alberto, o irmão mais moço do meu inditoso amigo.
D. Matilde exultava de contentamento e mal conseguia aparentar tristeza diante do marido.
Aquela atitude da nobre dama confrangia-me o coração.
Também a mim me obcecou a descoberta do rapto de Maria.
Empresa temerária, difícil, a exigir argúcia e tempo, todos os planos concebidos se me afiguravam impraticáveis.
Lembrei-me, então, de consultar o conde de Rabenau, com quem me avistara algumas vezes e que, por sua acuidade espiritual e profundo conhecimento da vida, sempre me impressionara.
Nesse propósito, dirigi-me ao seu castelo e, como o assunto era o prato do dia em todas as bocas, não foi difícil provocá-lo e expor meus intuitos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:34 pm

- Eis o que penso - disse o conde de Rabenau, após meditar um instante - é inútil toda e qualquer ideia de penetrar no castelo de Waldeck, onde tudo está previsto e barrado para um assalto.
Outro tanto se dá com o solar do velho Falkeinstein.
Procurai, porém, na extrema divisa das terras da Abadia, um albergue mal afamado, por sinal, e bem conhecido por Estrela da Noite.
A estalajadeira, a quem chamam Linda Berta, é criatura ambiciosa, capaz de vender a própria alma; uma consciência sem escrúpulos, enfim.
Essa criatura é amante de um tal Bertrand, alcoólatra e espadachim da pior espécie.
Esse tipo, que também se diz descendente de família ilustre, é amigo de Waldeck e, como tal, tem entrada nos dois castelos.
Se, pois, conseguirdes interessá-lo na vossa causa, será possível obter os pretendidos informes.
Advirto, contudo, que para conquistar Betrand só por meio de Berta.
Dinheiro é o que ela quer e provavelmente precisará, visto que o Sr. de Mauffen, seu "protector" e frequentador, não é nenhum mão-aberta.
Agradeci o excelente conselho e logo no dia seguinte me dirigi para o Estrela da Noite, grande e arruinado edifício, rodeado de cavalariças, no cruzamento de duas estradas.
Amarrei a montaria em frente à porta e entrei no grande salão, onde estavam reunidos alguns homens de má reputação.
Sociedade suspeita e promíscua.
Uma mulher ainda bonita, de fisionomia enérgica e negra cabeleira, atendia aos fregueses, auxiliada por um mocetão alegre e expedito.
Era a estalajadeira.
Aproximei-me e, depois de trocarmos algumas palavras, solicitei uma entrevista em particular.
- Às vossas ordens - respondeu de pronto - e dirigindo-se ao rapaz:
- Gaspar, olha que nada falte à freguesia.
Fez-me entrar para um pequeno gabinete e foi logo interrogando, ao mesmo tempo que me examinava de olhos percucientes, da cabeça aos pés.
- Diga-me em que lhe posso ser útil.
- Desejo, - respondi sem preâmbulo - que me apresente ao Sr. Bertrand, amigo dos cavaleiros Waldeck e Falkeinstein.
- Mas... de que se trata? - arriscou suspeitosa.
- Uma simples informação; sei que tem grande ascendência sobre Bertrand, mas, diga:
ser-lhe-á possível decidi-lo a trair os dois amigos, caso necessário?
Berta botou as mãos nos quadris, esgarçou os lábios num sorriso típico e respondeu:
- Esse biltre lambe-se de amores por mim e creio que será capaz de trair não dois, mas dez amigos, se eu o exigir:
somente, - acrescentou piscando um olho - preciso convencer-me da importância do negócio.
Dinheiro não me faltava.
Edgar sempre se mostrava pródigo e ainda na véspera do torneio me ofertara um cofre com grande soma de ouro, dizendo que o fazia para o caso de sucumbir na luta.
Pus a bolsa em cima da mesa e a mulherzinha logo se transfigurou.
- Dê-me suas ordens - disse, em atitude humilde e reverente - diga-me se é preciso matar ou roubar e, de qualquer forma, conte comigo.
Nesse instante, repercutiu na sala uma voz áspera e rude.
- Ei-lo que chega, o meu caro Bertrand.
Faça o favor de esperar aqui mesmo, enquanto vou falar com ele.
Passado algum tempo, voltou acompanhada de um homem alto e gordo, mal trajado, envolvido em largo manto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:34 pm

O rosto quadrado, algo túmido e revestido de barba ruiva, traía o vício da embriaguez.
Saudou-me e deixou-se ficar, por um momento, a respirar ofegante.
- Caro Bertrand - disse a estalajadeira - este senhor deseja de ti um serviço pelo qual te dará uma bolsa igual a esta com que me gratificou, só para que te apresentasse.
Não! - disse comigo - é simplesmente rapina! - mas, para conhecer a verdade, que venha o assalto.
O brutamontes lançou um olhar cúpido à bolsa que a estalajadeira não se cansava de afagar com os dedos carnudos, e todo o seu rosto se iluminou ao dizer-me baboso:
- Caro e nobre senhor, permita que me apresente:
Bertrand de Eulenhof, para o servir; queira dispor de uma espada e de uma cabeça que não são para desprezar...
Berta se retirou e nós conversamos à vontade.
Depois de acertarmos a quantia a pagar, Eulenhof prometeu fornecer-me todas as informações, ficando eu de lá voltar.
Recolhi-me à casa satisfeito, mas abstive-me de comunicar ao conde as minhas esperanças, porque antes de tudo desejava provas.
No curso destas diligências foram-se alguns meses.
Já tinha feito duas visitas ao albergue e Bertrand apenas me informara que Ulrich, muito envaidecido com a derrota de Edgar se preparava com grande pompa, a fim de assistir ao torneio que o duque pretendia oferecer à nobreza e ao seu povo, em compensação do anterior, tão imprevista e tristemente interrompido pelo duelo judiciário.
Ora, eu já tinha ouvido falar dessa festa e sabia que nenhum membro da família Rouven lá compareceria.
Quando, pela terceira vez, voltei ao albergue da Estrela, Bertrand me recebeu com demonstrações de triunfo, dizendo que tudo soubera.
Maria casara, obrigada, com Waldeck, e continuava em custódia no castelo do pai.
O marido a visitava diária mas ocultamente, por isso que a presença da jovem no castelo constituía segredo.
Estas informações eu as paguei a bom preço e pedi, então, a Bertrand, que procurasse um meio de libertarmos a prisioneira.
Eu quisera que ela comparecesse ao torneio e lá testemunhasse ao duque que nunca fora raptada e sim constrangida a casar-se, para ficar sequestrada na casa do pai.
Eu sabia que, para reabilitar Edgar, ela não mediria sacrifícios.
Mas, para isso, precisava de liberdade, visto que só a denúncia do seu encarceramento não bastava:
era preciso que ela mesma depusesse livre e publicamente.
Assim, esperançado e satisfeito, eis que me chegou às mãos a seguinte carta:
"Ângelo, meu amigo, tens o direito de me desprezar, sabendo que vive e pronunciei votos mas, tão só para me vingar.
E uma voz interior me diz que o conseguirei.
Qual toupeira, abrindo caminho subterrâneo, hei-de atingir o miserável e dar-lhe morte que os próprios demónios do inferno hão-de invejar.
Esta, a única esperança que me sustenta nesta vida miserável.
Não procures visitar-me e acredita que, só depois de saciado o meu ódio, só depois de esfacelar em minhas mãos sangrentas o coração do mortal inimigo, só então quererei ver-te".
"Edgar Beneditino".
Estarreci desolado!
A reparação chegava tarde.
Contudo impunha-me provar, a qualquer preço, a inocência do amigo, e dar ao menos esse consolo ao seu coração ulcerado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 18, 2016 7:34 pm

Dias mais tarde, Bertrand me comunicou que a fuga de Maria estava decidida, disfarçada em serva.
Só então informei o conde de Rouven do que se passava e ele, abraçando-me enternecido, disse:
- Meu pobre filho já não pode combater, mas eu saberei provocar e enfrentar o infame Waldeck.
Recebido o combinado aviso de Bertrand, fui ao albergue de Berta e lá encontrei Maria.
Disse-me que por Edgar estava pronta a sacrificar tudo, denunciando publicamente a infâmia do pai e do marido.
Bertrand deveria conduzi-la secretamente ao torneio, de modo que lá surgisse no momento exacto.
D. Matilde ficou muito surpresa com a resolução do conde, e procurou dissuadi-lo de comparecer à festa; mas, nada conseguindo, resolveu acompanhá-lo.
Na manhã do dia marcado para o início das justas, ou seja o terceiro da evasão da jovem, o conde de Rouven acolheu-a e levou-a, em primeiro lugar, ao duque, relatando-lhe toda a verdade.
Conduziu-a, depois, ao seu palanque, onde ela permaneceu de rosto velado, para não se fazer notada antes do tempo.
Claro que os dois cúmplices ainda ignoravam a fuga, (Bertrand me dissera que ele havia deixado o castelo dois dias antes) pois o barão de Falkeinstein se mostrava muito tranquilo em seu palanque, antegozando as proezas do genro que, ostentando soberba armadura, lá estava na liça caracolando e desafiando os mais intrépidos cavaleiros.
Logo que o duque tomou lugar na tribuna, o conde de Rouven surgiu na arena e acusou Waldeck de felonia, malvadez e sacrilégio, de vez que se atrevera a invocar o nome de Deus para acobertar um falso rapto e um infame sequestro.
O arguido estremeceu e tentou falar; mas o duque, altaneiro, o interrompeu, dizendo:
- Já sei - e apontava o palanque da condessa de Rouven, onde Maria, de pé, acenava e confirmava o veemente libelo.
Os adversários se recolheram às barracas, a fim de se prepararem para o combate; mas, só o conde retornou à liça.
O cavaleiro Waldeck, três vezes chamado pelo arauto, eclipsara-se.
Um escudeiro enviado à respectiva tenda, veio dizer que a tenda estava deserta e o cavaleiro desaparecera sem deixar traços.
O conde de Rouven avançou, então, para a tenda do barão de Falkeinstein, que endossara e projectara a ignóbil trama, e lançou-lhe a férrea luva.
Raivoso, o barão levantou-se, declarando aceitar o repto.
Não entrarei nos detalhes da luta.
Direi apenas que o barão, gordo, pletórico, esgotado por uma vida dissoluta e, ao demais, pouco exercitado nas armas, esfalfou-se rapidamente; ameaçado sem tréguas pela espada inimiga, acabou tombando.
O vencedor meteu-lhe o joelho ao peito e lhe cravou a adaga na garganta.
Depois, sacando o ferro ensanguentado, exclamou com voz retumbante:
- o celerado está morto!
Aclamações frenéticas reboaram, mantilhas e flores choveram sobre o conde, contagioso delírio se propagou na multidão.
Só a pobre Maria desmaiara ao ver sucumbir o pai.
Mas, no tumulto das aclamações colectivas, aquele incidente passou quase despercebido.
Sôfrego de levar a Edgar a notícia da sua reabilitação, aproveitei o momento em que todos se fixavam no arauto que percorria a liça, proclamando que "o poderoso senhor Edgar de Rouven estava imune de qualquer suspeição e reintegrado em todas os seus direitos", para esgueirar-me e partir a galope.
Poucas horas depois, esbarrava o cavalo, ofegante, na sombria portada do convento.
Puxei, nervoso, o cordel da sineta, cujo som estridente me fez estremecer.
Ouvir constantemente aquele toque, devia ser uma tortura - reflecti...
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:14 pm

Mal sabia, então, que haveria de a ele me habituar um dia.
Um tilintar de chaves me advertiu que o irmão porteiro se aproximava e logo surgiu o rosto austero e magro do frade no postigo.
Disse-lhe quem era e ao que vinha, queria falar ao irmão Benedictus, ex-cavaleiro de Rouven.
- Só com autorização do prior; mas, queira entrar e acompanhar-me à presença de Sua Reverendíssima.
Abriu a pesada porta, atravessamos o pátio lajeado para transpor segunda porta e subir uma escada em caracol.
Comecei a sentir certo mal-estar.
Aquelas abóbadas escuras, aqueles corredores longos e mal iluminados, aquelas estreitas janelas góticas, que mais semelhavam seteiras, tudo aquilo me acabrunhava.
Alguns vultos negros com que cruzamos mais aumentaram minha indefinível angústia.
Finalmente, paramos diante de uma porta e o guia bateu de leve.
Uma cabeça de noviço apareceu, discreta, na escassa abertura, e depois de informar-se, desapareceu.
Dentro de alguns minutos, reabriu a porta e fez-me sinal para que o acompanhasse.
Atravessamos outros corredores e compartimentos, até que chegamos a pequena sala, no centro da qual estava posta magnífica mesa.
Baixela preciosa e iguarias finas.
Assentado em poltrona de alto espaldar, cruz de ouro pendente do pescoço, um homem gordo jantava. Era o prior.
Depois de me conceder a solicitada bênção, procurou conhecer o motivo da minha vinda.
Notei, de logo, que a fisionomia nada revelava de invulgar, posto que transpirasse benevolência e bonomia.
Dotado por natureza de senso analítico, surpreendi naquele rosto bonachão uma boca de lábios expressivos, cujas comissuras retraídas denunciavam férrea energia, e uns olhos semicerrados, nos quais toscanejavam a astúcia, a sagacidade e a crueldade.
Enquanto procurava, em termos adequados, explicar meu desejo de ver Edgar, o prior brincava com a cruz de ouro; mas logo que pronunciei esse nome, interrompeu-me com veemência:
- Quereis dizer irmão Benedictus, esse hoje precioso irmão de nossa comunidade, a quem amo com particular afecto, pelo zelo e piedade que o levaram a libertar-se de toda ligação com o mundo, desistindo de bens e títulos temporais?
Quando falei da reabilitação, o abade juntou as mãos, ergueu os olhos para o alto e disse com unção.
- Já o tinha previsto:
a inocência triunfa sempre.
Terminou por permitir a entrevista e fui levado por outro frade que, detendo-se afinal disse:
- Agora, queira ficar aqui enquanto vou prevenir o irmão Benedictus.
Uma vez só, aproximei-me da janela e lancei um olhar para fora.
Que magnífico panorama dali se descortinava, abrangendo vastíssima região!
A estrada sinuosa a desdobrar-se, qual vermelha serpente, e no horizonte longínquo a massa negra:
as torres altas do Castelo de Rouven!
Suspirei profundamente, pensando na ironia da sorte, que, despojando de todos os bens o herdeiro dos Rouven, ali o fixara para a visão constante da ancestral moradia e dos ricos domínios para sempre perdidos.
O ruído da porta entreabrindo-se me fez voltar, e confesso que mal reconheci Edgar no monge pálido que se me defrontava.
Estranhamente transfigurado e metido naquele negro burel, parecia mais alto e mais magro.
Abraçamo-nos estreita, demorada e comovidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:14 pm

Tão estreitamente que lhe sentia o desordenado e violento pulsar do coração.
- Edgar! - disse - desprendendo-me e tomando-lhe as mãos - trago-te boas notícias; estás desagravado, reabilitado, apto, enfim, a gozar de todos os teus direitos e regalias.
No torneio de hoje tudo se desvendou.
Ele empalideceu, vacilou e, encostando-se à janela, exclamou:
- Justiçado? Mas... é tarde... é muito tarde!
Depois, em tom confidencial:
- Justificado, sim mas definitivamente condenado, Ângelo!
Olha estas algemas, irrevogáveis, que ora me acompanham por toda parte!
Embargou-se-lhe a voz e, agarrando o hábito com ambas as mãos, era como se quisesse arrancá-lo.
Impressionado, mudo, eu não sabia como acalmar a tempestade.
Peito ofegante, faces contraídas, olhos flamejantes, Edgar era bem a encarnação do desespero.
Por fim, deixou-se tombar pesadamente no peitoril da janela e mergulhou o rosto entre as mãos, permanecendo calado por algum tempo.
Súbito, ergueu a fronte e já não era a mesma fisionomia:
à raiva sucedera uma expressão de fria crueldade, os olhos tinham um brilho sobrenatural.
Resta-me a vingança, disse, tocando-me no ombro - eles, os inimigos, não terão tempo para me esquecer.
Pobre, desgraçado, eu quereria puni-los como merecem; agora, porém, justificado, saberei destruí-los.
Nesse instante, o prior surgiu à porta e seu olhar percuciente cravou-se em Benedictus, que logo emudeceu e baixou a cabeça.
- Meu filho, aqui estou para te felicitar e lembrar que o Senhor também disse que só a Ele cabia vingar.
Não te esqueça o preceito e não recaias nas paixões do mundo.
Abriu os braços e Benedictus neles se lançou precipitadamente.
Aquele monge mentia; sua ternura me parecia duvidosa.
Nem me passou despercebido o olhar que entre si trocaram, olhar de aliados que se entendiam.
Que significaria tudo aquilo? - considerei.
Como o abade nos honrava com a sua presença, tratei de despedir-me e voltei pensativo ao castelo, convicto de que o prior não passava de astucioso comparsa, cuja fama era, aliás, bem conhecida em toda a região.
Certo, ele acompanhava em qualquer parte as próprias intrigas, utilizando nesse mister instrumentos jovens e dóceis.
Ora, Edgar era arguto e inteligente; mas, sem embargo, infeliz e quiçá ingénuo para enfrentar um homem astuto e hábil como o padre António.
Era um caso para pensar e prevenir.
Quando cheguei ao castelo, era noite.
Buscando logo o meu quarto, respirei desafogado e tranquilo, procurando apagar da memória as sombrias abóbadas do convento.
No dia seguinte procurei Nelda; conversamos sobre os acontecimentos da véspera e soube que Maria havia solicitado ao duque que lhe permitisse regressar ao castelo de Falkeinstein, com o cadáver do pai, a fim de lá sepultá-lo com todas as honras.
Também me disse, com tal ou qual orgulho infantil, que o duque a felicitara por sua beleza, cumulando-a ostensivamente de gentilezas.
Essa atitude para com a dona do meu coração me impressionou grandemente, confesso.
Bem verdade que o duque era casado e algo idoso; mas, nem por isso, isento da fama de galanteador aventuroso.
Uma vaga inquietação se apossou de mim, e nunca lamentei tanto a obscuridade do meu nome e as incertezas do futuro.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:15 pm

A ideia de penetrar o mistério do meu berço não mais me abandonou.
Sabia que os dois zeladores do castelo de Rabenest não eram meus pais:
quem, pois, me teria confiado a eles?
Lembrava-me, também, da impressão que causei aos dois cavaleiros, na noite em que lá chegou o Sr. Teobaldo.
Este, pelo menos, deveria conhecer a verdade.
A coisa chegou a um ponto que não pude mais suportar e resolvi partir para Rabenest e descobrir o mistério a qualquer preço.
Pretextei o cumprimento de um voto religioso e Nelda, que foi a única pessoa a quem informei do meu destino, sobrecarregou-me de beijos e saudades para seu pai.
Viagem rápida e fatigante, até que uma noite parei diante da velha torre da minha infância.
Ao meu apelo, não se fez demorar aquela voz de meu pai adoptivo:
- Quem está aí?
- Sou eu - respondi, rindo-me - e será que não chego a tempo?
Correu pressuroso, o bom velho, e exclamou radiante:
- Oh! peste de rapaz, por que não disseste logo?
Abraçamo-nos e lá nos fomos ao quarto de mãe Brígida, que me acolheu com lágrimas de alegria.
Serenadas as primeiras emoções, depois de entregar os presentes, meus e de Nelda, fui procurar o Sr. Teobaldo.
Minha impaciência era tal que não pude aguardar o dia seguinte.
O velho cavaleiro me acolheu com a paternal bondade que sempre me dispensara; elogiou-me a boa aparência e entrou a pedir notícias de tudo e de todos.
Contei-lhe, então, sucintamente, os terríveis acontecimentos dos últimos meses, acrescentando que minha viagem a Rabenest visava esclarecer minha origem e saber o nome de meus pais.
Ouvindo tal, o Sr. Teobaldo empalideceu e tapou os olhos.
Vendo-o assim, tão comovido, tomei-lhe a mão e disse:
- Por amor de Deus, diga-me a verdade...
Qual ansioso espectador diante de cerrada e espessa cortina, o coração me pulsava precipitado; embargou-se-me a voz!
Que quadro, que surpresas me reservaria a cortina levantada?
E apertava, então, cada vez mais efusivo, a mão do cavaleiro profundamente concentrado e mudo. Depois de minutos que me pareciam eternos, descobriu o rosto lívido e falou com tristeza:
- Sim, filho, eu conheço a tua origem; mas, nada me perguntes, porque nada obterias de consolador e benéfico.
Minha curiosidade, contudo, não comportava considerações quaisquer, por sensatas que fossem.
- Diga, diga-me tudo - insistia - pois eu prefiro a mais crua verdade a esta dúvida que me devora, a estas conjecturas que me assaltam a cada momento.
Considero que, nascido, não quiseram perder-me de vista, pois, aqui tenho, no braço, a marca de um brasão.
Evidente, pois, que alguém por mim se interessou, para que eu não ficasse irremissivelmente confundido na plebe.
Teobaldo levantou-se, andou de um lado para outro, até que parou diante do fogão, cruzou os braços e demorou-se a contemplar o lume.
Parecia indeciso e suspirava profundamente.
Estava a observá-lo, assim, aflito, quando uma ideia insensata me brotou no cérebro conturbado; quem diria não fosse ele mesmo, Teobaldo, o pai que eu procurava identificar?
Sim... Por que se comovia falando da minha origem, por que sempre me tratou com carinho paternal?
Quase maquinalmente, fixei os olhos na imponente figura do cavaleiro, cujo rosto nobre, emoldurado pela barba grisalha, banhava-se na claridade do fogão.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:15 pm

Comparei, mentalmente, nossos traços fisionómicos e concluí que havia entre nós afinidades morfológicas.
Nessa altura, fui por ele interrompido, vindo sentar-se a meu lado.
- Pois que assim queres, ouve - começou dizendo - mas, não me interrompas nem antecipes conclusões, porque, ao fim de minha narrativa, tudo saberás.
Concentrou-se um pouco e prosseguiu:
- O nome pelo qual me conheces é apócrifo.
Meu verdadeiro nome é Bruno, conde de Rabenau, legítimo dono do título e dos domínios que lhe correspondem.
Para o mundo, entretanto, estou definitivamente morto e um rico mausoléu assinala o sítio do meu repouso.
Meu sobrinho Lotário herdou minha fortuna e eu o prezo sinceramente, como digno representante que é, da minha estirpe.
Tempo houve em que eu ostentava com orgulho o nome ilustre dos antepassados, amando ciosamente os privilégios que esse nome me outorgava:
e, quando, mais tarde, vi em casa de um meu irmão (mais moço um ano do que eu, e, não obstante, já casado) sua cunhada Rosa, encareci minha riqueza, porque Rosa era pobre e vivia a expensas da irmã.
Apaixonei-me loucamente por essa criatura adorável que, ai de mim, não o era senão pelo físico.
Nosso casamento se fez com toda a pompa e sob os melhores auspícios, mas a verdade é que a ventura foi efémera e passageira, e para logo me convenci de que Rosa não me amava e procurava todos os pretextos para se afastar de mim.
Sobretudo, fazia contínuas peregrinações a um convento das Ursulinas, que tinha por prioresa uma de suas amigas.
Aquelas frequentes evasões acabaram por me despertar suspeitas.
A tal abadessa, madre Bárbara, era moça de seus vinte e dois a vinte e três anos, eleita, dizia-se, graças à protecção ducal.
Essa criatura me repugnava a mais não poder, mas eu não tinha motivo para impedir as relações de Rosa com ela, porque sua reputação de virtude merecia geral consenso.
Corriam os anos, eu me sentia cada vez mais apaixonado por minha mulher e esperávamos justamente o nascimento de Nelda, quando imprevistos e grandes negócios me forçaram a ausentar-me por algumas semanas."
Nesta altura, o conde fez uma pausa e eu, que acabava de ouvir o nome de Nelda, depois de acompanhar silencioso a narrativa, senti pulsar mais forte o coração.
- Tinha pressa de regressar - prosseguiu - e de facto o fiz dez dias antes do tempo previsto.
No intuito de causar agradável surpresa, distanciei-me da escolta e, seguido apenas do velho e fiel fazendeiro João, penetrei no lar, por uma das bocas da galeria que se disfarçava no jardim, atrás de enorme pedra recoberta de musgo.
Aos primeiros passos dados no jardim, detive-me estarrecido: é que ouvi vozes e não tardei a reconhecer a condessa, que entretinha com alguém amoroso colóquio.
Esgueirando-me entre moitas e tufos, aproximei-me de um banco e vi, nem mais nem menos, o duque em pessoa! - o duque que, ausente havia um ano, regressara e ali estava conchegando-o a minha mulher!
Naquele momento preciso, pelo que diziam, certifiquei-me de que aquela intimidade provinha de alguns anos, pois que eles falavam de um filho, fruto de seus amores...
Aquela revelação me fez perder a cabeça:
arranquei da adaga e atirei-me ao duque, mas, antes que pudesse atingi-lo, ele assobiou e pôs-se em guarda.
Homens de sua escolta, adrede ali postados, atacaram-me pelas costas a golpes de punhal e, gravemente ferido, tombei desacordado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:15 pm

Quando volteia mim, estava na choupana de um carvoeiro e o fiel João à minha cabeceira.
Por ele, soube o que ocorrera durante o meu desmaio.
Também ele ouvira o infame colóquio; mas, durante a refrega, compreendendo que contra o duque e, sobretudo, contra o número de seus guardas nada podia tentar, conservara-se distante.
Quando tombei, a condessa sentira-se mal e o duque a levara consigo, logo acompanhado de toda a guarda.
Depois, o fiel João me carregou para o subterrâneo, cuidou como pôde os ferimentos e, receoso de que me massacrassem ou envenenassem, caso permanecesse no castelo, foi buscar seu irmão o carvoeiro - e pela calada da noite me conduziram à floresta.
Logo que possível, tornei ao castelo, onde novos desgostos me aguardavam.
Rosa fugira, dias antes, abandonando um filho recém-nascido, ao mesmo tempo que uma serva me informava ter o duque vindo ao castelo e com ela combinado a minha morte.
Como o desaparecimento da condessa tivesse ficado em segredo entre os fâmulos, fiz divulgar a notícia de que ela falecera de parto e, (oh! ironia da sorte) improvisei-lhe um túmulo com lápide e um epitáfio mentiroso, tal como deveria suceder comigo, anos mais tarde.
A princípio, a repudiada criança me inspirou grande repulsa.
Pouco a pouco, porém, fui-me ligando a ela.
Não podia, certo, considerá-la meu filho, mas, quem o poderia saber?
Nunca mais ouvi falar de Rosa.
Também o duque parecia haver-me esquecido.
O mesmo não se dava comigo. Sim.
Eu pensava nele, queria revê-lo, vingar-me.
Somente precisava esperar a ocasião, visto que atacar o suserano era empresa difícil e perigosa.
Contudo, essa ocasião pacientemente esperada apresentou-se, quatro anos mais tarde, quando, atravessando minhas terras, seguido de poucos homens, o ataquei e feri gravemente.
Não tive, entretanto, melhor chance, porque fui preso e encarcerado.
A coisa podia acabar mal, se meu sobrinho Lotário não tivesse preparado minha evasão e feito constar, a meu pedido, que eu tinha sucumbido de uma queda, quando fugia.
Alguém, desconhecido, foi enterrado em meu lugar.
Morto para o mundo, isso pouco se me dava, porque tudo no mundo se me figurava odioso.
Meu sobrinho me acompanhou ao velho solar dos Rabenest e, de passagem, recolhi Nelda, a quem amo como filha e talvez o seja realmente.
Lotário entrou na posse pacífica dos meus bens e o duque não lhe criou dificuldades, porque não queria mais ouvir falar do nosso caso.
O resto tu já sabes, isto é, sabes que és filho do duque e de minha mulher.
A mãe de Lotário me confessou que, para ocultar tua existência aos olhos do mundo, tinham-te entregado aos velhos guardiões de Rabenest."
Mal acabara de ouvir as últimas palavras do conde e parecia-me que ia enlouquecer.
Pois que: Nelda era minha irmã!
Mas isso significava a morte mesmo do meu amor, da minha vida.
Dobrado ao peso das emoções, lancei-me aos pés do homem cuja ventura se esfacelara com o meu nascimento gritando desesperado:
- Oh! Maldição! Nelda é minha irmã e eu a amo louca, perdidamente!
Com um gesto carinhoso, Bruno me abraçou, como não faria o mais carinhoso dos pais, em idênticas circunstâncias.
Sim, porque, aquele a quem ele afagava era, simples e tão-somente, o filho do seu rival.
Nada, porém, poderia consolar-me naquele transe, pois eu chorava ainda as lágrimas da infância com a primeira esperança destruída.
As exortações de Teobaldo acabaram por acalmar-me.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:15 pm

Resolvi, desde logo, fugir de Nelda, sem lhe dizer a verdade.
Sentia-me, entretanto, muito mal.
O choque fora violento demais; uma encefalite se declarou.
O Sr. Teobaldo desdobrou-se em cuidados paternais e pouco a pouco me restabeleci.
Só então soube que durante minha enfermidade lá estivera um misterioso personagem, buscando informações minuciosas sobre a minha pessoa e domicílio, desde quando deixara Rabenest.
O velho nada ocultara e o indivíduo desaparecera inesperadamente.
A notícia daquele interesse tardio pela minha pessoa, pouco me incomodou, uma vez que a relação da minha origem me tornava odioso a mim mesmo.
Uma noite, conversando ao canto do fogão, o Sr. Teobaldo me disse:
"Recebi carta de Nelda, exigindo notícias tuas e pedindo-me consentimento para casar contigo; seu único desejo - acrescentou é ficarmos os três reunidos neste retiro, certa de que os teus pensamentos são antes os de um sábio que de um guerreiro.
O que mais a estimula a deixar o castelo de Rouven, diga-se, é a atitude do duque, que a persegue ostensivamente, tornando-se-lhe odioso.
Precisamos subtraí-la a essa perseguição.
Logo que te sintas forte, irás colocá-la sob a protecção de Lotário que, estou certo, vai acolhê-la com alegria.
E, com relação ao teu futuro, eis o que proponho: procura obter uma audiência do duque.
Dar-te-ei um anel que tua mãe esqueceu e que te identificará, porque corresponde à marca que aí tens no braço.
A meu respeito, nem, uma palavra...
Lembra-te de que estou morto para todos os efeitos".
Abriu um baú, retirou um anel e alguns pergaminhos.
Aqui tens o que Rosa deixou; mas, ouve ainda isto:
- antes de tudo, procura o convento das Ursulinas e informa-te do nome da actual abadessa.
Se madre Bárbara ainda for viva, mostra-lhe o anel e os pergaminhos, pois ela deve saber muita coisa do teu nascimento e poderá dar-te preciosas informações.
Dias mais tarde, despedi-me do cavaleiro e dirigi-me para o convento indicado, que ficava, por sinal, muito próximo da abadia a que se acolhera Benedictus.
Entardecia quando atingi o termo da viagem.
Exausto, vendo surgir um albergue à margem da estrada, ali me detive sem atentar no que ele deixava entrever de suspeitoso.
Ao entrar na sala, reconheci logo que estava na hospedaria e pedi um quarto de pernoite.
Atirei à mesa um escudo de ouro e mandei servir a ceia.
Assentado a um canto e debruçado à mesa, deixei-me engolfar nas minhas tristes cogitações:
quando um ah! abafado me fez estremecer e levantar a cabeça.
Era a hospedeira que se acercava com uma bilha e um copo, ao mesmo tempo que mirava o anel ducal, com insistência.
Retirei a mão, bruscamente, ela não se conteve:
- Perdão, cavaleiro:
é que me pareceu já ter visto esse anel, há muitos anos, no dedo de um poderoso personagem.
- É possível, - respondi calmamente, pois sou mensageiro de um senhor de alta linhagem.
Depois de rápida conversa, retirou-se e não mais a vi nessa noite.
No dia seguinte, fui ao convento e o anel aplainou todas as dificuldades, abriu todas as portas, de sorte que, prestes me defrontei com a abadessa.
Madre Bárbara era uma mulher de quarenta e cinco anos, alta, bem conservada, mas nunca se poderia julgar bela.
Fisionomia vulgar, deixava transparecer grande bondade; mas seus olhinhos castanho-azulados eram impenetráveis.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:16 pm

Indagou com muita delicadeza o objectivo da minha visita e eu lhe respondi, sem preâmbulos, que sabia das suas velhas relações com a condessa Rosa de Rabenau.
Depois, ela passou a interrogar -me sobre os detalhes mais insignificantes e eu, papalvo, mal suspeitando que ela fizesse de má fé, a tudo respondia com a maior franqueza.
Por fim, notando minha grande emoção, disse:
- Seja franco comigo, meu rapaz:
que secreta mágoa pode assim acabrunhar um coração tão jovem?
Não creio que a simples suspeita de sua filiação possa perturbá-lo a tal ponto.
Iludido por aquela aleivosa compaixão, acabei confessando minha paixão por Nelda, e que desejava ouvir da boca do próprio duque se ela era realmente minha irmã.
- Espero o vosso auxílio, minha santa madre, certo como estou de que conheceis, mais que ninguém, os fios desta infeliz história.
- Ai de mim, meu filho; de mim que nada sei; é verdade que vi muitas vezes a condessa de Rabenau, minha amiga de infância; compreende, porém, que a uma mulher nas minhas condições uma mulher que renunciou ao mundo, a condessa jamais confiaria seus segredos de amor.
Mas, Nelda é sua filha, apesar de tudo...
Ah! pobre órfãzinha, quanto desejaria vê-la e aconchegá-la ao coração!
Quanto ao que te diz respeito, prometo colher todas as informações possíveis, mas, deixe-me antes estes pergaminhos, que te devolverei mais tarde.
Retirei-me aflito.
A abadessa não me havia descontentado inteiramente, tão boa, tão meiga me parecera; mas, quem podia garantir não tivesse qualquer motivo secreto para ocultar a verdade?
Resolvi procurar o conde Rabenau, a fim de pedir que acolhesse Nelda; mas, chegando ao castelo passei pela decepção de saber que Lotário estava ausente e só poderia falar com sua mãe, ou com o seu filho, pois o conde era viúvo.
Ainda assim, me fiz anunciar e fui conduzido a uma sala onde respeitável matrona, ricamente vestida, trabalhava um tapete.
Junto dela, assentada, uma galante menina de dez anos, mais ou menos, a brincar com um velho cão de caça que, desde a minha entrada, não se fartava de me fixar curiosamente com uns grandes olhos negros.
A velha condessa mostrou-se muito cortês e disse-me que o neto andava à caça, em companhia de um amigo, o barão Wilibald de Launay.
- Esta pequena é sua irmã, Rosalinda de Launay, pupila de Lotário - acrescentou designando a interessante menina.
Passei a expor o fim da visita, o acolhimento de Nelda naquela casa.
Evidente que a velha fidalga nada sabia do passado, visto que sentenciou admirada e com tal ou qual frieza:
- Com franqueza, não compreendo esta vossa pretensão, quando mal conheço essa moça e não há motivo para ofendermos a condessa de Rouven, tomando-lhe uma criatura que ela trata como se fosse sua própria filha.
- Nobre senhora, respondi baixando a voz - esta Nelda merece vossa protecção; é filha da condessa Rosa de Rabenau, embora não legitimada pelo defunto conde.
A velha senhora estremeceu, chamou uma serva e ordenou que levasse a pequena Rosalinda.
- Quem vos disse tal coisa? - perguntou, logo que ficamos a sós.
Por única resposta levantei a manga do gibão e mostrei o escudo impresso no braço.
- Ângelo! - exclamou empalidecendo e recuando apavorada.
- Sim! Ângelo! - repeti com amargura - e agora sabeis porque reclamo vossa protecção para Nelda, minha irmã, visto que o duque pretende conquistá-la e precisamos defendê-la.
Olhos já mareados de pranto, a velha matrona abraçou-me, beijou-me na testa e prosseguiu:
- Pobre criança, que triste sorte te reservou tua mãe!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:16 pm

Descansa, porém, que tudo farei para assegurar teu futuro, dando-te uma protecção definida na sociedade.
Quando tudo estiver preparado apresentar-te-ás ao duque, que muito te estimava quando eras pequenino.
Aqui, podes considerar-te em tua casa.
Lotário é bom, é generoso; quanto a Nelda, porém, nosso castelo não é refúgio aconselhável, dado que precisamos sequestrá-la inteiramente à convivência do duque, o qual, bem sabes, é muito amigo de Lotário e nos visita constantemente.
Mas, tenho outro plano:
conheço a abadessa das Ursulinas, criatura de austeros costumes, digna, sob qualquer ponto de vista, e a quem poderemos confiar Nelda, até que a situação melhore.
A entrevista se interrompeu nessa altura com a chegada de Kurt e Wilibald, este um belo rapaz de dezoito anos, muito parecido com a irmãzinha:
os mesmos cabelos negros, sedosos, anelados; os mesmos olhos grandes, vivos, ardentes.
Kurt tinha crescido bastante, desde que o vira no castelo de Rouven.
Orçava, agora, pelos quinze anos, era um belo rapaz, se bem que a pele rosada, os longos cabelos louros e os olhos azuis o fizessem parecer um tanto efeminado.
Via-se logo que a avó o adorava, pela ternura com que o abraçou e procurando saber da sua saúde.
Apresentado aos dois rapazes, pouco conversamos, porque meus pensamentos vagavam alhures.
Enquanto trocava raras frases com Wilibald, Rosalinda corria para junto de Kurt, que parecia estimá-la muito.
- Sabes que o padrinho de Rosalinda é Edgar? - disse a velha condessa.
É que seu pai, tendo adoecido na ocasião, mandou o jovem conde para representá-lo no acto.
Pobre, infeliz Edgar!
Da última vez que aqui esteve, mostrou-se muito satisfeito por ter uma afilhadinha tão bonita.
Repare que ela conta apenas nove anos e parece ter mais.
Ouvindo pronunciar o nome de Edgar, Rosalinda parou diante de mim, dizendo:
- Quando estiver com meu padrinho, diga-lhe que muito o estimo e irei vê-lo muito breve, em companhia de Wilibald.
É coisa certa, pois eu quero e Wilibald não pode esquecer de mim.
Ri-me, prometi não esquecer o recado, mas longe estava de imaginar que essa mesma Rosalinda viria, algum dia, tornar-se para Edgar, e para mim, objecto do maior interesse, encarecendo nossos cuidados e grandes inquietações para salvá-la.
Quis retirar-me, constrangeram-me a ficar; e quando ceávamos, ouvimos as trombetas anunciando o regresso do castelão.
A alegria que se espalhou em todos os semblantes, senhores e servos, convenceu-me de que o conde era sinceramente estimado.
Todos se levantaram e quando Rosalinda, que correra ao encontro do tutor, mal atingia a porta, esta se abriu e o Sr. de Rabenau se deteve no limiar.
Com grande mágoa da pequena, Kurt antecipou-se e foi o primeiro a abraçar-se ao conde.
Este, muito lisonjeado com a disputa, tomou a pequena nos braços e beijou-a nas duas faces, risonho.
Depois, saudou a progenitora, apertou-me a mão e assentou-se à mesa.
A conversa de pronto se reanimou, pois o castelão, embora fatigado da viagem, lhe imprimiu logo o colorido vivo e original que lhe era peculiar.
Sua verve e bom humor pareciam inesgotáveis, enquanto os belos olhos negros irradiavam a alegria de encontrar-se entre os seus.
Quando fitava o filho, dir-se-ia ser este uma linda donzela, pela qual estivesse enamorado.
E força é reconhecer que o mesmo embevecimento se retratava na fisionomia de Kurt.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Findo o repasto, o conde levou-me para o gabinete, onde conversamos a vontade.
Ao terminar minha exposição, apertou-me a mão amistosamente e disse:
- Como parente mais próximo e teu maior amigo, dispõe dos meus préstimos em que te possam ser úteis.
Agradeci comovido e ele prometeu internar Nelda nas "Ursulinas".
Efectivamente, logo no dia seguinte, a velha condessa foi buscá-la e quando lhe explicavam o motivo do internamento, Nelda concordou de bom grado e partiu satisfeita, em companhia da velha castelã.
Ainda por esta, soubemos que a abadessa a acolhera de braços abertos.
Escusado dizer que em todos esses passos mantive-me ignorado e oculto, pois não tinha coragem de rever, como irmã, a criatura que desejava como noiva.
Assim resolvida a situação, despedi-me dos novos parentes com o intuito de rever Edgar.
No momento de partir, Rabenau me disse com olhar de muita bondade:
- Tem cuidado, meu Ângelo; não te fies no Convento e na sua gente.
Não vás cair nalguma cilada, certo de que nada existe mais odioso que esses monges, com o seu prior à frente...
Prudência, portanto, muita prudência no falar e proceder.
Quando cheguei à abadia, o irmão porteiro disse que era muito tarde para falar a frei Benedictus nesse dia, e conduziu-me a uma das celas destinadas aos viajantes em trânsito.
Só, insone, faltava-me o ar naquele exíguo ambiente.
Procurei o corredor e uma porta, felizmente não trancada, deu-me acesso ao jardim.
Noite magnífica de plenilúnio, com revérberos de prata nas plantas, nas flores, nas aleias arenosas!
Depois de alguns passos, percebi que estava no cemitério, contíguo à igreja do Convento.
Cruzes, monumentos de bronze e de mármore, por toda parte projectavam longe sombras bizarras e fantásticas.
A passo vagaroso, dobrando uma aleia, deparou-se-me soberbo panorama, que me fez parar fascinado:
o rochedo em que se alteava o convento, talhava-se a prumo, deste lado, e defrontava outro rochedo semelhante, no qual se erguia o mosteiro das "Ursulinas", apenas separado por um grotão profundo.
Altas e grossas muralhas cintando as duas construções, pareciam atestar que nada tinham de comum entre si.
Assaz fatigado, estranha melancolia me assaltou naquele sítio de repouso.
Assentei-me no socalco de um velho túmulo e deixei correr o pranto.
Absorto em meu cismar, não percebi que alguém se aproximava e, de repente, senti que me tocavam no ombro.
Apavorado, gritei; mas, abrindo os olhos, vi um monge alto, de longas barbas negras e rosto macilento, fitando-me compassiva e serenamente.
Rígido, impassível, dir-se-ia uma estátua, se os olhos, apenas, lhe não brilhassem estranhamente nas órbitas profundas.
Não se assuste:
não pertenço ao número dos que aí repousam e nada mais têm que ver connosco.
Sou Pai Bernardo, membro desta confraria e o que se dá, apenas, é que vejo muitas coisas que os outros não vêem.
Perfilou-se, apontando os monumentos fúnebres, e continuou:
- Eu os vejo, todos esses que aí estão sob essas lousas e a sua impassibilidade me revolta.
Sim. Toda uma grande sociedade aqui se encontra:
gente que viveu, amou, odiou; que tomou parte em caçadas, em torneios, em guerras...
Agora, todos esses corpos, outrora cheios de vida, aí jazem ricamente amortalhados, inertes e alheios a tudo!
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:16 pm

Mesmo os que se amaram e se sepultaram juntos, calam-se!
Ah! (resfolegou forte) eis o que me faz enlouquecer:
este silêncio, esta sociedade subterrânea, esses rostos parados!
Por bela que seja a lua que os banha, ou por violento que seja o tufão que os vergasta, eles ficam impassíveis, sempre hirtos e impassíveis!
Às vezes, o espirito que os anima vem visitá-los, mas isso também não os comove...
Calou-se, ensimesmado.
Essas coisas eu as ouvia confuso, sem lhes apreender o sentido, entretanto assomado de supersticioso temor.
De repente, o monge ergueu a fronte e fitou-me de modo particular.
- Ah! meu rapaz - disse em tom profético - tu também vestirás a roupeta, não voluntariamente, certo, mas levado pelo desespero.
Toma cuidado! - continuou levantando a mão - pois através do teu cérebro, como através destas campas, vejo teus pensamentos e tudo aí será negro - uma retorta de crimes e chamas de vingança; uma como pirâmide de fogo remontando às nuvens.
Misturarás teu sangue com o de tua irmã e acabarás aqui mesmo enterrado, impassível e mudo, ao lado do figadal inimigo.
Aturdido, assombrado, ouvia o tétrico vaticínio, e quando dei por mim e quis interrogar o monge, ele se tinha evaporado.
Presa, então, dos mais lúgubres pensamentos, voltei à cela.
Mas só pela manhã consegui adormecer.
Despertando mais calmo, procurei Edgar e fui encontrá-lo tranquilo e resoluto.
Disse-me ter sido nomeado secretário, com pesados encargos, e que o prior se lhe revelara um verdadeiro amigo.
- Estou satisfeito e conformado porque espero vingar-me, - disse, de olhos estranhamente acesos.
Procurou em seguida informar-se do meu caso e deu-me excelentes conselhos, inclusive o de não me apresentar ao duque.
Infelizmente, ai de mim! não estava em condições de atendê-lo.
Quinze dias após meu regresso ao castelo de Rouven recebi carta de Nelda, na qual me comunicava que resolvera professar.
Graças, dizia, às razões que lhe impunham essa decisão, mas apesar do seu amor por mim, não queria confessá-las e apenas pedia que não a esquecesse, embora desistindo de toda e qualquer esperança temporal.
Grande foi o meu espanto.
Quem diria?
Nelda tão jovem, tão bela, enterrada num claustro?
Que factores teriam concorrido para semelhante resolução?
Teria sabido a origem do meu berço, que era minha irmã?
Isto só a abadessa poderia revelar...
Sim, aquela mulher de plácido semblante e olhar tão doce, era-me agora mais que suspeita.
Em todo caso, era preciso prevenir Nelda, tudo eu poderia admitir, menos que ela professasse.
Sem dúvida, o egoísmo e o ciúme sussurravam a meus ouvidos:
nem tua nem de ninguém!
Mas.., não; essa hipótese não podia vingar.
Encaminhei-me para as "Ursulinas" e lá interditaram-me a entrada, alegando que Nelda se recusara receber-me e a Madre abadessa, adoentada, conservava-se em repouso.
Que fazer?
Considerando-me envolvido numa rede de intrigas, resolvi apresentar-me ao duque, mas soube que ele havia partido para uma caçada longa e distante.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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