Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:04 pm

Atendida, imagina que havia naquela pocilga um vasto portão tão bem oculto que ninguém o poderia identificar e no qual jaziam os tesouros que aqui vês, visto que outros muitos judeus, temendo a vingança do povo, haviam lá depositado seus haveres.
Teu avô distribuiu parte do esbulho aos companheiros; os dois judeus, pai e filha, foram mortos, para que nada transpirasse; os tesouros, embalados e camuflados nos sacos de trigo, foram assim trazidos sem maiores riscos a esta mansão.
E aí tens a origem que ora nos deleita a vista.
Uma vez saciado da contemplação de suas riquezas, meu pai trancava a sete chaves todos os cofres, excepto dois, que continham dinheiro amoedado.
Isso feito, plantávamo-nos cada qual diante de um cofre e contávamos e recontávamos as moedas, empilhando-as.
Depois, tudo fechado e revistado, subíamos exaustos.
Insensivelmente, sem querer, eu ia me prendendo àqueles tesouros, sentindo-me capaz de os defender à custa da própria vida.
Mas contar eternamente aquele frio metal não me satisfazia, e me lembrava das histórias de Sibila, dos torneios e feitos de armas presenciados e estimulados por nobres e belas damas.
Sonhava com essas festas, imaginava-me ricamente vestido, montando soberbos cavalos e encabeçando brilhantes séquitos.
Imbuído dessas ideias, dirigia-me sempre a uma grande sala de armas na qual se guardavam alinhadas as armaduras completas, de cavalos e cavaleiros.
Pelas paredes, em profusão, lanças, espadas, adagas e armas outras de todas as dimensões.
Eu examinava todo aquele arsenal, deplorando não saber manejar qualquer arma, nem haver jamais montado um cavalo, apesar dos meus dezoito anos.
Achando-nos um dia nas cavernas, não me pude conter e perguntei a meu pai por que me impedia de comparecer a festividades e torneios, acrescentando que, filho de um homem tão rico e portador de um nome ilustre, era justo aspirasse às esporas de cavaleiro.
Ouvindo-me assim falar, ele carregou o sobrolho e encarando-me de esguelha, disse, zombando:
- Olá! já te preocupam, então, essas ambições dispendiosas?
Incomodam-te, por cá, estes tesouros?
Pois olha:
trata de varrer da mente essas quimeras, porque a verdade é que daqui não sairás, visto que só aqui podes ser feliz.
Fora destes muros mente-se, rouba-se, mata-se.
E as mulheres, então?...
São o demónio disfarçado, a serviço da perdição.
Criaturas com aparências de anjo, a morderem a mão que as acaricia.
Louquinho que és, foge do mundo...
Olha, aqui tens o teu futuro, o teu amor e felicidade...
Não estás vendo este ouro?
Não te parece que ele sorri, assim fulgurante?
Levantou-se e pousou a mão no meu ombro:
- A deixar-te daqui sair, para que viesses mais tarde assaltar-me, eu antes preferiria torcer-te o pescoço com as próprias mãos, de vez que, para atingir estas arcas, importa passar por cima de meu cadáver.
- Mas, respondi sem temor - a morte é inevitável e que será destas riquezas quando nos formos deste mundo?
- Sim - respondeu sorrindo estranhamente - os outros morrem, mas eu e Calmor temos descoberto o elixir da vida eterna.
Por mim, não sabia o que dizer, nem mesmo se devia aceitar ou recusar tais assertivas; mas uma coisa era certa:
é que, para o momento, era inútil imaginar torneios.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:04 pm

A possibilidade de um elixir de vida eterna me havia impressionado profundamente.
Supersticioso por índole, ávido de maravilhas e de ciências ocultas, comecei a espionar o torreão onde trabalhavam meu pai e o alquimista.
Às vezes, de lá me chegavam estranhos ruídos, até que o acaso permitiu descobrir-lhe a causa, não sem espanto, seja dito, pois eu não passava dos meus dezanove anos e o instinto das más paixões ainda se me não tinha revelado, de sorte que o crime causava-me pavor.
Errando um dia pelos subterrâneos, à cata de uma brecha que permitisse sair do castelo sem que me vissem, cheguei a uma caverna justamente cavada sob o torreão de Calmor.
Um cheiro estonteante de matéria putrefacta dali se exalava e fui levado a investigar de onde provinha, deparando-se-me, então, uma grande cavidade no solo.
Sondei, com a luz da tocha, aquele presumido poço e vi, estupefacto, que estava cheio de fragmentos humanos, uns já reduzidos a ossos, outros ainda empastados; amálgama infecto e sobrenadante, ainda reconhecível, o cadáver de uma criancinha!
Claro que dali fugi espavorido.
Mas a partir desse dia a vida no castelo se me tornou mais odiosa e passei a aspirar algo que não podia definir.
Aquelas paredes me sufocavam, tudo me parecia mesquinho, insuportável.
Não sabendo como iludir o tempo, passava longas horas num quarto cheio de manuscritos, tentando pacientemente decifrá-los.
Por muito tempo nada mais li que tratados da arte de caçar, crónicas genealógicas de nossa família, etc.; até que, um dia, precioso manuscrito me caiu nas mãos:
era o diário de antigo capelão do castelo que, além de muitas aventuras, contava os pormenores de longo assédio da nossa mansão, cujos moradores, ao seu dizer, teriam perecido se não houvesse uma saída secreta, que desembocava a grande distância, no meio da floresta.
Pudera! Se a tal saída ali não estivesse obstruída, seria a minha válvula de salvação.
O ensejo não se fez esperar e veio, quando, certa vez, por haver trabalhado toda a noite, meu pai só despertaria mais tarde.
Desci ao subterrâneo e, seguindo as indicações do manuscrito, dei com uma porta evidentemente esquecida, tal o emperramento causado pela ferrugem dos gonzos.
Abrindo-a com grande esforço, desci longa escada e atravessei uma galeria bem conservada até esbarrar com grande bloco de pedra.
Removi-o, depois de ingentes esforços, devido à trama de arbustos e raízes que invadiam todas as brechas e, rompendo cerrado matagal, saltei num buraco seco e recoberto de musgo.
Extenuado, porém satisfeito, estirei-me naquele macio tapete e, erguendo os olhos vi, no alto, a copa das árvores seculares, cujos ramos entrelaçados formavam um como zimbório impenetrável.
Aspirei a longos haustos o ar embalsamado da floresta.
Aquela frescura, aquele aroma e a espessura da mata me inebriavam a mim, prisioneiro do berço.
Comecei então a divagar e pensar que a liberdade jamais me poderia aparecer mais bela do que naquele momento.
Tendo assim repousado um pouco, caminhei cauteloso e a cada passo descortinava novos encantos.
Ao derredor, cresciam flores e frutos que eu recolhia, frutos vermelhos e cheirosos, que me sabiam a novidade.
E dizer que eram simples morangos, que eu não conhecia!
Assim, entretido, com essa colheita, não tardou tivesse um brusco sobressalto, ouvindo longínquo latido de cães e relinchar de cavalos, seguido de toques de buzina.
Pouco a pouco, o alarido se foi aproximando e, de um carreiro que me passara despercebido, desembarcou toda uma cavalgada de cavaleiros e damas ricamente trajados.
Rente a mim, o esquadrão multicor atravessou a clareira e tornou a mergulhar na floresta. Era uma caçada!
Senti-me estranhamente amargurado, despeitado.
Atirei-me na relva, mergulhei a face nas mãos. Por que não poderia, filho de poderoso fidalgo, tomar parte naqueles prazeres?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:04 pm

Examinei meus trajes surrados, escolhidos no guarda-roupa dos ancestrais, e conquanto não tivesse a menor noção da moda, não deixei de notar o seu exotismo, rico talvez no seu tempo, mas ridículo em relação com o dos cavaleiros que passaram.
Assim matutava, quando um estalidar de ramos me fez levantar a cabeça: um veado arquejante passou de relance, de perto seguido de grande lebreiro.
Ergui-me de um salto, mas no mesmo instante surgiu na clareira um cavalo que, porventura assustado com o meu vulto, pinoteou e desmontou a cavaleira.
Só, então, notei que era mulher e que, com o pé preso no estribo, corria grande perigo.
Detive o animal, prendi-o a uma árvore e cuidei de socorrer a dama que, felizmente, nada sofrera.
Tratava-se de belíssima jovem de cútis rosada, olhos negros, muito vivos e cabelos louros, a jorrarem do gorrete azul esmaltado de pérolas.
Agradeceu-me, comovida, fixando curiosa minha pessoa e minhas vestes.
- Quem sois vós, que acabais de prestar-me tão relevante serviço?
A quem devo expressar meus agradecimentos?
- Que vos direi, senhora?
Se meu pai soubesse ..
Encarou-me estupefacta e disparou a rir.
- Por Santa Rosa, minha madrinha, que dizeis!
Um homem feito, um cavaleiro, ao que presumo, pelo traje, temer a severidade paterna um acto tão simples?
Vamos, confiai-me vosso nome e guardarei segredo.
Para começar, dir-vos-ei que me chamo Rosa, condessa de Rabenau, nome que por si só, representa a maior garantia.
Tomou-me a mão, mergulhou no meu o seu olhar de fogo...
Fascinado por esse olhar, murmurei quase sem querer:
- Chamo-me Hugo, conde de Mauffen.
- Ah! - disse ela surpresa - sois, então, filho do velho feiticeiro que habita o castelo, conhecido por "Garra do Diabo"?
Mas - acrescentou sorrindo - essa mansão desmente o conceito, porque abriga um querubim, que sois vós...
O elogio me fez baixar os olhos, ao mesmo passo que afastava com a mão os longos cachos louros que me caiam pelas costas.
A moça assentou-se na relva, convidou-me a fazê-lo e entrou a palrear e indagar da minha vida.
Respondia-lhe com evasivas, corando por confessar que era o primeiro dia que passava fora do castelo.
Por fim, levantou-se, dizendo:
- Podeis aqui voltar sempre, pois não moro muito longe e costumo passear por estas bandas, acompanhada do meu cão e de um pajem muito discreto.
Farei um desvio para nos encontrarmos e conversarmos.
Ficai tranquilo, meu jovem poltrão, pois eu virei sozinha.
Montou lépida e estendeu-me a mão, que não ousei beijar.
– Até sempre, belo Hugo, - disse sorridente, atirando uma rosa do corpete.
E desapareceu picando o animal.
Eu, embatucado, ali fiquei afagando a flor, qual uma relíquia, para guardá-la junto do coração.
A partir desse dia, frequentemente me escapava do castelo e, nas horas combinadas, a castelã de Rabenau prendia o cavalo a qualquer árvore para nos sentarmos na relva.
Sempre jovial, contava-me, a cores cambiantes, a vida mundana, que eu de todo desconhecia.
Pouco a pouco, perdendo o acanhamento, também lhe fui revelando minha vida doméstica, as esquisitices de meu pai, sua fabulosa riqueza.
Tudo lhe confessei, menos a existência dos tesouros, aliás sem ideia preconcebida.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:05 pm

Ela deplorou minha sorte, prometeu pensar na minha libertação e acabou confessando-se infeliz no casamento.
Um dia, quando regressava e percorria o subterrâneo, fui detido pelo braço, no momento preciso em que fechava a porta secreta.
Dei um grito supondo que fosse meu pai, mas logo reconheci a voz de Calmor, a sussurrar:
- Aproveitas bem o tempo, Hugo...
E fazes bem, porque a vida aqui é odiosa.
Mas, enfim, diz-me: que preferes tu?
Que denuncie a teu pai estas saídas ou que façamos uma aliança conveniente?
- Explica-te - redargui comovido - pois só no Imaginar a cólera paterna eu perdia a cabeça.
Calmor me atraiu a si e continuou em surdina:
- Amas teu pai?
- Penso que não - respondi hesitante.
Então, morra ele e tu me darás, para garantir este resto de vida, uma quantia sobre a qual acertaremos.
Depois ficarás livre, rico e poderás amar sem peias a bela criatura que te visita lá na floresta.
E terás tudo que desejas:
torneios, festas, ciência, amor...
Desfeito, enfim, o cipoal que te embaraça, ficarás sendo, para todos os efeitos, o mestre e eu... (inclinando-se) serei o astrólogo do mui poderoso senhor Hugo, conde de Mauffen...
Com aquele panegírico do futuro, foi-se-me toda a perspectiva de pesar ou de remorso, e apenas objectei:
- Mas, como matá-lo?
Calmor inclinou-se e me falou no ouvido:
- Com veneno que te vou fornecer.
- Óptimo, mas, para quando?
- Qualquer destes dias.
Separamo-nos e me recolhi agitado; todos os maus pendores que me dormitavam nalma acabavam de despertar...
Bastou um pérfido conselho, uma ligeira sugestão para reflorir a minha velha cupidez, o meu egoísmo e fria crueldade!
Como por efeito da vara mágica de um saltimbanco, eu me tornava, assim, aos vinte e um anos, um consumado criminoso!
Caminhava a passos largos no quarto e mil pensamentos e projectos me repassavam na mente, mostrando-me o futuro faustoso.
Enfim, a tarde caiu, tingindo de rubro o poente e eu me debrucei à janela com este só pensamento:
"conde Hugo, dentro em breve serás senhor de tudo isto e de ti mesmo!"
Como soavam bem aquele título e aquele nome!
Sim, que eram sinónimos de poder, independência, fortuna.
Essas divagações foram interrompidas pelo velho Cristóvão, que me chamava para jantar.
Como de costume, nos reunimos à volta da mesa parcamente servida de algumas carnes frias e uma bilha de vinho.
Nesse dia, pouco comi e logo que ficamos sós, meu pai me disse:
- Vamo-nos.
Compreendi. Íamos aos subterrâneos.
Levantei-me, tomei a tocha e descemos calados.
Como sempre, ele fechou as três portas, acendeu as luzes e abriu os cofres.
Deteve-se um momento de pé, braços cruzados, absorto na contemplação das riquezas que reluziam ao derredor, mas sem demonstrar a costumada alegria.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:05 pm

De repente, um sorriso sardónico lhe franziu os lábios descorados, cravou-me uns olhos duros e falou:
- Pois não é verdade?
Quanta riqueza, quanto poder e quanta independência te facultaria a posse destes tesouros, meu caro Hugo de Mauffen, se pudesses ter a amizade de um astrólogo como Calmor e viver eternamente para gozar estas delícias!?
Um bom pai só pode exaltar os desejos do filho.
Tens inteligência bastante para viver lá fora, fora destes muros, pois não é?
E riu-se de forma que me gelou o coração.
- Pois fica sabendo que aqui hás-de passar o resto da vida, para morrer no meio destas riquezas, quando chegar a tua hora, marcada por Deus.
Aqui não há veneno nem armas, poderemos viver em perfeita harmonia, serás doravante meu tesoureiro...
Aquelas palavras fizeram-me perder a cabeça.
Tudo sabia, então?
Deveria apodrecer ali, assim, naquela caverna, desarmado e separado de Calmor, meu único amigo?
Não havia tempo a perder, o recurso era eliminá-lo.
É verdade que eu estava desarmado, mas, contava com o vigor dos meus braços, em função de tigre espicaçado.
Esses pensamentos não tiveram a duração de um minuto.
Atirei-me a ele, disposto a estrangulá-lo.
Reagiu, engalfinhamo-nos e rolamos por terra.
Senti-lhe os dentes cravados nas costas, ao mesmo tempo que lhe metia o joelho ao peito, procurando a garganta.
A luta prosseguia, meu pai arquejava no auge do desespero, quando, súbito me veio à ideia o menor dos cofres, quase ao alcance da mão.
De um salto, com enorme esforço, que só o desespero podia conceber, tombei o cofre em cima dele e todo o ouro acumulado rolou pelo chão.
Depois, como louco, fui derrubando os outros cofres e atirando-lhe tudo que me caía nas mãos:
salvas maciçosas, vasos, taças, barras de ouro, moedas...
E já em breve, de sob os destroços preciosos, rompiam gemidos abafados.
Compreendi que o seu possuidor, soterrado no próprio tesouro, assim liquidava as contas neste mundo.
Não obstante, continuei atirando-lhe ouro e mais ouro, até que de todo me exaurisse...
Estonteado, ofegante, suava por todos os poros, encostei-me à parede.
Enfim, livre, rico, independente!
Entretanto, como sair dali?
As chaves, certo lá estavam com ele, sob o caótico tesouro e faltava-me coragem para rever o cadáver.
Abaixei-me trémulo, tacteando o lajedo e logo um objecto frio me chamou a atenção:
era o molho de chaves que, durante a refrega, lhe caíra do cinto e resvalava para um canto da caverna.
Levantei-me mais calmo e tratei de me safar, sem olhar para trás.
Ao fechar a última porta, suspirei aliviado.
Nunca mais, em parte alguma, o pátrio poder me tolheria a liberdade.
Resolvi, porém, encobrir a verdade; não queria apresentar-me ao mundo com a pecha de parricida.
Todavia, como explicar o desaparecimento da vítima?
Depois de reflectir um momento, fui a outro compartimento do subterrâneo, onde havia profunda cisterna mal resguardada por uma grade de madeira apodrecida.
Com alguns pontapés derrubei um lado da grade, apaguei a vela e subi as escadas gritando por socorro, porque meu pai tinha caído de forma imprevista e a luz se apagara.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:43 pm

Cristóvão e Sibila acorreram de pronto; munindo-nos de archotes, descemos.
Chegando ao local, o velho Cristóvão exclamou:
Deus de misericórdia! - se o amo aí caiu, tudo está acabado.
- Sim, foi aqui mesmo - disse, fingindo-me desesperado - ele, hoje, quis visitar este poço e vi-o debruçar-se para aluminar o fundo do mesmo; penso que pretendia dizer-me qualquer coisa, porque cheguei a lhe ouvir estas palavras - vês, Hugo? - quando a madeira estalou, ele deu um grito e afundou.
Com o susto, a vela me caiu das mãos e é tudo o que posso dizer.
O velho servo suspendeu o archote procurando aclarar o interior do poço.
No fundo, um disco brilhante espelhava a luz do archote.
- Sim - prosseguiu Cristóvão examinando a grade quebrada - esta madeira está podre e assim, infelizmente, o que só nos resta é rezar pela alma do patrão.
Ouvindo essas palavras, entrei a deblaterar o melhor que pude, e creio que me saí bem, porque os dois velhos fâmulos também me consolavam o melhor que podiam.
- Não te dizia que ainda veríamos uma enorme desgraça? - sussurrava a velha Sibila meneando a cabeça.
Eu bem sei que, quando aparece D. Iolanda, é agouro na certa.
- Que D. Iolanda? - perguntei admirado - pois nunca ouvira pronunciar esse nome.
- É uma ancestral do defunto conde:
minha avó contava que ela morreu de maneira inexplicável; mas a história é longa e não sei se estareis disposto a conhecê-la.
O mistério e a tragédia sempre exerceram grande fascinação sobre meu espírito.
Comumente, em sonhos, eu via coisas que a realidade contrastava.
Essas visões oníricas eram bem diversas, e muito mais belas que as do meu ambiente natural e, nesse caso, era ainda um mistério que estava em jogo.
- Conte-me, então, Sibila, o que sabes a respeito dessa parenta que anunciou o triste fim de meu pai.
Deixemos, porém este maldito lugar.
Subimos ao salão de jantar; Cristóvão chegou a cadeira em que costumava sentar-me junto de meu pai, lançou um punhado de gravetos ao fogo, e Sibila, encarando-o, disse:
Se me esquecer de qualquer detalhe, lembra-o tu que tens boa memória e conheces a coisa de cor e salteado.
A um sinal afirmativo do velho, Sibila começou:
- Vosso bisavô que, como todos os vossos antepassados, se chamava Hugo, era um homem já maduro, quando assediou e tomou um castelo, cujo nome não me lembro.
Vencido e preso o castelão, a nobre Iolanda, sua filha, lançou-se-lhe aos pés, suplicando a liberdade do pai.
Quando vosso avô viu a jovem Iolanda, o demónio entrou nele, pois só o demónio poderia inspirar um homem cinquentão a esposar uma rapariga de dezasseis anos.
Trocando seu futuro pela libertação do pai, a jovem Iolanda aceitou a proposta insensata e o casamento se realizou com grande pompa.
Minha avó era então menina de seis ou sete anos, quando a nova castelã entrou na família e foi ela quem me contou que um querubim não podia ser mais lindo que essa criaturinha de cabelos de ouro e olhos cor de céu.
Três anos correram plácidos e indemnes de qualquer contratempo, quando o velho castelão houve de partir para visitar um irmão moribundo, por sinal que alto dignitário eclesiástico - Bispo, se me não falha a memória.
O velho conde, homem muito religioso, não pôde esquivar-se ao apelo do irmão e partiu deixando a mulher e um filhinho de dois anos.
Na sua ausência, um jovem trovador, sem recursos e enfermo, suplicou hospitalidade no castelo.
A caridosa Iolanda o recebeu e ordenou que o tratassem da sua enfermidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:43 pm

Uma vez curado, o rapaz fez questão de cantar para a sua benfeitora.
Acontece, porém, que, restabelecido e bem posto, o rapaz surpreendia a quem o visse, por sua beleza original.
Era nativo, creio, de longínquo pais meridional.
Cútis morena, cabelos negros, cacheados, olhos brilhantes de azeviche.
Chamava-se Ângelo e parece - Deus me perdoe que a castelã viu esses olhos de muito perto, por eles se enfeitiçando.
Porque a verdade - Deus me perdoe - é que o mandava chamar frequentemente a este torreão de lado da floresta, cuja entrada é murada, como sabeis.
Eles aí passavam horas e horas, e por vezes o trovador era visto a cantar no peitoril da janela, enquanto a dama fiava na sua roca.
Uma noite, quando menos se esperava, o velho conde regressou.
Satisfeito e bem disposto, foi logo perguntando pela mulher.
Ninguém se atreveu a indicar a torre, por lá estar, no momento, o belo trovador.
Suspeitoso, trovejante, o castelão exigiu que lhe dissessem a verdade, até que um pajem mais ousado lhe apontou a torre.
Dois escudeiros viram quando ele galgava as escadas, lépido, e batia à porta.
Minutos após voltava sozinho, gaguejante, e ordenava que murassem a saída do torreão.
Ninguém soube jamais o que se passou por lá; depois de muito tempo, porém, todas as vezes que o chefe da casa tem de morrer, a jovem Iolanda aparece com o seu vestido branco, como que rompendo a muralha para percorrer toda a casa, deter-se no portão da entrada e nele traçar um sinal com o punhal sangrento que traz consigo.
Assim que, há três dias, se nos mostrou a mim, a Cristóvão e a dois escudeiros.
E aí temos a morte desastrada do amo, quando menos a esperávamos.
A narrativa de Sibila me impressionou profundamente e logo perguntei:
- E meu avô como morreu?
- Desastradamente também - respondeu persignando-se - andava à caça, o cavalo caiu e o senhor vosso avô foi estripado por um javali.
Daí me veio à mente saber a sorte de minha mãe.
Mas não tive a necessária coragem de indagar, detido por vago sentimento de temor.
Respeitei o mistério, despedi o casal de velhos e fui procurar Calmor.
Contei-lhe que meu pai nos havia espionado e descoberto os planos; que me levara ao subterrâneo tentando afogar-me no poço e quando lhe resistia, tropeçou e lá caiu para sempre.
O alquimista, sorridente, me apertou a mão e disse:
- Fiquemos amigos e saiba agora quem sou e como me chamo.
Arrancou a barba e a cabeleira postiças e tive diante de mim um homem ainda moço, forte e de boa aparência.
- Que quer dizer isto? - exclamei surpreso.
- Quer dizer que sou Bertrand, barão de Eulenhof, e aqui tem alguns dados a meu respeito:
de muito moço, experimentei toda sorte de provações, até o extremo de não ter onde asilar-me.
Eventualmente prestei serviços a um alquimista e astrólogo, chamado Calmor, e quando lhe pedi um conselho, disse-me:
"Conheci, na minha mocidade o Sr. de Mauffen, que vive agora isolado no seu castelo; ele gosta de Astrologia; portanto, disfarça-te o melhor possível, toma o meu nome e vai até ele, porque lá ninguém te incomodará.
Aceitei o conselho; aqui estou.
O verdadeiro Calmor, que ainda vive, é quem me fornece elementos para representar o papel de alquimista."
Os dias seguintes foram ocupados na orientação dos negócios.
Tratei, a seguir, da reparação interna do solar e de me vestir de acordo com o meu tempo e a minha posição social.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:43 pm

Fiz um curso de esgrima e equitação, e quando me julguei em condições de aparecer na sociedade isento de maiores críticas e confrontos desfavoráveis, apresentei-me a Rabenau e a outros magnatas da região.
O barão Eulenhof se me revelou bom companheiro e valente gastrónomo, mas sempre metido em casa, evitando compartilhar dos meus passeios e visitas.
Assim cheguei, finalmente, a satisfazer a paixão que nutria pela condessa de Rabenau e tudo quanto me faltara e negligenciara, sob o jugo paterno, foi amplamente compensado no convívio social.
Não me fartei, contudo, à grande surpresa, quando verifiquei que Rosa e Eulenhof já se conheciam intimamente e confidencialmente.
Muito mais tarde, vim a saber quanto essa mulher, frívola e sensual, era astuciosa nos seus planos de infidelidade conjugal.
Era de facto singular a manobra que desenvolvia para entreter relações simultâneas comigo, com o duque, com Eulenhof e alguns fâmulos favoritos.
A esse tempo, porém, eu estava cegamente apaixonado e nada podia ver.
Sempre tive muita vontade de conhecer o verdadeiro Calmor que, com o nome de Rupert - o feiticeiro - vivia isolado numa floresta vizinha.
Rosa, que já o conhecia, me propôs lá irmos juntos e consenti satisfeito.
Calmor era um velho alto e magro, muito agradável.
Morava numa casinha isolada, em companhia de uma irmã chamada Gilda, idosa de quarenta anos e feia como ela só.
Dizia-se que ela também praticava a Medicina e tinha grande clientela clandestina em toda a região.
O conceito de grandes feiticeiros, que os dois irmãos desfrutavam, lhes granjeava a protecção dos poderosos, mais valiosa que todos os fossos e pontes levadiças.
Se a personalidade do astrólogo não me agradou à primeira vista, seus trabalhos muito me satisfizeram.
Amador apaixonado de todas as ciências ocultas, admirei-me quando ele me disse haver descoberto o meio de conservar a eterna juventude e que estava em vésperas de encontrar a pedra filosofal; que conhecia o efeito de todos os tóxicos e podia, em casos excepcionais, evocar o diabo.
Compreendi, então, de onde surgiram as ideias de meu pai.
Quem poderia saber?
Talvez eu tivesse mais sorte e conseguisse obter o maravilhoso elixir.
O essencial era conquistar o precioso sábio.
Logicamente, propus-lhe estabelecer-se em minha casa para o resto da vida, com a só condição de lhe assistir às experiências.
Concordou e semanas depois instalou-se no castelo.
A irmã não quis acompanhá-lo e ficou morando na floresta.
Depois que o tive comigo, veio-me a ideia fixa da evocação do diabo.
Posto que dotado de senso analítico e, demais, céptico, as ideias contemporâneas e o pendor para o maravilhoso me levavam a admitir a existência de Satanás.
E concluía que, se de facto o truculento rei do inferno existisse, convinha conhecê-lo quanto antes, pois já me havia, de alguma sorte, tornado recomendável com a morte de meu pai.
Provavelmente ter-me-ia ajudado no parricídio e haveria de reclamar a recompensa.
Aliás, a hipótese de cair nas garras de Satã me preocupava de longa data; os sacerdotes muito falavam dele e não havia muito, que terrível acontecimento ocorrera na Abadia dos Beneditinos, situada não longe do meu castelo.
O caso se passou com o despenseiro do convento que retirando vinho na adega, perdera a bucha do tonel:
furioso, vendo correr aos borbotões o precioso líquido, chamara pelo diabo e logo o teve diante de si, a figura do frade falecido, que o antecedera no cargo e que, abanando a cauda e meneando os cornos, lhe dissera:
"Ainda ousas chamar-me e aumentar minha sede, aqui onde passei tão belas horas?
Vem, pois, comigo e goza do meu gozo".
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:44 pm

Com isto, atirou-se-lhe à garganta e tê-lo-ia estrangulado, se o frade não tivesse gaguejado uma Ave Maria!
Outros monges acorreram e puderam ver no pescoço do colega os sinais da agressão.
Sem embargo, o despenseiro falecia no dia seguinte, sem que pudesse receber os sacramentos, alegando que o diabo lhe fechava a boca.
Esta história corria de boca em boca e tinha-me sido confirmada por um monge do convento.
Preciso era, pois, pôr a coisa em pratos limpos.
Então, prometi a Calmor grande recompensa, se me facultasse ver e falar ao demo, de molde a convencer-me da sua existência.
Olhos faiscantes de alegria, o velho mago se comprometeu a fazer a evocação, mas com alguma demora, visto que a coisa requeria uns tantos preparativos, aos quais de resto eu poderia assistir.
Um mês mais tarde, dizia-me:
Tudo está pronto; agora, na lua cheia, podemos ir ao local onde o soberano das trevas gosta de manifestar-se ...
Mas, diga-me: tem coragem de lá ir?
- Onde é isso? - respondi, rindo-lhe nas bochechas.
Citou, então, um sítio realmente mal afamado e não longe da Abadia dos Beneditinos.
Era uma região cortada de colinas pedregosas e profundas grutas, por onde corria volumosa torrente.
Um desses caldeirões era denominado TÚMULO outro, BERÇO DO DIABO, por ser o mais ruidoso e mais profundo, e onde costumavam lançar os suicidas.
Nossa entrevista seria no BERÇO DO DIABO.
Ao lá chegarmos, Calmor acendeu uma tocha e uma nuvem de corvos esvoaçou crocitante.
Notei então que uma grossa corda cheia de nós, estava solidamente amarrada na ponta de um fraguedo.
O mágico passou-me a tocha e deixou-se escorregar para o abismo.
Depois, mediante o sinal convencionado, desci, também, até pisar terra firme.
Calmor acendeu três tochas e, aclarado por elas pus-me a examinar o ambiente sinistro.
Reconheci desde logo que o fundo desse abismo era muito mais vasto do que se poderia supor.
De um lado, corria sereno o riacho e por todo o solo arenoso viam-se ossos espalhados.
Bem no centro havia uma pedra redonda e maciça, semelhante às de moinho, e nas beiradas dessa pedra, treze caveiras simetricamente dispostas.
Quatro grandes pilhas de zimbro, adrede preparadas, foram acesas.
De repente um calafrio me fez estremecer e recuar sobressaltado:
é que assentado ao redor da pedra, silenciosos, imóveis, estavam precisamente treze lobos, cujos olhos coruscavam como carvões em brasa.
De vez em quando Calmor lhes atirava nacos de carne tirados de um saco e que verifiquei, com grande surpresa, serem restos humanos.
As feras abocanhavam cada qual o seu quinhão, sem se moverem do lugar em que estavam.
Diante desse quadro não pude evitar uns arrepios; e Calmor, notando-o. disse:
- Não se assuste, eles são mansos e estão afeitos à esta iguaria; entretanto, para começar, precisamos da Gilda.
Não sei porque demora.
No mesmo instante, a corda foi sacudida com violência.
- É ela - disse Calmor, e de facto Gilda não tardou aparecer, saudando-me respeitosa e dizendo esperar, também ela, uma recompensa especial, caso eu ficasse satisfeito com a experiência.
Prometi-a e Calmor declarou que era tempo de começar.
Mandou que a irmã se assentasse em frente da pedra redonda, com as costas apoiadas no penhasco.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:44 pm

A seguir, acendeu um molho de zimbro e tomando um grande livro, começou a recitar invocações, fazendo gestos para cima e para baixo, primeiro com uma, depois com as duas mãos, ora sobre Gilda, ora sobre os lobos.
Estes entraram a uivar lugubremente, mas pouco a pouco se foram calando, de sorte que apenas se ouvia o crepitar do zimbro ardente.
Calmor assentou-se também por sua vez, e colocando as mãos sobre duas caveiras, convidou-me a imitá-lo.
Assim, ficamos imóveis por algum tempo, quando me pareceu ouvir pancadas e ruídos estranhos.
Simultaneamente, intenso frio começou a invadir-me o corpo.
- Gilda - perguntou Calmor - podes ver o nosso poderoso mestre e com ele conversar?
Ouviu-se um gemido.
Olhei para a mulher e vi, com espanto, que ela estava deitada, como que adormecida, com os membros inteiriçados e respirando com dificuldades.
Chamas esquisitas, semelhantes a fogos-fátuos, oscilavam-lhe acima da cabeça.
- Sim - respondeu com dificuldade - o mestre virá e os seus servos (citava nomes desconhecidos) já se encontravam aqui reunidos(1).
Nesse momento, a respiração de Gilda tornou-se sibilante e ela disse, quase sufocada:
- Ei-lo que chega!
Ergui a cabeça, olhei e o que vi me terrificou!
Junto ao corpo de Gilda se formava lentamente uma luz esverdeada e oscilante que aclarava, nítido, o corpo de um homem agigantado e negro de azeviche. O rosto, assaz belo, era animado por dois olhos rutilantes.
À cabeça, como que envolta numa chama, dois grandes chifres!
Levantando a mão cabeluda, de unhas recurvas, com voz metálica, mas como que amortecida pela distância, falou distintamente:
- Chamas-me para te provar que existo:
Sabe então que te ajudo e inspiro e que teus actos te ligam a mim; acompanho-te de século a século e te asseguro a impunidade, com todas as delícias da Terra, reivindicando apenas para mim as torturas de tua alma.
E agora, sereis amigo fiel e te seguirei, bem como àqueles que conheces.
Eu não podia despregar os olhos do fantasma, cujo sorriso satânico me petrificava.
Depois tudo se foi transformando em espiral de fumo negro que se dispersou no alto.
Tonto, endurecido, como se tudo rodopiasse em torno de mim, abri os braços e tombei desacordado.
Quando despertei, ainda lá estava no antro.
Regressei ao castelo muito impressionado com a certeza da existência do diabo ou, no mínimo, de alguém que com ele se parecia.
Durante algum tempo, essa ideia arrefeceu meu bom humor; pouco a pouco, porém, os encantos da vida nova e os amores de Rosa sobrelevaram todas as apreensões.
E foi nesse ínterim que me deixei levar a um crime tão horroroso, que ainda hoje me faz estremecer ao recordá-lo.
Certa feita Rosa quis saber de Calmor se haveria meios cabalísticos capazes de ligar duas criaturas por laços indestrutíveis, tanto na Terra, como no Céu ou no Inferno.
O mago declarou que a Cabala indicava como recurso infalível, nesse caso, que os pais bebessem o sangue do próprio filho.
Mais tarde, quando já esquecido o incidente, sucedeu que Rosa, enquanto o marido se ausentara em longa viagem, deu à luz, secreta e clandestinamente, um casal de gémeos.
Calmor, Gilda e eu fomos os únicos sabedores do facto.
O que fizemos do menino, não sei; mas sei que a menina foi entregue a Gilda e levada a minha casa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:44 pm

No curso de uma das suas visitas a condessa lembrou a consulta feita Calmor e eu, no desvario da minha paixão, estrangulei a inocentinha, para lhe bebermos, Rosa e eu, 'duas taças do sangue vivo.
Isto posto, Rosa atirou-se em meus braços, delirante, em transportes de volúpia inconcebível.
E assim se consumou o monstruoso sacrilégio, que parece nos haver ligado indissoluvelmente no crime e para o crime, visto que em todas as minhas reencarnações encontro essa pérfida mulher e, por desgraça e perdição, sou ela arrastado na senda criminosa.
Pelo que precede, vê-se que o nosso amor ultrapassava os limites do natural; e de facto, chegamos a consumar deboches que mal se poderiam conceber e descrever.
E me assim não fosse, quem acreditaria neles?
Pois, apesar disso, Rosa me traía, quase às minhas barbas, por assim dizer, até com o meu escudeiro.
Quando me certifiquei dessa indignidade, meu desespero não teve limites; mas, em vez de o descarregar na mulher infiel vingava-me diabolicamente nas pobres vítimas da sua irresistível tentação.
O suplício que imaginei para esses infelizes não passava, aliás, de remanescentes de Tibério:
cozinhava-os a fogo lento, num banho que atingisse a ebulição.
Seus sofrimentos horríveis e os gritos lamentosos que soltavam, ainda me martelam os ouvidos; e todavia lá me conservava impassível, até que de todo se extinguissem!(1).
Os crimes odiosos que então cometi e os sofrimentos que mais tarde experimentei, me incapacitam para tudo confessar pormenorizadamente, certo de que despertaria contra mim a reprovação universal; todavia, os guias me constrangem a mencionar, pelo menos, os actos de ordem geral visto que me impuseram, como condição expiatória, o revolvimento do passado e a humilhação voluntária, a fim de haurir no horror dos próprios crimes a força de contramarchar para o bem.
Retomo, então, meu depoimento.
Meu coração se galvanizava cada vez mais, não havia escrúpulos que me contivessem.
Para conservar a beleza e a juventude, bebia sangue de recém-nascidos e me banhava em sangue humano.
A fim de o conseguir, aproveitava quantas vítimas me caíam nas mãos:
viajantes anónimos, peregrinos, mercadores ambulantes, pobres trovadores, enfim, todos que me batiam às portas do castelo e podiam desaparecer sem provocar suspeitas.
Sim, todos eram imolados, sem dó nem piedade; e o que mais é: barbaramente torturados.
Assim transcorreram anos, até que sobreviesse um grave acontecimento na vida de Rosa.
O conde Bruno, miseravelmente traído, escapou de ser assassinado, quando a surpreendeu em colóquio amoroso, e ela, temendo a vingança do marido ultrajado, abandonou-lhe uma filha recém-nascida e se refugiou no meu castelo.
Esperava que, passada a primeira explosão de cólera, conseguiria uma reconciliação; mas o conde fez constar que ela morrera de parto e mandou erigir soberbo monumento sobre a sua campa.
Impossível, então, o regresso ao lar.
Portanto, furiosa mas condenada a passar por morta, a condessa de Rabenau ficou em minha companhia, mas sem ousar parecer a quem quer que fosse.
Minha paixão por ela aí arrefecera muito.
Não obstante, essa extraordinária criatura tinha o condão de reavivar o fogo extinto.
Eu já havia descoberto as suas intimidades com Eulenhof; mas, ao reprochá-la, respondia que o verdadeiro amor não se poderia concentrar em uma única pessoa, antes requeria liberdade, a exemplo do sol, cujos raios fecundantes não se poderia exigir brilhassem aqui, ali ou acolá, visto deverem aquecer e vivificar por toda parte.
Nos últimos tempos, Eulenhof viajava frequentemente e muitas vezes se ausentava meses seguidos.
Um dia, voltou muito preocupado e me pediu que lhe prestasse grande serviço.
Concordei de bom grado, pois estimava muito esse companheiro, alegre e inteligente.
Contou-me então que esperava alguém, portador de importante mensagem e para quem requisitava um quarto isolado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:44 pm

Eu deveria, além disso, abster-me de falar a essa pessoa, não me envolver, finalmente, em coisa alguma pertinente ao assunto.
Tudo aceitei, mas, intrigado com o caso, procurei observá-lo a distância.
Ao cair da noite, vi chegarem três homens, sendo que um deveria estar muito doente, pois se aguentava na sala amparado pelos outros dois que, auxiliados por Bertrand, o levaram para o quarto, lá se trancando todos.
Uma hora depois, Eulenhof me procurou.
- Talvez precise ausentar-me por alguns dias e, neste caso, quero que consintas aqui permaneça o hóspede enfermo, até que ele possa regressar.
Não dará incómodo nem preocupações, pois a moléstia é passageira e os pajens cuidarão dele.
Ciente e concorde, não deixei com isso de ficar alerta.
Não consegui, porém, algo surpreender de extraordinário, senão que do quarto saíram duas pessoas e deixaram o castelo.
Embuçados e envoltos em pesados mantos, não os pude reconhecer nitidamente, mas afirmo que um, pela figura pareceu-me Eulenhof e outro era rapaz muito novo, alto e magro.
Durante três dias nenhum movimento transpirou do quarto ocupado pelo enfermo e seu presumido enfermeiro.
Intrigado com o facto, decidi ver o que ocorria; bati, ninguém respondeu; arrombei a porta e o quarto estava deserto!
Notei que as cortinas do leito tinham sido retiradas.
Surpreendido, afastei, então, as pesadas cortinas e recuei estupefacto:
Eulenhof ali estava inerte, com a morte estampada no rosto!
Seria possível?
Que significaria aquilo?
E o enfermo e o pajem, que eram feito deles?
Depois, mais calmo, examinei com mais atenção o cadáver e me convenci de que não era Bertrand, porém outra criatura, extraordinariamente parecida com ele.
Certo havia pequenas diferenças, tais como: idade, (Eulenhof era mais moço), o cabelo mais curto, os traços fisionómicos mais acentuados, coisas que só um observador prevenido poderia distinguir.
A verdade é que o pajem tinha desaparecido e Eulenhof teria, talvez, partido com o jovem desconhecido, deixando-me o cadáver do sósia...
Mas quem era e donde vinha este sósia?
Que parentesco haveria entre eles?
Mistério! mistério...
Examinei, mais uma vez, o cadáver:
as vestes simples nada apresentavam de indício!; nenhuma cruz, amuleto ou jóia; apenas na espádua um sinal estranho, que me pareceu feito com ferro em brasa.
Desiludido de qualquer pista, persuadi-me, no entanto, de que Eulenhof tinha ido preencher algures o lugar do morto.
Interroguei Rosa e nada me soube ou quis dizer.
O tempo é que me havia de esclarecer.
Ficando só com a companheira, nossa vida no castelo retomou o ritmo habitual e longos meses se escoaram sem Bertrand, quando percebi que Rosa fazia investigações meticulosas em todos os recantos da casa.
Assim, palpava as paredes, móveis, examinava caixilhos, etc.
Admirado e aborrecido, perguntei-lhe o que procurava com tanto afã e respondeu com um olhar percuciente:
Ignoras, então, o que por aí se diz sobre o destino que teve tua mãe?
A pergunta me fez estremecer, pois jamais interrogara alguém a tal respeito.
Mas, poderia duvidar de qualquer tragédia?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:44 pm

- Ora muito bem ! - repliquei - que sabes tu a respeito?
- Por mim nada sei; mas, o que por aí se diz é que tinhas dezoito meses quando te nasceu um irmão e teu pai, muito sociável nessa época, quis festejar o baptizado com grande pompa, tendo convidado toda a nobreza desta região.
É claro que nada testemunhei de tudo isso; mas minha tia me contou que foi uma festa esplêndida.
Posto que tua mãe não estivesse de todo refeita do parto (o baptizado foi antecipado porque teu pai tinha de viajar, a negócios), apresentou-se regiamente vestida e linda que era, provocou a inveja de todas as damas presentes.
Até aí tudo correu bem, natural e claramente; mas daí por diante entra em jogo o mistério.
Foulques de Rabenau, irmão mais moço de meu marido, estava entre os convidados e dizem que teu pai o surpreendeu na alcova conjugal, abraçado a tua mãe, junto ao berço do recém-nascido.
O conde Hugo, louco de ciúmes, dizem que imaginou uma desforra idêntica à do avô, começando por escorraçar os convidados com o semblante feroz.
O que depois ocorreu ninguém sabe; mas o facto é que ninguém, jamais, pôs os olhos em tua mãe e a própria alcova do casal se evaporou.
Foulques esteve oculto muitos dias, com grande mágoa para sua mulher, que dera à luz Lotário, e ainda estava de resguardo.
Mais tarde, Foulques apareceu e ninguém soube de onde vinha.
Dizem que a mulher nunca mais lhe sorriu; mas o certo é que o perdoou e viveram felizes até o fim da vida.
Toda a afeição de Foulques se concentrou, então, no filho único, esse mesmo Lotário, belo e venturoso rapaz.
Compreendes agora que procuro a alcova de tua mãe, no intuito de reaver as jóias que ostentava naquela noite memorável.
Nada respondi, mudando de assunto; mas à sua revelia, também encetei meticulosas pesquisas.
Uma indicação do velho Cristóvão me ensejou boa pista e acabei descobrindo uma porta de entrada para a célebre alcova.
A porta principal estava barrada e não lhe toquei, é claro, mas havia uma outra menor, habilmente disfarçada.
Certo, meu pai tê-la-ia esquecido, ou talvez julgasse que ninguém a encontraria.
Enfim, coração aos pulos, varei, certa manhã, a alcova que me viu nascer.
Os raios do sol nascente mal se coavam através das vidraças empoeiradas e recobertas de teias de aranha.
Luxuoso ambiente que fora, rescendia agora o mofo, com o seu rico mobiliário desbotado.
Ao fundo, sobre o estrado, grande leito brasonado, com cortinas de seda prateada e ao lado um berço, e junto deste, no solo estendida, uma forma humana.
A massa de cabelos louros que lhe rodeavam o crânio, e os tecidos de seda que o envolviam, identificavam um cadáver de mulher.
Detive-me um instante, meditativo e sonhador.
Compreendia, então, a selvática misantropia de meu pai.
A perda da esposa amada o transformara em sórdido usurário e eu, fruto da vítima, vinguei-a mediante um atentado horrível.
Procurando repelir tais pensamentos, comecei a examinar tudo que me rodeava:
o berço estava vazio e a criança, ou antes, o seu cadáver, havia desaparecido, talvez levado pelo conde Rabenau, miraculosamente evadido.
Aproximei-me do corpo de minha mãe, espanei o pó que o encobria e não lhe pude ver os traços, senão apenas o esqueleto de pele negra e ressequida, que timpanava e chocalhava ao toque de meus dedos, como se fora um saco de ossos.
As jóias, porém, ali estavam perfeitas, rutilantes.
Deixá-las ali, seria rematada tolice.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

Que adiantariam à morta?
Consultar Rosa, também não me parecia prudente.
Resolvi operar sozinho.
Vencendo tal ou qual repugnância, coloquei sobre a mesa uma bacia de prata e um vaso de cristal, ajoelhei-me junto ao esqueleto e comecei por desentranhar dos louros cabelos o gorro fixado por compridos grampos; retirei, depois, o colar de pérolas e, servindo-me da adaga, principiei a descoser as jóias, atirando-as no vaso de cristal.
O som que produziam no cristal repercutia de modo singular naquele ambiente de silêncio e morte.
Por vezes experimentava calafrios quando, movendo o cadáver, a seda que o revestia me estalava sob os dedos trémulos.
Nesses momentos eu me detinha, as mãos como que recusavam operar e os olhos inquietos varejavam todos os cantos.
Revelava-me, assim, o homem do meu século:
- supersticioso e crédulo, temendo os mortos e acreditando no diabo.
Contudo, a tarefa estava concluída, a bacia e vaso cheios.
Levantei os despojos, depositei-os no leito, estendi-lhes em cima a colcha riquíssima e cerrei as cortinas, dizendo comigo:
aqui ficarás enquanto existir este castelo e ninguém, absolutamente, perturbará teu repouso.
Depois, ajoelhado, bati no peito, rezei um Pai-nosso por alma da defunta e saí de costas, receando que o diabo me agarrasse pela nuca, visto lhe haver arrebatado aquelas riquezas e profanando os seus domínios com uma prece sincera.
Fechando a porta secreta, inutilizei a saída e mandei colocar novo revestimento de madeira para encobri-la de uma vez para sempre.
Passado algum tempo, presenteei Rosa com riquíssimo broche, comunicando-lhe que havia encontrado o corpo de minha mãe, e que àquela jóia fazia parte das preciosidades que a revestiam.
Creio que não ficou muito satisfeita, mas de resto, que direito lhe assistia de reclamar?
Pouco depois deste incidente, ela me abandonou e só alguns anos -mais tarde fui encontrá-la como proprietária de modesta hospedaria.
Todos a conheciam:
chamava-se, então, Berta.
Uma vez só, dediquei-me com mais afinco à Alquimia junto de Calmor, que me inspirava cega confiança.
O principal objectivo da tarefa era, já se vê, o embelezamento e conservação do corpo, colimando a imortalidade orgânica.
O regime que me impunha não deixava de ser algo nojento mas tolerado, porque estava absolutamente convencido de sua eficácia.
Assim, todas as manhãs bebia um copo de leite de loba; friccionava o corpo com sangue de pombas brancas, ou de ursos, quando os podia obter a peso de ouro, isto para adquirir aparente doçura de trato. Usava também um colar de safiras como preventivo de mau-olhado.
Todavia, as cerimónias mais sinistras me passavam no laboratório de Calmor, composto de três quartos repletos de material adequado e de animais, como por exemplo:
gatos pretos, corujas, morcegos, mochos, etc.
Um dos quartos era pintado de preto, ostentava ao fundo um altar de pedra e, ao lado, grande banheira também de pedra, na qual, findas as cerimónias cabalísticas, eu me banhava em sangue humano, por assegurar a inalterável juventude.
O altar era destinado a imolação das vítimas, cujo sangue abastecia a banheira, quer se tratasse de tenras criancinhas recolhidas por Gilda, quer fossem adultos pilhados em aldeias distantes, ou entre a pobreza.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

Calmor as colocava sobre o altar, fazia-me ajoelhar nos degraus e, com aguçado estilete lhes perfurava o coração.
Tocava-me então sugar - o que fazia com prazer selvagem - o sangue que esguichava da incisão. Pudera nato! Se era essência de vida que absorvia...
E registo-me que me afeiçoei a essa monstruosidade a tal ponto que as contracções de agonia das pequeninas vítimas em nada me impressionavam.
Posto que muitos crimes espantosos se desenrolassem nesse laboratório, declino de relatá-los aqui, já pela revoltante torpeza, já porque a descrição me seria muito dolorosa.
Muitas vezes, quando não trabalhávamos, abordávamos assuntos interessantes que ele, Calmor recolhera no curso de sua longa existência; outras vezes, dava-lhe para evocar o seu demónio familiar, que traçava a carvão, mil grandes
caracteres, as explicações requisitadas.
Aliás, respostas categóricas, exactas, adequadas.
Uma noite, tínhamos falado de fatalidades trágicas, porventura hereditárias em certas famílias, cujos membros, em maior parte, sucumbiam desastradamente, bem como de aparições fantásticas, etc.; e todos esses temas me haviam recordado a narrativa de Sibila, concernente a meu avô.
Minha impressão foi tal que, ao recolher-me ao leito, ainda pensava no caso trágico.
Insone, levantei-me e debrucei-me à janela, contemplando a negra torre que o luar envolvia em branda claridade.
Aquelas estreitas janelas gradeadas facultariam, decerto entrever a escada cuja entrada fora interdita...
Que haveria lá dentro, naquele ambiente que meu despótico avô tinha fechado, há mais de 150 anos?
A mim me custava compreender esse ânimo de vingança implacável, pelo simples repto de um coração que só a ele deveria pertencer.
Sem dúvida os culpados, surpreendidos pelo marido enganado, ainda por ali, andariam guardando o castelo e D. Iolanda surgia, sombra vingadora, para anunciar a morte dos Mauffens.
Dias consecutivos passei resistindo ao desejo de penetrar na torre, desejo que me parecia obsessão.
Por fim, não me pude conter e, uma noite, depois do jantar, chamei alguns homens munidos de picaretas e outras ferramentas, deitando mão à obra.
Os operários investiram a muralha e, depois de ingente trabalho, pedras, cimento, tijolo, começaram a ruir.
Tomado de viva curiosidade, respiração opressa, eu assistia à faina, e à medida que ela avançava, uma porta ia surgindo.
Logo que suficientemente desafogada, verifiquei estar fechada com enorme cadeado.
E a chave? Despedi os trabalhadores e fui para o meu quarto, pondo-me a examinar todos os molhos de chaves do castelo.
Enquanto se demolia a tapagem, a noite fechara de todo; mas isso não era razão para deter-me.
Curioso e resoluto, tomei um archote e voltei à carga.
Depois de lubrificar a fechadura, experimentei as chaves, uma por uma, até que acertei e, com algum esforço, o cadeado cedeu e a porta rangeu nos gonzos enferrujados.
Parei um instante, estonteado, diante da escada, cujos degraus brancos e limpos atestavam que nenhum pé os havia pisado.
Galguei-a, lento, e a cada volta o luar se esbatia nas grades da janela e no meu vulto magro.
Mas, à proporção que subia, sentia-me presa de estranho torpor, até que estaquei, tonto.
As pernas fraquejavam, as pupilas me pareciam de chumbo, invencível sonolência me empolgava.
Finalmente, a luz se apagou e tive sensação de forte murro na cabeça.
Entretanto, concomitante ou instantaneamente, me vi surgir a mim mesmo no topo da escada, experimentando uma sensação indefinível.
Dir-se-ia que era e não era eu!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

O rapaz delgado e franzino surgia espadaúdo, atlético, mãos enormes e musculosas, vestido de preto e com um colar de ouro ao pescoço!
Contudo, a transformação mais extraordinária era de ordem psíquica:
um ódio feroz me borbulhava no coração, pelos dois seres que, lá em cima, se deleitavam e me traíam.
Impossível definir se via ou sentia meus movimentos rápidos, galgando a escada à luz do luar.
Fulo de raiva, parei diante de uma porta e colei nela o ouvido, sôfrego por conter qualquer palavra de traição até que impaciente empurrei a porta e o quadro entrevisto me anquilosou no limiar:
na poltrona de alto espaldar, bela mulher loura, vestida de branco, tendo aos pés uma harpa e um fuso; ajoelhado diante dela, de costas para mim, um homem de gibão roxo e cabelos negros, cacheados, a descerem-lhe pelas espáduas.
Abraçados, a fronte loura da jovem beldade se apoiava no ombro do traidor.
Impossibilitado de falar, trémulo de raiva, eu me mantinha imóvel a ruminar vingança, quando ela se levantou e, gritando, atraiu o amante, cingindo-o.
É que, enlevados no seu idílio, eles não tinham ouvido os encontrões que eu dera na porta.
Ante aquele gesto de amor e temor, uma nuvem de sangue me tirou a vista; ergui o punhal e mergulhei-o fundo no colo branco.
O rosto pálido pendeu e uns olhos azuis, semi-velados pela agonia, me buscaram com expressão Indefinível.
Desviei os olhos para o trovador ainda ajoelhado, transido de espanto. O punho, feito dava, lhe bateu na cabeça e ele tombou fulminado, sem dizer um ai.
Saí, desci a escada vertiginosamente, mas à minha frente voava a mulher loura com o colo ensanguentado.
Fui-lhe no encalço, sempre na iminência de agarrá-la, mas vendo-a sumir-se e reaparecer a todo instante.
A carreira desabalada prosseguia sem tréguas e a visão, que parecia Injuriar-me, deu comigo num velho solar.
À frente de uma porta, ela se deteve e tentou franqueá-la; mas, desta vez consegui agarrar-lhe o vestido flutuante.
Arrastou-me consigo e caí de joelhos, cingindo-a fortemente.
Tentei fitá-la, mas, um ah! de espanto me escapou dos lábios.
É que me via à beira de um berço e estreitava nos braços um recém-nascido.
Recuei com um grito abafado e... despertei.
Um raio de sol banhava-me o rosto e não longe estava o archote apagado.
Esfreguei os olhos...
Como assim?
Para ter ali dormido a meio da escada, só mesmo louco, nu acometido de súbita enfermidade!
Mas, não.
Afinal, tudo se explicava:
a imaginação trabalhada por aquela velha história, engendrara o fabuloso sonho, com tanta vivacidade, que eu cheguei a encadear os actos de meu avô.
Levantei-me alquebrado, com a cabeça pesada e, ao menos por enquanto, nada disposto a sondar os mistérios da torre.
Desci, portanto, e mandei revestir novamente a porta, de leve argamassa.
Três dias após, recebia convite do barão de Launay para assistir ao baptizado de sua filha Rosalinda.
Magnifica festa, que reuniu toda a nobreza local.
Lá tive ocasião de ver o conde Lotário de Rabenau e o filho, um belo rapaz louro, de traços finos e caprichosos, muito agarrado ao pai, a ponto de não lhe dar um minuto de folga.
Também não sei porque, esse rapazola me inspirou desde logo a mais profunda aversão.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

Seu olhar me despertava a lembrança do trovador com que sonhara, se bem que este tivesse os cabelos negros.
Impressionado com esses pensamentos, tratei de espairecer por outras salas.
Nesta altura, permito-me um hiato de quinze anos, durante os quais nenhum facto extraordinário se passou de interessante a esta narrativa.
Normalmente entregue aos meus trabalhos de alquimia, tentava aventuras galantes, frequentava os torneios e comparecia, uma e outra vez, aos saraus da nobreza que, confesso, era o que menos me atraía.
Muitas vezes pensei em casar-me e bons partidos se me ofereceram pelas mamães de filhas casadoiras, mas o facto é que nunca me pude decidir.
Alguns dias antes da fase em que retorno esta narrativa, tive o ensejo de reencontrar os dois velhos amigos - Bertrand e Rosa.
Esta, como já disse, dirigia um albergue mal afamado e, muitas vezes, considerei e estranhei como se identificaria com aquela freguesia de carreteiros, de camponeses e de vagabundos que frequentavam o local.
Quanto a Bertrand, achei-o um tanto mudado e só me aparecia à noite.
De onde vinha e o que fazia, ninguém saberia dizer.
Evidente que as suas actividades se tornavam suspeitas, mas isso não impedia continuarmos como íntimos amigos.
Fechado este parênteses, prossigo no meu depoimento.
Um dia recebi convite para concorrer a grande caçada que o duque faria em região próxima dos meus domínios.
Procuravam-se ao gamo e ao javali.
E como também concorriam senhoras a partida se encerraria com um banquete.
No encalço de um javali que me parecia inatingível, embrenhei-me muito longe, na floresta, e quando pretendia acuar o bicho num grotão profundo, o maldito se escapou por uma passagem de acesso impossível.
Furioso e desapontado, dei de rédeas para reunir-me à maioria dos companheiros e, não ouvindo mais os uivos e latidos da matilha, empunhei a trompa e improvisei uma tocata.
De pronto, o relincho de um cavalo se fez ouvir perto.
Dirigi-me para esse lado, pensando encontrar algum caçador, e qual não foi minha admiração vendo surgir do matagal uma égua branca, montada por jovem e formosa cavaleira!
Pela palidez do rosto e pela inquietação dos olhos, compreendi que ela se tinha desnorteado.
Ao mesmo tempo quedei deslumbrado!
É que, até então, não vira criatura tão formosa.
Tez nacarada, cabelos de ébano, crespos, rompendo o gorro azul; vestido da mesma cor, debruado a ouro; talhe esbelto e grandes olhos negros, eis de relance a silhueta que me empolgou inteiramente.
Dando comigo, a jovem castelã assustou-se e me entrou com ostensivo temor, enquanto me inclinava e, dando-me a conhecer, pedia permissão para reconduzi-la ao ponto de reunião convencionado.
Ela inclinou a linda cabecinha e respondeu:
- Aceito, agradeço e me confio a vós, Sr. conde.
Chamo-me Rosalinda, filha do falecido barão de Launay.
Conheceis, sem dúvida, meu irmão Wilibald.
Não tenho mais de 15 anos e esta é a primeira grande caçada em que tomo parte.
Encantado com a ingénua garrulice, lembrei-me que lhe assistira o baptizado; mas, como a sua montaria dava sinais de impaciência e se irritava com as galhadas espinhentas e pedras resvaladias da selva fechada, tomei-a pelo freio e assim fomos caminhando e conversando.
De tudo me falou Rosalinda: da caça, do duque, das senhoras, dos vestidos e, sobretudo, das condições de nobreza e fortuna que facultavam todos os prazeres e diversões.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

Ao fazer rápido gesto, uma rosa se lhe desprendeu do cinto dourado e caiu por terra.
Lépido, desmontei e apanhando a flor, pedi permissão para ostentar as cores da bela Rosalinda.
Malicioso sorriso lhe frisou os lábios e, estendendo a mão para recolher a flor, disse:
- Neste sentido, Sr. conde, não tenho o direito de concessão, por cabível que é, ao cavaleiro Leo de Loevente...
Restitui a flor sem mais objectar, mas logo me senti baliado de grande inquietação e profundo rancor.
Ela era tão jovem e eu chegava tarde para ser amado pela única mulher que me impressionara, a ponto de requestar-lhe a mão de esposa logo que a vi.
Continuei calado, a mordiscar o bigode considerando que um rival também podia ser eliminado, sobretudo quando esse rival era jovem e susceptível de provocação.
Conhecia, é certo, alguma coisa desse cavaleiro, mas nunca lhe prestara maior atenção.
Agora o caso mudava de figura, porque começava a odiá-lo.
Chegamos, enfim, ao local combinado - grande clareira rodeada de frondes seculares.
Pajens e escudeiros ostentando as cores ducais, empenhavam-se no preparo do jantar.
Grande número de pessoas lá se encontravam já reunidas.
Na orla da floresta, cavaleiros ainda montados conversavam animadamente.
Avistando-nos, um deles exclamou:
- "Ei-la que chega!"
Quem assim falava era Wilibald de Launay, irmão de Rosalinda e o outro, com uma rosa azul e ouro no gorro, era Loevenberg.
Pela primeira vez analisei a sério o meu rival e não posso deixar de confessar que era um homem admiravelmente belo.
Alto, esbelto, cabelos louros e anelados, rosto oval e grandes olhos negros sonhadores.
Um homem, enfim, capaz de cativar todas as mulheres.
Logo que Rosalinda percebeu os dois rapazes, atirou-se para eles, alheia já, suponho, à minha presença.
Ah! - que ódio profundo me inflou o peito, contra aquele que me roubava o coração de Rosalinda!
Ele ajudou-a a desmontar, conduzindo-a para um grupo de senhoras e cavaleiros assentados à sombra de frondoso carvalho.
Não longe, divisei a silhueta esbelta de Rabenau, a comentar animadamente, com um velho amigo, os incidentes da caçada.
Rente com ele, o filho, belo rapaz de 20 anos, de rosto efeminado e cujos olhos seguiam inquietos os mínimos gestos de Rosalinda e Loevenberg.
Olá! - disse comigo - também tu te enciúmas, meu soberbo Rabenau?
No mesmo instante, vi que o pai se inclinava para ele e, mão no ombro, sorria com maliciosa ternura e algo lhe dizia de consolador, porque o jovem logo se acalmou.
De futuro, deveria saber muita coisa a respeito desse moço, incapaz de agasalhar e vivificar uma afeição sincera e verdadeira.
Entre outras leviandades, a de se haver casado contra a vontade paterna, com uma rapariga de condição inferior e de maus costumes, por quem se apaixonara; casamento esse que deveria ficar e de facto ficou ignorado, bem como o destino da consorte aventureira.
Rabenau acabou levando o filho para junto das senhoras, cuja atenção logo convergiu para o mimoso Adónis, e sentou-se, por sua vez, ao lado de esbelta viúva a quem cortejava e que lhe correspondia com olhares de fogo.
Logo que as exigências da pragmática permitiram, tratei de me despedir e regressar ao castelo, consumido por sombrios pensamentos.
O reencontro de Rosalinda me havia amolecido o coração de bronze; era como se a tivesse diante dos olhos.
De súbito, lembrei-me de que já tinha visto um rosto semelhante e, coisa estranha! - que fora no sonho da malfadada torre.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:45 pm

Ah! - pensei - se a loura Iolanda se parecia com a morena Rosalinda, estava mais que justificada a ferocidade de meu avô...
Chegando a casa, encerrei-me no vasto compartimento que me servia de gabinete e quarto de dormir.
Em contígua alcova, resguardado por espessas cortinas, o leito alto, e junto à Janela a secretária; mas naquele momento desagradava-me trabalhar.
Acerquei-me da mesa, enchi o copo de vinho e, arrastando a poltrona, deixei-me cair derreado.
De mão na face, absorto, fixei a chama crepitante, no fogão, e todo me engolfei em profundo cismar.
Esvaziei copos e mais copos e acabei decidindo que aquela diva haveria de ser minha, a qualquer preço.
Morto Leo, ela ficaria livre e eu me candidataria.
É verdade que já passava dos 40 anos, mas ninguém me daria mais de 30 e também não era feio, possuía fortuna e foros de nobreza; tudo, enfim, que uma mulher pudesse desejar.
De resto, ninguém me conhecia a ferocidade, dada a vida mentirosa e solitária que levava.
Uma coisa somente me embaraçava:
é que, naqueles tempos, vivia cada qual em seu castelo, separado por grandes distâncias, passando meses sem se entrever.
Urgia, portanto, forjar um ensejo e essa dificuldade exacerbava o meu ciúme.
Resolvi, então, procurar Calmor e consultar a cabala e os astros.
Tiramos um horóscopo e este me predisse que, passadas 18 luas, o rival pereceria às minhas mãos.
Disposto a esperar, conjecturei mil pretextos para querelar contra Loevenberg, mas acabei desanimando e perdendo, assim, precioso tempo que, de resto, não supunha fosse capaz de aproveitar.
Rabenau era o tutor de Rosalinda e bem poderia aceitar para a pupila uma aliança brilhante.
Assim pensando, um belo dia paramentei-me regiamente, montei belo ginete espanhol, branco de neve e acompanhado de imponente cortejo de pajens e escudeiros estadeando minhas cores, marchei para o castelo de Rabenau.
Previamente avisado, o castelão me recebeu com a maior cortesia, no topo da escada de honra.
Com aquele sorriso que granjeava corações, depois de me apertar a mão, dirigimo-nos para o salão de visitas.
O senhor Rabenau, atentando no apuro do meu vestuário e esboçando subtil sorriso, disse:
- Tenho grande prazer em vê-lo, meu caro conde, e estou pensando que ides a algum banquete; se eu tivesse uma filha casadoira, era o caso de algo desconfiar, lisonjeado, desses trajes de gala e dessa escolta principesca...
Mas, infelizmente, ai de mim, estou privado dessa alegria paternal.
Inclinei-me, procurando adivinhar a intenção de tais palavras e nada pude ler no seu olhar profundo.
Com a maior gravidade, disse então:
- É muito de lamentar não vos tenha o céu concedido uma filha, que haveria de ser, indubitavelmente, tão bela quanto o pai, e aos pés da qual haveriam de enxamear, prosternados, os mais intrépidos cavaleiros da cristandade; entretanto, Sr. conde, não vos enganastes sobre as intenções que aqui me trazem.
Não tendes uma filha, é verdade, mas tendes pupila, a nobre e sedutora Rosalinda de Launay, cuja mão de esposa me honro em solicitar, sem pretender da futura condessa de Mauffen, outro dote, além da sua beleza.
O conde me ouviu com a maior atenção.
Quando acabei de falar, concentrou-se um instante e respondeu reverencioso:
- Só me posso lisonjear com a honra que haveis por bem dispensar à minha jovem tutelada; infelizmente, porém, meu caro conde, ela já está comprometida com o cavaleiro Loevenberg, a quem ama perdidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 7:46 pm

A mim, como tutor, apenas cabe o direito de lhe impedir um casamento inaceitável, mas nunca o de forçá-la a casar contra a vontade, tendo em vista apenas uma aliança brilhante, como, por exemplo, a que ora pleiteais.
Percebi o que ele procurava dissimular com aquelas palavras lisonjeiras:
para não desgostar o filho adorado, contemporizava com Loevenberg e não admitia outros candidatos.
Insistiu para que lhe aceitasse o jantar, mas, aborrecido como estava, declinei do convite e me despedi friamente.
Ele o percebeu e disse:
- Não me queira mal, meu caro conde, pois a culpa não é nossa.
Fosse eu mesmo o pretendente e teria a mesma sorte.
Consolai-vos vendo que, por enquanto, valho-me do ascendente apenas para evitar um casamento muito precoce.
Nada respondi e com um seco passe-bem, dei de rédeas à montaria.
Coisa curiosa! - eu, o rico e ilustre Sr. de Mauffen, tinha amargado uma recusa formal e, com certeza, os do meu séquito desconfiavam da finalidade da minha visita e consequente fracasso.
Procurando simular indiferença, repassei a ponte levadiça e regressei a casa, tratando logo de procurar Calmor.
Procuramos, ainda uma vez, ouvir o seu génio protector, que assim falou:
"Na décima sétima lua, enfrentarás vitoriosamente o teu rival, mas ele não morrerá".
A isso seguia-se um desenho simbólico, representando um gato com uma pedra ao pescoço, atirado num rio, mas nadando e reaparecendo na margem oposta.
"A dama dos teus amores se casará em segundas núpcias, mas não contigo, que haverás de professar.
Quanto ao fim que te espera, nada posso dizer e proíbo a Calmor que o faça".
Esta resposta pouco me consolou e, não obstante a confiança que tinha no oráculo, suscitou-me algumas dúvidas.
O que eu queria, a despeito de tudo, com Deus ou com o diabo, era esposar Rosalinda; mas, fazer-me frade, isso nunca.
Procurando nada perder do que me pudesse aproveitar aos fins, valia-me também do seguinte sortilégio:
uma galinha branca foi cabalisticamente baptizada com o nome de Rosalinda e alimentada com aveia refogada em meu sangue, iguaria que eu mesmo preparava, enquanto Calmor ensalmava e repetia as palavras místicas que, por intermédio da galinha, deveriam despertar na jovem.1 paixão por mim.
Mais calmo, retomei meus trabalhos habituais quando, um mês após, Eulenhof me levou a noticia desconcertante:
Rosalinda, na ausência do tutor, tinha ido ao castelo de Rouven e lá se casara com Loevenberg.
Rabenau foi no encalço dos fugitivos, mas não chegara a tempo.
Indignado com o procedimento da pupila, o conde rompera com ela.
A verdade, porém, é que esse rompimento nada me adiantava e Loevenberg se recolhera em casa com a minha castelã, vitorioso e feliz.
Posso dizer que até então não havia sentido o fogo do verdadeiro ciúme.
Mas daí por diante a representação ideoplástica, sob mil aspectos, do casal Loevenberg, constituiu para mim um verdadeiro inferno, gerador de planos vingativos com requintes de ferocidade.
Sem embargo, compreendia que era preciso esperar e, com o auxilio dos dois amigos, que por dinheiro tudo faziam, ia preparando os planos para eliminar o venturoso rival.
Para instrumento, escolhi um primo de nome Sezefredo de Mauffen, moço inexperiente, com o qual nunca me preocupara e agora me lembrava como herdeiro de umas terras litigiosas, reivindicadas por Loevenberg.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:35 pm

Aconselhei-o a declarar suas essas terras, independente de qualquer acordo.
Loevenberg não se conformou com a solução, evidentemente arbitrária; mas, sempre conciliador, convidou meu primo a visitá-lo, a fim de melhor se avirem.
Isso era o que eu precisamente queria.
Hábil emboscada se preparou e meu primo foi morto ao deixar a residência de Loevenberg, onde pernoitara.
O cadáver foi encontrado em terras do conde, mas a ninguém ocorreu a suspeita de um crime, de vez que a lealdade de Loevenberg era por demais conhecida.
Isso não me impediu de o acusar de traição e felonia e desafiá-lo a bater-se a juízo de Deus.
O duelo se deu precisamente no prazo das 17 luas preditas e fui vencedor.
Os pormenores da peleja foram já descritos por Sanctus, em sua narrativa, cabendo aqui apenas mencionar que, enquanto aguardava a decisão ducal para liquidar o inimigo, ouvi de Rosalinda aquela frase que me estupidificou.
- Antes morto do que desonrado!
Desferi o golpe com mão trémula, convicto de haver acabado com o belo conde estendido a meus pés; mas soube depois que o cadáver havia desaparecido e ninguém lograra encontrá-lo, a despeito das pesquisas mais rigorosas.
Rosalinda evadiu-se atrás das muralhas dentadas do castelo de Rabenau e não mais a pude ver.
Muitos meses transcorreram sem ensejos favoráveis à consecução de meus planos, e pouco a pouco comecei a odiar feroz e surdamente o conde Rabenau.
Com o fito de o matar, me dirigia muitas vezes ao albergue da boa amiga e ex-condessa de outros tempos.
Uma tarde, lá chegando, para evitar a promiscuidade da sala, fui aboletar-me no compartimento discreto onde Berta costumava servir-me.
Nesse dia, pondo à mesa a bilha de vinho e o apetitoso frango assado, disse ela batendo-me no ombro:
- Regala-te, meu belo conde, pois deves estar mesmo fatigado com a grande caminhada; (e fixando-me mais atenta) mas.., por que andas tão triste?
É que já me não tens lá, para cuidar de ti e da casa...
A verdade é que tens até emagrecido...
Pois sabe que até já tenho imaginado mandar às favas esta bodega e, em consideração ao passado, voltar à tua companhia e reviver os nossos belos tempos.
Entretanto, confesso que me custa deixar este maluco Eulenhof, que me adora com tanto frenesi.
Isso dizendo, ria-se desabaladamente.
- Mas, não te enciúmes, minha flor, porque o pobre do homem nem se atreve a confessar sua paixão, convicto da minha dignidade e integridade moral..,
O que apenas não quero, é que tudo isto acabe mal.
Que lhe poderia dizer?
A mim não me convinha desgostá-la, pois também precisava de Eulenhof e sabia o domínio que ela exercia sobre ele.
Esforcei-me por ser amável com aquela criatura que, para a gente que lhe frequentava a tasca, ainda poderia passar por bela, mas para mim, habituado a ver as formosas castelãs, não pasmava de legítima virago, duplamente detestável, porque decaída do meio em que nascera, para as últimas camadas da escala social.
Passando em silêncio a hipótese de uma futura condessa Berta de Mauffen, falei, apertando-lhe a mão agora enrugada e rija:
- Sei, querida condessa, que és uma alma pura e fiel, à toda prova.
Ela gostava do título, que lhe recordava o perdido fausto, e que só de meus lábios poderia ouvir agora.
- Mas! - disse, toda ternura - Que imprudência! se alguém nos ouvisse...
É por isso que muita gente aí Cochicha que eu não passo de grande personagem disfarçada.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:35 pm

Será que a distinção das linhas e do meu trato não pode mesmo iludir ninguém?
Deslambida, voltou-se e começou a gingar desgraciosamente o nédio corpo, que o trabalho e os anos iam já emperrando.
Temeria ela, realmente, o perigo de uma identificação?
Lastimei não poder tranquilizá-la nesse particular, dizendo-lhe que antes pareceria uma judia louçã que disfarçada castelã; mas eis que nesse instante, a porta se abriu de chofre e o amigo Bertrand entrou desbaforido.
Atirou-se a um banco e encheu o copo de vinho.
Berta se retirou, deixando-nos sozinhos.
Observei-o calado e me pareceu entregue a sérias cogitações.
De há muito que lhe vinha espionando, acabando por concluir que aquelas mãos alvas e macias só podiam identificar um ociomo, desafeito até da espada.
Lembrei-me de o ter visto muitas vezes rondar a Abadia dos Beneditinos.
Seria possível que levasse vida de falso monge, à sombra do convento?
E que faria por lá?
Para o momento, bem me aprouvera aproveitá-lo para eliminar Rabenau; e como lhe conhecia o fraco pelo dinheiro, assim falei sem mais rodeios:
- Ouve-me, Bertrand amigo:
tu sabes quanto vales e sabes que minha bolsa te está sempre aberta; presta-me pois um serviço, desembaraçando-me de Rabenau, que me impede o caminho para Rosalinda, a quem amo loucamente e estou disposto a conquistar a peso de ouro.
Odeio de morte o insolente, que a tem sequestrada, como menina dos seus olhos - olhos que lêem fundo em nossas almas.
Ouvindo o nome de Rabenau, um misto de ódio e temor se desenhou na face de Bertrand.
Dominou-se porém, e baixou os olhos procurando mostrar indiferença.
Não me iludia.
Compreendi que também ele odiava o conde.
Talvez Rabenau lhe houvesse surpreendido a condição de falso monge, ou talvez estivesse na dependência dele.
Resolvi jogar uma cartada:
- Nada me negues, Bertrand, pois sei de tudo; sei que fazes o papel de monge beneditino...
Uma faísca eléctrica não teria produzido maior efeito Ergueu-se lívido.
Os lábios lhe tremiam e me apertou o braço com tanta força que o deixou vincado.
Por fim, falou titubeante:
- Quem te disse, desgraçado?
E ignoras que, pelo meu juramento, já não podes daqui sair com vida?
Tremi por mim.
Sem o querer, teria tocado em qualquer segredo terrível, cujo conteúdo ignorava; mas, de vez que assim era não havia como recuar, antes precisava tudo saber.
Revidei, portanto, com firmeza:
- Penso que a nossa amizade supera teu juramento e, demais, Bertrand, sabes que sou homem para guardar segredo, ainda que tão grave quanto ao que acabas de mencionar.
Fala, pois, com toda a franqueza.
Eulenhof levantou-se e, ainda meio ofegante disse em tom vibrante de emoção:
- Uma coisa, apenas, te posso dizer:
é que tenho meios e modos de tudo fazer, contra quem quer que seja, menos contra Rabenau.
E digo-te mais : não te metas com ele, porque ao imenso poderio alia uma astúcia e genialidade incomparáveis.
O aspecto grave e a comoção do amigo eram de molde a convencer-me que dizia a verdade.
Tínhamos falado alto; mas quem nos poderia ouvir?
A sala, em baixo, regurgitava de camponeses rústicos, que só se entendiam na sua algaravia, enquanto que nós falávamos em latim.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:35 pm

Nesse momento, os degraus da escada rangeram e ouvimos alguém perguntar:
"Olá. D. Berta, onde vai tão apressada?
- Irra! Que quer lá em cima?
Olhe que lhe vou no encalço e já agora não me escapa."
A porta abriu-se com estrondo e Berta entrou decidida.
Atrás dela, um homem alto, em trajes de campónio, com um saiote cinzento e boné da mesma cor.
Louros cabelos e barba ruiva num rosto bronzeado, que me chamou a atenção.
Sim. Havia algo de exótico naquele tipo, cujo nariz afilado e recto, de estátua grega, destoava da testa estreita e do resto.
Sem dar a mínima importância ao meu positivo aborrecimento, o intruso largou o casaco de Berta e avançou resoluto para Bertrand.
- Ora, até que enfim te encontro - disse, batendo-lhe familiarmente no ombro.
Mas, por que te fechas aqui?
Notei que, avistando aquele homem, Bertrand empalidecera e, no entanto, quando lhe travou do braço, deixou-se levar sem a menor resistência, apesar dos meus protestos.
Bastante irritado, interpelei Berta que, muito embaraçada e mal-humorada, alegou nada saber particularmente daquele sujeito extravagante, que ali costumava aparecer de vez em quando, e a quem chamava o "belo ruivo".
Vendo que Eulenhof não voltava, tratei de me safar, bastante contrariado e mais que nunca disposto a desvendar o mistério.
Passei o dia todo a meditar e à noite pedi a Calmor um livro de alquimia, fechando-me no meu quarto.
Entregue à leitura, comecei a ouvir leve rumor no compartimento em que ficava o leito.
Apurei o ouvido, o rumor persistia.
Levantei-me inquieto.
Era noite alta e todos dormiam.
As chaves da casa, que me haviam levado, como de costume, ali estavam sobre a mesa.
Voltei-me para o local do leito, de onde parecia provir o barulho e vi que as cortinas arriadas se agitavam como que sacudidas pelo vento.
Arrepiaram-se-me os cabelos, um frio glacial me correu pelas veias.
Ninguém ali poderia estar àquela hora.
Mas, como já o disse, eu era supersticioso.
Se fosse o demónio?
De repente levantei-me, trémulo, delirante.
É que, na massa escura das cortinas do leito, alva mão se destacava, como se quisesse entreabri-las.
Banhado em suor, encostei-me à mesa, esperando a aparição.
Havia de ser ele - o diabo...
Viria, com certeza, propor o elixir da vida eterna, em troca da minha alma.
Calmor me havia prevenido que o espírito das trevas viria pessoalmente concluir o pacto.
Num instante todos esses pensamentos me turbilhonavam na mente excitada e comecei a lutar comigo mesmo.
Deveria vender-me a Satanás?
Precisamente nesse instante, esboçou-se entre as cortinas um rosto pálido, com um toucado de penas e dois olhos tão vivos que só podiam ser de Lúcifer.
E não desfitavam dos meus!
Era de mais!
Lembrei-me da terrível aparição do "Berço do Diabo".
Quase automaticamente, estendi a mão flácida para a mesa, onde, entre outras coisas, estava um pequeno crucifixo de marfim, que eu tolerava mas não usava.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:36 pm

Tomando o símbolo da Redenção, que tinha o poder de anular as forças infernais, apertei-o contra o peito, murmurando em surdina:
Vade retro Satanás!
Certo, eu era um grande pecador, pois a fórmula de exorcismo falhou, por completo e sonora gargalhada estridulou no ambiente.
O demónio deu um pulo no meio do quarto!
Fechei os olhos, pensando:
é agora que ele me vai estrangular.
E parecia ter já cravadas no pescoço umas unhas aduncas...
Segunda gargalhada me fez reabrir os olhos.
- Mas, por quem me tomais, conde? - disse alguém num metal de voz que não me era estranha.
Ou muito me engano, ou estais me confundindo com o vosso patrono, Lúcifer.
Tranquilizai-vos, porém, bravo Mauffen, porque aqui estou em carne e osso, e não para comprometer vossa alma, nem vosso pescoço; mas, para vos dizer uma palavrinha.
Tudo aquilo me parecia um sonho, pois tinha diante de mim, de adaga em punho, a sorrir malicioso, nem mais nem menos que o autêntico e terrível Rabenau!
Com a maior naturalidade, arrastou uma cadeira para junto da mesa e enchendo o meu copo, esvaziou-o de um trago.
- Delicioso, - disse, e engoliu outra dose, estalando a língua como bom entendedor.
Excelente, conde...
Era com este néctar que pretendíeis obsequiar Lúcifer?
Que lhe dizer?
Em compensação, fitava-o furioso e admirado, sem atinar como pudesse ali ter penetrado, estando todas as portas aferrolhadas e deserto o quarto quando lá entrei e estive deitado na cama.
- Por onde entrastes, Sr. conde? - perguntei visivelmente agastado - só os ladrões e os espadachins elegem caminhos escuros para penetrar em casa alheia; um bravo cavaleiro...
- Como entrei, Sr. Hugo?
Mas isto é cá comigo e com direitos que só a mim compete julgar; em todo o caso, sabei que aqui estou, mais do que vós, em minha casa.
- Ah! - disse comigo mesmo - se ele soubesse da existência dos tesouros...
Como se me adivinhasse o pensamento, o conde levantou-se e cravando nos meus os seus olhos de fogo, prosseguiu:
- Estais pensando que vos quero arrebatar os tesouros ocultos nos subterrâneos de Leste...
Então, sabei que o corredor fica à esquerda do poço; que há 27 degraus e 3 portas a transpor...
Como vedes, nada ignoro.
Mas, ficai descansado, pois sou bastante rico para prescindir da vossa fortuna, se bem que tenha direito a esses tesouros.
De uma coisa, entretanto, vos previno:
é que, só 'enquanto eu viver podeis ficar tranquilo.
Tenho a planta completa deste castelo, com todos os seus segredos e refúgios; e se um dia eu morrer e esses documentos caírem em mãos capazes, sereis despojado sem apelação nem agravo.
Já vistes que aqui penetrei por caminho ignorado e sabei que outros existem, além desse.
Não atenteis, pois, contra a minha existência, que haveríeis de sentir amargamente.
Por enquanto, não vos posso revelar o segredo que nos liga um ao outro; mas, com o tempo tudo sabereis.
Levantou-se, fez-me um aceno em despedida e, mergulhando no leito, desapareceu atrás das cortinas.
A rapidez e o inesperado da cena petrificaram-me.
Logo que pude, precipitei-me para a alcova, ansioso por descobrir-lhe a pista, mas nenhum indício encontrei da sua passagem.
Impressionado com a estranha visita, deitei-me e passei a noite em claro.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:36 pm

Dias depois, tornei a ver Bertrand que, muito alarmado, acabou fazendo-me uma confissão completa.
Soube, então, que ele representava no convento o papel de prior, quando, na realidade, não passava de simples títere de Rabenau, prior de facto e chefe omnipotente da "Ordem dos Vingadores".
Ele, Bertrand, não dispunha de um real; Rabenau tudo açambarcava e controlava.
Daí provinha - acrescentava - aquela sua cupidez.
Revelou, mais, que, no momento, tramava-se séria conspiração, tendo por cabeça frei Benedito, ex-conde de Rouven, enclausurado em consequência de indigna traição, e que tinha como alter ego outra alma danada, personagem de origem duvidosa, um tal Pater Sanctus.
Percebi que Bertrand mentia, quando afirmava que não dispunha de um real, pois era de uma cupidez insaciável.
Decerto, a verdade é que se consideraria mal remunerado e, sob o guante de ferro de Rabenau, já não podendo, em sua condição de falso prior, gozar de ampla liberdade, estaria descontente e arrependido da empreitada.
A partir desse dia visitei-o muitas vezes no mosteiro, quer oficial e ostensivamente, quer à socapa, por escuros caminhos.
Dessarte me inteirava não só dos seus negócios, como da marcha da conspiração, que se encorpava dia a dia.
O audacioso Benedito havia tentado e conseguido aliciar Bertrand, oferecendo-lhe vultosa recompensa em dinheiro.
Tudo estava pronto e dependente apenas do momento favorável.
- Seria também uma bela oportunidade para ti - acrescentava - visto que, morto o conde, sobrevirá grande confusão no castelo e ser-te-á possível raptar a bela Rosalinda; e desde que a tenhas em segurança, dentro das muralhas do castelo de Mauffen, poderás forçá-la a casar-se contigo.
Essa ideia me pareceu excelente e tornei-me impaciente, só com o imaginar Rosalinda em meu poder.
Não obstante, o plano se estendeu a muitas semanas mais, até que um dia Bertrand me disse:
- Espero que na próxima semana tudo se decidirá:
Rabenau vai comemorar seu aniversário com uma grande festa e pretende-se aproveitar o bulício e a confusão do ambiente para lhe subtrair todos os documentos comprometedores.
Isto feito, ele terá que render-se à discrição ou será assassinado.
Trata pois, meu Hugo, de aproveitar o tempo e apresenta-te na festa com alguns homens escolhidos.
Se Rabenau der pelo roubo, não cuidará de Rosalinda e poderás, então, arrebatá-la sem maiores percalços.
Agradeci o prudente conselho e escolhi dez homens de inteira confiança para que estivessem prontos ao primeiro sinal, mediante óptima recompensa.
No dia aprazado, trajei-me a rigor e toquei para o castelo de Rabenau.
O conde me recebeu com a amabilidade habitual, mas logo notei que estava intimamente preocupado.
Depois de cumprimentar as senhoras, retraí-me no vão de uma janela para observar o movimento.
No meio de um grupo de rapazes, Kurt de Rabenau, muito da minha antipatia, - sem embargo da sua incontestável esbelteza - conversava ... e não tardou lhe surpreendesse no olhar, por vezes, uns lampejos de contrariedade.
Naquele momento ele se me afigurou muito lânguido, sem desfitar os olhos do grupo feminino, onde realçava a jovem condessa de Loevenberg, a não ser para os assentar no pai, com ares de agastamento.
Surpreso, certifiquei-me então de que o conde Lotário trocava com a ex-pupila olhares evidentemente apaixonados.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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