Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:36 pm

Estava explicado o aborrecimento do filho.
É que o pai, belo, sedutor, parecendo antes um irmão mais velho, seria o seu rival mais perigoso.
A aproximação de um senhor idoso interrompeu minhas observações; mas, logo que me desembaracei dele, vi que Lotário e Rosalinda tinham desaparecido.
Percorri então todas as salas, bisbilhotei todos os compartimentos de portas abertas sem os encontrar, indo parar, finalmente, num gabinete deserto e pouco iluminado.
Lá me detive uns momentos; e quando me propunha reencetar a diligência, ouvi rumor e o eco de vozes.
Escondi-me no escuro desvão de uma janela.
Esse desvão, aberto em parede com três pés de espessura, me ocultava inteiramente e permitia tudo ouvir.
Mal me ajeitava no eventual observatório, quando vi entrar Kurt, acompanhado por velha mulher trajando simples, porém, ricas vestes de camponesa.
- É como te digo, minha boa ama, eles se adoram e acabam de noivar, creia, pelo que vi e ouvi agora mesmo.
Ocultou o rosto nas mãos...
- Mas, meu condezinho, - disse a mulher - você está iludido, com certeza; o ciúme é cego; seu pai, homem austero e cheio de preocupações e responsabilidades, há muito que se teria casado, se o quisesse.
- Gertrudes! Gertrudes! - chamou alguém.
A confidente retirou-se apressada, dizendo:
- estão me chamando. Kurt, ficando sozinho, monologou:
- Com o amor não se brinca e principalmente um pai; ele sabe que amo Rosalinda e, no entanto, ri-se e acha Infantis os meus anseios; e contudo, é ele mesmo quem rouba ao filho a mulher adorada.
É curioso pretender casar-se na sua idade!
Se tiver filhos, um que seja, aí temos meu património desfalcado.
É verdade que serei sempre o primogénito, mais isso não importa.
Calou-se, circunvagou o olhar sombrio, tirou do cinto o pequeno punhal e pôs-se a examiná-lo.
Estranho sorriso lhe pairava nos lábios.
- Sim: Trata-me como criança; seu despotismo vai-se-me tornando intolerável...
E se o matasse?
Entre os convivas aqui reunidos, muitos há que o odeiam; ninguém de mim suspeitaria e, assim, de um golpe, tudo estaria resolvido...
Tornou a calar-se, mas todos os pérfidos sentimentos se lhe reflectiam no olhar, ao mesmo tempo que experimentava a ponta do punhal no medalhão pendente do pescoço.
Pobre Rabenau! - disse comigo - até teu filho quer derramar teu sangue...
Mal acabava de o pensar e estremeci, vendo surgir subtil, atrás de Kurt, a figura de Rabenau!
Fisionomia alterada, pôs a mão no ombro do filho:
- Não te envergonhas de pensar em suicídio?
O rapaz deu um grito abafado e o punhal lhe caiu das mãos, enquanto o conde o estreitava nos braços:
- Filho querido, acalma-te - disse com ternura que jamais lhe poderia atribuir - ouvi teu grito aflitivo, quando me declarei a Rosalinda e agora vou fazer uma viagem da qual talvez não volte; deixo-te, assim, meu nome impoluto, fortuna considerável, amealhada em longos anos de racional economia e nunca por avareza (entendes?) e cedo-te também minha noiva, ou seja - o meu amor.
Dela obterei a promessa de se casar contigo depois da minha morte.
Estás satisfeito, filho do coração?
O semblante de Kurt estava transfigurado, como bem se pode compreender, depois dos projectos que maquinara.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:36 pm

Todavia, desfez-se em lágrimas, agarrando ao pescoço do conde:
- Não te vás, meu pai, eu nada mais prezo nem desejo, além da tua vida...
Seria sincero?
Para o plano espiritual não há pensamentos ocultos.
O conde enxugou a fronte suarenta e tomando entre as suas a mão do filho, prosseguiu:
- Considera Rosalinda como o legado mais precioso, pois é o próprio coração que com ela te deixo; procura dominar tuas paixões inferiores, teu carácter caprichoso e tirânico, não faças sofrer meu espírito por haver obtido de Rosalinda o compromisso de casar contigo.
Dono de imensa fortuna, lembra-te, filho, que não é com ouro, apenas, que se alcança o amor e a fidelidade; sê bondoso com os vassalos, como procurei ser, pois a severidade há que comparar-se com justiça e indulgência.
Uma boa palavra, dita no momento preciso, conquista mais corações que um cofre de ouro, e a lealdade e generosidade são o verdadeiro, embora oculto, escudo da nobreza.
E agora, que Deus te guarde e abençoe.
Afastou-se do filho e acrescentou imperativo:
- Vai procurar Rosalinda, com discrição e pede-lhe que desça ao jardim, dentro de meia hora.
Desapareceu com um aceno de mão e eu me quedei singularmente comovido.
Rabenau sabia que estava sentenciado à morte e isso me suscitou involuntária estima por ele.
Deixei o esconderijo e reentrei no grande salão.
Lotário veio logo ao meu encontro, dizendo.
- Acompanhe-me, Sr. Mauffen, tenho algo que vos dizer.
Não deixei de notar o tom grave do convite e compreendi que se tratava de assunto importante.
Encaminhamo-nos a um quarto e logo fechada a porta, falou-me assim:
- Já vos disse, uma vez, que as vossas riquezas só estariam garantidas enquanto eu vivesse:
dentro de poucas horas, deixarei de existir; acabam de me roubar o meu arquivo de valor inapreciável, por constituir-se de secretos documentos e planos comprometedores; o fruto, enfim, de toda uma existência e, o que mais é:
a prova positiva de que sou um conde tão legítimo quanto o prior dos Beneditinos.
Cruzou os braços, solene, e concluiu:
- Sou também um Mauffen, vosso irmão mais moço, filho da mesma criatura cujo destino ignorais, mas ninguém conhece este segredo senão eu e a mulher que me criou, e que todos consideram minha mãe.
Só a nós dois, nosso pai confiou a verdade, na hora da morte.
Entretanto, as provas do que digo também lá se encontram no arquivo ora roubado.
Não pude conter um ah! de espanto e admiração.
Lembrei-me do berço vazio, a criança desaparecida era aquele homem esbelto que ali estava tão pálido e condenado à morte, o único parente consanguíneo que me restava no mundo.
- Vós, meu irmão? - repeti exaltado.
- Sim. E agora, para compensar o serviço que vos presto, revelando o perigo que ameaça a vossa fortuna, jurai-me solenemente que nunca, jamais, direis uma palavra a meu filho ou a sua noiva.
A mulher generosa que passa por minha mãe, essa, jamais me trairá.
Se for possível, Hugo, prestai-me um grande serviço:
não vos falta astúcia e intrepidez; tratai, pois, de reaver a caixa do arquivo roubada pelo anão e que ora se encontra em poder dos dois malditos monges, isto é:
Benedito, que disputa o priorato, e Sanctus, seu lugar-tenente.
Bertrand, o covarde foragido da forca, a quem dei de comer e cumulei de ouro, traiu-me e não quero emporcalhar as mãos no seu sangue; diga-lhe que, sem embargo da soma que recebeu, em paga da minha vida, há-de perecer miserável e cruelmente, e que, nessa hora da morte, não se esqueça destas palavras que o chefe lhe transmite. Nesse momento seu olhar se ensombrou paralisado. - Haveis de sucumbir todos juntos - disse com voz estranha - tu, ele e ela; todos...
Estremeceu como que despertando.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:36 pm

Eu continuava mudo, estupefacto e mal sabia que o vaticínio haveria de cumprir-se integral, pois acabamos morrendo todos juntos.
Adeus para sempre - disse - estendendo-me a mão.
- Lotário - era a primeira vez que assim o tratava - deixa que te abrace, para que me fique a recordação grata de haver abraçado o único irmão e parente que me resta, e no qual sempre distingui um dos mais nobres e valentes cavaleiros.
Prometo fazer todo o possível para reaver o arquivo e guardá-lo em homenagem à tua memória, depois de consumir tudo o que possa comprometê-la.
Abraçamo-nos comovidos, como convinha a dois intrépidos cavaleiros.
Depois, enfiando-me no dedo o seu anel:
- Toma-o e guarda em memória de mim.
Voltei ao salão.
Rosalinda continuava ausente.
Calculei que tivesse abandonado a festa, e reputando impossível o rapto naquela noite, tratei de bater em retirada.
Dois dias após essa noite tormentosa, fui à taverna, de Berta, à cata de notícias.
Soube, então, por ela, que Rabenau tinha sido assassinado numa clareira, não longe da estrada e que, na véspera, à noite, o corpo fora levado para o castelo.
Quanto a pormenores, não os tinha, nem mesmo me avistara com Bertrand, que lá continuava no seu papel de falso prior.
Eis-me, então, engolfado em tristes cogitações.
Rabenau, homem sedutor, exuberante de vida, conhecera-o, por bem dizer, há dois dias e já não era deste mundo!
Tinha-o considerado rival e, como tal, odiado!
Agora, todas essas impressões se fundiam na saudade do irmão, que já não existia...
Resolvi comparecer ao castelo de Rabenau, em homenagem ao extinto e ver, de paralelo, até que ponto seria possível raptar Rosalinda, de vez que seria estúpido deixá-la à mercê de Kurt.
Lá chegando no dia seguinte, a primeira coisa que vi foi a bandeira preta no torreão mais alto, para anunciar a morte do castelão.
A ponte levadiça estava arriada e os pátios cheios de gente:
soldados, escudeiros, pajens ostentando as cores das casas mais nobres, tinham mão nas montarias de seus amos, ou conversavam baixinho com os serviçais do castelo que, pálidos, aturdidos, acabrunhados, andavam de um lado para outro.
Informara-me que todos estavam na capela e um senhor que comigo subia a escada, disse:
- Veja o senhor que coisa extravagante:
dizem que o falecido deixou escrito, como disposição in extremis que, quando morresse, a condessa de Loevenberg esposasse imediatamente o filho.
E o mais curioso é que, neste momento, diante do cadáver exposto na capela, estão celebrando o casamento.
Faltou-me o ar, compreendi que Rosalinda cumpria a promessa feita ao homem amado.
Fulo de raiva, atravessei a fila de pajens vestidos de preto e entrei na igreja, cujas portas estavam abertas de par em par.
No centro, erguia-se o catafalco rodeado de círios, e sobre Rabenau, como que adormecido e regiamente amortalhado.
Diante do altar, ajoelhados, Kurt e Rosalinda, cujo vestido branco contrastava com o luto ambiente.
A cerimónia tinha acabado e toda a gente se acercava para felicitar os cônjuges.
Rosalinda, mais branca que o seu vestido, parecia indiferente a tudo, apenas correspondendo com um gesto de cabeça às felicitações que lhe dirigiam.
Ao desviar os olhos do esquife, para lá se dirigiu e ajoelhou-se, mergulhando o rosto nas mãos.
Kurt estava pálido e notava-se que se esforçava para chorar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:37 pm

De vez em quando, amarrotava nervosamente o fitão que trazia cingido ao colo e, quando dava com os olhos na mulher desesperada, um quê de maldade se lhe desenhava no rosto.
Para o meu coração lacerado, aquilo era um bálsamo.
Porque era a um morto que ela amava.
O desespero da condessa mãe era tão real e tão profundo que, para logo, me convenceu que amava a Lotário como se fosse um verdadeiro filho.
Muito pálida, lábios cerrados, tinha ficado junto do esquife sem largar a mão do morto, ora levando-a aos lábios, ora ao coração.
O capelão iniciou o ofício fúnebre; encostei-me a uma pilastra e continuei observando.
A multidão avultava a todo instante, a população em peso ali estava a render as últimas homenagens ao conde sempre leal, amável e prestimoso.
Até anciãos venerandos e afamados guerreiros se mostravam comovidos e derramavam lágrimas diante do féretro.
Entre os serviçais do condado, os soluços eram até explosivos.
Dir-se-ia que só depois de o perder tiveram a consciência do seu valor.
Em compensação, nada esperavam do filho, cuja rispidez e despotismo eram bem conhecidos.
Ainda, ali, naquele transe lutuoso, ele era de todos o menos angustiado.
De pé, mãos nas cadeiras, circunvagava os olhos duros e altaneiros.
Na freima de ostentar senhorio, chamava a cada momento um pajem, um escudeiro, transmitindo ordens em voz baixa.
Por vezes, para fingir que ignorava a entrada de novos assistentes, ajoelhava-se junto do catafalco e admirava as esculturas do altar.
Finda a solenidade, dispus-me a partir.
Da porta, lancei um derradeiro olhar a Rosalinda, que continuava ajoelhada, de mãos postas, face banhada em lágrimas.
- Que bela que é a condessa de Rabenau! - disse alguém a meu lado - e com que desespero chora a perda do tutor; é verdade que ele era bem sedutor e ainda depois de morto é o que se pode chamar um belo cavaleiro!
- Sim, respondeu outro cavaleiro em voz baixa - ela vai guardar luto e já declarou ao marido que, logo depois do enterro, vai com a condessa passar seis meses no convento das Ursulinas.
O jovem conde protestou mas não teve remédio senão concordar.
Essas palavras foram um novo bálsamo para o meu coração e parti um pouco mais confortado com a perspectiva dessa longa separação dos jovens recém-casados.
No dia seguinte assisti aos funerais, celebrados com grande pompa.
O duque compareceu pessoalmente e as palavras de condolência que dirigiu a Kurt foram o melhor lenitivo para o seu coração filial.
Era de ver-se a sua ufania em conservar-se ao lado do duque, em todo o curso da cerimónia.
Chispavam-lhe os olhos de orgulho satisfeito; mas sempre que os punha em Rosalinda, o que neles transpirava era paixão e raiva.
Regressei a casa acabrunhado e triste, e quando me recolhi ao quarto, lembrei-me da aparição de Lotário naquela mesma alcova.
Para repousar o espírito e me distrair, parti no dia imediato para outra propriedade para lá caçar uns quinze dias.
Concomitantemente dava tratos à bola para encontrar um meio de reaver o arquivo roubado a meu irmão, chegando a concluir que o melhor recurso era pagar bem a Bertrand uma vez que ele continuava como prior e poderia, assim, subtraí-lo de Benedito.
De volta ao castelo, enquanto mudava de roupa, o escudeiro me disse que grande acontecimento ocorrera na minha ausência:
é que D. António, o prior dos Beneditinos, tinha falecido em consequência da ruptura de um aneurisma.
Ao que constava, a morte se dera durante a missa e à vítima não deu tempo a quaisquer socorros.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:37 pm

O sepultamento se realizou no mesmo dia, pela manhã, com extraordinária pompa.
Parte dos meus fâmulos e rendeiros haviam lá comparecido.
Caí das nuvens! Bertrand morto?
Poderia ser verdade, mas também poderia ser uma trapaça dos monges, visto que Bertrand não queria deixar o posto tão cedo.
Mandei apressar o jantar e parti a galope para o albergue de Berta, que deveria conhecer a verdade.
Fui encontrá-la aflita, com os olhos inchados de chorar.
Nada me podia adiantar, senão que, na véspera, Bertrand lá estivera e, de modo algum, desejava partir.
Ao saber da morte do prior, tinha ido à igreja e, de envolta com a multidão, vira o corpo lá exposto.
Doze monges rodeavam o catafalco, revezando-se de duas em duas horas e as missas eram ininterruptas.
Também não podia suspeitar da identificação do defunto.
Aflito e fatigado, resolvi pernoitar no albergue e fui para o quarto de Berta, a fim de lá comentarmos à vontade a triste ocorrência.
Havia de ser quase meia-noite quando ouvimos na escada uns passos, que nos fizeram estremecer.
No mesmo instante, a porta se abriu e Bertrand surgiu desfigurado, deixando-se cair num banco.
E começou a esmurrar o peito, a arrancar os cabelos, rogando-se a si mesmo as maiores pragas.
Supusemos que estivesse louco. Rosa foi a primeira que se acalmou e, aproximando-se, começou a sacudi-lo pelo braço:
- Velho imbecil, não morreste, então?
Que te falta, pois?
Que fizeste? Anda, desembucha, com Deus ou com os diabos: fala!
Por fim, ululante e sempre lastimoso, Bertrand explodiu:
- Morreu! está morto...
- Quem? - perguntei curioso por saber quem poderia, morrendo, assim, tocar aquela alma de celerado.
- Quem? Ora essa! Rabenau...
E de que maneira!
Matando-se, porque ninguém seria capaz de o fazer...
Oh! miserável que fui, traindo-o...
Escabelava-se raivoso e não me contive que não soltasse estridente gargalhada.
Depois, tomando-lhe a mão, falei:
- Não podes lastimar dessa forma a velha nova da 'norte de Rabenau, toma tento, meu amigo, sejamos razoáveis e fala-nos antes de tua própria morte, visto que, para o mundo estás bem morto e enterrado.
O salafrário perfilou-se, esvaziou alguns copázios de vinho e falou.
- Ai de mim, Hugo! - a morte de Rabenau acarretou esta desgraçada situação em que me encontro.
O satânico Benedito, ansioso por me ver pelas costas, deu-me a beber poderoso narcótico e, quando dei acordo de mim, estava nos subterrâneos, onde ele me notificou, sumariamente, o atestado de óbito, ou por outra, que eu estava morto para a confraria, devendo exilar-me do país.
Deu-me uma ninharia e pôs-me na rua.
Assim, lá se me foi a sinecura do emprego, sem a esperada compensação.
Só agora compreendo que, com o apoio do mestre, vivia em segurança.
E contudo, ingrato celerado, traí meu benfeitor, fui o causador da sua morte.
A vingança me atingiu e o que mais me exaspera é que estou sendo escorraçado, ultrajado e a ninguém me posso queixar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:37 pm

Acalmou-se pouco a pouco, e como já não tinha domicílio, propus que fosse morar comigo, o que aceitou agradecido.
Rosa o acompanhou dentro de alguns dias alegando que, longe de suas vistas o velho imbecil dissiparia em três tempos todo o dinheiro que Benedito lhe havia dado.
Eu não podia correr com ela e assim a tive em casa, mas a verdade é que os nossos dias corriam monótonos.
Bertrand nada lucrara, antes perdera com a traição:
decaiu de prior poderoso a vagabundo sem nome e sem pouso, morto para todo o mundo, excepto para Rosa e para mim.
Vigente a promessa de reaver o cofre de Lotário, e estava disposto a matar até o prior, caso fosse preciso.
Logo que a primeira severidade para com o amigo se dissipou, pedi-lhe me indicasse o melhor meio de penetrar nos esconderijos do arquivo secreto.
Forneceu-me, de bom grado as informações mais minudentes sobre o caminho a seguir, descreveu os alçapões engenhosos, entre os quais um, entre o leito do abade e a parede, e outro de acesso ao seu gabinete particular, onde havia diversos cofres, cuja abertura me explicou, caso encontrasse deserto o dito gabinete.
Precavido, tratei de orientar-me em todas as direcções, no caso de meu êxito escapar aos monges.
Uma noite, bem armado e secundado pelos votos de Bertrand e de Rosa, empreendi a temerária e temerosa diligência.
Na embocadura do subterrâneo, grosso tronco oco de azinheira e um tampão disfarçado sob a camada de musgo, davam entrada para estreita galeria; em designado ponto, encontrei uma tocha que acendi, e fui seguindo até esbarrar na escada; - tortuosa e estreitíssima escada, que mal dava passagem a um homem.
Finalmente, defrontei o alçapão que Bertrand havia descrito como ligado ao gabinete do prior.
Entreabri-o de mansinho, empreitei o ambiente e o coração me palpitou de alegria.
Assentado à mesa, à luz de duas velas, o novo prior tinha escancarado diante de si o cofre de ébano cinzelado de prata, que Lotário me havia descrito.
O acaso me favorecia, exultei.
Restava, apenas, matar o prior, apoderar-me do cofre e desaparecer na galeria.
Tudo estaria consumado.
Mas era preciso agir subtil, rápida, silenciosamente.
Aguardei o momento e quando pressenti Benedito inteiramente absorvido na leitura de um pergaminho, deslisei qual sombra, para atingi-lo; infelizmente, (fatalidade ou desgraça), o assoalho rangeu e Benedito voltou-se.
Atirei-me a ele, mas conseguiu travar-me o braço e começamos a lutar corpo a corpo.
Atraído pelo rumor da pugna, o maldito Sanctus, alma danada do prior, apareceu, e com violento murro na cabeça, fez-me desequilibrar e cair entontecido.
Quando voltei a mim, estava manietado.
Então desenrolou-se a cena já descrita por Sanctus.
Fui levado por alguns monges hercúleos fiéis esbirros da maldita confraria, os quais, num abrir e fechar de olhos, me enfronharam de noviço.
Tentei reagir, mas logo compreendi que toda volta franca seria inútil.
Logo na manhã seguinte, fui obrigado a seguir o regime monástico; mas por toda parte, na igreja, no refeitório, no jardim, as duas sombras não me largavam nem permitiam falasse a quem quer que fosse.
Enfim, um dia fui chamado à presença do abade que, com aquela impassibilidade e altanaria que tanto me revoltavam, declarou necessária a doação de todos os meus bens ao convento, antes de pronunciar os votos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:37 pm

Indignado, protestei contra a insolência e rapacidade, e o resultado foi ser atirado a lôbrega enxovia, privado de alimentação e cumulado de injúrias.
Por fim, alquebrado, impelido pela brutalidade dos flagícios, tudo suportei e me fiz monge e mendigo, renunciando à própria felicidade.
Mas, se ainda assim, não guardasse no fundo da alma um resquício de esperança na minha evasão daquele inferno louco.
Mais tarde, soube que Bertrand tivera conhecimento da minha situação, não se atrevendo, porém, a penetrar no convento.
Apenas uma vez, depois de haver professado, achando-me na igreja, junto de um confessionário, ouvi misteriosa voz murmurar distintamente:
"Hugo, não sejas imprudente, espera com paciência que te possa libertar".
De momento, fiquei aparvalhado e, só mais tarde, concluí que o conselho não poderia vir senão de Bertrand, ganhando assim novo alento.
O tempo se escoava lentamente, eu cumpria estritamente minhas obrigações; mas, sem embargo, era tão rigorosamente vigiado que toda tentativa de fuga redundaria em fracasso inevitável.
Horas de lazer não me faltavam.
Durante as cerimónias litúrgicas intermináveis podia, à vontade, pensar na sorte madrasta e na bela Rosalinda, que deveria, de longa data, ter voltado do convento para juntar-se ao marido.
O ciúme e a paixão aumentavam dia a dia, sob aquelas sombrias e pesadas abóbadas.
O tédio acabrunhante, em conflito com o meu temperamento arrebatado, era de enlouquecer.
O que diziam do subterrâneos não era para mim; a disciplina monástica era severíssima; nem aventuras, nem sombras femininas por lá apareciam.
Desesperado, confesso que o meu humo era o que se pode chamar bestial, na verdadeira acepção do vocábulo.
Bertrand não mais voltara e eu procurava esgravatar e tactear as paredes.
Aquela parte do convento, porém, me era inteiramente desconhecida e nenhum indício de saída secreta pude descobrir.
Certa feita, seguido pelo vigia, quando assim pesquisava, riu-se ele a bandeiras despregadas, repetindo:
"Escarafuncha, escarafuncha, imbecil; pois não vês que estas paredes são pedra?"
E assim passava o tempo, até que um dia, correu a notícia de que íamos celebrar solenes exéquias pelo barão Wilibald de Launay, irmão de Rosalinda, que tinha falecido subitamente.
O corpo viria para o mosteiro, visto que ali estava o jazigo da família.
A jovem condessa de Rabenau, segundo informara o arauto da notícia deveria assistir ao enterro.
A ideia de rever a criatura amada me pôs os miolos em polvorosa.
Chegando o dia ansiosamente esperado, quase nada pude ver, por isso que só concorreram ao cerimonial uns tantos frades previamente designados.
Entretanto, a perambular pelos corredores, ouvi dizer que a jovem condessa, muito angustiada, pedira permissão ao abade para passar a noite velando o cadáver do irmão.
Enfurnei-me na cela e plantei-me à janela, donde se avistavam as ogivas do templo.
Através, dos vitrais multicores tremeluzia a claridade das tochas, e o pensamento de que ali, tão perto, estava Rosalinda, foi-me exaltando num crescendo.
O desejo de lá me intrometer furtivamente acabou por empolgar-me; saí sorrateiro, deslizei até o pátio e escapei pela porta entreaberta do templo.
Os círios ardentes, em torno da essa, mal clareavam o ambiente soturno da grande basílica.
O defunto nada me interessava e o que me atraiu o olhar foram os dois genuflexórios à direita do catafalco.
Em um deles, assentada, cochilava idosa dama; noutro, de olhos fixos no esquife, estava Rosalinda em trajes de rigoroso luto.
Semblante calmo, antes que desesperado, tal como na morte de Rabenau, pareceu-me, entretanto, mais magra e com indícios de melancolia que jamais lhe surpreendera.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:37 pm

Que pensar?
Simples abalo moral pela morte do irmão?
Ou, quem sabe, desgostos íntimos da vida conjugal?
Ah! quanto me agradara decifrar o enigma!
Mas, de qualquer forma, Rosalinda me fascinava e de pronto me veio á mente o insensato e criminoso plano.
É verdade que um lampejo de bom senso ainda me aclarou a consciência, fazendo-me dizer a mim mesmo:
"estás louco?" - mas, a indómita paixão que me rugia nalma, de todo me cegara.
Eu tinha assassinado Loevenberg no intuito de possuir aquela mulher e não, e nunca, para cedê-la a Kurt.
Deslizei felinamente cauteloso e, pelas costas, amordaçando-a com a mão esquerda, enlacei-a com a direita e parti como flecha.
Refeita da brutal agressão, Rosalinda começou a debater-se com todas as suas forças.
Houve um momento desesperado, que lhe permitiu gritar, mas eu já tinha chegado à cela.
Com o próprio véu, envolvi-lhe a cabeça e com a ponta tapei-lhe a boca para impedi-la de gritar.
Depois, escorei a porta e voltei para consumar meu ignóbil propósito.
Todavia, tinha perdido precioso tempo pois ela, valorosa e resoluta, soubera aproveitar:
desembaraçando-se do véu, enfrentava-me de punhal alçado, colada à parede:
- Vem, bandido - dizia aterrada, ao mesmo tempo que pedia socorro.
Pensei que ia morrer de raiva, pois, enquanto Rosalinda ameaçava, soaram passos no corredor e batiam à porta.
Era a voz de Benedito, intimativa e forte.
Fora de mim, atirei-me à jovem, tentando desarmá-la.
Nessa luta, tombaram a mesa e o escabelo, mas não pude concluir o intuito, porque a porta cedeu com estrondo e Benedito, Sanctus, Sebastião e muitos outros coroados invadiram a cela.
Ao avistar Benedito, Rosalinda deixou cair o punhal.
Apanhei-o e, louco, apunhalei o ídolo.
Do que se passou, em seguida, guardei apenas confusa lembrança.
Sei que estive a ponto de matar o prior, quando fui derrubado; que me vi rodeado de semblantes ferozes, indignados; mas o que disseram e resolveram não pude ouvir.
Agudíssima dor no peito me fez perder os sentidos e quando despertei estava completamente amarrado.
A primeira coisa que se me deparou foi Rosalinda ensanguentada e estendida em meu leito.
Sanctus e Bernardo pensavam-lhe o ferimento.
Confesso que não tive o mínimo remorso.
Antes queria vê-la morta.
A porta e o corredor estavam tão cheios de frades curiosos, que dificultavam a passagem.
Ouvi o prior ordenar que me removessem para o calabouço, e quando os guardas procuravam executar a ordem, ouviram passos apressados no corredor.
Um rápido movimento de confusão e apareceu na cela a figura abominável de Kurt de Rabenau.
Raivoso, adivinhei-lhe, ou antes, vi no seu rosto pálido o que os outros não viram e que o amor e o ciúme deixavam-me adivinhar isto é:
que aquele homem de traços efeminados não sofria as angústias de um verdadeiro amor, ante a perspectiva de uma perda irreparável.
Aquele olhar frio mal simulava a indiferença íntima.
Possível, até, que lhe aprouvesse ver-se livre da mulher.
Por mim, digo que exterminaria sem dó nem piedade, quem quer que tocasse com um dedo naquela mulher.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:38 pm

Ele, no entanto, ali, me deparando sabendo-me autor do atentado, limitou-se a espalhar em torno de si olhares de orgulho malferido.
O que se passou depois, não sei, porque fui levado à enxovia, onde passei 24 horas sem comer nem beber, até que compareci perante o prior, reunido o Capítulo.
Benedito leu a sentença:
in pace, a pão e água para o resto dos meus dias, com flagícios semanais.
Uma nuvem negra ofuscou-me a vista e quando dei acordo de mim, estava na furna lôbrega, onde deveria terminar a vida entre ratos, baratas, sapos e morcegos.
Tratava-se de uma enxovia estreita e escura, cujas paredes minavam água e tendo por único mobiliário um monte de palhas apodrecidas.
Deixando-me ali cair exausto, certo magoei algum dos hóspedes.
Não sei se um rato, se um morcego fugiu guinchando, espavorido.
Pus as mãos na cabeça...
Estava perdido!
Enterrado vivo, mudo para sempre, privado de ar, de movimento, de alimentação... (ai! de que me valera, então, o sacrifício de anos e anos no estudo da magia negra, desde que nenhum dos seres infernais, a quem quase vendera a alma, nada podiam valer-me nessa conjuntura?
Recitei, então, todas as fórmulas invocativas das potências tenebrosas e acabei apelando para o próprio Lúcifer, mas nada obtive e mergulhei em profundo e mudo desespero.
Difícil dizer quantos dias assim passei e como, e porque não sucumbia no peso de tantos horrores.
Às vezes, exasperado pela fome, pelas dentadas dos ratos e pelos sapos que me saltavam sobre o corpo, recomeçava os salmos sempre inócuos.
Um dia, porém, tive uma ideia luminosa:
lembrei-me do pequeno relicário que trazia ao pescoço, desde a infância, e que continha autêntico fragmento do Santo Madeiro.
Quem me havia dado? Ignorava-o...
Mas, a verdade é que o havia conservado e, quem sabe, não seria ele que embargava o aparecimento de Satã?
De pronto arranquei a medalha e, calcando-a ao pé, pronunciava a fórmula sacrílega de renúncia a Deus e a Jesus, em prol de Lúcifer.
Minha fé era tão grande que, terminada a invocação, permaneci atento, sondando a escuridão ambiente, na qual me parecia ver, qual antes vira, envolto em chamas esverdeadas, o sanhudo monarca do Inferno.
Sim: ele deveria libertar-me, uma vez que renunciava ao céu com todas as suas promessas.
De repente, estremeci. Simples exaltação nervosa?
Ilusão dos sentidos?
Ou seria Satã que se aproximava?
Ouvi pancadas e uma voz misteriosa e nada satânica, que dizia:
- Estás aí, Mauffen?
- Sim, sim - gritei com todas as forças que me restavam.
- Olha: sobe nessa pedra que aí está no canto, a servir de mesa; ergue o braço e procura, na parede, duas argolas de ferro, uma em nível superior à outra.
Alça-te nelas e encontrarás ainda outra, à direita.
Firma-te nela e inclina o corpo, quanto possas, sempre à direita!
Assim fiz e acabei enfiando a cabeça numa espécie de chaminé.
- Procura os ganchos e sobe sem receio. Continuei a escalada e a voz de Eulenhof continuava a guiar-me, até que divisei ténue claridade e me encontrei diante de uma abertura redonda.
Vi, então, de relance, uma cabeça humana, que desapareceu dizendo:
- Segue-me sem receio.
Do lado de fora da abertura balouçava-se uma escada de cordas presas a dois ganchos de ferro.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 7:38 pm

A noite vinha caindo e lá em baixo junto à muralha viam-se, através da bruma, a massa compacta do lago e o barco, no qual acabava de saltar Bertrand.
Galguei o peitoril, e como a altura não fosse grande, a descida se fez rápida.
Meu salvador tirou da água uma comprida vara, adrede preparada, e com ela desenganchou a escada.
Quis agradecer-lhe tudo aquilo, mas logo me interrompeu, dizendo.
- Nada! deixa isso para depois; agora não temos tempo a perder; despe o hábito, amarra-o nesta pedra e dá-lhe um banho fundo.
Ali, naquele embrulho, tens um camisão de pescador, uma capa e barbas postiças; vamos, depressa..
Obedeci e atirei-me no fundo da embarcação, meio oculto pela rede e tive, então, a satisfação de contemplar ao longe o sombrio edifício, cujo perfil se destacava no cenário crepuscular.
Transpor em fuga aquelas muralhas era o que se poderia considerar verdadeiro milagre.
Pleno de reconhecimento, soergui-me e apertei a mão de Eulenhof que prosseguia remando calado.
- Quanto te agradeço, bom e dedicado amigo!
- Oh! resmungou ele - maldita cupidez e ingratidão.
A que estado me reduzistes! - eu, o verdadeiro prior, obrigado a escalar muros como qualquer ladrão...
Ah! mestre, estás bem vingado!
Enxugou a fronte com as mãos e verteu uma lágrima de raiva em memória de Rabenau.
Chegados à margem oposta, depois de ocultar o barco no matagal, seguimos por uma trilha imperceptível, na direcção de um muro cinzento.
Mais próximo, reconheci que o muro era simplesmente uma casa em ruínas, meio enterrada e cujo telhado se recobria de limo.
Duas janelas semicerradas deixavam coar mortiça claridade interior.
Eulenhof bateu, apareceu uma velha feia e desgrenhada, que lhe deu boa noite.
Entramos, atravessamos a sala enfumaçada e repleta de fisionomias suspeitas.
Um grupo, acocorado junto do fogo, assava qualquer coisa no borralho.
Sem atentar na sociedade sinistra, Bertrand enveredou pelo corredor, entrando, finalmente, num quartinho sujo, de paredes esburacadas e mal alumiadas a lamparina de azeite.
Dois sacos de palha, mesa e dois bancos aleijados, completavam o mobiliário daquela cafua que, sem embargo, me pareceu confortável, comparada ao meu in pace.
- Dá-nos um bom jantar, com o melhor vinho que tiveres - disse Bertrand, atirando à velha a moeda de ouro.
A mulher desapareceu radiante e ele se atirou à enxerga estatelado:
Pois muito bem, Hugo! eis-nos, enfim, livres de perigo; mas olha que, se não tivesse a amizade de um prior resolvido, nem o diabo te livraria da embrulhada em que te meteste.
Quem, como eu, conhece todos os meandros do velho colosso campesino?
Sim, eu devia e precisava tudo saber, pois a uns tantos prisioneiros sempre convinha deixar probabilidades de fuga.
Nessa altura, foi interrompido pela velha sobraçando o cabaz das provisões.
Bilhas de vinho, fiambre e ovos, foram postos na mesa e escusado é dizer que me atirei a tudo aquilo com a voracidade e volúpia de quem jejuava há muitos dias.
Depois de copioso repasto, Bertrand não Podia continuar a conversa e deitou-se de comprido, roncando como um porco.
Segui-lhe o exemplo e dormi, por minha vez, um sono reparador.
Quando abri os olhos, uma réstia de sol entrava pela frincha da parede.
Eulenhof já estava em trajes de bufarinheiro e ajustava às costas uma caixa de quinquilharias.
- Levanta, preguiçoso - disse sorrindo, e apontando outra caixa a mim destinada.
Uma hora depois, transformados em mercadores, deixamos o albergue e nos encaminhamos para as grandes florestas que circundavam o castelo de Mauffen.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:33 pm

Após longa e penosa caminhada, paramos numa hospedaria tão suspeita e reles quanto a primeira.
Dali, partimos já transformados em moleiros, em lombo de burro.
Solenemente escanchado na sua alimária, Bertrand falou:
- Não te admires das modificações que vais encontrar lá no castelo:
a não ser Rosa e eu, ninguém lá se encontra, actualmente, salvo o velho monge e dois frades, que ocupam a pequena torre junto à ponte levadiça e que, por temor às almas do outro mundo, não se atrevem a entrar no castelo.
Isso quer dizer que a Abadia se apossou dos teus domínios e só devido ao conhecimento dos ocultos refúgios do castelo temos podido lá permanecer.
Travou-se-me de raiva o coração e, calado, continuamos a trotar, até que desembocamos à direita e justo no local onde, anos antes, respirara pela primeira vez o ar puro da floresta e compreendera o valor da liberdade.
Entramos pelo mesmo subterrâneo e fomos ter à sala em que Rosa me esperava com grandes demonstrações de alegria e magnífico repasto.
Faltava-me, porém, apetite nessa noite.
Acabrunhado e macambúzio, recolhi-me ao quarto, através de compartimentos vazios, inteiramente despojados de tudo quanto havia de precioso e fora, decerto, removido para o convento.
Via-me assim, livre é verdade, mas rebaixado da minha posição social, vagabundo errante em meus próprios domínios.
Os tesouros ainda lá estariam, sem dúvida, mas, como aproveitá-los, se estando os planos em mãos dos beneditinos, poderiam vir buscá-los a qualquer hora?
O melhor seria emigrar, carregando o que pudesse; mas, para isso, era preciso consultar Bertrand.
No dia seguinte, portanto, convidei-o a acompanhar-me e descemos aos subterrâneos.
Abrindo as três portas já conhecidas do leitor, sustive a respiração...
Se nada mais lá existisse?
Quando entrei e acendi as tochas, tal como ao tempo de meu pai, tudo reverberou e o montão de ouro - tumba paterna - se casava com a fulgurância das gemas preciosas.
Fascinado pelo mágico espectáculo, cruzei os braços encostado à parede e deixei-me empolgar por estranha ideia:
era preferível ali morrer mil vezes, antes que abandonar tantas riquezas...
Nesse instante, estranho regougo me fez atentar em Bertrand ajoelhado, de olhos incendidos e mãos trémulas, a revolver o tesouro com avidez verdadeiramente selvagem.
- Bertrand! - gritei-lhe - estes tesouros periclitam a todo momento; os frades virão arrecadá-los e podemos, então, recuperar os planos em poder de Benedito.
Ele deu um grito abafado e curvando-se:
- Mestre! Senhor de tudo isto, fiquemos aqui de atalaia e ninguém aqui entrará senão pisando nossos cadáveres.
Que mais desejar, além da contemplação destas maravilhas?
Seu olhar cúpido parecia devorar quanto via...
A mesma volúpia que desvairava meu pai, nos empolgava a ambos, naquele momento.
Contudo, respondi:
- Ficar aqui de guarda é loucura; entretanto, se conseguires restituir-me as plantas deste castelo, dar-te-ei um destes cofres.
O bragante sapateou de contente; até parecia remoçado.
- Neste caso, é para já; vou agir e não quero me chamar Bertrand, barão de Eulenhof se, depois do meu priorado de dezoito anos, senhor de todos os meandros do convento, não obtiver o que deseja e se faz preciso.
Efectivamente, no dia seguinte lá se foi e pode-se imaginar a impaciência com que lhe aguardava o regresso.
Rosa sabia que eu tencionava deixar o país quanto antes.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:33 pm

Devendo emigrar juntos, os três, haveria que escolher uma região onde ninguém pudesse reconhecer-nos, mas nada filhamos assentado ainda nesse particular.
Dada a mudança de regime doméstico, Rosa se propôs reassumir o papel de fidalga esposa do barão Eulenhof e assim foi que varejou diversos armários e aproveitou tudo que pertencera a minha mãe e pudesse adaptar à sua nova situação.
- Oh! - dizia enfática - dolorosa alegria, esta de retomar o primitivo posto, depois, de tão longo exílio!
O que só lastimo é que ninguém me possa ver aqui.
Só assim, aquela boa freguesia do albergue compreenderia porque, mesmo camuflada, eu era, da cabeça aos pés, uma perfeita castelã.
A fim de ganhar tempo, procurei arranjar as coisas de maneira a transportar a maior quantidade possível, daquelas riquezas.
Dessarte, aproveitei os forros da roupa no disfarce das pedras soltas, enchi de moedas dois sacos e pequena mala e fiquei no subterrâneo à espera do amigo.
Quatro angustiosos dias transcorreram, parecendo-me ver a todo o momento invadidos os domínios que não mais me pertenciam.
Perambulando por aqueles corredores desertos, eu me sentia assim qual ladrão sobressaltado ao menor rumor; espumava de raiva ao considerar a destruição do meu futuro; mas, que fazer?
Lutar com a confraria era impossível, de vez que havia solene e publicamente professado e pertencia à Igreja, de corpo e alma, com aquela tonsura que me valia de estigma.
Enfim, no quarto dia, quando à noite passeava no quarto, agitado e febril, chegou Bertrand de supetão.
Ofegante e praguejando, deixou-se cair numa cadeira.
- Então que há? - gritei, partindo ao seu encontro.
- Vitória completa!
Aqui temos a coisa - respondeu, batendo no peito.
Notei, então, que trazia um embrulho escondido sob o manto.
- Que é isso?
- É toda uma aventura - respondeu, desfazendo-se do manto e depositando na cadeira o embrulho que era, não mais nem menos, que um ser humano, exíguo e de aspecto repelente.
Imagine que, voltando pela floresta, deparou-se-me algo pendente de um galho...
Aproximei-me e, com seiscentos diabos! - reconheci o anão do castelo de Rabenau, preso a uma corda mas debatendo-se ainda fracamente...
Cortei a corda e ele se despencou, por pouco não me achatando o nariz.
Tendo vencido na empresa, senti-me disposto a praticar uma boa acção.
Portanto, aqui o temos e vamos dar-lhe alguma coisa que o reconforte.
Isto (tirando um maço de pergaminhos) são os teus documentos; e agora, espero o prometido cofre.
- Já te pertence - respondi, enchendo o copo de vinho e aproximando-me do anão que, aliás, já tinha visto de longe, no castelo de Lotário.
Tratava-se de um homúnculo de estatura correspondente a de uma criança de cinco anos, papudo e mal conformado.
No rosto desmaiado e coberto de rugas precoces estampavam-se a enfermidade e congénita fraqueza.
Pendente ainda do pescoço a corda, tinha os olhos congestos e trementes as mãos minúsculas.
Quando, pouco mais calmo, passamos a interrogá-lo, respondeu.
- Sr. conde, e vós, Sr. Eulenhof, meu salvador, ouvi minha triste história e valei-me, se vos for possível, pois sou vítima de odiosa injustiça.
Que maldita seja a memória de quem me atirou nesta situação, por toda a eternidade.
Isto dizia com tanta gravidade que nos causava sincera admiração.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:33 pm

Eu sabia por Lotário que o anão o havia traído, e por Bertrand sabia que o pobre homúnculo pretendia ter graves motivos para odiar o conde.
Iríamos, então, descobrir um grande segredo, talvez de proveito para nós mesmos.
Depois de ligeira pausa, o anão prosseguiu:
- Tanto quanto a memória alcança, posso dizer que vivi os primeiros dias conscientes de minha existência aos cuidados do guardião do castelo de Rabenau, que se dizia meu pai.
Sua mulher tinha falecido e a mãe dela, piedosa criatura, tomara conta de mim.
Meu pai, austero e Intratável, parecia detestar-me; minha avó temia contrariá-lo e só às ocultas me acarinhava.
Eu tinha licença de brincar à vontade no pátio do castelo, e podia mesmo frequentar os cómodos internos, pois a condessa me acolhia com benevolência e até me regalava de frutas e doces.
O castelão, porém, não sei porque, causava-me temor.
Nunca me falava, às vezes me atirava um punhado de moedas, mas eu sentia que ele me detestava e se esquivava à minha presença.
Só mais tarde pude saber os motivos dessa repulsa.
De resto, ele andava quase sempre por fora, em guerras, caçadas, torneios; de sorte que raro nos encontrávamos.
Aproveitando uma ausência dessas, a velha Condessa me tomou ao seu serviço, no intuito de me subtrair o rigorismo paterno; de volta, o conde, mostrou-se muito indignado, não mais tolerou minha presença e acabei banido.
Eis como cresci, enfermiço e raquítico, dizendo-me a avó que assim nasci para escarmento dos parentes e compaixão dos estranhos.
Confesso que, não raro, o jovem Lotário me causava profunda inveja, vendo-o crescer belo como um anjo e admirado e querido por todos os seus.
Ambos tínhamos 18 anos, quando casaram o jovem conde com uma parenta afastada.
Acocorado a um canto, coração travado de amarguras, assisti à festa transbordante de alegria, vendo passar o sumptuoso cortejo.
A noiva, lindíssima, radiante; o noivo rutilava diamantes, ninguém atentou no mísero anão, ali jogado a um canto.
Profunda tristeza me invadiu a alma e procurei refugiar-me junto da vovó que, bastante alquebrada e enferma, já se não levantava da cama e estava para cada hora.
Vendo-me tão acabrunhado, a santa criatura me acariciou e, depois de reflectir ligeiramente, disse:
- Não posso morrer levando para a sepultura este segredo que me pesa na consciência há tantos anos e que talvez possa, algum dia, fazer tua felicidade.
Fez-me subir ao leito e aproximar o ouvido dos seus lábios trémulos e descorados:
- Pobre criança; vou revelar o mistério do teu nascimento; mas, ainda após a minha morte, cumpre guardares segredo.
Fica, então, sabendo que o autêntico Lotário, o herdeiro do condado és tu, como único e legitimo filho do casal.
Quando nasceste, pobrezinho, teu pai estava desaparecido de forma inexplicável e a condessa parecia morrer de angústia.
Meu filho era, a esse tempo, o escudeiro, e sua mulher, Elsa, muito doente, estava para dar à luz, de um momento para outro.
- Eu estava então na plenitude de minhas forças e fui designada para assistir e socorrer a condessa, na iminência de enlouquecer com o desaparecimento do marido.
Assim, nasceste mais morto que vivo, com esse bóssio e uma espádua mais saliente.
Tua mãe continuava alucinada e era eu que te ninava e embalava o berço.
De repente, o conde reapareceu, magro e pálido como um espectro.
Apresentei-te a ele, mas, logo que te viu, exclamou:
- "Apre! que monstro..."
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:34 pm

Agarrou-me e arrastou-me a outro quarto, onde se encontrava meu filho, visivelmente satisfeito, dizendo-nos, então, o conde:
- Palavra de Foulques, oiçam:
vossa cabeça responde pelo vosso silêncio; mas, em compensação, vos pagarei este segredo a peso de ouro.
Fez um sinal a meu filho, que se retirou, e exclamou:
- Agora, vai-te e traz-me a criança.
Obedeci e levei-te do quarto da condessa que, sempre inconsciente, nada percebeu.
Quando cheguei contigo nos braços, vi que teu pai também aconchegava ao peito uma criança do teu porte um pouquinho mais velha, talvez.
Entregando-ma, de olhos flamejantes, acrescentou:
- Coloca-o lá no berço e toma tento com a língua; e quanto a este monstro, leva-o a tua nora, que acaba de dar á luz um nati-morto...
Compreendes?
Não ousei articular uma palavra, tudo correu consoante os desejos do poderoso senhor.
Minha nora faleceu dois dias depois e tu, pobrezinho, ficaste despojado, visto que o intruso, saído não sei de onde, ficava devida e legitimamente investido de todos os teus direitos.
Ouvindo esta revelação, fiquei por algum tempo como que aniquilado, mas, depois, veio a reacção violenta e rancorosa.
Era o dono, o senhor de tudo que me cercava; cabia-me aquele bonito nome - Lotário de Rabenau! e a mim me achincalhavam e desprezavam, enquanto aclamavam o usurpador?
Pensei que ia enlouquecer.
Nessa mesma noite, a boa velhinha expirava e fiquei mais só, no mundo, com o meu segredo e um inferno dentro da alma.
Pouco tempo depois, o conde Foulques falecia, confortado com os carinhos e cuidados do filho que tanto idolatrara.
Mil projectos me infernaram então; quis tudo revelar à minha progenitora; mas algo me impedia de afrontar aquela mulher altaneira, posto que compassiva para comigo, e dizer-lhe: esse belo rapaz de que tanto te orgulhas, que tens como luz de teus olhos, não é teu filho; teu filho sou eu, o papudo, o anão - nódoa negra no escudo brilhante dos Rabenaus, mas, ainda assim, teu legitimo filho e dono de tudo isto.
Entretanto, faltou-me coragem e resolvi calar e esperar.
Com grande espanto, poucos dias após o enterro do conde, fui chamado ao quarto de Lotário, que me falou com benevolência:
- Não tens necessidade de fazer o papel de criado, nem aturar as impertinências de teu pai.
Escolhe em qualquer dos torreões um quarto mobiliado, onde possas viver à vontade.
E quanto a deleites outros, dado que os tenhas - sublinhou sorrindo - aqui tens esta bolsinha bem fornecida.
Colocou sobre a mesa a bolsa de veludo e despediu-me.
Voltei a mim, admirado e raivoso, por me afrontarem com esmolas, a mim que era dono de tudo aquilo.
Não obstante, aceitei a oferta, escolhi o quarto e lá me instalei, de vez que o despotismo do meu suposto pai se tornava Insuportável.
Nesse ano, morreu a condessa, ao dar à luz Kurt.
Profundo foi o desgosto do conde e daí os extremos de carinho e cuidados com o órfão.
Os anos correram lentos e meu ódio crescia com eles.
Ninguém de mim se ocupava, no castelo; era como se lá não existisse, excepto para Kurt.
Ah! Esse me procurava, sim, mas para cevar seu ódio original, metendo-me a ridículo com brincadeiras de mau gosto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:34 pm

Menino detestável, caprichoso e poltrão, fingia-se mais doentio do que era, só para provocar maior ternura do pai, cujo fraco explorava:
orgulhoso e altaneiro, personificava a malícia do símio e a teimosia do cão, a maltratar os fâmulos e agredindo a própria ama.
Animal que lhe caísse nas mãos era maltratado, quando não morto com requintes de perversidade.
Um dia, porém, expressamente proibido pelo pai, cessou de perseguir-me, mas eu continuava abominando aquela fisionomia descorada, aquela criança loura e raivosa, que sapateava e praguejava à menor contrariedade; e posto não tivesse queixas contra o pai, achava revoltante a sua fraqueza em relação ao filho.
Certa feita Kurt me pregou uma das suas peças e perdi as estribeiras; atracando-me com ele a dentadas, mordi-lhe o rosto.
Lotário, furioso, bateu-me e fui encarcerado por algum tempo, coisa que jamais pude esquecer.
Portanto, quando pela segunda vez me castigou, à vista de Rosalinda, jurei vingar-me e furtei o cofre para os monges.
Lotário, contudo, era um homem leal e, no dia de sua morte, quando chegou ao convento, lá me descobriu não sei como.
Tentei fugir-lhe, mas seu olhar me chumbou no solo.
- Sabes quem és, tanto quanto eu, - disse, cruzando os braços diante de mim - mas, pobre louco, que poderias fazer deste galardão, deste meu nome ilustre, deste património, enfim?
Tu, aleijado, raquítico e incapaz de alçar a lança e manejar a espada?
Respeitei o sangue que te corre nas veias, não permiti que fizesses, jamais, o papel de lacaio, fiz por ti o que podia fazer e tu, ingrato, me traíste; noutro qualquer, não trepidaria sondar fundo o coração ingrato, à ponta de punhal; mas os remorsos de meu amado pai tolhem-me o braço.
Para alivio de sua consciência culposa, em relação a ti, e para que não tenha algo de que me recrimine, ao reencontrá-lo no mundo das sombras, lego-te isto.
Deu-me um pergaminho devidamente rubricado e prosseguiu:
- É a doação, em boa e devida forma, de um castelo e pequena herdade, que te deixo como se foras filho bastardo de meu pai.
A Kurt deixei a revelação da tua origem.
Eis o que pude fazer por ti.
Afastou-se e só o vi depois de morto - disse suspirando - o resto, digo-o já:
voltando ao castelo, adoeci gravemente e levei meses a restabelecer-me.
Logo que pude, solicitei audiência particular ao jovem conde e ele se esquivou até hoje, quando o abordei, justamente na ocasião em que montava para dar seu passeio a cavalo.
Tomou-me à garupa, sorridente e ordenou à comitiva que o esperasse no castelo.
A certa distância. perguntou o que lhe queria e notei que os olhos lhe faiscavam estranhamente, à proporção que expunha o meu caso.
- Já o sabia por meu pai, que caiu na tolice de escrever e documentar toda essa história no intuito de improvisar um mostrengo em castelão.
Aliás, sei que ele, coitado, não andava bom do juízo nos últimos tempos.
Mas, tens aí contigo o documento?
Por única resposta, entreguei-lhe o pergaminho; ele o enfurnou sob o gibão e sacando do bolso a corda, enlaçou-me o pescoço, dizendo:
- Acabo por onde meu avô devia ter principiado; acabemos, de uma vez para sempre, com estas misérias...
E antes que pudesse prever, estava balouçando no ar.
Meio inconsciente, ainda pude ouvir o galope do cavalo que se afastava e depois nada mais vi, nem senti, até que despertei nos braços do Sr. Eulenhof.
Ah! Kurt...
Kurt, se ódio matasse...
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:34 pm

Estávamos admirados:
aquele homúnculo com a cabeça metida nas mãos descarnadas, era o legítimo conde de Rabenau, substituído por meu irmão.
Na verdade, Lotário, o homem das grandes empresas, que jamais recuava diante de um crime indispensável a uma grande causa, era, todavia, bom e generoso para com as vítimas Inocentes; ao passo que o patife do filho zombava das suas últimas vontades seladas, por assim dizer, com o próprio sangue.
Pobre irmão, que monstro engendraste!
- Que podemos fazer por este pobre diabo - disse Bertrand quebrando o silêncio - sem domicílio e sem real?
Não obstante, em consideração ao sangue que lhe corre nas veias e ao dever que nos incumbe de, como cavaleiros proteger os fracos, proponho levá-lo connosco.
Ah! se eu fosse ainda prior, sei bem como e o que convinha fazer, mas ao maroto do Benedito, que foi tão indigno para comigo, não daria jamais um precioso conselho.
Não estejas aí a sonhar com o que lá se foi - disse, interrompendo-o - mas, tens razão, Rosa poderá cuidar dele.
Chamei então a digna criatura que, depois de muito deblaterar, acabou levando o novo protegido.
Lotário era uma criatura misteriosa em tudo disse, logo que ficamos sós - senão, veja:
como chegou a ser chefe dos "Irmãos Vingadores?"
Agora que tudo está sepultado no passado, e como prova de absoluta confiança, precisas contar-me os pormenores da tua evasão de minha casa, a tua investidura religiosa e as circunstâncias que levaram um jovem e ardoroso cavaleiro como Lotário a imiscuir-se em tão arrojada e complicada empresa.
Vamos, confessa, pois eu sei que nada ignoras de toda essa meada.
Bertrand debruçou-se à mesa, engolfado em profunda abstracção.
Enchi-lhe o copo, aproximei a bilha de vinho e deitei mais um pouco de lenha no fogão.
Quando retomei lugar à mesa, começou:
- A ti, meu melhor amigo, direi tudo que sei.
Estou com 63 anos e tenho percorrido uma rota movimentada e aventurosa.
Nem esta é a primeira vez que me encontro na situação de vagabundo e cavaleiro errante.
Enfim, eis em resumo, a minha história.
Nasci de honrada e nobre família, embora irmão muito rico.
Falecido meu pai ficamos, eu e um dois anos mais velho, senhores de nossa vontade.
Posto que de génios muito díspares, vivíamos em boa harmonia, sendo que meu irmão era um carácter enérgico, inteligente, afeiçoado às ciências ocultas e à magia negra, que praticava com um jovem cavaleiro seu amigo, que acabou professando e continuava a visitá-lo assiduamente.
Eu, porém, não sabia o que fazia ele no convento, pois nunca falávamos de nossa vida particular.
A mim me apraziam as pugnas, a bebida, as aventuras amorosas, e como estes pendores pouco se coadunavam com as minhas posses, fui vendendo pouco a pouco as minhas terras, as mais das vezes sem autorização de meu irmão que, no entanto, nunca me censurou por isso.
A esse tempo ele se tornou amicíssimo do conde de Rabenau, pai de Lotário, e não lhe saía de casa, até que um dia, inesperadamente, soube que meu irmão se ordenara monge beneditino e passara a chamar-se frei António.
Essa decisão, que sempre constituiu um mistério para mim, deixou-me na posse exclusiva de todos os bens que ainda nos restavam.
Não te vou descrever aqui todas as fases da minha decadência.
Basta dizer que fui empobrecendo dia a dia e bem depressa nada mais sobrava que as paredes nuas do castelo.
Nessa conjuntura, atirei-me ao jogo e às baiucas, procurando guardar as aparências de nobre cavaleiro.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:34 pm

Farejava intrigas e negócios escusos e frequentava os torneios.
Certa feita, auxiliei o rapto de uma donzela, cujo noivo pretendia haver-me reconhecido entre os raptores.
Claro que o desmenti, mas fui desafiado a duelo e o negócio acabou mal.
Gravemente ferido, quase moribundo, fui transportado a uma hospedaria onde se encontrava de passagem Lotário de Rabenau, então na flor dos seus 18 anos.
Lotário ouviu e deplorou a minha história, acabando por me ofertar boa soma de dinheiro, em atenção aos meus títulos de nobreza, aconselhando-me a desaparecer.
Fiz-me então transportar à casa do amigo Calmor, lá me tratou e me encaminhou a teu pai, como se fosse ele próprio.
O resto, o que se passou nesta mansão, bem o sabes e, decerto, não te esqueceste que, falecido teu pai, fui aqui procurado para negócio urgente.
Acompanhei o mensageiro e num albergue próximo encontramos cavalos selados; mas, logo adiante, noite fechada, nos detivemos em plena floresta.
O guia me vendou os olhos e seguimos secreto caminho.
Quando me retiraram a venda, estava no gabinete do prior, diante de meu irmão, imóvel numa poltrona e visivelmente enfermo.
Esgotadas as efusões de alegria pelo nosso reencontro e depois de conversarmos um pouquinho de tudo, meu irmão frisou, satisfeito, nossa profunda semelhança física, a ponto de parecermos gémeos.
A seguir, tomando-me a mão, disse:
- Sei que tens levado uma vida obscura e aventurosa e que só por acaso conseguiste fugir e ocultares; ouves, pois, com atenção:
estás disposto a aceitar uma posição honrosa, independente, aqui vivendo sem professares e sob a só condição de te subordinares a um chefe, que Jamais poderia ser tirano?
Em tal caso, não te faltará dinheiro, nem autonomia e liberdade - bem entendido da meia-noite ao alvorecer.
Aceitei, satisfeito e ele me fez jurar, pela sua cruz, fidelidade e silêncio.
Depois, reteve-me oculto algum tempo, instruindo-me de quanto se impunha ao cargo de falso prior.
Por fim, contou que os seus sofrimentos provinham do ferimento produzido por arma envenenada, e que devia morrer e queria que o sucedesse no priorado.
Aprendi depressa o meu papel e, quando me enfronhava no burel, era o primeiro a me convencer de que ninguém descobriria o truque, pois até a voz se confundia com a de meu irmão.
Certa feita, encontrei sentado ao lado de frei António, o belo Lotário de Rabenau, que logo me reconheceu, posto não nos víssemos havia uns dez anos.
Percebi logo a grande afeição que António lhe dedicava.
- Eis o teu único chefe e mestre, a que me venho referindo.
E passou a desvendar os mistérios da "Sociedade Secreta," permitindo que voltasse a ti e guardasse o momento azado.
Três meses depois, chamado ao convento, recebi ordem para alojar em tua casa meu irmão moribundo e consumir o seu cadáver.
António aqui esteve, como sabes, e expirou em meus braços.
Regressei ao convento, na companhia de Rabenau, que deu todas as instruções necessárias, mostrou-me todas as saídas e esconderijos, exigindo em compensação, obediência cega.
Oficialmente, de direito, eu seria o prior; mas, de facto, toda a direcção, administração e a caixa, só dele dependiam e, força é confessar que ninguém lhe poderia disputar a competência.
Metido no seu burel, visitava os subterrâneos, encorajava os frades em seus projectos, ocupava-se de alquimia, lia e traduzia velhos livros e cooperava com pai Bernardo, a quem muito estimava.
Nenhum irmão vingador era aceite antes que ele o estudasse.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:34 pm

Dessarte, via, previa e provia a tudo; bebia pelo copo do irmão mais apagado, controlava rigorosamente a contabilidade e até experimentava, nos frades enfermos, remédios que ele próprio manipulava.
Pois, apesar de todo esse dinamismo, ainda lhe sobrava tempo para atender aos imperativos da sua condição social e das suas aventuras amorosas.
Assim me convenci, desde logo, que, prior de direito, eu não passava de simples preposto imediato do verdadeiro e único chefe, que era ele.
Neste lanço, interrompi Bertrand, objectando:
- Mas, não posso compreender como não perceberam o truque, de vez que, mesmo de capuz, em nada te pareces com o nosso Rabenau!
- É verdade; mas, neste particular, há uma história a contar, ou seja que, antes da morte de meu irmão, abrigou-se no convento um pobre italiano, doente e algo maníaco, foragido da pátria, sem destino.
Dos seus antecedentes, apenas se soube que era filho de um grande sábio, ou feiticeiro, e que perseguia a ideia fixa de fabricar uma pasta, ou coisa que o valha, com a qual conformava homens, aos quais só faltava a vida.
Em uma cidade natal - Monza, se não me falha a memória, quando a versão se divulgou, tentaram queimá-lo vivo. como teria escapado, não sei; mas sei que a mania original juntou-se a de perseguição.
No seu peregrinar sem destino, ele foi dar às portas do convento e lá convenientemente socorrido.
Mediante algumas provas de habilidade, meu irmão lhe encomendou, não um homem, mas uma simples máscara.
O italiano ultrapassou a expectativa, fez obra admirável, não de cera, mas de substância desconhecida que, uma vez aquecida, se adaptava a qualquer rosto.
Comigo, por exemplo, a semelhança era notável, a despeito da barba, das sobrancelhas e das minhas bochechas.
Assim camuflado, de capuz arriado e na penumbra, que sabia aproveitar, Rabenau era irreconhecível.
Deixa-me, porém, reatar a narrativa.
Como ia dizendo, eu me sentia muito subordinado.
Conquanto afável no trato, paciente e bondoso, quando não o compreendiam de pronto, Rabenau não me fazia confidência, não me consentia intimidades de amigo e eu queria ser o que fora meu Irmão, seu antecessor.
Rabenau, entretanto, mantinha-se inflexível, ordenando e exigindo obediência absoluta, a ninguém consultando.
Não ignorava que ele tinha seus negócios particulares, segredos que ficaram entre ele e meu falecido irmão.
O grande caso é que levava grande parte dos lucros e nunca pude saber que fim lhes dava.
A mim, no entanto, exigia vintém por vintém e quando, certa vez gastei mais do que estipulara, carregou o cenho e fez uma demonstração exacta das despesas da comunidade, incluindo dízimos, rendimentos extraordinários, tais como hortaliça, farinha, donativos avulsos, etc., assim me provando que abusara e censurando-me com aspereza.
Os anos foram correndo e eu me fui identificando com aquela vida cómoda e regalada, se bem que estroinices sobretudo, o jogo, absorvessem e excedessem meus proventos.
Por fim, supus haver conquistado Rabenau e comecei a negligenciar suas ordens, gastando sem conta nem medida.
Severo por índole e por princípio, não trepidou em chamar-me à ordem e chegou a ameaçar-me.
Esquecendo que lhe devia o cargo, a independência, as honras, tudo enfim, revoltei-me e, num momento de raiva, deixei que Benedito e Sanctus algo pudessem suspeitar da posição do verdadeiro chefe.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:35 pm

Esses dois malditos monges acabaram descobrindo o que ninguém seria capaz de imaginar, isto é, a duplicidade do priorado.
Entregue aos meus prazeres, eu nada percebia do que se tramava.
Eles formaram uma liga e acabaram por me peitar mediante oferta de vultosa propina.
O resto não preciso dizer:
entreguei o homem que absolutamente não merecia esse destino e a vingança virou-se contra mim; alijaram-me mais depressa do que poderia supor, acabaram por escorraçar-me, dando-me por morto.
Deixou pender a cabeça, cismativo, suspirou profundamente e exclamou:
- Ah! Rabenau estás bem vingado!
Sim, efectivamente, porque os salafrários que o venderam já lhe choravam a perda.
Mas o momento não era para divagações, sim para resoluções.
- Desperta, amigo, - disse, batendo-lhe no ombro - vamos cuidar da partida, porque o que passou, passou.
- Onde achas que nos possamos fixar, neste país?
Ele passou a mão pela testa, como querendo afugentar maus pensamentos e disse com naturalidade habitual:
- Tens razão: o passado não tem remédio; e quanto à futura residência é coisa em que já tenho pensado.
Acho que andarmos por ai errantes, de déu em déu, é loucura; comprar uma casa em lugar ermo, é desafiar os salteadores; e os castelos fortes, ninguém os vende.
Na minha opinião, devemos ir para a Itália e lá adquirir um navio pirata, porque assim estaremos em toda parte e em parte alguma.
Se nos aparecerem boas presas, poderemos atacá-las e refazer a bolsa.
É verdade que também poderemos causar ciúmes aos competidores; mas, de qualquer modo, o homem corre perigo em toda parte.
Em minhas viagens, tive ocasião de visitar Veneza e lá conheci o capitão de um navio corsário, chamado Peregrino, que me demonstrou não haver melhor negócio, pois só a sua quota dava para sustentar a equipagem e amealhar sólidas economias.
Asseguro-te, caro Mauffen, que essa vida aventurosa, fértil em lances arriscados, tem também os seus encantos e nos fará lembrar os torneios.
Vamos a Veneza, talvez lá encontremos o Peregrino.
Sei que ele tencionava mudar de vida e fazer-se hoteleiro; seus conselhos nos serão proveitosos.
Iremos os quatro:
tu, eu, Rosa e o anão, devidamente disfarçado.
Calmor e Gilda ficarão vigiando o castelo, de longe, e estou certo de que chegando a Veneza tudo se arranjará.
Após longa discussão, acabei aceitando a ideia, mas, abandonar o velho solar onde nascera, com os seus tesouros e o meu laboratório de alquimia, apertava-me o coração.
Todavia, entre a ponte de comando e o in pace, a opção não era difícil:
o monge fugitivo tinha que deixar o abrigo dos ancestrais, sem herdeiro que desse novo brilho à linhagem dos Mauffens.
À véspera da partida, prontos e acabados todos os preparativos, os companheiros se foram deitar, procurando haurir no sono reparador as forças para o empreendimento da manhã seguinte.
Só eu não conseguia dormir.
Inquieto e angustiado, errava de um lado para outro, qual espectro que mal assombrasse aqueles sítios caros.
Nessa peregrinação desordenada, fui parar diante da tapagem que interditava a maldita torre, na qual meu avô apunhalara a esposa e o trovador.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:35 pm

Todas as particularidades do sonho que tivera, quando lá procurava penetrar, me afloraram à mente:
revi, espiritualmente, o semblante de D. Iolanda, ao qual, (coincidência estranha) a visão emprestara os traços de Rosalinda, criatura que eu amava, apesar e acima de tudo, embora por ela abominado.
De repente, assaltou-me a ideia irresistível de lá entrar novamente.
Monologuei, então:
Amanhã, vou partir para sempre; mas, preciso conhecer essa câmara onde os traidores tiveram o seu castigo.
Sem mais detença, fui buscar o machado e a picareta.
Com pouco trabalho, derrubei a parede provisória e defrontei novamente a porta.
Abrindo-a sem vacilar, comecei a subir a escada.
Como da outra vez, o luar se coava através das janelas gradeadas.
Agora, porém, caminhava a passo firme, com o machado na mão direita e na esquerda a vela, visto que me não lembrava onde havia deixado o molho das chaves.
Súbito, o pé esbarrou nelas, apanhei-as e continuei a subir, até que parei num pequeno terraço, diante da outra porta fechada.
Aí, comecei a ficar angustiado.
A verdade é que, quando visitara o quarto onde perecera minha mãe, sentia-me perfeitamente calmo; e, agora, ali assim, batia-me o coração e as mãos trémulas recusavam acertar com a fechadura.
Encostei-me à porta, por um instante, procurando convencer-me de que aquela inquietação não se justificava, pois, ninguém me perseguia e perigo algum se me antolhava.
A razão reagia, protestava, mas as cenas da visão anterior me afluíam ao cérebro.
Comecei a ter ciúme e ódio à mulher que lá estava, atrás daquela porta, esquecendo-me de que jamais a vira, nem conhecera, e que a imagem entrevista não era senão a de Rosalinda.
Num esforço supremo aprumei-me e enxuguei a fronte banhada em suor.
Estarei enlouquecendo?
Que ideias tolas são estas?
Agarrei o molho de chaves, tomei a que servia e abria a porta, que rangeu lugubremente nos gonzos enferrujados.
Um ar seco e pesado me fez recuar.
Aquela porta estava fechada havia mais de 180 anos...
Mas, daí a pouco a transpunha, respirando com dificuldade.
Levantei o archote e sondei, ansioso, o ambiente. Era uma sala circular, de paredes atapetadas e no centro da qual se ostentava a realidade do meu sonho: uma roca no assoalho, uma harpa tombada e, - na poltrona de alto espaldar, um vulto de mulher, vestida de branco, pendida a cabeça.
Aproximei-me cauteloso e logo se me deparou uma opulenta cabeleira loura e um rosto não desfigurado e denegrido, como o de minha mãe, mas ceráceo e muito semelhante ao de Rosalinda.
O vestido branco estava salpicado de manchas negras, e do peito emergia o cabo de um punhal cravejado de brilhantes.
De joelhos, cabeça tombada para trás e apoiada noutra cadeira, deparava-se o corpo de um homem, intacto como o primeiro, de mãos crispadas e rosto cianozado, dolorosamente contraído.
Diante daquele quadro, estremeci como se fosse picado por uma víbora:
aqueles traços femininos não me eram estranhos e trocados por louros cabelos negros e a barba fina e anelada, poderia considerar-me em face de Kurt de Rabenau!
Sem ter em conta que aquelas duas criaturas tinham morrido havia 180 anos e que não as conhecera, tive ciúme por vê-los, ainda assim, ali reunidos e tão parecidos, respectivamente, com a mulher que amava e com o homem a quem odiava de morte.
Poderia ficar mais tempo a contemplá-lo mas aquele cabo de punhal me fascinava.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:35 pm

Assaltou-me o desejo de possuir a arma vingadora e avancei derrubando, de passagem, o corpo do homem, com um chocalhar de ossos que pouco me impressionou.
Inclinei-me, presa de indefinível comoção para o semblante da jovem morta e estendi a mão para lhe arrancar do peito o punhal, e no momento justo em que o tocava, estranha coisa se passou comigo:
recuei, trémulo, com o punhal na mão e pareceu-me que a morta se agitou, se encolheu e se fundiu em pardacenta coluna, que rolou por terra num sinistro cascalhar de ossos.
Meus olhos estuporados vagavam de um para outro corpo, mas logo verifiquei que não restava deles mais que um punhado de cinza e ossos.
Era todo o remanescente daquele par amoroso, que levara o meu antepassado a cometer horrendo crime.
À medida que o vento exterior ia espalhando aquelas cinzas, voltou-me a calma e tratei de safar-me, fechando cuidadosamente a porta, como se temesse perturbar o sinistro colóquio dos que lá ficavam.
Uma vez fora, me senti logo senhor de mim e, se não tivesse o punhal na mão, seria capaz de jurar que fora apenas vitima de um sonho, consequente ao estado depressivo do meu espírito.
Ai de mim! ainda que instruído e versado em ciências herméticas, estava obumbrado pela carne; o mistério do passado me era proibido e não compreendia que os sofrimentos de então eram a lembrança de encarnações pregressas e criminosas.
Desci exausto, para dormir a última noite no castelo onde nasci e sempre vivi.
Deitei-me, pois, e consegui adormecer, mas, não isento de medonhos pesadelos.
Despertei com os raios do sol nascente batendo-me no rosto.
Levantei-me, tomei os trajes habituais e me envolvi em ampla capa de peregrino.
Ajustei umas barbas brancas e, de bordão em punho, encaminhei-me ao salão, onde fui recebido com estrondosas gargalhadas.
Magnífico! exclamou Bertrand, que envergava os mesmos trajes - tal como estamos, podemos cruzar com o próprio Benedito, sem perigo.
Depois do almoço substancioso, fomos todos os quatro aos subterrâneos e os atravessamos calados e engolfados em lúgubres pensamentos.
Logo me encontrei no mesmo barranco onde, anos antes, respirara pela primeira vez o perfume da floresta e os anseios de liberdade.
E baixei a cabeça:
Oh! que vida de prazeres, de aventuras e de crimes tinha perlustrado até aquele instante em que me via exilado, foragido, sem nome, e para nunca mais ali voltar!
Uma exclamação de Rosa interrompeu essas cogitações.
Ela apontava um velho carvalho, em cujo tronco se viam gravados, a ponta de punhal, dois corações.
- Lembras-te, Hugo, do nosso primeiro encontro, das horas deliciosas que aqui passamos colhendo os primeiros frutos do nosso amor?
Afastei-me sem lhe dar resposta.
Era uma invocação infeliz, pois me levava a comparar o seu rosto já esmaecido, de olhos encovados, com a esplêndida criatura em pleno viço, que se me deparara naquele mesmo sítio, com o seu olhar de fogo - fogo que me devorara, porque, na verdade, Rosa não havia contribuído pouco para os meus crimes e infortúnios.
Outro incidente penoso veio juntar-se aos aborrecimentos desse primeiro dia de viagem.
Caminhávamos vagarosos, de vez que o peso das jóias escondidas sob as vestes nos fatigava bastante, quando fomos alcançados por um cortejo.
Afastamo-nos em atitude humilde para lhe dar passagem no estreito caminho, quando - imaginai com que raiva reconheci no cavaleiro que o precedia altaneiro, de mãos à ilharga, o maldito Kurt de Rabenau!
A seu lado, algo tristonha e distraída, montando soberbo cavalo branco, marchava Rosalinda.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:35 pm

Certo, regressava ao castelo, refeita do grave ferimento.
Acompanhei com os olhos a brilhante cavalgata, até que de todo se diluísse numa nuvem de poeira.
Passo aqui por alto alguns incidentes da viagem, penosa e longa, até que um dia, manhã cedo, entramos na bela Veneza.
Depois de entrar em indagações Bertrand soube que Peregrino ainda vivia e estava estabelecido no porto com uma hospedaria bem afreguesada.
Alugamos um escaler e fomos ao local indicado, onde se nos deparou vistosa tabuleta anunciando aos hóspedes do "Paraíso" todas as delícias da terra.
Franqueamos a grande sala, guarnecida de sólidas mesas, com cadeiras esculpidas no estilo italiano.
Muita gente assentada, bebia, conversava, jogava.
Ao fundo da sala, havia um estrado balaustrado e grande mesa pejada de garrafas, caixas enormes e louçaria variada.
Assentada a essa mesa, de gibão cinza e gorro de veludo, estava um homem de barbas castanhas, olhos vivos e nariz adunco, que lhe davam um quê de ave de rapina.
Dois mocetões em trajes berrantes e armados de comprida espada, conversavam e riam escandalosamente, encostados à balaustrada.
Aproximei-me do hoteleiro, pedi o melhor quarto e um bom jantar.
Como não discutia preço, mestre Peregrino logo se desfez em amabilidades e nos indicou os cómodos com muitos gabos.
Pouco depois, mandava servir o jantar e o levou, ele mesmo, ao nosso quarto.
Bertrand, ligeiro, fechou a porta e tirando a barba postiça, gritou:
- Sabes quem sou, Peregrino amigo?
O hoteleiro vacilou um momento, estupefacto, mas logo batendo na testa, atirou-se nos braços de Eulenhof.
- Bertrand! amigo velho, que feliz acaso te traz a estas plagas?
- Desgraças de família, coisas da vida - respondeu Bertrand, com tal ou qual gravidade - sabes que possuo grandes bens na minha pátria, e a verdade é que tive de abandonar tudo.
A ti, revelei meu verdadeiro nome e agora conto com a tua discrição.
Quero apresentar-te estes dois companheiros:
esta senhora é a baronesa, minha mulher, este, aqui, é um órfão que adoptei como filho; e aquele ali é o meu sobrinho, conde Hugo, a quem um atrito político com o duque obrigou a expatriar-se.
Escusado dizer que se trata de excelente pessoa, bom generoso, cavaleiro modelar e que, sem embargo dos seus foros de fidalguia, é o homem mais trabalhador que tenho conhecido.
Ele é que nos tem amparado e vale, para meu filho adoptivo, como seu irmão mais velho.
Depois desse punhado de mentiras, Bertrand convidou Peregrino a compartilhar do nosso jantar.
No curso deste, ouvi Eulenhof dizer baixinho ao hoteleiro:
- Se tiveres qualquer embaraço financeiro, não faças cerimónias:
Hugo não é muito fácil de sangrar, mas quando se trata de bons amigos, o caso é outro.
Mais tarde, em torno de uma garrafa de bom vinho, falamos de negócios e Bertrand expôs a pretensão de comprar um navio.
Peregrino reflectiu um instante e declarou que talvez obtivesse o que nos convinha, mas havia que esperar duas a três semanas a volta de um corsário.
Perto de um mês assim se escoou e aproveitei o tempo para conhecer a cidade e adquirir conhecimentos náuticos com velho marinheiro em disponibilidade, pois não queria, nem me convinha, ficar inteiramente à mercê das equipagens.
Com as noções teóricas mais indispensáveis, a experiência faria o resto.
Enfim, uma noite Peregrino nos convocou ao seu quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:35 pm

Ao entrarmos, um homem de aspecto feroz armado até os dentes, levantou-se para saudar-nos secamente.
Era o capitão Fúlvio, comandante do navio, disposto a no-lo vender com equipagem, munições e tudo mais.
Começou fazendo preço absurdo, mas, depois de muito discutirmos, ficou resolvido fôssemos no dia seguinte ver o navio em alto mar, de vez que não lhe era permitido ancorar no porto.
Peregrino, a quem prometi gratificação pingue, em troca de rigorosa vistoria, prontificou-se a acompanhar-nos e na hora aprazada largamos no escaler tripulado por seis marujos, tão rebarbativos quanto o seu chefe, que também fora ao nosso encontro.
Duas horas após, abordávamos grande e sólido veleiro, que tinha à proa o nome do seu capitão e proprietário - Fúlvio.
Peregrino o vistoriou, do porão às vergas e tudo aprovou:
os salários, os contractos de repartimento das presas, tudo ordenado de maneira a facilitar a compreensão, secundado pela guarnição de sessenta homenzarrões, cujos rostos estereotipavam todos os vícios e ferezas que a tarefa rude e perigosa lhes impunha.
Dois dias mais tarde o negócio estava concluído e passei a capitanear, tendo Bertrand como imediato.
O nome de Fúlvio foi apagado e o antecessor me autorizou a rebaptizar o navio como bem me parecesse.
Essa formalidade era, aliás, muito encarecida pelos piratas, visto que me obrigava a gratificá-los e embebedá-los à farta.
Impossível, no entanto, esquivar-me a praxes geralmente admitidas, e por isso, dias depois, o nome de "Hugo" ilustrava a proa do navio e à noite a pagodeira, o regabofe no convés.
Bertrand chegou a confessar que se julgava no paraíso; esquecendo foros de fidalguia e dignidade abacial, abraçava -se com os piratas, cantava e dançava, enquanto Rosa deitava lânguidos olhares a um bonito italiano de rosto moreno.
Por mim, adoptando as normas do antecessor, vesti-me de veludo preto, afivelando ao cinturão escarlate dois punhais.
Escusado dizer que um deles era o que tinha ficado 180 anos no seio de minha bela avó.
Preenchido o acto inaugural, depois de saudar a equipagem e beber pelos triunfos do "HUGO", afastei-me em tristes cogitações.
O nome que ostentava agora aquele navio de corso era um nome ilustre e ilustrado, de muitos séculos, pelos representantes da casa de Mauffen, impolutos e glorioso.
E confesso que lastimava acerbamente as circunstâncias que me levaram a inscrever ali esse nome.
Sim, eu me sentia profundamente ferido no meu orgulho.
No dia imediato, levantamos ferro...
Aqui, omito o que se passou durante alguns anos, fecundos em aventuras, certo curiosas, mas não pertinentes aos episódios da minha vida, que interessam a esta confissão.
Oito anos depois de nossa primeira surtida de Veneza, o acaso me levou novamente à rainha do Adriático e não quis perder a ocasião de rever o amigo Peregrino.
Fui, pois, ao seu albergue, e um dia vi lá entrarem três homens que me despertaram a atenção.
O que ia à frente, chefe sem dúvida, pareceu-me não desconhecido.
Era um tipo alto, basta cabeleira e loura, pálido semblante e olhos negros, cismadores.
A mão, alva e fina, apoiava-se no cabo do punhal cravejado de brilhantes, e tinha no dedo rutilante anel montado em rubis que faiscavam como se fossem gotículas de sangue.
Cerrei os olhos procurando lembrar onde teria visto aquela cara, até que enfim, desabafei num suspiro.
Reconheci-o.
Quando ele entrou, Peregrino levantou-se pressuroso e saudou reverente:
- Sr. Capitão Nigro!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:36 pm

Minha atitude também lhe não passara despercebida, tanto que, apertando nervoso o cabo do punhal, investiu de olhos coruscantes:
- Ainda bem que me não enganei; o nome do navio te traiu, conde de Mauffen!
Também aqui vieste parar, anónimo e degradado; mas não será aqui neste albergue, que haveremos de ajustar contas.
Não! Lembra-te somente que lá em pleno mar, o "NIGRO" saberá entestar o "HUGO" para combate decisivo.
- Às vossas ordens - resmunguei mastigando também eu estou ansioso por esse desfecho; preciso dizer que já não lograremos o preço da vitória, pois Rosalinda vos esqueceu e se casou com Kurt de Rabenau, a quem ama loucamente, segundo dizem.
Loevenberg empalideceu de morte e eu exultei vendo-o vacilar um instante.
Não tardou, porém, a recuperar-se, dizendo:
- Mentes! - que ela se tenha casado, é possível, porque mulher jovem e bela há que ter um protector; mas que o fizesse por amor a outrem, mais que a mim, só acreditarei se me disser ela própria, de viva voz.
Toma sentido, patife, porque a calúnia te custará caro...
Afastou-se, ostensivamente, desaparecendo num gabinete reservado.
O hoteleiro tinha ouvido nosso diálogo, boquiaberto.
Safa! - exclamou por fim - que dois ilustríssimos condes!
E lá se foi resmungando, ao gabinete onde entrara o capitão Nigro.
Debrucei-me à mesa assaltado por mil e um pensamentos.
Por que capricho, ou acaso, aquele homem que eu matara com as próprias mãos, ali estava vivo e são?
Lembrei-me de que o corpo tinha desaparecido...
Mas, quem o teria ocultado e cuidado, tão misteriosamente proficiente?
Não me surpreendeu o facto de me haver reconhecido de pronto, mas, como teria sabido que eu era também corsário e capitão do HUGO?
Em todo caso, o aspecto daquele homem ainda forte e bonito, tão apaixonadamente amado de Rosalinda, reacendia meu velho ódio e o maior desejo de medir forças com ele.
Voltei para bordo e contei aos amigos o episódio do nosso fortuito encontro.
Nessa mesma noite fizemo-nos ao mar e alguns meses se passaram sem avistarmos sombra do "NIGRO", de sorte que o incidente estava quase esquecido quando um dia, de manhã, Bertrand me chamou atenção para um pontinho escuro no horizonte.
Soprando o vento de frente, procuramos aproximar-nos e logo identifiquei grande galera genovesa que, pesadamente carregada, manobrava com dificuldade para evadir-se.
Mandei abrir todo o pano e, à proporção que nos aproximávamos, notei que não éramos os únicos disputantes da rica presa, pois outro navio navegava recto em nosso rumo.
De repente tive um calafrio.
O segundo navio, pintado de preto, tinha na proa, em grande caracteres o nome de "NIGRO"!
Singular acaso nos colocava em face da mesma presa!
Desistindo de perseguir a galera, atiramo-nos à abordagem do "NIGRO" e o combate se travou encarniçado.
Meus homens, estimulados pela promessa de pingues recompensas, tanto quando por amor próprio, vendo periclitar uma boa presa, bateram-se como leões.
Não obstante, a guarnição inimiga era mais numerosa e o convés do "HUGO" estava alagado, dificultando a cada passo a defesa.
O quadro era horroroso, enorme a confusão:
gritos, imprecações, gemidos, rios de sangue.
No meio desse caos, procurando enfrentar Loevenberg, fui atacado por hercúleo tripulante do "NIGRO".
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 7:36 pm

Nosso embate foi rápido, violenta cutilada na cabeça me fez baquear aturdido e ainda pude ouvir o contendor gritar:
- Vitória! abati o capitão do "HUGO"...
Desmaiei e quando voltei a mim estava amarrado no convés do "NIGRO".
A dois passos de mim Bertrand e o anão, amarrados também.
Procurei orientar-me e não tardou reconhecesse Loevenberg manobrando em perseguição da galera.
Um pouco para trás, flutuava o meu malogrado "HUGO", e os clamores intermitentes que de lá me vinham atestava que a luta prosseguia.
Dentro em pouco a galera foi alcançada e, após ligeira resistência, vi Nigro e parte da tripulação se passarem para ela.
Na confusão do momento, apenas pude apanhar uma frase de Loevenberg, quando disse:
- A mulher fica como refém, até que me traga a soma fixada.
E minutos depois, reaparecia enlaçando pela cintura uma mulher que, por sua vez, descansava a cabeça no seu ombro.
Procurando acomodá-la no convés do "NIGRO", ouvi-lhe dizer com infinita doçura na voz:
- Rosalinda, meu tesouro, minha vida, até que enfim te reconquisto e ninguém, juro, te arrancará dos meus braços.
Tal ouvindo, mesmo amarrado, estremeci.
Rosalinda ali, nos braços de Loevenberg?
Estaria sonhando?
Que objectivo a levaria à Itália?
E onde estaria Kurt?
Seria possível que houvesse deixado a mulher como refém?
Não, absolutamente; mas a verdade é que ela ali estava, a dois passos, nos braços do primeiro marido e no mais terno dos idílios!
Insana raiva me encheu o coração, rebolei no solo, procurando romper as cordas com os dentes, enquanto ele, o venturoso rival, só tinha olhos para vê-la.
Depois, ouvi-lhe dizer:
- O miserável poltrão entregou-te para salvar-se; e não é verdade que nunca o amaste, nunca poderias amá-lo?
A seguir, procurando conduzi-la ao camarote, passaram perto de mim, e ele, sem lhe deixar a mão, deu-me um pontapé, dizendo:
- Perdeste a partida, Sr. de Mauffen, pois aqui está a condessa de Loevenberg e, enquanto viver, ninguém poderá contestar meus direitos maritais.
Quanto a ti, traidor, amanhã ajustarás contas com os peixes, de vez que teu sangue desonra a espada de um cavaleiro.
E lá se foi sem reparar em Bertrand, em Rosa e no anão.
Este, ao avistar a condessa começou a gritar e penso que ela o reconheceu, porque retrocedeu, fez-lhe quaisquer perguntas e depois intercedeu a seu favor, visto que pouco depois foi desamarrado.
Só, entregue ao meu desespero, comecei a reflectir:
- amanhã me afogarão...
Morte penosa e humilhante.
Subjugado, impotente, que fazer?
Súbito, lembrei-me das palavras de Rabenau: Morrereis todos juntos...
Estorcia-me de raiva e de angústia, a morte me infundia pavor, comecei a suar frio.
Horas terríveis assim correram, até que caiu a noite, uma dessas lindas noites da Itália, tépidas e quentes, de mares polidos e céu cravejado de estrelas.
Olhar sombrio, contemplava as maravilhas da natureza, que pareciam sorrir à angústia da minha última noite na terra, quando, de repente, percebi algo a rastejar para meu lado e senti pequenina mão tocar-me.
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