Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:03 pm

Era o anão a dizer baixinho:
- cuidado! - e cortando as cordas, prosseguiu:
- É preciso fugir, seja como for, pois amanhã será tarde ...
- Mas fugir como e para onde, se estamos em alto mar? - respondi esticando os membros doloridos.
- Já libertei Rosa e Bertrand e temos combinado e em vias de execução um plano bem urdido.
Trata-se de peitar a equipagem e assassinar o capitão.
Vários marinheiros descontentes já morderam a isca e tudo faz crer que, com bastante dinheiro, os piratas vos consagrem chefe.
Ficai atento, aqui, enquanto vou ver o que se passa.
Agradeci, o anão desapareceu.
O plano me sorria, tanto mais quanto colocava Rosalinda à minha discrição.
Escrutei o ambiente em torno : o convés estava quase deserto, poucas sentinelas a postos; mas, de meia nau chegavam gritos e cantos dos piratas, que assim festejavam a vitória.
Nesse instante surgiram dois vultos na escotilha.
O capitão e sua mulher, sempre abraçados, vinham passear no convés, gozar as delícias da noite.
E falavam de amor e de planos futuros.
Fulo de cólera e louco de ciúme, rastejei para eles, dizendo comigo: já verão em que param as modas...
Chegando ao grande mastro, escondi-me atrás de um rolo de cordas e procurava certificar-me se tinha comigo alguma arma, uma vez que a machadinha e um punhal foram perdidos na refrega; contudo, nas dobras do cinturão escarlate, ficara oculto o punhal que servira a meu avô.
No momento justo em que o casal passava dando-me as costas, ergui-me ofegante, tal qual fizera no torreão do castelo, quando toquei a arma vingadora, mas, a sorte me traiu, porque a lua rompendo uma nuvem bateu em cheio no convés e denunciou minha sombra de braço alçado Rosalinda deu um grito e, mais rápida que um relâmpago, se interpôs, procurando resguardar com as costas o corpo do marido.
O golpe, entretanto, já estava descarregado com toda a força do meu braço e Rosalinda tombou, dando-me a impressão do retrato fiel de minha avó!
O capitão voltou-se transfigurado em raiva e dor:
- Ah! bandido - ululou com voz estrangulada - e antes que me pudesse atirar pela amurada, arrancou da cinta o comprido punhal italiano e mo cravou na garganta, com um golpe tão violento, que, atravessando o pescoço, enterrou-se no mastro e neste fiquei cravado.
Os olhos se me nublaram, tive a sensação de estar rolando num abismo, ao mesmo tempo que pinças de ferro me constrangiam a garganta.
Dores atrozes me corriam todo o corpo. Os sofrimentos ultrapassaram as forças; desfaleci.
Quanto tempo estive imerso nesse benéfico estado de inconsciência, não o poderia dizer; mas digo que fui chamado à realidade pela mesma dor atroz que me cravara no mastro do navio, aí me estorcendo, vociferando e pedindo que me acabassem de uma vez.
Por fim, acabei chamando Lúcifer, conjurando-o a reivindicar minha alma, por isentar-me das torturas de semelhante agonia.
Tinha o corpo como que empalado a rubro, os membros inteiriçados, a língua presa, as têmporas em ebulição.
Meus gritos de maldição deveriam abalar o céu, e contudo, ninguém parecia ouvi-los, porque ninguém me prestava atenção.
Tentando um derradeiro esforço, passeei os olhos nevados em tudo que me rodeava.
E o que vi foi um céu escuro, pejado de nuvens ameaçadoras.
O vento ululava levantando montanhas d'água, marinheiros corriam atarantados pelos convés.
Depois, surgiu Loevenberg com Rosalinda nos braços, porém, viva!
No mesmo instante, uma serpentina de fogo riscou o manto caliginoso das nuvens e terrível estrondo fez estalar tudo em redor.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:04 pm

Intimamente abalado com esse fragor, tive a impressão de me despregar do mastro, arrastando comigo viscosa massa que distendia dolorosamente todas as fibras do corpo.
O sofrimento era tanto, que ainda uma vez perdi a consciência.
Tal como da outra vez, não sei quanto tempo durou esse estado.
Quando, porém, voltei a mim, estava aliviado, mas fiquei surpreendido de me ver a mim mesmo estendido no convés, ainda pregado no mastro partido.
A visão do meu rosto contraído, dos olhos vítreos, sem expressão, era coisa horrenda e eu me admirava de ainda estar vivendo com aquele medonho ferimento.
Um olhar em torno deixou-me entrever que o céu estava limpo e o navio, desgovernado, balouçava à pequena distância, brandamente levado pelas vagas e não mui longe da costa.
Além, na praia, muita gente munida de cordas e varas, procurava aproximar o navio.
A certa altura e depois de grandes esforços, alguns homens - todos pescadores - conseguiram galgar o convés.
Entre eles, porém, pude lobrigar dois escudeiros com as divisas da casa dos Rabenaus.
E, o delírio da febre, pensei comigo; mas, no mesmo instante, outras pessoas apareciam e entre elas o próprio Kurt, sempre embonecado, de mãos nas cadeiras.
Dando comigo, fez um gesto de horror e desviou-se.
- Senhor, interferiu um escudeiro - não se revista aquele?
Pergunto, porque disse um marujo que se trata de ilustre personagem...
Kurt deteve-se um momento e respondeu:
- Essa é boa! - acaso perdeste o juízo, Cambert?
Pois não está mais que provado que este corsário é, nem mais nem menos, que o conde de Loevenberg?
Talvez esse cadáver ateste algum compatriota ilustre.
Nesse entretempo, acercou-se um pescador e, bem a meu pesar, entrou a esquadrinhar-me.
Começou pelos bolsos, passou ao cinto, apossou-se da bolsa recheada; depois, à faca, entrou a retalhar-me o gibão.
Ainda me lembro, angustiado, que tinha ao pescoço um breve com os gráficos dos subterrâneos que guardavam os tesouros e a certidão de nascimento de Rabenau que, por fortuito descuido não tinha destruído, conforme lhe prometera.
Quis protestar, defender-me, arrancar das mãos do assaltante os preciosos despojos; mas, apesar da raiva que me impelia, fiquei imóvel, de mãos hirtas, crispadas, como se tudo aquilo não fosse comigo.
Os pergaminhos passaram às mãos ávidas de Kurt, que os folheou admirado e exclamou, dirigindo-se à comitiva:
- Quem haveria de dizer que este miserável é, nem mais nem menos, que o conde Hugo de Mauffem!
E pesa ver como rebentos tão indignos afloram de troncos ilustres e assim os conspurcam!
Um escudeiro interveio, acrescentando:
- Mas, então, é o mesmo de quem se diz que foi condenado ao in pace, por haver tentado matar vossa ilustre esposa; e, neste caso, não merece cova em terra sagrada, pois dizem, igualmente, que ele se vendeu ao diabo e foi este que o libertou de maneira inconcebível.
Kurt recuou persignando-se e dizendo:
- Vamo-nos daqui quanto antes e deixemos ao mar e ao diabo fazer dele o que quiserem.
Eu não podia compreender porque estava impossibilitado de intervir na conversação.
Que não tinha morrido era evidente, tanto que via, ouvia, sentia a ardência do ferimento, estremecendo ao pensar que ali ficaria só e impossibilitado de receber qualquer socorro.
Desceram todos e o navio destroçado, em abandono, ficou à mercê das correntes.
Os raios solares me banhavam estendido, imóvel; não obstante, sempre cravado no mastro!
Às vezes tinha sobressaltos; mas, ainda assim, aquele estado me parecia interminável.
A situação se prolongava, a meu ver, de toda uma eternidade, até que um dia deixei de ver a luz do sol e mergulhei em trevas densas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:04 pm

Depois começaram a intermitir lampejos esverdeados, estrias amareladas aclarando o convés e o mar, com uma tonalidade misteriosa.
Vultos em quantidade surgiram das vagas e, com assombrosa destreza galgaram o navio.
Estupefacto, reconheci de pronto a equipagem do NIGRO", todos feridos, gotejando sangue e desgrenhados, esfarrapados, de rosto lívido e olhos fosforescentes.
Rosa e Bertrand apareceram por sua vez.
Ele não estava ferido, mas vomitava água aos borbotões e parecia sorrir, de olhos esbugalhados.
Por entre aplausos e gargalhadas da assistência, caminhou para mim e arrancou-me o punhal da garganta.
Livre, atirei-me para frente, ouvi vozes rudes e vi feixes luminosos de mistura a fuligens negras, emitidas pelos piratas cruzando-se em todas as direcções.
Vamos comer e beber - é o que pareciam exprimir.
De repente, tudo se transformou como por encanto.
As mesas já estavam postas, e fartas.
Eu também bebia, mas não podia matar a sede que me devorava.
Rosa quis dançar, arrastou-me e rodopiamos louca, vertiginosamente, para só nos determos junto à mesa onde Bertrand, muito pálido e sempre de olhos esbugalhados, jogava os dados.
O dinheiro chovia a rodo e as blasfémias horripilantes cruzavam-se no ar.
Metia-me em toda parte, tudo farejava, mas não tinha um minuto de repouso.
Minha angústia não tinha termo nem limites; o vinho não me acalmava a sede; o dinheiro fundia-se-me nas mãos e de todo aquele pandemónio se exalava um cheiro acre e pútrido, que me causava impressão de cautério insuportável.
Torturado, como que embriagado, nada compreendia de tudo aquilo, quando vi gradualmente desvanecer-se a luz esverdeada e tudo esmaecer em torno.
Os piratas se levantavam precipitadamente e atiravam-se no mar.
Súbito, o capitão Nigro surgiu das ondas e de novo me cravando o punhal na garganta, fixou-me no mastro, desapareceu e tudo se fundiu num luar avermelhado que dourou o horizonte e cobriu o mar de um como véu purpurino.
Eram os raios do sol nascente que aclaravam o navio destroçado, onde me encontrava imóvel, com a garganta trespassada.
E o tempo se escoou em isocromia mortificante os dias passavam e eu não me movia, devorado pela sede.
Com as sombras da noite vinham as sombras dos piratas e repetiam-se as orgias, que reacendiam todos os vícios e paixões, sem jamais os acalmar.
Alquebrado por tamanhas torturas morais, perguntava a mim mesmo porque Lúcifer, que, sem dúvida, de mim se apossara, não vinha suavizar meus sofrimentos.
E passava a invocá-lo com todas as fórmulas cabalísticas que me vinham à mente.
Considerando-me cada vez mais desgraçado e desprezado, comecei a pensar naquele que no mundo chamavam o Deus de misericórdia, criador de todas as coisas e senhor do próprio Satã, a quem consentia tentar os homens somente para lhes comprovar as virtudes.
Desejei, portanto, voltar-me para essa entidade suprema e procurei recordar as palavras sacerdotais, mas nada consegui.
Meu espirito petrificado não conseguia formular uma prece, e quanto mais insistia, mais fracassava.
Apeguei-me, então, à ideia de que me salvaria se conseguisse encontrar um sentimento, um só pensamento capaz de atingir essa divindade que tanto subestimara na terra, porque não prometia dinheiro nem gozos materiais.
Perseverei, redobrei de esforços e, de repente, senti-me inundado de ligeiro calor, o peso opressivo diminuiu e pude coordenar este pensamento:
- Ó Deus, que dizem misericordioso, perdoa meus pecados, alivia-me, e tu, Jesus, que sofreste por nós, faz-me compreender a verdade!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:04 pm

No mesmo instante, um clarão me envolveu e de mim jorrou um facho luminoso que se elevou qual jacto saído da fonte, em gotículas prateadas, e na sua passagem dissipava as trevas densas que me cercavam.
Por essa espécie de clareira percebi, muito acima de mim, um céu azul, translúcido, e nessa atmosfera feérica. uma entidade
celeste, rútila aparição de vestes flutuantes!
Ser de beleza perfeita, indescritível, assim me falou:
- "Espírito culpado e desditoso, não te enganes; o demónio a quem empenhaste a alma não tem, por enquanto, necessidade de ti, e apenas estás colhendo o que semeaste; sempre elegeste os gozos que o dinheiro e os vícios propinam; todas as paixões ignóbeis foram por ti avidamente cultivadas; entregaste-te sem freio a todos OS crimes, à dureza de coração, à avareza e ao egoísmo; atraíste para junto de ti criaturas do teu mesmo estofo e juntos gozastes, tu e elas; e o inferno em que acreditaste cair, após a morte do corpo, é justamente o estado em que te encontras.
Continuas agora fazendo o que fizeste na terra; cercam-te os mesmos companheiros que lá escolheste, mas os órgãos do teu corpo já não podem ressentir e transmitir as mesmas sensações.
Como vês, a vida material cessou e o que sentes é o reflexo de paixões e desejos que o corpo não mais pode facultar.
O que na terra chamam inferno é o estado criado pelos homens. espíritos culpados e endurecidos.
Assim, pois, até que possas suscitar em ti mesmo uma reacção para melhor; até que, por uma prece ardente e sincera possas elevar teu espírito ao Criador, hás-de remoinhar na órbita dos teus crimes; deverás sentir o horror e o desgosto de tuas faltas, o verdadeiro pesar do mal que a outrem fizeste; e antes que em ti despertes sentimentos de verdadeira compaixão por tuas vítimas; antes que te mova o desejo de reparação, não poderás entrar na rota salvadora.
Lembra-te de que nenhum arrependimento, nenhuma prece bastarão, só por si, para atingires esse escopo.
Vai, portanto, vagar por lá mesmo onde pecaste; frequenta os que, como tu, pagam efémeros gozos de uma existência terrena de circunstâncias espirituais tão horrorosas, para que o exemplo deles possa abalar teu espírito.
A prece ser-te-á sustentáculo como lenitivo aos teus padecimentos e servirá, igualmente, para apaziguar os ódios inimigos, que te hão-de perseguir."
Velou-se o luminoso Espírito e desapareceu no espaço.
Senti-me, porém, liberto, consegui safar-me dos destroços do navio e mover-me à vontade num ambiente tenebroso e sufocante.
Meu primeiro pensamento foi para o meu castelo no mesmo instante me vi envolvido e arrebatado num furacão, a defrontar meus ancestrais.
Tentei entrar, mas, escura massa, pútrida, sulcada de flamas rubras, barrou-me a passagem.
Quis fugir, então, e logo retido e impulsionado por força estranha, avancei e atravessei a massa infecta.
Sacudido por horríveis sofrimentos, verifiquei que estava rodeado de vítimas:
- recém-nascidos que me apresentavam o coração agulhado; mulheres desvairadas que me exprobravam a perda dos filhos e consequentes suicídios; crianças a maldizerem pela morte dos pais e por isso, mortas também elas a fome...
E toda essa turba de seres envenenados de ódio, turbilhonava em torno de mim, agarrava-se a mim, abafava-me, paralisava-me.
Pinçando-me, por assim dizer, arrastaram-me até um quarto onde costumava festejar meus crimes com orgias.
Tentei dali fugir, mas logo verifiquei que estava como que soldado e então me lançavam nos braços os recém-nascidos, obrigando-me a lhes beijar os ferimentos abertos:
parecia-me provar, assim, algo de repugnante e quando meu corpo espiritual se estorcia de horror, risadas infernais me punham quase louco.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:04 pm

Exausto, sem saber onde me ocultasse, recordei as palavras do Espírito luminoso:
- "Ora e humilha-te diante das tuas vítimas".
Só de o pensar, porém, todo o meu ser se revoltou.
Pois quê?: Humilhar-me perante aquela gentalha, diante dos próprios vassalos ou vilões mandraços, que se atreviam a escarnecer de mim? Nunca!
E de novo o cutelo e o estilete de ouro me vieram às mãos e recomecei a tarefa, a sorver aquele sangue horrível que me queimava as vísceras.
Quanto tempo durou esse suplício?
Impossível dizê-lo, para só confessar que chegou o momento crítico de recorrer novamente ao Ente Supremo.
"Deus omnipotente, modera-lhes o ódio, livra-me deles; reconheço meus crimes, depreco tuas graças e o perdão das minhas vítimas!"
De novo, o jacto luminoso se projectou do meu corpo denegrido e recaiu em chuveiro prateado sobre a multidão ululante, que se premia em volta de mim.
A multidão recuou, os apodos rarearam e continuei orando, até que a turba se foi afastando, empalidecendo e fundindo-se no espaço.
Aniquilado, terrificado, detive-me a considerar a existência pavorosa que levara, mas logo estranha força me arrastava para fora daquele quarto e me impelia para os subterrâneos, deslizando naquela escada bem conhecidas, até chegar ao esconderijo dos tesouros.
De pronto, compreendi que era chegada a hora de rever meu pai.
Nesse instante, me apareceu novamente o Espírito luminoso, dizendo:
- "Estás vendo, infeliz, as terríveis consequências de uma vaidade criminosa?
Querias possuir a vida e a Juventude eternas, esquecendo que a vida terrena depende daquele que te concedeu para te experimentar.
A compreensão de um fim malogrado e de crimes vão te acarretar as penosíssimas sensações que ora experimentas.
Recorda que cada iniquidade originou diversas, quão nevríticas consequências, resultantes todas do primeiro crime.
És, portanto, o responsável, visto como, quem põe a roda movimento, responde pelos danos que a roda produz."
Sumiu -se o Espírito e continuei o meu penoso caminhar.
De passagem, via Espíritos tenebrosos, curvados ou acocorados junto dos sacos de ouro, pretendendo barrar-me o caminho e tinha de romper seus fluidos ardentes, deletérios, ressumando cupidez e avareza. Finalmente, transpus sem maior obstáculo, a porta de ferro que me pareceu antes pasta mole, e cheguei ao âmago do subterrâneo.
A primeira coisa que se me deparou foi meu pai, magro e repelente, tal como o recordava.
Os cabelos grisalhos em desordem, caíam-lhe pelas orelhas; o rosto parecia mosqueado e as mãos descarnadas escamavam convulsivamente os montes de escudos em torno.
Debaixo da montanha aurifulgente, jazia um cadáver ressequido, cuja carne dava ideia de pergaminho enegrecido.
Compreendi, desde logo, que o horrível destroço era o seu corpo físico e que o espírito culposo lutava no corpo fluídico com o qual se julgava materialmente vivo.
As paixões não saciadas, da cupidez e da avareza, lhe inspiravam o temor de perder o seu tesouro.
Percebendo-me de pronto, deitou-me olhares que bem denotavam seu estado de alma e de mortal rancor:
- Ah! és tu, Hugo? pois bem:
agora seremos nós dois a guardá-lo.
Força estranha me atraiu para a massa rebrilhante e ali fiquei, respirando o fluido asfixiante que se exalava do perispírito de meu pai, que não cessava de contar e recontar as fascinantes e queridas moedas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:04 pm

Por mim, sofria cruelmente, quando um sopro de raspão me inspirou este pensamento:
"Pelo ouro, tu o mataste; portanto, fica junto dele e observa os sofrimentos que a cupidez engendra, a fim de que a riqueza criminosamente adquirida te inspire aversão."
Ali fiquei, de facto, mas nosso ódio mútuo aumentava e, muitas vezes ele, no auge da raiva, atirava-se a mim e me asfixiava com o seu fluido ardente.
Nesses lances, eu revivia o tetérrimo transe do parricídio, amontoando em cima dele gasosa massa de moedas, sem o perder de vista.
Sem me dar conta de que tudo aquilo não passava de miragem, reflexo de criminoso passado, é claro que experimentava o mesmo terror, a mesma angústia do momento real em que procurava eliminar aquele indesejável.
O suor inundava-me a fronte; depois verifiquei que eram fagulhas negras, que me choviam no corpo compacto - e não obstante, leve - causando-lhe dores terríveis.
Inquietude e terror me esfalfavam.
- Vês? os fluidos do passado criminoso recaíram sobre ti, - disse a voz do protector invisível.
Meu pensamento logo se voltou para o guia espiritual, que apareceu e disse:
- Humilha-te àquele que assassinaste e pede, não por ti, mas por ele; e quando ele te houver, em parte, perdoado, poderás deixar este lugar, que guarda um tesouro inútil.
Voltei-me para meu pai, disposto a pedir perdão; mas vi, surpreso, que ele se tinha transfigurado, ou por outra, que tinha algo de outro ser, no qual identifiquei, pela toga, um inimigo que eu eliminara, quando Tibério.
Reconhecendo-o, o impulso de humilde por obter perdão transformou-se em feroz orgulho e me revi, de novo, imperador tirânico e senhor do mundo.
Em tais condições, pedir perdão e misericórdia para quem já me havia pago sua dívida de ódio, afigurou-se-me humilhação indigna.
Era preferível continuar sofrendo, fosse o que fosse, e como fosse.
Resisti, portanto, e vi que a penumbra ambiente se tornava mais escura:
chispas avermelhadas saíam do cérebro do inimigo, tanto quanto do meu, cruzavam-se e recaíam sobre mim, causando-me sensações físicas intoleráveis, sem um minuto de repouso.
Meu perispírito se estorcia asfixiado em fluido comburente, devorador.
Atiramo-nos um ao outro, para nos estrangularmos e a raiva crescia de pronto, porque, vendo-nos reciprocamente, nada podíamos tactear senão o vácuo.
Passados os acessos, recaíamos no primeiro estado:
ele a fossar o monte de ouro, eu a despejar ouro em cima dele, no intuito de o asfixiar e consumir, mas, sem embargo, vendo-o sempre.
Para o espírito não existe o tempo, e por mais que sofra, não pode calculá-lo.
Como pudera - conjecturava - formular uma prece pela turba imensa de meus perseguidores, sentindo-me aliviado, e agora não podia fazê-lo?
Quase instantaneamente apareceu o Espírito luminoso e dispersou as trevas que me envolviam.
- "É porque, perturbado e odiento, encontravas-te à face de vítimas que mal algum te haviam feito, não se impunha vencer teu próprio ódio e a indiferença te facilitava a intercessão; agora, porém, trata-se de te venceres a ti mesmo e no teu coração rancoroso encontrares a prece, não para teu próprio alívio, mas para aliviar teu inimigo.
E, contudo, é mister que o favoreças, que purifiques os fluidos negros que o atormentam; e somente quando tiveres provado que sabes vencer teus impulsos inferiores e cooperar, de bom grado, para o bem-estar do inimigo, poderás almejar e conseguir teu próprio alívio. Tenta, pois, fazê-lo"...
Fiquei sucumbido!
O que se me exigia era o impossível!
Aliviar com as minhas preces o figadal inimigo cuja presença me enfurecia!
Constatar que ele melhorava, ficando eu mesmo a sofrer?
Não! nunca! Mil vezes Preferível sofrermos ambos eternamente juntos...
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:05 pm

E o combate feroz recomeçou.
Todavia, apesar do seu ódio, o inimigo foi o primeiro a acalmar-se.
Também ele tinha ouvido os conselhos do Guia espiritual.
De repente, vi-o recobrir-se de escuro vapor, que despedia fagulhas.
Compreendi que procurava reflectir, vi que lhe jorrava do cérebro a mesma luz prateada, a princípio baça e depois mais brilhante, à proporção que as fagulhas caíam, qual chuva benéfica, na atmosfera esbraseada e viscosa que me envolvia, e que assim se dissipava e me causava confortante refrigério, um como banho aromático que me aliviou.
Senti-me algo mais livre e experimentei relativo repouso.
Olhei para o inimigo, vi que se debatia penosamente na atmosfera pesada, formulando com dificuldade um pensamento de perdão.
Meu próprio ódio se amainara, ao ver que, graças aos seus esforços, me sentia melhor.
Pude, então, elevar ardente súplica ao Criador:
- "Oh! Deus todo poderoso e tu, meu Guia espiritual, fazei que ele compreenda que imploro me perdoe o mal que lhe fiz a morte que, como seu filho, lhe infligi.
Quero, agora, eliminar a aversão que ele me inspira e não me cevar nas suas torturas.
Fazei, enfim, que ele possa auferir todo o bem-estar que me proporcionou."
À medida que estes pensamentos, enérgica e sinceramente se formulavam, senti intenso calor invadir todo o meu ser; o subterrâneo e quanto nele se continha esvaneceu-se, afastou-se, inclusive o perfil do inimigo, que se escondeu não sei onde, nem como.
Um jacto de luz descendente, arrebatou-me a uma esfera leve e agradável, comparada àquela em que me encontrava.
Era um como oceano cinzento e nebuloso, sem princípio nem fim.
Antes de tudo, fiquei maravilhado com a mudança; depois, caminhei sempre em linha recta, sem objectivo determinado.
Não podia subir e não queria descer; mas, longa e pungente mágoa de mim se apossou:
- a do isolamento naquele oceano nebuloso, sem objectivo, sem futuro, e tão só escoltado pelas recordações de um passado irreparável.
Ansioso, pensei no guia que logo apareceu e me disse:
- Agora podes compreender porque sofres na solidão em que te encontras, não mais perseguido por tuas vítimas, nem obrigado a repetir os monstruosos crimes perpetrados na Terra.
Confuso, sem saber o que lhe respondesse, o Guia prosseguiu:
- Vês? na Terra nunca te faltou habilidade para tramar infâmias, nem astúcia bastante para idealizar gozos materiais; nunca a inteligência te claudicou, quando se tratava de molestar teus semelhantes; mas aqui, onde já não podes praticar o mal, onde, pode dizer-se - já não sofres, relativamente, não sabes sequer traduzir a angústia que experimentas e nem sabes como responder-me...
Compreendi quão limitada era a minha inteligência e o Guia confirmou:
- Sofres da inacção que leva ao desespero:
experimentas a necessidade de actuação, mas, precisas compreender que deves, antes, purificar-te espiritualmente, despojar-te dos maus fluidos, até poderes encetar qualquer trabalho de utilidade geral.
Tua inteligência e conhecimentos adquiridos podem ser aproveitados; mas, quem aceitará o melhor artífice, sabendo-o vicioso entre companheiros susceptíveis de serem por ele contaminados o pervertidos?
Convence-te ó alma perturbada, de que toda a energia que te resta deva ser aplicada a ti mesmo, repara no teu perispírito caliginoso e, não obstante, quebrado de numerosos fios luminescentes, restantes das tuas relações terrenas.
Pois que aspiras convivência social, dirige teu pensamento aos velhos companheiros e vejamos aonde te levarão esses fios luminosos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:05 pm

Para logo se me apresentou Bertrand, Rosa, Calmor e, a seguir, de brusco, me vi no fatídico navio, entre a sua equipagem que, ainda perturbada, continuava, na espiritualidade, entregue às fictícias orgias, das quais o corpo fluídico já não podia compartilhar e só lhes deixavam Insaciedade maior.
Ah! não quero aqui ficar - exclamei aterrado - mal respirando aquele ar pesado e mefítico, que os envolvia.
O Guia, que até lá me acompanhara, falou:
- Assim, recuando diante dele, como poderás provar a sinceridade do teu arrependimento?
Esta sociedade está ligada a ti pelos laços fluídicos do crime e pela efusão de sentimentos recíprocos.
Somente com eles poderás emparelhar como obreiro, no reino espiritual; mas, como no estado em que se encontram, eles nada podem fazer, cumpre começares trabalhando pela sua conversão.
Deves procurar despertá-los e olha que podes e deves fazê-lo, por isso que os superas em inteligência, em conhecimentos rudimentares do bem e foste o primeiro a compreender tua verdadeira situação.
A ti, portanto, corre a obrigação de os ajudar e, fica certo de que, por esse árduo labor farás jus a colaborar na obra ingente, pacificadora e científica, do plano espiritual."
Assim concluiu e desapareceu, mas eu já estava desiludido de uma teimosia que só engendrava sofrimentos inúteis e resolvi dedicar-me com firmeza à conversão dos companheiros.
Todo castigo, qualquer expiação, seriam preferíveis à inacção enervante em que me encontrava, embebido no passado irreparável.
Dirigi-me, pois, a Eulenhof que, não obstante os maus sentimentos, possuía lúcida e profunda inteligência.
Enviei-lhe em centelhas luminosas uma exortação plena de pensamentos sensatos e, convincentes; mas, com grande surpresa, percebi que nem sequer pôde ouvir minha voz.
Voltei-me então para Rosa que, perversa mulher, me retribuiu com um jacto de fluidos nauseabundos e estonteantes, inutilizando minha sugestão.
Passei-me para outros, inflamando-me pouco a pouco; disse-lhes tudo o que me vinha à mente para esclarecer o seu estado, para lhes fazer compreender que se envenenavam e se impunham a si mesmos seus intoleráveis sofrimentos.
Vendo, porém, que todos os esforços se baldavam, mudou-se-me o fervor em raiva impotente, para concluir que, afinal, eles só tinham o que mereciam, de vez que tudo fizera para aliviá-los.
Pobre alma! - exclamou o Guia reaparecendo de chofre - não te envergonhas de tamanha impaciência?
Que seria de ti se contigo assim tivéssemos procedido?
Sabe, então, que não tendo despertado em tua pregressa encarnação mais que os instintos do bem-estar material, teus atuais conselhos não podem ser apreendidos.
Lembra-te do que me atraiu a ti...
Não foram raciocínios nem conselhos práticos, mas a humildade, a prece, a compenetração da própria falta.
Somente orando por esses míseros sofredores poderás atingir-lhes a espiritual audição e purificar o fluido que os envolve.
Compreendi e, posto que impedido por seus fluidos odiosos, comecei a fazer uma sincera prece por todos e, como anteriormente, empolgou-me o ardor persuasivo.
Minha prece exalçou-se em fervor crescente e, qual fecha luminosa, mergulhou no espaço!
Coisa singular!
À medida que essa luz argentina cindia a treva, vultos diáfanos e transparentes surgiam de todos os lados, a orarem comigo.
De imediato, argêntea cascata varreu as trevas ambientes e a voz dos bons espíritos agradecendo-me o lhes haver possibilitado aproximarem-se dos entes amados chegou-me aos ouvidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:05 pm

E qual não foi minha admiração ao ver que aqueles piratas criminosos, que tinham renegado a Deus e abandonado o lar, conservavam no Espaço amigos dedicados que, atraídos pela minha prece, acorriam calmos para levar os pobres sofredores à contrição.
Não tardou se encontrasse junto de cada qual um protector invisível.
Depois tudo se esvaneceu e as silhuetas escuras, sustentadas por seus amigos, ascenderam no espaço.
Fiquei só, mas feliz e leve como jamais o fora no mundo.
Uma sensação de íntimo bem-estar me encheu a alma dorida.
Procedeste a contento - disse meu Protector - e agora segue-me, porque todos os do teu grupo já desencarnaram e ides ser julgados.
Não temas, assim, espírito culpado. Já experimentaste o purgatório moral e lhe sentiste todo o peso.
Curva-te, pois, sem murmurar, aos ditames que os teus supremos juízes te apontarem.
Nada negues, pois sabes, lá cada segredo do teu ego será devassado e seja qual for a sentença, seu cumprimento acarretará um grau superior na escala da perfeição, que todos haveremos de conquistar.
Convence-te da fugacidade das existências terrenas e as provações e expiações não te causarão espanto.
Ao lado do meu Guia, atravessei as massas nebulosas e fomos dar num círculo luminoso e duplamente deslumbrante, visto que aclarava os recessos de minha alma imperfeita, tanto quanto as trevas em que vagava.
Eu tremia...
Sim, tremia, porque a minha afoiteza era apenas humana e a consciência ali estava a dizer-me que ia ser julgado.
E meu Protector confirmava.
Intenso clarão, seguido de estrondo que me abalou todas as fibras do corpo espiritual, impeliu-me para a frente e ouvi:
Espirito de Tibério e de Mauffen, apresenta-te aos teus juízes!

Hugo de MAUFFEN.

(1) Cumpre advertir ao leitor que tudo quanto aqui descrevo se explica pelo Espiritismo, com as experiências mediúnicas, não podendo, portanto, ser levado a conta de imaginário e inverosímil.
Todos estes factos eram efeitos medianímicos, facultados por médiuns poderosos, e contudo, incompreendidos e desvirtuados pela supersticiosa credulidade e ignorância própria da época.
Os próprios médiuns eram os primeiros a atribuir ao diabo e não aos espíritos atrasados o que com eles ocorria.
NOTA DO AUTOR.

(1) Nota do autor - Chegando a este ponto da sua confissão, o espirito de Mauffen, ao recordar o passado, perdeu o domínio de si mesmo e interrompeu o ditado.
Em geral, esse período da sua existência está sensivelmente incompleto, pois havendo sofrido com a perseguição de seus inimigos, recusou-se, obstinadamente, a confessar a realidade repugnante.
Quanto ao Espírito do escudeiro, vale dizer que o persegue, até hoje.
(2).

(2) Nota do tradutor. - Isto é, ano de 1885, quando foi ditado este depoimento, conforme se verifica do mesmo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:05 pm

NARRATIVA DE LOTÁRIO DE RABENAU

Morrer para renascer, tal é a lei fundamental da criação.
Estas poucas palavras encerram todo um programa imenso.
Certo estou eu de que não haveria na Terra tantos suicidas, se o homem pudesse levar o pensamento além da morte e pudéssemos reformar-lhe as convicções, dizendo:
Vais morrer para reviver; vais apenas trocar um inferno por outro inferno; e mais vale seguir até o fim da rota traçada pelo destino.
Eu, outrora Lotário de Rabenau, hoje autor destas obras, escrevo agora remoto passado, para deter os insensatos, susceptíveis de quebrar a corrente que os agrilhoa à Terra, para que não venham experimentar, de futuro e mais penosamente, o peso dessa corrente, que ninguém pode recusar, pois, muitos, se não todos, deixamos nessa estância de exílio acções não concluídas, pensamentos e projectos apenas esboçados e afeições diversas não aclaradas, muitas vezes, pela experiência da vida.
Naquela noite em que a obra de toda a minha vida se esboroou por minhas próprias mãos, eu tinha o espírito alanceado por mil sentimentos:
orgulho ferido, temor do segredo descoberto e, sobretudo, a cessação de um posto no qual só eu tinha imperado.
Logo que comecei a galgar os degraus daquele altar, de cujo cimo comandara e, ajudado por um espírito arguto e profundo, li no coração dos meus subordinados, compreendi que era preciso genialidade para dirigir e sustentar tão vasta empresa.
E a perspectiva de que tudo ia desmoronar com a minha morte foi um bálsamo para o coração ulcerado. Que sofram - dizia - os ingratos e revoltados.
E aquele sangue que, uma vez incendido pelas paixões, não conhecia comportas nem remansos, subiu-me ao cérebro, o punhal reluziu aos meus olhos desvairados de raiva, agudíssima dor em todo o corpo, logo seguida de algidez mortal, culminaram em profundo desmaio.
Quando recobrei os sentidos, sofria cruelmente.
Como que através de espesso véu, vi a multidão que me rodeava, dei as últimas ordens e nomeei meu sucessor.
Eu sabia que Benedito carregaria, como punição, o fardo que ele mesmo se propusera sopesar; mas, de resto, todos os sentimentos odiosos se esmoreciam no momento, pois sentia que algo estranho se passava comigo:
negro véu como que se adensava a meus olhos; os nervos, da cabeça aos pés, trepidavam; um frio glacial me paralisava os membros, até que sobreveio violentíssimo choque e me projectou como que fora de mim mesmo, envolto em completa escuridão.
Quando voltei a mim, vi-me, qual gaze flutuante levada pelo vento, num ambiente nebuloso e pardacento.
Compreendi, de pronto, o meio em que me encontrava e não tardou percebesse, simultaneamente, uma entidade luminosa, muito conhecida.
Amigo de outras eras, ele havia lutado há muitos séculos e se graduara moralmente, ao passo que eu continuava estacionário e acorrentado às minhas paixões.
Espírito que atingira, em suma, um grau de perfeição incomparavelmente superior ao meu, tornara-se meu protector.
Fitando-me enternecido e triste, assim falou:
- Mais uma tentativa inútil, porque te deixaste arrastar por tuas paixões impetuosas.
Tenho ordem para dizer-te que, por enquanto, estás condenado a perambular na Terra, consistindo da tua punição em ver, com acuidade dos sentidos espirituais, todos quantos lá deixas, irás contemplar as obras que iniciaste, o cumprimento das tuas decisões, para que experimentes todo o amargor do desencanto.
Lastimo-te, meu impulsivo e arrebatado amigo.
Sim, lastimo-te, porque sei que vais travar luta Ingente com o teu coração sensível.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:06 pm

Não ficas, contudo, exilado nem condenado à solidão; poderás agregar teus amigos; mas, toma cuidado em não te deixares arrastar pelo ódio, porque, neste caso, a punição será dobrada.
Quando te sentires fraco, chama por mim.
Isto posto, projectou sobre mim uma luz azulada, que me envolveu em centelhas multicores e me acalmou as dores do corpo espiritual.
Depois desapareceu. Examinei-me, apalpei-me. Evidente.
Estava novamente desencarnado.
Nada me era estranho ali.
De há muitos séculos, vinha percorrendo esse espaço transparente e meu pensamento se voltou para os amigos e protectores.
Tanto bastou para que me visse logo rodeado de nove espíritos refulgentes.
- Seja bem-vindo - disseram mentalmente.
Depois de permutarmos rápidas impressões, disse-lhes:
- Estou condenado a voltar à Terra e tudo presenciar até que todos os do meu círculo desencarnem e se juntem aqui.
Vou baixar imediatamente à atmosfera terrena, pois, como não ignorais, um ser da minha têmpera não espera que o constranjam e sabe o que lhe cumpre fazer. Porventura, fiéis paladinos, quereis acompanhar-me na empestada atmosfera humana?
Pressinto que hei-de ver coisas assaz dolorosas para mim.
Meu Guia já o predisse.
Quereis descer comigo e, quando preciso, tomar algum médium para me auxiliar?
Um círculo mais estreito formou, emanando rósea claridade - elemento fluídico peculiar à fidelidade que nos unia e que, por instantes, pareceu confundir nossos perispíritos.
- Como deixar que partas e sofras sozinho, lembrando-nos que, quando sofríamos e expiávamos, na carne ou fora dela, sempre sacrificaste comodidade e repouso a benefício nosso?
Iremos, pois, aonde fores, e uma coisa só te suplicamos:
que não te deixes arrastar por qualquer Impulso de vingança, que te possa prejudicar.
Baixamos todos, penosamente, respirando na atmosfera terrena.
Lancei depois, para baixo, o fio luminoso o que se rompe com a morte do corpo material.
Ele cindiu! o espaço, qual relâmpago, e logo entrevi o solar dos Rabenau.
Desolação e luto lá reinavam, mas o cordão fluídico me atraiu para o médium, em cuja aura se envolvera, formando um laço rubro como sangue.
Esse médium era uma mulher, que, derreada na cadeira, soluçava em desespero.
Estremeci! Acabava de reconhecer Rosalinda, que chorava a minha perda como a de um belo cavaleiro, um homem sedutor e espiritual, que lhe havia comprazido.
Lancei sobre ela um fluido calmante; mas meu coração me atraia mais para o filho, e logo fui arrastado para o quarto onde ele se encontrava, deixando aos fâmulos o encargo de lavar e vestir meu corpo, já removido da Abadia.
Kurt estava de pé, junto à janela aberta.
Abandonava, assim os despojos do pai, a quem tanto fingia amar...
Ah! O homem embotado na carne, poderia iludir-se; mas o Espirito que ora ali estava e cuja presença ele mal poderia suspeitar, apreendia o sentido de todos os seus pensamentos, ao mesmo passo que via jorrar-lhe do cérebro espessa massa de fluidos negros.
O cinto luminoso que lhe cercava a fronte, era estreito e fosco como o próprio coração, por traduzir-lhe a ingratidão e o egoísmo.
Não era o filho a chorar o pai mas, ao invés, o orgulho satisfeito, a alegria de um poderio finalmente atingido, que lhe inflavam o coração.
Pouco distante, flutuavam, como um disco, seus pensamentos e anseios mais recentes, como, por exemplo:
Se me libertasse dele?
Em casos de amor, não se poupa nem mesmo um pai...
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:06 pm

Experimentei grande abalo no corpo perispiritual.
A artéria do coração, que por mil filetes a ele se ligava - artéria brilhante e luminosa, que, só por si, constitui o ornamento do Espírito, ainda mesmo atrasado e que serve de fulcro - retorceu-se e negrejou. Entretanto eu não acreditaria, preferindo julgá-lo simplesmente desesperado! O punhal que lhe dera, ele o havia experimentado no intuito de varar o coração paterno, que só pulsava por ele e lhe havia cedido até a mulher amada!
Contorci-me dolorosamente, um fluido mordente constringiu-me o peito.
E como assim não ser, se havia, durante toda a vida, dedicado ao ingrato a maior ternura?
Sim! Criei-o em meus braços e dia a dia se me despertavam no coração impetuosos sentimentos de paciência e ternura.
De que serviram afeição, cuidados, amparo, dispensados em toda uma existência?
Que direito teria, então, para odiar Benedito, Sanctus e toda a comunidade que tão severamente ele fiara?
Assistia-me o direito de exigir-lhes qualquer coisa, quando se me deparava ali alçada, contra mim, a mão de um filho estremecido, de um ente a quem me ligavam todos os laços fluídicos de meu próprio sangue; daquele ser que me fazia pulsar o coração e que havia adorado como fruto único de um grande amor conjugal?
Tive ímpetos de fugir, mas não pude e experimentei, então, a enormidade do castigo que me prendia à Terra.
Debalde murmurei de mim para mim:
não é a primeira vez que encontras este espírito poltrão e mesquinho; em muitas encarnações tens sido por ele atraiçoado e ferido; e, contudo, insistes em lapidá-lo, qual escultor que, deslumbrado com a própria obra, quer dar-lhe vida e não encontra mais que o bloco inerte e frio.
Pois que o conheces, como e porque te afliges?
Ele é simplesmente indigno de ti...
Mas... acompanhá-lo é um suplício horrível - considerei - e, conformando-me com a inelutável sentença, perfilei-me algo resmungando contra o ingrato que zombava da minha afeição.
Nesse instante, abriu-se a porta do quarto e entrou um homem alto e magro.
Era o padre Bonifácio, capelão do castelo, monge austero, de fisionomia ascética, cujos lábios finos e olhos sombrios, denunciavam vontade férrea e cruel.
Esse homem tinha sido a minha alma danada e, valendo-se da religião e da disciplina moral, subjugava com mão de ferro o espírito tímido e covarde de Kurt.
Bonifácio se acostumara a subjugar a vontade dos seus confessandos e assim foi que, mais de uma vez, me dissera que não trocaria sua autoridade com o Duque, porque se este podia dispor do seu corpo, ele, em compensação, lhe senhoreava a alma.
Ao entrar no quarto, Bonifácio deu a bênção a Kurt e lhe fez sinal para que o acompanhasse ao oratório.
Obediente, cabisbaixo, Kurt não hesitou, mas eu li no seu cérebro este pensamento:
"Padre maldito, antes fosses para o inferno e não me viesses burlar com o teu palavrório intempestivo, a entrevista com a bela aia de Rosalinda..
Bonifácio assentou-se junto do confessionário encimado por um crucifixo de ouro e disse com a maior gravidade:
- "Meu filho, acabas de sofrer uma grande perda e deves ter o coração em chaga aberta; mas, sabendo-te um espírito mundano, julguei que lucrarias procurando alívio na confissão, caso o demónio te houvesse insuflado a ambição de mando e a nova situação te impedisse de
sentir, menos profundamente, a morte de teu pai.
Como teu director espiritual, impõe-se-me prescrever-te o mais rígido jejum e a mais severa abstinência de todos os prazeres mundanos.
Além disso, é necessário que faças valiosas dádivas ao nosso convento e distribuas esmolas à pobreza.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:06 pm

Depois, a exemplo de tua avó e de tua futura esposa, um retiro espiritual de seis meses, em intenção do nosso querido morto."
Furioso com a decisão da noiva, Kurt praguejou intimamente e exalou fluidos negros, que o bom do padre não viu, e sim, apenas, que ele cruzou os braços em atitude piedosa, para dizer:
- Estou pronto a fazer tudo quanto ordenais, mesmo porque não tenho cabeça para pensar noutra coisa que não a perda enorme que acabo de sofrer.
E, ao dizê-lo, tapara os olhos com as mãos e acrescentava:
- Bem desejaria chorar, se isso não fosse impróprio de um fidalgo...
- Pois chora, meu filho, - disse o sacerdote, pousando a mão na cabeça do hipócrita - já que perante o teu confessor o pranto só pode honrar o coração filial.
- Ah! meu padre, sinto-me esmagado pela enorme responsabilidade que ora recai sobre mim, de vez que meu boníssimo pai sempre reivindicou todo o peso do seu fardo, que agora me sinto incapaz de carregar.
Oh! reconheço-me tão mau, tão mundano, indigno e imperfeito para substituí-lo, que, talvez por isso, as preces não me auxiliem, não me beneficiem.
E, contudo, leio a Bíblia todos os dias e não deixo de desfiar meu rosário, conforme aconselhastes.
- Pois ergue-te à noite e lê os salmos de Davi, que, a exemplo dele, te sentirás aliviado nas horas de amargura.
- Tenho em mente um plano para o qual solicito vossa aprovação - disse Kurt - é fazer, logo que minha mulher e minha avó tenham partido para o seu retiro, uma peregrinação, descalço, à capela de São Bonifácio e lá, na gruta do bom eremita, passar com ele algum tempo em jejum e piedosas meditações.
- Digna ovelha do meu rebanho! - exclamou Bonifácio, erguendo as mãos - aplaudo e abençoo essa ideia, que só pode ser inspirada por tua piedade.
O padre mal sabia que a piedosa ideia não passava de pretexto e que, não longe da capela, havia um albergue isolado, onde Kurt se entretinha a seduzir uma bela rapariga, filha única e arrimo do velho hoteleiro cego.
Assim, contemplando a digna ovelha ali ajoelhada diante dele, Bonifácio pensava:
- Meu pobre paspalho, não me escapas ao guante e à tutela, sem tugir nem mugir.
E altivo e satisfeito, inflou-se-lhe o peito de orgulho como se dissesse:
- tenho a faca e o queijo na mão.
Em compensação, o pensamento de Kurt se definia assim:
- Como safar-me deste maroto de padre que, a exemplo de meu pai, me considera uma criança e pretende, ainda por cima, impor-me o domínio da sua igreja?
Desde os dezasseis anos que ele me cativa e agora é tempo de o mandar às favas...
Não pude deixar de rir...
Ah! se os encarnados pudessem ver os pensamentos que se esboçam sob a máscara de carne, quantas e quantas vezes não fugiriam horrorizados entre si!
Profundamente desgostoso, resolvi deixá-los para visitar o convento que tinha absorvido a maior parte da minha vida e onde tanto havia pecado e gozado.
A perspectiva do sombrio edifício me despertou as mais vivas e variadas recordações.
Acreditei estar vivendo o dia em que, pela primeira vez, lhe transpus os umbrais, na qualidade de fiel discípulo do prior D. António.
Com a rapidez do pensamento, desci aos subterrâneos bem conhecidos e penetrei no laboratório.
Absorto, face apoiada na mão, lá estava o infatigável Bernardo na sua faina de atrair do espaço a indómita centelha evadida do corpo.
O laborioso sábio merecera sempre a minha amizade e bem que desejava poder demonstrar-lhe, agora, a realidade das suas presunções.
Lançando o olhar em torno, dei com a presença do jovem e robusto boticário, que trabalhava calado, arrumando pacotes de ervas para secar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:06 pm

Enviei-lhe um feixe de centelhas que timbraram no ambiente.
As ondas aéreas subiram e prensaram o peito do frade, que empalideceu e deixou pender a fronte.
Entrou, depois, a tremer, sob a pressão das correntes de fluido puro e refrigerante que lhe enviei:
encolheu-se no tamborete e adormeceu bocejando e espreguiçando-se.
À medida que o torpor o invadia, massas de fluido avermelhado, espesso e gorduroso se lhe desprendiam do corpo.
A essa emanação, opus meu cordão vital partido e semelhante a outro vazio, e num abrir e fechar de olhos, o fluido avermelhado encheu meu corpo vaporoso, que tudo possuía, excepto a substância carnal.
Respirei por meus pulmões assim materializados, e, lançando o cordão atractivo do meu pensamento sobre o perispírito de Bernardo, fi-lo estremecer com o choque fluídico.
Ele levantou a cabeça e olhou espantado, dizendo-lhe então o narrado por Benedito.
Bernardo caiu de joelhos e lágrimas de alegria lhe rolaram nas faces arrugadas pelo trabalho e pelos anos.
- A alma - disse ele - sobrevive à dissolução do corpo e pode, assim, visitar os que lhe foram caros?
Obrigado, mestre, por esta prova da imortalidade.
E dizendo-o, palpava-me com angústia e satisfação concomitantes.
- Mestre! - prosseguia - aqui neste laboratório, onde a procurávamos, vens dar-nos a prova da verdade!
Não estou, portanto, enganado; meu esforço tem razão de ser.
Oh! Deus, grande é tua misericórdia!
Mas, diz, mestre: poderás aqui voltar e inspirar-me?
- Sim - respondi apertando-lhe a mão - voltarei para corroborar a verdade que investigas.
O monge adormecido agitou-se penosamente; percebi que ele sofria e, inclinando-me, esfreguei as mãos fluídicas saturadas de electricidade cósmica em meus próprios membros cheios de fluido carnal; remeti fluido vital ao corpo do monge, sustando, assim, com essa contracorrente, a onda de fluido avermelhado ainda dirigida para mim.
O monge se acalmou, seu rosto adquiriu a cor natural e eu me afastei, mantendo a sanguessuga fluídica, que representava meu cordão vital.
Momentos após o monge despertava.
Confesso que experimentei indizível bem-estar com a presença de Bernardo, que não chorava a ausência de um morto, mas de um amigo.
Seus pesares exalavam fluidos quentes e benéficos que, saindo-lhe do coração, aqueciam meu coração (entanguido) pela algidez de Kurt.
- Trabalha, valoroso obreiro da Verdade, - pensava, ao deixá-lo; e alçando-me no espaço - trabalha, porque breve estarás entre nós.
As preces sinceras de minha mãe adoptiva e de alguns amigos me atraíram de novo à Terra: vi a capela do castelo, onde celebravam a encomendação do meu corpo, antes de o levarem ao jazigo dos Rabenaus.
A igreja estava repleta.
Percebia-se em todos os semblantes profundo pesar, ou uma gravidade triste; mas, pairando sobre as frontes abatidas, configuravam-se os pensamentos.
Pensava um na caçada em perspectiva; outro, no banquete; este no melhor meio de iludir o ciúme da esposa, e, por último, um tal que tapava os olhos talvez húmidos, pensando que se a grande quantia emprestada pelo defunto conde não estivesse catalogada, o filho deixaria de cobrá-la e ficaria, então, com a grata lembrança do excelente fidalgo, que emprestava sempre sob palavra.
Depressa, entretanto, me abstraí desses indiferentes, para concentrar a atenção em Kurt que, não longe do catafalco, mantinha-se de pé ao lado do Duque, a saborear a honra que lhe dispensava o suserano, e não tendo para mim um só pensamento de pesar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:07 pm

Fremi de raiva...
Ah! quanto me doía não lhe poder gritar de cara:
espírito mesquinho e vil, tu te rojas diante desse duque, cuja nobreza em nada excede à dos Rabenaus!
Não! Meu filho não tinha partícula do sangue que me corria nas veias; alma de lacaio invertebrado diante de tudo que lhe parecesse superior a si, ouvia cada conceito do suserano como se ouvisse evangélicas sentenças, gravando-as no coração como dádivas sagradas.
Oh! pacóvio - considerei - se soubesses que nenhuma jerarquia outorga inata nobreza, e que esta tanto pode latejar sob o camisão do camponês como sob a couraça do cavaleiro...
Malgrado o nome, a fortuna, o poderio que te leguei, antes mesmo que meu corpo esfriasse, eis que teu espírito reivindica, servil, o papel de escravo ao lado desse duque, cruel e pérfido como tu mesmo.
Quanto daria eu para não presenciar tanta baixeza!
Mas a vontade dos guias me forçava a permanecer junto dos homens e tive de assistir aos funerais.
Vi Rosalinda com minha mãe seguirem para o convento e, por fim, acompanhei Kurt que, metido em grosseira blusa, pés descalços e cingindo uma corda, partia para sua peregrinação, após receber a bênção do padre Bonifácio.
Ele fantasiava essa viagem obcecado por planos amorosos, atinentes à filha do velho estalajadeiro, e quando chegou à floresta em que demora a gruta do eremita, tomei-lhe a dianteira e vi um frade beneditino a ler o seu breviário sobre uma campa - a campa do eremita falecido dias antes, e que o frade ali conduzira para enterrar.
Reconheci logo o irmão Lucas, astuto, hipócrita e sempre humilde perante os poderosos.
Lucas conhecia Kurt; e quando este lá chegou, recebeu-o com a maior deferência.
Enquanto observava o digno par, que discorria animadamente, notei, na aura do monge Lucas, um Espírito negro e temível, que tentava evidentemente, ocultar-se às minhas vistas.
Com força de vontade e superioridade espiritual, intimei-o a descobrir sua individualidade; mas, logo o identifiquei, estremeci, pois era um inimigo mortal de Kurt, adquirido em pregressa encarnação e de quem, por mais de uma vez, eu o havia livrado e por isso temia a minha presença ali.
- Tranquiliza-te - disse-lhe - porque não te impedirei de atingir este ingrato.
Não quero ajudar-te, nem hostilizar-te, crê.
Satisfeitíssimo, o Espírito malevolente aferrou-se mais fortemente ao monge e logo notei que, enquanto os dois encarnados conversavam, seus fluidos mais se harmonizavam; e quando Lucas concordou em desamparar a rapariga cobiçada, sua confessanda, às torpezas de Kurt - apertando-se as mãos a ovelha e o pastor, dignos um do outro - o Espírito inimigo senhoreou o cérebro e o coração do indigno fidalgo e, cobrindo-o quase totalmente de fluidos negros, exclamou:
até que enfim, apanhei-te e vou devolver-te, em dobro, minhas dores e angústias.
Seu pensamento, jorrando em todas as direcções, não tardou aparecesse um enxame de Espíritos inimigos.
Oh! Kurt, já nessa encarnação, quantos inimigos tens aqui adquirido!
Tua dureza de coração, teu egoísmo têm frutificado.
Os infelizes que atormentaste e escorraçaste quando me ausentava do castelo, mortos de fome ou de paixão, vão agora cobrar-te as dívidas.
Curvei a fronte, acabrunhado.
Sim era preciso, ele não queria regenerar-se, lutar contra o mal que os perseguidores lhe desfechavam sem tréguas, mudando-lhe o humor e gostos a cada instante.
E cada qual desses perseguidores invisíveis podia actuar nele, visto que sua índole egoística e pérfida correspondia aos seus instintos.
Dirão talvez que é injusto abandonar uma criatura à perseguição dos invisíveis; mas o espírito se encarna precisamente para resistir ao mal e, quando o fundo nele é fraco e mau; quando essa lassidão e fraqueza lhe proporcionam o bem-estar material relativo, sem que ele procure resistir a si mesmo, resistindo aos prazeres vulgares, a despeito da voz íntima que lhe ordena fazer o bem e evitar o mal; esse encarnado não merece lástima, pois só tem o que desejou e mereceu.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:28 pm

Quem semeia iniquidade e egoísmo colhe ódio e vingança.
Pouco depois, Kurt se escondia e logo entrou na clareira uma jovem loura de faces rosadas.
Pelos fluidos que a envolviam e pelos pensamentos que emitia, reconheci uma criatura bondosa, porém fraca. Sua fé, acanhada, tinha-a sustentado até então na trilha da virtude, tinha podido resistir aos homens da sua classe.
Era preciso aparecesse um fidalgo, sem alma e sem brio, para ludibriá-la e conspurcá-la.
O padre Lucas procurou consolar a desventurada Gertrudes pelo falecimento do velho eremita, a quem ela dedicara verdadeira afeição; depois procurou ouvi-la em confissão.
A ingénua criatura lhe confiou que tinha o coração opresso e perturbado o ânimo, desde que encontrara um desconhecido e dele ouvira empolgante e terna declaração de amor.
Que esse homem lhe apertava a mão e lhe embargava os passos, sempre e onde quer que a encontrasse; e mais, que era belo e que se julgava fascinada; entretanto, sua velha madrinha, alma piedosa e devota, estava convencida que tudo não passava de tentação demoníaca, presunção tanto mais dolorosa quanto seu noivo, piedoso carvoeiro, era filho dessa mulher, sua madrinha.
Padre Lucas, ergueu a cabeça e engendrou uma resposta que deveria servir a Deus e a Mamon:
- Filha - disse ele - eu não conheço o homem de quem me falas, mas tu o deves conhecer, por ti mesma, à força dos sentimentos que te empolgam o coração e te roubam a tranquilidade.
O amor, minha filha, é sentimento divino; foi por amor que Deus criou o mundo e concedeu à humanidade todos os bens terrenos.
Também não fez distinções nem excepções em sua dádiva, dela excluindo os indignos, tanto os bons como os maus.
Logo, para o amor não há freios quando ele nos invade o coração, como se depreende destas palavras do Salvador, quando diz que a quem muito amou, muito será perdoado.
- Quanto vos agradeço, meu bom padre, estas consoladoras palavras! - exclamou a jovem, de olhos incendidos, logo perguntando:
não é pecado, então, amar este belo moço desconhecido?
- Não, certamente, sobretudo se puderes atrair as bênçãos do céu para o teu amor; e agora, permite-me que vá rezar na sepultura do nosso saudoso Davi.
Enquanto isso, podes aqui ficar, orando por mim e por ele.
afastando-se o padre, Gertrudes ajoelhou-se diante do crucifixo pendente da parede da gruta.
Em vão seu protector espiritual lhe dizia que fugisse.
Ela nada ouvia e, dentro em pouco, sorrateiro, entrava Kurt.
Sensual sorriso lhe franzia os lábios ao aproximar-se da rapariga para abraçá-la.
Ela quis esquivar-se, porém, ele forçou-a a sentar-se no banco de pedra e lhe falou do seu grande amor.
Quando, porém, lhe tacteou o corpete de tecido grosso, fechou a cara e disse:
- Bela Trude, vou te dar veludo para um casaco e far-me-ás o favor de usá-lo sempre, pois esta fazenda me estraga as mãos.
Outra coisa que te quero dizer é que as tuas roupas rescendem às iguarias que serves aos teus fregueses; ora, quando me pertenceres, quando fores minha mulher só usarás veludo e seda, e pérolas, e perfumes nesta bela cabeleira.
A rapariga permanecia assentada, cabisbaixa e muda, considerando-se ao lado de um fidalgo disfarçado, uma vez que assim lhe falava de sedas e jóias.
- Duvidas de mim?
Estou a ver que receias retribuir minha paixão e, no entanto, sabe que aqui vim em peregrinação a este santuário, só para pedir ao céu que abençoe nossa união.
Diz-me, então, que juramento de fidelidade te devo prestar.
- Espera um pouco - disse Gertrudes correndo para fora da gruta - de lá voltando com o padre Lucas e logo exclamando:
jura, então, diante deste santo homem, que casarás comigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:28 pm

Desconfio que és um trovador, ou fidalgo talvez, enquanto que eu não passo de rústica aldeã; mas sem embargo, o coração não exige nomes.
Furtivo sorriso frisou os lábios de Kurt.
- Padre! - disse - sois testemunha de que juro casar-me com esta moça e lhe entrego este anel como garantia da minha palavra.
- Deus os abençoe e lhes conceda risonho futuro. - concluiu Lucas erguendo os braços.
E Kurt abraçando-a...
- Acreditas agora, louquinha?
Então espera-me logo à noite, junto da fonte, pois preciso ouvir meu pai e resolver quando antes o nosso casamento.
Gertrudes inclinou-se e desapareceu na floresta.
Ele, então, rompeu em gargalhada:
- Veja que idiota!
Como leva a sério...
Não suspeita que breve me fartarei dela...
Convosco, porém, meu padre, há o que conversar, de vez que me inspirais simpatia...
Pergunto: aceitais a capelania do castelo, no caso de vacância?
Os olhos do padre cintilaram de alegria.
- Muito me penhorais, mas não mereço tão grande favor...
- Procurai-me lá no castelo e talvez possais ajudar frei Bonifácio, mesmo porque ele anda adoentado.
Falar-lhe-ei dos bons predicados que em vós encontro...
A verdadeira intenção que o dominava, era a seguinte:
insinuando-lhe a possibilidade de substituir Bonifácio, quem sabe, este belo rapagão, que suponho emancipado de maiores preconceitos, não me ajudará a desfazer-me do velho monge impertinente e vigilante?
Amofinado e triste, alcei-me no espaço por alguns momentos.
Reconhecia-me, também eu, espírito culpado e fraco; mas tanta baixeza me nauseava.
Um dia tive desejos de rever o convento e fui para lá impelido.
Hóspede subtil e invisível, penetrei facilmente na cela do novo prior, pois Benedito acabava de ser aclamado pela comunidade, inclusive a secreta.
Pendia-lhe do pescoço a cruz de ouro e no rosto se lhe estampava a alegria do sucesso.
Assentado, apoiando a fronte nas mãos, do cérebro lhe jorrava uma nuvem de projectos ambiciosos e arrojados.
- Consegui o que desejava - lia-se-lhe na mente - estou vingado e respondo, perante Deus pela série de crimes que pratiquei; mas, como cabeça deste rebanho, preciso igualmente considerar as palavras do Evangelho.
Manter esta associação de vingadores é empresa tão perigosa quão exaustiva; ter de pensar por todos e ser o servo de cada um, visto que, pelo Regulamento da confraria, o prior deve ser o primeiro a facilitar e prover a vingança de cada um.
Rabenau tinha quase que o dom da ubiquidade; mas era também cavaleiro e dispunha de inúmeras relações sociais, ao passo que eu... não.
Eu me conservarei monge intransigente e severo e a confraria morrerá pouco a pouco.
O poder da Igreja deve aumentar sempre, por toda a parte, sobre as suas ovelhas, e eu não posso tolerar, no próprio convento, outro poder que não derive exclusivamente do priorado.
Tomada esta decisão, ergueu-se sorridente e começou a andar pelo quarto, enquanto eu me via presa das mais sombrias conjecturas:
era o esboroamento de toda a obra gigantesca, levantada pouco a pouco, por dois espíritos activos e argutos (António e eu) à custa de muita paciência e de muitos crimes.
Por essa confraria secreta eu teria dado a própria vida!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:28 pm

Sabia que em muitos corações florescia a esperança da vingança e de repente, aquele recém-vindo julgava supérfluo manter a máquina maravilhosa, conservar aqueles subterrâneos com a opulenta biblioteca adquirida a peso de ouro, tudo que a ciência humana revelara até então...
Esses tesouros da inteligência apenas deviam aproveitar ao novo prior, e o laboratório, que havia dado um Bernardo, deveria extinguir-se com a morte do sábio monge?
Ah! exclamei desalentado e enraivecido, é bem certo que os herdeiros são sempre ingratos.
Bem que dizia a Bernardo, quando o encontrava na faina de fabricar ouro:
- "Ainda que o consigas, ninguém te agradecerá.
Os herdeiros ingratos, que se locupletam com o suor dos que trabalham para eles, são sempre mais sábios que os mortos.
Isto posto, mergulhei nas nuvens e nem os próprios amigos me puderam consolar.
Meu desânimo era absoluto.
Entretanto, meus juízes não tardaram a impelir-me novamente para o castelo de Rabenau, lá encontrando Lucas já instalado, a seguir Bonifácio como se lhe fora a própria sombra a obedecer-lhe cegamente e a imitá-lo até na linguagem.
Se bem que observador profundo e inteligente, Bonifácio não deixava de sentir-se lisonjeado com a atitude do seu auxiliar e sentinela, baboso sempre que o capelão lhe dirigia a palavra.
Inteiramente preocupado com a ideia de açambarcar a direcção do condado, o velho capelão deferia a Lucas, de bom grado, a celebração da missa e todos os serviços menos importantes da capelania.
O rapaz soube insinuar-se e tornar-se indispensável a todos.
Kurt, mais que ninguém, o apreciava cada vez mais, mesmo porque havia entre eles afinidade de génios.
Aqui, vale dizer que padre Lucas era um belo rapagão de trinta anos, com o seu rosto pálido, barba preta, crespa e uns olhos de mel.
Os dois dignos eclesiásticos assediavam Kurt com preces e exortações, um para consolidar autoridade, outro no intuito de o livrar do parceiro.
E Kurt, inapto para tudo que afectasse generosidade de coração, tinha sempre argúcia para identificar os pérfidos, de sorte que percebeu logo que, se conseguisse livrar-se do irritante e austero Bonifácio, teria em Lucas um instrumento passivo.
Em tais condições, a sorte do capelão era coisa assentada e resolvida.
Bonifácio começou a languescer a olhos vistos, sem causa conhecida.
Lucas cuidava dele como de um pai e Kurt aparentava profundo pesar, mas no íntimo ansiava pelo desenlace que o livraria do incómodo confessor.
No dia em que o médico declarou que a morte era inevitável e iminente, Kurt desmascarou-se e não mais voltou ao quarto do enfermo.
Não tolerava o ambiente, que dizia empestado, nem o cheiro dos medicamentos; a voz estertorante do moribundo lhe feria os tímpanos e a necessidade de lhe tocar a mão suarenta causava-lhe calafrios.
Sim, o bizarro fidalgo detestava, a mais não poder, toda criatura doente, esquecendo-se que aquele mesmo sacerdote, em minha ausência, passara dias e noites à sua cabeceira, quando atacado de violenta febre perniciosa, estivera entre a vida e a morte.
Indubitável que o Bonifácio era rígido, cruel mesmo e impiedoso até, quando julgava necessário; era do seu tempo e da sua casta; mas, aquele filho que eu tanto estremecera, a ponto de me tornar covarde muitas vezes, doía-me vê-lo tão degradado, a desmentir minhas melhores esperanças e previsões.
Porque a mim, com justiça, poderiam julgar-me um homem dissoluto, um mau cavaleiro, mas nunca um mau pai.
Dei a Bernardo vale para visitar Bonifácio e ele o fez, justamente quando Lucas já convencido do seu triunfo, dormia tranquilamente.
Lá estava eu, invisível, à cabeceira do moribundo, quando Bernardo entrou e lhe apertou a mão rugosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:28 pm

Depois de o examinar com a maior atenção, exclamou com espanto:
- Pobre irmão, bem vejo que sucumbes mortalmente envenenado; mas, que mão criminosa te daria esse veneno?
Depois, concentrou-se um instante, e exclamou:
- Que horror! o filho do nosso chefe.
Bonifácio voltou a cabeça e murmurou:
- Bem que o suspeitava e Lucas é o seu cúmplice; mas, não tem um cordial que me suavize a passagem?
Bernardo entregou-lhe um pequeno frasco e inclinando-se de olhos acesos, sussurrou:
- Não te amedrontes, amigo; a criatura ofendida e traída sobrevive à destruição do corpo, podes crer, pois o chefe me apareceu e me disse.
O enfermo reanimou-se perguntou ofegante:
- Juras?
- Sim, juro pela minha salvação - respondeu Bernardo; e logo Bonifácio:
- Graças a Deus! porque assim saberei vingar-me.
Bernardo retirou-se e quando a noite caía, o padre Lucas apareceu.
Vendo-o, o moribundo reanimou-se e falou com firmeza:
- Neste transe de agonia, que já começou, eu vos maldigo, a ti e a Kurt, que me envenenastes, e vos condeno a sucumbir de morte violenta, igual à minha; diz-lhe isto, e já que o crime vos uniu, haveis de morrer na mesma hora; tomo a Jesus, nosso Redentor, por testemunha deste vaticínio.
Recaiu no travesseiro, inteiriçando-se; envolvemo-lo em filetes luminosos para cortar todos os laços carnais e logo o tivemos entre nós, algo aturdido.
Dando comigo, exclamou: Mestre! é então verdade?
Curvei a cabeça e respondi:
- Aqui, Bonifácio, não sou mais o chefe, mas, apenas um espírito sofredor, retido na atmosfera terrena, por seus pecados (1).
Kurt voltava da caça, expansivo e satisfeito, quando o padre Lucas lhe foi comunicar o falecimento do capelão, convidando-o a certificar-se por seus próprios olhos.
- Chi! - disse, fazendo uma careta - tenho em boa conta a sua palavra e, de resto, os defuntos me repugnam.
Quando morreu meu pai, não tive remédio senão abraçá-lo, mas foi só para salvar as aparências.
Nos ofícios religiosos dessa noite, lá estava firme a recitar o seu Pater, mas com o pensamento bem longe dali.
Ao concluir, falou ao comparsa:
- Atento ao grande crime que tenho cometido em facultar a morte de Bonifácio, não me julgo digno de confissão e comunhão e quero empregar o tempo, até o regresso de minha mulher, em jejuns e mortificações.
Acreditava que, com essa contrição exterior apagaria a culpa.
Nessas ocasiões, também não deixava de interceder por Godeliva que, felizmente para ela, tinha morrido antes de se lhe tornar desprezível.
Às vezes ele se dignava de encarecer minhas súplicas a Deus, em seu favor, mas logo considerava que eu tinha sido muito mau para merecer algo que lhe pudesse aproveitar e passava a esquecer
os próprios crimes e a exorar o perdão das minhas faltas.
Se pudesse ver que o espaço em que exalava seu fluido estava vazio; que suas preces banais, destituídas de sentimento não atraíam nenhum Espírito benéfico e que o seu auditório invisível zombava dele e, com fluido estonteante, ainda mais lhe obliterava o bom senso...
A mim não me era dado, senão raramente, deixar aquele lugar de punição; e quando Rosalinda regressou do convento, assisti ao primeiro colóquio do casal, num quarto redondo que Rosalinda muito apreciava.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:28 pm

Kurt, encostado à parede, mordiscava o bigode louro, evitando encarar a mulher que, ainda em trajes de luto, permanecia na sua poltrona, com as mãos cruzadas sobre os joelhos.
Li na aura de Kurt que ele estava furioso com o acolhimento quase glacial que a esposa lhe reservara, quando ele tudo fizera para recebê-la pomposamente, convocando para isso todo o pessoal do castelo.
Ele se gabava de suscitar sempre entusiasmos e admiração por sua pessoa, e Rosalinda, já pela convivência longa, já pelas circunstâncias que os ligaram, não podia consagrar-lhe mais que uma sincera amizade, em consideração a mim.
Ela o analisou várias vezes.
Estava mudado, muito havia perdido da sua beleza de adolescente, o semblante efeminado tinha agora algo de rude e impassível e, apesar das ricas vestes, faltava-lhe graça e elegância ao porte.
- Caro Kurt - disse ela, por fim, rompendo o silêncio - noto que estás aborrecido:
tiveste qualquer contrariedade?
Ou, quem sabe, nossa chegada veio embaraçar-te alguma caçada ou qualquer diversão?
Criada sob aquele tecto, a nobre Rosalinda conhecia melhor que ninguém o temperamento do jovem conde; mas, agora, como esposa, queria provar até onde ia a amabilidade do marido.
Ouvindo-lhe a pergunta, ele se voltou bruscamente e falou em surdina, como fazia, aliás sempre que se encolerizava:
- Essa é muito boa!
Então não vês logo que não posso estar satisfeito quando me ofendes com ostensiva indiferença?
Vou ao teu encontro, pressuroso e impaciente, exultante de alegria para te rever após seis meses de ausência e tu me apareces coberta de luto!
Que vovó assim proceda, vá; mas tu?
Ora, faz o favor de me dizer:
que mulher, neste caso, não se rojaria nos braços do marido para beijar-lhe a mão?
E olha que não o digo por mim, mas pelas pessoas aqui reunidas, como exemplo de respeito ao chefe da família.
E tu esqueces tudo isso, como se ignorasses que a regra de bom tom exige que a castelã se mostre humilde para com o marido e senhor.
Dessarte, tive que afrontar os olhares de surpresa dos nossos fâmulos, que não trepidarão em suspeitar tua frieza como proveniente de secretos motivos.
Rosalinda, estupefacta, tinha as faces afogueadas.
Por fim, respondeu:
- Estou estonteada de tantas estúrdias, mas permite que te diga, meu caro amigo, que este luto é por teu pai - alma grande e generosa, que tanto te amou em vida; precisamente por voltar a este castelo hereditário, onde a sua pessoa, inteligência e alegria tudo animavam; onde cada objecto lembra sua presença e torna duplamente sensível o vácuo que nos deixou sua morte; precisamente por isso, digo, seria inconcebível me apresentasse sem luto.
Nem posso crer que seis meses te fizessem esquecer nosso querido morto.
Portanto, meu luto é coisa que te não pode ofender.
- Sim, sim, mas que tem a ver a reverência ao morto com a desatenção para comigo?
Compreendo que o castelo agora te pareça deserto, mas não podes considerá-lo vazio, a menos que não queiras considerar a presença, nele, do teu marido e senhor.
Melindrada, a jovem Rosalinda ergueu-se de olhos incendidos.
- Meu amigo, rogas-me censuras imerecidas, pois não tive intenção de te ofender.
Ao demais, seria insensato magoar um companheiro e amigo da infância.
Não te beijei a mão, é verdade; (detendo-se como que embaraçada, mas logo erguendo a fronte altaneira) no entanto, beijei a mão de Leo; mas deves considerar que Leo foi o meu primeiro amor e outro é o sentimento que nutro por ti, bem como o que me inspirava teu pai.
Jamais te esposaria, crê, se me não merecesses afeição, uma afeição que medeia a paixão de Leo e o amor por teu pai.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:29 pm

De ti depende o futuro:
se fores bom e razoável, hás-de conquistar maior afecto e então serei a primeira a te patentear submissão e respeito perante toda a gente.
Isso ela o disse já sorridente, como tal ou qual galanteria.
Kurt desanuviou a fronte.
Prezava bastante a beleza de Rosalinda para não azedar inteiramente o seu humor naquelas primeiras horas de intimidade.
Infeliz Kurt!
Tudo nele era inconstância e volubilidade:
a mulher mais bela, o melhor amigo, a coisa mais interessante, logo o entediavam e saturavam, menos seus caprichos, seu egoísmo, sua cupidez e covardia.
Nisso ele hauria novas forças para entreter sua maldade.
Para o momento, a nova partida lhe interessava.
Colocou a almofada aos pés da esposa e sussurrou-lhe palavras de amor, que guardava de cor e salteado, para repetir, mais ou menos coloridas, ao ouvido de fidalgas e de aldeãs.
- Verás, minha doce Rosalinda, como te corresponderei tanto ou mais que Loevenberg; o que somente peço é que me dês todo o teu coração.
Meu amor é ardente como o próprio fogo e tua frieza me acabrunha e pode fazer com que te fuja.
Ah! se soubesses quanto te quero...
Poderia aqui ficar eternamente a teus pés, mirando-me no espelho de teus olhos, beijando o coral dos teus lábios.
Atraiu-a a si e ela correspondeu com ternura às carícias do amigo da infância.
Quem assim os visse, acreditaria que era um casal feliz e no entanto, ai de mim! tudo aquilo não passava de simples devaneio para aquele homem de coração vazio que, na sua existência ociosa e inútil, não sabia o que fazer da sua pessoa.
Um dia, encontrei na erraticidade um espírito ainda obscurecido, mas que pela têmpera dos seus fluidos me atraiu; não tardei em reconhecer aquele que na Terra tanto me estimara e a quem retribuí sincera e profundamente.
Depois que ele desencarnou, a vida e as paixões fogosas me haviam despojado das virtudes da adolescência, mas nada diminuíra a nossa afeição recíproca e eu me sinto feliz em dizer que mesmo os séculos nada alteraram neste sentido, pois o mesmo pai que então me amava até ao crime, é hoje o editor das minhas obras.
Permutamos pensamentos.
Meu pai me falou da sua vida solitária e disse-lhe eu quanto fizera, como homem e como desencarnado.
Por último, disse-lhe que sua esposa e minha mãe adoptiva estava prestes a juntar-se a nós na espiritualidade.
Propôs-se ele, então, acompanhar-me, a fim de recebê-la e lá nos fomos ao quarto em que penava a velha fidalga, devorada pela varíola.
Rosalinda não arredava pé da cabeceira enxugando-lhe de minuto a minuto a fronte banhada em suor.
Uma freira ursulina auxiliava o piedoso mister.
Os fluidos negros da putrefacção se amalgamavam em nuvens densas, rodeando o leito...
- Quero ver Kurt - dizia a moribunda, revolvendo-se no leito.
Vai chamá-lo, Rosalinda, pois quero abençoá-lo antes de morrer.
Rosalinda ergueu-se contemplando o rosto pustulento da variolosa.
Chorava...
Depois, friccionando as mãos e a face com a essência que Bernardo lhe dera para prevenir o contágio, encaminhou-se para o gabinete do marido, que encontrou refestelado, lendo a Bíblia.
- Vem dai que a vovó quer ver-te - disse aproximando-se.
- Isso é que não - retrucou com vivacidade.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:29 pm

- Mas - insistiu Rosalinda, quase súplice - ela pode falecer e quer antes te dar a bênção...
Kurt firmou o cotovelo no livro aberto e pôs-se a olhar o tecto.
A custo respondeu:
- Bem sabes qual é a sua enfermidade; e depois, fala tão baixinho que mal se faz compreender.
Não me atrevo a respirar, nem mesmo suporto o hálito pútrido que ela exala...
Olha, minha cara Rosalinda - acrescentou com um olhar malicioso - a mulher casada que ama seu marido não tem o direito de fazer-se enfermeira, para não suceder que lhe transmita doença.
Assim, não posso abraçar-te agora, indemne dos repugnantes miasmas que exalas.
E dizendo-o, lhe repelia a mão pousada no ombro.
- É um cristão e um neto que assim se pronuncia, com a Bíblia aberta diante dos olhos! - exclamou a jovem, recuando, extremamente pálida.
É assim que entendes a Parábola do bom Samaritano?
Será que toda a nossa afeição deva extinguir-se, quando a criatura mais carece de amor?
Então, amor não seja, mas amizade, o predicado único que nos leva a arrostar o nojo e os perigos de uma enfermidade grave.
Quando se trata da vida de um ente caro, cujos momentos estão contados; e quando se lhe acompanha o sopro que se esvai, não há tempo de lhe considerar o odor.
Não posso acreditar que estejas falando a sério; aquela que te serviu de mãe, que te cuidou desde que nasceste e em cujos braços cresceste quer ver-te e a sua enfermidade te assusta!
Receias meu contacto, recusas minha mão, como se fosse uma leprosa, somente porque lá estou junto dela!
É verdade que pai Bernardo me disse, há pouco, que a varíola se tinha declarado; mas ninguém aqui no castelo foi atingido e quanto a mim...
Kurt não a deixou concluir, levantou-se, pávido, transfigurado.
- Varíola? - E tens a coragem de me por a mão?
Estou perdido!
Tragam um cavalo - exclamou fora de si - e fugindo da esposa, pasmada, precipitou-se escada abaixo.
Trouxeram-lhe o cavalo e enquanto os escudeiros o ajudavam a montar, visto que as pernas lhe tremiam e mal sustinha as rédeas, disse:
- Ninguém se atreva a sair daqui para acompanhar-me.
Por fim, procurando ganhar forças no próprio terror que o assaltava, esporeou o animal e partiu qual flecha, em direcção ao seu castelo de Lotharsee.
Nesse ínterim, a velha castelã entrava em agonia e Rosalinda, acabrunhada, voltava a assisti-la.
Flutuando acima da moribunda, ajudados pelos amigos, eu e meu pai atraíamos os fluidos vitais que se partiam, subindo lentamente no espaço.
Nós os cortávamos um a um, repelindo o fluido mais pesado, que dificultava o despreendimento completo do corpo físico.
Diz a sabedoria popular que tal vida, tal morte...
O virtuoso tem suave transição, e penosa é a do malvado.
É simplesmente a verdade, e há para isso razões muito sérias. que a assistência invisível, de amigos ou inimigos, facilita ou dificulta o despreendimento na razão directa do ódio ou da afeição que o moribundo inspira.
Dentro em pouco, o perispírito integral, apenas retido pela artéria principal, flutuou acima do corpo.
Depois, um choque eléctrico e o cordão luminoso vibrou, contraiu-se no espaço e o Espírito libertado, oscilando brandamente, elevou-se entre os seus amigos.
Dona Rosalinda, - disse a enfermeira tocando no braço da jovem que, ajoelhada, repetia a prece dos agonizantes - a condessa está morta!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:29 pm

Rosalinda começou a chorar, foi buscar um crucifixo de prata e, beijando-o, colocou-o sobre o peito da 'defunta.
- Boa irmã - acrescentou - queira pedir o que se faz mister para amortalhar o corpo; contamos com excelentes e piedosas servas, que não temem a moléstia nem se furtam ao cumprimento de um dever sagrado.
Por mim, não desejaria expor meus fâmulos ao contágio de uma enfermidade tão perigosa, tanto mais quanto meu marido foi o primeiro a fugir espavorido...
E dizendo-o, amargo sorriso lhe frisava os lábios.
Servindo-se do apito de ouro, soprou forte, e presto acorreu o pessoal do castelo.
- Ninguém saia a prevenir o conde da morte da velha condessa e do dia do enterro; respondo pelo que houver.
Nenhum de vocês fica na obrigação de prestar serviços que possam acarretar-lhes transmissão da moléstia e propagar a epidemia local.
As boníssimas irmãs de Santa Úrsula aí estão para fazer todo o necessário.
- Não, minha senhora - responderam - una você os servos, a patroa sempre nos tratou com bondade e delicadeza e queremos prestar-lhe nossos últimos serviços e homenagens.
A misericórdia divina que há-de imunizar a senhora, se estenderá também a nós.
- Obrigada pelo vosso devotamento neste transe doloroso - respondeu a jovem Rosalinda, recolhendo-se ao seu quarto.
Uma vez lá, despediu as criadas, prosternou-se lacrimosa diante do oratório e murmurou:
Lotário morreu, agora vai-se a velha e eis-me isolada e, o que mais é, abandonada ostensivamente, diante dos criados, pelo homem que devia ser o meu amparo e o exemplo para todos nós.
Quanta covardia, meu Deus!
Desesperava-se, indignada, por ver que valia menos agora, como sua mulher, do que como amiga de infância.
Compreendia que se lhe tornara indesejável, odiada mesmo, desde o momento em que ele se reconheceu incapaz de lhe inspirar a paixão ardente que ela tivera por Loevenberg.
Cada palavra, cada gesto dele para com ela eram calculados para magoá-la.
Muitas vezes, desaparecia por muitos dias, a pretexto de negócios e caçadas, quando, na realidade, o que fazia era cortejar o duque, namorando-lhe a sobrinha, princesa Úrsula, ou então frequentando ostensivamente justas e torneios, se bem que um ano apenas havia que perdera o pai.
Tudo isso ela sabia pelo padre Lucas que, a pretexto de amizade e devotamento, lhe redigia minuciosos relatórios.
Nessas condições, a jovem Rosalinda não raro chorava amargamente o seu destino, mas não podia, por outro lado, suportar indiferente tais ultrajes, nem tampouco inclinada à tarefa de regenerar o marido.
Mulher do seu tempo, orgulhosa do seu sangue e da sua beleza, começava a odiar de morte esse marido que a ultrajava.
As copiosas lágrimas que vertia não eram, portanto, de ciúme e sim de orgulho malferido.
O enterro da velha castelã se revestiu de pompa digna da progenitora de Lotário de Rabenau; e os pobres e enfermos, que ela sempre socorrera, choravam sinceramente a sua morte.
Os serviçais que ainda guardavam luto pelo falecido amo tinham no rosto estampada a grande mágoa que lhes causava a perda de patrões tão generosos.
Decorridos mais de oito dias, uma bela manhã, chegou ao castelo um mensageiro do conde e voltou sem falar a Rosalinda, que recusou recebê-lo.
Um segundo portador teve o mesmo destino, até que, passado um mês, o foragido reapareceu, a cavalo, começando por chicotear o guarda da ponte levadiça e, a seguir, o velho mordomo.
Sua voz alterada pela raiva, reboava pelos corredores e salas da nobre mansão:
- Canalhas! Como se atreveram a desatender aos portadores que aqui mandei?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:29 pm

- A senhora foi quem mandou - responderam em coro.
- Pois fiquem sabendo, seus cachorros, que, quem quiser viver sob este tecto, tem que obedecer às minhas ordens, ainda que dez castelãs digam o contrário.
Dirigiu-se aos seus aposentos, onde tomou um banho e se preparou para rever Rosalinda, mas a moça não lhe atendeu ao chamado, mandando dizer que só lhe falaria depois da refeição, na sala do oratório.
Com isso, o fidalgo Kurt perdeu o apetite, recusando os pratos e dirigindo-se de cenho carregado para o quarto da esposa, decidido a desfeiteá-la com a sua frieza, impertinência e sarcasmo.
Ao levantar o pesado reposteiro, deu com Rosalinda de pé, junto à janela.
Belo vestido de lã, branco, ajustado ao cinto de ouro, deixava-lhe entrever as formas elegantes; a cabeleira opulenta e negra como as asas do corvo, caia-lhe em ondas sobre as espáduas, e a vivacidade do rosto mais ressaltava o brilho do olhar.
Vendo-a, assim, bela, Kurt logo se acalmou.
Ele estava, na verdade, farto de toda a espécie de aventuras com as mulheres louras e gordas, e aquela morena esbelta e sedutora, de maneiras finas e discretas, como que lhe espicaçava os sentidos enervados.
Além disso, é força convir que intimamente, ele a queria mais que a quaisquer outras, e que sua dignidade feminina o açulava.
Rosalinda tudo compreendeu de relance; mas quando ele se aproximou tentando abraçá-la, recuou de cenho fechado.
- Não me toques: se anuí a esta entrevista, não foi para te contagiar de uma enfermidade repugnante quão perigosa e, sim, e só, para te comunicar que me recolho ao meu castelo de Loevenberg, pois não posso nem quero conviver com um cruel e desalmado; não quero correr o risco de adoecer e ver fugir meu marido apavorado, com escândalo de toda a região.
Abandonaste a avó agonizante, e a esposa extenuada e pesarosa não te mereceu os mesmos sentimentos que acabas de afagar ao transpor aquela porta.
Oh! sim, agora sei quem és e quanto vales:
queres brincar com a falena brilhante, mas logo que teus dedos rudes desbotem o vivo colorido de suas asas, ela será repelida com enfado.
Teu coração é mais duro que o granito.
Senão, diz:
que pretendeste fazer com os míseros moradores de um albergue dependente dos domínios de Lotharsee,
isto é: uma tal Gertrudes e seu pai, cego, ambos atacados da varíola, mas ainda vivos?
Não mandaste incendiar a casa a título de expurgo, estando eles ainda vivos?
Se a irmã Angélica, que assistiu tua avó, não me houvesse prevenido a tempo, os dois infelizes teriam morrido queimados.
Agora, felizmente, eles estão em segurança, em terras de Loevenberg, onde não metes o bedelho, porque o duque mudou logo após a morte de Leo.
Mas, (tornando-se mais corada) isso não é tudo:
essa mesma Gertrudes foi seduzida por um miserável, que jurou desposá-la e lhe deu em garantia um anel de rubi, cravejado de diamantes.
Kurt - concluiu com a voz entrecortada pela emoção - que fizeste do anel que sempre usaste antes da morte de teu pai?
Surpreso e confundido, Kurt procurava um meio de conjurar o repúdio da mulher, que lhe parecia mais bela e desejável naquele momento de exaltação.
Ela queria abandoná-lo?
Mas ele também a conhecia e sabia que, se tentasse impor seus direitos maritais, ela apelaria para o duque e o acusaria de público.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:29 pm

O que ele mais temia no mundo era a divulgação das suas infâmias e o julgamento dos seus pares e vizinhos.
Gostava do segredo e do mistério para os actos pouco louváveis, que lhe pontilhavam a existência, só os referindo quando, à força de hipocrisia, conseguia atribuir-se o papel de vítima.
Todas essas reflexões lhe ocorreram num minuto, e, conhecendo a fundo a maneira de impressionar Rosalinda, atirou-se-lhe aos pés e exclamou com desespero e humildade bem representada:
- Tens razão para me odiar e desprezar, confesso que sou um miserável, um poltrão.
Reconheço a justiça do teu libelo e confesso-me horrorizado de mim mesmo; entretanto, quando te traí, perseguindo Gertrudes, tu me havias abandonado por seis meses e o meu amor árdego me levou a procurar distracções, aliás, indignas, bem o sei.
Esse mesmo amor que me inspiraste, é o que me fazia ter ciúmes do meu adorado pai, a quem, no entanto, amava acima de tudo neste mundo, tanto que me não deito nem levanto, sem orar por ele.
Kurt adivinhava que essa comovida referência a meu respeito não deixaria de produzir alcance.
Prosseguiu:
- A verdade é que pensavas só em ti, nas tuas e não nas minhas mágoas.
Irritado, despeitado, pensei em te suscitar ciúmes e procedi, então, com a indignidade que justamente verberas.
Contudo, não posso admitir que me abandones, pois a tua perda me acarretaria consequências que nem quero imaginar...
Perdoa-me, pois; apieda-te de mim!
Rosalinda ofegava.
Por fim, falou com voz opressa:
- Como perdoar tanta desumanidade?
Ainda bem não se enterrara teu pai e tu, por mesquinha vingança, comprometeste o futuro de uma pobre criatura, tua vassala e, o que mais é:
- não franca e lealmente, mas aleivosa e torpemente.
Depois, abandonaste tua avó às portas da morte.
Pois bem:
teus juramentos não me interessam, nada valem para mim, que sinto e sei que ninguém abandona o ser amado na hora do perigo...
Se Leo adoecesse entre pestosos, eu só teria a preocupação de que pudesse morrer fora dos meus braços.
Portanto, deixa-me partir.
O farsante mostrou-se desesperado:
- Se te fores, rebentarei a cabeça nestas paredes; mas, (inclinando-se) não prometeste a meu pai que jamais me deixarias?
E queres, então, fazê-lo justamente quando te prometo corrigir-me?
Sim, tu o prometeste a esse pai, que me considerava o seu mais precioso tesouro o que nunca se mostrou indiferente aos meus dissabores!
Vais, assim, desmentir tua palavra quando ele, por morto, já não pode protestar?
O canalha, sempre que lhe convinha, valia-se do meu nome, do meu afecto, e desta feita atingiu completamente o alvo.
A recordação do nosso último e doloroso adeus sensibilizou o coração de Rosalinda e ela rompeu em soluços...
Farto de tanta miséria e arrependido da minha fraqueza em comprometer assim a pobre Rosalinda, esquivei-me ao cenário e, elevando-me no espaço, procurava o guia e amigo, a fim de reconfortar-me.
Não sei dizer quanto tempo assim estive, afastado da Terra, quando uma vibração etérea me advertiu que graves acontecimentos se estavam passando no castelo de Launay, onde residia Wilibald, outrora Marcos, médico de Tibério e amigo de Astartos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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