Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:30 pm

Na história de Tibério, o médico pouco aparece e, para que o leitor não pense, conhecendo a vida de Wilibald, que seu espirito tivesse regredido em vez de progredir, preciso dizer que ninguém ali havia que pudesse analisar o carácter de Marcos.
Astartos, que foi quem melhor o descreveu, com os seus sentimentos de então, era um gladiador intrépido, mas não um observador profundo; era um camponês que votava grande estima ao sábio médico.
Claro que o homem rústico, embrutecido no seu mister sangrento, não podia ter acuidade mental e subtileza de observação do conde de Rabenau desencarnado.
Aqui, devo esclarecer a psicologia de Marcos, qual era naquela encarnação.
Não era homem bom e generoso por natureza, mas antes um temperamento maleável, que lhe permitia manter-se na corte e fazer-se indispensável ao seu cruel soberano.
Amigo dos próprios que o odiavam, ele a todos obsequiava, embora pronto sempre a trair uns e outros.
Não desprezava a ninguém, de vez que todos lhe podiam ser úteis; os áulicos por seu prestigio e os traficantes por seus recursos monetários, pois não era impunemente que se mantinha na roda do selvagem Astartos, jogador e beberrão como ele mesmo.
Ainda no seu amor a Lélia era covarde, pois não tinha a coragem de defender nem de matar a mulher amada.
Não obstante, com essa maleabilidade de carácter, fazia pomadas para sarar as chagas abertas pelo chicote de Tibério e nunca a defendeu, por simples gestos ou palavras que fosse.
Salvou-se, disse eu em narrativa de Astartos, porque era benquisto e tinha muitos amigos; mas a verdade é que os adquirira justamente com essa engenhosa artificialidade, que o levara a acatar todo mundo, visando sempre pessoal proveito.
A desgraça o feriu antes que estivesse bastante elevado e garantido para mostrar o reverso do seu temperamento.
Assim era ainda o nosso Wilibald de Launay; pródigo e folgazão, tinha dissipado a fortuna e não guardava aparências de luxo, senão a custa de expedientes.
Conservando, ainda, a velha maleabilidade de carácter, fixou-se na corte ducal, onde a vida era mais fácil e tornou-se cortezão flexível, a divertir o duque com boas pilhérias, tanto quanto a duquesa e suas damas com o seu estro de rondós e discursos laudatórios.
Dotado de bela aparência, dono de magnífica voz e habilíssimo esgrimista, sabia como ninguém triunfar nos torneios com as divisas da dama de sua escolha.
Todavia, volúvel e sensual, não se fixava em parte alguma, amando por toda parte, cantando hoje uma loura e amanhã uma morena.
Nem mesmo as castelãs maduras lhe escapavam, desde que lhe oferecessem algum partido.
E nesse caso quando não lhes podia cantar a beleza, exaltava-lhes as virtudes.
Enfim, um poço sem fundo este Wilibald, e não foi à toa que se murmurava na corte a respeito dos amores de uma velha casquilha, que não quisera abrir mão do apelido de bela Leonor, que merecidamente, aliás, tivera na juventude.
Casada com um velho fidalgo, não tendo filhos, essa criatura cinquentona exibia-se em todas as festas e torneios e acabou morrendo de amores pelo belo Wilibald que, muito de indústria, soube vender caro a sua juventude.
O velho barão de Launay me havia nomeado tutor dos dois filhos e assim foi que Rosalinda, com cinco anos apenas, se recolheu ao castelo de Rabenau.
Seu irmão, posto que muito a estimasse, à sua maneira, pouco se preocupava com ela e só por vaidade o fazia - a vaidade de ter uma irmã tão bela.
De resto, amigo de Kurt e de Alberto de Rouven, sobre o qual exercia alguma ascendência.
Enquanto vivi na Terra, sempre ajudei Wilibald, que me comprazia por sua inteligência.
Com Kurt, porém, o caso era outro, porque o meu herdeiro era avaro, rapace, invulnerável.
Valendo-se dos seus talentos, Wilibald, sem se humilhar, era bem acolhido em toda parte e reconheço que, com o seu génio perdulário não procedia de outra maneira.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:30 pm

Entretanto, Kurt, que estava a coberto de quaisquer necessidades, por baixeza de carácter procurava ensejos para dobrar a espinha.
Oh! sim: rastejar perante o que lhe parecesse grande e áureo, constituía honra para ele.
Já do meu tempo na Terra, Kurt frequentava a corte e se fazia humilde cortesão.
No séquito da duquesa figurava jovem e bela viúva, de nome Cunegundes, herdeira de riquíssimo e velho fidalgo, que desejava muitíssimo vê-la casada em segundas núpcias.
Formosa e amorável, a Cunegundes sobravam adoradores.
Kurt alistou-se entre eles e conseguiu cair-lhe em graça.
Por mim, desaprovei tal casamento, convicto de que o génio caprichoso de Kurt e as paixões mal dissimuladas de Cunegundes desfechariam em pandemónio conjugal; mas, fraco como sempre para resistir aos caprichos do filho querido, anuí aos esponsais, fixando-lhes um ano de espera, para que consolidassem seus votos.
Wilibald tinha acompanhado com olhos de inveja o namoro de Kurt com a viúva e soube fazer-se amigo de ambos.
Aproveitando a dilação, aguardou o momento de uma rixa mais séria dos noivos, (coisa aliás frequente, dada a impulsividade de ambos) para falar a Cunegundes de uma tal Godeliva, misteriosamente desaparecida e que diziam casada com ele e por ele assassinada num acesso de feroz ciúme.
Ao ensejo dessa conversa, o trovador, cantando os olhos negros e os cabelos louros da viúva, foi capitulando todos os defeitos do noivo:
avareza, vaidade, brutalidade para os servos, aventuras amorosas...
Não deixava, é certo, de desculpar o amigo, mas a insinuação estaria feita.
Nesse ínterim, falecia o tio de Cunegundes, legando toda a opulenta fortuna à futura condessa de Rabenau.
A jovem viúva, porém, começava sentir-se ameaçada de perigo maior com as cenas violentas que Kurt lhe armava, e aproveitou um momento em que ele, para pirraçá-la, cortejava a princesa Úrsula, para romper o compromisso, ou melhor dito:
para trocar o noivo, irritadiço e voluntarioso, pelo trovador que se apoderou melancolicamente das divisas.
Julgando-se ao abrigo de qualquer suspeição, uma vez que a decantara antes de herdar a fortuna, Wilibald só poderia regozijar-se de ver assim espontaneamente aceito e recompensado o seu fiel e modesto amor.
Kurt voltou ao lar, desesperado e furioso, acusando todo mundo de infâmia e traição, e nada percebendo do mal-entendido que lhe restituía a sua liberdade.
Consolei-o que pude, sem falar no causador do rompimento, para não acenar com um trapo vermelho ao meu novilho berrante.
Aliás, ele depressa se consolou, recomeçando pela quarta vez a requestar Rosalinda, que possuía o dom mágico de refrigerar sempre os seus melindres ultrajados. O casamento de Wilibald foi realizado com toda a pompa e o boémio fidalgo antegozava o esbanjamento da opulenta fortuna ludibriando, naturalmente, a mulher.
A jovem baronesa, inteligente e precavida, soube resistir e anular as veleidades do estroina.
Assim, promovia festas magníficas, opíparos banquetes, com os quais Wilibald podia divertir-se e gozar à saciedade, mas o seu lema era:
nada de infidelidade, nem dissipações.
Profunda melancolia apossou-se do rapaz, e contudo, nada mais lhe restava fazer, senão conformar-se.
Assim corriam as coisas, quando me passei dessa para um mundo melhor, onde a lucidez espiritual me ensinou a desprezar mais os homens.
Assim exposto o passado, volto ao momento em que um apelo do Espaço me atraiu ao castelo de Launay.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:30 pm

Ali me encontrei no quarto redondo de uma torre, onde se me deparou a mesa guarnecida de preciosa baixela e finas iguarias.
Percebi que esperavam apenas pelo castelão, para iniciar o jantar.
À luz de duas velas esbatia-se o perfil sedutor de Cunegundes, que, vestida de branco e de cabelos soltos, ocupava rica poltrona brasonada.
Junto dela, de pé, estava um rapaz de beleza incomum:
cabelos crespos e negros, fisionomia enérgica e olhos cintilantes cravados no rosto da castelã que, por sua vez, reflectia a paixão ardente que lhe ia nalma.
Esse jovem era Guido, alquimista italiano que, a breve trecho, chegado da corte, se havia instalado no castelo de Launay.
Nesse momento, Guido tirou da bolsa um frasquinho e, examinando-lhe o conteúdo à luz da vela, disse:
- Veja, senhora; algumas gotas no vinho é quanto basta para ficar livre.
Convença-se de que deverá agir, pois do contrário, quem se vai sou eu.
Amo-a, louco, perdidamente, é certo: mas, o meu temperamento italiano não tolera partilhas.
A verdade é que, cansado de peregrinar ao léu da sorte, o maroto queria implantar-se ali, tudo abocanhar e dominar, como senhor, antes que amante apenas tolerado...
Enquanto assim lhe punham a vida em jogo, Wilibald fulo de raiva, escondia no gibão aguçado punhal italiano.
Ia jantar com a esposa e tencionava, à sobremesa, liquidar o imprudente aventureiro.
E esperava consegui-lo, crente de haver bem dissimulado a sua boa-fé, como quem tudo ignorava até o momento.
Ao vê-lo galgar as escadas que contornavam a torre, ninguém diria ser aquele mesmo trovador alegre e sorridente da corte ducal.
A ideia de que o vil alquimista nadava em ouro, ferventava-lhe os miolos.
Atrás dele seguiam dois pajens com duas cestas de flores; mas, no fundo de uma delas, via-se oculto um rolo de cordas, para amarrar o alquimista, caso não sucumbisse ao primeiro golpe; e na outra, um chicote, para dar juízo à ingrata Cunegundes.
Os atores terrenos da tragédia que se ia desenrolar, engendrada por suas paixões, não podiam ver o fluido negro que começava a acumular-se em torno deles, bem como a maleficente alegria dos seus inimigos, que procuravam excitar-lhes mais ainda essas mesmas paixões.
Preparei-me então para assistir aos acontecimentos.
Cunegundes agradeceu ao marido as flores, dando-lhe uma palmadinha na face, com trejeitos de faceirice.
Procurando esboçar um sorriso, Wilibald assentou-se, saudando polidamente o alquimista, que ergueu a taça, dizendo:
- "À sua saúde, Barão!" - ao mesmo tempo que a baronesa enchia e passava ao marido outra taça.
O barão, despreocupado, ou antes, preocupado com o seu plano, esvaziou a taça de um trago; depois, despediram os pajens e logo o italiano apressou-se em fechar a porta por dentro.
Wilibald, ocupado no momento em trincar uma caça, levantou a cabeça, admirado.
Como! estais louco - disse, levantando-se e dando alguns passos para a porta.
Súbito, porém, deu um grito e comprimiu o peito com as mãos...
Era o veneno letal...
Num instante, o belo rosto desfigurado se cobriu de manchas roxas, sangrenta espuma lhe aflorou dos lábios e, contorcendo-se em dores que lhe rasgavam as vísceras, tombou agarrado à mesa, que cedeu com estrépito.
Cunegundes, assustada, esgueirou-se para um canto mais escuro, enquanto o marido se rebolava no assoalho, vociferando blasfémias.
De repente, porém, reanimou-se com os fluidos renovadores de um Espirito tenebroso, levantou-se de um salto e, agarrando o alquimista que lhe dava as costas procurando encorajar a dama, levantou-o com sobre-humana força e o projectou pela janela afora.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:31 pm

Um grito espantoso e logo o baque do corpo, caindo no tanque encostado à torre, anunciaram o fim do italiano.
Cunegundes desmaiara e Wilibald se agarrou ao peitoril da janela, rasgando as vestes e careteando as derradeiras convulsões.
Fortes descargas eléctricas me anunciaram o corte rápido dos fios carnais, plenos de energia vital, que estalavam doloridamente.
L. Compadecido, aproximei-me e projectei um fluido acre, que tonteou o Espírito, e cortei a artéria principal.
Aturdido, vacilante, o espírito de Wilibald surgiu entre nós, ressentindo os efeitos da desencarnação violenta.
- Vês? - disse-lhe eu, apontando o corpo desfigurado, a traição jamais enseja a felicidade; invejando a sorte de Kurt, arrebataste-lhe essa mulher; por amor ao dinheiro, a ela te vendeste, e agora colhes o fruto que plantaste.
Convence-te, então, de uma vez para sempre, que enquanto não te deixares levar pelo tipo ideal da mulher, hás-de perecer assim miseravelmente, sempre.
Consideramos ainda:
tua existência era inútil, passaste vinte e seis anos a esbanjar dinheiro, traindo e gozando; e mesquinhos quais tua vida, eram todos os teus planos.
Voltas, agora, à Pátria espiritual, tal como daqui partiste; não combateste em favor de qualquer bastarda...
Espírito indolente, não chegaste, sequer, a experimentar uma dessas erupções vulcânicas, que norteiam o pensamento para o bem ou para o mal e que, ainda assim, sempre representam um trabalho moral.
Eu me sentia com autoridade para falar desse modo, porque, não obstante minhas faltas, era superior a Willbald.
Nesse instante, apareceu um grande Espírito, melancolicamente velado e me apressei a interrogar qual o destino do recém-desencarnado.
- Errar no plano espiritual, solitário e inactivo - foi a resposta.
Nuvens paradas repontaram do espaço e arrebataram o Espírito de Wilibald num turbilhão semelhante à existência humana que tivera.
Por vezes, o mosteiro me atraía.
O que lá se me deparava era inactividade!
Faltava a mão que accionava a roda.
Os conselheiros que ajudavam os "Irmãos Vingadores" estavam desanimados, uns abandonando seus planos, outros entregues a impotente desespero.
Algumas vezes, atraindo o fio vital de algum médium, tornava-me visível nos corredores sombrios e gozava o louco terror dos monges.
Meu sucessor gozava tranquilamente as honras do cargo; a ambição o induzira a colocar nos ombros um fardo próprio para gigantes, mas logo se descarregou dele, pois faltava-lhe espírito de abnegação para servir à causa.
Deixava-se absorver na leitura de livros cujo preço apreciava, mas temia espalhar as luzes assim captadas, entre os seus subordinados.
Deleitava-se, em suma, com essa vida preguiçosa do corpo e do espírito, que eu jamais pudera suportar.
Dinâmico e febril por natureza, desesperava-me ao ver que Benedito, em vez de cogitar dos interesses da comunidade, passava horas e horas debruçado sobre um missal, a pintar figuras desgraciosas, de pequenez irritante e de acabamentos que exigiam semanas para bordar apenas o manto de um rei mago ou de um santo mártir!
Impaciente e inconformado, tratava então de fugir daquele sítio, onde já não podia comandar.
Regressei ao castelo de Rabenau, onde acabava de chegar um mensageiro ofegante, levando a notícia da morte de Wilibald.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 7:31 pm

Kurt lá não estava e Rosalinda profundamente compungida com a morte do único irmão, logo partiu para Launay, a fim de, com lágrimas sinceras, acompanhar o féretro á abadia dos Beneditinos, onde deveria ficar sepultado.
Ali, acabrunhado, vi que se preparava grande atentado contra ela, e em vão lhe gritava que não passasse a noite na igreja.
Os ouvidos dos encarnados são moucos e eles comumente encaram como fruto de ignorância, ou fraqueza de imaginação, as advertências e conselhos que lhes sugerimos.
O miserável Mauffen amava instintivamente essa mesma Rosalinda, outrora Lélia, da qual me havia mostrado, em tempos idos, um punhado de cinzas, temendo que ela pudesse ressuscitar.
E aquilo que Tibério tinha temido, Mauffen agasalhava no coração, isto é:
- uma paixão tenaz e insatisfeita.
Vi quando ele, Mauffen, deslisou para a igreja com o seu hábito negro.
Vi-o com aquele rosto pálido, de traços bem acentuados, só lhe faltando a toga para identificar o famoso imperador romano.
Ele a apresou de assalto... e eu emiti milhares de fios eléctricos, procurando os tímpanos auditivos de Sanctus e de Benedito.
Percebi que se sobressaltaram e dispararam pelo corredor, até a cela de Mauffen, para compreender o que lá ocorria.
Nesse entretempo, Rosalinda se defendia corajosamente contra o dementado monge, cuja raiva não tinha limites.
Depois, a porta cedeu e Rosalinda se julgou salva; mas eu tremia dolorosamente em meu perispírito, vendo Mauffen apanhar o punhal que ela deixara cair.
Em vão meus amigos deste lado se precipitaram.
O que só puderam conseguir foi desviar o golpe que, doutro modo, seria mortal.
Sob o jacto de fluido dissolvente, a ponta da arma se fundiu, resvalou e feriu abaixo do ponto visado.
Não tardou que meus nervos fluídicos me advertissem do próximo fim do filho que tão caro me fora.
Oh! - pensei comigo mesmo - se ele de facto conservar no coração um resquício de afeição a Rosalinda, não deixará de o revelar agora, no temor de perdê-la.
Mas... decepção cruel! - Kurt chegou e nenhuma vibração de amor, de pesar, nem mesmo de terror, lhe jorrou do coração vazio, que somente se contraiu de enfado à vista de uma ferida!
E, já temeroso de presenciar uma agonia, imaginou de pronto como deixasse a outrem o encargo de assistir à moribunda e, mediante simulado delíquio, (resultado de fadiga ou desespero) eximir-se ao quadro desagradável.
Não teve tempo, contudo, para executar esse projecto, pois Bernardo lhe participou que o ferimento não era mortal, e então decidiu-se a lançar os olhos ao semblante da esposa desmaiada.
Os olhos de Rosalinda permaneciam cerrados e os cílios negros projectavam uma sombra em suas feições mimosas.
Fora preciso o encanto invulgar de Rosalinda e a forte dose de sensualismo de Kurt, para que esses dois factores reunidos lhe dominassem o enfado.
Assim, acercou-se da vítima e cobriu-a com o manto.
E para mostrar a Mauffen os seus direitos, carregou acintosamente a mulher disputada.
Rosalinda foi conduzida ao convento das Ursulinas e lá os Espíritos curadores lhe rodearam o leito com uma camada de fluidos azulados e transparentes, que o organismo extenuado e ávido de forças renovadoras logo absorvia.
Para eximir-se aos cuidados e incómodos que o estado da esposa requeria, Kurt pretextou negócios importantes e urgentes, deixando-a entregue às freiras ursulinas e duas servas vindas do castelo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:18 pm

Isto posto, desbordou-se em aventuras:
amou uma viúva catorze dias; dedicou-se depois, uma semana, a jovem aldeã; e outra ainda, a uma estalajadeira de obscuro albergue.
Depois, passou quinze dias na corte ducal a reencetar seus velhos amores.
Finalmente, de tudo entendido e desejoso de subtrair-se aos desgostos que perfidamente suscitara, fez-se marido terno e leal para retomar a esposa convalescente.
Assim, após três meses de ausência forçada, Rosalinda gravemente ofendida aproveitou a ausência do marido, que empreendera uma caçada, e resolveu retirar-se para o seu castelo de Loevenberg.
O padre Lucas ficou incumbido de lhe dizer, da sua parte que, uma vez tão bem disposto com o ensejo de sua enfermidade, poderia assim prosseguir dali por diante.
O tresloucado Kurt não podia deixar de exasperar-se furiosamente, de vez que estava, então, num dos seus períodos de exaltação amorosa pela esposa.
Rosalinda era-lhe indispensável.
Procurou-a, não foi recebido.
De regresso, encontrou na floresta um carvoeiro, nem mais nem menos que o malogrado noivo da pobre Gertrudes, que, vendo sozinho o homem que lhe destruíra a felicidade, atirou-se a ele e o esfaqueou, deixando-o caído na estrada.
O golpe, porém, não foi mortal.
A hora de Kurt não havia chegado e ele imaginou logo que o incidente lhe poderia ser útil.
Divulgou desde logo o atentado, para demonstrar a Rosalinda que a causa da sua repulsa não vingaria melhores resultados, antes pelo contrário!
Uma vez que o atentado ocorrera justo ao regressar de Loevenberg, onde ela recusara recebê-lo; e ainda porque do feito não houvesse testemunhas, faria constar que o desespero o teria levado a suicidar-se, e quem sabe, assim alcançaria o arrependimento, a reconciliação e assistência da esposa melindrosa.
Assim pensando, apeou do animal, enxotou-o e estendeu-se no solo.
Camponeses de passagem, ao verem um fidalgo exânime, com um punhal sangrento na mão, puseram-se a gritar e logo reconhecendo o senhor Rabenau, improvisaram uma padiola e trataram de comunicar ao padre Lucas, que, presto acorreu surpreendido.
Kurt fingiu-se desacordado; mas quando o padre lhe pensava o ferimento, abriu os olhos e murmurou baixinho que ninguém procurasse um malfeitor, pois só a repulsa de Rosalinda lhe determinara aquele acto desesperado.
À vista disso, padre Lucas desistiu de quaisquer devassas a respeito, tratando logo de conduzir ao castelo o nobre ferido, que continuava fingindo atrozes padecimentos e não falava senão da mulher.
O capelão enviou a esta um mensageiro e, tal como Kurt imaginara, Rosalinda acorreu consternada para junto do pretenso moribundo.
Com voz desfalecente, o falso "suicida" engrolava palavras de arrependimento e Rosalinda, assaz comovida, prometeu não mais o abandonar e de facto velou à sua cabeceira noite e dia, até que de todo se restabelecesse.
A convalescença, já se vê, foi demorada e trabalhosa para quantos o assistiam, tendo em conta seus caprichos e impertinências.
Sobressaltado e inconformado com o menor sintoma ou sensação dolorosa, impressionava-se com a morte e chegou a comungar duas ou três vezes.
Dia a dia, tornava-se mais insuportável, exercendo sua maldade principalmente com Rosalinda, a quem exprobrava tê-lo abandonado, levando-o ao extremo desespero.
Sem embargo, não se eximia de perseguir qualquer rapariga bonita que aparecesse no castelo.
Um dia em que Rosalinda, mais que nunca revoltada, tentava despedir uma empregada por ele seduzida, resolveu ir até ao castelo de Loevenberg.
Ao passar perto do casebre onde morava a infeliz Gertrudes, esta lançou-se-lhe aos pés e confessou que o noivo, reconciliado com ela, se havia ali homiziado, depois que atentara contra a vida do conde.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:18 pm

Ajoelhada a seus pés, suplicou protecção e auxilio para se ausentarem do país, visto que seu pai já não existia.
Rosalinda aquiesceu e prometeu, penalizada, socorrer o desditoso par, regressando indignada ao castelo e disposta a desmascarar o audacioso hipócrita, que ainda uma vez tripudiara da sua boa-fé.
Kurt se preparava para jantar quando ela entrou na sala, de rosto esfogueado e olhos coruscantes.
- Que se passou contigo para te mostrares tão exaltada - perguntou comovido - por isso que a coloração daquelas faces o faziam perder de súbito a impressão de indiferentismo que a esposa lhe infundia, desde que ele se restabelecera e ela esmaecera afadigada.
- O que há é que és um mentiroso desprezível, com essa história de suicídio.
Mas, logo se deteve em presença dos criados, e Kurt furioso exclamou:
"Fora daqui, todos..."
A sala esvaziou-se como por encanto, ficando apenas o padre Lucas.
- Estúpida que sou em acreditar em ti!
E tu, hipócrita refalsado, ainda por cima me arguis de insensível!
Então não foi o noivo da mal-aventurada Gertrudes quem te feriu?
- Consente que diga - objectou ele com doçura e dignidade - que não é justo procurar motivos para caluniar teu marido; as aparências atestam contra mim; mas crê, só a falta de tua confiança me impediu de revelar toda a verdade, desde logo.
Padre Lucas, meu confessor, ali está para confirmar que sempre me julguei em falta e arrependimento, com relação a Gertrudes.
Padre Lucas inclinou-se num gesto confirmativo.
- Pois bem - prosseguiu - quando o noivo da pobre rapariga me feriu, desisti de mandar enforcá-lo, como de direito me competia, e chamei a mim toda a responsabilidade do crime, não só no intuito de salvar a vida do criminoso.
De resto, (aprumou-se altaneiro) sou bastante religioso para não tentar jamais contra a própria vida.
Entretanto, crente de que ia morrer, era natural quisesse rever minha esposa.
Rosalinda tudo ouvia embasbacada, acabando por dizer:
- Foi assim? Verdade que foi por isso que me iludiste?
- Oh! que motivo outro poderia existir?
Eu quis apenas resgatar com os meus sofrimentos o mal que fiz à pobre Gertrudes.
E dizendo-o, acercava-se de Rosalinda, tomava e lhe beijava a mão.
- Meu inquebrantável amor por ti, é pois tão ofensivo?
Pois olha: eu não me esqueço que és o legado mais precioso daquele pai querido, e o só desejo de resgatar um erro é que constitui meu crime.
Em todo este episódio Rosalinda, que não podia suspeitar de tanta hipocrisia, reconciliou-se com o marido e o jantar tão mal começado, acabou em paz.
Logo em seguida, Kurt mandou chamar Thisbo, servo de sua predilecção e inteira confiança, aliás perverso e truculento, cometendo-lhe a incumbência de prender o carvoeiro e conduzir Gertrudes a um castelo distante, isso depois de enforcar o noivo diante dela, por lhe tirar, assim, toda a vontade de viver.
Essas ordens foram cumpridas à risca e, por algumas semanas, o desalmado Kurt assediou de tal arte a esposa, que ela não pôde enviar a Gertrudes o prometido socorro, para que se exilasse com o desgraçado noivo.
Um dia, porém, enquanto o conde buscava o palácio ducal, Rosalinda teve notícia da terrível tragédia e se arrependeu amargamente de haver, no auge da sua cólera, traído o segredo do infeliz casal, antes de lhe ter provido a segurança.
Indignada, desesperada, recolheu-se ao oratório e a ideia de estar ligada a um homem tão infame, por pouco a enlouquecia.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:19 pm

Rosalinda fora minha discípula, muitas vezes conversáramos, horas e horas, sobre assuntos desconhecidos das mulheres daquele tempo.
Seu intelecto desenvolvido, agudo, exaltava-lhe ainda mais a sensibilidade, com relação aos ultrajes do marido.
No curso de sua perturbação moral, naquele momento, vi aproximar-se um mau Espírito; mas, não obstante desejar afastá-lo, nada consegui, sentindo-me até esgotado pelos próprios fluidos pesados que me envolviam.
- Desembaraça-te dele - sussurrava-lhe o espírito maléfico - é um réptil venenoso, funesto a quantos se lhe aproximam.
Considera, que liberta do seu jugo ominoso, muito benefício poderás fazer.
Não estás farta de saber que ele te não ama?
Olha que se não o liquidares, acabarás liquidada, senão a ferro ou veneno, a golpes de amargura.
Vê como estás desfigurada:
teu rosto é de cera, olheiras violáceas, lábios secos e retraídos, e o sangue te escalda os miolos a cada instante...
Tais as insinuações do malévolo espírito, que se entrechocavam na mente exaltada e vacilante da pobre Rosalinda.
- Desde que me casei com ele - monologava ela consigo - não mais tive sossego, subordinada aos seus caprichos extravagantes.
Sem filhos, dentro de poucos anos minha beleza se fanará e o miserável não trepidará em repudiar-me, vergonhosamente.
Esta hipótese fê-la estremecer e começou a suar em abundância.
- Pois que morra ele, então, e saberei resgatar o crime odioso com a salvação de mais alguns inocentes.
Kurt deveria regressar depois do jantar.
Febril, nervosa, Rosalinda ordenou que lhe servissem no quarto a refeição da noite.
Vestiu-se de branco e, trémula, abriu uma caixinha (comprada a um alquimista italiano que se hospedara, havia pouco, no castelo) dela retirando pequeno frasco contendo esverdeado líquido que, sem maior sofrimento e sem deixar vestígio - dizia-se - tinha efeito fulminante.
Sôfrega, deteve-se em frente da janela aberta, em cujo peitoril alguns pombos debicavam quaisquer migalhas.
Queria experimentar o tóxico; mas, era evidente que não se animava a sacrificar os inocentes e graciosos bichinhos.
Afastou-se, ao ver que começavam a pôr a mesa do jantar e assistiu a esse trabalho como se estivessem armando um cadafalso.
Experimentou, assim, as angústias que soem preceder à realização de um crime.
Em seguida, despachou os criados e, certa de que ninguém poderia observá-la, derramou o veneno da taça de ouro do castelão, taça que, pela profundeza e espessura, mal deixaria transparecer o conteúdo.
E, como se já houvesse perpetrado o crime, deixou-se cair numa cadeira, exausta de forças.
Debalde me esforçava eu em segredar-lhe:
- Deixa-o: ele encontrará quem o castigue; lembra-te de que é o filho de Lotário que vais aniquilar.
Em sua cólera e orgulho ofendido, ela como que me respondia:
- Não, já não posso tolerar esta convivência, esta união, este suplício; é preciso destruir essa criatura nefasta, a benefício meu e de muita gente.
O ruído da ponte levadiça levou-a à janela e, procurando acalmar-se, assumiu atitude displicente, atirando migalhas aos pombos.
Kurt não tardou a surgir no pátio, a cavalo, sobraçando um falcão e seguido de alguns escudeiros.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:19 pm

Enquanto ele subia a escada, tinha ela a impressão de que o cérebro se lhe rompia.
- Ah! - exclamou ele entrando - mandaste servir aqui o jantar?
E após ligeiro saudar, deixou-se cair numa cadeira, displicente e fatigado, esticando as pernas.
Febril agitação me abalou o perispírito, ao considerar que Rosalinda ia macular-se com um crime odioso.
Do coração me brotou ardente súplica a meu guia espiritual, que logo surgiu, pacífico e luminoso.
Ele tudo sabia e, com o seu fluido auri azulado tocou o coração e a mente da atribulada criatura que eu, com os meus fluidos pesados, não conseguia atingir.
Nesse momento preciso, Kurt encheu de vinho a taça e levou-a aos lábios...
O guia sugeriu então:
"Todo crime é condenável, pois lá está no Evangelho, que o sangue derramado recai sobre aquele que o derrama.
E Rosalinda logo considerou, em si mesma, que devia emendar a mão.
De um salto, terrificada, bateu no braço do marido e o choque inesperado derrubou a taça, entornando-se o conteúdo letal.
Eu me senti como que aliviado de um peso enorme e o protector afastou-se de súbito.
Kurt, estupefacto, olhava alternativamente para a taça e para a esposa, petrificada diante dele e pálida como um cadáver.
Aquele rosto desfigurado lhe fez presumir, em parte, a verdade.
Lívido, lábios trémulos, inclinou-se, tomou a mão da esposa e perguntou:
- Que é isto? por que não me deixaste beber?
- Porque a tua indignidade não vale o sacrifício de um atentado, que haveria de macular minhas mãos e minha alma.
Ele rojou-se-lhe aos pés e balbuciou com voz insegura:
- Querias envenenar-me?
Não, não creio ...
Não é possível ...
Mas, afinal, por quê?
Na sua vaidade, ele não podia conceber semelhante atentado à sua valiosa pessoa, e muito menos que pudesse exasperar uma mulher a ponto de lhe transformar em ódio o afecto, para culminar no crime.
- Pois é verdade - prosseguiu Rosalinda - desejava desembaraçar-me de ti, porque és um perjuro, sem fé nem lei.
Para ti não há dignidade, honra, amor, fidelidade, moral enfim.
Sempre que falas é para atraiçoar e mentir.
Fazes de mim joguete dos teus caprichos e já não posso tolerar tanta maldade e aleivosia.
Diz-me: que fizeste do carvoeiro?
Felão, não vês que, conspurcas o nome de teu pai?
Ao derramar veneno, hoje, no teu copo, travei com a consciência a luta maior da minha vida, experimentando todas as angústias infernais.
Agora que tudo sabes, deixa-me partir, visto que as tuas infidelidades e maluquices me exasperaram a ponto de ameaçar-te a existência.
Desta vez, meu anjo da guarda pode evitar o crime; mas, quem poderá garantir a repetição desse amparo da Providência?
Assim falando, deixou-se abater numa cadeira e cobriu o rosto com as mãos.
Kurt tudo ouviu acabrunhado.
Ela soubera de tudo e procedera no auge da desesperação e ao demais, não chegara a consumar o crime; logo - considerava - não lhe era ele de todo indiferente e quereria fugir-lhe mais, talvez para se não deixar vencer pelo ciúme.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:19 pm

O coração lhe inchou de vaidade e deitou à esposa ferida e indignada um olhar de satisfação íntima.
E como lhe pareceu bela, com aquele vestido branco de mangas abertas, que deixava entrever os braços roliços e bem torneados!
O semblante, o colo alto, os cabelos negros, tudo nela despertava um novo encanto e até a maneira pela qual quisera eliminá-lo, exaltava-lhe o sistema nervoso esgotado.
Lançou-se-lhe então aos pés, procurou destapar-lhe o rosto:
- Rosalinda, doce amada, perdoa-me...
Aqui me tens a teus pés e crê que te agradeço o me haveres poupado a vida, para que possa emendar-me e reparar minhas faltas.
Nunca, como neste momento, pude avaliar a extensão de minhas culpas; mas, ainda uma vez - a última vez - te suplico, perdoa teu marido.
E chorava! sim, chorava não de arrependimento, mas do choque nervoso que a iminência do perigo lhe causara...
- Deixe-me - respondeu Rosalinda, repelindo-o - eu nada quero de ti senão ausência definitiva; recuso protestos de falso amor, mentirosas promessas de regeneração.
Deixarei esta casa, ninguém me poderá deter.
Quanto a ti, fica-te à vontade e bom proveito possas colher dos teus deboches e traições.
A mim é que me não apraz aqui viver, traída e humilhada.
Levantou-se tentando fugir-lhe.
Vendo-a assim esquiva e resoluta, ele exclamou:
- Não crês no meu amor e quiseste matar-me...
Pois bem: se me não perdoares, atiro-me desta janela ao pátio.
De um salto, galgou o peitoril, contando com a comoção da esposa.
Esta, incapaz de calcular a farsa, deu um grito e estendeu os braços para detê-lo.
Mas a verdade é que o farsante, só por dar mais colorido à cena, alçou uma perna e tomando atitudes, gritou:
- Queres que te tragam meu corpo espedaçado?
- Ficarei - disse ela com voz soturna, apoiando-se no espaldar da cadeira.
Kurt desceu da janela, abraçou-a e beijou-a, mesmo desmaiada.
Duas horas depois, um escudeiro cuja montaria arquejava e espumava de cansaço, parou defronte do portão do Mosteiro e pediu os socorros do irmão Bernardo para a nobre castelã.
Kurt, mais cabeçudo e intratável que de costume, estava assentado no seu oratório e a todo instante pedia noticias da enferma.
Bernardo lhe declarou que o estado era melindroso e ele compreendeu que, dessa feita, se excedera na partida.
Com que mágoa me acerquei do leito de Rosalinda, não saberia dizê-lo, senão que utilizava todos os recursos ao meu alcance para aliviá-la, de vez que sabia, intuitivamente, não ser chegada a sua hora.
Kurt ia vê-la uma que outra vez; era evidente que seu amor arrefecia, pois como já tive ocasião de dizer, ele abominava incoercivelmente toda criatura doente.
Ao demais, tinha reflectido muito e acabou revoltando-se com a ideia de que a esposa o julgara tal como ele era e tinha tramado a sua perda.
Também a ele lhe aprazia desembaraçar-se de quantos o conheciam a fundo.
Bernardo havia exigido os maiores cuidados com a enferma, inclusive absoluto repouso.
Kurt valeu-se desta circunstância para acobertar seu natural indiferentismo e passar todo o tempo em confabulações com o malicioso Tuísco, dilecto confidente dos seus dissabores.
Tuísco não vacilou em aconselhar o divórcio e ele, para matar o tempo, recomeçou a frequentar a corte, ali passando semanas inteiras a cortejar a princesa Úrsula, cujo casamento havia gorado mais de uma vez, e que esperava a morte de Rosalinda para fazer-se condessa de Rabenau.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:19 pm

Por fim, Rosalinda se restabeleceu; mas, enfraquecida de corpo e alma, não alimentava qualquer ilusão sobre o marido, sempre ausente.
Um dia, ele se apresentou, procurando fazer-se jovial; mas um simples reparo nos olhos frios, bastava para lhe desmascarar toda a hipocrisia.
- Querida Rosalinda - disse, assentando-se - ainda não voltamos a falar dos factos que precederam tua grave enfermidade.
Eu nunca poderia supor que uma leviandade da minha parte pudesse levar-te ao extremo de atentar contra minha vida, embora já estivesses, ao que suponho, sob a influência dessa febre que poderia ter-te levado à loucura.
Deves, portanto, compreender que, apesar da amizade sincera que te dedico, não posso concordar que a estirpe dos Rabenaus se extinga com a minha pessoa, ou que venha a ter um rebento sujeito a perturbações cerebrais, o que por aí se chama de loucura ou possessão demoníaca; tanto mais quanto não nos unimos por livre escolha dos nossos corações e sim obedecendo a meu pai, que na cegueira do seu amor por nós ambos, resolveu, a todo custo, nos unir.
Certo, não te esqueceste que foi por veneração à sua memória que me concedeste à mão de esposa e que o teu desespero em perdê-lo foi tão notório que me colocou em situação de marido ridículo.
Se eu tivesse podido adivinhar que ele corria ao encontro da morte, ter-lhe-ia suplicado, de joelhos, que te esposasse.
Rosalinda, indignada tentou interrompê-lo, mas ele confirmou cínico e imperturbável:
- Tu não me amas, tu planejaste deixar-me; portanto, tenho resolvido irmos a Roma e lá obter do Santo Padre o nosso divórcio.
Como não temos filhos, tudo se arranjará facilmente e ambos ficaremos legalmente livres, visto que uma simples divisão dos nossos domínios me faria sentir demasiado as cadeias de uma separação incompleta e eu desejo um segundo matrimónio para legar ao mundo um herdeiro do meu nome.
Ao terminar esta perlenga, Kurt ostentava no semblante toda a brutalidade da sua alma; e seus olhos azuis cintilavam, contrastando com a palidez mortal da esposa convalescente.
Não sei como descrever o que comigo se passava, como espectador forçado e mudo, diante de tanta infâmia.
Meu perispírito vibrava de cólera impotente, tinha ímpetos de asfixiar o desbriado farsante com os fluidos negros que me jorravam do coração.
Cego de raiva, sacudia, tentando desprendê-los, os fluidos luminosos e no momento embaciados, que me ligavam ao execrável vilão, esquecendo-me de que, com aqueles abalos violentos, arriscava a vida do próprio médium, de cuja artéria vital concomitantemente me servia.
Por fim, ainda pude ouvir Rosalinda dizer:
- "Pois vamos a Roma quanto antes".
Depois atirei-me para frente, mas a violência com que sacudia o filamento do coração, sem atender senão à raiva que me empolgava, excessiva, notei, ou antes, pressenti que Rosalinda, levando as mãos ao peito havia desfalecido.
Nesse instante, luminoso clarão jorrou a meu lado e me paralisou de chofre todas as fibras.
- Não te envergonhas - disse meu Guia - de te entregares, como Espirito, a uma cólera tão insensata, cujas consequências se reflectem dolorosamente no médium?
Eu estava aturdido, fora de mim, incapaz de reflectir.
- Tem paciência, meu amigo, - continuou o Guia, saturando-me de azulado fluido refrigerante - ele poderá esquivar-se à justiça humana, refugiar-se na impunidade que a posição social lhe assegura, salvar-se pela traição e pela mentira; mas, tu bem sabes que, uma vez despojada do corpo, essa alma recairá inevitavelmente sob a justiça divina, severa e inelutável.
E terás, então, o prazer de, como tantas vezes já o fizeste, tocado por seus rogos e lamentações, lhe ofereceres o escudo do teu amor.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:19 pm

Acalma-te, pois, e não te deixes arrastar a ponto de fazeres sofrer um inocente, de vez que nos médiuns, bem o sabes, repercutem todas as nossas comoções espirituais.
Essa exortação logo me acalmou e projectei sobre Rosalinda benéfico fluido, que transformou sua angústia em sono profundo, reparador.
Kurt não se movera para socorrê-la.
Limitou-se a lançar-lhe um vago olhar e chamar as criadas.
- Há-de chegar, - pensava eu, observando-o - a hora do teu ajuste de contas.
E procurei manter-me tranquilo, para não molestar o médium.
Afastei-me, em seguida, absorto em minhas cogitações.
Sim, o Guia tinha razão:
não havia motivo para encolerizar-me, uma vez que ninguém podia escapar à justiça divina.
A couraça da carne, que resguarda a insolência de nossos inimigos, quebra-se com a morte e o perispírito desguarnecido não tem como nem por onde fugir, importando-lhe prestar contas de seus actos e pensamentos.
Ah! se os vivos, (falo em tese) quisessem compreender que ninguém pode eximir-se às leis imanentes; que os falsos pensamentos e vilanias ocultos sob a máscara da carne serão a seu tempo descobertos...
Sede, pois, leais entre vós, amigos encarnados e desencarnados, mesmo não vos entrevendo, visto que, onde semeardes afectos, aí também os colhereis.
Eis porque permaneci no castelo de Rabenau e não visitei, senão de longe em longe, o convento dos Beneditinos, onde não tinha semeado afeições.
É verdade que ajudara os irmãos vingadores; mas com isso fizera mais mal que bem.
As vítimas estavam no meu encalço, pelo auxílio que prestei à causa daqueles irmãos, e no dia do julgamento haveriam de apontar-me, dizendo que tinha entretido a chama do ódio.
Eu teria podido vingar-me de Benedito, que me arrebatou o posto e me levou ao suicídio.
Contudo, recusei fazê-lo e de mim para mim repetia - um dia nos encontraremos todos aqui, a fim de prestar nossas contas.
Isso, no intuito de acalmar o sangue fluídico que borbulhava em meu cérebro transparente, sede que é da alma, ténue partícula que é, da invisível Divindade que governa o Universo.
Fatigado e desencantado dessa pesada existência espiritual, desejaria reencarnar para exercer novas tarefas, mas, ai de mim - era preciso esperar.
O tempo não se apressa, nestes domínios, onde compreendemos a eternidade.
Por mim, apenas sabia que a morte de Rosalinda estava próxima e precederia de muito a do pérfido e ingrato Kurt.
"Hás de os receber a todos" - havia dito meu Guia, - e a luta do teu ódio e do teu perdão, enquanto durar a separação dessas criaturas, será devidamente avaliada. Sombrio futuro, portanto.
Qual de nós desconhece (somente o encargo esquece) aquele momento em que o espírito treme de impaciência junto do inimigo moribundo, espreitando o instante de sua reentrada no Espaço, onde não mais lhe poderá fugir?
Sim, daqui os vigiamos, cortamos-lhes as teias que os encobrem à nossa vista e os resguardam, em parte, das vibrações do nosso ódio, para, finalmente, os enfrentar e inundar de fluidos acres, voraginosos, ligando-os não com fibras da terra, mas por laços indestrutíveis e incoercíveis, que jungem o culpado à vítima para gozar com a sua vergonha, com o seu pavor, todos os seus suplícios enfim.
Oh! esses momentos que o criminoso experimenta, dir-se-ia constituírem um outro inferno, bem mais vivo e menos banal que o apregoado pelos padres.
E de mim se exigia que me privasse de semelhantes momentos; que, ao invés de cevar meu ódio, procurasse perdoar os inimigos e lhes aliviar os sofrimentos.
A tarefa se me afigurava quase impossível, dado o desencadeamento de minhas paixões.
Não obstante, submeti-me e procurei haurir forças mediante ardente súplica.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:20 pm

Um dia, errando no espaço, sem destino, tive o cérebro tocado por uns fluidos azulados e, nessa espécie de floco que oscilava diante de mim, reconheci algo do fiel Bernardo.
E, contudo, certifiquei-me de que não era ele, mas, apenas uma irradiação do seu pensamento, suficientemente forte para identificá-lo.
"E, chegada minha hora - diziam aquelas vibrações luminosas - tão certo é que o pensamento invisível para vós outros, atravessando a puríssima atmosfera do plano espiritual, tonaliza a voz, ressoa em nosso ouvido fluídico, tal como se dá no mundo físico.
Essas vibrações poderosas me envolviam e atraíam para o mosteiro, e logo me encontrei no subterrâneo, a caminho do laboratório, onde se reflectiam as imagens fluídicas dos meus pensamentos humanos.
Lá havia trabalhado e procurado resolver o enigma do além-túmulo, que agora conhecia em parte.
Digo em parte, porque apenas erguia uma pontinha do véu que cobria o mundo da perfeição, no qual não podia penetrar, tolhido pelas paixões que me assomavam e confinavam na atmosfera de um planeta inferior.
Todavia, já não ignorava muita coisa geralmente desconhecida dos habitantes desse planeta inferior.
Na grande poltrona colada à mesa de trabalho habitual, deparou-se-me assentado o grande, o infatigável sábio, mergulhado em profunda letargia.
Tinha, evidentemente, chegado ao termo da vida.
Exaustivo trabalho superior às forças e o ambiente viciado de exalações tóxicas que o cercava, acabaram por esgotar-lhe o fluido vital, que sói retemperar o organismo.
Do corpo ressequido escoava-se um fluido acre e penetrante, em crepitações de braseiro.
Esse fluido dava à epiderme, no local atingido, a tonalidade amarela, típica da morte.
O corpo espiritual se desprendia poro a poro, quebrando o cordão luminoso que o prendia à matéria, e subia para o cérebro à proporção que se adensava.
Duas grandes artérias luminosas ainda funcionavam, posto que fracamente - a do coração e a do cérebro.
Não obstante conturbado e embaraçado, o pensamento do moribundo percebia a transformação em curso e ele acabou por inquietar-se, apelando para os seus amigos, convicto, mais do que nunca, da sobrevivência da alma.
Rodeamo-lo, tratamos de cortar célere os laços terrenos e não ficou mais que um filete do cérebro e do coração.
- Mestre! vem... - murmurou.
De pronto, cortei a artéria cerebral; houve um como aturdimento do espírito, mas o sofrimento cessou.
Chegava, então, o momento em que alcançava a verdadeira perturbação, que alivia o último e mais doloroso transe:
o seccionamento da artéria cordial.(1)
Percebendo que a perturbação ia empolgando o querido Bernardo e que o perispírito se desprendia e começava a reconstruir-se inconscientemente, no espaço, com a rapidez do pensamento, elevamos as vistas para a região em que pairava o Protector do nosso grupo, porquanto só Ele tinha autoridade para cortar o último elo perispiritual.
De facto, só os Guias dispõem de tal poder, de vez que, por outra forma, os Espíritos inferiores o empregariam à discrição, extemporânea ou prematuramente, com intuitos de vingança.
Um feixe de luz, mais viva que o raio, atravessou o cordão fluídico que se rompeu com um ligeiro estalido.
O corpo ainda estremeceu por momentos com a invasão violenta dos fluidos da putrefacção que, vitoriosos, qual lava transbordante, invadiam todas as células abandonadas pelo fluido vital, o mesmo que aí denominais galvâneo.
Só no espaço, porém, é que esse fluido toma cor azulada e tépida - confortante, quando, rejuvenescido e expurgado o perispírito, o ser o absorve, pleno de seiva etérea.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:20 pm

O perispírito de Bernardo não tardou em haurir a massa necessária de fluido, que seria a substância vital do seu corpo etéreo, ou astral.
Os órgãos perispirituais entraram a funcionar e a máquina transparente, admirável, reconstituía-se em todas as suas peças.
O filete avermelhado se concentrou na região correspondente ao coração do homem e, assim, respectivamente, o do órgão do pensamento.
No instante preciso em que começava a funcionar, como se fora uma borboleta desprendendo as asas, a individualidade despertava atónita do seu último sono terrestre, para não mais adormecer no estado espiritual.
Bernardo mostra-se maravilhado ao constatar a realidade do seu ideal terreno:
apalpa-se, apalpa-nos, fala, vocaliza o pensamento, vê-se compreendido e toda a sua alma laboriosa rejubila-se à ideia de não ser um simples átomo absorvido pelo nada.
O futuro lhe parece radioso, pleno de actividades e descobertas, semelhantes às que perseguia na Terra; que ali encontrava e decerto prosseguiam em mundo porventura ainda melhor isento de paixões.(1)
Uma vez connosco o fiel companheiro de tantos séculos, tratamos logo de nos alçarmos no espaço.
- Vai ao Mosteiro - diz meu Guia - vai assistir à desencarnação de Pater Benedictus.
Involuntariamente, disse comigo:
porque, tão jovem ainda e vigoroso, vai ele deixar o fardo?
- Mais de dez anos há que desencarnaste e Benedito orça agora pelos quarenta - responde-me o protector.
Não deixei de estremecer...
Havia, então, dez anos que eu flutuava sem repouso, tudo vendo e sentindo, mas, sem contar as horas?!
Procurando dominar o sentimento de inimizade que Benedito me inspirava, baixei aos seus monacais aposentos e lá se me deparou ele debruçado à mesa cheia de papéis.
Cenho carregado, rugas precoces sulcavam-lhe a fronte.
Somando os rendimentos do convento, excogitava a possibilidade de restringir as vultuosas esmolas consideradas supérfluas, mas voltava sempre a reler um certo pergaminho que, na manhã daquele dia, lhe enviara de Roma um cardeal seu amigo.
Sua Eminência lhe comunicava que o Papa, julgando a Abadia riquíssima e assaz numerosa, projectava dividi-la em duas congregações.
Esse projecto se reflectia profundamente na fronte do Prior e lhe desentranhava chispas ardentes dos olhos azuis.
- Jamais o consentiria - murmurou por fim.
Partilhar esta enorme fortuna, despovoar metade deste grande edifício para atulhá-lo de mendigos e peregrinos, isso é que nunca!
Pelo menos enquanto eu viver, não o conseguirão.
Debruçou-se à mesa e vi amadurecer-lhe no cérebro a execução de gigantesco plano - aliás, seu ideal maior de toda a vida - que era cingir a tiara, mediante a morte do seu detentor.
"Pois que morra" - murmurou ele, a sorrir sinistramente.
Tomando a pena, esboçou a resposta ao cardeal.
O que ele não sabia, porém, é que estava respondendo a um defunto, porque, àquela hora, o cardeal já tinha sido atraiçoado e morto.
Depois, alta noite já, levantou-se, deu alguns passos pelo quarto e estirou-se no leito.
Seu perispírito não tardou a exteriorizar-se, com a facilidade que o sono sói ensejar; e no momento justo em que eu me enfurecia à relembrança da traição que ele me fizera, um como véu se rompeu a meus olhos e pude identificar Veleda, minha amiga de Pompeia.
As lembranças do circo, do calabouço, da sua morte trágica, me ocorreram aluviais e como que me acalmaram.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:20 pm

Tomando, então, o aspecto de Astartos, disse:
- Foi a mim que traíste e suplantaste.
O espírito recuou, envergonhado e admirado, mas a revivescência da nossa remota amizade parece que lhe abrandou o ânimo de rivalidade, dizendo:
- Perdoa, Astartos, mas diz-me:
por que haverias de ser o chefe?
Não foi a ti, pessoalmente, que eu traí; o que eu queria era apenas o cargo.
Conheces-me a índole violenta, ciosa de autoridade, mas tu és sempre o meu bondoso Astartos, não podes guardar de mim nenhum rancor e te confesso que não tenho perseguido senão fantasmas.
Minha cólera se havia desvanecido e eis-me a conversar como outrora, na loja de Pompeia, que renasceu para as nossas recordações, com as suas ânforas enormes, seus frascos lavrados, a escadinha e os bancos de pau.
Essas lembranças suaves foram um como bálsamo para os nossos corações, que a sede de poder, a rapacidade, a intriga, haviam contaminado e ulcerado.
Veleda, tu vais morrer, pois não deves entravar as decisões do Papa, que ainda tem de viver, por motivos que não te importa saber.
Ela, um instante perturbada, logo recobrou ânimo e exclamou:
- Pois seja benvinda a libertação, porque a cela sempre me pareceu demasiado estreita; é verdade que desejei o claustro; mas de há muito que ele me vem parecendo masmorra.
Quereria, sim, ocupar o trono de São Pedro.
Reconheço e confesso minha fraqueza...
Oh! sim...
Eu sou mesmo incontentável e bom é que deixe o mundo.
Contudo, pobre Sanctus...
Vai ficar tão só!
Seu perispírito estava inteiramente desligado, nosso Protector cortou, indemne de sofrimento, o filete que o prendia ao coração e o corpo adormecido se insensibilizou na morte.
Rápida a perturbação.
- Veleda - disse-lhe então - se não fosses a boa amiga de Pompeia, caro me pagarias o esbulho do meu cargo abacial.
Sem embargo, considero-me teu credor.
- Pagarei a dívida, se o puder, e só uma coisa te peço, Astartos:
é que não me tentes em questões de autoridade e poderio.
Separamos-mos.
Benedito ficou com o Guia do grupo, a fim de conhecer a tarefa que lhe competia na espiritualidade, até o dia do julgamento, enquanto eu seguia a encontrar, em pleno mar Adriático, o belo navio em que se encontrava Rosalinda e que haveria de ser o seu esquife.
Antes, porém, do episódio de sua morte, quero contar alguns precedentes da sua viagem.
Kurt não pudera guardar segredo do seu projecto.
À boca pequena dizia-se que ele ia a Roma tão-somente para divorciar-se.
Inescrupuloso e grosseiro, não se pejou de organizar um grande banquete em despedida, convidando não apenas a nobreza em peso, mas o próprio duque e a princesa Úrsula, e assim obrigando Rosalinda a fazer as honras da festa.
Criatura inteligente e sagaz, Rosalinda não se deu por achada.
A vida conjugal se lhe tornara intolerável.
Depois da última entrevista, não mais o encarou e o divórcio lhe parecia a única solução possível.
Era a libertação.
Ciente do dia aprazado para o banquete, apelou para todas as energias de sua alma, no intuito de realçar a própria formosura.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Tratou de alimentar-se bem, de repousar o corpo e o espírito, de sorte que, chegado o grande dia, apresentava-se graciosa e louçã como se fosse uma donzela.
Por mim, confesso que tive a maior satisfação, vendo-a vestir-se, auxiliada pelas criadas de quarto.
Um corpete de arminho lhe desenhava o busto esbelto, conjugando-se à saia de seda encarnada, com bordados da mesma fazenda; colar de pérolas e os cabelos negros encimados pela coroa de condessa.
Quando a ponte do castelo arriou para dar passagem ao duque com a princesa e sua brilhante comitiva, Rosalinda se postou no topo da escada de honra, ao lado do marido, para receber os ilustres convidados.
Kurt, que passara muitas semanas sem avistar a esposa, estremeceu quando a reviu tão bela e altaneira, sem qualquer traço de mágoa ou sofrimento.
Admirado e surpreso, não podia despregar os olhos da esposa que, por sua vez, sem lhe dar a mínima atenção, atendia com a maior dignidade e compostura ao seu papel de castelã.
Os boatos correntes sobre os motivos do banquete faziam convergir inúmeros olhares para a formosa mulher que levava o conde de Rabenau ao extremo recurso de um divórcio.
Kurt sentia o ardor que lhe ruborizava as faces, e para mostrar que, apesar de tudo, suas relações conjugais não eram tão comprometedoras, tentou lisonjeá-la; mas um olhar glacial e um gesto de mal disfarçada repulsa o detiveram a tempo.
Findo o laudo banquete, entrou em cena o trovador para divertir os convivas e Kurt, que não perdia de vista a esposa, notou que ela se demorava junto de uma janela, a conversar com o jovem barão Frit de Feitsbourg, por sinal que um belo gentil-homem de trinta e poucos anos, cujos olhos negros pareciam devorar o belo semblante da sedutora castelã.
A certa altura, ele se inclinou para Rosalinda e, comovido, falou em tom confidencial:
- De joelhos vos peço me releveis a ousadia; mas, dizei-me se é exacta a versão corrente, isto é:
que esta viagem a Roma colima o divórcio do casal Rabenau.
Súbito palor cobriu o rosto da formosa castelã.
Era, então, sabido de toda gente, que o conde pretendia desfazer-se dela?
Procurando acalmar-se, respondeu com firmeza:
- É verdade, Sr. barão; e verdade é, igualmente, que me sinto feliz ao pensar na minha liberdade.
Os olhos do barão cintilaram de alegria e curvando-se ainda mais, perguntou:
- E já elegestes vossa nova residência?
De um castelo sei que se chama Feitsbourg e que se encontra vazio e desolado, por lhe faltar a magia de uma castelã.
Permitireis fosse ao vosso encontro e vos oferecesse minha coroa de barão?
Asseguro-vos, de antemão, que tereis ganho de causa, pois tenho uma tia italiana, parenta do Pontífice, que intercederá em vosso favor.
Escusado é dizer do contentamento da bela condessa, pois quem assim lhe falava era um jovem, guapo e rico ornamento da melhor nobreza.
Não o amava, certamente, mas o orgulho lisonjeado a inclinava para ele...
- Dê-me a vossa palavra que, ao regressar de Roma aceitareis minha mão de esposo, por considerar-se desde já minha noiva, à face de Deus.
- Sim, eu vo-lo prometo - respondeu fitando-o com gravidade - tal como prometi, um dia, a esse marido ingrato; mas, diga-me:
também odiais as criaturas enfermas e sofredoras, a exemplo do senhor Kurt de Rabenau?
- Deus me livre de assim proceder - respondeu Feitsbourg, corando vivamente - todos nós somos criaturas de Deus e ninguém sabe o futuro que o aguarda.
Esperando eu que minha mulher continue me amando, caso volte de uma batalha mutilado ou enfermo; que não deixe jamais, em circunstância alguma, de apreciar a fidelidade de coração com o mesmo ardor que lhe mereceram meus dotes físicos, é claro que lhe garanto pagar na mesma moeda, com ela compartindo alegrias e mágoas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:20 pm

Não temais, não duvideis, nobilíssima senhora:
este amor que hoje me inspirais, bela e fresca qual rosa desabrochada em manhã primaveril, há-de acompanhar-vos até ao túmulo.
Sensibilizada, Rosalinda lhe estendeu a mão, que ele beijou comovido, nela depondo o seu anel de brilhante e dizendo:
meu afecto por vossa pessoa tem o mesmo fulgor e pureza desta gema.
Kurt fremia de raiva e ciúme ao vê-los absorvidos em confabulação tão íntima; ao demais, o barão não procurava dissimular atitudes e logo começaram os cochichos que o inculcavam sucessor do meu querido filho.
Este, por sua vontade, teria logo provocado um desforço; mas, como fazê-lo?
Ele fora o primeiro a divulgar a nova do divórcio, e com o namoro ostensivo da princesa Úrsula, granjeara as boas graças do suserano.
Quando os últimos convivas se retiraram e Rosalinda se afastava do salão, Kurt lhe embargou o passo, dizendo:
- Temos o que falar...
- Penso que tudo ficou resolvido com a nossa última entrevista e que a derradeira palavra só poderá ser dita em Roma, quando nos separarmos para sempre.
O estouvado correu os olhos pelo salão e vendo que estavam a sós, aproximou-se com vivacidade e disse em tom melífluo:
- Como estás bela!
Olha que me sinto feliz em ver-te restabelecida, forte e mais que nunca sedutora.
- Deveras? - retrucou ela com mordacidade - pois tu te deslumbras justamente quando estamos prestes a nos libertarmos um do outro?
Estes madrigais deveriam caber à princesa Úrsula que, igualmente, muito se embeleceu com a perspectiva de nossa viagem a Roma.
- Oh! deixemos em paz a princesa:
estou a ver que és um tantinho rancorosa e não perdoas as palavras imprudentes que um dia pronunciei, em momentos de exaltação; entretanto, asseguro que sempre te amei e estava louco quando pensei em divórcio.
Perdoa-me, então, querida e fica certa de que te amo bastante para não querer perder-te, tanto assim que está cancelada a viagem; fica o dito por não dito.
Rosalinda fez-se lívida e aproximando-se do marido disse-lhe nas bochechas:
- Estás muito enganado, conde; nós seguiremos para Roma e fica certo de que havemos de obter o divórcio.
Podes tu, na tua obtusidade e bruteza, acreditar que me submeta passivamente aos teus caprichos de sátiro?
Olha, faz de ti o que bem te aprouver; mas fica certo que desta vez me perdeste para sempre...
E para prova desta minha decisão irrevogável, declaro-te, desde já, que me comprometi com o barão Feitsbourg e com ele me casarei logo que regresse de Roma.
Assim o entendas e não me apoquentes, nunca mais, com protestos e juras que não tens o direito de fazer.
Despudorado, anuncias aos quatro ventos o nosso divórcio e ousas festejá-lo com um banquete; convidas todo o mundo e constranges tua mulher a presidir essa festa.
Sabe, então, que uma mulher briosa não poderia aproveitar essa festa senão para eleger outro marido.
Pensas que ignoro o que propalas para justificar tua infâmia, ou seja, a minha esterilidade?
Pois bem: foi para ferir-te com a única arma capaz de vulnerar tua bestialidade que eu me restabeleci, me embelezei e acabo de escolher outro marido.
Livre, vai-te de mim e pede a mão da princesa.
Aqui tens um anel de núpcias, que lhe poderás ofertar.
Retirou do dedo a aliança e atirando-lha ao rosto saiu precipitada.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:21 pm

Kurt ficou um instante como que estupidificado; depois, sapateou de raiva, desgrenhou os cabelos fechou-se em seu quarto, lá rompendo em soluços.
Não, ele não tinha sonhado.
Retomo agora a narrativa no ponto em que a deixamos, quando, depois de assistir à morte de Benedito, me encontrei a bordo do navio em que se encontravam Rosalinda e o marido.
Espectador invisível, acompanhei o combate dos piratas e vi, finalmente, quando o capitão Nigro saltou para a galera apresada.
Esforçando-se por dominar o pavor que o assomava, Kurt perguntou, altaneiro, qual o preço do seu resgate.
O capitão Nigro, por sua vez, procurou saber que garantias lhe oferecia para o cumprimento da palavra empenhada, acrescentando com ironia que somente ele, Kurt, ou Rosalinda, lhe serviriam como refém.
O conde Rabenau olhou atónito em torno de si.
A raiva que lhe causava a frieza de Rosalinda e o ciúme que lhe inspirava o barão Feitsbourg, sugeriram a ideia de uma dupla vingança, que atingiria simultaneamente a esposa e o rival, retardando ou anulando, talvez, a realização do matrimónio.
Ficai com ela e fixai o preço do nosso resgate, que vos será pago logo que me encontre em terra firme.
Um lampejo de alegria fulgurou nos olhos do pirata, enquanto os homens de Kurt se entreolhavam espantados, sem atinar com os motivos de uma atitude tão indigna de um fidalgo.
A passo firme, sem lhe deitar um simples olhar, Rosalinda aproximou-se do pirata e lhe apertou a mão.
Ninguém poderia suspeitar, inclusive Kurt, que o coração da formosa Rosalinda pulsava ansioso, porque a mão que se lhe estendia era a de Leo de Loevenberg.
Um pajem e uma serva ficaram também como reféns, ao serviço da fidalga.
- Rosalinda - interpôs Kurt, fulo de raiva, - partes sem te despedires e eu espero, contudo, que a nossa separação não será longa.
- Pois eu espero antes que seja eterna - respondeu ela em tom desprezível - ainda porque a resolução que acabais de tomar equivale a um divórcio.
O capitão levou-a consigo; mas, chegando ao convés, longe das vistas de Kurt e da equipagem, abraçou sua legítima mulher e, banhado em lágrimas, murmurou:
- Aqui, entre o mar e o céu, posso ressuscitar para o teu amor.
- Parece-me um sonho, Leo...
Vives e eis que te encontro, após dez anos de tortura ao lado de um homem indigno.
E agora, oh! Deus, estou de novo a ouvir palavras de amor de teus lábios, que nunca mentiram!
Mas, diz-me: como pudeste calar tanto tempo?
Devias saber que a ti me juntaria onde estivesses.
Agora fico contigo, serei refém voluntária por toda a vida.
- Sim, minha querida, agora só a morte poderá separar-nos.
Por fim, vi Mauffen com os seus projectos sinistros; vi Eulenhof, o anão ingrato e a pérfida Rosa, comparsa de todos esses monstros.
A verdade, porém, é que nada podia fazer, porque chegada era a hora de todos eles.
Naquela noite memorável, Rosalinda e Leo galgaram o convés, abraçados e mudos.
Contemplativos, ficaram encostados na amurada, como esquecidos de si mesmos e de tudo que os cercava, até que Rosalinda quebrou o silêncio, dizendo:
- Conta, meu querido, como escapaste da morte e te fizeste pirata; conta-me tudo que se passou desde a hora em que nos separamos.
Olha, nada me ocultes, porque tudo o que te diz respeito me é precioso; (levantou a cabeça e fitou sorridente o rosto moreno do belo marujo) olha, és tão bonito e por aqui, suponho, as mulheres são tão sedutoras e passionais que, se te soubera vivo, não teria um minuto de tranquilidade na minha vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:21 pm

Uma grande gargalhada foi a resposta de Leo.
Toda a satisfação que lhe causava o tardio ciúme da esposa amada espelhava-se-lhe no semblante.
Beijando-a na boca, falou com o coração.
- Lobrigaste aqui a bordo algum perfil de mulher?
Não, decerto, e isso significa que mantive fidelidade à condessa, de Loevenberg.
Assim entendidos, ouve a história de minha vida depois que nos separamos:
- Quando o punhal do miserável Mauffen me varou o peito, perdi de todo os sentidos.
Ao recobrá-los, estava numa cabana e uma mulher que de pronto não reconheci, na penumbra ambiente, pensava-me o ferimento.
Mais tarde, soube que essa mulher era uma mercadora que, na companhia de um irmão, frequentava feiras e torneios, para vender frutas, refrescos, doces e também xaropes e pomadas.
Essa bondosa criatura, a quem sempre comprava alguma coisa, interessou-se por mim e vendo que me havia levado à tenda como morto, lá se insinuou furtivamente quando meus parentes se retiravam aturdidos e desolados.
Ao constatar, porém, que meu coração ainda pulsava, suplicou ao irmão que me socorresse.
E como a noite começava a cair, puseram-me na sua carreta, debaixo da palha, e enquanto me procuravam por toda a parte, transportaram-me à sua cabana escondida em plena floresta.
Ali, oculto num quartinho isolado, a bondosa Lidivina me curou os ferimentos com um bálsamo deveras maravilhoso e pouco a pouco me restabeleci completamente.
Uma vez são, urgia cuidasse da vida, de vez que não podia ali permanecer oculto para o resto dos meus dias.
A verdade, porém, é que me sentia assaz embaraçado, pois não podia, nem queria apresentar-me a ti e à sociedade, destituído dos meus foros e prerrogativas de nobreza.
Enquanto me angustiava para resolver o problema, aprouve à Providência encaminhar à choupana o monge Benedito, teu padrinho.
Penso que ele fosse o confessor da minha generosa enfermeira e talvez algo mais, porque Lidivina era uma bonita mulher.
Sabedor da minha estada ali, Benedito me testemunhou muita amizade e benevolência.
Quando lhe disse que desejava passar por morto e me ausentar do país, ele me aconselhou a disfarçar-me e seguir na companhia de um frade italiano, que viera a negócios com a Abadia e estava prestes a regressar ao seu mosteiro, onde, - acrescentou - eu poderia professar, se me aprouvesse, ou descansar algum tempo e procurar, depois, um velho parente morador em Veneza.
O plano me agradou. Benedito me forneceu valiosa quantia e assim foi que acompanhei o venerável frei Francisco.
Bem acolhido no respectivo convento, o Prior consentiu que lá vivesse como leigo e de facto ali passei mais de um ano, até que travei relações com o primo de um monge, que, pirata profissional, me convenceu das vantagens da carreira.
Mantendo correspondência com Benedito, por ele soube, mais tarde, que assumira o priorato.
Posteriormente, quando ele veio a Roma, tivemos uma entrevista e no intuito de me fazer seu agente, confiou-me os planos ousados que tinha em mente, como cabeça de arrojada conspiração, na qual entravam diversos cardeais, comprados a peso de ouro.
Tratava-se, não mais nem menos, de eliminar o Papa e eleger um velho beneditino, fundador da Ordem dos Celestinos, homem ascético e absolutamente destituído de experiência política.
Benedito pretendia o cardinalato para fazer-se secretário desse Papa inábil, e isso com o fito de o destronar mais tarde, fazendo-se eleger Sumo Pontífice.
Eu já me dedicava à pirataria, mas Benedito me forneceu recursos para comprar este soberbo navio.
Como seu procurador, incumbe-me visitar os cardeais, prelados e quantos personagens mantêm relações com ele.
Agora, sei que seu plano está na iminência de vingar, pois o seu candidato acaba de ser eleito e a nomeação do cardeal não deve tardar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 8:21 pm

Neste momento, tenho comigo preciosos documentos, cartas e recibos e grandes somas, que preciso mandar-lhe.
Enquanto Leo assim discorria, percebi que Mauffen rastejava para junto dele, no intuito de o matar.
Rosalinda também percebeu e se colocou entre os dois.
O celerado quis, então, feri-la, mas errou o golpe e a punhalada não foi mortal.
Leo, exasperado, com certeira estocada o cravou no mastro, pela garganta e levou Rosalinda desmaiada.
No dia seguinte desencadeou-se pavorosa tempestade.
As ondas do Adriático se alteavam montanhosas e o navio, como se fora uma simples casca de noz, era levado de roldão, rangendo em todas as suas juntas.
Os piratas, tão intrépidos nas refregas humanas tremiam diante da fúria dos elementos insensíveis e invulneráveis à força dos seus braços e ao gume das suas armas.
A tormenta parecia aumentar, até que uma vaga maior estrondou no convés, varrendo-o de popa a proa.
Quando o navio emergiu desarvorado e cabriolante à flor das águas, nenhum ser vivo restava a bordo.
Tudo havia sido tragado na voragem das águas e apenas se via - troféu macabro de inconcebível resistência - o cadáver de Mauffen cravado no mastro!
Leo boiava abraçado a Rosalinda.
O desprendimento do seu perispírito não foi demorado.
Alguns amigos deste lado, coadjuvados por mim, cortaram célere os filetes cerebrais, a fim de o despertar ... e a luta recomeçou...
A morte de ambos estava, no entanto, prevista, e logo das águas surgiriam os seus perispíritos.
- Estais livres, o corpo nada mais vale - dissemos - e logo me fui para junto de Kurt, que havia alcançado terra firme e repousava num vilarejo da costa.
Na manhã seguinte ao sinistro, o mar atirava às praias inúmeros corpos inclusive os de Leo e Rosalinda.
Dois sobreviventes apenas, apareceram para contar o que fora a pavorosa catástrofe; eram o pajem e a criada de Rosalinda, que haviam ficado como reféns.
Kurt mostrou-se a principio muito comovido quando reconheceu o cadáver da mulher, mas não tardou a substituir essa impressão por malicioso e intimo contentamento.
Que agora, nenhum barão teria o direito de requestá-la.
Quando retiraram do pescoço do capitão Nigro uma caixinha de metal, Kurt lhe examinou o conteúdo e ficou estupefacto por encontrar não só a prova de identidade do conde de Loevenberg, como a correspondência de Benedito com os cardeais.
Entretinha-se ele a examinar os papéis, quando o alarido do povo anunciou o aparecimento de um navio destroçado, no qual se lobrigava um vulto que parecia humano.
Como o tempo estivesse magnífico e o mar calmo, Kurt tomou um batel e abordou o navio, esperançoso de encontrar algo mais que lhe aclarasse o roteiro e os feitos de Loevenberg.
Não encontrou mais que o cadáver de Mauffen, mas, em compensação, apreendeu os planos dos subterrâneos e os documentos concernentes à minha origem e posição de chefe da sociedade secreta.
A serva conseguiu retirar da mão rígida de Rosalinda o anel de Feitsbourg, procurando empalmá-lo; mas Kurt, solerte, lhe pôs embargos.
Na cidade mais próxima cuidou de embalsamar o cadáver da esposa e retomou, sem demora, o caminho da pátria, com a cabeça cheia de mil projectos dignos dele.
Foi directo ao castelo de Rabenau.
Sempre hipócrita, simulou profundo pesar, ordenou pomposos funerais; entretanto, mesquinho e vingativo por natureza, não poderia esquecer o barão e lhe devolveu o anel de núpcias arrancado à morta.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:20 pm

Isto feito, resolveu apresentar-se no convento com os documentos apreendidos do capitão Nigro, cuja importância lhe fora encarecida e explicada pelo padre Lucas.
O novo Prior, pater Sanctus, criatura nada enérgica e culposa, má, (faço-lhe justiça) dotado igualmente de bons sentimentos, tinha a exacta noção da honra e dignidade do cargo.
O boato corrente, de haver o conde empenhado a mulher a um pirata, lhe chegara aos ouvidos.
Assim, recebeu o fidalgo com a maior frieza, suspeito da sua narrativa.
Não deixou, contudo, de comover-se e considerar os caprichos do destino, ou do acaso, que reunira na morte o inditoso casal.
Concluindo esse tópico da conversa, Kurt lançou a Sanctus um olhar malicioso e disse:
- Aqui estão, Reverendo, alguns documentos interessantíssimos, encontrados em poder de Locsenberg e concernentes ao seu digno antecessor.
Antes, porém, de os remeter ao duque, resolvi mostrar-lhes e obter algumas explicações.
Eis aqui, por exemplo, a carta de um Prior beneditino, italiano, na qual se explana a ideia de elevar ao trono pontifical um certo eremita absolutamente nulo e se afirma que a vitória não tarda; a seguir, temos recibos de grossas quantias pagas aos cardeais para lhes alcançar o sufrágio; uma lista dos principais candidatos à tiara, e ainda outra nominativa das pessoas gratificadas para obter o chapéu vermelho para o falecido prior Benedito.
Finalmente, isto que me parece o mais interessante:
uma carta do próprio Benedito a Loevenberg, em que diz textualmente:
"Por muito inexperiente que ele seja, em todos os assuntos, afora os de ordem teológica, a verdade é que não preciso de um cérebro que me compreenda, mas de um corpo que me obedeça; e uma vez feito cardeal-secretário, activarei a cruzada em vista, com o donativo de 500.000 escudos de ouro.
Explique bem este assunto às pessoas interessadas.
Dinheiro é o que não falta, felizmente, porque dispomos dos cofres da confraria secreta"... neste lanço, Kurt interrompeu a leitura para dizer:
- Permita-me saber qual seja a sociedade secreta aqui existente e que tinha meu pai por chefe, como se infere de outros documentos que não trouxe comigo.
Esses documentos assinalam tesouros que meu pai possuía como chefe e que provavelmente, se encontram ocultos em nossos vastos domínios.
Por mim, estou em crer que meu pai tinha a mania de superintender uma sociedade secreta, que acabou por assassiná-lo - a ele que sonegou meu património.
Peço-lhe, Reverendo Sanctus, que me ponha tudo isso em pratos limpos e me devolva, quanto antes, o que me pertence, pois do contrário entregarei os documentos ao nosso duque e desvendarei as tenebrosas maquinações desta confraria, junto à corte de Roma.
O prior tudo ouvira, aparentemente calmo, mas, no intimo, inquieto.
- Mostre-me os documentos inerentes aos negócios de Roma - disse afinal -, eu conheço a letra das pessoas que acabou de citar e quero certificar-me de que não há em tudo isso alguma fraude.
Kurt não vacilou, passando-lhe a correspondência de Benedito com Loevenberg e os cardeais.
Sanctus, de cenho carregado, folheou a papelada, contou carta por carta e depois, altivamente, lançou tudo às chamas altas do fogão.
Kurt ergueu-se e gritou fora de si, ao mesmo tempo que procurava abafar o fogo:
- Que fazeis?!
Quereis assim destruir documentos tão preciosos?
Sanctus reteve-lhe o braço e por sua vez falou com significativa entonação:
- Filho, sois decerto um grã-senhor, e diante dos homens valeis alguma coisa; diante da igreja, porém, nada sois.
Ouvis? Vossa insolência neste caso só se explica pela vossa ignorância.
Ligar-se a esta santa madre e pretender comprometer algum de seus membros, é o mesmo que auto-sentenciar-se à morte.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:20 pm

Nunca, jamais, se viu lei que autorizasse a restituição do que cai nas arcas da igreja, uma vez que os bens terrestres por ela amealhados o são para benefício da humanidade e ninguém ousa reivindicá-los. Portanto, já vedes que nada tendes a reclamar aqui.
Se o vosso progenitor, como crente fervoroso, houve por bem aquinhoar a igreja entregando-lhe grandes somas, o que só vos cabe é conformar-vos.
Por outro lado, sabei que ninguém o assassinou.
Ide, pois, em paz e procurai tranquilamente, pelo jejum e pela oração, expiar vossa ousadia e insolência.
Para o momento, ficais privado de receber os sacramentos.
Quanto ao Padre Lucas, fica a meu cuidado adverti-lo da negligência de vossa instrução e da sua incompreensão no concernente à disciplina da igreja e ao respeito devido aos seus representantes.
Depois desta parlenga bem sentida, o prior despediu Kurt, que, além de obtuso e preguiçoso, mal sabia ler e apenas conhecia por alto os documentos que o padre Lucas interpretara e comentou.
Voltou, portanto, muito aborrecido, mas sem saber o que responder.
Pouco tempo depois, seguia para a corte, a fim de pedir em casamento a sobrinha do duque, que o recebeu com a maior benevolência.
Por ocasião do banquete, ele notou, indignado, que os convivas o olhavam com desdém e evitavam dirigir-lhe a palavra.
Findo o banquete, o barão Feitsbourg levantou-se e pediu a palavra, que o duque lhe concedeu de bom grado.
Disse, então, que o acusava de traição e covardia, por haver, contra todas as regras da fidalguia e da nobreza, empenhado a esposa a um pirata.
O duque estava lívido e a princesa a pique de desmaiar.
- Repto-vos, senhor de Rabenau, nódoa imunda que sois e vergonha de nossa classe; e se eu sucumbir, aqui estão seis cavaleiros mais, dispostos a corrigir vossa infâmia.
Kurt levantou-se, fulo de raiva, pois o barão lhe havia atirado a luva ao rosto e os outros seis fidalgos lhe assacavam conceitos injuriosos.
- Silêncio! senhores - disse o duque - e vós, conde, explicai-vos...
- Estou absolutamente inocente - e dizendo-o, os olhos espelhavam vulpina malícia - a verdade é que só empreendi essa viagem para pleitear nosso divórcio.
No mar Adriático o navio foi apresado pelo corsário, que exigiu um refém e esse pirata era, nem mas nem menos, o vassalo do nosso amado duque, ou seja o mesmo Leo de Loevenberg, que todos havíamos por morto em memorável duelo com o conde de Mauffen.
Como, por que acaso terá ele sobrevivido, fazendo-se salteador do mar?
Eis o que jamais poderia dizer.
O que não ignorava, porém, é que não tendo ele se divorciado de Rosalinda, esta lhe pertencia de direito e de facto; e assim é que a entreguei, não a um pirata mas ao seu legítimo marido, que, aliás, me agradeceu por havê-la guardado durante dez anos.
Estando ele vivo, minha união com ela fica ipso facto nula e vós, senhor de Feisburg, sois quem menos direito tem de me pedir contas e haveis de convir que me ultrajastes sem razão.
O duque parecia satisfeito, a princesa readquiria as cores naturais e os fidalgos se entreolhavam surpreendidos, mas Rosalinda e eu muito sofríamos no espaço.
Por fim, o duque disse:
- Senhores, eu penso que esta explicação é de molde a lavar a honra do conde de Rabenau e espero que o incidente fique amistosamente liquidado.
Os seis fidalgos balbuciaram quaisquer desculpas que Kurt ouvia a contragosto e semblante carrancudo.
Apenas Feit nada disse e tornou a assentar-se de braços cruzados.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:20 pm

- Pois bem, barão:
vós que provocastes o incidente, nada dizeis?
Ora, vamos acabar com estes mal-entendidos, que estão perturbando nossa alegria.
Isto disse o duque. Kurt, sabemo-lo, era covarde e evitava provocações.
Uma vez desafrontado, aceitou as desculpas.
Feit, porém, era rixento por natureza e respondeu com ironia:
- Se a minha luva não arde na face do conde Rabenau, estou pronto a me reconciliar com ele.
O duelo tornou -se, assim, inevitável; fixaram o dia do encontro e o duque declarou a Kurt que se ele sobrevivesse, lhe concederia a mão da sobrinha.
Nosso herói partiu furioso e já cogitando se não haveria algum meio de desfazer do adversário, que era, de facto, espadachim terrível.
Como se dá com todos os covardes, Kurt temia a morte, pressentindo nela o fim da impunidade.
Para obter o auxílio do céu, passou vários dias e muitas noites agarrado ao padre Lucas, orando e jejuando, batendo no peito e encarecendo a todos os santos da corte celeste, o dom da sua vida ignóbil.
Sem embargos de piedosas diligências, recorria também a factores mais positivos e assim foi que despachou Tuísco - sua alma danada para, a peso de ouro, corromper um escudeiro do barão, o qual escudeiro, na manhã do duelo, lhe ministrou no vinho o mesmo tóxico que lhe valera no reencontro de Waldeck com Edgar de Rouven.
Graças a essa traição, Kurt logrou fácil vitória, matando o desventurado adversário, aturdido e baldo de forças. Se Kurt tivesse podido ver as nuvens que se condensavam para além da Terra; se visse que as forças do bem se afastavam dele,
apesar dos apelos que hipocritamente lhes faziam, então, haveria de tremer por seu futuro.
Cego, porém, acreditava -se invulnerável na sua insolência.
Com toda a pompa celebrou-se o casamento com a princesa Úrsula, que não era jovem, nem bela, nem inteligente, mas grosseira e sensual, digna dele, enfim.
A essa festa nupcial compareceu toda a nobreza, em atenção ao suserano, mas ao banquete dias mais tarde oferecido por Kurt, em seu castelo, faltaram todos os grão senhores.
O próprio duque, quiçá prevendo essa abstenção, pretextou acidental enxaqueca para justificar a ausência.
De sorte que a reunião apenas se constituiu de apagados castelões e conhecidos papa-jantares, suficientemente pobres e fracos para não ofenderem um vizinho poderoso.
Em seguida, tive a satisfação de constatar que o meu herdeiro gozava a ventura conjugal que merecia. Úrsula, posto que princesa, era uma criatura medíocre, ciumenta, maldosa e pouco se incomodava com ele.
Nada obstante, não lhe dava tréguas e certa feita em que o pilhou abraçando uma criada, deu-lhe uns pares de bofetadas e expulsou a serva a pontapés.
Ele se havia queimado da frieza de Rosalinda, que nunca o ameaçara sequer com um gesto de mão - mão de jaspe cetinosa - agora sentia nas faces o estigma da brutalidade ciumenta.
Úrsula se trancou à chave e sapateou de raiva; e quando ele procurou desculpar-se, foi acerbamente injuriado; mas, passada a crise, atirou-se-lhe ao pescoço.
E ele, que se mostrava tão melindrado com os arrufos da graciosa e mansa Rosalinda, suportava agora com paciência as rixas escandalosas daquela mulher feia, comilona e relaxada, simplesmente porque era... princesa.
Mas, como tudo passa e cansa, inclusive a honra de ser sobrinho de um duque; e porque o ciúme agressivo da mulher o irritasse em demasia, acabou perdendo as estribeiras e retribuindo-lhe as bofetadas.
Nesse dia, Úrsula enfurecida lançou mão de uma taça e atirou-lha ao rosto com tanta força que lhe arrancou um grito feroz.
Da boca entreaberta lhe saltou algo sangrento:
era um incisivo, um daqueles dentes alvos, que ele prezava acima da mais preciosa pérola.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:20 pm

Aquele horrendo buraco escuro haveria de privá-lo, para sempre, de sorrir.
Obrigado, no plano espiritual, a presenciar todas essas baixezas, eu me sentia cada vez mais triste.
Se, ao menos, me fosse dado expiar no espaço - conjecturava suspiroso, muitas vezes - lá, pelo menos, a formidável actividade universal me levaria a esquecer o meu ego; no turbilhão formidoloso dos sistemas planetários, o átomo inteligente esquece suas ambições mesquinhas; deslumbrado pelo trabalho sem trégua de bilhões de inteligências, que manejam com inconcebível destreza as massas nebulosas de matéria primária molgando-se dócil às correntes luminosas de volição de uma inteligência já chegada a esse grau de perfeição.
Quão mesquinho era o poder atrás do qual eu tinha corrido!
Os homens que pretendi governar eram falsos e mesquinhos, suas actividades não colimavam mais que saciar grosseiros instintos, nenhum objectivo elevado lhes accionava a inteligência.
Meu olhar de desencarnado via que o amor se pagava com ouro, que a amizade e estima se baseavam no interesse, e, contudo, essa convicção, devo confessar, para vergonha minha, que os interesses terrenos me prendiam como se fossem tenazes de ferro.
A multidão miserável que lá formigava me aborrecia e me revoltava, mas não me desinteressava e eu queria imiscuir-me dos seus destinos, para aliviá-la ou destrui-la.
Baixei ao quarto do padre Lucas, o fiel amigo do meu Kurt.
Encontrei-o engolfado na leitura dos pergaminhos condizentes à minha identidade e à existência de opulentos tesouros no castelo de Mauffen.
O semblante nédio e oleoso do frei, que muito havia engordado, graças ao bom passado, estava radiante de satisfação quando Kurt entrou mal-humorado e deixou-se cair numa cadeira.
- Meu filho - disse Lucas, erguendo a cabeça - estes documentos que me confiaste contêm revelações gravíssimas, como vais ver.
E passou a relatar o seu conteúdo.
- Oh! - exclamou o cúpido herdeiro do meu nome - não podemos abrir mão desses tesouros, uma vez que meu pai descendia dos Mauffens, era um Mauffen.
Vou revelar tudo ao nosso duque e com ele, sob sigilo, repartirei o achado, visto que sem ele não posso lá entrar sem ofender os beneditinos.
Contudo, eles hão-de concordar em vender o castelo ao suserano, mesmo porque nenhum proveito lhes oferece esse imóvel.
Isso conseguido, farei ver ao duque que meu pai era o cabeça da sociedade secreta, visto restarem alguns documentos que não levei ao prior.
Portanto, ponha-me em ordem toda essa papelada, redija com clareza o que devo falar ao duque e ponhamo-nos a caminho.
Insensata cólera quase me paralisou o perispírito, por mal contida.
Aquele filho ingrato queria desvendar o passado criminoso do pai, esquecendo, na sua rapacidade estúpida que, se eu fosse um Mauffen, ele deixaria de ser um Rabenau.
Queria delatar minha posição de chefe, conspurcar minha memória, borrar o nome do meu túmulo e pilhar o tesouro que porventura encontrasse, para dissipá-lo em novos crimes e deboches.
Que fazer para embargar esse plano?
Sentia-me impotente à face do atrevido encarnado, para o qual nada havia sagrado e que me afrontava sem o mínimo resquício de sentimento filial.
Um gesto desesperado atraiu meu Guia e protector e lhe confessei meu desejo de aniquilar aquela criatura.
A palidez com que se me apresentou o Guia só pode ser avaliada pelo exaspero que causa aos espíritos imperfeitos.
- Sabes - disse ele - que a existência da criatura, por mais culposa que seja, não depende do arbítrio de outrem.
Lá onde se resolve a encarnação, é que se lhe marcam os limites; e faz-se preciso que uma existência terrena seja bem inútil e faltosa, para que se lhe corte o fio.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:21 pm

Ninguém escapa à lei da desagregação do corpo físico e a pressa, neste caso, é atributo de imperfeição...
- Pois bem! - concluí na minha exasperação - leva-me a esse Tribunal onde se regulam os destinos e pleitearei, eu mesmo, a minha causa contra este ingrato.
Minha força de vontade me colocou perante os Guias supremos, seres perfeitos, imparcialíssimos e diante de qual majestade me prosternei.
- Que queres? - ouvi como que por efeito de repercussão mental.
Sabes que a morte corporal é a porta de acesso inevitável ao Tribunal da Justiça perfeita.
Pedes a destruição de um corpo que tem servido para degradar o seu detentor, que abusa do estágio terreno; mas, que direito te assiste para assim procederes?
Tremes e te indignas ao pensar que tua reputação se maculará, talvez, em consequência de um passado criminoso; coras à ideia de humilhação, por te veres desmascarado e julgado pelos homens, que te conceituavam melhor do que eras; mas nunca tremeste nem coraste na prática de tais acções repreensíveis.
Espírito inteligente, não te envergonhas de escravizar-te assim, a essa mesma turba que pretendes desprezar e contra a qual te revoltas?
Mesquinha fatuidade te faz espumar de raiva e pleitear a morte de teu filho, porque ele se escraviza a instintos e preconceitos que supõe satisfazer a peso de ouro.
Teu pedido não se justifica, porque tua existência terrena não se recomenda pela virtude.
Lastimas o tesouro que teu filho quer esbanjar e te esqueces de que, se o não fizer ele, outro o encontrará e o empregará mal.
Não há, portanto, o que possa justificar a morte imediata de Kurt.
Fiquei aturdido, não sabia o que alegar, mas procurei concentrar-me e, logo, a ideia do partido a tomar, me veio à mente.
- Nessa encarnação, Kurt nada fez em benefício próprio, nem de outrem.
De um egoísmo empedernido, a ninguém ama nem é por alguém amado.
Não faculta abrigo ao indigente; seu dinheiro não enxuga uma lágrima; é um ser inútil, parasitário, que se nutre do suor de seus vassalos - suor que sua capacidade e brutalidade aumentam e envenenam.
Pois bem! em troca dessa existência inútil, que peço para ser abreviada, proponho encarnar-me quando os Guias determinarem, fazer vida modesta de peregrino e, se for permitido encontrar os tesouros, transformar o castelo de Mauffen em hospital, cuidando eu mesmo dos enfermos.
E, dado que o reencontro do tesouro me leve a iludir este compromisso, que se me aplique a mesma pena que ora pleiteio para o filho ingrato.
Meu pensamento se evolava puro, nítido, forte, como a vontade mesma de o concretizar.
Senti-me logo envolto em áurea claridade.
Só uma existência de caridade, de abnegação, de sacrifício, pode resgatar uma vida inútil.
- Que, pois, intacto fique o tesouro que destinas a esse fim, e que o homem ingrato e nulo pereça prematuramente.
Espírito reflectido, que fazes das próprias mágoas um ideal preconcebido, de benemerência humanitária, estás atendido.
Jubiloso com a concessão obtida, desci a juntar-me aos companheiros.
- Agora, - disse de mim para mim - o ingrato não me escapará.
Estávamos em plena estação estival, o sol requeimava a Terra, deprimia as fontes, esturricava a folhagem.
Pelas estradas longas, o vento morno levantava nuvens de poeira, que asfixiavam os raros viajantes obrigados a enfrentar a canícula.
Toda a natureza parecia exausta e dormente.
A atmosfera saturava-se de electricidade.
Em todas as igrejas e capelas o povo se aglomerava, fazendo preces ardentes para que a chuva benéfica refrescasse a terra e evitasse a destruição total das colheitas.
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