Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:21 pm

Para o momento, porém o céu mostrava-se indiferente, nem uma nuvenzinha se condensava na umbela azul, onde o sol triunfante ameaçava tudo aniquilar.
Naquele dia, Kurt acordara mais tarde, estava almoçando com a mulher e o padre Lucas, ambos bem nutridos e pletóricos.
- Oh! - disse o frade enxugando o rosto - será mesmo que o Sr. conde se arrisca a partir com este tempo?
Por mim, confesso que me sinto abafado...
E afrontar a poeirama que ai se levanta, é temeridade que ultrapassa minhas forças.
Kurt, que nunca se preocupava senão consigo mesmo, respondeu com a maior displicência:
-- Tenho decidido ver o duque ainda hoje e havemos de lá chegar, porque precisamos resolver esse negócio.
Prepare-se, então, para montarmos.
- Mas, afinal, porque essa teimosia de viajar com este tempo? - interrogou a condessa, metendo-se na conversa e deitando ao marido um olhar desconfiado.
Que assunto grave podes ter a tratar com meu tio?
Neste caso, vou também contigo determinou em tom provocador.
Kurt inflamou-se e deu na mesa um murro que fez dançar toda a louça.
- Pois não irás e fica sabendo que, com essa estupidez ainda me verei forçado a deixar-te.
Teu ciúme vai-se-me tornando intolerável... (E suspirando.)
Oh! Rosalinda, quem diria houvesse eu de suportar estas vergonhas!
Agora, sei quanto valias e nunca, nunca te esquecerei!
- Impudente! Desbriado!
Ainda te atreves a falar do teu amor a Rosalinda?
Mas, quem, senão tu mesmo, me confessou que a sua malícia e fraqueza te desagradavam?.
E agora me insultas e finges-te pesaroso e arrependido?
Pois estás muito enganado, porque nada me demove de acompanhar-te e ver com quem pretendes enganar-me.
Kurt proferiu um palavrão e empurrando a mesa com violência, saiu praguejando.
- Filha - disse Lucas, cruzando as mãos em atitude beatifica - não se deixe empolgar assim pelo demónio do ciúme; acalme-se e fique, pois sou eu quem lhe assegura que seu marido visa a negócios de grande importância.
Além disso, vou em sua companhia e esta circunstância prevalece para dissipar quaisquer suspeitas.
Assim dizendo, levantou-se e saiu.
Úrsula depois de lhe beijar a mão, tornou a sentar-se e continuou a jantar como se nada houvesse ocorrido.
Enquanto isso, Kurt se vestiu, apanhou os documentos satisfeitíssimo e os ocultou no bolso interno do casaco.
Mal poderia adivinhar que os guardava para sempre.
A seguir, cingiu a espada que o pajem lhe apresentava e desceu ao pátio, onde os escudeiros seguravam, já selados, o seu cavalo e a mula da montada do frade.
- Meu nobre senhor, - advertiu o guardião do castelo - permita vos diga que, por mim, não faria hoje esta viagem...
Vede aquelas nuvens negras que se encastelam no horizonte e atentai nesta ventania que começa a soprar.
Isto é sinal de que vem por aí algum tufão ...
- Qual nada; antes que o temporal estoure, estaremos bem resguardados no palácio ducal.
- Disse-o, cavalgando a esplêndida montaria, enquanto dois escudeiros procuravam encarapitar o gordalhudo padre Lucas, que bufava e daí a pouco protestava, a caminho:
- Oh! Sr. conde, não galope assim, que esta poeira me cega e sou obrigado a largar as rédeas...
Kurt diminuiu a carreira.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:21 pm

Não queria chegar antes do seu confessor, que deveria ler e explicar ao duque os textos documentais.
- Peste de animal que assim se detém para almoçar em caminho! - vociferou Lucas - enquanto a pacífica alimária, igualmente extenuada pelo calor, se detinha junto de uma touceira de cardos, insensível aos chutes e chicotadas.
- Vamos acabar com isso, meu frade, ou ficaremos aqui torrados - gritou Kurt furioso, aproximando-se e fustigando a cauda da mula com o rabo do chicote.
De repente, a empacada mula arrancou a galope e deu com o frade em terra, estatelado e arquejante.
Vendo-o assim de papo para o ar e com o rosto suarento empastado de terra, Kurt riu-se à bandeiras despregadas.
Dois escudeiros ajudaram o frade a retomar a sela e a comitiva seguiu.
Se eles pudessem ver o que se passava no espaço; ver como os Espíritos manipulavam as massas nebulosas, combinando-as...
Eu também lá estava e procurava, por meio de mil fios eléctricos, sugar toda a humanidade do corpo de Kurt, assim o preparando para o choque decisivo.
Bonifácio igualmente o fazia, em relação ao padre Lucas.
Notávamos que ambos estavam possuídos de estranha vaga inquietação.
- Parece que errei na escolha deste dia para visitar o duque, pois nunca senti um calor assim...
Não sabia explicar a angústia que o oprimia, senão que a experimentava.
A fronte lhe ardia.
Ergueu os olhos e viu a massa negra que começava a invadir todo o firmamento.
O vento forte desencadeava-se em remoinhos, levantando colunas de areia.
- Aviemo-nos - disse, esporeando o cavalo, mas o furacão lhes ganhava dianteira, vertiginoso; a poeira sufocava, cegava homens e animais, embaraçava-lhes a marcha; a escuridão aumentava, as frontes vergavam e gemiam açoitadas pelo vendaval.
- Vamos! - repetia Kurt - estamos perto...
Mas os cavalos pinoteavam, crinas eriçadas, farejavam o perigo iminente.
Todos os seres vivos procuravam um abrigo e as próprias coisas inanimadas como se retraíam.
Os operários invisíveis continuavam a formigar na atmosfera caliginosa.
Coloquei-me diante de Kurt, retirando os fios que a ele me ligavam e ajustando-lhe os que deveriam veicular o raio entre duas nuvens carregadas de electricidade.
Súbito, jorrou um clarão ofuscante, que pareceu inundar o próprio ambiente extra terreno e fez estremecer os operários do Espaço, que revolviam a atmosfera com a velocidade do pensamento, a fim de purificá-lo.
Vi que tudo se aclarava em comburências de braseiro e, tal como se enrosca um fio de cabelo à chama de uma vela, assim os ligamentos perispirituais arderam e crepitaram; o fogo celeste atravessou o corpo de Kurt e consumiu os documentos comprometedores.
Num ápice, o perispírito, arrancado do seu casulo terrestre, reconstituiu-se e o prendi a mim.
O padre Lucas tinha tido a mesma sorte e Bonifácio o levou consigo.
Os escudeiros, estarrecidos, gaguejaram uma Ave Maria ao ver o amo inerte na estrada.
Supondo-o apenas desmaiado, procuraram socorrê-lo, mas logo viram que do fidalgo insolente e autoritário senhor não restava mais que um cadáver com as roupas chamuscadas.
No mesmo instante, a chuva torrencial dessedentava a terra ressequida.
Por efeito dessa mesma tempestade, muitos anos lembrada por suas desastrosas consequências, outro raio atingiu o castelo de Mauffen, cuja parte antiga desmoronou e amortalhou em seus escombros os tesouros reservados ao meu curso expiatório.
Kurt, atarantado, nada percebendo do que lhe ocorrera, tão súbita fora a transição, levou algum tempo a assenhorear-se; mas, quando voltou a si, recuou espantado, ao dar comigo e com Bonifácio.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:21 pm

- Morreste, ingrato!...
Deixaste na Terra o corpo em que te abrigavas, supondo-te invulnerável.
Coração vazio, retribuíste o meu amor com a calúnia e a traição; e agora me não escaparás à justa cólera.
Não quero vingar-me infligindo-te um suplício moral, mas vou separar-me de ti três séculos.
Quebro os laços que a ti me prendem e deixo-te entregue à matilha dos inimigos que fizeste, graças aos teus crimes.
Parasita ingrato que alimentei e defendi com o meu amor, procura quem te proteja e segue a colher a semente que plantaste.
Isto posto, recuei, cortando os filamentos que a ele me prendiam.
Vi-o contorcer-se aterrado diante do enxame negro de inimigos que o rodeavam, dispostos a infligir-lhe todos aqueles tormentos já descritos por Mauffen.
Todavia, minha presença ainda os continha e lhes paralisava os fluidos estonteantes e enegrecidos pelas paixões efervescentes.
"Pai"! ouvi dizer como através de um sopro agoniado, saído do coração do ingrato, sempre covarde ante a evidência do perigo e do sofrimento.
Recebi um choque doloroso:
aquele mesmo sonido vibrando no espaço me escravizara, outrora, ao ser ingrato.
Eu o deixara lactante e quando regressava de longa excursão, encontrei um menino de três anos, louro e lindo como um anjo, que me estendeu os bracinhos e balbuciou esse nome...
O que só me cumpria, então, era amar o locutor desse nome e concentrar nele todas as esperanças de minha vida.
E sempre essa palavra - Pai por ele pronunciada, na alegria como na aflição, me havia exaltado até a cegueira.
Naquele momento em que pretendia entregá-lo inerme ao furor dos inimigos, essa palavra abalou todas as fibras do meu ser e despertou a lembrança do passado.
Então, como agora, eu era forte, ele fraco; da mesma forma que, em sua infância lhe protegera o berço que alimentava o coração paterno, assim também agora, o espírito imbele, imperfeito e acovardado ante o sofrimento, nada era, nada valia sem o sustentáculo da minha férrea vontade, que aquietava os seus inimigos.
Temendo, porém, minha fraqueza e resumindo, com a rapidez do pensamento, todos os agravos recebidos, revoguei todas as energias de minha alma e surdo aos lamentos desesperados do espírito de Kurt, alcei-me no espaço, enquanto os meus amigos cortavam o último elo que a ele me prendiam.
Cerrada coluna de Espíritos inimigos se abateu sobre o ingrato atirando-lhe injúrias, exprobrando-lhe a covardia.
Depois o arrebataram espaço a dentro, para que visse os sofrimentos que causara.
- Posso trabalhar na erraticidade? - perguntei ao meu Guia.
A verdade é que muito sofro sob a lava de minhas paixões ardentes.
Respondendo o Guia afirmativamente, lancei-me ao infinito, deixando a atmosfera planetária para engolfar-me no turbilhão rotativo da eterna actividade cósmica, onde não havia tempo de pensar em mim mesmo.
Estranha força me fez parar de súbito e me atraiu.
Senti que o perispírito se me adensava e ouvi uma voz que dizia:
- Todos já se passaram, chegou a hora do julgamento. Vamos!
Era a voz do Guia:
Caminhei com dificuldade, sensivelmente comovido pela aproximação do momento solene, cuja gravidade mal podia conhecer.
No ambiente pardacento que me envolvia, surgiam vultos de todos os lados, cada qual com sua auréola mais ou menos ludificada ou depurada.
Silhuetas monacais, cabeças tonsuradas, mãos desfiando rosário, passavam e repassavam mudas, e sutilmente.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:22 pm

Meu perispírito estremecia, o quadro me impressionava:
Por quê? - não era um cântico religioso que me timbrava os ouvidos, embora não visse lábios entreabertos que o justificassem?
Dominei a emoção e concluí que eram as reminiscências de seus pensamentos que produziam aquele som, pois no mundo espiritual toda vibração etérea produz um som harmonioso.
Vendo-se subitamente agregados em coluna cerrada, marchando como quando encarnados, os irmãos beneditinos se haviam lembrado dos seus cânticos.
À sua frente flutuavam três entidades:
Eulenhof, Benedito e Sanctus.
Silenciosa, a nuvem compacta de monges me precedia.
Curvei a cabeça, considerei: sim, eu era o chefe daquela comunidade criminosa - Os Irmãos Vingadores!
Nesse instante, defrontou-se-me uma entidade cuja presença me proporcionou grande alegria, não por ver compartilhada minha responsabilidade, mas por tornar a ver um velho amigo:
António, eixo e centro de todas as tramas que me haviam arrastado à senda criminosa.
Doutro lado se reunia, silente, um segundo cortejo, à frente do qual distingui Mauffen, Rosalinda, Loevenberg, Kurt, o anão e tantos outros.
Conduzidos pelos Guias alvinitentes, que flutuavam em plano mais elevado, esses espíritos avançaram para o círculo radioso onde se decreta a pena de talião:
- Não faças a outrem o que não queres que te façam; a clemência de Deus te faculta reparar tuas faltas, mediante novas encarnações.

(1) Nota do autor - O espírito desse Bonifácio foi mais tarde o famigerado Duque d'Alba.
Evoluído e graduado pela expiação e arrependimento, perdoou o seu algoz e, na última encarnação de Kurt de Rabenau, ofereceu-se voluntariamente para auxiliá-lo como espírito familiar.
Infelizmente, Kurt permaneceu egoísta, desalmado e libertino durante seiscentos anos, assim falindo em sua provação.
Isto, porém, em nada afecta o mérito do perdão do ofendido.


(1) Nota do autor espiritual - Pode-se assim permanecer por algum tempo, depois de seccionada a artéria cerebral, continuando em função a cordial, que aparece posteriormente e, rápida, avermelhada, se desdobra qual serpente de fogo.
Este cordão fluídico é o primeiro que adere à matéria e o último que se desliga com a morte.

(Nota do tradutor) - Vale considerar como concordam estas observações com o que nos diz o espírito de André Luís, em OBREIROS DA VIDA ETERNA, através do médium Francisco Cândido Xavier.
A artéria cerebral a que alude Rochester é bem a caixa branca de que nos fala o outro e não há como esquecer que este livro foi ditado há mais de 60 anos.


(1) O dom da memória, meu caro médium, não te enganou.
Esse espirito tão activo e infatigável no aliviar os sofrimentos dos encarnados, é mesmo o de Paré.

(Nota do espírito do autor).
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:23 pm

EPÍLOGO

O sol poente dourava a copa das árvores e projectava reflexos avermelhados na clareira de um bosque, onde um homem pálido e extenuado repousava à sombra de frondoso carvalho.
Uma harpa, ao lado, indicava o bardo.
Fazia-lhe companhia, igualmente extenuado, um rapazola franzino, mas de beleza invulgar.
Súbito acesso de tosse sacudiu o bardo enfermo e uma golfada de sangue lhe aflorou nos lábios.
- Filho querido! - murmurou afagando-lhe a cabeleira anelada com a destra descarnada e trémula - quanto me custa deixar-te sozinho neste mundo e quiçá sujeito a morrer de fome...
Ó Deus, tem piedade do pobre órfãozinho!
Isto dizendo, recaiu sobre a relva, estertorante, cerrou os olhos para sempre...
Daí a pouco, ouviram-se passos, estalidar de ramos e do âmbito da floresta surgiu um ancião de longas barbas brancas, em trajes de peregrino.
Vendo o rapaz debulhado em lágrimas, aproximou-se e procurou saber o que ocorria; e tanto que o soube, ajoelhou-se e orou pelo morto.
Depois, com a faca que trazia, cavou a sepultura e enterrou o corpo, levando consigo o rapaz e procurando, quanto possível, consolá-lo.
Esse adolescente se fez companheiro devotado e fiel do peregrino, que, solitário no mundo, se entregara à tarefa de assistir aos pobres, cuidar dos enfermos e enterrar os mortos.
O adolescente cresceu, tornou-se homem e ficou ligado ao peregrino que, ao demais, perdera a vista.
Tendo aprendido a tocar harpa - a única coisa que lhe deixara o pai - graças a inata vocação, arrancava do mélico instrumento harmonias empolgantes.
Assim, de olhos sonhadores, guiando e amparando o velho, iam os dois de pouso em pouso, inspirando simpatia e compaixão.
Mais de uma beldade se enternecia e enamorava do jovem músico idealista, mas não houve tentação que o separasse do grande amigo, e todo o dinheiro ganho era generosamente distribuído com os pobres e os enfermos.
Dessarte, onde quer que chegassem, semeavam benefícios.
Dobraram anos, até que um dia se detiveram ao sopé de um rochedo em cujo cimo se ostentava, imponente, velho mosteiro cercado de muralhas dentadas.
Algo distante, coroando outro rochedo, outro convento se erguia, não menos imponente.
- Pai! - exclamou o jovem harpista - que pena não poderes contemplar esta paisagem...
Intima tristeza o empolgou, tristeza que não podia explicar.
Ajoelhou-se à beira da estrada e chorou, imaginando coisas que lhe pareciam quiméricas.
- Filho de minha alma, que tens? - interrogava, tacteando, o ancião aflito.
Como que despertado pela voz do companheiro, o rapaz ergueu-se, enxugou as lágrimas, deitou magoado olhar ao mosteiro e tomando a mão do amigo cego, seguiram seu caminho.
Dias depois, cansadíssimos de longa caminhada e já ao cair da noite, ei-los à cata de um abrigo onde pudessem pernoitar.
- Estamos longe do povoado e tu estás cansadíssimo, meu pai - disse o rapaz, caridoso, fitando o rosto do cego; mas, logo circunvagando o olhar, percebeu, no alto de um rochedo, velho castelo cujas paredes em parte derrubadas, indicavam ter experimentado rigoroso assédio.
- Faz esforço, pai, pois ali temos, perto, as ruínas de um castelo e certo encontramos, por lá, onde passarmos esta noite.
Abrindo caminho entre silvas, espinheiros e blocos de pedra, galgaram a colina e foram directo a um torreão, dentro do qual se lhes, deparou espaçoso abrigo.
Após ligeira e frugal refeição o velho fez de uma pedra travesseiro e, mãos cruzadas ao peito, adormeceu suavemente.
O rapaz continuou assentado em atitude meditativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:23 pm

O luar magnífico, derramando-se naqueles escombros, desenhava figuras fantásticas nas paredes arruinadas.
O bardo levantou-se, por fim, e sem medir o perigo que arrostava, galgou estreita janela, de onde contemplou extasiado o panorama que se desdobrava na planura, a perder de vista.
Novamente empolgado por angustiosa tristeza, voltaram-lhe as lágrimas quentes e abundantes.
- Ah - murmurou - se eu pudesse fundar aqui um hospital e cuidar dos enfermos, para que meu pai não mais andasse a procurá-los por toda parte...
Que belo sítio!
A verdade, porém, é que os soberbos fidalgos não viram como eleger neste local, e nesta soberba mansão, um abrigo para os infortunados da sorte...
Como que tomado de súbita inspiração, foi apanhar a harpa e, assentando-se no peitoril da janela, olhos fitos no céu enluarado, pôs-se a cantar e dedilhar melodias tão tristes quanto a própria alma do que se chamara outrora Lotário de Rabenau.
De repente, estremeceu e parou:
um vulto branco flutuava, oscilante através das grades!
Atravessando-os depois, passou-lhe ao lado quase o tocando.
Esta sombra nebulosa desceu da torre e se deteve sobre um montão de escombros.
Condensando-se depois, tomou aparência feminina.
Um cicio de voz em carícias brandas de zéfiro, feriu-lhe os tímpanos, dizendo:
"Escava aqui, levanta a grande laje e desce a escada que leva ao tesouro."
Esvaneceu-se a visão. Teria sonhado?
Esfregou os olhos, saltou do peitoril.
"Não importa, hei-de procurar".
Tomando uma tocha e fixando-a entre duas pedras, começou a revolver o entulho com ardor febril.
De começo, não encontrou mais que pedra e barro.
Cansado, suarento, não se deixou abater pelo desânimo, até que deu com o pé num argolão de ferro.
Agarrou-o com força, procurando erguê-lo, e não tardou que um ah! de satisfação lhe brotasse dos lábios, ao ver escancarar-se um alçapão e uma estreita porém sólida escada.
Tomando a tocha, desceu resoluto e foi esbarrar em maciça porta de ferro.
Com a ponta da faca escarafunchou a fechadura algo carcomida pela ferrugem e acabou abrindo-a e penetrando no subterrâneo intacto.
À luz oscilante da tocha reverberavam, em brilhos policrómicos, os famosos tesouros dos condes de Mauffen!
Tempos depois, o jovem bardo defrontava o prior dos Beneditinos, procurando adquirir o velho solar, cujos alicerces desejaria aproveitar para construir um hospital.
As ruínas que, em nada aproveitavam ao convento foram, a título gratuito e de bom grado, cedidas ao proponente, que, não obstante, pediu licença para compensar a doação, oferecendo à comunidade alguns saquitéis de ouro, que depositou sobre a mesa.
- Filho - disse o abade - de onde tiras esta soma tão vultuosa para um simples menestrel?
- Das nossas economias - minhas e de meu velho pai - a fim de realizar o único ideal de toda a minha vida. aquela mansão isolada e abandonada foi o que de melhor encontramos, por felicidade nossa.
Soubemos que era propriedade desta confraria e eis como e porque aqui me tendes em vossa venerável presença.
- Muito bem! - concluiu o prior - grandiosa é a tarefa que te impõe, e que Deus te ajude.
Entregando a dádiva ao tesoureiro, passou às mãos do postulante o título de propriedade.
A breve trecho, o sítio ermo se transforma em colmeia de trabalho activo:
restauravam-se muralhas e apartamentos, escadas e galerias, de sorte que, do vasto hospital ninguém poderia presumir o que fora o tradicional castelo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 31, 2016 8:23 pm

Doentes também no lhe faltaram, mas o jovem fundador mostrava-se triste, apreensivo, sobretudo depois da morte  do velho companheiro.
A enorme fortuna de que dispunha lhe tirava o repouso; íntima, terrível luta lhe transparecia no rosto; a única distracção que ainda o satisfazia era visitar as redondezas.
Um dia, passeando a cavalo, acompanhado de um velho soldado que mantinha a expensas do seu bolso, viu à margem da estrada grande jaula de ferro e dentro dela, acorrentado, um homem da sua idade mais ou menos, cujo semblante estereotipava indizível angústia e sofrimento.
O infeliz, vendo-o, atirou-se às grades da jaula, gritando:
- "Pai! Meu pai!"
- Ora essa! - disse o jovem filantropo empalidecendo.
Quem é esse homem?
E o coração lhe pulsava com violência, sem despregar os olhos do estranho personagem.
- Senhor ! - interrompeu o velho soldado - saiba que se trata de um pobre escultor, possesso do demónio.
Certa feita, chamado a restaurar algumas peças de rico castelo que pertenceu a ilustre família do século passado, isto é, dos condes de Rabenau, estalou grande tempestade e uma faísca eléctrica destruiu a porta do quarto onde ele trabalhava; começou, então, a saltar, tomando o nome de um Rabenau e querendo, à viva força, tomar conta do castelo.
Cada vez mais furioso e indomável, foi assim enjaulado e aqui vive do que lhe dão os transeuntes apiedados.
Às vezes, dá-lhe para atribuir nomes estranhos a quem dele se aproxima, e assim é que, ainda há pouco, vos chamou de pai.
O bardo mergulhou em profunda meditação. Em seu íntimo colidiam estranhos sentimentos de ódio satisfeito e de comiseração incoercível.
Esporeou a montaria e não olhou para trás.
A partir desse dia, entretanto, não teve mais um minuto de tranquilidade, perseguido pela imagem do pobre enjaulado.
De vez em quando, assaltava-lhe o desejo de o libertar secretamente, mas logo experimentava estranho rancor, a si mesmo perguntando como e por que um tal saloio se julgava ilustre fidalgo e citava nomes desconhecidos.
Uma noite de céu carregado e atmosfera abafadiça, dois homens tripulando uma carreteira carregada de sacos, que pareciam de farinha, deixavam discretamente o hospital.
Eram, não mais nem menos, que o bardo e o velho soldado, que fugiam levando uma parte dos tesouros.
A tentação do mundo, com a liberdade de o gozar, era muito grande e acabou por triunfar.
O moço idealista e generoso tinha sucumbido à tentação.
Pela direcção que tomaram, não podiam deixar de passar pelo sítio onde se encontrava a jaula.
E o grande caso é que por lá passaram justamente no momento em que o pobre prisioneiro gemia de cortar o coração.
O menestrel parou a carreteira e, saltando ao solo, disse com voz opressa, enxugando o suor que lhe escorria do rosto:
- Pelo menos a liberdade eu te darei...
Com esforço sobre-humano vergou uma, duas, três, barras da jaula, e arrancou para fora o prisioneiro.
- Toma esta bolsa e safa-te quanto antes!
O desgraçado, porém, oito anos enjaulado, não sabia nem podia compreender e aproveitar a oferta.
A bolsa rolou por terra e ele, abraçado aos joelhos do seu libertador, continuava a gritar:
- pai, meu pai!
A princípio, o rapaz procurou repeli-lo; mas, de repente, comoveu-se e começou a chorar; inclinou-se e disse:
- pois então vamos, desgraçado, porque eu também, um dia assim fui libertado e Deus não me abandonou.
Tomou nos braços o corpo esquelético, acomodou-o na carreta e fustigou os cavalos.
Horas depois, ei-los chegados à margem de grande lago.
Do outro lado, coroando o rochedo, avultava o perfil sombrio do Mosteiro beneditino.
Uma barcaça os esperava.
Nela embarcados a carga e o louco, os dois homens começaram a remar.
Singrando as águas que o vento encrespava prenunciando o temporal, ouviram-se longínquos os primeiros ribombos do trovão e a luz dos relâmpagos intermitentes deixava entrever, à distância, a silhueta negra do castelo de Lotharsee.
O louco, muito agitado, tapara os ouvidos e mergulhara a cabeça entre os joelhos do seu libertador, e a repetir:
"Pai, outrora foi também assim...
Súbito, um raio fendeu o manto negro da noite, a embarcação estalou e o velho militar exclamou aterrado - Nossa Senhora, lá se foi o patrão!
O corpo, ao tombar, emborcou a embarcação, entregando às águas profundas a carga e os tripulantes.
O velho soldado, bom nadador, tomou o louco e conseguiu ganhar a margem, onde alguns monges atraídos pelos gritos de socorro, os receberam com generosidade.
O louco, porém, volveu à jaula, pois era evidente que estava possesso do demónio e o velho soldado chegou a jurar que fora essa a causa única de tamanha desgraça.
Quando os raios do sol nascente aclararam a superfície calma das águas, viu-se um corpo emaranhado nos caniços da margem e as ondas prateadas embalavam uma bela fronte de anelada cabeleira, que parecia pedir a esmola de uma cova para o fundador do hospital.

ROCHESTER

§.§.§- O-canto-da-ave


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