Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:16 pm

Esperar, quando cada dia me parecia um século?
Nova tentativa para franquear o convento, novo fracasso.
Ao regressar dessa nova investida, o cavalo que montava espantou-se, corcoveou e caí, luxando um pé.
Assim me recolhi ao castelo e lá permaneci três semanas acamado.
Logo que me restabeleci, fui procurar o duque e, como não podia fazer-me anunciar, senão pelo nome de Ângelo, negaram-me a entrada.
Vali-me, então, do anel; um pajem o levou e dentro de poucos minutos me defrontava a sós com o árbitro do meu destino.
Entre atemorizado e curioso, fixei o homem que considerava meu pai e de quem dependia a minha salvação ou a minha perda.
O duque mantinha-se de pé carrancudo, a examinar o anel.
Quando entrei, voltou-se e encarou-me desconfiado.
- Quem vos deu este anel?
O coração me pulsou violento e respondi, tímido e respeitoso:
- Sou filho ilegítimo da condessa Rosa, mulher do falecido conde Bruno de Rabenau, e...
- Mentes! - gritou, lívido, recusando - a condessa de Rabenau nunca teve filhos espúrios!
Eu me sentia mortalmente atingido no meu orgulho e revidei com amargura:
- Alteza! não estou aqui para que me reconheçais, pois sei que minha vida ou minha morte jamais vos interessaram; mas, trata-se de Nelda, uma segunda filha da condessa e que, certamente, não desconheceis.
Pois bem: essa menina está no Convento das Ursulinas e quer professar, por motivos que ignoro.
É por ela que venho interceder, para que a livreis de tão ingrato futuro.
Sua alteza tornou-se violáceo e deixou-se cair na poltrona, exclamando com voz estentórica:
- Nelda, filha da condessa!
Será possível?
- É a pura verdade, que a prioresa poderá confirmar, pois foi ela quem mo revelou, dizendo-me ser possuidora de valiosos documentos a esse respeito.
Um rugido de cólera lhe escapou da garganta.
- Ah! É isso?
A miserável intrigante!
Ela soube que eu sou seu pai!
Que fiz eu, ó Deus?
Mas, essa não era a minha intenção...
Afundou a fronte nas mãos e compreendi, num relance, que algo de horrível se passara entre Nelda e o duque.
- Que fizestes - exclamei fora de mim - sinto, sei que a seduziste, não é assim?
- Sabeis... - murmurou, como confirmando.
Num ápice, a respiração me faltou, as pernas fraquejaram, mas a raiva triunfou:
- Bandido, infame, eu te arrancarei a máscara perante o mundo, para que saibam todos quem é essa abadessa e o duque seu comparsa!
Desesperado, ele tirou do cinto um apito de ouro e soprou forte.
A sala regurgitou de escudeiros e pajens.
- Prendam esse louco que se atreve a insultar-me!
E antes que me pudesse defender, mãos de ferro me subjugaram, me trancaram num quarto, ou antes, numa sala abastecida de ricos, porém velhos móveis, e aclarada por uma única janela gradeada.
Exausto de alma e contundido de corpo, deixei-me cair numa poltrona.
Que lucrara, afinal, com aquela tentativa?
Que destino me estaria agora reservado? Veio a tarde, caiu a noite, ali fiquei mergulhado em treva, até que uma chave rangeu na fechadura e apareceu alguém.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:16 pm

Aproximou-se da mesa, acendeu a candeia e tirou de sob o manto uma botija de vinho, pão e um naco de carne; depois, sem dizer palavra, retirou-se.
A fome e a sede instavam, não recusei a provisão e entrei, depois, a divagar na velha poltrona.
Estranho torpor me invadiu todos os membros e mergulhei num sono de pedra, para só despertar tragicamente.
Sim, porque, quando abri os olhos, depois de um tempo que não poderia precisar, estava justamente numa cela e vestido de monge!
Dei um salto desvairado, atirei-me à porta. Fechada!
Encostei-me à parede, aniquilado, e foi quando me veio à mente a predição de "Pai" Bernardino, no episódio do cemitério.
"Também vestirás a roupeta", dissera ele, e o vaticínio ali estava na expressão de crua realidade!
E não por minha vontade, mas por desespero.
Sim, o desespero, a imprudência, me desvairavam.
Compreendi que estava perdido.
Procurando acalmar-me, verifiquei que o hábito que trazia era de noviço e concluí que não teria pronunciado votos quaisquer, no estado de inconsciência.
Logo, ainda era tempo de resistir, tentar a fuga, se possível, ocultando-me junto do Sr. Teobaldo, para só me dedicar ao trabalho e ao estudo.
Aquela estreita, sombria cela me abafava; era preferível perder tudo, antes que a liberdade.
Mas, que fizera, afinal, para merecer tamanha desdita?
Onde a justiça divina?
Onde esse Deus protector dos inocentes?
Terrível furacão se me desencadeou na alma e rugiu, surdamente, contra Aquele a quem se atribuía o direito de regular os destinos humanos!
E era a ele, a serviço dele, que cumpria sacrificar minha vida!
Tudo mentira, então?
A maioria dos homens ali reunidos, segregados da sociedade, riscados do número dos vivos, condenados a aniquilar sentimentos humanos, eram vítimas - bem o sabia - das quais o mundo procurava desembaraçar-se habilmente, depois de lhes haver arrancado o coração com mil torturas morais!
E todas essas vítimas deveriam reunir-se ali para servir a Deus e entoar louvores; para dominar todas as paixões, do corpo e da alma, em nome desse verdugo invisível, cuja requintada crueldade ia ao extremo de nos tirar o senso de sua compreensão!
Assim conjecturando, todo um inferno me borbulhava na alma; eu era justo um daqueles anjos revoltados contra o Criador.
O ruido da porta que se abria me cortou os pensamentos.
De pé, na ombreira, divisei o vulto esguio e negro de um monge embuçado, tendo na mão uma lâmpada.
Pela cruz de ouro que lhe pendia do peito, identifiquei o prior!
Colocou a lâmpada em cima da mesa e caminhou até junto de mim, de braços cruzados.
Pupilas incendidas, mergulhou no meu o seu olhar, e esboçando estranho sorriso, falou em tom de superioridade:
- Pobre louco, estou adivinhando na expressão do teu semblante, que vim interromper uma declaração de guerra a Deus e aos homens:
fica sabendo, então, pobre criança duplamente louca, que nada podemos contra imperantes do Céu e da Terra.
E agora, filho, acalma-te e escuta o que te vou dizer, não como a uma criatura a mercê do meu arbítrio, mas a um ser consciente e racional.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:17 pm

Não estás aqui por minha ordem, nem por minha vontade, crê; mas, empenhado na tua conversão e aceitação, todos os recursos que empregar, neste sentido, estão de antemão justificados.
Fora destes muros, serás sempre a lebre contra a qual se açulará a matilha, visto que tiveste a imprudência de te identificares como fruto de um erro da mocidade - e os potentados da Terra querem ser infalíveis.
Além disso, difamaste o Convento das Ursulinas, desvendando um crime odioso...
Evidente, pois, que o duque e a abadessa não te darão tréguas, até que consigam aniquilar-te.
Aqui, ao invés, membro da comunidade, o hábito te dará uma posição definida, terás independência; a estima, o conceito público te abrirão todas as portas, o confessionário te devassará as consciências, mesmo as mais culposas.
Sei que és inteligente, que tens sólida instrução e, nessas condições, poderás superar três quartas partes dos monges aqui congregados.
De mim, somente, dependerás, de mim, teu abade, que sabe prezar em cada qual os dotes intelectuais e a linhagem social.
Aos imbecis, eu costumo punir com o jejum e a prece; aos inteligentes, porém, reservo a persuasão e eles se dobram, voluntariamente, ao regime monástico.
É meu dever designar-lhes tarefas condignas de suas necessidades espirituais, que lhes evitem o desânimo e o desespero.
Meus irmãos inteligentes não são meus escravos, mas combatentes conscientes, em pé de igualdade comigo, pelos direitos de nossa comunidade.
E agora pergunto: queres submeter-te livremente ao inelutável, não para me satisfazer, mas para te poupares a torturas que me repugna infligir?
Eu estava fascinado:
tinha-me enganado a respeito daquele homem, que acabava de evidenciar tão perfeito conhecimento do coração humano.
Mas, aquela voz metálica, aquele olhar coruscante, seriam bem dele?
Não; eu não estava enganado; a espessa barba negra, os olhos acerados eram bem dele; somente havia emagrecido, como verificava pela mão apoiada à mesa, aliás autêntica mão de prelado, branca, dedos afilados.
- Submeto-me - acabei por dizer sem hesitação - pois reconheço que tendes inteira razão.
- Muito bem, meu filho - a biblioteca fica-te desde já franqueada e lá encontrarás tudo que a ciência e a história nos têm oferecido até hoje.
Lá, teu espírito encontrará lenitivo e remédio para esquecer.
De resto, ainda voltaremos a falar do assunto.
Deu-me a bênção e saiu.
Olhos pregados na porta, fiquei a considerar a impressão que acabava de receber, comparada à do nosso primeiro encontro.
Quem poderia, então, presumir que ainda houvesse de render-me ao fascínio daquele homem, só pelo timbre da voz e do seu profundo bom senso?
Podia ser que se mostrasse assim, outro, diante de irmãos noviços, mas o certo é que tudo quanto me havia dito era a pura verdade.
Sentindo-me aliviado, estendi-me no estreito e duro catre e adormeci profundamente.
No dia seguinte, colocado entre os noviços, com eles fui ouvir a missa na magnífica igreja do convento, e lá o que meus olhos buscavam não era o seguimento do ritual, nem as magnificências do templo, mas, o prior, até que o lobriguei assentado numa cadeira alta, a fronte pendente, na atitude de quem ora.
Comecei a compará-lo mentalmente com o entrevistado da véspera e conclui que era o mesmo homem.
Também não avistei Benedictus, e quando perguntei por ele, disseram-me que estava na enfermaria, privado de visitas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:17 pm

Um dia, mais tarde, fui à biblioteca e lá encontrei tesouros de consolação.
Depois, achei um grande volume fechado a cadeado e com sobreposta papeleta que dizia:
para ser lido pelo irmão Ângelo.
Ao lado, a chave.
Abri, sôfrego, e qual não foi minha alegria, reconhecendo que se tratava de raríssima quão preciosa obra de Alquimia e Magia.
Todo um cabedal suficiente para absorver e nutrir as faculdades espirituais.
Escusado dizer que me embriaguei dessa leitura, só interrompida para cumprir os deveres da vida monacal.
Ainda assim, não descurava os problemas que entrevia a cada passo, no meu estudo, só lastimando a falta de um laboratório, que me ensejasse experimentar e resolver alguns problemas da ciência fascinadora.
Diante da minha exemplar conduta, o noviciado foi breve e não se fez tardar o dia solene dos votos.
Não tive outra ocasião de falar a sós com o prior, mas, devo confessar que a austera cerimónia que me despojava de todos os direitos sociais, para só me conferir o hábito e o nome de Pater Sanctus, não me causou maior abalo.
Depois de receber a bênção do prior e os cumprimentos da confraria, recolhi-me à cela, na companhia de Benedictus.
Lá, quando a sós, abraçamo-nos e já não pude conter o pranto, relembrando a liberdade perdida.
Recapitulei nossa primeira viagem e a penosa impressão que me causara o panorama do mosteiro.
- Pobre amigo - disse ele, apertando-me a mão - também tu aqui estás, compelido pela sorte impiedosa, mas não ficaremos absolutamente abandonados e juntos haveremos de matar o tempo.
- Que te parece o nosso prior, Benedito?
- Cala-te!
Aqui é preciso muito cuidado com as nossas opiniões.
Nosso abade é uma esfinge - prosseguiu em surdina - dir-se-ia que há nele duas almas no mesmo corpo:
ocasiões há em que a entonação da voz, gestos, olhares parecem transfigurá-lo; astucioso, de uma argúcia genial mesmo, ele é, não obstante, bondoso e delicado, se bem que muitas vezes por cálculo.
Mas, mudemos de assunto.
- Então, diz-me:
continuas firme nos teus planos de vingança?
- Se continuo, meu Ângelo.
Mas, noto que só abordas assuntos perigosos.
Desses falaremos depois, à vontade, no laboratório.
- Um laboratório aqui?
- Pois então? mas olha que te repito: cuidado.
A tempo tudo saberás.
No dia seguinte, durante os ofícios nocturnos, Benedito me segredou no ouvido:
- Quando todos saírem, deixa-te aqui ficar atrás de qualquer coluna.
Terminado o ofício, deslizei à sombra de um confessionário e esperei que o último irmão retirante fechasse as portas do templo.
Pouco a pouco, à luz escassa da pequena lâmpada que piscava diante do altar-mor, comecei a perceber sombras a deslizarem entre as colunas.
Benedito não tardou.
Trazia na mão uma espécie de capuz e foi dizendo:
- Toma, veste.
Era um amplo poncho de lã, tendo apenas duas aberturas para os olhos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 19, 2016 7:17 pm

Igualmente embuçado, convidou-me a segui-lo.
Encaminhou-se para o altar-mor, ali apanhou qualquer coisa que não pude ver e aproximou-se de uma das grandes colunas que sustentavam a nave.
De repente, grande brecha se abriu no fuste.
- Agarra-te ao meu hábito e conta até 27 - disse, enfiando-se pela abertura.
A passagem se fechou sem ruído e nós descemos vinte e sete degraus, em completa escuridão.
Meu guia parou diante de uma parede, bateu, e um som metálico se fez ouvir.
- Quem é? - perguntaram do outro lado.
- "Irmãos vingadores" - respondeu Benedito.
- Aonde ides?
- Ao purgatório.
Abriu-se estreita porta-falsa e penetramos num pequeno subterrâneo arredondado, escassamente iluminado por uma lamparina, que mal deixava entrever um colchão de palha, pequena mesa e, sobre ele uma bilha d'água e pão.
Circunvagando o olhar curioso, notei que a porta se havia fechado de tal sorte que não deixava traço.
Ninguém diria houvesse naquela cripta qualquer saída.
- Entrai, irmão - disse um velho gordo, de longas barbas brancas.
Pelo que vejo, temos um noviço?
- É verdade - respondeu Benedito.
O velho nos entregou duas tochas; e, quando acabei de acender a minha, vi que outra porta estava aberta atrás de nós.
Saímos por ela e depois de percorrer escadas e corredores, que me pareciam intermináveis, fizeram-nos parar diante de outra porta, onde vários homens embuçados nos pediram a senha.
Essa porta dava para extenso corredor, que desembocava em pequena sala completamente vazia.
Aí nos detivemos e logo uma voz, vinda não sei de onde, repercutiu no ambiente.
- Sim, ainda que a custo da própria salvação - respondi sem hesitar.
- Deves, então, nomeá-los sem temor.
Vacilei um instante, mas logo com firmeza:
- Quero vingar-me do potentado que me negou sua paternidade; da mulher que me gerou e renegou, se ainda for viva; e da madre abadessa das Ursulinas.
- Perfeitamente, mas diz:
poderás fazê-lo independente de qualquer auxílio?
- Não.
- Precisas de aliados, então?
- Sim, de facto.
- Queres, então, prestar o juramento de aliança aos "Irmãos Vingadores"?
Eles te ajudarão, mas sabe que o pacto é de auxílio mútuo.
- Nada mais justo.
- Irmão Benedito - disse a voz oculta, leva-o ao "purgatório."
Benedito acercou-se de uma porta que tinha esculpida uma caveira e vários sinais cabalísticos.
Quando essa porta se abriu, fiquei maravilhado!
Era um salão enorme, fartamente iluminado; tendo ao centro um altar forrado de veludo encarnado e sobre ele um crucifixo de ouro encimando um coração crivado de flechas e um grande livro aberto.
Ali estavam congregados perto de cem indivíduos, todos embuçados, como nós.
Atrás do altar, assentado num tamborete, um personagem igualmente mascarado, no qual supus reconhecer o prior.
- Ouve as condições do juramento - começou dizendo o suposto chefe.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:44 pm

Vais jurar, não por Deus, mas por tua honra; certo, porém saibas que o perjúrio a qualquer tempo te custará a vida, às mãos de qualquer destes irmãos conjurados que te ouvem o juramento.
Se entre eles encontrares um inimigo mortal, poderás provocá-lo a duelo de morte, perante nós; mas não poderás, nunca, em caso algum, utilizar contra ele os recursos que a comunidade te vai facultar.
Agora, ajoelha-te e ouve a fórmula.
Ajoelhei-me, calado, e ouvi:
"Todo aquele que aqui jura sobre este coração trespassado, deve, fitando-o, considerar seu próprio coração atravessado por mil flechas morais.
Recordando os próprios sofrimentos que o levaram a envergar o hábito, cada qual compreenderá o sofrimento de seus irmãos.
Agora, estende o braço e repete comigo:
"Juro, por meu coração torturado e por minhas angústias passadas, que pretendo vingar-me e infligir as mesmas penas que me causaram meus algozes, a saber:
- o duque, minha mãe e a madre abadessa das Ursulinas.
Juro igualmente que, a partir deste momento, pertenço de corpo e alma à "Vingança"; mas nada podendo fazer por mim, só, invoco o auxílio dos irmãos aqui reunidos, para que mo prestem moral e materialmente, até que possa realizar meus fins.
Em compensação, lhes hipoteco a todos em geral, e a cada um em particular, a minha pessoa física e moral, considerando-me desde já desligado do juramento de castidade imposto ao padre e ao monge, permitindo-se-me, para atingir meus desígnios, renovar relações com o mundo feminino.
Da meia noite ao primeiro cantar do galo, fico autorizado a usar trajes seculares, fora da Abadia.
Em tudo mais, me conformo e prometo dedicar o tempo aos interesses da comunidade, estimando na pessoa do chefe o mestre soberano, por obedecer-lhe as ordens, ainda que com risco da própria vida."
Esse juramento foi pronunciado em voz alta, breve e pausadamente.
- Muito bem - disse o prior - recebe agora o sinete da nossa confraria...
Senti na espádua agudíssima dor e não pude conter um grito.
É que dois monges me haviam subtilmente atingido pelas costas com um ferro em brasa.
Mas eu não podia mostrar-me acovardado.
Mordi os lábios, deixei que cuidassem da queimadura.
Depois, todos me apertaram a mão, repetindo: serviço por serviço, conte comigo.
Por último o prior, que me ofertou pequena chave presa a um cordão de ouro, dizendo:
- O cofre do convento fica-te aberto e podes nele tirar o de que necessitares; e quanto aos subterrâneos, também ficam à disposição dos irmãos para seus trabalhos e divertimentos.
Agora, vamos à ceia.
Benedito tomou-me o braço e penetramos num grande subterrâneo contigo ao primeiro.
No centro, a mesa fornida de rica baixela de ouro e servida por oito monges.
- Como? - disse admirado - pois há servos aqui?
- Sim - disse Benedito rindo-se - mas não há temer qualquer traição, pois são imbecis filhos da plebe, condenados ao cárcere por crimes comuns.
Em vez de lá apodrecerem, eles aqui vegetam sem esperança de rever jamais a luz do sol mas, ainda assim, satisfeitos porque comem, bebem, dormem...
Assentei-me ao lado do amigo e reparei que todos se regalavam, mas nenhum levantou o capuz.
A confraria guardava o jejum com o mesmo respeito que tinha à castidade, tal a profusão de boa caça, vinhos finos e excelentes compotas que ali se deparavam.
Terminado o repasto, a dispersão foi rápida.
O prior aproximou-se de Edgar e disse:
- Mostra os subterrâneos ao novo frade, para que tenha uma ideia perfeita da sua nova investidura.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:45 pm

Acenou com a mão amigável e desapareceu.
O amigo tomou uma tocha e disse satisfeito:
- Anda a ver que não somos dos menos ricos senhores do mundo, mas somos dos mais poderosos.
Percorremos uma galeria abobadada, na qual se deparavam, de um lado, inúmeras portas baixas.
Abrindo uma delas, Edgar me chamou a atenção para horrível calabouço mal aclarado por uma luz branquicenta, coada de exígua seteira.
Estranhos rumores nos chegavam, como que provindos do exterior.
Que é isso? - perguntei.
- Entra e verás.
Acompanhei-o. Abriu uma porta, subiu alguns degraus; depois, outra porta mais resistente e eu recuei!
À nossa frente se estendia vasta massa líquida, cuja superfície azulada pranteava-se aos revérberos do luar.
Compreendi que estávamos à margem do lago que banhava um lado da penedia.
Edgar cruzara os braços, absorto nos seus pensamentos.
- Aqui - disse esboçando um sorriso significativo - hei-de arrastar, um dia, o cadáver de Ulrich para atirá-lo nestas águas profundas.
Elas apagarão as manchas do sangue...
Há também por aqui um bueiro, que, destampado, acarreta a inundação.
Mas o processo é ao gosto dos juízes.
De qualquer forma é aqui que se aviam as encomendas e por isso chamamos cemitério a esta masmorra.
Além desta, temos três outras saídas para o lago.
Trata-se, como vês, de primitivas cavernas, posteriormente muradas, mas, com tamanha perfeição que se confundem com a própria rocha.
Em geral, estas construções são interessantíssimas, pela habilidade com que aproveitaram cada brecha e cada furna, articulando-as num tão vasto quão perfeito labirinto.
Dali passamos a outro subterrâneo, guarnecido de enormes estantes pejadas de pergaminhos.
Dispostas em círculo, inúmeras secretárias, todas numeradas, e algumas ocupadas por frades embuçados, lendo ou escrevendo.
- Esta é a sala do expediente, onde se fazem buscas, se escrevem cartas, se falsificam documentos e tudo mais que seja preciso, de vez que lá em cima não pode haver traço de qualquer actividade, senão religiosa.
Ali, naquele canto, à direita, estão juntas as nossas bancas de trabalho.
Estás vendo o teu número?
Sempre que algum irmão precisar de ti, depositará em tua mesa uma espécie de carta aberta, e ficas na obrigação de responderes com o teu conselho e parecer.
Eu me valho muito do N.º 52, personagem assaz inteligente, que me tem dado excelentes conselhos e, por sua vez, a mim costuma recorrer.
Finalmente, nestas caixas se encontram resumos biográficos de todos os irmãos, bem como os nomes de seus Inimigos e a lista das pessoas de suas relações na sociedade profana.
Tua história aqui ficará igualmente arquivada.
Assim, desde que encontres alguém que, por suas relações anteriores te possa auxiliar, escrever-lhe-ás e receberás todas as informações necessárias, porquanto nos cumpre ajudarmo-nos da melhor forma possível.
Aquele velho que viste lá na primeira cripta, bem como aqueles que nos pediram a senha, são confrades já saciados de vingança, que agora servem a comunidade com devotamento e discrição absoluta.
Aqui, por conseguinte, havemos de trabalhar pela nossa "vingança"; mas não hoje.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:45 pm

Agora, quero levar-te ao que chamarei paraíso dos teus sonhos, ou seja o laboratório, a fim de conheceres pai Bernardo, excelente criatura, que persegue a fabricação do ouro e acredita em almas do outro mundo, presumindo saber evocá-las.
Passamos, então, para uma caverna circular e enfumarada e que exalava um cheiro acre.
Grande forno, retortas, todo um arsenal de redomas e frascos de vários feitios e tamanhos.
O monge, de pé, junto da secretária, parecia absorto na leitura de massudo alfarrábio.
- Bom dia, Pai Bernardo - disse Edgar - e perdoe incomodá-lo, mas quero apresentar-lhe o amigo de quem lhe tenho falado.
O frade voltou-se e levantando a lâmpada me aclarou o rosto.
- Oh! surpresa! - era o mesmo que havia predito o meu destino!
- Ah! - exclamou ele sorrindo - sois vós?
Penso, então, que acertei; mas sede bem-vindo e dizei em que vos posso servir, com a condição de não interrogarmos o destino, pois é sempre melhor desconhecer o futuro.
Depois de o fitar com muita simpatia, dado meu inato pendor pelas coisas misteriosas e pela Alquimia:
- Meu padre, sou apenas um principiante, desejoso de aprender, e muito me agradaria tornar-me vosso discípulo e compartilhar vossas experiências.
Ele cruzou os braços e falou convicto:
- Meu filho, para aprofundar estas coisas a existência humana é muito curta; trata-se de uma ciência fascinante e fatal, visto que nos depara, continuamente, obstáculos insuperáveis; duvidamos das maravilhas que se ocultam atrás da cortina; e, contudo, a pontinha já erguida nos deslumbra.
A única coisa que podemos saber é que um fio ininterrupto conduz à verdade e que qualquer descoberta é penhor de outra descoberta.
Se o desejares trabalharemos juntos.
- Queres saber?
Meu inimigo morreu antes que eu pudesse vingar-me; agora, sacrifico minha vida para descobrir um meio de o atrair à Terra, de o ver, tocar e torturar com as minhas provocações.
Sabe, então, que tenho visto muitas dessas criaturas errantes, desconhecidas, e nunca a que procuro para desagravar-me.
E, contudo, devo ir até o fim, pois lá está consignado nas Escrituras e nos livros de Astrologia, que os mortos voltaram e foram tocados.
O que resta é o meio de os tornar visíveis e tangíveis.
Calou-se, pensativo, olhar perdido no espaço e Edgar me fez um sinal que traduzi por - vamos deixá-lo porque, neste particular, é um desequilibrado..."
Bastante intrigado estava quase a cortar a palestra nessa altura.
- Dizei-me por favor, pai Bernardo: excepto a ausência da alma visada, que mais pudestes obter do Além?
Conseguistes atrair outra alma?
- Apenas tenho podido atrair espectros de animais.
- E podereis dar-me uma só prova disso?
- De muito bom grado e até imediatamente.
Edgar quis interromper-me, mas eu o forcei a entrar numa gruta ao lado,
igualmente atravancada com aparelhos e utensílios de alquimia, inclusive um grande forno esbraseado e superaquecido.
- Veja - disse Bernardo - eis aqui três galinhas pretas, bem vivas, como podem verificar.
Vou colocá-las em cima desta mesa.
Tomando algumas brasas, colocou-as diante das aves, cujos pés e asas estavam amarrados, lançando-lhes uma pitada de pó branco, que logo se inflamou e projectou uma luz tão viva que mal podíamos fixá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:45 pm

Depois, estendeu os braços acima das galinhas e disse:
- criaturas inferiores, postas pelo Criador à nossa disposição, eu vos ordeno que chameis um ser da vossa espécie.
Extinguindo-se a chama, o frade aproximou a candeia e vimos que as aves estavam completamente imóveis, como que adormecidas, enquanto o operador as fixava de cenho carregado.
Também nós estávamos atentos e vimos, então, surgir uma quarta galinha em cima da mesa, preta como as outras e evidentemente viva!
- Reparem, é a sombra desta galinha que matei hoje de manhã - e apontava um tamborete.
Nele, uma galinha, morta e absolutamente igual às que estavam em cima da mesa.
Essa ave abriu as asas e, sem adejar, desdobrou-se em forma vaporosa, que se dissolveu no espaço.
Edgard, persignando-se, não se conteve:
- Bravo! - pai Bernardo, exclamamos a um só tempo.
Mas isso é o a b c da ciência que me absorve dias e noites; e, contudo, ainda não pude atingir meus fins.
Lá obtive este mesmo fenómeno com os gatos, por exemplo; mas, que me adianta isso quando o que procuro é a alma do inimigo?
Quanto a ti, meu filho, podes vir até aqui sempre que puderes e quiseres.
Não te faltarão livros.
Conheces o latim?
- Se conheço ...
- Tanto melhor, pois isso facilitará a tarefa.
E agora, muito boa noite, porque tenho de trabalhar até a madrugada.
A noite é sempre mais própria à invocação dos invisíveis.
Despedimo-nos e saímos.
- Curioso personagem - disse Edgar.
Sabes o que a mim me vaticinou?
- Que chegarias a te vingares?
- Sim - confirmou satisfeito - todos os meus algozes serão aniquilados.
Waldeck perecerá às minhas mãos; o património da condessa de Rouven pertencerá ao nosso Convento e... (nesse momento aprumou-se com orgulho) um dia a cruz de ouro brilhará neste peito.
Compreendes, Ângelo, o alcance dessas palavras?
Valem por ter um ceptro e uma coroa invisíveis; deter poderes quase ilimitados; ser prior e chefe da nossa organização secreta, tudo dirigir, ajudar a vingança de todos e gozar simultaneamente de toda a liberdade, nadando em ouro.
Isso é que é viver!
Oh! O mundo já me não desperta inveja nem saudades.
Simples cavaleiro de Rouven, eu não seria, nem mais nem menos que um senhor entre senhores, tão ricos e poderosos quanto eu.
Fiz, portanto, um alto negócio.
Uma só coisa não compreendo na profecia de Bernardo, quando me disse que "combateria e venceria o gigante pela traição do meu predecessor..."
Não sei quem possa ser o gigante.
Subimos pelo mesmo caminho que descêramos e, quando, quinze minutos mais tarde, deitado no meu catre recordava tudo que vira e ouvira, pareceu-me que sonhava e temi que o sonho se esvanecesse ao despertar.
No dia seguinte não vi Edgar, mas fui procurar pai Bernardo e lá passei algumas horas trabalhando.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:45 pm

Confesso que os novos labores científicos me absorviam a ponto de esquecer, por algum tempo, os meus planos de vingança.
De resto, não sabia como e por onde começar para atingir o duque.
Folheava, atento, as biografias dos confrades, mas só encontrei uma que me pareceu aproveitável, por se tratar de um homem que lhe merecera confiança, evidentemente depositário de altos segredos e que, em consequência de vil traição, fora encerrado no Convento.
Escrevi a esse homem e, em vez de responder, apresentou-se-me ele, uma noite, diante da secretária, dizendo:
Conheço-te, isto é, assisti ao teu nascimento, pois era então pajem do duque e sei, efectivamente, de muita coisa.
Tua mãe, quando desapareceu, tinha vinte e cinco anos.
Casou-se muito jovem com o conde de Rabenau e quando se descobriu o segundo escândalo tu contavas sete anos.
Se, pois, estás agora com vinte e dois e ela ainda vive, deve estar beirando os quarenta.
Além da sua aventura com o duque, tinha ela outra ligação amorosa com um tal de Eulenhof que, por actos de felonia, suponho, perdera os títulos de nobreza e acabara fugindo.
O que ele fez no exílio só Deus o sabe; mas o certo é que um dia reapareceu e carregou com a condessa, sem que alguém jamais os visse.
Não obstante, deves agir com muita prudência, guardar absoluta reserva em tudo isto, pois o nosso prior é, ao que consta, irmão gémeo do tal Eulenhof.
Posso também acrescentar que o duque não é tão invulnerável como supões, visto que foi descoberto em suas correrias nocturnas pelos albergues de má fama.
Quanto à abadessa das Ursulinas, penso que deves deixá-la de lado, por enquanto, pois não vejo como atacá-la, sem provocar suspeitas.
Procura, apenas, saber se ela nada sabe da sua grande amiga Rosa.
Agradeci a informação e fui logo entender-me com Edgar, de vez que prometêramos não guardar segredo entre nós.
- Ouve-me - disse ele, depois de reflectir um instante - quando me contaste os pormenores da libertação de Maria, creio haveres mencionado o nome de Eulenhof.
- É verdade, mas o que não sei é como disso me esqueci inteiramente.
Amanhã mesmo estarei lá no albergue.
Nessa altura, lembrei-me de um incidente mínimo - um simples ah! da estalajadeira, quando viu o anel ducal.
Eu lhe dera uns trinta e cinco anos, mas nada impedia que tivesse mesmo os quarenta, em bom estado de conservação.
Depois, veio-me à mente o ascendente da sua autoridade sobre o aventureiro.
Ah! Se eu pudesse obter a chave do mistério...
Esse dia me pareceu interminável e, no dia seguinte, à tarde, dirigi-me ao prior e avisei que pela primeira vez queria realizar uma saída nocturna.
- Com que fim? - perguntou, calmo.
Visto que lhe era lícito saber tudo e ligado pelo juramento de sigilo absoluto, tudo lhe confiei, omitindo apenas, por delicadeza, o nome de Eulenhof, e só mencionando a estalajadeira.
Quando acabei a confidência, ele teve um gesto brusco e baixou a cabeça, meditativo.
Por fim, disse:
- Pois sim, filho:
podes sair logo que termine o ofício nocturno; pede ao n.º 13 a chave do guarda-roupa e somente não deixes de regressar à hora regimental.
Chegada a noite, meti-me na farpela civil e de barbas postiças, saí pelo subterrâneo que desembocava não longe da estrada em que demorava o albergue.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:45 pm

Caminhei lesto e não tardou a surgir no cruzamento da rota o casarão escalavrado, no qual, uma janela fracamente iluminada anunciava que a Estrela da Noite se mantinha aberta aos viajantes retardatários.
Uma velha mulher me abriu a porta.
Ninguém na sala. Um vulto feminino que, à primeira vista, me pareceu a estalajadeira, veio ao meu encontro, perguntando o que queria e logo reconheci meu equívoco, pois tinha a defrontar-me bonita mocetona de formas bem nutridas, por sinal, parecidíssima com a jovem Berta.
Diante do meu olhar agudo, ela baixou os grandes olhos negros e, quando lhe disse que desejava falar à dona da casa, suspirou com tristeza:
- Minha mãe faleceu há um mês e me deixou só aqui, pois meu tio levou o que possuíamos de melhor e não sei onde está.
Então, com o que restava de vinho e mantimentos, atirei-me à luta, auxiliada por minha mãe de leite, e vamos vivendo sabe Deus como.
- Desde quando essa tua ama de leite conhece tua falecida mãe?
- Gilda! - gritou - e logo apareceu uma velhota suja, vesga e antipática; a mesma que me abrira a porta.
- Às vossas ordens, - disse, fixando-me suspeitosa.
Dei-lhe um escudo de ouro que ela guardou com avidez e perguntei:
- Conheceste a mãe desta rapariga antes dela nascer?
Que sabes, enfim, a respeito de Berta, e dos seus antecedentes?
- Sem dúvida que lhe conheço a história, pois tenho cinquenta anos e ela quando teve a menina teria não mais de trinta e um.
Conheci-lhe o pai, que, por sinal, foi hoteleiro.
Berta, aos dezasseis anos, fugiu com um trovador; quando voltou, pediu-me que tomasse conta de Godeliva, visto que sua vida de aventuras não lhe permitia criar a pequena.
- Mas, tendo ela adquirido antes este albergue, como e por que não morava aqui?
- Esse é justamente o seu segredo.
Agora que ela morreu, não sei como, Deus a tenha em bom lugar.
- Mas, diga-me ainda uma coisa: quem era esse Eulenhof, seu auxiliar, seu braço direito?
- Ah! - explodiu furiosa - conheço bem esse patife, esse ladrão, espadachim de má sorte, que nos tem roubado e maltratado bastante.
E olhe que o seu cinismo vai ao ponto de intitular-se barão de Eulenhof, como se o nome e o título não fossem roubados a um senhor Eulenhof, de quem fora palafreneiro, que desapareceu após uma série de desgraças imerecidas.
Esse salafrário beberrão nunca foi nobre.
Queira, finalmente, perdoar esta minha exaltação ; mas a verdade é que o sangue me sobe à cabeça só com ouvir pronunciar esse nome.
A mulher falara torrencialmente e com tamanha convicção que eu não podia suspeitá-la de embusteira; provavelmente eu me enganava e seria loucura querer identificar, numa estalajadeira vulgar, minha mãe, mulher elegante e de alta linhagem.
Enquanto a outra desabafava, Godeliva não despregava os olhos do meu rosto.
- Senhor, - disse corando - permita que lhe ofereça minha ceia, pois deve estar fatigado da viagem.
Não sabia o que dizer, senão que aqueles belos olhos me deslumbravam nos meus vinte e dois anos.
Fiquei, e ela toda sorrisos, me serviu de forma que o copo não se esgotasse.
Posto que disfarçados, os olhares enternecidos da jovem não iludiam o seu encantamento pela minha pessoa.
Debruçada à mesa, a entrar-me pelos olhos ali, naquela sala mal iluminada, a figura de Godeliva, ressumando volúpia, exaltava-me os sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:46 pm

Quando me serviu o terceiro copo, apertei-lhe a mão e a resposta foi:
- Que adianta deixar-me assim prender, se daqui a pouco te vais para não voltar e só me deixares saudades?
Não deixei de considerar tanta facilidade e precipitação mas a fatuidade lisonjeada me falava mais alto que aquela moça bonita e exuberante de seiva, que havia do aspirar algo mais que a rústica freguesia da sua taverna.
Evidentemente, algo haveria em mim que lhe agradava e penso que, em tais circunstâncias, nenhum homem é insensível.
Demais, meu juramento assegurava imunidades até o primeiro cantar do galo...
- Bela Godeliva - disse, levantando-me e afagando-lhe a mão -tu me falas uma linguagem enigmática, perguntas se voltarei: permite, então, por minha vez, te pergunte: - se eu voltar, encontrarei abertos os teus braços e o teu coração?
Diz sim e eu te prometo que voltarei.
Ela ergueu os grandes olhos húmidos e murmurou trémula: - Sim, volta para amar-me, tanto quanto te amo, sem saber quem sejas, senão que serás sempre bem-vindo.
Abracei-a, beijei-a e Nelda, o mosteiro, tudo o mais eclipsou naquele instante...
Deixei o albergue prometendo voltar e não faltei à palavra.
Essa ligação durou bastante, até que um dia, saciado, rompi com ela e perdi de vista a interessante Godeliva.
Meu plano de vingança estava então paralisado; minha mãe continuava incógnita e a prioresa das Ursulinas Invulnerável na sua astúcia.
Consolava-nos, a mim e a Edgar, a convicção de que em assuntos dessa natureza se deve ter paciência, pois quem mais espera melhor alcança.
As horas mais felizes eram as do laboratório de pai Bernardo, onde me era dado trabalhar e tudo esquecer.
Três anos assim decorreram, sem maior novidade, até que um belo dia chegou a notícia de haver falecido o conde Rouven, deixando todos os bens ao filho mais novo.
Edgar ficou profundamente impressionado com a morte do pai, mas eu estranhei que o conde nada legasse ao convento, da herança de Edgar.
Meses após o falecimento do conde, Edgar me procurou à noite, em minha cela, revelando-se muito esperançado, dizendo chegada a hora da vingança e que seria eu quem lhe haveria de servir de instrumento.
Contou que o capelão do castelo de Rouven tinha falecido e a condessa donatária havia pedido ao nosso abade um novo confessor, ficando assentada a minha designação, a fim de pesquisar, controlar e, possivelmente, encontrar a pista da traição, que ele atribuía à madrasta.
Confessor hábil, competia-me arrancar pouco a pouco os segredos da matrona e saber, finalmente, o paradeiro do sobrinho Ulrich.
Fazia quatro anos que a Senhora Matilde me perdera de vista.
Eu deveria estar bem mudado, já não era o adolescente jovial e esperançoso, trajado à gentil-homem; minhas feições se ressentiam da profunda revolução que em meu íntimo se operava.
Deixara crescer a barba.
Pater Sanctus, caracteristicamente entalhado em sua forma confessional, semblante austero e maneiras graves, era bem outro personagem e, como tal, lhe cumpria fazer-se confidente íntimo da condessa.
E concluiu a entrevista com estas palavras:
- Ângelo, não esmoreças no teu posto, certo de que aqui trabalharei igualmente por ti.
Fica a meu cuidado não descurar de coisa alguma. Faze outro tanto por lá, esmerilha, aproveita todas as brechas, mesmo porque o prior tem também seus planos a respeito.
Na véspera da partida fui chamado à presença do prior.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:46 pm

A sala estava apenas aclarada pela chama que se desprendia do grande fogão e, ao fundo, na poltrona de alto espaldar, ressaltava a figura imponente do chefe.
- Irmão Sanctus - disse em tom grave - eis que tem a seu cargo uma grande tarefa:
os bens da família Rouven são assaz consideráveis e seria para desejar que ninguém pudesse herdá-los, eu sei, de boa fonte, que há projectos de casamento da filha mais nova do duque, com o Senhor de Rouven.
O Conde Alberto é, como sabemos, uma criatura fraca e enfermiça, que poderá morrer sem descendência e o duque deseja, a todo o transe, incorporar ao de sua família tão opulento património.
Seu papel consiste, portanto, em fazer malograr esse plano...
- Compreendo: o duque terá de ver tudo por um olho - respondi tranquilamente.
- Procure então, anular esses projectos, mas seja prudente; não proceda de forma a ter de violar o juramento monacal, senão quando quiser ficar senhor absoluto da situação e pouco ou nada mais tenha a desejar.
Lembre-se de que é preciso dominar com mão de ferro a alma mundana da condessa, penetrando-lhe todos os segredos, para que ela nada faça de seu próprio arbítrio ou sem o seu consentimento.
E para tanto conseguir, lembre-se também das suas prerrogativas de cavaleiro, da meia noite até o primeiro cantar do galo.
Isso dito, abençoou-me e, no dia seguinte, alcancei o vantelo, onde a nova ovelha me recebeu no seu oratório.
Tal como previra, ela não me reconheceu.
Atento ao papel que me competia desempenhar, comecei por um exame subtil, mas profundo, e certifiquei-me de que ela pouco havia mudado.
Sempre bela, uma bela mulher!
Não obstante a expressão fisionómica, algo rígida e altaneira, não inspirava simpatia.
Às vezes, nos olhos, lampejos apaixonados indicavam que poderia ser dominada pelo lado sentimental.
O terreno me favorecia.
Conversamos, então, mas, seja dito, guardando ambos a mais absoluta reserva, versando apenas motivos de santidade e humildade, que devem despertar no coração humano a ideia de grande pobreza moral.
Ao lhe falar da morte do marido, levou a mão aos olhos; mas quando os descobriu, não vi neles sequer uma lágrima.
Tratei de me despedir e me recolher aos meus aposentos - nada menos que dois quartos regiamente mobiliados, ao lado da capela.
Uma escada secreta e pequeno corredor ligavam esses quartos ao oratório.
Pondo-me logo à vontade e satisfeito com o meu papel, entrei a trabalhar lenta mas seguramente, para atingir o fim colimado.
Assim, orientando-me em todas as direcções, observava a condessa, o filho e quantas visitas apareciam.
O conde Alberto de Rouven era agora um belo rapaz de dezoito anos, mas de compleição delicada, carácter maleável, desconfiado e taciturno.
Mostrava-se muito afeiçoado ao Barão de Wilibald de Lunay e cortejava a irmã, Rosalinda, admiravelmente bela, nos seus quatorze anos.
Muitas vezes, o irmão e a irmã, acompanhados de Kurt Rabenau, passavam semanas no castelo de Rouven e eu me aproximava intimamente de Rosalinda que, piedosa e ingénua, me dispensava muita atenção e confiança ilimitada.
Rosalinda amava o irmão com todas as veras da alma, mesmo porque, órfãos de tenra idade, era ele o parente único que lhe restava na terra.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:46 pm

Um dia, o jovem Kurt, que também me honrava com a sua confiança, me procurou em meu quarto, aflito e embaraçado, acabando por declarar que vinha pedir um grande favor, pelo qual me ficaria eternamente grato. Tratava-se de um casamento secreto com uma criatura da sua paixão.
- Receio, - acrescentou - que Vossa Reverendíssima me negue seu consentimento, porque tenho apenas vinte anos.
Mas creia que sua recusa será minha sentença de morte.
- Ouça, meu caro conde: não se meta nessa aventura, pois seu pai não o casará, decerto, em desacordo com os seus desígnios; visto que teme revelar a seu pai o nome da mulher que elegeu é possível que ela não esteja ao nível da sua classe.
Semelhante estigma nos seus brasões seria uma ofensa que ele jamais perdoaria.
Quanto a mim, não posso nem quero envolver-me em assuntos tão graves.
O rapaz mostrou-se exasperado: chorou, contorceu as mãos e assim se foi praguejando.
Depois, não o vi falar mais no assunto e supus estivesse tudo acabado.
Mas, transcorridas algumas semanas, apareceu-me de surpresa o conde de Rabenau dizendo que tencionava casar Kurt com Rosalinda que, bela quanto inteligente, lhe parecia talhada para acalmar a excitação afectiva e modificar o génio do rapaz.
Verdade que Rosalinda era ainda muito nova; mas, para afastar quaisquer outros candidatos, convinha antecipar os esponsais.
Kurt, ultimamente, dera para desaparecer e isso o preocupava muitíssimo.
No dia seguinte apresentou-se-me pálido e desfigurado:
- Aconselhe-me, salve-me Reverendo Sanctus, pois não sei como confessar a meu pai que estou casado.
- Casado? - exclamei aturdido.
- Sim. Eu vos disse que estava loucamente apaixonado e precisava casar-me.
Mas, a história é complicada, porque minha desposada é a filha do Barão Eulenhof que, por motivos de intriga política, perdeu a fortuna e os brasões.
- A baronesa, excelente criatura, me ajudou quanto pôde e agora o que me cumpre é trabalhar para reconduzir a família à situação que de direito lhe compete.
Cabisbaixo, ruminando a estranha confissão, não dera com a presença do conde de Rabenau, que entrara de mansinho e, ali, estava parado à porta, lívido e de olhos chamejantes.
- Eulenhof casou-te com a filha!
(atirou-se ao rapaz e sacudiu-o pela gola).
- Como te atreveste a desonrar meu nome, filho indigno e traidor imbecil?
Anda, responde!...
Aquela cena me aturdia.
Como podia um pai extremoso maltratar assim um filho estremecido?
Mas, onde teria eu ouvido o timbre metálico daquela voz?
- Onde está essa mulher, essa condessa de Rabenau - insistia o desvairado conde - e como se chama essa Matura?
- Godeliva - respondeu o rapaz fora de si.
- Godeliva! - exclamei também, fora de mim.
- Conhece-a? - perguntou o conde?
- Sim, porém não como filha do Barão.
Intensa palidez cobria o semblante do rapaz e o conde, assim o vendo tímido, acovardado, comoveu-se, largou-o.
Enxugou o suor que lhe banhava o rosto e disse mais calmo:
- Vais comigo directo ao castelo e lá ficarás em custódia até segunda ordem.
- ó pai! - exclamou Kurt de mãos postas - consente possa ver ao menos minha mulher.
O conde se aprumou, terrível na sua cólera, e resmungou entre os dentes:
- Cala-te, se não queres te estrangule aqui mesmo; que esse nome jamais te venha aos lábios; não contes comigo para coisa alguma neste particular.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:46 pm

E ai de ti se me desobedeceres.
Kurt perdeu os sentidos.
Nós o sentamos em uma cadeira.
- Criança louca, quanto abusaram da tua fraqueza - suspirou Rabenau, já enternecido.
Até à vista Pater Sanctus; também precisamos conversar; mas, por agora, vou providenciar a remoção do rapaz.
Nesse mesmo dia, solicitei à condessa dois dias de licença e fui ao mosteiro, ansioso de estar com Edgar.
Antes de tudo, ele quis saber como caminhavam os seus negócios com relação à madrasta e eu pude, em consciência, informar que as nossas piedosas conversas não eram de todo improdutivas.
D. Matilde se abrandava aos meus olhares, pelo que esperava para breve uma confissão plena.
Por sua vez ele segredou que acabara de receber ordem para ficar à disposição do prior, a fim de o acompanhar numa diligência nocturna.
Disse mais que, certa feita, ao galgar secreta escada junto ao gabinete do mesmo prior, surpreendera estranha conversa e uma voz desconhecida a dizer:
- Livra-te da minha cólera, miserável!
Tirei-te do nada, dei-te imensos poderes e é assim que me pagas, cão?
Que fizeste?.
No dia seguinte, voltei ao meu posto e, pouco depois de lá chegar, uma dama de companhia da condessa foi comunicar-me que a nobre senhora estava à minha espera no oratório.
Lancei furtivos olhares ao espelho de metal, alisei a sedosa barba e, certo de agradar, fui ao encontro da minha filha espiritual.
Abri a porta do compartimento bem conhecido e detive-me na ombreira.
Fora, o crepúsculo mal começava a cair e no entanto a luz do ambiente era tão escassamente coada pela estreita janela que a escuridão se tornava quase completa.
Duas velas acesas no genuflexório, derramavam uma luz avermelhada e frouxa, deixando entrever a condessa ajoelhada, com a cabeça apoiada nas mãos e completamente absorta na prece.
Trajava um belo vestido branco, ajustado à cintura por um cordão de seda, cujas mangas flutuantes, abertas até às espáduas, deixavam os braços a descoberto.
A cabeleira solta caía -lhe em ondas pelas costas.
Analisei-a com íntima ironia e concluí que não me havia enganado com os olhares que me vinha deitando nos últimos encontros.
Minha respeitosa autoridade tê-la-ia irritado e por isso, proscrevera os pesados vestidos que a moda impunha e que lhe desenhavam bem as formas esbeltas, mas escondiam os braços e bem assim o toucado, que disfarçava a cabeleira...
Então, ali estava D. Matilde, no esplendor dos seus trinta e oito anos, a receber-me pela primeira vez daquela forma, cuja sugestividade lhe seria bem conhecida e previamente calculada.
Estaquei à porta, considerando mentalmente o alcance do serviço que ia prestar a Edgar, arrancando preciosas confissões da condessa, bem como o prazer de uma ligação com uma mulher ainda bela e apetecível, e não pude deixar de concluir que me tornara digno Instrumento da minha comunidade.
Nenhum escrúpulo me embaraçava, nenhum pesar me constrangia.
Estava pronto para mentir, para assumir o papel de amante apaixonado; mas, sem deixar de ajustar meus sentimentos à gravidade dos segredos a devassar.
Sim! Infelizmente, eu já não possuía a inocência da juventude e ia resvalando para esse rebaixamento da alma que conduz ao crime.
Essas reflexões não duraram mais de uns poucos segundos.
Empurrei a porta com estrondo, entrei.
D. Matilde estremeceu e levantou a fronte:
- Ah! meu pai, sois vós?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:46 pm

Baixou novamente a cabeça, como que confusa.
- Sim, filha - disse, aproximando-me e dando-lhe a bênção.
Cheguei para junto do confessionário o tamborete em que costumava ouvir os penitentes e assentei-me.
Vendo que continuava cabisbaixa, inclinei-me e disse fingidamente comovido:
- Noto no seu olhar qualquer perturbação e no semblante laivos de tristeza; é preciso que tenha absoluta confiança no seu confessor, e, sejam quais forem as agruras do seu coração, derrame-as no meu, que é um túmulo Inviolável.
Saiba que não há mortal algum isento de pecados.
Todos experimentam tentações a que se deixam arrastar; mas, lembre-se que a confissão foi instituída para aliviar as consciências e reparar, pelo arrependimento, as faltas do passado.
Nós somos os despenseiros dos benefícios legados pelo Salvador à posteridade e, por isso, renunciamos ao mundo com suas paixões e fraquezas; fazemos votos de completa abnegação e humildade, para sermos pastores do Senhor, conduzindo o seu rebanho às moradas eternas.
Pense nos direitos que Jesus nos outorgou, quando disse:
O que desligardes na terra será desligado no céu.
Fale sem temor, minha filha, pois há muito venho suspeitando que me oculta alguma coisa, pobre ovelhinha - quem sabe? - desgarrada do caminho da salvação.
Calei-me e fitei-a com bondade, deixando, contudo, entrever na austeridade do frade um pouco da admiração do homem.
- Ah! meu pai - murmurou, tapando o rosto - quão culpada me reconheço!
Diga-me se os grandes crimes podem ser perdoados mediante uma sincera confissão, e se me não vai repelir indignado, por haver cometido horríveis pecados, que me vêm atormentando e tirando o repouso.
Contudo, estou pronta a submeter-me ao seu juramento, abrindo-lhe a alma, de vez que tenho na sua pessoa ilimitada confiança.
Levantou o rosto, faces molhadas, e dos grandes olhos de turquesa irradiava uma ternura indisfarçável.
Juntou as mãos alvas e pousou-as nos meus joelhos:
- Fale, meu pai, porque do senhor depende a salvação.
Sua voz melíflua e atitudes graciosas deleitavam-me deveras.
Comecei a conjecturar quanto essa mulher superior se diferençava das amantes vulgares que até então se me haviam deparado.
Acarinhei-lhe as mãos de neve, e de olhos incendidos murmurei:
- Filha querida, para curar uma chaga, o médico precisa vê-la; fale, portanto, confesse-me seus pecados, por mais graves que sejam, e se lhe falecerem forças para tanto, aqui estou para ampará-la em meus braços e conchegá-la ao coração paternal; fale sem demora, porque as palavras de consolo e perdão que lhe ofereço, em nome do divino Mestre, também não tardarão a secar suas lágrimas e desfazer as rugas dessa linda fronte.
As mãos ardiam entre as minhas, inclinei-me roçando-lhe os lábios com a face.
- Cometi um grande e odioso crime contra a natureza, mas, o que me levou a proceder assim foi o temor de ver perdida grande parte da herança de Alberto, visto querer o conde, meu marido, legar grandes haveres ao seu convento, a título de herança do seu filho mais velho, que lá ingressou.
Em tais circunstâncias...
Nessa altura, calou-se e baixou totalmente a cabeça.
Por minha vez, suspensa a respiração, eu aguardava a centelha do mistério.
Tardava...
- Vamos... diga: que fez?
- Envenenei o conde, para lhe frustrar a decisão - concluiu com voz quase imperceptível.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:47 pm

A boa ética mandava duvidasse, mas eu precisava representar o meu papel para conseguir o resto.
Dei um salto, repelindo-a, e recuei até a porta:
- Ah! desgraçada, como pode perpetrar tão monstruoso crime!
E para esbulhar o Convento, uma instituição pia, de bens que por direito lhe cabiam?
Oh! Nunca poderia presumi-la tão culpada!
A senhora impediu a igreja de receber um benefício...
A Igreja que, só ela, lhe pode dar a paz e a salvação!
Se ainda tivesse errado por impulso pessoal, fosse por uma paixão amorosa, mesmo ilegítima, seria perdoável, mas fraudar a Igreja...
E comprimindo a fronte com as mãos:
- Já não posso aqui ficar, sua confissão me aterroriza.
Fiz menção de sair.
Ela, que me ouvira com espanto, rojou-se-me aos pés.
- Meu pai, não me abandone!
Eu quero abrir-lhe toda a minha alma, dizer-lhe todos os motivos do meu feito.
Fique, por misericórdia e me perdoe por amor de Deus.
- Filha - disse fingindo mais calma -- só uma confissão integral pode levar-me a conceder-lhe minha afeição; e mais ainda - a conservar o amor todo mundano que me inspirou, a mim, pobre exilado, privado de todos os prazeres deste mundo.
Sou muito monge, muito aferrado aos meus votos para ousar perdoar tão perniciosos atentados aos interesses da comunidade.
Só exculpada perante a Igreja, poderei tornar-me seu amigo, seu confidente e cooperar, enfim, para que obtenha o perdão do céu.
À medida que assim falava, com arrebatamento crescente, a expressão de terror da condessa se transmudava como por encanto.
Levantou-se, tomou-me a mão e disse:
- As palavras que acabo de ouvir transformam em paraíso o meu inferno, porque a verdade é que o amo louca, perdidamente, e quero justificar-me a seus olhos, com o meu amor maternal.
Ouça-me, pois, meu pai, meu amigo, meu confessor.
Ajoelhou-se; retomei o meu posto.
Começou a falar do seu ódio a Edgar, de quem sempre sonhara desembaraçar-se; disse que Ulrich de Waldeck, rapace consumado, prestou-se a urdir a trama tão bem sucedida.
Fora ela que sugerira Maria de Falkeinstein como pomo de discórdia.
Por fim, temendo a destreza de Edgar, acumpliciara Gerta, mediante promessa de casá-la com um jovem aventureiro chamado Ângelo, que se ligara a Edgar, e por quem a rapariga morria de amores.
Confessou que abominava esse tal Ângelo, tipo que não sabia onde Edgar o descobrira, e que exercia sobre o meu enteado um grande ascendente.
Waldeck desapareceu e nunca mais teve notícias dele.
Pelo que lhe dizia respeito, conseguiu o desejado:
o conde faleceu sem deixar testamento.
Não creia, porém, meu pai - disse - que eu visasse prejudicar o Convento e sim, e só, a Edgar, a quem odeio; mas... (seus olhos ardentes se fundiram nos meus) se eu pudesse obter o perdão de um beneditino com doação destas terras, estou pronta a fazê-lo...
Responda meu pai: - perdoa-me?
Por única resposta, tomei-a nos braços e murmurei-lhe no ouvido:
- Sim, minha filha, preciosa ovelha do meu rebanho, que espero reconduzir ao redil.
Quase sem dar por isso, na ânsia de possuir essa mulher, nossos lábios se colaram para a linguagem do amor.
Quando voltei ao meu quarto, os primeiros raios do sol clareavam o horizonte.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:47 pm

Alisei os cabelos e a barba, e debruçado à janela banhei a fronte nas auras matinais, frescas e perfumosas.
Pensamentos díspares me assomavam; um desprezo incoercível pela condessa e, ao mesmo tempo, a convicção do absoluto domínio sobre ela!
Mas... qual o melhor caminho a seguir?
Como proceder? Que ordenar?
Um momento, veio-me a ideia de obter para a comunidade toda a fortuna dos Rouven, e daí, toda uma série de combinações complicadas...
Mas bem depressa me adverti:
se conseguisse enriquecer tão opulentamente o Convento, qual seria o meu proveito pessoal?
Sempre envolto no meu hábito negro, - mentira viva diante dos homens - eu não teria, depois de ter feito dois ou três cadáveres, mais que o vácuo de um futuro sem finalidade.
Eu queria viver, gozar de liberdade, não ser forçado a mentir, a fingir, a arrancar alheios segredos para, em seguida, prejudicar quem mos confiava.
Essa vida era odiosa e a religião que me havia ensinado o Sr. Teobaldo não era isso.
Todos esse malefícios eu os praticava em nome de Jesus, que morrera pedindo por seus algozes!
E nós não passávamos de uma agremiação de celerados, acobertados com o título de filhos da Igreja!
O que ainda restava de bom em meu coração emergia naquele instante e uma vaga intuição como que me dizia:
falhaste na prova; reverte à virtude; resiste...
As cadeias do meu círculo eram, porém assaz fortes para que as quebrassem os estos do coração.
A consciência sombreou e noite trevosa me envolveu toda a alma.
Sacudi a cabeça revoltado e disse para comigo:
louco que sou!
Minha vida está destruída, perdido o futuro e eu a atormentar-me com escrúpulos imaginários...
Vamos! Quero, preciso vingar-me e ajudar outros para que o façam.
Deus também disse que - olho por olho e dente por dente.
Seguirei este preceito até as últimas consequências.
Calmo, então, fechei a janela, deitei-me e dormi profundamente.
No dia seguinte, à tarde, montei na minha mula e toquei para o Convento, depois de alegar a D. Matilde que precisava visitar um irmão enfermo.
Fiz o percurso embuçado no meu capuz, não por humildade, como imaginariam, talvez, os estúpidos campónios que encontrava, mas para me absorver mais à vontade em meus planos de vingança e gozar a certeza inebriante de ter conquistado uma escrava submissa na condessa de Rouven.
Desta feita, tocando a sineta do Convento, não tive arrepios.
A gente a tudo se acostuma. Uma vez lá dentro, tive ocasião de me perder num dos nossos corredores e desci nos subterrâneos.
Na biblioteca, alguns monges trabalhavam e perguntei pelo N.º 85.
Era Edgar. Mas, como ninguém me pudesse informar onde o encontraria, fui procurar pai Bernardo.
O velho monge estava todo entregue à fundição de metais, que exalavam cheiro acre e desagradável.
- Tu me abandonaste, Sanctus, - disse ele - agora não tenho quem me ajude; isto quer dizer que, se fizer a grande descoberta, não terei com quem repartir os louros da vitória.
Mal me assentei cruzando os braços e logo ouvimos um:
- Boa noite, meus irmãos...
Era a voz do prior.
Levantei-me e lá estava ele, imponente, de capuz descido, encostado ao portal.
- À vontade, filhos; como vamos de trabalho?
- Ouro para breve, pai Bernardo?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:47 pm

- Assim o espero, pois o problema se aclara dia a dia - respondeu convicto o alquimista.
Leve sorriso se fez ouvir sob o capuz do prior, sorriso que me não pareceu estranho.
- Sabe que penso, pai Bernardo, existem forças inteligentes dirigindo nossa vida e actos, não chegareis jamais a produzir ouro, porque nesse caso a própria vida perderia a sua razão de ser.
Sim, porque o ouro é o móvel único dos nossos actos e para possuí-lo vamos ao extremo de nos escravizarmos a nós mesmos.
E a riqueza inesgotável, uma vez encontrada, arrasaria tudo.
Nem o diabo nem os anjos teriam já motivos para nos perder ou salvar.
A esse metal se prendem todos os prazeres e gozos da vida, e para adquiri-lo o homem se entrega às mais profundas cogitações, movimenta todas as energias da alma.
Os espíritos se atritam nessa faina, talvez indigna, mas indispensável ao progresso intelectual da humanidade.
Se, portanto, o meu irmão chegasse a fabricar esse precioso metal, tornando-o comum, ele se depreciaria e os homens não teriam outra preocupação que a de o fabricar e esbanjar.
Ao irmão Bernardo restaria a glória de patrono da inactividade, da preguiça e do embrutecimento sistemático da espécie.
O homem se animalizaria, devorando o seu alimento, sem cogitar da sua procedência, o cérebro se lhe atrofiaria à falta de trabalho e eu não posso crer que o meu caro Bernardo tenha a má sorte de entravar o progresso das nações.
É a necessidade e não a abundância que engendra as descobertas, que dá celebridade e faz os heróis.
Sumamente interessado e admirado de tamanha lógica e profundez filosófica, eu repetia intimamente comigo:
ninguém como este homem para manter e dirigir a nossa organização secreta!
Pai Bernardo deixara pender a cabeça sobre o peito, calado.
- Não se impressione, não desanime pelo que digo - continuou o prior - investigue sempre, pois nessa faina talvez encontre algo de mais útil à humanidade do que libertá-la de todo trabalho.
Aliás, não vim aqui para perturbá-lo, senão porque, de passagem, veio-me a ideia de entrar.
Quanto a vós, irmão Sanctus, querendo ver vosso amigo, vá à gruta 4 do subterrâneo que comunica com o lago, e olhe que ele talvez esteja precisando do seu auxílio.
Compreendi que o prior queria ficar a sós com Bernardo; levantei-me, cortejei, saí, dirigindo-me para aquela furna conhecida como cemitério.
Bati à porta que me pareceu encimada pelo N.º 4, e do interior ouvi a voz de Edgar:
- Quem é?
- Sou eu, Sanctus.
Corrido o ferrolho, entrei e vi, à luz de uma tocha que ardia no primeiro compartimento, Edgar de pé, mais pálido que nunca e tendo na mão um manuscrito.
- Que fazes aqui? - foi a minha primeira pergunta.
- Espero - respondeu-me - mas... a que vens e como pudeste saber que eu estava aqui?
- Quem me disse foi o prior; mas, de qualquer forma, como estamos sós, quero contar-te grandes coisas.
Antes de tudo:
a condessa vomitou um mea culpa completo.
- Sim. Conta-me lá isso - encareceu de olhos incendidos.
- Não imaginas.
Só te digo que está na ratoeira, amarradinha de pés e mãos.
- Safa! que até me estás parecendo feiticeiro...
Atraiu-me para junto de si, a um banco de pedra e contei.
Quando falei no envenenamento, deu um salto e exclamou:
pobre pai! também tu serás vingado; agora, o que só nos falta é traçar um plano.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 20, 2016 7:47 pm

- Obrigado, Ângelo, pelo serviço que acabas de me prestar (interrompendo-se de súbito) mas, creio que é tempo de...
- De quê? - perguntei admirado.
- Vais ver...
Abriu uma porta e, acercando-se de uma trave de madeira, começou a accionar um rolete como esses utilizados nos poços, pedindo-me que o ajudasse, enquanto o suor lhe gotejava da fronte.
Obedeci e ouvi o rumor da água que caía e se espalhava no chão.
- Já te falei da possibilidade de inundar estas grutas; atrás desta porta há uma cavidade, que, neste momento, se encontra submersa e precisamos esgotá-la.
Dentro de 15 a 20 minutos, o barulho da água cessou; ele tomou a tocha e abriu a referida porta, que atravessamos para descer alguns degraus completamente encharcados.
De repente, recuei trémulo...
É que, estendido numa pequena plataforma, jazia um corpo de mulher afogada!
- Que é isso? - exclamei estarrecido.
- São ordens do prior, - explicou Edgar, dando de ombros.
Mas, acalma-te, pois não há de que nos sobressaltarmos diante dos inimigos aniquilados.
Assim falando, abaixou-se e aclarou um rosto pálido, contraído, em parte coberto pela cabeleira negra em desalinho.
- Godeliva!? - bradei espantado.
- Tu a conheces?
Mas, olha, deixemos isso para depois.
Agora, o que se faz preciso é que me ajudes a sumir com ela.
Levantamos então o cadáver, subimos, com dificuldade, a escada até a porta que dava para o lago e lá o arremessamos com uma pedra aos pés.
Para as vistas humanas, extinguiam-se assim todos os vestígios do crime.
A superfície do lago enluarado espraiava-se calma e polida como a face de um espelho.
Encostado à muralha, de braços cruzados, eu pensava naquela Godeliva do albergue, qual a vira pela primeira vez.
Depois, lembrei-me de Rabenau e de que ele tinha motivos para aniquilar essa criatura.
Ela acabava de ser ali consumida:
logo, o nosso grupo deveria sabê-lo...
Esta suspeita me deixava gelado.
Não, não era possível!
Absorto nestes cismares, deixei a Edgar o cuidado de repor tudo em seus lugares, até que me falou:
- Consumatum est. Vamo-nos.
Saímos calados, ele todo entregue a seus planos de vingança, eu remoendo mil e uma conjecturas.
Certo, Rabenau conhecia os mistérios do subterrâneo e assim eliminara a nora indesejável.
Mas seria membro da nossa sociedade?
Como, se apenas os professores tinham esse direito?
Por fim, interpelei Edgar:
- Que plano concebeste com relação a tua madrasta?
Como bem podes avaliar, não há tempo a perder; preciso agir quanto antes.
Ele parou e lhe notei nos olhos chispas de ódio.
- É simples: tudo adquirir para o convento, "depená-la", da mesma forma engenhosa por que o fez a mim; e quanto ao seu mimoso filhinho, esse terá que ser meu irmão em São Benedito, e quando todos estiverem mortos ou deserdados, eu, o irmão que enriqueceu tão regiamente a comunidade, farei jus à cruz de ouro do priorato, na primeira vaga.
Aí tens meu plano, em traços gerais; todavia, antes de te desvendar todo o meu pensamento, preciso reflectir.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:28 pm

Deves convir em que, no momento, devo estar perturbado com as tuas revelações, tanto que ia me esquecendo de dizer-te que também tenho notícias que te concernem, como, por exemplo, que a bela estalajadeira Berta está viva e bem disposta.
Muito ao contrário do que te disseram, ela é amicíssima da abadessa, e o que só nos resta é desentocá-la.
Eulenhof também está vivo e são como um perro; mas, sem paradeiro conhecido.
Nesse instante, destacou-se da parede um vulto franzino de frade embuçado e fez um sinal a Edgar, que logo se aproximou dele, acenando-me com a mão em despedida, e dizendo:
- Até à vista; agora preciso falar com este irmão.
Parti intrigado.
Quem seria aquele monge?
Não me recordava de ter visto, jamais aquela silhueta e, contudo, não tardou que me abstraísse nas próprias cogitações da minha causa.
A notícia da hoteleira despertara-me a ideia de que ela poderia ser minha mãe e o coração me paralisou, porque, nesse caso, Godeliva havia de ser minha irmã, eu teria praticado um incesto, nem mais nem menos.
E, como se isso não bastara, oh! céus! acabava de atirar no lago o seu cadáver!
Dizer ainda que fora a própria Berta quem me havia posto em relação com Godeliva para desviar suspeitas...
Simplesmente horrível!
Meu desespero era tal que, se ali me surgisse Berta, a estrangularia.
No dia seguinte, deixei o convento e ninguém diria, vendo o sacerdote, que ele saía de um antro onde se cometiam, sem vacilar, os crimes mais hediondos.
Regressando ao castelo de Rouven, nada me apressava; podia repousar de corpo e alma; se o futuro não se auspiciava radioso, também não era para que o dissesse ameaçador.
Passados alguns dias, um cavaleiro, que se intitulava conde Leo de Loevenberg, chegou ao Castelo.
Era um belo e elegante rapaz, de maneiras aristocráticas, que pretendia com essa visita regular amigavelmente um litígio de terras confinantes com as de Rouben.
Estava eu assistindo à entrevista dos três - a condessa, Alberto e Leo - quando Rosalinda irrompeu na sala com um falcão na mão, pois que regressava de um passeio a cavalo.
Faces afogueadas, excitada pelo exercício e as emoções da carreira, Rosalinda estava mais que nunca sedutora e os olhos do cavaleiro nela se fixaram com ostensivo deslumbramento.
A condessa os apresentou um ao outro e a conversa se generalizou sobre caçadas, passeios, diversões.
Rosalinda estava em pleno viço de suas quinze primaveras e tinha consciência de que era realmente bela,
mas foi a primeira vez que lhe notei a preocupação de agradar. Era evidente que o esbelto conde de Loevenberg a impressionara de maneira irresistível.
A essa primeira visita, outras se seguiram.
Mas, um belo dia, o conde de Rabenau levou Rosalinda e alguns meses transcorreram sem que eu tornasse a vê-la.
Minha autoridade crescia dia a dia no solar dos Rouven, a condessa me obedecia cegamente e Alberto, que era também meu tutelado espiritual, não me encarecia provas de sua maior reverência.
Esse falso melancólico era assaz fanático, confessava-se muitas vezes e passava horas e horas a rezar.
Por esse lado, tudo corria bem; mas a verdade é que a minha empreitada estacionara, não me fora possível descobrir o esconderijo de Berta para lhe arrancar as revelações que me facultassem atingir o duque, a quem odiava mais que nunca.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:28 pm

Baldados também os esforços para descobrir as relações de Rabenau com o Convento.
E, assim, transcorreu todo um ano de intrigas e combinações improdutivas.
Um dia, estava lendo à janela, quando ouvi o tropel de cavalos a galope.
A condessa estava ausente, de visita a uma velha parenta enferma e nós, Alberto e eu, deveríamos ir ao seu encontro, dentro de poucos dias.
Conjecturei que se tratava de algum vizinho que viesse visitar o jovem conde e tinha quase esquecido o incidente, quando a porta se abriu e vi Alberto entrar muito aflito, dizendo:
- Padre, venho consultá-lo:
é que Rosalinda acaba de chegar, foragida do seu tutor que, diz, quer casá-la com Kurt; ela, porém, ama o conde Leo e quer esposá-lo secretamente, pelo que, vem pedir que consumeis e abençoeis esta união.
Entretanto, quero dizer-lhe que me oponho.
Em primeiro lugar - e franziu a testa - porque também a quero para mim; e depois, porque abomino as uniões secretas e acho que ela procede indignamente, violando uma promessa já feita.
Peço-lhe, pois, meu padre, que não se meta nesse negócio...
- Mas, meu caro conde - respondi - se Rosalinda ama o senhor de Loevenberg, que é um homem tão simpático, por que obstar o casamento?
Assim me exprimindo, considerava, constrangido, que era lamentável impedir a felicidade daqueles dois jovens, belas e nobres criaturas, quando a sorte é tão avara permitir a conjunção de dois corações afins.
Temi, um instante, prejudicá-los por excesso de zelo e lembrei-me também de que Edgar era padrinho de Rosalinda.
Mas, preveni-lo demandava tempo e Rabenau poderia manobrar de modo a fracassar o negócio.
Tomei de. pronto uma resolução, perfilei-me austero e disse:
- Filho, não lhe compete permitir ou impedir o exercício do meu santo ministério; o senhor e sua mãe são os donos desta casa, mas na capela quem manda é o sacerdote.
Abençoarei o amor de Rosalinda (erguendo a fronte) e responderei pelos meus actos diante de todos e de cada um.
O que lhe cumpre, meu filho, é submeter-se à decisão do seu confessor.
O conde estava longe de ser um espírito ousado e não ignorava o meu ascendente sobre a sua progenitora; de sorte que não opôs maior resistência.
A meu pedido, levou-me ao apartamento da condessa, onde fui encontrar Rosalinda desfeita em lágrimas.
Vendo-nos, correu para mim, tomando-me das mãos, suplicou:
- Pater Sanctus, não seja mau; case-me com Leo, que aqui vem juntar-se a mim; uma vez casada, ficarei garantida e resguardada em seu castelo, pois o senhor não imagina o pavor que me causa esse infame cavaleiro Mauffen, com quem pretendem casar-me à força.
Ele me persegue e atribula com persistência incrível, posto que meu tutor o tenha repelido três vezes.
De Kurt não há temer, porque me ama e não se mostra muito apressado.
- Tranquiliza-te, minha filha, logo que chegue o Sr. de Loevenberg, realizarei o casamento.
Daí a uma hora, dois cavaleiros acompanhados de escudeiros e homens de armas paravam no pátio de honra.
Eram Leo e Wilibald.
Avistando o irmão, Rosalinda deu um grito e correu ao seu encontro.
- Não tenho palavras com que possa traduzir minha gratidão pelo benefício imenso que me faz.
Se um dia lhe puder ser útil, disponha de mim como de um filho.
Apressaram-se as providências, iluminou-se a capela e, ainda por sugestão minha, Alberto testemunhou e assinou o termo que o escriba do castelo rapidamente redigira.
Isto feito, galguei o altar e não esperei muito pelos nubentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:28 pm

Rosalinda, que trouxera seu enxoval (a mulher é sempre mulher!) estava simplesmente encantadora.
O belo par ajoelhou-se reverente e eu, estranhamente comovido, ao lembrar que, deserdado de ventura pessoal, podia, ainda fazer ventura alheia, pronunciei as palavras sacramentais que os ligariam para sempre.
Finda a cerimónia, felicitei o jovem par e nos encaminhamos todos ao salão de jantar, para beber uma taça de vinho.
Dali, ouvimos dentro em pouco um rumor de cavalhada no pátio.
Correndo à janela, Alberto gritou atarantado: é o conde de Rabenau!
Rosalinda empalideceu, conchegou-se ao marido; Wilibald empertigou-se altaneiro, junto da irmã.
Alberto, sempre sonso e timorato, disse esboçando um sorriso malicioso:
- Cá por mim, estou inocente, pois não fiz mais que acatar as ordens do confessor de minha mãe, que se ufana da obediência que lhe presta:
e, neste caso, minha influência é nula.
Assim se exprimindo, enviava-me um olhar de ódio e despeito. Considerei: será que suspeita das minhas relações com a progenitora?
Desconfiará que pretendo arrancar-lhe parte da fortuna em benefício do convento?
A intempestiva entrada do conde de Rabenau me impediu de dar a Alberto a necessária resposta.
O conde estava excitado pelo esforço da viagem:
cabeça alta, olhos flamejantes, deteve-se diante de nós e eu não deixei de experimentar um certo temor de haver contrariado aquele homem que, contra a minha vontade, sempre me fascinava.
Ao invés da legítima cólera que todos esperavam, desdenhoso sorriso lhe frisou os lábios e disse, fixando-me com ironia:
- Pater Sanctus, apressando-se a realizar este matrimónio, imaginastes, talvez, subtrair Rosalinda à minha tutela; mas, vale dizer que não passais de um simplório, porque com esta precipitação mais não fizeste que ensejar a meu filho uma aliança muito mais brilhante, pois sei que o duque deseja casar sua sobrinha, a princesa Úrsula, COM Kurt; e, dessarte, se o duque morrer sem deixar filhos, a fortuna dos Rabenaus reverterá à sua família.
Não há como desconhecer que acabais de prestar um serviço ao nosso amado suserano, serviço que vos agradeço também eu.
Depois, acrescentou baixinho: amor com amor se paga, serviço por serviço...
As palavras do juramento?!
Recuei, petrificado: Ele era dos nossos, tudo sabia...
Dirigindo-se a Rosalinda, prosseguiu:
- Conhecia teu plano e deixei que fugisses porque jamais te obrigaria a casar contra a vontade; mas, dada a tua deslealdade, agindo sem consultar-me, sinto, bem a meu pesar, desinteressar-me de ti para te entregar à própria sorte.
Agora casada, que teu marido te defenda e ampare; nada mais tenho que ver contigo.
Rosalinda correu para ele estendendo as mãos súplices:
- Perdoa, eu não podia adivinhar teus pensamentos.
- Vai-te, nada mais tenho a dizer-te.
Afastou-a com brandura, trançando a capa.
Detendo-se ainda um instante à frente do noivo, mordiscou o bigode disse:
- Felicito-o, senhor de Loevenberg; e não lhe guardo nenhum rancor; as mulheres são a nossa perdição, desde que o mundo é mundo; é o caso de Adão.
Fez menção de partir bruscamente, quando Alberto se Interpôs, dizendo:
- Oh! senhor conde, não me inculpe de coisa alguma em tudo isso, pois eu cheguei a me opor, mas não podia desobedecer ao confessor de minha mãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:28 pm

O conde parou e mediu o rapaz com evidente desprezo:
- Tínheis mesmo de obedecer - acentuou com malicioso sorriso - é curioso; que vossa mãe obedeça, compreendo e convenho; mas vós que sois o dono da casa...
Se ainda tivésseis por confessor alguma freira das Ursulinas, vá lá; mas, de outra forma, é singular.
De resto...
Conde Alberto, permita lhe diga que sou um cavaleiro experiente e prático em gozar a vida e que é desairoso confessar obediência cega, ainda mais quando o dever imponha proteger os que se abrigavam em seu solar, de armas na mão, se eu tentasse violá-lo.
É pena que um descendente dos Rouvens desconheça tais deveres de cavalaria.
Os jovens nubentes e Wilibald me reiteraram agradecimentos e se retiraram depois de saudar friamente o dono da casa.
Voltei ao meu quarto completamente desorientado.
Que grande leviandade tinha cometido.
A ideia de haver favorecido o duque no seu projecto de açambarcar a fortuna imensa dos Rabenaus não me saía da cabeça.
Resolvi chegar ao convento e consultar Edgar.
Lá chegando, aproveitei um momento azado e tudo lhe contei.
Depois de ouvir-me com muita atenção disse:
- É realmente estranhável, porque nunca logrei aqui ver o conde de Rabenau e não posso atinar como chegou a conhecer nossos segredos.
Quem aqui tenho visto, algumas vezes, e por que em longas conferências com o prior, é o senhor de Mauffen; e sempre desejaria saber que motivos levam esse antipático personagem a procurar nosso chefe.
- Mauffen? - atalhei surpreso - parece-me que o nome não é estranho...
Ah! é verdade agora me lembro.
Ele é conhecido da dupla Berta-Eulenhof e, provavelmente, amante dela.
Peço, portanto, que o não percas de vista.
Talvez possa apanhar alguma coisa dessas confabulações.
Quem sabe não se oferece aí uma pista dessa infame condessa que não posso reconhecer por minha mãe, embora algo me diga que ela e a hoteleira são uma e única pessoa.
Obtida a promessa de tudo fazer em tal sentido, passamos a tratar do que lhe concernia, expondo-me ele o plano traçado para aniquilar a madrasta.
- Sabes que pretendo retribuir à condessa as delícias desta vida monástica que ela tão generosamente me granjeou; mas a verdade é que só o filho poderá levá-la a professar.
Verdade, também, que ele está farto da sua dominação e sequioso de independência e predomínio.
É uma circunstância que nos favorece, como vês.
Tu te conservarás neutro e ele é que há-de levá-la a expiar no claustro a morte do marido.
Para obter de Alberto o nosso desejo, deverás mostrar-te indignado com as suas frequentes escapadas do castelo, obrigando-o, de qualquer forma, a vir confessar-se e orar aqui, certo de que o devolverei a ti, prontinho e afinado para desempenhar o seu papel.
Uma vez Ursulina, D. Matilde ficará sendo o instrumento da tua vingança, junto da ignóbil abadessa, que até agora não pudeste atingir.
Uma vez lá dentro, a condessa te guardará fidelidade, verás, sobretudo se lhe deres a entender que ela poderá ser, um dia, a sucessora de madre Bárbara.
Trata, pois, de mandar-me Alberto quanto antes e confia em mim, certo que estou de te proporcionar muito breve uma alegria tão grande quão imprevista.
Uma coisa só te peço: é que nada me perguntes, porque devo ficar mudo.
Eu lhe conhecia a sagacidade e a segurança dos cálculos, de molde a confiar inteiramente no que dizia.
Despedi-me, lembrando-lhe apenas que não se esquecesse de Mauffen.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:29 pm

Aflito estava eu para reassumir o posto e encetar minha tarefa.
A esperança de me vingar da abadessa enchia-me de coragem e satisfação.
Comecei por demonstrar ao jovem conde uma reserva glacial, recusando-me acompanhá-lo todas as vezes que procurava avistar-se com a mãe.
Quando esta regressou ao castelo, aguardei uma ocasião que estivesse a sós com o filho, para lhe apresentar minhas saudações.
Mostrando-me insensível aos olhares lânguidos que ela me dirigia, falei-lhe em termos severos que o jovem conde me havia desgostado profundamente.
Narrei-lhe as peripécias do casamento realizado na sua ausência, acrescentando que diante daquelas pessoas estranhas o Sr. Alberto se atrevera a falar dela, e de mim, de maneira ofensiva e capaz de suscitar suspeitas.
Que fizéramos, afinal, que justificasse essa conduta?
E concluí declarando que a partir daquele dia deixava de ser seu confessor e não mais queria saber de um homem que prometia tornar-se ímpio, de vez que, tão jovem, já ousava ofender assim, grosseiramente, o seu pai espiritual.
Fora de si, debulhada em lágrimas, ela repreendeu o filho e exigiu que me pedisse desculpas, pois, fosse qual fosse o bem que lhe queria, mais caro lhe era eu.
A princípio ele recusou-se; mas, temendo a cólera materna, acabou pedindo-me perdão.
Por minha vez, comecei recusando qualquer entendimento; e, só depois de muitas rogativas, cedendo a súplicas e lágrimas da condessa, aceitei as desculpas, para Impor-lhe uma penitência de duas semanas no convento, (obrigado a preces, jejuns e três confissões.)
Tinha certeza de ser obedecido, porque a condessa fazia questão de me acalmar.
Efectivamente, no dia seguinte o rapaz lá se foi ao convento e do que lá fez ou lhe fizeram, não sei, senão que voltou estranhamente mudado.
O olhar esquivo, duvidoso, que lançara à progenitora, indicou-me que Edgar atingira o alvo.
Quanto a mim, abstive-me de ir ao convento naquelas duas semanas, para evitar suspeitas.
Após os primeiros cumprimentos, o jovem conde se declarou muito fatigado e pediu à condessa lhe concedesse uma entrevista à noite, com a minha presença, pois precisava falar-lhe de assuntos da mais alta importância.
Na hora aprazada, compareci ao oratório e pouco depois entrava Alberto, muito pálido, deixando transparecer no rosto grande abatimento moral.
Assentou-se, carrancudo, e depois de breve recolhimento, disse:
- Permita, minha mãe, vos relate graves coisas que me preocupam e me tiram todo o repouso.
Durante o retiro e penitência no convento, achei que devia visitar o túmulo de meu pai e lá rezar por sua alma.
À hora do Ângelus, encaminhei-me sozinho para o mausoléu, onde repousam os restos de nossos avós e, de joelhos, absorvi-me na prece.
A noite caía e o local apenas se desenhava à luz escassa de uma lâmpada quando, súbito, uma voz se fez ouvir distintamente debaixo da lousa, dizendo:
"Alberto, meu filho"! - e o que meu pai (pois era bem a sua voz) me disse, ides saber quando eu terminar este depoimento que, bem o vejo, vos alarma, quanto a mim mesmo...
Sim, eu vejo que empalideceis e tremeis.
Pois bem:
como podeis imaginar, fiquei aturdido e o que essa voz de além-túmulo me disse, assombrou-me e deitei-me a correr espavorido.
A condessa, pálida de morte, passava as mãos pela fronte inundada de suor, enquanto eu procurava aparentar indiferença, muito embora interessado.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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