Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:29 pm

No dia seguinte - prosseguiu - contei a meu confessor, um monge sábio e respeitável, o facto insólito, sem contudo pormenorizá-lo; e o santo homem, depois de madura reflexão falou:
- Meu filho, repita essa visita duas vezes e se os mesmos fenómenos se reproduzirem, devemos aceitá-los como um aviso providencial.
Neste caso, convirá consultar um piedoso eremita, a quem concede Deus, por sua vida exemplar, os dons da clarividência.
Convicto do grande alcance desse conselho, não vacilei em voltar duas vezes ao túmulo, lá ouvindo a mesma voz e as mesmas palavras de meu venerando pai.
À vista disso, o confessor me encaminhou ao referido eremita, ancião respeitável, de longas barbas brancas e de olhos negros e penetrantes.
Inferi logo que fosse pai Bernardo.
Eu pedia a Deus que me dissuadisse da veracidade das palavras ouvidas, - continuou o jovem conde - mas, ai de mim! que não logrei ser atendido.
O bom eremita me perguntou o que queria, mas, logo que comecei a falar, interrompeu-me e disse:
- Quem falou foi mesmo vosso falecido pai; e, nesse caso, ele vai dizer-vos o que deseja, de viva voz, pois que a mim nada interessa saber.
Com isto, deitou carvão num grande fogareiro e começou a orar.
Chamas esquisitas, multicores, seguidas de espessa fumarada, saíam do fogareiro e, de repente - juro que me não iludi - surgiu à minha frente o espectro de meu pai, com um pergaminho na mão!
Diante da macabra aparição, perdi os sentidos.
Quando voltei a mim, o eremita me entregou o pergaminho, dizendo:
eis aqui o pergaminho trazido por vosso pai.
Aproximai-o do fogareiro e vereis o que ele vos quer comunicar.
Levantei-me aturdido e examinei o pergaminho de todos os lados, conclui que nada havia nele escrito.
Sem o perder de vista, aproximei-o, então, do fogareiro, e comecei a distinguir letras e frases inteiras a brotarem como por encanto do fundo branco do pergaminho, para formarem os mesmos conceitos ouvidos no cemitério.
A condessa, mais morta que viva, mal se aguentava na poltrona.
Alberto agarrou-a pelos braços, sacudindo-a com violência e gritando:
- Poderás negar que envenenaste meu pai?
Até que chegou a hora de ver em teu rosto o sinal do teu crime!
D. Matilde caiu de joelhos.
- É a justiça de Deus!
Os mortos ressurgem para me acusar!
Sim, culpada, mas não me julgues, tu, meu filho, tu por quem me tornei criminosa, vítima do meu coração maternal.
Estendia para o filho as mãos súplices, mas ele as repelia horrorizado.
- Por minha causa?
Queres fazer-me cúmplice?
Pois saiba que eu não desejaria nenhum tesouro do mundo mediante um tal crime.
Ela deu um grito abafado e tombou desacordada.
Alberto voltou-se para mim em tom de censura:
- Tínheis conhecimento de tudo isso, meu pai, e nada dissestes...
Eu bem vi pelos olhares que ela vos dirigiu, que tudo vos havia confessado.
- Dizes bem, meu filho, eu de tudo soube; mas o meu filho também sabe que os ouvidos do sacerdote, nestes casos, são como um túmulo.
Considera, porém, que se o meu juramento mandava calar, a Providência te permitiu descobrir a verdade.
E agora, diz-me: ainda acreditas que pudesse haver ligações culposas entre mim, servo de Deus, e essa infeliz criatura a quem só me cabe deplorar e cuja submissão e humildade só provinham da certeza de que lhe conhecia o crime odioso?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:29 pm

- Perdoai-me e não me recuseis vossa bênção - concluiu, beijando-me a mão e retirando-se apressado.
Finalmente, a sós com a condessa desmaiada, não era ela que me preocupava e sim, e só, a minha situação pessoal.
Atingira a meu fim, liberto de uma tarefa que começava a pesar-me.
Agora, o que mais de pronto se impunha era procurar Edgar e conhecer as suas últimas intenções, visto que, na primeira entrevista com a castelã, teria de resolver definitivamente o seu destino, prescrevendo-lhe o que melhor me conviesse.
Chamei, portanto, uma das aias e lhe recomendei tivesse o máximo cuidado com a condessa.
Isto posto, mandei selar o animal e dirigi-me ao convento.
Edgar recebeu-me de braços abertos e, agradecido, entrando a contar, sorridente, como enganara o estúpido Alberto.
- Eis que realizo uma parte da minha vingança - disse de olhos fuzilantes.
Quando ela estiver lá no convento, quando houver perdido o nome, o título, a liberdade, então irei vê-la e lhe direi face a face:
- olho por olho, dente por dente.
Suspirei, levei a mão ao peito.
Invejava ao amigo as delícias da vingança que ele de antemão saboreava.
Quando chegará a minha vez? - murmurei baixinho...
Falas de uma entrevista com tua madrasta e acho muito justo, mas, como a obterás?
Ele me fitou com olhos profundamente calmos:
- Eu sei o que digo e porque o digo; só te peço que tenhas paciência, pois te garanto uma vingança completa.
Por enquanto, nada posso adiantar, mas depois que estiver com minha madrasta, tudo saberás.
Afagando novas esperanças, voltei ao castelo, onde a condessa se conservou invisível durante três dias.
Na manhã do quarto dia, mandou chamar-me e quando apareceu fiquei surpreso com o seu aspecto.
Procurando velar o rosto palidíssimo e as olheiras roxeadas, falou-me em tom lastimoso:
- Padre, aconselhe-me na minha desgraça, por amor de Deus!
- Filha amantíssima, creia que terá em mim o conselheiro e protector que prometi ser; fale, descarregue o coração; eu sou o médico da alma e hei-de encontrar o bálsamo para sua consciência.
- Meu padre, tenho no senhor a minha tábua de salvação, a minha única esperança neste mundo.
Sei que é misericordioso como aquele Senhor a quem serve.
Confrangeu-se-me involuntariamente o coração:
aquela mulher era uma grande criminosa; mas naquele momento falava com sinceridade e convicção; ao passo que eu, servo de Deus e de Jesus, tinha traído o segredo confessional, depois de fingir-me apaixonado, no intuito de aniquilá-la.
Curvei a cabeça e parece que algo como a voz da consciência me dizia:
covarde, traidor, perjuro, como te apresentarás no tribunal do Senhor?
A condessa não podia ler meus pensamentos, pensamentos que eu mesmo considerava sinal de fraqueza e como tais repelia.
Comecei então por perguntar-lhe o que pretendia fazer, antes de dar meu parecer.
- Não sei, meu filho está louco, a exigir que professe; eu, por minha vez, me sinto aterrada com uma prova tão evidente da sentença divina e estou disposta a tudo fazer para expiar minha falta.
O convento me apavora; mas, diga:
poderei reparar minha falta nos meios profanos, sacrificando tempo e fortuna em benefício dos pobres e dos enfermos, ou deverei amargurar o resto da existência em clausura religiosa?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:30 pm

Respondi-lhe sem hesitar:
- Certo, seu filho doará à Igreja a herança que lhe pertence e que, dessarte, irá beneficiar os pobres...
E quem melhor os conhece, com as suas necessidades, do que os ministros de Deus?
Se minha filha quiser atribuir-me esta tarefa sagrada, eu a desempenharei com alegria, certo de concorrer para sua salvação.
A senhora deve por si mesma, renunciar o mundo, tomar o véu e, como serva humilde do Senhor, apagar a nódoa do crime horrível que cometeu.
Somente atrás das paredes de um convento pode a criatura humana reaver a paz do espírito uma vez perdida.
Mentira ignóbil, pois é lá precisamente que se perde toda a paz e se engendra um inferno dentro da alma; a verdade, porém, é que eu tinha prometido enclausurá-la e ela ali estava à minha discrição.
- Submeto-me, - disse, baixando os olhos - tomarei o véu...
Levantei-me electrizado e tomando-lhe a cabeça entre as mãos, disse em voz alta:
- Abençoada sejas, minha filha, e que Deus e seus anjos te mantenham nesse propósito edificante.
Também podes contar com as minhas preces neste sentido.
Todavia, não deixes de regularizar os teus negócios temporais, considerando-te na condição de viajante que segue em busca de longínqua região.
Tua fortuna requer cuidados, por evitar discórdia e mal-entendidos, após a internação.
- Sim, tudo farei e permita-me contar desde já com o seu auxílio, neste particular.
Os dias imediatos passamo-los concertando o magno assunto.
Tudo que lhe pertencia pessoalmente em dinheiro, jóias, etc., me foi confiado para distribuir aos pobres; uma grande propriedade foi adjudicada ao Convento das Ursulinas, tocando a nossa comunidade grande soma em dinheiro e terras vinhateiras, como parte do quinhão cabível a Edgar.
Esse quinhão correspondia, mais ou menos, ao que o falecido conde pretendia legar, e querendo a condessa, tanto quanto possível, reparar o mal, exigi que as disposições do morto fossem atendidas.
Assim, com a descoberta do crime materno, o jovem Alberto teve de muito desfalcado o seu património.
Quando dei conhecimento das resoluções da condessa, ele quis comentá-las e embargá-las, mas eu adverti:
- Filho, você exigiu que sua mãe professasse; foi para impedir esta doação que ela sacrificou seu pai; portanto, é mais que justo queira agora, para expiar seu crime, executar as vontades da vítima.
Quanto à sua fortuna pessoal, está no seu direito dá-la aos pobres, para que orem por ela e por seu marido.
A Igreja, como sabe, tem um direito consagrado, atinente à fortuna de seus irmãos; portanto, não há o que embargar, ainda mais quando resta muito dinheiro, terras e castelos, ao senhor de Rouven.
Mais:
ao senhor resta-lhe a liberdade, a riqueza, todos os bens mundanos e poderá, qual águia de asas soltas, planar sobre os dois rochedos, nos quais vão viver sequestrados do mundo a ex-condessa de Rouven e seu nobre enteado Edgar.
Quatorze dias passados, rompendo as brumas da manhã, acompanhei a senhora Matilde ao convento das Ursulinas, depois de haver resignado o cargo de capelão do castelo, prevenindo ao jovem conde que, de volta, seguiria definitivamente para o meu mosteiro.
A condessa apresentou-se toda de preto e, após despedir-se do filho e dos fâmulos, aos quais na véspera distribuíra presentes, desceu, apoiada em meu braço, aquela mesma escada de honra que eu galgara um dia, cheio de esperanças, pela mão de Edgar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:30 pm

Comitiva composta de alguns pajens apenas, a cerração forte logo encobriu a silhueta do castelo num véu de cinza.
Pensativa, cabisbaixa, a companheira de viagem não disse uma palavra.
Após três horas de caminho avistamos o convento das Ursulinas.
Para demonstrar humildade, a condessa apeou e prosseguimos a pé.
Tocando a sineta do portão, veio-me à mente a primeira visita lá feita.
Franqueada a entrada, tive de amparar D. Matilde, que parecia prestes a desmaiar.
A abadessa recebeu-a de braços abertos, estreitou-a de encontro ao peito, chamando-a de irmã.
Não mudara, a abadessa:
era a mesma figura beatífica, de olhar sereno.
Notei que me fixou com insistência, mas não me reconheceu e saudou-me com muita afabilidade.
Disse-lhe que era o confessor da condessa e queria continuar assistindo-a, ainda, porque, como executor de suas disposições testamentárias, teria de lhe prestar contas.
Ao mencionar o legado opulento, destinado à sua comunidade, a zelosa pastora da Igreja me apertou efusivamente a mão, dizendo em tom melífluo:
- Muito bem, padre; venha, sempre que quiser, consolar nossa irmãzinha e creia que será sempre bem-vindo.
Despedi-me e, nada mais tendo a fazer no castelo de Rouven, dirigi-me para a Abadia, a fim de entender-me com Edgar.
Ele me ouviu radiante mas, passada a primeira emoção, contou que havia surpreendido uma entrevista do prior com Mauffen, porém em termos tais que o deixaram indeciso e confuso, sem saber o que pensar.
O grande caso é que o abade tinha usado uma linguagem de cabotino e não de um homem da sua classe.
E falaram também de um chefe, sem o nomear, já se vê.
Afora isso. adquira a certeza de que Berta era a mesma condessa Rosa, e que o tal Dilauffen tramava uma vingança contra Leo de Loevenberg, pois que o citara com ameaças.
Como via, era já alguma coisa e com paciência também me chegaria a vez de cobrar as contas de madre Bárbara e de minha mãe.
Dias mais tarde, fui às Ursulinas e lá estive com a condessa, já enfronhada no seu hábito de noviça.
Resignada, declarou-me que o seu amor por mim era o seu único consolo neste mundo.
"Intra muros", para distrair e matar o tempo, voltei a trabalhar com pai Bernardo, o sábio infatigável, sempre na pista de alguma descoberta e de tal modo absorvido nas coisas transcendentes, que tudo esquecia, inclusive seus próprios planos de vingança.
Dois segredos, sobretudo, queria ele arrancar aos arcanos da natureza:
a fabricação de ouro e a manifestação das almas desencarnadas.
Com esse objectivo, estudava noite e dia e assim passávamos o tempo debruçados sobre velhos manuscritos, contendo estranhas experiências e relatos de necromantes egípcios e caldeus.
Bernardo fazia de asceta, alimentando-se do estritamente indispensável, a ponto de parecer isento de toda e qualquer necessidade fisiológica.
Sua vida era tão espiritualizada que chegava a esquecer que tinha corpo.
O prior visitava-o, uma vez ou outra, no laboratório.
Bernardo pouco falava e lia muito, anotando quanto lia, num pergaminho; mas, se houvesse de fazer qualquer explanação ou comentário, era magnífico de verdade e erudição.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:30 pm

Um dia, ocupado em pesar alguns ingredientes que desejávamos fundir, sempre no afã de obter ouro, enquanto o prior assentado diante de pequena mesa lia um velho tratado, vimo-lo interromper-se de súbito e dizer naquela voz metálica, toda sua:
- Irmãos, vejam quão cegos e atrasados ainda estamos; ouçam esta maravilhosa narrativa de um visionário caldeu, que acabo de traduzir neste velho alfarrábio:
"Tendo, quanto possível, desacostumado o corpo de toda necessidade material, sobretudo de alimentação, que embota a inteligência, (eu havia notado diversas vezes que, depois de um copioso repasto, me sentia amolentado) consegui, à força de periódicos jejuns e concentração mental sobre questões abstractas, consegui, repito, deixar e retomar o corpo à minha vontade.
E fazia-o colocando-me em sítio amplamente aclarado, fitando o sol.
As primeiras experiências foram infrutíferas; nada perdi com isso, de vez que os raios do astro em torno do qual gravita o nosso planeta, deveriam depurar-me.
Quando consegui fixar persistente e ininterruptamente o foco luminoso, não pude mais despregar dele os olhos, e pouco a pouco comecei a ver uma luz radiante penetrar-me o corpo e o encher de massas nebulosas, de sorte que, por elas premida, a alma pouco a pouco se lhe evadia, em amálgama igualmente nebuloso, porém prateado, à semelhança de uma cascata esbatida à luz do sol.
Certo estava eu de ser a alma que se destacava, pois essa massa nebulosa era o molde exacto do corpo, posto que mais diáfano, mais belo, como se presume peculiar a todo espirito com permissão de exteriorizar-se.
Apenas um cordão luminoso, muito espesso e sólido, ligava o espírito ao corpo, facultando a este movimentar-se à vontade, e contudo, impedindo-o de libertar-se completamente.
Pude, então, distinguir todos os objectos ao redor, vi um grande rochedo a meu lado, ao mesmo tempo que lhe via o âmago; vi que o mesmo raio solar ali penetrava e com isso parecia decompor-se em milhões de gotículas multicores.
Depois, meu espirito visitou as entranhas do globo e lá percebeu os mesmos raios de sol vivificante.
Notei que, sempre depois das flamas policrómicas, havia alguma coisa que lembrava a fumaça. Regiões havia onde tudo borbulhava, à guisa de água fervente, desentranhando-se pouco a pouco em faíscas depois, fumarada negra que, desfeita, deixava entrever linhas como de cristais, uns de ouro, de metais outros, ainda outros de pedras preciosas.
Era como se lhes assistisse à formação".
Nesse ponto, calou-se o prior e nos disse:
- Apenas até aqui pude fazer a tradução, porque o texto está quase ilegível e muitos vocábulos me são desconhecidos; todavia, o sentido geral está no que acabo de ler; o que penso de tudo isso, meus irmãos, é que precisaríamos conhecer as manipulações do invisível, que produzem ouro, e não misturar, como fazemos, elementos já formados.
Para conseguir esse intento, seria preciso podermos observar e produzir as substâncias gasosas, tais como as viu o caldeu e isto não será jamais possível, pois que se trata de matéria tão subtil quanto a que constitui a nossa própria alma.
É fácil de compreender o interesse com que acompanhamos a leitura e comentários do prior que, tendo um fundo de verdade, dava muito que pensar e suscitava mil problemas.
Se pudéssemos ter alguém capaz de os resolver!
Sim, eram gigantes que perseguíamos, sem jamais os atingir, esses mistérios da natureza, que formigavam a cada passo, a cada olhar, no presente como no passado ou no futuro.
O próprio homem era um abismo insondável.
Como se unia e se separava no corpo, esse ego invisível que pensava, sofria, estudava e podia ainda ter afeições, ódio, raiva, ciúme, quando nada mais dele restava que massa inerte, como aquele cadáver de Godeliva que, também ela, tinha amado, sofrido, falado? Mistério!
Tudo isso se ocultava nesse espaço transparente; assim reflectindo, tudo me pareceu insignificante, inútil, mesquinho, inclusive eu mesmo, com todos os meus planos de vingança.
Atrás de nós, quantos séculos e gerações extintas!
Quantos grandes homens com seus feitos e glórias desaparecidos, amortalhados nesse invisível onde, evidentemente, havia lugar para todos.
Enterrei a cabeça nas mãos, assoberbado, esmagado por inumeráveis enigmas que me preocupavam sem que pudesse resolvê-los.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:31 pm

Meu cérebro afigurou-se-me comprimido, experimentou uma coiro desordem funcional do pensamento, como se esbarrasse num muro inabalável.
Oh! Deus! - pensava se me fora dado levantar, a qualquer tempo, uma pontinha desse véu, eu sacrificaria por essa vitória a própria vida.
- Frei Sanctus - falou nesse momento a voz do prior - não se aflija tanto assim; nossos miolos não são feitos para funcionar como queremos, mas... (aproximou -se, pôs-me a mão no ombro e disse em tom firme) nós fomos criados para trabalhar e não para sonhar; não se entregue a tão lindas quimeras, que nos parecem promissoras de ricas descobertas e não passam de traiçoeiras ciladas, pesadelos que só se desvanecem quando aqui (batendo na testa) tudo paralisa.
A vida nos é dada para viver...
Vivemo-la, pois.
- Sim, - murmurou pai Bernardo ele poderá fazê-lo com sua alma de gigante, com a sua inteligência infatigável, mas, nós, pigmeus, eu pelo menos...
Também me levantei dentro e fora de mim, tudo me parecia incolor:
futuro sem finalidade, meus projectos de vingança mesquinhos e ridículos.
Antecipei-me no tempo e no espaço, como se tudo houvesse realizado, vendo-me, sentindo-me alquebrado, envelhecido, confrontando um resultado desolador para, finalmente, reentrar em o nada incognoscível, na pátria de minha alma!
Impossibilitado de prosseguir no trabalho, pedi licença a pai Bernardo e voltei à minha cela.
Ali fiquei alguns dias, acabrunhado e apático mas, pouco a pouco, a mocidade reagiu, a impressão se desvaneceu e o tédio da vida monacal me reconduziu ao laboratório de pai Bernardo.
Tudo entrou no ritmo habitual.
Semanas e meses decorreram sem acontecimentos dignos de menção, até que um dia de manhã, Edgar me entrou na cela com um sorriso enigmático.
- Ângelo, é hoje que a condessa Matilde faz acto de profissão.
Á tarde irei visitá-la e tu, findo o ofício da noite, irás esperar-me lá no velho subterrâneo.
Depois de rever minha madrasta, dar-te-ei a grande alegria, que há muito te venho prometendo.
Quis interrogá-lo, mas, logo se afastou, alegando ocupações.
Um vago mal-estar me acabrunhou todo o dia.
Eu não me tinha afeiçoado a D. Matilde e, sem dúvida, essa criatura soberba e criminosa, fizera jus ao seu destino; mas, a contragosto, não me saía da ideia que ela em Deus tinha um juiz superior a Edgar, e que o terrível transe que arrostava, bem como a terrível entrevista em que haveria de perecer, eram obra minha.
Esperei impaciente a hora aprazada e, tomando uma tocha, dirigi-me para o ponto marcado.
A velha catacumba era uma grande cripta subterrânea, já inteiramente coalhada de sepulturas.
Ninguém lá descia e eu estava certo de não ser incomodado.
Prendi a tocha num gancho de ferro e assentei-me no rebordo de uma campa.
De todos os lados e, tão longe quanto o olhar podia alcançar, elevavam-se monumentos funerários e as próprias paredes estavam revestidas de placas de mármore ou de bronze.
A luz oscilante da tocha fazia surgir da escuridão, ora a silhueta de um cavaleiro ajoelhado, ora a cabeça de uma mulher de mãos postas, ou algum escudo - último sinal da estulta vaidade humana.
E eu considerava melancolicamente:
todas aquelas criaturas, cujas efígies ali apareciam litografadas, estavam mortas de há séculos, tinham-se engolfado no ignoto nada e também lhe haveriam sondado o mistério!
Esse problema da morte, que tanto me interessava, de novo me empolgou.
Não sei quanto tempo ali sonhei, senão que estremeci quando o sino badalava a meia-noite.
Edgar tardava.
Teria ficado retido na Secretaria?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:31 pm

Mas.., nesse instante, ouvi passos no fundo do subterrâneo e Edgar me apareceu, saído não sei donde.
Pela expressão do rosto, deduzi a satisfação do ódio saciado.
- Obrigado, Ângelo, - disse, apertando-me a mão - as horas hoje vividas me acalmaram e reconfortaram.
- Viste-a? - perguntei, sentindo a mesma impressão penosa que me apoquentara o dia todo.
- Sim, vi aquela que já não passa de sombra do que foi: a soberba condessa de Rouven.
Ela tremeu, ao reconhecer-me, amargando a ironia com que encareci minha vingança, bem como o teu nome e a tua traição.
Agora, estou bem certo de que ela experimenta os mesmos sofrimentos que eu amarguei, ao privar-me de tudo:
nome, honra, liberdade, sacrificado em vilíssima intriga.
Que ela prove, também, os horríveis momentos nos quais o burel me parecia de chumbo e desejava arrebentar a cabeça de encontro a estas paredes, feitas túmulo de minha vida.
Por agora, baste-lhe compreender o que sofri; a ela que, habituada a mandar e a governar, não passará de instrumento servil nas mãos de uma criatura como a madre Bárbara.
Mas, olha que também te trago novas dessa boa amiga.
Ficam para mais tarde, porém, visto que agora quero dar esta prova de meu reconhecimento e que gozes os remanescentes do amor que porventura ainda te reste no dilacerado coração.
Nesse momento, dois vultos até então despercebidos, destacaram-se da parede e duas freiras surgiram no ambiente mal aclarado pela tocha.
A que de mim se aproximou, deixando cair o véu, deslumbrou-me simplesmente!
Ébrio de amor, louco de alegria, estreitei-a em meus braços.
Era Nelda!
Sim, Nelda, minha irmã e, sem embargo, criatura da minha paixão.
Uma nuvem me passou pelos olhos.
- Tu aqui?
Que milagre é este?
Recuei um passo, sem lhe deixar as mãos, e pus-me a examiná-la.
Sim, era bem ela, com a sua tez pálida, feições mudadas, mas sempre bela.
Assim, inebriado, só depois de algum tempo volvi à realidade, e vi Edgar encostado e, junto dele, a outra freira - Maria de Falkeinstein, cuja fisionomia espelhava profundos sofrimentos morais, apenas atenuados pela presença do homem amado.
- Assentemo-nos e falemos do que nos interessa - disse o companheiro, dando o exemplo.
- Explica-me todos estes mistérios, Nelda!
- Deixemos isso para amanhã - interpôs Edgar - e ouve agora as notícias graves que tenho a dar-te.
Não me tenho descuidado, nem tu tampouco, e teu dia chegará, pois já temos em mãos todos os fios da meada.
Basta considerar que Nelda e Maria aí estão, nas Ursulinas, e nada do que lá ocorrer nos escapará na trama.
Toda a confraria está farta de madre Bárbara, com a sua refalsada hipocrisia, e Maria tem elementos para destroná-la.
Neste caso, nada mais preciso dizer, senão que também temos uma galeria de comunicação com o convento, tão certo como aqui estarmos reunidos.
Também não somos os únicos que têm lá preso o coração.
Já sabemos que a condessa Rosa se refugiou junto de sua amiga Bárbara; de sorte que não será difícil agarrá-la.
Entretanto, antes de mais nada, precisamos capturar a abadessa e assim terás duas presas em penhor de vingança.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:31 pm

Outras tantas também me restam:
- Waldeck e meu irmão.
Eliminados eles, poderei cuidar de mim, e então... quem sabe? talvez consiga realizar meu sonho...
Mas... é tempo de nos separarmos - disse, levantando-se.
Até breve, pois agora poderás ver Nelda sempre que quiseres.
Despedimo-nos; as freiras desapareceram.
Edgar retesou-se e com olhos brilhantes, falou:
- Sabes o que sonho e me inferna noite e dia?
- Como imaginá-lo, além da tua vingança, que vemos tão bem encaminhada.
- Isso é secundário - disse com vivacidade - o facto é que estou na pista de uma intriga inacreditável... (curvou-se e segredou-me no ouvido) nosso prior não passa de um títere, dirigido por mão hábil, e todos nós somos instrumentos dessa vontade oculta.
Ninguém me tira da cabeça que o prior tem duas personalidades, uma que manda e outra que obedece, passiva e cegamente.
Todo o sistema admirável da confraria, triunfos, prestígio, riquezas, pode atribuir-se aos talentos desse homem desconhecido; mas, no fim se não encontrasse auxiliares como nós, isto é, obreiros para toda espécie de crimes secretos, nos quais não emporcalha as mãos.
Ora, isso me revolta, pois bem sabes que nasci antes para mandar que ser mandado.
Certo estou de que, se lhe ocupasse o lugar, com os poderes de que dispõe, faria muito mais, e melhor.
Bernardo me prometeu a cruz de ouro, antes que eu nela pensasse, e agora essa ideia me persegue:
- O prior tem que ser deposto, tanto como a madre Bárbara, para que fiquemos senhores de tudo, já que no presente não passamos de escravos, e o que mais é - escravos de algum aventureiro, talvez.
- Quem poderá ser? - perguntei inquieto - pois também já me havia ocorrido a mesma suspeita.
- Sei lá!
O que sei é que precisamos descobri-lo.
Nesse intuito, tenho feito minucioso exame de todos os colegas, estudando-lhes o andar, os gestos, o timbre de voz, etc.; e conclui que ele não se encontra entre nós.
Dir-se-ia que surge sempre do quarto do prior, mas ainda não encontrei um meio de o identificar.
Preocupado e intrigado com todas essas conjecturas, não me contive e disse:
- Olha que estás jogando uma partida arriscada; a perspicácia desse personagem que nos dirige é bem maior que a nossa, e se bem que eu faça justiça à tua energia e argúcia, temo que não possas competir com ele.
Meu amigo corou vivamente e li no seu olhar algo de ironia e rancor.
- Pensas que me falte inteligência e energias para descobrir essa farsa e atingir meu escopo?
Então, quero me prestes um juramento.
- Qual é?
- O de não tentares conquistar o priorato, caso eu consiga, com os meus esforços, a sua vacância.
- Juro-te pela minha honra.
- Obrigado! e agora, duas palavras mais, para que possas dormir inteiramente tranquilo:
sabe que fui à minha madrasta, entrando pela portaria e dizendo-me teu mensageiro, pois seria perigoso (sorriu ironicamente) dar-lhe a suspeitar a existência de um caminho mais certo e mais discreto, para rever Pater Sanctus - caminho por mim descoberto muito antes, quando espionava o prior, que também o utiliza nas suas entrevistas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:31 pm

Aliás, foi por seu intermédio que pude rever Maria, e foi igualmente dele que obtive licença para te aproximar de Nelda.
Em geral, os confrades que, como nós, têm velhas afeições nas Ursulinas, são os únicos a gozar desta regalia visto que as novas relações são proibidas.
E agora que tudo sabes, boa noite.
Algum tempo transcorreu sem maiores novidades, até que um dia recebi a visita inesperada do barão Wilibald de Launey, pálido, desfigurado, visivelmente abatido de corpo e alma.
- De passagem por aqui, não quis perder a ocasião de visitá-lo, - disse.
Depois, contou em poucas palavras que se tinha casado, mas não era feliz e que o infortúnio da irmã ainda mais o acabrunhava.
Que houve, então?
perguntei ansioso e interessado pela formosa Rosalinda, cuja união abençoara.
- Ignorais, então, o que por ai corre de boca em boca?
- Nada sei, absolutamente.
Ele passou a contar que o conde de Mauffen, após haver muito perseguido sua pobre irmã, cometera para com ela toda a sorte de infâmias.
Por último, numa reunião, acusara Loevenberg de haver, à falsa fé, assassinado o cavaleiro Sezefredo Mauffen, seu primo, quando este se dirigia, a negócios, para o castelo de Loevenberg, acrescentando que o cadáver fora mais tarde encontrado em terras de Leo.
Este, indignado, protestou, e Mauffen manteve a acusação, insinuando que o acusado herdaria uma parte dos bens da vítima, cuja mãe, tia de Loevenberg, detestava Hugo de Mauffen e tinha testado o sobrinho, caso o filho morresse sem deixar descendente.
A discussão degenerou em escândalo e acabou em recíproco desafio, resolvendo os contendores apelar para o juízo de Deus.
Rosalinda, quando soube, ficou exasperada e fez questão de assistir ao encontro, cujo desfecho lhe foi desfavorável.
Vendo tombar o marido, ela deu um grito que espantou todo o mundo, ainda porque, todas as simpatias recaiam em Leo.
O duque, visivelmente surpreso, não sabia como decidir o aniquilamento do vencido, diante da jovem esposa, considerando a grande paixão que os unia.
No primeiro instante, Rosalinda estendia as mãos súplices para o duque; mas, de repente, vimo-la estremecer e bradar:
- Não, excelência! eu seria um inimigo pior que esse desleal assassino, se vos pedisse a conservação de uma vida desonrada.
Antes morto que desonrado!
E calou-se.
Eu, ocioso é dizê-lo, perdi a cabeça.
Ver sucumbir assim o nosso bondoso e querido Leo, sem poder valer-lhe!
Nosso tutor Rabenau, que tinha ido assistir ao combate, do nosso palanque, tomou Rosalinda em seus braços para subtrai-la à visão do pavoroso desfecho.
Essa narrativa me comoveu profundamente, devido à espontânea simpatia que o leal mancebo sempre me inspirara. - Onde está Rosalinda agora? - perguntei.
Em casa de Rabenau, que lhe dispensa as maiores atenções e cuidados.
Parece que o heroísmo de minha irmã levou Lotário a esquecer a falta de confiança no caso dos esponsais.
Imaginai porém, Pater Sanctus, que esse patife de Mauffen, não satisfeito com a morte de Leo, ainda roubou o cadáver que, levado para uma barraca e lá depositado, desapareceu e não houve meios de o descobrir.
Disto não demos ciência a Rosalinda, que ardia em febre e nada podia, felizmente, resolver por si mesma.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 21, 2016 7:32 pm

Mas, eu espero que há-de chegar o dia de ajustar contas com esse Hugo de Mauffen, a quem voto ódio de morte, como bem podeis avaliar.
Pouco depois, Wilibald se retirava. noite, desci ao subterrâneo, lá encontrando Maria e Edgar.
Nelda chegou logo depois e começamos a falar dos nossos assuntos.
As duas raparigas revelaram que tinham conseguido propagar um surdo movimento de revolta contra a abadessa, cuja requintada maldade se tornara, de longa data, intolerável a toda a confraria.
Tudo estava previsto e preparado, apenas aguardando um momento favorável.
Além disso, Nelda havia surpreendido uma entrevista do prior com a condessa Rosa que, estava mais que provado, era a estalajadeira Berta, em carne, e osso.
Com grande surpresa de Nelda, eles haviam falado de um chefe e o prior dissera que a vida abacial lhe era um fardo insuportável, tanto que, se pudesse assenhorear-se do cofre, quebraria as algemas e daria o resto ao diabo.
Ouvindo tal coisa, Edgar levantou-se e começou a passear de um lado para outro.
Lembrou às duas amigas que era tempo de partirem e recomendou não perdessem de vista os colóquios de Rosa com o prior.
Uma vez sós, Edgar se perfilou e disse:
- Estás vendo?
O prior é um fantoche e nada retém:
contudo, quando precisa, nunca lhe falta dinheiro!
Sabes o que pretendo fazer?
Disponho de soma considerável, tu me fornecerás parte do que recebeste de minha madrasta e eu tentarei corromper esse testa-de-ferro, que deve ser um carácter maleável.
Afastado ele, o cargo, assim vago, será meu.
Ah! se eu pudesse saber quem é esse verdadeiro chefe...
Para o momento a descoberta não era fácil, mas o acaso protegeu os projectos do amigo.
Uma noite, quando descíamos ao subterrâneo, ao passar rente aos cómodos do prior, no mesmo local onde, certa feita, já ele havia surpreendido uma conversa suspeita, ouvimos o murmúrio de duas vozes.
Paramos cautelosos.
Dizia alguém:
"cão ingrato, desobedeceste-me pela segunda vez e assim acabarás comprometendo-nos a todos; abusas da posição independente que te facultei.
Vamos, dá-me conta do dinheiro que te confiei e dissipaste.
Livra-te de me esgotares a paciência e não suponhas que podes zombar de mim.
Tu não me conheces; quebrar-te-ei como se quebra um vidro...
- Eis o chefe, - sussurrou Edgar - e logo a voz do prior ecoou em tom servil:
- Mas, conde, eu estou inocente; que mais posso fazer?
Há muitos anos que vos sirvo, procurando fazer-vos todas as vontades e nunca estais satisfeito.
Deus é testemunha de minha gratidão; mas a verdade é que muito me maltratais...
- Bem, bem, conheço os teus melindres - revidou o outro - mas ouve:
é preciso ter de olho o irmão Benedito, que me rastreia, e cujos olhares suspeitos tenho já surpreendido.
Esse homem não me agrada.
Já lhe proporcionei meios de se vingar, que mais poderá querer?
Edgar me travou do braço e continuou dizendo:
- Foi bom saber que ele desconfia de mim.
Saberei precaver-me no redobrar dos esforços, e fica sabendo que hei-de saber quem és, ó Argos, que ouves crescer as plantas!
Porque, justiça lhe seja feita, é mesmo um tour de force o ter surpreendido a minha espionagem.
- Sim - confirmei - e vale repetir que estás fazendo um jogo perigoso, enfrentando esse homem arguto e suspicaz.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:06 pm

- Veremos: quem não arrisca não petisca e de resto, (sorrindo significativamente) não me apraz combater inimigos menos valorosos.
Bem ouviste que se trata de um conde, e isso para mim tem muito valor.
Separamo-nos.
Fui procurar pai Bernardo, mas devo confessar que meus trabalhos de laboratório, tanto quanto os planos de vingança estavam arrefecidos pelos idílios secretos com a encantadora Nelda.
Minha paixão por ela revivescera mais ardente que nunca, e era correspondida sem peias nem medidas.
Não havia entre nós escrúpulos nem remorsos, os amores ilícitos vicejavam maravilhosamente, atrás das paredes espessas dos dois austeros conventos.
Algumas semanas assim decorreram, até que uma noite Benedito me comunicou que chegara a ocasião tão desejada de abater a abadessa.
Um surto variólico irrompera no convento, algumas freiras haviam falecido, enquanto outras, já contaminadas, perigavam.
Graças a uma droga de pai Bernardo, madre Bárbara também se mostrava muito indisposta e Maria e Nelda, que a assistiam, declararam-na também atacada do mal; de sorte que, para evitar o contágio, ninguém podia visitá-la.
Na noite seguinte, tudo foi preparado e surtia o efeito desejado.
A abadessa, narcotizada, foi carregada por nós para os subterrâneos, e ali depositada em uma das prisões secretas, onde eu me poderia vingar à vontade, arrancando-lhe todas as revelações concernentes a minha mãe e ao meu nascimento.
Enquanto assim operávamos, secundados por outras colegas hostis a madre Bárbara, geralmente detestada por sua maldade, substituíram o seu corpo pelo de uma freira falecida, cujo rosto desfigurado pela enfermidade mal se reconhecia.
No dia seguinte, conhecido o passamento, o temor do contágio e a precipitação do enterro facilitavam a não identificação do cadáver, de sorte que madre Bárbara estava definitivamente morta para o mundo e para a sua comunidade.
Sendo Maria de Falkenstein muito estimada por sua inteligência e bondade, quanto pela integral doação de sua enorme fortuna ao convento, foi eleita abadessa.
Era uma grande vitória de Edgar, que assim ficava senhor absoluto do cofre das Ursulinas, de vez que Maria estava sempre disposta a sacrificar tudo pelo seu bem-amado.
E como Nelda assumiu o cargo de tesoureira, nada mais poderíamos desejar.
Nosso Edgar precisava de muito dinheiro para movimentar seus planos e, ainda bem que naquela época não havia sistemas de fiscalização como os de agora.
Tendo aqui mencionado estes factos, para maior clareza da narrativa, volto a madre Bárbara, trancada a sete chaves, com uma trégua de quinze dias para pensar e convencer-se de sua impotência.
Uma noite, munindo-me de boa vergasta e de material de escrita, desci ao calabouço.
Era meu intento anotar-lhe antes de tudo a biografia, que presumia interessantíssima.
No estreito cubículo arredondado e escassamente alumiado por uma lamparina, a enxerga de palha, um banco e mesa de pedra, constituíam todo o mobiliário.
Quando lá entrei, pálida e desfigurada, madre Bárbara estava estendida na miserável enxerga.
Tapando o rosto com as mãos, rompeu em soluços ao lhe ordenar, seca e severamente, uma completa confissão, sob pena de castigo humilhante.
Mostrei-lhe a vergasta significativamente, recuou aterrada e disse:
- Confessarei tudo!
Não me dei a conhecer, pois não queria influir na confissão, para assim poder melhor apreciar a sua sinceridade.
Maria tinha-me entregado toda a correspondência particular da "boa" abadessa e foi dessa forma que vim a saber que ela amara loucamente o Sr. Teobaldo e havia, por despeito, desiludida, professado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:06 pm

Após, protegera os amores da condessa Rosa com o duque.
Finalmente, um bilhete deste, agradecendo-lhe o haver denunciado os planos vingativos do Sr. Teobaldo, ou seja, do conde Bruno de Ratenau.
Em geral, esses pergaminhos mencionavam muitos factos cuja significação me escapava, porque tópicos havia intencionalmente destruídos.
Assentado, preparei meus cadernos e, colocando a tocha de maneira a lhe aclarar o rosto em cheio, intimei-a a começar, acrescentando que fora incumbido de um inquérito sobre os velhos amores de Rosa com o duque, bem como do fim que tivera um filho dessa ligação adulterina.
Em voz baixa, entrecortada de suspiros, eis que lhe ouvi.
- Órfã muito cedo, fui criada por uma tia muito amiga da condessa de Rabenau, mãe do Sr. Bruno, a quem conheci, pode-se dizer, na adolescência.
Rica e bem nascida, houve quem projectasse nosso casamento, que passei a desejar de todo o meu coração.
Bruno era realmente um belo rapaz e me inspirou uma paixão como jamais pude encontrar na vida.
A verdade, porém, é que me não correspondia e até me tratava com indiferença.
Quando sua mãe lhe deu a conhecer que aprovava o casamento, ele se escusou peremptoriamente e, para evitar disputas e controvérsias com minha tia e com sua mãe, resolveu fazer longa viagem, sem a ninguém prevenir.
Esse procedimento me indignou a tal ponto que resolvi professar e doar ao convento toda a minha fortuna.
Entretanto, minha paixão malograda se transformou em ódio inominável, e a ideia da vingança me perseguia noite e dia.
Um ensejo se apresentou mais depressa do que pudera esperar.
É o caso assim.
Bruno tinha um irmão mais novo, já casado, e com o qual morava sua cunhada Rosa, que, não obstante mais moça do que eu dois ou três anos, tornou-se minha amiga íntima.
Quando entrei para o convento, ela me veio visitar muitas vezes; mas, de repente, desapareceu e meses depois vim a saber que esposara o homem que eu amava perdidamente.
O que se passou, então, no meu íntimo, só Deus o sabe...
Mais tarde, quando ela reatou suas visitas, desejei envenená-la, não só para arrancá-la ao marido, que eu adorava, mas também para o ferir no coração.
Todavia, um fortuito incidente me fez mudar de resolução.
Tinha notado que a condessa, frívola e sensual, não correspondia absolutamente ao amor de um marido tão belo quanto generoso; tanto que, em nossas palestras, só me falava da corte que lhe fazia o duque, também jovem e sedutor, a esse tempo.
Um dia, tive a diabólica ideia de ajeitar o assunto e perguntar se lhe agradaria conquistar o amável duque e a resposta afirmativa não se fez esperar, sem a menor hesitação.
Quanto ao mais, eu sabia como agir.
Tendo conservado algumas amizades na corte, vali-me delas para obter uma entrevista com o duque e, com as devidas cautelas, lhe dei a entender as boas disposições da condessa.
O duque se inflamou e as coisas logo se verificaram à medida dos meus desejos.
Facilitei-lhe os encontros com Rosa, que, leviana e vaidosa por natureza, deixou-se empolgar por essa ligação.
Estava o duque igualmente rendido nessa aventura, quando Rosa começou a se queixar que não sabia como escapar à vigilância do marido.
Troquemos os papéis, - propus-lhe.
Representarás aqui o de abadessa, recebendo teu duque; dir-te-ei onde e quando e enquanto isso, eu representarei o de esposa do conde Bruno.
Para explicar a possibilidade desse projecto, direi que o conde estava sofrendo uma enfermidade da vista, que nada lhe permitia ver à noite.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:06 pm

Como lhe houvessem aconselhado banhos frios de imersão, no lago, fora residir algum tempo no seu castelo de Lothersee que, como sabeis, fica perto do nosso convento.
Longo seria contar por que acaso eu tinha descoberto uma galeria subterrânea entre o castelo e o convento.
Onde começaria essa galeria, nunca ousei investigar.
Rosa recebeu minha proposta com uma gargalhada, mas acabou aceitando-a com entusiasmo...
Visitou pessoalmente a galeria e viu que ia dar no oratório, junto do quarto de dormir.
Tudo mais se realizou como lhe propusera.
Omito as minúcias, para só dizer que dentro de um ano Rosa teve um menino e, com pequena diferença, outro me nasceu.
O filho de Rosa, que ficara oculto no convento, morreu.
Convinha, porém, ter presos o duque e minha rival, e com esse intuito lhes ocultei a morte do filho, substituindo-o pelo meu, devidamente marcado no berço.
Mais tarde, Rosa o entregou à sua irmã, condessa de Rabenau, que o criou e mandou educar secretamente num velho castelo.
Depois disso, apenas uma vez tive ocasião de ver este filho, já homem feito, mas sem lhe poder dizer que laços nos prendiam..."
Ouvindo tal, faltou-me o ar, tudo rodava em torno e gritei quase asfixiado:
- Mentes! Não sou, não posso ser teu filho!
E ela recuando espantada:
- Vós - mas, quem sois vós?
Levantei a manga do hábito, mostrei o braço nu.
- Ângelo! - exclamou.
- Provas! Provas!
Quero provas... - E sacudi-a.
Levantou-se, tirou de sob o manto enorme relicário preso a um cordão de ouro e desatarraxando-lhe o fundo, retirou e me entregou duas minúsculas tiras de pergaminho.
Desdobrei-as e li em silêncio:
"A criança está enterrada em lugar seguro; a mulher que requisita aí estará na hora marcada...
Consegui, sem maior obstáculo, o anel para marcar a criança e irei buscá-lo quando determinar.
Eulenhof".
Na segunda tira, em grandes caracteres, estas palavras quase ilegíveis:
"Recebi a quantia prometida.
A abadessa deu à luz um filho.
Gilda".
Esta última carta - continuou madre Bárbara - eu a obtive de Eulenhof a peso de ouro.
Mas nada lhe respondi.
Angustiado, deprimido, pus as mãos na cabeça.
Sim, já não podia duvidar:
era filho daquela mulher e do homem generoso que me educara com bondade e carinho verdadeiramente paternais.
E era ela, minha mãe que eu ajudara a eliminar e não era tão culpada assim...
Que fazer, então?
Matá-la? Impossível!
Só de o pensar, estremecia horrorizado.
Quem e esse Eulenhof que me apontam a cada passo; onde está ele? - perguntei de súbito.
- Mauffen e Godeliva também me falaram dele.
Agora é a sua vez e eu tudo quero saber.
Ela baixou a cabeça, confusa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:06 pm

- É... (mas deves guardar segredo!) o prior deste convento; somente ele... (calou-se, ao mesmo tempo que um breve ruído se fazia ouvir na parede oposta).
Voltei-me, então, e no mesmo instante abriu-se uma porta cuja existência eu ignorava, aparecendo-nos o vulto imponente do prior:
- Muito bem! madre Bárbara! - disse irónico - e logo fechando a porta:
- pareceu-me que falava de um barão de Eulenhof, suposto prior do convento...
Estais a contar maravilhas, e chego a crer que a solitude vos baralhou as ideias.
- De onde vos veio essa ideia de Barão Eulenhof, prior?
O que eu sei é que o abade deste convento é irmão do Barão, e mais, que é um homem honrado, não um aventureiro do seu estofo.
- Pois muito bem, irmão Sanctus:
acabastes de encontrar uma mãe, e ainda bem que o coração ardente de madre Bárbara lhe inspirou, na mocidade, ideias tão engenhosas..."
Eu estava mudo...
Pois que! Aquele homem teria o dom da vista dupla para aparecer sempre a tempo e nos sítios e nos momentos que lhe convinham?
- Vamos, senhora abadessa - continuou o prior - acompanhai-me porque este lugar é indigno de vós.
Abriu a porta por onde entrara:
- Suba, suba sem parar, (mostrando-lhe a estreita escada em caracol) nós a seguiremos.
Venha connosco, Sanctus.
Subimos, calados, a interminável escada, até que parou, premiu um botão, abriu a porta e enveredamos por estreito corredor, na extremidade do qual ardia uma lâmpada.
Na embocadura da escada via-se um nicho com a imagem da Virgem.
- Segui, senhora, considerai-vos livre.
- Que fizestes - perguntei estupefacto - que dirão nossos irmãos?
O prior, fechando a porta, voltou-se para mim, de olhos felinos.
- Meu caro, sois um palerma; essa mulher é um saco roto.
Uma abadessa, ungida do Senhor, como consentir que a matassem?
Acolá (designando o corredor) ela será bem recebida, - disse rindo-se, irónico - pois hoje é a noite de São Francisco e a mulher que cai nas garras de centenas de frades, jamais lhes escapa com vida... Compreendeis?
Recuei, esfregando os olhos.
Sim, compreendera ... esse homem era um demónio!
Quando destapei os olhos, ele havia desaparecido.
Encostei-me à parede procurando coordenar ideias; ela, a madre abadessa, era minha mãe e essa descoberta significaria que já me não restavam outros inimigos.
Sim, porque nenhum direito de vingança me assistia contra o duque e a hoteleira Berta.
Meu pai era o Sr. Teobaldo.
E só de o pensar, meu coração se enchia de vaga alegria.
Quanto a minha mãe, porém, que pavorosos segredos possuiria para que o prior-esfinge a condenasse a um fim tão execrável?
De sobra, sabia o que era a noite de São Francisco, na qual os frades se entregavam a orgias inqualificáveis e pelo que ninguém lhes pede as contas. O coração me pulsava com violência; eu estava como desatinado, embriagado.
Voltei ao subterrâneo e à masmorra vazia, ainda aclarada pela tocha que lá deixara; e como se fosse eu mesmo um condenado, atirei-me ao banco de pedra, apoiando a cabeça na laje fria da mesa e adormecendo, ou talvez desmaiando.
Quanto tempo assim permaneci, não sei; o que posso dizer é que fui despertado por violentas pancadas na porta.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:07 pm

Levantei-me e abri maquinalmente, para dar entrada a Edgar, que me encarou com inquietação e espanto.
- Ângelo! - disse, sacudindo-me pelo braço.
Que se passa, que fim levou a abadessa?
- Paciência - respondi assentando-me - vou dizer, mas deixa-me tomar tento.
Benedito assentou-se a meu lado e tudo lhe contei.
- Oh! exclamou - é simplesmente horrível; mas, quem será, afinal, esse personagem ubíquo, que parece tudo saber e prover?
Muito acabrunhado, nada respondi.
Benedito compreendeu e me acompanhou à cela, forçando-me a tomar algum alimento e um gole de vinho, para logo cair em sono profundo e reparador.
No dia seguinte, foi dizer-me que a abadessa estava morta, mas não quis entrar em pormenores.
Taciturno e preocupado, desci ao laboratório, para ver se no trabalho readquiria calma.
Semanas depois destes tristes episódios, Benedito me informou que tinha conseguido uma entrevista do prior, aliás importantíssima.
Com muita prudência o havia sondado, e dada a sua condescendência, chegara a tentá-lo francamente com a promessa de pingues valores.
Evidentemente, propenso a transigir, o prior ainda hesitava, mas ele, Benedito, estava certo de que atingiria o seu escopo.
A esse tempo comecei a ver muito um monge feio, de olhos cruéis, antes despercebido.
Notei que esse monge conversava bastante com o meu amigo e parecia muito ligado ao prior, que lho havia recomendado.
Tinha igualmente a impressão de que aquela cara horrenda não me era estranha, mas onde e como a vira, isso é que me não lembrava.
Uma noite, Benedito me disse:
- Vem comigo ao gabinete do prior, pois espero que a nossa entrevista de hoje seja decisiva.
Escondeu no manto um cofre cheio de ouro e lá nos fomos ao gabinete particular do prior, onde lhe falara da primeira vez para comunicar a reabilitação de Edgar.
Desta feita, nosso digno director estava sentado diante de uma mesa abarrotada de pergaminhos, a examiná-los à luz da lâmpada, com o queixo espetado nas mãos.
Edgar colocou o cofre em cima da mesa, abrindo-o.
- Isto vos pertence, se quiserdes falar; o mesmo vos será dado no dia em que fugirdes; mas, por hoje, é só dizer quem é e como se chama o chefe.
Vamos, dizei, - insistia nervoso.
O prior fisgava, de olhos cúpidos, as moedas cujo brilho faiscava à luz da lâmpada.
- Seu nome... (deteve-se, enquanto sôfrego esperávamos) é... Lotário de Rabenau - concluiu baixinho.
- Ah! - disse eu batendo na testa.
Agora identifico esse olhar de fogo e essa voz vibrante e dominadora.
- Ele... ele, - repetia Benedito! - um homem leigo, mundano, sem regalias monásticas quaisquer.
Há que vermos, então, se continua a mandar...
Nesse instante, ouviu-se a voz do anão, aguda e rebarbativa, qual de um papagaio:
- "Quero perdê-lo porque o odeio; bateu-me, só porque pretendi beijar a mão da condessa Rosalinda, que de mim se amedronta; a ela, porque a adoro perdoo; mas a ele nunca!
Ele também ama Rosalinda e meu desejo é matá-lo."
Assentamo-nos.
Benedito acertou com Eulenhof,(1) as condições do pacto e seguiram conversando como bons aliados.
O anão contou que, espionando o conde, certificou-se de que ele trabalhava durante a noite e ocultava cuidadosamente os seus documentos num cofre e que esse cofre, por sua vez, era recolhido a um armário disfarçado pelo forro de madeira da parede.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:07 pm

Eulenhof ia além:
e sei, dizia, que o conde nada ordena senão depois de consultar esses pergaminhos, que devem conter anotações para todos os projectos de futuro e tudo mais que concerne à organização da confraria.
Ouvindo essas palavras, Benedito exclamou:
- Preciso obter esses documentos e prometo ao anão o peso de ouro desse cofre, se ele conseguir furtá-lo.
Quando nos retiramos tínhamos a vitória nas mãos.
Sabíamos quem era o chefe temível, o prior subtil e valoroso.
Benedito parecia transfigurado.
Acabava de lembrar que havia entre os irmãos vingadores alguns que guardavam sérios agravos do conde de Rabenau e desejavam vingar-se, sem contudo poder atingi-lo.
Desde esse dia Benedito desenvolveu intensa actividade, mas guardando sempre para si os pormenores do seu plano.
Apenas uma noite, tomando-me pela mão, falou:
- Sanctus, vais prestar-me um grande serviço:
é que, dentro de poucos dias, se vai festejar com grande pompa o aniversário natalício do conde Lotário.
Tu lá irás, em traje civil, ao castelo, onde certo ninguém te reconhecerá entre a multidão dos convidados.
Tudo observarás e talvez o anão te entregue o cofre.
Impossível recusar tal favor a um amigo como Benedito.
No dia marcado, coração ansioso, tomei o traje simples, mas rico, de um gentil-homem em viagem, pus uma barba grisalha e lá me fui ao castelo de Rabenau.
No primeiro burgo arranjei um cavalo, alegando que o meu estropiara e tivera de o abandonar no caminho.
Chegada a noite, aproximei-me do castelo.
A ponte levadiça estava arriada e uma turbamulta de aldeões se espraiava pela estrada.
Pedi hospedagem por uma noite.
1 - Entrai, senhor, - falou velho soldado que guardava a ponte - faz anos hoje o nosso mui nobre e poderoso amo, e todo aquele que Deus envia a esta casa, será bem-vindo. Entrei.
Um escudeiro tomou conta do animal e convidou-me a subir a escada de honra.
O castelo apresentava-se engalanado e turbilhonante de alegria.
Luzes, flores, toda a nobreza das cercanias congregada.
Franqueados todos os cómodos, eu a todos percorria, sem despertar maior atenção.
No vasto salão de jantar desdobravam-se os preparativos do banquete, mesa transbordante de riquíssimas baixelas, terrinas e travessas de prata e nelas, pavões e faisões assados, um javali inteiro, etc.
Noutro salão, inúmeras damas e cavalheiros se agrupavam em torno de um trovador, que se dizia procedente da Provença e cantava as mais requestadas trovas de amor.
Alegria, enfim, animação por toda parte e o que só me causava estranheza era não ver o anfitrião em parte alguma.
Acabei descendo ao parque e passeando sob a copa das árvores.
Noite soberba de estio, tépida, embalsamada, com a lua cheia, em tudo tonalidades argentinas.
De repente, um murmúrio de vozes me despertou atenção.
Esgueirei-me adentro de um bosquete e vi uma clareira com um banco de pedra.
Em torno do banco, roseiras floridas.
Esse bosquete ficava muito perto das torres e justamente a porta que dava para a clareira estava aberta, deixando ver uma escada iluminada. O conde Lotário, dando o braço a Rosalinda, descia a escada conversando, e foram eles que me despertaram a atenção.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:07 pm

Acocorei-me atrás de uns tufos de folhagem e fixei o belo par que acabava de transpor a clareira.
Rosalinda, de branco, parecia pensativa e caminhava de olhos baixos; o conde, envergando um gibão de veludo cinzento, bordado, ostentava ao peito as armas rutilantes da sua casa.
A roupa justa, consoante a moda, desenhava-lhe admiravelmente o porte esbelto e a perfeição das linhas, que lhe davam elegância e agilidade juvenis.
Assim o vendo, não pude furtar-me à consideração de que o conde, apesar dos seus 45 anos, podia rivalizar com qualquer mancebo de 25.
- Rosalinda, - disse ele, com voz discreta, mas na qual identifiquei a voz do prior - você se retrai da sociedade e se refugia aqui; mas, diga-me:
até quando quer ficar assim?
Não haverá um afecto capaz de a consolar?
E como ela se conservasse muda, ele inclinou-se e de olhos enternecidos afagou-lhe as faces ruborizadas:
- Então, nada respondes?
Ela ergueu os olhos e suspirando, falou:
- Se eu traísse a memória de Leo, teria em troca o que me pede o coração?
Acaso poderei fixar os olhos na águia que, voando nas alturas, apenas anota o que se passa em baixo; que de passagem, admira as flores, porque são belas, mas logo as rejeita como supérfluas?
Não, conde, não falemos nisso; tratarei de ficar fiel à memória de meu marido, que só vivia para o meu amor e não sonharei com as águias, cujos amores não passam de fugazes prazeres terrenos.
Desprendeu-se do braço e deixou-se cair num banco.
O conde estava evidentemente satisfeito com o que acabava de ouvir.
Depôs no chão o gorro de plumas e, cruzando os braços, encarou de frente e a fundo a senhora Lowenberg, cujo semblante mal disfarçava a profunda comoção.
- E se eu lhe respondesse que a águia se detém no voo e, cansada talvez, de solidão nas alturas, quer baixar à planície e colher uma flor, não para esquecê-la, mas para lhe guardar fidelidade?
E se eu disser à heroína que teve um dia a coragem de pronunciar esta frase: antes morto que desonrado! - vem para o meu coração e sobrepairaremos juntos nas alturas?
A voz se lhe amortecera pouco a pouco; dir-se-ia, antes, brando murmúrio.
Com as últimas palavras, abriu os braços e Rosalinda neles se atirou fremente.
O nosso reverendo prior cingiu-a apaixonada e demoradamente.
Nesse instante, surgiu na escada um belo rapaz louro.
Deparando com a cena inesperada, estacou como que fulminado.
À luz de um archote que lhe batia em cheio no rosto, pude analisar-lhe os traços finos, mas algo efeminados.
Depois, empalideceu de morte, tapou os olhos e, com um ah! lamentoso, desapareceu num instante.
Era Kurt de Rabenau!
O que acabava de ver e ouvir, deixou-me estupefacto e fiquei longo tempo acocorado, imóvel, temendo provocar qualquer ruído.
A hipótese de ser descoberto pelo prior, dava-me calafrios, visto que, por sua força de vontade, ele era e ficava sendo sempre o chefe.
O temível chefe dos Irmãos Vingadores falava, ali, assim, uma linguagem que lhe não conhecia e que me parecia imprópria dele.
A voz sonora, timbrava ternuras e carícias, por vezes vivas e passionais; falava de amor, de felicidade, de futuro radiante, e se eu não estivesse bem informado dos gigantescos projectos que se aninhavam naquela fronte, não identificaria nela o laboratório de tantas intrigas.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:07 pm

Ao fim de algum tempo, ele se levantou.
Evidentemente, espírito dinâmico e turbulento, teria já muito falado de amor e pensaria noutras coisas.
- Minha querida, - disse, beijando a mão de Rosalinda - vai juntar-te aos nossos concidadãos, enquanto aqui me demoro um instante para atender alguém e resolver certos negócios.
É um instante e já estaremos juntos.
Vai...
Ela deixou-se abraçar e subiu lépida e satisfeita.
Ele, ao ver-se só, suspirou, passou a mão na testa e começou a passear de um lado para outro, sôfrego como se de facto esperasse alguém.
Até que enfim, apareceu um pajem e lhe disse algo que não pude ouvir.
Mas vi que fez um gesto de surpresa e ouvi-o dizer:
- "Que venha".
O pajem desapareceu e daí a minutos um peregrino descia apressado a escada e lançava-se aos pés do conde.
Este recuou e disse:
- Que é isto? quem sois?
O peregrino desvelou-se e vi que era uma mulher e essa mulher era Gertrudes, minha companheira de infância e antiga companheira de Nelda.
Bem mudada estava, a Gerta, mas sempre bela.
- Tu aqui! exclamou Lotário procurando erguê-la - como pudeste deixar o Convento?
Diz, que há?
- Oh! meu Deus - soluçou Gertrudes - por quem é, não retorneis mais ao Convento, meu caro senhor, pois tudo está descoberto:
Eulenhof desapareceu, os irmãos estão abertamente revoltados e se lá vos apanharem, sei que vos matarão.
Abraçou-se-lhe aos joelhos, desesperada!
Ouvindo-a repetir que tudo estava descoberto, o conde ficou extremamente pálido e agarrando-a pelo braço explodiu:
- Fala, antes de lamentar, criatura!
Preciso tudo saber, ouviste?
E forçou-a a assentar-se.
Com voz fraca e precipitada, mas minuciosa, a rapariga desfiou toda a nossa trama e conspiração contra Rabenau, a proporção que ouvia, o conde se transfigurava horrivelmente.
Expressão tigrina, lábios contraídos, quando soube do plano de subtracção do cofre, pôs as mãos na cabeça.
Maldito convento, ninho de víboras! - exclamou.
Por mim, sentia-me cada vez pior naquela situação.
Os membros entorpecidos, não havia como distendê-los para me não trair, pensando e dizendo a mim mesmo:
se ele aqui me pilha, estou perdido.
Súbito, não sei como, estalou um ramo, Rabenau voltou-se, perscrutou a moita e me pareceu que seus olhos de felino me haviam descoberto.
Vi que tirava da cintura um apito e logo um silvo agudo fendeu o ar.
Escudeiros acorreram.
- Vigiem essa porta e esse bosquezinho; se ai estiver alguém, matem-no como a um cão.
Gertrudes se embuçara; tomou-lhe do braço e foram-se escada acima.
Finalmente, lá fiquei só, mas, como rato na ratoeira, a ouvir o passo cadenciado das sentinelas, que guardavam o parque.
Àquela hora, todas as saídas estariam vigiadas para impedir o roubo do cofre.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:08 pm

Como evadir-me e avisar Benedito?
O solo me escaldou os pés e, ainda assim, era preciso me mantivesse imóvel.
Mil pensamentos me chocalhavam no cérebro.
Como pudera Gertrudes inteirar-se da nossa conspiração?
Por que acaso estava ela nas Ursulinas?
E por que tanto interesse pelo conde?
Havia muito que a perdera de vista e essas conjecturas me pareciam inexplicáveis.
Semanas mais tarde tudo se aclarou.
Mais de uma hora se escoara naquela expectativa angustiosa, quando o conde reapareceu na clareira.
Despediu as sentinelas e esteve algum tempo de pé, com os braços cruzados.
Só, então, notei como se lhe haviam alterado as feições.
Dir-se-ia que houvesse envelhecido, mas nada podia afear aquela fronte admirável.
Entrou a monologar:
- Perdido! fragilidade humana...
Esperar um futuro de amor à beira de um abismo...
Ver desmoronar numa hora a construção de uma existência inteira!
E Kurt também lhe tem paixão, também a quer.
Foi ele quem lhe arrancou aquele dorido ah!
Pois que seja feliz, ao menos ele!
Deixou-se cair no banco e mergulhou a cabeça nas mãos.
O frufru de vestido de seda o fez levantar a cabeça...
Era Rosalina que chegava, pálida e ofegante.
- Que me queres?
Kurt me disse que querias falar-me...
Notei-o tão sobressaltado...
O conde atraiu-a apaixonadamente:
- Rosalinda, tens ainda aquela coragem que me fez amar-te, que me inspirou paixão?
Terias o mesmo ânimo de repetir:
antes morto que desonrado?
Ela deixou escapar um grito.
- Lotário, não me peças tal coisa, que eu não sobreviveria a um segundo transe...
- Pobre criança - disse sorrindo, melancólico - nós sobrevivemos sempre às chagas mortais, e morremos de uma picada de alfinete.
Ouve-me, pois que vou falar não à mulher amada, mas à amiga de minha alma.
Estou desonrado, todos os meus documentos foram roubados e, dentro de poucas horas, talvez, estarei desmascarado como traidor ao duque e falso prior da Abadia dos Beneditinos.
Essa desonra é fatal, é inevitável.
Quererias ter-me vivo, coberto de opróbrio, condenado e rebaixado, antes que orar na campa de um homem honrado e venerado por todos?
Ela deixou pender a cabeça ao peito do conde e soluçava como se fosse uma criança.
- Sim, eu sei que dirás, por mim, o que disseste por Leo, pois não me amas menos que a ele.
Pois bem:
filha minha e minha bem amada, é a ti que eu lego tudo o que de mim restar na terra, isto é:
o nome, a fortuna e meu filho Kurt.
Aceita este legado, faz-te condessa de Rabenau, dedica-te a Kurt e faz-lo feliz, por amor a mim.
Jura-o, querida, como se tivesse a mão pousada em meu cadáver frio.
Ela ergueu-se fora de si:
- Que fazes, Lotário?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:08 pm

Com que direito me abandonas depois de me confessares o teu amor?
Oh! Eu nada juro e quero que vivas, por mim e para mim.
Amote, sim, e a ninguém mais poderei amar neste mundo.
O conde também se levantara.
- Sim! - disse ela, resoluta.
- Ai de mim! - volveu ele melancólico - sempre esperava mais de ti.
Adeus! Parto sem tua promessa, mas, crê que a morte assim, ser-me-á duplamente penosa.
Fazendo menção de retirar-se, Rosalinda deu um grito e estendeu-lhe as mãos súplices.
- Fica, eu prometo...
Ele abraçou-a comovido, mas para retê-la nos braços, logo desmaiada, levando-a em seguida para o banco e ali se conservando um instante, ajoelhado e pensativo.
Depois, num gesto brusco de alucinado, disparou escada acima.
Sem perda de um instante, deixei o esconderijo e barafustei-me pelos corredores do castelo.
Precisava voltar ao convento antes que Rabenau lá chegasse, certo de que ele não desdenharia enfrentar a morte.
Esse homem para cuja perda eu havia contribuído, tornara-se-me subitamente simpático.
A fascinação que ele exercia sobre quantos se lhe aproximavam, tinha-me avassalado e me suscitava, agora, o desejo de o salvar.
Atingi, sem dificuldade, as cavalariças do castelo, montei o primeiro animal e, uma vez transposta a ponte, disparei a todo galope.
Chegando ao Convento, desci pela galeria oculta e despindo as vestes seculares, enverguei o burel e corri à sala do subterrâneo, destinada às nossas reuniões, pois sabia por Benedito que haveria assembleia nesse dia.
Ao aproximar-me da sala onde prestara juramento, chegou-me aos ouvidos confuso rumor de vozes alteradas.
Por vezes o diapasão sonoro e profundo de Benedito, parecia dominar o tumulto.
Ofegante, comovido, insinuei-me na sala e vi que a confraria em peso se debatia, presa de exaltação indescritível.
Ignorava o que se passara anteriormente mas, logo de entrada, deparei com o prior, de pé, nos degraus do estrado!
Revestia o hábito, mas tão despreocupadamente que deixava entrever a túnica de cavaleiro e, no peito, reluzentes, as insígnias dos Rabenau.
De cabeça alta e descoberta, fitava a tumultuosa assembleia com olhos intrépidos, por vezes arrogantes.
Um pouco à frente dos monges, Benedito, pálido e de olhos flamejantes, acusava-o de usurpador e sacrílego, por exercer um cargo só cabível a professos juramentados.
Aplausos e vitupérios irrompiam a cada passo, interrompendo o orador; muitos capuzes entreabertos, ou levantados, deixavam entrever semblantes ferozes e mãos nervosas brandindo punhais.
O conde, sereno, braços cruzados, permanecia imóvel.
Por fim, com aquela voz metálica e estridente que o caracterizava, falou:
- Sois uns néscios!
Antes de aqui vir, eu tudo sabia:
portanto, se aqui estou é porque assim o quis.
Tu, tu e outros, (designando alguns confrades) sois meus inimigos figadais...
Sim, eu vos prejudiquei, concordo; e agora quereis matar-me. Seja.
É justo que vos vingueis, mas, não suponhais que me deixe massacrar às vossas mãos.
(Tirando do pescoço a cruz de ouro, arrojou-a ao solo; depois, aprumou-se com orgulho e prosseguiu)
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:08 pm

- Procurai ostentá-la mais dignamente, pois, quanto a mim, não quero sobreviver, por várias razões, mas entendo que um chefe só pode morrer por suas próprias mãos.
Assim morro voluntariamente, vingando os meus inimigos.
Antes que alguém o pudesse impedir, retirou do altar a espada simbólica e mergulhou-a no peito, até o punho.
Pavorosa confusão se fez sentir após o acto inesperado.
Gritos de admiração e desespero repercutiram no ambiente, os punhais alçados rolaram por terra e vinte braços ergueram o chefe banhado em sangue!
Recostaram-no aos degraus do estrado, com a cabeça apoiada no coxim escarlate, sobre o qual prestávamos o juramento.
- Socorro! - bradavam uns. Um médico! - pediam outros.
E eu vi, surpreendido, o profundo e sincero desespero de todos os irmãos, em face da agonia daquele homem que, por tantos anos, os havia dirigido e por eles pensado.
Todos pareciam convictos da perda de um protector devotado, de um verdadeiro chefe.
Também Benedito me parecia atordoado, junto do altar, de olhos semicerrados e semblante angustiado.
Por mim, direi apenas que estava sinceramente compungido.
Poucas horas havia que o conhecera de perto e nele surpreendera um coração terno e bondoso.
Não era, então, o chefe maquiavélico e inflexível.
Altivo e cavalheiresco até o fim, poupara-nos um assassínio e se matara à vista de todos, sem acusar ninguém!
Enquanto eu assim considerava, ele fez um movimento de cabeça, como se quisesse levantá-la.
Amparavam-no e ele, esforçando-se para ser ouvido, disse:
- "A todos perdoo, a ninguém acuso; isto era fatal, já me haviam predito...
Benedito apanhou o colar com a cruz de ouro, aproximou-se e colocando-o ao peito do moribundo, falou:
- Enquanto viveres, hás-de ser o chefe, e como tal, esta cruz ainda te pertence.
Os grandes olhos do prior, já vidrados na agonia, reabriram-se e fitaram Benedito com espanto.
Depois, levíssimo sorriso lhe frisou os lábios roxos, dizendo:
- Sabes muito bem que não mais a ostentarei e que minha vingança está em deixá-la para que lhe tomes o peso.
Eu a sopesei, essa cruz soberba, com toda a responsabilidade dos crimes que ela representa, mas, acabo esmagado.
Irmãos! - disse, erguendo solenemente a destra - o chefe nomeia um sucessor, aí o tendes e meu desejo é que o elejais.
A voz lhe fugiu de chofre, sangrenta espuma lhe escapou da boca, os olhos pararam fixos.
Estava morto!
Sepulcral silêncio pairou no ambiente, por algum tempo.
Eu estava como que fulminado.
Benedito, espectralmente pálido, tapava os olhos com as mãos.
Alguns frades se adiantaram, silenciosos, beijaram a mão do morto, pendente do estrado.
De repente, vozes roucas reboaram:
- Viva o chefe! Viva Pater Benedictus!
Benedito estremeceu, levantou a cabeça e, braço estendido, exclamou:
- Viva a confraria!
Em seguida, passaram a discutir as medidas urgentes.
Ficou decidido que se transportasse o corpo para fora do convento, depositando-a à margem da estrada e tão longe quanto possível.
Sua montaria, que tinha ficado amarrada a uma árvore, foi solta e levada igualmente para longe.
Era preciso dispor as coisas de maneira que a morte da vítima fosse atribuída a malfeitores.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:08 pm

Postas em execução as ordens do novo chefe, subimos aos pisos superiores.
Ao recolher-me à cela, confesso que me sentia profundamente abatido.
A fisionomia e a voz do conde me perseguiam sem tréguas e a consciência me exprobrava o haver concorrido para sua perda.
Além disso. havia que prevenir Eulenhof que, segundo a combinação com Benedito, continuaria à frente da comunidade, até concluir seus negócios, exilando-se.
Para o momento, oculto que se mantinha, deveria passar por morto e deixar a vaga ao sucessor.
Fui, pois, procurá-lo no seu esconderijo e dei notícia da morte de Rabenau.
Exultou de alegria, o que me levou mentalmente à compará-lo a um cão que visse o açoite destruído.
Confessou que agora se julgava inteiramente feliz, acrescentando que enquanto vivesse o conde diabólico ele haveria de ficar sob o jugo.
Sabendo quê Benedito aspirava ao cargo, trataria de aviar-se o mais breve possível, ainda mais porque o cargo lhe era penoso.
Assim entendidos, reentramos no mosteiro e tive, enfim, a oportunidade de me estender no leito.
No dia seguinte de manhã, um dos irmãos não iniciados veio a mim, muito afobado e contou grande novidade:
um irmão que madrugara para visitar um enfermo, encontrara à beira da estrada o corpo de um nobre senhor assassinado.
Procurou, antes de tudo, prestar auxílio, mas, vendo baldados seus esforços, voltou para chamar outros irmãos, que verificaram que o homem estava positivamente morto e que se tratava do conde de Rabenau, conceituadíssimo em toda região por sua generosidade, pelo seu bom humor e aventuras galantes.
- Vinde depressa, - ajuntou o irmão Bavon, - pois aí vem, neste momento, o corpo do conde.
Desci ao pátio, onde estavam reunidos em torno do cadáver alguns monges curiosos, antes que o transportassem para a igreja.
Eulenhof, imponente e piedoso prior, provisoriamente reconduzido ao cargo, ordenou se expedisse um mensageiro ao castelo enlutado.
Curioso por ver o efeito da lúgubre notícia, ofereci-me para levá-la e parti sem demora.
Lá chegando, a primeira coisa que soube foi que os convidados da véspera continuavam reunidos.
Havia contudo, por toda parte, um quê de temor e inquietação, sobretudo na fisionomia dos servos.
Um pajem me conduziu até o salão, alias repleto.
Um trovador cantava e dedilhava a cítara, mas logo percebi que lhe prestavam pouca atenção.
Junto de uma janela, assentada, a velha condessa de Rabenau, nervosa e inquieta; e a seu lado Rosalinda, muito pálida.
Ao menor rumor, estremecia e percorria com os olhos todas as portas, procurando sem dúvida avistar quem nunca mais poderia voltar.
Kurt estava de pé, entre as damas, inteiramente despreocupado.
O pajem que me havia acompanhado, chegou-se ao jovem conde e lhe disse qualquer coisa em voz baixa, mas os ouvidos aguçados de Rosalinda algo perceberam, visto que se levantou bruscamente, perguntando em voz alta:
- Onde está o reverendo frade?
Caminhei para os homens agrupados à porta e eles, respeitosos, me deram passagem.
Todos os olhares se fixavam em mim, que ali estava como ave de mau agouro, para anunciar o infortúnio e espalhar o luto entre aqueles que se haviam reunido em auspicioso festival.
Aproximei-me da castelã, saudei-a reverente e disse.
- Nobre senhora, trago-vos uma trágica notícia; mas, antes de vo-la dar, quero fazer sentir que a todos nós cumpre curvar-nos aos desígnios do Senhor, lembrando que também Jó foi atingido no curso de esplêndida festa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:09 pm

Vosso filho, o ilustre e poderoso conde Lotário de Rabenau, morreu esta noite, provavelmente vítima de algum monstruoso atentado.
Um irmão nosso o encontrou caído na estrada e o corpo foi removido para o Convento, onde se encontra.
Logo às primeiras palavras, a velha dama se levantara, apoiando a mão trémula no braço da poltrona.
Depois, o pranto jorrou dos olhos e tombou soluçante.
Rosalinda deu um grito, caiu desmaiada, enquanto Kurt, muito pálido, procurava socorrê-la.
Depois, nada mais vi, porque fui arrastado pela multidão que abandonava a sala.
Uma vez fora, choviam gritos e perguntas:
- Morto o conde?
Quem sabe ferido, apenas?
Mas, onde e como?
Por quem? Bem que o suspeitei...
Sua ausência era de estranhar...
Por fim, todos se calaram para me ouvir e conjecturar a causa ou causas do atentado.
A opinião geral era que o conde, sempre envolvido em aventuras galantes, muitas vezes temerárias, fora vítima de algum pai ou marido ultrajado.
Nada mais tendo a fazer, voltei ao Convento.
Ao primeiro ensejo, fui procurar Benedito que examinava, no momento, alguns documentos encontrados no cofre roubado.
- Ora bem! - tens encontrado coisa que valha?
- Como não? - respondeu risonho.
Em primeiro lugar, descobri por que acaso "ele" ocupava o cargo que lhe arrebatamos.
Aqui tens indicações comprovantes de que o verdadeiro frade António, irmão do salafrário Eulenhof, foi o fundador da nossa organização secreta.
António era também amigo do pai de Lotário e valeu-se dessa amizade para fazer do filho um chefe, presumindo, com certeza, nos predicados do rapaz, um digno sucessor.
E, na verdade, não errou, porque este Rabenau foi realmente genial no seu papel.
Que planos e quanta profundeza de vistas!
Este cofre contém verdadeiros tesouros e nosso "caro" duque muito ganharia se pudesse deitar-lhe um olharzinho.
Nada mais dizendo claramente, tratou de fechar o cofre e pendurou a chave no pescoço, o que não deixou de magoar-me.
Dar-se-ia que suspeitasse de mim?
Deixei-o então e fui, com essa impressão desagradável, ao laboratório de pai Bernardo, encontrando-o, como sempre, curvado à sua mesa, com um grande livro diante dos olhos.
Não lia, porém, porque tinha o olhar fixo na chama da vela, como que absorto em profundas cogitações, que lhe davam um ar de beatitude quase sobrenatural.
- Pai Bernardo, o que está procurando? - disse, tocando-lhe no braço.
- És tu, Sanctus?
Fizeste bem em vir...
Olha que tive a prova da sobrevivência da alma.
Encarei-o aturdido.
- Pois quê?!
Vinha-me com futilidades tais, quando todos só falavam da morte do conde, que, ali mesmo, naquele laboratório, havia dito que o dinheiro era a mola real da vida?
- Caro irmão, não vim tratar de nossas pesquisas e sim para conversarmos sobre a morte do conde.
- Valha-me Deus! - exclamou de olhos incendidos - a quem me refiro senão a ele, o homem incomparável que, durante toda a sua vida me auxiliou nestes trabalhos e que, por sua inteligência privilegiada, adivinhava os mistérios da natureza?
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:09 pm

Com a sua morte, parece que perco metade do meu cérebro.
A ele devo, ainda agora, o coroamento de meus esforços, pois foi ele quem me provou a indestrutibilidade da alma.
Podes ficar certo de que o vi, e olhe que não foi em sonho, mas aqui mesmo, quando trabalhava com o irmão Roque.
Sim, Roque aqui estava quando, de repente, o conde se me deparou de pé a meu lado, qual se vivo fosse.
E, mais, me disse com aquela voz de timbre inconfundível.
- "Pai Bernardo, é verdade, a alma sobrevive a tudo, anima a matéria e não perece jamais; sem descanso, sem tréguas, o Espírito vaga na terra ou no espaço, sem a plena compreensão do fim a atingir...
E quando me prosternei a esfregar os olhos, no pressuposto de uma tentação diabólica, ele sorriu e tomando da pena de sobre a mesa, disse:
- não há outro diabo além de nós mesmos...
Depois, escreveu neste pergaminho as palavras que dissera anteriormente.
A seguir, diluiu-se, evaporou-se e eu permaneci de joelhos, adorando a Deus e meditando na sua omnipotência e grandeza, inapreciáveis a nós outros.
Trémulo, deslumbrado, inclinei-me para o pergaminho e li, naquela letra bem conhecida, as palavras que Bernardo acabava de repetir.
Apesar de tudo, uma dúvida em restava:
Bernardo, temperamento exaltado, poderia ter sonhado com essa visão, convencendo-se depois, da sua realidade.
- E frei Roque também viu? - perguntei.
- Não, porque estava muito fatigado e adormecido quando se deu o fenómeno, coisa que aliás me passara despercebida e só notei quando procurava falar-lhe.
Nesse instante, senti que me batiam no ombro, voltei-me e vi Bernardo cair de joelhos, gritando:
- Deus de misericórdia!
Também a ele vai dar a prova.
Maquinalmente, volvi o olhar e quedei imóvel, terrificado, incapaz de desviar os olhos do semblante pálido do conde Rabenau!
A meu lado, rente a mim, estava o chefe!
Sorridente, passou a mão no meu ombro e dos lábios lhe saíram, nítidas, estas palavras:
"É verdade, Sanctus, nós voltamos constantemente à Terra, para combater nossas paixões; a morte, aqui, representa um nascimento além, mais elevado."
Não pude perceber mais nada, os olhos do espectro me fascinavam; experimentava uma como sensação de queimadura; os ouvidos me zumbiam, a cabeça entrou a rodar e tombei desfalecido.
Quanto tempo assim estive, não o poderia dizer.
O que sei é que, ao abrir os olhos, estava numa cela contigua à enfermaria e reservada aos doentes graves.
Na meia sombra ambiente divisei, sentado à cabeceira, o bom frade Teófilo, chefe de enfermaria, já meu conhecido.
Incapaz de fazer qualquer movimento, tal a minha fraqueza, perguntei-lhe o que se havia passado comigo e porque me sentia tão debilitado.
Ouvindo-me falar, Teófilo, que cochilava desfiando o seu rosário, sorriu satisfeito e me estendeu a mão, exclamando jubiloso:
- Graças a Deus que vos vejo recobrar os sentidos!
Ah! quanto trabalho nos destes, Sanctus.
Cinco semanas assim, entre a vida e a morte, em delírio permanente!
Mas, agora, é preciso repousar, nada de conversas.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 22, 2016 7:09 pm

Antes de tudo, alimentar-se e dormir, porque o sono é excelente restaurador das forças orgânicas.
Aqui tendes este elixir do nosso pai Bernardo.
Tomou da mesa um copo com um líquido pardacento e, amparando-me a cabeça, forçou-me a beber.
Tive imediata sensação de refrigério e adormeci incontinente.
A partir desse dia, passei a dormir profundamente, só me levantando para fazer as refeições.
O organismo esgotado pelas tremendas e consecutivas emoções dos últimos acontecimentos, parecia querer recuperar o tempo perdido e se premunir de novas energias.
Pouco a pouco, o período letárgico se foi atenuando, até que me encontrei plenamente reintegrado em mim mesmo, intelectual e fisicamente.
Durante os últimos dias de convalescença, o caridoso Teófilo costumava ausentar-se longa e frequentemente; mas, quando juntos, evitava falar de assuntos domésticos, alegando não ser isso permitido.
Um dia, de manhã, senti-me tão bem disposto que resolvi deixar o leito.
E estava para o fazer, quando a porta se abriu e vi entrar Benedito acompanhado de Teófilo.
Pendia-lhe do peito a cruz de ouro que custara a vida de Rabenau.
Vendo-a, todo o passado e a terrível aparição se me retraçaram, mas Benedito não me deu tempo de maiores reconsiderações, porque logo se precipitou e me apertou fortemente a mão, dizendo:
- Louvado seja Deus, por ver-te restabelecido, segundo me informa nosso irmão Teófilo.
Até que, enfim, me é dado visitar-te sem infringir as ordens terminantes de pai Bernardo, que te havia sequestrado.
- Certo - atalhou Teófilo - todo o perigo passou e o nosso caro chefe pode agora aqui chegar à vontade.
- Obrigado, caro irmão Teófilo, certo também de que todos lhe ficamos sumamente gratos por seus cuidados e espírito de caridade.
Que Deus o recompense.
Agora, vá descansar um pouquinho e espere que o chame, pois preciso conversar com o nosso convalescente.
O bom frade compreendeu que sua presença era impertinente e depois de haver beijado o hábito do prior, recebendo-lhe a bênção, afastou-se com o mais amável dos sorrisos.
Uma vez a sós, Benedito assentou-se à beira da cama e disse com ar prazenteiro:
- Conversemos, então, mesmo porque, deves estar faminto de novidades...
Antes de tudo - disse, apertando-lhe a mão - aceita minhas felicitações pela nova investidura, pois, ao que vejo, Enlenhof aviou-se depressa e a contento.
Benedito sorriu e ponderou:
Não tanto por mim, diga-se, pois o maroto o que apenas queria era atribuir-me o papel que representava em relação a Rabenau, fazendo-me simples instrumento de sua vontade.
E mais:
teria mesmo dilapidado o nosso erário se, por felicidade nossa, não tivesse adoecido poucos dias após a morte do conde.
Esse incidente nos permitiu arrebatá-lo e enterrá-lo oficialmente, com todas as honras do cargo.
Eu deveria talvez, por prudência, tê-lo deixado para sempre no seu esquife, mas esta crueldade me repugnou.
Resolvi, então, quando ele despertou, dar-lhe uma boa soma, aconselhando-o a desaparecer.
Lá se foi ele e agora eis-me senhor único dos meus domínios.
Minha nomeação não suscitou dificuldades, de sorte que hoje aqui me tens, qual outro duque, na minha esfera eclesiástica.
- Sim - confirmei - grande é o teu poder, mas, meu amigo, dá-me antes notícias de Nelda.
- Tem estado muito aflita com a tua enfermidade; mas compreendes que não era possível deixá-la vir até aqui.
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