Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:47 pm

Em compensação, dava-lhe notícias diárias do teu estado e prometi que irias vê-la no subterrâneo, logo que te restabelecesses.
- Uma pergunta ainda, Benedito.
Como poderia Gertrudes ter tido conhecimento da nossa conjuração e que móvel tê-la-ia levado a prevenir Rabenau?
- É muito simples: Gertrudes é uma bela rapariga e o conde que, a despeito era um homem dissoluto, de sua formação, vaidoso, fez dela sua amante.
Enfadado, não trepidou em abandoná-la, mas, valendo-se do seu poder de fascinação, induziu-a a entrar para o convento, onde lhe serviria de informante.
Assim, ela percebeu uma conversa entre Maria e Nelda, vindo a saber não só da nossa conspiração, como também que o conde era chefe e falso prior.
O resto, já o sabes.
- Sim - concordei - que Rabenau era, de facto, um homem extraordinário e passei a contar a visão que quase me fulminara.
Muito pálido e emocionado, Benedito procurou convencer-me de que eu já estava doente e, por isso mesmo, predisposto a aceitar como real uma imagem alucinatória.
Por mim, bem sabia que tinha visto o conde objectiva e realmente; mas, não querendo discutir, calei-me.
Sabia, mais, que nada há tão difícil como convencer um céptico, e talvez, a ideia de que o antigo chefe mal assombrasse os seus domínios não agradasse o sucessor.
Rápida, daí por diante, a minha cura.
Sentia-me como rejuvenescido e logo que pude procurei pai Bernardo para agradecer os seus cuidados.
Fugia, contudo, de falar da aparição e não deixei de sentir leve arrepio ao rever o local onde surgira o falecido chefe.
Bernardo também se absteve de tocar no assunto, talvez por ter notado minha palidez, receoso de impressionar-me.
Do laboratório fui directo ao subterrâneo, à espera de Nelda, cuja alegria em rever-me foi mais uma prova da sua grande afeição.
Inteiramente restabelecido, fui provido no cargo importante de irmão tesoureiro e retomei, também, minha função de secretário particular e confidente de Benedito.
As horas de lazer eram dedicadas a leituras ou traduções interessantes, uma vez que Benedito tinha sede de saber.
Também as belas artes não lhe eram indiferentes e, muitas vezes cantava, ele próprio, com voz maviosa, os ofícios divinos, ou, debruçado sobre as páginas de um missal, as ilustrava de elegantes e delicadas miniaturas que fazem, ainda hoje, a admiração dos antiquários.
Estas ocupações, entretanto, não o levavam a negligenciar coisa alguma.
Assim é que mantinha com mão de ferro o poder conquistado.
Desconfiado e discreto, pontificava entre os seus monges, velando qual Argos, as propriedades do convento.
Os potentados da região, inclusive o duque, o saudavam de bem baixo, visto que era príncipe da Igreja e, nesses tempos remotos, só isso representava um grande prestígio.
Nessa ocasião, deu-se um facto que poderia ter sido fatal ao meu amigo.
Uma noite, estando a trabalhar sozinho em seu gabinete, contíguo ao quarto de dormir, enquanto eu me ocupava, na cela ao lado, de uma tradução, ouvi rumor estranho no gabinete.
Alarmado, corri sem demora, e qual não foi minha surpresa vendo Benedito atracado com um homem que, armado de punhal, tentava subjugá-lo.
De um salto, atirei-me ao intruso e, agarrando-o pelas costas, dei-lhe na cabeça tremendo soco.
O sujeito tonteou e caiu, de modo que o amarramos.
Só, então, com grande espanto, reconheci o senhor de Mauffen.
- Que é isto? - perguntei a Benedito, enquanto enxugava a fronte sangrenta.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:47 pm

- Vamos sabê-lo.
Este patife pretendia assassinar-me e tê-lo-ia feito, se o assoalho não tivesse rangido a tempo de me voltar e lhe desviar o golpe.
Quando Mauffen voltou a si, Benedito o meteu em confissão.
A princípio obstinou-se; recusava responder, mas acabou declarando com arrogância que conhecia todos os segredos do Convento, a ele vendido por Eulenhof, e que se o não soltássemos imediatamente, seu velho amigo denunciaria ao duque o segredo do subterrâneo.
Entretanto, quisesse Benedito partilhar com ele o poder e deixá-lo gozar os privilégios de vice-chefe da Sociedade Secreta, ambos se calariam.
Diante de tão insolente proposta, os olhos do prior fuzilaram, ao responder com ironia:
- Sr. de Mauffen, os dias se sucedem mas não se assemelham; eu não sou um Eulenhof e ao senhor lhe faltam qualidades para representar um Rabenau.
Todavia, não me nego conceder-vos, em parte, os privilégios de irmão vingador, mas, bem entendido, se vos fizerdes monge.
Louco insolente, pensais que deixe livre um homem perigoso?
Não obstante, os homicídios repugnam e procuro evitá-los sempre que posso.
Escolhei, então: ou professar voluntariamente ou levar para o fundo do lago todos os seus segredos.
Ninguém sabe onde estais, ninguém procurará sabê-lo.
As ameaças de Eulenhof não me intimidam, pois ele sabe muito bem que a confraria tem braço longo e ouvido apurado, e antes que possa falar ao duque, haverá de calar-se para sempre.
Agora, assassino vilão, tendes dois minutos para decidir.
Isto disse, tomando na mesa o punhal do próprio Mauffen e o apontando ao coração dele.
O rosto do conde desarmado, mudava de cor a cada instante; a atitude resoluta de Benedito não lhe deixava dúvidas de que tinha a vida por um fio.
- Vamos, decida-se... - e dizendo-o, vi que calcava o punhal.
- Concordo, - regougou Mauffen - com os lábios espumando de raiva.
- Muito bem.
Agora, Sanctus, vai chamar Conrado e Sebastião.
Estes irmãos, verdadeiros hércules, eram os carcereiros da confraria.
Dignos de toda a confiança por sua fidelidade, tinham por hábito obedecer cegamente às ordens recebidas.
Acorrendo pressurosos, beijaram o hábito do prior, pediram a bênção.
- Aqui tendes este novo irmão - disse-lhes Benedito, apontando Mauffen - guardai-o como a menina dos próprios olhos.
Dentro de quinze minutos, ele investirá o hábito de noviço e haveis de lhe ser como a própria sombra.
Se recalcitrar, sabeis qual a disciplina reservada aos revoltados.
Nada de contemplações, entendeis?
Os monges se inclinaram reverentes; desamarraram Mauffen, que não ousou enfrentá-los e lá se foram os três.
- Que pensar de tudo isto? - disse a Benedito, quando ficamos sós - como poupar a vida de malfeitor tão perigoso?
O amigo, que ia e vinha a passos largos, deteve-se diante de mim, cruzando os braços.
Mas, sem dúvida, porque ele jamais sairá daqui, e nenhum mal nos poderá fazer.
De resto, não me apraz praticar crimes inúteis.
Precisamos também considerar que a vida de Mauffen, por enquanto, nos é preciosa, pois tem propriedades que haverá de ceder voluntariamente à comunidade.
Que ele se faça apenas monge e estou para crer que, graças aos dois guardas que lhe demos, não tardará a felicitar-se o ser.
Conhecerá o regime deste nosso Convento...
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:47 pm

Não sabe ele, tampouco, que ainda tenho outras armas contra ele, pois é verdade que conta inimigos entre os irmãos vingadores, pelos quais soube de crimes inauditos, praticados em seu castelo; crimes contra a natureza e que, uma vez descobertos, lhe valeriam sentença de morte.
Tranquilizado, retomei meus trabalhos e passei uma fase relativamente calma.
As vezes, pensava em meu pai, o nobre barão Bruno de Rabenau e tinha desejos de o rever, mas embargos se interpunham e a crosta da indiferença que me atrofiava o coração, sempre auspiciada à intriga e ao crime, logo desvanecia esses bons desejos.
Começaram, então, a circular, no Convento, histórias de almas do outro mundo...
Às vezes, era um monge em disparada pelos corredores, a persignar-se e a gritar que tinha visto o conde Lotário de Rabenau, assassinado nas vizinhanças do mosteiro, e que andava mal-assombrado as celas, apagando luzes, derrubando móveis e puxando o manto dos frades.
Quando esses factos chegaram aos ouvidos de Benedito, ele proibiu severamente que os propalassem, averbando-os de legítimos abusos adrede preparados para impressionar os tímidos.
E, como temessem muito o prior, ninguém mais ousou dar alarme, limitando-se a comentar os sucessos em surdina.
Assim, muitos monges idosos me juraram ter visto o espectro, tão distintamente quanto me viam a mim mesmo.
Por mim, não haveria que os descrer, pois guardava em mente a visão do laboratório e rogava a Deus que ela não se repetisse jamais.
Pai Bernardo, que não compartilhava dos meus temores, confessou-me que o "grande homem" costumava visitá-lo, e que, certa vez, indo orar sobre o seu túmulo, viu jorrar deste muitas flamas.
Depois de curtíssimo noviciado, Mauffen acabou pronunciando votos, sem maior relutância.
Essa conversão foi muito comentada em todo o país; mas, como a reputação do conde não fosse das melhores, acreditaram que ele fora tocado pela graça divina, procurando resgatar os erros da mocidade, oferecendo a Deus a fortuna e o resto dos seus dias neste mundo.
Casos tais, diga-se, não eram raros nesses tempos.
Eu e Benedito tínhamos opinião menos lisonjeira a respeito do novo confrade, certos de que aquela docilidade mal escondia o plano de uma desforra exemplar.
Também Benedito não esperava mais que azado ensejo para desembaraçar-se do inimigo e o vigiava de perto.
Ele, porém, não se deixava surpreender, sempre taciturno, calado, impenetrável.
Assim caminhavam as coisas, quando um facto inesperado colocou o miserável à discrição do prior.
É o caso que muitas famílias da região, e entre elas os barões de Launou, tinham seus jazigos perpétuos no cemitério do mosteiro, e certa manhã, chegou como um raio a notícia do que o belo e sedutor Wilibald, em plena exuberância de juventude, acabava de morrer subitamente e de forma estranha.
Seu velho escudeiro, ao dar a infausta nova e preparar a recepção do corpo, contou a Benedito uma cena horrível, ocorrida entre Wilibald, a esposa e um jovem alquimista italiano, cujo cadáver fora depois encontrado no tanque, junto à torre e que, nessa mesma noite falecia Wilibald com todos os sintomas de envenenamento.
Dois dias depois, noite fechada, Benedito à frente de um grupo de confrades, postou-se à entrada do mosteiro para receber o cortejo fúnebre.
Ante aquele espectáculo, confesso que me não pude forrar de penosa tristeza, vendo passar o esquife que encerrava, tão prematuramente, aquele rapaz que eu conhecera em plena floração de vida e de esperanças.
Também ele se engolfava naquele nada intangível - misterioso retiro de nossa alma!.
No cortejo encontrava-se a jovem condessa Rosalinda de Rabenau, acompanhada da velha criada.
Muito pesarosa, disse-nos que seu marido ainda ignorava o infausto acontecimento, por isso que havia partido para uma caçada em região muito distante.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:47 pm

Expedido um mensageiro, era de presumir que ele chegasse a qualquer momento para assistir aos funerais.
Sobre a mulher do morto (que diziam foragida) não disse palavra; mas pediu permissão para passar a noite na capela, em companhia da criada a fim de velar o corpo do irmão, o que lhe foi concedido.
Ao rever-me, a jovem Rosalinda não pode conter as lágrimas e tivemos ensejo de falar de Lotário e de Leo de Loevenberg, que me pareceu haver retomado a primazia em seu coração.
Quando o corpo foi colocado na eça e terminou a cerimónia, todos se retiraram e eu fui juntar-me a Benedito no seu gabinete.
Encontrei-o muito atento, examinando um pequeno cofre italiano, cheio de ouro, que Rosalinda lhe havia ofertado.
Como entendidos, examinamos e elogiamos o lavor artístico do objecto e acabamos contando as moedas.
Depois, quando passávamos a tratar da morte de Wilibald, ouvimos um grito abafado, mas evidentemente de mulher.
Aqui vale dizer que, no gabinete particular do prior, a acústica era aproveitada de maneira a ouvirem-se os ruídos mais distantes.
- Que é isto? - exclamou Benedito de olhos cintilantes - este grito vem do corredor e não dos subterrâneos!
Quem ousaria arrastar até aqui uma mulher?
Vamos ver...
Arrastou-me e deslizamos cautelosos pelo corredor, detendo-nos a cada porta e nada ouvindo, além da respiração de um ou de outro irmão adormecido.
Súbito, um grito mais nítido se fez ouvir.
- Ah! rugiu Benedito atirando-se a uma das portas - é aqui.
Ouvimos, então, distintamente, uma voz feminina, que dizia:
"Monstro, infame, se deres um passo, mato-te!"
- É Rosalinda - disse Benedito estupefacto - e Mauffen, o miserável, teve a ousadia de arrancá-la da capela!
Sim, foi ela que deu o primeiro grito abafado...
Tentou abrir a porta, sem conseguir.
- Ah! já sei, entrincheirou-se por dentro - e dando um murro na porta; gritou: Abra, irmão Bruno, quem ordena é o prior.
Ouvindo a voz de Benedito, Rosalinda teve um brado de alegria:
- Meu padrinho, salve-me!
Ao mesmo tempo, grande alvoroço se fez no interior, nós tentamos, ainda uma vez, arrombar a porta e o próprio barulho nos trouxe auxílio.
Outras portas se abriram e de todos os lados chegavam monges aflitos, sobressaltados.
Um dos primeiros foi Sebastião, que logo, compreendeu que o seu "discípulo" tentava algum malefício.
Ao primeiro encontrão, a porta cedeu com estrondo e a pesada canastra e o oratório que a reforçavam, tombaram longe.
Eis o quadro que se nos deparou:
Rosalinda, pálida de morte, encostada à parede, empunhava um pequeno punhal, defendendo -se de Mauffen, que, fulo de raiva, tentava agarrá-la.
Ao avistar o prior, naturalmente exausta, ela deixou cair o punhal e estendeu as mãos para ele.
Sem perda de um segundo, aproveitando a brecha, Mauffen apanhou a arma, sem que alguém pudesse impedi-lo e atirou-se à jovem como um louco, gritando:
"Nem minha nem de ninguém"!
Embebeu-lhe a arma no peito e ela, dando um grito surdo, tombou ensanguentada.
Benedito, com mãos de ferro havia subjugado Mauffen, mas, infelizmente, não a tempo de evitar o atentado.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:47 pm

Petrificados, imóveis, ali permanecemos alguns instantes.
À porta, comprimiam-se os monges, alçando velas e candeias, o que dava ao ambiente um tom sinistro, isto é, Rosalinda no chão, face agónica, e Mauffen de pé, transfigurado pela raiva, tendo ainda na mão o punhal tinto de sangue.
De repente, ele se voltou e quis ferir o prior mas apenas lhe roçou o hábito, porque Sebastião o derrubou com um murro.
- Tragam as cordas - gritou Benedito - e amarrem-no de forma que se não possa mexer.
Isto dizia o prior, num assomo de cólera, que nunca lhe vi e muito contrastava com a sua serenidade habitual.
Num abrir e fechar de olhos, amarraram o bandido, que ousara levantar a mão para o prior, depois de violar as leis conventuais, arrastando à cela, com intuitos ignóbeis, uma mulher, e mulher da mais alta linhagem, esposa de um dos maiores potentados da região.
Enquanto amarravam o criminoso, Bernardo, nosso provecto esculápio, acorria solícito a prestar seus serviços.
Ajudado por mim, levantou Rosalinda e colocou-a em estreita maca.
Sem perder tempo, desatou o capote ensanguentado e examinou o ferimento.
Nunca tivéramos em nosso austero convento um caso semelhante.
Por isso, tive ocasião de ver mais de um olhar caprino cravado naquele corpo de mulher, de uma plástica modelar, e naquele rosto imóvel, aureolado de cabelos negros em desalinho.
Benedito igualmente havia notado a perturbação dos irmãos e, com um gesto ordenou a retirada; mas, ainda assim, a porta e o corredor regurgitavam de curiosos.
Água e ataduras, gritou Bernardo; o ferimento é grave, mas não é mortal.
- Que faremos dela - exclamou Benedito carregando o sobrecenho - uma vez que não a podemos conservar aqui?
Aonde levá-la, quando o menor acidente lhe pode ser fatal?
Mas, antes que alguém pudesse responder, enorme tumulto irrompeu no corredor e ouvimos gritar o nome de Kurt de Rabenau.
Os monges abriram alas e ele, pois que o era, logo surgiu na ombreira da porta!
De pronto o reconheci, posto que muito houvesse mudado as feições.
Sedosa barba loura moldurava-lhe o rosto e lhe dava às linhas efeminadas uma expressão mais viril.
Recebera, sem dúvida, a noticia da morte do cunhado e vinha juntar-se à esposa.
Ao deparar com ela inerte, estirada e coberta de sangue, fez-se lívido.
- Morta! - exclamou, lançando em torno um olhar feroz, como querendo descobrir o malfeitor.
- Calma, Excelência - disse Benedito com ênfase - a mão do Senhor permitiu que o golpe resvalasse, de modo a podermos salvar a nobre vítima.
O conde precipitou-se para Rosalinda e ficou possesso quando lhe notou o corpete rasgado.
Voltando-se para Benedito, disse com esgares sinistros:
- Reverendo prior, mais tarde me prestareis contas de tudo isto, explicando como, contrariamente a todas as leis sociais e humanas pode ocorrer aqui neste lugar santo, um atentado desta natureza.
Por agora, o lugar de minha mulher não é aqui; tem que ser tratada por mulheres, monjas.
E, sem mesmo dar tempo a que Bernardo fizesse o primeiro curativo, soergueu a esposa, envolveu-a no manto e, voltando-se para nós, pediu:
- Indicai-me o caminho mais curto para o Convento das Ursulinas.
Um irmão se ofereceu para guiá-lo; os monges se afastaram dando-lhe passagem e ele desapareceu no corredor com o seu fardo sangrento.
Benedito fez a todos um sinal para que se dispersassem e fomos aos nossos cómodos lavar as mãos salpicadas de sangue.
- Que pretendes fazer do salafrário? - perguntei.
- Que apodreça no eterno descanso o resto da vida, e assim nos desfaremos dele.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:48 pm

O que sinceramente deploro é que Rosalinda e o marido, ambos inocentes, tenham sido vítimas deste patife, que apenas faz jus ao rigoroso castigo.
Lembras-te dos boatos que circularam outrora sobre a louca paixão de Mauffen pela senhora de Rabenau?
E nota que foi ele, também, que assassinou o desventurado Leo.
(Depois, sorrindo - E dizer que houve quem atribuísse a sua piedosa conversão ao despeito, em face do segundo casamento de Rosalinda... )
No dia imediato, logo de manhã, o jovem conde se apresentou no Convento e teve longa entrevista com o prior.
Comunicou que pai Bernardo visitara a doente e confirmara que o ferimento, conquanto grave, não era mortal, havendo por isso as melhores esperanças de salvá-la.
Mauffen não chegou, sequer, a ser julgado; o crime foi tão flagrante que o repouso era a solução; e lá o trancafiaram numa das masmorras especialmente destinadas a esse fim.
A vida conventual retomou seu ritmo tranquilo por alguns meses, até que fosse novamente perturbada por toda uma série de acontecimentos graves.
Em primeiro lugar, o misterioso desaparecimento de Mauffen.
Essa fuga, absolutamente inexplicável, muito nos inquietou a principio; mas, como o sacripanta não pôde ser encontrado em parte alguma, nem deu sinal de vida, um encontro inesperado acabou por nos tranquilizar.
Uma noite, assentados Benedito e eu, conferíamos algumas contas do mosteiro, quando um irmão bateu à porta e comunicou que dois monges, de regresso ao convento, tinham encontrado na estrada um homem meio morto de fome e esfarrapado, mas, cuja linguagem e maneiras não seriam de um plebeu.
Condoídos, haviam trazido consigo o desgraçado e aguardavam a opinião e as ordens do prior.
Benedito ordenou que cuidassem do desconhecido, dando-lhe tudo que precisasse para se fortalecer e acrescentando que iria oportunamente vê-lo, para decidir o que melhor conviesse.
Daí a dias, atravessávamos o refeitório, antes do jantar, quando notei, junto à porta, um indivíduo que me não pareceu estranho.
Era um tipo de meia idade, rosto quadrado, com estigmas evidentes de uma vida desregrada e viciosa.
Barba e cabelos ruivos-queimados completavam a figura nada simpática, que me parecia já ter visto algures.
Voltei-me para Benedito no intuito de lhe chamar a atenção, quando o vi empalidecer e passar a mão pelo rosto.
Dominou-se, porém, e passou adiante, lançando a bênção ao desconhecido, que se inclinou reverente.
Só depois de atingirmos o corredor, Benedito parou e agarrando-me o braço com força, murmurou baixinho:
- Reconheceste-o?
Olha:
veio direitinho cair na ratoeira.
É a hora da vingança que se aproxima, e ainda bem que é ele quem nos procura.
Desta, ninguém o livra.
- Mas, será ele mesmo? Será ...
- Waldeck, sem tirar nem pôr - exclamou Benedito com um lampejo de alegria nos olhos.
Desde esse momento, o meu amigo se absorveu inteiramente com o plano da vingança, que desejava saborear voluptuosa e demoradamente.
Em primeiro lugar, Waldeck desapareceu e eu vim a saber que ele estava mofando em uma daquelas masmorras onde a vida era mil vezes pior que a morte.
Muitas vezes Benedito, em pessoa, lá descia e, quando voltava, tinha na expressão fisionómica algo que falava de uma ferocidade satisfeita.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:48 pm

- Diga-me, - perguntei-lhe certo dia - por que cegueira do acaso Waideck voltou ao país, nesse estado de miséria?
- Muito simples:
ele próprio me confessou, esperando talvez comover-me com a história de seus infortúnios.
Não podendo aqui viver, perambulou por terras estranhas, recebendo recursos da boa senhora Matilde, a quem servira com tamanha dedicação; mas, quando a minha "cara" madrasta resolveu professar, a fonte estancou, sem que ele pudesse descobrir a causa.
Jogador e libertino, acabou esgotando os últimos recursos e aqui chegou para reclamar da condessa o preço da traição.
Ninguém mais podia socorrê-lo e, por outro lado, não ousava dirigir-se a Alberto.
Desesperado então, errava sem norte, quando os irmãos o encontraram e o trouxeram a quem lhe devia destruir a vida.
Semanas passaram.
Uma noite, estando a trabalhar no subterrâneo, entrou Benedito e me fez sinal para que o acompanhasse à galeria.
Só depois de lá chegarmos, vi que estava muito fatigado e tinha no hábito alguns rasgões.
- Que é isso? Que sucedeu? - perguntei aflito.
- Nada de grave; apenas quero merecer-te um favor:
é que estou farto de vingança e o inimigo me desagrada; não quero mais vê-lo e preciso que me ajudes a liquidá-lo.
Reservei-lhe um género de morte digno do seu alto nascimento, mas, não posso, sozinho, executar meu plano, pois quando tentei enforcá-lo, reagiu procurando estrangular-me, rasgando-me o hábito, como vês.
- Estou às tuas ordens, seja como for, mas diz: é para hoje?
- Para qualquer destas noites; prevenir-te-ei a tempo.
De facto assim foi.
Uma noite, quando todo o mosteiro dormia, excepto alguns "irmãos vingadores" debruçados em suas mesas de trabalho, descemos os dois ao calabouço de Waldeck - cubículo que mal acomodava um homem em pé, e bastante estreito para que pudesse alguém ali deitar-se, e cujas paredes viscosas aninhavam ratos e insectos repulsivos.
À luz da tocha vi, acocorado nesse buraco nauseabundo, um ser humano coberto de pústulas horripilantes, a gemer dolorosamente.
- Ajuda-me a arrastá-lo para fora - disse Benedito - e, com algum esforço, levantamos e carregamos o estranho fardo, através de escadas e corredores, até uma pequena porta, que o prior logo abriu.
Essa porta dava saída para a muralha de contorno, limitando por esse lado, com um campo deserto.
Ao tronco ressequido de velha fronde morta, estava amarrado soberbo cavalo alazão, de crina dourada, a nutrir e a escavar o solo, impaciente.
Só então compreendi o plano de Benedito:
desse lado o rochedo que embasava o mosteiro, prolongava-se em rampa que desfechava, cortada a prumo, num precipício chamado Banho do Diabo, por causa da torrente impetuosa que roncava no fundo e desaguava no lago.
A vítima foi amarrada no dorso do animal...
Confesso que não pestanejamos e que o vento que sibilava e sacudia a vegetação não ensejou a mínima hesitação em tão lúgubre tarefa.
A tocha, grampada ao alto da pequena porta, aclarando intermitente a cruz de ouro do prior, e essa mesma cruz atritando-se com o cordão que a retinha pendente do seu pescoço, emitia sons estranhos, como se quisesse dizer, em sua voz metálica, que Aquele de quem nos dizíamos servos tinha expirado na cruz, perdoando os inimigos, ao passo que nós, que havíamos jurado amor e perdão, calcávamos a pés a humanidade inteira!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:48 pm

Mas... que valor poderia ter aquela voz tão fraca, para corações endurecidos, aos quais todo o escrúpulo de consciência e toda a noção do dever chegavam atrofiados no transcorrer dos séculos.
Benedito tomou duas mechas de estopa inflamada e as introduziu nas narinas do animal, ao mesmo tempo que eu lhe cortava o cabresto.
Enlouquecido, o animal empinou, corcoveou e disparou rampa abaixo, qual furacão.
Cavalo e cavaleiro desapareceram um instante, mas logo ouvimos um grito abafado pelo cascalhar de pedras que rolavam, a comprovar que um e outro se despenharam no abismo.
Ali permanecemos ainda um instante olhos fixos no ponto em que o grito indicava.
Depois, regressamos silenciosos...
Nossos vultos se destacavam macabramente nas paredes, enquanto deslizávamos como dois malfeitores, nós, a quem se atribuía o direito de perdoar pecados e apresentar o cálice, e que acabávamos de perpetrar um crime hediondo!
Eu, com franqueza, me sentia mal, e Benedito, a meu lado, caminhava mudo e cabisbaixo.
Estaria satisfeito, ou teria remorsos?
Não saberia dizê-lo, porque nada me revelou.
Separamo-nos com um mudo aperto de mão.
Muitos anos mais tarde, esse episódio me vinha frequentemente à memória.
Os camponeses contavam que, todos os anos, em dada noite, aparecia perto do "Banho do Diabo" um cavalo vaporoso, montado por horrendo espectro, que se precipitava no abismo, com uma gargalhada estridente.
E acrescentavam que todos quantos tivessem a má sorte de ver o fenómeno, pereciam de morte desastrosa.
No dia seguinte, à noite, fui ao subterrâneo para matar saudades de Nelda, que já não via há muitos dias.
Estava já cansado de esperar, quando ouvi passos apressados e surgiu uma freira embuçada, que me entregou um pacote comprido, envolto em flanela escura, dizendo um tanto aflita:
- Aqui tem o que lhe manda Nelda, com a recomendação de lhe dar sumiço, pois que se trata de a salvar.
Também manda prevenir a Benedito que o bispo, em virtude de certos rumores que lhe chegaram aos ouvidos, lá está fazendo minuciosa inspecção e virá depois aos Beneditinos, tornando-se preciso ocultar-lhe estes subterrâneos.
Depois desta rápida elocução, Maria de Falkeinstein (eu a tinha reconhecido) desapareceu qual sombra e deixou-me apreensivo e nervoso, com aquele pacote que, supunha, contivesse documentos comprometedores.
Sem perder tempo, corri a prevenir Benedito, para combinarmos as medidas que a visita episcopal exigia.
Ao atravessar deserto e longo corredor, um vagido estranho me fez estacar...
Percebi então que era um choro débil de criança!
Desconcertado, trémulo, encostei-me à parede, sem saber o que fazer da criança, que continuava a chorar e cujo choro ecoava pelas abóbadas sonoras.
Nesse momento vi passos que se aproximavam...
Se for um dos irmãos não pertencentes à confraria? - pensei.
Se me encontram aqui, a braços com um recém-nascido, estou perdido...
Suor glacial porejava-me da fronte e, quase maquinalmente, comprimi a cabeça da criança...
Ela cessou de chorar e eu a apertei de encontro ao peito até esmagá-la.
Os passos também cessaram e vi que alguém parava a meu lado.
Levantei os olhos, perturbado e deixei escapar um ah! de alivio.
Era Benedito!
Com a sua mão veludosa e olhar penetrante pousados em mim, sussurrou:
- Que fazes aqui?
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:48 pm

Mas, vendo-me incapacitado de responder, tomou-me do braço e me conduziu para o seu gabinete.
- Que tens, Sanctus, que cara é essa?
Tomou-me das mãos o embrulho, desatou-lhe os cordões e surgiu-me diante dos olhos o corpo arroxeado de uma criança, ainda animada de fracos espasmos convulsivos.
- Mais um! - provavelmente o teu - murmurou Benedito.
Sim, tu me falaste da enfermidade de Nelda e agora compreendo.
Mas o que não compreendo é a imprudência de trazeres até aqui esta criança.
Eu estava deveras sucumbido.
- Pois quê? Matara, então, meu próprio filho?
Pobre Nelda, que lhe iria dizer?
Precipitei-me para a mesa, no intuito de socorrer a criança, sem reflectir que era tarde, pois ela já estava morta.
Aflito, levantei os olhos para Benedito, procurando amparo e conforto do amigo, do confidente, do cúmplice.
Ele, porém, já teria certamente galvanizado o coração.
Frio, impassível, mudo, arrancou as ataduras do pequenino cadáver, e a perícia e destreza com que o fez, deram-me a entender que o não fazia pela primeira vez.
Eu sabia, demais, que Maria lhe dera mais de um fruto.
Aquele olhar e aquela atitude serena do companheiro acabaram por tranquilizar-me.
Afinal, e não obstante o meu temperamento nervoso e impressionável, também eu já estava muito endurecido no crime, para que me entregasse a desesperos inúteis, e quiçá ridículos, perante o companheiro.
Criminoso também, ele sabia contudo dominar-se e tinha adquirido bastante energia para não se perturbar com desgraças irremediáveis.
Controlei-me, portanto, e disse enxugando a fronte molhada de suor:
- Tens razão, sou mesmo um imbecil; mas ouça agora como a coisa se passou.
Antes de tudo, Maria te manda dizer que o bispo está no Convento das Ursulinas e não tardará a chegar até aqui.
Diz que deves tomar as maiores precauções para ocultar os subterrâneos, pois há suspeitas de comunicações secretas entre os dois Conventos.
Foi a própria Maria que me entregou o embrulho, sem revelar o conteúdo; e como pelos nossos cálculos, a criança ainda devesse tardar algumas semanas, supus que se trataria apenas de documentos preciosos a resguardar.
Então, no intuito de te prevenir com urgência, vinha pelo corredor quando a criança começou a chorar e, ouvindo passos, perdi a cabeça e fiz o que fiz, pelo temor de ser descoberto.
Benedito ouviu-me calado, e calado começou a andar de um lado para outro, ensimesmado.
Quem rompeu o silêncio fui eu:
- ouve - disse-lhe - que vamos fazer deste trambolho?
Não achas bom que o joguemos no lago?
- Desconfio que não estás regulando...
Como deixar este corpo de delito entre os dois Conventos?
Se por um diabólico acaso as águas o rejeitassem, ou se emaranhasse nos caniços desta ou daquela margem?
Ah! (batendo na testa) tenho uma ideia melhor.
E dizendo-o, abriu a porta do gabinete, já mencionado por ocasião do ataque de Mauffen.
No fundo, elevava-se grande fogão em que brilhavam chamas claras.
O fogo tudo consome - disse - e tomando o pacote, sem sequer me pedir licença, lançou-o no fogo e chegou-lhe mais lenha.
Fechou, a seguir, a porta e veio sentar-se a meu lado.
- Podemos facilmente prever o que será a correição do bispo e precisamos ocultar tudo que lhe possa parecer suspeito.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:48 pm

Abriu a secretária e retirou diversos pergaminhos e alguns objectos.
- Agora, vou ao subterrâneo e tu, Sanctus, lembra-te que és o tesoureiro da comunidade e que o bispo deve encontrar nossas contas em ordem.
Vai tranquilo quanto ao mais, pois aqui estarei dentro em breve e fica a meu cuidado extinguir quaisquer resíduos da nossa fogueira.
Compreendi a justeza das palavras do companheiro e levantei-me para atendê-lo.
Um quarto de hora depois, já me encontrava na cela, inteiramente entregue à conferência de grandes livros e documentos da tesouraria.
Logo ao alvorecer da manhã, o sino grande nos anunciava a inopinada visita do prelado.
A confraria em peso correu ao seu encontro, enquanto Benedito, eu e outros dignitários o aguardávamos à porta da igreja.
Nosso encontro, seja dito, revestiu-se da mais requintada hipocrisia, de parte a parte.
Os olhos ariscos e penetrantes do bispo não deixavam escapar os mínimos objectos e marcas ou acidentes nas portas e paredes.
Louvava tudo, tocava em tudo, admirando a sólida construção do edifício e o seu perfeito estado de conservação, que, ainda por longos anos, dispensaria reformas.
Benedito, calmo e altaneiro, fazia questão de tudo mostrar e explicar pessoalmente, parando de preferência nos locais mais perigosos, que, precisamente por isso, menos interessavam ao visitante, solícito em patentear maior atenção naquilo que o seu guia negligenciava.
Ambos satisfeitos:
Benedito como esconder ao bispo o que ele justamente desejaria surpreender; e o bispo esperando apanhar o prior em falta, a cada momento.
Enfim, depois de nos haver aborrecido dois dias, Sua Eminência lá se foi, sem regatear elogios.
E todos nós sentimos aliviados de um grande peso.
Fácil de compreender que, durante esses dois dias, não me foi possível avistar Nelda.
E contudo, depois do incidente criminoso, mais apaixonado me sentia.
À noite, em conversa com o prior, comuniquei que iria vê-la.
Tentou dissuadir-me e notei que me olhava algo compungido, o que levei à conta do trágico fim que demos à criança.
Não querendo adiar a visita, desci ao subterrâneo e voei pela galeria ao Convento das Ursulinas.
Chegando ao postigo de entrada, bati as pancadas convencionais, apareceu uma freira e fez sinal para que a seguisse.
Em vez, porém, de encaminhar-se para as pequenas celas isoladas e destinadas aos colóquios amorosos, atravessou diversos corredores a mim desconhecidos, até galgar uma escada e parar diante de uma porta de ferro.
Tive um mau pressentimento.
Dar-se-ia que Nelda estivesse encarcerada?
A freira sacou do manto uma chave e abriu a porta com a maior precaução, fazendo-me entrar numa espécie de jazigo, cuja atmosfera húmida e fria me fez recuar.
Apenas uma vela, embutida na parede, iluminava o ambiente sinistro.
Aterrado, sem atinar com tudo aquilo, parei no limiar e vi comprida mesa de mármore e, sobre ela, alguma coisa coberta com um pano branco.
- Irmão Sanctus, queira ver e não se assuste...
Uma nuvem me passou pelos olhos e o que via me parecia horrível pesadelo.
Nelda morta!
Ai de mim! não era um sonho...
Peso enorme comprimia-me o coração, a garganta se me travou, ajoelhei-me soluçante junto do cadáver.
A frialdade do mármore em que apoiava a fronte me fez despertar.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:49 pm

Levantei-me, fitei o belo semblante da querida morta, sem poder derramar uma lágrima, dizer uma palavra, nada que pudesse traduzir a angústia que me dilacerava a alma.
Tinha, como que a flutuar diante dos olhos, o cadaverzinho do pobre estrangulado, como que a responsabilizar-me pela morte da mulher adorada, que assim se fora deste mundo, sem ouvir a mentira que lhe havia preparado.
Agora, ela tudo sabia...
Sim, lá estaria nesse plano inacessível, que vale por abismo cavado entre nós e os seres amados.
Uma vez engolfados nesse misterioso oceano, uma vez libertos desta prisão carnal, eles, os queridos mortos parece que nos denegam, nos esquecem e abandonam, indiferentes e alheios ao desespero em que ficamos.
Surda revolta contra Deus me assomou o espírito.
Comprimindo com as mãos a fronte escaldante, pousei os lábios ressequidos na mão álgida da morta.
Nesse instante, outra mão me pousou no ombro e ouvi uma voz vibrante e compassiva, a dizer-me:
- Ângelo! Estremeci.
Seria a morta que se apiedava do meu desespero e assim me chamava habitualmente?
Mas, não poderia ser.
Voltei-me e vi, então, a freira muito pálida, inclinada para mim.
Também ela chorava, prosseguindo em voz baixa:
- Vejo que não me reconheces e no entanto sempre fui tua amiga dedicada.
Ainda neste transe, aqui estou sofrendo por ti e contigo.
Ouve, pois, as palavras de consolo da companheira de infância.
Sou Gertrudes, sim, a Gertrudezinha, a neta dos guardas de Rabenest.
Lembras-te?
Aquelas palavras me suscitaram um mundo de recordações:
revi, como em sonho, todo o passado distante, a velha torre meio demolida, onde o vento sibilava entre as ruínas e aquela memorável noite em que um grupo de cavaleiros lá se detivera, parecendo-me ouvir a voz do velho Hidelberto a gritar:
- "Quem vem lá?"
Depois, o grande salão onde Nelda, pequenina, me apareceu adormecida ao colo do Sr. Teobaldo.
E depois essa mesma Nelda, visão celeste, como companheira de infância, ideal da mocidade, ali assim, morta!
O prólogo e o epílogo da nossa vida, da nossa paixão!
Levantei-me de súbito, meu espírito parecia querer romper os elos da carne, a dar com a cabeça contra as paredes.
Gertrudes se interpôs aos meus desígnios, com máscula coragem; conjurou-me a enfrentar, como homem, a minha desgraçada situação.
Seus pedidos e conselhos acabaram por me acalmar.
A compaixão e a ternura com que procurava aliviar meu sofrimento tiveram efeito de um sedativo.
Vendo-me mais senhor de mim, Gertrudes levantou-se do banco de pedra onde nos havíamos assentado, dizendo:
- Vamos, Ângelo, deixemos este ambiente lúgubre; precisas repousar e a presença da querida morta só pode reavivar tua chaga.
Depois de um longo e mudo adeus à morta, saímos e Gertrudes fechou cuidadosamente a porta, reconduzindo-me até o postigo da galeria secreta.
Ao nos separarmos, senti que lhe devia agradecer o testemunho de sua dedicação e amizade, dizendo-lhe:
- Boa Gertrudes, permite que te abrace fraternalmente e acredite, cara amiga da infância, que jamais esquecerei o teu auxílio na hora mais penosa de toda a minha vida.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:49 pm

Beijei-a, retribuiu o beijo e disse:
- Tuas palavras excedem o meu merecimento e eu te agradeço, mas quero me concedas o prazer de te ver.
Também eu me encontro segregada do mundo e desolada; quando te sentires triste, vem ao subterrâneo e nos consolaremos em relembrar o passado e a querida morta.
- Sim, virei.
Daí, fui directo aos apartamentos de Benedito, com quem desejava conversar, caso o encontrasse ainda acordado.
Encontrei-o debruçado à secretária, trabalhando.
- Estava mesmo a tua espera - disse - e notando a minha fisionomia alterada, apertou-me a mão.
Conforma-te com o destino, meu amigo; a lei da morte é inexorável e atinge a todos nós.
Não há nem houve, jamais, tenacidade de sentimento capaz de lhe reter a presa.
Várias vezes tenho experimentado quão mesquinhos, impotentes e frágeis nos revelamos diante dessa força.
Deixei-me cair numa cadeira e considerei que o companheiro tinha razão; também para nós haveria de chegar a hora da partida, o dia, em que, a exemplo da pobre Nelda, tombássemos inertes, rígidos, indiferentes a tudo que nos tinha sido interessante e caro neste mundo.
E depois dessa transição fatal, que restaria?
Um arrepio me fez estremecer.
Nesse instante, Benedito se inclinou para mim e mergulhou no meu o seu olhar magnético e impetuoso:
- Ângelo, confia na minha experiência; trabalho intelectual ainda é o melhor remédio para rechaçar as ideias pungentes e dolorosas.
Só ele pode restabelecer e conservar o equilíbrio do espírito.
Pai Bernardo é o melhor guia que se te depara, nesta senda, que ele costuma denominar - caminho da eternidade.
Identifica-te com ele em seus trabalhos sérios e talvez consigam atrair o espírito de Nelda, pois sabemos que a manifestação dos mortos é o escopo único da sua tarefa.
Levantei-me como que electrizado, mas Benedito me deteve:
- Hoje, não.
Estás muito fatigado para poder trabalhar.
Bebe um pouco deste vinho, vai repousar; amanhã daremos um passeio juntos, e á noite irás procurar pai Bernardo.
Assim foi.
No dia seguinte, acabrunhado e triste, encaminhei-me para o laboratório e encontrei Bernardo assentado à banca de trabalho, ocupado em pesar diversos ingredientes.
Contei-lhe, desfeito em lágrimas, a minha infelicidade.
- Meu irmão, - respondeu calmamente - se pudesse impregnar tua consciência da grande verdade que é a sobrevivência da alma, e de que a morte apenas representa a desagregação do corpo e, portanto, que nós vivemos eternamente, não te entregarias, destarte, a tão insensato desespero.
A verdade é que tudo comprova que sobrevivemos à morte, com um corpo vaporoso, sim, mas, não obstante, assás compacto para que se torne tangível, mediante umas tantas condições favoráveis; e mais que, por efeito de nossa vontade, podemos atrair essas sombras do passado.
- Mas - adverti - é uma consolação muito vaga e da qual, ao demais, não temos tido provas.
- Ingrato que és, Sanctus...
Já te não lembras da aparição do genial confrade Rabenau, que ainda agora acaba de me auxiliar?
Esqueces-te igualmente da prova das galinhas?
Pois olha que tenho descoberto muitas e belas coisas, que me levam a apalpar a morte, por assim dizer.
Mas ainda bem que te posso mostrar, neste momento, uma experiência muito interessante.
Vem daí.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:49 pm

Levantou-se, tomou a candeia, acompanhei-o impressionado e curioso.
Atravessamos o compartimento das fornalhas e pai Bernardo levantou uma cortina de couro e me fez entrar numa sala já aclarada por uma lâmpada.
Sobre um canapé de repouso, vi deitado um homem, provavelmente enfermo, pois respirava com ansiedade e deixava escapar profundos suspiros.
- Quem é? - perguntei, mal impressionado.
- Um pobre peregrino que não tardará a juntar-se aos seus antepassados; apanhei-o exausto e moribundo, na estrada, e aqui o trouxe pela galeria secreta.
Aliás, tenho feito isso com outros infelizes, com intuito de observar o entorpecimento geral das partes animadas.
Colocou a candeia em cima da mesa e inclinou-se para o moribundo.
- O fim se aproxima, o peito mal se infla - disse, retirando o manto da cobertura.
Foi, depois, buscar um fogareiro no quarto contíguo, deitou-lhe brasas e um pó que, ardendo, emitia luz muito viva.
Olha - disse, atraindo-me para junto do corpo - repara como os pés já evidenciam o tom amarelado, característico do entorpecimento completo.
A algidez da morte sobe pouco a pouco:
aqui ainda há calor, o coração pulsa mas, espera um bocadinho e verás belas coisas.
Tomou um frasco do armário.
- Este licor te fará ver muita coisa que mal podes imaginar.
Inclina-te para este aquecedor e aspira a largos haustos.
Derramou nas brasas uma parte do líquido e um fumo acre, mas aromático, desprendeu-se crepitando e à medida que o aspirava, estranha impressão se apoderou de todo o meu ser. Os membros se me relaxaram, como que se entorpecendo; a vida como que convergia para o cérebro, os olhos me ardiam e parecia-me que tinham extraordinária mobilidade.
Entretanto, não dormia, como a princípio supus; antes me via em plenitude de consciência e ouvi quando Bernardo me disse:
- Assenta-te e firma os olhos no moribundo...
Obedeci, e de repente notei faíscas luminosas que se lhe desprendiam no corpo e iam, uma por uma, segregando-se e formando um vapor esbranquiçado, a flutuar acima do mesmo corpo.
Esse vapor se condensava, subindo lentamente para a cabeça; e à medida que se espessava, tomava a forma exacta do corpo físico.
Por fim, as faíscas pareciam concentrar-se perto da cabeça, formando um cordão luminoso que, semelhante a um rubi, partia do coração e ligava as duas formas, absolutamente semelhantes.
De repente, o cordão oscilou e partiu-se.
A forma fluídica balançou-se ainda um pouco, à cabeceira do leito e, distendendo-se de forma estranha, subiu ao tecto em ziguezagues.
Dois olhos perturbados nos fitaram um momento, até que tudo se fundiu em vaporosa nuvem, para desaparecer na abóbada escura.
Esfreguei os olhos...
Sonhava?... Não; não era sonho.
Tinha visto, perfeitamente consciente, o maravilhoso espectáculo, de forma a adquirir absoluta convicção da sua realidade.
Repeti, de mim para mim:
- nem tudo morre com o corpo e também eu trilharei, um dia, esse caminho.
Todavia, experimentava ainda uma sensação de peso, que me dificultava os movimentos.
Voltei-me para Bernardo.
Estava de pé, imóvel, braços alçados, como que mergulhado em profundo êxtase.
Depois, voltando a si, aproximou-se e me friccionava os olhos com um pano molhado.
Respirei folgado e a primeira coisa que disse, foi:
- Maravilhoso!
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:49 pm

- Acreditas agora? - perguntou, enxugando o rosto e as mãos.
- Sim, Nelda e todos mais lá estão no Além, tal como este que acaba de abandonar o corpo.
Obrigado, amigo Bernardo, pelo conforto que acaba de me proporcionar.
Esgotado, física e espiritualmente, recolhi-me à cela, dormi calmo e acordei, no dia seguinte, retemperado para retomar o trabalho habitual.
A morte de Nelda já me não afectava penosamente; era uma separação provisória e não uma perda definitiva.
Aprazia-me até representá-la qual sombra vaporosa, a meu lado, a velar por mim, a esperar-me na transição inevitável.
Começou, então, uma fase de calma para meu espírito.
Consoante prometera, visitava Gertrudes sempre e a desbordante alegria que lhe davam essas visitas me lisonjeavam o amor próprio.
Certo, sua inteligência nada tinha de comparável à de Nelda, mas sabia tão naturalmente descrever o passado com os mínimos episódios dos tempos venturos da infância e da adolescência que me prendia a seu lado horas e horas.
Pouco a pouco, a lembrança de Nelda se foi esmaecendo e eu começava a perceber que Gertrudes com a sua tez alva e aqueles olhos negros, brilhantes, era muito bela e desejável.
Bem depressa reconheci que o sentimento que me despertava poderia tornar-se perigoso, tanto mais quanto ela não era mulher para dissimular o amor que me votava.
Cumpria, pois, fugir-lhe; mas, desgraçadamente, os costumes do clero, nesse tempo, estavam relaxados a tal ponto e as facilidades dos subterrâneos eram tão tentadores que nada me pôde conter.
Enquanto a vida me corria assim tranquila, Benedito via aumentar seu prestígio em toda a região.
Manobrando habilmente para granjear a benevolência do duque, começou recebendo-lhe as visitas em carácter devocional e acabou por dominá-lo de todo.
Assim, desaprovado por nosso piedoso abade, o confessor do suserano não tardou a ser substituído por criatura de sua inteira confiança, de sorte que se tornou logo evidente a influência de Benedito na administração do país.
O duque lhe admirava o talento e a argúcia e gostava de consultá-lo.
Recebido na corte com todas as honras e deferências, revestido das ¡pompas da época, a ele se curvavam as cabeças mais altivas.
Em nossas palestras intimas, muitas vezes recordávamos o passado e nossas lutas, descambando não raro para a política.
Este último tema era o que mais lhe agradava e, conquanto pouco me interessasse, eu o suscitava de propósito.
Nesses momentos de franca expansão, eu, o sábio, o alquimista, mergulhava fundo nos abismos daquela alma devorada pela sede insaciável de autoridade e de mando.
Tudo possuir, tudo absorver, dobrar o mundo ao seu ceptro único, tal era o seu ideal; e quando desdobrava seus planos gigantescos, desanuviava-lhe a fronte pálida, a voz se animava, os olhos dardejavam.
À mínima objecção, porém, calava-se de chofre e mudava de assunto.
Muitas vezes eu perguntava a mim mesmo se, com aquele seu carácter e tais sonhos, ele se contentaria com o priorato.
Mas a verdade é que, neste particular, mantinha-se impenetrável e ainda que existissem esses grandes projectos, nem por isso negligenciava seus interesses particulares.
A prova está em que a esse tempo ocupou-se activamente com uma dupla intriga muito complicada, que levou Alberto, seu irmão mais novo, a tomar ordens.
Os pormenores deste caso são muito longos para serem aqui contados; além de que, uma parte deles, não veio a meu conhecimento.
Direi apenas algumas palavras para clareza da narrativa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 7:49 pm

Num castelo das redondezas, vivia uma jovem e bela mulher, viúva de velho cavaleiro e madrasta de uma jovem de dezasseis anos, tímida e acanhada, mas soberbamente bela.
O conde Alberto de Rouven frequentava essa casa, pois o velho cavaleiro tinha sido companheiro de armas do conde Hildebrando e, ao falecer, recomendara a mulher e a filha à protecção da poderosa casa dos Rouven.
Alberto era também um belo rapaz e inspirou igual paixão às duas mulheres mas, com grande despeito da madrasta, tomou-se de amores pela enteada, Isabel, resolvendo esposá-la.
Esses factos foram levados ao conhecimento de Benedito pela própria viúva, que o tinha como seu confessor.
Qual fosse a actuação do meu amigo, não poderia dizê-lo mas o que sei é que, enquanto Alberto combatia pelo duque, numa campanha que durou alguns meses, espalhou-se a noticia da sua morte e o desespero da noiva foi habilmente aproveitado para induzi-la a professar.
Quando o jovem conde regressou da guerra são e salvo, procurou descobrir a fonte da cavilosa mentira, mas nada conseguiu.
Ele estava realmente vivo, mas Isabel estava morta para ele e para o mundo.
No auge do desespero, muitas vezes buscava consolar-se junto do irmão.
Ou porque o prior houvesse apelado simplesmente para os seus sentimentos religiosos, para que reagisse contra o seu romantismo; ou porque lhe acenasse com a perspectiva dos subterrâneos, onde poderia rever o objecto da sua paixão, o grande caso é que o conde Alberto entrou para a comunidade, legando-lhe todos os bens patrimoniais.
Daí por diante Benedito tornou-se ainda mais altaneiro.
Vingança e orgulho haviam sido igual e plenamente satisfeitos.
Nem ele nem ninguém ostentaria no mundo o nome de Rouven.
Por outro lado, sua inteligência e tino administrativo haviam de tal modo enriquecido a comunidade que a sua passagem por ela deveria marcar um traço inconfundível nos seus anais.
Nesse período de calma escrevi ao Sr. Teobaldo uma carta, na qual lhe desvendava o segredo do meu nascimento e manifestava o imenso desejo de revê-lo, ao menos uma vez, como criatura a quem muito deve e sempre devotara afeição filial.
Dentro de poucas semanas, recebi respostas do bondoso cavaleiro, enviando-me sua bênção paternal e anunciando a resolução de estabelecer-se na Abadia, ali terminando os seus dias, porque também se sentia isolado e farto da vida.
Esperando a chegada de meu pai, sentia-me relativamente tranquilo, dividindo o tempo entre os trabalhos da comunidade e os colóquios com Gertrudes, quando novo Incidente veio interromper essa trégua.
Certo dia, em que passeava a largos passos num corredor, situado atrás dos laboratórios de pai Bernardo, justamente à espera de Gertrudes, outra freira, que não ela, se me apresentou, dizendo:
- Reverendo, julgo-me no dever de vos dissuadir de um amor indigno de vós, pela indignidade da pessoa a quem o dedicais.
Sabei que a criatura que procurou consolar-vos da perda de nossa querida Nelda foi, nem mais nem menos, a causadora voluntária da sua morte.
Já do tempo em que vivíeis no castelo de Rouven, ela nutria por vós uma paixão impura e odiava a bela Nelda.
Por ciúme, jamais deixou de vos espiar a ambos e chegou a redigir verdadeiros relatórios à condessa de Rouven e A madre Bárbara.
Foi ela, enfim, repito, que acabou matando a pobre Nelda.
Não me encareis, Reverendo, com olhos de espanto, pois o que vos digo é verdade e anula não é tudo que sei e poderia dizer.
Deus me perdoe! - prosseguiu com celeridade que não permitia objecções - visa reles criatura, sem nobreza de alma nem de berço, serviçal do castelo, tal como fui eu mesma, tornou-se ainda pior depois que professou.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:02 pm

Tendo sabido, não sei como, que éreis o confessor da Sra. Matilde e tendo, provavelmente, relações fora do convento, conseguiu seduzir o famoso conde de Rabenau, a respeito de quem correm, como sabeis, as mais estranhas versões, havendo até quem diga que era o demónio em figura de gente.
Pessoas que o viram, me asseguraram que, quando ele visitava Gertrudes, durante o seu estágio terreno (isto é, enquanto a clemência divina quereria ver até que ponto chegariam e onde terminariam tais coisas) apresentava-se rabudo e com pés de cabra.
Ela parou um instante para tomar fôlego mas eu me calei, convicto de que se lhe interrompesse a narração acabaria nada sabendo.
Eis, pois, - recomeçou - que essa louca tinha amores com o demónio em pessoa; mas, quando a paciência divina se esgotou e o conde de Rabenau, ou melhor - o demónio, quis provar ao vosso abade que não era o demónio, Deus abençoou o santo homem, ele reuniu os irmãos mais puros e veneráveis, e o concitou a receber o Santíssimo Sacramento perante eles...
E Gertrudes, que farejou que esse negócio podia acabar mal para o seu infernal amigo, correu prestes a preveni-lo.
Apesar disso, ele foi bastante temerário para apresentar-se, deixando esparsas pelo caminho as crinas do seu cavalo; mas, quando tentou receber a hóstia, estourou como um tonel e desapareceu entre relâmpagos e trovões, não deixando de si mais que uma pele negra, a cauda e as patas.
Ainda para se vingar, ele estrangulou o abade D. António, que lhe havia empenhado a alma num pacto sacrílego.
Gertrudes, é claro, muito se lastimou, mas acabou por conformar-se e quando, muito mais tarde, a irmã Nelda teve uma criança, Gertrudes esgueirou-se, qual peçonhenta serpente, até junto do seu leito e tais coisas lhe disse no ouvido, que a pobre parturiente caiu em convulsões e no dia seguinte estava morta.
A pérfida julgava-se sozinha, mas houve quem lhe ouvisse dizer.
- "Ora, graças a Deus!... até que enfim, cedeste-me o lugar!"
Tonteei, como que fulminado e me apoiei na parede, mas, como se não houvesse percebido minha comoção, a freira continuou:
- Contudo, nunca vos revelaria estas coisas se a venenosa criatura me não houvesse barbaramente ofendido.
Não satisfeita com a vossa corte, ela toda se derretia pelo irmão Felipe, que me jurou fidelidade, e isso porque ele a encharca de vinho.
Dê, porém, no que der, ninguém dirá que a irmã Cordélia deixou que lhe arrebatassem impunemente um bom amigo.
As últimas tiradas desta comprida lenga-lenga, mal me feriram os tímpanos.
Intensa raiva se apossou de mim.
Pois quê? Nelda, a minha Nelda ainda estaria viva, se não fosse aquela miserável criatura, que, não contente de me haver traído, ainda se atrevera a conquistar minha afeição?
Nem cheguei a perceber quando a irmã Cordélia se retirou.
Fora de mim, com os miolos pegando fogo, errei pelo corredor à espera da pérfida e maldosa criatura, ávido para ajustar as contas.
Até que enfim, passos leves se fizeram ouvir e ela apareceu, emocionada.
- Aonde vais com tanta pressa! - exclamou.
Já sabes a grande nova?
- Sim, - respondi em voz cava - sei de uma nova que me pagarás bem caro, pérfida e torpe criatura; sei que mataste Nelda e que por isso hás-de morrer de má morte, também.
Cego de raiva, alucinado, agarrei-a pela garganta e, sacando o punhal de sob o manto, cravei-lho no peito.
Algo quente jorrou, salpicando-me o rosto e as mãos, enquanto Gertrudes se dobrava molemente.
Ofegante, colei-me à parede e ouvi rumor de passos e vozes.
Estuporado, inerte, vi aproximarem-se duas pessoas trazendo uma lâmpada.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:02 pm

Breve, a voz de Benedito, amigo e confidente, me fez voltar a mim.
- Que é isso? Que fizeste? - exclamou erguendo a lâmpada para melhor enxergar o corpo escassamente alumiado.
Levantei a cabeça e dei um grito:
atrás do prior, erecto, estava um homem vestido de preto - patriarcal figura de alvas barbas a lhe descerem pelo peito...
- Queria fazer-te uma surpresa, levando-te nosso Bruno ao laboratório.
Eu quis atirar-me nos braços do cavaleiro, mas vi-o recuar e tapar o rosto com as mãos...
- Meu pobre filho, em que situação te venho encontrar!
Tinha razão, sim.
Situação de assassino, de sacerdote perjuro, a estender-lhe as mãos tintas de sangue, pela primeira vez que me revia consciente de sua paternidade!
Alguma coisa se revoltou dentro de mim, alguma coisa que seria misto de raiva, angústia e desespero.
E, decerto, algo de tudo isso me timbrava na voz, quando exclamei:
- Deus me julgará sem clemência, mas tu, ao menos tu, meu pai, não me maldigas, concede-me teu perdão!
No mesmo instante, me senti abraçado e beijado na testa:
- Tens razão filho, Deus te julgará; teu pai humano deve apenas te amar e amparar.
O que senti nesse momento, eu, o filho do acaso, o órfão desprezado no berço, não o poderia aqui traduzir.
Aquela voz, aquela carícia paternal, parece que fundiam a crosta da minha alma empedernida no crime, por dissolvê-la num misto de gozo e amargura, até que a hipertensão nervosa desfechasse em lágrimas e soluços.
Conduziram-me ao laboratório para me acalmar e extinguir os vestígios do crime, mas eu me sentia muito mal.
Vertigens intermitentes, cabeça em brasa, quando reentrei na cela, perdi completamente os sentidos.
Quando, semanas depois, voltei a mim, soube que perigosa febre me havia posto, por um fio, entre a vida e a morte.
Meu pai não arredara pé da minha cabeceira; tratara-me com o maior desvelo e o seu coração tantos anos isolado, se havia sintonizado, fibra a fibra, com o do único rebento que o destino lhe concedera.
Durante a convalescença, muito conversamos sobre o passado e eu lhe abri, sem peias, o meu coração.
Mais de uma vez o vi empalidecer mas, sempre indulgente, nunca me fez qualquer censura e somente me concitava a não voltar, jamais, aos subterrâneos do mosteiro vizinho.
Quando lhe falei de Rabenau, copiosas lágrimas lhe molharam as faces.
- Ninguém o conheceu melhor do que eu - dizia e posso garantir que, apesar dos seus defeitos, era um coração de ouro, que sempre estimei muito, muitíssimo mesmo.
Completamente restabelecido, regozijava-me com a definitiva instalação de meu pai no Convento, ainda porque a saúde ia-se-lhe tornando precária e sabia que seu desejo era morrer junto de mim.
Rodeava-o, portanto, de todos os carinhos e cuidados.
A estes acontecimentos sobreveio um período de calma, sem alterações de maior monta no meu regime de vida.
Assim, resumirei apenas os factos atinentes ao fecho desta narrativa.
O prestígio e a autoridade de Benedito, agora mais que nunca altivo e reservado, tinham de facto grande valor; mas forçoso é confessar que, nos domínios administrativos, propriamente ditos, faltava-lhe o génio de Rabenau, ou melhor - que o seu espírito se inclinava noutra direcção.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:02 pm

A sociedade secreta se desfalcava e dissolvia pouco a pouco.
Benedito execrava profundamente os subterrâneos, onde se verificara a morte trágica do antecessor, por considerá-los perigosos e comprometedores, não desejando, por outro lado, ficar tolhido pelos irmãos da confraria secreta.
Admissível que temesse qualquer traição ou descoberta ocasional.
Assim sendo, não se opunha ao que existia, mas interditava a entrada de novos membros.
As surtidas nocturnas foram canceladas e delas não restava mais que limitada concessão para uns poucos veteranos.
Benedito, pode-se dizer, tinha realizado o sonho da sua alma ambiciosa, que era reinar a coberto de possíveis ciladas e tornar-se senhor absoluto, antes que cúmplice dos seus subordinados.
Entretanto, ainda isso não era tudo para esse espírito insaciável: suas vistas iam mais alto; sobretudo, depois que fez uma viagem a Roma.
Sim. Eu sabia que ele tramava colossal intriga junto de muitos cardeais, despendendo com isso grandes somas, recebendo correios secretos, que não pude identificar.
Seu intuito era transferir-se para Roma, ocupar alto cargo junto do Santo Padre; mas também não duvido considerasse tal cargo simples degrau de acesso a mais altas culminâncias.
O que, porém, mais me interessava saber é se haveria sentido, alguma vez, qualquer partícula de remorso pela morte do irmão e por outros tantos feitos tenebrosos.
Porque a verdade é que ostentava na face a mais eloquente serenidade, sem que dos olhos doces e profundos transpirassem laivos de perturbação.
Vale dizer que os segredos dessa consciência me ficaram indevassáveis, misteriosos.
Enquanto Benedito assim perseguia lenta, mas obstinadamente, uma trilha para o poder, as forças do conde Bruno de mais a mais se esgotavam.
Vendo-o constantemente acamado, já não podia iludir-me com o seu próximo fim.
Passava então longas horas a seu lado, lendo-lhe os Evangelhos e outros livros piedosos, e compreendendo que ele aproveitava os últimos dias de vida para reagir sobre minha alma criminosa, para que eu pudesse medir a extensão das próprias faltas.
Assim, esforçava-se para me incutir melhores noções de humildade e sacerdócio.
As palavras que lhe vinham do coração aos lábios, em tais circunstâncias, me abalavam todo o ser, e a ideia de próxima separação me deixaram inconsolável.
Uma tarde, ao contemplar-lhe o descarnado rosto, que uma réstia de sol poente aureolava, ele abriu os olhos e falou com firmeza:
- Filho, sinto que a hora se aproxima, e quero dar-te minha bênção; antes de o fazer, porém, permite que te reafirme a necessidade que tens do Evangelho, para fortalecer o espírito.
Não cessarei de rogar a Deus por ti, bem como a Jesus, nosso Mestre, a fim de que, por sua infinita misericórdia, te perdoem teus grandes pecados.
Ajoelhei-me à beira do leito, soluçante, incapacitado de falar.
Ele me pôs a mão na cabeça e prosseguiu:
- Por mim, querido filho, agradeço a dedicação, os cuidados que me dispensaste e as lágrimas que tens vertido e ainda vertes neste momento.
Chora pois, meu Ângelo, chora, porque essas lágrimas me fazem bem.
Soergueu-se um pouco, procurando abraçar-me; inclinei-me para ele, mas já havia recaído no travesseiro, serenamente, transfigurado.
Era o fim; tudo estava acabado!
Teobaldo alcançava, enfim, o merecido repouso, mediante uma etapa de humildade e caridade.
Quase sucumbido, ergui os olhos:
acima de mim, deveria estar pairando o espírito paternal, revestido do invólucro vaporoso, qual o do peregrino entrevisto no laboratório de pai Bernardo; e, não sei se por efeito de auto-sugestão ou da fé naquele Jesus que ele me inculcara como capaz de remover montanhas, o certo é que vi, distintamente, através da faixa do sol que se esbatia na parede e no leito, uma sombra ondulante e vaporosa, cuja cabeça mais nítida, patenteava, rejuvenescido, o rosto paterno envolto em aura azulada...
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:02 pm

Consolador sorriso lhe frisava os lábios.
Estendi os braços para tocá-lo e convencer-me de que não sonhava, mas a visão oscilava e ascendia lentamente, como que me endereçando um último adeus.
De repente, tudo se empanou, o sol se deitou na montanha, a visão se desvaneceu.
Juntei as mãos e uma prece ardente me brotou do coração, por aquele que já não pertencia ao nosso mundo.
Depois, fui a Benedito, comunicar-lhe a infausta ocorrência.
Posto que o previsse, grande e profunda lhe foi a emoção.
Ainda em sinal de apreço, consentiu fosse meu pai sepultado no cemitério da abadia, no recanto que ele mais apreciava, pelo belo panorama que dali se descortinava.
Tempos correram, pacíficos e melancólicos, antes que me pudesse refazer do desgosto sofrido com a morte de meu pai, até que um dia me sobreveio outro golpe com o falecimento do bondoso pai Bernardo, antes devido a excessos de trabalho, que a enfermidade propriamente dita.
Com isso, o laboratório já não oferecia atractivos.
Um só amigo me restava, então, mas esse mesmo não tardou me fosse arrebatado pelo destino inexorável.
E foi assim:
um dia, de manhã cedo, foram chamar-me para ver o prior, que tardava a levantar-se e não respondia a insistentes chamados.
Fui ao seu quarto, sabendo que ele, na véspera, havia recebido de Roma gravíssimas notícias, que muito o contrariaram.
Nervoso, levantei o reposteiro e entrei; inclinei-me para ele e logo apreendi toda a realidade.
Benedito tinha morrido calmamente, sem agonia.
E assim penetrava no reino das sombras o único amigo que me restava, confidente e cúmplice.
Aquele formoso semblante, já se não animaria ouvindo-me contar meus desgostos e decepções aquela mão inerte e fria não mais se me estenderia... Não mais!...
Completo o meu isolamento na Terra!
Justo, pois, que lamentasse essa perda durante muito tempo.
A mim coube assumir o priorato, por espontânea e livre escolha da confraria.
Tive, assim, também eu, o galardão de ostentar ao peito a famosa cruz de ouro, se bem que nada fizesse por conquistá-la.
Meu ânimo de governar, era, por assim dizer, quase nulo, tanto sentia isolado e fatigado, de tudo e de todos.
Conscientemente, cuidei apenas de bem zelar o património da comunidade, cumprindo pacificamente o meu dever.
Dois meses após a investidura, estando uma noite assentado em meu quarto, apareceu um irmão dizendo que o conde Kurt Rabenau solicitava uma entrevista em carácter particular.
Nesse momento, lembrei-me que Benedito me havia referido, indignado, que o jovem conde tinha viajado para Roma, no intuito de se divorciar, e que os boatos correntes eram os mais pessimistas no tocante à situação de Rosalinda.
Mandei entrar o visitante, que me comunicou estar regressando da Itália com o cadáver da esposa, para quem solicitava ofícios fúnebres e consequente enterramento no jazigo da família.
Percebendo minha emoção e a surpresa que me causava essa morte tão prematura, Kurt desdobrou toda uma história comovedora e trágica.
Contou como, atravessando o Adriático, seu navio fora assaltado por dois corsários que, provavelmente, sabiam que ele conduzia ricos presentes para o Santo Padre.
Rivais entre si e farejando ambos a mesma presa, começaram a se bater.
O combate foi rápido, aliás, e o navio maior vencendo a pugna, alcançou e apresou o navio dele, conde, que tentava fugir.
Depois de fácil abordagem e rápida refrega, o capitão corsário escalou a ponte de comando e, ao vê-lo, Rosalinda teve uma exclamação de surpresa.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:03 pm

O pirata, por sua vez, passada a surpresa, atirara-se a Kurt no intuito de o matar, mas a condessa rojou-se-lhe aos pés, suplicando que o poupasse e oferecendo-se como refém.
Convicto de que nada podia tentar e ainda porque o pirata recusava todo e qualquer resgate em espécie, Kurt consentiu em lhe empenhar a mulher, para salvar a vida e a liberdade.
Assim é que desembarcara na enseada mais próxima, disposto a conseguir a soma estipulada e que deveria ser depositada em Veneza.
Dois dias depois, quando repousava num povoado praiano, desencadeou-se medonha tempestade e na manhã seguinte deram à costa destroços e cadáveres entre os quais o de Rosalinda e o do capitão pirata.
Lastimando tamanha desgraça - acrescentou - arrependi-me mil vezes de ter deixado minha mulher como refém, pois só então compreendi porque Rosalinda a isso se prestava tão boamente.
O grande caso, meu Reverendo, é que aquele salteador do mar era, nem mais nem menos, Leo de Loevenberg, que todos tínhamos por morto.
Ainda prosseguiu desfiando outros pormenores dessa triste aventura, dando-se ares de piedosa conformação e procurando convencer-me de que tudo era obra do fatalismo, independente de sua vontade, só lhe cabendo submeter-se.
- Covardão ! - considerei de mim para mim - que diria teu pai se chegasse a ver essa adorada Rosalinda, cedida ao filho como legado do seu coração e em defesa da qual derramaria o próprio sangue, até a última gota?
Que diria, repito, se a visse abandonada como refém por esse mesmo filho, contra todas as leis da nobreza e do cavalheirismo?
Depois evoquei o perfil do boníssimo quão belo conde de Loevenberg!
Quanta ironia do destino, que o arrastou para uma vida de banditismo!
Involuntariamente analisei o desbotado semblante de Kurt, no qual os vincos do deboche estavam mais que patentes.
A boca e os lábios, de comissuras retraídas, tinham expressão caprichosa e efeminada.
Pobre Rosalinda!
Quão infeliz deverias ter sido com este pusilânime, depois de haveres conhecido e amado dois heróis!
Experimentei por Kurt uma repulsa íntima e o despedi com a maior frieza, depois de ordenar o transporte do ataúde para a igreja e rezar as orações da noite.
No dia seguinte, após as exéquias, que deveriam revestir-se de toda a pompa, seria o corpo trasladado para o castelo de Rabenau e lá sepultado.
À noite fui a igreja, orar junto da morta e, de repente, me assaltou vivaz curiosidade.
Kurt me havia dito que mandara embalsamar o corpo e eu quis vê-lo.
Pedi a dois frades que levantassem a tampa do caixão; aproximei-me, levantei o sudário com toda a cautela; e a luz tremulante das tochas me deixou ver um lindo rosto imóvel, qual escultura de marfim velho.
Cotovelos apoiados à borda do esquife, ali fiquei a contemplar a morta, enquanto o passado me revinha à mente:
aquela criatura eu a conhecera quase criança; fora eu que a casara e era ainda eu que haveria de a sepultar!
Desoladora verdade!
Tudo morrera para mim, em torno de mim!
Fiz sinal para que fechassem o esquife e persignando-me, murmurei uma prece.
Não posso dizer se essa prece me saía do coração, tanto meus lábios se haviam habituado a articular palavras que o coração não conhecia.
O pietismo automático, formalístico.
Acabrunhado e fatigado, voltei à cela.
Transposto este último episódio, retomei a tarefa habitual, provendo os requisitos do cargo, mas sem nenhum entusiasmo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:03 pm

O grande amigo, que me fora igualmente grande cúmplice, já não existia.
Com ele me desabafava muitas vezes, refocilando no passado, mesmo criminoso; sem ele, agora, esse passado me atemorizava.
Frequentemente, à noite, afundado em grande poltrona, fronte apoiada nas mãos, via desfilar na retina do espírito Godeliva, Waldeck, Gertrudes e tantas outras vítimas.
E à medida que as sombras vingadoras desfilavam de faces contraídas, o coração me estremecia.
O ruído mais leve, o crepitar do fogareiro aquecedor, eram o bastante para me esbugalhar os olhos e arrepiar os cabelos.
Evitava sistematicamente os recantos escuros, e desde que o relógio do mosteiro batia a hora de recolher, invencível temor me anquilosava naquela poltrona.
Minha alcova se figurava povoada de sombras suspeitas e a própria cruz de ouro balouçando-me no peito, parecia escarnecer-me, dizendo:
"Nem a ti, nem a teu antecessor dei repouso."
Acabrunhado e trémulo, estendia-me no leito e quando os primeiros lampejos da aurora entravam pelas frestas da janela, era um suspiro de alívio que me brotava dos lábios...
Noites assim indormidas, noites de insónia e sobressaltos, encaneceram-me, envelheceram-me prematuramente.
A partir de certo tempo comecei a experimentar inquietações estranhas e um mal-estar indefinível.
Enfermo, recolhi-me ao leito e o médico diagnosticou: resfriado.
À noite piorei a respiração tornava-se-me angustiosa e dores intensas me torturavam sem tréguas.
Súbito, tudo escureceu, parecendo fundir-se num vapor cinzento.
Essa meia obscuridade me causou inominável angústia; senti dores agudíssimas em todo o corpo, como se cada músculo e cada fibra se dilatassem.
A estas sensações sobreveio intenso calor, dando-me a impressão de envolvimento num braseiro.
Quis levantar-me, fugir desse braseiro, cujas fagulhas via chover de todos os lados, requeimando-me as carnes.
Incêndio! Acudam! - quis gritar - mas nesse instante, enorme jacto comburente pareceu cair sobre mim.
Fugir, evitá-lo, foi o pensamento único que me turbilhonou no cérebro; dei um salto para sair do braseiro, que crepitava sinistro, ao derredor; e já tudo, fora e dentro de mim, parecia estalar e embeber-se em chamas.
Aí perdi os sentidos.
Quando me recobrei, estava completamente são.
Levantei-me, entreguei-me à faina habitual.
O que só não compreendia era como e porque me movimentava com tamanha rapidez para uma das masmorras do subterrâneo.
À porta do calabouço, deparou-se-me Benedito!
Pois quê?! E eu que o julgava morto ?!.
.. Estava carrancudo, de olhos baixos; não me disse uma palavra!
Assim calados, nos dirigimos para o corredor inundável.
O cadáver de Godeliva, decomposto, lá permanecia de bruços.
Impelidos por estranha força, levantamos o corpo, aspirando-lhes os gases nauseabundos e o carregamos até à margem do lago, onde o precipitamos.
Isso feito, Benedito desapareceu e eu me vi no corredor com uma criança nos braços.
De novo, arrebatado por estranha força, asfixiei a criança!
Coberto de suor, percorria extensas galerias, sem saber onde ocultar o cadáver, que parecia colado a mim. Benéfico aturdimento me livrou dessa tortura.
Ao recobrar os sentidos, encontrei-me junto das muralhas, ajudando Benedito a amarrar Waldeck, que se debatia aterrado; depois, esfogueamos o cavalo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:03 pm

Tal como outrora, o vento zunia; mas, desta feita, acompanhamos o animal enfurecido e, voando a seu lado, atingimos o lago.
Juntos, de roldão, também nos precipitamos.
Cavalo e cavaleiro não se apresentavam a nossos olhos senão qual massa informe, horrenda, indescritível!
De repente, assomado de angústia também inenarrável, vi um espectro desenhar-se diante de nós e nos incriminar.
Depois amanhecia e me encontrava de novo no Convento, a perambular involuntariamente pelas salas e corredores, visitando a biblioteca, manuseando livros.
Não raro encontrava Benedito, mas nunca trocávamos palavra e assim recomeçávamos a horrível tarefa de repetir, como atores, os dramas criminosos que havíamos representado nesse mundo.
Torturado, cheguei um dia a dirigir ardente súplica ao Criador, rogando me livrasse de recomeçar eternamente os meus actos infames.
Instantaneamente quase, azulada luz me envolveu e flocos brancos surgiram no ambiente, entrando a condensar-se em formas humanas.
Entre esses seres flutuantes e diáfanos, reconheci Teobaldo e o protector do grupo.
Seu pensamento projectou-se para mim, como filete ígneo e me exprimiu o que se segue:
"Humilhaste-te pela prece; o crime te horroriza.
Permitem-te, então, sustar tuas actividades de carrasco vingador; mas, como castigo, terás ainda que mal assombrar o cenário dos teus crimes, até que uma nova geração venha habitar este Convento.
Continuarás vendo teus cúmplices, sem te comunicares com eles, para que assim cheguem a se envergonhar entre si.
Por vezes sereis vistos pelos homens, que vos chamarão de almas penadas e tremerão considerando o castigo que espera as almas criminosas.
Arrepende-te e ora, muito e sempre" - concluiu.
Depois, foi como se tudo se esfumasse.
Vi-me outra vez só e reencetei as caminhadas intérminas, sem objectivo determinado.
Já não avistava minhas vitimas, sim os lugares que as evocavam.
Ora só, ora com Benedito e outros cúmplices, perambulava silencioso, absorto em meus cismares, através das alas e corredores.
Uma e outra vez, algum vivente nos lobrigava e fugia apavorado.
Com o tempo, tudo foi mudando, outros homens ocuparam o Convento, nossos nomes e feitos foram esquecidos e só as aparições permaneceram, a titulo lendário.
Aconchegados à lareira, em noites de rijo inverno, os velhos campónios não raro contavam, persignando-se, a história dos dois priores fantasmas.
Esta a minha confissão.
Possa ela beneficiar meus irmãos encarnados.
Mea Sanctus.

(1) Assim o nomearemos daqui por diante.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:03 pm

CAPITULO II

RELATO DE HUGO DE MAUFFEN

Meu corpo físico, nesta encarnação terrena e neste ano de 1885, aí está, na grande capital do país em que faço esta confissão.
Fatigado da faina diária, deitei-me e adormeci profundamente.
O torpor proveniente da transição de vigília para o sono dissipou-se sob a forma de nuvem pardacenta e eu me senti extremamente leve, pois o cordão luminoso, que liga o perispírito ao corpo, se distendia gradualmente, permitindo ao espírito, em parte liberto, elevar-se no espaço.
De repente, senti-me puxado para trás, presa de grande mal-estar, e percebi à minha frente uma figura diáfana e bem conhecida, de uma criatura a quem odiava.
Era Rochester, com aqueles olhos brilhantes e aquele rosto pálido, típico.
Irónico sorriso lhe frisava os lábios loquazes, que disseram:
- Orgulhoso Tibério, imperador romano quanto me custou encontrar-te, após os doze palácios de Capri!
E dizendo-o, estendia a mão fluídica para a região onde dormia meu corpo material.
Estremeci, então, no meu corpo espiritual; a memória se me avivou com o sonho encantador de um passado longínquo.
Como que por efeito de um fada morgana(1), do nada me surgiu um recanto do paraíso terrestre:
o rochedo de Capri, recoberto de cidreiras e laranjeiras, a mirar -se no lençol transparente das águas; e através dos maciços de mirtos e loureiros em flor, as colunas de mármore do palácio.
Em desfile, as salas pavimentadas a mosaico, com bacias de pórfiro, móveis incrustados de gemas preciosas, os banhos secretos teatros de cenas inauditas, jardins iluminados e repletos de crianças travestidas de Cupidos, a queimarem essências do Oriente em trípodes de ouro...
Depois, este velho purpurado que passa, silencioso e taciturno, alheio ao ambiente criado para distraí-lo, ou seja, eu mesmo - Tibério, o temível César diante do qual Roma temerosa tremia e a cujos pés o mundo rojava tesouros e louvores.
Mas eis que o quadro pouco a pouco empalidece, desaparece, e meu olhar se fixa na actual morada!
Pesar, raiva, angústia, borbulham-me na alma, ao contemplar o pobre divã de ouro e as almofadas de pano grosso em que dormia - eu, Tibério, o famoso imperador romano!
Meu rosto pálido e anguloso, de expressão impassível e cruel, mal se disfarça nesta barba loura!
E o mais que me cerca?
Sobre pequena mesa, uma lâmpada com o velador rachado; uma cómoda, a estante com alguns livros, saco de viagem e malas, eis as riquezas do actual Tibério!
E quando a vigília retorna e amortalha a lembrança do passado, minha casa, minhas pretensões e necessidades são as do burguês comum.
Mediante insano labor, conseguindo amealhar fortuna, isso é nada em confronto com os tesouros de outrora.
Se acordado me julgo orgulhoso do que possuo, a verdade é que, dormindo e desprendido do corpo, não passo de mendigo e o riso sarcástico do fidalgal inimigo me faz fremir em todas as partes deste corpo fluídico.
- Aqui estou - prosseguiu Rochester - para que o conde de Mauffen preste seu depoimento, que encareço para transmitir aos homens e adquirir a glória de haver sonhado todos os aspectos da alma de um grande criminoso, mostrando-lhes, de paralelo, as etapas mediante as quais se dobra e quebranta um espírito.
Mea culpa, importa confessares o pensamento mais íntimo, em que pese o desprezo que ao mundo hajas de causar.
E olha que se recalcitrares tenho meios de te constranger.
A raiva que me suscitou tamanha ousadia me fez estremecer; mas, terrível qual coluna de fogo, o poderoso Espírito avançou para mim, abafando-me com o seu fluido ardente, projectando-me no corpo material, que se estorcia e arquejava no leito.

(1) Espécie de miragem que se produz nas costas da Calábria.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:04 pm

O ESPÍRITO DE HUGO DE MAUFFEN SE RECORDA DE 1242

Invocando, para descrevê-los, os feitos dessa etapa terrena, começo fixando o velho castelo onde nasci.
Construção maciça e imponente, embasada num árido rochedo, de cujo cimo se descortinavam cerradas florestas a perder de vista.
Grossas muralhas cercavam o torreão flanqueado de ameias, onde os pássaros nidificavam.
A ponte levadiça, de sólida contextura, raramente se abaixava para o visitante estranho, ou algum rendeiro tímido e apreensivo.
Tão longe quanto podia a memória alcançar, eu me revia nesse castelo tão silencioso e sombrio, interior como exteriormente, e cujos umbrais me não era permitido ultrapassar.
Às vezes, descia ao pátio e galgava o muro, no afã de contemplar o céu azul e a floresta imensa, ou me entretinha a percorrer as salas outrora luxuosas, mas a esse tempo descuidadas, com os seus móveis recobertos de poeira, tapetes desbotados e janelas e quadros transformados em aranhóis.
Um espectáculo desolador, enfim. Parte dos compartimentos permaneciam fechados e, as chaves, quem as guardava era meu pai.
Meu próprio quarto não oferecia maior atractivo:
duas janelas estreitas, grande leito com cortinas verdes, um dia franjadas e bordadas a ouro, mas, agora, desbotadas e esfarrapadas mesmo; algumas cadeiras de alto espaldar, mesa e dois baús esculpidos, eis o que constituía o meu quarto de dormir.
Confesso que evitava, o mais que podia, a convivência de meu pai, a quem temia e detestava.
Ligeiro calafrio passava-me pelas veias, sempre que defrontava o seu vulto esguio e o semblante austero, aureolado de cabelos brancos.
Sempre vestido de preto e mal amanhado, magro de esquelética magreza, uns olhos pardos, penetrantes, e os lábios finos, esgarçados e sarcásticos, davam-lhe e davam-me um quê de repulsivo.
E aí tem meu pai. o ilustre senhor Hugo de Mauffen.
Por toda parte, qual sombra, ele se fazia acompanhar do alquimista Calmor, que se instalara, anos antes, no castelo.
Esse tipo, vestindo invariavelmente um gibão e gorro pretos, era também de alta estatura, barba e cabelos brancos.
Nada comunicativo, trabalhava com meu pai em tarefas secretas, que me não deixavam entrever, e o único interesse que por mim revelou, foi ensinar-me a ler.
Dessarte, em boa justiça, posso dizer que a infância e adolescência me transcorreram em abandono e monotonia incríveis.
Meu pai nunca saía e eu, por minha vez, jamais pusera os pés fora daquelas muralhas.
Cresci só, sem companheiros, sempre calado; os velhos soldados que guardavam o castelo eram homens rudes e pouco falavam; o serviço interno era provido por velho escudeiro surdo, chamado Cristóvão, um outro velho perneta e duas mulheres idosas, que cuidavam da casa e da cozinha quase ascética, por assim dizer.
Uma dessas mulheres, a bondosa Sibila, cuidara de mim na primeira infância e, por vezes, nas longas noites de inverno, me distraía com histórias de jogos, torneios, guerras e aventuras de amor; de tudo, enfim, que alimentava o mundo exterior, ignorado e inacessível para mim.
Certa feita, tive a ideia de perguntar a meu pai quando falecera minha mãe e ele, sorrindo escarninho, me disse que o diabo a levara para o inferno.
Antes, tendo feito a mesma pergunta a Sibila, ela se persignara e me concitara a jamais indagar tal coisa.
Eis como cresci na mais rigorosa clausura, ignorando não só a vida social, como a da própria família e abominando o castelo em que vivia sequestrado.
Meu pai trabalhava com o alquimista, habitualmente, à noite mas, de tempos a tempos, invés de procurar o torreão, descia aos subterrâneos e nu, obrigava a acompanhá-lo.
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Re: Conde J. W. Rochester - ABADIA DOS BENEDITINOS / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 8:04 pm

Embora não fosse medroso, não sei porque me tremia a mão ao empunhar a vela, sempre que com ele demandava aqueles lugares sinistros.
Para atingi-los, era mister transpor três maciças portas barradas de ferro, chegando, então, às cavas de abóbadas compactas.
A terceira e ultima dessas cavas era o objectivo de nossas visitas.
Para começar, acendíamos as tochas fixadas nas paredes e à luz pareciam diversos cofres enormes, encostados na parede e, pelos cantos, montes de vasos de ouro e de prata, taças, ânforas de formatos esquisitos, e armas preciosas, ricamente trabalhadas, mas de tipos incomuns.
Depois meu pai abria os cofres e uma onda faiscante lhes jorrava do interior.
Estavam uns atochados de moedas de ouro e prata; outros guardavam estofos preciosos, ornados de gemas raras e multicores; e colecções de jóias de todos os tamanhos e feitios; e estojos de fino lavor artístico, verdadeiras obras-primas de ourivesaria, transbordantes de pérolas e pedras outras a granel.
Para contemplar esses tesouros, meu pai se acocorava junto de um daqueles cofres, tomado de louca alegria, mergulhando as mãos descarnadas no seu bojo e de lá retirando, aos punhados, as louras moedas para fazê-las tinir e faiscar entre os dedos, deixando-as rolar cascateantes pelo solo.
- Hugo, - dizia então - és o mais ditoso dos mortais em me teres por pai; poderás contemplar, a todo tempo, este tesouro incalculável...
Saberás, por acaso, o valor de tudo Isto?
É o fermento com que se pode levantar o mundo; mas, louco será todo homem que tentar fazê-lo.
A maior felicidade está em contemplá-lo.
Um dia, estando ele a mirar, embevecido, as jóias de magnífico estojo, atrevi-me a perguntar:
- Fostes vós que acumulastes este tesouro?
- Não, caro filho:
essa glória pertence a teu avô, e como se trata de uma história interessante, vou contá-la; contudo, para não perder tempo, estende aí esse pano e espalha nele estas jóias, enquanto falo.
Assim o fiz e, depois de concentrar-se um instante, meu pai falou:
- Meu irmão era ainda muito novo quando, a negócios, estagiava em uma grande cidade da Flandres.
Seu objectivo era comprar grandes partidas de trigo e provisões outras, por conta do nosso suserano, dada a carestia reinante nos seus domínios.
Nessa ocasião houve um surto epidémico na dita cidade, logo atribuído aos judeus lá residentes em grande número.
Para atender ao clamor público, abriram rigorosa devassa e ficou provado, à saciedade, que os malsinados ímpios haviam envenenado os poços.
O povo em delírio entrou a depredar as residências dos pérfidos envenenadores, e a pilhagem e o massacre se prolongaram por alguns dias.
Teu avô, como cristão que era, não podia deixar de intervir nos acontecimentos.
O acaso o levou à casa de um judeu que tinha fama de muito rico, por negociar em grande escala com a Espanha e Oriente.
Ao penetrar no antro sórdido, percebeu que o cão infiel estava regiamente instalado com duas filhas formosíssimas.
Os burgueses e soldados flamengos, que acompanhavam meu pai, tudo pilharam e levaram uma das moças.
Teu avô, ficando apenas com alguns componentes do bando e, desconfiando que o patife do judeu deveria possuir mais alguma coisa, fê-lo ir à sua presença e o chamuscou com um ferro em brasa, para desatar-lhe a língua.
Diante disso, a filha começou a gritar, declarando que, se a deixassem livre, descobriria um tesouro.
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