UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

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UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:03 am

UMA LIÇÃO DE VIDA
DORAÍDES ALVES PEREIRA

A história de uma menina carente e corajosa, que se transformou numa mulher independente e que soube superar sua deficiência visual fazendo de sua vida um mar de realizações.

DEDICATÓRIA
A minha mãe LAURA MARIA DE JESUS (em memória).
Ela me deu a vida com muito sacrifício.
Enquanto era viva, fez o que pôde para que um dia eu fosse alguém.

Ao meu esposo ITAMAR DE JESUS (em memória), que, com sua paciência, ternura, compreensão, carinho e amor, fez com que eu me sentisse uma mulher amada e feliz.
A lembrança da luz dos seus olhos clareia o meu caminho e dá um brilho especial a minha vida.

A todos os professores que passaram por mim e mataram minha sede de saber.

A minha família, a todos os amigos e a todas as pessoas, que, com um simples gesto de amor, contribuíram para minha felicidade.
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Ave sem Ninho

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:04 am

SUMÁRIO

CAPÍTULO 1: O NASCIMENTO
CAPÍTULO 2: O BEBÉ
CAPÍTULO 3: A ÚLTIMA GRAVIDEZ
CAPÍTULO 4: A TRAGÉDIA
CAPÍTULO 5: A DESCOBERTA
CAPÍTULO 6: A PROPOSTA
CAPÍTULO 7: A MUDANÇA
CAPÍTULO 8: OS AMIGUINHOS
CAPÍTULO 9: O MALDITO VÍCIO
CAPÍTULO 10: A ESCOLA
CAPÍTULO 11: O DESENVOLVIMENTO DOS SENTIDOS
CAPÍTULO 12: A DECEPÇÃO
CAPÍTULO 13: A VOLTA À ESCOLA
CAPÍTULO 14: A ALFABETIZAÇÃO
CAPÍTULO 15: UMA INFÂNCIA DIFÍCIL
CAPÍTULO 16: OS BRINQUEDOS E AS ROUPAS
CAPÍTULO 17: OS ESTUDOS
CAPÍTULO 18: A CLASSE COMUM
CAPÍTULO 19: O ADEUS
CAPÍTULO 20: AS DIFICULDADES
CAPÍTULO 21: A SALVAÇÃO
CAPÍTULO 22: UM NOVO PROBLEMA
CAPÍTULO 23: A APRENDIZAGEM DOS SINAIS MATEMÁTICOS
CAPÍTULO 24: A ACEITAÇÃO
CAPÍTULO 25: A AJUDA
CAPÍTULO 26: TUDO ACONTECE NA HORA CERTA
CAPÍTULO 27: A LEITURA
CAPÍTULO 28: A PRIMEIRA COMUNHÃO
CAPÍTULO 29: O DIPLOMA
CAPÍTULO 30: A CHUVA
CAPÍTULO 31: DONA ODETE
CAPÍTULO 32: O ENTROSAMENTO
CAPÍTULO 33: A DESCONFIANÇA
CAPÍTULO 34: O ANIVERSÁRIO
CAPÍTULO 35: A GINÁSTICA
CAPÍTULO 36: A AMIZADE
CAPÍTULO 37: MINHA FAMÍLIA
CAPÍTULO 38: ESSA É MINHA FAMÍLIA
CAPÍTULO 39: OS PASSEIOS
CAPÍTULO 40: O CURSO DE DACTILOGRAFIA
CAPÍTULO 41: O MOVIMENTO JOVEM
CAPÍTULO 42: A PALESTRANTE
CAPÍTULO 43: A MÁQUINA
CAPÍTULO 44: A SURPRESA
CAPÍTULO 45: A FORMATURA
CAPÍTULO 46: A APOSENTADORIA
CAPÍTULO 47: A OPÇÃO
CAPÍTULO 48: A DESPEDIDA
CAPÍTULO 49: O NOVO COLÉGIO
CAPÍTULO 50: ANGÉLICA
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Ave sem Ninho

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:04 am

CAPÍTULO 51: A HOMENAGEM
CAPÍTULO 52: O ESTÁGIO
CAPÍTULO 53: A ANEMIA
CAPÍTULO 54: O CURSINHO
CAPÍTULO 55: A PROFESSORA
CAPÍTULO 56: A INSCRIÇÃO
CAPÍTULO 57: A RESPOSTA
CAPÍTULO 58: A TEMPESTADE
CAPÍTULO 59: O VESTIBULAR
CAPÍTULO 60: A MATRÍCULA
CAPÍTULO 61: A BOLSA DE ESTUDOS
CAPÍTULO 62: A DECISÃO
CAPÍTULO 63: A ARRUMAÇÃO
CAPÍTULO 64: A TRISTE DESPEDIDA
CAPÍTULO 65: O INSTITUTO
CAPÍTULO 66: OS MEMBROS DO INSTITUTO
CAPÍTULO 67: COMO EU ME SENTI NO INSTITUTO
CAPÍTULO 68: AS DIFICULDADES
CAPÍTULO 69: A NOTÍCIA
CAPÍTULO 70: A FACULDADE
CAPÍTULO 71: O DESÂNIMO
CAPÍTULO 72: O GRAVADOR
CAPÍTULO 73: AS FÉRIAS
CAPÍTULO 74: A VOLTA
CAPÍTULO 75: O ÚLTIMO DOMINGO
CAPÍTULO 76: A MORTE
CAPÍTULO 77: A NOVA VIDA
CAPÍTULO 78: O PRIMEIRO NATAL SEM MINHA MÃE
CAPÍTULO 79: A MUDANÇA DE TONINHO
CAPÍTULO 80: OS NOVOS AMIGOS
CAPÍTULO 81: O BANCO DE OLHOS
CAPÍTULO 82: OS TRÊS IRMÃOS
CAPÍTULO 83: O MAIOR TROFÉU
CAPÍTULO 84: A PROCURA
CAPÍTULO 85: OS TESTES
CAPÍTULO 86: A ADMISSÃO
CAPÍTULO 87: UMA NOVA EXPERIÊNCIA
CAPÍTULO 88: O INCIDENTE
CAPÍTULO 89: A NOVA CASA
CAPÍTULO 90: AS EXPERIÊNCIAS DA VIDA
CAPÍTULO 91: CECÍLIA
CAPÍTULO 92: UM RAIO DE SOL
CAPÍTULO 93: OS OBSTÁCULOS
CAPÍTULO 94: O AFASTAMENTO
CAPÍTULO 95: A VERDADEIRA FELICIDADE
CAPÍTULO 96: A NOSSA PRIMEIRA VIAGEM
CAPÍTULO 97: OUTROS PASSEIOS
CAPÍTULO 98: A EXCURSÃO
CAPÍTULO 99: UM GRANDE SONHO
CAPÍTULO 100: ARTISTA UMA VEZ NA VIDA
CAPÍTULO 100: OS ELOGIOS E AS CRÍTICAS
CAPÍTULO 102: A MÁ NOTÍCIA DURANTE OS ÚLTIMOS PREPARATIVOS
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:04 am

CAPÍTULO 103: FORTALEZA: UM SONHO QUE SE TRANSFORMOU EM REALIDADE
CAPÍTULO 104: SÃO PAULO, UM TERRÍVEL ENGANO
CAPÍTULO 105: UM PRESSENTIMENTO HORRÍVEL
CAPÍTULO 106: A BONDADE
CAPÍTULO 107: A MAIOR DESILUSÃO
CAPÍTULO 108: O VAZIO
CAPÍTULO 109: DE ONDE VEIO ESTA INSPIRAÇÃO?
CAPÍTULO 110: A IMPORTÂNCIA DE SE DAR E RECEBER

PREFÁCIO

Como essa vida é engraçada!
Não é que fui encontrar Dora no momento em que eu mais precisava.
O que você lerá a seguir chama-se Vida.
Os personagens são, ao mesmo tempo, protagonistas e antagonistas:
a Coragem, a Perseverança, a Liberdade e a Felicidade estão de mãos dadas com o Medo, a Angústia, o Preconceito e a Tristeza.
Lendo, percebi, que tenho um pouco de Dora e que guardo dentro de mim uma deficiente visual, que busca o Olhar para frente e sempre!
Que Deus possa abrir a nossa Janela da Alma para entendermos que só a Fraternidade pode ajudar um mundo tão cheio de deficiências.

Luciana F. Ruiz, uma recente amiga.
Jul/05
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:05 am

CAPÍTULO 1 - O NASCIMENTO

Na fazenda Invernada, perto da cidade de Mirassolândia, interior de São Paulo, vivia uma família composta por dez pessoas:
o casal Laura e Lormino e os oito filhos.
São eles:
Idalina, Antónia, Sebastiana, Aparecido, Isabel, Maria Aparecida, Lourdevina e José.
Essa família levava a vida normalmente, feliz na medida do possível.
Os maiores trabalhavam para ajudar no sustento da casa e os pequenos estudavam.
Dona Laura tornou a engravidar e não teve uma gravidez muito tranquila.
O senhor Lormino gostava de beber e, quando estava bêbado, não deixava de aprontar as suas confusões.
Dona Laura vivia em sobressaltos e se preocupava demais com o marido.
O senhor Lormino, quando não estava bêbado, era um homem bom.
Ele tinha um coração de ouro; mas, quando bebia, sai de baixo, era confusão na certa.
Apesar de ter esse vício, era um homem honesto e justo.
No dia 8 de abril de 1958, Dona Laura começou a sentir as dores do parto.
Foram tomadas todas as providências e eu nasci.
Todos me rodearam e festejaram meu nascimento.
Minha mãe, muito observadora, começou a me examinar.
Olhava-me por todo corpo para ver se eu era perfeita.
Foi quando ela olhou profundamente nos meus olhos.
Do seu peito saiu um soluço absurdo e dos seus olhos brotaram lágrimas sentidas.
Meu pai e meus irmãos não entenderam o motivo daquelas lágrimas e a interrogaram.
Ela dizia entre soluços e lágrimas que o meu olho não era perfeito, que era fundo.
O meu pai dizia que era uma bobagem, que ela estava muito emocionada e fazia tudo para distrai-la ou tirar aquele pensamento de sua cabeça.
Foi em vão. Meu pai se apaixonou por mim.
Não queria acreditar que eu fosse cega.
Eles tinham escolhido dois nomes para mim.
Cláudia ou Daniela.
No cartório, meu pai mudou de ideia porque queria que o meu nome fosse único.
Ele me registou com o nome de Doraídes.
Minha mãe não gostou da ideia; porém, acabou concordando.
Naquele tempo, não existia luz eléctrica nas fazendas e as pessoas usavam lamparina.
Quando a lamparina estava no quarto, longe de mim, eu permanecia com os olhos abertos e só os fechava quando a claridade estava bem próxima.
Os meus três primeiros dias de vida pareceram três séculos para minha mãe.
Foram três longos dias de muito sofrimento e dor.
Meu pai viu a situação inconsolável de minha mãe e decidiu me levar ao médico para tranquilizá-la.
Lá o médico constatou que a minha retina era atrofiada.
Para minha mãe, o pesar só aumentou.
O coração de minha mãe não se enganou.
Para meu pai foi uma surpresa muito grande.
Naquele momento, constataram realmente que eu era cega.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:05 am

CAPÍTULO 2 - O BEBÉ

Levaram-me para casa, todos tristes e chateados, sem saberem o que fazer ou como lidar com um ser tão pequeno, indefeso e, além de tudo, com problemas.
Meus pais, que estavam acostumados com os filhos que enxergam, se depararam repentinamente com meu surgimento e pensaram que isso tumultuaria aquela família, que já não era um mar de rosas.
O meu pai tomou todas as providências necessárias.
Levou-me ao oftalmologista e a decepção foi grande, pois descobriram que meu caso era irreversível.
A retina era atrofiada, o nervo óptico muito fraco e, infelizmente, não existia cirurgia para esse tipo de problema.
Foram, então, feitos alguns exames para descobrirem a causa da minha cegueira.
Constatou-se que o problema era genético; porém, não hereditário.
Os meus pais eram primos de primeiro grau, primo irmãos, os meus avôs eram irmãos, então, ocorreu o choque de genes.
Nesse caso, os meus irmãos tiveram mais sorte do que eu.
As coisas começaram a normalizar.
A minha família foi se acostumando com o meu problema.
O choque inicial tinha passado, embora eles ainda sofressem.
Eu comecei a viver no seio daquela família numerosa.
Do meu baptizado nada sei.
Disseram-me apenas que meu padrinho chamava-se Modesto.
No terceiro mês de idade, eu não quis mais mamar em minha mãe.
Nessa época, eu ainda não pegava na mamadeira e era o maior dilema para me alimentarem.
Minha mãe, com muito carinho, conseguiu resolver a situação:
dava-me leite às colheradas.
Quando completei seis meses e comecei a comer papinha, foi uma alegria grande para meus pais.
Realmente, eu fui um bebé que inspirou cuidados e, felizmente, aquela fase terrível passou.


CAPÍTULO 3 - A ÚLTIMA GRAVIDEZ

Quando eu tinha um ano e sete meses, minha mãe engravidou novamente.
Ela sofreu demais com a ansiedade, a angústia e a espera daquele novo bebé.
Perguntava-se:
Será que ele também viria com problemas?
Foram nove meses terríveis para passar.
Até que, finalmente, chegou o tão esperado dia.
Na data de 7 de agosto de 1960, nasceu o meu irmão, que todos, posteriormente, o chamariam de Toninho.
Infelizmente, ele nasceu com o mesmo problema que eu.
Minha mãe pensou que não ia suportar aquela situação, mas Deus lhe deu força e mais uma vez ela venceu.
Os mesmos procedimentos, os mesmos exames, os mesmos médicos, os mesmos resultados, as mesmas respostas, as mesmas lágrimas e as mesmas tristezas e decepções.
Porém, dessa vez, com mais maturidade e experiência.
O tempo passava.
Eu e meu irmão éramos os xodós daquela família humilde.
Eles não sabiam o que fazer para nos agradar e acredito que até nos prejudicou com tanto mimo e dengo.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:05 am

CAPÍTULO 4 - A TRAGÉDIA

Eu era uma garotinha de três anos e meu irmão com oito meses.
Minha família já tinha acostumado a conviver com o nosso problema.
O meu pai bebia demais e judiava da minha mãe e de meus irmãos.
Nos seus momentos de embriaguez e fúria, os únicos que escapavam eram Toninho e eu.
Até que um dia chegou o momento fatal.
Certa noite, quando meu pai chegou de uma festa, não queria entrar em casa por mais que minha mãe insistisse.
Ela chamava e ele não respondia.
Ela estranhou aquela atitude e foi lá fora ver o que estava acontecendo.
Após sentir um cheiro muito forte, sua surpresa foi grande.
Naquele momento, minha mãe encontrou meu pai com um lenço embebido em veneno e desfalecido no chão.
Ela chorava e gritava desesperadamente.
Queria e precisava fazer algo urgentemente para que meu pai sobrevivesse.
Não demorou muito para que minha casa ficasse cheia de gente.
O último desejo de meu pai foi ver Toninho e eu pela última vez.
Naquele instante, pediu perdão a minha mãe e disse que cometera aquela fatalidade porque era necessário.
Assim, meu pai morreu, deixando minha mãe com dez filhos para criar e, ainda por cima, dois caçulas deficientes.
Foi um baque difícil para minha mãe.
Ela ficou arrasada e não sabia como tomar as rédeas da situação.
Felizmente, minha mãe era uma mulher de fibra, honesta, corajosa e trabalhadora.
A princípio, minha mãe achou que não ia suportar aquele golpe.
Imaginava: Se a situação estava ruim com meu pai, sem ele como seria?
Novamente, Deus se mostrou muito bom e minha mãe superou.
Meu pai tinha morrido, mas a vida continuava para nós.
Minha mãe e meus irmãos foram trabalhar na lavoura.
No começo, ela levava todos da casa, incluindo Toninho e eu.
Minha mãe tinha medo de nos deixar em casa, então nos colocava embaixo das árvores.
Nós chorávamos muito, pois os insectos nos picavam.
Para não nos ver sofrer, passou a nos deixar em casa com minha irmã Isa.

CAPÍTULO 5 - A DESCOBERTA

Quando meu pai ainda era vivo, certa vez, chamou minha mãe para uma conversa.
Nessa conversa, minha mãe percebeu que ele tinha planos suicidas.
Meu pai disse a minha mãe que tinha umas economias e que estavam emprestadas ao senhor Frederico, um amigo da família.
Ele não se preocupou em colocar o dinheiro no banco, pois o senhor Frederico era um amigo de inteira confiança.
Ele deixou bem claro que aquele dinheiro era para cuidar de mim e de Toninho.
Disse, também, que os outros filhos, graças a Deus, tinham saúde perfeita e poderiam trabalhar para se manter.
Minha mãe, sabendo desse dinheiro se tranquilizou.
Depois da morte de meu pai, meu irmão Cido, o mais velho dos homens, começou a sair quase todos os dias.
Minha mãe implorava para que ele ficasse com a família, mas não adiantava.
Ele pouco se importava com as súplicas dela.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:06 am

Certo dia, o senhor Frederico procurou minha mãe.
Estava acontecendo um fato grave e, certamente, ela teria que saber.
Ele disse que Cido procurou por ele dizendo que estavam precisando do dinheiro.
Ele, sem nada perceber, foi dando o dinheiro aos poucos para o meu irmão.
Cido, simplesmente, gastou o dinheiro com mulheres e bebidas.
Assim, todo o dinheiro que meu pai nos deixou acabou.
Além disso, o meu irmão estava com muitas dívidas na cidade.
Minha mãe ficou muito nervosa e acabou indo parar no hospital.
Ali começava o nosso drama, pois os médicos descobriram que minha mãe tinha problemas cardíacos.
Ela ficou vários dias no hospital muito doente.
Quando minha mãe recebeu alta, estava com a cabeça cheia de problemas:
dívidas para pagar, o sustento da família e a compra dos remédios caríssimos para sobreviver.
Dessa vez, também, Deus não nos abandonou.
Naquele ano, a roça produziu bastante e, com muito trabalho, garra e coragem, conseguimos sair daquele sufoco.

CAPÍTULO 6 - A PROPOSTA

Apesar dos problemas e tropeços, as coisas corriam normalmente para nós.
Os donos da fazenda adoravam nossa família e faziam o que podiam para nos ajudar.
Eles nos davam pedaços de terra para plantarmos e outras coisas mais.
A roça estava linda, quase tudo já estava produzindo.
Um dia, recebemos a visita da minha avó Etelvina e do meu tio João.
Eles estavam com um sério problema.
Minha avó tinha uma casa alugada na cidade de Bálsamo.
O inquilino não pagava o aluguel há muito tempo e, além disso, estava estragando a casa.
Ela procurou a Justiça e disseram a ela que uma acção de despejo só seria possível se ela ou algum filho se mudasse para a casa.
Eles resolveram nos procurar e nos disseram que a cidade seria melhor para nós.
Lá, ela nos disse, meus irmãos poderiam arrumar um emprego melhor, eu e Toninho poderíamos estudar e, com certeza, a nossa vida ia melhorar muito.
Minha mãe hesitou.
Para isso teria que ir ao Fórum, levar seus dois filhos deficientes e dizer que estava precisando da casa.
Ela teria que abandonar a roça já plantada e deixar aquela vida calma da fazenda para ir para a cidade.
Em seus pensamentos, ela jamais queria me usar ou usar o meu irmão Toninho para conseguir alguma coisa.
Não que tivéssemos pedido a ela, pois nós éramos muito crianças e não entendíamos dessas coisas.
Ela se preocupava com o nosso futuro, com nossos estudos e escola para deficientes, naquele tempo, era algo muito escasso.
Na fazenda jamais teríamos a chance de estudar.
Ela fez esse favor a minha avó, mas foi por nós.
Poderíamos morar na casa e não pagaríamos nada.
Tudo foi resolvido.
E ficou claro que minha avó ganhou essa parada.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:06 am

CAPÍTULO 7 - A MUDANÇA

Os preparativos para a mudança foram todos providenciados.
Minha mãe decidiu o que ia ou não ia levar e ficamos tristes, pois nós teríamos que deixar os brinquedos velhos.
O caminhão precisava ter espaço livre para levar os objectos mais importantes.
Tivemos que nos conformar.
Quando nos mudamos para Bálsamo, as minhas irmãs Idalina, Sebastiana e Antónia já tinham se casado.
Assim, restavam sete filhos com minha mãe. A casa era grande.
Entre os cómodos, havia uma sala, uma cozinha, três quartos e o banheiro.
No quarto da frente dormiam Cido e José.
No quarto do meio dormiam minha mãe, Toninho e eu.
No fundo ficariam Isa, Cidinha e Vina.
O quintal era enorme. Havia laranjeiras, mangueiras, mexeriqueiras, jabuticabeiras e alguns pés de café plantados.
Os meus irmãos trataram de arrumar emprego e minha mãe começou a lavar e passar roupa para fora.
Era muito difícil, pois não possuíamos luz eléctrica em casa.
Nem água encanada.
Para lavar roupas, minha mãe tinha de puxar água do poço e passá-las com ferro à brasa.
Eu e Toninho ficávamos em casa.
Naquele tempo, não havia classe especial para nós.

CAPÍTULO 8 - OS AMIGUINHOS

Não demorou muito para que fizéssemos amizade com muitas pessoas.
Os vizinhos eram maravilhosos e solidários e as crianças adoravam brincar connosco.
Eu ficava muito triste quando meu irmão José e as minhas amiguinhas iam para a escola.
Eu tinha uma vontade louca de estudar.
Minha mãe tentava me distrair e eu ficava brincando com as crianças menores, que ainda não tinham idade para irem à escola.
Quando José ou minhas amigas iam fazer tarefa, eu ficava perto prestando atenção.
Com isso, aprendi conjugar verbos e decorei todas as tabuadas sem entrar na escola.

CAPÍTULO 9 - O MALDITO VÍCIO

Na cidade, tornou-se mais fácil para meu irmão Cido beber à vontade.
Ele judiava demais da minha mãe.
Quando ele chegava em casa bêbado, tornava-se insuportável.
Xingava, gritava, esbracejava e jogava pratos de comida na parede.
Era malcriado e totalmente agressivo.
Todos sofríamos muito, principalmente minha mãe.
Minhas irmãs Isa e Cidinha iam trabalhar no sítio e ficavam na casa da minha irmã Idalina.
Nos finais de semana, elas iam para casa e levavam o dinheiro para minha mãe.
Nem sempre elas ficavam no sítio.
Somente quando havia muito serviço para ser feito.
Então, elas iam dar uma mão para o meu cunhado Mário.
Ai de nós se não existissem Isa e Cidinha!
Quando Cido cismava, saía de casa na sexta-feira e voltava domingo à noite, muito sem graça e sem um tostão no bolso.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 23, 2016 11:06 am

CAPÍTULO 10 - A ESCOLA

Moramos um ano em Bálsamo, sem que aparecesse uma chance para eu e Toninho estudarmos.
Um dia, o prefeito foi a minha casa e nos disse que ia abrir uma classe especial para deficientes visuais.
Eu fiquei feliz, pois o meu maior sonho era estudar.
Eu e Toninho começamos frequentar a escola.
A professora se chamava Cecília.
Cecília era uma mulher enérgica e exigente.
Possuía muita autoridade na voz, mas era boa de coração e muito competente.
O primeiro dia em que fomos à escola foi terrível.
Queríamos que a nossa mãe ficasse connosco.
Evidentemente, ela não pôde ficar, pois tinha muito trabalho a fazer em casa.
E, mesmo que quisesse e pudesse, Dona Cecília não deixaria.
Ela precisava ficar a sós com os alunos, sem a interferência de terceiros.
Foi difícil ficar com aquela mulher estranha e brava.
Minha mãe, com o coração partido e os olhos cheios de lágrimas, nos deixou e foi embora.
O primeiro dia foi só um reconhecimento e Dona Cecília conversou muito connosco.
Mal respondíamos, pois estávamos com medo dela.
Na hora do recreio também foi horrível.
Ela nos levou para o pátio.
Eu fiquei atordoada no meio de tanto barulho.
As crianças pulavam, cantavam, gritavam, corriam e brincavam alegremente.
Eu estava triste, queria muito poder brincar com elas e fazer tudo que tivesse direito, mas eu estava tímida, com medo e até com vontade de chorar.
De repente, as crianças perceberam a nossa presença, ficaram quietas e nos rodearam conversando baixinho.
Nós éramos motivos de curiosidade para elas.
Eu estava acostumada com muitas crianças, mas as minhas vizinhas, as que me conheciam e estavam acostumadas a brincar comigo.
Jamais pensei que um dia eu pudesse ficar no meio de mais de mil crianças.
Algumas conversaram comigo timidamente e as maiores queriam me pegar no colo, como se eu fosse uma boneca de brinquedo.
A partir daquele momento, algumas crianças começaram a me chamar de Dora.
Adorei porque não gostava do meu nome.
Posteriormente, quando aprendei a escrever, observava que a maioria das pessoas não colocava o acento no i.
Naquela época não sabia, mas agora sei que há também outras pessoas que se chamam Doraídes.
Felizmente, tocou o sinal para voltarmos para a classe.
Eu já estava para chorar.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:16 am

CAPÍTULO 11 - O DESENVOLVIMENTO DOS SENTIDOS

Logo no início, minha mãe e Dona Cecília começaram a ter divergências.
Eu e Toninho éramos muito mimados e para que conseguisse alguma coisa, Dona Cecília tinha que ser enérgica até mesmo com minha mãe.
Justo ela, que sempre nos tratou como dois bibelôs de cristal e que não podiam ser quebrados.
Era difícil para ela ver uma estranha interferir na nossa educação.
Mesmo sendo a professora, ela não aceitava.
Minha mãe era doente e se preocupava com o nosso futuro; por isso, aos poucos, ela foi aceitando.
Todos os dias, a hora de ir para a escola era a hora mais difícil.
Nós não queríamos ir.
Quantas vezes ela nos levou à força, nos deixando chorando e voltou chorando também para casa.
Eu não tinha mais vontade de ir para a escola.
Queria caderno, lápis, livros e canetas.
Queria os mesmos materiais que as minhas amigas tinham e nada desse material chegar.
Os materiais que eu recebia eu os achava estranhos.
Achava que eram brinquedos e isso me entristecia muito.
Dona Cecília estava trabalhando connosco o desenvolvimento dos sentidos.
Nas aulas, ela nos dava diversas fichas:
grossas, finas, ásperas e lisas. Havia duas fichas de cada tipo e tínhamos que separar todas de duas em duas.
Havia folhas com desenho em alto-relevo, curvas, rectas e várias espécies de desenhos.
Percorríamos, com os dedos, todos os desenhos para desenvolvermos o tato.
Ela nos dava uma caixa com vários vidros.
Dentro dos vidros havia:
sal, açúcar, álcool, pó de café e muitas coisas das quais eu não me lembro mais.
Separávamos os vidros que possuíam a mesma substância.
Assim, desenvolvíamos o olfacto e o paladar.
Para mim, aquilo era uma brincadeira.
Eu não percebia que estava aprendendo muito.
Ela nos dava várias figuras para encaixarmos nos devidos lugares.
Dava-nos o ligue-ligue e muitos outros tipos de encaixe.
Com massa de modelar fazíamos bolinhas e outros tipos de desenhos.
Havia, também, muitas contas de vários tamanhos e formatos.
Ela nos dava um cordão com uma agulha na ponta para que passássemos as contas por dentro da agulha.
A princípio, podíamos colocar à vontade, as que quiséssemos.
Eu, obviamente, preferia as grandes.
Era mais fácil de colocar.
Quando estávamos bem craques, ela nos dava exercícios diferentes intercalados às contas.
Assim, estávamos desenvolvendo a coordenação motora.
Tudo era maravilhoso, mas eu não percebia ainda essa maravilha, essa graça que estava recebendo dela e de Deus.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:17 am

CAPÍTULO 12 - A DECEPÇÃO

Dona Cecília chegou a me dar a reglete, a punção e o cubarítimo.
Eu ficava colocando os dadinhos no cubarítimo e me entristecia.
Eu tinha uma vontade enorme de aprender a ler e a escrever nos cadernos.
Achava que estava perdendo tempo com tantas brincadeiras; mas, não dizia nada a ela.
Eu tinha medo.
Eu colocava a folha na reglete e fazia pontinhos sem saber o que significava.
Quando ia brincar com minhas amigas, tinha vergonha de contar o que aprendia na escola.
Tinha medo de que elas rissem de mim.
Eu achava um absurdo minha mãe largar os serviços para me levar para brincar na escola.
Já estava me acostumando com aqueles exercícios, quando Dona Cecília chamou minha mãe para uma conversa séria.
Dona Cecília disse que iria embora e não podia mais continuar dando aula para nós.
Disse os motivos, mas eu não me lembro muito bem.
Era muito criança para entender essas coisas.
Quando ela foi embora, eu fiquei muito triste e decepcionada.
Senti falta dela, da escola e dos amiguinhos.
Senti muito a ausência daquela mulher.
Senti muito a ausência daquela pessoa que me tratava de uma forma diferente por ser brava e enérgica.
Senti saudade daquela mulher que não me mimava.
Eu me senti como um peixe fora d’água.
Realmente, muito perdida.
Percebi, tarde demais, que, aquela mulher, da qual eu não gostava, era maravilhosa e não antipática.
Pude perceber que ela estava me preparando para vida e eu não aceitava.
Arrependi-me e pensei que poderia ter aproveitado mais.
Poderia ter aprendido mais com ela e, talvez, nunca mais tivesse essa chance.
Com isso, aprendi que devemos aproveitar os momentos bons que a vida nos oferece.
Precisamos dar valor às pessoas que querem o nosso bem.
De nada adianta chorar o leite derramado.
CAPÍTULO 13 - A VOLTA À ESCOLA
Passou mais um ano sem que voltássemos à escola.
Já tínhamos perdido a esperança.
Da primeira vez, ficamos quatro meses e Dona Cecília teve que ir embora.
Eu esperava a volta à escola como a mãe espera o bebé.
Eu tinha muita ansiedade e vontade de voltar a estudar.
Um dia, quando menos esperávamos, Dona Cecília nos procurou.
Disse-nos que havia outra professora que iria dar aula e que ela gostaria muito que voltássemos à escola.
Fomos conhecer a nova professora.
Ela se chamava Arisla Claudete.
Dona Claudete era uma mulher doce.
Tinha a voz mansa, calma e suave.
Era gentil, simpática e possuía uma humanidade fora do comum.
Eu a adorei.
No início, pensei que ela fosse uma fada, uma santa, que tinha caído do céu para nos ajudar.
Ela contava lindas estórias que me deixavam deslumbrada.
Estórias que eu sempre tive vontade de ler, mas nunca pude, não era ainda alfabetizada.
Mesmo com Dona Claudete, que era uma pessoa boazinha e calma, eu não deixava de fazer as minhas manhas.
Ela era muito carinhosa, mas na hora que precisava, ficava muito brava.
Foi mais fácil para ela porque eu já tinha me acostumado com as ideias dos materiais.
Entendia que era cega e se quisesse aprender a ler teria que aceitar o sistema Braille.
Comecei a pensar com carinho em tudo isso e fui em frente com garra e vontade.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:17 am

CAPÍTULO 14 - A ALFABETIZAÇÃO

Na escola eu usava a reglete com muita frequência.
No início, comecei a perfurar qualquer pontinho.
Depois, Dona Claudete me fez perceber que todas as celinhas da régua tinham seis pontinhos.
Então, eu preenchia os seis pontos.
Ela pedia para que eu percorresse a folha toda para descobrir os meus erros.
Ela ficava super feliz quando eu descobria um erro porque o meu tacto estava bem desenvolvido.
Aos poucos, aprendi a reconhecer todos os pontinhos.
Aprendi os nomes das letras, exercitei aquelas que são fáceis de confundir, como o d e o f, o e e o i, o h e o j.
Quando estava craque nas letras ela me deu a cartilha.
Eu fiquei tão feliz que não consegui dormir naquela noite.
Queria ficar estudando.
Para que eu deitasse e descansasse um pouco, foi preciso que minha mãe escondesse a cartilha.
No outro dia, a primeira coisa que fiz foi querer a cartilha.
Era maravilhosa, pois o mais importante para mim é que na cartinha os desenhos eram em alto-relevo.
Aprendi a ler e a fazer cópia.
Toninho não conseguiu.
Eu adorava ler para ele.
Quantas vezes Dona Claudete me deixou de castigo...
Foram tantas que eu até perdi a quantia.
Às vezes, porque eu fazia cópias que ela não tinha mandado.
Outras, porque eu não fazia tarefa por preguiça.
Nessa época, eu contava com nove anos de idade.
Havia dias em que eu ficava brincando e esquecia das minhas obrigações.

CAPÍTULO 15 - UMA INFÂNCIA DIFÍCIL

Eu era uma menina feliz.
Às vezes, entristecia porque eu não tinha bonecas bonitas como as minhas amigas.
Não só não havia bonecas como também não havia outros brinquedos.
Minha mãe não tinha condições de comprar.
A vida era difícil para nós.
Ela comprava remédios caros, pois não podia ficar sem eles, devido aos seus problemas sérios de saúde.
Como sofremos com as violências dos meus irmãos Cido e José!
Eles bebiam e se tornavam insuportáveis.
Cido se casou e minha cunhada também sentia o maior prazer em ofender minha mãe.
Eu ainda era muito criança para entender aquela situação, mas me revoltei contra eles.
Fiquei um tanto traumatizada.
Não entendia como é que um filho podia ser tão mau para sua própria mãe.
Apesar de tanto sofrimento, eu era feliz e realizada.
Sabia ler, tinha muitas amigas, várias pessoas gostavam de mim e isso era o que contava.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:17 am

CAPÍTULO 16 - OS BRINQUEDOS E AS ROUPAS

Um dia, Dona Claudete foi a minha casa e eu estava brincando.
Ela pediu para que minha mãe me chamasse.
Cheguei sem graça, pensei que tivesse feito algo errado na escola e ela tivesse vindo reclamar para minha mãe.
Dona Claudete correu ao meu encontro.
Disse que tinha levado uns presentes para mim e para Toninho.
Ficamos curiosos e ansiosos.
Ela foi até o carro e nos entregou muitas caixas e pacotes.
Fiquei perdida. Eu nunca tinha ganhado tantos presentes.
Havia uma boneca que tinha muitos cabelos e que fechava e abria os olhos.
Era de borracha e parecia um bebé.
Havia, também, um boneco acompanhado de mamadeira e piniquinho.
Ele mamava e fazia xixi.
Era uma gracinha!
Muitas panelas, colheres, garfos, facas e vasilhas de plástico.
Havia, entre os presentes, uma bonequinha preta e pequena.
Aquele monte de brinquedos me deixou radiante.
Toninho ganhou um avião, carrinhos, bolas; enfim, todos os brinquedos que uma criança pode sonhar.
Ela também levou muitas roupas para nós.
Eram novas e usadas.
As usadas estavam em óptimo estado de conservação.
Minha mãe não tinha palavras para agradecer aquela bondade.
Dona Claudete disse que não era necessário agradecer e que eu e Toninho éramos os dois presentes mais preciosos que ela tinha ganhado de minha mãe.
Foi uma festa para nós.

CAPÍTULO 17 - OS ESTUDOS

O tempo corria sem que nada de novo acontecesse, a não ser a rotina do cotidiano.
Isa também se casou.
Ficamos eu, Toninho, minha mãe, a Cidinha, Vina e o José.
Os meus irmãos trabalhavam.
Minha mãe ainda lavava roupas para fora.
Eu e Toninho íamos à escola.
Eu ia muito bem nos estudos, as pessoas adoravam me ver lendo.
Achavam-me uma gracinha.
Foi um ano maravilhoso e diferente para mim.
Eu me sentia muito útil e importante.
Adorava ir à escola.
Eu tinha muitos coleguinhas.
Todos queriam brincar comigo.
Eu me sentia a líder, a princesinha no meio de tantas crianças.
Elas brigavam para me levar onde eu quisesse na hora do recreio.
Nunca imaginei que um dia, eu seria tão importante para as pessoas.
Nunca imaginei que, um dia, seria tratada pelas pessoas como uma criança que enxerga normalmente.
Às vezes, as pessoas esqueciam que eu era cega e esse esquecimento me deixava feliz.
No final do ano, fiz os exames e passei para a segunda série.
Eu dava pulos de contente e ganhei um livro de presente de Dona Claudete.
O título do livro era Belas Histórias.
Nas Férias eu devorei o livro.
Lia, relia as histórias e não me cansava.
Não gostei das Férias, pois demoraram muito para passar.
Eu sentia muitas saudades da Dona Claudete, dos amiguinhos e da escola.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:17 am

CAPÍTULO 18 - A CLASSE COMUM

As aulas iniciaram e eu tinha que frequentar a classe comum.
Eu fiz a primeira série em classe especial, onde só havia eu e Toninho.
A Isaltina, a Maristela e o Manoel eram alunos com visão subnormal.
Eles estudavam em classe comum, mas iam todos os dias na classe especial para receber reforço e auxílio da Dona Claudete.
Quando a Dona Claudete disse que eu iria para a classe comum, fiquei confusa, com medo de não conseguir acompanhar a classe.
Fiquei preocupada, pois eu seria a única deficiente no meio de quarenta crianças que enxergavam.
Eu ia perder aquele encanto, aquela doçura de pessoa que era a Dona Claudete.
Todos os dias, nós iríamos nos encontrar, mas não seria a mesma coisa.
Ela ia transcrever as minhas lições, ia copiar os livros para mim.
Naquela época, os livros adoptados para a segunda série não haviam sido copiados em Braille.
Ela estaria ali para o que desse e viesse, mas seria diferente.
Fiquei triste.
Ela, com muita doçura, abraçou-me e me convenceu que a classe comum seria melhor para mim.
Disse-me que eu precisava me integrar com a sociedade e que ela não estaria sempre perto de mim para me proteger.
Assegurou-me que eu arrumaria amiguinhas que me levariam à escola e a minha casa.
Dessa forma, minha mãe não se sacrificaria tanto.
Eu não tinha outra opção e teria mesmo que ir para a classe comum.
No meio dos tantos argumentos dela, foi mais fácil para mim.
A minha professora de segunda série se chamava Lia.
Lia era boazinha também, tratava-me com muito carinho.
Nos primeiros dias estranhei um pouco, mas depois me acostumei.
Ela ia escrevendo na lousa e ditando para mim.
Eu fazia as lições e Dona Claudete transcrevia para ela corrigir.
Não havia marmelada!
Caso eu escrevesse errado, Dona Claudete transcrevia exactamente do jeito que eu havia escrito.
Realmente, a classe comum foi óptima para mim.
Passei a conviver mais tempo no meio das crianças normais e adquiri os mesmos hábitos e manias delas.
Tornei-me menos egoísta e percebi que todas as crianças eram tão importantes quanto eu.
Eu era óptima para decorar poesias.
Em quase todas as festinhas comemorativas, Dona Lia dava poesias para eu recitar.
Na segunda série, eu era umas das primeiras alunas da classe e sempre tirava óptimas notas.
Dona Lia me elogiava e dizia que eu tinha sido bem alfabetizada.
Maria José era minha vizinha e estávamos na mesma classe.
Fazíamos os deveres juntas.
Também íamos e voltávamos juntas para casa.
Éramos amigas inseparáveis.
Quando ela faltava, sempre havia quem me levasse e trouxesse.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:18 am

CAPÍTULO 19 - A DESPEDIDA

Um ano passou sem que eu percebesse.
Foi bom e de muitas experiências novas para mim.
Fiz os exames e passei para a terceira série.
Nas Férias, eu ficava sempre um pouco chateada.
Gostava muito de estudar e detestava a ideia de ficar em casa.
Era uma criança muito inquieta e não gostava de ficar parada.
Apesar de brincar muito, ficava ansiosa para a volta às aulas.
Enfim, chegou o dia tão esperado.
A professora da segunda série chamava-se Inês.
Eu gostei dela e tinha a certeza de que iria aprender muito.
Uma notícia inesperada veio abalar a minha alegria.
Dona Claudete ia embora para São Paulo.
Surgiu uma chance melhor para ela lá.
Eu chorava desesperadamente, não queria perder aquele anjo bom.
Não queria perder aquela amiga que tinha mudado a minha vida completamente.
Quem iria me ajudar?
Quem iria transcrever as minhas provas e lições?
Quem iria copiar os livros para mim?
Eu seria aceita na escola, sem o auxílio de uma professora especializada?
Será que Dona Inês iria confiar em mim?
Será que ela iria acreditar nas respostas que eu lesse?
Essas e muitas perguntas que eu fiz para mim mesma, me atordoaram.
Eu pedia, eu implorava para que a Dona Claudete não fosse embora, mas de nada adiantou.
Tinha mesmo que ir.
Fez-me muitas recomendações.
Pediu para que eu me comportasse bem, ressaltando que tinha a certeza de que tudo ia dar certo.
Pediu para que eu tivesse fé em Deus.
Disse que me escreveria e que queria as respostas para saber como eu estava.
Com a despedida de Dona Claudete, tudo se tornou muito difícil para mim.

CAPÍTULO 20 - AS DIFICULDADES

Comecei a cursar a terceira série, sem o auxílio de uma professora especial.
Dona Inês, era muito compreensiva e me dava muita força.
Mesmo com aquela compreensão, aquela força, aquela paciência, aquele carinho, as dificuldades surgiram.
Com o avanço dos estudos eu me sentia perdida.
Apareciam sinais novos, que eu não havia aprendido e que Dona Inês não tinha condições de me ensinar.
Ela era uma professora comum, não tinha prática com deficientes visuais.
Eu entendia as matérias, mas na hora de fazer os sinais novos nas aulas de matemática, me enrolava toda.
Eu queria acompanhar a classe normalmente e não queria ficar para trás de maneira alguma.
Comecei a inventar sinais matemáticos por minha própria conta.
Eu sofria demais com a falta da Dona Claudete ou até mesmo de outra pessoa que pudesse me auxiliar.
A coisa que mais me deixava feliz é que eu estava conseguindo acompanhar a classe.
Com dificuldade, é certo, mas estava.
Preocupava-me demais a ideia de que nunca mais encontraria uma professora que pudesse me ajudar.
Eu tinha tantos sonhos...
Queria ser alguém na vida, queria estudar, queria fazer uma faculdade, queria poder um dia ajudar minha mãe, que enfrentava tantas dificuldades para nos sustentar.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:18 am

CAPÍTULO 21 - A SALVAÇÃO

Eu tinha amizade com todos da escola.
Conversava com a directora, com as professoras, com os serventes e com os alunos.
Um dia eu estava desanimada e no recreio não quis brincar com minhas amiguinhas.
Estava muito triste sentada no banco.
De repente, as lágrimas começaram a brotar nos meus olhos e eu não sabia por quanto tempo iria aguentar aquela situação.
Não sabia também se os professores aguentariam.
Eu precisava urgentemente de uma professora para me auxiliar.
Dona Edite e Dona Eliana moravam em São José do Rio Preto.
Conheciam um colégio que diziam ter muitas classes especiais.
Prometeram verificar se nesse colégio havia algo para mim.
Dentro de mim nasceu uma esperança, que me deu ânimo e força.
Aquela noite nem dormi direito.
Queria que o dia amanhecesse logo, para saber alguma notícia que pudesse me fazer bem.
Elas me trouxeram uma óptima notícia.
Havia uma classe especial para cegos.
Fiquei satisfeita, as minhas lições seriam transcritas por uma professora.
O sol tinha voltado a brilhar para mim.
A professora era Dona Cecília.
Sem demora, Dona Edite levou as tarefas para ela transcrever.
Ela me mandou um recado não muito animador.
Disse que aquele ano não poderia ir a Bálsamo, não por ela, mas pelos compromissos que já tinha.
Mesmo assim, ela se colocou inteiramente a minha disposição.
Disse que eu poderia ir uma vez por semana ao colégio Cardeal Leme em Rio Preto e que ela, com todo prazer, me ajudaria.

CAPÍTULO 22 - UM NOVO PROBLEMA

A professora que eu tanto precisava apareceu.
Eu ia continuar na classe comum, mas teria que ir uma vez por semana na classe especial de Rio Preto.
Teria que ir alguém comigo.
Eu não tinha curso de locomoção e, mesmo que tivesse, minha mãe jamais me deixaria ir sozinha.
Na ocasião, eu tinha apenas doze anos.
Minha mãe sequer tinha como pagar as passagens.
Cidinha e a Vina tinham se casado.
José estava cuidando da vida dele e não podíamos contar com ele de maneira alguma.
O dinheiro que minha mãe ganhava lavando e passando roupas mal dava para o sustento da casa e para os remédios dela, que não eram poucos, ou muito menos, baratos.
Dona Vilma, a directora da escola, sabendo das nossas dificuldades deu-nos as passagens.
Ela ficou muito feliz com a minha honestidade, quando eu fui à directoria levar o troco do dinheiro.
Era uma quantia insignificante, que eu não me recordo agora, mas era dela.
Ela me abraçou e me fez muitos carinhos.
Contou que tinha feito a promessa de ajudar uma família pobre e que essa família seria a nossa.
A partir daquele momento, ela daria três pães para nós, que a minha mãe buscaria na padaria todos os dias.
Essa notícia deixou minha mãe tranquila e contente.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:18 am

CAPÍTULO 23 - A APRENDIZAGEM DOS SINAIS MATEMÁTICOS

Na primeira vez que fui ao Cardeal Leme, as coisas não foram muito boas para mim.
Tive que começar a aprender os sinais matemáticos e muitas outras coisas que eu tinha inventado por conta própria.
Dona Cecília me ensinava tudo com muita paciência.
Sempre me dizia que eu tinha mudado para melhor e que não era mais aquela menina mimada.
Apesar daquela bondade e paciência, Dona Cecília era muito enérgica e aquela energia foi muito boa para mim.
Tudo o que eu sou hoje devo a ela.
Ela me acompanhou daquela época até eu me formar.
Eu estava acostumada com aqueles sinais inventados por mim.
Foi difícil acostumar com os sinais verdadeiros.
Graças a minha força de vontade e a paciência de Dona Cecília, eu consegui assimilar bem.

CAPÍTULO 24 - A ACEITAÇÃO

No primeiro dia, fomos eu e minha amiga Maria José para o colégio Cardeal Leme.
Foi legal, apesar dos contratempos.
Realmente, foi uma aventura diferente para mim, andar de ônibus sem a presença e protecção de minha mãe.
Só eu e minha amiga, isso me fez sentir mais responsável e adulta, apesar de ainda ser uma criança.
Eu me senti um pouco deslocada no meio de tantas pessoas diferentes.
Na escola havia vários alunos deficientes visuais.
A maioria estudava em classe comum e alguns ainda estavam na classe especial com Dona Cecília.
Eu não me lembro muito bem de todos, mas recordo-me de Francisco, Neno, Terezinha e João.
Fiquei surpresa, sobretudo porque não pensei que no mundo existissem tantos deficientes.
Achei estranho ficar no meio deles, pois a turma era, na sua maioria, mais velha que eu.
Por ter entrado na escola com dez anos, as crianças que eu tinha amizade eram, em grande parte, mais novas que eu.
Fiquei com vergonha daqueles moços e tenho certeza de que todos me acharam muito infantil.
Na hora do recreio, todos iam para a classe especial.
Ficavam conversando e trocando ideias.
Não era por maldade, mas eu achava que entre eles e eu existia uma grande barreira.
Não sei se fui eu que não os aceitava ou se foram eles que me deixavam de lado.
Ou ainda, porque eu achasse o mundo deles totalmente diferente do meu.
Eles se viravam sozinhos, se locomoviam livremente sem o auxílio de ninguém e, no fundo, eu senti vontade de ser livre como eles.
Essa impressão ficou em mim durante somente as primeiras vezes que estive lá.
Depois, me acostumei com eles e não posso negar que aprendi muitas coisas boas com esses novos amigos.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:18 am

CAPÍTULO 25 - A AJUDA

Não demorou muito para que o prefeito soubesse das minhas idas todas as semanas para Rio Preto.
Ele soube das minhas dificuldades e da ajuda de Dona Vilma.
Mandou um recado para que eu fosse à prefeitura, pois ele precisava falar comigo.
Eu fui e ele disse-me que iria mandar uma perua me levar a Rio Preto todas as vezes que eu precisasse.
Assim, Toninho também aproveitaria para ir à escola, se ele quisesse, é claro.
Passamos a receber muita ajuda: da prefeitura, do pessoal da escola e de muitas pessoas influentes da cidade.
Minha família recebia leite em pó, macarrão, vitaminas, remédios e até roupas.
Na verdade, as roupas eram usadas, mas em boa condição de uso.
Para a minha mãe, essa ajuda foi óptima, pois ela pode ficar mais tranquila.
Deus não desampara ninguém.
Eu tenho muitas saudades daqueles tempos e daquelas pessoas maravilhosas que me ajudaram.
Sei que algumas já faleceram.
Outras, perdi o contacto.

CAPÍTULO 26 - TUDO ACONTECE NA HORA CERTA

Aquele resto de ano eu viajei para Rio Preto, sempre uma vez por semana.
Fiz exames e passei para a quarta série, graças a Deus.
Na quarta série, logo no início do ano, recebi uma notícia que me deixou feliz.
Dona Cecília poderia ir a Bálsamo uma vez por semana e eu teria que continuar indo lá uma vez por semana também.
Isso foi óptimo!
Eu teria dois dias por semana com ela e Toninho poderia voltar a estudar.
Eu cheguei à conclusão de que tudo acontece na hora certa.
Deus sabe o que é bom para nós e as coisas que são conseguidas com sacrifício, realmente, são mais saborosas.
Exactamente há um ano eu tinha sofrido e chorado desesperadamente e, naquele ano, eu sorria para a vida.
A minha professora da quarta série chamava-se Maria Deocira.
Dona Maria Deocira era uma mulher maravilhosa.
Tinha um dom para ensinar!
Dava gosto assistir às aulas dela.
Eu tive muita sorte com minhas professoras.
Elas tinham muita paciência e muita categoria para ensinar.
A cada ano eu fazia novas amizades, conhecia pessoas maravilhosas, aprendia muito.
Eu era inteligente, sempre tirava óptimas notas e nunca dava trabalho para minha mãe.
O estudo era uma das coisas mais importantes de minha vida.

CAPÍTULO 27 - A LEITURA

Na maioria das vezes que eu ia a Rio Preto, levava para casa muitos livros para ler.
Modestamente, eu sempre li muito bem.
Adorava e ainda adoro ler.
Com a leitura, aprende-se muito.
Aprende a escrever certo, aprende a falar certo e, além disso, conhece coisas importantes.
Às vezes, eu me identificava com alguns personagens e sentia vontade de estar na pele deles.
Li e reli todos os romances em Braille, que eu encontrava na biblioteca do Cardeal Leme.
Infelizmente, não existia e ainda não existem muitos livros em Braille.
Eu sempre tive muita sede de leitura.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Jul 24, 2016 9:18 am

CAPÍTULO 28 - A PRIMEIRA COMUNHÃO

Enquanto estudava, eu fazia o catecismo também.
Minha mãe era muito religiosa e um dos seus sonhos era me ver fazer a Primeira Comunhão.
Num domingo, antes de receber o diploma de quarta série, chegou o dia da minha Primeira Comunhão.
O vestido que usei era branco.
Com muito sacrifício, minha mãe juntou dinheiro para comprar aquele vestido maravilhoso.
Todos diziam que era lindo.
A missa foi emocionante e muito marcante para mim.
Ensaiamos muitos hinos e cantamos durante a missa.
Aquela cerimónia me transmitiu muita paz.
Após a missa houve uma festinha.
Eu estava muito eufórica, me sentia realizada.
Jamais pensei que um dia pudesse acontecer tanta coisa boa comigo.
Quando eu era menor, pensava que nunca fosse ter os mesmos prazeres que as outras crianças.
Só fiquei um pouco triste porque ia sentir muita falta da minha professora de catequese, que era muito boa para mim.
Além dos ensinamentos, ela me dava muitas coisas.
Eu aprendi tanto com ela, que passei a ser professora de catequese.
Eu comecei a fazer parte do coral da igreja e aos domingos ia cantar na missa.
Essa experiência foi muito boa para mim.
Fiz amizade com muitas pessoas diferentes, inclusive, jovens.
A professora gostou da minha voz e me chamou para cantar com ela e outros jovens nos casamentos.
Com isso, eu amadureci e me senti uma pessoa mais adaptada em meu mundo.

CAPÍTULO 29 - O DIPLOMA

Como em todas as outras séries, na quarta eu fui muito bem.
Passei nos exames com óptimos resultados.
Eu ia receber o diploma de quarta série.
O prazer que sentia, não consigo descrever.
Minha mãe, então, nem se fala.
Nenhum filho dela tinha recebido diploma e, justo eu, deficiente visual, com quem ela se preocupava tanto, ia lhe dar aquela alegria.
Os preparativos para a festa foram feitos com muita alegria e ansiedade por todos.
Finalmente, chegou o dia tão sonhado.
Eu estava vestida de branco, o mesmo vestido da Primeira Comunhão.
Era a cor preferida de minha mãe.
Primeiro, celebrou-se a missa, depois foi a entrega dos diplomas na escola.
Quando recebi o meu, nem acreditei!
Pensei em tudo que tinha passado para chegar até ali!
Tanto sofrimento, tanto sacrifício, tantas lágrimas!
Certamente, havia valido a pena receber aquele prémio compensador e passar por tudo que passei!
Eu abracei e beijei aquele diploma, que, para mim, era sagrado, uma bênção do céu.
Aquele diploma era um troféu não só para mim, mas para minha mãe também.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:10 am

CAPÍTULO 30 - A CHUVA

Eu estava na quinta série e me sentia ansiosa e curiosa para chegar o primeiro dia de aula.
Até a quarta série eu tinha uma professora e agora, na quinta série, seria diferente.
Cada matéria teria um professor.
Essa ideia de conhecer pessoas, ambientes e coisas diferentes, me deixava ansiosa.
No primeiro dia de aula, estava chovendo demais.
Minha mãe tinha que me levar na escola a pé.
Eu não conhecia os meus amigos de classe.
Sempre nos primeiros dias minha mãe me levava.
Não demorava e as crianças se ofereciam para me auxiliar.
Eu tive sorte em todas as séries, pois sempre tive vizinhos na minha classe.
Infelizmente, Maria José reprovou a terceira série e começamos a ficar em classes diferentes.
Voltando ao primeiro dia de aula, eu me arrumei toda bela e formosa e a minha mãe foi me levar.
Chovia sem parar. Grandes enxurradas, ventos fortes, o guarda-chuva quase virava pelo avesso e minha mãe fazia de tudo para que eu não me molhasse muito.
Eram enxurradas tão fortes, que não havia jeito de desviarmos.
Nessa época, eu tinha de treze para quatorze anos.
Era pequena e magra.
Minha mãe me pegou nos braços para atravessar a enxurrada.
Aquele doce contacto me fez agarrar a ela com ternura.
Foi tão difícil chegar na escola, que até já tinha me esquecido que era o primeiro dia de aula.
Quando cheguei na escola, já haviam dado o sinal.
Dona Zulmira, a directora da escola, me levou até a classe.
Ela pediu licença para Dona Odete, a professora de matemática, e me apresentou para todos.
A maioria dos alunos eu já conhecia, eram alunos das séries anteriores, que estudaram comigo.
Os que eu não conhecia, foram super amáveis.
Eu fiquei sem graça por ter chegado atrasada, mas logo perdi a timidez e me entrosei com o pessoal.
Nós tínhamos cinco aulas por dia.
A cada cinquenta minutos, havia uma troca de professoras.
Às vezes, acontecia de ter aula dupla de certas matérias.
Vera se propôs a me ajudar.
Morava perto da minha casa e disse a mim que poderíamos ir juntas todos os dias à escola.
Todos disseram que eu poderia contar com eles.
Todos foram prestativos comigo, mas alguns se tornaram inesquecíveis para mim.
Lembro-me de pessoas especiais como Ely, Egler, Vera, Vilela, Maria Eliza, Maria Luiza, Sónia e muitos outros, que, se eu fosse escrever seus nomes, usaria páginas e mais páginas.
Os professores também foram maravilhosos comigo, mas uma me marcou profundamente.
Até hoje não consigo esquecer aquela bondade de pessoa.
No ginasial, os professores e alunos acabam se tornando uma família, pois são quatro anos de convivência.
Já no primário, todos os anos, nós temos professores diferentes.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:10 am

CAPÍTULO 31 - DONA ODETE

A professora a quem eu me referi no capítulo anterior é Dona Odete, a professora de matemática.
Ela era incrível.
Tinha a voz um pouco ardida, mas era agradável, doce e gentil na maneira de ensinar.
Era sensível e carinhosa, sua presença transmitia muita paz.
Identifiquei-me com ela.
Adorava quando havia aula de matemática.
Tudo o que ela ensinava, eu aprendia com a maior facilidade.
Eu ficava triste quando não tinha aula dela, mas, dava um jeitinho para encontrá-la.
Eu não sei o porquê, mas tinha uma afeição tão grande por ela, que nem eu mesma conseguia entender.
Na época das frutas, eu levava as mais lindas e viçosas para ela.
Eu sentia que era correspondida naquele sentimento.
Ela queria o meu bem, queria sempre me ver feliz.

CAPÍTULO 32 - O ENTROSAMENTO

Logo eu me entrosei com a turma.
Nessa época, ia tanta gente em casa fazer as tarefas comigo, que até se tornava divertido.
Parecia uma festa.
Às vezes, até levavam petiscos para comermos.
Foi uma época maravilhosa.
Quando me lembro sinto muitas saudades.
Naquele tempo, eu era feliz e não sabia.
Como eu já disse em capítulos anteriores, minha casa era grande e o quintal enorme.
Minha turminha adorava se reunir em casa.
Eu me sentia muito vaidosa.
Uma única deficiente visual no meio de tantos jovens que enxergam e que gostavam de mim.
Sentia que eles faziam de tudo para me verem feliz.
Eles, às vezes, até brigavam entre si, pois todos queriam passear comigo, todos queriam me ajudar ao mesmo tempo.
Eu, com muito jeitinho, conseguia apaziguar tudo.
Logicamente não podia tomar partido, precisava de todos e não queria me indispor com ninguém.
Eu não sei o que passava pela cabeça da minha turma.
Parece que eles tinham orgulho de ser meus amigos.
Aquelas crianças, adolescentes e jovens tinham pureza e simplicidade nos sentimentos.
Não tinham preconceitos e isso me deixava imensamente feliz.
Toninho também adorava ficar connosco.
Apesar de tantos sofrimentos e sacrifícios, minha mãe ficava tranquila, vendo a nossa felicidade.
Eu acho que nem ela acreditava que um dia pudesse acontecer aquilo connosco.
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Ave sem Ninho

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:11 am

CAPÍTULO 33 - A DESCONFIANÇA

Tudo corria maravilhosamente bem comigo.
No começo do mês de abril de 1972, eu senti que minha vida tinha mudado.
Todos estavam muito estranhos.
Fazíamos as lições juntos, mas não era mais a mesma coisa.
Às vezes, eu os surpreendia numa rodinha, falando baixo e, quando eu chegava, eles paravam, mudavam de assunto, desconversavam.
Aquilo tudo foi me deixando muito triste e desanimada.
Até os professores tinham mudado.
Eu não conseguia entender aquela mudança brusca.
Um dia, cheguei em casa e minha amiga Ely estava conversando com minha mãe e Toninho.
Quando eu entrei, eles pararam e mudaram de assunto.
Fiquei desnorteada e comecei a chorar.
Minha mãe tentou me acalmar, mas as palavras e os carinhos dela só faziam com que eu chorasse mais.
Fiquei desconfiada e decepcionada com todos.
Achei que nem mesmo minha mãe gostasse de mim.
Naquela noite fui dormir aos prantos, custei a pegar no sono.
Estava com vontade de morrer, de sumir para um lugar onde ninguém me conhecesse.
No outro dia, quando minha mãe foi me acordar para ir à escola, eu estava indisposta e sem vontade.
Ela me achou muito abatida, mas disse que eu não poderia faltar.
Eu estava muito aborrecida.
Quando fui me vestir, ela me deu uma roupa nova para usar.
Estranhei aquela atitude, não poderia entrar na escola sem uniforme.
Minha mãe argumentou que o uniforme estava molhado e acaso não me deixassem entrar na escola, era para voltar para casa.
Fiquei mais surpresa ainda, mas estava murcha para discutir com ela.

CAPÍTULO 34 - O ANIVERSÁRIO

Fui para escola como se estivesse indo para um matadouro.
Não sabia como enfrentar minhas colegas, não tinha mais papo com elas.
Eu não sabia por quanto tempo suportaria aquela situação.
Quando cheguei, não encontrei nenhum aluno da minha classe, a não ser Dalva, a garota que tinha passado em minha casa para irmos juntas.
Não me barraram no portão.
Entraria sem maiores explicações, o que me parecia bom.
Além do mais, chegamos em cima da hora.
Tocou o sinal.
Eu e Dalva fomos para a classe.
A porta estava fechada e, quando a abrimos, uma turma que já estava lá dentro, começou a cantar os Parabéns a Você!
Eu tremia timidamente.
Era 8 de abril, o dia do meu aniversário.
Dias antes, eu tinha me lembrado, mas com a frieza e indiferença de todos para comigo, fiquei sem estímulos.
Eu não tinha motivos para me preocupar com aniversário.
Minha mãe não tinha condições de fazer festa para mim.
Eu sinceramente não esperava aquela festa surpresa, aquela animação, aquela badalação!
Só então, eu pude entender aqueles cochichos, aquele mistério, aquela roupa nova.
Fiquei tão emocionada que não conseguia parar de chorar.
Estava fazendo quatorze anos e nunca havia tido uma festa.
Todos me abraçaram, me beijavam e me deram presentes.
Tantos eram os presentes que eu não conseguia segurá-los.
Fiquei muda, não tinha palavras para agradecer, não sabia se sorria ou se chorava.
Percebi o quanto tinha sido injusta.
Eles estavam preparando uma festa surpresa para mim e eu fui tão tola que nem percebi.
A festa estava completa.
Havia pastéis, esfihas, coxinhas, risóles, tortas diversas, sanduíches, balas, bolo e vários outros tipos de doces.
Cada um levou um prato diferente e, assim, fizeram aquela festa maravilhosa.
Até hoje, essa lembrança boa não sai da minha cabeça.
No final da festa, Dona Odete se ofereceu para me ajudar a levar no carro os presentes e as coisas que sobraram.
Cheguei em casa radiante.
Não foi surpresa para minha mãe, pois ela sabia de tudo.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:11 am

CAPÍTULO 35 - A GINÁSTICA

A alegria e a paz voltaram.
As coisas se normalizaram novamente.
Ir à escola e estar com os amigos e professores era motivo de satisfação para mim.
Eu não fui dispensada da ginástica.
Frequentava normalmente as aulas de Educação Física.
Eu adorava os dias que tínhamos ginástica.
Correr, pular e fazer exercícios me faziam bem.
Eu era uma menina muito inquieta, não conseguia ficar parada por muito tempo.
Aquela agitação toda me fazia sentir mais útil para mim mesma.
A professora não era preconceituosa.
Ela pegava nas minhas mãos, no meu corpo e me ensinava como fazer os exercícios.
Às vezes, eu me excedia, desperdiçava as minhas energias e, em consequência disso, saía da aula exausta.
Eu me refazia logo e sempre estava pronta para outra.
A professora de Educação Física chamava-se Conceição.
Nessa época, ela estava grávida e, quando chegou a hora, tirou o que chamamos de Licença Gestante.
Para substituí-la, nós tivemos uma professora chamada Lurdinha.
Eu fiquei preocupada e confesso com um medo de não ser aceita por ela.
Eu estava enganada.
Ela era humilde, paciente, gentil e simpática.
Ela gostou de mim e garanto-lhes que foi um sentimento mútuo.
Com paciência, ela me ensinava os exercícios.
Eu percebia a situação dela, quando captava o que ela queria passar para mim.
A escola era o meu segundo lar.
De manhã eu estudava.
À tarde, quando havia ginástica, lá estava eu.
Às vezes, à noite, eu ia passear para encontrar alguns amigos na hora do recreio.
Eu me tornei muito conhecida e querida por todos.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:11 am

CAPÍTULO 36 - A AMIZADE

Eu e a professora Lurdinha fizemos uma amizade fora do comum.
Ela se preocupava comigo, com os meus gostos, com meus sonhos, com minhas vontades, com minhas ansiedades e, até mesmo, com as minhas inquietações.
Eu sempre tive vontade de ter um rádio.
Meu irmão Toninho ganhou um de presente de alguém, mas no momento não me lembro quem era.
Todas as vezes que eu pegava aquele rádio era briga na certa.
Gostávamos de programas diferentes.
Ele tinha toda razão, pois o rádio era dele.
Ele tinha o direito de ouvir o programa que quisesse.
Certo dia, ele brigou comigo por causa do rádio.
Eu fui triste para a escola.
Lurdinha, vendo-me naquele estado, foi me consolar.
Ela sabia que aquela não era a primeira briga por causa daquele bendito rádio.
Ela conversou muito comigo, brincou, fez o que pôde para me ver feliz novamente.
Uma tarde, quando eu menos esperava, ela foi até minha casa.
Tinha ido levar um presente para mim.
Eu não entendi o porquê daquele presente.
Ela me deu uma caixinha e pediu para que eu adivinhasse o que havia dentro.
Eu não tinha a mínima ideia e disse mil coisas, menos o que seria o presente verdadeiro.
Naquela época, os rádios eram muito caros e jamais me passou pela cabeça que um dia ganharia aquele presente tão sonhado e desejado por mim.
Ela, vendo que eu não adivinhava, pediu para que eu abrisse o embrulho.
Eu tremia tanto, que mal conseguia segurar o pacote.
Com pressa, tratei de abri-lo.
Dei um grito de satisfação quando descobri o objecto.
Era um rádio portátil à pilha.
Eu o abracei e o cobri de beijos.
Tentei erguê-lo do chão, mas não consegui.
Eu era muito franzina e não tinha força para tanto.
Eu a agradeci; porém, fiquei triste por não poder retribuir o presente.
Ela disse que o maior presente que eu poderia lhe dar era o meu sorriso.
Era estar sempre feliz e que não precisava me incomodar em retribuir.
Além do rádio ela levou várias pilhas.
Assim que ela foi embora, eu liguei o rádio e fui ouvir os meus programas preferidos.
Senti-me tão realizada!
Na festinha de aniversário, ganhei vários presentes que sempre sonhei em ter e que não tinha condições.
Desde roupas e calçados a bijuterias e perfumes.
Naquele dia, inesperadamente, ganhei aquele rádio que iria trazer paz entre eu e Toninho.
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