UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:11 am

CAPÍTULO 37 - MINHA FAMÍLIA

Os capítulos anteriores dediquei, completamente, aos meus estudos.
Agora, vou fazer a descrição da minha família.
Idalina é minha irmã mais velha.
É uma mulher trabalhadora, honesta, bondosa, leal, inteligente e sofredora.
Óptima cozinheira e costureira muito caprichosa.
Seus afazeres eram muitos e, também, lavava roupa para fora para ajudar no sustento da casa.
Porém, não sabia ler.
Casou-se muito jovem com um senhor chamado Mário.
Homem bom, trabalhador; porém, sistemático.
Tiveram três filhos: Valdecir, Valdeir e Elenice.
Sebastiana, minha outra irmã, conhecida por Tiana, é muito tímida.
Não sei exactamente o porquê, mas dela eu não tenho muitas recordações.
Casou-se muito jovem. Desse casamento nasceram seis filhos, três casais.
Não me recordo o nome de todos.
Casou-se com António.
Infelizmente, foi um casamento fracassado.
Ele bebia demais e não gostava de trabalhar.
Além disso, judiava dela e dos filhos.
Antónia, minha terceira irmã, é muito diferente de todas nós.
Seu comportamento tímido, faz com que não tenha muito papo com outras pessoas.
Casou-se com Eduardo. Desse casamento nasceram dois filhos: Marta e Jair.
Ela é muito distante de nós, não sabemos quase nada dela.
Seu marido é atrevido e mulherengo.
Tem fazenda e algumas cabeças de gado.
Não gosta de ajudar ninguém e pensa que pode comprar as pessoas com dinheiro.
Aparecido, mais conhecido como Cido Bigode, tinha fraqueza por bebidas alcoólicas.
Casou-se três vezes.
Sua primeira mulher chamava-se Virgilina, conhecida pelo apelido Lica.
Desse casamento, nasceu um garoto chamado Devair.
Sua segunda mulher chamava-se Santina.
Ela era uma pessoa maravilhosa, honesta e de óptimas qualidades.
Desse casamento nasceram duas lindas garotinhas: Sónia e Elizabete.
Infelizmente, meu irmão não soube dar valor a essa mulher de ouro.
Sua terceira e última esposa chama-se Sónia.
Desse casamento, nasceram quatro filhos: Luciano, Leandro, Juliana e Tiago.
Não tenho muito o que falar de Sónia, pois entre eu e ela existe uma grande incompatibilidade de génios.
Isabel, conhecida como Isa, apelido que adoptei quando eu ainda era pequena e não conseguia pronunciar o nome dela inteiro.
A doce Isa cuidou de mim quando eu ainda era bebé.
A doce Isa esteve sempre ao meu lado até o dia do seu casamento.
A doce Isa não se importava com dinheiro nem com roupas bonitas.
A doce Isa renunciava a tudo.
A doce Isa se colocava em último lugar para ver-nos bem e felizes.
A doce Isa em tudo colocava um toque de bondade e simplicidade.
Ela casou-se com o senhor João Vasques, homem bom, justo, honesto e trabalhador.
Formaram um casal perfeito.
Ele era viúvo e já tinha três filhos:
João Carlos, Pedro José e Maria José.
Do casamento dele com Isa nasceu o garoto Orlando.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:12 am

Isa, quase uma criança, tinha uma responsabilidade muito grande pela frente:
quatro crianças para cuidar e os deveres de dona-de-casa e esposa.
João Vasques era um homem bem posicionado socialmente.
Tinha bens, podendo assim ajudar a minha mãe financeiramente.
Homem de coração aberto para todos, não só os da família, como de pessoas necessitadas também.
João Vasques tinha o coração grande, tendo assim, um lugarzinho aconchegante dentro dele para as pessoas humildes.
Esse casal nunca me abandonou.
Sempre estiveram ao meu lado nas horas boas e difíceis.
Esse casal merece um capítulo especial só para eles.
Maria Aparecida, a popular Cidinha é uma mulher boa, trabalhadora e de muita fibra.
Casou-se com um rapaz chamado Óptimo, seu apelido é Nené.
Dessa união, nasceram quatro filhos, sendo eles:
Paulo César, Marcos Roberto, Márcia Cristina e Rubens José.
Lourdevina, mais conhecida como Vina, é uma mulher amorosa, dedicada e muito carinhosa com as pessoas.
É enérgica e brava; porém, por trás dessa energia e braveza, existe um coração de manteiga, não sabe guardar rancor de ninguém.
Casou-se três vezes.
Foi infeliz no primeiro e segundo casamento.
O primeiro casamento foi com Edson e dessa união nasceram duas garotas: Janete e Andreia.
Casou-se novamente com Gumercindo e tiveram o garoto Iraí.
Casou-se pela terceira vez com José e dessa união não tiveram filhos.
O meu irmão José, conhecido por Zé, antes de casar, teve um rabo de saia.
Viveu uns tempos com Cleide, uma garota muito rica e bonita.
Dessa relação nasceu o garoto Júlio César.
Por serem muito jovens, esse relacionamento não deu certo.
Então, ele casou-se com Mara, a irmã de Sónia, esposa de Cido.
Dessa união, nasceram quatro filhos, sendo eles:
Odair José, Márcio José, Fernando e a linda baianinha Lucimara.
Eu e Toninho, como já disse em capítulos anteriores, morávamos com minha mãe.
Dona Laura, minha mãe, minha amiga, minha confidente, era uma mulher maravilhosa, bondosa, carinhosa, caprichosa, honesta, trabalhadora, batalhadora, lutadora; porém, muito doente.
Quando recordo tudo que eu, Toninho e minha mãe passamos juntos, tudo o que sofremos juntos, me dá uma vontade louca de chorar.
Minha mãe foi uma verdadeira heroína, por ter enfrentado tantos sofrimentos, tantos obstáculos para nos criar.
Apesar de recebermos tanta ajuda, a vida era difícil e sacrificada para nós.
Minha mãe também merece um capítulo especial.
Meu irmão Toninho tinha a mesma deficiência que eu e, talvez por isso, nós nos identificávamos muito.
Certo que brigávamos bastante, por sermos os dois caçulas, mas brigávamos por motivos tolos e fúteis, coisas de crianças.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:12 am

CAPÍTULO 38 - ESSA É A MINHA FAMÍLIA

Leitor, no capítulo anterior eu te apresentei a minha família.
Uma família simples com seus problemas, suas tristezas, suas alegrias, suas surpresas, seus pontos positivos e negativos como uma família comum.
Não me detive muito na minha família porque esse livro é sobre minha vida.
A minha história é muito longa.
Não pretendo desviar muito o assunto para não tornar o livro volumoso e cansativo.
Porém, não posso deixar a minha família totalmente de lado.
Por essa razão, resolvi apresentá-la a você.
Quero também deixar bem claro que me refiro mais a minha mãe e ao Toninho porque fomos os principais integrantes dessa história, que está se deslanchando.
Aparecerão personagens importantes no decorrer da história, personagens que serão peças fundamentais desse livro.
A mesma coisa eu digo dos meus colegas, vizinhos, amigos e professores.
São muitos e todos têm um lugar especial no meu coração.
Infelizmente, é impossível citar o nome de todos.
São pessoas que directa e indirectamente fazem parte de minha vida.
Nesse livro eu pretendo contar a você tudo o que passei para chegar ao que sou hoje.

CAPÍTULO 39 - OS PASSEIOS

O tempo passava e eu, apesar dos contratempos, levava uma vida gostosa de ser vivida.
Tinha apenas quatorze anos e, apesar da pouca idade, de ser apenas uma adolescente, tinha muita responsabilidade e preocupações.
Preocupava-me com a saúde de minha mãe, com a nossa situação financeira e com os meus estudos.
Nos estudos, graças a Deus, eu ia muito bem.
Continuava indo uma vez por semana a Rio Preto e Dona Cecília vinha uma vez a Bálsamo.
Eu fazia amizades com muita facilidade.
Às vezes, os meninos e meninas brigavam entre eles para estarem comigo.
Todos queriam passear comigo e para estudar em minha casa, então, nem se fala!
Eu, com muito jeitinho, contornava a situação, pois sabia que precisava de todos.
Não podia ir contra ninguém.
Às vezes, a situação se tornava embaraçosa para mim.
No final, eles acabavam entendendo uns aos outros e a paz voltava a reinar entre todos.
Eu adorava ir à casa de Ely.
Nós conversávamos muito, ouvíamos música e trocávamos ideias sobre o futuro.
Depois de tanto bate papo e brincadeiras, íamos passear de bicicleta.
Era uma aventura deliciosa.
Às vezes, Ely ficava na garupa segurando o guidom e eu pedalava.
Nós corríamos tanto que parecia que íamos voar.
Na maioria das vezes, eu ia na garupa.
Ely morava longe de minha casa; porém, ela me buscava e levava.
Era uma amizade muito gostosa.
Todos os dias ela me levava lanches saborosos na escola.
As roupas que ela me dava eram lindíssimas. Eram dela e de sua irmã Eunice.
Todas as noites nós íamos passear no jardim.
Era o ponto de encontro da turma da escola.
Tenho tantas saudades daquele tempo, que sinto o coração apertado no peito.
Às vezes, quando Vera queria ver o seu paquera, que estudava à noite, íamos à escola.
Era tanta brincadeira e folia.
Eu gostava quando ela me convidava para ir à noite na escola.
Assim, aproveitava para bater papo com as pessoas que trabalhavam no período nocturno.
Dona Paula, a mãe de Ely, era inspectora de alunos.
Nós conversávamos muito.
Ela sempre me deu força nas horas difíceis.
Às vezes, eu parava para pensar e não acreditava que tanta coisa boa estava acontecendo comigo, uma deficiente visual.
Aquele ano passou que eu nem percebi.
Passei para a sexta série.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:12 am

CAPÍTULO 40 - O CURSO DE

Na sexta série, eu comecei o ano normalmente, tudo foi maravilhoso.
A cada dia uma nova aprendizagem, uma surpresa ou até mesmo uma decepção, por que não?
Com os amigos e com a escola era muito difícil acontecer; mas, quem quisesse me ver triste, era só fazer alguma injustiça com minha mãe.
Em agosto de 1973, eu ia começar um curso de dactilografia na escola.
Eu fiquei louca para fazê-lo porque eu poderia escrever algum bilhete ou carta para alguém.
Escreveria à máquina e não precisaria de outra pessoa que ficasse sabendo o que estava escrito.
Não só por isso, mas sempre sonhei fazer o que fosse possível para mim.
Quando entrei na escola e aceitei o sistema Braille, fiz um propósito comigo mesma.
Prometi-me fazer ou, pelo menos tentar fazer, tudo o que me oferecesse ensinamento.
Fiquei toda entusiasmada; mas, me entristeci quando fiquei sabendo que o curso era pago.
Eu não tinha condições de pagar.
O SENAC mandou o curso para a escola.
Dona Alice era a professora.
Ao me ver, ela ficou encantada comigo e me disse que eu, com certeza, faria curso.
Pediu para que eu não me preocupasse e que seria por conta dela.
Fiquei eufórica e emocionada ao mesmo tempo.
Tantas pessoas boas, tantas pessoas maravilhosas me ajudando!
Será que eu merecia aquela graça?
Tudo o que sou hoje devo a tantas pessoas caridosas!
Eu estudava de manhã e fazia o curso à tarde.
Quando havia aula de Educação Física, eu ia à noite na dactilografia.
Dona Alice era um doce.
Dedicava-se tanto a mim, que em poucos dias me tornei perita na máquina.
Sabia escrever tudo o que queria. Era legal demais.
Eu me sentia em outro mundo.
Era uma sensação agradável, pois eu escrevia e todos podiam ler.
Não era como o Braille, que para pessoas que enxergam lerem, precisavam que Dona Cecília transcrevesse.
Senti algo diferente e difícil de descrever.
Esqueci-me, por um momento, que eu era cega.
Parecia que eu falava uma língua diferente das outras pessoas e que, de repente, tinha aprendido a falar a mesma língua delas.
Às vezes, eu ficava triste porque as pessoas não entendiam o Braille.
Eu tinha medo de que elas não confiassem em mim.
Quando aprendi a escrever na máquina comum, eu não cabia em mim de tão contente.
Deus é tão bom...
Eu não enxergava, mas podia fazer tantas coisas boas.
Eu podia fazer as coisas que as pessoas videntes faziam.
Entretanto, muitas pessoas videntes não faziam o que eu fazia.
Com o tempo, notei que muitas pessoas videntes não possuíam metade sequer do meu saber.
Percebi que, às vezes, eu era tola, perdendo o meu tempo com tristezas por ser cega e por escrever pelo sistema Braille.
Afinal de contas, foi por meio desse sistema que aprendi tanto e que conheci pessoas tão bacanas.
Chegava em casa dando pulos de contente.
Cada coisa nova que aprendia era motivo de satisfação para minha mãe.
Fui bem no curso de dactilografia, recebendo assim, o meu diploma e a amizade de uma pessoa tão legal como Dona Alice.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Jul 25, 2016 10:12 am

CAPÍTULO 41 - O MOVIMENTO JOVEM

Em 1974 eu estava na sétima série.
Na quinta e sexta séries, eu aprendi o Francês e da sétima em diante eu aprenderia o Inglês.
Dos estudos nunca pude me queixar.
Ia muito bem, graças a Deus.
Da parte religiosa eu também não me esquecia.
Desde que fiz a Primeira Comunhão, nunca deixei de frequentar a igreja e ia à missa todo domingo.
Adorava cantar no coral.
Vera participava do movimento de jovens.
Ela participou de um encontro e gostou muito.
Às vezes, quando eu ia a sua casa, ela lia lindas cartas e mensagens que recebia de seus amigos, que faziam parte do movimento de jovens de outras cidades.
Eu ficava encantada e sonhava um dia fazer o encontro e corresponder-me com pessoas de outras cidades também.
Naquele ano, surgiu uma óptima oportunidade para mim.
Ia ter um encontro em Bálsamo e, com certeza, eu poderia participar.
Eu ficava ansiosa e curiosa para saber o que iria acontecer, o que eu iria ouvir e aprender.
O pessoal não dizia nada e eu teria que esperar.
Seria uma surpresa para todos que fizessem o encontro.
Enfim, chegou o dia tão esperado.
O encontro iniciaria no sábado à noite e encerraria no domingo à noite.
Eu e Maria José fomos fazer esse encontro, tão comentado por todos que já tinham feito.
Deixamos as nossas famílias, os paqueras e os passeios para conhecermos o lado novo da vida para nós.
E valeu a pena.
Ouvimos tantos hinos lindos, tantas palestras maravilhosas, tantas mensagens, tantas palavras que mexeram profundamente connosco.
Os palestrantes eram de Potirendaba.
Eram jovens extremamente religiosos.
Realmente eles estavam por dentro e tocavam fundo em nossos corações.
Eu ouvi tanta coisa que me fez chorar, me fez reflectir e descobri que, às vezes, era injusta com minha mãe, com minha família, com meus amigos e comigo mesma.
Descobri que era muito exigente e perfeccionista.
Sempre gostei de tudo certinho e a vida não é sempre assim.
Infelizmente, eu descobria que, apesar de ir à missa todos os domingos e fazer parte do coral, eu estava um pouco longe de Deus.
Ir à igreja, participar das actividades religiosas, não significa estar perto de Deus.
No encontro, eu percebi que precisava mudar e melhorar muita coisa em minha vida para estar mais próximo de Deus.
Com tudo que ouvi e aprendi, fiquei mais madura, responsável e humilde.
Adquiri um jeito de levar a vida sem sofrer antes da hora.
Durante o dia, recebemos muitas cartas e mensagens de amigos, que não estavam fazendo o encontro.
Eram mensagens lindas que deixavam a todos emocionados e de bem com a vida.
No domingo à noite foi a missa de encerramento.
Foi maravilhoso, nunca pensei que tantas pessoas gostassem de mim!
O encontro foi realizado no colégio que eu estudava e a missa foi no pátio.
Estava repleto de pessoas.
Eram amigos e parentes dos encontristas.
A missa foi linda, cheia de emoções, alegrias e lágrimas de todos.
Quando terminou, todos se abraçaram.
Para surpresa minha, Vina, minha irmã que morava em Olímpia, estava presente.
Eu fiquei tão feliz com aqueles momentos que passei, que jamais me esquecerei.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:53 am

CAPÍTULO 42 - A PALESTRANTE

Depois que fiz o encontro, passei a frequentar a reunião do movimento de jovens de Bálsamo.
Essa reunião era realizada aos sábados à noite.
A reunião iniciava às oito horas e terminava às nove e meia.
Era legal. Nós nos reuníamos e depois íamos passear na praça.
Às vezes, íamos a alguma brincadeira dançante na casa de amigos e, outras vezes, íamos à discoteca.
Quando não havia algo diferente para fazer, nós ficávamos na praça e era super divertido.
Nas reuniões nós discutíamos e tentávamos resolver problemas da comunidade.
Discutíamos sobre a missa do domingo e fazíamos tudo o que pudéssemos para favorecer a comunidade.
Em certa reunião, discutimos a possibilidade de formarmos um grupo de palestrantes na nossa comunidade.
A ideia foi festejada e aplaudida por todos.
Começamos a nos preparar para formarmos o grupo.
Para dar uma palestra teríamos que escolher pessoas desembaraçadas, que gostassem de falar e que tivessem o dom da palavra.
Eu fui escolhida para participar deste grupo.
De início, fiquei preocupada com tanta responsabilidade que teria pela frente.
Depois, fiquei feliz por confiarem em mim.
Eu era tão nova no movimento e já tinha sido escolhida.
Era também a mais jovem do grupo de palestrantes.
A partir desse dia, passamos a nos unir mais vezes para resolvermos os títulos e o conteúdo das palestras que íamos preparar.
Eu fiquei com a palestra com o título A Escolha. Foi lindo!
Preparei-a com carinho, empenho e dedicação.
Era sobre a escolha de viver com Cristo.
Nessa palestra, havia história de um menino que chupava balas e pirulitos com papel.
Ele não sentia prazer pelo doce, mas achava o papel que os envolvia bonito.
Em uma festa na escola, a professora distribuiu muitas balas e pirulitos entre as crianças.
Os amiguinhos daquele garoto festejaram alegremente.
Ele, no entanto, ficava em um canto muito triste.
Foi, então, que a professora percebeu o motivo daquela tristeza tão grande.
Ela desembrulhou os doces do garoto, ele pôde experimentar e se sentiu feliz como seus amiguinhos.
Ele descobriu o sabor doce e eu tinha descoberto o sabor doce e delicioso de viver ao lado de Cristo.
O nosso grupo passou a dar palestras em vários encontros de jovens.
Com a palestra A Escolha, eu sempre era aplaudida de pé.
Dei esta palestra por muito tempo.
Depois passei a dar a palestra A Alegria de Viver.
Nessa outra palestra, eu dava o testemunho vivo da minha vida, das minhas lutas, dos meus tropeços e, principalmente, das minhas vitórias.
Para ser palestrante, eu tinha que renunciar a muitas coisas.
Geralmente, aos domingos, eu não podia ficar com a minha família, pois havia a necessidade de viajar com o grupo para dar palestras em vários lugares.
Eu me tornei muito conhecida na região e, às vezes, recebia convite para dar palestra, mesmo sem o grupo, em outros dias da semana.
Isso foi muito bom para mim, pois adquiri muitos conhecimentos e fiz amizades com pessoas importantes.
Porém, minha mãe reclamava muito.
Dizia que eu não ficava em casa, que eu não tinha mais tempo para a família e que ela temia, com tantas actividades, que eu ficasse doente.
Dizia sentir muita falta de mim, que era muito doente e queria que eu ficasse mais tempo com ela.
Com jeitinho e carinho eu conseguia convencê-la e continuava com aquela vida intensa.
Eu tenho certeza de que, apesar de tudo, ela se sentia orgulhosa de mim.
Acho que nem ela podia imaginar, que um dia eu pudesse ter uma vida tão activa.
Escola, igreja, reuniões, palestras, encontros, viagens, paqueras, namoros, tudo isso me fazia ter uma vida normal e, principalmente, sentir que eu era uma pessoa feliz.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:53 am

CAPÍTULO 43 - A MÁQUINA

Apesar de tantas actividades, eu consegui passar para a oitava série com a maior facilidade.
Como sempre, Dona Cecília ia uma vez por semana em Bálsamo e eu em Rio Preto.
Eu acompanhava as aulas com a reglete, pois ainda não tinha condições de comprar uma máquina Braille.
Em 1975, Dona Cecília foi a Bálsamo e levou uma máquina do colégio Cardeal Leme para que eu treinasse.
Ela disse que a máquina poderia ficar comigo por algum tempo.
Eu não entendi aquela atitude.
Disse a ela que preferia continuar com a reglete.
Eu acreditava que se ficasse com a máquina, certamente me acostumaria mal e depois não teria dinheiro para comprar uma.
Além disso, um dia ou outro eu teria que devolver aquela máquina da escola.
Ela disse que eu teria que aprender a máquina e que não era para eu discutir as ordens dela.
Eu, passivamente aceitei, mas fiquei com medo de acostumar com mordomia.
Ela me explicou pausadamente o funcionamento da máquina.
Para quem sabe o sistema de Braille, não é difícil de aprender.
Assim, em poucos dias, aprendi as vantagens daquela máquina.
Acompanhava as aulas com a maior rapidez.
Às vezes, os colegas reclamavam, pediam para eu escrever mais devagar e eu me corrigia.
É que ficava tão empolgada que esquecia que eles estavam escrevendo à mão.
Aquela máquina emprestada facilitou a minha vida cem por cento.
Quando peguei o gostinho pela mordomia, Dona Cecília me disse que teria que levar a máquina.
Eu fiquei triste, mas entendi.
Lembrei-me de que, quando ela a trouxe, deixou bem claro que era só para eu aprender lidar com ela.
Levou a máquina embora e eu voltei a usar a reglete.
A princípio estranhei, mas depois me acostumei novamente com a ideia.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:54 am

CAPÍTULO 44 - A SURPRESA

Era 8 de abril e eu estava completando 18 anos.
Estava muito feliz com a data, mas tinha condições de fazer festa.
A turma, então, decidiu que nos reuniríamos no domingo em minha casa.
Cada um levaria um prato diferente e nós faríamos um almoço para comemorar o meu aniversário.
Estávamos tendo aula de português e a professora nos dividiu em grupos para fazermos um trabalho.
Eu adorava aqueles trabalhos em grupos, sempre sobrava um tempinho para conversamos baixinho.
De repente, a porta da classe se abriu.
Todos ficaram em silêncio.
Várias pessoas se aproximaram do meu grupo e recolheram os materiais que estavam sobre a mesa, inclusive o meu.
As pessoas que se aproximaram colocaram um pacote grande sobre a mesa, bem pertinho de mim.
Todos bateram palmas.
Eu, sem saber o que estava acontecendo, acompanhei a turma.
Então, as pessoas se aproximaram de mim e resolveram conversar.
Era Dona Zulmira, a directora da escola, doutor António, o dentista e vários professores.
Naquele momento, todos me deram os parabéns.
Dona Zulmira pediu para que eu abrisse o embrulho.
Eu não sabia por onde começar.
Ergui o pacote da mesa.
Estava tão emocionada que não conseguia abrir o pacote.
Ao mesmo tempo, estava curiosa para saber o que havia lá dentro.
Bruscamente, comecei a rasgar o papel que envolvia o presente.
Era uma caixa.
Eu a abri apressadamente.
Plástico e isopor envolviam o presente.
Quando consegui tirar tudo, a minha surpresa foi tamanha, dei pulos e gritos de alegria.
Eu chorava e abraçava a todos.
Sentia-me muito satisfeita.
Era uma máquina Perkins Brailler.
Só então eu pude entender a atitude de Dona Cecília.
Mais uma vez, ela estava me preparando para um passo novo e bom na minha vida.
Quem me deu a máquina foi Dona Zulmira, o irmão dela e o prefeito.
Eu fiquei imensamente feliz com aquele presente, que tanto sonhava em possui-lo, mas não tinha a mínima esperança de obter um dia.
Com a máquina, pude fazer tanta coisa boa.
Inclusive, foi com ela que escrevi este livro.
Eu não tinha palavras para agradecer o gesto de bondade daquelas pessoas bondosas.
Elas me proporcionaram um momento inesquecível para mim.
A máquina é importada.
O doutor António a buscou em São Paulo.
Ele tinha encomendado.
Não foi difícil manejá-la, pois eu já tinha prática.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:54 am

CAPÍTULO 45 - A FORMATURA

Aquele ano transcorreu tudo bem.
Eu adorava estudar, por isso aprendia tudo com muita facilidade.
Apesar dos problemas que tinha em casa, eu tive um ano bom, de muitas surpresas boas e realizações.
Estava agora me preparando para a formatura que seria em dezembro.
Todos estavam eufóricos.
Os que tinham sido aprovados não cabiam em si de contentes e os reprovados estavam tristes, principalmente, por não participarem da festa de formatura.
A minha irmã Isa me deu de presente a roupa de formatura.
Era uma saia azul e uma blusa branca bordada.
Convidei Dona Cecília para participar da festa.
Aquela mulher que sempre me acompanhou nos momentos bons e ruins de minha vida, aceitou sem hesitar.
Foi uma festa muito badalada.
Chegou a vez de receber o meu diploma e, para mim, aquilo era mais um troféu.
Um troféu dedicado a mim e a ela também.
Eu mereci, pelo meu esforço e ela, pelo carinho, empenho e dedicação.
Minha mãe se emocionou muito me vendo participar de um ato tão importante.
Ela sabia que eu estava dando mais um passo à frente, subindo mais um degrau da escada da vida.
Graças a Deus, o esforço dela estava valendo a pena e eu soube retribuir com aquele diploma.
A alegria foi geral.
Todos brincavam, cantavam e sorriam.
Entristeci-me um pouco quando me lembrei de que alguns dos professores que me acompanharam durante quatro anos, não iriam mais dar aulas para mim no próximo ano.
Não pude deixar de agradecer o amor, a atenção e a paciência, com que me trataram durante aqueles quatro deliciosos anos que passamos juntos.
Só uma coisa me consolava:
eu ia continuar estudando no mesmo colégio e poderia encontrá-los todos os dias.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

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CAPÍTULO 46 - A APOSENTADORIA

A minha mãe não andava bem de saúde.
As suas internações no hospital estavam se tornando cada vez mais frequentes.
Para manter a casa e comprar remédios, minha mãe tinha que trabalhar muito.
Lavava e passava roupas de várias casas.
Era uma maratona muito difícil para ela e o seu coração não estava suportando mais tanto esforço.
Ela sentia muito cansaço e falta de ar.
Seu corpo inchava e, às vezes, apareciam algumas manchas roxas que desapareciam com o tempo.
Apesar do grave problema cardíaco, ela resistia e fazia de tudo para nos tranquilizar.
Meu cunhado João Vasques, vendo a saúde de minha mãe se agravar cada vez mais, se apressou em aposentá-la.
Com o dinheiro da aposentadoria, ela não precisaria trabalhar tanto.
O senhor João era muito bom.
Já tinha conseguido a aposentadoria de vários idosos da cidade de Bálsamo.
Ele temia que a minha mãe não conseguisse a aposentadoria.
Minha mãe tinha apenas 55 anos, mas com a saúde abalada e frágil, não foi tão difícil.
Fomos várias vezes a Rio Preto tentar resolver este problema.
Sentimos angústia e ansiedade até que um dia tivemos a óptima notícia que minha mãe estava aposentada.
A perícia tinha aprovado e constatado o seu problema cardíaco.
Com a aposentadoria minha mãe poderia ser poupada e poderia repousar mais.
Ficamos muito gratos ao meu cunhado.
Penso que se não fosse a paciência e perseverança dele, nós não teríamos conseguido essa bênção.
Foi um dia festivo para nós.
Minha mãe, com aquele jeitinho meigo e carinhoso, não se cansava de agradecer a Deus e ao meu cunhado.
Quando ela recebeu o primeiro salário, agradeceu a Deus por não ter que lavar e passar tanta roupa, prejudicando, assim, a sua saúde.
Agora, ela teria mais tempo para repousar e aquele salário seria sagrado todos os meses.

CAPÍTULO 47 - A OPÇÃO

No ano de 1976, eu frequentei o primeiro colegial.
Novas matérias, novos professores, muitos antigos amigos e alguns novos também.
Eu era uma garota de dezoito anos e era mito responsável pelos estudos.
Em todos os momentos de minha vida, os estudos estavam em primeiro lugar.
Queria tanto me formar, fazer uma faculdade, ser alguém importante para ajudar minha mãe!
Mas, parece que o tempo não passava.
Eu tinha medo de que ela morresse e não me visse formada.
Eu fazia de tudo para ir bem em todas as matérias.
Não poderia perder um minuto de minha vida e fazia um esforço muito grande para acompanhar a classe.
Graças a Deus, como em todos os anos, aquele não poderia deixar de ser melhor.
Passei para o segundo colegial.
Naquele tempo, quando terminávamos o primeiro colegial, poderíamos fazer uma opção.
Escolhendo o Magistério, eu poderia me formar mais rapidamente e trabalhar para ajudar minha mãe.
Em Bálsamo, não havia Magistério.
Eu teria que viajar todos os dias para estudar em Mirassol, uma cidade próxima.
Minha mãe ficou preocupada.
Mesmo aposentada, ela não teria condições de me ajudar com as passagens de ónibus todos os dias.
Como sempre, o prefeito não me abandonou e deu os passes de ónibus para mim e para a pessoa que me acompanhasse.
Várias amigas minhas optaram pelo Magistério.
Eu não me preocupei.
Poderia ir com elas.
Vera estudou comigo desde a terceira série primária.
Nós nos dávamos muito bem e eu a escolhi para me acompanhar.
Pensei que as outras colegas teriam condições e poderiam pagar o ónibus.
Além do mais, Vera morava mais perto de minha casa e nós tínhamos muitas afinidades.
Não que eu não gostasse das outras, mas eu e Vera éramos confidentes.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:55 am

CAPÍTULO 48 - A DESPEDIDA

Estava tudo resolvido para eu estudar em Mirassol.
Eu estava feliz com aquela decisão, mas estava triste por deixar pessoas tão maravilhosas no colégio em Bálsamo.
Eu devia tanto a elas! Ia sentir tantas saudades, que só de pensar começava a chorar.
Eu não iria me mudar de Bálsamo e poderia ir quantas vezes quisesse ao colégio.
Porém, no fundo sabia que não era a mesma coisa.
Eu estava com o coração apertado, mas precisava lutar para ser alguém na vida.
As amigas, que optaram pelo Magistério, iam fazer o segundo colegial à noite em Bálsamo também.
Sendo assim, elas iam estudar à tarde em Mirassol e à noite em Bálsamo.
Eu não quis.
Pensei bem e preferi ficar só com o Magistério.
Estudando à tarde, eu teria que ir uma vez por semana a Rio Preto na classe especial.
Eu achava que se estudasse à noite sobrecarregaria demais Dona Cecília que, além de mim, tinha outros alunos.
Não tive coragem de me despedir de ninguém.
Preferi pensar que poderia encontrá-los quantas vezes quisesse e isso me serviu de consolo.
Estava arrasada por deixar Dona Odete.
Eu a amava como se fosse alguém da minha família.
Todos apreciaram minha decisão, mas ficaram tristes porque eu ia estudar em outro colégio e em outra cidade.

CAPÍTULO 49 - O NOVO COLÉGIO

Era um colégio antigo.
Chamava-se Instituto de Educação Anísio José Moreira.
Eu, que estava acostumada com uma classe numerosa e de ambos os sexos, estranhei um pouco.
A minha tinha poucos alunos e só moças.
Era uma turma calma e acolhedora.
Algumas alunas eram casadas.
As matérias eram totalmente diferentes.
Psicologia, Didáctica, Sociologia eram as matérias consideradas fundamentais.
Os professores também eram tão diferentes, mas todos muito bondosos.
Nos primeiros dias foi muito difícil para mim, mas depois me acostumei.
Todos gostavam de mim e me cercavam com muito carinho e atenção.
Eu logo assimilei as matérias.
Eram prazerosas de serem estudadas. As matérias nos ensinavam a lidar com crianças.
O que eu mais estranhava era viajar todos os dias e enfrentar ónibus lotado com as mãos cheias de material.
Às vezes, não achava nenhum lugar para sentar.
Quando o ónibus atrasava era ruim porque eu corria o risco de chegar atrasada na escola.
Quando chovia era uma lástima.
Nós nos molhávamos e tínhamos que ser malabarista para salvar os materiais.
Sem contar quando perdíamos o ónibus e chegávamos mais tarde ainda em casa.
Quando isso acontecia, minha mãe morria de preocupação.
Cada vez que eu chegava em casa sã e salva, ela agradecia a Deus por mais essa bênção.
Apesar de tantas lutas e sacrifícios, valia a pena, pois eu estava fazendo o que gostava.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:55 am

CAPÍTULO 50 - ANGÉLICA

Das amigas que tive naquele colégio, a que mais me cativou foi Maria Angélica.
Era uma menina doce, gentil, carinhosa e dedicada com todos.
Sua mãe se chamava Iasmim e seu pai, Inério.
Era de uma família maravilhosa.
Eles moravam em Mirassol.
Nos primeiros dias de aula, Angélica, vendo o nosso sacrifício para estudar, não pôde deixar de estender a sua mão amiga para nós.
Levou-nos em sua casa e nos apresentou sua família.
Nós travamos uma grande amizade e nos tornamos amigas e confidentes.
Angélica não sabia o que fazer para me agradar.
No início, eu achei que ela era mais amiga de Vera, mas depois percebi que ela possuía mais afinidades comigo.
Vera, apesar de ser jovem e amiga, era mais séria.
Já eu e Angélica éramos mais brincalhonas e descontraídas.
Levávamos tudo na brincadeira, em tudo colocávamos uma piadinha engraçada.
Eu achei que Vera ficou um pouco enciumada, mas, depois, ela se acostumou com o nosso jeitinho especial de levar a vida.
Às vezes, deixava-se levar pelas nossas brincadeiras.
Eu convidei Angélica para ir a minha casa e apresentei minha família a ela.
A minha mãe adorou aquela doce menina, que me tratava com tanta meiguice.
Não demorou muito tempo para que nossas famílias se tornassem amigas e se frequentassem sempre.
Nos finais de semana, quando Angélica não ia para minha casa eu ia para a dela.
Tudo era motivo de festa para nós.
Desde que completei 18 primaveras, todos os anos eu fazia festinha de aniversário.
O dinheiro era pouco, mas dávamos um jeitinho brasileiro.
Todos colaboravam e nos reuníamos na minha casa.
Era raro acontecer um domingo que não nos reuníamos.
Quase todos os domingos, nós fazíamos almoços especiais em minha casa.
Cada um levava um prato diferente e fazíamos uma festa!
Sem contar as brincadeiras dançantes.
Tantos casais frequentavam minha casa!
Eu sentia que a minha mãe ficava um pouquinho sufocada com tanto tumulto de jovens.
Por outro lado, ela ficava feliz e tranquila por ver Toninho e eu rodeados de tanta gente alegre e simpática.
Parece que aquela alegria a contagiava.
Eu tenho certeza de que ela gostava de ver as minhas paqueras e namoros mais de perto.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:55 am

CAPÍTULO 51 - A HOMENAGEADA

Apesar de estudar fora e de minha vida estar um tanto agitada, eu não abandonei a minha vida religiosa.
Continuava frequentando as reuniões do movimento jovem, participando das missas, cantando no coral e viajando para dar as minhas palestras.
No ano de 1977, o presidente do movimento jovem fez uma comunicação que me comoveu muito.
Ele disse que a minha mãe seria a homenageada do ano.
No dia das mães, teria uma missa especial e ele queria que eu lesse o texto intitulado Retrato de Mãe.
“Uma simples mulher existe que, pela imensidão de seu amor, tem um pouco de Deus; e pela constância de sua dedicação, tem muito de anjo.
Que sendo moça, pensa como anciã; e sendo velha, age com as forças todas das juventudes.
Quando ignorante, melhor que qualquer sábio, desvenda o segredo da vida; e quando sábia, assume a simplicidade das crianças pobres.
Sabe enriquecer com a felicidade dos que ama; empobrece para que seu coração não sangre, ferido pelos ingratos.
Forte, entretanto, estremece ao choro de uma criancinha; e fraca, entretanto, se alteia com a bravura dos leões.
Viva, não lhe sabemos dar valor porque à sua sombra todas as dores se apagam; e morta, tudo o que somos e tudo o que temos daríamos para vê-la de novo e dela receber um aperto de seus braços, uma palavra de seus lábios.
Não exijam de mim que eu diga o nome dessa mulher, se não quiserem ensopar de lágrimas este álbum porque eu a vi passar no meu caminho.
Quando crescerem seus filhos, leiam para eles essa página.
Eles lhe cobrirão de beijos a fronte e dirão que um pobre viajante, em troca da sumptuosa hospedagem recebida aqui, deixou para todos o retrato de sua própria mãe”.
Minha mãe teria que ir à missa sem saber de nada, pois eles queriam fazer uma surpresa para ela.
Não foi difícil convencê-la.
Ela era muito religiosa e adorava missas.
A igreja estava toda enfeitada de flores e repleta de pessoas da comunidade.
Quando chegamos à igreja a minha mãe foi recebida por um grupo de crianças vestidas de branco.
Deram-lhe um lugar especial para sentar.
Ela ficou sem entender, mas aceitou aquela gentileza.
Eu me reuni com a turma.
Apesar de estar contente e orgulhosa a respeito de minha mãe, estava um pouco preocupada com ela.
Tinha medo de que ela se emocionasse muito e ficasse doente.
Os meus amigos tentaram me tranquilizar, dizendo que ela estava calma e feliz.
A missa foi super emocionante e repleta de hinos lindos.
Ao final, eu li aquele texto.
Minha mãe ficou surpresa.
Ela recebeu tantos presentes.
Foi um dia inesquecível para ela e para mim também.
O ano de 1977 foi óptimo.
Eu me desempenhei muito bem.
As matérias eram fáceis de serem compreendidas e eu passei para o terceiro ano.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 52 - O ESTÁGIO

Quero deixar bem claro para você, leitor, que estou lhe contando a minha história ano a ano para não esquecer nem um detalhe importante de minha vida e para você acompanhar tudo parte por parte.
Eu não quero e não posso deixar de lado nem um sofrimento nem uma alegria.
Não quero ocultar nada, quero que leia tudo com muita atenção e quero, principalmente, que algum facto dessa história verdadeira lhe chame a atenção e lhe sirva de inspiração.
Assim, prossigo.
No terceiro ano eu teria que começar a fazer o estágio.
Assistiria às aulas nas classes de primeira à quarta série primária.
Teria que aprender a lidar com as crianças e ensiná-las.
Dona Vanda, a nossa professora de Psicologia e Didáctica, dividia a nossa classe de duas em duas.
Cada duas alunas teriam que assistir aula em uma classe diferente.
Para fazer estágio, nós tínhamos que ir de manhã e ficar o dia todo na escola.
De manhã fazíamos o estágio e à tarde frequentávamos a aula normal.
Foi legal aquele contacto com as crianças, umas eram amáveis e dóceis.
Já outras eram peraltas e agitadas.
Nos primeiros dias de estágio, somente assistíamos às aulas.
Posteriormente, a professora titular deixava a classe connosco.
Fazíamos estágio três vezes por semana: segunda, quarta e sexta.
Em pouco tempo eu já sabia dar aula e conseguia dominar a classe com a maior facilidade.
Pelo facto de ser cega, eu precisava do auxilio de outra amiga para escrever na lousa.
Isso não era difícil, visto que eu sempre estava com uma amiga.
O estágio foi óptimo para mim.
Por meio dele adquiri muita experiência; porém, era muito cansativo ficar o dia todo fora de casa.
Às vezes, eu levava almoço, outras vezes, lanche.
Angélica sempre nos convidava para almoçar em sua casa, mas nem sempre aceitávamos.
Não queríamos tumultuar a paz doméstica daquela família bondosa.
Logo que comecei a fazer o estágio, as crianças ficavam curiosas e todas queriam sentar perto de mim e fazer perguntas.
Depois elas se acostumaram e fizeram uma grande amizade comigo.
Na hora do recreio todas queriam me acompanhar.
Dentre todas as crianças, uma era especial para mim.
Era uma garotinha chamada Sílvia.
Ela estava na segunda série primária.
Era magrinha, pequena, muito pobre e adorava estudar.
Logo imaginei que ela teria que batalhar muito como eu para chegar em algum lugar nessa vida.
Aquela garota me fazia voltar ao passado.
As nossas histórias eram mais ou menos parecidas.
Muitas vezes, eu dividia o meu lanche com ela.
Às vezes, eu levava um a mais para ela.
Eu adorava pegar aquela menina carente no colo e lhe contar histórias.
Eu tinha um carinho muito especial por ela.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Jul 26, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 53 - A ANEMIA

Pelo fato de estudar muito, ficar muito tempo fora de casa e ter muitas actividades, eu comecei a sentir um cansaço fora do comum.
Não tinha apetite e sentia muito sono.
Às vezes, era difícil me controlar para assistir às aulas.
Comecei a emagrecer muito.
As minhas roupas quase não serviam.
Minha mãe estava preocupada porque estava me achando muito abatida e pálida.
Um dia na escola, passei muito mal e acabei indo parar no hospital.
O médico me consultou e disse que eu teria que fazer alguns exames minuciosos.
Receitou-me alguns remédios e eu voltei para casa.
Não disse nada a minha mãe para não preocupá-la, mas eu estava me sentindo cada vez pior.
Um dia ao voltar para casa, senti-me muito febril.
Como se fosse um resfriado, senti dores por todo o corpo e tremia de frio.
Minha mãe, vendo-me naquele estado, foi à casa de Isa pedir socorro ao meu cunhado João Vasques.
Sem muita demora, levaram-me para o hospital.
O médico disse que eu tinha que ficar internada.
Minha mãe voltou chorando para casa, mas não existia outro jeito.
Dona Vanda providenciou tudo para minha internação e Angélica se prontificou a ficar comigo no hospital.
Assim, minha mãe ficaria mais tranquila.
No hospital, eu fiz vários exames, ficando constatado que eu estava com anemia profunda.
Teria que fazer um tratamento rigoroso.
Fiquei internada vários dias.
Isa ficava comigo durante o dia e Angélica durante a noite.
Nunca vou me esquecer da dedicação que as duas tiveram comigo.
Felizmente, resisti ao tratamento e consegui me recuperar.
Graças à atenção e dedicação de Angélica, eu copiei toda a matéria que tinha perdido na escola e essa minha ausência por alguns dias não me prejudicou em nada.
Consegui passar para o quarto ano de Magistério em 1978.
Recebemos os diplomas de terceiro ano.
Como sempre foi uma festa maravilhosa!
Dona Cecília e minha mãe estavam presentes e orgulhosas.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:28 am

CAPÍTULO 54 - O CURSINHO

Em 1979 eu estava cursando o quarto ano de Magistério.
Estava muito preocupada.
Tinha medo de não conseguir arrumar um emprego.
Algo me dizia que eu não poderia parar só nisso e que teria que fazer uma faculdade.
Sabia que precisaria mudar de Bálsamo, pois era uma cidade muito pequena e seria impossível arrumar um emprego lá.
Eu guardava essas preocupações para mim e não comentava nada com ninguém.
Até junho, eu continuei levando aquela vida corrida de sempre.
Fazendo estágio, frequentando as aulas e indo uma vez por semana, à noite, na classe especial em Rio Preto.
Nunca deixei de me preocupar em fazer uma faculdade.
Para prestar o vestibular, eu teria que fazer um cursinho, visto que o Magistério não dava base para isso.
Novas preocupações.
Para fazer o cursinho eu teria que pagar ou conseguir uma bolsa.
Angélica, já fazia o cursinho no Objectivo à noite em Rio Preto.
Ela disse que era época de vestibulinho para conseguir bolsa.
Sem demora, eu tratei de me preparar.
Para fazer o vestibulinho não precisava pagar nada.
Fiz a inscrição no Esquema, no Objectivo e no Anglo.
Fiz vestibulinho nos três e passei em todos.
Não podia frequentar os três, pois estudava praticamente o dia todo.
Escolhi o Anglo.
Foi com o que mais me identifiquei.
Comuniquei a minha mãe que teria que estudar a noite em Rio Preto também.
No começo ela tentou resistir, mas depois me entendeu. Não foi fácil para mim.
As segundas quartas e sextas, eu ficava o dia todo na escola em Mirassol por causa do estágio e das aulas.
À noite, eu ia de lá mesmo para o cursinho em Rio Preto.
Por causa do cursinho, eu passei a frequentar a classe especial do Cardeal Leme às terças-feiras no período da manhã.
De lá, ia para Mirassol para assistir as aulas à tarde e voltava à noite para Rio Preto novamente para ir ao cursinho.
O dia mais tranquilo para mim era quinta-feira, pois ficava em casa de manhã.
Aos sábados e domingos eu tinha que ir ao cursinho de manhã e ficava em casa à tarde.
Como você pode ver, leitor, a minha vida não era nada fácil e tudo que consegui foi através de muita luta e sacrifício.
Apesar de tanta correria, eu consegui concluir o quarto ano.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:28 am

CAPÍTULO 55 - A PROFESSORA

Concluído o quarto ano de Magistério, eu me formei para professora.
Foi uma festa muito bonita.
Para mim parecia um sonho, jamais poderia imaginar que um dia eu seria professora.
Só eu sei quantas lágrimas me custaram aquele diploma.
Valeu a pena, mas eu ainda teria que batalhar muito para conseguir um emprego.
Eu vi que estava totalmente certa nas minhas preocupações.
Eu mesma não acreditava que era uma professora, quase me desanimei, tanto esforço e eu não fazia ideia quanto ainda teria que lutar para ser alguém, para ter um trabalho e principalmente um salário.
O meu bom senso e força de vontade falaram mais alto.
No ano de 80, eu teria que tomar uma decisão muito séria em minha vida, mas não falei nada para não estragar a festa de minha mãe.
Deixei que ela aproveitasse aquela alegria de ter uma filha professora por algum tempo.
Além disso, eu queria descansar um pouco para depois me preocupar com o ano vindouro.
Curti aquela festa como se fosse a primeira e única de minha vida.
Eu sabia que em janeiro teria que enfrentar sérios problemas.
Descansar era só apelido porque no ano de 1979 eu não teria Férias.
Tinha que frequentar as aulas no cursinho para me preparar para o vestibular.
Eu falei por alto para minha mãe que iria fazer faculdade, mas não disse o curso nem o horário.

CAPÍTULO 56 - A INSCRIÇÃO

O final do ano foi óptimo, de muitas alegrias, mas também de muitas tristezas.
Antes do Natal eu resolvi contar toda a verdade para minha mãe.
Disse a ela que no ano de 1980, eu pretendia me mudar para Rio Preto e que iria fazer de tudo para conseguir uma vaga no Instituto Riopretense dos Cegos Trabalhadores.
Minha mãe se desesperou, chorava demais e não se conformava com aquela ideia.
Com muito carinho, eu conseguia tranquilizá-la.
Ela sonhava e até fantasiava que eu iria desistir daquela ideia maluca.
Maluca para ela, mas para mim era uma óptima ideia.
Minha mãe não podia sequer pensar na minha mudança, que começava a chorar.
Os dias correram calmos, mas preocupantes para mim.
Eu me preocupava com tanta coisa, que não conseguia dormir nem me alimentar direito.
Preocupava-me com o vestibular, com minha mudança, com a minha mãe e com a ideia de, pela primeira vez, morar longe de minha família.
Todos os dias, eu rezava e pedia força a Deus para não desistir da batalha antes do tempo.
Eu estava preparada para o vestibular quando chegou o dia da inscrição.
Eu preparei a documentação e fui até a faculdade.
Eles não disseram nada e aceitaram minha inscrição normalmente.
Depois de três dias me procuraram, dizendo que eu não poderia prestar o vestibular, pois o MEC (Ministério da Educação e Cultura) não tinha aprovado a minha inscrição.
Eu me desesperei, fiquei triste e muito decepcionada.
A classe inteira do cursinho se revoltou, disseram que iriam fazer de tudo para me ajudar, que não era possível em pleno século XX ainda existir tanto preconceito.
Eu fui à luta, procurei o MEC e o doutor Camilo disse que o MEC não tinha nada a ver com a decisão da faculdade.
Fui à faculdade e me disseram que a responsabilidade era totalmente do MEC.
Eu decidi continuar estudando e lutando.
Disse ao pessoal da faculdade que eu iria prestar o vestibular de qualquer jeito.
Como já disse, a classe se mobilizou com o meu problema e os professores também.
Lembro-me de que, muitas vezes, quando eu chorava desesperada no cursinho, os professores e colegas de classe vinham me consolar com palavras confortadoras e animadoras.
No meio de tanto preconceito e falta de informações concretas, decidi procurar o jornal.
Acássio, Shirley, Angélica e o professor Faiçal me deram muita força.
Acássio e Angélica iam comigo a todo lugar que eu precisava.
Com a minha ida ao jornal, a coisa ferveu.
O MEC tentava tirar o corpo fora e a faculdade também.
Eu me tornei manchete de jornal por vários dias e fiquei muito conhecida.
Todos me paravam na rua para perguntar sobre aquela situação delicada.
Eu estava lutando com todas as minhas forças; mas, no fundo, tinha medo de não conseguir vencer aquela batalha tão perigosa e tentadora para mim.
Chegou o dia do vestibular e eu não tinha uma decisão.
Não sabia se poderia fazer aquela prova tão sonhada por mim.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:29 am

CAPÍTULO 57 - A RESPOSTA

Naquele mesmo dia, liguei para a faculdade às oito horas da manhã.
Eles disseram que teriam uma resposta para mim às 14 horas.
Meu coração batia forte, eu senti um nó na garganta e chorei muito.
Não consegui comer nada.
Eu tremia e torcia a mão nervosamente.
Mesmo que eles concordassem que eu prestasse o vestibular, não tinha a certeza de que iria ser bem sucedida, diante daquela guerra de nervos.
O pessoal do jornal estava atrás de mim para saber o resultado que seria um prato cheio para eles.
Às treze e trinta fui para a faculdade, não aguentava esperar mais.
Quando cheguei, todos me receberam muito bem e não sabiam o que fazer para me agradar.
Eu estava muito nervosa e curiosa para perder tempo com amabilidades; por isso, fui directo ao assunto.
Eu queria, eu precisava saber a resposta imediatamente.
O director da faculdade, vendo-me tão angustiada, pediu que me sentasse, que ele precisava dar uma notícia para mim.
Não quis me sentar, estava quase para explodir.
Ele pediu que me acalmasse, que eu podia ficar doente e no hospital seria impossível prestar o vestibular.
Não entendi direito as últimas palavras dele, ou melhor, não acreditei.
Pedi que ele repetisse sem brincar comigo.
Ele me disse muito feliz que eu poderia prestar o vestibular, que estava tudo certo.
Quando ouvi aquelas palavras fiquei muda, gelei-me toda e quase desmaiei.
Ele pediu que Euclides, o moço que trabalhava na secretaria, me trouxesse um copo d’água.
Emocionei-me tanto que não consegui engolir a água.
Eu chorava, não conseguia dizer uma palavra sequer.
Angélica e Acássio me abraçavam e via-se que estavam emocionados com aquela notícia.
O director nos alertou e disse que a primeira prova seria à noite.

CAPÍTULO 58 - A TEMPESTADE

Eu estava em Rio Preto, eram 15 horas.
Eu tinha que ir para Mirassol na casa de Angélica tomar banho e jantar.
De lá liguei para minha mãe e falei sobre a notícia.
Ela ficou feliz por mim e me desejou muita sorte.
Fizemos tudo muito rápido.
A prova seria às 20 horas.
Talvez o leitor esteja estranhando de até agora não ter dito o que iria prestar naquele dia tão importante para mim.
É que eu queria fazer surpresa.
Eu ia prestar Direito, pois tinha uma vontade muito grande de ser advogada.
Saímos de Mirassol às 18 horas e 30 minutos.
O tempo estava formado para chover.
O vento estava muito forte e trovejava sem parar.
Chegamos em Rio Preto às 19 horas.
Ficamos com medo, Angélica disse que ia chover bastante, que o tempo estava muito escuro.
Felizmente, Acássio e sua esposa Shirley estavam nos esperando na rodoviária.
Quando entramos no carro, estava começando a chuviscar.
O vento entortava as árvores.
Em pouco tempo começou a chover fortemente, os trovões e relâmpagos era arrasadores.
Chovia granizo.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:29 am

Ficamos preocupados e começamos rezar.
Não me lembro de ter presenciado uma tempestade tão feia como aquela.
Em poucos minutos as ruas e avenidas ficaram totalmente inundadas.
Não dava para ver nem as calçadas.
Parecia que estávamos navegando em um mar violento.
Eram árvores caídas, carros e motos que rodavam na enxurrada, foi uma enchente horrível.
Acássio teve que parar o carro, não tinha condições de continuar a dirigir com aquela tempestade.
Ficamos mudos, não tínhamos coragem de abrir a boca para dizer uma palavra.
Um desespero enorme tomou conta de mim. Temi por nossas vidas, temi por não chegarmos em tempo de fazer as provas.
Fiquei horrorizada com tudo que estava acontecendo.
Não consegui esconder aquele sofrimento aos meus amigos.
Acássio, Shirley e Angélica tentaram me acalmar, mas percebi que eles também estavam muito horrorizados.
O congestionamento foi grande.
Havia muitos carros parados esperando passar a tempestade.
Acássio tentava encontrar uma saída.
Certo momento, lembrou-se de um outro caminho, que, talvez, nos daria passagem.
Precisávamos sair daquela inundação urgentemente!
Se ficássemos ali por muito tempo, nossas vidas estariam correndo um sério risco.
As orações e a força de pensamento foram tão grandes, que, de repente, fomos iluminados.
Os carros tentavam tomar um novo rumo e a tempestade se acalmava.
O granizo cessou, mas a água caía abundantemente, como se tivesse sendo despejada por baldes gigantescos.
Apesar de muita água, Acássio conseguiu sair daquele abismo perigoso que estava nos ameaçando.
Apesar de termos nos livrado do perigo maior, não estávamos totalmente salvos de um acidente.
Acássio teve que ser muito prudente.
Fomos devagar, continuava chovendo e as ruas estavam muito perigosas, totalmente alagadas e cheias de objectos carregados pela enxurrada.
Com muito jeito, Acássio se livrava dos perigos.
Quando me disseram que tínhamos chegado na faculdade, pensei que estivessem brincando comigo, mas logo me tiraram da dúvida.
Acássio parou o carro e descemos.
Eu tremia muito, pois achei que não fosse conseguir andar para entrar na faculdade.
Com aquela confusão toda, nos esquecemos de olhar a hora.
Parecia que tínhamos ficado no carro muitas horas.
É que quando estamos sofrendo o tempo não passa, os minutos se transformaram em longas horas.
Felizmente conseguimos chegar em tempo de fazer a prova.
Todos ficaram abismados ao me verem.
Acho que pensavam que eu não iria por causa do temporal.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:29 am

CAPÍTULO 59 - O VESTIBULAR

Tive uma recepção na faculdade que não esperava.
Havia muitas pessoas esperando por mim, inclusive jornalistas e repórteres.
Eu estava muito nervosa e ansiosa por tudo que havia acontecido comigo nos últimos dias e, principalmente, naquele fatídico dia tempestuoso.
A prova iniciou mais tarde, por causa da tempestade.
Tínhamos uma semana de provas pela frente.
Naquele dia seria redacção.
A competição era grande.
Para disputar 300 vagas, eram 7 mil vestibulandos.
Todos estavam nervosos e ansiosos por uma vaga.
Os jornalistas queriam me entrevistar antes da prova; porém, não aceitei.
Eles esperaram pacientes por mim.
O título da redacção era O Problema da Violência no Brasil.
Reflecti um pouco e comecei a escrever.
Não sei de onde me veio tanta inspiração.
Escrevi tanto! Não queria mais parar.
Falar sobre a violência que o meu país enfrentava e está enfrentando até hoje não foi difícil.
Começando da violência com as crianças e todas as gerações até o vandalismo das obras públicas.
Fiquei super satisfeita, estava certíssima que tinha ido bem.
Quando entreguei a prova, os jornalistas invadiram a sala que eu estava.
Todos queriam me entrevistar.
Com muita calma consegui atenuar aquela situação.
Respondi todas as perguntas que me fizeram.
Tiraram várias fotos minhas.
No outro dia as minhas fotos estavam estampadas nas primeiras páginas dos jornais da cidade.
Na rua todos me abordavam e queriam falar comigo.
Interrogavam-me sobre o vestibular e a faculdade.
Foi maravilhoso.
Minha mãe ficou orgulhosa de mim.
Como já disse parágrafos antes, ainda teria uma maratona muito difícil pela frente.
As outras provas, provavelmente, não seriam tão fáceis.
Tratei de deixar o entusiasmo e a badalação de lado e fui estudar.
Felizmente, aquela semana de provas e pesadelos passou.
Cabia-me aguardar o resultado.
Só Deus sabe como eu esperei ansiosa.
Eu estava um pouco preocupada porque as minhas respostas não tinham batido com as dos meus amigos.
Estava com medo de não ter passado.
Quando o resultado saiu, eu estava sem coragem de saber.
Angélica comprou o jornal para acompanharmos o resultado.
Disse para ela olhar o nome dela primeiro.
Ela sorriu e me disse que o meu nem era preciso procurar naquela lista enorme, pois a minha foto estava na primeira página.
A matéria dizia que eu tinha passado com óptimo resultado e que a minha redacção era uma das primeiras.
Fiquei muito feliz.
O que me deixou um pouco aborrecida foi o facto de meus amigos de cursinho não serem aprovados.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:29 am

CAPÍTULO 60 - A MATRÍCULA

Mais uma vez eu fui manchete de vários jornais.
Por eu ter passado no vestibular minha família e meus amigos ficaram muito felizes.
Todos me abraçavam, me elogiavam, me davam presentes e eu nem sabia como retribuir aquela amabilidade.
Porém, nem tudo é festa.
Eu estava com um grande problema pela frente.
Para pagar a matrícula havia um prazo estabelecido.
Como pagar se não havia dinheiro?
Acássio, vendo a minha dificuldade, recorreu ao jornal.
Foi uma campanha sensacional!
Não demorou para que aparecesse uma alma caridosa para me ajudar.
O senhor Luiz Pena, homem bom, honesto e respeitado, pagou a minha matrícula.

CAPÍTULO 61 - A BOLSA DE ESTUDOS

Fiquei feliz e agradecida por aquele acto caridoso, mas o problema não acabava ali.
Eu tinha outro mais sério.
Conseguir uma bolsa de estudos.
A faculdade não dava.
Eram quatro anos de estudos.
Eu teria que conseguir uma bolsa integral.
Mais uma vez o bondoso Acássio recorreu aos jornais.
Eu estava sem esperanças e muito desanimada.
Era sábado. Eu, Toninho e minha mãe tínhamos ido ao bar da Isa.
Meu sobrinho me chamou, disse que tinha um homem me procurando.
Fui até aquele desconhecido que me traria muita felicidade.
Era o senhor Henrique Arenas.
Ele disse que tinha acompanhado a minha luta através dos jornais.
A luta para prestar vestibular, para conseguir a matrícula e para conseguir a bolsa de estudos era grande.
Disse que a Transtécnica me daria uma bolsa integral para os quatro anos com o maior prazer.
Fiquei eufórica.
Conversamos muito.
Aquela noite nem consegui dormir direito.
Apesar de estar muito feliz, eu estava preocupadíssima com uma decisão que teria que tomar.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:29 am

CAPÍTULO 62 - A DECISÃO

Na segunda-feira, convidei Angélica para ir a Rio Preto comigo.
Procurei o senhor Euzébio, presidente do Instituto Riopretense dos Cegos Trabalhadores.
Eu já conhecia Odenir, um rapaz deficiente visual que morava lá.
Já sabia que o Instituto era um lar e que havia uma família que enxergava tomando conta.
Sabia que em caso de necessidade, eu também poderia morar lá.
Expliquei para o senhor Euzébio toda a minha situação.
Eu não poderia viajar todos os dias, pois eu teria que perder uma aula e meia para alcançar o ônibus que ia para Bálsamo.
Além do mais, eu já estava cansada de viajar todos os dias e, mesmo se desse tempo de tomar o ônibus, eu teria que continuar dependendo da ajuda da Prefeitura porque não tinha dinheiro para viajar.
Expliquei para ele que eu teria estágio e muita matéria para copiar.
Resumindo, teria mesmo que morar em Rio Preto, caso contrário, seria muito difícil estudar na faculdade.
O senhor Euzébio entendeu a minha situação e concordou que eu fosse morar no Instituto.
Adorei ter conseguido aquela vitória.
Porém, para mim, uma grande alegria sempre vinha acompanhada de tristeza e problema.
Dessa vez, não seria diferente.
Não sabia como contar para minha mãe.
Tempos atrás, eu tinha comentado com ela sobre a possibilidade de morar no Instituto.
Ela chorou muito e não aceitou.
Eu tinha medo de que ela ficasse doente, mas precisei me arriscar, sobretudo porque não existia outra opção.
As aulas começariam em março, já estávamos em fevereiro e eu ainda tinha providências a tomar.
Parece que minha mãe já estava adivinhando.
Quando cheguei em casa, ela foi me encontrar e, vendo a minha cara de preocupação, interrogou-me.
Gaguejei, enrolei, mas tive que acabar falando.
Ela chorava desconsolada, pois nunca tinha se imaginado ficar longe de mim.
Eu sentia uma enorme vontade de chorar e voltar atrás, mas não podia fraquejar.
Era o meu futuro que estava em jogo.
Minha família, meus vizinhos, meus amigos e meus colegas não se conformavam com aquela decisão.
Para falar a verdade, nem eu mesma conseguia me conformar.
Enfim, o que estava feito estava e eu não podia voltar atrás.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:30 am

CAPÍTULO 63 - A ARRUMAÇÃO

Foram dias de muita tristeza, muitas lágrimas e muito carinho entre eu e as pessoas que me queriam bem.
Comecei a preparar as minhas roupas, os meus objectos pessoais para a mudança.
Minha mãe ficava sempre junto a mim, me auxiliando.
Não tinha a mínima ideia de como preparar a mala, aliás, eu não sabia fazer nada.
Sempre fui uma garota mimada, sempre tive pessoas a minha disposição para fazer o que eu precisasse e quisesse.
A culpa não era minha, me acostumaram assim desde pequena.
Às vezes, eu tentava fazer alguma coisa, mas minha mãe questionava e eu me acomodei naquela situação.
Minha mãe chorava desesperadamente, ela implorava e argumentava para que eu mudasse de ideia.
Eu ficava um pouco abalada, mas pedia força a Deus para não desistir.
Ela se preocupava com as minhas roupas, não queria que eu levasse as mais novas, tinha medo que a lavadeira estragasse as peças.
Ela sempre teve um zelo tão grande pelas minhas coisas, que era de se admirar.
Tirei muitas coisas que não ia usar mais como:
roupas, calçados, bijuterias e outros objectos pessoais.
Pedi que ela desse para alguém necessitado.
Ela achou bonita a minha atitude.
As minhas amigas, colegas e vizinhos não saíam da minha casa.
Elas também não se conformavam com a minha decisão.
Até parecia que ia me mudar para o fim do mundo.
Nas semanas que antecederam a minha mudança, íamos dormir muito tarde.
Eu gostava tanto daquele aconchego que até perdia a vontade de me mudar.

CAPÍTULO 64 - A TRISTE DESPEDIDA

Enfim, chegou o tão triste dia.
Era 29 de fevereiro de 1980.
O meu cunhado João Vasques e Isa levaram a minha mudança de carro.
Minha mãe e Toninho também foram.
Foi uma viagem triste, quase não conversávamos.
O silêncio era cortado pelo barulho do carro e pelos soluços de minha mãe.
Tentávamos consolá-la, mas não havia jeito.
Chegamos no Instituto, onde todos esperavam por mim curiosos.
Minha família entrou para conhecer o Instituto e as pessoas que moravam lá.
Foram conhecer o quarto que eu ia morar.
Não ficaram lá muito tempo.
O meu cunhado tinha outros compromissos e minha mãe chorava demais.
Eu me segurava para não chorar perto dela para não inquietá-la ainda mais.
Dona Osmarina, a mulher que morava no Instituto para tomar conta, tinha três filhos:
Tânia, Marilu e Vladimir.
Tânia tinha onze anos, ela se encantou comigo.
Desde que cheguei lá, ela ficava sempre ao meu lado.
Quando minha família foi embora, eu pedi licença a ela, me tranquei no quarto e chorei muito.
Tinha uma vontade imensa de voltar para casa no mesmo dia.
Não me animava a desarrumar as malas nem sabia por onde começar.
Decidi não mexer em nada naquele dia.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:30 am

CAPÍTULO 65 - O INSTITUTO

O Instituto era uma casa grande composta de vários cómodos:
quinze quartos, sendo sete na ala feminina e oito na ala masculina.
Cinco banheiros, sendo três na ala feminina e dois na ala masculina.
Despensa, cozinha, refeitório, rouparia, quarto de costura, salão de visitas, escritório, alguns cómodos desocupados e lavandaria.
No quintal havia uma horta e vários varais.
Na frente, havia bancos grandes para sentar, tomar sol e também conversar à noite nos dias de calor.
Era uma casa grande, mas eu achava triste e sombria.
Hoje o Instituto mudou muito, passou por uma séria reforma.
Não mora mais ninguém lá.
Os deficientes vão apenas para estudar e retornam para seus lares.
Naquele tempo, podíamos morar lá.
O senhor Euzébio era padrasto de Dona Osmarina.
O Instituto estava praticamente como uma família.
Havia directores que não eram da família, mas eram todos muito unidos.
Era uma família acolhedora que fazia tudo para que nos sentíssemos bem.
O senhor Euzébio era casado com Dona Júlia, uma doce mulher, muito humana.

CAPÍTULO 66 - OS MEMBROS DO INSTITUTO

Como eu já disse, morava uma família lá que tomava conta do Instituto.
Dona Osmarina era casada com João Batista, tinham três lindas crianças.
Todos enxergavam normalmente.
A família de Dona Osmarina era muito grande, tendo, portanto, muitas crianças que frequentavam o Instituto.
Morava lá também, a neta do senhor Euzébio, por nome de Cássia.
Eu dividia o quarto com ela.
Ela ficava lá porque estudava em um colégio próximo.
Havia dois funcionários que também residiam lá.
Eram dois irmãos:
Jota e Maria. Jota fazia a faxina da casa e Maria era a lavadeira.
Os demais funcionários residiam fora.
Os outros integrantes eram cegos e não sei se me recordo o nome de todos, vou tentar.
Havia poucas mulheres e eram idosas.
Dona Sebastiana, Dona Vitalina, Dona Umbelina, esta tinha o apelido de Vozinha, porque era a mais idosa da casa.
Os homens eram vários:
Joaquim, José Ramos, José Montes, Sabino, Odenir, Pereira, Sebastião, Evaristo, Paraná, Alvino, Salvador e muitos outros, que, realmente, não me recordo nesse instante.
Só havia dois rapazes e os outros eram idosos.
Só sei que morávamos em mais de trinta deficientes lá.
Felizmente, com o passar do tempo, vários jovens foram morar lá, tanto rapazes, como garotas.
O primeiro ano que eu ali morei não foi nada fácil para mim.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Jul 27, 2016 10:30 am

CAPÍTULO 67 - COMO EU ME SENTI NO INSTITUTO

Senti-me um peixe fora d’água. Era um mundo totalmente diferente do meu.
Eu estava acostumada com muitos jovens que enxergavam.
Ouvíamos música, fazíamos agitos, contávamos piadas e brincávamos muito.
Estava acostumada com uma família, com uma mãe maravilhosa, que só faltava adivinhar os meus desejos para satisfazê-los imediatamente.
Meus amigos me rodeavam com muito carinho, mimo e atenção.
De repente, eu me vi perdida no meio de tantos desconhecidos.
Às vezes, eu sentia até medo de alguns.
Com o tempo, é claro, descobri que eram todos dóceis e amáveis comigo.
O meu primeiro momento no Instituto foi tenebroso.
Senti-me acuada, com muita vergonha, não tinha coragem sequer de abrir a boca para conversar.
Eu chorava desesperadamente, sentia um medo inexplicável, nada me fazia voltar à razão.
No dia que me mudei, estava acontecendo uma festa no Instituto.
Era o casamento do senhor Euzébio com Dona Júlia.
Eles viviam juntos há muito tempo e decidiram se casar naquele dia.
O Instituto estava repleto de conhecidos da família.
Os filhos e netos de Dona Júlia, os filhos e netos do senhor Euzébio e alguns amigos íntimos da família e todos os deficientes.
Todos adoravam Dona Júlia, pois ela era a deusa daquele pessoal carente.
Eu não estava com cabeça para festa, preferi ficar trancada no quarto.
Ouvia a alegria do pessoal e não conseguia entender aquela felicidade.
A primeira impressão que tive daquele lugar é que estava presa numa cadeia.
Senti-me horrorizada, tinha ojeriza de ouvir a voz daquelas pessoas.
Tive vontade de cavar um buraco bem fundo e me esconder de tudo e de todos.
Às onze horas chamaram-me para o almoço.
Eu não tinha força nem coragem de me dirigir ao refeitório.
Fome, então, nem pensar, só de lembrar de comida sentia enjoo.
Tratei de ficar quietinha no meu canto, estava torcendo para que não sentissem a minha falta.
Não demorou para que Tânia batesse na porta do quarto.
Fingi que não estava ouvindo, mas ela insistiu.
Vendo a insistência daquela doce criança, abri a porta.
Ela me convidou para almoçar, pegou em minha mão meigamente.
Eu resisti, disse que não estava com fome.
Ela fez de tudo para me convencer, como eu não aceitasse, recorreu a sua avó.
Dona Júlia carinhosamente disse que eu não podia ficar sem comer.
Lembrou-me das recomendações de minha mãe, argumentou tanta coisa que eu decidi acompanhá-las.
Ela me mostrou a mesa que seria minha e me apresentou os companheiros de mesa.
Sentei, fiquei espantada quando percebi aquele prato cheio de comida na minha frente.
Ela disse que eu poderia comer.
Eu estava tão enjoada, não sabia por onde começar.
Naquele dia o cardápio era arroz, feijão, macarrão com frango e carne moída com batata.
Não gostei da comida, achei que estava sem tempero, além do mais, detestava frango e carne moída.
Não podia nem pensar na possibilidade de um prato lotado em minha frente.
Almoçar naquele horário era uma catástrofe para mim.
A batata estava cortada só no meio, comi apenas um pedaço e me retirei discretamente.
Maria, a lavadeira do Instituto, era solteira.
Uma moça simples, humilde, mas muito gentil e simpática.
Ela, vendo-me tão triste, se aproximou de mim e conversamos muito.
Consegui me distrair um pouco, mas naquele dia não consegui jantar também.
Fui dormir bem cedo, estranhei bastante porque estava acostumada a me deitar sempre tarde.
Resolvi dormir cedo para me livrar da curiosidade das pessoas.
Demorei a pegar no sono, mas consegui dormir um pouco.
Acordei com o chamado para o café da manhã.
Fui ao refeitório, mas me decepcionei.
O cardápio era: chá mate, café e pão com manteiga.
Nunca tinha ficado sem tomar leite.
Em resumo, não comi nem bebi nada.
Pedi ao Odenir para que me acompanhasse até uma mercearia para comprar leite e bolachas.
Comprei uma lata de leite em pó, vários tipos de bolachas, pão de forma e mais algumas coisas, das quais eu não me lembro.
Eu sentia muitas saudades de minha mãe, de minha casa, de tudo que tinha deixado para trás.
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