UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:59 am

CAPÍTULO 68 - AS DIFICULDADES

As dificuldades que enfrentei foram inúmeras.
Eu não sabia fazer nada, a minha mãe sempre me tratou como uma princesa, não deixava mover uma palha.
No outro dia, quando me levantei fiquei totalmente desnorteada, não sabia arrumar a cama.
Tânia, com muito encanto e carinho, ensinou-me.
Os meus cabelos eram longos, as minhas amigas me chamavam de índia.
E para pentear os cabelos? Fiquei desesperada.
Penteei do meu jeito e o deixei solto.
Dona Osmarina disse que eu tinha que lavar as minhas roupas, mas que ela me ensinaria.
Fiquei totalmente embaraçada.
Achei que não ia dar conta de assumir tantas responsabilidades.
O dia que me mudei para o Instituto era uma sexta-feira, me senti tão sem ambiente, que resolvi passear em minha casa no final de semana.
Tal foi a alegria de minha mãe quando me viu chegar.
Não contei nada sobre as minhas dificuldades.
Só disse que iria cortar os cabelos porque iam me dar muito trabalho e eu não conseguiria cuidar deles.
Ela não queria, mas acabou aceitando para me favorecer.
Foi óptimo o meu final de semana, estava tão gostoso que não sentia a mínima vontade de voltar.
Aproveitei bastante aqueles deliciosos momentos ao lado de minha família e amigos.
Como na vida nem tudo é festa, na segunda tive que voltar para o Instituto, prometendo retornar no próximo final de semana.
Aproveitei para levar comestíveis dos quais eu gostava.
Foi triste a minha volta, mas já estava um pouco conformada.
Aquela segunda-feira seria o meu primeiro dia de aula na faculdade.
Eu tremia de medo só de pensar.
Teria que tomar dois ônibus e sozinha.
Nunca tinha ido até uma esquina sem acompanhante.
Em Bálsamo, eu ia à casa de minhas amigas, sozinha, mas era diferente.
A cidade era pequena, quase não havia movimento e, além do mais, todos me conheciam.
Já Rio Preto era uma cidade grande, super movimentada.
Nos dois primeiros dias, Dona Cecília me acompanhou de carro, deu-me muita força.
Já na quarta-feira seria o dia fatal para mim.
Sofri demais, mas fui sozinha.
Os motoristas e cobradores me auxiliaram, avisando o ponto que eu deveria descer.
Tomei um ônibus até a faculdade.
Na faculdade foi fácil, pois a maioria dos passageiros era estudante.
Dona Cecília foi à faculdade me encontrar.
Senti-me aliviada com a presença dela.
Fiquei um pouco deslocada na classe, mas logo fiz amizade com a turma.
Eram pessoas bacanas que estavam dispostas a me ajudar.
Fiquei com medo do trote do primeiro dia de aula, mas me respeitaram a não mexeram comigo.
Aos poucos, fui me acostumando com aquela situação.
No Instituto, não conseguia me alimentar direito e na faculdade enfrentava sérios problemas, pois não havia livros em Braille.
Eu tinha que copiar tudo.
Fiz várias amizades e o pessoal ditava as matérias para mim.
Nos finais de semana, eu ia para minha casa.
Minha mãe se preocupava muito, me achava abatida e magrinha.
Eu tentava tranquilizá-la dizendo que estava tudo bem.
Com o tempo eu passei a ser o xodó, o raio de sol do Instituto.
Fiz amizade com todos, conversava e brincava muito.
Porém, quase tudo era motivo de lágrimas para mim e todos queriam me consolar.
Com já disse capítulos atrás, era a única moça deficiente que morava no Instituto.
Todos gostavam de mim.
Os velhinhos adoravam quando eu ia conversar com eles.
Contavam-me muitas histórias e eles ouviam a minha carinhosamente.
Comecei a sentir um carinho especial por todos, era como se eles fizessem parte de minha família.
Eles reclamavam porque eu não tinha muito tempo.
Estudava no período da noite e todas as manhãs ia para o Cardeal Leme.
À tarde, copiava as matérias da faculdade e estudava com alguns amigos.
De manhã, eu ajudava Dona Cecília e copiava matérias também.
A minha vida era muito corrida, mas sempre que me sobrava um tempinho, eu o dedicava ao pessoal do Instituto, principalmente aos idosos.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:59 am

CAPÍTULO 69 - A NOTÍCIA

Desde que me mudei para o Instituto, minha mãe ficou muito triste, pois ela sentia a minha falta e chorava demais.
Isa a convidou para morar em sua casa.
Ela hesitou um pouco, mas acabou aceitando.
A principio, fiquei preocupada, mas depois me tranquilizei.
Na casa de Isa havia um cómodo grande que meu cunhado desocupou para minha mãe morar.
Eu gostei muito.
Assim, ela não ficaria tão sozinha com Toninho.
Além do mais, Isa tinha telefone, assim eu poderia conversar com minha mãe quantas vezes quisesse.
Toninho não gostou muito da ideia, mas depois se conformou.
Aquela notícia da mudança de minha mãe fez algo mudar dentro de mim.
Parece que algum objecto precioso tinha se quebrado.
Eu senti uma saudade inexplicável daquela casa simples e humilde, mas que tinha nos trazido muita sorte e felicidade.
Analisei e fiquei brava comigo mesma.
Não podia ser tão egoísta, eu já tinha me mudado, tomado um rumo diferente em minha vida.
A minha mãe também tinha seus direitos.
Calei-me e não disse nada.
Com o tempo, é claro, descobri que ela tinha feito a melhor opção.

CAPÍTULO 70 - A FACULDADE

A faculdade era bem diferente das escolas onde eu tinha estudado.
Era uma classe numerosa.
Havia alunos de todas as idades.
Os professores eram também diferentes, mas bondosos e compreensivos.
As matérias eram realmente puxadas e tomavam praticamente todo o meu tempo.
Infelizmente, não havia material em Braille e eu tinha que me desdobrar, copiando toda a matéria.
Não podia cochilar, tinha que fazer quase o impossível para estar em dia com as matérias.
Essa correria me fazia bem.
Eu me distraía e não tinha tempo para pensar e sentir saudades.
Sempre torcia para chegar o fim de semana para estar com minha família.
Quando era feriado, eu vibrava de felicidade.
Adorava ir para minha casa, ficar com minha família e comer a comida deliciosa de minha mãe.
Adorava estar com meus amigos, passear livremente e me esquecer um pouco da agitação da cidade grande.
Quando estava em minha casa, dormia gostosamente e esquecia as preocupações da vida.
Os finais de semana e feriado eram sagrados para mim.
Eram os dias mais importantes de minha vida.
Na segunda-feira, eu tinha que voltar para aquela minha vida corrida e dar tudo de mim para conseguir ser alguém.
Felizmente, sempre tive facilidade para fazer amizades e, na faculdade, fiz muitos amigos.
Ia para a faculdade de ônibus e voltava de carona.
Nem gosto de lembrar quando tomava ônibus, com as mãos cheias de material e com a bengala.
Às vezes, era preciso que os passageiros mostrassem o lugar para eu me sentar.
Quando chovia era uma catástrofe.
Eu sentia uma vontade imensa de não ir à aula, mas não podia faltar de maneira alguma.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:59 am

Tinha a necessidade de ficar por dentro, não podia perder nada.
Eu enfrentava aquele pesadelo.
Não tem nada mais desagradável para um cego do que sair sozinho num dia de chuva.
Um deficiente visual pisa em poças d’água, molha e suja os pés, bate a bengala e a água espirra abundantemente.
Quando está ventando forte, temos que ser artistas para não se perder.
Sem contar que não há condições de carregar sombrinha ou guarda-chuva, principalmente quando está com as mãos cheias.
Em dia de chuva, as pessoas ficam apressadas para não se molharem e quase não ajudavam quem está precisando.
Quando alguém me ligava no Instituto em dias de chuva dizendo que ia me buscar, eu dava pulos de alegria porque, com certeza, me livraria de muitos incidentes desagradáveis.
Eu me lembrava saudosa da vida que levava em Bálsamo.
Nunca estamos felizes com o que temos.
Quando eu estava em Bálsamo, achava que teria uma vida melhor em Rio Preto e, no entanto, as coisas não eram nada fáceis para mim.
Com minha ida para Rio Preto aprendi a valorizar minha família, como se fossem jóias raras e preciosas para mim.

CAPÍTULO 71 - O DESÂNIMO

Bem, leitor, como já deu para você perceber, a minha vida em Rio Preto era um tanto complicada e difícil.
Eu tinha que batalhar muito para acompanhar a classe.
Eles tinham os livros e apostilas nas mãos e eu tinha que copiar tudo para acompanhá-los.
Era uma maratona difícil que estava me deixando desanimada.
Eu fiz uma amizade muito bonita com Célia e ela me dava muita força.
Estudávamos juntas.
Quase todas as tardes eu ia a casa dela para estudarmos.
Célia era casada com Ignaldo e tinha um filhinho por nome Júnior, era uma gracinha.
Ele já estava acostumado comigo.
Quando não dava tempo de voltar para o Instituto, eu jantava na casa dela e íamos juntas à faculdade.
Dona Osmarina também me ajudava muito.
Lembro-me de tantas vezes que ela ficava ditando matérias para mim, até altas horas da noite.
Ela sempre me dizia brincando que também queria um diploma de advogada, pois já estava ficando por dentro de tudo.
Ela me esperava chegar da faculdade e dizia que queria me ajudar.
Às vezes, eu estava tão cansada, que achava que não ia ter forças.
Porém, nunca fui do tipo que desperdiça chances nessa vida.
Copiava as matérias até de madrugada.
Só parava quando ela me convidava para ir dormir.
Eu dormia pouco porque no dia seguinte tinha que me levantar cedo para ir até o Cardeal Leme.
Todo dia era a mesma coisa.
Depois de algum tempo que morava no Instituto, a minha mãe passou a ficar hospitalizada com mais frequência.
Quase todas as semanas, Isa me ligava avisando que minha mãe estava internada.
Eu ficava triste e desesperada, não sabia o que fazer.
Na maioria das vezes, ia para o hospital nos horários de visita.
Ela sempre ficava internada na Santa Casa de Saúde de Mirassol.
Eu deixava as minhas obrigações escolares para visitá-la.
Para mim ela estava em primeiro lugar.
Ela ficava preocupada, dizia que eu não devia abandonar os estudos por sua causa, que ela não queria esse sacrifício de minha parte.
Eu tentava tranquilizá-la, dizendo que estava em dia com as matérias.
Na realidade, eu estava estafada, tinha medo de não conseguir levar tudo até o fim.
Não sei de onde conseguia arrancar tanta força para aguentar aquela vida corrida e tumultuada.
Acho que era pela boa vontade de meus amigos e por bondade de Deus.
O pessoal da faculdade percebeu a minha situação e conversava muito comigo para me animar.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:59 am

CAPÍTULO 72 - O GRAVADOR E AS FITAS

Um dia, depois de ter ido ao hospital visitar minha mãe que estava muito mal, cheguei arrasada na faculdade, quase em cima da hora.
Dava para ver as marcas de sofrimento em meu rosto.
As minhas amigas conversavam comigo e eu custava a responder o que elas me perguntavam.
Ficaram indignadas e queriam saber o motivo da minha tristeza.
Aquilo nunca tinha acontecido comigo na faculdade, mas naquele dia não aguentei e chorei desesperadamente.
O pessoal tentava me consolar, mas não conseguiam.
Todos ficaram assustados ao me virem daquele jeito.
Chegaram a propor me levarem ao médico.
Aos poucos sufoquei o pranto.
Todos me cobriram de carinho e elogios.
Disseram que tinham uma surpresa boa para mim, mas só revelariam se eu sorrisse.
Dei um suspiro mais triste que uma lágrima, que não convenceu muito.
Ernesto se aproximou de mim e colocou vários pacotes sobre a mesa, disse que era tudo meu.
Abri o pacote maior, era um gravador.
Depois abri os outros, eram várias fitas virgens.
Fiquei atónita sem entender nada.
Ele me disse que a classe tinha feito uma vaquinha para me ajudar.
Com o gravador e as fitas eu gravaria as aulas, assim as coisas se tornariam mais fáceis para mim.
Apesar de estar arrasada, fiquei feliz com a bondade de meus amigos.
Sem dúvida, as coisas facilitaram para mim cem por cento.
Felizmente, terminou aquele semestre.
Fiz as provas e fui bem.
Graças a Célia e Dona Osmarina, já tinha copiado boa parte do semestre seguinte.

CAPÍTULO 73 - AS FÉRIAS

Graças a Deus, havia as Férias tão esperadas por mim.
Felizmente, eu poderia passar o mês em minha casa ao lado de minha família.
Poderia descansar um pouco daquela vida agitada, embora tivesse um pouco de coisa para copiar.
Só de estar com minha mãe eu me sentia no céu.
Arrumei minhas malas e fui para Bálsamo feliz da vida.
Eu dormia e comia bem, até que consegui recuperar alguns quilos.
Foi maravilhoso, eu não queria que o tempo passasse.
Cada dia que se findava era como se fosse um tesouro perdido.
Minha mãe fazia as comidas que eu mais gostava, fazia tudo para me ver feliz.
Até parecia um milagre, aquele mês não ficou doente.
Passamos momentos maravilhosos juntas.
Não tinha a mínima vontade de voltar para o Instituto.
O meu desejo era desistir de tudo e ficar bem sossegada no meu canto.
Senti uma paz tão grande aquele mês, que parece ter sido o melhor tempo de minha vida.
Era mês de julho, estava fazendo muito frio e eu aproveitava para dormir até tarde.
Os passeios que eu dava com meus amigos eram maravilhosos!
Eram de causar inveja a qualquer princesa.
Todos me tratavam com carinho.
Era como se tivesse chegado ao fim do mundo.
Eu não queria que aquele tempo passasse nunca mais.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 9:59 am

Não queria que aqueles momentos deliciosos acabassem.
O mundo me ensinou muitas coisas boas.
Ensinou-me a viver bem comigo mesma, a cuidar de mim, a me virar sozinha, mas me ensinou uma coisa fundamental, que é valorizar a família e os momentos bons.
Quantas vezes, em outros tempos, minha mãe fazia a comida gostosa e eu nem me aproximava da mesa?
Eu nem experimentava a comida para agradar minha mãe!
Quantos momentos bons eu desperdicei?
Quantas coisas boas deixei passar em brancas nuvens?
É que eu não sabia o que estava reservado para mim.
Eu nem por sonho sabia o que me esperava.
Naquele mês de julho, analisei minha vida e fiquei um pouco triste, porque, naquela época, eu estava consciente, estava mais madura e sabia o que ainda teria que enfrentar, sabia o quanto ainda teria que aprender.
Aquela paz, aquele aconchego foi um doce remédio para minha alma.
Descobri como a vida é preciosa, descobri o quanto é maravilhoso ter uma família, ter amigos e principalmente ter paz.

CAPÍTULO 74 - A VOLTA

Infelizmente, aquele mês de calma e tranquilidade passou muito rápido para mim.
Tornei a arrumar minhas malas com lágrimas nos olhos.
Dessa vez, não deu para esconder as lágrimas de minha mãe.
Ela também chorou muito e implorou para que eu desistisse daquela ideia maluca.
Por um breve momento, pensei que ia ceder, mas parei para reflectir e vi que se desistisse, estaria jogando fora o meu futuro e sendo egoísta comigo mesma.
Tratei de me acalmar e tranquilizar minha mãe, brincando com ela, como se nada tivesse acontecido.
Ela ficou muito triste, mas acabou concordando comigo.
Foi difícil me readaptar no Instituto.
Acostumar com as coisas boas é muito fácil.
Agora, batalhar, pegar no pesado e enfrentar as dificuldades do quotidiano sozinha, realmente, é bem difícil!
Quando cheguei no Instituto, parecia que tudo estava tão diferente.
Por um momento o chão me faltou, mas o carinho do pessoal me reanimou.
Continuei estudando, levando aquela vida corrida e agitada e, nos finais de semana, eu era recompensada com um passeio para minha casa.
Em poucos dias já estava acostumada com aquela rotina.
O mês de agosto passou sem que nada de novo acontecesse.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 10:00 am

CAPÍTULO 75 - O ÚLTIMO DOMINGO

Como sempre, o último final de semana do mês de agosto, fui passear em minha casa.
Lembro-me, com muitas saudades, como se fosse hoje.
Dia 29 de agosto, era sexta-feira, meu sobrinho João Carlos ligou no Instituto, disse-me que ia a Rio Preto à noite e que se eu quisesse uma carona para minha casa, com o maior prazer ele me esperaria.
Que eu poderia assistir às aulas e ele me apanharia na faculdade.
Feliz da vida, dando pulos e gritos de alegria, arrumei as minhas coisas.
À noite, fui para a faculdade e, no final das aulas, ele estava me esperando.
Foi bom porque pude chegar uma noite antes em minha casa.
Minha mãe também adorou a ideia.
Não sei por que, mas naquele final de semana, achei tudo tão diferente, que até fiquei impressionada.
Todas as vezes que eu ia a minha casa, minha mãe sempre me tratava bem, mas naquela vez foi especial.
Ela ficou tão feliz com minha presença!
Conversamos e rimos muito.
Aquele final de semana, ela estava muito alegre e muito disposta.
Ela fez tanta comida gostosa e diferente!
Aproveitei a ocasião e fiz uma brincadeira.
Disse que ela estava achando que eu ia para o fim do mundo e nunca mais nós duas iríamos nos encontrar.
Foram momentos inesquecíveis e marcantes para mim.
Na maioria das vezes, quando eu ia embora, ela não me acompanhava até o ponto de ônibus, porque o sol estava muito quente, e ela passava mal.
Eu ia com minhas sobrinhas ou minhas amigas.
Naquele fim de semana, ela fez questão de ir ao ponto também.
Brincou muito comigo e fez mil recomendações.
Eu amei aqueles momentos deliciosos, mas voltei para o Instituto com o coração apertado.
O pessoal do Instituto não entendeu o motivo de minha angústia.
Fizeram tudo para me ver feliz.
Fiquei sossegada, mas dentro do meu coração, tinha uma pontinha de tristeza e preocupação.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 10:00 am

CAPÍTULO 76 - A MORTE

Naquela noite não dormi bem, tive muitos sonhos e pesadelos.
No outro dia estava indisposta, não fui ao Cardeal Leme.
Estava lá conversando com os idosos quando o telefone tocou.
Dona Osmarina atendeu e instintivamente me chamou, dizendo que era para mim.
Fui atender e fiquei abalada, quando Isa me disse que minha mãe estava hospitalizada.
Chorei muito. Dona Osmarina, tentava me consolar, dizendo que não estava me entendendo, tantas vezes a minha mãe tinha sido internada e voltava boa para casa.
Pediu que eu a ajudasse na recepção, para me distrair.
Eu a ajudei até o horário da visita no hospital, mas não conseguia conter as lágrimas.
À tarde, fui ao hospital e me desesperei ainda mais.
Minha mãe não estava bem.
À noite fui à faculdade, não consegui assistir às aulas.
Pedi para que Célia gravasse as aulas para mim no dia seguinte.
Peguei algumas roupas e fui para Bálsamo.
Todos os dias nós íamos ao hospital e minha mãe estava cada vez pior.
O médico sugeriu que ela ficasse num quarto particular.
Imediatamente, meu cunhado João Vasques tomou as devidas providências e ela foi removida para um apartamento.
Ficávamos com ela o dia todo, até que ela acabou indo para a UTI.
Ficamos todos desesperados.
Nunca a tínhamos visto daquele jeito.
Foram dias de muito sofrimento, angústia e espera para nós.
Além de minha mãe estar mal, eu tinha provas na faculdade, mas não estava com cabeça para estudar, muito menos para fazer provas.
Decidi deixar as provas para segunda chamada.
Dia nove de setembro minha mãe piorou muito.
Ela já tinha voltado para o apartamento.
O médico proibiu as visitas.
Isa, desde que minha mãe tinha passado para o apartamento, tinha estado no hospital constantemente.
Quando o médico proibiu as visitas, disse que só poderia ficar duas filhas cuidando de minha mãe, os demais teriam que aguardar porque ela precisava de muito repouso.
Obedecemos, pois o médico sabia o que estava fazendo.
Só nos restava esperar.
Ficaram Isa e Sebastiana.
Foram todos para casa.
Eu fui para a residência de Angélica.
No outro dia teria que ir ao Cardeal Leme buscar uns materiais que Dona Cecília estava copiando para mim.
No dia seguinte bem cedo, liguei no hospital para saber notícias de minha mãe.
Demoraram muito para me dar a resposta, mas disseram que ela estava melhor.
Diante daquela notícia animadora, fui ao Cardeal Leme buscar o material.
Fui de ônibus com Suzana, uma amiga minha que também era cega.
Ela ia à escola de ônibus particular e eu sempre aproveitava uma carona.
No Cardeal Leme todos me acharam abatida e fizeram tudo para me tranquilizar.
Quando cheguei na casa de Suzana, sua mãe Doroti disse que minha mãe tinha recebido alta e já estava em casa.
Estranhei, não podia acreditar naquilo, se um dia antes ela estava tão mal, a ponto do médico proibir as visitas?
Doroti fez o que pôde para que eu almoçasse.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 10:00 am

Disse que era para me acalmar, que ela me levaria de carro para minha casa.
Depois de tanta insistência, consegui comer um pouco.
Quando acabei de almoçar, Doroti disse-me que o estado da minha mãe era grave, mas que ela tinha insistido muito para ir embora e que o meu cunhado tinha assinado uma autorização para tal.
Foram ela e Suzana me levar, parecia que o carro não andava.
Eu chorava desesperadamente, elas não tinham mais palavras para me acalmar.
Quando chegamos em Bálsamo, eu estava tão desesperada, que não conseguia falar o meu endereço para Doroti.
Eu estava muito confusa.
Ela, vendo-me naquele estado desesperador, tratou de perguntar para alguém que eu não reconheci, o meu endereço.
Quando chegamos em casa, o bar estava fechado e havia algumas pessoas na calçada.
Entrei correndo, mas ouvi as pessoas cochichando.
Fiquei mais calma quando fiquei sabendo que minha mãe estava viva.
Aproximei-me da cama, ela não conversou comigo, já não estava mais falando.
Isa me contou tudo o que tinha acontecido no hospital.
Disse-me que nossa mãe passou por delírios a noite inteira e que tinha implorado para que a trouxessem para casa.
O médico disse que não tinha mais jeito, mas que precisava que alguém assinasse um termo para ela ir embora.
Diante daquela informação, meu cunhado assinou para tranquilizar minha mãe.
Foi horrível. Minha casa ficou cheia de gente o dia inteiro.
Minha mãe só gemia, falava tudo enrolado e ninguém entendia nada.
Quando ela estava no hospital, não conseguia se alimentar há dez dias.
Só estava com soro. Levávamos tudo o que ela gostava, mas ela não conseguia comer.
Agora que estava em casa, de vez em quando minhas irmãs colocavam um algodão molhado na boca dela.
Às 7 horas da noite do dia 10 de setembro de 1980 minha mãe morreu.
Foi o dia mais triste de minha vida.
A morte é uma coisa horrível muito difícil de ser aceita.
Parecia que o mundo tinha acabado para mim.
Eu tinha perdido minha razão de viver.
O que seria de minha vida?
O que seria feito da vida de Toninho, tão dependente dela e tão acostumado com ela?
Eu não me conformava, não aceitava a ideia de perder a minha mãe.
Aquela doce mulher, que sempre me acompanhou nos momentos mais difíceis de minha vida.
Aquela fada, que sempre adivinhava e fazia tudo para me ver feliz.
E agora? Eu ia ser motivo de orgulho para quem?
Quem iria me amar e se sacrificar por mim como minha mãe?
Sentir-se órfã é a pior coisa do mundo.
A morte de minha mãe tinha levado um pedaço de mim também.
Meus amigos foram tão solidários!
Angélica ficou comigo o tempo todo.
Ela também sentiu muito a morte de minha mãe.
A hora do enterro foi tenebrosa.
Eu não queria ver as pessoas jogando terra em cima de minha mãe.
A morte... A perda de um ente querido é um sentimento inexplicável.
Por mais que se tente esquecer, mais se revolta.
Eu lamentei e lamento por não ter ficado mais com minha mãe, por perder tanto tempo longe daquela presença tão deliciosa.
É muito triste saber que não vamos ver nunca mais uma pessoa tão querida.
É muito triste saber que não vamos mais ouvir a voz da pessoa amada!
Saber que não vamos sentir, desfrutar da presença de um ser tão importante.
Com a morte de minha mãe, fiquei 45 dias na casa de Isa.
Não tinha a mínima vontade de voltar para o Instituto.
Célia me ligou dizendo que eu teria que voltar.
As provas de segunda chamada iam começar e eu não podia perder de maneira alguma.
Pensei em não voltar mais, mas percebi que agora, mais do que nunca, tinha que cuidar de minha vida e preocupar-me com Toninho que, com certeza, precisaria de mim.
Sem muita vontade, voltei.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 10:00 am

CAPÍTULO 77 - A NOVA VIDA

Depois da morte de minha mãe, minha vida mudou muito.
Quando fui morar no Instituto, disse para o senhor Euzébio que seria só por quatro anos, até terminar a faculdade.
Com a morte de minha mãe, ele disse que eu poderia morar no Instituto quanto tempo quisesse e precisasse.
Fiquei mais tranquila com aquela comunicação, pois não queria jamais morar com minhas irmãs.
Não porque eu não gostasse delas, mas porque percebi que já estava mais do que na hora de cuidar de minha vida.
Isa me convidou para morar em sua casa, eu não quis.
Preferi ficar no Instituto.
O meu maior sonho era um dia poder levar Toninho para lá também.
Ele estava na casa de Isa.
Eu percebi que ele não estava muito à vontade.
Depois de quase dois meses longe da faculdade, tive que voltar às aulas.
Todos me abraçaram e deram os pêsames.
Eu já não era mais aquela garota alegre, animada e com muitos sonhos na cabeça.
Era simplesmente uma garota sofrida e órfã.
Nem sabia por onde começar para fazer as provas.
Tinha uma tonelada de matéria para copiar e estudar.
Não sei de onde consegui arrancar tanta força para vencer aquela batalha difícil.
Fiz as provas. Perdi muitas aulas, mas, mesmo assim, com muito esforço, consegui passar para o segundo ano.
De certo que fiquei de exame e de segunda época em algumas matérias.
Quase me matei de tanto estudar, mas consegui passar sem ficar em dependência em nenhuma matéria.
Aquela correria foi até bom para mim porque me ajudou a distrair e esquecer um pouco minhas tristezas.

CAPÍTULO 78 - O PRIMEIRO NATAL SEM MINHA MÃE

Foi triste o primeiro Natal sem minha mãe.
Eu não quis ir para casa de minha família, preferi ficar no Instituto.
Convidei Toninho para passar o Natal comigo.
Ele aceitou e isso me deixou feliz.
Quando fui morar no Instituto, achei que seria incapaz de passar um Natal lá.
Eu achava que seria muito esquisito e solitário, mas, com a morte de minha mãe tão recente, preferi me isolar de minha família.
Foi um Natal legal, diferente do que eu imaginava em outros tempos.
Como a família de Tia Júlia e do senhor Euzébio era muito grande, todo mundo se reuniu no Instituto.
Na véspera, teve ceia e Amigo Secreto.
No outro dia, houve um delicioso almoço.
Com a visita de Toninho no Instituto, percebi nele a possibilidade de ir morar lá também.
No outro dia, Isa foi ao Instituto buscar Toninho.
Fiquei triste com aquela separação e chorei muito.
Depois da morte de minha mãe, raramente eu ia a Bálsamo e, por esse motivo, apeguei-me demais ao pessoal do Instituto.
Tanto os internos quanto os funcionários e a família de tia Júlia se amarraram em mim.
O Ano Novo e as Férias eu fui passar na casa de Isa.
Foi bom, conversei muito com Toninho e consegui convencê-lo a ir para o Instituto também, visto que teria um curso profissionalizante e ele, com certeza, poderia participar.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Jul 28, 2016 10:00 am

CAPÍTULO 79 - A MUDANÇA DE TONINHO

As aulas iam começar e eu tinha que voltar para o Instituto.
Dessa vez foi sem lágrimas.
Logicamente, na casa de Isa estava gostoso, mas era diferente.
Eu já não tinha muitas raízes para me prender em Bálsamo.
Depois da morte de minha mãe, eu e Dona Osmarina nos tornamos grandes amigas.
Para mim, era como se ela fosse minha segunda mãe.
Ela conversava muito comigo e me dava conselhos.
Eu confiava piamente nela e ela correspondia a esse sentimento.
Finalmente chegou o dia da mudança de Toninho.
Ele também, evidente, estranhou muito, assim como eu nos primeiros dias.
Para ele era diferente, ao passo que não tínhamos mais nossa mãe e ele estava na hora de lutar para ser alguém.
Aos poucos, Toninho, com muita dificuldade, foi se acostumando com a nova casa.
Toninho teve mais sorte, pois eu já estava lá para dar uma força.
Infelizmente, o curso profissionalizante não deu certo e Toninho, com a ajuda de um colega, começou a vender bilhetes de loteria.
Nos primeiros dias, eu fiquei muito preocupada com ele, mas depois me acostumei.
A ida de Toninho para o Instituto foi muito boa para mim, pois me senti mais forte.

CAPÍTULO 80 - OS NOVOS AMIGOS

As coisas mudaram muito no Instituto.
Pessoas mais jovens começaram a chegar.
Depois de Toninho, foi Jacira.
Não era uma moça de minha idade, mas não era idosa.
Depois foi Lourdes, era mais nova que eu.
Apesar de não ter muito tempo para conviver com os novos moradores do Instituto, eu fiquei feliz, pois quando podia estar lá era legal.
Como sempre, o segundo ano de faculdade não foi fácil para mim.
Muitas matérias para copiar e estudar e, além disso, haveria o estágio.
Era uma correria sem fim e eu tinha que me desdobrar para conseguir nota nas provas e nos trabalhos.
Graças à colaboração de meus amigos de escola e de Dona Cecília, eu sempre conseguia dar um passo a frente.
Conheci Marisa, uma nova amiga de classe.
Aquela gentil garota me ajudava muito.
Ditava e lia para mim.
Eu, Célia e Marisa éramos amigas inseparáveis.
Estudávamos e fazíamos tudo juntas.
Os outros também ajudavam, mas Célia e Marisa eram as mais próximas.
Apesar da correria e dificuldades, tudo transcorreu bem no segundo ano.
Consegui passar para o terceiro ano sem dependência.
Não foi tão fácil como na época de escola e ginásio, visto que os meus colegas de classe tinham a vantagem de ter todo o material à mão.
Enquanto eles estavam estudando, eu tinha que perder tempo para copiar as matérias.
Mas valeu, graças a Deus, e com força de vontade consegui passar.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:42 am

CAPÍTULO 81 - O BANCO DE OLHOS

Comecei a frequentar o terceiro ano de Direito em 1982.
Como sempre as mesmas dificuldades, mas eu já estava acostumada com aquela vida corrida.
Acho até que me fazia bem.
Para surpresa minha, foi inaugurado o Banco de Olhos em Rio Preto e a sede era no Instituto.
Dona Osmarina e doutor Woyne me convidaram para trabalhar como secretária.
Eles conheciam o meu problema e sabiam que eu ficava a maior parte do tempo fora do Instituto, mas mesmo assim, me aceitaram.
Eu faria um revezamento com Dona Osmarina.
Era bom porque eu poderia ter dinheiro para comprar as minhas coisas.
Fiquei contente e agora teria o meu dinheiro sem ter que depender da boa vontade das pessoas.
Desde a morte de minha mãe, eu passei a ver as pessoas do Instituto como se fossem pessoas da minha família.
Eu adorava a convivência com aquelas pessoas humildes e simples.
Tenho certeza de que eles também gostavam muito de mim.
Vivíamos em união.
Sempre um se preocupava com o bem-estar do outro.
Se um ficasse doente era motivo de preocupação para todos.
Se alguém estivesse feliz com algum acontecimento especial era motivo de alegria para todos.
Assim levávamos uma vida feliz e normal.
As coisas corriam normalmente sem que nada de especial acontecesse.
A cada ano o grau de dificuldade se acentuava mais e mais.
Desdobrei-me para passar para o quarto ano sem dependência e, graças a meu bom Deus, consegui essa vitória.

CAPÍTULO 82 - OS TRÊS IRMÃOS

Em 1983, comecei a frequentar o quarto ano de Direito.
Com mais maturidade, eu não sofri muito.
Já estava acostumada com aquela correria e já me sentia familiarizada com os estudos e com a classe.
O pessoal também estava acostumado comigo e fazia tudo para me ajudar e me ver bem.
Só um facto me deixou triste.
Dona Cecília foi convidada para trabalhar na Delegacia de Ensino, deixando, assim, a classe especial do Cardeal Leme.
Embora ela dissesse que continuaria transcrevendo as provas para mim, eu fiquei um pouco insegura.
Além de transcrever as provas, ela copiava muita coisa para mim.
Às vezes, até levava para copiar em casa.
Apesar de ter certeza de que ela não me abandonaria, me entristeci.
Parecia que estava perdendo o meu braço direito.
Dona Marilene foi a professora substituta de Dona Cecília.
Ela me convidou para ajudá-la a dar aula.
Gostei, porque me sentiria mais útil e ganharia mais dinheiro.
Não sei se foi pela minha experiência, mas o quarto ano pareceu-me mais fácil.
Tirava boas notas nas provas e conseguia acompanhar a classe com mais calma e tranquilidade.
Nesse ano, aconteceu um facto que me deixou muito feliz.
Três irmãos deficientes visuais que moravam em Monções se mudaram para o Instituto.
Primeiro veio José Roberto, depois Marlene e Fátima.
Eram três jovens humildes e simpáticos.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:42 am

A família deles era maravilhosa e eles foram para o Instituto para estudar.
Naquela época, eu auxiliava Dona Marilene no Cardeal Leme e pude alfabetizá-los com muita alegria.
Eles assimilavam tudo muito rápido e se alfabetizaram depressa.
A presença deles no Instituto foi óptima para mim, pois eu os tinha como se fossem meus irmãos.
Com Fátima eu me apeguei demais.
Confiava nela e tínhamos uma linda amizade.
Nós tínhamos uma afinidade tão grande e nunca nos desentendemos.
Eu me sentia tão bem no Instituto, que ficava com medo daquele tempo bom passasse.
O ano de 1983 passou muito rápido e, graças a Deus, consegui terminar o curso de Direito.
Foi uma vitória tão grande, que não conseguia acreditar.
Fiz uma descoberta especial.
Na nossa vida nada é impossível, mesmo quando vemos tudo perdido em nossa frente, com força e perseverança sempre existe uma pontinha de esperança.
Se confiarmos e lutarmos, nós chegaremos ao ideal desejado com certeza.
Eu pude perceber que, mesmo diante de tanto sofrimento e dificuldade, nunca estive sozinha.
Fiz um apanhado geral em minha vida e vi o quanto Deus é maravilhoso!
Vi todas as pessoas maravilhosas que ele colocou no meu caminho, na minha vida e no meu coração.
Quando queremos, tudo vale a pena!

CAPÍTULO 83 - O MAIOR TROFÉU

Comecei a me preparar para a formatura.
Sem dinheiro, tive que fazer alguns milagres.
O anel de advogada não pude comprar, mas ganhei de minha amiga Vera.
A beca eu aluguei e o vestido branco, que eu usaria na missa, ganhei de um amigo.
A sandália branca eu ganhei de Dona Osmarina.
O vestido e sandália para usar após a Colação de Grau, meu cunhado João Vasques e minha irmã Isa me deram de presente.
Não participei do baile nem do coquetel, pois não tinha condições.
Eu sei, que se quisesse teria conseguido, mas preferi não abusar da bondade das pessoas, que tanto me ajudaram e contribuíram para a minha felicidade.
Mesmo não participando do baile e do coquetel, me senti feliz.
Acredito que participei dos principais eventos.
Foi maravilhoso, só senti por minha mãe não estar presente.
A missa foi linda. Usei tudo branco.
Enrolei meus cabelos de bigudim.
Fui me arrumar em um salão de beleza.
Da minha família foram Isa, João Vasques e Toninho.
Os meus amigos estavam presentes para me cumprimentar.
No outro dia fui à Colação de Grau.
Usei um vestido lindíssimo por baixo da beca.
Era decotado, fresquinho e calcei um sapato preto.
Durante a Colação de Grau usei a beca.
Não via a hora de acabar aquela cerimónia, pois a beca era muito quente e estava fazendo um calor insuportável.
A colação de grau foi uma cerimónia maravilhosa e inesquecível para mim.
Todos me aplaudiram de pé.
Célia e Marisa ficaram comigo o tempo todo e me acompanharam para receber o diploma.
Durante a Colação de Grau me emocionei, mas não chorei.
Após o encerramento, tirei muitas fotos que guardo como relíquia até hoje.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:43 am

Quando terminou tudo, meu cunhado nos convidou para comemorar num barzinho.
Fomos.
Levei comigo meus amigos mais íntimos e cada um comemorou do seu jeito.
Quando me separei dos formandos para ir comemorar e só fiquei com minha família e meus amigos, eu comecei a chorar.
Não havia nada que fizesse me controlar.
Todos fizeram tudo para me distrair e me agradar, mas não adiantou.
Eu sentia um vazio muito grande dentro de mim.
Sentia muita saudade da classe e da correria que já estava habituada.
E agora? O que seria de mim?
Com o que eu iria me ocupar?
Que eu teria para passar o meu tempo?
Eu sabia que aquele não era o momento para pensar naquelas coisas, mas não conseguia me conter.
Esforçava-me para festejar e sorrir com todos, mas não conseguia.
No final da festa, minha irmã e meu cunhado foram embora preocupados comigo.
Não consegui dormir aquela noite, só chorava e vomitava.
Não queria ficar sozinha.
Queria sempre muitas pessoas perto de mim para me distrair e tirar aqueles pensamentos tolos de minha cabeça.
No outro dia, amanheci triste e abatida e não consegui me alimentar.
Eu estava arrasada e perdida.
Não sabia o que fazer.
Não sabia que rumo tomar em minha vida.
Eu, que tanto reclamava daquela vida intensa e corrida, estava triste porque tudo tinha se acabado.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:43 am

CAPÍTULO 84 - A PROCURA

Eu tinha recebido o maior troféu de minha vida, que era o diploma de advogada.
Principalmente um diploma tão suado, sofrido e sacrificado por mim.
Já sabia que para arrumar um emprego era quase que impossível.
Para isso, era preciso muita grana para montar um escritório.
Era preciso me associar a um advogado conhecido e bem conceituado na cidade.
Eu não tinha cabeça e muito menos cacife para isso.
Além do mais, eu já sabia o que me esperava com falta de material em Braille.
Quando ingressei na faculdade, tinha muitos sonhos para o futuro.
Com o passar do tempo e os estágios, percebi e descobri que não ia advogar.
Aquela vida não era a que sonhei para mim.
Não desisti do curso porque não gosto de parar no meio do caminho e também acredito que nada acontece por acaso.
Se eu tinha optado por Direito é porque tinha uma razão de ser.
Não me arrependi de fazer o curso e acho que adquiri maturidade e experiência.
Essa experiência tinha sido boa para mim.
Apenas, eu não tinha me encontrado profissionalmente, infelizmente.
Acho que tudo que aprendemos é válido.
Nunca é demais saber e conhecer.
Não deu certo como advogada, mas eu não podia parar.
Tinha que continuar lutando.
Não sabia com que armas, mas, certamente, as arranjaria.
Enquanto não aparecia nada para mim, continuei no Banco de Olhos e no Cardeal Leme, sempre com muita garra e força de vontade para conseguir um lugar melhor.
É muito triste a procura, às vezes, eu ficava angustiada e chateada.
Outras vezes me acalmava e me conformava.
No fundo tinha muito medo de não conseguir arrumar um bom trabalho.
Fui muito longe com a minha procura.
Fiz um curso de telefonista e adorei a ideia.
Fiz estágio em vários lugares e não consegui emprego.
Isso me desesperava profundamente.
Com o tempo, sai do Banco de Olhos e fiquei só no Cardeal Leme.
Às vezes, me cansava daquela procura incessante, mas não desistia.
Era persistente.
Infelizmente, não é fácil para um deficiente competir com uma pessoa que enxerga, mas eu tinha muita fé de conseguir um emprego.
Apesar de ter acontecido algumas coisas boas em minha vida em 1984, aquele ano não foi muito bom para mim.
Foi cheio de expectativas, espera e angústias.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:43 am

CAPÍTULO 85 - OS TESTES

O ano de 1985 começou com a corda toda para mim e algumas amigas.
Um dia eu e as meninas deficientes do Instituto fomos procuradas pela Telesp.
Fizemos a ficha e ficamos aguardando pelos testes.
Esperamos por aqueles testes com o mesmo carinho e ansiedade que a mãe espera pelo bebé.
Eu queria tanto um trabalho, que sonhava acordada com tanta coisa que poderia fazer.
Felizmente, chegou o dia tão esperado.
Foi inesquecível para mim, até hoje me lembro daquele dia com saudades.
Acho que foi o dia mais importante da minha vida.
Foram dois dias de testes.
Éramos sete: eu, Suzana, Fátima, Marlene, Lourdes, Cirlei e Terezinha.
Ansiosa e terrível foi a espera do resultado.
Esperamos tanto e a resposta não vinha.
Achava que jamais ia saber quem tinha passado.
Procurei me ocupar com outras coisas e seguir minha vida normalmente para não sofrer muito com aquela espera.
Certo dia, recebi um telefonema. Era Buck.
Ele perguntou se seria possível eu dar uma entrevista para a Entrelinhas.
Entrelinhas é uma revista, ou jornal, que circula entre todos os funcionários, com as notícias mais importantes da Telesp.
Eu nem hesitei e disse que iria.
Dona Clarice, uma das monitoras, foi me buscar no Instituto.
Arrumei-me bem depressa.
Estava muito ansiosa.
Lembro-me como se fosse hoje:
usei um vestido azul claro.
Na Telesp todos queriam falar comigo.
Conheci a sala de tráfego inteira.
Conheci todas as telefonistas que estavam trabalhando, o PABX, que tanto sonhava trabalhar um dia.
Senti-me tímida no meio de tantos desconhecidos, mas me senti super importante diante de tanto carinho e atenção.
Dona Clarice era doce e carinhosa comigo.
Fazia de tudo para estar sempre sorrindo.
Estranhei um pouco aquela entrevista, mas não comentei nada com ninguém.
As perguntas eram como se eu já soubesse que tinha passado nos testes e já tivesse praticamente trabalhando na Telesp.
Ficava um pouco embaraçada, mas tentava respondê-las a contento.
Naquele dia, fui embora sonhando um pouquinho mais alto.
Apesar de tantas coisas boas que haviam me acontecido, tentei não me iludir muito e procurei levar minha vida normalmente.
À noite fui rodeada pelas meninas que tinham feito os testes.
Elas queriam saber tudo sobre as entrevistas e a Telesp.
Contei tudo e elas ficaram maravilhadas.
Percebi que elas também se iludiram e sonhavam com um futuro melhor.
Passados alguns dias, Buck me ligou novamente.
Perguntou se eu podia bater a lista interna da Telesp e disse que eu seria remunerada por isso.
Aceitei imediatamente.
Além de estar precisando de dinheiro, a curiosidade falou mais alto.
No outro dia, fui procurada por Buck e Dona Brígida, a chefe das telefonistas.
Eles leram algumas páginas da lista e explicaram como queriam que eu a copiasse.
Pediram a minha opinião e entramos num acordo.
Uma amiga ditou e eu a devorei, como um faminto devora um prato de comida.
Orgulhosa de mim mesma por prestar um serviço para a Telesp, avisei a Buck assim que a lista ficou pronta.
Aguardamos ansiosas para que um dia fossemos chamadas para trabalhar na Telesp.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:43 am

CAPÍTULO 86 - A Admissão

Já estava mais calma e despreocupada, quando, em uma tarde, recebi o telefonema de Dona Beatriz.
Ela disse que eu e Fátima tínhamos que fazer uns exames médicos para a Telesp.
Aquela noite nem dormimos direito.
No outro dia, fomos submetidas a vários exames.
Desde exame de vista até de sangue e radiografia do pulmão.
As outras ficaram tristes e desanimadas porque não tinham sido chamadas.
No fundo elas tinham uma esperança.
Logo após os exames, avisaram que tínhamos que providenciar todos os documentos.
Para mim não foi difícil, já tinha todos.
Fátima enfrentou uma barra, tinha que providenciar quase todos os documentos, em muito pouco tempo.
Com a ajuda de Dona Rute, uma amiga nossa, ela conseguiu.
Logo que todas fizemos a ficha, Buck nos avisou que tínhamos que aprender assinar o nome à tinta.
Durante aquela longa espera ficamos treinando sem desanimar.
Foi por Deus. Naquela época que fomos chamadas, já sabíamos assinar.
Após os exames e documentação avisaram que no outro dia tínhamos que estar na Telesp às oito.
Eu estava num dilema terrível.
Eu tinha pegado mais aulas no Cardeal Leme porque a professora efectiva da sala estava viajando em Lua-de-Mel.
Conversei com a directora e consegui que a inspectora de alunos ficasse tomando conta da classe para mim.
Dona Clarice apanhou-nos no Cardeal Leme.
Dona Cecília, como sempre, não poderia deixar de estar presente naquele dia tão especial.
Era dia 22 de março de 1985, o dia do aniversário dela.
Ela disse que era o maior e melhor presente que podia receber de nós, principalmente de mim, que ela conheceu desde pequena.
Foi um dia marcante para nós.
Assinamos tantos papéis!
Por coincidência estava tendo uma festinha na Telesp.
No dia 21 as telefonistas tinham passado o objectivo.
Passar o objectivo significa atingir acima da meta da empresa.
Aproveitamos a festa, apesar de não ter conseguido comer nada.
No primeiro dia, foi só para cuidar da admissão.
Nem entramos na sala de tráfego.
Como eu estava com aquele compromisso de aulas de manhã durante um mês, entrei num acordo com Dona Brígida, que iríamos ser treinadas à tarde.
Depois que aprendêssemos, eu trabalharia de manhã, pois deixaria as aulas no Cardeal Leme e Fátima trabalharia à tarde, pois estudava de manhã.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:44 am

CAPÍTULO 87 - UMA NOVA EXPERIÊNCIA

Dona Clarice era a monitora que iria nos treinar.
Ficou decidido que ela nos buscaria no Instituto, até que estivéssemos aptas a irmos sozinhas para a Telesp.
Tudo era curiosidade e novidade.
Nos primeiros dias não sentávamos no PABX, pois havia muita coisa para aprender.
As fraseologias, o modo de tratar os assinantes etc.
Só sentávamos interligadas com telefonistas que já tinham experiência.
Na segunda-feira da semana seguinte, Jéferson, o segurança do trabalho, começou a nos treinar para irmos sozinhas para Telesp.
Aprendemos rápido e nos tornamos mais independentes.
Fui a primeira a sentar sozinha no PABX, pois consegui passar pelo treinamento mais rápido que Fátima.
Também nem podia se comparar, eu tinha muito mais possibilidade que ela.
Enquanto ela respondia às questões com a reglete, eu respondia com a máquina, sem contar que eu já era uma advogada e ela estava apenas na segunda série primária.
Mesmo assim, ela também conseguiu se sair muito bem.
Com pouco tempo, ela estava no PABX e dava conta do recado.
A primeira vez que sentei no PABX achei que não ia dar conta.
Era muito grande e chamava bastante.
Em pouco tempo, como dizem por aí, tirei de letra.
Para mim, era uma vida nova.
Quando recebi o primeiro ordenado!
Nem sabia o que fazer com tanto dinheiro e dois talões de tickets.
Sempre ganhei pouco nos trabalhos anteriores e para aumentar a minha alegria, tinha o último salário de professora, do último mês que dei aula.
Só senti por minha mãe não estar viva para participar de minha alegria.
Sempre sonhei em arranjar um bom emprego para ajudar a minha mãe e, quando consegui, ela estava morta. Isso me entristeceu um pouco.
Eu estava feliz não só pelo dinheiro, mas por ter um emprego, por ser valorizada pelas pessoas, por ser importante, por ser lembrada pelas pessoas.
Enfim, por ter a minha independência financeira também, por que não?
Antes eu recebia, mas era pouco.
Comprei roupas, calçados novos, os perfumes de minha preferência, as guloseimas mais deliciosas que eu já sonhei.
Daquela vez, comprei tudo sem me preocupar se o dinheiro ia dar porque tinha a certeza de que daria e sobraria.
Uma vida nova começou para mim.
Agradeci a Deus, tinha realmente valido a pena sofrer e me tornar uma garota independente.
Passei dois anos maravilhosos e deliciosos, sem que nada de anormal acontecesse em minha vida.
Trabalhava na Telesp e continuava morando no Instituto.
Guardei dinheiro e consegui comprar um telefone, que era sonho antigo meu.
Tudo era paz, tudo era harmonia e, às vezes, eu achava que estava sonhando.
Era bom demais para ser verdade.
Nem acreditava que depois de tanto sofrimento, pudesse sentir aquela paz infinita.
Felizmente era pura realidade.
Às vezes, acontecia algo que me chateava, mas eram coisinhas tolas do dia-a-dia.
Em julho de 1987 fui ao congresso no Rio de Janeiro.
Era o primeiro encontro do deficiente visual profissional.
Lígia, a psicóloga do Instituto foi comigo.
Foi uma bênção.
Encontrei-me com milhares de deficientes profissionais.
Fiquei feliz por ver que tantos tiveram a mesma sorte que eu.
Todos os deficientes e acompanhantes que participaram desse evento receberam um diploma.
Os que deram palestras receberam dois.
Recebi dois porque falei sobre o meu trabalho e todos gostaram.
Esse emprego na Telesp mudou minha vida completamente.
Tudo o que tenho hoje, consegui através do meu trabalho.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:44 am

CAPÍTULO 88 - O INCIDENTE

Como na nossa vida nem tudo são rosas, aconteceu um facto que fez com que a minha vida desse uma reviravolta muito grande.
Toninho continuava morando no Instituto também.
Vendia os bilhetes e, assim, levávamos a vida.
Porém, em setembro de 1987, ele teve uns probleminhas no Instituto e decidiu-se mudar de lá.
Fiquei muito abalada e tentei aconselhá-lo, mas de nada adiantou.
Não tinha nada que fizesse com que ele mudasse de ideia.
Ele procurou a pensão de uma conhecida nossa.
Seu nome era Solange.
Lá só moravam mulheres, mas tinha um quarto fora da pensão e ela permitiu que ele fosse morar lá.
Para mim foi uma dor terrível ver meu irmão arrumar suas coisas e deixar o Instituto.
Decidi me mudar também.
Procurei Solange e consegui uma vaga.
Foi triste me mudar daquele lugar, que era para mim o meu lar.
Deixar aquelas pessoas que eram como se fossem da minha família.
Eu já tinha me acostumado tanto com eles, que senti uma dor profunda em meu coração.
O presidente tentou me deter, insistiu para que eu continuasse morando lá.
Os idosos e as outras pessoas também quiseram me impediram, mas eu não ia conseguir continuar lá sem o meu irmão.
Conversei com eles, expliquei a minha situação e saí sem mágoas.
Sempre que podia ia visitá-los e era uma festa.
Foi triste demais mudar para a pensão, apesar de só ter jovens.
Estranhei bastante.
No Instituto, eu dividia o quarto com Jacira e, na pensão, nós morávamos em seis num mesmo quarto.
Ainda bem que Solange cedeu um guarda-roupa só para mim.
Logo coloquei um cadeado para que ninguém mexesse em minhas coisas.
Solange e os moradores da pensão faziam de tudo para me ver feliz, mas aquela vida não era a que eu sonhei para mim.
Carmem, Cecília e Luciana eram as amigas predilectas.
Com o tempo, Carmem e Luciana se mudaram.
As outras eram legais, até brigavam para me ajudar, mas as que mais me cativaram foram as três.
Carmem eu já conhecia.
Cecília e Luciana eu fiquei conhecendo lá.
Morei na pensão por oito meses, depois, eu e Toninho decidimos alugar uma casa.
Saí com minha amiga Simone para procurar uma casa boa e que ficasse próxima a um ponto de ônibus.
A pensão ficava no centro da cidade e facilitava muito a nossa vida.
Essa casa teria que ser em um bairro porque o aluguel era mais barato.
Consegui achar uma casa bonitinha no Jardim Higienópolis.
Não era um bairro tão afastado da cidade e a casa ficava em frente a um ponto de ônibus.
Eu não tinha móveis.
Pedi para que Maria Ângela, a irmã de Solange, fosse na loja ver os móveis para mim.
Eu não tinha tempo de cuidar dessas coisas porque estava fazendo hora-extra na Telesp e trabalhava praticamente o dia todo.
Saía da Telesp às 17:30 horas e o comércio fechava às 18 horas.
Maria Ângela tinha muito bom gosto e conseguiu comprar os móveis que eu compraria se eu fosse à loja.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:44 am

Com sempre, Isa e João Vasques estiveram do meu lado para me ajudar.
Quando me mudei do Instituto, foram eles que levaram as minhas coisas e do Toninho para a pensão.
Quando me mudei da pensão, além de levarem os nossos pertences, nos deram um guarda-roupa grande e uma televisão.
Eu comprei um fogão, uma geladeira, um armário da cozinha, uma mesa grande com seis cadeiras, uma estante e um jogo de sofá.
Toninho já tinha cama, colchão e guarda-roupa.
Comprei também minha cama, colchão e todos os utensílios de que uma casa precisa.
Quando decidi mudar da pensão, Cecília me procurou e pediu para ir morar connosco.
Disse que dividiria as despesas, só que não poderia ajudar muito porque ganhava pouco, mas que ajudaria no que pudesse.
Fiquei um pouco indecisa e pensativa, mas acabei concordando.
Disse a ela que não precisaria ajudar com dinheiro, que eu queria que ela me ajudasse no serviço da casa.
Ela concordou e ficou muito feliz.
Ficou decidido que ela moraria em minha casa e continuaria trabalhando fora.
Nós duas faríamos o serviço de casa nas horas vagas.
João Vasques deu uma cama para Cecília e ela comprou o colchão.

CAPÍTULO 89 - A NOVA CASA

A casa ficou uma gracinha quando estava tudo arrumadinho.
Na sala ficaram o sofá e a estante com a televisão.
No quarto de Toninho ficou a cama, o guarda-roupa e uma cómoda, que eu já tinha desde que mudei para a pensão.
No meu quarto havia minha cama, a cama de Cecília e o nosso guarda-roupa.
Na copa estavam o armário, a mesa com as cadeiras e a geladeira.
A cozinha era muito pequena e ficou lá só o fogão.
Logo no primeiro dia que mudamos, fizemos amizade com Dona Helena e sua filha Sónia.
Era uma família maravilhosa e foi de cara nos oferecendo ajuda.
Aceitamos e ficamos felizes, pois o fogão ainda não tinha chegado.
Dona Helena nos deu o jantar.
Sónia não sabia o que fazer para nos ajudar.
Éramos quase da mesma idade e nos tornamos grandes amigas.
Ela ia constantemente em minha casa e sempre estava alerta para o que desse e viesse.
Quando um de nós saía para passear, ela fazia companhia para os outros.
Quase todos os finais de semana, ela ia dormir em minha casa.
Nós ficávamos conversando até tarde e ouvindo música.
Para nós, era uma festa!
Nunca o nosso assunto se esgotava.
Sempre tinha um fato novo.
Com a mudança para aquela casa, minha vida mudou muito.
Quando chegava do trabalho, tinha que limpar a casa, lavar a nossa roupa e fazer a comida.
Cecília me ajudava muito, mas quase sempre chegava tarde do trabalho.
Levávamos uma vida calma e feliz.
Minha casa estava sempre cheia de amigos.
Acredito que essa tenha sido uma das melhores fases de minha vida.
Sempre gostei de estar perto dos amigos.
Adorava compartilhar aquela alegria com eles.
Não deixava de agradecer a Deus por aquela calma e tranquilidade que estávamos vivendo.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Jul 29, 2016 9:44 am

CAPÍTULO 90 - AS EXPERIÊNCIAS DA VIDA

Moramos no Jardim Higienópolis até novembro de 1989.
Os momentos maravilhosos e agradáveis, que vivemos naquela casa, foram inesquecíveis para nós.
São relíquias, que até hoje guardo saudosa em meu peito.
A amizade que fiz naquele bairro, foi uma sementinha plantada em meu coração.
Hoje ela cresceu, floriu e dá óptimos frutos.
Nunca falei de minha vida sentimental porque as minhas experiências com o estudo e com a vida profissional são o intuito desse livro Você, leitor, só conhecerá a minha mais válida e importante experiência com amor da minha vida.
É lógico que durante o tempo que estudei, tive vários namorados.
Alguns sérios que marcaram a minha vida, de alguma maneira.
Outros, sem importância.
Em 1989, eu já estava realizada tanto nos estudos, quanto na vida profissional.
Já tinha aproveitado bastante a minha vida e achei que estava na hora de me casar.
Arrumei um namorado no fim de 1988 e decidi me casar em 1989.
Foi um casamento como toda mulher sempre sonhou.
Teve festa, vestido de noiva e tudo mais.
Comprei uma casa e mudei do Jardim Higienópolis.
O dia da mudança foi muito triste.
Eu, Toninho e Cecília já estávamos acostumados com aquela casa que nos trouxe tantas alegrias.
Sentimos por deixar nossos amigos em bairro distante.
Com o meu casamento, ficou decidido que Cecília trabalharia em minha casa.
Ela gostou e ficou feliz.
Eu também gostei, pois já estava acostumada com ela.
Não gostei da casa nova.
Era pequena e mal cabiam os móveis.
Com o aumento e uma boa reforma ficou legal.
Infelizmente, o meu casamento durou apenas dois anos e meio.
Acredito que não deu certo por falta de maturidade minha.
Não estava preparada para um passo tão sério, que é o casamento.
Não tive forças para levar aquela relação até o fim, mas foi uma experiência.
Tanto as experiências boas quanto as ruins são válidas.
São peças que a vida nos prega.
Essas experiências são para que aprendamos alguma coisa e é sempre bom tirar algum proveito dessa aprendizagem.
Servem para nos amadurecer.
Pelo lado prático da vida, todas as experiências são boas, pois aprendemos com elas e nos tornamos cautelosos.
Pena que no vai-e-vem da vida, nos ferimos e também machucamos pessoas boas, honestas e inocentes que, talvez, não merecessem.
Pena que sempre apanhamos sozinhos.
A vida é um elo que envolve tantas pessoas e, às vezes, por causa de uns, outros tenham que sofrer.
Infelizmente, não somos donos de nossos destinos.
O tempo passa, as coisas acontecem e vão escapando pelos vãos dos dedos, sem condições de controle.
Bom seria se pudéssemos fazer o tempo voltar atrás e pensasse duas vezes antes de fazer alguma bobagem.
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Ave sem Ninho

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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 91 - CECÍLIA

Cecília, apesar de ser mais nova que eu, me tratava como se fosse sua filha.
Fazia todas as minhas vontades e eu era muito mimada.
Cecília morou comigo durante 4 anos.
Ela era considerada como uma pessoa da família.
Nós combinávamos melhor do que duas irmãs.
Na nossa vida, nem tudo é eterno e um dia ela resolveu se casar.
Foi uma catástrofe para mim.
Praticamente era ela a dona de minha casa.
Tempos atrás, eu tinha feito curso de culinária e aprendi cozinhar muito bem.
Mas, quando resolvia fazer uma comida diferente, ela estava sempre por perto me vigiando, como se eu fosse uma criança.
Tudo que precisava estava na mão.
Ela abria as latas, olhava as comidas no forno, enfim, tinha todos os cuidados para que eu não me machucasse.
Era ela que sabia onde ficava tudo.
Eu não me importava com nada e entreguei minha casa totalmente a ela.
No fundo, eu achava que ela nunca ia me abandonar.
Sofri muito com a despedida de Cecília.
Era como se tivesse perdido alguém da minha família.
Achei que não ia conseguir viver sem a aquela doce presença.
Sem aquela gentil menina, que estava sempre por perto me dando a maior força.
Quando Toninho se casou, em março de 1990, eu fiquei muito triste por ter que ficar longe dele.
Cecília fazia tudo para me alegrar, dizia que sempre que eu quisesse me levaria na casa dele.
Depois de muito chorar e sofrer, acabei me acostumando com aquela ideia.
Quando tinha passado o baque do casamento de Toninho, em 1992 Cecília também resolveu se casar.
Então, sofri toda aquela perda novamente.
Nunca vou me esquecer da bondade e dedicação com que ela tratava Toninho e eu.
Com o tempo, entendi que Toninho e Cecília tinham que viver a vida deles.
Percebi que estava sendo egoísta.
Eles também mereciam ser felizes e só me restava torcer por eles.
Torcer para que eles tivessem mais sorte do que eu.
Com a saída de Cecília, me sentia perdida e solitária.
Depois de Cecília passaram várias empregadas em minha casa.
Eu não me acostumava com elas, nem sempre elas faziam tudo certinho.
Até que um dia apareceu Rosa.
Ela era uma menina carente, que precisava de um emprego para morar.
Combinamos e ela foi para minha casa.
Com o tempo me acostumei com ela e nos tornamos muito amigas.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 92 - UM RAIO DE SOL

Naquela época eu não tinha carro, ia para o trabalho de ônibus.
Indo todos os dias no mesmo horário e no mesmo ônibus, fiz amizade com muitos passageiros.
Algumas pessoas que me ajudavam quando dava na teia, outras neutras.
Dentre tantos passageiros, havia um, Itemar, que por coincidência tomava o mesmo ônibus na cidade.
O emprego dele ficava na mesma rua que o meu.
Itemar morava no mesmo bairro que eu.
Ele ia brincando com todo mundo.
Ele contava piadas, cantava, falava versos e aquilo me incomodava profundamente.
Eu não conseguia entender meus sentimentos, mas se pudesse não o deixaria fazer aquilo.
Tinha uma mulher que também ia no ônibus e os dois brincavam muito.
Passei a sentir uma antipatia grande e gratuita por ela.
Um dia tomei o ônibus na cidade com destino ao meu trabalho e Itemar me ofereceu ajuda.
Eu não aceitei.
Ele descia dois pontos depois de mim.
O ponto que eu estava acostumada descer estava uma lástima, em construção, entulhos e muitos obstáculos que me atrapalhavam.
Apesar de tantos obstáculos, não entendi porque não aceitei aquela ajuda que seria preciosa para mim.
No outro dia ele tornou a oferecer ajuda.
Hesitei um pouco, lembrei do meu sofrimento do dia anterior e aceitei.
A partir daquele dia, ele passou a me ajudar constantemente.
A cada instante, a cada momento, a cada dia a nossa amizade aumentava mais.
Eu tinha comprado um telefone há muito tempo, mas ainda não tinha sido instalado.
Quando o instalaram, eu não cabia em mim de contente.
Dava o número para todas as amigas me ligar, nem parecia que trabalhava na Telesp, no meio de tantos telefones.
Ter um telefone sempre foi o meu maior sonho.
Acho que foi por isso que fiquei feliz.
Um dia no terminal do ônibus, quando dei o número para uma amiga, Itemar anotou sem que eu soubesse.
À tarde, ele me ligou tentando passar um trote.
Eu reconheci a voz dele na hora.
Aquele telefonema me trouxe uma alegria inexplicável.
Itemar fez amizade com Toninho e Suzana.
Ajudava a todos sem distinção.
Toninho estava construindo uma casa aqui em Rio Preto e Itemar acompanhou aquela construção do princípio ao fim.
Quase todos os dias nós íamos ver o andamento da casa.
Ele não sossegou, enquanto não viu a casa pronta.
Eu percebia que com ele era diferente.
Eu era especial para ele, tanto que ele quis aprender o Braille.
Em doze aulas ele já sabia ler e escrever.
Não conseguia tirá-lo de minha cabeça, mas não queria admitir.
Um dia quando estávamos indo para o trabalho, ele apertou minha mão de um modo especial.
Retribui aquela carícia e uma grande ternura nos envolveu.
Foi muito bom.
Não tínhamos coragem de tocar no assunto, mas tudo estava mexendo demais com nossa cabeça.
Se há uma coisa em nosso corpo que não mandamos, e muito menos conseguimos controlar, é o coração.
Ele não obedecia por mais que insistisse.
Itemar abriu a porta do meu coração, entrou e a trancou, jogando a chave no mar.
Para mim não existia coisa melhor do que estar com ele.
Quando dormia, ele estava presente em todos os meus sonhos.
Quando estava acordada, ele era o raio de sol que iluminava minha vida.
Ele passou a ser a luz dos meus olhos e do meu caminho.
Passou a fazer parte total e integral de minha vida e do meu destino.
Por mais que quisesse tirá-lo de minha vida, seria humanamente impossível.
Eu já estava contaminada por aquele amor, que veio como um turbilhão e me envolveu profundamente.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 93 - OS OBSTÁCULOS

Na minha vida sempre consegui tudo o que quis, mas tudo o que consegui foi com muito sofrimento e daquela vez não poderia ser diferente.
Começaram a surgir vários empecilhos que atrapalhavam o meu relacionamento com o Itemar.
Ninguém entendia o nosso amor.
As pessoas me diziam que a nossa diferença de idade era muito grande e que esse relacionamento jamais daria certo.
Outras diziam a ele que eu era cega, que provavelmente eu iria sentir ciúmes.
Além de interferência de terceiros, tivemos outros problemas que não valem a pena serem citados.
Não ligávamos com o falatório do povo, mas eram tantos problemas que, de uma certa forma, nos afectavam.
Eu recebia trotes de todas as espécies, tentando destruir o nosso amor.
Não sei o que as pessoas ganhavam, tentando atrapalhar a vida de duas pessoas que se amavam.
As pessoas duvidavam do nosso amor e lutavam para que aquele sentimento tão bonito se acabasse.
Para algumas pessoas, o fim do nosso amor seria uma vitória.
Não é fácil viver um grande amor.
Se o amor não for forte e verdadeiro, se não tiver uma base sólida e um alicerce, não vai para frente.
Felizmente, o nosso amor era verdadeiro, baseado somente em verdades e muito carinho.
Leitor, eu sei que nesse capítulo tem uma parte obscura que, certamente, você não entendeu.
É que na nossa vida acontecem factos absurdos, que se forem explanados poderão machucar e ofender muitas pessoas.
É preferível omitir fatos que irão machucar a mim mesma.
Infelizmente, grande parte da sociedade ainda é muito preconceituosa.
Infelizmente, a incompreensão é primordial na nossa vida.
Se eu narrar certos episódios daquela época vai gerar uma polémica muito grande.
O meu intuito não é esse, o que passou, passou.
Este capítulo está sendo crítico e desagradável para mim porque a palavra omissão não é muito costumeira no meu dicionário.
Pena que nem todos pensem e entendam assim.
Levando por outro lado, é melhor que seja assim.
Não quero e não posso ser egoísta.
Tenho que pensar em outras pessoas que não pensam como eu e que, com certeza, se magoariam.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 9:56 am

CAPÍTULO 94 - O AFASTAMENTO

Eu e Itemar nos sentimos perdidos e solitários no meio daquela batalha.
As pessoas que se diziam nossos amigos viraram as costas para nós.
Em vez de nos ajudar, eles preferiam nos criticar ou fazer piadas de mau gosto.
Foi a pior fase da minha vida, mas foi uma óptima lição porque aprendi muita coisa das quais eu não acreditava que fossem verdades.
Aprendi a conhecer as pessoas como realmente elas são e que, infelizmente, nem sempre podemos confiar nelas.
Aprendi, também, que o importante não é a quantidade e sim a qualidade.
A maioria das portas fechou-se para nós.
As pessoas que se diziam nossos amigos nos tratavam como estranhos.
Dos muitos amigos que tínhamos poucos nos deram a mão.
Foram tão poucos, que não me envergonho de citar o nome deles:
Isa, João Vasques, Toninho, Suzana, Rosa, Romualdo Caprara e o senhor Guido.
Eles nos deram a mão e nos abriram as portas.
Colocaram-se inteiramente a nossa disposição para o que desse e viesse.
Fiquei triste.
No meio de tantos amigos que tínhamos, nos restaram apenas sete.
No meio daquela confusão toda, de tantos problemas, não conseguia dormir nem me alimentar direito.
Emagreci demais e peguei um resfriado muito forte.
Estávamos desnorteados e sem sabermos o que fazer.
Um dia, decidimos nos suicidar.
Fizemos vários planos para a nossa morte.
Primeiro, decidimos que nos jogaríamos do topo do edifício mais alto da cidade.
Pensamos bem e chegamos a conclusão de que se fizéssemos isso prejudicaríamos o zelador do prédio.
Então, resolvemos nos jogar na linha do trem.
Essa tentativa era infalível, com certeza, morreríamos.
Porém, uma preocupação me invadia.
Eu não tinha deixado nada escrito para ele.
Disse para Itemar que seria melhor irmos jantar e depois deixar algo escrito para que Toninho pudesse entender.
Depois do jantar, nós estávamos mais calmos e decidimos entregar nossas vidas nas mãos de Deus.
Decidimos lutar com coragem pelo nosso amor.
Eu estava cada dia me sentindo pior, por conta da indiferença que vinha das pessoas.
Eu estava cada dia mais fraca e minha saúde piorava.
Nem por isso deixei de trabalhar.
Ia todos os dias ao trabalho, mas me sentia cansada e sem forças.
Certo dia, eu fiquei muito mal, com febre alta e vómito.
Naquele dia, avisei minha chefe que não ia trabalhar, pois precisava ir ao médico.
Itemar estava trabalhando e Rosa me acompanhou.
O trajecto de casa até a Plantel foi longo e sofrido para mim.
Às vezes, eu sentia a morte me rondando, mas Rosa me animava e pedia-me para ter forças, pois chegaríamos logo.
Ela queria tomar um táxi, mas eu estava tão enjoada que não podia sequer pensar em andar de carro.
Com muito esforço, conseguimos chegar.
Pedi para a secretária que deixasse me deitar no sofá de espera.
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Re: UMA LIÇÃO DE VIDA / DORAÍDES ALVES PEREIRA

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Jul 30, 2016 9:57 am

Ela percebeu que eu não estava bem e me encaminhou directamente ao consultório.
O médico disse que eu estava com pneumonia e precisava ser internada urgentemente.
Ressaltou que eu precisaria de muito repouso e cuidados e que corria risco de vida.
Fui para o hospital e fiquei internada uma semana.
Durante esse tempo que fiquei no hospital, Rosa ficava comigo durante o dia e Itemar à noite.
Nunca vou me esquecer do carinho e da atenção com que Rosa me tratava.
Eu estava muito fraca, desnutrida e desidratada; por isso, fiquei com soro o tempo todo.
Ela me dava banho, vestia-me, dava-me comida na boca.
Algumas vezes, tratava-me como uma criança e fazia tudo para me ver tranquila.
Itemar, mesmo estando cheio de problemas, fazia o possível e impossível para me ver bem.
Durante o tempo em que fiquei hospitalizada, apenas alguns amigos e minha família foram me visitar.
Algumas pessoas da Telesp ligaram para saber como eu estava.
Senti que precisava daquele carinho dos amigos, de Itemar, do médico e das enfermeiras.
Consegui me restabelecer.
Moramos uns dias no apartamento do senhor Guido.
Depois, ficamos de hotel em hotel até conseguirmos comprar a nossa casa novamente.
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