Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:18 pm

PARAÍSO SEM ADÃO
Wera Ivanovna Krijanovskaia

J. W. Rochester

Contra-capa:

O papel da mulher na sociedade ocidental começou a mudar em definitivo a partir do século XIX, época em que dois modelos se defrontavam:
o papel tradicional e submisso da mulher da sociedade patriarcal e um novo perfil progressista, da mulher em busca de sua autonomia e igualdade.
E desse gigantesco embate que Rochester tece a temática desta obra instigante.
O "Paraíso sem Adão" é uma pequena comunidade, próxima de Boston, onde são acolhidas, com suas filhas, mulheres vitimadas pela violência e pelo abandono, que tentam refazer a vida com estudo e trabalho, seguindo uma peculiar filosofia feminista.
Ellen é o protótipo dessa nova geração, que luta pela libertação da mulher do papel de mártir doméstica.
Abandonada pelo pai, e participando do drama da mãe, ela abomina o machismo da sociedade autoritária da época, mas é surpreendida por uma perigosa armadilha que se oculta no sorriso de um jovem e atraente barão.
Será a original proposta do "Paraíso sem Adão" a resposta que atende aos anseios dessa nova geração de mulheres e que dará início à construção de uma nova sociedade, igualitária? Da América, símbolo dos novos tempos, à brilhante e dissoluta sociedade russa, que Rochester desenha com maestria, o leitor encontrará uma fascinante pintura dessa época de transição, que lançou os alicerces da sociedade contemporânea.

Sobre o Autor:

John Wilmot nasceu na Inglaterra em 10 de abril de 1647 e tornou-se Conde de Rochester aos 11 anos com a morte do pai, Henry Wilmot, que deixou para ele apenas o título e pouca herança.
Era menino muito disciplinado e inteligente e aprendia com facilidade.
Foi aluno exemplar na escola primária.
Seus professores o classificavam como "um jovem que prometia" e ressaltavam sua natureza virtuosa, sempre disposto a acatar o conselho dos mais velhos.
Em 1660, aos 13 anos, foi para Oxford estudar no Wadham College, de onde saiu com o título de "Master of Arts", partindo em viagem para a França e a Itália.
Tinha todas as qualidades necessárias para ressaltar-se na sociedade de seu tempo.
Aos 16 anos, tornou-se um jovem culto, muito bem-educado, charmoso e adornado com uma natural modéstia que o tornava encantador, além de desfrutar de feições extremamente atraentes.
Mas aos 17 anos, já estava engajado nas intrigas da Corte do Rei Charles II, de quem tornara-se homem de confiança.
Daí por diante, fantásticas histórias circulavam com o seu nome:
raptou Elizabeth Mallet e foi preso, mas casou-se com ela aos 19 anos e teve quatro filhos; desfrutou inúmeras aventuras amorosas com cortesãs e senhoras da alta sociedade; fez amizades literárias; aventurou-se como médico e astrólogo; indispôs-se com o Rei e participou de alguns duelos.
Rochester sentia um enorme ódio pela frívola sociedade inglesa, pois detestava a imoralidade "nos outros", mas permitia-se todos os desatinos.
Aos 30 anos, quase cego, muito doente e coxo, conseguiu recuperar-se e retornou à vida tresloucada em Londres.
Aos 33 anos, após desfrutar de todas as paixões desenfreadas, já agonizante, chamou um sacerdote e iniciou sua última aventura: a busca de Deus.
Naquele "testamento espiritual", Rochester deixou registado o remorso e a mágoa pelo tempo desperdiçado com loucuras inomináveis e declarou que, do fundo de sua alma, abominava todo o curso de sua existência devassa.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:19 pm

No fim da vida, Conde de Rochester, há mais de 300 anos atrás, já demonstrava intuição da ideia de reencarnação, quando dissertava:
"O mais certo é que a alma comece de novo, e que a lembrança do que ela fez neste corpo, registada nos desenhos do cérebro, tão logo seja desalojada, desapareça, e a alma seja levada a algum novo estado para começar novo ciclo".
Regressando à pátria espiritual, Rochester resolve enviar, através da médium russa Wera Kryzhanovskaia, mensagens de que o espírito sobrevive e reencarna tantas vezes quantas necessárias ao seu reajuste cármico e segundo as leis de Deus, apresentando aos leitores belíssimas histórias de reforma íntima no ser encarnado.

EDITORA DO CONHECIMENTO
"No amor não existe igualdade; não há a assim chamada livre união de almas e outros ideais inventados por professores alemães em suas horas de lazer...
Não, no amor, uma das pessoas é escravo e a outra, senhor.
Não é à toa que os poetas discursam sobre os grilhões impostos pelo amor.
Sim, o amor é uma corrente que nos prende, e das mais pesadas"
Turguenev
- Ivan Turguenev (1818 - 1883) - Escritor russo, autor de inúmeros contos, romances e peças teatrais.

"As lágrimas femininas atraem o fogo dos Céus sobre aqueles por quem são derramadas."
Rig-Veda
- Rig-Veda - O mais antigo livros dos Vedas (as escrituras sagradas do Hinduísmo), composto por 1028 hinos.

Apresentação:

Vitória Harrison era uma jovem americana que se apaixonou por um estrangeiro - o conde Artemiev - e se tornou sua esposa, mesmo contra a vontade de seu tutor, acreditando que o matrimónio lhe traria uma vida de paz e amor. Em sua pueril inocência, não imaginava a terrível solidão e os dissabores que a aguardavam. O ápice do descaso conjugal culminou no regresso do conde à sua pátria natal, a gélida Rússia, deixando-a só e desamparada, com a uma filha pequena - sua única felicidade, fruto e lembrança de seu amor por Artemiev.
Esse inesperado abandono levou Vitória a buscar auxílio na comunidade "Paraíso sem Adão", uma instituição filantrópica criada para acolher mulheres vitimadas por maus-tratos nos casamentos malsucedidos.
Nesse abrigo, num ambiente de isolamento, mulheres e meninas abandonadas se dedicavam ao desenvolvimento intelectual e ao aprendizado de ofícios voltados para o auto-sustento, buscando no trabalho o remédio para o alívio das chagas da alma, e aprendendo que podiam ser independentes das humilhações impostas pelo matrimónio e pelo julgo masculino.
Após a morte de Vitória, Ellen permaneceu no abrigo, onde passou toda sua infância e adolescência num ambiente de completa aversão ao género masculino, criando assim dois principais objectivos para sua vida:
o primeiro, se dedicar de corpo e alma ao movimento feminista de sua comunidade, da qual se tornara uma fervorosa defensora e pregadora; o segundo, encontrar seu pai e se vingar das privações e desgostos pelas quais sua mãe havia passado, e que acabaram por esgotar sua saúde, levando-a à morte.
Mas a bela e orgulhosa Ellen não imaginava que, numa de suas viagens à Europa, o destino - essa estranha e sábia força que nos conduz ao ajuste cármico - pudesse colocar em seu caminho duas grandes provações: o reencontro com o pai e a luta contra o ardente amor do barão Ravensburg, que encarnava as piores facetas masculinas.
Conseguiria Ellen perdoar seu pai, ou manteria o antigo plano de vingança contra aquele que covardemente a abandonara na infância?
Teria forças suficientes para se manter fiel às causas que defendia, ou se entregaria ao amor do jovem e atraente barão, mesmo sabendo das consequências que tal união conjugal poderia trazer ao seu futuro?
Mais uma vez, Rochester surpreende o leitor, trazendo à luz um tema delicado para a então sociedade do século XIX: o feminismo.
Com seu estilo característico e sua sagaz criatividade, o autor nos conduzirá a mais uma formidável história, psicografada pela médium russa Vera Ivanovna Kryzhanovskaia.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:19 pm

Capítulo 1

- Clara, você por aqui?
- E você, Vitória, como veio parar em Boston?
Eu imaginava que estivesse em Nova Iorque ou retornado à Rússia.
Com essas palavras, duas damas encontraram-se na porta de uma loja.
Elas apertaram as mãos e, em seguida, aquela que se chamava Vitória respondeu com um suspiro:
- Estou morando em Boston há mais de quatro anos.
Circunstâncias terríveis me trouxeram para cá.
E você, Clara, vejo que está de luto!
Ficou viúva?
Lembra... quando deixamos o colégio interno.
Éramos alegres, despreocupadas e cheias de esperanças.
Jamais poderíamos imaginar que doze anos depois nossas vidas estariam completamente destroçadas!
- Pois é! Pelo seu rosto, Vitória, nota-se que a vida não a poupou.
- Bem, Clara, aproveitemos este feliz encontro e vamos até minha casa.
Quero lhe apresentar minha filha, Ellen.
Lá poderemos conversar mais à vontade.
- Agradeço e aceito o convite.
Só não posso ir agora, pois preciso fazer umas compras para a comunidade da qual faço parte.
- Mas como? Você não mora em sua própria casa?
- Não. Meu amável esposo me deixou numa situação tão "maravilhosa" que eu teria sucumbido com três filhos, não fosse a sociedade "Paraíso sem Adão".
Não me diga que nunca ouviu falar dela?
Essa comunidade é bem conhecida em Boston.
- Naturalmente! Agora me recordo que o doutor Wilson me falou a respeito dessa instituição.
Entretanto, pelas palavras dele, essa comunidade é somente um sector anexo a um manicómio.
No rosto de Clara surgiu um desdenhoso sorriso.
- Ele realmente deve considerar loucura a criação de um paraíso não profanado por Adão.
Essa história é antiga.
Os homens sempre vêem com desprezo e ironia qualquer tentativa das mulheres de se livrarem do seu grosseiro e despótico domínio. O nosso "hospício" tem por objectivo não somente abrigar vítimas de casamentos desastrosos, mas, principalmente, educar as moças de forma a torná-las independentes na vida e alheias aos perniciosos sonhos de amor e casamento.
Então, mesmo que mais tarde sejam seduzidas pelas cruéis leis da natureza que obrigam a mulher a amar e a se entregar a um tirano, pelo menos o farão conscientemente.
Essas últimas palavras fizeram Vitória emocionar-se.
Pegando a amiga pela mão, pediu-lhe:
- Prometa que virá me visitar à noite.
Parece que foi a própria Providência quem a enviou.
Você precisa me contar todos os detalhes sobre esse abrigo, pois gostaria de educar Ellen exactamente pelos princípios que citou.
Depois de trocarem endereços e combinarem a hora do encontro, elas se separaram.
Vitória Rutherford-Ardi embarcou na carruagem e ordenou que a levassem para casa.
Ao saber que a filha ainda não havia retornado do passeio com a governanta, trancou-se no quarto, deitou-se no sofá e ficou pensativa. O encontro com a amiga despertou lembranças do passado e deu nova direcção a seus planos para o futuro.
Vitória Harrison perdeu os pais na infância.
O tio, que também era seu padrinho, adoptou-a e a educou.
Rico e solteirão, deu a Vitória uma brilhante educação.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:20 pm

Ele a amava como a uma filha.
Vitória deixou o colégio interno aos dezasseis anos.
Era uma moça encantadora, esbelta e graciosa, de abundantes cabelos loiros, cútis de branco ofuscante e grandes olhos escuros que brilhavam com inteligência e bondade.
O senhor Crawford, orgulhoso da sobrinha, instalou-a em sua luxuosa casa, localizada num dos melhores quarteirões de Nova Iorque e passou a apresentá-la à sociedade.
Vitória era bela e a única herdeira do velho ricaço.
Por isso, não lhe faltavam admiradores e pretendentes.
Mas dizia "não" a todos porque nenhum conseguira tocar seu coração; o tio, que a adorava, estava feliz, pois assim ela continuava com ele.
Passaram-se dois anos, os mais felizes da vida de Vitória.
Certa vez, no baile dos Vanderbilds, ela conheceu um jovem russo que, conforme diziam, viajava a bel-prazer e há alguns meses residia em Nova Iorque.
Vladimir Aleksandrovitch Artemiev era um elegante, educado e belo rapaz.
Parecia ser muito rico, pois vivia à larga e frequentava a alta sociedade.
Artemiev agradou a Vitória desde o primeiro olhar.
Essa impressão foi recíproca, pois ele se apresentou ao velho Crawford, passou a cortejar insistentemente sua sobrinha e três meses depois lhe propôs casamento.
Para extrema surpresa de ambos, o velho rejeitou terminantemente o pedido.
Artemiev despertou nele uma incontrolável aversão, e um pressentimento de que essa união traria infelicidade à sua adorada sobrinha.
Crawford era trabalhador, enérgico, persistente, tendo conquistado sua posição pelo próprio esforço.
Durante a dura vida de trabalho, adquiriu profundo conhecimento do ser humano e desenvolveu um olhar certeiro e penetrante.
Portanto enxergou em Artemiev, sob a encantadora aparência de homem mundano, um egocêntrico e preguiçoso vagabundo sem coração, acostumado a satisfazer somente a própria vaidade e caprichos.
Vendo com tristeza o crescente interesse que aquele homem provocava em sua sobrinha, Crawford levantou informações sobre ele através da embaixada americana em São Petersburgo.
O que soube só confirmou sua opinião.
Vladimir Aleksandrovitch pertencia a uma antiga e rica família, servia num dos regimentos da Guarda e levava uma vida bem dissoluta.
Participara de uma intriga política que fora desastrosa para seus companheiros menos cuidadosos; ele, entretanto, escapou ileso.
Ficou mal explicado se realmente estava pouco comprometido ou se sua família conseguiu absolvê-lo através de amigos influentes.
Para livrá-lo de perigos eventuais e dar um tempo para o desagradável caso cair no esquecimento, a família obrigou-o a pedir baixa e mandou-o passar alguns anos fora do país.
A mãe enviava anualmente uma grande quantia de dinheiro, que lhe garantia não somente a sobrevivência mas lhe permitia até casar.
Foi isso que explicou a Crawford quando veio pedir-lhe a mão da sobrinha.
Além disso, declarou que tinha decidido morar em definitivo em Nova Iorque.
A inesperada negativa do velho ianque(1) ofendeu a vaidade do rapaz, despertando nele toda a sua teimosia.
A partir daquele momento, Vitória adquiriu para ele um valor muito maior e seu desejo de possuí-la multiplicou-se por terem ousado contrariá-lo.
A conversa que teve com a moça, loucamente apaixonada por ele, provocou uma cena agitada e o rompimento entre ela e o tio.
Aos rogos e lágrimas de Vitória, o velho respondia com um inabalável "não".
- Aquele esbanjador sem coração e sem princípios morais a fará infeliz.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:20 pm

O olhar frio e indiferente dele reflecte o egoísmo e o vazio de sua alma, mas você está cega de amor e, naturalmente, não percebe isso.
Se depender de mim jamais será seu marido.
Quando você voltar a enxergar, vai até agradecer a minha inflexibilidade.
Realmente, a jovem Harrison, cega de paixão, não queria ver nem ouvir nada e quando se viu obrigada a escolher entre o noivo e seu benfeitor, declarou que permaneceria fiel ao seu amado.
Vitória deixou a casa do tio e foi morar com uma de suas amigas.
Duas semanas depois, casou-se com Artemiev, convencida por ele de que o facto consumado iria quebrar a teimosia do velho.
Nem ela própria admitia que aquele que sempre a amara poderia se ressentir por causa de algo absolutamente natural.
Mas Vitória estava enganada.
Thomas Crawford era implacável.
Através de um procurador enviou à sobrinha uma pequena quantia em dinheiro, que era a herança de seu pai, as jóias e a mobília do quarto dela.
Mandou dizer-lhe que as relações entre eles estavam definitivamente cortadas, que a considerava uma estranha e que ela jamais receberia um tostão da fortuna dele.
A carta que ela enviou ao tio foi-lhe devolvida sem abrir e, um pouco mais tarde, Vitória soube que o senhor Crawford deixara Nova Iorque e fora passear na Europa.
A jovem senhora Artemiev ficou profundamente decepcionada com a insistente ira do tio, mas ainda estava embevecida de amor e felicidade; por isso não sentiu a perda da afeição e da protecção que a acompanharam desde a infância.
A felicidade da pobre Vitória foi curta e os pressentimentos de Crawford confirmaram-se rapidamente.
A paixão passageira de Vladimir Aleksandrovitch esfriou logo que ela engravidou; quando nasceu a filha, Artemiev definitivamente cansou-se da vida familiar e passou a buscar avidamente diversões fora de casa, deixando a jovem mãe sozinha.
O casamento de Vitória, semelhante a uma fuga, e o subsequente rompimento com o tio, distanciaram-na ainda mais de grande parte das famílias que ela antes frequentava; o marido, por sua vez, não criou para ela um novo círculo de amizades e, desse modo, ela ficou só.
Por fim, veio a desilusão com o marido, piorando ainda mais a tristeza de seu isolamento.
Artemiev tirou a máscara, revelando em toda crueza sua alma depravada e cruel egoísmo.
Sendo sócio de muitos clubes e apaixonado por desportos, voltava para casa apenas para comer e dormir.
Para que a linda, inteligente e jovem esposa não encontrasse algum "consolador", Artemiev fechou a porta de casa para qualquer pessoa.
Limitava-se a contar à mulher o que acontecia na sociedade, calando, naturalmente, sobre as próprias aventuras.
Desesperada com esse tipo de vida e indignada com o comportamento e as traições do marido, Vitória definhava a olhos vistos.
Mas isso não afectava Artemiev, que nada notava.
Cansara-se da esposa, que era para ele um peso e um laço em seu pescoço.
Tinha afeição somente pela pequena Ellen, que o atraía pela beleza e inteligência precoce; ele até a acariciava de vez em quando.
Assim passaram-se quatro anos.
Melancólica e exausta, Vitória suportava uma existência penosa e monótona, vivendo somente para a filha.
Sua única confidente e amiga era sua antiga babá, Harrietta.
Enquanto Vitória estava no colégio interno, o senhor Crawford conservou a babá na casa e, depois do casamento dela, essa senhora a acompanhou.
Agora cuidava dela como a uma filha.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:20 pm

Não fosse essa dedicada alma, Vitória não saberia administrar a casa conforme as exigências do marido, que lhe entregava para tal mísera quantia de dinheiro.
Naquela época, Artemiev recebeu uma carta que o deixou muito preocupado.
Sua mãe escreveu que um tio falecera deixando-lhe uma grande herança e que ele deveria apressar-se para tomar posse dela.
Acrescentava que a brincadeira juvenil que o obrigara a deixar a pátria fora esquecida e perdoada e agora dependia somente dele ocupar um bom cargo no ministério, pois um velho amigo da família fora promovido e prometera destinar a ele, Vladimir, a primeira vaga em sua repartição.
"Você ainda fará uma brilhante carreira.
Como todas as damas guardam de você tantas lembranças boas, você poderia arranjar uma noiva rica, se não fosse tão descabeçado e imprudente para se casar com uma americana paupérrima."
Assim terminava a carta da mãe de Vladimir, que a releu várias vezes, ficando emocionado a ponto de o sangue subir-lhe à cabeça.
Em sua imaginação aparecia a tentadora visão da distante capital, com suas inúmeras diversões, conquistas e aventuras amorosas que, sem dúvida o aguardavam nos salões, onde já se via desempenhando o papel de herói.
Agora que suas posses duplicaram, todos iriam adulá-lo ainda mais.
Sim, sua mãe estava certa!
Ele fora um imbecil em se casar.
Agora, teria de chegar a São Petersburgo acompanhado daquela mulher estranha, que iria abalar terrivelmente o seu prestígio de cavalheiro.
Além do mais, estava saturado da constante tristeza dela e até a vida em Nova Iorque entediava-o.
Então, foi tomado de raiva intensa contra Vitória.
- Aquela vazia e romântica imbecil que se agarra a mim e me estraga a vida! - murmurou furioso.
Repentinamente, teve uma brilhante ideia.
Por que deveria arrastar consigo a esposa para São Petersburgo?
Seria até mais natural se partisse sozinho para a Rússia para tomar posse da herança, restabelecer contactos, conseguir o cargo prometido e, por fim, construir o seu lar.
Somente uns seis ou sete meses mais tarde, ou no mais tardar um ano, levaria a esposa e a filha.
Mas, por enquanto, até organizar seus negócios importantes e complicados, era necessário ir sozinho a fim de que nada o atrapalhasse.
Assim, decidido, Artemiev respirou aliviado, reprimindo algumas dores de consciência e passou a se preparar activamente para a viagem.
Primeiramente, escreveu à mãe dizendo que chegaria sozinho, pedindo-lhe que enviasse uma considerável soma em dinheiro para pagar supostas dívidas.
No início, pretendia entregar esse dinheiro à esposa, mas quando o recebeu achou por bem deixar a maior parte para uma de suas amantes, como presente de despedida.
"Vitória pode muito bem reduzir um pouco suas despesas, pois, de qualquer forma, não recebe ninguém.
Além do mais, ainda possui o dinheiro dado pelo velho Crawford", justificou a si próprio.
Ele ignorava que o pequeno capital fora gasto há muito tempo nas despesas pessoais de Vitória e da filha.
Aliás, mesmo se soubesse, isso não o incomodaria!
A partir do momento em que soube da partida do marido, Vitória entrou em sombrio desespero.
O coração sussurrava-lhe que Artemiev a deixava por um longo tempo, talvez para sempre.
A suspeita de que a pessoa por quem sacrificara tudo, inclusive o seu benfeitor, a abandonaria e à criança como uma carga inútil, torturava sua alma com um sentimento inexplicável, mas intenso.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:20 pm

Entretanto, era por demais orgulhosa para queixar-se, rebaixar-se ou apelar às repreensões ou acusações.
Então, aparentando frieza e tranquilidade, passou a preparar as coisas do marido para a viagem.
Finalmente chegou o dia da partida.
As horas alongaram-se demasiado e a refeição matinal se passou em profundo silêncio; em seguida, Vladimir Aleksandrovitch dirigiu-se ao gabinete para guardar algumas miudezas e trancar as malas.
Tomado por uma incompreensível e doentia tristeza, andou pelo quarto e encostou-se pesadamente na maciça escrivaninha.
Não imaginava que esse momento seria tão difícil e que a separação daquelas criaturas que lhe pareciam um estorvo o emocionaria tanto.
Talvez a consciência tenha despertado em algum cantinho obscuro de sua alma e gritava:
"Seu patife!
Por causa de simples diversões você despreza o dever e abandona as sagradas obrigações que assumiu voluntariamente!"
Passou a mão pela testa, como se quisesse afastar esses incómodos pensamentos e, agarrando o chapéu, saiu quase correndo do quarto.
Passando directo pelo refeitório, onde a velha Harrieta limpava a mesa, Artemiev entrou no dormitório.
Encontrou Vitória parada junto à janela.
Ela estava terrivelmente pálida, olhar febril e ardente, mas não chorava; apenas amassava nervosamente com a mão a fita que trazia na cintura.
No umbral da janela estava sentada uma encantadora menina de três anos, brincando com a boneca.
A pequena Ellen parecia com a mãe.
Tinha a mesma cor deslumbrante da cútis e os mesmos traços; somente os cabelos e os olhos azuis e luminosos eram do pai.
Vladimir Aleksandrovitch parou por um instante na porta, dirigindo um rápido olhar para os dois comoventes seres que abandonava.
Quando Ellen sorriu e estendeu-lhe os bracinhos, algo obscuro agitou-se em seu frio e egocêntrico coração.
Aproximando-se rapidamente da criança, cobriu-a de beijos, em seguida puxou a esposa para si e beijou-a carinhosamente:
- Não fique triste, minha querida!
Daqui a alguns meses nos veremos novamente.
Só Deus sabe como gostaria de levar comigo você e a minha filha, mas é impossível por causa dos meus parentes e todos os negócios que preciso pôr em ordem.
Virei buscá-las, assim que me estabelecer.
Por enquanto não chore e cuide de si e do nosso anjinho.
Quando chegar em São Petersburgo imediatamente lhes enviarei algum dinheiro.
Abraçou a esposa pela última vez e, sem olhar para trás, saiu do quarto.
Naquele instante, estava com a melhor das intenções; mas, como dizem, o inferno está cheio de "boas intenções".
Ao trancar a porta atrás de Artemiev, a velha Harrieta acompanhou-o com o olhar cheio de ódio e desprezo.
- Vá, vá embora, seu patife!
Que a maldição divina o acompanhe! - resmungou ela.
Harrieta estava convencida de que ele jamais retornaria.
Teve certeza desde que encontrou por acaso uma carta, caída do bolso do sobretudo de Artemiev, quando ele pretendia levá-la ao correio.
Ele depois procurou a carta sem resultado e achou que a tinha deixado cair na rua.
Indignada com o facto de Artemiev partir sem a esposa, a velha tinha algumas suspeitas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:21 pm

Escondeu aquela carta, que estava endereçada à mãe de Artemiev, e deveria conter planos detalhados sobre o futuro.
A carta estava escrita em russo, mas isso não desanimou Harrieta.
Ela tinha uma parente, casada com um contramestre naval russo, que possuía uma tavena no porto; ele traduziu-lhe a carta, cujo teor superou todas as expectativas.
Era uma resposta à carta anterior da mãe de Artemiev, recebida junto com o dinheiro solicitado.
A mãe expressava satisfação pelo facto de o filho chegar sozinho e lamentava amargamente que a separação da esposa não fosse definitiva, pois ela sempre ocultara esse infeliz casamento da sociedade, esperando que, mais cedo ou mais tarde, terminasse em divórcio.
No início de sua carta, Vladimir Aleksandrovitch agradecia calorosamente à mãe por ter mantido em segredo a estupidez feita por ele.
Confessava, ao mesmo tempo, que ele próprio sempre ocultara sua situação de casado nas raras correspondências com a pátria.
Em seguida vinha uma cruel e falsa descrição de Vitória como mulher, exigente e limitada, de quem ele há muito tempo ansiava separar-se, sendo impedido somente por sua magnanimidade e amor pela filha; além disso, a separação, em consequência da viagem, seria talvez definitiva, em razão do fraco estado de saúde da esposa.
Na opinião dos médicos, Vitória sofria de um perigoso mal cardíaco, agravado por profunda complicação do sistema nervoso, o que prognosticava morte iminente.
Esse fim natural, para o casamento, seria bem melhor que o divórcio; quanto à sua filha, ele esperava que a menina conquistasse a vovó com sua beleza e inteligência.
A velha Harrieta ficou estarrecida e considerava seu patrão um patife inveterado.
A velha guardava cuidadosamente esse documento revelador, pelo ódio que sentia por Artemiev.
Quem sabe se no futuro essa carta não serviria como arma para sua senhora, contra o seu indigno marido?
Passou-se quase um ano sem Vitória receber qualquer notícia do marido.
Nos primeiros tempos ela aguardava cartas dele com febril impaciência e depois com tristeza, pois o dinheiro estava acabando rapidamente.
Por fim, teve de reconhecer, desesperada, que fora traiçoeiramente abandonada e devia contar só consigo mesma, pois era demasiado orgulhosa e preferia morrer de fome a exigir o sustento do marido.
A jovem senhora Artemiev, corajosamente, reduziu ainda mais suas parcas despesas, alugou um pequeno apartamento, vendeu a mobília e as jóias; como era óptima musicista, logo encontrou alunos de música.
Mas esse tipo de vida ao qual não estava acostumada reflectiu-se de forma destrutiva na sua saúde já abalada.
Certa vez, correndo de uma aula para outra sob intensa chuva, resfriou-se e pegou tifo.
Foi uma época terrível para a pobre Harrieta.
Esta esforçava-se ao máximo, cuidando da paciente e lutando contra a miséria que havia se abatido sobre a casa.
Certo dia, quando levava ao penhor um objecto para comprar remédio, encontrou na volta o velho Crawford que imaginava ausente.
Esse encontro despertou em seu coração uma nova esperança.
Esquecendo de tudo, Harrieta correu até a casa dele onde soube que o senhor Crawford, após voltar da Europa onde passara mais de dois anos, viajara pelos estados sulinos, tendo retornado a Nova Iorque há algumas semanas.
Harrieta voltou para casa com o firme propósito de tentar reconciliar o tio com a sobrinha.
Estava claro para ela que o próprio Deus trouxera a Nova Iorque o padrinho de sua jovem senhora, exactamente no momento em que ela quase morria na miséria.
Ao entardecer, deixou uma vizinha solidária à cabeceira do leito de Vitória e foi com a pequena Ellen à casa de Crawford.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:21 pm

O velho mordomo ficou espantado ao ver as inesperadas visitantes.
Quando soube das desgraças que se abateram sobre a sua pequena e querida senhora, como ele costumava chamar Vitória, seu coração encheu-se de pena da infeliz.
Com lágrimas nos olhos, o fiel criado beijou a criança.
- Venha comigo, senhora Harrieta.
Não importa o que aconteça, vou levá-la até a porta do gabinete do meu patrão.
Como ele está sozinho, faremos a pequenina entrar no quarto e a visão desse anjinho talvez amoleça seu coração.
Thomas Crawford estava sentado pensativo numa poltrona diante da lareira.
O vazio da enorme casa oprimia-o; cada aposento, cada objecto lembrava-lhe a garota que educara e que tinha esperanças de ser sua alegria e conforto na velhice.
Absorto em seus pensamentos, não ouviu a porta que se abriu nem os inseguros passinhos na sua direcção; somente o som repentino de um soluço fê-lo estremecer e voltar-se rapidamente.
A alguns passos estava parada Ellen, que Harrieta havia empurrado para dentro do gabinete, instruindo-a previamente sobre o que devia falar.
Decidida por natureza, certa de que estava indo falar com um velho parente, o único que poderia devolver a saúde da mamãe, a garotinha entrou corajosamente no gabinete.
Mas, ao ver-se num ambiente estranho, diante de um velho sisudo, a coragem abandonou-a.
Sem ousar ir em frente nem recuar a menina começou a chorar.
- Quem é você, pequenina?
O que quer de mim? - perguntou Crawford, disfarçando a emoção sem tirar os olhos da criança.
Apesar do pobre e velho vestidinho, a garotinha estava linda com seus longos cabelos escuros e cacheados, rostinho pálido e grandes olhos azuis que o olhavam assustados.
- Eu sou Ellen... - balbuciou ela, indecisa.
Em seguida, lembrando as instruções de Harrieta, estendendo para ele seus bracinhos, exclamou:
- Vovô! Perdoe-nos!
Devolva a saúde da mamãe!
Este pedido desanuviou instantaneamente a sisudez de Crawford.
O pedido era feito pela filha de Vitória!
Estava claro que uma desgraça se abatera sobre sua sobrinha.
Cedendo à emoção do momento, inclinou-se para a menina, levantou-a e beijou-a ternamente.
- Mas quem a trouxe aqui?
- Harrieta! Ela está lá, atrás da porta - respondeu Ellen com o rostinho mais risonho.
Satisfeita com o sucesso da tentativa, Harrieta apareceu imediatamente no quarto e contou em detalhes toda a vida de Vitória, desde o casamento.
Quando Crawford soube como a sua sobrinha fora vergonhosamente abandonada, ficou possesso.
- Aquele patife! Imprestável, trapaceiro!
Graças a Deus foi embora e nunca mais voltará aqui! - resmungou, dando com soco na mesa.
Perdoo a pobre Vitória; ela já foi muito castigada pela própria cegueira.
Ordenando imediatamente preparar a carruagem, Crawford, com a menina e Harrieta, foi ver a sobrinha.
A visão de Vitória, irreconhecível por causa do emagrecimento, prostrada sem sentidos no leito, comoveu o coração de Crawford e toda a sua antiga raiva e rancor foram definitivamente esquecidos.
Algumas horas mais tarde, Vitória, sem ter consciência disso, retornava à casa onde crescera e junto ao seu leito foram reunidos os melhores, médicos de Nova Iorque.
Graças ao bom tratamento e a sua juventude, Vitória foi salva.
A alegria do reencontro com o tio, seu perdão total e palavras carinhosas em muito colaboraram na recuperação.
Já estava quase restabelecida quando, de São Petersburgo, chegou uma carta com dinheiro, endereçada à senhora Artemiev.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:21 pm

O pacote foi recebido por Crawford, que o abriu sem qualquer constrangimento.
Como ele pressupunha, a carta era de Vladimir Aleksandrovitch que, com palavras doces, desculpava-se com a esposa pelo longo silêncio e informava que, em razão de grande confusão nos negócios, era obrigado a adiar o encontro deles por um período indeterminado.
Por isso, pedia-lhe que aguentasse mais um pouco, prometendo enviar mais dinheiro em breve.
Após ler a carta, Crawford sorriu com ironia.
Querendo saber a verdade sobre a situação e modo de vida de Artemiev, decidiu enviar à Rússia uma pessoa de sua confiança para levantar minuciosas informações a respeito dele.
O enviado, seu ex-tesoureiro, viajou munido de cartas de recomendação e instruções detalhadas.
Cumpriu bem a sua missão e, ao voltar, informou a Crawford todos os detalhes da vida de Vladimir Aleksandrovitch.
Este vivia ao bel-prazer em São Petersburgo, com a "cocote" americana Charlotte Simpson, que trouxera de Nova Iorque e continuava sustentando.
Ocupava um cargo de destaque e bem remunerado, tinha fama de solteirão e fazia sucesso tanto na alta quanto na baixa sociedade.
Crawford recebeu essas informações com um sorriso de desprezo.
Na mesma noite incumbiu Harrieta de escrever uma carta, na qual comunicava a Artemiev que Vitória, obrigada a dar aulas para sobreviver, morrera de tifo; a pequena Ellen, contaminada por ela, alguns dias depois seguiu a mãe para o túmulo.
Em função disso, Harrieta devolvia a Vladimir Aleksandrovitch o dinheiro que enviara à esposa.
No dia seguinte, a carta e o dinheiro foram remetidos a São Petersburgo.
Harrieta jurou a Crawford que manteria segredo até quando ele achasse necessário.
Enquanto isso, Vitória recuperou-se fisicamente, mas seu espírito permanecia doente.
Apesar da alegria da reconciliação com o tio, continuava arredia, fraca e extremamente nervosa.
Crawford concluiu que a ferida em sua alma ainda não estava curada e decidiu instalar a sobrinha num novo ambiente, onde nada lembraria a desavergonhada pessoa que a abandonara traiçoeiramente.
O enérgico ianque jamais deixava decisões na gaveta e assim que seu plano amadureceu definitivamente, chamou a sobrinha ao gabinete para conversar.
Pela primeira vez, Crawford falou-lhe sobre o passado e contou em detalhes todas as culpas de Artemiev contra a esposa e a filha; relatou também a chegada do dinheiro e as informações que recebera de São Petersburgo bem como sua decisão de declarar como mortas Vitória e a filha.
- Talvez tenha feito mal em não consultá-la sobre isso - acrescentou o velho -, mas pretendia separá-la de vez daquele miserável que, aparentemente, ficou feliz por livrar-se tão confortavelmente desse "erro da juventude".
Já faz quatro meses que ele deve ter recebido a notícia de sua suposta morte; apesar disso, não escreveu, não perguntou detalhes, sequer exigiu a certidão de óbito.
Só isso bastaria para entender o quanto ele vale, mas tenho aqui um documento escrito por ele pessoalmente.
Espero que isto acabe de vez com suas ilusões.
Então, Crawford entregou à sobrinha a carta que Harrieta escondera.
Vitória estava terrivelmente pálida e, cerrando os lábios, ouviu o tio sem interromper.
Sem falar uma palavra, leu a tradução da carta do marido.
Somente o tremor das mãos e o brilho febril dos olhos revelavam sua emoção.
Após longo silêncio, Vitória pegou a mão do velho e levou-a aos lábios.
- Tio Tom, obrigada por tudo!
Eu própria faria o mesmo.
Agora, estou feliz, pois ele jamais poderá tirar Ellen de mim.
Estamos mortas para ele.
- Sem dúvida!
Mas não esqueça de que a cautela é a mãe da segurança!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:21 pm

Para evitar qualquer imprevisto, acho que você deve desaparecer completamente.
Então, Crawford revelou-lhe seu plano, que Vitória aceitou sem quaisquer restrições:
o senhor Thomas venderia todas as suas propriedades em Nova Iorque e se mudariam para Boston.
Vitória receberia o sobrenome da avó materna, Rutherford-Ardi.
Assim, ela romperia definitivamente com o passado e viveria apenas para a filha e o tio.
Passaram-se três anos quando, repentinamente, uma nova desgraça abateu-se sobre a pobre Vitória.
Após alguns meses de sofrimento, seu tio morreu de câncer no estômago.
Ela se sentiu completamente infeliz e solitária, pois a fiel Harrieta já tinha falecido há muito tempo.
Pelo testamento de Crawford, a herança, que superava quaisquer expectativas, passava para sua queridinha, Ellen, enquanto que para a sobrinha deixava uma grande renda e a casa onde residiam.
No início do nosso relato, já se haviam passado dois anos desde a morte de Crawford e Ellen estava com nove anos.
Sua extraordinária inteligência e carácter enérgico surpreendiam a mãe, fazendo-a, ao mesmo tempo, temer pelo futuro da filha.
Os homens cortejariam aquela moça linda, rica e inteligente, e ela cairia, vítima do poderoso sentimento, fatal para a mulheres.
Neste momento já estaria sozinha, pois a saúde de Vitória esvaía-se rapidamente e não havia dúvidas quanto à proximidade do seu fim.
Por isso, considerou o encontro com a amiga um sinal da Providência, especialmente porque a comunidade "Paraíso sem Adão" correspondia ao ideal de educação que pretendia dar à filha.

(1) - Ianque - Diz-se dos habitantes da "Nova Inglaterra", nos Estados Unidos, constituída pelos estados de Connecticut, Maine, Massachusetts, New Hampshire, Rhode Island e Vermont.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:21 pm

Capítulo 2

À noite, Vitória recebeu a visita de Clara Forest.
Após o chá, Ellen e a governanta foram para o seu quarto, enquanto as amigas se instalaram num amplo divã turco.
- Primeiro me conte sobre você - disse Vitória, beijando a amiga.
Depois, passe-me informações detalhadas sobre a sua comunidade, as instalações, estatutos e tudo mais.
- Oh! Sobre mim não há muito que contar - disse Clara, suspirando.
Como deve lembrar, deixei o colégio interno já noiva de James Forest, filho de um velho amigo de meu pai.
Ao me entregar a ele, meu pai imaginava estar garantindo a minha felicidade; ele morreu acreditando nisso, mas, para mim, logo chegou a desilusão.
Percebi que meu marido era um esbanjador e farrista; desperdiçou toda a minha herança em diversas especulações e, depois, apaixonando-se loucamente pela babá dos nossos filhos, fugiu com ela para a Europa.
Mais tarde, soube que morreu na miséria, abandonado pela beldade que encontrou um amante mais jovem e rico.
Ao ficar só, sem recursos para sobreviver e com quatro filhos para criar, pensei que ia enlouquecer.
Foi particularmente doloroso quando meu único garoto morreu de difteria.
Realmente, não sei o que aconteceria se o acaso, ou melhor, se Deus, não colocasse no meu caminho a senhora Oliver, directora da comunidade à qual pertenço agora.
Ela recebeu a mim e minhas três filhas.
Agora elas estão recebendo uma boa e sensata educação na escola onde trabalho como inspectora.
- Conte-me em detalhes quais são o objectivo e as bases da sua comunidade.
- Posso explicar tudo o que desejar!
Nossa sociedade foi fundada há quinze anos, por uma pessoa que sofreu o mesmo desastre no casamento como eu e você.
Uma mulher rica, solitária e sem filhos, dona de extraordinária energia, dedicou sua vida e posses a esse empreendimento; Deus abençoou a iniciativa dela, pois o movimento vem crescendo acima das expectativas.
Actualmente a comunidade é inteiramente sustentada por grandes doações.
Quando você for me visitar, poderá julgar por si mesma.
Nosso estatuto, em resumo, é o seguinte:
a comunidade acolhe mulheres desgraçadas pelo casamento, tantas quantas puder alimentar, bem como suas crianças, se as tiver.
São admitidas mulheres sem qualquer distinção de classe social e cada uma delas contribui para a comunidade, na medida de suas forças e capacidade.
Mulheres financeiramente independentes, que entram definitivamente na comunidade, pagam sua manutenção e doam uma determinada quantia à instituição, conforme acordo prévio.
Essa doação é aplicada na manutenção do orfanato e dos indigentes, pois também abrigamos órfãos e meninas abandonadas.
- O que suas alunas se tornam no futuro? - perguntou Vitória, que ouvia tudo com atenção.
- Cada menina aprende um ofício que poderá sustentá-la e tomá-la independente.
Tentamos formar o carácter, desenvolver a energia das alunas e destruir as perigosas ilusões sobre o amor e a felicidade conjugal.
Cada uma delas deve estar preparada para a vida.
Assim, se tiver um casamento infeliz, não ficará à mercê do marido.
- Tudo que está contando me dá vontade de ir morar com vocês.
Você entenderá quando lhe contar minha vida.
Então, Vitória contou à amiga o que já é do conhecimento do leitor.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:22 pm

- Temo pelo futuro de Ellen - acrescentou em seguida.
Minha saúde está abalada e qualquer ataque de coração pode levar-me repentinamente ao túmulo.
Isso significa que logo ela ficará sozinha.
Tremo só de pensar o que acontecerá com minha filha, quando ela, bonita, rica e atraente, se vir sozinha entre pessoas estranhas!
Na sua comunidade estaria segura e receberia uma educação sensata.
Diga-me, quais são as formalidades para a admissão?
- Venha visitar-nos por esses dias, minha pobre Vitória, e a apresentarei à senhora Oliver.
Se, após visitar a comunidade, você insistir em ficar, poderá discutir com ela a sua admissão.
Nossa directora é uma mulher de alta classe, muito inteligente e experiente.
No passado foi muito infeliz, por isso tem pena de todas as sofredoras que se reuniram sob o tecto da hospitaleira comunidade, que muito evoluiu sob a sua administração.
Num futuro próximo planeamos construir abrigos semelhantes em diversas cidades dos Estados Unidos.
Após discutir mais alguns detalhes, as amigas decidiram que Vitória iria visitar a instituição já no dia seguinte.
Ela foi tomada por uma impaciência febril e passou toda a noite em claro, pensando no novo projecto; quanto mais pensava, mais ele lhe agradava.
A comunidade "Paraíso sem Adão" daria a Ellen uma educação sensata e a livraria das ilusões que arruinaram a vida de sua mãe.
Ela não seria uma garota inocente, julgando o amor e o casamento um sonho mágico e um objectivo de vida.
Naquele ambiente propício, entre mulheres austeras, sérias e sofridas, ela vigiaria para que Ellen estudasse seriamente e jamais lesse romances, que inflamam a imaginação das jovens com um "herói" de contos de fadas, enfeitado com todas as virtudes de cavalheiro, que a moça procura pela vida, imaginando tê-lo encontrado no primeiro rapaz elegante e amável que resolver cortejá-la.
Não! Ellen deverá desenvolver um olhar bastante claro e penetrante, para enxergar por trás da máscara o verdadeiro rosto dos homens.
Assim estaria protegida contra todos os obstáculos do destino.
Contaria somente com as próprias forças, sem jamais confiar num "benfeitor" desconhecido, que a escolhesse por suas posses e por seu lindo rostinho, ignorando seu coração honesto e amor dedicado para, enfim, tomar-se seu tirano e carrasco.
Na manhã seguinte, Vitória foi ao endereço deixado pela amiga.
O local era distante, pois a comunidade ficava fora da cidade.
Clara dissera que a primeira directora instalara o abrigo em sua linda propriedade, que acabou doando à comunidade.
Finalmente, a carruagem parou diante de um portão com grades.
Na arcada de pedra havia uma inscrição em grandes letras douradas:
"Abrigo Paraíso sem Adão"; sob ela um baixo-relevo mostrava uma colmeia cercada de abelhas tendo em volta zangões abatidos.
Um muro alto e maciço cercava o que parecia ser um enorme terreno.
Por trás do verde bosque, destacava-se um edifício de oito ou nove andares, feito de pedra e ferro.
O criado tocou a campainha e uma mulher de vestido preto, de avental branco e touca da mesma cor, abriu o portão lateral.
Após saber que a visitante desejava ver a senhora Forest, pediu-lhe que desembarcasse da carruagem e a seguisse, pois o regulamento não permitia a entrada de homens, mesmo criados, para além das grades do portão, sem uma autorização especial.
Vitória mandou o criado aguardá-la e seguiu a mulher até a casa por uma galeria aberta.
Lá, outra servente, em idêntico traje sóbrio e puritano, informou que a senhora Forest se encontrava no jardim, no sector infantil; era a hora do recreio, mas a visitante poderia ser levada até lá.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:22 pm

Olhando tudo em volta com curiosidade, Vitória seguiu por um enorme e bem cuidado jardim.
Por todos os lados viam-se canteiros de flores raras, chafarizes e luxuosos pavilhões, que a guia explicou serem oficinas onde se ensinavam pintura, escultura e fotografia.
- Do outro lado da casa foram instaladas classes de jardinagem com magníficas estufas, lavandarias experimentais e oficinas de rendeiras e tecelãs - acrescentou com orgulho a criada.
Por fim entraram numa área circular, coberta de areia, onde brincavam muitas meninas sob a supervisão de duas damas, numa das quais Vitória reconheceu Clara.
Esta imediatamente aproximou-se e começaram a conversar.
A senhora Forest apresentou a visitante à sua colega que, após saber que Vitória viera para uma entrevista com a directora, ofereceu-se para cuidar sozinha das crianças enquanto Clara acompanhava a amiga.
- Você terá de aguardar um pouco; a senhora Oliver está na enfermaria.
Mandarei avisá-la de sua chegada; por enquanto, vamos até a recepção - disse Clara, visivelmente satisfeita com a boa impressão que Vitória teve de tudo o que viu.
O elevador levou as amigas ao terceiro andar.
Passando por um corredor largo e arqueado, como o de um mosteiro, Vitória leu, surpresa, a placa "Arquivo" numa das portas.
- Mas como?
Vocês têm até um arquivo?
- Sem dúvida!
E muito interessante, pois, além dos documentos oficiais, como registo de doações, actos de compra e venda etc., ele guarda uma colectânea de autobiografias, única no mundo, de todas as pessoas que passaram pela comunidade, desde o dia de sua fundação.
Cada irmã, ao entrar para nossa casa, compromete-se a escrever ou ditar a história de sua vida.
A leitura dessas memórias é obrigatória a todas as alunas que concluem o curso e constitui o melhor antídoto contra quaisquer delírios românticos.
Aqui, à direita, fica a biblioteca.
A biblioteca localizava-se em duas grandes salas:
a primeira destinava-se às crianças e a outra aos adultos.
Vitória olhou com satisfação as grandes estantes de livros, cercadas de confortáveis poltronas, mesas com revistas, tapetes macios no chão e pesadas cortinas cobrindo as portas.
Sentia-se bem nesse abrigo e o “Paraíso sem Adão" lhe agradava cada vez mais.
Vitória imaginara encontrar uma comunidade puritana e asceta, que voluntariamente se condenava à pobreza e ao trabalho, uma espécie de mosteiro.
Para sua surpresa, encontrou abundância, aconchego e um trabalho útil, tranquilo e nada estafante.
A recepção ficava ao lado da biblioteca.
Era um aposento menor, bem mobiliado, com muitas flores.
Clara fez a amiga sentar-se e foi avisar à directora da chegada da visitante.
Passos leves e o farfalhar de um vestido de seda fizeram Vitória levantar a cabeça.
Aproximou-se uma mulher alta, de rosto triste, mas agradável.
Após apertarem-se as mãos, examinaram-se com curiosidade.
A senhora Oliver ainda era jovem, mas os cabelos grisalhos e um vinco pronunciado junto à boca indicava as pesadas provações suportadas; nos grandes olhos cinzentos brilhava uma determinação clara e tranquila, atestando sua vitória sobre o passado.
Trajava um vestido simples mas elegante, e um lenço de renda cobria seus cabelos prateados.
- Bem vinda, minha senhora!
A irmã Forest disse que deseja entrar para nossa comunidade - disse a senhora Oliver sentando-se.
- Sim! Mas Clara lhe contou os meus motivos?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 01, 2016 7:22 pm

- Ela somente disse que a senhora deseja educar sua filha pelos princípios que professamos.
Terei muito prazer em fornecer-lhe todas as informações e mostrarei as classes onde as crianças recebem uma educação de acordo com sua posição social.
Nós educamos serventes e trabalhadoras, mas também médicas e doutoras em direito ou filosofia.
Nossas oficinas produzem excelentes artigos, tão baratos que ninguém pode concorrer connosco; por isso estamos cheios de encomendas e ganhamos o suficiente para cobrir todas as despesas da comunidade.
Nem preciso dizer que o trabalho é o melhor remédio para as feridas da alma.
- Sua actividade parece ser complexa e difícil - observou Vitória.
- Sim, às vezes é bem difícil influenciar corações destroçados, indignados contra Deus e o destino.
É muito difícil acalmar o ódio insatisfeito, a tempestade de ciúme impotente ou apagar sonhos insanos que perseguem algumas infelizes, sobretudo quando os culpados por seus sofrimentos ainda estão vivos, o que lhes incute a esperança de deixar nosso abrigo.
Sou completamente só:
estou divorciada e meus filhos faleceram.
Por isso, sinto-me feliz por ter um objectivo na vida, dedicando-me a consolar e apoiar minhas infelizes irmãs.
Posso até dizer que Deus abençoou nossos esforços!
Vi em muitas almas sofridas renascerem a tranquilidade e a docilidade, especialmente entre mulheres simples, felizes por conseguirem se livrar da miséria, das grosserias do marido bêbado e juntar um pequeno capital, pois guardamos uma parte de seus ganhos.
Este valor é entregue a elas quando desejam deixar o abrigo.
A conversa ganhou logo um clima afectivo.
Vitória sentiu profunda simpatia por essa inteligente e bondosa mulher, que usava de forma tão nobre a liberdade que a vida destroçada lhe reservara.
Quando retornaram à recepção, depois de percorrerem toda a instituição, entre elas já se iniciava uma amizade.
Vitória decidira entrar para a comunidade e informou isso à directora.
- Só posso parabenizá-la pela decisão.
Nesse novo ambiente a senhora esquecerá suas tristes lembranças - respondeu com solidariedade a senhora Oliver, entregando a Vitória um exemplar dos estatutos da casa.
Quando o velho médico de Vitória, amigo do falecido tio, soube de sua decisão, ficou muito irritado, disse que seu plano era insensato e discorreu furiosamente sobre as imbecis psicopatas, que pregavam utopias e deturpavam os factos.
Elas tornariam Ellen um ser ridículo, que não confiaria na sociedade, revoltada contra o mais poderoso e natural sentimento do coração humano.
Vitória ouviu o discurso inflamado do médico com um sorriso nos lábios.
- Pois pretendo exactamente estimular nela a desconfiança para com o sentimento que, em nove entre dez casos, faz a infelicidade da mulher.
Não quero que Ellen morra solitária e abandonada como eu, nem que seja ofendida no mais sagrado dos sentimentos.
Minha filha deve enxergar a vida com sensatez e conhecer a verdadeira face do sedutor que lhe oferecerá "seu coração, sua mão e fidelidade".
Ela deverá saber que essas são palavras sem qualquer sinceridade e que o "cavalheiro" apaixonado pode tornar-se, na vida íntima, um insuportável algoz.
Não! O "Paraíso sem Adão" é uma das mais filantrópicas instituições que jamais conheci e deveria ter filiais em todos os lugares.
Seria óptimo se existissem instituições semelhantes para a educação de meninos, onde eles se tornariam maridos honestos, conscientes de que na vida a dois as obrigações são idênticas e que não devem exigir das mulheres todas as virtudes, reservando para si somente o prazer.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:17 pm

Vitória preparou-se apressadamente para a mudança.
Na comunidade reservaram-lhe três aposentos, que lhe permitiram decorar a seu gosto.
Também obteve algumas pequenas concessões por sua generosidade, pois, em pagamento pela manutenção da filha, entregava à comunidade a metade dos seus dividendos, bem como dos de Ellen, destinados à garota até que se casasse.
Além disso, doou à instituição a casa que lhe pertencia.
Assim, um mês após o encontro com a senhora Forest, Vitória instalou-se definitivamente na comunidade.
O doutor Wilson insistia em não aprovar essa mudança de vida e prognosticava sérias complicações de sua doença, que seriam inevitavelmente provocadas pelo contacto com aquela manada de furiosas imbecis. Entretanto, essa previsão não aconteceu; pelo contrário, a saúde de Vitória melhorou sensivelmente.
No abrigo ela se sentia muito melhor do que na grande casa vazia, cheia de recordações; lá não tinha tempo para sonhar e remexer no passado.
A dinâmica actividade que a cercava divertia-a e dava-lhe desejo de também ser útil.
Vitória recebera brilhante educação, era óptima musicista e pintava muito bem; por isso assumiu o ensino de música e pintura.
Além disso, ajudava a senhora Oliver na supervisão das oficinas, o que as aproximou muito.
Passava muitas horas no arquivo, na leitura das memórias lá guardadas, histórias da vida real, nas quais se desenhavam com diferentes nuances dois personagens principais:
a infeliz e abatida mulher e o homem, grosseirão e narcisista, que não reconhecia outra lei, senão o prazer, e preferia uma insolente e esbanjadora sacerdotisa do amor à fiel e discreta esposa.
Vitória observava com curiosidade doentia as operárias nas oficinas; todas trabalhavam com fervor, mas nos rostos sombrios e no severo e amargo vinco dos lábios fortemente apertados lia-se uma epopeia de sofrimentos físicos e morais.
Às vezes, alguma pobre mulher, com lágrimas nos olhos, inclinava a cabeça sobre as agulhas de tricô ou a máquina de costura e mergulhava no trabalho a tal ponto que nada via nem ouvia; geralmente eram as recém-chegadas, cuja dor ainda estava por demais viva, ou alguma vítima de ofensa mais dolorosa que as outras, cuja ferida nem o tempo cicatrizava.
Tais mulheres recebiam maior atenção de Vitória, pois sua própria ferida também não cicatrizava.
As vezes, na escuridão da noite, tinha saudades da felicidade breve, e logo vinha-lhe à mente a imagem do homem sem coração que destruíra sua vida.
A justiça não atingira o culpado; ele vivia em fartura e honra, respeitado por todos, enquanto ela definhava e era obrigada a deixar a filha aos cuidados de terceiros.
Em tais momentos, um agudo sentimento de solidão premia-lhe o coração.
Tomada de indescritível tristeza, levantava do leito, ia até o quarto de Ellen e somente a visão da filha a acalmava.
Ficava admirando a pequenina adormecida, seu rostinho fresco de expressão orgulhosa e decidida, as mechas dos sedosos cabelos.
Então, o temor pelo futuro da filha novamente se apossava dela!
Quantos perigos iriam ameaçar essa linda criatura, entregue a si mesma na hora fatídica em que o coração da mulher começa a ansiar pelo amor, quando basta um mero acaso para despertar nela aquele sentimento natural e sagrado, que muitas vezes se transforma num fogaréu que a consome completamente?
Ellen estava entusiasmada com sua nova vida.
Após viver sozinha, entre a mãe, doente e triste, e o tio Tom, infinitamente bondoso, mas sempre sério e ocupado com negócios, a menina sentia-se feliz no imenso jardim, entre as garotas de sua idade.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:17 pm

Tudo para ela era novidade:
os jogos em grupo, o grande lago com cisnes, as aulas na classe, muito mais interessantes do que as aulas com a governanta.
Para coroar essa felicidade, sua mãe estava muito melhor, parecia tão alegre e activa como Ellen jamais vira.
Por sua inexperiência, Ellen não percebia que às suas novas amigas faltava a despreocupada alegria própria da infância e que pesava sobre elas a estranha e severa atmosfera que reinava na casa.
As crianças corriam, brincavam, tagarelavam, mas sem o entusiasmo barulhento, próprio da idade.
Todas aquelas pequeninas tinham um passado sombrio, lembranças de miséria, privações, cenas grotescas e lágrimas de suas mães.
Esse passado se estampava em seus rostinhos pálidos e precocemente sérios.
A agitada alegria de Ellen, provocada inicialmente pela felicidade de não estar mais só, logo se transformou em tranquila seriedade, idêntica à de suas colegas.
Então, passou a procurar uma amiguinha e a encontrou na pessoa da pequena canadense, chamada Blanche Clerval.
Essa garotinha bonita, ruiva, de olhos esverdeados e boquinha púrpura era tão inconstante, explosiva e entusiasmada, quanto Ellen era insistente, positiva e enérgica.
Apesar da completa divergência de carácter, as meninas gostaram uma da outra, repartiam cada guloseima e cada diversão e até juraram nunca se separarem.
Mas o destino decidiu diferente.
A mãe de Blanche falecera dois anos após Vitória ter ingressado na comunidade.
Ela tinha se separado do marido que se apaixonara por uma actriz com quem se casou assim que se livrou das obrigações do primeiro casamento.
Essas circunstâncias levaram a senhora Clerval a Boston, onde acabou entrando para a comunidade.
Ao morrer, declarou que deixava a filha para a comunidade até que tivesse condições de sustentar-se.
Por isso, Blanche era considerada filha adoptiva do "Paraíso sem Adão" e todos tentavam aliviar o pesado golpe recebido pela menina.
Cerca de oito meses após a morte da senhora Clerval, repentinamente apareceu um senhor desejando falar com a directora do abrigo.
Mostrando documentos, ele declarou ser o pai de Blanche que viera para buscar a filha, que desejava educar sozinho.
A senhora Oliver tentou protestar baseando-se no último desejo da falecida; ela sentia repulsa por aquele pai enfatuado, decadente, que pretendia tomar-lhe uma das discípulas.
Mas o senhor Clerval insistia, ameaçando apelar para as autoridades e acusar a comunidade de reter, à força, uma menor de idade, e a directora teve de concordar.
Ao saber que o pai ia levá-la embora, Blanche ficou apavorada e resistiu aos gritos e lágrimas.
Clerval deu-lhe um puxão grosseiro pela mão com um olhar severo e a garota, assustada, calou-se e teve um ataque nervoso.
Por fim, Clerval foi embora, cedendo ao apelo da senhora Oliver de que deixasse a menina ficar até a noite, com a promessa de que ela pessoalmente levaria Blanche à casa dele.
Quando a garota se acalmou, a directora teve com ela uma conversa séria, aconselhando-a a obedecer ao pai e não irritá-lo com uma resistência inútil; também lhe disse que a comunidade continuaria sempre a ser um abrigo e um lar para ela, onde poderia se refugiar em caso de desgraça ou solidão.
Ellen também jurou permanecer sua fiel amiga até a morte; despediram-se em lágrimas, prometendo corresponder-se com frequência.
Este caso muito impressionou Ellen, reavivando nela a lembrança do próprio pai.
Apesar dos anos passados, a garota lembrava perfeitamente de Vladimir Aleksandrovitch e seus carinhos ocasionais, mas jamais se referia a isso.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:18 pm

No início, seu tio proibira de falarem sobre ele, dizendo-lhe que ele morrera, depois, quando inquiriu a mãe sobre o motivo do desaparecimento do pai, essa pergunta provocou nela um ataque cardíaco.
Desde então, a garota não mais levantou a questão, apesar de pensar muito nele.
Precocemente desenvolvida, Ellen era muito observadora; além disso, tinha motivos para viver no "Paraíso sem Adão".
Logo se convenceu de que seu pai era um patife, a mãe uma inocente vítima e ela própria uma criança abandonada.
Desde então, a imagem de Vladimir Aleksandrovitch ocupou um lugar especial em seu espírito.
Não o esqueceu, mas passou a encará-lo como inimigo, causador da doença e da permanente tristeza de sua adorada mãe.
Nos últimos meses, o estado de saúde de Vitória passou, de súbito, a piorar.
Os ataques cardíacos tornaram-se mais frequentes e fortes e a preocupação com a mãe fez Ellen esquecer a tristeza da separação da amiga.
Ela já estava com doze anos e entendia que a vida da mãe corria perigo.
Toda vez que um ataque de taquicardia obrigava Vitória a jogar o corpo para trás e apertar as mãos ao peito, a garota pingava as gotas de calmante com a mão trémula, servia o cálice à paciente, enxugava-lhe o suor frio da testa, colocava compressas e acalmava-se apenas quando o ataque passava e Vitória adormecia de exaustão.
Por causa dessa tensão constante, a menina perdeu o sono e o apetite; acordava à noite de ouvido atento, tentando sentir se a mãe dormia e, ao menor movimento dela, pulava da cama.
Vitória se preocupava muito com isso e tentava de todas as formas ocultar da filha o próprio sofrimento.
Para tanto, frequentemente ficava sentada até muito depois da meia-noite em sua pequena sala de visitas, alegando trabalho ou desejo de ler um pouco.
Certa noite, Ellen acordou e viu a cama da mãe vazia.
Muito assustada, começou a chorar, sem ousar levantar, pois sabia que Vitória não gostava quando ela ia vê-la na sala de visitas.
Por fim, o profundo silêncio ficou tão insuportável que, arriscando-se a levar uma reprimenda, pulou da cama e como uma sombra deslizou até a porta semi-aberta da salinha.
Vitória estava sentada à escrivaninha, imersa na observação de um grande retrato emoldurado numa pasta de couro.
Ellen jamais vira esse retrato antes, mas aquele rosto era-lhe conhecido e vivia em sua memória.
A palidez mortal da mãe e as silenciosas lágrimas que lhe rolavam na face confirmavam a suspeita de que era o retrato do pai, sobre quem jamais se falava, tanto que ela nem sabia se ele estava vivo ou se a mãe chorava a sua morte.
Ellen sentiu então um irrefreável desejo de saber a verdade.
Aproximando-se de Vitória, ajoelhou-se, abraçou-a e, apertando a cabeça no colo da mãe, murmurou com voz suplicante:
- Mamãe! Onde está o papai?
Diga, ele está vivo ou já morreu como afirmava meu tio? - disse ela, vendo a mãe estremecer.
- Sim, este é o retrato de seu pai!
Mas não sei se ainda está vivo - respondeu Vitória, baixinho, com a voz entrecortada.
Em todo caso, minha pobre filha, para nós duas ele morreu!
Quando eu morrer, ele não fechará minhas pálpebras, não será seu defensor nem lhe dará apoio. Ellen, esqueça que tem um pai.
Mas, se algum dia, você sucumbir ao traiçoeiro sentimento do amor, seja muito, mas muito cuidadosa na escolha do marido, para não sofrer como eu e não ter de explicar ao seu filho uma triste verdade como essa.
Ellen ficou em lágrimas e cobriu de beijos as mãos frias da mãe.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:18 pm

Instantes depois, levantou a cabecinha e disse com decisão:
- Mamãe, conte-me o seu passado.
Já sou grande e prometo merecer a sua confiança.
Vitória pensou um pouco e depois respondeu:
- Está bem!
Você tem o direito de saber a verdade.
Então, contou resumidamente toda a história de seu casamento, a partida do marido e acrescentou:
- Você ainda é muito jovem para entender tudo.
Está vendo essa volumosa brochura na gaveta da mesa?
É o meu diário.
Nele escrevi a história de minha alma, desde moça, noiva, esposa, até tomar-me mãe.
Prometa-me que o lerá somente após completar dezoito anos.
Além disso, encontrará a minha biografia no arquivo do abrigo.
Só então entenderá completamente o que sofri e minha vida irá servir-lhe de terrível exemplo.
Vitória fechou a pasta do retrato e, guardando-a na gaveta, acrescentou:
- Esqueça o rosto desse homem, Ellen!
Ele nunca nos amou.
Agora vá dormir:
você está muito cansada, minha querida.
Mas a menina estava excitada demais para dormir.
Puxou um banquinho para perto da mãe, dizendo que não sentia sono, e, com seriedade infantil, passou a falar sobre o objecto de seu maior interesse.
As conjecturas de Ellen eram tão corretas, que Vitória, surpresa e até encantada, deixou-se levar e começou a dialogar abertamente com ela, esquecendo-se de que era uma garotinha de doze anos.
Aos poucos, o cansaço vencia Ellen, mas ela não queria de forma nenhuma interromper a conversa que, a seus olhos, colocava-a no mesmo patamar dos adultos.
Enquanto isso, Vitória, distraída em suas recordações, não notava que o sono imperceptivelmente dominava a menina.
Só notou que seus olhos estavam fechados quando a cabecinha dela caiu pesadamente em seu colo.
Então, beijou os sedosos cabelos da filha e, sem querer acordá-la, descansou, recostando-se na poltrona.
De repente, uma dor terrível transpassou-lhe o peito.
Sentiu o coração inchar e apertar-se, travando-lhe a respiração; surgiu um forte zumbido nos ouvidos e pareceu que caía num sombrio abismo.
Perdeu os sentidos e estancou...
Seu pobre coração, que suportara tantos medos, amarguras e sofrimentos parou de bater para sempre...
Enquanto isso, Ellen continuava a dormir, sem sentir o frio da mão que convulsivamente segurava a sua.
A menina também não acordou quando, às sete horas da manhã, entrou a senhora Forest, que costumava visitar a amiga todas as manhãs, temendo por sua saúde.
Ao ver aquele quadro tocante, a senhora Forest estacou, surpresa; depois, empalideceu e soltou um grito surdo.
O rosto de cera de Vitória, seus olhos abertos, vítreos e sua estranha imobilidade não deixavam dúvidas...
Sua pobre amiga falecera.
Então, em silenciosa compaixão, inclinou-se para a infeliz órfã, que teria um terrível despertar.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:18 pm

Capítulo 3

Era um lindo dia primaveril do ano de 18...
Pelas janelas abertas que davam para o jardim de um pequeno hotel, soprava o aroma de violetas em flor.
Os raios dourados do sol poente brincavam alegremente sobre a seda rósea dos sofás e poltronas, as molduras douradas dos quadros de pintores desconhecidos e sobre os valiosos bibelôs, espalhados nas mesas e estantes.
Num pequeno divã, à sombra de plantas altas e exóticas, estava uma moça num elegante vestido de seda negra, absorta em seus pensamentos.
Era bonita e esbelta; o fino rosto de traços clássicos e correctos destacava-se pela luminosa palidez, acentuada pelos abundantes cabelos escuros; nos grandes olhos azuis, que realçavam seu rostinho, brilhava uma fria determinação própria da maturidade.
Em volta da boca pequena e rosada havia uma enérgica e arrogante dobra.
Na poltrona em frente estava um rapaz, alto, corpulento e elegante.
Em seu rosto longo e anguloso reflectia-se uma ânsia mal contida.
- Então, senhorita Rutherford?
Posso contar com sua anuência? - disse ele, finalmente, quebrando o prolongado silêncio.
A moça levantou os olhos para ele.
- Perdoe-me, senhor Tiplton, mas essa questão é tão importante que merece ser bem pensada.
O senhor afirma que me ama!
Qualquer homem pode jurar isso quantas vezes lhe aprouver, portanto, é absolutamente natural que a mulher não acredite cegamente em juras de amor.
Não é segredo para ninguém a minha opinião sobre o casamento.
O facto de eu resolver estudar a sua proposta, só comprova a consideração que tenho pelo senhor.
- Fico-lhe grato, senhorita Ellen!
Espero confirmar a boa impressão que tem de mim; quando formos marido e mulher, tentarei curá-la completamente dessas absurdas ideias que lhe incutiram naquela maldita casa de doidos, onde tentam derrubar a ordem social vigente e minar a unidade familiar - observou o jovem americano com um sorriso fátuo.
Uma expressão enigmática passou pelo rosto de Ellen.
Pegando lápis e papel, entregou-os ao seu interlocutor.
- Faça-me o favor de escrever nessa folha a sua proposta.
Visivelmente constrangido e insatisfeito, Tiplton vacilou por instantes; depois, debruçando-se sobre a mesa, escreveu rapidamente a proposta com eloquentes expressões e entregou-a a Ellen.
Ela segurou a mão dele e examinou por algum tempo as profundas mas simples linhas que sulcavam sua palma.
Em seguida, olhou longamente a página escrita, estudando a caligrafia atrapalhada, angulosa e espalhafatosa do rapaz.
Por fim, levantou a cabeça e olhou zombeteiramente para o rapaz, taciturno.
- Lamento, senhor Tiplton, mas devo recusar a sua proposta.
Pelas linhas de sua mão li que o senhor não tem coração.
Sua caligrafia indica que possui um carácter bastante desagradável.
Um forte rubor cobriu o rosto do americano.
- Como pode basear sua recusa em tais banalidades? - exclamou furioso.
- A quiromancia, tanto quanto a grafologia, não são banalidades e sua ira comprova isso - respondeu Ellen tranquilamente.
Não posso ser sua esposa, pois prometi a mim mesma casar somente com o homem cujas linhas da mão e caligrafia indicarem ser ele um idealista, de coração amoroso e tendências artísticas.
- Senhorita Rutherford, está zombando de mim, depois de me tratar tão amavelmente e dar-me esperanças!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:18 pm

Eis a tão decantada rectidão feminina!
A senhorita diz que nós, homens, somos levianos e nos considera indignos de confiança enquanto que as mulheres, essas lindas vítimas de nossa tirania, estão cheias de coquetismo e hipocrisia - disse Tiplton, tremendo de raiva e a garrando o chapéu.
- De que se queixa, senhor Tiplton?
Estou lhe fazendo um favor, livrando-o de casar-se com uma coquete, mimada e, além do mais, hipócrita - observou Ellen, tranquilamente.
Se vocês, homens, desiludiram-se das mulheres, criem para si um "Paraíso sem Eva” e pronto!
- Não! É melhor lutar pelo fechamento dessa desprezível instituição que educa as mulheres para se oporem às leis humanas e divinas - contestou Tiplton, saindo rapidamente da sala.
Quando o distante ruído da porta da rua fechando anunciou a partida definitiva do infeliz pretendente, Ellen soltou uma gargalhada.
Levantou-se e já se preparava para sair, quando o pesado cortinado da porta abriu-se e na soleira apareceu um mulher de vestido preto com uma pequena pasta na mão.
Era tão magra, áspera e feia que aparentava uns quarenta anos, apesar de ter somente vinte cinco.
Seu traje discreto e os cabelos enrolados na nuca não combinavam com ela.
- Bem, já posso cumprimentá-la?
Quando você vai se tornar a senhora Tiplton, proprietária do depósito da melhor lã de Boston e, de brinde, do coração do amável senhor Daniel? - perguntou zombeteiramente a recém-chegada.
- Infelizmente, deixei escapar essa felicidade graças à quiromancia, que expediu um péssimo atestado ao senhor Daniel - respondeu Ellen, rindo.
Nós nos separamos com as relações estremecidas e ele decidiu iniciar um ousado ataque contra nossa comunidade, pretendendo fechá-la.
Está vendo, minha pobre Nelly, a desgraça que provoquei por não querer tornar-me senhora Tiplton?
- Deixe-o atacar.
A comunidade possui dentes e garras e saberá defender-se!
Mas esqueçamos essas bobagens!
Preciso conversar com você.
- Do que se trata, Nelly?
Estou inteiramente à sua disposição - respondeu Ellen, ficando imediatamente séria.
- Em primeiro lugar, seu editor escreve que a quarta edição, isto é, os vinte mil volumes, foi toda vendida e pede autorização para uma nova edição.
- Óptimo! Queria que você acertasse com ele a reserva de uma certa quantidade de volumes para brinde.
Gostaria de levá-los comigo à Europa e distribuí-los por lá.
- Amanhã mesmo falarei com ele.
Agora, preciso saber sua opinião sobre as respostas às vinte cartas recebidas hoje pela manhã.
Elas são resultados de sua última palestra sobre os direitos e a emancipação da mulher.
Passando para o quarto contíguo, sentaram-se junto a uma grande escrivaninha e começaram a ler as cartas, anotando tudo o que devia ser respondido.
Depois, Nelly saiu para enviar imediatamente a correspondência, enquanto Ellen foi para a oficina.
Anoitecia. Ela baixou as cortinas da janela e, instantes depois, a luz eléctrica iluminou a grande sala.
Na oficina havia barro, mármore e obras iniciadas.
Ellen vestiu um grande avental de linho e passou a esculpir o busto de sua mãe, baseando-se no retrato-miniatura no qual ela aparecia ainda moça.
O amor de Ellen pela mãe transformara-se numa espécie de culto.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:19 pm

Sua distracção predilecta era moldar em mármore os encantadores traços da falecida e sua preocupação permanente era vingar-se dos homens por todas as amarguras que levaram Vitória prematuramente ao túmulo.
A morte inesperada da mãe, exactamente na noite em que, pela primeira vez, conversara com a filha como amiga, causara uma profunda impressão na menina.
O terrível desespero e a cega teimosia com que se agarrava ao corpo da mãe levantaram suspeitas quanto à sua saúde e sanidade mental.
Realmente, logo depois do funeral, Ellen caiu em febre e, durante duas semanas, sua vida pendeu por um fio.
Por fim, a juventude e o criterioso cuidado da directora e da senhora Forest triunfaram sobre a doença.
Ellen começou a recuperar-se lentamente, mas tornou-se estranhamente séria, concentrada e passou a estudar com inusitada energia.
Ricamente prendada pela natureza, Ellen era uma excelente aluna e, além disso, tornou-se excelente musicista.
Mas tinha maior aptidão para a escultura e seu rápido progresso e a firmeza do seu cinzel espantavam os professores.
Certo dia, um livro de quiromancia caiu por acaso nas mãos de Ellen.
Esse ramo da ciência oculta, que permitia ler o carácter da pessoa pelos sinais misteriosos colocados pela natureza na palma da mão, interessou-a demais.
Sentindo ódio e desconfiança pela metade forte da raça humana, achou extremamente interessante poder olhar por de trás da máscara com que o homem esconde a sua verdadeira índole.
Nesses anos de trabalho e estudos, Ellen afeiçoou-se sinceramente a uma moça que a desgraça levara à comunidade.
Nelly Sinclair era filha única de um rico negociante e crescera na ociosidade e luxo.
O pai adorava a menina, que perdera a mãe na mais tenra infância.
Aos dezasseis anos ficou noiva do filho do sócio de seu pai.
Já estava marcado o dia do casamento, quando o velho Sinclair morreu num acidente ferroviário.
Essa morte inesperada destruiu a vida e o futuro de Nelly.
Não se sabe se os negócios do senhor Sinclair estavam realmente ruins ou se o sócio aproveitou o acidente para desorganizá-los em benefício próprio; o certo é que Nelly ficou sem um tostão.
Quando isso foi divulgado, seu noivo declarou-lhe, sem qualquer constrangimento, que a necessidade de recuperar o prestígio da loja, abalado pelas acções imperdoáveis de seu falecido pai, obrigava-o a casar com uma ricaça.
A pobre Nelly, que amava o noivo e acreditava em seu amor, pensou que enlouqueceria com esse novo golpe do destino.
Não conseguiu apoio de ninguém, pois os parentes e amigos sumiram, não querendo assumir a adopção da órfã.
Para não morrer de fome, foi obrigada a trabalhar como babá.
É difícil descrever o que sofreu a orgulhosa e mimada moça, tendo de submeter-se a esse tipo de trabalho.
Já pensava seriamente em suicídio, quando o acaso levou-a até a senhora Oliver, que se compadeceu dela e acolheu-a no abrigo.
A sombria e triste moça conquistou a simpatia de Ellen.
Apesar de Nelly ser cinco anos mais velha, logo se tornaram amigas inseparáveis.
Quando Ellen completou dezoito anos, decidiu ler o diário da mãe.
Até então, respeitara a vontade da falecida e não havia tocado no caderno.
Logo que anoiteceu, Ellen trancou-se no quarto em que falecera a mãe e onde cada objecto era-lhe sagrado.
Com profunda devoção, abriu a gaveta e retirou o caderno de capa verde; não tocou no maço de cartas amarrado com fita preta.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:19 pm

Em seguida, retirou a pasta com o retrato do pai e, após um instante de hesitação, abriu-a.
Examinou por muito tempo, com olhar frio e perscrutador, os traços daquele que nunca fora seu verdadeiro pai.
Agora já não era criança e sabia que um homem belo e encantador como aquele podia inspirar amor.
Sua falecida mãe fora péssima fisionomista por não ter percebido, sob aquela máscara atraente, um homem egoísta, esbanjador e desalmado; mas, para Ellen, o rosto do pai era um livro aberto.
A testa rectangular, o nariz bem definido, a boca sensual com os cantos repuxados para baixo indicando desprezo e, finalmente, os grandes olhos, preguiçosos e cansados, cujo olhar indiferente gelava o coração, tudo isso, gritava:
"Só quero divertir-me e satisfazer meus caprichos, pois não sei amar!".
Absorta no estudo daquela fisionomia, Ellen até esqueceu a quem analisava tão cruelmente.
Fechando a pasta, jogou-a na gaveta da mesa, murmurando com desprezo:
- Assassino traiçoeiro!
Que a vingança divina o castigue, se você escapou da terrena!
Em seguida, pegou o caderno, beijou-o e abriu.
Primeiramente, uma folha de papel dobrada chamou sua atenção; nela, Vitória escrevera o seguinte:
"Quando ler estas páginas, minha adorada filha, já estarei há muito tempo no túmulo e você já será mulher.
Desejo que a confissão escrita neste caderno lhe sirva de lição.
Você mesma julgará o quanto fui culpada pela destruição da minha própria vida; se foi a falta de energia ou o excesso de orgulho que me taparam a boca quando deveria reclamar, defender meus direitos, ou revoltar-me contra o comportamento indecente de seu pai.
Parece-me, entretanto, que você teria feito o mesmo, conservando em primeiro lugar a dignidade feminina e deixando a pessoa que a abandonava entregue á Justiça Divina e à sua própria consciência.
Será que algum dia você encontrará esse homem indigno que, mesmo vivo, transformou-me em viúva e a você numa órfã?
Desejo que o encontre, para que ele sinta toda a amargura da perda de uma filha como você."
Com os olhos cheios de lágrimas Ellen começou a ler o diário da mãe.
Diante dela, passo a passo, descortinou-se a lenta agonia de uma alma ofendida em todos os melhores sentimentos, torturada pela tristeza, monotonia e permanente solidão.
Acompanhava com emoção a luta e a indignação daquele coração orgulhoso, que a sedutora voz da vingança incitara a retribuir pancadas com pancadas, traição com traição, e a procurar o esquecimento no turbilhão de uma vida desregrada.
Por fim, venceram o amor materno e o bem na alma esgotada da infeliz e abandonada mulher, que encontrou a própria salvação em sua filha e no olhar dela encontrava forças para permanecer, até o fim, fiel à sua condição.
À medida que Ellen lia as últimas páginas, uma excitação febril apoderava-se dela.
Cada linha daquele diário atestava que a chaga daquele coração continuara aberta; apesar de o bom senso condenar o homem que lhe causara tanto mal, Vitória desejou vê-lo antes de morrer.
Nas longas noites de insónia, a moribunda pensava nele, sentindo uma ardorosa necessidade de ter perto de si a criatura que era a metade de sua vida e que não conseguia esquecer.
Ellen fechou o caderno com um pesado suspiro.
Que misterioso e poderoso sentimento era esse, que desarmava, cegava e dominava totalmente o ser humano?
Que inesgotável tesouro de amor deve conter o coração de uma mulher, para tudo esquecer e perdoar, sentindo até alegria e consolo ao ver o seu carrasco!
Quase involuntariamente, ela juntou as mãos numa prece.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:19 pm

- Meu Deus!
Livrai-me desse horrendo sentimento, que escraviza o bom senso e a vontade e obriga a suportar milhares de sofrimentos e decepções em troca de uma felicidade passageira!
Em seguida, pegando um grande retrato de Vitória, passou a examiná-lo com especial curiosidade.
Não notou sinal algum do traiçoeiro sentimento que dominava a mãe.
Os traços harmoniosos do rosto e a clara expressão dos grandes olhos pensativos reflectiam a rectidão e a serenidade da alma pura e amorosa.
O rosto não contradizia seus actos:
nada ofuscava a auréola que cercava sua memória.
A filha a respeitava tanto quanto a amava.
Se existe a justiça que eleva os eleitos às esferas superiores, então a alma de Vitória devia estar no reino da luz eterna.
Aquela leitura, fez Ellen decidir jamais se casar.
Não queria submeter-se à injusta lei que exigia dela uma fidelidade canina ao homem, o qual iria ignorar o juramento que os ligava, reservando para si o direito de entregar-se à libertinagem.
Pelo contrário, resolveu dedicar toda sua vida para abrir os olhos das mulheres às humilhações que sofriam e libertá-las do jugo matrimonial.
Com o objectivo de preparar-se bem para a luta que iria enfrentar, lançou-se com fervor aos estudos; após três anos, foi aprovada nos exames de doutora em leis.
Como já alcançara a maioridade, deixou o abrigo e mudou-se para a casa que sua mãe doara à comunidade.
Junto com ela foram Nelly Sinclair, que enriquecera novamente, e a senhora Forest, a grande amiga da mãe, agora sozinha, envelhecida e doente.
As três filhas da senhora Forest foram embora.
Uma era médica numa das cidades sulinas; outra tornou-se pintora e morava na Europa, onde prosseguia os estudos no ateliê de um famoso artista; a terceira, para grande desgosto da mãe, casou-se e morava em Chicago com o marido.
Como esse casamento era feliz, a bondosa Clara foi morar com Ellen, da qual gostava como de uma filha.
Nelly Sinclair voltou para a comunidade após dois anos de ausência, tendo passado esse tempo na casa de um velho tio marinheiro, irmão de sua mãe.
Como desaparecera por mais de quinze anos, todos o consideravam morto.
De repente, reapareceu em Boston, procurou Nelly e lhe pediu que fosse morar com ele, pois estava velho, doente e sentia-se muito só.
Ela achou que era seu dever cumprir esse desejo, ainda mais porque o velho parecia uma pessoa pobre.
Então, mudou-se para seu discreto apartamento e cuidou dele por cerca de dois anos, como uma amorosa filha.
Após sua morte, ficou surpresa ao saber que ele era muito rico e deixara para ela toda a sua fortuna.
Nelly recebeu com certa indiferença essa mudança em sua situação.
Fiel às próprias convicções, voltou para a comunidade; antes disso, comprou uma linda propriedade onde fundou uma filial do "Paraíso sem Adão".
Decidida a jamais se casar, a senhorita Sinclair foi morar com Ellen para ajudá-la e mantê-la no bom caminho, pois um episódio a colocara em evidência, dando-lhe certa notoriedade e a bela moça poderia ser alvo do assédio dos homens.
Na comunidade, vivia uma mulher com duas filhas, que estava separada, mas não divorciada do marido.
Quando este morreu repentinamente, a mãe exigiu a tutela das filhas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:19 pm

O irmão do marido, entretanto, lutava por esse direito, afirmando que a comunidade, cujo objectivo, conforme ele, consistia em desviar as mulheres do verdadeiro caminho a elas destinado pela natureza, tornava-a incapaz da tutela das filhas.
Ele não desejava que suas sobrinhas recebessem aquela insana educação e fossem levadas a doar todos os seus bens à insaciável instituição.
Quando o caso chegou aos tribunais, a mãe incumbiu Ellen de defender sua demanda.
O discurso de Ellen, brilhante, irónico e, ao mesmo tempo, profundamente estudado, transpirando ardente convicção, chamou a atenção dos juízes fazendo-os sorrir ante as ácidas indirectas endereçadas à parte oponente.
Ellen ganhou a causa, ficando famosa; além disso, o pobre e cruelmente ridicularizado "Adão" não só perdeu o processo, como também o coração, que documente colocou aos pés daquela cruel filha de "Eva", que somente admitia o paraíso sem ele.
Ellen disse ao pretendente que o exemplo de seu falecido irmão e o inferno que este criara para a própria mulher fizeram-na perder toda a vontade de ser sua esposa.
Esse sucesso fez surgir um novo plano na activa mente da vencedora:
aproveitar seu dom de oratória para fazer palestras públicas que, sem dúvida, trariam à comunidade muitas novas e úteis adeptas.
Após obter a aprovação das amigas e da senhora Oliver, Ellen lançou-se ao trabalho.
Começou a colectar no arquivo do abrigo material para futuras palestras e, três meses depois, estreou no púlpito.
Suas primeiras conferências tiveram enorme êxito e cresciam cada vez mais.
Quando Ellen discursava, o salão ficava superlotado tanto de homens como de mulheres; o engraçado era que os homens, na maioria das vezes, apaixonavam-se pela bela palestrante e não desistiam diante de seus ardentes e zombeteiros ataques ao sexo forte, sonhando até em convertê-la ao "bom caminho".
Por enquanto, essas tentativas não tinham nenhum sucesso.
Atirando-se de cabeça na luta anti matrimonial, Ellen sonhava com a possibilidade de ampliar seu campo de acção e as absurdas tentativas dos homens de subjugá-la somente a faziam rir.
- Chegou o tempo de nós ditarmos as leis aos homens - dizia Ellen às suas amigas.
É preciso apenas mostrar às mulheres o poder que possuem se juntas condenarem firmemente os seus "senhores" à solidão até que eles se submetam e dediquem ao casamento a sua parte equivalente de honestidade, fidelidade e amor.
Sob a influência dessas ideias, Ellen publicou uma brochura com o título:
"Abaixo o jugo dos homens!
Liberdade e igualdade às mulheres!"
Nesse livro, escrito com a dedicação e acidez que lhe eram próprias, Ellen fazia o resumo histórico da escravidão da mulher, partindo, em tom de piada, da criação do Mundo.
"Leiam com atenção o início da Génese, na Bíblia, e imediatamente notarão os primeiros brotos da arrogância de Adão!
Ele estava entediado num lugar de bem-aventurança, no paraíso!
E por quê?
Porque imaginava estar acima de toda a criação e o único a ter recebido o sopro Divino.
Ficou cansado de comandar somente animais inferiores, que não podiam entendê-lo nem bajular sua vaidade.
Além disso, invejava os animais, pois cada um tinha uma companheira a quem podia judiar como bem lhe aprouvesse, enquanto ele não tinha ninguém sobre quem exercer o seu poder e superioridade, que suportasse documente, sem fugir de suas zombarias e implicâncias.
Adão passou a lamentar-se e a perturbar o Criador com suas queixas e súplicas:
- Senhor, por que me fizeste sozinho?
Por que não me deste uma criatura que eu pudesse dominar com a superioridade que me foi concedida por Ti, alguém que não me abandonasse por pior que eu agisse com ela?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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