Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 5 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:11 pm

Então, por que não poderia também eu viver assim com a mulher que escolher para esposa?
- Porque no fundo de sua alma esconde-se o plano de estrangular a esposa se algo nela não lhe agradar.
Também li este romance e entendo porque o senhor toma José como exemplo; ele, no fim, livra-se da esposa e casa com a filha do faraó.
Em sua opinião, isso seria realmente digno de um marido exemplar?
O Barão não teve tempo de responder, pois ouviu-se o sinal do início da palestra.
Ele cochichou com um general, seu conhecido, que concordou em ceder-lhe o seu lugar e assim o Barão sentou-se atrás da eleita do seu coração.
Nesse ínterim, apareceu o senhor Brown, com aparência imponente, séria e concentrada.
Dando uma olhada no roteiro que trazia na mão, iniciou seu discurso, fazendo um resumo histórico da fundação de sua sociedade, declarando que o surgimento dela deveu-se às ideias expostas nas obras de Biernson.
- No limiar do novo século - prosseguiu -, nasceu também a grande ideia da igualdade do homem e da mulher diante de suas obrigações, e da responsabilidade perante Deus, sociedade e filhos.
Os últimos três séculos, tão frutíferos para a ciência, artes e indústria, foram também destrutivos para a moral e provocaram uma infinidade de problemas sociais, sem resolver um único.
Imaginamos que, para o século XX, recairá a fama de levar a um final feliz tudo o que pretendia o século XIX.
Há algumas tentativas isoladas:
a união dos correios, a unificação das unidades de pesos e medidas, o estabelecimento de tarifa única, a ajuda aos estrangeiros e muitos outros avanços que demoraria a enumerar, deverão levar fraternidade entre os povos.
As religiões, que têm a mesma base, devem unir-se numa única crença, consagrada ao Único Criador; só então cumprir-se-ão as palavras de Cristo:
"E haverá um único rebanho e um único pastor".
Mas a pedra fundamental dessa edificação social é o renascimento da virtude da humanidade e da consciência das verdadeiras grandes obrigações, impostas a nós pelo Senhor.
Muitas raças diferentes povoam o mundo, mas existem somente dois sexos.
Um deles se reserva o direito de mandar no outro.
Estudando as leis da natureza, as Sagradas Escrituras, bem como os ensinamentos dos sábios da Antiguidade, encontraremos uma clara indicação para solucionar esse importante problema.
Comecemos pela criação do primeiro homem.
Deus, em sua infinita misericórdia, deu-lhe uma companheira; somente uma e não duas ou três, o que Ele poderia facilmente fazer, se achasse necessário.
Quando, por ordem do Senhor, Noé separava os animais para sua arca, que deveriam sobreviver ao dilúvio, pegava somente um macho e uma fêmea de cada espécie, provando com isso que um par é suficiente para o cumprimento da lei do amor e da multiplicação.
Moisés, nos dez mandamentos ditados por Deus, base da nossa religião e da lei moral, diz:
"Não deseje a mulher do próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu burro; nada que pertença ao seu próximo."
- Nisso não sou pecador!
Jamais desejei a vaca ou o burro do meu próximo - murmurou, ironicamente, o Barão Ravensburg.
- Talvez o senhor ache mais desculpável privar o próximo de bens imateriais, como a honra e a paz familiar! - respondeu Ellen no mesmo tom.
- Como mais um exemplo das Sagradas Escrituras, posso indicar o seguinte trecho do Evangelho - prosseguiu o senhor Brown.
A lei cruel e injusta, estabelecida por nós, homens, condenava ao apedrejamento qualquer mulher surpreendida em adultério.
E o que aconteceu?
Quando levaram a mulher surpreendida nesse pecado até o Salvador, e os acusadores insistiam em aplicar a lei de Moisés, ou seja, o apedrejamento, o que disse Ele?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:11 pm

"Aquele dentre vocês que estiver sem pecado, que atire a primeira pedra!"
A turba, envergonhada pela consciência, dispersou-se em silêncio.
"Vá e doravante não peque!", disse Jesus à pecadora, milagrosamente salva por Suas palavras.
Essa elevada lição dada pelo Salvador ao mundo demonstra claramente que a lei da virtude é igual tanto para os homens como para as mulheres.
Mas os primeiros, assumindo o papel de juízes, eram tão culpados quanto aquela mulher.
- Dá para entender, pois para ela seria difícil pecar sozinha - sussurrou mais uma vez o incorrigível Ravensburg.
- Portanto, podemos concluir que a Escritura julga o casamento uma lei sagrada, e o adultério um pecado mortal para ambos os sexos.
Vejamos o que dizem sobre essa questão livros antiquíssimos, legados pela sabedoria humana.
Refiro-me aos Vedas(6), e citarei algumas leis dos livros sagrados da Índia:
"O homem é a força, a mulher, a beleza; ele, a inteligência governante; ela, a sabedoria mediadora.
Não podem existir um sem o outro e, por isso, o Senhor criou a ambos para um objectivo comum.
O homem não é completo sem a mulher.
Qualquer homem que atingiu a maturidade e não se casou, deve ser marcado com a desonra.
Mas, assim como uma mulher virtuosa deve ter somente um marido, o homem também deve ter somente uma esposa."
Sim, a igualdade de obrigações deve reinar entre o homem e a mulher - prosseguiu senhor Brown, inspirando-se cada vez mais.
O homem tem o dever de ser tão puro quanto a mulher e não se dirigir ao próprio lar com o coração maltratado e vazio, abalado pelas depravações e costumes egoístas da vadiagem, que condenam ao sofrimento moral a criatura honesta e inocente com quem se uniu.
Não estaríamos condenando nossas esposas a uma luta secreta e sem fim?
Não as estaríamos submetendo ao sofrimento oculto do ciúme, pelo permanente temor de perder o amor do marido, que nunca pertence inteiramente à esposa e sempre lhe oculta algo?
Um marido que qualquer cocote pode roubar dela e das crianças e cujas constantes ausências a condenam à vida solitária?
Uma vida tão vazia, com tal sofrimento e permanente tensão moral, acaba desequilibrando os nervos e a saúde da mulher virtuosa.
Entretanto, ouçam o que escreve nos Vedas o legislador Manu(7), livro III, parágrafo 55 e seguintes:
"Aquele que despreza a mulher, despreza a própria mãe.
Aquele que amaldiçoa a mulher, é amaldiçoado pelo Senhor.
As mulheres devem ser cercadas de atenções e presentes por parte dos pais, irmãos, maridos e até cunhados, se eles desejam maior sucesso.
Em todo lugar, onde as mulheres vivem ofendidas, a família se apaga.
Mas se elas são amadas e respeitadas, a família cresce feliz em todas as circunstâncias.
Quando as mulheres são respeitadas, as divindades estão satisfeitas; mas, quando acontece o contrário, todas as devoções são infrutíferas.
Em qualquer casa onde marido e mulher se amam, a felicidade está garantida para sempre."
Mas como nós cumprimos as obrigações prescritas pela sabedoria humana e colocada em mandamentos pelos santos profetas?
Para satisfazer caprichos levianos, sacrificamos a verdadeira felicidade.
Em vez de refrear nossas paixões, aproveitamos a fraqueza da mulher, e depois a condenamos e desprezamos.
Se a depravação não fosse um negócio lucrativo, mesmo que vergonhoso, muito melhor remunerado que o trabalho escrupuloso e honrado, a prostituição, ostensiva e oculta, não tomaria proporções tão aterrorizadoras como demonstram as estatísticas.
Em seguida, o senhor Brown expôs dados estatísticos de todos os países europeus e da América sobre a crescente depravação e o número de crianças ilegais.
- Estes números podem horrorizar qualquer homem honesto, apesar de estarem longe de serem exactos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:11 pm

Como determinar o número de mulheres que se vendem para satisfazer suas paixões por trajes, e a quantidade de crianças infelizes que têm o nome do pai, mas são odiadas por ele, que sabe que não são seus filhos, e pela mãe, que vê na criança a incómoda lembrança de seu erro e o motivo de eternas brigas familiares?
Homens e mulheres jamais devem esquecer que a consequência de suas criminosas paixões é o nascimento de um ser humano, condenado por um preconceito injusto e cruel e, mesmo assim, dificilmente evitável, ao desprezo, solidão e miséria.
Isso, porque a lei tem obrigação de preservar a família legítima e regular as questões financeiras e todas as outras referentes à união familiar.
Sobre nós, homens, recai o dever de voltar honestamente ao lar conjugal, satisfazer-nos com as esposas, que nos presenteiam com o amor, e servir de exemplo de honestidade para que nossos filhos e filhas nos amem e respeitem.
Nosso exemplo agirá também sobre as mulheres.
Sem mais encontrar compradores, as infelizes que vendem o próprio corpo serão obrigadas a procurar outro meio de ganhar dinheiro.
Então, não será mais necessário o "Paraíso sem Adão", desaparecerão os tristes quadros descritos pela ilustre pregadora do abrigo e, com eles, os motivos pelos quais ela, de forma inteiramente correta, preconizava às mulheres que nos evitassem como indignos de sua afeição e amor.
Portanto, retomemos à inocência dos primeiros séculos da cristandade, ao amor único e puro que une os cônjuges, amor que suporta todas as tempestades da vida, a beleza e a juventude; o amor misericordioso, paciente e imortal por sua força revitalizante, pois sobrevive à morte corporal.
Busquemos aquele amor desinteressado, que reveste a alma com uma cobertura imortal, liga-se a ela por laços indissolúveis, acompanha-a de vida para vida, de mundo para mundo, de esfera para esfera, servindo de apoio nos inevitáveis bacilos na ascensão da alma.
Assim é o verdadeiro casamento, uma união harmoniosa, baseada num sentimento único, capaz de destruir a escravidão entre os sexos.
Só o amor puro é capaz de unir cordialmente os dois poderosos princípios da natureza, o masculino e o feminino, sempre em conflito e, ao mesmo tempo, atraídos um pelo outro.
Eles se aproveitam de suas fraquezas para submeterem um ao outro, odeiam-se por sentirem a dependência mútua, cometem injustiças e pecam.
Nos lugares onde somente a paixão dirige essas duas forças universais, elas se tomam um incêndio, que destrói tudo, deixando, atrás de si, somente cinzas.
Portanto, tentemos retomar ao verdadeiro amor, o único que aquece e satisfaz nossa sede.
Que o misericordioso Senhor nos apoie em nosso esforço e nos guie pelo caminho do bem. Amém!
- Amém! - repetiu o Barão, sob a explosão de aplausos ao palestrante.
Isso é o que se pode chamar de um discurso profundamente comovente, apesar de pouco prático!
Tudo o que disse o senhor Brown é lindo e elevado na teoria, mas pouco aplicável na realidade.
- Sim - respondeu Ellen, dirigindo-se à saída -, para um grande Don Juan(8) como o senhor, esses ensinamentos são realmente inaplicáveis.
Por isso, Barão, o senhor faria um grande bem se nunca se casasse.
Que inferno o senhor criaria para a mulher que o desposasse com o coração cheio de ilusões!
O senhor a queimaria em fogo lento.
Seria de sua parte uma virtude e um acto de misericórdia, se livrasse algum pobre ser humano de trabalhos forçados por toda a vida.
- Mas, que amável!
Então, casar-se comigo significa condenar-se ao trabalho forçado perpétuo - observou Ravensburg, meio rindo, meio ofendido.
Realmente, é preciso vir do "Paraíso sem Adão" para falar tais coisas directamente na cara das pessoas.
Mas me aguarde, cruel Eva, está próxima a minha vingança!
O Barão inclinou-se e olhou nos olhos claros de Ellen com aquele olhar ardente, cujo poder ele já comprovara.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:11 pm

- De que massa é feita a senhorita - prosseguiu ele -, se em sua jovem e íntegra natureza não desperta o instinto do amor?
A mais virtuosa e pura das mulheres jamais enrubesceu por esse sentimento divino, que eleva aqueles que o experimentam ao ápice da bem-aventurança, acima de todas as desgraças terrenas.
Ou a senhorita duvida da justeza do que estou dizendo?
Ellen ouvia com os olhos levantados para ele, e foi dominada por um temor, enquanto seu coração batia assustado sob aquele olhar fascinante.
Como uma criança que escuta um conto de fadas, oscilando entre o medo e a curiosidade, ela ouvia as palavras perigosas do hábil conquistador de corações femininos, que ansiava por quebrar e dominar sua alma desconfiada e pura.
Naquele momento, Evgueny Pavlovitch estava sinceramente inspirado.
Jamais Ellen lhe parecera tão encantadora.
Sua cabecinha orgulhosa destacava-se sobremaneira da gola de peles, enquanto os grandes olhos, mágicos, misteriosos e brilhantes, reflectiam os novos e diferentes sentimentos que a perturbavam.
Lutando energicamente contra o estranho sentimento que a dominava, Ellen virou o rosto.
- Não duvido do poder do amor, mas não concordo que ele traz felicidade - respondeu, seguindo apressadamente as amigas em direcção à equipagem.
Ellen sentia-se abatida e retornou para casa nervosa e incomodada por uma obscura agitação.
A lembrança do Barão perseguia-a como um pesadelo e ela, horrorizada, se perguntava:
"esse sentimento desconhecido, agudo e inquietante, que a tornava distraída e irritável, seria o amor, aquele inimigo fatal, contra o qual lutava em seus discursos e na imprensa, tentando eliminá-lo da alma humana?"
Sentiu vontade de fugir, mas agora já lhe faltava a costumeira energia.
Durante alguns dias ela não saiu de casa, não recebeu ninguém e ficou trancada em seu quarto, alegando estar preparando sua nova palestra.
Na véspera da segunda conferência, a solidão pareceu a Ellen particularmente difícil e ela foi visitar Inna.
Contra qualquer expectativa, encontrou a recém-casada em casa e ela ficou muito contente com sua visita.
Mas Ellen notou, ao primeiro olhar, que os olhinhos de Inna estavam vermelhos e o rostinho encantador expressava tristeza e desilusão.
- Você está sozinha, minha querida? - perguntou Ellen.
- Sim - respondeu Inna, laconicamente.
Em seguida, como se tentasse evitar as perguntas da visitante, levou-a para mostrar a casa, bem decorada por sua mãe.
Mas quando chegaram ao "boudoir", um aconchegante ninho revestido de cetim verde com acabamentos em rosa, decorado com flores e bibelôs caros, Inna fez Ellen sentar-se no pequeno divã e, encostando a cabeça em seu ombro, disse com voz abatida:
- Ellen, estou aqui sozinha já faz uma semana, desde que casei.
Com excepção de algumas noites e almoços dados em nossa honra, nunca estamos juntos.
Pela manhã, meu marido sai para trabalhar e retorna às sete horas da noite.
As nove e meia ele sai e retorna somente às cinco, seis ou até sete horas da manhã.
Volta com a pior das aparências!
Às vezes parece um fantasma, com profundas olheiras.
Certa vez, voltou meio alegre e deixou cair perto da cama um lenço de cambraia com iniciais estranhas e um bilhete convidando-o a passear de tróica(9).
Há momentos em que sinto ódio e desprezo por ele.
Viver assim o resto da vida, definhando na solidão ou procurando fora aquilo que não encontro em meu próprio lar, parece estar acima das minhas forças.
- Mas, Inna, você previu tudo isso e me prometeu ser corajosa e paciente.
- Quero suportar pacientemente, mas, mesmo assim, sofro demais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:12 pm

Parece-me, às vezes, que fui repentinamente levada de um jardim ensolarado para a noite polar.
Hoje pela manhã até discuti com mamãe.
Ela me pegou chorando e quis me levar embora, mas eu não tinha a menor vontade de ir a qualquer lugar.
Repreendi-a por ela me ter sacrificado por causa de um preconceito vulgar, obrigando-me a casar com um homem cuja devassidão é sobejamente conhecida por todos.
Ellen suspirou.
Sim, o amor e o casamento representavam uma terrível armadilha.
O medo de cair em tal cilada dava-lhe calafrios.
Distraída, Inna não notara o suspiro da amiga nem sua repentina palidez; após um instante de silêncio, prosseguiu:
- Como você sugeriu, quero tentar de tudo para fazer meu marido retomar à vida correta e conquistar seu amor.
Mas se não conseguir, é muito provável que pensarei também em escapar dessa insuportável situação.
Como presente de casamento, recebi muito dinheiro e valiosos objectos de ouro.
Guardarei tudo até o momento em que decidir deixar a Europa.
Aos poucos, irei me preparando e aparecerei um dia no seu abrigo, na América.
Ellen interessou-se por esse plano, prometendo colaborar, e acertaram todos os detalhes.
Apesar disso, uma obscura tristeza premia as amigas e separaram-se bem cedo.
Em vez de a distrair ou aliviar, a visita à casa de Inna somente aumentou o nervosismo de Ellen.
Foi imediatamente deitar-se, mas não conseguia dormir, tomada por negros pensamentos.
A vida que se descortinava à sua frente parecia-lhe indescritivelmente vazia e sem sentido.
Ficar eternamente fazendo palestras, dar aulas no abrigo, consolar os náufragos da vida, sem suportar pessoalmente toda essa amargura, era terrivelmente ridículo.
Em sua alma surgiu uma inveja de Inna, que tinha pais e parentes que a amavam e participavam de suas alegrias e tristezas, enquanto ela era solitária, sem qualquer apego a ninguém.
Viajava pela Europa e América como uma ave migradora, defensora do "Paraíso sem Adão", servindo à sua causa sem criar raízes em lugar algum.
Apesar de sua riqueza, beleza e conhecimento, era muito pobre e solitária.
Para que viera a São Petersburgo?
Somente aqui percebeu a própria miséria!
Estava assolada por tanta raiva e desespero, que já pensava em partir sem esperar o baile à fantasia, nem mesmo acertar as coisas com seu pai.
Mas rapidamente abandonou essa intenção.
"Não, aquele patife deveria saber que sua filha vive, odeia-o e o deixa para sempre!"
Passou uma noite agitada.
As imagens do pai e do Barão perseguiam-na em sonhos e acordou ainda mais irritada.
De péssimo humor, zangada consigo, com o pai, com o Barão e com todos os "Adãos" semelhantes a eles, Ellen subiu à noite na cátedra com expressão severa no rosto e vestida simplesmente; iniciou a palestra num tom sério, pausado.
Inicialmente, expôs a luta das mulheres em todos os lugares por sua emancipação e os resultados obtidos por elas em todos os ramos da ciência, da arte e até da indústria.
Relatou com raiva os empecilhos e dificuldades que os homens criavam para impedir as mulheres de obter sucesso, e a malevolência de que as discretas e pacientes trabalhadoras eram vítimas.
Em seguida, passou a descrever minuciosamente o abrigo, seus estatutos e seu desenvolvimento permanente.
Ellen demonstrou com números convincentes que, para apoiar o movimento de libertação das mulheres, não havia nada melhor do que a construção de instituições semelhantes e convidava as mulheres ricas e independentes a se unirem para criar tais comunidades.
- Sem dúvida - disse ela -, todas as mulheres do mundo não caberiam nos abrigos semelhantes ao nosso e sempre haverá aquelas que não renunciarão à felicidade da vida conjugal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:23 pm

Mas, para as que não são suficientemente ricas, bonitas, prendadas para obter um marido, para as que preferiram a liberdade e, exactamente por isso, são rejeitadas, enfim, para todas as que são incómodas no "paraíso masculino", esquecidas no meio de famílias estranhas, onde frequentemente são subjugadas e mal suportadas, os abrigos como o nosso servirão de porto seguro.
Lá, essas mulheres encontrarão apoio mútuo, independência e uma existência garantida pelo trabalho.
Finalmente, as mulheres casadas, levadas a tal abrigo pela ruína do lar, brigas, abandono e ofensas do marido, estarão num lugar melhor, que as recompensará por tudo.
Lá, ficarão livres da sogra, o monstro com cabeça de Medusa(10), que antes do casamento ocultava-se nas sombras e surge mais tarde como um espantalho entre o casal, frequentemente destroçando a felicidade conjugal.
Essas maldosas e rabugentas damas, que se transformam em dominadoras, deveriam ter a entrada no "Paraíso sem Adão" terminantemente proibida.
Essa tirada foi recebida com altas risadas.
Em seguida, os presentes ouviram com vivo interesse o final da palestra, sobre o Espiritismo como um poderoso meio de solucionar a questão feminina, pela nova luz que abre para a vida e a natureza da alma, comprovando a total igualdade.
Como o espírito não tem sexo e pode, na vida terrena, nascer homem ou mulher, a grande Lei da Reencarnação arranca pela raiz a vazia e egoísta pretensão dos homens de sua suposta superioridade.
- A partir do momento em que a ciência compreender as verdades do Espiritismo, e isso está próximo, os homens deixarão de ter o papel principal e deverão ser tão discretos e bondosos para agradar às mulheres, como elas o são agora, para merecer as graças da parte dos senhores "Adãos".
Essa conclusão provocou novamente uma explosão de risos e Ellen desceu da cátedra sob fortes aplausos.
A Baronesa Nadler queria levá-la para jantar, mas ela, alegando cansaço, voltou para casa.
Desapareceu tão rapidamente que o Barão, após cumprimentá-la de longe, sequer teve tempo de aproximar-se.
Ele também voltou para casa irritado, preocupado, e começou a andar pensativo pelo quarto.
Pareceu-lhe que Ellen mudara, tornando-se fria, severa e hostil.
Era visível que ela o evitava.
Será que ele não lhe agradava?
Até então conseguira agradar a todas as mulheres que quisera conquistar.
Todas as mamães, ansiando "ajeitar" as filhas, as próprias senhoritas, viúvas e outras mulheres que procuravam um marido ou amante, caçavam-no com tanto afinco que, se ele conseguira evitar tantas armadilhas e ciladas, foi graças ao milagre de sua estratégia.
De repente, essa americana ousava dizer abertamente que preferia a liberdade a seu amor, do qual ele se orgulhava e não esbanjava...
Será que estava mais feio?
Evgueny Pavlovitch parou diante do espelho e examinou-se por longo tempo.
Estava bonito como antes.
Seus olhos escuros não perderam o brilho, os vastos cabelos encaracolavam-se como sempre e o porte alto e esguio mantinha a mesma nobre elegância.
O que significava esse insucesso?
Ou Ellen realmente devia ser de massa diferente das outras mulheres!
Aos olhos do Barão, essa hipótese a fez ainda mais desejável; a inconquistável, que via a liberdade como um bem valioso, que permitia ser cortejada e se divertia com isso com um ar cruel e desapaixonado.
Esquecendo todas as características do personagem que desempenhava à perfeição, Ravensburg desejava ardentemente sacrificar sua própria e valiosa liberdade, se ela aceitasse esse "sacrifício".
A ideia de que Ellen partiria para sempre desesperava-o e a inesperada resistência encontrada provocou nele uma paixão, submetendo-o ao poder da orgulhosa moça, que passou a adorar e desejar como jamais desejara uma mulher.
Então decidiu tentar oferecer-lhe seu coração.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:24 pm

Ela, enfim, era mulher, e, como tal, sujeita à lei do amor como todas as suas irmãs!
O fogo da paixão derreteria a crosta de gelo por trás da qual ela ocultava seu coraçãozinho.
Mas, se a falsa vergonha de trair a própria causa a impedisse, ele, naturalmente conseguiria dissuadi-la.
Portanto, resolveu:
iria lhe propor casamento.
Mas onde e quando?
Não era nada fácil conseguir um encontro a sós com a linda inimiga dos homens.
Após pensar bem, decidiu confiar o seu problema a Lídia Andreevna e pedir sua colaboração.
Somente ela poderia arranjar-lhe o desejado encontro, e ele não tinha dúvidas quanto à discrição e afeição da Baronesa, que não estava interessada nele, nem para si nem para as filhas.
No dia seguinte, Evgueny Pavlovitch foi ver a Baronesa que o recebeu com a habitual amabilidade.
Beijando respeitosamente a mão da anfitriã, Ravensburg disse:
- Vim pedir-lhe um favor, pelo qual ser-lhe-ei eternamente grato.
O humor da Baronesa ficou sombrio.
O que poderia significar tal introdução?
Será que o rico rapaz estava com dívidas e queria dinheiro emprestado?
Lídia Andreevna não suportava tais pedidos que, em sua opinião, estragavam a amizade.
Mesmo assim, respondeu sem hesitar:
- Diga, Evgueny Pavlovitch!
O senhor sabe a amizade que lhe tenho e que sempre ficarei feliz em ser-lhe útil.
- Agradeço, Lídia Andreevna!
Mas... a senhora promete não rir de mim e manter em segredo o que pretendo lhe contar?
- Naturalmente! Serei muda como um túmulo.
Portanto, me conte tudo.
Evgueny Pavlovitch pulou da poltrona e passou a mão pelos cabelos como se tentasse aliviar a mente.
- Aliás, pode rir!
Eu mereço, pois estou apaixonado como um adolescente, como o último dos bobos que nunca viu uma linda mulher!
Vim pedir sua ajuda e colocar um laço no meu pescoço.
- Ai, pobre garoto!
Eu o entendo e nem preciso perguntar-lhe por quem está apaixonado! - disse a Baronesa, solidária, contente por não ter que desembolsar nada.
Mas devo acrescentar que o senhor entregou seu coração de forma errada e comprometedora.
A americana é bela mas fanática pela própria causa.
Dizem que é muito rica, mas sua beleza deixa-a indiferente às conquistas e bajulações dos homens.
Além disso, é tão jovem que tem muito tempo pela frente para arrepender-se diante do sexo que ofendeu e que sempre a perdoará por causa de seu lindo rostinho.
- Infelizmente sei de tudo isso.
Mas ela é feita de carne e osso!
É impossível que o amor não a afecte.
- É difícil opinar sobre isso.
Eu realmente não consegui perceber se o senhor causou alguma impressão em seu coração gélido.
Além disso, sua infância foi muito infeliz.
O pai deixou-a, o que motivou a morte da mãe.
Tudo isso a enraiveceu e a tornou desconfiada.
- Que o inferno leve esse pai!
Em todo caso, não sou responsável pelos males que ela passou.
Talvez em mim ocultem-se as qualidades de marido e pai exemplar!
A Baronesa soltou uma gargalhada.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:24 pm

- Com relação a isso, a senhorita Rutherford tem até razão para duvidar de sua fidelidade, que certamente vai vacilar.
Mas isso não vem ao caso!
Se o senhor acha que meu discurso pode fazê-la mudar de ideia, tentarei.
- Na verdade, todos somos pecadores - respondeu o Barão, rindo involuntariamente -, mas quero pedir outra coisa.
Arranje-me um encontro com a "não-me-toques"; quero falar com ela a sós.
- Está certo!
Mas e se ela não aceitar?
- Nesse caso, só me restará apelar para o rapto e obrigá-la a se casar comigo sob a mira de uma pistola em alguma capela da aldeia - respondeu o Barão com zombaria e raiva.
Lídia Andreevna deu de ombros e, após pensar um pouco, respondeu:
- Amanhã mesmo vou arranjar-lhe o encontro que deseja.
Pela manhã recebi uma carta de Olga.
O senhor sabe como ela é excêntrica; provavelmente interessou-se pelo "Paraíso sem Adão", pois me pediu que lhe arrumasse uma entrevista com Ellen.
Em função dessa carta, pedirei à senhorita Rutherford para vir à minha casa amanhã, às cinco da tarde, dando-lhe a entender que ela poderá obter uma ardente seguidora.
Na realidade, ela encontrará aqui um adorador; o resto deixo em suas mãos.
Ordenarei à criadagem que não receba ninguém; assim, o senhor terá total liberdade.
Contentíssimo, Evgueny Pavlovitch agradeceu fervorosamente, mas a Baronesa, balançando a cabeça, observou:
- Desejo-lhe sorte, meu amigo.
Mas, antes de o senhor dizer a palavra decisiva, gostaria de fazer algumas observações.
- Diga, Lídia Andreevna!
Esteja certa de que aceitarei essas observações com o devido respeito e gratidão.
- O caso é que, nessa história toda, existem dois pontos que me fazem pensar.
Em primeiro lugar, parece-me que entre a senhorita Rutherford e Vladimir Aleksandrovitch oculta-se algo estranho.
Ellen fica sempre nervosa na presença dele e observei que ela o olha de forma esquisita.
Ele também mudou bastante nos últimos tempos, ficou insociável, parece cansado da vida.
Aparentemente também nutre pela moça um interesse muito suspeito.
Por mais inverosímil que seja a suposição de que Ellen prefere aquele homem maduro ao senhor, aconselho-o a levar em conta essa possibilidade.
O Barão empalideceu e ficou sombrio.
- É mais uma razão para certificar-me disso o quanto antes e entender-me com ela.
Mas, vejamos a sua segunda opinião.
- Refere-se aos seus parentes.
Esses, sem dúvida, não ficarão satisfeitos se o senhor se casar com uma estrangeira, de origem desconhecida e até duvidosa, pois, na verdade, nada sabemos de positivo sobre a senhorita Rutherford.
Ela é bela e inteligente, mas isso não exclui a possibilidade de que seja simplesmente uma aventureira.
Além disso, ouvi sua tia dizer que querem casá-lo com a Princesa Zoia.
- Não dou a mínima a esses projectos!
Nem me passa pela cabeça me casar com Zoia, aquela idiota, eternamente policiada pela mãe.
Imagine ter como sogra aquele sargentão de saias!
Nem pensar!
Ainda me lembro das palavras da senhorita Ellen sobre as sogras.
- Em todo caso, será necessário amar muito sua esposa para protegê-la das amarguras e humilhações que inevitavelmente a esperam.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:24 pm

Todos se levantarão contra ela:
os seus parentes, os planos que ela vai destruir, as mamães que o querem para genro, as moças apaixonadas pelo senhor e suas amantes, que sentirão ciúmes dela.
Imagine, o senhor irá provocar uma verdadeira guerra civil!
- Qual nada! Eu me defendo.
Além disso, Ellen é rica e os meus parentes são contra noivas pobres.
- Duvido que uma fortuna, cujo valor não sabemos ao certo, consiga livrá-la do ódio geral e das mais ofensivas acusações.
Vão chamá-la de aventureira, pessoa de moral suspeita, tresloucada e a pior das intrigantes.
Pelo que conheço do carácter da senhorita Rutherford, ela não suportará por muito tempo as injúrias por ter ousado ser sua esposa sem a concordância de toda a família.
Ela lhe dará as costas e retornará para o seu "Paraíso sem Adão", onde tem sempre um lugar reservado.
Evgueny Pavlovitch nada respondeu.
Encostando-se no espaldar da poltrona, cerrou o cenho e ficou pensativo.
Tudo o que a Baronesa Nadler dissera era tão correto que a visão do futuro provocou-lhe um tremor nervoso.
Apenas a ardente paixão por Ellen poderia dar-lhe coragem para se casar sem o consentimento de toda a família.
Seu casamento já fora objecto de tantas discussões venenosas, propostas e planos contraditórios, que satisfaziam todos os gostos, menos o dele, que decidira jamais se casar para evitar assim todas aquelas intrigas matrimoniais.
Mas era jovem, sonhava com o amor ideal e acabou se apaixonando.
Entretanto, as palavras de Lídia Andreevna tocaram um ponto vulnerável, o "calcanhar de Aquiles" do "leão dos salões".
Em sua imaginação levantavam-se não uma, mas uma dúzia de ameaçadoras cabeças de Medusa.
Esse quadro aterrador quase aniquilava sua intenção.
Mas essa indecisão durou pouco, a paixão venceu o bom senso e ele decidiu definitivamente tudo fazer para conquistar Ellen.
Ela devia pertencer-lhe; depois de consumado o facto, saberia defender a esposa e a si próprio.
Agradecendo à anfitriã, disse que no dia seguinte agiria com delicadeza; e foi para casa.

(1 - Calvinista - Sectário do Calvinismo, ramo do Protestantismo que segue a doutrina de João Calvino).
(2 - Iconóstase - Espécie de biombo com três portas, coberto de ícones, usado nas igrejas da religião ortodoxa durante a consagração e colocado de modo a ocultar o altar da vista dos fiéis).
(3 - Bizantina - Relativo ao Império Bizantino ou Império Romano do Oriente (395 - 1461).
A arte bizantina engloba elementos helenísticos, orientais e romanos).
(4 - O ládano é uma resina pegajosa de cor castanha obtida a partir da esteva (Cistus ladanifer, no Mediterrâneo ocidental) ou de Cistus creticus (no Mediterrâneo oriental).
Possui uma longa história de uso na homeopatia e como ingrediente em perfumaria
).
(5 - Valquírias - Na mitologia escandinava, ninfas ou divindades mensageiras de Odim que eram encarregadas de levar os heróis mortos em combate ao Vahala, ou Paraíso).
(5 - Asnath - Filha de Putifar, sacerdote de Heliópolis.
A história de José e Asnath pode ser lida em "O Chanceler de Ferro do Antigo Egipto", de Rochester
).
(6 - Vedas - Conjunto de livros sagrados do Hinduísmo, que acredita-se serem os mais antigos do mundo.
É composto de hinos, orações, preceitos litúrgicos, fórmulas mágicas e, segundo os hindus, fora ditado por Brahma
).
(7 - Manu - Na mitologia hinduísta, o primeiro homem, filho de Brahma e criador da ordem social e moral).
(8 - Don Juan - Personagem lendário, geralmente tido como símbolo da libertinagem.
Originado no folclore espanhol, adquiriu forma literária no romance "El Burlador de Sevilla"
(1630), atribuído a Gabriel Téllez, sob o pseudónimo Tirso de Molina.
Posteriormente, tornou-se o herói-vilão de romances, peças teatrais e poemas; sua lenda adquiriu popularidade permanente com a ópera de Mozart "Don Giovarmi"
(1787).
(9 - Tróica - Grande trenó puxado por três cavalos emparelhados).
(10 - Medusa - Personagem da mitologia grega, filha das divindades marinhas Fórcis e Cito; tinha serpentes em vez de cabelos, mãos de bronze e asas de ouro, e transformava em pedra quem olhasse para sua cabeça).


Última edição por Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:26 pm, editado 1 vez(es)
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:25 pm

Capítulo 10

Sem suspeitar da armadilha, Ellen chegou à casa da Baronesa na hora marcada e ficou extremamente surpresa por não encontrar lá a fervorosa seguidora que esperava trazer definitivamente para o "Paraíso sem Adão".
Lídia Andreevna explicou que algo acontecera e atrasou a prima.
Passando para o "boudoir", a Baronesa sentou-se a bordar um grande tapete, destinado a uma pobre capela da aldeia em sua propriedade.
Começaram a conversar sobre o baile à fantasia.
Lídia Andreevna informou que seria no enorme salão do primeiro andar, recentemente desocupado pela direcção de uma estrada de ferro.
Isso lhe permitia aumentar consideravelmente o número de convidados; às duas da madrugada, na hora da ceia, todos iriam retirar as máscaras.
- É uma pena que a senhorita esteja se preparando para partir - acrescentou amigavelmente a Baronesa.
Sentirei falta de sua companhia.
Sempre penso com tristeza que uma pessoa tão encantadora e digna de amor tenha decidido não se casar.
Creia-me, minha filha, isso é pura loucura!
Conheço alguém que a adora e se a senhorita incentivá-lo um pouco, permanecerá aqui, como uma linda Baronesa.
Ellen ficou muito vermelha.
- A senhora é muito bondosa!
Mas, para mim, é quase impossível assumir uma união que é fatal para nove, entre dez mulheres.
Vi inúmeras consequências de casamentos infelizes para que eu me arrisque a casar.
- Querida senhorita Ellen!
Somente o casamento concede à mulher uma posição séria na vida.
Devo confessar-lhe que, apesar de ser viúva e nada jovem, vou me casar com o Príncipe e nosso noivado será anunciado no dia do baile à fantasia.
Sei que me aguardam muitas decepções mas, mesmo assim, aceitei casar pela segunda vez para dar às minhas filhas uma posição de maior destaque e casá-las melhor.
- A senhora encontra-se numa posição bem diferente da minha.
Entendo que o amor materno a incita ao sacrifício.
Eu, entretanto, sou rica, sozinha, tenho o coração livre e posso agir como bem me aprouver.
A chegada do Barão interrompeu essa conversa e, dez minutos mais tarde, todos sentaram-se para almoçar; a Baronesa anunciou que algo atrasara a prima e ela, provavelmente, só chegaria à noite.
Após o almoço, passaram à biblioteca, onde foram servidos a sobremesa e o café.
Notando sobre a mesa a nova edição de uma revista de arte, Ellen ficou examinando as gravuras que ilustravam as escavações de Schliemann(1) no local da antiga Tróia.
Ravensburg tagarelava com a anfitriã sobre assuntos variados, quando entrou a camareira e anunciou que a costureira pedia a presença de Lídia Andreevna para dar-lhe instruções sobre a confecção do vestido.
A Baronesa levantou-se imediatamente.
- Meus amigos, me desculpem por deixá-los alguns momentos.
E o senhor, Evgueny Pavlovitch, faça sala para minha querida visitante.
Ellen não se sentiu nada bem ao ficar a sós com o Barão e imediatamente iniciou uma conversa sobre as escavações de Tróia, mas este nada respondia.
Ele se levantou e visivelmente lutava consigo mesmo antes de pronunciar a palavra definitiva.
Por fim, decidindo-se rapidamente, disse com voz surda:
- Senhorita Ellen!
O acaso me permitiu a felicidade de estar a sós com você; quero aproveitá-lo para pôr um fim a uma questão que está tomando minha vida um verdadeiro inferno.
Ellen empalideceu e também se levantou.
Chegara o momento que ela tanto temia e tentara evitar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:26 pm

Sentia-se fraca, desarmada diante do olhar amoroso e apaixonado que a encarava.
Com um gesto de quase súplica, levantou a mão e balbuciou:
- Pelo amor de Deus, Barão, não diga nada!
Eu não posso nem devo ouvi-lo.
Ravensburg olhava-a embevecido.
Jamais ela lhe pareceu tão encantadora como naquele instante.
Diante dele estava não a orgulhosa e ferrenha escarnecedora, mas uma moça cujo coração palpitava visivelmente, trémula diante da própria fraqueza.
Nos grandes olhos infantis brilhavam somente o medo e a súplica de deixá-la em paz.
Evgueny Palvovitch agarrou-lhe a mão e levou-a aos lábios.
- Não posso calar, Ellen, porque a amo!
Desse momento depende a felicidade de toda minha vida!
Será que não notou, desde o nosso primeiro encontro, que meu coração foi escravizado por você?
Não posso viver sem você e imploro que seja minha esposa.
Vou carregá-la nos braços e dedicarei toda a minha vida a fazê-la feliz e a curar seu espírito das amarguras e medos insanos, incutidos por uma educação absurda de evitar o casamento, instituído por Deus e o único que dá sentido à vida.
Não renegue o sentimento que traz a felicidade e pelo qual vale a pena viver!
Não rejeite o amor, Ellen, sem antes tê-lo experimentado!
Não sacrifique nossa felicidade por uma mísera e falsa vergonha!
Não negue! Você tem vergonha de desistir da causa que defende.
Mas, na realidade, o que você tem a ver com aquelas pobres coitadas que o acaso reuniu num abrigo?
Elas são vítimas, naturalmente, mas ao lado dessas vidas destroçadas existem, e sempre existirão, famílias felizes e abençoadas.
Esteja certa de que sua vida não terá obstáculos e meu amor conseguirá afastar todas as nuvens do nosso céu.
Ellen ouvia, calada.
Tremendo como num sonho, aquela voz trémula de paixão, aquelas palavras tentadoras, lhe provocavam milhares de novos sentimentos e dominavam sua mente e energia.
Num último esforço, arrancou sua mão da dele e respondeu baixinho:
- O senhor promete mais do que pode cumprir, Barão.
Nesse momento, eu lhe pareço desejável, mas o futuro permanece obscuro e desconhecido.
As paixões mais fogosas apagam-se e a mulher pode ser abandonada num deserto, onde juraram construir para ela um paraíso.
Essa foi a sina de minha mãe, que se casou com um estrangeiro; aqui, sou eu a estrangeira, imiscuindo-se na sociedade!
Portanto, saia do meu caminho e não me tente, pois não posso ser sua esposa.
Pertenço à comunidade e sirvo à minha causa.
Não consigo desistir da liberdade em que fui criada e das ideias que defendo, que criariam uma desarmonia entre nós.
Minha vida tem uma destinação completamente diferente, por isso, não perturbe a minha paz!
Dentro de alguns dias vou embora e o senhor logo me esquecerá.
Apesar disso, permita-me acrescentar que, se algum dia decidisse casar, minha escolha seria o senhor, mas eu não posso fazê-lo!
Sou supersticiosa e estou certa de que Némesis sempre fere os renegados.
- Ellen! Você não está convencida do que diz!
Você mesma reconhece que sou a única pessoa que escolheria para marido e, ao mesmo tempo, exige que eu desista e a esqueça! - respondeu Evgueny Pavlovitch com fervor, vacilando entre o desespero e a ira.
Isso não significaria sacrificar a nossa felicidade em troca de uma utopia e ridícula teimosia?
Não, não aceito a sua negativa!
Sou seu escravo, mulher estranha e encantadora, jamais desistirei de você.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:27 pm

Eu a seguirei para onde for, de uma forma ou de outra, você será minha!
Apesar do profundo constrangimento, Ellen sorriu:
- Fico muito lisonjeada com tal dedicação!
Mas, Barão, me parece que o senhor está enganado quanto à resistência de seus sentimentos.
Assim que eu desaparecer no horizonte, o senhor me esquecerá.
- Eu? Jamais!
Senhorita Rutherford, não zombe do sentimento poderoso que despertou em sua alma.
Ele pode conduzi-la aos meus braços, exausta, mas submissa.
Essas palavras impensadas despertaram todo o orgulho da Ellen independente.
Ela recuou e em seus olhos acendeu-se um fogo hostil.
- Saberei controlar meus próprios sentimentos e estarei sempre pronta a responder por meus actos.
Vamos encerrar essa conversa desagradável.
Minha resposta definitiva é:
eu não posso ser sua esposa!
Naquele instante, na porta da biblioteca apareceu a Baronesa.
Vendo a emoção de Ellen e o rosto em fogo do Barão, perguntou:
- Então? Como vão as coisas?
Posso cumprimentá-los?
- Qual nada!
A senhorita Rutherford prefere viajar como pregadora de suas utopias a aceitar o meu amor e meu nome - respondeu Evgueny Pavlovitch, com a voz tremendo de ira e contrariedade.
Em seguida, voltou-se e saiu do quarto como um furacão.
Ellen, mesmo pálida, permaneceu firme e não o chamou de volta.
Lídia Andreevna olhou para ela e balançou a cabeça.
- Senhorita Ellen, está sendo cruel para com o pobre Barão, que a adora sinceramente; está sendo cruel até para consigo mesma, pois sua emoção e seus olhos marejados de lágrimas comprovam que está longe de ser indiferente a Evgueny Pavlovitch.
Não negue! Sou mulher, já amei e a compreendo melhor do que você mesma.
Conduziu-a até o divã, abraçou-a e deu-lhe algumas gotas de tranquilizante.
Quando Ellen se acalmou um pouco, a Baronesa pegou-a pela mão e disse:
- Minha cara criança, permita-me conversar como sua mãe, pois lhe tenho profunda simpatia.
Reconheço a grandeza da ideia e a utilidade do "Paraíso sem Adão", mas uma sociedade de mulheres raivosas, desiludidas e cheias de ódio é prejudicial a uma jovem íntegra, cheia de tendências naturais à felicidade.
Realmente, a mulher deve ser preparada para a luta da vida, não deve colocar o casamento como o único objectivo, mas também não se deve proibi-la de amar, e considerar um crime obedecer às leis da natureza.
O abrigo pode lamentar a perda de uma colaboradora tão brilhante e eficiente, mas não tem o direito de condená-la, se você ceder à voz do coração.
É lamentável que sacrifique a felicidade de dois seres humanos a uma utopia.
O Barão a ama e você não devia temer se casar com ele.
É um bom rapaz, apesar de um pouco farrista.
Mas, quem já não cometeu bobagens sendo jovem, bonito, rico e mimado pelas mulheres?
Em compensação, tornando-se marido da mulher amada, vai sossegar e esquecer suas aventuras que há muito o cansaram.
Acredite, é enorme a influência da esposa sobre o marido!
Existem poucas mulheres em condições de submeter um homem como você!
É bela, muito instruída, inteligente e... rica, o que só ajuda.
Pense no que lhe falei; se mudar essa cruel decisão, comunique-me e eu arranjo todo o resto.
Ellen agradeceu à Baronesa pela solidariedade e, em seguida, alegando cansaço, foi embora.
Retornou a casa completamente abatida.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:27 pm

Havia um peso em seu coração, um nó na garganta e a cabeça doía demais.
Despiu-se rapidamente e dispensou a camareira; depois, jogou-se na cama, enfiou a cabeça no travesseiro e as lágrimas, que finalmente jorraram, aliviaram-na.
Ellen não conseguia mais compreender a si mesma.
Em seu espírito reinava o caos, mas quanto ao sentimento por Ravensburg não havia qualquer dúvida.
Ela o amava realmente, e dependia somente dela tornar-se sua esposa; entretanto, não queria desistir da própria liberdade.
A ideia de que ela, a brilhante defensora da causa do "Paraíso sem Adão", iria envergonhar-se por abandonar o campo de batalha, superava qualquer outro sentimento.
Aos prantos, Ellen estava totalmente entregue à sua luta interior e não notou quando Nelly entrou.
Levantou a cabeça apenas quando a amiga ajoelhou-se perto dela e disse baixinho:
- Minha querida, o que você tem?
Ellen sobressaltou-se, irada.
Não suportava ser surpreendida num momento de fragilidade moral.
Mas, ao encontrar o olhar bondoso, triste e amoroso de Nelly, sua raiva dissipou-se imediatamente; sentiu-se até feliz por não estar só e por existir uma criatura dedicada à qual podia confiar a própria tristeza, que iria compreendê-la sem a condenar.
Nelly também amava, mas lutava ferrenhamente para esquecer o indigno.
Será que já o esquecera?
Abraçando a amiga, Ellen já não continha as lágrimas e Nelly, em silêncio, deixou que ela chorasse à vontade.
Quando o pranto cessou e ficou mais calma, Nelly levantou-a e enxugou seu rosto em fogo.
- Já que você foi testemunha de minha indigna fraqueza, querida Nelly, vou confiar-lhe o que aconteceu comigo.
Após contar sua conversa com Ravensburg, acrescentou:
- Foi o momento mais difícil de minha vida.
Quando ele me implorava e falava de amor, esqueci de tudo:
do exemplo de minha mãe, dos meus princípios e da desconfiança para com os homens!
Fui tomada por um único desejo:
aceitar a proposta dele, ser feliz pelo menos um dia, experimentar amar e ser amada...
Apesar de tudo, permaneci firme e recusei; reconheço que essa decisão vai custar-me caro, pois amo o Barão e sou obrigada a esquecê-lo.
Você também amou, Nelly, e por isso não vai me condenar.
- Deus me livre da loucura de condenar um sentimento tão natural e legítimo!
Somente tenho pena de você, pois sei, de experiência própria, como é difícil vencer esse sentimento.
Mesmo assim, Ellen, agradeça a Deus por ter de esquecer voluntariamente e não porque foi abandonada por alguém que amou e a quem é obrigada a desprezar.
- Tem razão, minha fiel Nelly!
Prometo-lhe ser mais forte e sensata no futuro.
Não quero trair nossa causa e confesso que o receio de me envergonhar diante da comunidade colaborou muito para a minha decisão.
- Portanto, alegremo-nos pelo dia de hoje ter sido glorioso para a nossa comunidade, pois na sua ausência eu também recebi uma proposta de casamento - observou Nelly com um sorriso.
- Não me diga!
Foi o senhor Brown? - perguntou Ellen, animada.
- Ele mesmo!
Falou com muita eloquência sobre a vida tranquila, distante de quaisquer desilusões, que iria me proporcionar, em função dos seus rígidos princípios e sua fé na santidade do matrimónio.
- Por que você rejeitou a proposta?
Ele não é pândego nem devasso como Ravensburg.
Ou você ainda ama o seu imprestável noivo?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:27 pm

- Não, eu já não amo Harry!
Mas também já não acredito em belas palavras, sabendo que a prática frequentemente difere da teoria.
Além disso, não sinto nenhuma atracção pelo senhor Brown.
- Ele, provavelmente, ficou muito desgostoso.
- Não demonstrou nenhum desespero trágico - respondeu Nelly, alegremente.
Mas não se deu por vencido.
Disse que sou exactamente a mulher que ele precisa, que repetirá a proposta assim que retornar a Boston e que, sem dúvida, mudarei de opinião quando vir sua linda casa com um grande jardim e conhecê-lo melhor.
Ellen suspirou.
- Temo que Ravensburg também não se deu por vencido, percebendo que me agrada; além disso, ele está longe de ser submisso e paciente como o senhor Brown.
Seria mais sensato se eu partisse imediatamente, mas não posso fazê-lo sem antes ter uma conversa com meu pai.
Amanhã mesmo conversarei com a senhora Forest e vou convencê-la a partir, discretamente, no dia seguinte ao baile.
Começaremos a preparar nossa bagagem a partir de amanhã e telegrafaremos à senhora Martin em Berlim, para que esteja pronta para juntar-se a nós.
De lá passaremos por Bremen ou Paris, até chegar a Inglaterra, onde embarcaremos no navio.
Para mim, chega de palestras na Europa!
Tudo foi feito conforme o desejo de Ellen.
A senhora Forest também ansiava por retornar ao seu tranquilo abrigo e, por isso, começou a preparar a bagagem com entusiasmo.
Logo tudo ficou pronto para a partida no trem das seis horas do dia seguinte, após o baile.
Todos esses dias Ellen evitou aparecer na sociedade.
Não queria encontrar-se com o Barão, pois não confiava em si mesma.
Entretanto, a certeza de que ele a amava loucamente tranquilizava-a um pouco e para ela era difícil tratá-lo com indiferença.
À medida que o baile da Baronesa Nadler se aproximava, a tensão de Ellen aumentava; na véspera, essa febril emoção atingiu o ápice.
O dia inteiro ficou ocupada, guardando seus papéis e bibelôs; em seguida, alegando forte cansaço, foi dormir cedo.
A inevitável separação da pessoa amada enchia sua alma de torturante amargura, mas por um instante sequer pensou em ceder.
O orgulho e a teimosia eram mais fortes que o amor.
Ellen adormeceu somente ao amanhecer e seu sono foi agitado.
Vendo os raios de Sol iluminar o quarto, através da cortina, suspirou de alívio e passou o lenço no rosto em fogo.
Levantou-se e quis tocar a campainha, quando no quarto irrompeu Nelly, visivelmente irritada.
- Imagine só!
Chegou agora aquela sem-vergonha, Arabella, implorando para perdoá-la e aceitá-la de volta! - exclamou.
- Não me diga!
Depois do enorme escândalo que aprontou aqui?
Ela que vá morar com o seu querido marido ou noivo e nos deixe em paz! - respondeu Ellen com severidade.
- Oh! Ela foi cruelmente castigada por sua ingratidão.
Está com uma aparência miserável!
Tem um grande hematoma sob o olho, todo o corpo vergastado e uiva como enlouquecida.
Desde que dispensamos Kirill por negligência, parece que ele passou a beber sem parar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:27 pm

Junto com o amante da tia, roubou todas as coisas de Arabella, inclusive o relógio e o casaco; quando resolveram tirar dela o dinheiro e ela não quis entregar-lhes os míseros rublos que lhe sobraram, Kirill surrou-a quase até a morte, e essa não foi a primeira vez.
- Mas, se ela casou com ele, não temos o direito de levá-la connosco!
- Não! Eles não são casados.
Arabella jura que agora prefere o "Paraíso sem Adão" para sempre, ao "paraíso com surras, hematomas e palavrões".
- Nesse caso, teremos de perdoá-la, e também por causa de sua maravilhosa mãe.
Nesse país Arabella é uma estranha e não devemos abandoná-la.
Vamos até a senhora Forest para ouvir a vítima.
Logo apareceu Arabella, emagrecida, coberta de hematomas e arranhões.
Seus cabelos estavam desgrenhados, a roupa suja e rasgada.
Quando contou todas as desgraças que sofrera e jurou jamais confiar nos homens até a morte, a senhora Forest disse que a comunidade a perdoava e Ellen acrescentou:
- Agradeça a Deus por ter-se arrependido antes da nossa partida, marcada para amanhã!
Vou pedir à senhorita Emmi para comprar-lhe todo o necessário com meu próprio dinheiro.
Que a cruel humilhação que a espera no abrigo, após o escândalo, lhe sirva de lição para evitar, no futuro, novas afeições!
Quando Arabella saiu aos prantos e as amigas ficaram a sós, Nelly observou com leve zombaria:
- Parece-me que existe um espírito vingador, que castiga as desertoras, pois elas são obrigadas a voltar envergonhadas.
Realmente, o melhor é não desafiar o próprio destino!
Ellen não respondeu e, para matar o tempo, passou a examinar o traje que preparou com esmero para o baile de máscaras.
Queria estar particularmente bonita nessa festa, para deixar uma impressão indelével no espírito de Ravensburg, que a veria pela última vez.
O dia seguia pesado, lento e o nervosismo, a obscura e a febril preocupação de Ellen aumentavam a cada hora; um mau presságio a oprimia.
A conversa com o pai, que ela desejava ter, despertava em seu coração ira e amargura.
Não contou a ninguém sobre o seu traje e decidiu não mostrá-lo até o jantar, quando todos iriam tirar as máscaras; gostaria de misturar-se à multidão e conversar com Artemiev, disfarçada num simples dominó.
Nelly recusou-se a acompanhar a amiga, mas ajudou-a a vestir-se.
Tinha plena consciência de que ela jamais estivera tão divinamente bela como naquele maravilhoso traje, com um delicado rubor, provocado pela emoção oculta, e o brilho febril dos grandes e luminosos olhos, parecidos com safiras.
Fiel ao seu costume de trajar-se para festas e recepções somente de branco, Ellen escolhera a fantasia de fada do gelo.
O vestido era de cetim branco, coberto por gaze prateada, salpicada de lantejoulas, como gotas de diamantes.
A cinta e a franja em volta do corpete eram feitas com cristal de rocha, imitando gelo.
Uma coroa fantástica, também parecida com gelo, sustentava um véu de gaze cintilante; no pescoço trazia um maravilhoso colar de brilhantes.
Esse traje, totalmente branco, combinava surpreendentemente bem com a figura alta, elegante e a deslumbrante cor do rosto de Ellen.
Após uma última olhada no espelho, colocou um longo dominó de cetim preto e vestiu o capuz, pôs a máscara e foi embora.
A futura Princesa tinha preparado tudo à perfeição.
O saguão estava cheio de plantas iluminadas por luz eléctrica, dando às salas uma aparência mágica.
Uma delas transformou-se num jardim de inverno, com palmeiras que se erguiam até o tecto, plantas tropicais e um chafariz que jorrava água prateada, com reflexos multicores.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:27 pm

Tudo isso provocava a admiração geral.
Ellen chegou mais tarde de propósito, quando todas as salas estavam apinhadas de convidados, para misturar-se discretamente à ruidosa e colorida multidão.
Somente a anfitriã, usando um luxuoso traje medieval, estava sem máscara.
Sorrindo amável, ela passeava entre os convidados, de braço com o Príncipe, facilmente reconhecível, apesar da fantasia.
Ninguém pareceu notar ou reconhecer Ellen, excepto Ravensburg, que desde o início do baile procurava-a impacientemente.
O Barão estava muito bem no rico traje de mosqueteiro dos tempos de Henrique IV(2).
Ellen também o reconheceu, apesar da máscara, mas não lhe deu atenção; procurava Artemiev.
Passou por todas as salas sem resultado; ele não estava em lugar algum.
A impaciência de Ellen estava no limite quando, repentinamente, o acaso os fez encontrarem-se.
Viu o pai no jardim de inverno, onde ele tinha ido aparentemente para descansar.
Artemiev tirou a máscara e enxugava o rosto.
Por cima do fraque usava um largo dominó preto.
Quando saiu do jardim de inverno, Ellen seguiu atrás dele e perguntou, falseando a voz:
- Por que o cruel Amadis(3) está sozinho?
Você está sendo procurado por uma linda cigana, para adivinhar a sua sorte.
Quando Ellen passava pelas salas, pareceu-lhe ter reconhecido a senhora Obzorov trajada de cigana, que intrigava os homens com ousadia.
Artemiev examinou com cuidado o dominó que se dirigia a ele, e algo naquela voz e nas maneiras, o fez suspeitar de que se tratava da senhorita Rutherford.
- Estou só porque estava esperando você.
Sabia que iria me encontrar - respondeu ele, com seu habitual tom indiferente.
- Fico lisonjeada por me esperar, mesmo sem saber quem sou.
- Engano seu!
Eu a reconheço, encantadora inimiga dos homens.
Ellen surpreendeu-se um pouco, mas mesmo assim, respondeu sem a menor hesitação:
- Isso é pouco.
Você ainda não sabe quem sou eu.
- Você é a linda e cruel sacerdotisa do "Paraíso sem Adão" - disse Artemiev, inclinando-se para ela.
- Isso também não significa nada!
Você ainda não sabe quem sou eu - repetiu Ellen.
- Então, decifre esse mistério.
- Não posso, aqui há gente demais.
"Ora essa!
Parece que a linda americana está se revelando", pensou Artemiev.
Então, respondeu alto:
- Se quiser, posso levá-la a um lugar sossegado, onde poderá me contar o segredo sem problemas!
Como Ellen nada respondeu, ele acrescentou:
- O que proponho é muito fácil.
Conheço todas as entradas e saídas.
Por este corredor, à esquerda, podemos sair no saguão.
Junto à entrada tenho uma equipagem me esperando.
Voltamos em uma hora e ninguém notará a nossa ausência.
Ellen estremeceu e pensou:
"onde será que ele quer me levar?
Para a casa dele ou a algum cabaré da moda, onde costuma levar as cocotes?"
- Eu não vou a restaurantes - respondeu ela com rispidez, esquecendo até de falsear a voz.
- Nem me passou pela cabeça algo semelhante.
Vamos até minha casa, encantadora e dissimulada Eva.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:28 pm

Lá, longe de olhos e ouvidos indiscretos, você me revelará o seu segredo - sussurrou Vladimir Aleksandrovitch.
Por instantes Ellen ficou calada.
Tudo nela tremia e palpitava.
Naquele instante, irromperam toda a tensão espiritual e a febril emoção acumuladas nos últimos dias.
Como um furacão, passaram as lembranças da mãe, sua triste infância e o ardente desejo de vingar-se do pai, que as abandonara.
Em sua insana excitação, até esqueceu o quanto estava arriscando.
Orgulhosa e independente, entregava-se com ousadia à tentação de entrar na casa paterna, da qual fora afastada.
Por isso, não reagiu quando Vladimir Aleksandrovitch pegou-a pelo braço e a conduziu pelo corredor.
- Vamos, vamos logo! - balbuciava Artemiev, apertando apaixonadamente a mão de Ellen.
O orgulho e a jactância perturbavam o coração de Artemiev, já tão saturado da vida; em sua alma agitou-se algo semelhante a um sentimento terno, com essa inesperada conquista.
Isso significava que ainda era sedutor, já que essa linda moça entregava-se tão facilmente, preferindo seu amor a um casamento honesto e rejeitando um belo rapaz.
Mas Vladimir Aleksandrovitch enganava-se, pensando que partia do baile sem ser notado.
Ravensburg vigiava a chegada de Ellen.
Notando na sala um dominó sozinho, passou a observá-lo, e logo, em intuição de apaixonado, reconheceu Ellen.
Viu como aquele dominó passou por todas as salas como se procurasse alguém e aproximou-se de Artemiev, cujo traje o Barão conhecia; um ciúme infernal apoderou-se dele.
Ocultando-se entre as cortinas, tentou ouvir a conversa e quando Ellen e seu acompanhante passaram perto, conseguiu captar algumas palavras.
Em seguida, eles desapareceram na sala vizinha.
Por instantes o Barão ficou petrificado, depois correu em seu encalço, mas não conseguiu mais localizá-los.
Finalmente correu para o saguão; enfiando na mão do mordomo uma nota de cinco rublos, soube todos os detalhes:
minutos atrás, Artemiev partira com uma dama de dominó preto e o mordomo o ouvira ordenar ao cocheiro que os levasse para casa.
Não havia dúvidas.
Ellen fora com Artemiev para a casa dele, como faziam Colette ou Jobar.
Então, era isso que se ocultava sob aquele claro olhar, a aparência inocente e o ódio aos homens!
Essa era a resposta da vulgar aventureira à sua nobre proposta?!
Por que ela se vendia a esse maduro devasso e não a ele, mais jovem e bonito, já que não desejava amarrar-se e preferia o amor livre ao casamento honesto?
Sentia a cabeça girar, a garganta apertada e perdia o fôlego só de imaginar Ellen nos braços daquele patife.
Sabia que seu amigo amava aquela mulher e queria casar-se com ela.
O sangue subiu à cabeça do Barão e julgou estar enlouquecendo.
Tonteou e encostou-se no corrimão da escada, enxugando o suor que lhe cobria a testa.
Repentinamente, seu desespero transformou-se em ânsia de vingança, tão grande que ele mataria os culpados, se aparecessem naquele instante à sua frente.
"Aguarde, sua aventureira sem-vergonha!
Você prega a virtude e pratica a devassidão!
Vou desmascará-la e jogá-la na lama, onde poderá pregar suas ideologias à vontade.
Vou pegá-la em flagrante!
Juro que nunca mais assumirá o ar de nobreza que exibiu até agora com tanta maestria!", pensava.
O Barão se lembrou que tinha a chave do ninho de amor de Artemiev.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:28 pm

Bastava passar em casa para buscá-la e depois ir, o mais rápido possível, até a rua Bolshaia Morskaia, chegando a tempo de flagrar, no local do crime, o "distinto" casalzinho.
Sem perder tempo, vestiu o sobretudo, embarcou na equipagem e partiu rapidamente.
Quando Ellen ficou a sós com Artemiev na equipagem que seguia célere, sua excitação desapareceu imediatamente, cedendo lugar ao medo e ao arrependimento.
O que ela fizera?
Essa loucura imperdoável cobriria sua reputação com vergonha irreparável se soubessem que ela saíra do baile com aquele pândego envelhecido.
Quem acreditaria que tinha outra intenção e não se tratava de uma intrigazinha amorosa?
Ravensburg a desprezaria e deixaria de amá-la.
Tudo o que falaria ao pai ficaria em segredo para todos e ela partiria com a honra eternamente manchada.
Seu coração batia forte e o sangue lhe subiu à cabeça.
Naquele momento, Artemiev abraçou-a pela cintura e puxou-a para si tentando beijá-la; Ellen rapidamente jogou-se para trás e Vladimir Aleksandrovitch era por demais delicado para insistir.
Sentiu o tremor de Ellen e atribuiu isso à sua luta interna entre o amor e o medo de se comprometer.
Pelo jeito, para ela era o primeiro encontro; era preciso ser paciente e cuidadoso, para não assustá-la.
Chegaram em silêncio.
Artemiev conduziu-a pelo quintal e subiram ao segundo andar, pela mesma escadaria por onde iam as amadas "damas submundo" e da "alta sociedade", do insaciável "brincalhão".
Ellen batia os dentes.
Naquele momento decisivo, as forças abandonaram-na e ela sentiu vontade de fugir.
Sentindo-se repentinamente cansada, encostou-se na parede.
Enquanto isso, Artemiev tirou a chave do bolso, e abriu a porta.
Ellen, quase sem querer, entrou a seu convite num pequeno e luxuoso saguão, iluminado por lâmpada eléctrica.
Tirando o sobretudo, Vladimir Aleksandrovitch ajudou-a a despir o dela e a levou ao "boudoir", ainda escuro.
Em seguida, apertou o interruptor e, num instante, quatro lâmpadas encheram de luz o aconchegante e luxuoso abrigo de suas efémeras brincadeiras amorosas.
Parada no meio do quarto, Ellen tirou somente a máscara, querendo ficar de dominó, mas Artemiev desabotoou-o com insistente amabilidade.
- Aqui está muito calor, querida! - disse ele, jogando o dominó na poltrona.
No mesmo instante, ele deixou escapar um grito surdo de admiração e seu olhar embevecido fixou-se em Ellen, parada diante dele como uma visão mágica, linda e etérea em seu traje prateado.
A luz eléctrica brilhava e reflectia-se nos brilhantes e cristais, cercando-a de uma auréola multicolorida e brilhante.
Mas o rosto dela estava tão branco quanto o traje de fada do gelo.
Os lábios tremiam nervosamente e os grandes olhos, parecendo duas enormes safiras, olhavam para Vladimir Aleksandrovitch com uma expressão estranha, que ele não conseguia entender.
- Meu Deus, como é bela, senhorita Ellen!
O que fiz para merecer esse presente real que é o seu amor? - murmurou ele entusiasmado, inclinando-se para ela.
Seu olhar ardente, os lábios semi-abertos e a respiração pesada, demonstravam claramente a paixão que tomara conta dele.
É difícil descrever o que sentia Ellen.
Nojo, desespero, vergonha e um ódio insano ferviam em seu espírito contra esse pecador que ansiava possuí-la e a quem a voz interior não dizia:
"Você trouxe sua filha inocente para esse 'boudoir', totalmente impregnado de pecado e devassidão!
Trouxe-a a esse poço de lama, para desonrá-la impiedosamente!"
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:28 pm

Uma dor quase física apertou o coração de Ellen, impedindo-a de respirar.
- Por que está tremendo, querida Ellen?
O amor tudo perdoa e tudo endireita.
Juro que a amo, como nunca amei na vida! - exclamou Artemiev, puxando-a para si e beijando-a com paixão.
Ellen escapou rapidamente de seus braços e recuou.
Estava mortalmente pálida, seu olhar perdeu o brilho e os braços estenderam-se à frente como para se proteger de um novo ataque.
Será que apareceria o fantasma ofendido da mãe para castigar esse traidor?
- Espere! Pare antes de me dar outro beijo apaixonado! - exclamou Ellen com sofreguidão.
Você ainda não sabe quem sou eu!
- Mas o que significa essa frase?
Afinal, quem é você? - balbuciou Artemiev com insatisfação, recuando sisudo e tentando encontrar no rosto desolado da moça a chave para esse mistério.
A palidez de Ellen mudou instantaneamente para um forte rubor.
Dando um passo na direcção de Vladimir Aleksandrovitch, respondeu indignada:
- Sou Helena Artemiev, filha de Vitória Harrison!
Sou sua filha, patife!
Você me abandonou, me fez órfã, me deixou sozinha no mundo e agora me estende a mão, mas só para me desonrar!
Artemiev ficou mudo, mortalmente pálido, seus olhos esbugalharam e o olhar pareceu vitrificado.
Parecia ter enlouquecido.
- Minha filha!..
Minha filha!..
Vitória!.. - balbuciava com os lábios azulados.
Apertando uma das mãos ao coração, Artemiev parecia procurar, com a outra, algo no espaço.
De repente, baqueou e desabou no chão como uma massa sem vida.
Ellen, assustada, não conseguia se mover.
Por instantes, ficou olhando-o em silêncio.
Em seguida, ajoelhou-se perto dele, tentou levantar sua cabeça inerte e reanimá-lo.
- Pai! Pai! Perdoe-me!
Eu não queria isso! - repetia, com medo e tristeza.
Mergulhados na própria emoção, nem Ellen nem Vladimir Aleksandrovitch ouviram a porta se abrir e alguém entrar com passos apressados no saguão.
Era Evgueny Pavlovitch, louco de ciúmes.
Ao ouvir o som de um corpo caindo, jogou ao chão seu sobretudo e, num pulo, apareceu junto à porta, abriu-a e afastou o cortinado.
Ao ver o amigo prostrado, imóvel no chão, Ellen ajoelhada perto dele e chamando-o de pai, estacou.
O que significava aquilo?
Estaria sonhando ou enlouquecera?
- O que aconteceu? - exclamou, correndo para Ellen, levantando-a.
- Oh! Acho que matei meu pai! - balbuciou ela, mal se mantendo em pé.
O Barão levou-a até a poltrona.
- Você está delirando, pobrezinha!
De que jeito poderia matar Artemiev? - disse ele, solidário.
Todo o seu ciúme se evaporou, mas ele não conseguia entender o que se passara.
- Disse-lhe que sou sua filha e ele não suportou o choque.
Morreu! - murmurou Ellen desesperada, tapando o rosto com as mãos.
Evgueny Pavlovitch ajoelhou-se, sentiu o pulso de Vladimir Aleksandrovitch e colocou o ouvido em seu peito.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 7:28 pm

- Ele está vivo!
Seu coração ainda bate.
Rápido, senhorita Ellen, traga água e chame o mordomo!
A campainha está ali, à esquerda.
Ellen tocou maquinalmente a campainha e, em seguida, molhou, com água da jarra, seu lenço e entregou-o ao Barão.
Naquele instante, entrou o criado, que parou surpreso ao ver uma dama desconhecida e seu patrão caído, imóvel sobre o tapete.
Ajudado pelo mordomo, o Barão levou Artemiev para o quarto contíguo, onde havia uma cama revestida de seda azul-clara.
Tiraram a gravata de Vladimir Aleksandrovitch e tentaram reanimá-lo de todas as maneiras.
Enquanto molhava as têmporas e massageava os braços do amigo com diversos remédios e água-de-colónia, o Barão não parava de pensar que era preciso tirar Ellen daquele lugar e chamar o médico.
Infelizmente, Evgueny Pavlovith não tinha tempo para agir sensatamente.
Ninguém percebeu que a esposa do cozinheiro aproximou-se sorrateiramente da porta e olhou com curiosidade dentro do quarto.
Vendo o que acontecia, foi como um furacão contar a novidade ao marido.
Este, sem perder tempo, correu até o jovem médico que morava no quintal, que acabara de voltar para casa e ainda não fora se deitar.
A agitada cozinheira comunicou às pressas o acontecimento ao mordomo.
Este, que tinha enorme estima por Artemiev, por causa das suas "gordas" gorjetas, correu imediatamente escadaria acima, para avisar ao velho professor que morava no andar superior.
Esse professor conhecia bem Vladimir Aleksandrovitch e era o médico da família da Baronesa Nadler.
Graças a esse auxílio não solicitado, no momento em que o Barão Ravensburg se preparava para chamar o médico e mandar Ellen para casa em sua equipagem, chegaram dois médicos:
um pela entrada principal e outro pela de serviço.
Ambos olharam com profunda surpresa para Ellen, ainda sentada na poltrona sem forças.
Os dois a conheciam bem.
Um deles a encontrava com frequência na casa de Lídia Andreevna, o outro a vira na casa da senhora Adrianov e até assistira a sua palestra.
O que estaria fazendo aqui a senhorita Rutherford?
Como fora parar naquele "ninho" de má fama e com um traje fantasticamente brilhante?
Mas, acostumados pela profissão a serem discretos e contidos, fizeram somente um aceno formal e ocuparam-se do paciente, que ainda não apresentava sinais de vida.
O aparecimento dos médicos fez Ellen sair do estupor apático em que se encontrava, mas esse despertar foi extremamente amargo.
Ela era mulher demais, para não perceber o que havia por trás daqueles olhares desconfiados e do silencioso cumprimento.
A suspeita dirigida a ela provocou-lhe forte rubor nas faces pálidas.
Santo Deus! O que fizera!
Por um imperdoável e insano capricho, destruíra a própria reputação.
Agora, qualquer pessoa poderia perguntar-se o que ela estava fazendo à noite, no cantinho amoroso do velho pândego!
Mesmo assim, estava pronta a suportar o que fosse, até mesmo a dúvida que pairava sobre a sua virtude, em vez de gritar:
- É meu pai!
Ele me atraiu para cá sem saber que estava cometendo um crime e foi morto pela própria consciência!
Seu orgulho e o ódio oculto ainda não tinham se esgotado.
Somente a imerecida ofensa que acabara de receber e a certeza do desprezo geral de que seria vítima, apertaram fortemente o coração de Ellen e fizeram-na suar frio.
Naquele momento, Evgueny Palvovitch saiu da alcova para arranjar tinta e papel para os médicos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:38 pm

Artemiev recobrou os sentidos, mas em seguida, voltou a desmaiar.
Ellen sentia um zumbido nos ouvidos e a cabeça parecia pronta a estourar.
Apertou as mãos nas têmporas e sua aparência desolada provocou no Barão um misto de solidariedade e pena.
Ele entendia o que se passava na alma orgulhosa de Ellen, que se deixou cair nessa situação ridícula por influência de impulsos desconhecidos.
Que drama familiar sombrio acontecera entre ela e Artemiev?
Seria ela sua filha bastarda, ou ele criminosamente abandonara a filha legítima na América?
Em todo caso, Ellen jamais pareceu ao Barão tão cara como naquele instante de sofrimento moral.
Ravensburg, em silêncio, adicionou um pouco de vinho ao copo com água e, aproximando-se de Ellen, obrigou-a a beber um pouco.
Ouvindo como os dentes dela tilintavam no vidro do copo, inclinou-se e, olhando com ardente compaixão em seus olhos enevoados, disse com calor:
- Pelo amor de Deus, acalme-se; tente se dominar!
Agora vão chegar os médicos.
Eles devem encontrá-la tranquila.
O restante, deixe por minha conta!
Ellen compreendeu instintivamente que ele tinha razão.
Fazendo um esforço, endireitou-se e enxugou o rosto com o lenço que o Barão lhe oferecera.
Assim, quando os médicos entraram na sala, parecia bastante calma.
O Barão perguntou sobre o estado do paciente e os médicos disseram que, por enquanto, nada podiam prognosticar; muito provavelmente, devia aparecer uma febre nervosa ou uma inflamação cerebral.
O velho doutor achou necessário contratar uma enfermeira e disse que iria providenciar isso.
Em seguida, prescreveu a receita, prometendo vir visitar o paciente pela manhã.
Já o seu jovem colega prometeu ficar com Vladimir Aleksandrovitch até a chegada da enfermeira, para dar-lhe as instruções necessárias.
O Barão agradeceu a ambos.
Em seguida, pegando Ellen pela mão, acrescentou:
- Estou ainda mais agradecido aos senhores por me permitirem levar pessoalmente minha noiva para casa.
Na verdade nosso noivado deveria ser anunciado um pouco mais tarde; mas, pela sua legítima surpresa, provocada pela presença da senhorita Rutherford aqui, resolvi revelar aos senhores o nosso segredo.
O que aconteceu é fácil de explicar.
Ellen sentiu uma forte dor de cabeça, quis voltar para casa e eu decidi acompanhá-la; na saída encontramos Artemiev.
Ele também sentia-se mal e queria ir embora, mas não conseguia localizar sua equipagem; então minha noiva propôs levá-lo a casa.
Ao chegar, Vladimir Aleksandrovitch já se sentia tão mal que a custo conseguia andar e Ellen resolveu me ajudar.
Quando chegamos ao "boudoir", Artemiev perdeu os sentidos.
O resto os senhores já sabem.
Lamento profundamente ter permitido que Ellen me acompanhasse, pois tudo o que aconteceu abalou sobremaneira os nervos dela.
Os médicos parabenizaram o jovem casal.
A explicação era plausível e, mesmo que tivesse algumas lacunas e incongruências, era impossível admitir que um homem rico, aristocrata, pudesse chamar de noiva alguma mulher de reputação duvidosa que viera visitar Artemiev.
Após acompanhar o professor até a saída, Evgueny Pavlovitch voltou ao "boudoir"; beijando a mão de Ellen, que não abrira a boca, disse:
- Vamos, minha querida!
Você precisa voltar pra casa o mais rapidamente possível.
Está muito desolada e precisa descansar.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:38 pm

Quando embarcaram na equipagem, o Barão, pela segunda vez, pegou a mão de Ellen e apertou-a nos lábios.
- Perdoe-me por me aproveitar assim da situação! - disse ele com voz trémula.
Não conseguia aguentar que pessoas estranhas duvidassem de sua pessoa.
Seu pai é o meu melhor amigo.
Se estivesse em condições de falar, Artemiev não admitiria que a mínima sombra tocasse a sua honra.
Com meu nome e amor eu defendi sua filha.
Portanto, aceite as duas coisas.
- Fico-lhe muito grata - murmurou Ellen com voz sumida.
Ao chegar à casa de Ellen, Evgueny Pavlovitch acompanhou-a até o saguão; ao despedir-se, Ellen, ignorando a surpresa da criadagem, segurou-lhe a mão.
- O senhor me manterá informada sobre a saúde de meu pai, certo? - disse, levantando para ele seus grandes olhos, cheios de lágrimas.
- Com certeza!
A partir de amanhã vou entregar-lhe os relatórios, mantendo-a informada de tudo.
- Muito obrigada!
Mortalmente pálida, desolada, mal se mantendo sobre as pernas trémulas, Ellen foi para seu quarto e, enquanto a camareira a despia e a penteava, desmaiou.
Assustada, Lenora correu para avisar Nelly; esta acudiu imediatamente e também ficou preocupada ao fazer a amiga voltar a si.
Quando Ellen, já na cama, abriu finalmente os olhos, Nelly dispensou a camareira e, inclinando-se sobre a paciente, perguntou:
- O que aconteceu?
Por que está tão deprimida?
- Oh! Se você soubesse o que fiz!
- Ficou noiva do Barão? - perguntou Nelly, estremecendo.
- Sim, isso também!
Mas, fiz coisa ainda pior:
matei meu pai!
As lágrimas embargaram a voz de Ellen.
- Infeliz! Como pôde esquecer quem é ele e permitir-se tal crime? - perguntou Nelly, empalidecendo e recuando com horror.
Mas como isso aconteceu?
Você não tinha arma alguma!
- Oh, Nelly!
Eu não o matei com uma arma, mas com palavras.
Na minha ânsia de vingança deixei-o me levar à sua casa, como se quisesse ser sua amante.
Até permiti que pensasse que eu era uma aventureira, que me beijasse no afã da paixão.
Somente então atirei em seu rosto toda a verdade!
Isso foi para ele um golpe, como se ouvisse as trombetas do juízo final.
Oh, Nelly! Nunca vou esquecer a expressão do rosto dele, os olhos apagados e o gesto com que ele apertou a mão no coração!
Então, ele desabou no chão.
Num pranto convulsivo, Ellen contou à amiga tudo o que aconteceu depois e acrescentou:
- Todos cuidavam dele e eu era a única a não participar.
Ele era meu pai, Nelly, e, ao mesmo tempo, uma pessoa completamente estranha, da qual eu não ousava me aproximar, pois todas aquelas pessoas achavam que eu era sua amante.
Oh! Não imagina o que sofri, lendo nos olhos de todos a vergonhosa desconfiança.
Por isso, quando o Barão me chamou de noiva diante deles e magnanimamente me protegeu da imerecida vergonha, só pude aquiescer e até agradecer-lhe quando ele explicou que protegia com o próprio nome e amor a filha de seu amigo.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:39 pm

- Você agiu muito bem!
Não poderia acusar seu pai moribundo - disse Nelly, beijando a amiga.
Essa deve ter sido a vontade divina, que dirigiu seu caminho e transformou o seu mau sentimento em castigo, que afectou o coração do pecador.
- Sentirei remorso por toda vida - chorava Ellen.
Oh! Quero de qualquer jeito partir amanhã.
Não tenho mais nada a fazer aqui.
Ele, sem dúvida, já deve ter falecido sem mesmo me chamar.
- Nós ficaremos aqui até esclarecermos em definitivo sua situação.
Você não pode partir sem acompanhar seu pai até o local de seu último repouso ou sem se reconciliar antes de ele morrer, se Deus lhe conceder essa graça.
Além disso, você tem uma dívida com o Barão, que lhe deu uma brilhante prova da sinceridade do seu amor.
Você não pode pagar sua generosidade com uma estranha fuga, que seria até ofensiva para ele.
Agora, durma!
Precisa descansar e recuperar as energias.
Esgotada, Ellen adormeceu somente ao amanhecer; Nelly permaneceu junto à sua cabeceira, pensando com tristeza sobre as complicações ocorridas.
Ela contou à senhora Forest o acontecimento e ambas resolveram adiar a partida até nova ordem.
Quando o Barão retornou à casa de Artemiev, este já fora levado para o dormitório.
A enfermeira já chegara e estava ocupada no quarto vizinho, preparando compressas e, ao mesmo tempo, ouvindo as ordens que o médico lhe passava, à meia-voz.
Evgueny Pavlovitch aproximou-se imediatamente deles e soube pelo médico que o paciente estava sangrando pela boca, encontrava-se consciente mas que a febre alta prenunciava delírios.
Em seguida, o Barão entrou no dormitório, fracamente iluminado por um abajur, e sentou-se em silêncio à cabeceira do paciente.
Artemiev estava deitado imóvel nos travesseiros; tinha os olhos fechados e uma pesada e intermitente respiração escapava-lhe dos lábios semi-abertos.
Parecia dormir.
Com um pesado suspiro, Evgueny Pavlovitch olhava para o pálido, mas ainda bonito, rosto do amigo e pensava no triste chama familiar, cujo protagonista fora Vladimir Aleksandrovitch.
Que erro da juventude voltou do passado e foi abatê-lo tão cruelmente?
Será que seduzira alguma mulher ou moça e, depois, abandonou-a com a filha?
E agora, após tantos anos, essa filha aparece para vingar a ofensa sofrida pela mãe?
Sim, devia ser isso!
Uma esposa legítima teria localizado o traidor e reaveria os direitos de sua filha; além do mais, Ellen, na frente de todos, chamava o próprio pai de patife, mas falava da mãe sem constrangimento e considerava-a uma santa, vítima inocente.
Que maravilhosa moça, digna do orgulho de qualquer pai, resultara de uma criança abandonada, colocada pelo destino em monstruosas condições de vida, educada entre seres abandonados e raivosos que lhe envenenaram o coração e direccionaram sua cabecinha no caminho da indignação!
Esses pensamentos absorveram-no completamente quando, de repente, ouviu uma voz fraca:
- Evgueny!
- E então, Vladimir?
Como se sente? - perguntou apressadamente o Barão, inclinando-se para o paciente, que se moveu com agitação nos travesseiros.
- Onde está Ellen?
Todos a viram naquele maldito quarto...
O que irão pensar dela? - gemeu tristemente o paciente.
- Ela voltou para casa, e...
- Não pense nada de mal sobre ela!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:39 pm

É a minha única e legítima filha.
Pegue a chave da minha escrivaninha; no fundo da gaveta central existe um compartimento secreto.
Lá você vai encontrar sua certidão de nascimento e tudo que me restou do passado - murmurou Artemiev, visivelmente esgotado.
- Acalme-se, meu amigo!
Sua filha saiu daqui como minha noiva, pois foi assim que a apresentei aos médicos; graças a essa minha explicação, ela está livre de qualquer suspeita sórdida.
Portanto, fique tranquilo e não se irrite à toa.
- Muito obrigado! - murmurou Artemiev com voz sumida e apertando fracamente a mão do amigo.
Um pouco mais tarde, Vladimir Aleksandrovitch caiu em sonolência, mas sua temperatura continuou subindo; pela manhã atingiu quarenta graus e o paciente começou a delirar.
Ardendo em febre, Artemiev agitava-se na cama e de seus lábios ressecados continuamente escapavam os nomes de Ellen, Vitória e Tom Crawford.
Aparentemente, em sua mente ressurgiram cenas do passado.
Uma hora ele discutia com Crawford, outra despedia-se da esposa ou brincava com a filha cobrindo-a de carinhos.
Mas a agitação aumentava sensivelmente quando lhe parecia estar lendo a carta com a notícia da morte de sua esposa e filha na miséria.
Então, parecia que fantasmas começavam a persegui-lo e o paciente gritava, gemia e debatia-se com tal força que três homens mal conseguiam mantê-lo na cama.
Como em seu delírio Artemiev falava em inglês, nem a enfermeira nem a criadagem entendiam o que dizia; mas o Barão, ouvindo essas revelações, conseguiu reconstituir com bastante precisão os detalhes do drama passado que o perturbava profundamente.
Quando o delírio febril mudou finalmente para a completa exaustão, Evgueny Pavlovitch pôde despir sua fantasia de mosqueteiro e deitou para descansar na sala de visitas, onde lhe prepararam, às pressas, um divã.
Ele enviou um bilhete a Ellen, informando que o paciente apresentara uma febre nervosa, e que não deixaria o amigo até a sorte dele estar decidida.

(1 - Heinrich Schliemann (1822 - 1890) - Arqueologista alemão descobridor das ruínas da cidade de Tróia, considerada até então, por muitos, como lenda).
(2 - Henrique IV (ou Henrique de Navarra 1553 - 1610) - Rei da França (1589 - 1610) e, como Henrique III, Rei de Navarra (1572 - 1610), filho de Antoine de Bourbon e Jeanne D'Albret).
(3 - Amadis - Personagem da literatura medieval, Amadis de Gaula é representado na obra atribuída a João Lobeira como típico herói de romances ou novelas de cavalaria).
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:39 pm

Capítulo 11

Passaram-se alguns dias, durante os quais Artemiev ficou entre a vida e a morte.
Foram dias terríveis para Ellen, torturada pela tristeza e pelo remorso.
Não saía do quarto nem recebia ninguém, aguardando com febril ansiedade notícias sobre o estado de saúde do pai, que o Barão lhe enviava três vezes ao dia.
Desde o baile de máscaras, Ellen não mais encontrara Evgueny Pavlovitch, nem suspeitava que a notícia de seu noivado correra por toda a cidade e trouxe ao Barão um lote de cartas de cumprimento.
A grave doença do "interessante" Vladimir Aleksandrovitch e as misteriosas circunstâncias que a provocaram despertaram grande curiosidade na turba festiva, que matava o tempo julgando os outros.
Por isso, os dois médicos que testemunharam o misterioso acontecimento eram a nova atracção dos salões da alta sociedade.
O jovem médico Markov trouxe à senhora Adrianov e à sua filha a notícia da doença de Artemiev e do noivado de Ellen com o Barão.
O venerável doutor Bogdan Karlovitch Shvabe anunciou a novidade "picante" na casa da Baronesa Nadler e depois na de todas as suas clientes curiosas.
Mas, como a noiva não aparecia e o noivo não deixava a casa do amigo doente, tendo até tirado uma licença de alguns dias, o que sobrou para as más línguas foram somente suspeitas e conjecturas.
Mas Lídia Andreevna não era mulher de preocupar-se à toa e, por fim, enviou um bilhete a Evgueny Pavlovitch no qual implorava tanto para ele ir vê-la por ao menos meia hora, que o Barão, pálido e desgastado por noites em claro, apareceu na manhã seguinte na casa dela.
A Baronesa levou-o imediatamente a seu gabinete e pediu-lhe que contasse toda a verdade sobre o estranho noivado com a senhorita Rutherford, a inesperada doença de Artemiev e a misteriosa visita de Ellen ao apartamento daquele conhecido devasso, com quem desaparecera do baile.
Isso, Lídia Andreevna soube pelo mordomo.
- Há tantos anos conheço Vladimir Aleksandrovitch e o senhor que tenho o direito de saber a verdade; o senhor pode estar totalmente seguro de minha discrição - concluiu a Baronesa.
Pressionado desse jeito, o Barão sentiu-se no dever de dar algumas explicações sobre o caso.
- A senhora está me pedindo que revele um segredo de família de terceiros, Lídia Andreevna - disse o Barão, sério.
Mas como no presente momento não sei como terminarão todas essas complicações, devo pedir-lhe para manter o mais absoluto silêncio sobre o que vou-lhe confiar.
Ellen Rutherford é a filha única e legítima de Artemiev!
A Baronesa saltou da poltrona.
- Então é esse o segredo do seu passado!
Oh, eu tenho faro para isso!
Sentia que na vida daquele homem devia haver uma página obscura.
Naturalmente, ele perdeu completamente o contacto com a filha, pois a encontrou várias vezes em minha casa sem suspeitar de nada e chamou-a de esperta aventureira.
Como isso é trágico!
Só não entendi ainda para que ela foi ao apartamento dele.
Estava claro que ele pretendia iniciar um caso amoroso com ela.
- Não sei os detalhes, mas suponho que ela queria acertar as contas com o pai antes de sua partida.
Seguindo um plano de vingança, deixou-se levar ao apartamento e, no momento em que ele ansiava fazê-la sua amante, jogou-lhe na cara que era sua filha.
Aparentemente, Artemiev não suportou o cruel golpe, e o remorso provocou um colapso nervoso.
Chamei Ellen de minha noiva para livrar a moça que amo de suspeitas imerecidas e nojentas.
- Ela concordou?
- Naquela hora, ela não podia agir de outra forma.
Mas só o futuro dirá se essa mentira, provocada pela necessidade, encontrará confirmação, e não ouso ter esperanças disso.
Mas eu a amo tanto que tudo farei para que aceite.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70274
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 5 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum