Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:39 pm

Nem sei se Ellen concordará em usar o nome de Artemiev, que jamais usou antes.
No presente momento, seu estado de espírito é terrível, pois Vladimir Aleksandrovitch está gravemente doente e ela se culpa por tê-lo matado.
- O que terá acontecido com sua mãe?
- Morreu de tristeza no abrigo "Paraíso sem Adão", onde Ellen foi educada.
Mas agora preciso despedir-me, Baronesa, e retornar para junto do meu pobre amigo.
Hoje, teremos uma reunião com três autoridades em medicina.
No dia seguinte, após essa conversa, Ellen recebeu um bilhete do Barão, informando que Vladimir Aleksandrovitch estava cada vez pior.
Ela empalideceu, guardou o bilhete e mergulhou nos próprios pensamentos, enquanto lágrimas quentes escorriam pela face.
Estava perdida no caos de sentimentos, torturada por estranhas contradições.
Parecia-lhe estar arrancada de si mesma, sem sentir o solo firme sob os pés.
Por vezes a morte do pai parecia-lhe um crime; mas frequentemente a considerava um acto de justiça divina e ansiava pela recuperação de Artemiev, para que ele pudesse arrepender-se e iniciar uma nova vida.
Pensando dia e noite no pai e no Barão, cuja relação estranha também a incomodava, Ellen foi empalidecendo e emagrecendo a cada dia.
- Por que você não reza?
Lá, onde a visão estreita e míope do ser humano enxerga somente a escuridão, a sabedoria e a misericórdia de nosso Pai Celestial abrem um caminho de luz e nos concedem forças e serenidade - disse Nelly, observando com tristeza o abatimento da amiga.
- Tem razão, Nelly!
Vou agora mesmo à Catedral de Kazan, onde existe uma imagem milagrosa de Nossa Senhora, mãe de todos os abandonados e infelizes.
Rezarei para que ela me ilumine e devolva a saúde ao meu pai - decidiu Ellen, levantando-se rapidamente e enxugando as lágrimas.
Desde o casamento de Inna, Ellen sentia uma atracção incontrolável pela religião de sua infância.
Lembrava a pequena capela, onde o pai, às vezes, comungava, como se isso tivesse ocorrido há um dia; via-se pequenina, de vestidinho branco, nos braços do pai e o velho padre em paramentos dourados que lhe dava a comunhão.
Desde aquele casamento, Ellen passara a frequentar templos ortodoxos, assistindo à missa e à oração nocturna.
Além disso, conversava frequentemente com Inna e sua mãe sobre os dogmas e ritos da igreja ortodoxa; por fim, visitou com Inna os principais templos de São Petersburgo.
O espírito fervoroso e místico de Ellen não se satisfazia com o frio e seco bom senso do protestantismo; por isso, com inesperado fervor e fé ela retornava à religião de seu pai.
Nelly ajudou-a a vestir-se.
- Vá, vá logo! - disse ela.
Reze com bastante fé e depois vá visitar seu pai.
Talvez isso o ajude a recuperar-se.
Enfim, que importância tem para você a opinião idiota das pessoas, suas calúnias e maledicências?
Nesse grave momento, lembre somente as palavras de sua santa mãe:
"Se o Senhor fizer você encontrar seu pai, não lhe pague olho por olho".
Você esqueceu depressa demais dessas palavras.
Ellen, calada, beijou a amiga, mandou chamar uma equipagem de aluguel e foi para a catedral de Kazan.
Quando entrou no enorme e maravilhoso templo, mergulhado em misteriosa penumbra e solene silêncio, seu coração palpitou.
Ensinada por Inna, Ellen comprou uma vela e, aproximando-se da milagrosa imagem, ajoelhou-se diante dela.
Estava praticamente só.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:39 pm

A poucos passos dela, estendida no chão, orava uma velha e mais adiante estava parado o vigia.
Nenhum deles perturbava o sentimento de isolamento e proximidade a Deus que assolaram sua alma.
Fechando as mãos, com os olhos cheios de lágrimas, ela olhava para o doce, mas severo rosto de Nossa Senhora.
Quantas lágrimas, desgraças, sofrimentos secretos e esperanças depositavam-se diariamente aos pés da Mãe Celestial!
Quantos fracos e oprimidos recebiam do alto, por sua fé, aquilo que as pessoas lhes negavam!
Havia uma especial atmosfera de paz, que, imperceptivelmente, apagava todas as preocupações e paixões mundanas e atraía todos os que se aproximavam daquela imagem, como de um manto tecido, por milhares de preces ali pronunciadas.
Um estranho tremor percorreu o corpo de Ellen.
Sentiu a presença de uma força oculta e poderosa que saía do altar, aquela força que reúne diante da Divindade os fluxos de bondade provenientes do ser humano, quando este sofre, ora, se purifica e torna-se astral nessa atmosfera, como se fosse um tecido claro ou um vapor emitido da alma, libertando-a de tudo que é mundano.
No espírito de Ellen despertou um ímpeto de extasiada e fervorosa oração à Mãe de Deus, que suportou todos os sofrimentos e, por Sua Misericórdia, alivia todos os males.
Ellen implorou de todo coração que ela a iluminasse e orientasse como se comportar em relação às duas pessoas que o destino colocou em seu caminho.
Pediu com fervor que preservasse a vida do pai e a livrasse do terrível remorso por ter sido a causa de sua morte.
Essa fervorosa prece levou-a para longe da terra.
Sua alma virginal e extasiada, sem ter consciência disso, ultrapassou os limites do invisível e entrou na misteriosa e oculta região do êxtase.
Pareceu-lhe que o próprio Salvador lhe sorria e que os olhos de Sua Mãe olhavam-na com indescritível bondade.
De repente, ao lado dela surgiu um ser etéreo, em trajes brancos cuja linda cabeça, de traços difusos e transparentes, lembrava-lhe a falecida mãe.
Em seguida, uma voz suave e carinhosa como uma leve brisa, soprou-lhe no ouvido:
- Ame e perdoe!
Ouça a própria consciência, e a incorruptível voz dela irá indicar-lhe o caminho correto.
O verdadeiro e puro amor é um presente dos Céus.
Então, abra para ele, sem vacilar, o seu coração!
Ame seu pai e esqueça o amargor do passado; ame, esquecendo-se de si própria!
A abnegação também é um génio celestial, que a transportará sobre profundíssimos abismos.
Em suas poderosas asas ele carrega um fardo desumano e presenteia com força inigualável aquele que o segue.
O sentimento para com o homem que você escolheu, que amou com a alma e o coração, e não com o corpo e a sensualidade, é o verdadeiro amor; com coragem e paciência, suportará todas as provações da vida.
Ellen ouvia encantada e palpitante esse arauto do mundo sobrenatural, esquecendo a terra com sua escuridão total e grosseiras tendências materiais.
Parecia que todo seu ser ampliava-se, elevava-se e tentava alcançar a esfera invisível, cheia de luz e harmonia.
Durante alguns momentos, desfrutou da paz e bem-aventurança que sentem aqueles que venceram todos os desejos e paixões do nosso mundo imperfeito.
Naquele momento, ela ansiava assimilar tudo o que sentia e seguir os conselhos que o próprio Céu parecia lhe dar.
Esse poderoso êxtase elevou a alma de Ellen às regiões de luz, onde tudo respira harmonia, e a alma, liberta dos grilhões da carne, num único salto supera todos os degraus que sobe lentamente em sua ascensão.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:40 pm

Pairando naquela indescritível altura, o espírito admira a própria beleza pura, esquecendo nesse mar de luz a escuridão terrena, as míseras vontades, o ridículo amor-próprio e os desejos fúteis que o fazem escravo da matéria.
Mas como o espírito vacilante ainda não tem forças suficientes para manter-se àquela altura, de repente percebe o abismo que se abriu aos seus pés.
Então é tomado por uma vertigem, o êxtase se apaga e despenca para a lama mundana da qual escapou somente por um instante.
A terra novamente se apodera dele com todas as suas paixões destrutivas e agudas desgraças.
Um ruído próximo fez Ellen estremecer e voltar à realidade; ela olhou em volta com preocupação.
Alguém teria notado seu estranho alheamento?
Somente quando ficou de pé, o vigia aproximou-se em silêncio e retirou o vidro que cobria a imagem.
Ellen osculou a imagem com devoção, deu um rublo ao vigia e saiu da catedral.
Sentia um surpreendente torpor e a premente necessidade de descansar.
O curto dia de inverno se transformara em um anoitecer nevoento.
Quando ela saiu na praça, na avenida Nevsky já se acendiam lampiões e luzes eléctricas nas janelas.
Tremendo com o vento gelado, Ellen embarcou apressadamente na equipagem e voltou para casa.
Mas não teve muito tempo de descanso.
Mal começava a adormecer quando foi despertada por Nelly, visivelmente perturbada.
- Levante, rápido!
Chegou o Barão e quer vê-la imediatamente.
Ellen, assustada, dirigiu-se rapidamente à recepção e, empalidecendo e corando, estendeu a mão a Ravensburg, que a beijou.
- Vim buscá-la, senhorita Ellen.
Seu pai está muito mal.
A crise é inevitável e os médicos temem que ele não passe dessa noite.
Depois de um terrível delírio, ele voltou a si e expressou o desejo de vê-la e de comungar pela primeira vez em quinze anos.
Então, não é bom a senhorita ficar com raiva dele.
Acabei de estar com o padre e de lá vim buscá-la.
Ouvindo o Barão, Ellen empalideceu.
- É claro que irei!
Não será a mim, mas ao Juiz Supremo que meu pai prestará contas de seus actos - respondeu ela, vestindo o chapéu com mãos trémulas.
Como posso lhe agradecer por tanta dedicação? - perguntou com sentimento.
- Julgando-me com condescendência e me tratando com confiança - respondeu o Barão baixinho, ajudando-a a vestir o casaco.
Foram em silêncio até a rua Bolshaia Morskaia.
Torturantes remorsos incomodavam Ellen, por ter feito ao pai aquela revelação ríspida e cruel, num ímpeto de fúria.
Temia não encontrá-lo vivo.
Subiu quase correndo a escadaria e suspirou de alívio quando soube pela enfermeira que não houvera piora no estado do paciente.
Com o coração palpitante, trémula de nervosismo, aproximou-se da cama, viu o rosto pálido e emagrecido do pai e seus olhos nos fundos das órbitas.
Ele parecia dormir em profundo esquecimento, mal se notando a sua respiração.
Era evidente que estava moribundo.
Contendo o pranto que lhe apertava a garganta, Ellen ajoelhou-se à cabeceira do paciente.
Lágrimas quentes caíam-lhe pela face e um sentimento, até então desconhecido e calmante, enchia sua alma.
De repente, sem querer, deixou escapar a carinhosa palavra:
- Papai!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:40 pm

Naquela palavra, tantos anos silenciada, soavam o perdão, o esquecimento do passado e o renascimento do amor.
Por mais baixo que tenha sido pronunciada, essa palavra, causou, entretanto, uma reacção mágica.
O paciente estremeceu e abriu os olhos.
Seu olhar, com uma expressão indescritível de amor, vergonha e tristeza dirigiu-se à criança que outrora abandonara.
- Ellen... me perdoe! - sussurrou ele, sufocando.
Então, com os dedos enregelados, agarrou a mão dela e levou aos lábios trémulos.
Ellen, comovida, passou os braços pelo pescoço do pai e em lágrimas apertou-lhe a cabeça ao peito, mas logo estremeceu e ergueu-se, assustada com o pranto convulsivo do paciente.
Levantou a cabeça de Artemiev, ajeitou confortavelmente os travesseiros e enxugou as lágrimas que lhe corriam pelo rosto.
Ellen entendeu que ele chorava o próprio erro, assim como ela chorava sua triste infância.
Inclinando-se, beijou-o longamente, selando a paz entre pai e filha, eliminando o passado.
Pareceu a Vladimir Aleksandrovitch nunca ter recebido beijo mais terno e agradável que aquele, dado pelos lábios puros da filha.
Com profunda gratidão, murmurou com voz enfraquecida:
- Como estou feliz, querida criança, por ter recebido seu perdão antes de morrer!
- Não, não!
Você não deve morrer, senão passarei o resto da vida me culpando por tê-lo matado - respondeu Ellen, tremendo.
Juntamente ao amor filial, renascera também o medo de perder o pai.
- Não se culpe por nada!
Você fez o que tinha de fazer!
Recebi um merecido castigo.
Há tempo que o remorso me torturava e eu o afogava com diversas loucuras.
- Não, não! Viva por mim!
Quero amá-lo, cuidar de você e nunca mais nos separaremos - disse Ellen, beijando carinhosamente a mão do pai.
Naquele instante, entrou a enfermeira dizendo que chegara o padre.
Durante a longa confissão de Artemiev, sentada na sala de visitas, Ellen não parou de chorar.
Os nervos excitados negavam-se a obedecer-lhe, enquanto Evgueny Pavlovitch, emocionado, andava agitado pelo quarto, deixando a moça chorar à vontade, pois entendia o que se passava na alma dela.
Quando o padre abriu a porta, todos entraram no dormitório e Vladimir Aleksandrovitch recebeu a extrema-unção com fé e devoção.
Após o padre partir, Ellen ocupou novamente seu lugar à cabeceira do paciente.
Este parecia tranquilo e feliz, embora terrivelmente debilitado.
Então, logo fechou os olhos e continuou deitado, imóvel.
Ellen, assustada, chamou a enfermeira e ela, também preocupada, inclinou-se sobre o paciente, mas imediatamente sussurrou:
- Ele está dormindo!
Ao saber que Ellen pretendia passar a noite junto ao pai e cuidar dele pessoalmente, Evgueny Pavlovitch despediu-se, dizendo que precisava ir para casa.
Na verdade, estava incomodado por sua estranha situação em relação à noiva, que não podia acertar naquele momento.
Ellen passou a noite em claro.
Centenas de vezes inclinava-se para o paciente, cuja fraca respiração parecia poder apagar-se a qualquer momento.
Ao amanhecer, adormeceu na poltrona e só acordou com a chegada do médico.
Após examinar o paciente, o médico observou surpreso:
- O que aconteceu aqui?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:40 pm

Que forte emoção provocou a reacção salvadora e a crise benigna?
Parece que agora posso responder pela vida do paciente.
Sua natureza forte venceu a doença.
Quando ele acordar, dêem-lhe uma xícara de caldo e um cálice de vinho madeira.
Além disso, vou prescrever-lhe algumas gotas fortificantes.
Quando a enfermeira entregou-lhe a caneta, o médico perguntou-lhe baixinho:
- Por que essa americana está por aqui de novo?
- Ah, Bogdan Karlovitch!
Aqui se desenrolou um verdadeiro drama familiar.
Imagine que a senhorita Rutherford-Ardi é a filha legítima de Vladimir Aleksandrovitch!
- Que história!
E ainda dizem que na vida real não acontecem coisas extraordinárias!
Aproximando-se de Ellen para despedir-se, o médico acrescentou:
- Fique tranquila!
Eu garanto a vida e a completa recuperação de seu pai.
Algumas semanas de repouso, uma alimentação reforçada, e tudo estará bem!
Ellen agradeceu ao médico a boa notícia, mas estava tão pálida e cansada que a enfermeira quase a obrigou a deitar-se no sofá para dormir, prometendo despertá-la quando fosse a hora, porque ela queria servir o primeiro almoço do pai pessoalmente.
Ellen deitou-se, mas não conseguiu dormir imediatamente.
Sua cabeça girava por causa de todos esses acontecimentos.
Seu pai ia viver, seu parentesco não seria segredo para ninguém e ela aceitara calada a proposta de Ravensburg.
Como isso iria acabar?
Se o pai insistisse para ela cumprir a promessa de ficar com ele, teria de mudar suas obrigações em relação à comunidade.
Sem conseguir encontrar uma solução para essas questões, finalmente adormeceu.
Já era bem tarde quando foi despertada pela enfermeira.
- O caldo e o vinho estão prontos, na bandeja.
Leve-os ao seu pai.
Ele já acordou e está com Evgueny Pavlovitch.
Ajeitando apressadamente o cabelo e enxugando com uma toalha o rosto empalidecido, Ellen pegou a bandeja e entrou no dormitório.
Apesar da grande fraqueza, Artemiev parecia bem melhor.
Seu olhar estava tranquilo e claro e a filha recebeu-o com um sorriso e o abraçou.
Quando ela expressou sua alegria em vê-lo fora de perigo, ele respondeu alegremente:
- Sim, meus filhos!
Parece que o velho pecador vai permanecer com vocês.
O Senhor misericordioso me concedeu uma graça imerecida, para que eu me arrependa e dedique a você todo o meu amor do qual a privei por tantos anos!
Obrigado, obrigado, minha querida!
Comerei com prazer esse apetitoso desjejum, mas gostaria que antes você cumprimentasse meu amigo.
Ele realmente merece muito mais do que uma simples reverência formal!
Beijem-se, como devem fazê-lo os noivos.
Ellen ficou vermelha e não sabia o que responder, temendo contrariar o pai.
Mas o Barão não lhe deu tempo de pensar e abraçando-a ousadamente pela cintura deu-lhe um beijo na face.
Artemiev, que achou divertido o constrangimento da filha, comeu com grande apetite e, em seguida, disse que desejava dormir.
Ellen, temendo ficar a sós com o Barão, disse que ia aproveitar o sono do pai para ir em casa trocar de roupa e tomar as providências necessárias.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:40 pm

Em casa, encontrou Nelly sozinha e, muito contente, contou à amiga tudo o que acontecera e o que a incomodava.
- Meu futuro ficou totalmente incerto!
Anseio por retomar o bem conhecido caminho de pregadora de nossas ideias, pois meu pai sempre viveu sem mim e não sentia a minha ausência.
Temo, entretanto, que ele insista em que eu fique com ele; logo o nosso parentesco não será mais segredo para ninguém e para mim será difícil recusar sua proposta.
- Na minha opinião, você tem direito a isso!
Se seu pai deseja redimir o próprio erro, e se afeiçoar a você como o único ser próximo dele, como poderia recusá-lo?
Não, Ellen, fique!
Eu e a senhora Forest partiremos de São Petersburgo para Berlim para não constrangê-la, pois nossa presença aqui vai tolher sua liberdade.
- Agradeço a delicadeza, querida Nelly, mesmo assim peço-lhes que fiquem mais um pouco.
Talvez eu consiga me libertar. - disse Ellen, indecisa.
- Não, não!
Assim vai parecer que a estamos aguardando.
Passaremos um tempo em Berlim, ainda mais que a senhora Forest, como você sabe, quer tratar-se lá com um famoso médico.
Assim, se você quiser, pode juntar-se a nós lá.
Enfim, você sabe que a comunidade está sempre pronta a servir-lhe de abrigo.
Seremos sempre suas irmãs, não importa a hora que você vier, será recebida de braços abertos.
Portanto, partiremos depois de amanhã.
Você, muito provavelmente, vai mudar-se para a casa de seu pai.
- Oh, não! Até novas ordens vou morar aqui ou num hotel.
Ficarei com meu pai somente durante o dia.
Depois, Nelly, precisamos resolver muitas questões.
- Parte delas podemos resolver agora.
Dê-me todos os apontamentos referentes às palestras e suas brochuras, já em andamento.
Vou estudar esse material, para usá-lo em seu lugar.
Espero que você continue sendo nossa colaboradora.
- Oh! Naturalmente!
Vocês podem contar comigo.
- Em todo caso, escreva sobre o que decidir e também sobre suas propriedades.
Aconselho-a a ficar com tudo à sua disposição, pois nunca se sabe o que poderá acontecer.
- Oh! Quanto a isso, pode ficar sossegada.
Estou acostumada demais a ser independente para desistir dessa arma.
Após essa longa conversa, quando todas as questões ficaram resolvidas e Nelly recebeu os papéis que pedira, despediram-se.
No dia da partida das amigas, Ellen foi vê-las bem cedo.
Conversaram muito, choraram bastante, pois todas, no fundo da alma, estavam convencidas de que se separavam para sempre.
Sob a influência de sentimentos contraditórios que a torturavam, Ellen começou a falar sobre os diversos presentes que pretendia dar à comunidade, mas a senhora Forest se opôs:
- Em virtude de seu provável casamento, você não tem o direito de desperdiçar seu património.
Você e sua mãe já deram muito ao nosso abrigo; além disso, a sua colaboração, mesmo anónima, permanecerá como grande apoio à nossa comunidade.
- Ai! Não fiquem me lembrando desse casamento!
Entro em pânico só de pensar em pertencer a Ravensburg.
Ele é tão farrista e devasso como todos os outros e eu estou longe de ter vocação para dócil vítima.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:40 pm

Além disso, me parece demasiado ridículo que eu, a pregadora do "Paraíso sem Adão", esteja voluntariamente colocando a corda no pescoço e descendo da tribuna para tornar-me uma simples dona de casa, cuja vida se resume em providenciar para que o meu "sultão" coma um bom almoço e que suas botas estejam bem polidas a tempo.
Vou ser infeliz, perdida no estúpido rebanho de mulheres insignificantes, imbecis e desonestas, cujos interesses se resumem em amantes ou roupas.
Pelo amor de Deus, não me falem de casamento, do qual pretendo livrar-me!
- Não se irrite antes da hora!
Se você voltar para nós, será óptimo; se não voltar, poderá nos enviar discursos ainda mais sábios e comoventes, baseados na própria experiência da vida conjugal - disse Nelly, rindo às lágrimas.
Uma hora mais tarde, despediam-se na estação.
Engolindo as lágrimas, Ellen abraçou a todas, inclusive Arabella e Meg, que iam junto, pois não tinham o direito de ficar.
Somente quando o trem desapareceu ao longe, ela retomou para casa, pálida, tristonha e com o coração pesado.
Chorou a tarde inteira e nem retornou à casa do pai como pretendia antes.
Passaram-se alguns dias sem nada de especial.
Artemiev recuperava-se visivelmente e suas forças retornavam mais rápido do que se esperava; já sentava na cama, apoiado por travesseiros.
A presença da filha agia beneficamente sobre ele.
Queria-a permanentemente do seu lado e perguntava sem parar sobre a sua vida pregressa.
Ellen tentava ocultar do pai sua tristeza.
Ria, contava-lhe casos engraçados e divertidos de sua vida de pregadora; mas a presença de Evgueny Pavlovitch a perturbava, apesar de ele não exigir nada nem lhe roubar beijos.
No primeiro dia em que Artemiev se levantou da cama e passou para o gabinete, Ellen disse que desejava ir à igreja, para orar à Virgem Maria e agradecer-lhe pela recuperação do pai.
Enquanto o fazia sentar na poltrona e enrolava suas pernas num cobertor de pelúcia, Artemiev seguia cada movimento seu com amor e orgulho paternal.
A cada dia sua relação com a filha tomava-se mais franca e amigável.
Vladimir Aleksandrovitch mudara bastante e envelhecera espiritualmente.
Cada vez que Ellen olhava para os múltiplos fios prateados nos cabelos e na barba do pai, que há algumas semanas atrás era ainda jovem, belo e orgulhoso, seu coração enchia-se de compaixão e pena.
Quando ela se despedia para ir à igreja, chegou Evgueny Pavlovitch.
Ellen o cumprimentou e, após pedir-lhe que distraísse o pai na sua ausência, saiu rapidamente.
O Barão, visivelmente contrariado, começou a andar pelo quarto.
Por fim parou diante de Artemiev, que o observava em silêncio, passando a mão fina e emagrecida na barba, e disse:
- Vladimir! Vou lhe pedir um grande favor! - Artemiev sorriu.
- Já desconfio do que se trata.
Você quer que eu use minha autoridade paterna e obrigue Ellen a casar?
- Adivinhou!
Eu já não aguento mais essa situação obscura e a minha falsa e ridícula posição!
Todos me perguntam, cumprimentam pelo noivado, e eu nem sei se serei aceite amanhã!
- Compreendo e tenho pena de você, meu pobre rapaz!
Se dependesse de mim, Ellen seria sua esposa.
O meu maior desejo é arrancá-la daquela comunidade idiota e das perversas ideias anti-matrimoniais, pois estou profundamente convencido de que Ellen não foi criada para a vida de asceta.
Quanto mais a observo, mais me convenço de que herdou o meu temperamento.
Ela também é apaixonada, autoritária e, na realidade, tão desequilibrada quanto eu.
Se fosse parecida com a mãe, dócil, discreta e de carácter fraco, seria fácil convencê-la a se casar com você.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:41 pm

Mas é tão independente que não acredito muito na minha autoridade.
- Ellen, sem dúvida, parece com a mãe; de você tem somente os olhos e a expressão da boca.
- Vitória era mais bonita que Ellen, mas não sabia valorizar sua beleza.
Vou mostrar-lhe o retrato dela.
Abra a gaveta do meio da escrivaninha.
No fundo, à direita, encontrará uma alavanca.
Nesse compartimento secreto estão guardados todos os despojos do meu passado distante.
Traga tudo o que lá encontrar.
O Barão retirou da gaveta um pequeno retrato com dois estojos e colocou-os na mesinha, junto ao paciente.
Artemiev pegou um dos estojos e, com um pesado suspiro, abriu-o.
Dentro havia um retrato, no qual Vitória aparecia jovem, num vestido de baile branco, enfeitado de rosas; uma pequena coroa dessas flores estava em sua cabeça e no pescoço trazia alguns fios de pérolas graúdas.
Sua boquinha sorria e os grandes olhos escuros, brilhantes e carinhosos como os de uma gazela, reflectiam a pureza de sua alma.
Apreciando por instantes o retrato, Artemiev, em silêncio, passou-o ao Barão.
Este o agarrou com avidez e, ao olhar, soltou um grito de admiração:
- Vladimir!
Como pôde abandonar essa mulher, linda como um sonho, como uma fada?
Nenhuma daquelas outras que você amou chega sequer aos pés dela.
E ela o amava tanto que morreu!
Como deixou isso acontecer?
Como pôde esquecê-la?
Artemiev baixou a cabeça.
Há muito tempo já não olhava aquele retrato e agora se perguntava se não fora loucura trocar uma esposa como aquela por mulheres vazias e viciadas.
- Tem razão, Evgueny!
Meu crime não tem justificativa.
Fui insano e cego!
Destruí esse coração fiel e condenei Ellen a uma triste infância.
Em compensação, a mão vingadora do destino arrancou dos meus olhos, com crueldade, a venda que ocultava minha própria insignificância!
Encontrar na mulher que eu desejava tanto possuir, e pretendia desonrar sem piedade, a própria filha e ouvir da sua boca a minha condenação, foi horrível!
Artemiev calou-se e ficou novamente admirando o retrato.
Em sua mente ressurgiu com incrível nitidez a imagem de Vitória.
Lembrou os anos de vida em comum, com milhares de momentos alegres e tristes de sua vida conjugal, a vida discreta da jovem esposa e a solidão, pacientemente suportada, à qual ele a condenara.
Depois, o nascimento de Ellen, seu primeiro sorriso e sua delicadeza infantil; por fim, surgiu a cena da despedida.
Vitória, com a filha parada junto à janela, branca como o penhoar que usava, enquanto seus maravilhosos olhos, que ele vira pela última vez, estavam enevoados e sem brilho.
Vladimir Aleksandrovitch lembrou do sentimento cortante que o dominara na escadaria.
Por um instante parou, como se sentisse uma vertigem.
Quis até voltar, adiar por um dia a sua partida e levar consigo a esposa e a filha que abandonava.
Provavelmente seu anjo da guarda incutiu-lhe esse pensamento salvador; mas o espírito do mal segredou-lhe:
"Elas só o constrangem!
A presença delas irá trazer-lhe milhares de complicações e prejudicar bastante o seu prestígio."
E... ele partiu.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:41 pm

À medida que o passado ressurgia, encoberto por anos de esquecimento, festas, aventuras amorosas e egoísmo, a cabeça de Artemiev baixava cada vez mais.
O peso dos cinquenta anos oprimia-o, a falsa mocidade se fora e o remorso cravou fundo as garras em seu coração.
A mulher que ofendera com tanta crueldade estava morta, ele já não podia receber dela o perdão e nada podia remediar.
O arrependimento chegara tarde demais...
Lágrimas amargas caíram sobre o retrato.
O Barão olhava-o com compaixão e pena.
Para ele, era uma novidade quase incompreensível ver chorar, pelos erros da juventude, aquele homem que sempre fora orgulhoso, frio, debochado pecador, incapaz de tal franqueza espiritual.
"Talvez", pensou ele, "esse retrato tenha provocado lembranças de algum momento de amor que jamais foi esquecido."
Dominando seus sentimentos, Artemiev fechou o estojo e passou a mão na testa.
Em seguida, mostrou ao Barão o retrato da esposa com a filha e a carta de Harrieta informando a morte de ambas.
Temendo que a emoção forte demais prejudicasse a convalescença do paciente, Evgueny Pavlovitch apressou-se a mudar a conversa para suas próprias esperanças e planos para o futuro.
Mas as lembranças do passado em nada afectaram o paciente e ele continuou a recuperar-se rapidamente.
Certa manhã, alguns dias depois, Artemiev, que já começara a andar, estava sentado em seu gabinete enquanto Ellen lia uma revista para ele.
- Deixe, Loló! - disse repentinamente Vladimir Aleksandrovitch, que novamente se acostumara a chamá-la pelo apelido de infância.
Não estou interessado em política, hoje prefiro conversar com você.
Ainda não me contou os últimos momentos de sua mãe.
Ela não me amaldiçoou ao morrer? - perguntou ele com voz baixa e insegura.
Os olhos de Ellen encheram-se de lágrimas.
- Oh, não! Ela o amava demais para isso.
A julgar pelas últimas palavras, mamãe o perdoou, o que disse quando comecei a criticá-lo severamente foi o seguinte.
Enrubescendo, Ellen transmitiu a Artemiev como sua falecida mãe tentou convencê-la a não pagar o mal com o mal, se algum dia encontrasse o pai.
Concluindo, acrescentou:
- Oh! Por que tio Tom não o chamou para vir vê-la?
Vocês talvez fizessem as pazes e mamãe teria sobrevivido.
Vou lhe dar o diário dela, onde descreve toda a sua vida, desde o primeiro dia em que o encontrou.
As últimas linhas foram escritas no dia de sua morte.
Ellen contou ao pai sua última conversa com a mãe e como adormecera com a cabeça apoiada no colo dela, despertando depois nos braços de um cadáver.
- Quando entrei, mamãe estava olhando o seu retrato, morreu pensando em você.
Vou mostrar-lhe o retrato que tiraram dela, morta na poltrona.
Você verá como ainda era linda!
Desse retrato fiz um busto dela.
- Você pratica escultura?
- Sim, tenho um óptimo estúdio em Boston.
Profundamente emocionado, Artemiev baixou a cabeça e ficou pensativo, sombrio e triste.
Após longo silêncio que Ellen não quis interromper, Vladimir Aleksandrovitch endireitou-se e disse:
- Você sabe que sua mãe me apareceu na hora de sua morte?
Ellen soltou um grito de surpresa e Artemiev contou-lhe a visão que teve.
- Veja que prova irrefutável minha mãe lhe deu de que após a morte a alma continua a viver.
Nós a encontraremos no outro mundo e seremos felizes.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 7:41 pm

Você abandonará a vida desregrada, certo?
- Sim, minha querida filha!
Isso está acabado para sempre.
As últimas semanas me envelheceram e me envergonho do passado.
Por favor, traga-me tudo o que restou de sua mãe e também o diário dela.
Quero lê-lo e meditar sobre ele.
Quando mudarmos para a nova casa, vou preparar-lhe também um estúdio.
- Ouvi você falando sobre isso com o Barão.
Mas por que deixar esse bonito e confortável apartamento, onde viveu por tanto tempo?
- Essa residência servia para um solteirão.
Mas agora, tenho uma filha; não posso viver eternamente como num hotel, é tempo de estabelecer-me.
Além disso, tenho nojo das lembranças ligadas a esse apartamento.
Minha filha não deve morar nos aposentos onde recebia minhas amantes.
Um forte rubor surgiu no rosto de Ellen e ela balbuciou com indecisão:
- Papai, você esquece de que não me pertenço e tenho obrigações com o abrigo que me educou.
- E você quer me deixar, apesar da promessa de ficar comigo se eu sobrevivesse?
Acha que conseguirei suportar essa perda, agora que mal encontrei você?
Desarmada pelo amoroso olhar do pai, Ellen passou os braços em seu pescoço e murmurou:
- Eu fico, papai, mas... quero que você me mantenha sempre junto de você!
Pois não haverá necessidade de eu casar com o Barão!
Artemiev sorriu e carinhosamente afastou as mechas de cabelo da testa de Ellen.
- Naturalmente, não há qualquer necessidade, apesar de eu desejar isso.
Deus me guarde de obrigá-la, minha querida, a qualquer casamento, mas me permita expressar algumas ideias sobre este assunto.
Respeito o abrigo que a educou e serviu de asilo à pobre Vitória; reconheço até que a comunidade "Paraíso sem Adão" é óptima para pessoas que sofreram desastres na vida, mas não existe nada que seja igualmente bom para todos.
Você ainda se encontra no limiar da vida, tem direito a todos os prazeres e está sob o poder do amor como qualquer mulher, criada para amar e ser amada!
Em seus alegres e ardentes olhinhos, em toda sua beleza flui a vida.
Você algum dia vai arrepender-se amargamente por desistir do bem mais precioso sem experimentá-lo.
Portanto, se seu destino é casar, por que não com Evgueny?
Ele a ama e comprovou seu amor no momento mais crítico.
Eu poderia ter morrido naquele momento e a sua estranha presença nessa casa permaneceria inexplicada, manchando para sempre a sua reputação.
Foi nesse momento que Evgueny declarou ser você sua noiva; por isso, não é bom desistir desse compromisso somente porque você não precisa mais dele.
Além disso, Evgueny é um rapaz bondoso, honesto e nobre, apesar de mimado pela benevolência das nossas vazias e fáceis damas.
Não nego que é um pândego, mas meu exemplo parece que o afectou seriamente e ele pode se corrigir.
Dependerá de sua esposa fazer dele um bom marido e pai de família.
Você não deve julgar severamente a todos os homens, minha querida filha!
O meio social, as condições de vida e a falsa educação recebida de mães levianas e pais imorais frequentemente os estragam desde a infância.
A companhia de colegas devassos continua a contagiar a alma do jovem e esse rapaz entra na sociedade egoísta, cínico, vaidoso e insaciável de prazeres.
Na esposa, procura somente um rico dote e na mulher valoriza somente o prazer.
Muitos homens seriam completamente diferentes se os maus exemplos, seus colegas e a vaidade mal entendida não os fizessem idiotas, preguiçosos e caçadores de dotes.
Entendo que o exemplo de sua mãe a assusta.
Mas seu casamento será em condições completamente diferentes.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:39 pm

Talvez, nessa loteria chamada casamento, você seja sorteada.
O homem também não sabe que tipo de esposa o destino vai lhe oferecer:
um anjo da guarda ou um demónio destruidor?
Repito, a influência da esposa é enorme e, não raro, muda radicalmente a vida do marido.
- Desculpe, papai, mas quero fazer uma observação!
Somente peço que não tome isso como crítica!
Não vou julgar o que aconteceu entre você e mamãe.
Mas permanece o facto de que, apesar de sua beleza, grande inteligência e infinito amor, mamãe não teve qualquer influência sobre você e não conseguiu segurá-lo.
- De minha parte, peço-lhe que não considere o que vou dizer como uma acusação à sua mãe para justificar-me.
O meu crime em relação a vocês duas não tem desculpa.
Entretanto, se Vitória fosse mais enérgica, teria evitado tanta desgraça!
Naquele tempo, eu era jovem, impetuoso e criminosamente leviano.
Apesar disso, se sua mãe exigisse que eu a trouxesse comigo, que era seu legítimo direito, eu cederia, naturalmente, a contragosto; mas se vocês viessem à Rússia, seus direitos estariam garantidos.
Mas, por discrição e orgulho, ela sempre se calou, mantinha-se longe de mim e ficava introspectiva.
Como consequência disso, apesar de sua beleza, pureza e inteligência, ela saiu de minha vida como uma sombra.
Enquanto isso, as imbecis e interesseiras mulheres me dominavam, só porque defendiam com bravura seu lugar, agarrando-se a mim como a um bem legal.
A natureza masculina difere bastante da feminina.
Sendo mais livres e independentes, os homens se deixam levar mais facilmente; as tentações os aguardam por todo lugar, oferecendo-lhe prazeres perigosos às mulheres.
Para uma esposa amorosa e inteligente, não basta ser honesta, ela deve saber submeter a si o marido, sem barulho nem alarde, para garantir seus direitos e o dos filhos.
Isso, se o marido tiver alguma nobreza de carácter, em função da qual pode tornar-se um homem correto e comedido.
Conheço uma jovem dama que considero o exemplo ideal de esposa sensata.
Vou apresentá-la a você, assim que mudarmos.
Essa dama não é tão instruída como você, não dá palestras nem possui diploma de doutora.
Entretanto, em silêncio, sem repreensões, soube resolver o grande dilema da vida conjugal.
Em seu cotidiano, sempre tranquilo, há entre ela e o marido um acordo amigável, apesar de ele ter sido um grande pândego e mulherengo.
Nos primeiros anos depois do casamento, ele surpreendia a sociedade com suas aventuras; as más línguas prediziam que eles iam se separar ou que a esposa, muito bonita, se vingaria com a traição.
Mas, para decepção das fofoqueiras da alta sociedade, nada disso aconteceu.
Não sei como ela fez, mas o "leão" foi domado.
De tempos em tempos ele ainda aprontava algumas, porém, em seguida, submisso e envergonhado, voltava rapidamente ao lar onde não o aguardavam repreensões nem cenas de ciúmes.
Esqueci de dizer que essa dama é poetisa e escreve textos maravilhosos, cheios de pensamentos elevados que prendem os leitores.
Se, como espero, você fizer amizade com essa mulher inteligente, enérgica e encantadora, a experiência dela pode ser-lhe muito útil.
- Parece que você torce muito para isso, papai!
- Naturalmente! Também você, que ama Evgueny no fundo do seu pequeno coraçãozinho, vai acabar pensando como eu.
Na mesma noite, chegou a Berlim o seguinte telegrama:
"Vou ficar!
Envio detalhes por carta."
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:39 pm

Capítulo 12

Artemiev ardia de impaciência para deixar o quanto antes o apartamento que se tornava insuportável para ele.
A seu pedido, o Barão achou algumas residências adequadas e logo que os médicos o liberaram, Artemiev dedicou uma de suas primeiras saídas a examinar e escolher definitivamente a casa.
O tempo para a reforma e as necessárias adaptações foi utilizado para compras e a preparação da mudança.
Ellen continuava a viver no hotel, mas toda manhã ia visitar o pai e passava com ele quase o dia inteiro.
Desde o baile de máscaras ela não visitara nenhum dos seus conhecidos.
Artemiev dizia que já dera alguns passos para restaurar a posição social da filha e poder apresentá-la à sociedade como tal.
Certa manhã, Artemiev saiu para um passeio; enquanto Ellen, temendo que vasos valiosos e antigos se quebrassem na mudança, ficou embalando-os no gabinete.
De repente, da escadaria de serviço, alguém tocou rispidamente a campainha várias vezes.
Em seguida, ouviu-se uma forte discussão entre o mordomo e uma mulher que usava em seu linguajar palavras nada rebuscadas, misturando o idioma francês com o russo.
Ellen, surpresa, ficou atenta a essa discussão.
De repente, a porta do gabinete escancarou-se e no quarto irrompeu, furiosa, Colette, rubra de raiva.
- Ah! Eu sabia que alguém roubara meu lugar e o coração de Vladimir.
Por isso resolvi colocar em pratos limpos as histórias que contam pela cidade - exclamou ela, parando diante de Ellen e examinando-a com desprezo.
Então, é você, pregadora do "Paraíso sem Adão" e inimiga dos homens, que desavergonhadamente se instalou na casa de meu amante!
Mas que diabo!
Pelo jeito a discrição não é o seu forte.
Só que você, sua descarada hipócrita, não contava que Colette Legrand não deixaria qualquer safada roubar-lhe seu amante!
Ellen ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
Ouvindo o vergonhoso papel que a actriz lhe atribuía nesta casa e, além dela, provavelmente muitos outros, emudeceu de vergonha e indignação.
Mas não teve tempo de responder nada, pois naquele instante, o cortinado da porta abriu-se e na soleira do gabinete apareceu Artemiev.
Estava pálido e seus grandes olhos azuis brilhavam com ira e desprezo sob as sobrancelhas cerradas.
- Parece-me, senhora, que não a convidei a vir aqui e nunca lhe dei o direito de fazer escândalos em minha casa - disse Vladimir Aleksandrovitch, sério e rígido.
Como ousa ofender minha filha, ouça bem, minha única e legítima filha, e ainda importunar os ouvidos dela com suas indecentes expressões?
Aqui não é lugar nem hora para acertar contas sobre o passado definitivamente terminado.
A senhora me faria um grande favor se encerrasse agora a sua visita inesperada.
A senhora me entendeu, certo? - acrescentou ele, vermelho, pois a actriz não se movia do lugar.
Por um instante, um forte rubor, notado até sob a grossa camada de maquiagem, cobriu o rosto de Colette.
Mas, quase imediatamente, ela recuperou sua habitual empáfia e disse com a maior inocência:
- Acalme-se, querido!
Se esta moça é sua filha, melhor ainda.
Isso significa que não existe qualquer barreira ao nosso amor, pois uma filha não teria ciúmes do pai, e eu o adoro, seu ingrato.
Como chorei a sua doença!
Oh, Vladimir, você está sendo cruel expulsando-me como se eu fosse uma mulher de rua qualquer!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:39 pm

Caindo na poltrona, Colette levou o lenço aos olhos e caiu em prantos.
Um sorriso de desprezo passou pelos lábios de Artemiev, enquanto Ellen sufocava com tal vontade de gargalhar que toda sua ira desapareceu.
Inclinando-se para o pai, soprou-lhe no ouvido:
- Não seja tão cruel com ela, pai!
É tão boba! Vou sair para vocês dois se entenderem.
Sem esperar resposta, Ellen escapuliu do gabinete.
Por alguns instantes, Artemiev ficou olhando Colette ainda em prantos.
Depois, aproximou-se dela e disse, bonachão:
- Pare com isso! Enxugue as lágrimas!
Elas em nada vão ajudar; somente estragarão a cor de seu rosto.
Chega, fizemos muitas bobagens na vida!
É hora do pai de uma filha adulta criar juízo!
Já estou velho e você é suficientemente bonita para escolher alguém mais jovem.
Portanto, vamos nos separar como amigos!
Foi até a escrivaninha, pegou o talão de cheques, preencheu um cheque.
- Minha querida, leve essa quantia como lembrança das horas agradáveis que passamos juntos.
Colette agarrou o cheque, olhou-o e soltou um gritinho de alegria.
- Vladimir, você é tão magnânimo!
Na verdade, meu coração está dilacerado por ter de deixar um homem tão encantador e generoso!
Mas, se você pretende tomar juízo, não posso fazer nada.
Portanto, adeus! Eu o amei com toda sinceridade.
Mas devo abraçá-lo pela última vez.
Colette pulou nos braços dele, beijou-o ardentemente e saiu correndo do quarto.
Artemiev sentou-se diante da escrivaninha e ficou pensativo.
Finalmente rompera com seu agitado passado.
A mulher que acabara de dispensar fora sua última amante e em seu espírito surgiu a questão: estaria lamentando isso?
"Não e não!" gritava-lhe a voz interior. Para ele bastava: sentia-se saturado.
Absorto em pensamentos, só notou a presença de Ellen quando ela o abraçou, murmurando carinhosamente:
- Papai! Você é livre.
Por que mandou embora Colette, se a ama?
Não quero ser um empecilho para você!
Artemiev endireitou-se e respondeu com um sorriso:
- Amar uma criatura que pertence a qualquer um que lhe pague?
Não, minha querida, tais mulheres só se ama em raras ocasiões.
- Mas ela o ama!
Artemiev soltou uma gargalhada.
- Entretanto esse amor não a impediu de arrumar um substituto.
Ela é uma pessoa muito prática...
Quanto a mim, já me diverti e pequei o suficiente.
Estou saturado da devassidão e vou dedicar o resto da minha vida à sua mãe.
Preciso recordar-lhe que você ainda não me deu o diário da minha falecida Vitória e tudo o que guardou dela.
- Temia perturbá-lo demais com isso enquanto você estava de convalescença.
Assim que mudarmos para a nova casa, vou entregar-lhe tudo que prometi.
Uma semana depois, instalaram-se na nova residência.
Três aposentos, confortavelmente mobiliados, sem contar com o estúdio, foram reservados para Ellen.
Artemiev conduziu a filha à nova residência como a uma noiva, cercando-a de luxo, flores e carinhosa atenção.
Ellen sentiu-se feliz ao mudar para o ninho de seda que o pai lhe havia preparado.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:39 pm

Levou seus valiosos bibelôs e, após escrever à senhora Oliver contando o que se passou, pediu-lhe que enviasse uma camareira de sua escolha e também outros objectos.
Certa noite, Ellen reuniu tudo o que guardara como lembrança de sua mãe e levou ao quarto do pai.
Artemiev tinha saído e ela, querendo fazer-lhe uma surpresa, colocou sobre a mesa tudo que trouxera.
Além do diário da falecida, havia duas fotografias em molduras de pelúcia preta.
Numa delas Vitória estava morta na poltrona; a outra fotografia mostrava o túmulo erigido por Ellen no parque do abrigo, no local onde a mãe quis ser enterrada.
O monumento representava uma colina coroada por uma lápide de mármore negro, que um génio encapuzado entreabria.
Do túmulo elevava-se Vitória, branca e etérea como a brisa.
Trazia asas de borboleta e parecia pronta a voar aos céus, para onde o génio apontava.
Ao pé do monumento estava gravado apenas o nome "Vitória" e a data de sua morte.
Diante das fotografias, Ellen colocou um porta-jóias de marfim, que continha o medalhão com o retrato de Artemiev, retirado do pescoço da falecida, sua aliança e algumas flores secas, embrulhadas em papel seda, que foram retiradas do caixão.
Por fim, colocou também uma pasta com algumas cartas, escritas ao marido em horas de fraqueza e desespero; a última fora escrita seis semanas antes de sua morte.
O orgulho sempre vencera a fraqueza e nenhuma daquelas cartas fora concluída e enviada.
Em seguida, Ellen acendeu duas velas para melhor iluminar os retratos.
Estava terminando os preparativos, quando o pai entrou.
Ao ver as relíquias sobre a mesa, Vladimir Aleksandrovitch empalideceu e baixou a cabeça.
Uma profunda pena apertou o coração de Ellen.
Lamentou ter colocado ali aqueles objectos, pois cada um deles servia de reprimenda ao pai.
Mas, por sua natureza impetuosa, a pena que sentia mudou rapidamente para um sentimento amargo e cruel.
Não fora ele próprio quem cavara essa cova prematura, com seu torpe comportamento?
Portanto, algumas horas torturantes eram ainda uma vingança pequena demais, pelos longos anos de agonia da pobre mulher.
Ellen deixou o quarto sem dizer nada.
Quando, mais tarde, saiu para o chá, o mordomo informou que o patrão mandou que servissem seu chá no gabinete.
Assim que o mordomo levou o chá e saiu, Artemiev trancou-se no gabinete.
Desejava ficar sozinho com sua vítima e seu passado.
Apagou as velas que Ellen acendera e substituiu sua luz pela do abajur.
Aproximando a poltrona, baixou a cabeça e ficou profundamente pensativo.
O dormitório do "leão dos salões" mudara significativamente de aspecto e parecia agora mais triste e sóbrio.
Foram eliminados alguns quadros de conteúdo libertino e estatuetas maliciosas; em seu lugar, apareceram antigos ícones da família, há muito esquecidos e abandonados por seu proprietário ateu.
Agora, diante do móvel com os ícones, ficava acesa dia e noite uma lamparina; sua luz brincava com reflexos ígneos nos brilhantes e pedras preciosas, emoldurando as faces severas das imagens.
Reinava o silêncio.
O luxuoso e sombrio quarto estava cheio de profunda paz.
Mesmo assim, o coração de Artemiev batia tristemente e seu olhar melancólico estava fixo na imagem do distante e isolado túmulo, onde não aparecia sequer seu nome.
Será que a branca e etérea vítima que saía do sepulcro não iria acusá-lo diante da Justiça Divina?
Essa alma abrira suas asas de Psique partindo em direcção ao desconhecido...
Artemiev enxugou a testa e, controlando o próprio tremor, pegou a outra fotografia.
Examinou avidamente os traços da falecida, procurando as mudanças provocadas pelos anos de sofrimento espiritual; mas Vitória permanecia bela como sempre.
Seu rosto imóvel, pela pureza de traços e da expressão, parecia um camafeu, enquanto o corpo descansava gracioso como uma flor colhida.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:40 pm

Somente um profundo vinco nos cantos da boca revelava sua amargura e desprezo pela vida.
Artemiev, indeciso, puxou para si o porta-jóias e abriu-o.
Ao ver o medalhão, seu presente de noivado, e a aliança, estremeceu; foi completamente tomado por um tremor nervoso, mais intenso ainda quando abriu as cartas inacabadas.
A última, escrita com a mão trémula, continha as seguintes palavras:
"Sinto que estou morrendo.
Os acessos da doença cardíaca tornaram-se mais frequentes e podem me matar a qualquer momento.
Vladimir, somente por estar quase convicta de que os laços que você odeia se romperão em definitivo é que resolvi escrever e chamá-lo.
Apesar de todas as suas ofensas e ferimentos causados à minha alma, imploro-lhe que volte.
Deixe-me morrer perto de você. O desejo de vê-lo me consome e não me deixa em paz.
Além disso, queria passar às suas mãos a nossa filha.
Você parecia amar Ellen.
O destino dela me preocupa.
Será que fiz bem em confiá-la à comunidade?
Será que isso vai repercutir mal no carácter e no futuro dela?"
A mão de Artemiev caiu pesadamente, como se aquela página amarelada fosse de chumbo.
Lágrimas quentes caíram nas letras semi-apagadas.
Oh! Por que essa carta não chegara até ele?
Ela faria desaparecer sua criminosa indiferença.
Ele teria retornado e, talvez, salvo a vida de Vitória.
Após ficar por muito tempo completamente abatido, pegou o volumoso caderno e abriu-o, com uma sensação de obscuro temor.
Conhecia aquele caderno, vira-o muitas vezes nas mãos de Vitória.
Naquela época, não tinha tempo para a esposa e pouco lhe interessava o que ela pensava e sentia.
Agora, Artemiev mergulhava intensamente na leitura do diário e, à medida que lia, seu rosto reflectia vergonha, lamento e desespero.
O diário continha a amarga epopeia de um coração feminino destroçado, esvaindo-se em sangue.
As vezes, indignava-se; outras vezes, conformava-se; sempre torturado pelo amor fatal, que o prendia como uma corrente.
Muitos momentos esquecidos de seu cruel e grosseiro egoísmo, agora claramente recordados, faziam Artemiev estremecer e corar.
Ao mesmo tempo, das chamas dessa fogueira moral, surgia triunfalmente a imagem límpida e pura de Vitória que, com seu amor maternal vencera todas as fraquezas e desejos de vingança.
Ao ler a última página, escrita pela esposa no dia da própria morte, Artemiev colocou as mãos na cabeça.
- Minha pobre Vitória! - murmurou com lábios trémulos e um pranto convulsivo escapou de seu peito oprimido.
Diante dele, revelou-se por completo o irremediável crime que cometera.
Como pagar todos os sofrimentos que causara àquela inocente e indefesa criatura, a única que o amara sem interesse e que se sacrificara por criaturas devassas, vendidas e por prazeres animalescos?
Os homens não o condenaram e as leis humanas não o castigaram.
Em compensação, chegava agora a justiça mais terrível, aquela que não precisava de testemunhas nem de acusadores.
Naquela noite, ele foi julgado pela própria consciência, que lhe impunha severa sentença, descontando todas as suas más acções, revelando seu cruel egoísmo e arrancando os andrajos do orgulho e vaidade que alimentavam sua mundana vulgaridade e presunção que, por sua vez, soprava-lhe conselhos maliciosos e abafavam o sentimento do dever.
Sob o peso desse julgamento invisível, Artemiev torturava-se como muitos acusados diante do olhar curioso e duro da turba festiva.
Lembrou-se de Deus, a Quem havia esquecido no vendaval de prazeres, e de cuja existência duvidara, por Ele não o castigar devidamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:40 pm

E tremeu.
Ele zombava da justiça que lhe permitia aproveitar todos os prazeres da vida, ter respeito e sucesso na sociedade, uma saúde de ferro e enorme fortuna.
A justiça ficara ao lado do mais forte.
Mas, nesse momento, compreendeu que existia uma força oculta e imperceptível, mas ameaçadora e terrível, que se apossara dele, torturava sua alma, obrigava-o a tremer, curvar-se e chorar lágrimas mais quentes que o fogo.
Essa poderosa força era a Justiça Divina, o verdadeiro e incorruptível Juízo, que se levanta, lenta mas inexoravelmente, em defesa das vítimas inocentes, e se vinga das criminosas acções despejando-as sobre aqueles que as praticaram.
De repente, no espírito de Artemiev despertou a necessidade de orar, tomado por um ímpeto de fé e temor pelo esquecido, indefinido e incompreensível Deus, Cujo poder universal ele sentia naquele duro momento.
Dirigiu-se vacilante até o altar, caiu de joelhos diante das imagens e, batendo a cabeça no chão, somente sussurrava:
- Meu Deus! Meu Deus!
Não era realmente uma oração; mas aquelas duas palavras expressavam o arrependimento do pecador e um pedido de perdão, iluminação e ajuda.
Tal foi o poder desse clamor do coração profundamente abalado, que derrubou o muro intransponível que separa o ser humano do mundo incorpóreo, aquela região invisível, da qual as pessoas zombam porque não podem senti-la ou medi-la, pois a espessa cortina que oculta os mistérios do outro mundo não pode ser levantada pela mão curiosa de um ignorante ateu.
O desesperado apelo de Artemiev abriu essa cortina.
Um leve crepitar, acompanhado de um sopro frio, obrigou-o a levantar-se e seus olhos, bem abertos, fixaram-se no vulto esbranquiçado que surgiu à sua frente.
Sob a luz trémula da lamparina acesa, diante dos ícones, surgiu não Aquele a Quem foi dirigido o apelo, mas a única criatura que poderia aliviar seu remorso: Vitória!
Como na primeira visão, ela estava toda de branco.
Uma luz fosforescente parecia emanar de todo seu ser e dos cabelos louros e soltos, que formavam uma auréola sobre sua cabeça e perdiam-se na sombra; os grandes olhos, escuros e luminosos, fitavam Artemiev com pena e amor.
Ela o amava demais para alegrar-se com seu sofrimento, que pagava todas as suas imorais diversões, pelas quais ele a sacrificara.
O espírito liberto da carne conhecia o duro trabalho de remissão que aguardava o homem à sua frente, tardiamente arrependido.
O espírito sabia que nem mesmo o perdão, vindo do fundo do coração, podia reparar a transgressão das leis fluídicas, leis básicas de equilíbrio entre o bem e o mal.
Essa transgressão só poderia ser reparada por quem a cometeu e, naquele momento, o opressor era mais digno de pena do que sua vítima.
Ouviu-se então uma voz delicada em surdina, num sussurro harmonioso:
- Seus pensamentos e seu arrependimento me invocaram, mas eu não posso julgá-lo!
Já o perdoei há muito tempo.
Se dependesse de mim reparar o seu passado, purificar e retirar de você todo o peso de suas proezas, eu o faria com prazer, pois o verdadeiro amor não tem maldade nem vingança.
Infelizmente, só posso chorar por você.
Fui uma provação em sua vida que você não entendeu, um desafio para você experimentar as forças que possuía.
As leis da harmonia moral que transgrediu irão vingar-se de você.
A consequência será a correcção e a morte da carne, que você tanto amava, e pela qual sacrificou as melhores aspirações de sua alma.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Lembre-se de que a harmonia eleva o espírito ao infinito, enquanto a desordem prende suas asas e o conduz aos abismos da remissão.
Pode-se enganar as pessoas, que são um rebanho cego e imperfeito, mas não as rígidas e imutáveis leis do equilíbrio das esferas.
Essas leis exigem de cada partícula da matéria a correspondente obrigação, trabalho e luz.
Elas pesquisam com exactidão, medem e dirigem cada átomo que gira no caos aparente.
Este átomo, conforme suas propriedades, se for leve, subirá no éter; ou cairá novamente, para ser mais uma vez remoído, se o exacto equilíbrio julgá-lo pesado demais.
Quantos conhecimentos inúteis vocês carregam em seus cérebros para alcançar bens terrenos, ignorando o verdadeiro conhecimento.
Então, o cego ser humano repentinamente se vê frente a frente com leis desconhecidas que ele rejeitava e o condenam ao castigo espiritual!
Reze! Purifique-se e redima o mal que fez, não a mim, mas a si próprio!
Eu também rezarei e cuidarei de você.
A voz calou-se.
A visão empalideceu e desvaneceu-se no ar.
Artemiev, estarrecido, ficou imóvel alguns instantes.
Depois desmaiou.
Ao voltar a si, sentiu-se abatido, a cabeça pesada e o coração oprimido.
Foi lentamente até a mesa onde estavam as relíquias do passado, caiu sem forças na poltrona e ficou pensativo.
Lembrava-se claramente da visão e de cada palavra dita por Vitória.
Pela segunda vez, o outro mundo o tocara com sua asa misteriosa e não podia haver mais dúvidas.
A aparição de Vitória no dia de sua morte, quando a considerava morta há muito tempo, e voltava para casa de uma farra, despreocupado e bêbado, fora uma prova incontestável.
Essa noite transformou-o de materialista e sacrílego num crente, e levou-o ao arrependimento sincero.
Artemiev examinou novamente todos os objectos que pertenceram a sua esposa.
Parecia-lhe que irradiavam o passado e emitiam gemidos, perceptíveis somente a quem eram endereçados.
Trémulo e emocionado, tirou do porta-jóias a aliança que Vitória usara até a morte, e colocou-a no próprio dedo.
Depois, pegou no compartimento secreto da mesa a sua própria aliança, escondida desde o seu retorno a São Petersburgo.
Ao colocá-la no dedo, parecia-lhe estar renovando seus antigos votos.
Agora decidira ser fiel à finada, como nunca o fora quando ela vivia.
Talvez esse respeito à memória dela, redimiria, pelo menos em parte, as lágrimas que ela derramara...
De repente, estremeceu.
Um sopro quente, terno e acariciante, como um beijo, tocou-lhe a testa.
Artemiev baixou a cabeça, mas sobre sua alma desceu uma imensa paz.
Após uma fervorosa oração, deitou-se e adormeceu profundamente.
Quando, no dia seguinte, Vladimir Aleksandrovitch apareceu para o desjejum, Ellen notou, com tristeza, a mudança ocorrida na noite anterior.
Os fios prateados que enfeitavam seus cabelos e barba pareciam ter triplicado, o andar tornou-se lento e o fogo juvenil do olhar apagou-se.
Aparentemente, o preferido das damas, o brilhante "leão dos salões", chegava ao fim.
Artemiev, em silêncio, abraçou a filha e a beijou carinhosamente.
Ellen também o abraçou e apertou-se ao seu peito.
Não disseram sequer uma palavra, mas esse abraço silencioso de pai e filha expressava claramente o amor e o arrependimento de ambos, o carinho e a promessa de se ajudarem a carregar o peso do remorso.
Passaram-se alguns dias.
Artemiev permanecia pensativo, calado e isolado.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:40 pm

Várias vezes conversava sobre a necessidade de fazer algumas visitas e ir à uma festa da Baronesa Nadler, mas esses planos permaneciam intocados.
Vladimir Aleksandrovitch definitivamente não queria aparecer na sociedade.
Ellen compartilhava do sentimento dele, pois a incomodava a questão do noivado com o Barão Ravensburg, o qual devia ser desmanchado ou finalmente anunciado.
Evgueny Pavlovitch, que durante certo tempo não apareceu na casa dos Artemiev, passou a ser um visitante assíduo.
Parecia procurar uma oportunidade para se entender com Ellen.
Temendo tal conversa, ela inventava mil pretextos para evitá-la toda vez que percebia o olhar inquiridor de Evgueny.
Ela própria já não se entendia, temia fraquejar, pois não tinha mais dúvidas de que o sentimento que a atraía para o Barão tornava-se cada dia mais forte.
Assim, embora tentasse evitá-lo, ficava aguardando ansiosamente sua chegada e seu coração batia forte ao ouvir seus passos e sua voz.
Quando ele partia, tudo lhe parecia vazio e triste.
A ideia de que ele poderia se casar com outra, despertava nela um sentimento até então desconhecido, mas tão forte e doloroso que, por momentos, esquecia suas convicções.
Mesmo assim, Ellen lutava corajosamente contra aquele amor que se apoderava dela, embora condenado por seu bom senso.
Por fim, decidiu pedir ao pai para empreender uma viagem, que a livraria dessa desordem mental e recuperaria o equilíbrio espiritual.
Tal era a situação quando, certa manhã, chegou o Barão e foi directo ao gabinete de Artemiev.
Não aguentando mais a irritante indefinição, queria entender-se pelo menos com ele.
Vladimir Aleksandrovitch lia sentado junto à janela e recebeu o jovem amigo com a habitual amabilidade.
Quando Evgueny Pavlovitch despejou sem preâmbulos o motivo que o levou a procurá-lo e começou a implorar-lhe para pôr um paradeiro àquela insuportável indefinição, Artemiev nada respondeu e ficou pensativo.
- Vladimir, seu silêncio me surpreende!
E como se você já não quisesse que eu me case com sua filha! - exclamou o Barão, num tom ofendido.
Artemiev endireitou-se e, estendendo-lhe a mão, respondeu com um sorriso levemente forçado:
- Sente-se e acalme-se!
Senão será impossível discutirmos esse assunto.
Somos amigos há muito tempo e podemos conversar francamente.
Veja como o ser humano muda.
Nas últimas semanas o velho pândego Artemiev, seu companheiro de bebedeira e farras, morreu; em seu lugar renasceu o pai de Ellen.
Eu ainda quero que você se case com minha filha, mas, ao mesmo tempo, receio que ela seja infeliz.
Evgueny, você é um bom rapaz, mas nós farreamos demais juntos e sei como será difícil para você mudar de vida e tornar-se um pai de família.
Não conteste!
Pessoas como nós, que trocavam de amante como se troca de luva, têm grande dificuldade de permanecer fiéis a uma mulher, por mais maravilhosa e virtuosa que ela seja.
Digo mais:
a mulher ideal e pura não nos atrai, pois não emana o aroma inebriante de qualquer devassa, que brinca com nossa sensualidade como uma artista ao piano.
Sou a prova viva do que acabei de dizer.
Você viu o retrato de Vitória?
Ela, sem dúvida, se igualava a qualquer famosa beldade; mesmo assim, morreu sozinha e abandonada.
Enquanto isso, eu acariciava, mimava e vestia mulheres imprestáveis, feias e até envelhecidas, mas seus olhares, movimentos do corpo, o desavergonhado ardor e aquele odor de pecado escravizavam e excitavam meus sentidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:40 pm

Você ama Ellen como eu amava Vitória.
Você a ama como a uma obra de arte que anseia possuir; mas que, após possuí-la, perderá a metade de seu valor.
Então, voltará aos antigos costumes e a presença da esposa passará a incomodá-lo.
Em todo lugar onde costumava ir sozinho, teatro ou passeio, o olhar inocente de sua "carcereira" lhe será insuportável.
Você se sentirá vigiado e deverá comportar-se sobriamente.
Não poderá aproximar-se livremente de mulheres que conheceu no baile de máscaras ou numa sala privada de restaurante.
A presença da esposa irá prejudicá-lo aos olhos das "damas de vida fácil" que lhe interessarem.
Não pense que o estou condenando pelos pecados que prevejo.
Sei de experiência própria o quanto é escorregadio o caminho do prazer, por isso não tenho o direito de julgá-lo, reconhecendo a minha terrível culpa.
Mas estamos falando sobre a felicidade e o futuro de minha filha e, conhecendo o carácter dela, prevejo grandes complicações.
Sei que Ellen o ama.
Como toda moça, ela procura em você o ideal que seu coração criou, apesar de todas as lições do "Paraíso sem Adão".
Será difícil controlá-la, em razão da educação estranha e anormal que recebeu.
Quanto mais a observo, mais me convenço com pesar de que herdou todo o meu carácter e muito pouco o de sua dócil mãe.
Orgulhosa, insubordinada, apaixonada, com tendência a forte ciúme e cruel nos momentos de cólera, Ellen é realmente minha filha.
Tornando-se seu marido, será difícil para você equilibrar o papel de amigo e amante.
Somente a amizade pode não satisfazê-la; o amor, embora a assuste no início, logo se tornará um agradável hábito, do qual não vai querer abrir mão, exigindo que você adore somente a ela.
Mas, se pretende colocar-lhe uns chifres, o que inevitavelmente acontecerá, pois o conheço bem demais, ela irá atormentá-lo.
Pense em tudo isso.
Se sentir que não terá forças para controlar-se, é melhor desistir do casamento, que pode lhe trazer infelicidade e empurrar Ellen para o vício e a traição.
Para não perecer nesse caminho, é melhor que ela fique com suas utopias.
Eu a levarei daqui e vocês esquecerão um ao outro.
A medida que Artemiev falava, um forte rubor cobria o rosto do Barão.
Em seguida, Ravensburg levantou-se e apertou com força a mão do amigo.
- Tudo que você disse é a pura verdade.
Não posso jurar que jamais sentirei alguma atracção passageira por outra mulher.
Mas, será que só esse motivo basta para você recusar-me a mão de sua filha?
Eu a amo sinceramente e farei tudo que depender de mim para fazê-la feliz.
Juro pela minha honra que contarei todos os meus relacionamentos amorosos e empregarei todas as minhas forças para me controlar!
Por ser tão jovem, linda e cheia de vida, sua filha não foi criada para ser monja e poderia arranjar um marido muito pior do que eu.
Além disso, ela me ama e só isso já é uma garantia de felicidade.
Artemiev pensou por instantes e, depois, passando a mão pela testa, disse:
- Que se cumpra a vontade de Deus, que conhece e dirige os destinos dos homens conforme Sua misteriosa obra divina!
As passageiras alegrias terrenas, assim como as decepções e amarguras, têm sua razão.
Portanto, fale com Ellen!
Se ela concordar, talvez consiga manter e proteger a própria felicidade.
A pobre Vitória não teve energia para tanto e me deixou entregue a mim próprio.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:41 pm

- Onde está Ellen? - perguntou o Barão, apertando-lhe a mão.
- Está no estúdio.
Vá, e que o Senhor inspire a ambos!
Ellen estava sozinha e andava preocupada pelo estúdio.
Sabia que o Barão estava com seu pai e seu sexto sentido lhe dizia que estavam discutindo seu destino.
Portanto, o momento decisivo estava próximo!
Será que conseguiria resistir aos rogos daquele homem, cujo olhar e voz pareciam enfraquecer sua força de vontade?
Renegaria as próprias convicções?
Será que ela, a corajosa pregadora do "Paraíso sem Adão", elegeria seu senhor?
Por mais que a amasse, ele acabaria se tornando seu "senhor", que iria lhe implorar seus direitos sobre ela e a quem deveria obedecer, em vez de fazer o que bem lhe aprouvesse.
Orgulho, amor, teimosia, medo e um ridículo sentimento, misto de ódio e felicidade, lutavam no espírito de Ellen.
Nesse instante, no quarto contíguo ouviram-se passos apressados e na soleira do estúdio apareceu a alta e elegante figura de Evgueny Pavlovitch.
Ellen empalideceu e parou, olhando o Barão com tristeza e insegurança, enquanto seu coração rebelde bateu mais forte no peito.
Por instantes, o Barão ficou calado, olhando fixamente seu rosto encantador, no qual se reflectiam claramente os diferentes sentimentos que a perturbavam.
Depois, aproximou-se e disse, com voz trémula de paixão:
- Ellen! - e atraiu-a para seus braços.
Nessa única palavra soava toda sua alma.
Sob o encanto desse ardente ímpeto, Ellen sentiu a cabeça girar, encostou a cabeça no peito dele e não resistiu aos beijos.
Como isso aconteceu?
Ela não conseguiria dizer.
Uma onda de fogo invadiu sua alma apaixonada.
Todas as dúvidas, resistências e indignação desapareceram naquele sentimento de infinita felicidade e paz, que a obrigou a esquecer tudo por instantes.
Mas esse abandono durou pouco.
A excitação diminuiu e a brusca reacção provocou rios de lágrimas em Ellen.
Vencida pela mais poderosa e misteriosa força da natureza, dominada pela realidade da vida, a pregadora do "Paraíso sem Adão" chorava a destruição de seu sonho de independência, chorava a queda da imponente muralha erguida por corações torturados que a imaginavam intransponível.
Evgueny Pavlovitch percebeu o que se passava na alma de Ellen.
Levando-a até o divã, sentou-se ao lado dela, abraçou-a e disse carinhosamente:
- Espero que essas lágrimas sejam o último tributo ao passado, do qual este momento a separa para sempre.
Querida, esqueça a sua triste infância e a vazia e tediosa existência que escolheu, que não poderia satisfazê-la.
Na companhia de seu pai, a quem tudo você perdoou, começará uma nova vida.
Portanto, enxugue as lágrimas e encare o futuro confiante e esperançosa!
Ellen endireitou-se e, tentando conter as lágrimas que caíam pela face, respondeu baixinho:
- Sim, eu caí vítima da cruel lei da natureza.
Eu a conhecia, temia e deveria evitá-la, mas as circunstâncias foram contra mim.
Reconheço que o amor seria lindo, se fosse tudo na vida e se não houvesse os fantasmas da dúvida, da desilusão e do ciúme: os eternos inimigos que destroem o amor.
Considero-lhe bondoso e acredito que me ama sinceramente.
Mas quem sabe se não me obrigará a lamentar amargamente a vida monótona e vazia, embora livre de lutas e sofrimentos?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:41 pm

Você se acha suficientemente forte para nunca encher meu coração de fel e não me obrigar a retornar, abatida e infeliz, ao paraíso de onde saí?
- Ellen! Não sou santo e por isso não estou livre do pecado - respondeu o Barão, emocionado.
Mas juro que tudo farei para torná-la feliz e dominar minhas fraquezas.
Se você me ama, será compreensiva e paciente comigo e me ajudará nas minhas boas intenções.
Muito emocionada, vacilando entre a felicidade e o amargor, Ellen colocou a cabeça em seu ombro.
Naquele momento, na porta do quarto apareceu Artemiev, cuja chegada os noivos nem ouviram.
- Meus parabéns!
Vejo que temos um final feliz - disse ele alegremente.
Ellen ficou vermelha como pimentão.
Escapando dos braços de Evgueny Pavlovitch, correu para os braços do pai e desandou a chorar.
- Chega! Acalme-se, minha querida, e não crie fantasmas para si própria - observou Artemiev, rindo e levantando a cabecinha da filha.
Despeça-se também de suas utopias!
Não existe felicidade perfeita no mundo e é preciso contentar-se com a menor.
Para começar, segure essa mariposa para que não saia voando por aí.
Seja rígida como aprendeu em sua comunidade e ao seu desprezível "Adão" conceda somente uma aparência de poder.
Todos riram e depois comemoraram com champanhe.
O resto do dia passou alegre.
Ellen, apesar dos pressentimentos, entregou-se ao encanto de ser amada e alegrava-se por não precisar mais ocultar os próprios sentimentos.
Ficou decidido que já no dia seguinte todos iriam à festa da Baronesa Nadler, onde Artemiev anunciaria o noivado.
Ellen, pela manhã, visitou a Baronesa com Inna e contou-lhe o que havia acontecido.
Lídia Andreevna, que estava bondosa como um anjo, feliz por estar de casamento marcado com o Príncipe, recebeu Ellen de braços abertos, parabenizou-a e fê-la prometer que compareceria ao seu casamento dali a uma semana.
Inna recebeu a notícia com menos entusiasmo, mas ficou profunda e sinceramente contente por Ellen permanecer em São Petersburgo.
Muita curiosidade, inveja e malevolência havia nos olhares dirigidos a Ellen, quando entrou de braço com o pai na sala de visitas da Baronesa Nadler e foi apresentada à sociedade como Helena Vladimirovna Artemiev, noiva do Barão Ravensburg.
Entre os mais maldosos estava a senhora Obzorov.
Ela olhava com desprezo e curiosidade a profunda mudança na aparência de Artemiev.
Em seguida, voltando-se para a vizinha, disse entredentes:
- Aquele pecador inveterado envelheceu de repente.
Tinha a pachorra de se portar como solteiro e insistia em cortejar mulheres da idade de sua filha.
Não fez nada bem para ele essa necessidade de confessar seus antigos pecados.
- Mas claro!
Ele insistia em cortejá-la, Vava, e foi uma sorte você resistir.
Mesmo agora ainda é um homem bonito e encantador - respondeu ironicamente a amiga.
- Pois é, querida!
Se eu não tivesse rígidas normas de conduta e um coração gelado, teria caído facilmente nessa. - respondeu a senhora Obzorov com arrogância, tendo o bom senso de omitir que, por aquele mesmo homem, ela pretendia outrora se divorciar e arriscar-se a um grande escândalo.
Ela não notou que Artemiev se aproximou para cumprimentá-la e, assim, pôde ouvir as últimas palavras de sua ex-amante.
Ela o recebeu de modo amigável, mas indiferente, como se ele não representasse nada.
Mas no olhar de Vladimir Aleksandrovitch brilhou tal desprezo e zombaria que a senhora Obzorov, apesar da descarada autoconfiança, ficou embaraçada.
O convite que faria a Artemiev e a filha para visitarem sua casa entalou em sua garganta e se limitou a um cerimonioso cumprimento.
Vladimir Aleksandrovitch deu-lhe as costas, enojado, surpreendendo-se de como fora se interessar por aquela devassa criatura, que diferia de uma vulgar cocote somente por sua posição de "dama da sociedade".
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:41 pm

Capítulo 13

O casamento da Baronesa Nadler seria realizado na igreja do Almirantado, para onde se dirigiu Ellen com o pai e o noivo.
Muitos convidados aguardavam a chegada da noiva.
Parada perto do altar, Ellen examinava com curiosidade aquela sociedade que não admirava.
Lá estava reunida a "nata" da capital.
Os lustres iluminavam os luxuosos trajes das damas, refulgiam em profusão os diamantes e os uniformes rebordados; mas, sobre aquela elegante e reluzente multidão pairava um toque de vulgaridade.
Nos rostos prematuramente envelhecidos dos homens e das faceiras e maquiadas damas, estampavam-se seu egoísmo, as pequenas vaidades e aquela nulidade espiritual, cujo interesse se concentra nas aspirações de carreira, na competição dos trajes, aventuras amorosas, intrigas e mexericos.
Examinando e avaliando mentalmente aqueles hipócritas, Ellen notou um casal que chegara atrasado e abria caminho através da multidão.
Ele era um oficial muito bonito, alto e elegante, de olhos escuros e cabelos aloirados.
Seu rosto correto era muito pálido e algo quase imperceptível, mistura de tédio, saturação e fatuidade, indicava que aquele leão da sociedade, apesar de jovem, já trazia consigo um agitado passado.
A jovem mulher que ia de braço dado com ele não possuía a beleza perfeita do marido, mas seu semblante transpirava nobreza e delicadeza; sentia-se nela algo particular, que a destacava sobremaneira das outras damas.
Era de estatura média, tão magra que parecia uma pluma.
A palidez de seu rosto era realçada pelo cabelo cheio e escuro; seus grandes olhos cor de aço, emoldurados por longos e sedosos cílios, brilhavam intensamente, parecendo transpassar a quem fitassem.
O vestido de veludo lilás, com a gola estilo "Médicis"(1) de rendas douradas e o enfeite de cabelo de brilhantes e ametistas, de feitio bastante sério, se harmonizavam inteiramente com a orgulhosa discrição de toda sua figura.
Ellen não conseguia desviar os olhos daquele rosto, daquele olhar que reflectia um espírito empreendedor e inteligente.
Ela tinha, sem dúvida, uma natureza artística e poética, mas estava evidente que era infeliz.
Isso indicava a severa e fria dobra da pequena boca, apesar da expressão tranquila dos grandes e claros olhos, que percorriam com indiferença a multidão por entre a qual abria caminho, trocando leves cumprimentos com conhecidos.
Ela prestava ainda menos atenção a seu belo marido, visivelmente satisfeito consigo próprio, que cumprimentava a todos, trocando apertos de mão com os homens e olhares carinhosos com as representantes do belo sexo, que lhe concediam encantadores sorrisos.
"Eis um par que não combina", pensou Ellen, cuja experiência teórica sentiu imediatamente o drama oculto.
"Essa mulher evoluída e orgulhosa não pode ser feliz com aquele empertigado e fútil manequim, cujo olhar transpira traição e mentira.
Ela, naturalmente, deve ter travado uma pesada luta moral antes de desenvolver essa fria indiferença.
Gostaria de saber quem é, e ser apresentada a ela."
Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada da noiva, e toda a atenção de Ellen foi absorvida pela cerimónia sagrada, que assistia pela segunda vez.
Mas, desta vez, sua emoção foi bem diferente.
Ficou imaginando que dentro de alguns meses estaria diante do altar, abdicando da própria liberdade e ligando-se para sempre ao homem que ela, na verdade, amava e pelo qual era amada.
Como seria a sua vida real, quando desaparecessem as ilusões?
O olhar de Ellen, involuntariamente, passou a procurar a mulher que despertara seu interesse.
Ela também observava o rito matrimonial com uma expressão sonhadora e amarga.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:41 pm

Talvez estivesse recordando seu próprio casamento e tudo o que se seguiu depois:
sonhos arrasados, amor-próprio ferido e o pesado processo espiritual de retirar do homem amado tudo aquilo que o enfeitara sua fantasia de moça.
O coração de Ellen apertou-se, assustado.
Aquela mulher poderia ser o "memento mori"(2) de que o destino colocava em seu caminho, como um aviso, para que ela não se deixasse levar pelo encantamento.
Nos grandes olhos cor de aço daquela mulher reflectia-se a tristeza de uma alma insatisfeita.
Ellen também buscava um ideal na vida, a harmonia dos espíritos e a correspondência de gostos que poderiam trazer a felicidade.
Ela não pertencia àquele tipo de mulheres que se satisfaziam com o apelido de "casada" e se consolavam com os presentes enviados pelos amantes.
Quando a cerimónia terminou e todos foram cumprimentar os noivos, Ellen perdeu aquela dama de vista.
Ao embarcar na equipagem, imediatamente perguntou ao pai quem era a dama de vestido lilás com o marido oficial.
- Ah! Você a notou? - respondeu Artemiev com um sorriso.
É a Condessa Varatov, aquela esposa ideal de quem lhe falei certa vez.
É uma mulher notável, de natureza profundamente artística.
Pinta magnificamente e escreve poemas místicos, que li com entusiasmo, apesar de ser, na época, pecador e materialista.
Quero apresentar-lhe a ela.
A companhia dessa rara mulher será bem melhor para você que a de todas essas "damas", cujas vidas se resumem em roupas e intriguinhas amorosas.
- Meu Deus!
Não consigo compreender o que você vê naquela mulher! - exclamou Evgueny Pavlovitch fazendo uma careta.
A Condessa me parece bastante antipática, impassível e gélida, com aquele ar de imperatriz romana.
Tenho a impressão de que se o tecto da catedral desabasse aos pés dela nem assim se dignaria a levantar a cabeça para ver o que tinha acontecido.
Nem sei se existe algo nesse mundo que interesse aquela mulher além dos seus poemas.
Não digo que estes sejam ruins, mas fico irritado com essa mulher que sonha em pleno dia e parece desprezar todos, como se fossem insectos chafurdando aos seus pés.
Por isso, não me surpreende que Vsevolod Dmitrievitch lhe coloque chifres e ela parece nem notar.
Como teria tempo para interessar-se pelo marido, se está sempre ocupada recebendo musas e graças?
As palavras do noivo desagradaram Ellen.
Ele criticava a Condessa exactamente por aquilo que a colocava acima da multidão, a quem a própria Ellen desprezava.
- Você está sendo rígido demais, e me parece injusto com a Condessa - observou ela, enrubescendo.
Como considerar um defeito a mulher ser reservada e não lançar olhares a todos os homens que encontra?
Um espírito elevado não consegue misturar-se à massa, que não o entenderia e o odiaria por sua superioridade.
Talvez ela tenha se tornado indiferente por ter sofrido demais!
Aliás, não percebi nela nenhuma insensibilidade; conversava com o marido com um sorriso amigável, sem a menor frieza, e seus modos possuem uma graça inata.
Não se parece em nada com as damas vulgares, como a senhora Obzorov, que faz trejeitos diante de qualquer cavalheiro e parece comê-lo com os olhos.
Mas vocês, senhores, sempre são atraídos por damas desavergonhadas, mal-educadas e consideram as mulheres direitas um enfado.
- Ai, ai! O céu escurece e o ciúme provoca a discussão! - exclamou Artemiev, rindo.
Evgueny, você foi por demais atencioso com a senhora Obzorov.
Cuidado, meu rapaz!
Ellen não gostou disso.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:41 pm

- Mas eu somente a cumprimentei.
Não podia deixar de fazê-lo - defendia-se o Barão, também rindo.
Mas Ellen, irritada, contestou com ênfase:
- O que está dizendo, papai!
Por favor, Barão, não fique constrangido e saiba que desprezo o ciúme.
Mesmo me tomando a Baronesa Ravensburg, permanecerei em espírito na comunidade "Paraíso sem Adão", à qual pertencerão minhas obras e estudos.
Minha colaboração com nossa revista me ocupará o suficiente para me preservar dessas insignificantes fraquezas.
Uma ruga de insatisfação vincou a testa do Barão.
Em suas faces surgiu, um rubor escuro e no olhar dirigido a Ellen já não havia admiração.
Mas imediatamente dominou-se e respondeu com um sorriso:
- Tudo isso são sonhos de moça, que perderão qualquer interesse quando você se tornar uma mulher casada.
Visitas, recepções, teatros, bailes, trajes, tudo isso ocupa tanto a mulher da alta sociedade que não lhe sobra tempo para colaborar com revistas, sem falar nas obrigações de esposa e mãe, que devem estar em primeiro lugar.
Espero que você, minha querida, seja um exemplo de todas as virtudes familiares e não desista de sua verdadeira vocação para continuar a ser jornalista.
O tom era amável e brincalhão, mas algo em sua voz agiu sobre Ellen como uma agulhada e ela pensou:
"Ah! O esperto Adão só aguarda tornar-se o senhor para me proibir de escrever!
No fundo, detesta a minha independência e minhas críticas ao sexo masculino.
Mas aguarde!
Vou prescrever-lhe um remédio tal, que vai curá-lo dessa vaidade."
Pela primeira vez, surgiu uma frieza entre o noivo e a noiva.
Um dia depois, no baile em homenagem à "jovem" Princesa, Ellen encontrou novamente a Condessa e Artemiev apressou-se a apresentar-lhe a filha.
A senhora Varatov tratou Ellen amigavelmente e observou com um sorriso que assistira a suas palestras.
- Minha filha logo reparará o mal que causou ao nosso sexo, tornando-se Baronesa Ravensburg - disse Artemiev, rindo.
- A senhorita resolveu renegar tudo? - perguntou a senhora Varatov.
Pareceu a Ellen que nos olhos da Condessa faiscou uma expressão de pena, o que lhe causou uma estranha impressão.
A Condessa levou-a para um canto e fê-la sentar-se para conversar e se conhecerem.
Ellen perguntou:
- Condessa, percebi em seus olhos uma certa compaixão.
A senhora está com pena de mim por ter abandonado a causa para a qual fui educada e considera isso uma baixeza?
A Condessa olhou-a, séria e pensativa.
- Sim, tenho pena da senhorita!
Mas não porque está abandonando a causa que impede o seu caminho para um dos mais legítimos direitos do ser humano, a procura da felicidade e do amor.
Todos trazemos no coração a instintiva tendência para esses dois grandes elementos do Universo.
Se os achamos é uma outra questão, mas procurá-los é nosso direito.
Sinto pena da senhorita pela luta que trava sua alma; ela vai confundir sua vida, pois quem enxerga já não pode tornar-se cego.
Rompendo com o passado, a senhorita ficará como um sacerdote que tira o hábito e, misturando-se à multidão, ainda traz no fundo da alma a saudade do seu cargo, conhecimento e segredos da iniciação.
Estarrecida com a agudeza dessa observação, Ellen se calou por instantes.
Uma incontrolável simpatia a conduzia para essa pálida e tranquila mulher, que parecia ter vencido todas as tempestades quotidianas.


Última edição por Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:42 pm, editado 1 vez(es)
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 7:42 pm

Tomada por esse sentimento, disse, ruborizando:
- Eu ficaria extremamente feliz, condessa, se me permitisse um dia visitá-la para conversarmos à vontade.
Acredito que somente a senhora pode solucionar as dúvidas que me torturam, apesar de amar meu noivo.
Sua experiência pode me ajudar a suportar as decepções que pressinto.
A Condessa apertou-lhe a mão e respondeu com olhar bondoso e claro:
- Ficarei feliz se minha experiência lhe puder ser útil.
Portanto, sem qualquer cerimónia, venha visitar-me amanhã à tarde.
Poderemos conversar à vontade e espero que nos tornemos amigas.
Ellen agradeceu calorosamente a Condessa e ficaram absortas, cada uma nos próprios pensamentos.
Através da porta da sala de visitas, onde estavam sentadas, dava para ver o salão de baile.
Acabavam de dançar a valsa e os pares passeavam pelo salão, tagarelando alegremente.
De repente, o olhar distraído de Ellen notou Inna, de braço com um jovem marinheiro e conversando alto com ele.
Ela estava ainda mais pálida e magra do que na última visita de Ellen, há alguns dias.
Mas, naquele instante, suas faces ardiam e os olhos brilhavam com entusiasmo febril.
Seu riso e seus gestos reflectiam algo nervoso e ela tentava demonstrar que adorava a corte do acompanhante.
- Meu Deus!
Ela nem parece a mesma! - disse Ellen, estremecendo.
- A pobrezinha se sente feliz por não estar sozinha nem abandonada, enquanto o seu querido maridinho corteja descaradamente a senhora Muller que, por sua vez, demonstra que ele lhe agrada - observou a Condessa com um suspiro.
Aquele bonito marinheiro é primo de meu marido.
Ele não deixará de aproveitar a confusão espiritual de Inna, que a empurra para o primeiro homem que aparece à sua frente.
Antes de casar, entretanto, ela se destacava por seus rígidos princípios.
- Coitadinha!
Será que espera despertar o ciúme do marido com essa atitude?
A senhora Varatov pensou um pouco e disse:
- Parece que no presente momento Inna só pensa em sua necessidade de provar ao marido que é indiferente ao comportamento dele e que pode agradar a outros homens.
Acredite, nessa fase perigosa, nenhuma mulher consegue prever como reagirá e o que lhe ditará o amor-próprio ferido.
Frequentemente, basta um sorriso dúbio e zombeteiro, ou um mau conselho de alguma amiga para dar o passo fatídico.
Ellen nada respondeu.
Sua atenção concentrou-se em Evgueny Pavlovitch, que conversava com uma dama demasiadamente maquiada, de vestido extremamente decotado e aparência bem ousada e leviana.
Essa dama flertava com ele, cobrindo-o de sorrisos e olhares provocantes.
O Barão parecia gostar daquela tagarelice, a julgar por seu comportamento gentil e o riso que lhe provocavam as palavras de sua interlocutora.
Um forte rubor cobriu as faces de Ellen.
Cerrando os lábios, apertou o leque que trazia na mão a ponto de quase quebrar as finas varetas de marfim.
- Minha querida - disse a Condessa, com voz tranquila e harmoniosa -, eis o meu primeiro conselho:
nunca deixe seu marido notar que você tem ciúmes dele, especialmente por bobagens.
Agora, vamos indo!
Mas lá vem o seu noivo, e também o cavalheiro que me convidou para dançar a quadrilha.
Por todo o resto da noite Ellen não teve oportunidade de conversar com a condessa, mas a certeza de ter encontrado uma mulher capaz de entendê-la e lhe dar bons conselhos deixou-a mais tranquila.
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Ave sem Ninho

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