Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:55 pm

No dia seguinte, Ellen recebeu uma cartinha de Nelly.
Apesar do tom alegre da carta, percebia-se que a senhorita Sinclair estava com saudades, sentia-se sozinha sem a amiga e preocupada com o seu destino.
Ao cumprimentar Ellen e desejar felicidades Nelly pedia-lhe que informasse o dia e a hora do casamento, para orar por ela nessa significativa hora e pedir a Deus que a livrasse do retorno ao abrigo com as asas quebradas e coração partido.
Em seguida, Nelly contava as novidades da comunidade e enviava o relatório sobre os assuntos financeiros que Ellen deixara a seu encargo:
"Na sua casa deixei tudo do jeito que pediu; está pronta para o seu retorno a qualquer momento.
Os seis apartamentos do prédio, no jardim que você destinou às pobres trabalhadoras intelectuais, foram ocupados por viúvas com família numerosa.
Você não pode imaginar a alegria e o reconhecimento daquelas pobres para as quais a sua nobre causa garante um tecto, liberando-as da pior carga: o aluguel.
Encontrei o senhor Brown e discutimos as normas do abrigo para garotos órfãos, ao qual você prometeu sua ajuda.
Imagine! Descobri que sua mãe é parente da senhora Oliver, que permitiu a ele visitá-la ocasionalmente.
Realmente, é um homem sério e respeitável.
Nossa bondosa chefe diz que se existissem mais pessoas como ele, não haveria necessidade de abrigos como os nossos."
Depois, seguiam inúmeras lembranças das irmãs do abrigo e comentários da sociedade, especialmente dos ex-pretendentes à mão de Ellen, sobre sua mudança de atitude e o próximo casamento.
Junto com a carta vieram dois bilhetes.
No primeiro, a senhora Oliver pedia insistentemente a sua colaboração, pelo menos escrita, com a causa que por tanto tempo considerou como sua própria.
O outro bilhete era do senhor Brown, relatando a ideia básica do abrigo para órfãos, que desejava realizar com a ajuda da prioresa da comunidade.
Esse instituto deveria receber principalmente os filhos de mães que já se encontravam no abrigo e que só podiam mantê-los consigo até a idade de sete anos.
Esses jovens, educados pelos princípios da virtude, acostumados ao rígido sistema de vida e mantidos, pelo menos no início, por sua comunidade, poderiam, com o tempo, casar com moças do seu abrigo.
Assim, sem impedir a grande lei do amor, inerente a qualquer pessoa, surgiria a oportunidade de unir pessoas de idêntica opinião quanto à honra e ao dever, em vez de entregar moças direitas a homens imorais ou ligar um rapaz discreto a uma criatura devassa.
O senhor Brown pedia a Ellen que pensasse nesse projecto, apresentasse sua opinião sobre ele e dissesse quanto dinheiro poderia doar para essa boa causa.
Com essas informações, ele saberia por onde começar a execução do projecto.
Cerrando o cenho, Ellen encostou-se na mesa e pensou.
A carta reavivara nela tudo o que por tantos anos fora o principal objectivo de sua vida.
Sentiu-se, repentinamente, uma estranha naquele lugar, como uma planta sem raízes.
Seu espírito e interesses encontravam-se do outro lado do oceano, numa casa branca, entre crianças e órfãs abandonadas, onde crescera.
Sentiu, pela primeira vez, aquele conflito da alma ao qual se referiu a Condessa, e lágrimas amargas brilharam sobre seus longos cílios.
Como pôde esquecer de escrever ao senhor Brown e indicar a soma de dinheiro que prometera?
Sentia-se roubando os pobres que aguardavam sua ajuda.
Ellen abriu a gaveta com impaciência, preencheu um cheque e em seguida começou a redigir uma carta.
A caneta parecia voar pelo papel, tal era a necessidade que sentia de discutir questões e interesses que lhe eram tão caros, apesar do abismo que parecia separá-la do passado desde a catástrofe que mudara seu destino.
Estava completamente absorta, quando a camareira interrompeu, dizendo que a costureira a aguardava.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:56 pm

Ellen largou a caneta, contrariada, irritada com essa interrupção, mas como fora convidada para diversas festas promovidas por Lídia Andreevna e amigos de seu pai em homenagem ao noivado, era necessário preparar os vestidos para essas ocasiões.
Deixando as cartas sobre a mesa, foi ver a costureira.
Alguns minutos depois, Artemiev e o Barão entraram em seu gabinete.
Aguardando sua volta, sentaram-se no divã e continuaram a conversar.
De repente, Vladimir Aleksandrovitch notou a carta sobre a mesa e, ao ler o cabeçalho:
"Prezado senhor Brown", soltou uma gargalhada.
- Ela está escrevendo àquele idiota do casto.
Parabéns, Evgueny!
Se sua esposa mantiver correspondência somente com adeptos da castidade masculina, você não terá motivo algum para ciúmes.
- Mas o que ela estaria escrevendo para aquele imbecil? - perguntou Ravensbrug, curioso e desconfiado.
Artemiev correu os olhos pela carta, examinou o cheque e disse ironicamente:
- Trata-se da abertura de um orfanato para garotos.
Ellen está doando vinte mil dólares, com a intenção de presentear o mundo com um semeador de homens virgens.
O Barão ficou carrancudo.
Após brincar por alguns momentos com a ponta do bigode, respondeu com insatisfação disfarçada:
- Ouça, Vladimir.
Acho que é seu dever pôr um fim a essas bobagens de sua filha.
Ela vai acabar gastando toda a sua fortuna em filantropias tolas, esquecendo-se completamente dos próprios filhos que poderá ter.
Eu esperava que ela rompesse de vez com aquela sociedade de loucos; mas, pelo jeito, as damas do "Paraíso sem Adão" são bem espertas, especialmente aquela comprida e nojenta, a senhorita Sinclair.
Elas vão aproveitar a amizade para explorar Ellen.
Eu não posso dar um pio sobre isso, pois ela interpretaria minhas palavras como opressão, ou pior, como má intenção.
Mas, você como pai, deveria fazê-la entender que poderia empregar melhor sua fortuna.
Será preciso, mais cedo ou mais tarde, pôr fim a essa correspondência nociva, que somente irá despertar as lembranças sobre a "fama" passada.
- O que você pretende jogar sobre as minhas costas é um assunto muito delicado - respondeu Artemiev, após pensar um pouco.
Durante muito tempo, Ellen se acostumou a ser independente, com total liberdade de acção.
Agora, é extremamente indelicado me intrometer em seus negócios.
Até o presente momento, entre nós jamais foi levantada a questão dos bens dela, cujo valor ignoro.
Ela recebeu a herança de Crawford, que era arquimilionário.
O velho tinha fábricas de tecidos, minas de carvão e sete casas em Nova Iorque, das quais a menor valia, no mínimo, uns quinhentos mil dólares; a casa onde ele morava era um verdadeiro palácio.
Acredito que, para melhor ocultar de mim os vestígios de Vitória e da filha, vendeu todos os imóveis e mudou para Boston; mas não sei o que Crawford fez com sua fortuna.
A julgar por essas insanas doações filantrópicas ao "Paraíso sem Adão", Ellen deve dispor de haveres consideráveis, pois acho-a prática demais para esbanjar seu capital.
- O que sabe das ideias filantrópicas dela?
- Entre outras coisas, na sua propriedade ela abrigou gratuitamente sessenta famílias pobres; também faz doações à revista da comunidade; além disso, tendo reservado para si um apartamento na cidade, doou também ao abrigo o apartamento que foi de minha esposa.
Resumindo, essas brincadeiras custam uma fortuna!
Mas como impedi-las?
Minha autoridade paterna é ainda muito recente para que eu possa ter pretensões aos bens da senhorita Rutherford e aconselho você também a ser bem cuidadoso quanto a esse aspecto.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:56 pm

Provavelmente o nosso maior aliado será o amor materno.
Mesmo assim, sua insatisfação é justa; assim que surgir a oportunidade, conversarei com Ellen e tentarei desvendar essa questão monetária.
Evgueny Pavlovitch nada respondeu.
A independência financeira da futura esposa enfurecia-o.
Será que ela pensava que ia continuar desperdiçando rios de dinheiro sem consultá-lo, como se isso não fosse da conta dele?
Ela era capaz até de, em caso de morte, deixar os milhões para aquele absurdo "paraíso" em vez de empregá-los para realçar o brilho de sua coroa de baronato...
Um pouco mais tarde entrou Ellen e logo notou que o Barão estava descontente com algo.
Olhando para a mesa, percebeu que seus papéis foram mexidos e isso lhe provocou um sorriso sardónico.
Ela nada demonstrou e passou a conversar alegremente com o pai e o noivo.
Quando Ravensburg despediu-se amuado, alegando um assunto qualquer, isso reforçou a suspeita de Ellen de que o noivo não aprovara o envio de dinheiro ao senhor Brown, e achou divertido.
A tardinha, Ellen foi à casa da senhora Varatov.
Já era esperada e o mordomo conduziu-a ao "boudoir" da condessa, que estava só e lia junto à escrivaninha.
O caderno aberto e a caneta sobre ele indicavam que andara escrevendo.
Ellen lançou um olhar rápido e curioso ao amplo quarto, que era o retiro espiritual daquela mulher excepcional.
Uma grande lâmpada de bronze, suspensa no tecto, e duas outras, em altos suportes, no estilo romano, cobertas por abajures de seda, espalhavam uma luz suave.
Sobre a escura forração da parede estavam pendurados alguns quadros de mestres famosos.
Dois grandes armários de madeira trabalhada estavam abarrotados de livros, brochuras e revistas dos mais diversos tamanhos.
Sobre as estantes havia antiguidades: vasos gregos e etruscos, estatuetas egípcias, ídolos indianos e outros objectos pertencentes a diversos povos de todas as épocas históricas.
Apesar disso, toda essa colecção não parecia colorida em excesso e o aposento, com o tapete macio, os pesados cortinados e o luxo sóbrio, respirava harmonia e paz.
Quando a visitante entrou, a Condessa levantou-se, abraçou-a e disse com um sorriso:
- Desculpe-me por recebê-la sem cerimónia no meu recanto favorito!
Este é meu gabinete de trabalho e, ao mesmo tempo, "boudoir" e biblioteca.
Em suma, o meu mundo, onde trabalho e vivo, esquecendo o que não me agrada.
- Um abrigo de causar inveja!
Como gostaria de ter um igual, pois também adoro antiguidades e tudo o que se refere a elas.
Você trabalha muito, condessa? - indagou Ellen, dando uma olhada no caderno aberto.
- Sim - respondeu a senhora Varatov com simplicidade.
É preciso ocupar-me com alguma coisa e tenho muito tempo livre, pois não gosto de reuniões sociais.
Na medida do possível, tento evitar a multidão que não me entende e com a qual não compartilho gostos nem opiniões.
Para mim, é suficiente o mundo que me cerca aqui. - acrescentou, fazendo Ellen sentar-se no divã.
Você agirá muito bem se fizer algo semelhante; por suas palestras, percebi que está acostumada ao trabalho mental.
Conhecendo parcialmente detalhes de sua trágica infância, compreendi porque trabalha com tanto fervor pela libertação das mulheres.
É uma boa e sagrada causa, apesar de não livrá-la da provação.
- Você diz provação?
Talvez meu futuro não seja uma provação, mas uma felicidade completa, sem nuvens - observou Ellen, jocosamente.
Os grandes olhos luminosos da senhora Varatov olharam para Ellen com compaixão, que ela já notara várias vezes.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:56 pm

- Você ironiza o próprio destino antes da hora, isso é mau sinal!
Deve-se olhar as coisas de um ponto de vista real.
Qualquer obrigação na vida serve de provação, mais ou menos pesada; o dever de esposa é um dos mais complexos e difíceis de ser cumprido com dignidade.
Na minha opinião, o casamento é uma escola de disciplina moral, onde se devem praticar o amor, a condescendência, o perdão das ofensas, a paciência e a compaixão.
- Nesse caso, é preciso deixar de ser uma pessoa e adquirir asas de querubim! - exclamou Ellen.
- Oh, não! - respondeu a Condessa sorrindo.
Basta possuir uma única virtude, que contém todas as outras, ou seja, o amor, que é misericordioso, paciente, invencível e imortal.
Esse amor, naturalmente não é aquele grosseiro e sensual, mas pura emanação do espírito, um sentimento sem cobiça, que não pode ser apagado pela carne.
Foi por isso que Deus, conhecendo a imperfeição de suas criaturas, introduziu a grande lei do amor na base do Universo.
- Essa lei até pode ser magnífica, mas para aplicá-la, especialmente no casamento, é preciso modificar o carácter e a alma na própria raiz.
- Não nego isso!
O casamento é uma edificação que se constrói a dois.
Nada se pode fazer quando um dos parceiros é trabalhador e o outro é preguiçoso e relaxado.
Apesar de tudo, a construção avança e, algum dia, estará diante do Senhor, demonstrando o esforço dos construtores.
Naquele instante, ouviram-se vozes infantis e no quarto irromperam, de mãos dadas, um encantador garoto de uns quatro anos e uma menina de dois, acompanhados pela governanta.
As crianças despediram-se da mãe para ir dormir e, após deixarem Ellen beijá-los, saíram do quarto.
- Que crianças lindas!
Quanta felicidade elas devem lhe proporcionar! - exclamou Ellen, assim que elas saíram.
- Sim, são a minha felicidade, minha estrela-guia e suporte no espinhoso caminho da vida - respondeu a senhora Varatov, emocionada.
Sem elas, nem vale a pena viver.
Desde o momento em que aqueles olhinhos inocentes viram o mundo, nunca mais me senti inútil e passei a interessar-me novamente pela vida.
Elas são a minha âncora de salvação por entre os destroços de inúmeras ilusões.
O rosto de Ellen obscureceu-se.
- Se entendi direito, Condessa - disse ela, indecisa -, ao casar-se é preciso desistir da própria privacidade e procurar as alegrias e esperanças exclusivamente na maternidade.
Mas nem todos são capazes de tal resignação.
Eu odiaria o destruidor de meus sonhos e me vingaria dele.
A Condessa balançou a cabeça.
- Estaria agindo de modo pouco prático:
o ódio e a vingança não lhe devolveriam a paz perdida.
O ódio somente aguça o amor e aumenta o sofrimento; a vingança irá induzi-la à humilhação e provocará o desprezo de quem você quer castigar.
Se não se pode apagar a paixão, o único remédio é transformá-la em amizade.
- Não, sinto que eu não seria capaz de tal troca.
Amo Evgueny Pavlovitch, e desejo que ele me ame da mesma maneira; por isso, não suportarei traições nem humilhações da parte dele! - contestou Ellen, e seu olhar brilhou desafiadoramente.
Em seguida, agarrando a mão da condessa, prosseguiu com entusiasmo:
- Não considere minha pergunta indiscreta:
você teve forças para perdoar e aplicar esse amor desinteressado do qual falou?
Leio em seus lindos e tristes olhos que passou por inúmeras decepções.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:56 pm

- É verdade!
Muitos dos meus sonhos dissiparam-se - respondeu a senhora Varatov, com franqueza.
Só que não posso culpar ninguém nem tenho de quem me vingar.
Ninguém tem culpa por eu ter alimentado sonhos e ilusões irrealizáveis na vida real.
O homem que escolhi jamais me enganou:
ele sempre foi o que é hoje, mas eu o enxergava à minha maneira e o enfeitava com todos os atributos do meu ideal.
De longe, Vsevolod me parecia totalmente diferente do que se revelou de perto, semelhante à seda pura e à seda misturada ao papel ou lã:
idênticas no brilho e maciez, a diferença sente-se somente no tacto.
Da mesma forma, as fraquezas do meu marido aparecem apenas na vida doméstica, jamais nos salões.
Mesmo assim, não considero a minha felicidade definitivamente perdida; pelo contrário, ele está em minhas mãos e espero conseguir um dia transformar o tecido de papel em seda pura e dourada - concluiu alegremente a condessa.
Ellen estava por demais emocionada naquele instante para rir, e respondeu com um sorriso amargo:
- Reconheço a justiça de suas conclusões, condessa; mas perdi toda a confiança em mim mesma e me considero incapaz de tal auto-domínio.
Julgue por si mesma o quanto a minha queda foi triste.
Eu estava armada da cabeça aos pés para proteger os outros e a minha própria causa.
De repente, me entreguei praticamente sem lutar.
Após prevenir contra os perigos do casamento, estou me atirando nele de cabeça.
Após louvar a liberdade, escolho a escravidão.
Realmente sinto desprezo por mim mesma!
Sou uma renegada e mereço que sobre mim recaiam todas as desgraças que descrevia para os outros!
- Pare com isso!
Não se exalte!
Sem dúvida, é mais fácil pregar o "Paraíso sem Adão" do que reinar no "paraíso com Adão".
Você pode conseguir tudo com sensatez e boa vontade.
Na vida a dois é sempre possível adaptar-se e ceder, excepto em casos extremamente raros.
Primeiro, antes do casamento, tire o Barão do pedestal em que o colocou e deixe-o ao nível das pessoas comuns, boas, mas sujeitas às fraquezas próprias dos homens.
Você descreveu isso tão bem em suas palestras que não lhe seria difícil colocar em prática essa teoria.
Em seguida, evite a Lei de Talião(3): "Olho por olho, dente por dente!"
Não seja vingativa em relação às fraquezas do marido e tente não notá-las, ou, quando muito, caçoe delas.
Ele lhe agradecerá por essa delicadeza.
Os homens detestam que lhes digam na cara de que nada valem, e escândalos frequentes acabam perdendo qualquer efeito, pois parecem uma meia-tempestade que, em vez de purificar o ar, somente torna pesada a atmosfera.
Portanto, jamais queira saber das safadezas dele, como se não existissem, e ganhará uma silenciosa gratidão.
- Mas como?
Fingir que não sei das safadezas e traições do marido? - indignou-se Ellen, vermelha como um pimentão.
Mas ele pode pensar que sou uma idiota, loucamente apaixonada!
- Deixe que pense isso, em vez de algo pior.
Ainda teremos tempo de conversar após o casamento.
Então, me entenderá melhor.
Agora, vamos tomar chá!
Acalme-se! Você está muito nervosa.
Mais tarde vou lhe mostrar alguns livros que acabei de receber e acredito que lhe interessarão.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:56 pm

Ellen retornou à casa extremamente nervosa e preocupada.
Não conseguiu dormir por muito tempo, repensando tudo o que ouvira da condessa.
O amor, que dominava sua alma apaixonada, por tanto tempo reprimida, era por demais ardente e egoísta para admitir tais concessões.
Ellen chegou à conclusão de que a senhora Varatov não possuía nervos e que seu orgulho estava completamente atrofiado.
Se o Barão ousasse traí-la, ela o faria pagar caro por isso.
Quanto às amantes dele, naquele momento sequer conseguia imaginar o que faria com elas.
Passaram-se duas semanas sem nada de especial.
Entre os noivos reinava plena paz e eles faziam muitas visitas.
O Barão ensinava à futura esposa o idioma russo e frequentemente a divertida pronúncia dela provocava risos em Artemiev, Ravensburg e até na própria Ellen.
Certa vez, numa rara ocasião, pai e filha ficaram a sós.
Artemiev fumava após o café e Ellen folheava uma nova revista de moda, quando Vladimir Aleksandrovitch disse repentinamente:
- Ellen, se você não está muito ocupada com moda, gostaria de lhe falar sobre um assunto que julgo importante.
Ellen, imediatamente, deixou a revista de lado e, sentando-se no divã, disse alegremente:
- Diga, papai!
Sou toda ouvidos.
Artemiev passou carinhosamente a mão pelos cabelos da filha e disse, com um sorriso:
- O que vou dizer pode não lhe agradar, minha livre-pensadora.
Entretanto, meu amor me obriga a fazer-lhe algumas observações.
Outro dia, vi por acaso sobre a mesa sua carta ao senhor Brown.
Referia-se à doação que você fez para alguma actividade filantrópica fundada por esse senhor.
A quantia era bastante significativa.
Embora não saiba o tamanho de suas posses e sempre tente evitar assuntos monetários, acho que está agindo um pouco levianamente, ao dispor de seu dinheiro desse modo.
Você vai se casar, pode ter filhos, até muitos, pois seu noivo e você são jovens.
Em tal situação, sua principal obrigação seria garantir financeiramente a própria família, certo?
Evgueny é rico, mas o tipo de vida que vocês terão de viver não lhe permitirá fazer grande economia.
Julgo que os cônjuges devem tratar um ao outro com plena confiança e decidir juntos todos os negócios.
Por isso, acho que deveria aconselhar-se com Evgueny antes de fazer tais doações.
Você é muito jovem, minha querida, e sua educação teve um carácter muito especial.
Seus ideais lhe são muito caros e ainda a atraem, mas o casamento muda tudo isso.
Como mãe de família, mais tarde poderá arrepender-se amargamente por ter feito doações excessivas em seus caprichos de moça solteira.
Ellen ouvia em silêncio, sem interromper o pai.
Quando ele se calou, ficou sentada, pensativa por alguns instantes.
- Caro papai, o que me disse até seria justo em outras circunstâncias - disse ela, calma mas decidida.
No meu caso, sou quase independente desde os doze anos de idade.
Mamãe, antes de morrer, contou-me a situação em que se encontravam minhas posses e as ordens tanto dela quanto as do tio Tomas.
Desde a sua morte todos os dividendos eram guardados, excepto a parte que a mamãe designou para o abrigo, como pagamento pela minha manutenção.
Aos dezoito anos eu já dispunha de todos os dividendos e, ao completar vinte e um anos, entrei na posse de todo o capital.
Fiquei tão rica que poderia satisfazer amplamente todos os meus "caprichos de moça", como você chamou a ideologia na qual e pela qual fui educada.
Eu tinha decidido jamais me casar, mas o destino obriga-me a desistir da liberdade.
Isso não é motivo para que desista também de meus bens.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:57 pm

Confesso que jamais admitirei qualquer intromissão em meus negócios mesmo por parte do marido.
A lei russa me protege nesse caso e providenciarei tudo para cumprir todas as formalidades.
Sabendo que sou rica, meu marido tem o direito de exigir de mim uma participação com um valor igual ao que ele designar para o nosso lar comum.
Concordo em dar até o dobro e depositar para cada filho que nascer um capital que garanta inteiramente o futuro deles.
Além disso, estou pronta a liberar o pai de quaisquer despesas quanto à educação dos filhos.
Por isso quero permanecer a única dona do capital pertencente à senhorita Rutherford-Ardi.
Esse dinheiro está na América e lá permanecerá, onde tenho o meu banqueiro, meu tabelião, óptimos investimentos e... querido papai, sei fazer contas muito bem.
Portanto, Evgueny Pavlovitch não precisa temer pela minha inexperiência.
Considero completamente desnecessário informar a ele o valor exacto de minhas posses; nem a você direi, pois sei que levantou este assunto por insistência do Barão.
Há alguns dias ele viu minha carta ao senhor Brown e notei perfeitamente como ficou furioso, pensando que eu estava esbanjando enorme fortuna.
Ele, naturalmente, acharia muito sensato se minhas posses entrassem como dote, para o brilho do nome Ravensburg.
Ele não gosta de que eu tenha liberdade de dispor das minhas posses a meu bel-prazer.
Como jamais cederei nessa questão, peço-lhe, papai, que informe ao Barão que ainda somos livres e, se ele acha que minhas ideias não correspondem às dele, ainda podemos romper o noivado.
A medida que falava, Ellen entusiasmava-se cada vez mais.
Sua voz e gestos tornaram-se ríspidos e nos grandes olhos azuis luziam o orgulho e a sombria desconfiança.
- Não se envergonha dessas palavras, Ellen?
E ainda afirma que ama Evgueny - exclamou Artemiev com desaprovação.
Por causa de uma suspeita injustificada e ofensiva, você está pronta a fazer um escândalo e separar-se.
Ravensburg jamais contou com as minhas nem com as suas posses.
Entretanto, se ele quisesse a sua confiança pelo menos no mesmo nível de pessoas como, por exemplo, a senhorita Sinclair, qualquer um acharia justo e reconheceria que ele está com a razão.
Cuidado, Ellen!
Sua avidez americana por dólares pode servir para Boston, mas nada vale em sua situação actual.
Você vai casar e não realizar uma transacção comercial; sua fortuna pode não ter qualquer importância para seu marido.
Devo acrescentar - e um forte rubor cobriu as faces de Artemiev - que foi exactamente essa grosseira arrogância ianque o principal motivo de nossa mútua desgraça.
Se Crawford tivesse aprovado o meu casamento com Vitória, evitaria todas as condições adversas que me empurraram para o caminho do pecado.
Mas, não!
O nababo, orgulhoso de seus sacos de ouro, ofendido em sua tirania, preferiu afastar e abandonar sua única parenta em vez de ceder e estender a mão à pessoa que, para a infelicidade dela, não lhe agradara.
Mais tarde, ao ver sua mãe sofrendo, ele preferiu deixá-la morrer a me aceitar e não procurou a reconciliação.
Crawford me julgou e me condenou sem qualquer concessão.
Será que ele não tinha fraquezas?
Teve uma juventude bem agitada, seu romance escandaloso com uma certa bailarina, com quem se casaria se ela não falecesse de repente, repercutiu em toda Nova Iorque.
Então, seja sensata, minha criança, e não arrisque a própria felicidade por sua teimosia e orgulho improcedentes.
Evgueny é um nobre; é orgulhoso e guarda ciosamente seus bens.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:57 pm

Não deve pressioná-lo com o bolso cheio de dólares.
- Não tenho qualquer pretensão de pressioná-lo com meus dólares - respondeu Ellen, cerrando o sobrolho.
Quero somente gastá-los à minha vontade e o farei sem a permissão dele.
Jamais conversamos sobre meus bens pessoais, pois ele afirma que se casará comigo por amor.
Portanto, espero que no futuro ele seja suficientemente delicado para não se intrometer nos assuntos financeiros que não lhe dizem respeito.
Artemiev nada respondeu, deu de ombros e pegou uma revista, percebendo que, naquele momento, nada conseguiria.
A noite, conversando com o Barão, Vladimir Aleksandrovitch transmitiu-lhe o que falou com a filha, omitindo, naturalmente, certos detalhes.
Lembrou-lhe ironicamente que Ellen pretendia assumir a metade das despesas da casa, mas que insistia em manter em segredo o montante de seus bens.
Evgueny Pavlovitch não fez qualquer observação, somente sorriu com desdém.
Mas no fundo estava furioso e pensava:
"Aguarde-me! Assim que possível, vou dar um jeito em você e sufocarei seu orgulho."
Esse assunto criou uma surda desavença entre os noivos.
De parceiros transformaram-se em oponentes; cada um pensava somente em defender os próprios direitos.
Como ambos não escondiam sentimentos, a inimizade acabava escapando, às vezes por motivos fúteis, prenunciando um futuro nada agradável.
Em tais momentos, Ellen pensava com tristeza que para ela, casar era uma loucura.
Mesmo assim, uma força muito mais poderosa que a vontade e o bom senso incitava-a a se casar com o Barão, e ela estremecia só de pensar em recusá-lo.
Uma paixão, misto de ciúme e egoísmo, dominava o coração ávido de Ellen, herdado do pai.
Por isso, o homem que amava deveria pertencer-lhe de corpo e alma e não o cederia a mais ninguém.
Por outro lado, não queria sacrificar por ele um mínimo dos próprios caprichos.
Os sentimentos de Evgueny Pavlovitch também eram complexos.
Estava loucamente apaixonado por sua encantadora noiva e não desistiria dela por nada no mundo.
Mas seu amor-próprio fora ferido pela supremacia financeira de Ellen, além da raiva disfarçada de tudo o que ela pregava contra o casamento e os homens.
Inteligente, o Barão percebia que uma mulher tão orgulhosa e independente não iria se submeter facilmente à obediência conjugal que ele pretendia lhe impor.
Mas esse desafio o atraía ainda mais e ele saboreava, antecipadamente, toda a complexidade da rígida educação que pretendia impor à indómita "amazona".
Primeiramente, proibiria qualquer colaboração dela na imbecil revista da comunidade, onde poderia publicar qualquer bobagem que houvesse entre eles e envergonhá-lo.
Desse modo, as partes encontravam-se em pé de guerra; a cada ocasião oportuna ou não, ironizavam um ao outro.
Assim, quando foram alugar uma residência, Ellen achou-a um pouco discreta; mas o Barão observou amigavelmente que sua condição financeira não lhe permitia uma casa maior e que não pretendia alugar um palácio às custas da esposa.
Ellen mordeu os lábios, não insistiu, mas fez para si um majestoso dote e gastava quantias insanas em obras de arte e jóias.
Além disso, mandou vir da América uma camareira, que Evgueny Pavlovitch detestou.
Ao ver a enorme quantidade de objectos caros, perguntou ironicamente a Ellen se estava pensando em alugar e mobiliar mais um imóvel.

(1 - Catarina de Médicis - Rainha da França. Casou-se em 1533 com o futuro Henrique II e teve grande influência nos governos de seus filhos Francisco II, Carlos IX e Henrique III.
Foi a instigadora da matança dos calvinistas na noite de São Bartolomeu
).
(2 - "Memento mori" - Expressão latina que significa "lembre-se de que vai morrer".
No texto, Rochester a utiliza figurativamente como um "sinal de alerta" para o futuro infeliz que aguardava Ellen após o casamento
).
(3 - Lei de Talião - Castigo igual à culpa.
Pela chamada Lei de Talião, o castigo deve ser idêntico ao dano causado.
Essa concepção de direito penal foi adoptada pelas legislações primitivas
).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:57 pm

Capítulo 14

Aproximava-se o dia do casamento e a divergência entre os noivos, em vez de amainar, tornava-se cada vez mais profunda e aguda.
À medida que transcorriam seus últimos dias de liberdade, a tristeza de Ellen e seu medo diante do futuro aumentavam cada vez mais.
Parecia-lhe, às vezes, que não teria forças para desistir de sua ilimitada liberdade e submeter-se, mesmo parcialmente, ao "amo" que ela própria escolhera.
Em sua imaginação excitada, a pessoa amada era um obstáculo em seu caminho, transformando-se quase num inimigo.
Os últimos três dias ela se trancou no quarto, alegando sentir-se mal.
Estava tão abalada que não conseguia olhar o Barão.
Até mesmo o pai, quando quis conversar com ela sobre alguns detalhes da cerimónia, ela afastou, dizendo num tom suplicante:
- Poupe-me, papai, deixe-me em paz!
A ideia de renegar tudo em que acreditava e a fraqueza que me incita a tornar-me escrava moral de alguém deixam-me num estado de espírito tão horrível que nem consigo expressá-lo.
- Como pode haver escravidão entre duas pessoas que se amam, Ellen?
Você está seguindo um mau caminho.
Ama Evgueny mas, mesmo assim, cria um inferno espiritual como se a levassem à força para o altar - observou Artemiev, quase com severidade.
Em seguida, acrescentou com amargura:
- Nesse momento, sua atitude me condena mais uma vez.
Arrependo-me amargamente de ter sido o motivo de sua educação artificial e seu afastamento do meio onde deveria crescer; vejo com dor no coração que o "Paraíso sem Adão" tornou-a infeliz para toda a vida.
Agarrando a mão do pai, Ellen apertou-a aos lábios, mas nada respondeu.
Quando ele saiu do quarto, ela caiu em prantos.
Finalmente, chegou o "dia fatal", como o chamava secretamente Ellen.
Muito antes da hora marcada, ela começou a se vestir.
Como não quis ter madrinhas, duas camareiras ajudaram-na a colocar o vestido de cetim branco, prenderam o véu de noiva com a coroa de flores e se retiraram.
Ficando só, Ellen olhou no espelho para o próprio rosto, mortalmente pálido, no qual somente os olhos pareciam vivos.
O coração batia forte e as mãos tremiam de nervoso.
Sentia vergonha e raiva.
Vejam só, a orgulhosa pregadora do "Paraíso sem Adão" enfeitada de flores, pronta para subir ao altar!
Será que os ex-ouvintes de suas palestras e todo o público que se reunirá na igreja não irá gritar a frase que São Remígio gritou a Clóvis(1):
"Queime aquilo que adorava e adore aquilo que queimava!"
Ellen virou as costas e, com um sorriso de desprezo, caiu na poltrona.
Naquele instante, sentia somente o fel da total queda moral.
Um sentimento rude e mau enchia sua alma e ela se perguntava com tristeza se realmente amava o homem com quem iria se casar.
Nesse caso, ainda havia tempo para desistir.
Mas essa questão bastou para alterar completamente o fluxo de seus pensamentos e despertar nela um agudo ciúme.
"Desistir?
Devolver a liberdade a Evgueny para outra mulher ocupar meu lugar e ele jurar amor e fidelidade a ela?
Nunca!", pensava.
Ellen levantou-se decidida, ajeitou o véu e saiu para a sala de visitas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:57 pm

Naquele instante, a equipagem estacionou junto ao saguão.
Provavelmente tinham chegado seus padrinhos.
O tempo que antecedeu a cerimónia de casamento também não foi dos melhores para o Barão.
Ele percebera perfeitamente o estado de espírito da noiva e estava ofendido com isso.
Estragado pelo assédio das mulheres, Evgueny Pavlovitch considerava uma ofensa pessoal o estranho desespero de sua prometida, pois, na sua opinião, para pertencer a ele podia-se deixar o "Paraíso sem Adão" de bom grado.
Essa mulher a quem ele sacrificava a própria liberdade, amava-o menos que as outras, que ele abandonava por causa dela.
Ele, com a meticulosidade alemã, rompera todas as suas actividades de solteiro, separara-se de todas as amantes e, uma delas, uma bonita polonesa, lhe aprontou uma cena trágica na despedida.
A resistência silenciosa de Ellen, o oposto do ardor das outras, enfurecia o Barão.
Havia momentos em que a irritação despertava dúvidas em sua mente:
era sensato continuar com um casamento que prometia tão pouca felicidade e tantas complicações?
Nas veias de Evgueny Pavlovitch corria o sangue teutónico; ou seja, estava impregnado de ideias sobre a supremacia masculina e decidira reeducar Ellen, obrigando-a a obedecê-lo, por mais escândalos que isso pudesse causar.
No fundo, odiava "cenas".
Se sua noiva fosse menos bela, ele naturalmente já a teria deixado.
Mas a beleza de Ellen, sua mente refinada e extremamente desenvolvida, encantavam-no e o prendiam a ela.
Desejando afastar esses tristes pensamentos, Evgueny Pavlovitch decidiu despedir-se da vida de solteiro com uma festa.
A despedida foi tão animada que os futuros padrinhos do Barão levaram-no para casa em estado próximo ao coma.
Em consequência da noite agitada, levantou muito tarde e, quando tomou o desjejum, já era hora de se vestir para o casamento.
Evgueny Pavlovitch aprontou-se em silêncio.
Também sentia uma certa apreensão.
A nova vida à sua frente, a responsabilidade que assumia, o futuro incerto, tudo isso pesava sobre sua alma que, na realidade, era bondosa e nobre, mas depravada pelos maus exemplos à sua volta, por causa do sucesso com as damas.
Com um suspiro, aproximou-se do grande retrato de Ellen sobre a mesa, que ainda não fora levado para a nova residência.
O Barão ficou olhando por muito tempo para o rosto fino e encantador daquela que, dentro de algumas horas, iria se tornar a companheira de sua vida, e seu coração amainou-se.
Conseguiria ele tratá-la com rigor?
Seria justo condená-la por ser totalmente diferente das moças da alta sociedade?
Ela crescera em condições anormais.
Será que a solidão e a riqueza faziam-na cometer essas bobagens e caprichos absurdos?
O culpado era Artemiev, por ter abandonado a filha.
A culpa do pai reflectia-se na pobre Ellen, que viveu e cresceu como planta selvagem.
Agora, recaíam sobre o Barão a sina e a obrigação de endireitar com amor e paciência essa flor de caule torto, para colocá-la em condições normais de vida.
No "boudoir" contíguo ao salão de recepções, Ellen encontrou o pai.
Quando este, assustado com sua palidez, abraçou-a, ela encostou a cabecinha em seu peito e sussurrou baixinho:
- Oh, papai! Por que fui ficar aqui?
Estou indo cegamente para a minha destruição, pois não fui educada para ser esposa de ninguém!
- Não fica bem falar assim numa hora tão solene, minha querida!
Cumpra somente seu dever, procure a felicidade não na satisfação do próprio orgulho, mas no amor, e os problemas lhe parecerão fáceis - respondeu Artemiev, beijando-a carinhosamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:58 pm

Mas suas palavras não provocaram em Ellen o efeito desejado.
"Ele também fala de amor.
Entretanto, que significado tem essa palavra para ele, que abandonou a mim e a minha mãe?", esse pensamento passou como um raio em sua mente dolorida.
Mas nada respondeu, pois naquele instante, chegaram os padrinhos e era a hora de ir à igreja.
A cerimónia agiu ainda mais negativamente sobre os nervos já abalados de Ellen, que embarcou na equipagem como um autómato e, quando chegou à igreja, seu nervosismo atingiu o clímax.
O murmúrio da multidão elegante, a forte iluminação, o canto enlevado e o ambiente solene e místico, tudo isso a perturbava.
Parecia-lhe estar com os olhos cobertos por uma névoa.
Como num sonho, apareceu diante do altar ao lado do noivo, mas sequer levantou os olhos para ele.
Foi tomada por um sentimento de completa indiferença e langor, a ponto de nem se dar conta do ritual sagrado.
Evgueny Pavlovitch ficou surpreso com a palidez mortal da noiva.
Olhou compadecido para os olhos abaixados de Ellen, entendendo que ela rompia com o próprio passado, princípios e opiniões; em suma, com todo o seu mundo interior.
Não era uma moça inocente e simplória que estava lá, pronunciando o juramento de amor, mas a orgulhosa pregadora da famosa ideologia que renegava publicamente os próprios conceitos ao pronunciar o "sim", que lhe escapou dos lábios como um sopro vacilante.
Quando o padre uniu as mãos dos nubentes, o Barão apertou os dedinhos gelados com sua mão quente e olhou com ar encorajador para Ellen, cujos olhos permaneciam vazios.
Finalmente a cerimónia encerrou-se.
Após receber as primeiras congratulações, Ellen sentou-se na equipagem ao lado do marido.
Tudo estava irremediavelmente acabado e ela se tornara a Baronesa de Ravensburg.
- O que você tem, Ellen? - perguntou Evgueny Pavlovitch, inclinando-se para ela.
Está com uma aparência tão abatida, como se tivesse sido forçada a se casar.
Anime-se, minha querida!
Esqueça o seu absurdo "paraíso" e acredite que desejo sinceramente fazer a sua "escravidão" menos rigorosa do que imagina.
Pela primeira vez, Ellen levantou os olhos para ele, mas, ao encontrar um olhar que luzia com amor e alegria, ficou embaraçada de vez.
Reconhecia que seu comportamento era ofensivo ao marido e que precisava dizer algo conciliador, algumas palavras de desculpa.
Seus pensamentos, entretanto, misturavam-se e ela não conseguia encontrar as expressões adequadas.
Por fim, balbuciou com esforço:
- Tentarei esquecer...
Mas é difícil romper com um passado como o meu.
Perdoe-me Barão; não se zangue!
- Por que esse tratamento formal?
Será que também devo tratá-la por Baronesa? - disse Evgueny Pavlovitch, rindo.
- Oh, me perdoe!
Esqueci - respondeu Ellen, corando.
- Mas como?
Esqueceu-se que para você já não sou mais o Barão?
Ah, ah, ah! Isso até parece piada.
Definitivamente, você precisa tratar seus nervos, pois está muito doente, minha querida.
Aliás, esse é um castigo merecido.
Se em vez de evitar seu noivo e se trancar em seu orgulho e utopias, aceitasse abertamente o meu amor e me entregasse o seu, seríamos agora menos estranhos um ao outro.
Mas, acalme-se!
Todos esses pequenos erros podem ser corrigidos.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:58 pm

Ele inclinou-se e beijou a esposa, enquanto Ellen encostou a cabeça em seu ombro, num gesto de cansaço.
Quando ele a apertou ao peito, sentiu tanta felicidade e paz que esqueceu o arrependimento e os maus pressentimentos.
Artemiev reuniu em sua residência as pessoas mais próximas e, após o chá da tarde, os recém-casados deveriam ir para a própria casa.
Com grande esforço, Ellen recuperou a tranquilidade aparente.
Sorrindo, amável, conversava animada com os convidados e retrucava alegremente a algumas piadas mais picantes.
Tudo corria bem, para enorme satisfação de Evgueny Pavlovitch e Artemiev, quando, de repente, um infeliz acaso pôs tudo a perder.
Após as frutas e doces, o mordomo entregou à noiva um telegrama.
Ela o abriu rapidamente e viu que era do abrigo "Paraíso sem Adão".
A comunidade enviava aos cônjuges as melhores saudações e votos de felicidades e desejava, especialmente à sua ex-pregadora, que fosse tão corajosa no cumprimento de suas novas obrigações como o fora na defesa da causa da comunidade.
Ellen ficou abalada.
Todo o seu descontrole emocional despertou com nova energia.
O passado entrou em choque com o presente e esse golpe foi demais para seus nervos, desgastados pelas emoções do dia.
Apesar do esforço sobre-humano para manter a presença de espírito, sentia-se enfraquecida.
Sua cabeça girava, tudo à sua volta parecia ruir com estrondo e caía num sombrio e frio abismo...
Vendo que a noiva desmaiara, todos os presentes, encabeçados por Evgueny, correram para acudi-la.
O Barão levantou a jovem esposa, ajudado por Artemiev, levou-a para seu quarto de solteira e, durante esse trajecto, deu uma olhada no malfadado telegrama.
- Imbecis! Quem precisa dos cumprimentos deles? - resmungou furioso.
Em seguida, voltando-se para Artemiev, acrescentou:
- Esse telegrama idiota arrasou-a.
Mas, assim que ela voltar a si, iremos embora.
Não precisamos mais dar espectáculo a pessoas estranhas.
Quando ambos retomaram ao salão, Artemiev explicou em tom de brincadeira:
- Aquilo foi um telegrama de congratulações da comunidade "Paraíso sem Adão".
Como minha filha ainda não se esqueceu que "desertou" daquela estranha instituição, o telegrama agiu negativamente sobre ela.
O Barão nada disse.
Ficou furioso por notar alguns olhares sardónicos e sorrisos de duplo sentido.
Como fora Ellen envergonhá-lo com essa imprópria e indecente fraqueza?
Esse desmaio o deixara numa posição ridícula, fazendo-o parecer um raptor que a arrastara à força para o altar.
Isso não parecia um casamento decente, mas uma cena de ridículo melodrama.
O orgulho ferido fazia-o sofrer.
Além disso, sentia-se ainda mais furioso com diversos pensamentos que fustigavam seu amor-próprio.
A única pessoa que observava a cena com sincera comiseração era a Condessa Varatov.
Ela lera no rosto sombrio do Barão o prenúncio da primeira tempestade conjugal e sentia pena da moça, inexperiente e perdida, abandonada como um barco sem leme em meio às ondas agitadas do mar.
A Condessa entendia o estado de espírito de Ellen, a confusão de seus sentimentos e o peso da humilhação pela própria inconsequência.
Aproximou-se de Artemiev e disse-lhe que desejava ver Ellen para conversar com ela.
- Ah, condessa, fico-lhe muito grato por essa boa ideia! - disse ele, beijando a mão da senhora Varatov.
A pobre Ellen está precisando muito de um conselho amigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:58 pm

Temo que, com o carácter e as ideias absurdas que tem, ela tenha cometido uma bobagem se casando.
Queira Deus que consiga assimilar ao menos uma partícula da sabedoria da senhora, a quem todos, começando pelo próprio marido, consideram uma esposa ideal.
Um sorriso quase imperceptível e sarcástico passou pelos lábios da senhora Varatov.
A Condessa sabia perfeitamente que era uma "esposa confortável" e merecia a admiração do marido.
Quando a Condessa entrou no quarto, Ellen já tinha recobrado a consciência e a camareira arrumava seu penteado e vestido.
Parecia estar se aprontando para retornar ao salão.
Ao ver a senhora Varatov, Ellen ficou vermelha e, estendendo-lhe a mão, murmurou:
- Veio me repreender, condessa?
Sinto que mereço isso.
Cometi uma bobagem imperdoável, mas meus nervos me traíram.
- Adivinhou, minha querida!
Vim ralhar com você, porque exactamente nessas situações é que deveria dominar os nervos, para não ferir o amor-próprio do seu marido.
Você sabe melhor que eu que na vida é preciso sempre dominar-se quando se quer conseguir algo; as primeiras horas, dias e meses do casamento servem de base para toda a vida futura.
Cada palavra deve ser medida, cada acto calculado, pois os nossos "senhores" são inconstantes e caprichosos por causa dos mimos e lisonjas de "damas" pouco discretas.
A esposa honesta precisa ser sábia, como a cobra, e delicada como a pomba.
Combinando com arte a própria dignidade com a condescendência e evitando cenas, ela deve reeducar o marido sem que ele perceba.
Também deve aparentar não ter outra vontade senão a dele e, mesmo assim, agir a seu modo.
Com beijos e brincadeiras, carinhos e palavras doces é possível domesticar até um tigre.
Ellen escutava em silêncio, batucando com os dedos na cómoda.
Naquele momento, sentia irritação e até desprezo por aquela bela, inteligente e sábia mulher, que lhe propunha um programa inteiro de fingimento, humilhação e pequenos truques.
Será que ela própria usava dessa hipocrisia?
Então, a escravidão da mulher, através dos tempos acabara arrancando dela toda a vontade de lutar pela independência.
Ellen sentia-se muito grata por seus conselhos, mas jamais iria se humilhar a ponto de concordar com os caprichos de seu "tirano" ou ficar esperando o feliz momento em que ele iria lhe permitir ter seus próprios desejos.
A Condessa pareceu ler esses pensamentos no rosto expressivo de sua interlocutora e, sorrindo, respondeu tranquilamente:
- Vejo que não compartilha de minhas ideias e pretende desencadear uma luta inútil entre um anão e um gigante.
Não faça isso, minha querida!
Assim você somente afastará a pessoa com quem se casou, condenando-se à solidão e ao arrependimento tardio.
Permita-me acrescentar que você não tem razão quando rejeita e considera humilhante o trabalho de construção da felicidade conjugal.
É um desafio honroso e digno de total respeito, pois é a base da moralidade social.
O seu "Paraíso sem Adão" é uma instituição nobre e útil, pois acolhe vítimas de desastres do destino, consola mulheres infelizes e restitui-lhes algum interesse pela vida, mas esses abrigos não podem acolher todo o género feminino.
Eles se opõe a leis básicas, que nenhuma educação consegue destruir.
Você é a prova viva do que estou dizendo.
A força imortal e invencível do amor obrigou-a a se casar e ninguém tem o direito de desprezá-la por isso, assim como ninguém poderia escarnecer de uma mulher que preferiu ficar livre e sozinha.
Cada um deve ocupar no mundo o lugar de acordo com suas forças, que lhe é destinado por Deus.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:58 pm

Muitas mulheres preferem não estudar o misterioso pentagrama que o destino colocou em suas mãos sob a forma de um marido, como pretexto para evitar a responsabilidade que recaiu sobre seus ombros.
Sei que considera tempo perdido o meu grande esforço para manter a paz no cotidiano do meu lar.
Mas eu lhe digo:
esse esforço não é inútil.
Sou amada e muito amada pelo meu marido, apesar de todas as fraquezas dele.
Se eu morresse ele sentiria uma dor muito profunda e em sua vida se abriria um enorme vazio, difícil de preencher.
Eu não lamento.
A Condessa foi interrompida pela chegada de Artemiev, que fora saber da saúde da filha e disse-lhe que o marido desejava ir para casa.
A senhora Varatov saiu imediatamente do quarto, e pai e filha ficaram por instantes a sós.
- Minha querida filha! - disse Vladimir Aleksandrovitch, abraçando Ellen.
Como gostaria de vê-la feliz e estar convicto de que o mal que cometi não irá repetir-se com você!
Evgueny é melhor do que eu.
Ame-o como sua santa mãe me amou, apesar dos meus defeitos; ame-o com todos os defeitos e qualidades, pois o amor é o maior talismã da vida conjugal.
Eu sou um exemplo de que o amor tudo vence, mesmo depois da morte.
Ellen beijou-o, mas nada respondeu.
Reconhecia que o pai estava certo e também a condessa.
Cada palavra dela lhe fora ditada pela experiência e amizade, mas sua alma revoltada não queria aceitar isso.
Ao entrar na sala, o Barão foi imediatamente em sua direcção.
Estava pálido e frio, mas, com amabilidade impecável, perguntou sobre a saúde da jovem esposa e, em seguida, ajudou-a a vestir o casaco.
Alguns minutos mais tarde, o jovem casal já estava na equipagem, mas entre eles se interpusera o fantasma da discórdia, fazendo-os permanecer em silêncio.
Ellen encolheu-se num canto, segurando um grande buquê de flores, enquanto Evgueny Pavlovitch olhava pela janela.
Ambos estavam calados, observando-se de soslaio, como inimigos.
O Barão notou a aparência assustada, mas teimosa de Ellen.
Ela, por sua vez, percebeu-lhe o cenho franzido e o ar sombrio e insatisfeito.
Será que ele lamentava a liberdade perdida?
Durante todo o caminho, não trocaram uma única palavra.
Uma aguda tristeza invadiu a alma de Ellen e seu coração bateu forte enquanto subia os degraus da escada enfeitada de flores e passava pelos quartos iluminados, acenando aos cumprimentos dos criados.
Junto à porta do dormitório, o Barão lhe fez uma leve reverência e foi embora.
Ellen foi recebida pela camareira americana, uma mulher alta e magra, de aparência severa e taciturna, invariavelmente vestida de negro, com touca, gola e avental branquíssimos.
Sara Witshell era melhor internamente do que na aparência.
A infeliz criatura, recolhida no sótão de uma das funcionárias da comunidade, achou o abrigo que a acolhera um verdadeiro paraíso.
Seu marido, pintor de cartazes, revelou-se um bêbado inveterado; sacrificou à bebida tudo que possuía, inclusive o dote e as economias da esposa, depois abandonou a ela e a filha.
Ellen interessou-se por essa infeliz que, na época, estava gravemente doente.
Quando ela sarou, tomou-a como sua camareira e garantiu a vida da filha com um pequeno capital.
Sara apegou-se a Ellen como um cão fiel e, sem a menor hesitação, foi a seu chamado para a Rússia.
Sabia que sua filha estaria bem no abrigo.
Além disso, prometeram-lhe que também trariam a menina para perto dela.
Os cinco anos da vida conjugal, marcados mais por surras do que carinhos, eram um espantalho para Sara.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 7:58 pm

Tornou-se uma inflamada adepta das ideias do "Paraíso sem Adão", encarava o casamento de Ellen como uma grande desgraça e considerava Ravensburg o pior inimigo de sua patroa.
Sua hostilidade para com o Barão e Artemiev era ostensiva e estes também a odiavam, apelidando-a de "pedra tumular do Paraíso sem Adão".
O dia fora muito duro para Sara; seus olhos estavam vermelhos e inchados.
A palidez e o ar desolado de Ellen deixaram-na ainda mais triste, mas, ao mesmo tempo, serviam-lhe de consolo, provavam que a moça estava arrependida por abandonar a sua causa.
Balbuciando algumas palavras de congratulações, às quais Ellen nada respondeu, Sara despiu-a, fez uma trança nos vastos cabelos e ofereceu-lhe um luxuoso penhoar branco, todo coberto de finos bordados prateados.
Quando a camareira saiu, Ellen encostou-se na cómoda e ficou pensativa.
Um furacão de sentimentos contraditórios desencadeava-se em sua alma.
"Não havia dúvidas de que Evgueny estava furioso e ofendido.
Ele talvez acabasse dormindo em seu próprio quarto.
Seria óptimo, mas, e se não ficasse?
Como isso tudo iria acabar?
Deus do céu, que situação terrível!"
O marido, entretanto, ansiava despejar todo o seu fel e fazer a esposa compreender toda a indecência do seu comportamento; em suma, colocá-la no seu devido lugar.
Trocando rapidamente de roupa, o Barão ficou andando nervosamente pelo quarto.
A ira reprimida a tarde inteira e a amargura do amor-próprio ferido ferviam em seu espírito, obscurecendo completamente suas boas intenções de ser amoroso e compreensivo.
Naquele instante, era somente um marido ofendido, achando-se no direito de desiludir definitivamente a esposa quanto à grandeza de seu passado e fazê-la sentir todas as "vantagens" de sua posição actual.
Quanto mais pensava, mais irritado ficava.
Quando abriu a porta do dormitório, estava disposto a desempenhar a primeira cena conjugal e demonstrar a Ellen o verdadeiro sentido do paraíso "com Adão".
A pose de desespero da jovem esposa, ainda sentada junto à cómoda com a cabeça abaixada sobre os braços, nem de longe foi capaz de acalmar o Barão.
Furioso, ficou olhando-a por instantes com ar irónico.
Em seguida, aproximou-se e disse sem rodeios:
- Querida, levante a cabeça e ouça atentamente o que tenho a lhe dizer!
Ellen estremeceu e endireitou-se.
O tom desafiador e zombeteiro do marido provocou-lhe uma surda insatisfação, mas ela se controlou e respondeu:
- Vamos deixar essa conversa para outro dia.
Estou muito cansada.
Além disso, me parece que ambos não estamos em condições de ter uma conversa séria.
O Barão, em vez de sair como ela supunha, empurrou a poltrona e, para grande desgosto dela, sentou-se calmamente ao seu lado.
- Estou completamente calmo e, a julgar pelo seu comportamento de hoje, não se pode ter certeza de que você estará mais sensata amanhã.
Portanto, vamos nos entender agora, pois você está completamente enganada quanto à nossa situação e ao papel que lhe cabe nisso.
- Pelo menos, o senhor não perdeu tempo em tirar a máscara e provar como me enganei redondamente ao considerá-lo um verdadeiro cavalheiro - contestou Ellen, e em seus olhos acendeu-se um relampejar de desprezo.
- Pelo amor de Deus, só falta você sacar um punhal e me matar no afã de sua indignação!
Está muito enganada se pensa em me intimidar e assim me impedir de explicar claramente as obrigações da esposa.
Vim exactamente para isso.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:55 pm

- Nesse caso, também serei franca - respondeu Ellen, que parecia estar sufocando.
Reconheço que nosso casamento foi uma lamentável loucura cuja culpa maior cabe a mim.
Não fui educada para o papel de esposa, tal como o senhor o imagina.
Não desejo ser uma escrava sem opinião, que aguarda resignadamente a condescendência do seu amo.
Portanto, vamos nos separar!
Será melhor para ambos.
Evgueny Pavlovitch soltou uma gargalhada.
- Separar? Ah, ah, ah!
Não, minha querida, agora é tarde demais!
Hoje pela manhã você estava livre e podia não ter se casado comigo, mas agora é minha esposa e permanecerá assim.
Por que diz que não foi educada para ser esposa, tal como imagino?
Você é feita da mesma massa que todas as outras mulheres.
Bastará assumir o seu papel para que tudo corra às mil maravilhas.
Quanto a isso, pode ficar tranquila.
Mas quanto às vontades e liberdades, você usou e abusou disso enquanto solteira.
Para uma mulher casada, não pode existir outra vontade senão a do marido.
Concedo-lhe total liberdade de tomar pela manhã chá ou chocolate, sair para passear a pé ou de equipagem, usar vestidos de lã ou de seda, dispor dos criados e, em geral...
- Chega! Chega de zombarias e ofensas! - interrompeu-o Ellen, irada.
Acaso pensa que está falando com uma idiota ou uma escrava?
Não ficarei nem mais uma hora sob o seu tecto!
Agora mesmo voltarei à casa de meu pai e amanhã retorno para Boston.
Com essas palavras, ela correu para a campainha.
Mas, antes que pudesse apertar o botão, o marido agarrou-a pelo braço.
Um forte rubor cobriu o rosto do Barão e sua voz tomou-se surda de fúria:
- Chega de escândalos!
Felizmente, você não está em condições de cumprir suas ameaças.
Não estou brincando:
ou você sofre dos nervos ou enlouqueceu.
Não compreende que, deixando essa casa na noite de núpcias, dará a qualquer pessoa o direito de supor que o "Paraíso sem Adão" não é nem de longe um abrigo de virgens virtuosas?
Por amizade e respeito a seu pai, não permitirei que me envergonhe.
Você não irá nem para a casa dele nem para a América.
Onde quer que você esteja, posso exigir que as autoridades a tragam de volta à minha casa.
Não me obrigue a fazê-la sentir o meu poder e submeta-se voluntariamente às minhas exigências.
A partir de hoje, foi colocada uma cruz sobre seu passado, eu lhe proíbo qualquer relação com essa comunidade ou colaboração com sua absurda revista.
Seu mundo agora é o seu lar, sua casa, e você irá viver conforme as minhas posses e não as suas.
Pode fazer o que quiser com seu dinheiro.
Para mim, não importa se você vai cobrir com seus dólares o quintal do "Paraíso sem Adão" ou as ruas de Boston.
Mas, na minha casa, não quero nem saber desses seus milhões.
Você mesma quis que tivéssemos tudo em comum!
Que assim seja!
Farei tudo conforme seu desejo, mas não pense que vou me rebaixar diante de sua riqueza, permitir que mande em mim e suportar seus caprichos.
Ellen ouvia-o, muda de ira e com todo o corpo tremendo.
Seus olhos, ardendo de orgulho e teimosia, e o sorriso de desdém dos lábios entreabertos atestavam que não estava vencida.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:55 pm

Em compensação, jamais pareceu tão linda como naquele momento de excitação, ainda mais em trajes caseiros, no qual o Barão a via pela primeira vez.
Um ímpeto de paixão acendeu-se no coração de Evgueny Pavlovitch, suavizando um pouco sua ira.
Seu olhar corria embevecido pela figura da esposa, tão delicada e graciosa em seu macio e sedoso penhoar, cercada de uma nuvem de rendas que tão bem combinavam com sua nobre e esguia beleza.
Mas Ellen não notava a admiração do marido.
A tempestade que se desencadeava nela atrapalhava seus pensamentos e cortava-lhe a respiração.
- O senhor... o senhor ousa ameaçar e me ofender como a uma criada!
Pois muito bem!
Vou lhe mostrar o que acho de suas ordens.
Vou embora agora mesmo!
E não tente me impedir! - conseguiu pronunciar com dificuldade, irada ao extremo.
Ellen quis tocar a campainha, mas o Barão impediu-a novamente, resolvendo encerrar rapidamente aquela cena.
Era tarde demais para recuar, sem abalar para sempre a própria autoridade, também era perigoso obrigar aquela moça especial a cometer algum desatino.
Entretanto, precisava dominá-la definitivamente e, para esse golpe decisivo, o Barão contava com a fraqueza feminina.
- Está bem! Vá embora! - disse friamente e cerrando o cenho.
Já que quer assim, eu mesmo tocarei a campainha e ordenarei que a levem para a casa de seu pai.
Amanhã, a cidade inteira ficará sabendo que o Barão Ravensburg, no meio da noite, expulsou de casa a própria esposa, como se expulsa alguma sacerdotisa do amor.
Em seguida, a senhora estará livre para me processar e provar sua inocência.
Agora, escolha:
ou deixa a minha casa para nunca mais voltar e aguenta as consequências de sua insana teimosia, ou fica e submete-se à minha vontade, como toda esposa.
Dou-lhe cinco minutos para pensar.
É difícil descrever o que sentiu Ellen naquele momento.
O tom e o olhar do Barão convenceram-na imediatamente de que ele agiria exactamente como dissera e que o momento era extremamente grave.
Em sua imaginação, levantava-se como uma hidra ameaçadora a opinião pública de mil bocas, o escárnio da turba e a vergonha irreparável que recairia sobre ela e o abrigo que a educara.
Naturalmente, poderia voltar para a América, mas humilhada para sempre, morta para a causa que defendia.
Sufocada e branca como o penhoar que vestia, apertou as mãos ao peito.
Seu olhar sombrio e cheio de ódio fixava-se naquele "amo", a quem descuidadamente se entregara.
Naquele momento, provava-lhe que sua energia e teimosia nada valiam diante dos direitos do marido.
Ele olhava, frio e decidido, para o relógio, pronto para entregá-la à vergonha ou encerrá-la em sua casa como uma resignada prisioneira.
Uma terrível luta acontecia na impetuosa e impávida alma de Ellen.
Naquele instante, ela o odiava e preferia morrer para evitar aquele terrível sofrimento.
- Então? Posso tocar a campainha? - perguntou ele, estendendo a mão para o botão.
- Não... - disse Ellen, segurando-lhe a mão.
Pareceu-lhe que o som daquela campainha iria jogá-la no abismo.
Aquela palavra, pronunciada de forma surda, quase inaudível, foi o último esforço consciente de sua vontade.
Uma dor aguda premeu-lhe o coração, dificultando a respiração, o corpo cobriu-se de suor frio e as pernas não lhe obedeciam.
Tudo escureceu à sua volta e sua mão procurou inutilmente um apoio no espaço.
Evgueny Pavlovitch suspirou aliviado, pois temia perder a jogada em que apostara todas as suas cartas, mas na mesma hora ficou estarrecido ao olhar para a esposa.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:55 pm

Ellen, mortalmente pálida, com o olhar sem brilho e o rosto deformado pela dor, oscilava como ébria e parecia não notar que ele a estava segurando.
Inconscientemente, deitou a cabeça no ombro do marido.
Assustado, esquecido de tudo, levou a esposa para o sofá, borrifou-a com diversas fragrâncias que estavam sobre a cómoda, tentando, de vários modos, fazê-la voltar a si.
Ellen, entretanto, não tinha desmaiado; encontrava-se somente num estado de profundo esgotamento, por causa da enorme emoção que sentira.
O grande afluxo de sangue ao coração e ao cérebro provocou uma dor aguda.
A segunda onda de dor a fez sair do torpor e ela abriu os olhos.
O Barão, mesmo aliviado com isso, ainda estava preocupado com o desmaio e sentia profunda pena dela.
Então, abraçou-a e disse carinhosamente:
- Insensata! O que fez?
Por que me obrigou a dizer palavras tão cruéis?
Por que me odeia?
Nós nos casamos por amor, mas, em vez de paz e felicidade, você me cria um verdadeiro inferno, logo nos primeiros momentos de vida conjugal.
Ellen nada respondeu.
Mas sua tensão nervosa logo se transformou num rio de lágrimas.
O Barão não impediu essa reacção benéfica, que dissipou de vez toda sua raiva.
Num ímpeto de amor, ajoelhou-se junto ao sofá, abraçou carinhosamente a sua encantadora oponente, vencida e confusa, sussurrando-lhe palavras de amor e consolo.
Sem o saber, ele havia escolhido o melhor caminho.
Seus beijos ardentes derreteram a crosta gelada que envolvera o coração de Ellen durante suas tormentas espirituais.
A poderosa atracção oculta dentro dela, a empurrava para os braços do Barão, despertando ao contacto com seu amor.
Contra a sua vontade, sentiu uma surpreendente felicidade.
Quando as lágrimas foram secando, o Barão inclinou-se para ela e perguntou:
- Diga-me somente uma coisa: você me ama?
- Sim - respondeu Ellen.
Apesar dessa palavra ter sido pronunciada de forma quase incompreensível, Evgueny Pavlovitch ouviu-a e exultou:
- Então, está tudo salvo!
Espero que nossa primeira briga tenha sido também a última.
Uma hora mais tarde, com os olhos vermelhos e inchados, mas sorridente e linda, Ellen jantava com o marido.
Todas as rusgas foram esquecidas.
O olhar do Barão brilhava de admiração e paixão quando encheu as taças e brindou com a esposa pela felicidade mútua.
Como Ellen baixou a cabeça, ele sussurrou-lhe ao ouvido:
- Querida, você vai me obedecer?
Foi tudo acertado?
Da minha parte, procurarei dar-lhe somente ordens agradáveis.
- Nesse caso, você não vai impedir a minha correspondência com os amigos da comunidade? - perguntou Ellen, em tom de brincadeira, mas não sem malícia.
- Escreva o quanto quiser, já que não pode viver sem eles, contanto que suas amigas não queiram incitá-la a reagir contra mim.
Ellen balançou a cabeça, encostou-se no ombro dele e fechou os olhos.
Vieram-lhe à mente as palavras da senhora Varatov.
É melhor ceder antes da tempestade, que ser obrigada a submeter-se mais tarde.
Como é limitada a liberdade de uma alma ligada a outra com todas as suas fibras!
Enfim, o amor masculino não seria uma poderosa arma nas mãos da mulher?
Ellen suspirou.
Ela, aparentemente, deveria agir como as outras, e dirigi-lo às escondidas.

(1 - Clóvis I (Clodoveu Clóvis 466-511) - Rei dos francos a partir de 482; tornou-se católico após casar-se com a Princesa Clotilde, em 496, sendo baptizado com a frase acima por São Remígio (439-535), na época, bispo de Reims).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:55 pm

Capítulo 15

Os primeiros meses de casamento se passaram como um sonho.
Ellen sentiu-se transportada para um novo mundo, levada pelo furacão de novos pensamentos e sensações.
O passado empalideceu e o presente resplandecia.
Completamente apaixonado pela esposa, Evgueny Pavlovitch a cercava de dedicada atenção, submetia-se alegremente aos seus caprichos, afastava com piadas desavenças que apareciam, interessava-se por seus trajes, admirava-a e cuidava dela como de um luxuoso brinquedo.
A lembrança da triste cena na noite de núpcias, ocultava-se no coração de Ellen como uma nuvem de tempestade.
Ela, entretanto, evitava pensar nisso e nem tinha tempo de analisar friamente o acontecido.
Além disso, nada tinha a reclamar, pois o marido tentava sempre adivinhar e realizar todos os seus desejos.
Apesar da autorização, sua correspondência com o "Paraíso sem Adão" quase acabou, pois Ellen parecia ter vergonha de reconhecer que era feliz.
Imaginava que deveria informar à comunidade somente as ofensas de que seria vítima.
Ao receber do senhor Brown a carta de agradecimento pelo generoso donativo, Ellen mostrou-a ao marido.
Este somente deu uma gargalhada e declarou, zombeteiro, que era absolutamente incapaz de avaliar as vantagens e a utilidade daquele fazedor de idiotas.
Decidiram passar o verão em Petergof(1).
Após um dia inteiro à procura de um imóvel apropriado, Ellen achou que seria melhor comprar uma casa de campo e assim livrar-se de vez dessas incómodas viagens.
Mas o Barão foi contra, dizendo que ela não tinha o direito de gastar o dinheiro de seus futuros filhos.
Irritada, Ellen aproveitou uma viagem do marido e comprou uma magnífica casa de campo no "Velho Petergof".
Recebeu uma boa reprimenda do Barão, por ter pago mais caro que o valor real da propriedade.
Ellen não se ofendeu com a repreensão.
Fez tudo a seu modo, mobiliou a casa de campo com bom gosto e transformou o jardim num recanto paradisíaco.
O verão seguia alegremente.
Em fins de julho, Evgueny encontrou um velho amigo e colega de escola, que dera baixa no serviço, recebera uma grande herança e fora passar alguns anos no estrangeiro.
As consequências desse encontro amigável foram desastrosas:
o Barão tornou-se desleixado, atrasava para o almoço, aceitava convites para passeios de bicicleta sem a esposa, passava tardes na casa de companheiros solteiros e frequentemente retornava para casa às três, quatro horas da madrugada.
Ellen desconfiava de sua infidelidade.
Extremamente impulsiva para conseguir disfarçar o ciúme, passou a provocar cenas muito desagradáveis e os cônjuges retornaram à cidade, tratando-se com hostilidade.
Evgueny Pavlovitch prosseguiu com suas aventuras.
Então, a jovem esposa passou a ignorá-lo.
Saía quando ele almoçava em casa, convidava amigos quando ele pretendia sair e visitava, assiduamente, Lídia Andreevna e Inna.
Tentava, de todas as maneiras, mostrar ao marido que a presença dele era-lhe completamente indiferente.
A discórdia aumentava a cada dia e Ellen sentia-se ainda mais solitária, porque o pai havia se ausentado, pois fora cuidar da administração de suas propriedades, das quais tinha se descuidado.
Desde a partida, ele enviara somente uma carta lacónica informando que voltaria para o Ano Novo.
Evgueny Pavlovitch estava cada vez mais irritado.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:55 pm

Certa manhã, quando a esposa se preparava para sair, perguntou-lhe se retornaria para o almoço; caso contrário, ele iria almoçar na casa de algum amigo, pois estava cansado de sentar-se sozinho à mesa.
Mais irritada ainda que o marido, Ellen respondeu, com indiferença, que estando ela em casa ou não, ele podia almoçar, jantar e até passar a noite onde bem entendesse.
O Barão ficou vermelho, nada respondeu, mas não retornou para o almoço nem para o jantar.
A ira e o ciúme não deixaram Ellen pregar o olhos e ela ficou sentada em seu "boudoir".
O Barão retornou muito tarde.
Encontrando o dormitório vazio, foi até o "boudoir" e tentou desculpar-se e abraçar a esposa.
Mas Ellen, não conseguindo se dominar, empurrou-o para longe, cobriu-o de reprimendas e acusações e, por fim, disse ter nojo de uma pessoa que ousava falar-lhe de amor após retornar de alguma aventura amorosa.
Furioso e ofendido, o Barão saiu e se trancou no gabinete.
Ellen chorou amargamente e escreveu uma longa carta a Nelly, descrevendo todas as indecências do marido.
Em seguida, fez o rascunho de um artigo venenoso para a revista da comunidade.
Isso a acalmou um pouco e adormeceu no sofá.
O dormitório continuava vazio, pois os jovens cônjuges dormiam um no gabinete e outro no "boudoir".
Na manhã seguinte, Ellen soube, por Sara, que o Barão tomara o desjejum cedo e saíra de bicicleta, sem dizer quando retornaria.
Ofendida, vestiu-se rapidamente e foi para casa de Inna.
Apesar de ser ainda cedo, ela já tinha uma visita: o jovem marinheiro.
Durante a refeição, o tratamento franco e desembaraçado entre a jovem anfitriã e o visitante, surpreendeu Ellen.
Quando o marinheiro partiu, ela observou, zombeteira:
- Parece-me que você não perde tempo e se distrai na ausência de Nicolai Lvovitch.
Acho até que o serviço no Ministério teria problemas, se seu marido soubesse que você recebe visitas frequentes desse primo.
Inna ficou vermelha até as orelhas e correu para os braços dela.
- Ah! Não me julgue tão severamente!
O que posso fazer? Estou sempre só.
Nicolai não me ama e me trai a cada passo.
Rejeitou com frio desprezo as minhas melhores intenções, não sente ciúmes de mim e fica muito satisfeito quando não o incomodo.
Então, para passar o tempo, eu me permito ser amada.
Dissiparam-se todos os meus sonhos.
Deixei-me arrastar pela correnteza e já não sofro tanto, como no início do meu casamento.
Pensei muito em divórcio, mas tenho medo do escândalo que isso provocaria.
Entretanto, vivendo desse jeito, até mantenho a aparência de uma união extremamente feliz.
Enquanto Nicolai segue para a direita, vou para a esquerda.
De comum, só nos restaram os assuntos da casa e eu, naturalmente, recebo seus convidados.
Mas quando o encontro com alguma cocote ou ele me vê com Anatoly, fingimos não nos ver.
Ellen nada respondeu e ficou pensando.
Talvez Inna estivesse certa e essa vida fútil e festiva, alegrada por aventuras amorosas, representasse a saída mais fácil e natural do labirinto de um casamento infeliz.
Inna, que a observava, agarrou repentinamente sua mão.
- Querida Ellen, pelo seu rosto percebo que também é infeliz.
Isso não me surpreende, se levarmos em consideração o carácter e as manias do Barão.
Evgueny Pavlovitch é um bom rapaz, mas sempre foi muito leviano e amigo demais de meu Nicolai, de Obzorov e outros farristas, inclusive Patov, que reencontrou no último verão.
Toda essa companhia devassa faz com que cometa grandes indecências e frequente ambientes horríveis.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:56 pm

- Como sabe tudo isso?
Se sabe de algo sobre Evgueny, em nome de nossa amizade, exijo que me conte tudo.
- Anatoly andou tagarelando que Obzorov frequenta muito o meio artístico; como agora ele trocou a Jobar por uma cantora de operetas, acabou introduzindo seus amigos nesse encantador ambiente, onde o banquete corre solto.
Inna inclinou-se para Ellen.
- Há muito tempo eu pretendia lhe informar de que seu marido também sustenta uma cantora de operetas.
Certa vez, quando eu estava na casa de minha mãe, cujas janelas dão para a rua que beira o rio, vi, com meus próprios olhos, Evgueny Pavlovitch e Patov numa equipagem aberta com duas mulheres muito elegantes, uma morena e uma loira.
Só não sei quem estava com a loira ou com a morena - concluiu Inna, rindo.
Ellen ficou tão abalada com essa notícia, que quase teve uma vertigem.
Nada respondeu porque sentiu a garganta se apertar.
Como podia Inna rir dessa situação nojenta?
Ellen sentia que, se naquele momento seu marido estivesse presente, ela o teria matado.
- Meu Deus!
Você não deve ligar para tais bobagens.
Actualmente não existem maridos exemplares e a vida deve ser encarada como realmente é.
Faça como eu, em vez de chorar, procure consolo.
Isso talvez tenha mais efeito sobre Evgueny Pavlovitch do que lágrimas ou repreensões.
Chega! Por que desolar-se assim?
Basta estender a mão.
O hussardo Toto Samburov é louco por você.
E parente do meu marinheiro e confiou a ele que não consegue dormir nem comer por causa de seus olhos azuis.
Conquistar Toto pode ser motivo de orgulho:
é muito rico, belo como Apolo(2), solteiro e todas as damas disputam o seu coração.
Se quiser, posso convidá-lo para almoçar aqui na sexta-feira.
Você virá também, e deixará feliz o pobre apaixonado.
Mais tarde, nós quatro podemos ir à opereta.
E lá, quem sabe, você poderá encontrar o seu "patrão" com a dama amada.
- Muito bem! Gostei do convite e o aceito.
Na próxima sexta-feira, venho almoçar com você.
Agora devo me despedir, pois tenho mais algumas visitas a fazer.
Sufocando de ira e ciúme, Ellen ansiava voltar rapidamente para casa.
Ao chegar, trancou-se no quarto e tentou, sem resultado, colocar os pensamentos em ordem.
Para a felicidade de Ellen, o Barão voltou para casa somente pela manhã.
Ellen fingiu estar dormindo para não falar com ele.
Decidiu visitar a senhora Varatov, a quem se afeiçoava cada vez mais, e pedir-lhe conselhos.
Talvez ela, tão inteligente e tranquila, pudesse devolver-lhe o equilíbrio emocional.
Evgueny Pavlovitch ainda estava acordando quando Ellen partiu para a casa da Condessa, mas, infelizmente, não a encontrara em casa.
Após avisar ao mordomo que retornaria à tarde, foi andar pelas lojas para se distrair e fazer algumas compras.
Ao entrar numa grande loja de perfumes, encontrou uma dama muito elegante e bonita fazendo compras.
A Baronesa olhou para ela distraidamente, mas, de repente, aquele rosto lhe pareceu familiar.
Onde teria visto aquele narizinho arrebitado, a grande boca com belos dentes brancos, a brancura luminosa do rosto e os espessos cabelos ruivos, cujos reflexos dourados destacavam-se sobremaneira sobre a capa de pelúcia lilás?
A dama, por sua vez, também olhou para a Baronesa e, de repente, exclamou:
- Ellen Rutherford!
É você ou alguma sósia?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:56 pm

- Blanche Clairval!
Você por aqui? - respondeu Ellen, contente por encontrar a amiga do abrigo, com quem perdera contacto há tanto tempo.
As amigas beijaram-se ternamente.
- Que encontro inesperado! - disse Blanche, entusiasmada.
Estava morrendo de vontade de vê-la, Ellen.
Temos tanto para conversar!
Se não tem nada importante para fazer agora, vou raptá-la.
- Estou completamente livre.
- Nesse caso, venha comigo!
Moro perto daqui e podemos almoçar juntas.
Dispense a sua equipagem.
A minha está lá fora!
Você poderá usá-la quando quiser voltar para casa.
No caminho, Ellen notou que a amiga estava bem maquiada, mas isso agora era tão comum que não deu qualquer importância ao facto.
Blanche devia ter se casado com um homem rico, a julgar pelos trajes e o veículo particular; essa impressão confirmou-se quando ela levou a amiga ao seu apartamento.
A porta foi aberta por uma elegante camareira, e Blanche imediatamente ordenou que fosse servida uma refeição e chocolate.
Depois, mostrou o apartamento, que consistia numa encantadora sala de visitas, sala de jantar, um "boudoir" muito aconchegante, revestido de seda verde-clara bordada com rosas, e um dormitório tão luxuoso que Ellen ficou estupefacta:
surpreendeu-se especialmente com a enorme cama, revestida de cetim rosa, sob um baldaquim sustentado por cupidos dourados e enfeitado com espelhos na cabeceira e no tecto.
Mas a anfitriã desviou os pensamentos de Ellen, pedindo-lhe que ficasse no "boudoir" enquanto ela colocaria uma roupa mais caseira.
Pouco depois, Blanche apareceu.
As duas se sentaram no sofá e começaram a conversar.
No início, falaram do abrigo e de algumas alunas, cujo destino interessava a Blanche.
Em seguida, ela passou a contar sua vida desde o momento em que partira de Boston.
Seu pai a levara a Paris, onde vivera por alguns anos em grande luxo.
De repente, ele ficou arruinado, e essa desgraça lhe provocou um ataque apopléctico, do qual veio a falecer, deixando-a praticamente na rua.
- Como veio parar em São Petersburgo?
Você, assim como eu, se casou com um russo?
A julgar por sua casa, vocês devem ser bastante ricos.
Surpreendo-me por não tê-la encontrado até hoje em alguma reunião social - disse Ellen.
- Oh! Antes de chegar até aqui, passei por muitas dificuldades - respondeu Blanche, suspirando.
Quando fiquei órfã, privada de praticamente tudo, a última amante de meu pai, uma famosa cantora, compadeceu-se de mim e me adoptou.
Ela me ensinou canto, me ajudou a estrear num pequeno teatro e, sem dúvida, teria arranjado um brilhante futuro para mim, se não tivesse falecido.
Sem o apoio de mais ninguém, suportei muitas desgraças e desilusões.
No palco, às vezes, conseguia um estrondoso sucesso, e outras vezes, nada.
Num desses maus momentos, conheci um estrangeiro que me trouxe a São Petersburgo e me engajou na companhia de operetas.
Devo confessar que me adaptei bem por aqui.
Ellen ficou desagradavelmente surpresa ao saber que a ex-amiga era uma actriz, mas dominando-se, disse:
- Então, você deve ganhar muito bem, para ter uma equipagem e vestir-se com tanto luxo.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:56 pm

- Oh! Isso tudo não me vem da generosidade do empresário - riu Blanche.
Tive a felicidade de encontrar um "querido amigo".
É um rapaz jovem, bonito, rico e generoso.
Muito generoso!
Mobiliou meu apartamento e me presenteou com a equipagem; ele me paga mil rublos por mês, sem contar muitas outras coisas.
Antes dele, tive um outro "amigo", um tal de Obzorov, também rico, mas envelhecido, desgastado e de péssimo carácter.
Por isso, quando senti que o outro gostava de mim, rompi imediatamente com ele.
O nome Obzorov fez Ellen estremecer.
Lembrou as palavras de Inna, sobre a ligação amorosa de Evgueny com uma actriz de opereta.
Seu coração bateu forte e ela exclamou, recuando:
- Meu Deus, Blanche!
Você é uma cocote?
- Mas que nome horroroso! - exclamou ela, tapando os ouvidos.
Pelo amor de Deus, Ellen, jamais repita esse grosseiro e ridículo apelido, se não quiser perder minha amizade.
Eu sou cantora, actriz e peço que não se esqueça disso.
Ellen mal conseguia conter o sorriso de desprezo que aflorava aos seus lábios.
Queria comprovar suas suspeitas e, por isso, respondeu calmamente:
- Oh! Se isso lhe desagrada, não o direi mais.
Mas, diga-me: como se chama esse seu "querido amigo"?
- Ai! Sempre esqueço seu sobrenome alemão, difícil de pronunciar.
Seu único defeito é ser alemão e casado.
Mas esse último detalhe não é da minha conta.
Tanto pior para a esposa dele, se não sabe mantê-lo perto de si.
Vou mostrar-lhe o retrato de Evgueny.
Veja! Aqui está o bilhete que me enviou; por ele você perceberá como me adora.
Blanche deu a Ellen um papel de carta cor-de-rosa, perfumado, no qual ela imediatamente reconheceu a caligrafia do marido.
Com olhar ávido, leu as seguintes linhas:
"Caríssima Blanche!
Deposito a seus pés primeiramente meu coração e depois o estojo, as flores e uma caixa de perfumes, que acompanham esta carta.
Hoje à noite, após deliciar-me com seu canto, espero estar com você para receber o prémio pelo meu amor."
Ellen baixou a cabeça e pareceu-lhe que ia sufocar.
O coração batia pesadamente e o sangue afluiu com tanta força ao cérebro que teve receio de cair.
Blanche, que estava de costas para ela, nada percebeu, ocupada em procurar algo na frasqueira.
Acabou encontrando um grande estojo de marroquim vermelho e retirou de lá o retrato de Ravensburg.
Ao entregá-lo à amiga, notou o ar desolado de Ellen e o seu rosto vermelho.
- Deus do céu! O que você tem?
Está se sentindo mal?
Tome um pouco de água!
- Não, não quero nada - disse Ellen, empurrando para longe o retrato, que caiu no chão.
Até quando permanecerá aqui?
Qual a soma de dinheiro que a satisfaria para romper o contrato de cantora, deixar o "querido amigo" e retomar imediatamente à França?
Blanche parecia acuada e a olhava surpresa.
- Essa não!
Quero que a minha língua caia se entendi alguma coisa nessa sua tagarelice - respondeu, dando de ombros.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:56 pm

O que lhe importa o meu "amigo"?
Ou você pretende disputá-lo comigo ou simplesmente tem ciúmes do meu amante.
O que tem você a ver com isso?
- Esqueça suas estúpidas suposições - disse Ellen, num tom sério.
Não posso condená-la por ter escolhido a torpe profissão de mulher pública, mas posso e devo defender meus direitos.
O Barão Ravensburg é meu marido.
Como não me agrada dividi-lo com você, reitero a minha proposta de premiá-la por sua partida imediata.
Não importa o valor.
Sou suficientemente rica para pagá-lo, desde que amanhã mesmo você junte suas coisas e desapareça de São Petersburgo.
Para você, tanto faz quem vai pagar, certo?
Ao saber que a amiga era esposa de seu amante, a cantora ficou furiosa e enciumada.
Além disso, estava mortalmente ofendida por ter sido chamada de "cocote".
Medindo a visitante com olhar venenoso, Blanche exclamou com insolência:
- Pensa que para mim é indiferente quem vai pagar?
Então saiba que não desejo que me pague!
Não posso avaliar a minha permanência aqui, pois não pretendo partir.
Tente me obrigar!
Não é minha culpa se seu marido foge de você e me adora.
Você não gosta de dividi-lo, mas eu gosto de mantê-lo comigo.
Vou ficar e viver aqui o quanto quiser!
Envolvidas na discussão, nenhuma delas ouviu a campainha.
Somente quando a alta figura de Evgueny Pavlovitch apareceu na porta os olhares das rivais dirigiram-se para ele.
Se o chão se abrisse de repente aos pés do Barão, ele ficaria menos constrangido e assustado do que naquele momento.
Apesar de a camareira ter-lhe dito que a senhorita estava com uma amiga, como poderia ele adivinhar que essa amiga era exactamente a sua esposa?
- Ah! Aí está o devasso e desavergonhado traidor! - exclamou Ellen, fora de si.
Mas o excesso de ira impediu-a de continuar falando.
- Pelo amor de Deus, Ellen, acalme-se!
Posso explicar tudo, mas não aqui. Venha comigo!
O Barão quis pegar a esposa pela mão, mas ela o empurrou e, amassando a carta que ainda segurava na mão, jogou-a no rosto do marido.
Em seguida, saiu correndo do "boudoir", arrancou do cabide a sua capa e arremeteu escada abaixo.
Evgueny Pavlovitch, correu atrás dela.
Segurando o sobretudo, alcançou-a no andar inferior, onde o mordomo, com um quase imperceptível sorriso zombeteiro, ajudou-os a se vestirem.
O Barão chamou o cocheiro e dirigiram-se para casa, sem trocar uma palavra.
Ellen evitava até olhar para o marido, enquanto o pobre Barão, mordendo os bigodes, tentava adivinhar qual de seus amigos poderia ter aprontado para ele aquela terrível peça.
Ao chegar em casa, os cônjuges separaram-se em silêncio.
Ellen trancou-se em seu "boudoir"; o Barão ficou andando agitado pelo gabinete, jantou sozinho e, finalmente, foi bater à porta da esposa.
Mas a porta permaneceu trancada e atrás dela havia apenas um silêncio mortal.
Então, voltou ao gabinete, deitou no sofá e começou a fumar com raiva até, finalmente, adormecer.
Enquanto isso, o estado de espírito de Ellen era terrível.
Ira, desespero e desejo de vingança, lutavam dentro dela.
Ora desejava se separar, ora pretendia transformar a vida do marido num inferno.
Se por um lado o escândalo a assustava, por outro, temia a própria fraqueza.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:56 pm

No final das contas, não sabia o que fazer.
Pensou, então, em procurar a ajuda e o conselho da condessa.
Imediatamente escreveu um bilhete à senhora Varatov, implorando-lhe que viesse visitá-la, pois encontrava-se em terrível confusão mental que a impedia de sair.
Enviou o bilhete por Sara.
A Condessa chegou logo, atendendo ao pedido.
- Meu Deus! O que aconteceu? - perguntou ela, vendo o ar desolado da amiga e beijando-a.
O coração de Ellen transbordou.
Com voz entrecortada pela emoção, contou à senhora Varatov todos os acontecimentos de sua vida conjugal, sem omitir a cena da noite de núpcias.
Iraida Antonovna, ouvia-a, pensativa, sem interromper.
Quando se calou, balançou a cabeça:
- Querida Ellen!
Não aprovo seu comportamento, que foi insensato desde o primeiro dia.
Não se consegue nada com gritos, grosseria e reprimendas.
Permita-me dizer que, se pretende conservar sua dignidade feminina, só lhe restam duas opções:
o rompimento definitivo ou o silêncio absoluto.
Essa escolha é extremamente importante e merece uma reflexão madura.
Os escândalos públicos são sempre catastróficos para as mulheres e marcam-nas para toda a vida.
E sempre melhor evitá-los, na medida do possível.
Na minha opinião é preferível o silêncio, pois a discrição é uma poderosíssima auxiliar, que nos livra de dores de cabeça, fel e emoções negativas.
"Falar é prata, calar é ouro", diz o sábio provérbio.
Quando pensamos antes de falar, acabamos expressando somente o necessário, provando que não somos imbecis, apesar da nossa aparente ignorância.
Não posso dizer que tal "flexibilidade" de sentimentos seja fácil de adquirir, mas ela é salvadora para ambas as partes; os senhores cavalheiros estão acostumados a enfrentar as tempestades de peito aberto.
Você acredita que a senhorita Blanche irá expressar sua insatisfação calada?
Claro que não!
Tudo o que lhe cair nas mãos será arremessado à cabeça do culpado; provavelmente, após o bombardeio, haverá combate corpo a corpo.
Aquilo que o homem suporta da "criatura decaída, mas adorável", não consegue tolerar da própria esposa, por mais legítima que seja sua ira.
Querida Ellen, é necessário que sejamos distintas em algo das mulheres desse tipo, mesmo tendo de admitir que elas são mais valiosas para os homens do que nós.
Portanto, aconselho-a a perdoar.
Perdoe sempre, mesmo quando não conseguir perdoar por dentro; acredite sempre naquilo que seu marido disser, mesmo sabendo que ele mente.
- Mas você me aconselha a usar de humilhante esperteza e mentiras ignóbeis! - balbuciou Ellen, com lábios trémulos.
- O que fazer, minha querida?
Sem diplomacia não dá para sobreviver, especialmente no casamento - respondeu a senhora Varatov com um suspiro.
Repito: é preciso acreditar sempre no que nos dizem nossos maridos e nunca procurar a verdade, a qual, conforme as circunstâncias, sofrerá as necessárias mudanças.
Jamais deve surpreender-se e tentar provar a falsidade de uma história mal contada.
O melhor é nada saber, manter uma modesta discrição em relação as escapadas do marido, que, de qualquer modo, são difíceis de verificar.
Quando você não é convidada, esteja certa de que isso é para o seu bem.
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