Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Página 8 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:57 pm

Veja, minha querida, as esposas oficiais são por demais constrangedoras e não se deve levá-las a todos os lugares, como um prisioneiro arrastando suas correntes.
A Condessa sorriu, mas era um sorriso amargo, e em seus olhos luzia uma expressão séria de desprezo.
Ellen percebeu que, para pôr em prática tal disciplina moral, ou seja, perdoar sempre, fingir acreditar, manter-se discreta para não constranger o marido com a própria presença, e viver uma vida particular e especial, a Condessa deveria ter sofrido muito e desistido de muitas boas intenções e desejos.
- Quanta luta, esforço e humilhações são necessários para se conseguir uma paz condicional e uma falsa felicidade! - murmurou Ellen, com desânimo.
- Não vamos exagerar.
Basta encarar a vida como ela é.
Deus deu a nós, mulheres, uma fraqueza aparente que é um valioso talismã, uma grande vantagem, sob a qual podemos ocultar honrosamente nossas derrotas, chagas, orgulho ferido e, ainda assim, garantir o reconhecimento dos nossos maridos.
Essa fraqueza, que é ao mesmo tempo uma defesa, consiste no perdão.
Posso até prever que hoje à noite Evgueny Pavlovitch virá implorar-lhe o perdão.
Você deverá perdoá-lo, por mais raiva que sinta dele.
Cuidado, Ellen, para não rejeitar seu primeiro arrependimento, exagerar nas acusações e destacar demais seu vergonhoso comportamento; evite também demonstrar-lhe indiferença e desprezo.
Para a mulher, é vantajoso quando o marido reconhece o próprio erro; mas ele deve sentir-se amado e que pode contar com o amor e a condescendência da legítima esposa.
Isso o prende ao lar e o faz retomar, mais cedo ou mais tarde, ao convívio conjugal.
Ainda hoje o Barão irá prometer-lhe tudo e jurar que vai se corrigir...
- Serei uma imbecil se acreditar nele! - interrompeu Ellen, com irritação.
- Por dentro você pode não acreditar, mas externamente aceite suas promessas, exija um mínimo de provas de seu arrependimento e não imponha quaisquer condições.
Ele, de bom grado e agradecido pelo feliz desfecho desse desagradável acidente, provavelmente deixará aquela criatura.
Os carinhos daquelas "damas" custam caro e o lado bom das ligações com elas é que são passageiras.
Talvez o Barão fique até muito satisfeito de arranjar um motivo para largar Blanche e deixá-la para outros.
Quanto às carinhosas frases no bilhete, que tanto a enfureceram e ofenderam, não as aceite literalmente.
São frases fúteis e comuns, repetidas com insignificantes variações a qualquer nova amante.
E, em tais casos, os presentes são inevitáveis.
- Meu Deus! Que vida é essa, de eterna hipocrisia e vergonhosa dependência?
Viver com um homem depois de saber que ele me troca por qualquer cantorazinha de teatro? - observou Ellen, desolada.
- A vida está vinculada a duras obrigações e coloca a pessoa dependente de alguém.
Acaso uma mulher, mesmo solteira, não depende da própria família, da situação financeira e das circunstâncias?
As moças pobres, que trabalham em escritórios de empresas, ou como governantas, sofrendo para educar crianças mimadas, também pagam por sua suposta independência e pelo pão de cada dia, suportando inúmeras situações desagradáveis e humilhações.
Dê graças a Deus, Ellen, por tê-la livrado das duras provações da vida, agradeça cumprindo honestamente seu dever, tentando aproximar, e não rejeitar o coração de seu marido.
- Mas, como conseguir isso, se meu marido me evita e prefere a companhia de atores, cantoras e notórios paspalhões?
- Eu não disse que seria fácil!
São exactamente esses "amigos", preguiçosos e devassos, cuja vida inteira se passa na vadiagem, que servem de núcleo do contágio.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:57 pm

Eles são os piores inimigos de uma mulher honesta e da felicidade conjugal.
Eles oferecem a mercadoria feminina da qual se querem livrar, riem do simplório marido caseiro, iniciam-no na subtileza da vadiagem e o contaminam definitivamente, empurrando-o para dentro do imundo e nojento pântano teatral.
Nesse devasso mundo dos bastidores, fervilhante de pessoas de origem obscura, com espírito e interesses grosseiros, se acabam definitivamente nossos maridos, irmãos e filhos.
Lá, eles são rodeados por toda a podridão; as "damas" do submundo, a quem o palco serve apenas de vitrine, para melhor venderem seu corpo e que anseiam ser princesas e condessas ou, ao menos, cobrir com o título de mulher casada seu passado duvidoso; em segundo lugar, os senhores hipócritas, que se imiscuem na boa sociedade e insolentemente penetram em todos lugares, imaginando que seus "talentos" os tornam iguais a todos.
Digo mais:
as pessoas de bem que, por desgraça, caem neste ambiente, perdem o gosto pela boa sociedade.
Sem poderem trazer aqueles boémios à própria casa, começam a evitar o meio que antes frequentavam.
Não há como provar-lhes que aqueles "maravilhosos" senhores do palco não são companhia para pessoas realmente ilustradas e nobres.
A insana e cega admiração por atores e actrizes é o mal do século; uma psicopatia que obriga homens e mulheres a se rebaixarem diante de seus ídolos que, em troca, os exploram e desprezam.
Nem vamos falar das damas que correm atrás de qualquer actor, oferecendo-se e perseguindo-os e a de eles as tratarem com grosseria.
Em todo lugar onde essas "damas do teatro" desempenham qualquer papel na vida social, como nos bailes e bazares, elas são vendedoras com objectivos beneficentes.
Nenhuma mulher que se preze vai a tais reuniões.
Os quiosques, onde essas "damas" reinam, estão sempre rodeados por cavalheiros solícitos; ali se reúne a nata militar e burocrática.
Nenhuma de nós jamais recebeu tanta preocupação, amabilidade e admiração quanto essas "sacerdotisas da arte".
A prova disso são os bazares que organizamos, que sempre estão meio vazios, frequentados somente por quem não pôde evitá-lo.
O cavalheirismo, minha cara, passou há muito tempo, e sem retorno.
Já não se levam flores às damas que se destacam pela virtude e beleza, mas enviam-se presentes para qualquer vagabunda, famosa pela insolência e despudor.
Para curar esse mal, existe somente a esperança de que essa "digna companhia" acabe se revelando tal como é, e faça alguma grande safadeza com o seu recente "amigo".
Com isso, ele se cure do fatal embevecimento e atracção por "celebridades".
Deve-se aguardar estes momentos para tentar fazer o paciente recuperar a saúde e o tirocínio.
Se pensar em tudo isso, Ellen, notará que nossa sociedade está em plena decadência moral e não consegue produzir os homens de nossos sonhos.
Portanto, aja com sensatez e conforme as circunstâncias.
- Sim, percebo que será preciso arrancar da alma qualquer sentimento mais caloroso, tornar-me indiferente e só então aplicar a condescendência à qual se refere.
Iraida Antonovna, você deve ser feliz, por ter alcançado essa saída salvadora.
- Está insinuando que já não amo meu marido?
Engana-se: adoro o meu Vsevolod.
Ele é bom e delicado na vida familiar.
Além do mais, é o pai dos meus filhos.
O que não faço mais é criar ilusões a seu respeito e somente o encaro como ele é na realidade.
Vendo lágrimas correrem pelas faces de Ellen, a Condessa a abraçou ternamente e continuou tentando convencê-la a se acalmar e ser condescendente.
Por fim, a senhora Varatov foi embora, achando que o melhor era deixar Ellen sozinha para e pôr em ordem os pensamentos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:57 pm

Ficando só, Ellen ficou muito tempo pensando sobre o que a senhora Varatov lhe havia dito, e chegou à conclusão de que bastariam uns cinco ou seis anos de sofrimento conjugal para atrofiar completamente seu mundo interior.
A Condessa parecia nem notar que seu próprio comportamento era ditado pela completa indiferença que sentia pelo marido, que imaginava amar.
Na realidade, já nem sentia os golpes que ele lhe aplicava.
Ellen lembrou das vezes que viu Varatov junto com a esposa.
Eles eram muito gentis, amáveis e atenciosos um com o outro.
Parecia uma união exemplar, onde se evitavam cenas agitadas; mas, ao mesmo tempo, um não se importava com o outro, não havia interesses em comum e jamais houve desabafos.
Todo o amor que ainda havia no espírito de Iraida Antonovna concentrava-se nos filhos.
Ela procurava na poesia e na ciência o alimento para o coração e a mente, que não conseguia obter no amor conjugal; o restante revestiu-se de uma afável discrição.
Ellen apertou a cabeça com as mãos.
Sua vida também era assim.
Quando conseguiria disciplinar suficientemente a própria natureza revoltada, sufocando os ímpetos do coração apaixonado para levar essa vida passiva?
Sentindo-se cansada, Ellen chamou Sara, ordenou-lhe que a penteasse para dormir, vestiu o penhoar e deitou-se no sofá.
Desta vez, não trancou a porta a chave.
Foi tomada por um sentimento de indescritível apatia e até indiferença; o acontecimento daquele dia pareceu-lhe agora menos trágico, mas a vida e o futuro se afiguravam completamente repulsivos.
Após acordar, perto das dez horas da manhã, Evgueny Pavlovitch, sombrio e sisudo, empreendeu novamente a dura peregrinação ao "boudoir" da cara metade.
A porta aberta deu-lhe esperanças de que a tempestade estivesse passando.
Ao ver Ellen deitada no sofá, de olhos fechados, aproximou-se e balbuciou, apertando os lábios na mão da esposa:
- Perdoe-me, querida!
Aquilo foi uma indigna estupidez.
Juro que jamais se repetirá!
Ellen estava tão alheia que não ouvira os passos do marido, abafados pelo espesso tapete.
Arrancada repentinamente dos próprios pensamentos, estremeceu e ergueu-se.
Chegara o momento de accionar os maiores motores do mundo conjugal:
o perdão, a fingida condescendência e a fé no arrependimento, infelizmente, passageiro...
O fel e a ira que fervilhavam nela, pela ofensa recebida, apertaram-lhe a garganta.
Entretanto, suportou os beijos do marido, ouviu em silêncio as explicações e as promessas nas quais não acreditava.
Quando, finalmente, Evgueny Pavlovitch perguntou se ela o perdoava, respondeu laconicamente:
- Sim.
Seu tom de voz era inseguro e ela evitava o olhar do Barão.
Contudo, aquele "sim" lhe valeu ardorosos carinhos e renovadas promessas.
Durante o chá, o Barão cobriu a esposa das maiores atenções.
Mas Ellen ainda se encontrava sob o impacto da recente descoberta, para dar o devido valor a isso.
Sem dúvida, durante suas visitas diárias à amante, ele era ainda mais amável e, em todo caso, mais sincero...
Alegando uma dor de cabeça nervosa, Ellen disse que gostaria de ir dormir, com o que Evgueny Pavlovitch apressou-se em concordar.
Embora satisfeitíssimo com o desfecho feliz da escandalosa aventura em que fora pego em flagrante, sentia-se cansado.
Por isso, mal se deitou e, imediatamente dormiu o sono dos justos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:57 pm

No dia seguinte, após o desjejum, durante o qual foi simplesmente encantador, o Barão declarou que precisava ir ao serviço um pouco mais cedo.
"Ele vai fazer as pazes com aquela criatura e rir de mim", pensou Ellen, e o sangue subiu-lhe à cabeça.
Infelizmente, já não havia paz de espírito, e a confiança desaparecera.
Agora, cada saída do marido ela iria considerar como traição e cada palavra uma mentira.
Meu Deus! Como conseguiria viver sempre torturada pela suspeita e o ciúme, sufocando de raiva, ocultando o desprezo que não podia jogar no rosto de quem o provocara?
Ela via à sua frente um inferno tão terrível que, às vezes, até a morte lhe parecia preferível.
Para Ellen, as horas pareciam intermináveis.
Nada a distraía: nem a leitura, nem a escultura, nem o cachorro nem o canário domesticado.
- Traidor! Mentiroso! Miserável! - escapou de seus lábios, enquanto brincava com o papagaio.
E, quando a ave repetiu a frase, Ellen sorriu involuntariamente.
De repente, lembrou-se de que era sexta-feira e que havia prometido a Inna que iriam almoçar juntas.
Ainda era cedo, mas começou a se vestir, deixando ao marido o seguinte bilhete:
"Se quiser almoçar com seus amigos, fique à vontade.
Esqueci de lhe comunicar que vou almoçar com Inna e passar a tarde na casa dela."
Colocando o chapéu, Ellen examinou-se no espelho.
Blanche era mais bonita que ela?
Claro que não!
Faltava-lhe somente aquela elegância picante e o alegre cinismo.
Na casa da amiga, Ellen esqueceu os pensamentos que a perturbavam.
Inna, jovial e feliz da vida, apressou-se a contar-lhe as mais recentes fofocas da sociedade.
Um pouco mais tarde, quando a anfitriã saiu para tomar providências quanto ao almoço, Ellen, que andava pelo "boudoir", viu num canto da sala um retrato emoldurado, que não notara antes.
Era uma fotografia colorida de duas moças em trajes folclóricos.
Uma delas, jovial e mais encorpada, estava sentada, apoiando-se num ancinho, enquanto a outra, delicada e elegante, segurava capim e flores no avental.
Era encantadora; seu rostinho infantil, fino, com sorriso malicioso, iluminado por olhos grandes, claros e alegres, parecia a verdadeira encarnação da primavera.
A coroa de flores do campo sobre os cabelos escuros e os colares de contas coloridas que enfeitavam seu pescoço, caíam-lhe muito bem.
- Ouça, Inna! De quem é esse retrato?
Essa moça em pé parece a senhora Varatov.
- É ela mesma, antes de se casar.
Ela e minha irmã, Sónia, são grandes amigas.
Quando morávamos em Pavlovsk(3) elas tiraram esse retrato.
Desde aquela época, a pobre Iraida mudou muito, emagreceu demais e, além disso, sofre do coração.
Ellen examinou o retrato com mais atenção.
Sim, aquela realmente era a condessa.
Entretanto, hoje, os grandes olhos cinzentos já não sorriam, a boca adquirira uma expressão séria e enérgica, o rosto alongou-se e pareceu empalidecer.
"Eu também ficarei assim daqui a alguns anos, quando me tornar experiente na complexa arte do fingimento, fé e perdão", pensou Ellen, com um amargo e irónico sorriso.
A chegada do admirador de Inna e de Samburov deu outro rumo a seus pensamentos.
A conversa tornou-se geral.
O jovem hussardo não perdeu tempo e passou a cortejar com afinco a linda Baronesa.
Como era um interlocutor agradável, sua conversa interessou a Ellen.
Ainda sob a influência da raiva oculta do marido, tratou-o com maior amabilidade do que o faria numa outra ocasião.
O belo "leão dos salões" usou todos os seus truques de sedução.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 7:58 pm

Ele já se imaginava como o conquistador da virtuosa americana, quando, no momento em que se preparavam para sentar à mesa do almoço, tocou a campainha e, na sala entrou Evgueny Pavlovitch.
O Barão pediu desculpas pela ousadia de chegar para o almoço sem ser convidado e explicou que se sentia muito solitário em casa.
"Ah! Ele quer me provar que não foi ver a amante", pensou Ellen.
"Como se não tivesse o tempo de vê-la pela manhã inteira."
Inna fingiu satisfação com a visita do Barão, mas, na realidade, ele constrangeu o ambiente, impedindo, com sua presença e conversa, o diálogo de ambos os pares.
Apesar da conversa animada, Samburov estava furioso por ter sido atrapalhado quase na recta final da conquista.
Inna e Anatoly também sentiam-se contrariados, pois o passeio que estavam planeando não iria acontecer.
Somente depois que Inna disse ao hussardo que o passeio fora apenas adiado e prometeu-lhe um novo encontro com Ellen, seu rosto desanuviou-se e ele apertou com firmeza a mão de Evgueny Pavlovitch, quando esse partia com a esposa, que se queixava de dor de cabeça.
"Eis a verdadeira amizade", pensou ironicamente Ellen, vendo os dois apertarem as mãos.
"Samburov só pensa em colocar chifres no meu marido, e este em torcer-lhe o pescoço".
Mas os pensamentos maus e vingativos já haviam se dissipado e Ellen pensava com asco o que ganharia trocando o Barão pelo hussardo.
Este pândego entediado divertia-se com a disputa das damas para conquistá-lo.
Interessava-se por mulheres casadas somente para jogá-las na lama e depois, quando se cansava delas, trocava-as por alguma leoa do submundo.
Seu despudor e inconstância superavam até os do Barão.
Na verdade, por ele não valeria a pena decair.
"Mas eu já sabia de tudo isso!", pensou Ellen, com um profundo suspiro.
"Nas minhas palestras, eu desmascarava as maldades dos homens, condenava as mulheres que sentiam amor e aconselhava-as a arrancar do coração, como lixo, seus opressores e traidores.
Pela fria lógica, imaginava ser suficiente desprezar para ser livre, e que era facílimo destruir o sentimento condenado pela razão.
Mas tive de verificar, por mim mesma, que teoria e prática não são a mesma coisa.
Arrancar pela raiz esse sentimento fatal é uma operação bastante perigosa, se não mortal."
Agora, Ellen compreendia melhor as sombrias, caladas e distraídas mulheres que encontrava no abrigo, que trabalhavam maquinalmente, sem jamais sorrir, apesar de terem tudo:
abrigo, salário honesto e poupança.
Pela lógica, deveriam estar alegres e felizes.
Certa vez, Ellen até as considerou ingratas com a Providência e traidoras, por lamentarem o próprio passado, que merecia somente ser desprezado.
Agora, percebia que aquelas aleijadas morais deixaram no campo de batalha suas almas e que seu psiquismo estava seriamente afectado.
Não se queixavam, mas tinham perdido o interesse pela vida.
Esse mesmo cansaço moral dominou Ellen.
Ela queria parar de lutar, ser indiferente e calma.
Retomou a casa sob o peso desse novo sentimento e, pela primeira vez, sentiu necessidade de ficar só.

(1 - Petergof - Cidade periférica de São Petersburgo.
Na época, era local de residência de verão da família imperial e da nobreza em geral.
Após 1944, foi rebaptizada com o nome de "Petrodvorets"
).
(2 - Apolo - Na mitologia grega, deus do Sol, da música, da poesia, da juventude, dos desportos e da caça. Filho de Zeus, representava o ideal grego da juventude e beleza masculina).
(3 - Pavlovsk - Cidade russa, próxima de São Petersburgo).
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:14 pm

Capítulo 16

A partir desse dia, a vida conjugal de Ellen entrou numa nova fase.
O marido continuava delicado e atencioso.
Ele realmente rompera com Blanche, que na verdade o incomodava.
Além disso, um de seus "amigos" pretendia ficar com ela.
O Barão prometera a si mesmo nunca mais arranjar "amigos", mas, como se sabe, o inferno está cheio de boas intenções.
Não era fácil para um homem jovem, bonito e rico, acostumado a anos de vida livre e dissoluta, romper de vez com o passado.
Evgueny Pavlovitch sequer considerava pecado cometer, de vez em quando, insignificantes deslizes em suas obrigações conjugais, desde que Ellen nada soubesse.
Por essa razão, tomava todas as precauções para ocultar suas pequenas escapadelas.
Permanecendo carinhoso e amoroso com a esposa, imaginava que cumpria o seu dever.
Ao mesmo tempo, Ellen esforçava-se ao máximo para seguir os conselhos da condessa.
Substituiu o carinho sincero pela discrição que ocultava seus verdadeiros sentimentos.
Mas esse disfarce não se sustentava e caía constantemente, mostrando o ciúme, a suspeita e a surda raiva de Ellen, que não mais confiava no marido e via traição em todos os seus actos.
Frequentemente, pela própria impetuosidade, ela deixava escapar palavras ofensivas.
No fim de janeiro, Artemiev retornou de viagem e Ellen notou nele uma profunda mudança.
Vladimir Aleksandrovitch tornou-se calado, pensativo, evitava a sociedade, aprofundava-se na literatura religiosa, lia obras espíritas e ocultistas que tratavam do Mundo do Além.
Visitava a filha com frequência, almoçando ou passando as tardes com ela, mas se recusava terminantemente a visitá-la quando ela tinha convidados.
Artemiev era bom observador e percebeu que as relações entre os cônjuges mudaram para pior:
entre eles estabeleceu-se uma tensão de oculta rivalidade, menos evidente em Evgueny, mas notória em Ellen.
Ela se tornava desafiadoramente fria ou ironicamente maldosa e era evidente a sua suspeita.
Certa tarde, pai e filha estavam sentados a sós, pois o Barão fora almoçar na casa de algum amigo, e tomavam café no "boudoir" da jovem anfitriã.
Artemiev observava com tristeza e pena o nervosismo e a sombria preocupação de Ellen.
Finalmente, interrompendo um pesado e longo silêncio, pegou-a pela mão e perguntou carinhosamente:
- O que você tem, Ellen?
É evidente que está infeliz.
Será que confia em mim o suficiente para revelar tudo o que aconteceu entre vocês?
- Aconteceu aquilo que era previsto, ou seja, que não fui criada para ser uma escrava submissa.
Mas, de bom grado, vou lhe contar tudo o que me aflige, pois você é meu único parente no mundo.
Ellen pegou a mão do pai e levou-a aos lábios.
- Obrigado, minha querida, por seu amor, ao qual não sou digno.
Parece-me que você exclui injustamente a Evgueny da lista de seus parentes.
Ele é frívolo e gosta de viver solto, mas na realidade, é honesto e bom.
Se você conseguir dirigi-lo com amor e paciência, no fim vai criar juízo.
- Não tenho grandes esperanças em relação a isso.
Além disso, Evgueny não me ama do modo que eu gostaria e como eu o amo, isto é, ou tudo ou nada!
As vezes eu lhe agrado, mas ele procura na esposa a paixão, e não um carinho tranquilo.
Então, para nós seria mais sensato uma separação.
- O que está dizendo, Ellen?
Como pode pensar em abandonar o seu posto e destruir uma vida que mal está começando?
Acredite, uma separação a faria duplamente infeliz, pois você o ama.
- O que posso fazer?
Perdi toda a confiança nele e não consigo aplicar a condescendência e abnegação que você e a senhora Varatov me aconselham.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:14 pm

Não consigo encontrar o tom de voz apropriado; sinto que a todo momento meu olhar e minha voz não correspondem às minhas palavras.
Eu só passo vergonha.
Artemiev deu um suspiro.
- Certo, minha filha, você realmente não está encontrando o tom correto, mas conseguirá com o tempo.
Ellen endireitou-se, seu olhar inflamou-se e as faces cobriram-se de forte rubor.
- Não, papai! - disse com voz entrecortada.
Somente o nojo, o ódio e o desprezo são fáceis.
Ele poderá me devolver a paz que perdi?
Poderá me recompensar pelos constantes sofrimentos e pensamentos infernais que me torturam?
Será que algum dia ele foi quem deveria ser, ou seja, meu fiel companheiro, partilhando tudo comigo?
Para ele, eu desempenho papel idêntico ao das suas amantes, com a diferença de que não posso ser abandonada ou expulsa.
Que tipo de vida é essa, feita de eternas traições e suspeitas?
Artemiev balançou a cabeça e um discreto sorriso passou pelo seu rosto.
- Você não deveria ser tão ciumenta e importar-se tanto com bobagens passageiras.
No estado de espírito melancólico em que se encontra, talvez acabe imaginando coisas que na realidade nem existem.
- Eu, imaginando coisas?!
- Espere e acalme-se!
Estou somente supondo que pode estar enganada.
Ah, Ellen! Por que não empresta um pouco do equilíbrio e tranquilidade de Iraida Antonovna?
- Oh! Como prémio pela sua vitória ela carrega consigo seis anos de sofrimento e uma séria doença cardíaca - contestou Ellen, com amargura.
Talvez daqui a seis anos, se não me separar ou morrer antes disso, eu também consiga essa indiferença e tranquilidade e me adapte àquela morna atmosfera, onde os cônjuges convivem como apenas bons amigos.
Varatov e a esposa são quase estranhos um ao outro, vivem sob o mesmo tecto, mas não a mesma vida.
Aposto que a Condessa mantém em seu dormitório a mesma afável discrição que apresenta nos salões, diante de estranhos.
Para Vsevolod Dmitrievitch, um bom charuto, sem dúvida, vale mais que a esposa.
Entretanto, quem mais merece amor e respeito senão aquela pura e encantadora mulher, que se destaca pela inteligência?
- É verdade, a senhora Varatov possui uma mente profunda e aguçada; a isso acrescenta um temperamento tranquilo e uma frieza inata.
Ela não tem o coração impetuoso e a cabecinha teimosa de minha filha.
- Você pode estar enganado, achando que somente a frieza do temperamento dá a Iraida Antonovna o auto-domínio que admiramos.
Certa vez, quando disse que me sentia absolutamente indiferente a Evgueny, ela perguntou com um sorriso:
"Quando o Barão não retorna para casa no horário habitual, você fica olhando para o relógio e dorme mal?"
Quando confessei que "sim", ela acrescentou:
"Entenda, querida, quando não mais olhar o relógio para marcar a saída e o retorno dele, quando passar a almoçar e jantar com apetite na ausência dele, somente então poderá dizer que está curada da desgastante febre que o ciúme provoca."
Portanto, foi necessário sofrer e repensar muito para definir, tão precisamente, esse terrível mal.
- Sim, isso foi dito de forma subtil e ácida.
Mesmo assim, insisto em dizer que a Condessa possui uma natureza fria.
Jamais vi em seus olhos o fogo da paixão.
- Você nunca a viu cuidando dos filhos.
Nesse momento, seus olhos brilham com um sentimento tão profundo e ardente que equivale a qualquer paixão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:14 pm

- Pode ser, querida, que Deus também lhe presenteie com um pequeno anjinho, sobre o qual derramará o seu amor, ocupando-se por inteiro e afastando-se dos amargos e nocivos pensamentos - observou Artemiev, apertando a mão da filha.
Ellen inflamou-se.
- Não e não! Não quero isso.
Não vejo nenhum prazer em cuidar de crianças enquanto me colocam chifres.
Não desejo ter um menino, pois odeio todos os homens.
Não quero gerar e educar mais um tirano e malfeitor.
Menos ainda quero ter uma filha.
Eu me repreenderia por gerar uma criatura sem futuro, a quem nada pode proteger do amor fatal, esse sentimento traiçoeiro que vai jogá-la, indefesa, nos braços de algum egoísta depravado.
Este, por sua vez, zombará dela, maculará sua alma e a condenará a vegetar no cumprimento de sua função de mãe e esposa.
Em outras palavras, ele a transformará em sofredora, um objecto muito útil, mas totalmente sem personalidade, como uma panela ou um par de botas.
Tudo isso pode ser muito elevado, mas é pouco atraente.
Ellen bateu o pé nervosamente e crispou os punhos.
- Como pode uma mulher inteligente encarar com tanta limitação as questões da vida? - observou Vladimir Aleksandrovitch com insatisfação.
Gostaria muito de que você se tornasse mãe, pois com essa péssima relação com o marido, vai sentir-se totalmente só quando eu a deixar.
- Você vai me deixar?
Por quê? - perguntou Ellen, empalidecendo.
- Porque sinto uma grande necessidade de isolamento e reflexão.
Gostaria de expiar o meu passado pecaminoso, arrepender-me e pagar meus pecados diante de Deus.
Não posso repará-los diante da falecida, que por duas vezes provou-me a indubitável existência da vida Além-túmulo.
Aqui, em meio ao turbilhão mundano, não consigo isolar-me como gostaria.
Portanto, para me dedicar inteiramente ao arrependimento e à oração, decidi tornar-me um monge.
Já passei alguns meses num mosteiro nos arredores de Moscovo, onde pretendo ingressar.
- Não e não! Isso é loucura!
É impossível! - balbuciou Ellen, fora de si.
- Por que não?
Estou com mais de cinquenta anos e perto da velhice; nada tenho a lamentar, pois esvaziei por completo a taça dos prazeres da vida.
Foi necessário a Providência me castigar pela sua mão, para que caísse o véu do meu orgulho e terminasse a insaciável sede de prazeres.
Agora que meus olhos se abriram, acho justo dedicar à oração e ao arrependimento o resto dos dias de um grande pecador como eu.
Em minha consciência, pesa a morte do ser mais querido e também a sua vida, desviada do caminho natural em razão do meu comportamento criminoso.
Se você tivesse crescido na casa paterna, seria totalmente diferente e as inevitáveis concessões de sua situação actual ser-lhe-iam menos dolorosas.
- Não, papai!
Não se culpe por nada em relação a mim.
Não me deixe!
Não consigo aceitá-lo como um monge.
Seria o mesmo que morresse!
Ellen, em lágrimas, pulou no pescoço do pai cobrindo-o de beijos.
- Minha querida, você quer que eu desista de um desejo indispensável.
Juro que para mim é muito difícil ficar aqui, no meio dessa sociedade que não suporto mais.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:14 pm

- Mas você pode se isolar em qualquer lugar e lá dedicar-se ao estudo e à meditação, que elevam o espírito e ampliam a nossa visão de mundo muito mais que o estreito clericalismo de uma vida monástica.
Vi, no seu quarto, obras sobre Espiritismo e Ocultismo.
Estude essa interessante ciência que lhe revelará um mundo invisível, e talvez lhe dê a possibilidade de entrar em contacto directo com o espírito de mamãe.
Expiar seus pecados e fazer o bem é possível em qualquer lugar, pois a desgraça e a infelicidade se espalham em abundância por todo lado.
Você pode até levar uma vida monástica sem ser um enclausurado, sujeito a regimes desgastantes e limitações espirituais que, com o tempo, certamente tornar-se-iam insuportáveis.
Ouça o que tenho a lhe propor.
Vamos juntos a Boston.
Lá, no centro do movimento espiritualista, encontrará médiuns poderosíssimos que lhe facilitarão o estudo da região do Além.
Se não suporta mais viver na cidade, podemos nos instalar em minha casa de campo, parecida com um pequeno castelo, no meio de um grande jardim.
Lá, encontrará até uma bela biblioteca, pois aquela casa foi construída por um inglês que estudava magia, considerado louco.
Quando faleceu numa expedição, comprei a vila com toda a mobília.
E, então? Aceita?
Verá como viveremos felizes lá.
Acho que até a mamãe ficará satisfeita se você for orar no túmulo dela - concluiu Ellen, abraçando o pai e encostando a cabeça em sua face.
Visivelmente comovido, Artemiev apertou a filha ao peito.
Nas palavras dela havia muita verdade.
A alma dele, obscurecida pelos pecados e torturada pelo remorso, ansiava pela luz.
Milhares de questões acumulavam-se em sua cabeça, mas no fundo ele era por demais independente para achar a solução de seus problemas nos estreitos limites da vida monástica.
- Que assim seja! - disse ele, após um curto silêncio.
Concordo com a sua proposta e desisto de ser monge, mas na seguinte condição.
Vou sozinho para Boston, enquanto você promete permanecer em seu posto, fazer tudo para reconciliar-se com Evgueny e tornar sua vida mais suportável.
Entretanto, se você se convencer de que não consegue manter uma convivência decente, escreva-me e juntos decidiremos como agir.
O barulho da equipagem parando junto ao portão impediu-a de responder, e ela correu para a janela.
- Evgueny chegou - disse Ellen, olhando pela janela.
Bem, papai, vou sumir!
Diga-lhe que fui à casa da senhora Varatov.
Isso não será mentira, pois vou experimentar um vestido, e depois realmente irei visitar Iraida Antonovna, que está adoentada.
Você, fique aqui! Volto para o chá.
Jogando um beijo para o pai, ela saiu sem esperar resposta.
Alguns minutos mais tarde, o Barão entrou mo quarto.
- Está sozinho, Vladimir?
Pensei que Ellen estivesse aqui - disse ele, apertando a mão do sogro.
- Ela acabou de sair.
Foi à casa da senhora Varatov, que está doente.,
Evgueny Pavlovitch jogou-se no divã e acendeu um charuto.
- Não entendo que prazer minha esposa encontra na companhia da condessa.
Detesto a ostensiva frieza dela e seu jeito de olhar a todos com ar superior.
Ela é muito estranha e sua influência pode ser prejudicial a Ellen.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:15 pm

- Você se engana.
Seria óptimo se Ellen conseguisse adquirir o equilíbrio e a tranquilidade da senhora Varatov, que o próprio Conde é o primeiro a louvar.
- Oh! Ela não o constrange, o que acho absolutamente justo.
Mas, em compensação, eles se interessam tanto um pelo outro quanto esta casa se interessa pela casa em frente.
- Essa é uma das boas qualidades de Iraida Antonovna, e você não pode discordar disso.
Mas deixemos a Condessa em paz e conversemos sobre você.
Em seguida, colocando a mão no ombro do genro, Vladimir Aleksandrovitch acrescentou:
- Temo que sua vida conjugal também não esteja um mar de rosas.
- Realmente, nem dá para falar de rosas - disse Evgueny Pavlovitch, jogando longe o charuto com um gesto de insatisfação.
E difícil para mim falar de sua filha, pois Ellen possui um carácter que pode acabar com a paciência de um santo.
Não consigo conceber o tipo de marido que ela deseja!
Alguém como um cãozinho conduzido na corrente, ou um marionete controlado por cordéis?
Na opinião dela, o marido deve estar atado à sua saia, sem outra ocupação a não ser admirá-la e cortejá-la como um noivo.
Assim que deixo de corresponder a esse ideal, começam imediatamente escândalos, lágrimas, repreensões, cara feia.
Isso é um verdadeiro inferno para mim e diversão gratuita para a criadagem.
Ela desaparece quando chego e me deixa almoçando sozinho ou, por causa das suspeitas, muda-se do dormitório para o "boudoir" e começam as infindáveis cenas.
Você entende que esse tipo de vida é insuportável.
Amo Ellen demais.
Você tem a minha palavra, mas, após um ano de vida conjugal, não se pode ficar flertando eternamente.
Isso seria total estupidez na vida íntima, mas ela não quer entender que não posso deixar de existir como indivíduo e desistir de todas as minhas amizades.
- Naturalmente, as exigências dela são exageradas.
Mas, diga-me sinceramente, você nunca deu motivos para ela suspeitar de você?
Nunca foi pego em flagrante?
Evgueny Pavlovitch ficou um pouco embaraçado.
- Sim, houve alguns probleminhas da minha parte, mas o pior de todos foi aquele maldito caso!
O Barão contou sua relação com Blanche Clairval, a antiga amizade dela com Ellen e o malfadado aparecimento dele no momento da briga entre elas.
- Como poderia eu saber que aquela vagabunda era amiga de minha esposa? - prosseguiu Ravensburg com irritação.
Entrei, e... buuum!
Senti vontade de mergulhar de cabeça no chão quando vi Ellen com meu bilhete na mão e meu retrato jogado a seus pés.
Vladimir Aleksandrovitch desandou a rir.
- Realmente, sua situação foi trágica.
Como se safou?
- Trouxe a esposa para casa e depois tentei consertar tudo.
Ellen fingiu me perdoar, mas seu comportamento comprova que guarda rancor, suspeitas e ciúmes de mim.
Oh! Ela é ciumenta demais!
Isso, às vezes, fica até muito divertido:
ela quer demonstrar indiferença mas seus olhos ardem de ciúmes.
Foi a vez do Barão de rir.
- Num momento de irritação, até escrevi e coloquei no bolso do paletó alguns bilhetinhos suspeitos, que naturalmente desapareciam; minha amável esposa me presenteava com palavrinhas azedas e indirectas, nada elogiosas em relação a essa falsa correspondência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:15 pm

- Isso não foi correto de sua parte, meu amigo.
Você está atacando o fogo em vez de apagá-lo.
Com o carácter de Ellen, tais brincadeiras podem ter um desfecho muito ruim.
Ela é impetuosa, desequilibrada e, infelizmente, por minha culpa, recebeu uma educação muito estranha.
Você deve ser bem cuidadoso, paciente e não ficar provocando-a.
- Juro que estou tentando criar juízo, volto cedo para casa, sou carinhoso e atencioso, mas nada funciona.
Minha única esperança, meu maior desejo, é ter um filho.
Isso mudaria tudo completamente e daria a Ellen uma ocupação salvadora.
O anúncio do mordomo sobre a chegada do Conde Varatov impediu Artemiev de responder.
Elegantemente vestido e alegre, o Conde viera convidar Evgueny Pavlovitch para um piquenique; o programa era tão atraente que o Barão ficou entusiasmado, mas Vladimir Aleksandrovitch recusou terminantemente, apesar da insistência de ambos.
Enquanto Evgueny Pavlovitch trocava de roupa, Artemiev perguntou pela saúde da condessa, pois ouvira falar que ela estava adoentada.
- Oh! Ela só está com enxaqueca e levemente nervosa - respondeu Varatov, despreocupado.
Ellen demorou um pouco no quarto e, sem nada suspeitar, quis passar desapercebida pelo corredor da criadagem.
O barulho de vozes a deteve junto à
Seu marido e o Conde preparavam-se para partir e tentavam convencer Artemiev a acompanhá-los.
Ellen voltou-se com irritação, desceu pela escada de serviço e foi embora, antes que o Barão e Varatov saíssem.
- Asquerosos, vândalos, ficam aliciando um ao outro, sem um pingo de decência e respeito - murmurou com indignação.
Iraida Antonovna recebeu Ellen no dormitório, deitada na cama após o banho.
- Desculpe, querida, por recebê-la assim, mas estou contente com a sua vinda - disse ela, apertando a mão da visitante e indicando-lhe o assento.
Ellen perguntou sobre a sua saúde e, mentalmente, admirou a beleza da condessa, surpreendendo-se sinceramente de como o Conde podia preferir aquelas vulgares e mercenárias criaturas que apareciam em seu caminho.
Realmente, Iraida Antonovna parecia a verdadeira encarnação da nobre graça em sua camisola branca de seda com grande gola rendada, os cabelos cheios e soltos, a palidez do rosto fino e as maravilhosas e clássicas mãos.
- Pelo olhar irritado, vejo que temos novidades - disse a condessa, após um curto silêncio.
- Não, nada mudou.
O meu amo e senhor foi festejar em algum lugar, junto com o seu marido, que foi buscá-lo em casa.
- Verdade?
- Você não sabia disso?
- Não. Jamais pergunto a meu marido aonde vai e o que faz.
Não conheço o ambiente que ele frequenta, pois nada tem a ver comigo.
- Mas eu sempre pergunto a meu marido aonde ele vai.
- E acha que fica realmente sabendo mais com isso? - perguntou a Condessa com um sorriso irónico.
- Você acha que ele mente?
Também penso assim, pois anda frequentemente em carruagens de aluguel, para que nosso cocheiro não o denuncie.
- Está vendo?
Acredite em mim e siga o meu exemplo: não controle, não espione, não complique aquilo que já é muito complicado, e o principal: perdoe e perdoe sempre!
- Tento seguir seu método, mas não me sinto melhor com isso.
Uma vida caseira, cheia de mentiras e hipocrisia, quando não se pode desabafar, é uma vida privada do doce e caloroso sentimento da cumplicidade, um verdadeiro inferno!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:15 pm

Às vezes, me parece que a morte, mesmo intencional, é preferível a esse tipo de existência.
A Condessa acenou com a cabeça.
- Tem razão! Morrer, é mais fácil que viver.
Mas será que temos o direito de dispor à nossa vontade do dom sagrado da vida?
Geralmente, uma mãe de família cumpre como um severo déspota o dever que a impede de abandonar crianças inocentes em mãos grosseiras de aluguel ou à tutela do pai, que nunca tem tempo para elas.
Por mais infeliz que sua mãe tenha sido, ela não escolheu a morte; cuidava de você e, naturalmente, gostaria de viver ainda mais para não deixá-la sozinha.
Sem filhos, você é livre para dispor da própria vida; mas, em razão dos pequenos tropeços, por mais amargos que tenham sido, pense bem se não vale a pena assumir a grande responsabilidade de estudar a religião e a comunicação com o mundo do Além.
A vida é tão curta, tão frágil, e nos arrasta com tão alucinante velocidade para o túmulo, que, realmente, é possível colocar-se acima de suas desgraças, submetendo-se com abnegação e paciência à misteriosa lei do karma, a lei das provações e expiações, que são inevitavelmente vividas em cada existência terrena.
Se conseguir elevar-se desse modo, superando a resistência da came, isso significará que o destino foi vencido.
A vitória lhe trará a paz e o que ontem lhe parecia uma questão de vida ou morte, parecerá uma banalidade.
- Mas... para tal elevação é necessário desistir de todos os sentimentos humanos e reprimir tudo em si.
- Sim, se a nossa sina é ser reprimidas é porque não temos forças para resistir.
Sem dúvida, não é fácil submeter-se às desconhecidas e severas leis que nos regem.
Eu mesma, nem sempre fui como me vê agora.
Veja aqui!
Com um triste sorriso, Iraida Antonovna afastou os cabelos escuros e mostrou junto às têmporas inúmeros fios prateados.
- Esses cabelos grisalhos são o prémio pela coragem espiritual, obtido no campo de batalha da vida e merecido pela luta interior.
Nos primórdios de minhas decepções, todo o meu ser sofria sob o jugo da humilhação imerecida.
O sangue indómito indignava-se e sussurrava-me vingança; mas uma vingança seria tão baixa e suja quanto a ofensa que eu tinha recebido.
O orgulho deteve-me, jogou um espesso véu sobre minha chaga exposta e vedou-me os lábios, para que nenhuma das mal-intencionadas e vulgares pessoas ao meu redor notasse o meu sofrimento.
Então, numa daquelas horas sombrias, quando o espírito reconhece as próprias forças, um invisível nervo no meu coração quebrou-se.
De repente, fiquei tranquila e senti como se acordasse de um exaustivo pesadelo. Já não sofria, não me indignava nem odiava Vsevolod.
Pelo contrário, amava-o, mas esse sentimento já não era idêntico ao anterior.
Desde então, tudo permaneceu como está até hoje.
Vivo no meu posto, cumprindo sistematicamente minhas obrigações e procurando a solução para os mistérios da vida oculta, como a verdadeira e eterna existência do espírito.
A Condessa animou-se.
Seu fino rosto ficou mais corado pela inspiração e os grandes olhos brilharam mais intensamente com o fogo da alma pura.
Ellen ouvia tudo, cabisbaixa.
Em seguida, apertando a mão da senhora Varatov, observou com amargura:
- A sua benfazeja paz não é outra coisa senão a apatia de uma vida vegetativa.
Assim como um ser mutilado jamais recupera inteiramente a saúde, também um coração ferido não pode ser curado.
Vale a pena levar essa ingrata existência, considerando que nem no futuro haverá qualquer solução?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:15 pm

- Mas, querida, você sabia de tudo isso e, mesmo assim, decidiu se casar.
Como pregadora do "Paraíso sem Adão" teve diante de seus olhos centenas de vidas arrasadas que encontraram no abrigo a paz, e até um pouquinho de felicidade.
Portanto, seja corajosa e, apesar de tudo, acredite no futuro, como eu.
Com sua inata delicadeza, a Condessa mudou o assunto para um tema mais alegre e, aos poucos passaram a falar de coisas mundanas.
Depois, Iraida Antonovna convidou Ellen para tomar chá no dormitório.
Quando a Baronesa se preparou para ir embora, já tinha quase recuperado o bom humor e separaram-se como amigas ainda mais íntimas.
Esse bom humor, entretanto, só durou até chegar em casa.
O pai não estava e Evgueny Pavlovitch ainda não havia retornado.
Enquanto passeava desanimada pelos aposentos vazios e envoltos na penumbra, Ellen foi tomada por um sentimento desagradável, que aumentou ao chegar na soleira da porta do dormitório, fracamente iluminado por um candeeiro.
Em todos os cantos só havia silêncio, vazio e escuridão, o emblema de sua vida solitária.
Sentindo um tremor nervoso, ordenou a Sara que acendesse a lâmpada na cómoda e no "boudoir".
Em seguida, trocando o vestido por um penhoar branco, dispensou a camareira e foi ler um pouco, pois não estava com sono.
Mas logo se cansou do romance que estava lendo.
Deixando o livro, Ellen ficou pensando sobre a conversa com a senhora Varatov, e quanto mais pensava nas palavras da condessa, mais seu espírito parecia envolver-se numa penumbra cinzenta.
Decidiu acabar de vez com os sonhos de amor e que chegara a hora de entender a realidade e adaptar-se a ela.
Para o seu marido, parecia difícil e desinteressante ocupar-se em satisfazer o amor dela.
Por isso, esse amor era desnecessário, pois existiam meios mais baratos de diversão.
Dela se exigia somente que não o constrangesse, não o cansasse com cenas, lágrimas e exigências, e vivesse a própria vida, fingindo ser feliz.
Ellen suspirou profundamente.
Para afastar esses incómodos pensamentos, decidiu escrever uma carta a Nelly, pois não respondera à última missiva dela.
Não conseguiu encontrar a carta para relê-la e passou a revirar todas as gavetas da mesa.
Encontrou um estojo de marroquina e um pequeno livrinho em luxuosa encadernação, com aplicações douradas.
Abriu o estojo e retirou de lá um pequeno revólver.
Olhou com ar sombrio para o instrumento mortal que tinha nas mãos.
Cada um daqueles tubinhos de aço continha a morte, ou seja, a liberdade, o fim da tristeza, dos sofrimentos do orgulho ferido e de todo o inferno que fervia dentro dela.
Pela primeira vez em sua mente surgiu a ideia de suicídio, atraindo-a como o fogo atrai a mariposa.
Essa solução rápida para todos os problemas tentou sua mente impetuosa e destemida.
Entretanto, dominou a tentação, colocou o revólver de volta no estojo e pensou, jogando-o na gaveta:
"Sempre terei essa saída.
Se o 'Paraíso sem Adão' é uma utopia, a 'morte sem Adão' é uma realidade tangível."
Ellen voltou para o dormitório e deitou-se, mas o sono continuava a evitá-la.
Então, pegou um livro de fábulas filosóficas, de autoria da senhora Varatov, presenteado pela autora.
Ellen gostou do estilo literário da condessa; folheou o livro examinando as ilustrações, também da autora, e começou a ler uma das fábulas, intitulada "O Amor"(1):
"Em todas as épocas, os seres humanos ansiaram por se comunicarem com entes celestes e génios que dirigem suas vidas. Com esse objectivo, sempre tentaram penetrar nos recintos secretos onde, invisíveis aos olhos dos simples mortais, residem os grandes condutores que inspiram e dirigem as almas para grandes realizações ou para crimes.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:16 pm

Uma alma, chamada Psique, preparava-se para deixar o Céu, descer a Terra e revestir-se da pesada cobertura da carne.
Era uma alma feminina e, portanto, curiosa.
Por isso, antes de deixar sua pátria celestial, decidiu experimentar criteriosamente tudo, principalmente o amor, que todos devem suportar na Terra para alcançar a bem-aventurança, o qual, entretanto, traz mais tristezas do que alegrias.
Ela pretendia levar o verdadeiro conhecimento sobre esse estranho e traiçoeiro sentimento às suas irmãs terrenas.
Então, pôs-se a caminho, passeando pelas alegres e perfumadas alamedas do Paraíso, enfeitadas de flores.
Primeiramente, chamou-lhe a atenção um enorme templo, de arquitectura etérea e especial.
- Este é o templo das artes.
Entre sem medo!
Mulheres também são admitidas aqui - disse um pequeno querubim, sentado na soleira e brincando com as flores.
Psique entrou curiosa no amplo edifício iluminado por raios brilhantes, onde génios em vestes brancas ocupavam-se de trabalhos artísticos.
- Aproxime-se, filha terrena! - disseram, saudando-a com sorrisos.
A mulher é tão capaz quanto o homem de entender a arte e coroar-se com a estrela da genialidade.
Eles a deixaram admirar a beleza celestial sob todos os aspectos.
Embevecida com tal perfeição e constrangida pela necessidade de ter de deixar o Céu para descer à humilde Terra, Psique expôs em ímpetos harmónicos todas as suas alegrias e tristezas terrenas, suas lamentações e saudade da pátria celestial.
A Pintura, que a observava com um sorriso, iluminou-a com luzes coloridas e soprou vida em sua obra.
Em seguida, os génios da Poesia e da Escultura beijaram Psique, e em sua testa brilhou a estrela da inspiração celestial.
Saindo do Templo das Artes, Psique dirigiu-se a uma ampla área, cercada de árvores gigantescas, onde havia seis pequenos templos, três de cada lado, todos enfeitados com emblemas.
A alvura deles destacava-os no fundo escuro da espessa folhagem.
Entre esses templos, havia uma surpreendente edificação, que superava a todos por suas dimensões.
Parecia feita de ouro e pedras preciosas.
Os raios que saíam de suas paredes iluminavam tudo em volta, como um Sol.
Entretanto, o interior do prédio era escuro e parecia imerso numa neblina distante.
- É a morada das sete virtudes - explicou o génio que acompanhava Psique.
Lá, no primeiro templo, à direita, mora a Justiça.
Visite-a primeiro!
Psique atravessou a soleira da porta com respeitosa emoção, fez uma profunda reverência diante de uma mulher de beleza clássica, sentada num trono de pedra.
Seu olhar era penetrante como o fogo e as vestes brilhavam como raios de luz.
- Aproxime-se filha terrena! - disse com voz metálica, colocando a mão sobre a cabeça baixa de Psique.
Vou preencher sua mente com meu sopro, para que possa julgar com justiça o próximo.
Mas, para utilizar esse dom sem a influência da ira ou da paixão, peça às minhas irmãs que lhe concedam os seus dons.
No templo vizinho, Psique encontrou a Paciência, dócil, delicada e de triste olhar.
Esta a abraçou.
- Aproxime-se, para que eu impregne todo o seu ser com o meu sopro!
Você é mulher e, mais que todos os outros, precisará de mim a cada passo de sua vida.
A paciência é o lema da mulher.
No templo vizinho, morava a Vontade.
Seu rosto era pálido, austero e belo; os lábios, firmemente apertados, e o olhar dos grandes olhos escuros era imóvel e inabalável, como o próprio destino.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:16 pm

Trajava uma túnica cor de aço.
- Todos os dons são infrutíferos se não houver a força de vontade para aplicá-los - disse ela, com voz poderosa.
Portanto, filha terrena, aprenda somente o bem.
Levantou a mão e dela partiu um raio que transpassou como uma flecha de fogo o cérebro de Psique.
Ela se sentiu surpreendentemente mais forte.
Em seguida, entrou num dos três templos do outro lado da clareira.
Esse templo emitia uma luz delicada e vivificante; na soleira da porta estava uma mulher jovem, de aparência tão doce e agradável que Psique sentiu uma incontrolável simpatia por ela.
No peito daquela mulher via-se um coração que palpitava e ardia como fogo.
A mulher cobriu Psique com sua capa resplandecente de raios róseos e dourados, e disse:
- Sou a Bondade.
Vou dar-lhe o dom da comiseração e o desejo de ajudar.
Cubra com a doçura de seu coração todo ser sofredor, como a estou cobrindo com minha capa.
Em seguida, pegou Psique pela mão e conduziu-a ao templo vizinho.
- Eu mesma vou apresentá-la às minhas duas irmãs.
Elas são:
Sacrifício e Perdão.
Somos inseparáveis e aquele que recebe uma de nós, deve receber também as outras duas.
Uma penumbra pálida envolvia o templo de Sacrifício, delicado e transparente, de contornos etéreos e vagos.
Sacrifício pairava acima do solo, sustentada por grandes asas prateadas; suas vestes amplas e cinzentas pareciam dissipar-se no ar e os grandes olhos azuis eram infinitos e impenetráveis, como o oceano na calmaria.
- Pareço intangível e incorpórea como a fumaça que uma lufada de vento pode dissipar.
Entretanto, meu ser é mais firme que o granito - disse com voz harmoniosa e ligeiramente rouca.
Minhas asas são mais leves que o vento e, ao mesmo tempo, mais duras que o aço; elas me conduzem sobre precipícios e os mais intransponíveis obstáculos.
Apesar da fragilidade aparente, sou mais forte que as minhas irmãs, que podem fraquejar e cair, vencidas pelas dificuldades do caminho ou pela ingratidão humana.
Eu, entretanto, passo por cima de tudo isso, sem nada ver ou sentir, pois me delicio com o mais doce néctar celestial: a abnegação.
Ela entregou a Psique uma pequena ânfora azul e transparente como cristal.
Quando ela bebeu o conteúdo da ânfora, sentiu-se leve e forte como nunca.
Com o coração cheio de fé e enlevo, entrou no templo do Perdão.
A alta e imponente figura que a recebeu, de olhar profundo e enérgico, lembrava-lhe a Vontade.
- Saiba, filha terrena, que represento a união das qualidades das minhas irmãs.
Quando se estuda e se compreende a essência da Justiça, Paciência, Sacrifício e Bondade, então, perdoam-se os erros e fraquezas humanas.
Saber tudo, significa perdoar tudo.
Portanto, filha terrena, perdoe de todas as formas.
Entenda a minha essência: eu curo as chagas espirituais, o ódio, a injustiça e a crueldade.
Pisoteio os sete pecados capitais e estes rastejam ante mim, bradando de raiva, impotentes, por estarem acorrentados e envenenados pelas próprias paixões, das quais zombo.
Perdoe e será forte!
Os ferimentos que lhe causarão irão desaparecer e você aliviará pela metade o peso da cruz que carrega.
Perdoe, tenha fé, esperança e estará firmemente subindo pela estreita e íngreme trilha da perfeição.
Psique, emocionada, parou finalmente diante do estranho e intrigante prédio ao fundo da clareira.
Lá estavam reunidas todas as Virtudes e os génios da Arte.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:16 pm

Psique notou que a entrada do templo estava fechada por uma cortina de um tecido jamais visto:
ele vibrava e ondulava, parecendo tanto ser brilhante quanto sombras compactas.
A cada movimento da cortina, emanava um maravilhoso perfume que, em seguida, se tornava áspero e sufocante.
Os sons que provinham do interior do edifício também eram contrastantes.
Ora se ouvia uma música divina, como um hino das esferas celestiais, ora tudo se confundia num agitado estrondo de sons distorcidos e cortantes, como gemidos e gritos de pessoas enlouquecidas de terror e de sofrimento, causado por torturas desumanas.
Encantada com a harmonia celestial, Psique sentia-se atraída por esse misterioso templo.
A felicidade insana que a dominou fê-la esquecer o Céu e as Virtudes.
Já estava subindo os degraus, quando estacou e recuou, assustada:
aos seus ouvidos chegaram gritos de sofrimento.
- O que significa isso? - perguntava-se ela.
- Aqui mora o Amor.
Do templo dele provêm tanto hinos de felicidade quanto esse caos sonoro - responderam as Virtudes e os Génios.
Psique, não atravesse essa soleira!
Aquele morador não será seu amigo, nem tutor, mas impiedoso inimigo.
Nós armamos e enfeitamos você e lhe demos suporte na vida; mas aquele que vive no templo lutará contra você, e a submeterá a infinitos sofrimentos, se descuidadamente provar do veneno de sua taça.
Assim que o provar, ele se espalhará por todo o seu ser e você não mais desejará viver sem essa bebida.
Está ouvindo os gritos?
São os lamentos de suas vítimas, pois nos altares do Amor não são queimados incensos, mas sim palpitantes e martirizados corações humanos.
Psique ouvia, trémula.
Esse duplo mistério a atraía e afastava.
Naquele instante, ouviu-se novamente o canto divino, e um estonteante sentimento de bem-aventurança apoderou-se de Psique, fazendo-a esquecer tudo.
Como se fosse levada por uma onda, subiu os degraus e afastou a cortina que cobria a entrada.
Viu-se, de repente, diante do altar do todo-poderoso mandante do mundo.
Diante do olhar embevecido de Psique, o Amor levantou-se sorrindo, ciente da própria glória.
Seu torso parecia iluminado pelos raios do sol nascente; sobre a cabeça, um gigantesco facho de luz formava uma coroa; os cachos dourados emolduravam sua testa lisa, sem qualquer ruga nem preocupação.
Um lindo sorriso brincava nos lábios rubros do rei, para quem não existiam dúvidas sobre o passado, nem desgraças e desilusões no futuro.
Ele admitia somente a bem-aventurança do presente.
Estendendo para Psique uma taça cheia de um líquido púrpura, o Amor dirigiu-lhe um olhar dominador, ao qual ninguém conseguiria resistir.
Então, disse com voz sonora e harmoniosa:
- Pequena alma humana, perca as esperanças de proteger seu coração do fogo do meu altar.
Agora que chegou aqui, aos meus pés, está perdida!
A dúvida, o medo e o sofrimento não conseguirão detê-la; seus lábios, eternamente sedentos, irão procurar; sem descanso, a taça que contém o prazer celestial, para saciar com ele sua sede.
Sou a encarnação do mais poderoso motor do Universo.
Todos me reverenciam, desde o átomo até o arcanjo; sobre meus altares derrama-se a essência de qualquer coração, desde o mais puro até o mais asqueroso.
Sou a verdadeira essência da vida.
Mas só concedo a felicidade àqueles que entendem o verdadeiro sentido do meu ser.
Saiba que sou, ao mesmo tempo, o Céu e o inferno!
Eis a minha taça!
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:16 pm

Beba, se tiver coragem!
Psique vacilava e tremia, sentindo não ter forças para resistir.
Estava irresistivelmente atraída pelo grande mistério estampado no rosto do Amor, que não conseguia decifrar, apesar dos dons que recebera.
O passado desapareceu de seu espírito, dominado pelo presente.
Com a mão trémula, pegou a taça - essa taça sempre cheia por alguém, por cada um daqueles que querem compreender, se apoderar da solução do mistério - e a esvaziou.
Imediatamente sentiu-se elevada nas asas do êxtase e vibrava com a incomparável bem-aventurança.
Porém, à medida que o êxtase diminuía, seu coração se enchia de dúvidas, amargura, e da insaciável sede que o Amor obriga a pagar por um curto momento de felicidade.
Num gesto de doentia súplica, Psique estendeu as mãos para a inebriante bebida, ansiando matar a sede.
Mas a taça estava vazia para ela, e não mais se encheria.
Psique morria de sede e gemia de dor e tristeza, olhando para o Amor, parado à sua frente, com ar frio e triunfante.
De repente, notou que o autoritário deus começou a mudar surpreendentemente de aspecto.
O rosto, que respirava orgulho e triunfo, tornou-se harmonioso e tranquilo.
As cores ofuscantes, que impediam vê-lo direito, adquiriram tons infinitamente delicados.
Em seguida, uma névoa lilás envolveu a figura do deus, ocultando-o de Psique e deixando visível somente a mão erguida com a taça.
Eis que do fundo da taça vazia surgiu um ser pequenino e luminoso, de corpinho róseo e delicado, cabelos encaracolados e olhos profundamente azuis.
O pequenino esticou os bracinhos rechonchudos, abriu um sorriso encantador e balbuciou com voz tímida:
- Pegue-me e me ame!
Ensine-me as virtudes que lhe deram.
Faça de mim alguém útil, digno de ser chamado de "ser humano", que entende o verdadeiro sentido das palavras amor e dever.
Esquecendo a própria sede, Psique agarrou a criança e apertou-a ao peito.
Uma corrente cálida e vivificante percorreu seu corpo e uma solene paz lhe encheu o coração martirizado.
Desapareceu toda a raiva.
Não estaria o Amor pagando seus sofrimentos com um presente inestimável?
Não estava ela segurando em seus braços uma alma que lhe fora confiada para ser conduzida para a luz da perfeição?
Sob a influência desse novo e poderoso sentimento, Psique sentiu asas nascerem em suas costas e encheu-se de força sobre-humana para cuidar daquele ser, confiado ao seu amor, ajudá-lo a superar quaisquer obstáculos na vida e protegê-lo do perigo.
O Amor apareceu novamente.
Mais calma e equilibrada, Psique, que já olhava sem amargura para a taça vazia, notou que o Amor aumentava e adquiria uma luz cada vez mais brilhante.
Uma coroa de lírios enfeitava-lhe a cabeça e prendia um véu róseo com reflexos dourados.
Como um grande manto, o véu cobria inúmeros seres; desde um insecto até um ser humano.
Uns estavam saudáveis, outros mutilados e doentes, mas todos se aconchegavam a ele, procurando calor e luz.
Psique notou, surpresa, que sobre ela fora colocada uma capa ampla e quente.
Parte dos seres que se reuniram aos pés do Amor, abrigaram-se também perto dela.
Sentiu, repentinamente, um indescritível amor e compaixão por aquelas almas que ocupavam todos os degraus da escala do aperfeiçoamento e atravessavam o duro caminho das provações.
Inclinou-se e abraçou a todos, enquanto lágrimas de comiseração, quentes como fogo e brilhando como diamantes, rolavam de seus olhos.
Então, o Amor estendeu sua taça, colheu essas lágrimas e disse:
- Agora você entendeu o verdadeiro sentido do meu ser.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:16 pm

O inebriante amor sensual é passageiro, misturado com amargura.
O amor materno lhe deu asas, enquanto o amor para com todo ser vivo provocou-lhe lágrimas que se incendiaram na minha taça.
Veja! Elas refulgem como o fogo eterno, que aquece mas não queima.
Todos os dons que lhe deram as Virtudes e os Génios permaneceriam forças mortas e infrutíferas, até serem vivificados pela chama do verdadeiro amor.
Vá para a Terra e pratique a justiça, a misericórdia, o sacrifício e o perdão, inspirando-os com o amor.
Cante louvores para mim na arte.
Ensine pessoas a entenderem e aplicarem a minha força sagrada em tudo e eu os livrarei da amargura oculta no fundo de minha taça!
Psique saiu concentrada e silenciosa do templo onde entendera o sentido da vida.
Numa das mãos trazia a criança, e na outra a taça, onde queimava, iluminando-lhe o caminho, a chama do amor pela humanidade.
Logo apareceu diante das Virtudes que a aguardavam.
Ali mesmo, dois anjos seguravam um grande espelho.
Psique viu, com surpresa, que seus cabelos negros embranqueceram como a neve e que uma coroa de espinhos enfeitava sua fronte com um rubro esplendor.
- O que significa isso? - balbuciou, surpresa.
- É o triunfo da sábia alma, que suportou corajosamente a provação terrena, com suas grandes desgraças e sacrifícios e retornou à sua pátria celestial, ornada por respeitáveis cabelos brancos e uma coroa mágica, na qual cada pedra preciosa atesta uma vitória sobre si mesma - responderam os luminosos habitantes do Céu.
Em seguida, entregando a Psique um ramo de palmeira, acrescentaram:
- Pegue esse último símbolo e ensine às suas irmãs terrenas o sentido do verdadeiro amor!
Os homens o procuram, mas não conseguem encontrá-lo, pois desejam apenas beber da taça inebriante e, como cegos, passam sem notar a grande força que é a base do Universo e ilumina a alma em suas provações terrenas."
Ellen fechou lentamente o livro e deitou a cabeça nas almofadas.
Lágrimas quentes corriam por suas faces e um sentimento agudo, mas sem qualquer sombra de amargura, preencheu sua alma.
O que lera não parecia correto?
Não fora ela feliz enquanto trabalhava com fé e amor em favor da humanidade?
Acabou passando indiferente pelo grande motor do Universo quando começou a procurar apenas a satisfação do desejo egoísta de amar e ser amada e, com orgulho e ira, exigir a bebida inebriante.
Sim, a condessa, mesmo não sendo doutora em filosofia como ela, decifrara muito melhor o grande enigma da vida.

(1) - "O Amor" - Este conto, originalmente publicado neste livro em 1898, foi posteriormente agrupado a outros contos de Rochester em uma colectânea e publicado na França em 1901 sob o título "Récits Occultes" ("Narrativas Ocultas").
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:17 pm

Capítulo 17

Os dias seguintes corriam tranquilos.
A impressão causada pela fábula foi tão forte que abafou o ciúme doentio de Ellen e incutiu-lhe sentimentos mais apaziguadores.
Além disso, a partida do pai para a América ocupou-a e afastou os pensamentos sombrios.
Ellen mantinha uma activa correspondência com Nelly e seus procuradores, a fim de tomar as providências necessárias para que a residência em Boston e a vila nos arredores ficasse pronta para receber Artemiev.
Sentia grande prazer em receber o pai em sua casa e cercá-lo das maiores atenções.
Além disso, deu ao pai cartas para a senhora Oliver e alguns espíritas conhecidos, pedindo-lhes que o levassem aos verdadeiros médiuns, suficientemente fortes para dar-lhe a possibilidade de entrar em contacto com o mundo do além.
Em fins de março, Artemiev partiu; ficou decidido que no outono o jovem casal iria a Boston passar um mês com ele.
Nos primeiros dias de maio, os Ravensburg se mudaram para Petergof, para passar o verão.
As boas relações entre os cônjuges continuaram, mesmo com momentos de certa tensão.
Às vezes, estavam carinhosos e apaixonados como nos primeiros dias de casamento; outras, em virtude de alguma suspeita sem fundamento que a perturbava, ela tratava o marido com reservas.
Entretanto, não desejava perder o controle e, por isso, o clima permanecia amigável e as nuvens de tempestade acabavam se dissipando rapidamente.
De repente, um acontecimento inesperado interrompeu essa paz, abatendo todas as sensatas decisões de Ellen.
Era início de julho.
Certo dia, Evgueny Pavlovitch chegou para almoçar, visivelmente preocupado.
Durante a sobremesa, declarou que, por causa de uma carta que recebera da mãe pela manhã, precisava ir a Paris por umas duas semanas.
- Preciso organizar alguns negócios familiares.
Parto hoje à noite e tentarei retornar o mais rápido possível.
Pela urgência, e como a viagem é exaustiva, minha querida, não posso levá-la comigo, como gostaria - acrescentou o Barão, beijando a esposa.
A suspeita passou pela mente de Ellen.
Contudo, sabia que a mãe do marido ficara viúva do segundo casamento com um francês, e vivia no estrangeiro.
Apesar de manter relações tensas com o filho, era possível que ela exigisse sua presença para acertar algum negócio familiar.
Essa ideia fez Ellen acalmar-se.
Cuidou pessoalmente da arrumação das malas e depois acompanhou o marido à estação ferroviária.
Despediram-se carinhosamente, prometendo se corresponderem com frequência, apesar da curta separação.
À noite, ao despi-la, Sara contou-lhe que o Barão recebera um telegrama, que o perturbou terrivelmente, quando retornava de um passeio.
Além disso, Sara entregou a Ellen um pequeno molho de chaves que encontrara no tapete, que o Barão devia ter perdido quando trocava de roupa para a viagem.
As suspeitas de Ellen retornaram.
Começou a procurar o telegrama e, finalmente, o encontrou na escrivaninha do marido, entre um monte de papéis, visivelmente revirados às pressas.
O conteúdo da mensagem deixou-a nervosa:
"J. pela manhã deu à luz uma menina.
A situação piora.
Quer vê-lo e confiar-lhe a criança.
Apresse-se!
Vive somente de esperança.
Berten."
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 7:17 pm

Tremendo como estivesse com febre, Ellen desabou na poltrona.
Sua cabeça girava.
A amargura e o ciúme apertavam dolorosamente seu coração.
Então, essa era a verdade!
Não era a mãe, mas uma amante convocava aquele mentiroso e traidor!
Ellen não duvidava nem por um instante de que a "grave doença" fora inventada pela miserável, que aproveitava o motivo para obrigar o amante, sem carácter, a ir vê-la e fazê-lo interessar-se por seu rebento.
Talvez, dentro de duas semanas ou um mês, o marido traria a mãe e a filha para São Petersburgo e, às escondidas, se deleitaria com a alegria de ser pai.
Ellen ficou tão indignada que, num piscar de olhos, desapareceram todas as suas boas intenções de concordância, perdão e paciência.
Não! Ela não queria mais perdoar, nem suportar tão vil escárnio.
Ia se vingar e abandonar para sempre aquele miserável.
Em vez de ficar esperando-o feito uma imbecil, iria para Boston, morar com o pai.
Lá, na América, estaria em casa e saberia se defender!
Mergulhada em sua ira e planos de vingança, no dia seguinte voltou para a cidade e começou a preparar-se, às pressas, para partir.
Em três dias conseguiu arrumar tudo, decidindo partir no trem nocturno.
Tinha ainda um dia inteiro a sua disposição.
Para encurtar essas torturantes horas de espera, decidiu ir se despedir da senhora Varatov, que não via há cerca de um mês; corriam boatos de que o Conde estava gravemente enfermo.
Iraida Antonovna morava num bairro nos arredores de São Petersburgo, onde acampava o regimento de seu marido.
Ellen conhecia o endereço, e a equipagem de aluguel levou-a a uma grande e luxuosa casa de campo, cercada de sombroso jardim.
Perto do portão de entrada, numa clareira ensolarada, encontrou as crianças brincando, sob a vigilância da governanta.
Ellen beijou-as e perguntou se a Condessa estava em casa.
Então, ficou sabendo que a vida do Conde, durante dez dias, ficara por um fio.
A Condessa cuidara dele incansavelmente todo o tempo, tanto que temiam que ela também adoecesse.
Mas agora estava tudo bem.
Há alguns dias o médico autorizara levar o paciente para o terraço, numa cadeira de rodas.
Ellen agradeceu à governanta a gentileza de anunciá-la, dizendo que encontraria pessoalmente o caminho para a casa, que se vislumbrava através da folhagem.
Saiu andando, pensativa, pela alameda lateral.
Ao aproximar-se da casa, notou por entre as árvores um amplo balcão coberto por um toldo.
Numa grande e confortável poltrona com rodas, sentava-se o conde.
Trajava uma túnica militar caseira e tinha sobre as pernas um cobertor de pelúcia.
Estava muito envelhecido, mas seu rosto magro iluminava-se com a alegre tranquilidade que se nota em doentes que escaparam da morte.
Junto à poltrona, Iraida Antonovna pingava umas gotas num cálice com água que, em seguida, ofereceu ao marido.
Este tomou o remédio e, abraçando a esposa, beijou-a.
Com um profundo suspiro, Ellen abandonou seu posto de observação e saiu para a ampla alameda que levava directo ao terraço.
A Condessa notou-a imediatamente e correu ao seu encontro.
A anfitriã e a visitante beijaram-se carinhosamente.
Ellen disse a Iraida Antonovna que a achava muito pálida e com a aparência cansada.
A condessa, por sua vez, notou pelo olhar melancólico da amiga que acontecera algo bastante grave.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:29 pm

Entretanto, não fez qualquer comentário e respondeu amigavelmente:
- Sim, ainda estou cansada das noites em claro e, principalmente, pela tensão que passei.
Mas agora, graças a Deus, está tudo bem; logo eu e Vsevolod recuperaremos a antiga aparência.
Subindo ao terraço, Ellen apertou a mão do Conde e cumprimentou-o pela feliz recuperação.
- Se consegui escapar da morte, que já me segurava pelo colarinho, foi exclusivamente graças ao sacrifício de minha esposa - respondeu ele, apertando aos lábios a mão de Iraida Antonovna.
O olhar que lançou à esposa transbordava de amor e agradecimento.
Ellen jamais poderia esperar que aquele pândego mundano fosse capaz de sentimentos tão calorosos e profundos.
- Os próprios médicos disseram que, nesse tipo de doença, o mais importante é a assistência permanente - prosseguiu ele - , e que somente graças à Condessa conseguiram me salvar.
Sou duplamente grato à minha esposa, pois, para minha vergonha, não mereço tanta dedicação e sacrifício da parte dela.
- Você sabe que merece, sim.
Senão, não me esforçaria tanto para mantê-lo vivo - respondeu a senhora Varatov sorrindo e passando carinhosamente a mão na cabeça do marido.
Após falar mais um pouco sobre a doença do Conde e sua intenção de conseguir uma licença para se tratar no estrangeiro, Iraida Antonova perguntou pela saúde de Evgueny Pavlovitch e se ele iria buscar Ellen para levá-la para casa.
- Não, vim sozinha para me despedir.
Hoje à noite parto para Boston, para ficar com meu pai - disse Ellen rispidamente.
- E quando pretende voltar?
- Não sei. Talvez, nunca - respondeu Ellen, com um sorriso forçado.
Os Varatov entreolharam-se com surpresa.
- Se isso não for piada, Baronesa, o que o Barão acha dessa história? - observou o conde, meio rindo, meio sério.
- O Barão está em Paris, tratando, aparentemente, de importantíssimos negócios.
Por isso, me sinto sobrando por aqui.
- Não está exagerando um pouco na avaliação de seu marido?
A mãe dele mora no estrangeiro, talvez tenha sido exactamente para ela que o dever o chamou!
As damas sempre são desconfiadas e tendem a tirar conclusões precipitadas - observou Vsevolod Dmitrievitch.
- O senhor acha isso?
Asseguro-lhe, conde, que a presença de Evgueny Pavlovitch em Paris foi exigida por obrigações bem mais delicadas e interessantes do que o dever de filho - respondeu Ellen num tom zombeteiro.
Aliás - prosseguiu ela com os lábios muito trémulos -, não o estou impedindo de cumprir suas obrigações, não importa quais forem.
Apenas não desejo desempenhar um papel ridículo.
Para não atrapalharmos um ao outro, vou colocar um oceano entre nós.
- Ai-ai-ai, Baronesa!
Está sendo incisiva e teimosa demais! - e o Conde balançou a cabeça.
Acho que a senhora não ama suficientemente seu marido.
O verdadeiro amor é bem mais condescendente.
- Oh! O casamento é exactamente a escola em que se ensina a não amar.
Como sou objectiva, sempre desejo tudo ou nada, não quero viver de migalhas, algo como uma fria participação ditada pelo dever.
- Mas o que pretende fazer lá, na América?
- Vou cuidar de meu pai e voltar às minhas actividades no "Paraíso sem Adão".
Posso fazê-lo, agora, com total conhecimento de causa.
A conversa foi interrompida pela chegada das crianças e da refeição, que foi servida no próprio terraço.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:29 pm

Levantando da mesa, a Condessa disse que gostaria de conversar a sós com a amiga.
Colocou junto à poltrona do marido uma mesinha com revistas e mandou o estafeta ficar a serviço do conde.
O "boudoir" da condessa, revestido de crepom rosa e enfeitado de flores, era um recanto adorável.
Lá também havia um pequeno balcão que dava para o jardim, onde a senhora Varatov se instalou, junto com sua convidada.
- Agora, confesse:
o que aconteceu desta vez? - perguntou a condessa, fazendo Ellen sentar-se e segurando-lhe as mãos.
Quando ela contou resumidamente tudo, a senhora Varatov observou, após pensar um pouco:
- Na verdade, os factos parecem testemunhar contra Evgueny Pavlovitch, mas não é bom condená-lo sem antes ouvir a versão dele.
O remédio que pretende aplicar é ainda pior que a própria doença; apesar de tudo, você ama seu marido e, mesmo assim, condena-se à separação voluntária.
- Não e não! Já não o amo mais!
A separação é o melhor remédio para esquecer mais rapidamente a minha tola ilusão:
o desejo de achar algo impossível, o verdadeiro amor e a felicidade conjugal, em condições criadas para apagar esse sentimento.
A Condessa balançou a cabeça.
- Ellen, está enganando a si própria imaginando que apagou o sentimento que liga você ao Barão.
Lamentará amargamente, quando for muito tarde.
Veja, como o coração é um senhor muito inconstante:
comprovei isso por mim mesma.
Ainda há algumas semanas, pensando na possível morte de Vsevolod, eu estava convencida de que sentiria apenas uma tranquila tristeza, pois o amor que outrora sentira por ele havia definitivamente acabado.
Mas, o que aconteceu na realidade?
Quando meu marido adoeceu e os médicos disseram que a situação era desesperadora, apareceu, não sei de onde, um sentimento ainda mais forte que a antiga paixão.
Só em pensar que Vsevolod iria morrer, era para mim uma cruel tortura!
O coração humano é ardiloso!
Na hora em que se perde a pessoa amada, esquecem-se todos os males e ofensas; ficam só as boas lembranças das horas de felicidade e entendimento mútuo.
Passei dias e noites junto ao leito de Vsevolod numa tristeza mortal, orando e atenta à sua fraca respiração.
Sem ele, minha vida parecia vazia e sem sentido, como um abismo sombrio.
Durante esse difícil período, entendi o justo julgamento do Rei Salomão(1) que mandou cortar ao meio a criança disputada por duas mães.
A mãe verdadeira, para que o filho não morresse, preferiu entregá-la à outra.
Experimentei o mesmo sentimento, preferindo manter Vsevolod vivo, com todas as suas fraquezas e inconstância, do que viver sem luta nem sacrifícios, entregando-o ao túmulo.
Em tais momentos, surge em nós uma força desconhecida, com a qual só podemos nos conformar...
Sua mãe pode servir-lhe de exemplo da veracidade de minhas palavras.
Ela, naturalmente, tinha orgulho e o sentimento de dignidade própria.
Mesmo assim, apesar de todos os golpes que recebera de seu pai, ansiava vê-lo novamente, ouvir sua voz e morrer perto dele.
Sem dúvida, sua morte foi apressada por essa ansiedade não satisfeita.
Por isso, repito:
não "abandone o navio", não vá embora e não se condene voluntariamente ao inferno!
É preciso estar absolutamente segura de que o amor morreu definitivamente para empreender tal separação.
Nadando contra a corrente pode facilmente perder as forças e afogar-se.
Ellen baixou a cabeça.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:30 pm

- Conto com a minha própria vontade e orgulho para arrancar pela raiz esse sentimento indigno - disse, após um silêncio momentâneo.
Em seus olhos acendeu-se uma chama.
Se minha sina é cair e não mais encontrar o "Paraíso sem Adão", resta-me ainda uma saída:
a "morte sem Adão"!
A Condessa recuou assustada.
- Como pode ter essas ideias horríveis?
Naturalmente, é mais fácil morrer do que viver e cumprir sua obrigação; você deve orar a Deus com maior fervor por Ele tê-la livrado desta morte sacrílega!
Iraida Antonovna foi até o dormitório e voltou, trazendo de lá um pequeno ícone numa fita e o colocou no pescoço de Ellen.
- Essa pequena imagem ficou por três dias junto ao milagroso ícone de Nossa Senhora - disse, abraçando a amiga.
Estou colocando você sob a guarda de Nossa Senhora.
Espero que ela a guie e a convença a não brincar com o próprio destino, como o fez a pobre Inna.
- O que aconteceu com ela? - perguntou Ellen, preocupada, beijando também a condessa.
- Ontem, a irmã dela, Lisa, passou por aqui e contou que toda a família está horrorizada com o escândalo.
Inna viajou para Nice(2) com a tia do marido.
Lá, apaixonou-se por um tenor e fugiu com ele para a América.
Anna Ivanovna quase enlouqueceu ao receber o telegrama com essa notícia, e até agora está acamada, pois Nicolai Lvovitch declarou que vai exigir o divórcio.
Uma hora mais tarde, Ellen despediu-se dos Varatov e retornou a São Petersburgo.
Ainda lhe restavam algumas horas até a partida.
Após os últimos preparativos, jogou-se na poltrona e entregou-se a tristes pensamentos.
Pensava em Inna, que também "abandonara o navio" embora de forma bem diferente, pois envergonhara a si mesma.
Em todo caso, sua vida estava destruída.
A família jamais lhe perdoaria o escândalo público, dar-lhe-ia as costas e, ela, com o tempo, talvez procurasse abrigo no "Paraíso sem Adão".
Já a senhora Varatov encontrara uma solução bem melhor para o grande problema de sua vida.
Nos olhos do Conde, Ellen viu imenso amor e gratidão.
Esses sentimentos jamais se apagarão, mesmo que ele volte a se entregar às antigas fraquezas.
Talvez a Condessa conserve esse marido, que conquistou com sua sabedoria de amar e perdoar.
Com um profundo suspiro Ellen apertou a cabeça nas mãos.
Seu coração parecia espremido por ferros; lágrimas chegavam-lhe à garganta.
Levantou-se e, como uma alma penada, começou a vagar pelos aposentos vazios.
Cada recanto daquela casa lhe trazia lembranças e em todos pairava a imagem do marido.
Naquele instante, aconteceu o milagre do qual falara Iraida Antonova:
todas as desavenças com o Barão empalideceram, cedendo lugar somente aos bons momentos.
Ellen parou diante da escrivaninha, sobre a qual havia um grande retrato do Barão.
Apertou-o ao peito e caiu em prantos.
Nesse instante, teve perfeita consciência do passo sem volta que pretendia dar.
Jamais ouviria seu riso sonoro e despreocupado, nem veria seus olhos escuros nos quais, quando a olhava, luziam a malícia e o amor.
O que iria fazer sozinha, longe das preocupações cotidianas, cujo centro sempre era o seu marido?
A Condessa estava certa.
Amava-o demais para ir embora, seria loucura submeter-se a tal sofrimento.
Ela ia ficar...
Essa decisão acalmou-a imediatamente.
Estendeu a mão para tocar a campainha e cancelar o envio da bagagem, mas baixou-a imediatamente.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:30 pm

Envergonhar-se diante da criadagem e da senhora Varatov, reconhecendo que estava vencida?
Não, jamais!
Passou a incutir em si própria que seria estupidez ficar com um homem a quem incomodava e que ficaria feliz em se ver livre dela.
Tentava convencer-se de que nesses mesmos aposentos seriam realizadas orgias e viria instalar-se uma outra mulher, ante a qual seu marido traidor gastaria as mesmas frases traiçoeiras e olhares amorosos.
Ellen ficou tão irritada que reformou à antiga decisão e partiu.
Mas, quando já estava no navio e a terra sumiu no horizonte, a excitação artificial sumiu de vez, cedendo lugar a melancólica apatia.
Percebeu que sua alma ficara lá atrás, na longínqua terra que deixara.
O que diria Evgueny ao retornar e encontrar a casa vazia?
Ela partira sem deixar nenhuma palavra de despedida, nem explicações.
Será que ele iria querer a reconciliação?
Ou, por causa da ofensa recebida, simplesmente concordaria com o divórcio que ela pretendia exigir?
Enquanto isso, Evgueny Pavlovitch estava em Paris, ocupadíssimo com problemas desagradáveis, mas, dessa vez, estava absolutamente inocente e as suspeitas da esposa não tinham qualquer fundamento.
O Barão realmente fora a Paris resolver um delicado problema familiar, tão grave que decidira não contar a Ellen aquela triste e vergonhosa história.
Para piorar, a situação complicou-se.
Vendo que não conseguiria retornar no prazo previsto e conhecendo o ciúme da esposa, decidiu revelar-lhe parte da verdade.
Por fim, o caso já chegava ao seu desfecho e ele se preparou para a viagem de volta, muito preocupado com a falta de resposta da esposa.
De repente, chegou uma carta do administrador, informando que a Baronesa viajara.
A notícia caiu como um raio sobre Evgueny Pavlovitch.
Não conseguia entender o motivo da repentina partida da esposa.
Talvez Artemiev tivesse adoecido e ela fora vê-lo.
Mas por que não o havia informado disso por telegrama?
Ele a seguiria imediatamente.
Teria ela ficado indignada por boatos venenosos?
Extremamente preocupado, o Barão partiu no dia seguinte para São Petersburgo.
Quando lá chegou, perdeu completamente a cabeça ao saber que Ellen partira quatro dias depois dele, sem dizer onde ia e sem qualquer explicação.
Ficou tão perturbado e confuso que sequer lhe passou pela cabeça telegrafar para Artemiev.
Então, lembrou-se da amizade da esposa com a senhora Varatov.
Ao saber pelo mordomo que no dia da partida a Baronesa fora até a casa da amiga, decidiu ir visitar Iraida Antonovna.
Ela talvez soubesse a verdade sobre essa misteriosa fuga.
A Condessa recebeu o Barão com particular amabilidade, pois notou logo que ele estava nervoso e preocupado.
Vsevolod Dmitrievitch tinha saído para tratar de negócios e deveria retornar somente para o almoço.
Quando ficaram a sós no terraço, o Barão, sem maiores preâmbulos, disse o motivo que o trouxera ali.
Após uma curta reflexão, a senhora Varatov contou-lhe abertamente tudo o que sabia sobre a partida de Ellen.
Evgueny Pavlovitch ferveu de ira.
Após um comentário nada elogioso sobre a esposa, explicou em poucas palavras a razão de sua viagem e acrescentou que, com uma esposa tão louca, seria melhor a separação.
- Não se irrite, Barão! - observou Iraida Antonovna, pegando-o pela mão.
Isso seria injusto, pois foi exactamente a falta de comunicação entre vocês que fez com que ela duvidasse, parecendo confirmar sua desconfiança.
Tudo foi um simples mal-entendido, que será facilmente sanado.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:30 pm

Se quiser, eis meu conselho:
vá ver sua esposa em Boston e explique-lhe a verdade.
Poupe-lhe o melindroso orgulho e os nervos à flor da pele.
Sua presença será o melhor remédio para o machucado coração de Ellen.
Ela o ama com paixão e não tem consciência disso.
Sem dúvida, esse afastamento temporário lhe revelará toda a força de seus sentimentos, a solidão lhe dará tempo de se acalmar e a sua chegada fará o restante.
Estou convencida de que no outono vocês voltarão para cá no melhor dos mundos.
A voz doce e convincente da Condessa e seu olhar límpido e amigável acalmaram os nervos de Evgueny Pavlovitch.
Pela primeira vez, sentiu uma verdadeira simpatia pela senhora Varatov, que até então sempre o irritara com sua reserva e rígida tranquilidade.
- Condessa, agradeço suas boas e conciliadoras palavras - disse ele, beijando a mão de Iraida Antonovna.
Mas há-de concordar que o ciúme de Ellen e sua última atitude ultrapassam todos os limites.
- Não nego que o amor de sua esposa é um pouco egoísta e ciumento, mas a maior culpa por esses pequenos defeitos está na estranha educação que ela recebeu.
Mesmo assim, ela nutre pelo senhor um sentimento puro, íntegro, e profundo; por esse dom pode-se perdoar muita coisa.
- Ah! Quando será que ela vai se tornar como a senhora? - observou Evgueny Pavlovitch, com um suspiro.
- Muito em breve, se o senhor souber devolver-lhe o equilíbrio emocional e conquistá-la com seu amor - respondeu a Condessa, com um bondoso sorriso.
Por favor, fique para almoçar connosco! - acrescentou ela quando o Barão começou a se despedir.
No seu estado de espírito não seria bom ficar só, com os pensamentos.
Evgueny Pavlovitch aceitou de bom grado o convite e, mais uma vez, reconheceu a influência benéfica da natureza calma e delicada da condessa.
O Conde retornou para o almoço.
Estava completamente recuperado e o Barão notou, surpreso, o quanto mudara o tratamento entre ele e a esposa.
Já não eram mais dois estranhos que se respeitavam, mas amorosos amigos.
O Barão sentiu até uma pontinha de inveja de Vsevolod Dmitrievitch, que, apesar de suas aventuras e desvios do bom caminho, acabara conseguindo conciliação e harmonia, graças ao amor e paciência da esposa.
Após o almoço, quando o anfitrião e o visitante passeavam pelo jardim, Evgueny Pavlovitch observou, com um suspiro:
- Você é feliz, Vsevolod, por sua esposa ser como é.
Ela não o largaria por uma simples suspeita.
Os olhos do Conde brilharam com amor e orgulho.
- Sim, sou muito feliz e não mereço o tesouro que possuo.
Por todos esses anos, não dei valor a Iraida e causei-lhe muita dor, achando que sua paciência silenciosa era indiferença.
Mas seus cuidados, as noites em claro e sua total dedicação durante minha grave enfermidade, abriram-me os olhos.
Perguntei-me, envergonhado, o que ela estaria perdendo se eu me fosse: um inveterado farrista que acabou adoecendo num piquenique quando, todo esbaforido, foi tomar champanhe gelado.
Certa noite, o coma passou e senti que estava morrendo.
Ao ver Iraida debruçada sobre mim, perguntei-lhe:
"Você tem pena de mim?
Não vai ficar satisfeita em finalmente livrar-se do devasso que sou?"
O que me respondeu, jamais esquecerei:
"Não, não! Viva do jeito que você é!
Farreie o quanto quiser, mas não me deixe!"
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 70131
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 8 de 9 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum