Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:30 pm

E me beijou, com lágrimas nos olhos.
Então, jurei tornar-me outra pessoa, se Deus me permitisse viver.
Compreendi que era amado com um sentimento sincero e desinteressado e meu coração encheu-se de gratidão e remorso.
Evgueny Pavlovitch suspirou.
Adoraria saber se Ellen o amava tanto quanto a Condessa amava seu marido.
Realmente, ela não tinha a paciência da senhora Varatov.
Mesmo assim, ele sentia tanta vontade de rever a esposa, que decidiu ir encontrá-la assim que conseguisse uma licença.
* * *
Após uma viagem bastante tranquila, Ellen chegou a Boston à noite.
Quando viu a cidade que deixara cheia de esperanças de glória e auto-confiança, sentiu uma profunda amargura.
Na época, achava-se invulnerável.
Tinha pena da mãe pelo amor que sentia por um homem indigno, e condenava rigidamente esse sentimento como uma vergonhosa fraqueza.
Agora, ela própria retornava de um desastre conjugal e torturada pelo amor que o seu orgulho condenava, mas que não conseguia expulsar do coração.
Envergonhada e humilhada, parecia-lhe impossível instalar-se no abrigo.
Por isso, pegou uma equipagem de aluguel e foi directo para casa, onde Sara deveria levar a bagagem.
Esperava encontrar Nelly, que ocupava alguns quartos em sua residência, mas o porteiro, espantado com sua repentina chegada, disse que a senhorita Sinclair estava há alguns dias morando na comunidade, onde uma grave enfermidade da senhora Oliver provocava grande preocupação.
Apesar da triste notícia, Ellen sentiu um certo alívio ao saber que não veria ninguém aquela noite, pois desejava muito ficar só.
Começou a andar melancólica pelos aposentos, que pareciam 7abandonados; a mobília coberta com capas, os quadros e espelhos com panos e as estátuas, flores, bibelôs, cortinas e tapetes haviam desaparecido.
Somente seu dormitório e "boudoir" encontravam-se em ordem, conforme seu desejo.
Aparentemente, Nelly cuidava desses quartos para, no caso de uma chegada inesperada da amiga, ela ter um lugar para descansar.
Ellen ficou satisfeita ao entrar em seu limpo e luxuoso dormitório, revestido de seda branca, móveis de cor azul-clara e espelhos enfeitados com guirlandas de flores de porcelana, um trabalho tão meticuloso que só se percebia pelo tato que eram artificiais.
Ficou ainda mais satisfeita quando a camareira de Nelly acendeu as luzes e serviu o chá e o jantar no "boudoir".
Tudo ali lembrava o tranquilo silêncio de sua vida de moça, nada lhe recordava Evgueny, pois naquele tempo ele não existia para ela.
Apesar disso, uma dor surda e uma tristeza oculta faziam-na perceber o lugar que ele ocupava em sua vida.
Durante o jantar, Ellen perguntou à camareira sobre seu pai e se ele estava bem de saúde.
Ela respondeu que um parente seu, que trabalhava de jardineiro na vila, contara que o senhor Artemiev levava uma vida extremamente isolada; passeava a cavalo pela manhã, quase nunca saía, e frequentemente recebia visitas do famoso médium Lacroix(4).
Sua criadagem consistia de um camareiro que trouxera da Rússia e um cozinheiro, cuja esposa cuidava da limpeza da casa.
Em geral, ele se sentia bem e por duas vezes visitou a senhorita Sinclair para tratar de assuntos filantrópicos.
Ellen podia ficar sossegada.
Seu pai estava bem, entregou-se ao Espiritismo que o interessava tanto e isso lhe permitiria ocupar-se exclusivamente de si própria.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:31 pm

Após o chá, apesar do cansaço, mandou chamar o administrador e deu-lhe as instruções para organizar a casa, pois pretendia morar na cidade.
O silêncio e o isolamento da vila assustavam-na; além disso, a reforma da residência ajudaria a distraí-la.
No dia seguinte, Ellen foi à vila.
Ao saber que o pai estava em casa, foi vê-lo sem ser anunciada.
Artemiev ocupava os quartos onde outrora morava o inglês ocultista.
O estilo rigidamente gótico do local fora totalmente preservado.
Ellen notou isso ao passar pela ampla biblioteca, perto da qual encontravam-se o laboratório, o dormitório e uma pequena sala de visitas, com um grande terraço que dava para o jardim.
Vladimir Aleksandrovitch estava sentado, rodeado de livros, num simples banco de madeira, à sombra de frondosas árvores, imerso na leitura.
Parecia saudável e seu rosto transpirava paz e doçura, como Ellen jamais vira antes.
Com cuidado, pé ante pé, aproximou-se do pai e passou os braços pelo seu pescoço.
Artemiev estremeceu de susto e, cerrando o cenho, voltou-se; vendo a filha, soltou um grito de alegria e surpresa.
- Ellen! Minha querida!
Que surpresa! - exclamou abraçando calorosamente a filha.
Quando chegaram?
Onde está Evgueny? - perguntou precipitadamente e calou-se.
Somente então notou o quanto Ellen estava magra, pálida e mudada.
Ficou particularmente impressionado com a expressão amarga e cansada de seu rosto.
- Confesse, o que aconteceu? - perguntou, fazendo a filha sentar-se ao seu lado.
Mais um mal-entendido?
Vai ver que Evgueny cometeu alguma bobagem que você levou a sério demais?!
Ellen balançou a cabeça.
- Não, papai, desta vez não é um mal-entendido nem uma bobagem.
Em seguida, contou em detalhes o que aconteceu, e acrescentou:
- Mesmo sendo um homem casado, ele não se envergonhou de correr para outro lado do mundo para presenciar o parto de sua amante!
Depois disso, achei que estava sobrando em sua vida e fui embora.
Artemiev, que ouvia tudo com visível surpresa, balançou a cabeça.
- Existe algo errado em tudo isso; parece-me que você se precipitou em condenar seu marido.
Conheço bem Evgueny e sei que ele não é tão sentimental; se fosse a todos os enterros e partos das suas ex-amantes, não teria tempo para mais nada.
Nessas circunstâncias, geralmente se livram mandando dinheiro.
Esteja certa de que ele não agiria diferente.
Quanto mais penso, mais me convenço de que ele não tem nenhuma amante que lhe inspirasse uma paixão tão grande, a ponto de abandonar você e correr para ela.
Mas, espere um pouco! - Artemiev cocou a testa.
Será que não se trata de uma infeliz parente dele, sua irmã adoptiva, que mora em Paris?
Não conheço os detalhes dessa história, pois Evgueny não gostava de falar disso, mas sei que ele enviava dinheiro àquela infeliz mulher.
Ellen ficou muito vermelha, mas insistiu em sua suspeita.
- Se o caso fosse somente com a irmã, Evgueny teria me explicado o motivo de sua viagem.
Mas, deixemos de lado essa questão: o que passou, passou!
Ficarei aqui, porque não suporto mais uma vida envenenada por constantes suspeitas, segredos e traições!
Não tenho a paciência da senhora Varatov.
Evgueny deve me pertencer de corpo e alma, senão, não me interessa!
- Essas exigências tirânicas não podem servir de base para a verdadeira felicidade conjugal.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:31 pm

Você se imagina tão perfeita que jamais precisará da complacência de Evgueny?
Acho que sua fuga de São Petersburgo será um duro teste de paciência para o seu marido - observou Artemiev, num tom de desaprovação.
Ellen franziu o cenho, mas nada disse.
Por fim, após alguns instantes de pesado silêncio, lutando visivelmente consigo mesma para conter a irritação, perguntou como iam as experiências empreendidas pelo pai para contactar o mundo do além.
Artemiev, então, animou-se e descreveu com satisfação alguns eventos ocorridos com ele, tão convincentes quanto maravilhosos.
- Vi sua mãe e senti o contacto da mão dela; o que me disse não deixou a menor dúvida quanto a sua identidade.
Oh! Como é maravilhoso e, ao mesmo tempo, terrível o mundo invisível, no qual vagamos como cegos, ignorando suas leis misteriosas e sacrificando, aos prazeres grosseiros da existência devassa, a maior das ciências.
Fico tomado de medo e remorso quando penso sobre a vida tresloucada e criminosa que levei por tantos anos.
Agora, só me resta lamentar por não nos ensinarem desde a infância as grandes verdades que nos instruiriam e preparariam para a vida.
Conversaram muito tempo sobre esse tema, que parecia absorver totalmente Artemiev.
Ellen ouvia atentamente, mas sem o antigo interesse que sempre tivera pela ciência oculta e os poderes maravilhosos e desconhecidos da natureza e do homem.
Seus próprios problemas absorveram-na completamente.
O ser humano, por seu egoísmo e imperfeição, é capaz de permanecer frio e indiferente às grandes verdades e extraordinárias descobertas, se seu coração estiver ocupado com pequenas preocupações pessoais.
Enquanto nada perturbava a paz de Ellen, sua inteligência ágil interessava-se por tudo e sua actividade não conhecia limites.
A educação rígida e estreita não lhe ensinara a submeter ao bom senso o fogoso autoritarismo que era a base do seu carácter, realçado por sua riqueza e independência.
Assolada pelo sentimento que lhe doutrinaram a desprezar e evitar, submetida a um dos "tiranos-homens" que costumava ridicularizar com venenosas zombarias, Ellen perdera o equilíbrio emocional.
Sem jamais ter sido atingida por uma verdadeira desgraça, tornou-se escrava dos próprios sentimentos caóticos.
Ficou apática, irritável e torturava a si mesma, sem energia para sair desse estado doentio.
Após almoçar com o pai, Ellen retornou à cidade.
Artemiev não quis retê-la, notando que ela queria ficar só.
Mas, naquela noite ela não conseguiu isso, pois, logo após chegar em casa, Nelly veio visitá-la.
As amigas conversaram longamente e, aos poucos, o coração de Ellen amoleceu.
Ela confiou à senhorita Sinclair todas as suas desavenças e desilusões.
Na opinião de Nelly, esses acontecimentos estavam previstos e eram a inevitável consequência de qualquer casamento, ainda mais com um homem mundano, sem quaisquer princípios morais.
Querendo consolar a amiga, disse:
- Apesar de tudo o que você sofreu, não deve se desesperar.
Sei por experiência própria que a dor do amor tem cura; além disso, sempre lhe restará o nosso abrigo e a grande causa pela qual lutamos.
Essa experiência colocou em suas mãos uma nova e poderosíssima arma, que pode utilizar para a nossa causa.
Aqui você não estará sozinha, pois tem seu pai e amigos.
Portanto, enterre o passado e comece uma nova vida!
Ellen ergueu-se. Um rubor febril cobriu-lhe as faces.
- Sou mais infeliz do que imagina, Nelly - disse, num tom constrangido.
Já não sinto firmeza no solo que piso nem acredito na missão do "Paraíso sem Adão"; nada mais é que uma utopia, uma enganosa miragem.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:31 pm

- O que está dizendo? Meu Deus!
- Estou dizendo que podemos construir abrigos para mulheres e órfãos abandonados, mas não temos condições de criar uma nova raça de mulheres, de cujo coração o amor estaria definitivamente extirpado.
O "Paraíso sem Adão" atrai pessoas destruídas e esmagadas pela vida, que não têm onde ficar.
A nova geração que cresce ao lado dessas infelizes não aproveita o exemplo delas e, por sua vez, acaba sofrendo o mesmo desastre.
Os homens têm razão de rirem de nós.
Eles sabem que não se pode lutar contra o amor nem contra a morte.
Não se pode evitar essas forças fatais.
Eu sou a prova viva do que estou falando.
Após suportar tantas humilhações, perder a paz e a confiança, eu deveria arrancar do coração a imagem de Evgueny, se o orgulho e o bom senso fossem mais poderosos que esse horrível sentimento que continua me torturando.
Esteja certa de que mais da metade das mulheres do nosso abrigo está nessa mesma situação e sairia de lá se seus "tiranos" desejassem tê-las de volta.
O que mais me indigna é que essa tortura afecta preferencialmente as mulheres honestas, que procuram o verdadeiro amor e amam um único homem.
As devassas, que trocam amantes como de luvas, divertem-se humilhando os homens; as outras, feito cãezinhos, imploram a benevolência desses safados.
- Querida Ellen, a tristeza deixa-a injusta!
Nossa comunidade abriga muitas senhoras dignas de respeito, que romperam definitivamente com o passado e sentem-se felizes em poder trabalhar livremente; além disso, muitas moças preparadas por nós para a luta da vida conseguiram uma posição independente e de destaque.
- Ai! Isso até se apaixonarem pela primeira vez.
Na maioria dos casos, elas são excepções à regra.
Eu, por exemplo, também fui educada para tornar-me a heroína da independência!
Ellen riu secamente.
- Não, Nelly!
A grande ideia humanitária do renascimento da mulher através da libertação do jugo masculino é tão irrealizável quanto muitas outras boas intenções.
Sobre esse assunto, quero repetir-lhe o que disse a Condessa Varatov, uma mulher inteligentíssima, sobre a disseminação da ideologia espiritualista:
"Suponho que o espiritualismo pode servir de apoio e consolo para pessoas capazes de entendê-lo; mas é impossível incuti-lo à multidão.
As grandes leis do amor, do sacrifício e da responsabilidade, destacadas pelo espiritualismo, bem como a condenação dos vícios e dos prazeres materiais, sempre será odiosa à massa, que vive somente pelos interesses carnais e não deseja ser constrangida em suas tendências animais.
O rebanho humano permanecerá sempre surdo, cego e mal-intencionado.
Ele pode debochar das verdades que não entende e tentar, de todas as maneiras, destruir os mestres incómodos.
As supostas 'utopias' que estes pregam, somente aumentarão o número de vulgares hipócritas, que usarão a grande ciência espiritualista como um traje teatral e, na realidade, permanecerão os mesmos maldosos e egoístas que sempre foram."
Essas palavras, Nelly, são verdadeiras e justas.
Um dia você também chegará a essa conclusão.
- Oh, não!
Não quero acreditar que semear o bem possa ser uma utopia, mesmo que não vivamos até a colheita.
Continuarei a semear a boa semente, deixando seu amadurecimento sob o controle do Provedor Superior dos destinos do mundo!

(1 - Rei Salomão - Rei hebreu, filho de Davi.
A história do referido julgamento está escrita na Bíblia, no Livro 1 de Reis, capítulo 3, versículos 16 a 28
).
(2 - Nice - Cidade francesa, capital do departamento dos Alpes-Marítimos, situada na orla mediterrânea).
(4 - Henry Lacroix (1826 - 1897) - Médium e autor dos livros "Espiritismo Americano:
Minhas Experiências com os Espíritos", "O Homem de Fé" e "A Caridade e sua Actual Oportunidade"
).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:31 pm

Capítulo 18

Passaram-se algumas semanas e o estado de espírito de Ellen piorava gradativamente.
No início, estava ocupada com a arrumação e decoração da casa.
Como se fosse por acaso, decorou com refinado luxo dois quartos, que poderiam servir de gabinete e sala de visitas para Evgueny Pavlovitch.
Sem querer reconhecer, Ellen esperava que o marido viesse fazer as pazes.
Mesmo envergonhada, desejava ardentemente revê-lo.
Mas passavam semanas, não havia notícias do Barão e um sombrio desespero passou a apoderar-se de Ellen.
Ela se torturava com a suposição do pai de que o Barão fora a Paris só para ajudar sua parenta.
Sabia que a mãe de seu marido casara pela segunda vez e vivia em Paris, mas Evgueny falava sobre ela com visível má vontade.
Se aquela hipótese se confirmasse, ela arriscara seu futuro por uma fantasia absurda.
O que significaria o silêncio de Evgueny?
Será que pretendia castigá-la com aquela humilhante indiferença ou simplesmente aproveitar a oportunidade para divertir-se em liberdade?
Na realidade, o silêncio de Evgueny Pavlovitch fora provocado por outras circunstâncias.
Ele tentava conseguir uma licença e finalmente a obteve.
Mas quase na véspera de sua partida, recebeu uma carta da mãe que o chamava a Berlim, onde ia ser operada por um famoso cirurgião.
A cirurgia era tão perigosa que a paciente só concordava em arriscar a vida com a presença e o apoio do filho.
Evgueny Pavlovitch ficou desesperado com esse adiamento, mas não podia deixar de cumprir o dever de filho e foi a Berlim.
Convencido de que, por causa do carácter de Ellen, somente uma explicação pessoal poderia dissipar as suspeitas dela, o Barão limitou-se a telegrafar a Artemiev, explicando os motivos de seu atraso e pedindo-lhe para acalmar Ellen.
Vladimir Aleksandrovitch nem por um instante duvidou dos argumentos do genro, mas estes eram muito vagos para satisfazer Ellen.
Por isso, decidiu não lhe falar sobre o telegrama e aguardar a chegada de Evgueny, que explicaria tudo pessoalmente.
Sem saber de nada, Ellen sofria e pensamentos sombrios dominavam-na cada vez mais.
Trancou-se em casa e raramente visitava o pai.
Frequentemente visitava o túmulo da mãe, onde encontrava Artemiev, que a cada manhã ia até lá a cavalo.
Vendo o terrível estado de espírito da amiga, Nelly tentava, de todas as maneiras, distraí-la e fazê-la retornar à antiga actividade.
Ellen ouvia-a, distribuía donativos aos pobres, administrava novas bolsas do abrigo, mas só ia lá para visitar a senhora Oliver.
Quando Nelly propôs que ela fizesse ao menos uma palestra, recusou-se terminantemente.
- O que posso dizer quando eu própria sou uma vergonhosa contestação das belas verdades que devo pregar?
Aparentemente, todo mundo deve descer ao inferno para, enfim, acreditar que lá as almas são fervidas em piche.
Não tenho eloquência suficiente para convencer qualquer São Tomé descrente.
Nelly nada conseguiu com ela.
Para aumentar ainda mais os problemas, dentro da comunidade surgiram agitações e discussões.
Em virtude da grave enfermidade da senhora Oliver, o médico proibiu-a de exercer qualquer actividade durante alguns meses; entretanto, uma instituição daquele porte e com uma organização tão complexa não podia ficar sem controle.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:32 pm

No lugar da senhora Oliver foi designada uma substituta, uma mulher muito rica, que trouxera para a comunidade um grande capital.
Infelizmente, essa substituta não possuía o tacto nem as ideias da predecessora.
Imprimiu aos negócios um carácter visivelmente comercial, muito lucrativo, mas extremamente ofensivo aos membros da comunidade.
Assim, para insatisfação da maioria, ela aceitou no abrigo uma certa "ex-beldade", que juntara um bom dinheiro durante sua vida de muitos amores, enquanto que algumas mulheres muito respeitáveis, mas pobres, não foram admitidas.
Ao saber disso, Ellen acolheu as rejeitadas por sua própria conta; isso aumentou a sua convicção de que o "Paraíso sem Adão" era uma utopia e uma empresa especulativa.
Entretanto, essa actividade servia somente de paliativo para a surda preocupação que incomodava Ellen.
O prolongado silêncio de Evgueny Pavlovitch deixava-a desesperada.
Por vezes, essa incerteza do futuro tornava-se tão insuportável que ressurgia a ideia de suicídio, não só com o objectivo de libertar-se, mas como uma refinada vingança do homem que ousara tratá-la com tanta indiferença.
Com crescente maldade, passou a imaginar a surpresa e o horror do marido ao saber de sua morte, seu arrependimento e remorso.
Pintava em cores bem atraentes o efeito que essa notícia causaria em São Petersburgo, em Boston e também o ameaçador exemplo de seu triste e trágico falecimento para as outras mulheres.
Após alguns dias, essa ideia criminosa dominou com tanta força seus nervos debilitados que passou a preparar-se para concretizá-la.
Ellen visitou secretamente o tabelião e escreveu um testamento, no qual deixava seus milhões para o abrigo, sob a condição de que fossem publicadas suas memórias e a leitura delas fosse obrigatória para as moças da comunidade.
Para o pai, deixava a vila e para a senhora Varatov, suas jóias, como lembrança da boa amizade.
O Barão receberia somente a casa de campo em Petergof "para que se lembrasse que teve uma esposa", acrescentou com sarcasmo.
Apesar dessa decisão tê-la acalmado um pouco, Ellen continuava com aparência doentia e seu péssimo estado de espírito era tão evidente que deixou o pai preocupado.
Quando chegou de Londres o segundo telegrama de Evgueny Pavlovitch, informando que já estava em viagem para a América, Vladimir Aleksandrovitch decidiu verificar que efeito essa notícia causaria em Ellen e, no dia seguinte, foi visitá-la.
Encontrou-a triste e pensativa, sentada junto à janela.
- Ellen, vim trazer-lhe uma notícia que, espero, a deixará satisfeita.
Evgueny chegará logo, vai se justificar pessoalmente.
Tenho certeza de que vocês acabarão se reconciliando.
Por isso, minha filha, seja condescendente e não se condene outra vez ao eterno sofrimento.
Você ainda tem a felicidade nas mãos; não a deixe escapar por uma inútil teimosia.
Contenha a impetuosidade de seu carácter e tudo se arranjará para a felicidade de ambos.
De tudo o que disse o pai, Ellen só prestou atenção a uma coisa:
Evgueny estava chegando!
Uma calorosa onda de felicidade apossou-se dela, como se um grande peso lhe saísse dos ombros.
O rubor em suas faces e o alegre brilho dos olhos despertaram alegria e esperança no coração de Artemiev.
Entretanto, ele se precipitara em suas conclusões.
Quando Ellen ficou sozinha, foi novamente dominada por pensamentos sombrios.
A alegria que sentira, a consciência da própria fraqueza e a certeza de que, ao ver o marido, esqueceria tudo e cairia em seus braços, despertou em sua alma um sentimento de vergonha e raiva.
"Sou uma covarde e imbecil", pensou.
"Estou pronta a perdoar-lhe tudo, mesmo sem saber se ele merece.
E se ele vier só para evitar escândalos em São Petersburgo e por respeito a meu pai?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:32 pm

Sou rica e não custo nada para ele!
É bem possível que, quando me leve de volta à Rússia, retorne às suas antigas farras..."
Ellen amassou nervosamente o lenço de cambraia e pensamentos, cada vez mais sombrios e odiosos, invadiam sua mente, concentrando-se no desejo de castigar Evgueny, fazê-lo sofrer e atingi-lo bem no coração.
Nesse estado doentio e perigoso, passaram-se duas semanas.
Ellen aguardava o marido com febril impaciência, mas ao mesmo tempo temia a sua chegada e insistia em instigar-se contra ele.
Além disso, sentia fraqueza, calafrios, calor, sofria de insuportável dor de cabeça e debilitante insónia.
Nelly estava preocupada, mas não sabia o que fazer e esperava ansiosamente a chegada de Evgueny Pavlovitch.
Certo dia, Nelly saiu.
Ellen estava, como de hábito, sentada em seu gabinete, com três grandes janelas que lhe permitiam ver as ruas em toda sua extensão.
Seu olhar vagava indiferente pelos passantes.
De repente, viu parar, junto à casa, uma equipagem, da qual saiu um homem que ela conhecia bem e que, após trocar algumas palavras com o porteiro, entrou no saguão.
Ellen deu um salto, como electrizada.
O sangue afluiu com tanta força para o coração que perdeu a respiração.
As pernas não obedeciam, o olhar escureceu e em sua mente passou um turbilhão de pensamentos contraditórios.
Amor, vergonha, raiva e ciúme lutavam em sua alma doentia.
Por fim, a ideia da morte ser preferível àquele inferno, triunfou.
Cambaleando, arrastou-se até a escrivaninha e sacou do estojo o revólver.
Hesitou por instantes, depois, decidida, encostou a arma ao lado do corpo e com dedo gelado puxou o gatilho.
No primeiro momento, ainda permaneceu de pé, sem nada sentir.
Depois, uma dor aguda transpassou seu corpo, tudo rodopiou à sua volta, e uma nuvem de fogo anuviou-lhe a vista.
Através dessa luz vermelho-sangue, conseguiu vislumbrar a porta escancarando-se rapidamente.
Na soleira do quarto apareceu Evgueny, mortalmente pálido, e atrás dele, Nelly, muito nervosa e desolada.
Sentiu-se envolvida por uma profunda escuridão, caindo num sombrio precipício e perdeu os sentidos...
Sem nada pressentir da catástrofe que se aproximava, Evgueny Pavlovitch correu rapidamente escada acima e perguntou ao mordomo o caminho para o gabinete.
Apesar da insatisfação que sentia pela fuga da esposa, ansiava revê-la.
Passou rapidamente por uma série de aposentos vazios.
Na pequena sala de visitas encontrou Nelly embrulhando alguns livros.
Ao ver o Barão, ela exclamou alegremente:
- Graças a Deus!
Finalmente o senhor chegou, Barão!
Ellen mudou muito, está tão estranha que até me assusta.
Mas ela o ama demais e com a sua chegada tudo voltará ao normal.
No olhar e na voz de Nelly sentia-se tanta sinceridade, que isso causou nele uma agradável impressão.
Reconhecido, apertou a mão de Nelly, dizendo:
- Agradeço as boas palavras, senhorita Sinclair.
Deus queira que minha chegada possa colocar um fim a essas desagradáveis desavenças!
Naquele instante, ouviu-se o som do tiro.
- Meu Deus, o tiro veio do quarto de Ellen! - exclamou Nelly.
Com certeza aconteceu alguma desgraça!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:32 pm

Com essas palavras, correu para o gabinete.
Evgueny, estarrecido, seguiu-a.
Mas, junto à porta, afastou Nelly e entrou primeiro.
Viu Ellen ainda de pé.
Estava parada, branca como o penhoar de cambraia que usava, os olhos imóveis muito abertos.
Em seguida, desabou no tapete e não se moveu mais.
- Ellen! O que você fez! - exclamou Evgueny Pavlovitch, correndo para a esposa e levantando-a.
Mas ela já estava inconsciente.
Nem se moveu enquanto o Barão a levava para o divã e começou a desabotoar a roupa para cuidar do ferimento.
Apesar do susto e do desespero, Nelly não perdeu a habitual presença de espírito.
Num instante, colocou a casa inteira em alerta, accionou o telégrafo e o telefone para chamar os médicos e avisar Artemiev.
Em seguida, Nelly voltou para junto do Barão, cujas mãos tremiam como se tivesse febre, e começou a ajudá-lo a limpar e tratar o ferimento.
Não restava mais nada a fazer e ambos, sombrios e silenciosos, sentaram-se perto do divã.
Evgueny Pavlovitch segurava a mão da esposa e, de vez em quando, inclinava-se para ela, tentando verificar se ainda vivia.
Ambos não conseguiriam dizer quanto tempo se passou nessa espera.
Finalmente, quase ao mesmo tempo, chegaram dois famosos cirurgiões.
Evgueny Pavlovitch levantou-se, cedendo o lugar aos médicos, foi até a janela e sentou-se na poltrona que há pouco Ellen tinha ocupado.
Mas a emoção fora muito grande e esse golpe, inesperado.
Sentiu a cabeça girar e, tomado por súbita fraqueza, encostou-se no espaldar da poltrona.
Nelly notou e, aproximando-se do Barão, ofereceu-lhe sais de cheiro.
Quando ele se ergueu, pálido e trémulo, trouxe-lhe um pouco de água.
Naquele instante, um dos médicos aproximou-se deles, enquanto o outro arregaçava as mangas e colocava instrumentos cirúrgicos sobre a mesa.
- Senhorita, mande imediatamente preparar água, ataduras e todo o necessário para uma intervenção cirúrgica.
Além disso, mande vir da clínica duas enfermeiras, para o acompanhamento permanente da paciente - disse a Nelly, que correu para cumprir as ordens.
- O ferimento é mortal? - perguntou o Barão, indeciso.
- Ainda não se pode afirmar nada.
Por um feliz acaso a bala se desviou da região do coração e está entalada entre as costelas.
Vamos remover o projéctil, verificar o estrago, e só então poderemos fazer o prognóstico.
Naquele instante, do divã ouviu-se um gemido.
O Barão aproximou-se rapidamente e inclinou-se sobre a paciente, que abriu os olhos, nos quais lia-se um indescritível sofrimento.
- Ellen, Ellen!
Como pôde fazer isso? - sussurrou Evgueny Pavlovitch com lágrimas nos olhos, ajoelhando-se junto ao divã.
- Eu quero todo o seu coração, ou nada.
A morte é preferível a uma vida envenenada por constantes dúvidas e ciúmes - sussurrou Ellen, fechando os olhos novamente.
Os preparativos para a operação foram rapidamente concluídos.
Quando um dos cirurgiões começou a examinar o ferimento, Ellen soltou um grito e voltou a si.
- Evgueny...
Quero-o perto de mim...
Quero morrer perto dele - balbuciou.
- Chegue mais perto, Barão!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:32 pm

Sua esposa o deseja ao lado dela - disse o médico, já informado por Nelly de todos os detalhes.
Ajude-me a segurar a paciente e seja firme; sua presença vai dar mais coragem a ela.
Pálido e tremendo nervosamente, Evgueny Pavlovitch aproximou-se e ficou segurando a paciente na posição indicada.
Ellen agarrou-se ao seu braço e apertando a cabeça ao peito dele, sussurrou:
- Vou morrer...
Seja sincero:
você me ama pelo menos um pouco?
O Barão inclinou-se e beijou-a ternamente nos lábios e na testa.
- O futuro vai lhe provar isso mais do que palavras.
Mas economize as forças e tenha coragem!
Quinze minutos mais tarde, a bala foi extraída, o ferimento fechado e Ellen colocada na cama.
Os médicos se abstiveram de dar um prognóstico final, porque, independentemente do ferimento, encontraram ainda outros sintomas que poderiam ocasionar complicações.
A notícia da tentativa de suicídio da filha caiu como um golpe de marreta sobre Artemiev.
Os velhos pecados da juventude, novamente levantaram suas cabeças venenosas, e a consciência sussurrava:
"Se você não a tivesse abandonado e ela tivesse crescido num pacífico convívio familiar, sua mente e seu carácter não teriam esses desvios, essa excitação perigosa e doentia que a levaram ao suicídio."
Ele sequer tinha o direito de repreender o Barão; achava-se muito pior que ele, pois dera a Vitória milhares de motivos para desejar o suicídio.
Ele achou que ir de equipagem até a casa da filha levaria tempo demais.
Por isso, ajudou pessoalmente a selar o cavalo e galopou rapidamente para a cidade.
Quando chegou à casa da filha, foi tomado por uma súbita fraqueza e nem teve coragem de perguntar ao porteiro se Ellen ainda vivia.
Vladimir Aleksandrovitch passou rapidamente pelos quartos vazios e encontrou no gabinete um dos médicos que, a pedido do Barão, concordara em passar a noite junto ao leito da paciente, para observar pessoalmente as possíveis complicações.
Artemiev e o médico se conheciam da casa de um famoso médium.
Vendo a palidez e a aparência desolada de Vladimir Aleksandrovitch, o médico levantou-se e, sem esperar a pergunta, apertou-lhe a mão:
- Ela está viva e a bala foi extraída.
Esperamos que o jovem e forte organismo da Baronesa nos ajude a salvá-la.
No momento está dormindo profundamente, pois a operação e a perda de sangue esgotaram suas forças.
Agora, devemos aguardar a inevitável febre e os delírios.
- Fico-lhe muito grato - respondeu, simplesmente, Artemiev, mas a voz abafada e o nervoso aperto de mão traíam sua dor oculta.
No dormitório suavemente iluminado por um abajur, Nelly conversava baixinho com a enfermeira.
Junto ao leito estava sentado Evgueny, pálido e desolado.
Ao ver Artemiev, levantou-se rapidamente e abraçaram-se em silêncio.
- Juro que sou completamente inocente!
Minha única culpa foi não revelar a ela toda a verdade - disse o Barão com amargura, querendo justificar-se.
- Nem me passa pela cabeça acusá-lo de coisa alguma - respondeu Vladimir Aleksandrovitch, inclinando-se para a filha.
Ellen parecia desmaiada, mas a pesada e intermitente respiração e os gemidos surdos que lhe escapavam dos lábios indicavam que estava sofrendo.
A noite, sua temperatura aumentou e começou o delírio.
Em seguida, caiu em coma, do qual saía somente para pedir água ou murmurar assustada:
- Evgueny!
E sua mão procurava febrilmente a do marido.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 7:32 pm

O Barão abandonava seu posto somente alguns minutos, para o necessário descanso.
Ficava de guarda dia e noite, cobrindo-se de duras repreensões.
Pensava, com profundo arrependimento, sobre as próprias aventuras, a partida inexplicada e as vulgares farras que o afastavam da esposa e motivaram esse fatal desfecho.
Jamais Ellen fora tão cara para ele como nesse instante e tremia só de pensar em perdê-la.
Nunca pensou que isso fosse possível.
Afinal, ela lhe pertencia, conforme todas as leis divinas e humanas!
O Barão sequer imaginava que a amava tanto.
Olhando com tristeza e dor para aquele rostinho encantador, desolado e mudo, perguntava-se como conseguira trocá-la por outras e amargurá-la a ponto de a orgulhosa e ciumenta criatura ter preferido morrer.
Passados alguns dias, Ellen piorava visivelmente.
Certa noite, após um forte ataque de delírio, despertou plenamente consciente. Seu olhar cansado passou do pai para o marido, sentado junto ao leito.
Ouvindo seu pesado suspiro, ambos inclinaram-se rapidamente sobre ela.
Ellen notou horrorizada o terrível cansaço e desespero de ambos.
Em sua mente passou como um raio a consciência do ato criminoso que cometera.
- Pai! Evgueny! - balbuciou, olhando-os com o ar envergonhado e constrangido de criança culpada.
Parecia-lhe ter despertado de um longo e terrível pesadelo, que a empurrara para o abismo. Agora, ao ver o rosto desolado e doentio do pai e o olhar cheio de amor de Evgueny, um amargo arrependimento apertou-lhe o coração e em seu peito despertou um grande desejo de viver.
Por quê? Por que cometera aquele tresloucado acto?
Por que arriscara a vida, essa valiosíssima dádiva do Pai Celestial?
Uma vida tão maravilhosa, enquanto tantos infelizes, inválidos e abandonados por todos, suportam com paciência e docilidade sua miserável existência...
Mas era tarde demais!
A morte estava próxima e iria separá-la da vida, que lhe parecia agora tão desejável.
Lágrimas quentes rolaram por suas faces emagrecidas.
- Não chore, querida! Você ficará boa.
Só não se emocione, pois isso pode prejudicá-la - murmurou o Barão, terno e preocupado.
- Pai! Evgueny! - repetiu Ellen.
Vocês me perdoam por ter cometido esse acto sacrílego e indigno?
- Minha querida filha!
Quem teria coragem de ter raiva de você?
Permaneça viva e isso nos deixará felizes - respondeu Artemiev, abraçando a filha.
Mas, para grande horror de ambos, Ellen caiu em prantos e somente um profundo desmaio estancou suas lágrimas.
Não se sabe se foi pela emoção prejudicial, mas a partir daquela noite seu estado começou a piorar rapidamente.
Durante alguns dias, sua vida ficou por um fio.
Finalmente a febre passou, o ferimento começou a fechar, mas sua fraqueza era tão grande que, certa manhã, o médico chegou a comentar que ela podia morrer de inanição, se não houvesse uma mudança favorável.
O dia transcorreu numa tensão doentia.
Artemiev, o Barão e Nelly andavam com ar abatido em volta do leito, sobre o qual parecia apagar a vida do seu ente querido.
O nervosismo de Vladimir Aleksandrovitch chegou a tal ponto, que o médico achou necessário dar-lhe um sedativo, que o deixou em sono profundo por algumas horas.
Chegou a noite.
A paciente continuava a dormitar, num estado de fraqueza apática.
A enfermeira deitou-se no sofá para descansar um pouco enquanto Nelly também repousava na poltrona.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:29 pm

Só o Barão não dormia.
Pálido e desolado, decidido a permanecer acordado, encostou-se em almofadas e ficou observando preocupado a mal perceptível respiração da esposa.
Nesses dias de doença, insónia e torturante preocupação, apegara-se demais a Ellen e amava-a muito mais que antes, quando estava cheia de vida e saúde.
Subitamente a paciente estremeceu e abriu os olhos.
Como de hábito, sua primeira palavra foi o nome do marido.
- Estou aqui, querida - disse ele, levantando-se rapidamente.
Vendo que ela pretendia se levantar, o Barão a ajudou.
No rosto de Ellen liam-se tristeza e horror.
De repente, passou os braços fracos em volta do pescoço do marido e balbuciou:
- Oh! O que acontece comigo?
Estou sofrendo terrivelmente!
Ajude-me! Não quero morrer.
O coração de Evgueny Pavlovitch estacou, oprimido por uma tristeza mortal.
Teria chegado o momento da separação?
Num ímpeto de terrível desespero, apertou Ellen ao peito e cobrindo seu rosto de beijos, não parava de repetir:
- Você não deve morrer! Viva!
Tente desejar viver!
Dizem que para a fé tudo é possível e que ela move montanhas.
Coloque em acção essa força poderosa, talvez ela realize o milagre que a ciência humana nos nega.
Na voz e olhar dele sentia-se tanta certeza e determinação que isso pareceu passar para Ellen.
Um forte rubor cobriu repentinamente seu rosto pálido e os olhos iluminaram-se com um estranho brilho.
Levantando para o alto os punhos cerrados, exclamou com uma fé ardente e arrebatadora:
- Eu quero! Oh, eu quero viver!
Ouça-me, meu Pai Celestial!
Não me castigue. Perdoe-me!
Não me tire a dádiva que desprezei!
Conceda-me a vida!
Ellen calou-se, tomada por uma sensação surpreendente e até então desconhecida.
À medida que pronunciava sua fervorosa prece, todo o seu ser parecia revigorar-se, absorvendo uma substância invisível segregada pela atmosfera.
Como uma torrente vivificante, essa substancia espalhava-se por suas veias, devolvendo a vida e a flexibilidade ao seu organismo debilitado.
Ao mesmo tempo, em sua mente surgiu, com incrível nitidez, a lembrança de como rezara à Nossa Senhora na catedral de Kazan, para salvar a vida do pai.
A imagem milagrosa da Rainha Celestial parecia pairar à distância, enviando-lhe, como da outra vez, sua infinita misericórdia.
Do fundo de sua alma brotavam uma força de vontade e fé tão grandes que a tensão desse desejo paralisava todo o seu ser.
O ar à sua volta adensou-se, envolvendo-a numa névoa escura, mesclada de brilhos faiscantes.
De repente, como se atingida por um raio, desmaiou nos braços do marido.
O Barão deixou escapar um grito que despertou a enfermeira e Nelly.
Elas correram para o leito, achando, como Evgueny Pavlovitch, que Ellen estava morrendo, mas ela parecia ainda respirar.
Sem saber o que fazer, os três ficaram esperando o médico, que deveria chegar a qualquer momento.
Felizmente, a espera durou somente alguns minutos.
Ao saber do ocorrido, o médico balançou a cabeça e auscultou cuidadosamente a paciente, que parecia morta, apesar da imperceptível respiração que ainda lhe escapava dos lábios.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:30 pm

Por fim, o médico falou, sério:
- Ela está viva, mas numa espécie de letargia.
E preciso cobri-la e deixá-la descansando.
Agora, na minha opinião, terá início o misterioso trabalho da natureza, graças ao qual ela permanecerá viva ou passará sem sofrimento para o outro mundo.
Nesse ponto, a ciência se cala, impotente.
Não vamos perturbar o trabalho dessas forças misteriosas, que reconhecemos, mas não conseguimos estudar.
Suponho que em duas ou três horas tudo estará decidido.
É difícil descrever o que passaram Nelly e Evgueny nessas intermináveis horas; para sua felicidade, Artemiev, continuava dormindo.
Finalmente, o médico, também emocionado e preocupado, aproximou-se do leito da paciente.
Ellen ainda dormia, mas sua letargia transformara-se num sono profundo e tonificante.
Um abundante suor cobriu todo o seu corpo, a respiração tornou-se regular e o pulso normal e estável.
O médico ergueu-se com um suspiro de alívio.
- Milagres acontecem!
A insondável mágica da natureza, mais uma vez, faz a ciência corar de vergonha!
Meus parabéns, Barão!
Sua esposa está salva e viverá.
Quando a manhã já ia alta, Ellen abriu os olhos, viu o pai e Evgueny, que aguardavam alegres seu despertar, e a cumprimentaram por ter escapado do perigo.
A partir desse dia, a recuperação seguiu com inesperada rapidez.
O ferimento sarava, as forças e o apetite aumentavam a cada dia.
Seu estado de espírito auxiliava visivelmente a recuperação.
Estava tão feliz e grata por Deus ter-lhe concedido a vida, tão terna e amorosa com o marido, o pai e Nelly, que, após as preocupações e medos das últimas semanas, todos se sentiam como no Céu.
Entretanto, o enorme cansaço e a tensão afectaram tanto a saúde de Evgueny Pavlovitch que ele adoeceu.
Apesar de seu mal não necessitar de maiores cuidados, teve de ficar de cama durante uma semana.
Assim que levantou, o médico prescreveu-lhe permanecer na vila para respirar ar puro e ordenou repouso absoluto.
Prometia-lhe que a esposa iria juntar-se a ele em alguns dias, pois ela também precisava de tranquilidade e descanso perto da natureza.
Enquanto isso, a cidade de Boston comentava o drama que se desenrolara entre Ellen e o marido.
Eles nem suspeitavam o quanto sua vida pessoal era comentada, de todas as formas.
A tentativa de suicídio da ex-senhorita Rutherford-Ardi, famosa pregadora do "Paraíso sem Adão", despertou a curiosidade geral.
A comunidade, por iniciativa de sua directora temporária, aproveitou a oportunidade para fazer grande propaganda e atrair novas seguidoras.
As senhoritas Smith e Robinson, as melhores oradoras da comunidade, desde o afastamento de Ellen realizaram várias palestras, nas quais, com raios e trovões, levantavam-se contra os perigos do casamento e a infidelidade dos homens, que, por seu comportamento escandaloso, levavam as infelizes esposas ao suicídio.
Os detalhes não deixavam dúvidas quanto à identidade dos protagonistas que serviam de tema para as palestras.
A multidão, sentindo a veracidade dos factos e sedenta de novidades picantes, lotava os salões.
Esse enorme sucesso despertou a rivalidade no espírito do senhor Brown.
Ele também fizera duas palestras sobre a enorme responsabilidade que o homem assume ao casar-se e sobre as fatais consequências de seus actos insensatos.
Em todas as palestras, o Barão Ravensburg desempenhava o papel de marido-monstro.
Sua personalidade era tão claramente descrita que não havia qualquer dificuldade em reconhecê-lo.
Entretanto, as pessoas envolvidas, sequer faziam ideia da sua enorme popularidade e dos boatos que a imprensa local publicava a seu respeito.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:30 pm

Nos jornais já se discutia o divórcio do Barão.
Havia suposições de que a "eloquente pregadora", definitivamente curada de sua loucura conjugal, reassumiria sua missão assim que recuperasse totalmente a saúde, e doaria ao abrigo toda sua enorme fortuna.
Cansados demais, física e espiritualmente, para acompanhar notícias de jornais, Artemiev e o genro nem suspeitavam do que estava acontecendo.
Somente Nelly, no dia em que Ellen pretendia ir para a vila, soube de tudo quando foi ao abrigo pela manhã.
Ela manifestou directamente à directora a sua indignação contra a indiscrição com que foram entregues ao julgamento popular problemas familiares de um dos membros da comunidade.
Avisou-a que tal irresponsabilidade poderia privá-las da colaboração e dos ricos donativos de Ellen.
Mas o mal já estava feito.
Profundamente desgostosa, a senhorita Sinclair voltou para junto da amiga, mas não teve coragem de lhe contar o que soubera.
Ellen sentia-se melhor a cada dia, ardia de vontade de ver o marido e o pai.
Fresca e alegre, pela primeira vez após a doença, vestiu um luxuoso traje de viagem e, apoiada por Nelly, já ia embarcar na equipagem quando chegou uma delegação de fanáticas defensoras do abrigo e ardentes admiradoras de sua eloquência, que vieram cumprimentá-la pela pronta recuperação.
Ellen aceitou amavelmente o buquê de flores que ocupou todo o assento dianteiro da equipagem e agradeceu às damas apertando a mão de cada uma.
Viajou com espírito alegre e aspirando profundamente o ar fresco e aromático.
Parecia-lhe que jamais o sol estivera tão brilhante e a natureza tão maravilhosa.
Oh! Como Deus fora misericordioso concedendo-lhe a vida!
Na vila, Artemiev preparava-se com entusiamo, desde cedo, para receber a filha, ajudado pelo Barão.
Para passar o tempo à espera da jovem senhora, Evgueny Pavlovitch pegou na escrivaninha um maço de jornais e passou a folheá-los com indiferença.
De repente, forte rubor cobriu seu rosto.
Encontrou, por acaso, a descrição da última palestra da senhorita Robinson e a polémica picante que provocou.
Tremendo de ira, o Barão começou a ler tudo o que fora escrito sobre sua pessoa.
Encontrou coloridas descrições de suas traições, do sofrimento que levara Ellen a tentar o suicídio e discussões inflamadas sobre esse curioso tema.
Pensou que ia sufocar de fúria.
Estava assim, quando leu quase com prazer uma contestação para esse tema de um dos ardentes inimigos do "Paraíso sem Adão":
"Só faltava agora responsabilizar todos os homens pelo facto de uma neurótica, em vez de agradecer de joelhos a Deus por todas as dádivas que lhe concedeu, ter dado um tiro na testa por falta do que fazer e por causa de bobagens.
Se as próprias mulheres fossem ilibadas, teriam o direito de berrar pela traição dos maridos; mas a infidelidade dos homens é mais perdoável, por trazer menos consequências danosas à família.
Se todas as esposas excessivamente ciumentas se enforcassem, o mundo estaria livre de muitas tresloucadas, tão perigosas e prejudiciais ao lar conjugal, quanto suas irmãzinhas do hospício denominado 'Paraíso sem Adão', que as autoridades deveriam ter fechado há muito tempo."
Sem suspeitar da tempestade desencadeada no espírito do genro, Artemiev ficou pasmo com o seu rosto vermelho e alterado.
Mal conteve sua surpresa quando soube o que acontecera.
- Vou mostrar àquelas bruxas doidas como fazer propaganda com meus problemas particulares!
É uma infâmia.
Elas não têm o direito de fazer isso.
Eis uma boa lição para Ellen!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:30 pm

Eis o fruto de suas benfeitorias para essa comunidade:
a vergonha pública! - bradava Evgueny Pavlovitch, furioso.
Artemiev tentou acalmá-lo.
No fundo, ele também estava irado, mas não o revelava.
Temia que a raiva do Barão afectasse as boas relações restabelecidas entre os cônjuges.
Por isso, tentava transformar tudo em brincadeira e finalmente conseguiu fazer Evgueny Pavlovitch rir.
- Deixe-me ler todo esse absurdo para Ellen.
Isso servirá de castigo para sua atitude insana e como o melhor antídoto contra futuras loucuras! - acrescentou Vladimir Aleksandrovitch, enxugando os olhos.
Uma hora mais tarde, Ellen chegou.
Quando ela, encantadora e feliz, correu para os braços, primeiro do pai e depois do marido, toda a raiva do Barão desapareceu.
Ele até se divertia disfarçadamente com o ar preocupado e sério de Nelly, suspeitando que ela já sabia das aventuras oratórias da comunidade.
O almoço transcorreu alegremente.
Quando Ellen ordenou que trouxessem um grande vaso para colocar o buquê de flores ganho das admiradoras e começou a contar para o marido sobre a delegação da comunidade que fora visitá-la pela manhã, Evgueny Pavlovitch observou, sorrindo jocosamente:
- Também quero lhe oferecer um buquê, não de flores, mas de eloquência.
Ele vai coroar sua peraltice, e espero que lhe sirva de remédio para o futuro.
Entregando-lhe os jornais, acrescentou:
- Leia isso e trema de horror, por ter um marido-monstro como eu!
Confusa e preocupada com essas palavras, Ellen pegou os jornais.
À medida que lia, um forte rubor espalhava-se por sua face e os lábios começaram a tremer nervosamente.
Ficou especialmente irritada com as ofensas endereçadas a seu marido e a notícia de que pretendia divorciar-se dele.
- Isso é uma infâmia!
Vou imediatamente me queixar à senhora Oliver e acusar por difamação a Smith e a Robinson.
Nelly, como pôde permitir esse horror?
- Eu nada sabia até hoje de manhã e fiquei tão indignada quanto você.
Nada disso teria acontecido se a senhora Oliver não tivesse adoecido e fosse obrigada a entregar a direcção da comunidade em mãos incompetentes.
Mas, acalme-se! Já visitei o abrigo.
Hoje haverá uma assembleia geral.
A senhora Spops será naturalmente afastada do cargo e a direcção temporária ficará a cargo da senhora Forest.
Ao ver a irritação de Ellen, suas faces ardentes e olhos faiscando, o Barão teve medo de tal emoção afectar a convalescença da esposa.
Abraçou-a e tentou acalmá-la com piadas.
Ellen calou-se, mas ficou triste e preocupada.
Após o chá, quando os cônjuges ficaram finalmente a sós, Evgueny Pavlovitch puxou a esposa para perto de si no divã e perguntou carinhosamente:
- Por que está tão calada e preocupada, Ellen?
Para que obscurecer a vida que Deus lhe concedeu novamente?
- Perdoe a preocupação que lhe causei! - disse Ellen baixinho, corando e encostando a cabeça no ombro do marido.
- Com prazer, apesar de me ter causado grande dor de cabeça.
Mas perdoo na condição de você jamais repetir o que fez, sua ciumenta incorrigível, que castiga qualquer leviandade com a morte.
- Juro fazer o possível para reduzir a impetuosidade do meu carácter.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:30 pm

Não ouso prometer não ser ciumenta, pois não suporto a ideia de você ter outra mulher.
Mas, do meu amor e da severa lição que aprendi, extrairei a confiança e a condescendência se você pecar.
O Barão não conteve o riso.
- Vejo que o mais sensato é não forçar demais suas boas intenções.
Agora devemos agradecer a Deus, por ter-nos livrado de remorsos infinitos, como os que ainda torturam seu pai.
Mas você ainda não me perguntou o motivo de minha viagem a Paris.
Vou lhe contar tudo, para me justificar completamente.
- Mas eu confio em você mesmo sem isso!
Para que falar de algo que lhe é visivelmente desagradável?
- Não, não!
Não haverá mais segredos entre nós:
isso eu jurei a mim mesmo.
Trata-se de uma história familiar que, mais cedo ou mais tarde você acabaria sabendo!
Você sabe que minha mãe vive permanentemente no estrangeiro.
Eu pouco lhe falei dela, pois nossas relações são um pouco tensas e considero-a culpada pela tragédia que aconteceu em Paris.
Eu estava com catorze anos quando minha mãe se casou pela segunda vez, com um francês bem mais novo que ela, viúvo e com uma filha de oito anos.
Toda a minha família foi contra essa união, pois meu padrasto, apesar de rico, tinha paixões devastadoras:
jogava cartas e apostava nas corridas de cavalos.
Como era de se esperar, acabou arruinado.
Cinco anos após o casamento, ele faleceu, em consequência de uma queda do cavalo, deixando para minha mãe somente migalhas e a filha dele, a pobre Júlia.
Nesse período de cinco anos, passei duas vezes minhas férias de verão na casa de minha mãe e travei amizade com minha meia-irmã, uma moça bonita, animada e sensível, cuja educação, entretanto, foi muito negligenciada.
Devo confessar, para vergonha de minha mãe, que ela não gostava de Júlia, não se preocupou com sua educação e a deixava fazer o que bem entendesse.
Quando, no fim do ginásio, visitei novamente minha mãe, Júlia estava com quinze anos.
Achei-a ainda mais mal-educada e estranha que há dois anos.
Ela se queixava de que a tratavam mal e obrigavam-na a trabalhar demais.
Tentei consolá-la e repreendi minha mãe.
Aparentemente, as relações entre elas melhoraram; mas, após minha partida, as desavenças recomeçaram.
Oito ou dez meses mais tarde, soube que Júlia fugira com um actor e ficou desaparecida por alguns anos.
Um dia, recebi dela uma carta pedindo ajuda monetária.
Júlia confessava que, quando o primeiro amante a deixou, ela fora contratada pelo dirigente de um cabaré, onde cantava.
Desde então, foi decaindo cada vez mais.
Estando na completa miséria, resolveu apelar para o único parente que sempre a tratou bem.
Designei à pobrezinha uma pequena pensão.
Ao retornar da América, passei por Paris e fui visitá-la.
Pretendia levá-la comigo, instalando-a discretamente na Rússia, mas ela recusou.
Confessou-me que tinha um noivo, um oficial da reserva, que se casaria com ela se eu lhes desse um pequeno capital para começarem a vida.
Eu, naturalmente, atendi o seu pedido, apesar de o noivo me parecer suspeito.
Quanto a Júlia, achei que estava tuberculosa e até pedi a um médico, amigo meu, para ficar observando-a.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 15, 2016 8:31 pm

Alguns meses mais tarde, ele me escreveu aquilo que eu já suspeitava.
O miserável roubou minha irmã e abandonou-a sem casar.
Júlia estava grávida e, ainda por cima, muito doente.
Minha resposta nem teve tempo de chegar a Paris, quando recebi aquele telegrama que motivou tantos problemas.
Considerando natural que a infeliz vítima da avareza de minha mãe desejasse me ver pela última vez e me entregar a sua filha, decidi ir a Paris.
Mas, conhecendo sua opinião e seu desprezo, por todas as mulheres tresloucadas, não me atrevi a lhe contar essa história suja.
Além disso, entre nós jamais houve confiança e eu temia provocar suas suspeitas.
Encontrei Júlia ainda viva, prometi lhe proteger e educar sua filha.
Era necessário dar à criança um nome legal e tive de sair à procura do noivo desaparecido, que acabei encontrando.
Por uma quantia razoável, aquele canalha concordou em se casar com Júlia e me passar, de forma legal, todos os direitos sobre a pequenina Geni.
O casamento foi realizado "in extremis"(1), Júlia faleceu na mesma noite, mas os trâmites de todos esses negócios demoraram muito tempo.
Ao voltar do enterro, recebi uma carta informando a sua partida.
Então, concluí rapidamente tudo que tinha de fazer e no dia seguinte fui embora com a criança.
- Mas onde você a deixou? - perguntou Ellen, que ouvia o marido, emocionada.
- Graças à senhora Varatov, consegui instalar a pequenina na casa de uma parente dela, viúva e sem filhos, que concordou em cuidar da menina.
- Não. Permita-me ficar com a pobre garotinha.
Eu mesma vou educá-la - interrompeu Ellen.
- Isso vai lhe dar muito trabalho.
Além disso, espero ter os nossos próprios filhos.
- E daí? Eles terão uma irmã mais velha, só isso!
Por favor, deixe-me ficar com ela.
Ela será sempre para mim o sinal, que lembrará o meu indigno e insano acto, e servirá de remédio contra minhas fraquezas.
- Será como quiser, minha querida - respondeu Evgueny Pavlovitch, comovido.
Parece que no futuro só me restará agradecer a Deus por tudo o que aconteceu, inclusive os discursos das irmãs da comunidade - acrescentou ele, rindo.
- Oh! Aquilo foi tão torpe! - exclamou Ellen, com irritação.
- Então, depois dessa sujeira, você romperá para sempre com o "Paraíso sem Adão"?
Ela silenciou por instantes, em seguida balançou a cabeça e respondeu:
- Não. O abrigo é uma instituição social e, consequentemente, sujeita a abusos e ilusões; até o próprio nome está errado.
Como pode existir um paraíso num lugar onde se abrigam infelizes, irremediavelmente condenadas pelo destino?
Apesar disso, é uma instituição útil; quem no mundo merece mais compaixão do que pessoas com o coração partido?
Quem teria mais direito a ajuda e apoio do que seres abandonados, justamente por quem deveria sustentá-los?
- Em todo caso, você não pode mais acreditar que a educação dada pela comunidade atinge o seu objectivo - observou Evgueny Pavlovitch, não sem malícia.
- A educação é boa, pois dá à mulher a independência, através do trabalho.
Só é necessário mudar um item do programa:
é preciso ensinar as jovens a procurar não um "paraíso sem Adão", mas um paraíso em qualquer situação que o destino lhes apresentar.
Em outras palavras, elas devem procurar a felicidade no trabalho, no bem e no cumprimento do dever assumido.

1 - In extremis (ou "in articulo mortis" ou nuncupativo):
diz-se do casamento realizado em carácter de urgência por um dos nubentes encontrar-se em eminente risco de vida, no qual qualquer pessoa ou os próprios nubentes fazem declarações perante testemunhas.

FIM

São Petersburgo, 1898

§.§.§- O-canto-da-ave
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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