Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:19 pm

Incomodado por tais gritos e súplicas, o Senhor criou Eva, amorosa, pura, com todas as virtudes espirituais e físicas, capaz de entender tudo o que é grande e lindo, mas que era dócil demais.
Adão ficou entusiasmado e, no início, a vida deles foi suportável.
Ele ainda não se acostumara ao papel de líder e a atmosfera do Paraíso predispunha à paz e ao 'dolce far niente'(1).
Mas quando foram expulsos e tiveram de ganhar o pão de cada dia com o suor do próprio rosto, Adão revelou todos os encantos do seu egoísmo e maldade.
Eva tornou-se o bode expiatório, seu burro de carga, e essa opressão da mulher foi aumentando a cada geração.
Se Adão tivesse sido expulso sozinho, Eva permaneceria tranquila e feliz no Paraíso.
Mas isso tudo é passado.
Chegou a hora de pôr fim a essa situação e devolver à mulher o lugar ao Sol que lhe pertence.
Para isso é preciso, antes de mais nada, provar aos homens que as mulheres podem viver sem eles, tomando-se independentes pelo próprio trabalho; em segundo lugar, vencer o secular e ridículo preconceito, que é o temor de virar 'solteirona'.
Essa ideia absurda não condiz com os tempos modernos e obriga milhares de moças a se casarem de qualquer jeito e com qualquer um, somente para não ganharem o horrível apelido de 'solteirona'."
Essa publicação teve enorme sucesso.
Homens compravam-na tanto quanto as mulheres, e até mais.
Uns divertiam-se, outros ficavam irritados com esse ataque directo e até pretendiam apresentar queixa contra a comunidade e a palestrante, depois que algumas moças, impressionadas pela pregação anti matrimonial, recusaram seus noivos e entraram para a comunidade.
A maioria dos homens, entretanto, limitou-se a zombarias, dizendo não temer a guerra desencadeada contra eles, que sempre haveria mulheres suficientes desejando casar e lamentando que uma moça tão encantadora, criada para o amor, estivesse contaminada por ideias tão absurdas.
Ellen não ligava e prosseguia os ataques, planeando até transferir a guerra para a Europa.
Lá pretendia organizar um levante das mulheres contra a superioridade dos homens, criar associações semelhantes à sua comunidade e dar um carácter mais dinâmico ao movimento de emancipação feminina.
Com a anuência da senhora Oliver, ficou decidido que Ellen partiria no outono para o Velho Mundo, onde permaneceria um ano e visitaria, inclusive, a Rússia.
Apesar da opinião geral, de que naquele país seria mais difícil agir do que em qualquer outro, Ellen insistiu em sua decisão.
Finalmente, a senhora Oliver rendeu-se aos seus argumentos e prometeu até conseguir cartas de recomendação para famílias da alta sociedade através de sua parenta casada com um russo que residia em São Petersburgo.
Um desejo oculto incitava Ellen a visitar a Rússia, sem que ela ao menos desconfiasse disso.
Era o desejo de ver o pai, se ainda estivesse vivo e, se possível, vingar-se dele.
Um indescritível e amargo ódio premia-lhe o coração só de pensar naquele homem tão próximo e, ao mesmo tempo, mais estranho que qualquer transeunte.
Em tais momentos, um terrível sentimento de solidão apoderava-se dela; a consciência de estar só no mundo, entregue às próprias forças, despertava-lhe o desejo de rever o pai que jamais conhecera, o pai que não quis amar a própria filha, para retribuir-lhe cada ferimento.
Ninguém, todavia, sequer suspeitava dessa obsessão.
Para todos, a bela missionária estava indo batalhar pela emancipação das mulheres e preparava-se activamente para a espinhosa missão.
Somente Nelly colocou-se abertamente contra, reprovando com hostilidade essa intenção de Ellen.
- Para que procurar locais para trabalhar além do oceano - dizia ela -, quando por aqui temos trabalho de sobra que exige pessoas dedicadas e activas?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:20 pm

Além disso, tenho um pressentimento de que esta viagem lhe trará infelicidade.
Se quiser um bom conselho, jamais vá à Rússia, que foi fatal à sua mãe.
A oposição da melhor amiga quase abalou Ellen, mas a motivação secreta foi mais forte e a viagem ficou decidida.
Quando a partida foi irremediavelmente marcada, Nelly calou-se e disse que acompanharia Ellen como sua secretária.
Uma outra moça da comunidade iria como auxiliar da missionária ou de sua secretária, conforme a ocasião.
Finalmente, a senhora Forest deveria acompanhar as três amazonas em sua empreitada.
Nos primeiros dias de agosto, Ellen e suas três companheiras partiram para Nova Iorque, de onde viajariam à Europa.
Toda a comunidade foi levá-las à estação, desejando feliz viagem e muito sucesso.
No magnífico transatlântico que seguia para Bremen (2) havia numerosos viajantes, em sua maioria homens.
Ellen era bonita demais para não chamar atenção; além disso o capitão do navio e algumas outras pessoas a conheciam, o que aumentava ainda mais o interesse de todos por ela.
Desde os primeiros dias na embarcação, Ellen notou um elegante rapaz que insistia em olhá-la.
Sua aparência despertou-lhe certa antipatia e, ao mesmo tempo, um interesse que a fazia procurar com os olhos a figura alta e elegante do desconhecido e examiná-lo com curiosidade.
Era um rapaz sem dúvida bonito, de uns trinta anos, rosto de finos e nobres traços ao qual as sobrancelhas espessas e o nariz levemente adunco davam uma expressão enérgica.
Sua face era pálida e, sob os bigodes negros, destacavam-se belos lábios sensuais; seus grandes olhos cinzentos, com um tom esverdeado, faiscavam.
Sob a influência desse sentimento de antipatia, ela passou a evitar o desconhecido, voltando sua atenção para a parte feminina dos passageiros.
Durante o almoço, fez amizade com sua vizinha de mesa, uma alemã de meia-idade, que lhe pareceu simpática.
Depois, ambas subiram ao tombadilho e continuaram uma conversa interessante sobre a vida das mulheres no Japão, onde a senhora Alma-Rosa passara alguns anos como educadora.
Ela retornava à Alemanha para casar-se com um homem de quem estava noiva há doze anos.
A orgulhosa americana olhou com profunda pena o rosto pálido e murcho de sua interlocutora e sua aparência cansada e doentia.
Ellen achava aquele desejo de submeter-se à escravidão do matrimónio uma loucura, pois a mulher já não tinha mocidade nem beleza para encantar o seu senhor.
O que esperava ela da vida conjugal, se tantas outras, cheias de juventude, beleza, inteligência e riqueza foram abandonadas?
Decidindo-se rápido, Ellen passou a falar de sua comunidade, sobre as vantagens da liberdade, a obrigação das mulheres de se unirem na criação de abrigos semelhantes ao "Paraíso sem Adão" e, finalmente, sobre a necessidade de se livrarem da submissão dos homens.
Rosa ouvia surpresa.
Como educadora, estava acostumada à submissão e à abnegação.
Por isso, as opiniões revolucionárias de Ellen escandalizaram-na.
- Isso é utopia!
A mulher foi criada para obedecer ao homem e viver em função das obrigações de família.
Além disso, amo o meu Wilhelm e estaria pagando com a ingratidão sua fidelidade se faltasse à minha promessa e começasse a lutar contra o matrimónio.
Um sorriso zombeteiro passou pelos lábios de Ellen.
- Não duvido que a senhora o ama, mas e ele?
Não acredito na fidelidade dos homens e em sentimentos profundos da parte deles.
Permita-me uma pergunta indiscreta:
quando foi a última vez que viu o seu noivo?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:20 pm

- Já faz nove anos.
Mas correspondemo-nos assiduamente e ele me ama do mesmo jeito, como no dia de nosso noivado - respondeu Rosa, corando.
- Querida Rosa, percebo que você é incurável, e desejo de todo coração que seja feliz e jamais sofra desilusões.
Mas deixe-me continuar com as minhas convicções.
O conceito germânico de obrigações familiares em nada me atrai.
Então, com sua alegria e animação características, Ellen passou a descrever a vida da mulher, condenada, desde a infância, a cerzir as meias do pai, dos irmãos e, mais tarde, do marido e dos filhos, costurar, cozinhar e tricotar para todos na casa.
Tudo em meio a gritos, barulho e estardalhaço de uma dúzia de crianças que ela teve a felicidade de trazer ao mundo, ninar, educar e ensinar.
Isso acontece no lar, enquanto o marido, desempenhando o papel de "rei da criação", fica bebericando a sua cerveja, jogando baralho ou discursando em clubes e sociedades patrióticas.
Ela concluiu o seu quadro caricato, divertindo-se com o ar perdido e revoltado de Rosa.
De repente, seu olhar encontrou o do desconhecido que ela decidira evitar, mas não notara a sua aproximação.
Nos olhos dele havia uma expressão tão irónica de desprezo e superioridade que um forte rubor cobriu o rosto de Ellen.
Medindo-o com um olhar orgulhoso e hostil, afastou-se acompanhada da senhora Forest e Nelly.
Apesar da firme decisão de evitar o desconhecido, que lhe parecia cada vez mais antipático, no dia seguinte Ellen foi apresentada a ele pelo capitão do navio, que se interessou pela bela passageira, cortejava-a com insistência e, nas horas vagas, discutia com ela e as companheiras suas absurdas convicções.
Durante uma dessas conversas, o capitão chamou o desconhecido e pediu permissão para apresentar às damas o Barão Evgueny Ravensburg, que logo se interessou pela comunidade "Paraíso sem Adão" e pelos objectivos das missionárias.
Ellen tratou o rapaz friamente e com desconfiança, mas ele pareceu não notar e passou a conversar com Nelly sobre o movimento feminino na América.
Ele ouvia as amáveis e irreverentes discussões do capitão com a senhorita Rutherford, mas não se intrometia na conversa, mantendo-se numa fria discrição.
Desde esse dia, o Barão passou a aproximar-se das damas assim que elas apareciam no salão ou no tombadilho; conversava alegre e amavelmente, mas sem qualquer insinuação de corte.
Certa vez, disse já ter visitado a América anteriormente, mas não ficara tanto tempo como agora.
- O senhor viaja por diversão?
Já esteve na América do Sul?
- Não, visitei somente os Estados Unidos.
Essa viagem foi receitada por meu médico, para me distrair e acalmar os nervos, muito abalados por um caso em que fui réu - respondeu o Barão, brincando com a ponta do bigode.
- Mas que crime o senhor cometeu? - perguntou Ellen por simples curiosidade.
- Louco de ciúmes, estrangulei minha esposa - respondeu o Barão com tranquilidade e indiferença.
Ellen estremeceu e recuou, olhando com horror e asco o rosto tranquilo e despreocupado do Barão.
Aquele cínico revelava-se um verdadeiro monstro.
Não somente divertia-se viajando após o assassinato, mas até ousava falar de seus nervos abalados.
- Seria indiscrição de minha parte perguntar-lhe de que país o senhor é?
Onde fica esse paraíso de justiça que absolve tais diversões?
Na Alemanha e no meu país o assassinato é punido com a morte - disse Ellen após um curto silêncio.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:20 pm

O Barão permaneceu indiferente.
- Meu ciúme foi legítimo; além disso, matar a esposa adúltera num momento de excitação não é considerado assassinato premeditado, mas uma acção passional, desculpável.
Sou russo, minha senhora; no meu país, como em todo o mundo, a infidelidade da esposa é considerada crime milhares de vezes pior que assassinato.
A esposa jamais deve esquecer de que o marido é o senhor, que ela deve reverenciar e respeitar e a quem deve obedecer e ser fiel.
Por isso, a mulher não deve esquecer que merece a morte por sua infidelidade.
A testa branca de Ellen enrugou-se, os olhos azuis escureceram de emoção e faiscavam de indignação.
Refazendo-se rapidamente, observou com ironia:
- Nota-se que o senhor vem de um país mal saído da barbárie.
Talvez na sua encantadora pátria ainda não admitam que a mulher possui uma alma!
Se assim for, não acha insensato exigir daquelas infelizes todas as virtudes que o senhor acabou de enumerar?
- Não. Em nosso país, admitimos que a mulher tem alma, naturalmente inferior à nossa.
Mas não me diga que a fidelidade é uma virtude tão extraordinária.
Até os cães a possuem.
Casei-me levianamente.
Numa próxima vez, ao escolher uma esposa, serei mais criterioso e estudarei antes o carácter da eleita.
Desta vez Ellen ficou completamente estarrecida.
Esse monstro sanguinário estava tão cego em sua vaidade, que imaginava que alguém ainda ia querê-lo.
- O senhor pretende se casar novamente?
Não me diga que imagina encontrar uma mulher tão corajosa a ponto de desposá-lo!
- Oh! Posso encontrar uma centena.
Cada uma delas estará convencida de que conseguirá seduzir-me ou, em todo caso, enganar-me mais habilmente para evitar a catástrofe que custou a vida da minha primeira esposa - respondeu o Barão com um sorriso.
- Barão, o senhor é muito modesto!
Cada palavra sua comprova o tipo de respeito que tem pelas mulheres.
Na Rússia, aparentemente, elas são por demais submissas.
Já é tempo de alguém tirá-las do torpor, mostrar-lhes que têm os mesmos direitos do homem, ensiná-las a viver sozinhas, desprezando o jugo matrimonial e evitar, como o mais perigoso inimigo, a ignóbil outra metade da raça humana.
- Oh! Nós, homens, ignóbeis?
São palavras cruéis, senhorita Rutherford!
Qual foi o infeliz representante do nosso sexo que a ofendeu a ponto de fazer seu jovem coração odiá-lo tanto?
- Meu coração nada tem a ver com isso.
Graças a Deus jamais me rebaixei a ponto de amar algum representante do vosso sexo - respondeu Ellen com desprezo.
- Então, isso ainda acontecerá.
Não confie em Eros (3); ele é um rapaz muito astuto!
Gosta de atingir com suas flechas justamente pessoas que se acham inatingíveis.
- Não o temo nem desejo criar um inferno particular.
Aliás, sou por demais experiente para cair nessa armadilha.
- Verdade? Tão jovem e tão experiente?
Quem diria! - observou, zombeteiro, o Barão.
Ellen corou e franziu o cenho.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 7:20 pm

- O senhor não me entendeu, Barão.
Estou falando teoricamente.
A instituição onde estudei permitiu-me aproveitar a triste experiência de outras.
Na prática, não estou interessada em homens e pretendo estar sempre livre de sua maléfica influência.
Somente uma educação deficiente e os velhos preconceitos explicam como tantas criaturas desenvolvidas, talentosas, activas e enérgicas se tornam brinquedos inúteis em mãos grosseiras e levianas.
Em vez de ensinar, desde a mais tenra infância, a necessidade de trabalhar para ser independente e útil à sociedade, dizem à moça que o casamento é o único objectivo de sua vida e a posição mais honrosa que ela pode ocupar.
As mães, cegas e insensatas, esquecendo o próprio sofrimento, as desilusões, preocupam-se apenas em casar a filha, sem abrir-lhe os olhos para o que a espera e sem contar que o amor nada mais é que um sonho, cujo despertar se torna um terrível pesadelo de infinita submissão à pessoa que se apropriou de todos os direitos, deixando-lhe somente as obrigações.
- Suas palavras têm uma dose de razão!
Mas quantas mulheres considerariam felicidade uma vida solitária? - perguntou o Barão, ficando sério repentinamente.
Não! O ímpeto de amar e ser amada é tão poderoso no coração da mulher que, apesar das nossas maldades e da nossa tirania, a única dificuldade é escolher entre tantas vítimas voluntárias, desejosas de ir para o altar e que encontram prazer especial em se deixarem torturar - acrescentou ele, retomando ao tom zombeteiro.
Mas Ellen já não o ouvia e franziu as sobrancelhas, muito séria.
Lembrou-se da mãe, que, ao terminar a longa agonia espiritual, pagou com a vida o seu sonho doentio, deixando-lhe o enigma:
teria ela deixado de amar o patife?
Barão olhava com curiosidade o seu rosto sombrio e a severa e amarga dobra em volta de seus lábios.
"Existe algum mistério no passado dessa moça", pensou.
"Ela é jovem e pura demais para ter sofrido desilusões amorosas.
Talvez tenha acontecido algo entre seus pais que obscureceu sua infância."
Ellen, já refeita, sorriu ao olhar perscrutador do Barão.
- Que plano sombrio estava arquitectando a encantadora e cruel inimiga do nosso sexo?
Com que discurso a senhorita eliminará a nós, homens, provocando assim a extinção da raça humana?
Ellen balançou a cabeça.
- Pensava na triste verdade de suas palavras.
Portanto, não tema pela raça humana!
O senhor acabou de dizer que existem muitas mulheres, até demais, dispostas a serem encilhadas em sua biga triunfal, felizes em se deixarem estrangular, satisfeitas com as migalhas de amor que caem de sua mesa.
Enquanto isso, nessa mesma mesa, as mulheres da vida absorvem a melhor parte do coração e da carteira do seu marido.
Mas eu desprezo a esmola; prefiro morrer fiel às minhas convicções de que o verdadeiro paraíso só pode existir sem Adão.
Ellen levantou-se e inclinou a cabeça levemente.
Toda a sua figura respirava tal inocência, encantamento e virginal sedução, que os olhos do Barão faiscaram com admiração, quando ele também se levantou e disse surdamente:
- Mesmo assim, esperemos que a mais sedutora das filhas de Eva não evite a poderosíssima lei do amor e que entre a metade imprestável da raça humana haja um felizardo que a ensinará a carregar com tolerância e docilidade uma corrente de rosas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:27 pm

Ellen ruborizou diante de seu olhar ardente.
- Não! Não quero amar nem ser amada - respondeu balançando a cabecinha.
Para disfarçar o embaraço, dirigiu-se rapidamente à sua cabine.
Jogou-se no divã e fechou os olhos, tentando ordenar os estranhos sentimentos que repentinamente a invadiram.
Ellen era de natureza rigidamente equilibrada, acostumada a avaliar as próprias emoções.
Perguntava-se agora com certa preocupação qual o significado daquela sua estranha antipatia pelo Barão Ravensburg.
Muitos homens já lhe falaram de amor e ela vira muitos olhares apaixonados, mas jamais seu coração batera como agora e nunca pensara tanto em alguém quanto neste desconhecido.
Estaria ele brincando ao dizer que matara a esposa por ciúmes, ou de facto vingara cruelmente sua honra difamada?
Os pensamentos desviavam-se e Ellen chegou à seguinte conclusão:
por que somente a honra dos homens é manchada pela infidelidade feminina, enquanto que a honra das mulheres nada sofre com milhares de traições masculinas?
Não seria isso mais uma gritante injustiça?
Claro que sim!
De repente, recordou-se do escritor sueco Bierisen, que em sua obra intitulada "Luva", opinava que o passado do homem, ao casar-se, deveria ser tão irrepreensível quanto o da moça e que ambos tinham o direito de exigir um do outro uma vida casta.
Lembrou a tempestade de ira e zombaria que se desencadeou na época contra o respeitável autor, por ousar propagar tal absurdo!
Os senhores "reis da criação" mantiveram seu privilégio de casar atolados até as orelhas na promiscuidade e prosseguir nessa vida devassa, exigindo da esposa a castidade de um anjo, a fidelidade canina e o respeito cego às suas sujeiras.
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada de Nelly.
A senhorita Sinclair, alta e magra, trajada com simplicidade puritana num vestido preto com estreitas e brancas faixas na gola e nos punhos, tinha um ar particularmente austero.
Na verdade, na comunidade a regra era usar roupas somente nas cores preta e cinza, vestindo-se na moda mas de forma simples.
A senhorita Nelly exagerava essa regra e seus trajes tinham aparência quase monástica.
Mas Ellen e a maioria das outras moças divergiam um pouco dela, permitindo-se enfeitar seus trajes escuros com babados, lacinhos coloridos e flores.
Naturalmente, nenhuma delas tentava agradar ninguém, todas queriam estar bonitas para si mesmas.
A experiente senhora Oliver, com sua tolerância puramente maternal, não punha obstáculos a essa inocência juvenil.
Naquele dia, Ellen usava um vestido de seda negra, um lenço de cabeça rendado, preso por um broche de safiras, e penteado da última moda.
Sua beleza fresca e radiante destacava ainda mais a angulosidade e magreza de sua amiga.
Sentando-se ao lado de Ellen, Nelly apertou-lhe a mão.
- Vim para termos uma conversa séria e chamar sua atenção para um perigo que está ignorando ou não percebe - disse ela com sua voz profunda e metálica.
Notando Ellen corar, acrescentou:
- Você já me entendeu!
Isso comprova que meu aviso não é em vão.
Permita-me repreendê-la por conversar e discutir demais com o Barão russo, que me causa insuportável nojo.
Eu a amo como a uma irmã e meu coração me diz que esse homem representa para você um perigo fatal.
Você é bonita e percebi por seus olhares eloquentes que você o atrai.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:27 pm

Portanto, ele irá vigiá-la como o gavião à sua presa, e depois abandoná-la como uma luva usada assim que seu capricho for satisfeito.
Como você não é o tipo de mulher que encara o amor como diversão, acabará lhe entregando todo o seu coração e quebrando-o, pois o Barão é tão egoísta, esbanjador e sem princípios como o foi seu pai.
Pense nisso, Ellen, e tome cuidado!
Evite esses perniciosos encontros e fuja do perigo, pois o instinto arrasta a mulher para o amor!
Ellen baixou a cabeça, sombria e pensativa, mas após um curto silêncio, endireitou-se e disse com decisão:
- Tem razão, Nelly!
Também sinto que esse homem pode tornar-se perigoso para mim.
Vou seguir o seu sensato conselho e evitá-lo, pois não quero amar e sofrer como minha mãe.
- Fico feliz com sua decisão, pois um homem como ele não estenderia a mão para uma mulher a não ser para sujá-la ou rebaixá-la.
Desejo que você evite o cálice do qual bebi até o fundo, quando tive que arrancar do coração a imagem do noivo que tão cruelmente me revelou que eu era somente um acessório do meu dote!
Mesmo assim, não consegui esquecer aquele sujeito indigno, ao qual estava ligada com todas as fibras do meu ser.
Meus sonhos de futuro e as esperanças perdidas perseguiram-me como zombeteiros fantasmas e muitas vezes o suicídio pareceu-me a única solução!
Mas Deus, em Sua misericórdia, não permitiu que eu cometesse esse crime!
Chegou um momento em que senti vergonha de mim mesma e da minha fraqueza.
Então, dos escombros do passado, ergui-me como uma nova pessoa.
Destruí, eliminei da minha mente tudo o que se referia àquele patife.
Então me tornei tranquila e, espero, inatingível.
Gostaria de livrá-la dessa terrível sina, por isso repito: evite o Barão!
Ellen, pálida e desolada, ouvia em silêncio.
Tristeza, amargura e uma obscura nostalgia enchiam sua alma.
- Certo, Nelly, tentarei evitá-lo e aos outros homens, mas temo que o destino irá colocá-lo novamente no nosso caminho.
Ele é russo, vive em São Petersburgo e ainda hoje pela manhã citou uma pessoa para a qual temos cartas de recomendação.
Portanto, é muito provável que o encontremos na sociedade.
Em todo caso, tranquilize-se:
saberei manter o Barão a uma distância segura.
Estou mais preocupada com outra questão:
será que vou encontrar aquele... homem horrível do qual conservo uma lembrança tão nítida e ruim?
Será que ele ainda vive?
Em caso positivo, estará livre ou casado?
Será que tem filhos para os quais foi um verdadeiro pai?
Ele acha que eu e mamãe morremos, como morreu a sua consciência e as obrigações que tinha para connosco.
Ele me privou do lar paterno, me condenou a uma amarga infância e me tirou a adorada mãe.
As lágrimas embargaram sua voz e ela se calou.
Desde a morte de Vitória, Ellen jamais se sentira tão solitária e abandonada.
Toda a sua vida fora dedicada ao serviço de uma ideia considerada ridícula por muitas pessoas; estava entregue às próprias forças nessa luta e nas tentações que o futuro talvez lhe reservasse.
Nelly, que a olhava compadecida, atraiu-a para perto de si e a beijou.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:28 pm

- Eu a compreendo, pobrezinha!
Esse encontro, se acontecer, será muito difícil para você.
Mas, quem sabe?
Talvez nesse momento fale a voz do sangue, ele goste de você e deseje abraçar a filha querida.
Então chegará a hora da vingança!
A Némesis (5) adormecida despertará e vingará você e sua mãe.
A hostilidade de Nelly era sincera e sua severa opinião sobre o Barão era inteiramente justificada.
Evgueny Ravensburg pertencia a uma família nobre e possuía grande fortuna.
Ninguém jamais impediu seus gostos esbanjadores.
Fora educado numa instituição de elite, onde os discípulos se exercitavam mais na devassidão do que nas ciências.
Concluindo honrosamente o curso, ocupou um lugar no ministério, mais honroso do que lucrativo, e que lhe oferecia muito tempo ocioso.
Aparecia em sua chancelaria às duas horas da tarde, discutia em agradável conversa com os colegas toda a escandalosa crónica dos salões de recepção e dos bastidores, ou escrevia bilhetinhos que os mensageiros particulares levavam rapidamente aos destinatários.
O trabalho era feito às pressas e os incómodos visitantes que ousavam aparecer para informar-se sobre as solicitações entregues eram secamente dispensados.
Aquela recepção, sempre cheia de solicitantes, incomodava terrivelmente os pobres funcionários.
Aquela "sub-raça", que frequentemente não tinha dinheiro nem para almoçar, podia esperar, ou era dispensada com a frase estereotipada:
"A chancelaria irá informá-lo imediatamente, assim que chegar a decisão do seu pedido".
Isso não quer dizer que o Barão fosse naturalmente mau.
Simplesmente era leviano e egoísta, típico filho da época, produto de uma educação frouxa, de uma sociedade depravada e da bajulação feminina.
Fanático admirador do belo sexo e sem ter experimentado o verdadeiro amor, o Barão esgueirava-se habilmente entre milhares de intrigas passageiras.
Usava truques infalíveis, fosse para tentar uma mulher casada, tomar a "cocote" do amigo ou seduzir uma moça, apesar do perigo de tais aventuras.
Em seu trajecto, encontrou poucas mulheres inatingíveis ou duras de coração.
Bonito, elegante, adorado por seus chefes, com quem estava quase em pé de igualdade, era bem recebido por todos e sentia-se inteiramente satisfeito.
Fora à América somente por diversão e, durante a sua estada em Boston, assistiu por curiosidade a uma palestra de Ellen.
O Barão ficou surpreso em ver que a palestrante, em vez de ridícula velhota, era uma moça encantadora que lhe agradou sobremaneira e quis conhecê-la.
Entretanto, por não ter contactos na cidade, teve de desistir do intento.
Mais tarde, para sua grata surpresa, encontrou a missionária no navio e, aproveitando a amizade com o capitão, apresentou-se a ela.
Ellen agradava-lhe cada vez mais.
Sua inteligência, esmerada formação e raciocínio peculiar encantavam-no.
O Barão inventara a história do assassinato da suposta esposa somente para irritá-la e divertir-se com sua indignação.
Depois, notou com arrependimento que Ellen passou a evitá-lo.
Trancava-se na cabine, saía somente para o almoço e, mesmo assim, sentava-se entre a senhora Forest e Nelly, limitando-se a cumprimentar de longe a ele e ao capitão.
Como o tempo estava chuvoso e desagradável, as damas não saíam com frequência para o tombadilho.
Finalmente, na véspera da chegada a Bremen, fez um lindo dia.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:28 pm

Ellen e suas companheiras saíram ao tombadilho para respirar ar puro e sentaram-se nos únicos lugares vagos, junto às cordas.
Perto delas havia um grupo de homens de aparência extremamente séria; todos vestiam trajes pretos, elegantes mas simples.
Ellen já os tinha notado anteriormente e, baseando-se na aparência discreta, supôs que fossem do "exército da salvação".
Neste momento ela também observava atentamente aquele estranho grupo, que se mantinha sempre distante dos outros passageiros.
De repente, um dos senhores dirigiu-se directamente a ela, fez-lhe uma profunda reverência e perguntou se poderia ter a honra de conversar com a senhorita Rutherford-Ardi, famosa missionária.
Ellen respondeu afirmativamente e perguntou-lhe o que desejava.
- Chamo-me Timotheo Brown e sou presidente do clube e sociedade "Homens castos, redentores do pecado original".
- Não tenho o prazer de conhecer os objectivos da sua organização - respondeu Ellen com discrição.
Devo avisá-lo, senhor Brown, que pertenço à comunidade "Paraíso sem Adão", ou seja, sou inimiga do sexo masculino e do jugo secular que rebaixa a mulher ao nível de escravidão.
Timotheo Brown fez uma nova reverência.
- Vim para dizer-lhe que nos curvamos diante de seus objectivos e admiramos o talento com que defende uma das causas mais justas.
Nós, homens, há muito tempo tornamo-nos indignos de ter lar e família, porque nossos irmãos subjugam a metade mais bela da raça humana.
Nossa sociedade foi fundada com o objectivo de criar homens dignos do respeito e do amor das mulheres.
Com palavras e acções professamos os princípios anunciados pelo venerável Biernson (6), do qual somos discípulos.
Reconhecemos a total igualdade entre homens e mulheres e desejamos mudar completamente os costumes.
A vida de um rapaz deve ser tão irrepreensível quanto a de uma moça; ele deve amar pela primeira vez exclusivamente a sua companheira de vida e considerar a fidelidade matrimonial o seu dever mais sagrado.
Por isso, o estatuto do nosso clube exige a castidade de seus membros, no sentido mais amplo dessa palavra.
Extremamente interessada, Ellen e suas companheiras, apertaram a mão do senhor Brown, expressando seu profundo respeito para com aqueles homens publicamente arrependidos, que davam o primeiro exemplo para a mudança de costumes que só poderia levar à união das duas metades do género humano.
Iniciou-se uma animada conversa na qual foi revelado que o senhor Brown e seus colegas estavam indo à Suécia levar a Biernson seus respeitos e pedir-lhe conselhos sobre o melhor modo de divulgar suas ideias através da imprensa e palestras.
Ao saber que Ellen pretendia realizar algumas palestras na Rússia, o senhor Brown disse que tentaria chegar com seus irmãos a São Petersburgo a tempo de ouvi-la e, se possível, também organizar conferências.
Ao término da conversa, as damas trocaram com os interlocutores emblemas adoptados por suas comunidades.
Em troca do distintivo com a colmeia cercada de abelhas e zangões mortos elas receberam bonitas medalhas de prata com a imagem bíblica de José(7) tentando escapar dos braços da esposa de Putifar(8) como um protótipo de castidade.
Ellen, muito animada, contou que tivera o prazer de conhecer o integrante da sociedade da causa masculina e explicou os objectivos desta.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:28 pm

Em seguida, acrescentou que aqueles senhores estariam em São Petersburgo no mesmo período que ela e realizariam palestras complementando as suas.
Ravensburg ouviu tudo calado, enrolando o bigode, e abriu um zombeteiro sorriso às últimas palavras.
- Todos esses grandes projectos se transformarão em pó, senhorita Rutherford - disse ele, finalmente.
A polícia não permitirá nem à senhorita nem a eles organizarem palestras públicas.
- Por quê?
Seria isso da alçada da polícia? - perguntou Ellen, com surpresa e insatisfação.
- Porque em nossa capital a segurança social é bem preservada.
A imprensa e os discursos são censurados com rigor e a polícia poderá julgar suas palestras uma ameaça à ordem social.
- Seria ridículo da parte da polícia meter-se em coisas que não lhe dizem respeito! - exclamou Ellen com indignação.
A polícia tem obrigação de manter o bem-estar, a ordem e a limpeza da cidade e jamais ser uma censora de costumes.
Qualquer pessoa pode ter os próprios credos e o direito de defendê-los.
- Na América sim, mas não na Rússia, onde os cidadãos são convidados a compartilhar da opinião das autoridades.
- Mas não pretendemos nos voltar contra as autoridades!
Vou pessoalmente falar com o vosso minotauro policial e explicar-lhe que não somos anarquistas dinamizadores, nada diremos contra a monarquia e o governo que respeitamos.
Falaremos sobre inofensivos problemas domésticos, sem referência a qualquer pessoa.
Se o chefe da polícia for inteligente, ficará envergonhado da própria ignorância.
Enfim, para convencê-lo definitivamente, vou mostrar-lhe os programas das nossas palestras e tenho certeza de que ele os aprovará.
- Desejo-lhe sucesso, embora não acredite nisso - respondeu o Barão com um sorriso.
Enfim, quando chegar a hora, veremos.

(1 - "Dolce far niente" - Ficar sem fazer nada)
(2 - Bremen - Cidade alemã, capital do estado de mesmo nome, situada às margens do rio Weser).
(3 - Eros - Deus grego do amor, filho de Afrodite e Ares, representado por um menino alado com um arco e flechas.
Entre os romanos, foi associado ao Cupido
).
(5 - Némesis - Deusa grega da vingança e da justiça.
Termo particularmente apreciado por Rochester para designar "vingança"
).
(6 - Bjõrnstjerne Bjõrnson (1832 - 1910) - Escritor e activista popular norueguês.
Escreveu as obras "Monogamia e poligamia", "A lei e não a guerra", entre outras, e foi Prémio Nobel da Literatura em 1903
).
(7 - José - Na Bíblia, filho mais novo do patriarca hebreu Jacó.
Vendido como escravo pelos irmãos a mercadores que iam ao Egipto, acabou por tornar-se o chanceler do Faraó Apopi.
Para conhecer toda sua história, recomendamos a leitura de "O Chanceler de Ferro do Antigo Egipto", de Rochester (Editora do Conhecimento
).
(8 - Putifar - Senhor de José quando este ainda era escravo.
Tentado e seduzido pela esposa de seu Senhor, acabou preso.
(Génese, capítulo 39)
Mal quando o senhor Brown e seus colegas se afastaram, imediatamente aproximou-se o Barão que as estava vigiando de longe e perguntou se aqueles divertidos senhores pertenciam à ordem dos amish[/i](9).
(9 - Amish - Seita cristã puritanista em diferentes estados nos Estados Unidos e no Canadá).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:28 pm

Capítulo 4

Era um sombrio dia de outubro.
Num luxuoso "boudoir" diante de uma escrivaninha de pau-rosa trabalhada, sentava-se uma dama de meia-idade.
Era difícil determinar se já passara dos quarenta ou cinquenta, a tal ponto seu rosto parecia branco ou róseo sob a camada de pó-de-arroz; as sobrancelhas negras, artisticamente desenhadas em ousados arcos, destacavam-se sobremaneira do espesso cabelo ruivo postiço sob uma pequena coifa de renda.
Ainda esbelta, apertada num corpete que desenhava a beleza do seu porte, a dama trajava um vestido azul curto, de pelúcia e mangas curtas, um semi-capote enfeitado de rendas e cinturado com uma faixa negra que terminava num grande laço de pontas longas.
Seus braços semi-desnudos estavam enfeitados por simples braceletes dourados e os dedos cheios de anéis valiosos.
A decoração do "boudoir"(1) combinava inteiramente com sua elegante dona.
O chão estava coberto por um espesso tapete persa e as paredes revestidas com um tecido escuro e aveludado.
Os móveis, baixos e confortáveis, eram revestidos de cetim dourado com uma faixa bordada de seda branca.
A abundância de flores raras e bibelôs valiosos fazia o ambiente ainda mais aconchegante.
Lídia Andreevna, a Baronesa Nadler, era viúva de um general que ocupara um alto cargo em São Petersburgo.
Muito rica, gostando de prazeres e possuindo um carácter animado, distraía a viuvez com brilhantes recepções, o patrocínio de novos talentos e a participação activa em causas filantrópicas.
A Baronesa tinha
duas filhas: Kitti e Marússia.
A mais velha com dezoito anos e a mais nova com dezasseis; mas a mãe não admitia mais de dezasseis para a primeira e catorze para outra, não desejando parecer velha por ter filhas tão crescidas.
Naquele dia, a Baronesa passara a manhã colocando em ordem a correspondência e separando pedidos enviados à sociedade beneficente da qual era presidente.
Apesar de serem ainda três horas da tarde, lá fora estava quase escuro e um espesso e húmido nevoeiro envolvia a rua coberta de neve e lama.
O contraste entre o gélido frio da rua e o aconchegante luxo do "boudoir", impregnado de um leve perfume, provocava um sentimento de profunda satisfação.
Ao lado da escrivaninha, estava acesa uma lâmpada sobre um alto suporte de bronze.
Os raios de luz, filtrados através do abajur vermelho, reflectiam-se como rubis no cetim das cortinas e poltronas.
Diante da Baronesa, numa poltrona baixa, sentava-se uma visita.
Era uma mulher ainda jovem, mas um tanto murcha, de rosto pálido e profundas olheiras.
Seu traje tinha pretensões de luxo:
um vestido de seda negra, que farfalhava agradavelmente ao menor movimento; trazia nos ombros uma grande estola de pele que parecia sem propósito naquela sala aquecida, mas da qual não conseguia separar-se, feliz com a nova aquisição.
Seus cabelos louros, penteados à moda grega, mas terrivelmente armados, estavam enfeitados por um chapeuzinho preto.
Cheia de pose, falava com animação das próprias ocupações e do extremo cansaço que lhe provocava seu serviço; ainda mais, como voltava dos bailes e noitadas às três ou quatro horas da manhã e tinha de levantar às sete, não tinha tempo para recuperar o sono.
A Baronesa ouvia distraidamente esse tagarelar e pensava sobre a carta que recebera aquela manhã da senhorita Rutherford.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:28 pm

Três semanas atrás chegara a primeira missiva de Ellen anexada à carta de recomendação de uma dama da embaixada russa em Nova Iorque, pedindo a Lídia Andreevna que ajudasse e protegesse a jovem americana.
A Baronesa Nadler era liberal e interessava-se, teoricamente, pela emancipação das mulheres; mas temia meter-se em alguma especulação americana que poderia trazer-lhe problemas e despesas.
Por isso, respondeu com muita cautela, pedindo mais informações sobre o que desejavam dela.
A resposta recebida pela manhã dissipou suas desconfianças.
Ellen pedia-lhe que fizesse propaganda, com a distribuição gratuita de brochuras e que encontrasse uma residência apropriada para quatro damas com criadas.
Tudo indicava que a senhorita Rutherford e a comunidade que representava tinham posses e necessitavam somente de apoio moral e participação.
Nesses casos, a Baronesa jamais recusava.
O mordomo entrou, afastando o cortinado, e informou da chegada da senhora Obzorov.
A anfitriã levantou-se imediatamente; mal conseguiu chegar até a porta do quarto quando apareceu uma bela dama de uns trinta anos.
Era uma mulher de cabelos bem escuros, elegantemente trajada num vestido de seda verde-garrafa e chapéu da mesma cor, enfeitado de rosas e um maço de plumas.
Segurando a Baronesa pela mão, a visitante exclamou num tom emocionado:
- Ah, querida Lídia Andreevna! Vim pedir seu conselho para algo muito importante.
A Baronesa beijou-a nas faces e soprou-lhe ao ouvido:
- Fale mais baixo, querida, não estamos sós.
Em seguida, apontou para a primeira visitante e as apresentou.
- Esta é Maria Aleksandrovna Zaguliaev e esta é Varvára Arkadievna Obzorov.
As damas acomodaram-se e Zaguliaev ajeitou-se demais ao sentar, só para farfalhar sua saia de seda.
A conversa não fluía.
A senhora Obzorov, visivelmente irritada com a presença da incómoda visitante, revirava por entre os dedos a correntinha dourada do lornhão; em seguida, pegando da escrivaninha uma brochura de capa azul, passou a folheá-la e interessou-se:
- Que brochura é essa:
"Abaixo o jugo dos homens!"?
Onde a senhora conseguiu isso, Lídia Andreevna?
Parece-me bastante curioso.
- Sem dúvida!
Eu praticamente a devorei.
Sua autora, a senhorita Rutherford-Ardi, é missionária da comunidade "Paraíso sem Adão", uma sociedade de esposas abandonadas, que sofreram maus tratos dos maridos.
Ela chegou à Europa com mais duas irmãs da comunidade e já realizou palestras em Bremen e Berlim com enorme sucesso.
Ela me enviou as reportagens dos melhores jornais: todas favoráveis.
Devo admitir que escreve muito bem e tocou profundamente o meu coração ao ler a eloquente descrição da nossa infelicidade e das revoltantes injustiças cometidas em relação a nós mulheres.
Ela está certa ao afirmar que a mulher deve lutar por sua independência e, ao mesmo tempo, evitar o amor e o casamento.
- Muito provavelmente é uma solteirona despejando sua ira sobre os homens e rejeitando o amor só porque não conseguiu achar um marido - observou Obzorov, folheando nervosamente a brochura.
A Baronesa deu uma gargalhada e, em seguida, tirou da gaveta da mesa o retrato de Ellen.
- Minha prima, Nina Nadler, enviou de Nova Iorque o retrato da senhorita Rutherford.
Olhe-o, Vava, e certifique-se de que não foi velhice nem feiura que a tornaram missionária do "Paraíso sem Adão"!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:29 pm

- Realmente, ela é linda!
Então, a senhorita Rutherford prega contra o casamento por pura convicção.
Aliás - a senhora Obzorov, levou o lencinho rendado aos olhos -, está muito certa.
Quem de nós teria casado, se soubesse o que nos reservava o matrimónio?
As damas trocaram observações ácidas a respeito dos maridos.
Maria Aleksandrovna as ouvia compenetrada.
Ela queria dar sua opinião na conversa, mas não sabia como.
Não sendo casada oficialmente, não podia queixar-se do "marido".
Apesar de trazer em seu coração uma longa lista de maldades recebidas de homens, não podia discorrer sobre a infidelidade deles sem trair-se.
Por fim, decidiu ficar do lado de Ellen:
- Oh! Sem dúvida, é preferível viver do próprio trabalho do que se vender ao primeiro que aparecer, só para conseguir o título de "dama", sem pensar nas desilusões que nos esperam; especialmente nos dias de hoje, quando os homens são muito depravados e avaros, interessando-se apenas pelo dote, sem dar qualquer valor às qualidades pessoais das mulheres.
- Vejo que as senhoras serão ardentes partidárias da senhorita Rutherford.
Então, tenho o prazer de informá-las de que logo ela chegará.
Já aluguei para ela uma residência na rua Mokhovoy, perto daqui.
Maria Aleksandrovna disse que gostaria muito de conhecer a americana por quem se interessou sobremaneira.
Em seguida, passou a discursar sobre o seu trabalho, que a fazia independente, sobre seu desprezo pelo matrimónio e, finalmente, foi embora, para grande satisfação das damas.
- Quem é essa mulher?
Ela fala demais do próprio trabalho e tem um péssimo gosto no trajar - disse Varvára Arkadievna quando a "trabalhadora" foi embora.
- E filha de um subalterno de meu marido, que teve a infelicidade de ser seu padrinho.
Eu a recebo na minha casa, mas não a apresento às minhas filhas por sua reputação meio duvidosa.
Mas, como sua família é pobre, arranjei-lhe um serviço de trinta e cinco rublos num escritório teatral.
- Não me diga!
E com esses trinta e cinco rublos por mês ela usa vestidos forrados de seda e estolas de pele?
Ah, ah, ah!.- a senhora Obzorov riu alto.
Aposto que, apesar de todo aquele desprezo, algum insignificante Adão colabora com seu trabalho.
- Bah! Já que é proibido investigar a paternidade, o que dizer então da origem da estola de peles? - observou a Baronesa, sorrindo.
Mas deixemos Zaguliaev em paz.
Diga-me, querida, qual o assunto que queria discutir comigo?
A senhora Obzorov fez Lídia Andreevna sentar-se ao seu lado no divã e balbuciou, apertando-lhe a mão:
- Temo que meu marido suspeite dos meus encontros com Vladimir.
Ele está me espionando e segue-me com olhares desconfiados.
E isso tudo apesar do que ele próprio se permite fazer! - acrescentou ela, agitando o punho fechado.
- Você não devia levar essas bobagens tão a sério:
todos os homens são promíscuos - disse a Baronesa num tom apaziguador.
- Mas como bobagens?
Imagine que ontem encontrei Vladimir por acaso na avenida Nevsky e começamos a conversar.
De repente, vejo meu marido na equipagem, com a senhorita Jobard do teatro Mikhailovsk!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:29 pm

Ele apressou-se a esconder-se da janela da equipagem, mas ela exibia uma estola de pele de marta (2) que jamais tive.
Minha querida, até senti um mal-estar.
Naturalmente, não eram ciúmes, mas uma enorme indignação.
Desconfio que ele quer me surpreender com meu amante para divorciar-se e casar com a actriz.
Pois bem, vou preparar-lhe uma surpresa!
Vou flagrá-lo primeiro!
Depois, divorcio-me dele e caso com Vladimir, que me adora.
É esse o plano que vim contar-lhe e pedir a sua opinião.
A Baronesa balançou a cabeça negativamente.
- E muito arriscado, querida Vava.
- Por quê?
Só vou agir com segurança.
- Em tais situações nunca se tem certeza.
Lembra-se de Raissa Lvovna?
Divorciou-se do marido para se casar com Lukanov, que foi seu amante por cinco anos.
E o que aconteceu?
Assim que ela ficou livre, ele foi embora para a América deixando-a a ver navios.
Vladimir Aleksandrovitch é um homem encantador, mas muito leviano e adora a vida dissoluta.
E um solteirão inveterado, que não se deixará encilhar facilmente na biga matrimonial.
Já montaram muitas armadilhas para capturá-lo, mas ele sempre escapou.
Além disso, você vai perder muito na questão monetária.
Vladimir Aleksandrovitch é rico, mas nada que se compare a Gueorguy Adamovitch, seu marido, financista e director da estrada de ferro, ganhando cinquenta mil rublos anuais.
- Que vantagem tenho eu, se ele ganha tão bem e gasta em estolas para a senhora Jobard? - exclamou Vava, irritada e com o rosto vermelho.
Ele me dá somente três mil para as despesas e se não acrescentasse mais mil na Páscoa e no Natal, eu teria de andar por aí como uma pedinte em andrajos, pois os trezentos rublos que me presenteia no dia de meu aniversário e no onomástico, mal dão para pagar as luvas e os chapéus.
- Mas Vladimir Aleksandrovitch talvez lhe dê menos ainda.
- E daí? Ele me agrada mais.
E tão másculo e encantador!
E como adora a minha pequena Lulu!
Ele a cobre de presentes e não consegue beijá-la sem emocionar-se.
Será um marido extremamente agradável e não um grosseirão, como Gueorguy.
A Baronesa tamborilou com os dedos na mesa.
- Acredite em mim, Vava, não dá para avaliar um marido pelo amante!
Quanto ao facto de Vladimir Aleksandrovitch mimar Lulu, isso nada prova.
Todos sabem que ele gosta de meninas de três a quatro anos; na minha opinião, nisso existe algum motivo secreto, pois em relação aos meninos ele é completamente indiferente.
Quem sabe se, na mocidade, quando passou alguns anos na América, teve algum caso sério e perdeu uma filha, cuja lembrança o persegue até hoje?
O criado, anunciando a chegada de Vladimir Aleksandrovitch Artemiev, interrompeu a conversa.
Vava ficou agitada, enquanto a Baronesa sorriu maliciosamente e sussurrou-lhe:
- Começo a acreditar que chegou a hora dele.
O indigno marido da pobre Vitória pouco mudara.
Ninguém lhe daria mais de quarenta anos, apesar de já passar dos cinquenta.
Estava vestido com luxuosa elegância.
Seu porte alto não perdera a flexibilidade; nos espessos cabelos castanhos não havia nenhum fio grisalho e os grandes olhos azuis estavam, como de hábito, claros e com uma expressão de frio desprezo. Cumprimentou as damas como um velho amigo.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:29 pm

- Enfim o senhor apareceu!
Eu já estava pensando que tinha esquecido meu endereço - disse a Baronesa Nadler, estendendo a mão a Artemiev.
- Que acusação injusta!
Há muito tempo pretendia vir aqui trazer os meus respeitos assim que soube que a senhora retornara da aldeia, mas os negócios do governo...
Não me venha com essa conversa!
Como se eu não soubesse que o senhor ocupa-se muito mais dos assuntos de Eros do que dos negócios do governo - interrompeu a Baronesa, rindo.
Vladimir Aleksandrovitch não contestou e ficou alisando a sedosa barba com a mão, na qual brilhava um enorme solitário.
Enquanto isso, Lídia Andreevna prosseguiu:
- Já que está aqui, vou sequestrá-lo para o almoço.
E você, Vava, pode nos fazer companhia?
- Com prazer!
Meu marido está almoçando com um amigo do banco.
- Perfeito! Mas, meus amigos, desculpem-me por deixá-los alguns instantes.
Preciso verificar se minhas filhas já retornaram das compras com a senhorita Soper.
Vava, dê atenção a Vladimir Aleksandrovitch!
Assim que a anfitriã saiu, permitindo amavelmente aos amantes passarem alguns momentos a sós, Vladimir Aleksandrovitch ficou mais à vontade.
Puxou sua poltrona para junto da senhora Obzorov, beijou-lhe a mão e disse à meia-voz:
- Você parece insatisfeita com alguma coisa, minha querida!
Conte-me, quem fez intrigas sobre mim?
Qual o motivo de seu injustificado ciúme?
Ela balançou a cabeça.
- Você se engana, não estou com raiva nem ciúme, mas preocupada, pois Gueorguy começou a desconfiar.
Precisamos ser mais cuidadosos.
Artemiev deu de ombros.
- Querida Vava!
Você vê fantasmas em pleno dia.
Acabei de ver seu marido, que me convidou para jantar com ele hoje no Contan.
- E você aceitou?
- Naturalmente!
Seu marido é muito agradável e serve magníficos jantares.
Varvára Arkadievna ficou irada.
- Você é ingénuo demais se não percebe que ele faz isso para tê-lo por perto e poder vigiá-lo.
Pois eu pretendia convidar você para o meu camarote no teatro de Marinsk.
Mais tarde poderia me acompanhar à minha casa e juntos tomaríamos chá.
- É uma pena eu me privar de uma noite tão agradável!
Mas já aceitei o convite de seu marido e seria insensato decliná-lo agora.
Minha presença com ele vai dissipar suspeitas, se como você diz, elas existem.
Vermelha de irritação, a senhora Obzorov retirou sua mão da de Artemiev e levantou-se de chofre.
- E para convencê-lo de vez, você cortejará alguma das malfeitoras que serão convidadas junto com a Jobard?
Oh! Vocês, homens, são depravados até a medula!
Virando-lhe as costas, ela correu para a sala vizinha.
Vladimir Aleksandrovitch estava acostumado demais a tais cenas para preocupar-se; além disso, estava ficando entediado com os sentimentos por demais explosivos de Varvára Arkadievna.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:29 pm

Por isso a atitude dela apenas lhe provocou um desdenhoso sorriso.
Instantes depois, levantou-se preguiçosamente; antes de ir atrás de sua linda amada, inclinou-se e apanhou a brochura com o retrato de Ellen que a senhora Obzorov derrubara ao passar perto da escrivaninha.
Jogou a brochura na mesa sem maior interesse, mas o retrato chamou sua atenção e ele o aproximou da luz da lâmpada.
Seu olhar fixou-se como por encanto naquele rosto sério e sedutor.
Jamais vira a dama do retrato, mas os grandes olhos azuis claros e sua expressão eram-lhe familiares, lembravam algo que não conseguia definir.
Então, procurou involuntariamente alguma inscrição e notou a assinatura na borda do retrato, escrita a lápis:
"Ellen Rutherford-Ardi".
Artemiev ficou taciturno.
O nome Ellen despertava-lhe um sentimento desagradável, invocando a imagem distante de uma garotinha que adorava, cujos grandes e inocentes olhos outrora sorriram para ele, os bracinhos envolveram seu pescoço e a boquinha rósea gritava com delicadeza infantil:
- Papai, querido papai!
Se ela não tivesse morrido, seria agora uma moça como essa inglesa, que lhe lembrava alguma conhecida de quem não conseguia recordar o nome.
Sombrio e distraído, Artemiev foi para a sala onde, na mesma hora, apareceu também a Baronesa.
Um pouco mais tarde, juntou-se ao grupo um homem de meia-idade, muito desgastado e desengonçado, mas que se comportava como um rapaz.
A Baronesa recebeu-o com particular amabilidade, pois era um de seus pretendentes.
Esse senhor estava louco pelos ruivos cabelos de Lídia Andreevna e ansiava construir um abrigo conjugal para a própria velhice; ela, por sua vez, desejava ser princesa, esposa de "kamerguer" (3) e ser apresentada à corte. Esses interesses mútuos criaram agradável simpatia entre eles.
O almoço transcorreu alegremente, apesar do amuo de Vava e distracção de Artemiev.
A Baronesa contou tudo o que sabia sobre o "Paraíso sem Adão", a chegada da missionária e suas palestras contra o matrimónio e a infidelidade dos homens.
Este último tema originou um diálogo malicioso com o Príncipe.
Ao término do almoço, Artemiev despediu-se da anfitriã; a senhora Obzorov disse que precisava voltar para casa e assim eles saíram juntos.
Descendo a escadaria, Varvára Arkadievna perguntou, de repente, com um carinhoso sorriso:
- Como pretende voltar para casa, Vladimir?
Minha equipagem me aguarda na rua.
Se quiser, podemos ir ao paço Gostiny.
Lá eu dispenso a equipagem, pegamos uma de aluguel e vamos à sua casa.
Faz tempo que quero conhecê-la.
Parece-me que hoje poderemos passar juntos uma horinha sem chamar a atenção de ninguém!
O rosto de Artemiev expressava carinho e lástima.
- Definitivamente, estou com azar hoje.
Apesar de querer demais, não posso arriscar levá-la a minha casa.
Estou hospedando um primo de Moscou e ele pode estar lá a essa hora.
Você entende o risco que correríamos!
Mas apareça amanhã na exposição de frutas, estarei por lá.
Espero que consigamos fugir para um abrigo onde ninguém nos perturbará.
Um ar de insatisfação e suspeita passou pelo rosto de Varvára Arkadievna.
Mas as objecções do amante eram irrefutáveis e ela teve de embarcar sozinha.
Vladimir Aleksandrovitch chamou uma equipagem de aluguel.
Felizmente, ela não viu a expressão de desdém com que ele pensou ao acender o cigarro:
"Não quero, obrigado!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:30 pm

Para mim chega por hoje!
Essa doida ainda pode me complicar.
Para mim acabou, minha senhora!
Evitarei privar Gueorguy Adamovitch do prazer de possuí-la."
Artemiev morava na rua Bolshaia Morskaia, num magnífico apartamento que dava para a rua.
Consistia em um gabinete, sala de visitas, sala de jantar e dormitório, tudo ricamente mobiliado e de bom gosto.
Ao lado desse apartamento, dito "oficial", uma porta do dormitório de Artemiev levava a uma outra residência de dois quartos, corredor e cozinha; as duas escadarias do segundo apartamento levavam ao quintal.
Essa moradia tinha para Artemiev um atractivo especial, pois ele, por princípio, não recebia suas amantes pela entrada principal.
Suas inúmeras visitantes entravam pela porta do quintal; para recebê-las, foi instalado um luxuoso "boudoir", com iluminação eléctrica e espessas cortinas na janela, que ocultavam dos olhares curiosos os segredos do aconchegante ninho.
De volta para casa, sabendo que ninguém estivera na sua ausência, Vladimir Aleksandrovitch entrou no dormitório.
Trocou o paletó por um robe e ordenou que lhe servissem uma xícara de chá com conhaque.
Sentia-se nervoso e mal-humorado.
Deitou-se no macio e baixo divã, pegou uma revista e começou a ler.
Não transcorrera nem quinze minutos e, no quarto vizinho, ouviu-se uma voz irritada, pronunciando palavras russas inadequadas.
Instantes depois, a porta do "boudoir" escancarou-se e no dormitório irrompeu uma mulher vestindo uma rotunda de veludo e peles brancas.
O criado, imperturbável e indiferente, seguia-a, como se a ira da visitante não lhe dissesse respeito; quando ela jogou a rotunda no chão com impaciência, o criado levantou-a fleumaticamente e a levou embora.
(rotunda- tipo de abrigo que cobre o pescoço e o peito)
Artemiev levantou-se imediatamente.
- Que agradável surpresa, querida Colette! - exclamou, indo ao encontro dela.
Por que está tão zangada?
- Qualquer um ficaria irritado, mesmo que não quisesse.
Seus criados têm um modo muito estranho de receber as damas.
O mordomo, aquele idiota, primeiro me submeteu a um verdadeiro interrogatório e depois me pôs para fora de casa; o porteiro me levou pelo quintal sujo e me obrigou a subir pela escada de serviço, estreita e sem tapete, onde acabei sujando minhas saias.
Continuando a falar, ela foi até o espelho e começou a retirar os grampos que seguravam o chapéu de feltro com uma grande pluma.
Era uma linda mulher, elegante e bem formada, apesar do busto um tanto farto.
Os finos traços de seu rosto eram ágeis, os grandes olhos castanhos miravam com ousadia e os lábios sensuais sorriam deixando entrever dentes brancos e afiados como os de um gato.
A bela actriz era na realidade um animal predador.
No palco, fazia muito bem o papel de cocote, pois interpretava a si própria.
O vestido de seda bordada caía-lhe muito bem e era a última palavra da moda.
- Querida Colette, acalme-se!
Não estrague a cor de seu rosto com a irritação.
Isso faz mal! - tentava convencê-la Artemiev, ajudando-a a desabotoar os inúmeros botões das longas luvas suecas.
O mordomo é, sem dúvida, um idiota, e vai ouvir uma boas de mim; mas você está sendo injusta com a minha escadaria.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:30 pm

Ela é decente e eu mesmo a uso frequentemente, quando volto tarde para casa e não quero ficar junto à porta, aguardando o mordomo vestir-se.
Pelo quintal entro livremente, pois sempre trago comigo a chave do apartamento.
Acho que essa passagem discreta é mais apropriada para uma dama.
Colette Legrand nunca fora rancorosa e aparentemente ficou satisfeita com essa explicação.
Aceitou uma xícara de chá e seguiu o anfitrião ao "boudoir".
Lá, bebericando o chá e degustando doces, ela começou uma conversa animada.
Depois de contar algumas fofocas picantes sobre suas colegas de palco, disse que recebera de Paris um lote de vestidos, um dos quais, de veludo verde-esmeralda, era simplesmente magnífico e ela contava usá-lo no baile da colónia francesa.
- Só que para completar o traje faltam brincos de brilhante.
Descobri no Fabergé (4) um par que parece feito de propósito para essa ocasião.
Ficarei desesperada se não o conseguir.
Aliás, pressinto que aparecerá uma boa alma que me presenteará com esse par.
O que pensa disso, meu querido Vladimir? - acrescentou ela com um sorriso provocante, batendo carinhosamente com a mão na face de Artemiev.
- Acho seus pressentimentos sempre proféticos - respondeu ele, rindo.
A conversa ficava cada vez mais alegre.
Colette contou com extraordinária animação ter ouvido sua amiga Suzette Jobard, amante de Obzorov, que este tivera uma cena feia com a esposa por causa do bracelete que encomendara para a dama do coração e que o joalheiro enviara por engano para sua casa.
- Ela quase lhe arrancou os olhos e ameaçou com divórcio. Suzette contou que foi um escândalo incrível.
Graças a Deus você não é casado, meu querido; senão isso acabaria com meus nervos.
- Não me diga que, para completar a desgraça, você me privaria do seu amor? - perguntou Artemiev, não sem sarcasmo.
- Oh, não! Isso seria irritante, mas, ainda assim, suportável!
Acontece que o meu amor por você é uma doença incurável - e deu-lhe um sonoro beijo.
Falando francamente, nós somos mais incómodas para as esposas do que elas para nós.
Nenhuma delas consegue rivalizar connosco em trajes e jóias; e do amor do marido só aproveitam as migalhas que lhes deixamos.
Colette soltou uma forte gargalhada.
O rosto de Artemiev foi se desanuviando cada vez mais; contagiava-se com aquela alegria; ela conhecia bem demais seu ofício.
Ninguém conseguia tão bem libertar das preocupações os velhos pândegos e não havia dinheiro que pagasse os alegres momentos proporcionados por ela.
Por isso, uma hora mais tarde, ao despedir-se de Artemiev, Colette levava consigo uma quantia suficiente para comprar o par de brincos exposto na vitrine de Fabergé.
Ficando só, Vladimir Aleksandrovitch recostou-se no divã e ficou pensativo.
O bom humor passageiro acabou e ele correu um olhar cansado na luxuosa decoração com seus espelhos e tapetes perfumados.
Tantas mulheres passaram por aqui: de jovens e inocentes camponesas a cocotes de curta carreira; de alguma famosa "dama" do submundo, até mulheres da sociedade, decaídas a ponto de correr ao apartamento do amante.
Todas, nesse mesmo quarto, ouviram dele as mesmas chulas juras de amor e deliciaram-se com o mesmo carinho passageiro.
Durante tantos anos, perseguira incansavelmente e de qualquer modo prazeres e conquistas fáceis, experimentando a devassidão sob todas as formas e nuances, sempre procurando, sem encontrar, algo novo que pudesse refrescar seus sentimentos gastos e embrutecidos.
Apesar dos esforços, restavam-lhe a saturação, o cansaço e a insatisfação que não conseguia entender.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:30 pm

As vezes, como agora, nos momentos de solidão, do fundo de sua consciência levantava-se um incómodo pensamento que perturbava sua paz e não desaparecia nem com o barulho da orgia e jorros de champanhe.
Sua imaginação, com doentia persistência, desenhava-lhe dois distantes túmulos; não o incomodavam pois entre eles havia um enorme oceano, mas à lembrança daquelas sepulturas abandonadas passava-lhe um frémito pelo corpo...
Passando a mão pela testa, Artemiev tentava energicamente livrar-se dos incómodos pensamentos e começou a pensar em Colette, a alegre e encantadora Colette.
Em vão tentava ressuscitar a alegria que ela provocava; acabou sentindo profundo asco pela linda pecadora.
De que lhe servia aquela mulher que virou quase por acaso sua amante, uma criatura devassa que se vendia e era comprada da mesma forma que todas as outras semelhantes?
Como se não soubesse que, entusiasmada com a quantia que conseguira arrancar dele para satisfazer seu capricho, ela correra rapidamente para outro homem?
Ele até sabia quem:
um rapaz bem mais pobre, mas de quem ela gostava mais.
Que horror!
Como essa situação era idiota e nojenta, tão asquerosa quanto o sufocante perfume que Colette usava, que impregnou todo o quarto e que Vladimir Aleksandrovitch não suportava quando estava de mau humor. Levantando do divã foi ao gabinete, avisando antes ao criado para abrir a janela do "boudoir".
Para espantar os incómodos pensamentos, Artemiev decidiu escrever algumas cartas, há tempos adiadas.
Sentando-se à escrivaninha, releu a correspondência que exigia resposta.
Uma carta do administrador da propriedade que ficava nos subúrbios de Moscou era especialmente importante e exigia solução urgente.
Examinando as contas anexas à carta, Artemiev resolveu compará-las às anteriores.
Com esse intuito foi ao dormitório, onde estavam guardados todos os documentos de negócios num cofre.
A lâmpada no tecto iluminava com luz amena o grande quarto, deixando na penumbra os cantos distantes e a cama semicoberta com cortinado de seda.
Vladimir Aleksandrovitch aproximou-se do cofre que ficava aos pés da cama e já se preparava para abri-lo quando, de repente, veio-lhe à memória, com dolorosa clareza, um acontecimento inexplicável, ocorrido alguns anos atrás nesse mesmo quarto.
Ao recordar o facto, ficou tão aterrorizado que um suor frio cobriu-lhe a testa e seu olhar assustado correu pelas cortinas, temendo rever a aparição daquele dia.
Virando rapidamente, voltou ao gabinete sem pegar os papéis e começou a andar pelo quarto.
Recordava cada detalhe daquele longínquo acontecimento.
Era noite.
Voltara da bebedeira num restaurante da moda fora da cidade, onde esteve com Charlotte Simpson, a amante que trouxera da América, na época ainda viva.
Estava alegre, despreocupado e ouvia às gargalhadas as cançonetas maliciosas que a cantora interpretava.
Nesse instante ela aparecia em sua memória como se estivesse viva, com o rosto pintado e olhar despudorado.
Depois de deixar a amante, voltou para casa cansado, mas de muito bom humor.
Tirou a roupa, abriu o cofre, jogou dentro alguns papéis.
Em seguida, com uma vela na mão, ia em direcção à cama quando, de repente, um vento frio bateu-lhe no rosto; a vela apagou imediatamente, deixando-o na mais completa escuridão.
Estacou horrorizado quando viu, junto à cabeceira da cama, aparecer uma sombra clara, cujos contornos aos poucos tomaram a forma de uma mulher em trajes largos.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 7:30 pm

Diante dele estava Vitória; sua cabeça estava envolta numa aura fosforescente, num fundo branco ofuscante delineavam-se nitidamente seus abundantes cabelos louros, o rosto delicado, mortalmente pálido e sofrido e os grandes olhos escuros, que o olhavam de modo severo e ameaçador.
De repente, os lábios da assombração se moveram e uma voz fraca, como se viesse do além, disse nitidamente:
- Parabéns, carrasco!
Seu trabalho está concluído.
Artemiev caiu no tapete com um grito surdo.
O criado, que se ausentara por instantes, entrou correndo, acendeu a vela e encontrou o patrão caído sem sentidos junto à cama.
Ao voltar a si, Artemiev perguntava-se com horror o que significaria aquela aparição.
Achava que Vitória tinha falecido há muito tempo e seu coração não lhe segredou que somente naquela noite a mulher que abandonara tão traiçoeiramente havia se apagado nos braços da própria filha.
A lembrança daquela visão torturou-o por algumas semanas, mas depois foi esquecida.
Porquê, exactamente hoje, essa recordação voltara, machucando seu coração e sua consciência?
Sentiu então um incontrolável desejo de reler a anotação que fizera com a data exacta daquele inexplicável acontecimento.
Puxando a gaveta da mesa, abriu um compartimento secreto onde guardava restos do passado destruído e colocara a anotação.
Vladimir Aleksandrovitch releu-a distraidamente.
Sim, Vitória falecera uns sete anos antes daquela aparição e ele não lembrava a data certa de sua morte.
Com mão trémula, agarrou a carta que lhe informava de sua viuvez.
À medida que relia a mensagem lacónica, escrita com as garatujas da velha Harrieta, um rubor febril espalhava-se pelo seu rosto pálido.
O lar que abandonara na miséria, a esposa que contraíra uma doença, vindo a falecer provavelmente carente de pão e auxílio médico e arrastando consigo para o túmulo prematuro sua filha.
Enquanto isso, ele festejava!
Na interminável saturnália que chamava de "minha vida", nunca tinha tempo para escrever, ou enviar pelo menos um pouco de dinheiro.
Sempre adiava para o dia seguinte o cumprimento desse dever; a consciência, conivente, sugeria-lhe desculpas, da mesma forma que o consolou e tranquilizou ao receber a notícia fatal.
Porque, agora, essa voz antes conivente calava-se e, ao contrário, uma outra voz, séria e justa, condenava severamente sua vida e seus actos?
Como se fosse movido por vontade alheia, retirou do compartimento secreto uma caixa de marroquim e abriu-a.
No estojo estava guardado o retrato de Vitória com Ellen no colo.
A jovem mulher parecia triste e desanimada e os olhos sonhadores da criança pareciam repreendê-lo.
Aqueles olhinhos azuis, que ardiam de alegria ao vê-lo, tinham-se apagado para sempre; a figura graciosa transformara-se em pó.
Também virou pó o coração amoroso da pura e paciente esposa.
Ele estava só e, em caso de doença ou desgraça, ficaria em mãos profissionais...
Um suor frio cobriu a testa de Artemiev.
O profundo silêncio pareceu-lhe insuportável.
Recordou um outro gabinete, bem menos luxuoso que este, mas onde ouvia passos de pezinhos travessos e o claro riso infantil; em seguida, a porta abria-se vagarosamente, uma mãozinha rechonchuda afastava o cortinado, entre as dobras aparecia a cabecinha loura, e uma vozinha sonora perguntava:
- Papai, posso entrar?
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:35 pm

Vladimir Aleksandrovitch suspirou, jogou sobre a mesa o retrato, levantou-se da poltrona, passou a mão nos cabelos.
O olhar constrangido fixou-se no cortinado, como se esperasse ver lá o rostinho de sua filha.
Mas tudo em volta era silêncio.
Somente a voz da consciência sussurrava-lhe com escárnio:
- Os mortos não voltam jamais!
Seu arrependimento é tardio e inútil.
Agora e para sempre você estará só, só e só...
Artemiev baixou a cabeça.
Naquele momento pareceu-lhe envelhecer.
Seu rosto escureceu, o porte encurvou-se como se um pesado rochedo deitasse sobre seus fortes ombros.
Essa fraqueza, entretanto, teve curta duração. Endireitando-se energicamente, passou a mão no rosto e pensou, com irritação:
"Parece que estou enlouquecendo!
Definitivamente, preciso cuidar dos nervos e evitar essa constrangedora solidão."
Fechando rapidamente a gaveta da mesa, apertou a campainha.
- Prepare minha roupa e mande o cocheiro aprontar a equipagem - ordenou ao criado.
Decidiu imediatamente buscar um amigo para irem jantar em Samarkand, com os ciganos.
Sabia que voltaria de lá num estado que não lhe permitiria entregar-se a sonhos estúpidos e lamentações espúrias.

(1 - "Boudoir" (do francês) - Pequeno quarto de senhora, decorado com elegância).
(2 - Marta - Carnívoro de pequeno porte encontrado na Europa e Ásia, procurado por sua pele fina e valiosa).
(3 - "Kamerguer" - Funcionário de alto escalão da corte imperial.
Destacava-se pela chave numa fita azul que trazia na cintura
).
(4 - Peter Carl Fabergé (1846 - 1920) - Famoso ouvires e joalheiro russo de São Petersburgo, favorito da aristocracia.
Se tornou particularmente conhecido pelas engenhosas jóias em formato de ovos de Páscoa, frequentemente utilizadas como presentes aos czares Alexandre III e Nicolau II
).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:35 pm

Capítulo 5

A notícia da iminente chegada a São Petersburgo da jovem americana, cujas palestras contra o matrimónio levantaram tanta celeuma em Berlim, correu rapidamente a cidade.
Algumas revistas dedicaram-lhe algumas notas e o cronista do jornal "Vestunia" lavou a alma num artigo venenoso, zombando da comunidade "Paraíso sem Adão" e de sua representante.
O interesse popular fora despertado, mas era, naturalmente, diversificado.
Mulheres de pouca instrução, por seus costumes enraizados, viam o casamento como único objectivo na vida, como o portão dourado que lhes abriria um confortável acesso ao alegre caminho das aventuras, tratavam o assunto com grosseira curiosidade.
Outras, mais instruídas, pertencentes à classe privilegiada pela posição ou fortuna, esperavam das palestras um tema muito picante e uma óptima oportunidade para mostrar as garras aos maridos e amantes que, na opinião delas, não lhes davam o devido valor.
Por isso decidiram apoiar a palestrante.
Somente as mulheres pobres, sem esperanças de casar e definhando nos escritórios, instituições, e escolas, revelaram um interesse genuíno.
As trabalhadoras cansadas, de rostos pálidos e olhos inchados de trabalho, que não esperavam mais nada de bom da vida, nem tinham saias de seda ou chapéus elegantes, pois o parco salário pelo trabalho exaustivo mal pagava o pão de cada dia, ansiavam inconscientemente pela reacção e interessaram-se demais pela americana que pregava o orgulho do trabalho e a eliminação de preconceitos.
Ela as fazia crescer aos seus próprios olhos, ensinando-lhes que a mulher pode e deve não depender do homem, malicioso, irresponsável, que admitia somente dois tipos de mulheres:
as que serviam para casar e as que serviam para diversão, se fossem bonitas ou suficientemente depravadas, substituindo a beleza pela falta de pudor.
Mas, apesar de essas partidárias convictas da liberdade feminina serem numerosas, elas estavam espalhadas, oprimidas pela situação de dependência e pobreza, sem desempenhar qualquer papel na ordem social.
Em compensação, as fãs entusiastas, na falta de outra coisa, provocaram muito alarde, confusão e organizaram uma digna recepção à bela defensora da causa feminina.
Na estação ferroviária reuniram-se representantes do clube feminino e da sociedade artística feminina, como também muitas damas "liberais", daquelas que podem ser encontradas nas salas de julgamento de todos os processos escandalosos, ou fãs ardorosas de artistas de ópera e teatro; para elas, a liberação da mulher seria para libertá-las de todos os controles morais e sociais.
Ao desembarcar do vagão, Ellen ficou agradavelmente surpresa com a simpática recepção e lisonjeada com os calorosos discursos de boas-vindas e fortes apertos de mão que recebeu.
Cheia de grandes esperanças de sucesso e grande respeito pelas mulheres russas, que expressaram com tanta coragem suas convicções mesmo tendo sido tão injustamente caluniadas, embarcou com Nelly na equipagem enviada pela Baronesa Nadler que a levaria à residência alugada.
Ellen dedicara-se de corpo e alma à causa, pois ela própria sentia toda a amargura da solidão e crescera no meio de mulheres infelizes e amarguradas, que encaravam os homens como seus piores inimigos.
Sua educação severa, privada de quaisquer sonhos, no meio de crianças que conheceram muita infelicidade e sofrimento, forjou seu carácter naturalmente enérgico.
Em todas as cidades grandes, como de hábito, encontravam-se, a cada passo, vidas destroçadas; mas como estavam dispersas na multidão, eram imperceptíveis e desconsideradas; todos se habituaram a tais desgraças particulares.
Na severa e sombria atmosfera do abrigo, entretanto, essas vidas destruídas, essa reunião de almas cheias de fel e amargura, assumiam uma forma monstruosa.
Para a jovem pregadora, a necessidade de elevação da mulher através do trabalho e da independência espiritual tornara-se de extrema importância, uma questão vital com a qual as mulheres deveriam se solidarizar e ajudar.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:36 pm

Ellen imaginava, inocentemente, que na multidão que fora recebê-la na estação havia partidárias ansiosas por se livrarem da humilhante dependência da soberania masculina, que desejavam obrigar os homens a respeitá-las, em vez de serem para eles um brinquedo para satisfazer seus caprichos.
Ellen sequer imaginava que sua "cruzada" e ela própria seriam ridicularizadas naquela sociedade saturada, indolente, incapaz de levar sua pregação a sério; nenhuma daquelas mulheres que lhe apertaram a mão e a elogiavam concordaria, por preço algum, em deixar o nocivo e imoral ambiente em que viviam e romper a sério com os homens.
Toda moça anseia encontrar algum marido só para livrar-se do incómodo título de "senhorita", bem como aproveitar o melhor possível a "liberdade" adquirida com tanta dificuldade, trocando de amante como se fossem luvas, mantendo ao mesmo tempo a imagem de mulher direita.
Essa multidão de mulheres encarava as palestras de Ellen somente como um agradável passatempo, uma óptima oportunidade de iniciar um flerte duplamente picante, pois a palestra lhes possibilitava jogar na cara dos cavalheiros todas as suas maldades em relação ao sexo frágil, manifestar-se contra a tirania deles e debater as mais delicadas questões na relação entre os dois sexos.
Ellen não suspeitava de nada e embarcou na equipagem ainda sob a influência da primeira impressão de entusiasmo.
Mas, à medida que a carruagem percorria rapidamente as ruas movimentadas da capital, essa alegre confiança foi sendo substituída por uma surda preocupação e um vago pressentimento.
Seu olhar vagava com expressão enigmática pelas longas filas de casas, transeuntes preocupados e carruagens vindas em sentido contrário.
Seria por ali que morava aquela pessoa que, pelo sangue, lhe era a mais próxima?
Talvez ele até tivesse passado perto dela sem suspeitar que sua única filha chegara, para lutar sem qualquer apoio contra homens tão traiçoeiros e desarmados quanto ele próprio...
Nelly, que a observava, notou quando seu rosto ficou sombrio e os lábios apertaram-se numa expressão amarga e severa.
Entendia, parcialmente, o que se passava na alma da amiga e sentia por ela uma profunda solidariedade.
Nelly também era órfã, sozinha e autónoma; mas, no futuro sombrio e triste que se descortinava à sua frente, tinha uma vantagem:
a feiura, que livrava-a de quaisquer tentações.
A bela e encantadora Ellen, entretanto, parecia ter sido criada para amar e ser amada; os homens não conseguiam ficar indiferentes a ela.
Resistiria ao poderoso instinto da natureza, para seguir sem vacilar o espinhoso caminho da luta pela causa?
A equipagem parou, interrompendo os pensamentos de Nelly.
Elas desembarcaram e subiram ao segundo andar no qual foi preparado para elas um pequeno apartamento.
Foram recebidas pela governanta inglesa das moças Nadler, que disse que a Baronesa a havia enviado para receber a senhorita Rutherford e suas acompanhantes e dar-lhe as primeiras indicações.
Em seguida, acrescentou que a Baronesa viria visitá-las no dia seguinte e detalharia as condições do aluguel do apartamento e da criadagem, que consistia em duas camareiras, dois criados, um cozinheiro e um cocheiro.
A inglesa também explicou que, ao lado da residência, havia um salão com capacidade para até trezentas pessoas, alugado para as reuniões da Sociedade de Agricultura, que a senhorita Rutherford poderia utilizar para suas palestras.
Isto, naturalmente, se fossem permitidas.
Ellen agradeceu calorosamente à jovem inglesa, cujo rosto pálido e cansado demonstrava claramente a "agradável" vida que levava na casa da Baronesa; quando foi embora, as viajantes começaram a instalar-se na nova residência.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:36 pm

Cada uma escolheu um dormitório; a sala de visitas e a de jantar seriam comuns.
Ellen reservou para si e para Nelly um gabinete para receber as visitas que poderiam aparecer procurando conselhos e informações.
Nelly assumiu o papel de secretária de Ellen; a senhorita Emmi Roberts seria a auxiliar delas, enquanto a senhora Forest incumbiu-se exclusivamente dos afazeres da casa e do bem-estar material da pequena comunidade.
Tudo resolvido, as damas foram se instalar em seus aposentos, conforme seus gostos e costumes, dando-lhes uma aparência individual.
Assim, o quarto de Nelly imediatamente recebeu uma decoração puritana, de simplicidade quase monástica, própria de sua dona.
Quadros, almofadas bordadas, diversos bibelôs, tudo isso foi severamente banido; a parede foi enfeitada somente com um crucifixo de ébano.
Na luxuosa estante apareceu um volume da Bíblia e alguns livros de conteúdo moral e espiritual; sobre a cama havia um cobertor de lã branca.
No quarto de Ellen, que era o dobro do de Nelly, aconteceu uma transformação completamente oposta.
A linda missionária fazia jus a sua condição de filha de Artemiev; por natureza adorava o luxo, cambraias, rendas, flores, jóias, mesas refinadas e diversões.
Os objectos banidos do quarto de Nelly encontraram imediatamente abrigo no de Ellen.
A penteadeira foi enfeitada com uma toalha de renda, frascos e caixinhas de prata trabalhada; a cama foi cercada de cortinas brancas bordadas e as mesas e estantes enfeitadas com valiosos bibelôs e retratos em molduras artísticas.
Quando, depois do chá, Nelly entrou no quarto da amiga, encontrou-se num luxuoso e aconchegante "boudoir", que em nada lembrava uma residência provisória.
Ellen possuía a capacidade de vestir-se sempre bem e instalar-se confortavelmente.
Nesse sentido, o sangue que herdara contrariava a severa educação e as convicções da comunidade.
Além disso, a grande fortuna de que dispunha, desde a maioridade, permitia-lhe satisfazer todos os seus caprichos.
Naquele momento, envolta num penhoar de casimira branca, Ellen estava sentada diante da pequena escrivaninha e folheava papéis retirados da pasta.
- Você vai trabalhar ainda hoje?
Eu pretendia discutir alguns detalhes da casa - disse Nelly, aproximando-se da mesa.
- Sente-se! Estou inteiramente à sua disposição.
Como não tinha sono, resolvi examinar algumas anotações para a minha primeira palestra.
Mas isso pode esperar.
Portanto, conte-me, o que a preocupa nessa casa?
- Vim falar sobre a criadagem: os criados, o cozinheiro e o cocheiro.
Esses quatro homens são completamente inúteis num departamento da comunidade "Paraíso sem Adão" e podem representar um notório perigo para Meg e Arabella, as irmãs inferiores que vieram connosco.
- Que feio! Criados?
Quem presta atenção a essa espécie de gente? - observou Ellen.
- Nem você, nem eu e, naturalmente, nem Emmi; mas Meg e Arabella sempre serão moças simples, que podem facilmente esquecer seu triste passado, bem como o passado de suas mães.
É nosso dever protegê-las da tentação na medida do possível.
Além disso, como sabe, nossas regras não permitem homens nas residências da comunidade.
- Poderíamos alegar que estamos num país estranho e longe dos muros da comunidade.
Em todo caso, se a presença desses homens incomoda você e a senhora Forest, dispense-os; mas, na minha opinião, devemos ficar com o cocheiro.
Não podemos colocar uma mulher na boleia da equipagem!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:36 pm

Após essa rápida conversa, ficou acertada a dispensa dos criados e do cozinheiro, substituindo-os por mulheres, mas conservando o cocheiro; além dele, contratariam um pequeno grumete que atenderia a porta e cumpriria outros pequenos afazeres.
Ficando só, Ellen tirou da caixa o retrato do pai e examinou-o por longo tempo.
Será que o encontraria naquela sociedade?
Será que ele viria às suas palestras?
Teria mudado muito?
Ela não tinha dúvidas de que ele ainda estava vivo, pois Evgueny, ao falar sobre São Petersburgo, citou um amigo chamado Artemiev; na opinião dela, aquele não poderia ser outro senão seu pai.
Ellen sentiu um enorme desejo de encontrar esse pai indigno, mesclado ao temor do encontro.
Será que encontraria também o Barão?
Desde que se separaram, em Bremen, não tivera mais notícias dele; ele dissera que, antes de retornar à capital, pretendia ir a Revel (1), pois tinha uma propriedade naquela região.
Por alguma razão desconhecida, a lembrança do Barão fez surgir um forte rubor em suas faces; irritada consigo mesma, Ellen apressou-se em fazer uma prece e ir dormir.
Na primeira noite, sob o céu plúmbeo de São Petersburgo, Ellen dormiu muito mal e teve pesadelos.
Despertou no meio da noite toda suada e depois não conseguiu adormecer novamente por várias horas.
Pela manhã sentia-se tão cansada que decidiu repousar alguns dias antes de empreender qualquer coisa.
Naquele dia, a Baronesa Nadler veio visitá-las conforme prometera.
Após acertar algumas questões monetárias, ela demonstrou uma calorosa solidariedade para com a missão defendida por Ellen.
A Baronesa falou muito sobre a decadência das mulheres, a traição dos homens, sobre a felicidade de ser independente e a necessidade de uma vida activa e útil fora dos laços opressores do casamento.
Mas, desta vez, Ellen não se entusiasmou.
A enfeitada e maquiada Baronesa, tentando parecer jovem, não lhe transmitia confiança e até provocava dúvidas quanto à sinceridade de suas palavras.
Mesmo assim, elas pareciam sentir uma grande simpatia mútua e Ellen aceitou o convite para passar uma tarde na casa da Baronesa, daí a três dias.
- Senhorita Rutherford, em sua homenagem reunirei alguns amigos íntimos.
Todos são pessoas cultas que compartilham de suas ideias.
Assim, terá a oportunidade de conhecer o seu futuro público - acrescentou amavelmente a senhora Nadler.
Ao retornar à sua casa, a Baronesa encontrou na porta o Barão Ravensburg que, não a encontrando, já pretendia ir embora.
Lídia Andreevna não o deixou partir e convidou-o a entrar.
- O senhor sabe de onde acabo de chegar? - perguntou a Baronesa, enquanto o criado tirava-lhe o sobretudo.
Da casa da pregadora americana que vai espantar vocês, os "Adãos".
- Espero que consigamos sobreviver a este golpe.
Pois somos muito difíceis de liquidar! - respondeu o Barão, rindo. -
Aliás, a senhorita Rutherford é muito eloquente; pela lógica de suas conclusões e por seu interessante discurso pertence àquele tipo de inimigo que merece respeito.
- Ouvindo-o pode-se até pensar que o senhor já a conhece, Evgueny Pavlovitch!
- Exactamente!
Conheci a senhorita Rutherford por acaso, quando viemos da América no mesmo navio.
Aliás, tive a oportunidade de assistir a uma palestra dela ainda em Boston.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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