Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:37 pm

Baronesa, posso assegurar-lhe que, após ouvi-la, senti-me mais sujo que fuligem e pior que um gorila.
A Baronesa riu alegremente.
- E depois de tal humilhação, o senhor continuou insistindo em conhecer a senhorita Ellen?
- Mas ela é encantadora e tão divertida em suas convicções, como se estivesse incumbida da santa missão de pôr um fim ao género humano!
Além disso - o Barão torceu o bigode -, pressinto que essa missão vai fracassar no momento em que o delicado coração da senhorita Ellen for vencido por algum patife, fazendo-a desistir de vez do paraíso sem Adão.
- Não estaria o senhor, Barão, pretendendo ser o tal patife?
Nesse caso, na próxima quarta-feira poderá começar o cerco à fortaleza.
A senhorita Rutherford virá visitar-me à tarde.
Convido o senhor e Vladimir Aleksandrovitch.
Transmita-lhe o meu convite.
- Sem dúvida, mas...
Lídia Andreevna, eu tenho um problema.
Por causa de uma mentira que inventei, encontro-me numa posição delicada diante da senhorita Ellen.
Ele contou a história da suposta esposa que teria estrangulado por ciúmes.
Riram muito e a Baronesa, repreendendo-o e chamando-o de "mentirosinho", prometeu explicar a Ellen que tudo não passara de uma brincadeira motivada pela irritação masculina.
No dia combinado, Ellen e Nelly prepararam-se para ir à casa da Baronesa Nadler.
A senhora Forest e Emmi preferiram visitar uma americana residente na cidade que as convidou à sua casa.
Ellen e sua amiga esperavam encontrar um público exclusivamente feminino interessado no seu movimento.
Tiveram uma desagradável surpresa ao ver a grande sala de visitas da Baronesa e os aposentos contíguos atulhados de uma multidão bem trajada e barulhenta composta, em sua maioria, de homens.
Todos riam, tagarelavam, flertavam e, entre as "vítimas" e seus "opressores", parecia haver uma total concordância.
Na realidade, a Baronesa Nadler exibia a pregadora como a atracção da tarde e a sociedade, curiosa, reunira-se para divertir-se com ela.
O "Paraíso sem Adão", as ideias de Ellen e sua oposição ao sexo masculino já serviam de tema para animadas conversas, entusiasmadas discussões, apostas e diversas piadas, quando o criado anunciou:
- Senhorita Rutherford-Ardi e senhorita Sinclair!
Artemiev, especialmente interessado pela condenação que o ameaçava pelas inúmeras vítimas que trazia na consciência, aproximou-se da entrada e encostou-se ao piano, para melhor enxergar as recém-chegadas. Ravensburg misturava-se à multidão de jovens evitando ser notado de imediato.
Ellen entrou na frente.
O vestido de seda negra delineava sobejamente seu porte alto e elegante, destacando a luminosa brancura de seu rosto e a cor dourada de seus fartos cabelos.
Somente um broche de brilhantes em forma de ramo quebrava a monotonia deste traje escuro.
Mas as damas perceberam imediatamente que o tecido era magnífico e as rendas que enfeitavam o corpete e as mangas eram muito caras.
Nelly, como de hábito, usava um simples vestido de lã preta.
Sua figura magra e séria, contrastava fortemente com a delicadeza e graça da amiga.
O olhar de Artemiev fixou-se na encantadora moça, cujo rosto ficou ligeiramente sombrio diante de tal multidão e fez uma reverência discreta à anfitriã.
Mais uma vez os traços orgulhosos e sérios daquele rosto, os olhos grandes e brilhantes pareceram-lhe surpreendentemente familiares; ele, em vão, quebrava a cabeça para lembrar de onde a conhecia.
No início, ficou observando de longe as americanas serem apresentadas a diversas pessoas e tentando ouvir a conversa.
Viu quando o Barão se aproximou delas e foi recebido com frieza; por fim, decidiu pedir também à Baronesa para apresentá-lo.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:37 pm

Todo o sangue afluiu ao coração de Ellen e um calafrio percorreu seu corpo quando a Baronesa lhe apresentou Vladimir Aleksandrovitch Artemiev e este lhe fez uma profunda reverência.
Bastou um único olhar para reconhecer o herói de sua infância, cujo retrato ela guardava.
Lá estava aquele que as havia deixado, que esquecera sua mãe e ela própria!
Nesse momento, ele lhe fazia uma reverência como se fosse um estranho e a voz do coração não lhe sussurrava que estava diante da própria filha, aquela pequena Loló, que parecia amar tanto antigamente.
Artemiev ficou muito surpreso ao notar a profunda palidez da moça e seu estranho e constrangido olhar.
Mas a vaidade sugeriu-lhe que fizera mais uma conquista, ainda mais lisonjeira por ter sido inesperada e de uma encantadora inimiga dos homens.
Depois do chá, a sociedade dividiu-se em grupos.
Ellen e Nelly, que não a abandonava, apesar de pouco participarem das conversas, sentaram-se a uma pequena mesa junto a uma moça que demonstrava enorme simpatia pela senhorita Rutherford.
Logo se juntaram a elas o Barão e Artemiev.
Agora, na sala de visitas havia menos pessoas, pois grande parte dos convidados sentou-se às mesas de baralho.
Ellen recuperou totalmente o autodomínio e observava com vivo interesse a sociedade que a cercava, muito diferente de todas que frequentara até então.
Com sua mente ágil, compreendeu que se encontrava num ambiente onde seria muito difícil divulgar suas ideias.
Estes não eram sólidos ianques, comerciantes calculistas, muitas vezes rudes, "self-made men"(2), tranquilos, apesar de pouco atraentes.
Essa sociedade luxuosa, refinada, indolente e entediada, que esbanjava, sem pensar no futuro, o resto de suas heranças, era muito especial.
Desse ambiente saíra seu pai e ela agora conseguia entendê-lo melhor, apesar de não encontrar desculpas para o que ele fizera.
As damas também não lhe agradavam.
Ela se perguntava se o Barão não estaria certo quando disse que o país ainda não amadurecera para assimilar as ideias do "Paraíso sem Adão".
A aproximação de Artemiev e do Barão interrompeu seus pensamentos.
Começaram a conversar sobre as palestras e Ellen disse que o velho general com quem acabara de conversar prometera cuidar do caso, achando que as palestras poderiam ser autorizadas se não lhes fosse dado um carácter excessivamente público e lidas em francês ou inglês.
- Como não sei uma única palavra em russo, pude tranquilamente afirmar ao meu magnânimo patrocinador que realizarei as palestras só em idioma estrangeiro e para um público que pode me entender - concluiu Ellen, rindo.
- Que ousadia da parte de Platon Ivanovitch ajudar a senhorita contra nós! - exclamou o Barão.
Isso significa trair os irmãos por causa de um par de lindos olhos!
Fico só imaginando como a senhorita vai nos descrever.
Pareceremos os seres mais asquerosos do mundo, dos quais todos fugirão como de uma praga.
Ellen sorriu com ironia.
- Só vou dizer o que considero comprovado: que os senhores são pouco confiáveis, irresponsáveis, egoístas e que a união com os senhores é perigosa e nociva para as mulheres.
O caso é que desejo convencer nossas irmãs de que não é tão difícil, quanto parece, passar sem vocês; basta aprender a ganhar o pão de cada dia, acostumar-se com a vida solitária, e perceber que somente permanecendo livres evitarão milhares de problemas, caprichos e ofensas que vocês infligem às suas mães, esposas e até amantes.
Tentarei pregar essas verdades com toda a minha eloquência.
Quanto mais mulheres desistirem do prazer de ter filhos, maridos e admiradores, tanto mais me sentirei feliz.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:37 pm

- Mas, senhorita Rutherford, está pretendendo recomendar simplesmente o fim do género humano - observou Artemiev sem tirar os olhos do rosto expressivo e animado de sua interlocutora.
- Já que na Terra tudo terminará mais cedo ou mais tarde, por que o género humano deve ser excepção? - contestou Ellen.
Seria uma desgraça tão grande?
Existem tantas pessoas inúteis, tantos miseráveis sem pão nem lar, para quem seria uma felicidade não ter nascido jamais!
Além disso, os astrónomos estão prognosticando diversos cataclismos:
a colisão do nosso planeta com um cometa, em suma, o fim do Mundo.
Nesse caso, não seria mais sensato livrar a humanidade de uma morte tão terrível?
- Perdoe-me - observou Artemiev -, mas duvido que o género humano partilhe de sua opinião e aceite, apesar das predições dos astrónomos, desistir das alegrias da família e da felicidade de procriar.
Um sorriso de amargo desdém passou pelo rosto de Ellen, olhou com uma expressão tão estranha nos olhos cansados de Vladimir Aleksandrovitch que pareceu a ele ver naquele olhar ardente um lampejo de ódio.
- Pretendo exactamente provar que essas ditas "alegrias da família" são na verdade fictícias e muitos poucos as aproveitam.
Leia as estatísticas dos divórcios, separações e, se fosse possível, as estatísticas das infidelidades conjugais e famílias abandonadas.
Que cifras terríveis surgiriam!
Em que situação se encontram esposas e filhos, abandonados à própria sorte pelos "carinhosos" pais e maridos, que por criminoso capricho se casam e, em seguida, ignoram suas sagradas obrigações, condenando inocentes e indefesos pequeninos à vida de órfãos.
Não teria sido melhor estes senhores permanecerem solteirões e as mulheres livres, do que ter filhos abandonados e padecendo eternamente em privações e miséria?
Artemiev foi desagradavelmente atingido pelo tom cruel e metálico da voz de Ellen, até então delicado e harmonioso.
Ele também abandonara a esposa e a filha.
Agora ambas estavam mortas e ele sequer sabia onde e porquê.
Uma profunda ruga apareceu na testa pálida de Vladimir Aleksandrovitch.
Ellen notou como o rosto dele ficou sombrio, os olhos se enevoaram e sentiu uma cruel alegria.
"Você me entendeu, indigno pai e desonesto marido", pensou ela.
O Barão interrompeu seus pensamentos.
- Após ouvi-la, congratulo-me por permanecer solteiro.
- O senhor está certo, Barão: jamais se case.
Aliás, a Baronesa Nadler contou-me que o senhor fez uma brincadeira comigo.
- Não! Não é nada disso! - protestou o Barão.
Como pode acreditar?
Somente quis irritá-la, para ver sua ira contra um monstro que passeava em liberdade.
- Em todo caso, continue solteiro!
Se o senhor é tão ciumento, talvez precise realmente de uma viagem à América para acalmar os nervos.
Mas, estando solteiro, o senhor pode, sem dores de consciência, encher o seu caminho de vítimas.
- Eu? Mas sou absolutamente inofensivo!
Se alguém merece suas flechadas é Vladimir Aleksandrovitch.
Este sim, fez tantas vítimas em sua vida, sempre conseguindo evitar habilmente os laços matrimoniais.
- Pode ser que, após degustar as "alegrias familiares", o senhor Artemiev tenha ficado enojado de tal jugo comprometedor!
- Qual nada! Ele é um solteirão inveterado.
Flerta com Himeneu (3) sem jamais se deixar apanhar.
- Ah! Então, nesse caso, peço desculpas.
Não sei porque, pareceu-me que seu amigo é viúvo.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:37 pm

Artemiev, que ouvia a conversa sem participar, levantou a cabeça e olhou quase com terror para os olhos claros e frios de Ellen, enquanto ela acrescentava, dirigindo-se ao Barão:
- Nesse caso, ele deve possuir uma consciência tão relapsa como todos vocês, senhores.
E não deve temer minhas flechadas, pois dirijo-me sempre às mulheres e nunca aos homens.
- Senhorita Rutherford, como vai querer que uma mulher domine o próprio coração e não ame se ela se apaixonar? - intrometeu-se na conversa Vladimir Aleksandrovitch.
Ele passou a mão pela testa como se quisesse espantar incómodos pensamentos.
Ellen olhou-o com frieza e severidade e respondeu, sublinhando cada palavra:
- E quando as mulheres são traídas e abandonadas, quando o homem por quem se apaixonam as abandona como uma carga inútil e incómoda?
Em tais casos, ela não obriga o coração a esquecer o desprezível, mesmo que ainda o ame?
Não e não!
É melhor que jamais prove da taça envenenada, no fundo da qual se ocultam amargas decepções, terríveis lutas e, frequentemente, até a morte.
Enquanto isso, aquele por quem ela morre, passa indiferente por cima de seu cadáver e vai divertir-se com outra, sem pensar que por culpa dele foi destruído um pobre coração dilacerado.
E as pobres crianças?
São duplamente órfãs, abandonadas à própria sorte e à misericórdia de estranhos.
Não seria para elas uma felicidade não ter recebido o traiçoeiro dom da vida?
Se o homem pretende estar acima da mulher, se exige que ela se submeta e lhe obedeça, deve provar a sua superioridade e ser o chefe da família no sentido verdadeiro dessa palavra:
seu firme e amoroso protector, cuja previdência cerca sua esposa e filhos com um círculo mágico, inatingível pelo vício e desonra.
O homem pode ser severo, justo e até cruel para com a esposa indigna, se ele próprio for irrepreensível.
Mas com que direito torna-se juiz um desperdiçador da vida, de bens e que renega qualquer obrigação?
Frequentemente, são dois patifes que se unem para enganar um ao outro.
Ele, com sua vida imoral, empurra a esposa para a lama, enquanto ela procura fora de casa algo que não encontra no próprio lar, isso se não cai vítima do rude opressor.
A medida que Ellen falava, uma palidez mortal espalhava-se pelo rosto de Artemiev.
Ele se sentia um réu e seu semblante de culpa espantaria qualquer pessoa que o estivesse observando.
Entretanto, ninguém lhe prestava atenção, pois os olhos de todos estavam voltados para Ellen.
- Existe alguma verdade em suas palavras - disse o Barão.
Somos educados como pessoas da sociedade, preparam-nos para ocuparmos cargos e até desenvolvem em nós talentos "agradáveis", mas ninguém se preocupa em fazer de nós bons pais e maridos.
Que fazer?
E preciso que as mulheres nos encarem do jeito que somos na realidade.
- Por quê? Não vejo nenhuma necessidade disso - interrompeu-o Ellen.
- Porque também as damas trazem consigo para a vida conjugal algo diferente da abnegação de esposa e mãe.
Em função disso, uns seis meses após a cerimónia de casamento, os esposos dão as costas um ao outro e correm em direcções opostas.
- Que encantador!
O senhor, naturalmente, também pretende seguir esse lindo exemplo? - contestou Ellen, rindo.
- Nada disso!
Pelo contrário, pretendo estar sempre nas primeiras fileiras em todas as suas palestras, pois quero me reeducar e tornar-me digno de ter uma esposa e filhos - respondeu o Barão, lançando a sua interlocutora um olhar que a fez ruborizar.
- Nesse caso, entre para a irmandade do senhor Brown - disse ela brincando, tentando disfarçar seu embaraço.
Hoje recebi uma carta dele informando que os "castos" chegarão a São Petersburgo nesse fim de semana.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:38 pm

Naquele instante aproximaram-se alguns convidados e a conversa tomou rumo diferente.
Aproveitando o momento, Vladimir Aleksandrovitch levantou-se e cedeu seu lugar à Baronesa Nadler.
Ele já havia readquirido o autocontrole, mas seu bom humor estava estragado e preferiu sentar-se à mesa de baralho.
A conversa tornou-se geral, Ellen logo se transformou no centro da reunião e encantou a todos.
Veio-lhe a inspiração e despertou o inato dom de circular pelos salões.
Algumas damas, usando as mais lisonjeiras expressões, convidaram a jovem pregadora a visitá-las.
Sua mente fina e desenvolvida, seus conhecimentos extraordinários e, por fim, o exotismo da ideia que representava, tornavam-na duplamente interessante aos olhos dos homens que se aglomeravam à sua volta.
Quando Ellen e Nelly começaram a despedir-se, o Barão insistiu em acompanhá-las até a equipagem como velho conhecido; aproveitando a oportunidade, pediu permissão para visitá-las.
- O senhor pede o impossível, Barão!
Conforme as regras da nossa comunidade, nenhum homem tem o direito de atravessar a soleira do nosso abrigo, excepto em casos especiais e previstos - disse-lhe Ellen, rindo. - A presença de nossos perigosos inimigos poderia constranger as irmãs.
Além disso, se o senhor entrar no abrigo, este deixará de ser o "Paraíso sem Adão" - acrescentou ela, maliciosamente, levantando para ele seus olhos claros.
- Ah! Então, vocês temem os “Adãos"!
- Naturalmente.
Mas, o senhor deve conhecer o provérbio:
"O perigo, quando conhecido, já está evitado pela metade."
O Barão acompanhou com um longo olhar a equipagem afastando-se.
Aquela moça atraente e especial agradava-lhe cada vez mais.
- Ela é diabolicamente encantadora - resmungou ele.
Mas me aguarde!
Moverei céus e terras, para fazê-la desistir desse paraíso imbecil.
Não querendo voltar ao salão de festas, o Barão ordenou ao mordomo que lhe trouxesse o sobretudo e já se preparava para sair, quando juntou-se a ele o pálido e entediado Artemiev.
- Você já acabou a partida de cartas? - perguntou o Barão.
- Sim, fiquei com dor de cabeça e vim tomar um pouco de ar puro.
E você, onde vai, Evgueny Pavlovitch?
Não me diga que quer ficar sozinho para sonhar com a americana!
E perigoso perder o coração para essa inimiga de homens.
- Qual nada!
O diabo não é tão feio quanto o pintam.
Seria um crime deixar aquela encantadora criatura em seu ninho de coruja.
E preciso mostrar-lhe todas as alegrias do casamento, mesmo que enfeitadas de alguns pecadinhos.
- De sua parte ou da parte dela? - perguntou Artemiev, num tom zombeteiro.
- Claro que da minha!
Eu torceria seu pescocinho rosado se ela ousasse retribuir-me da mesma maneira - respondeu o Barão alegremente.
Em seguida, despediram-se rindo muito.
Encostada a um canto da equipagem, Ellen pensava na reunião e em muitas outras coisas que não tinham relação directa com as ideias que defendia; entre essas recordações, o Barão ocupava sempre um lugar de destaque.
Isso porque Ellen era inocente e sem experiência de vida, enquanto ele era o leão dos salões; hábil em todos os truques e abordagens na arte da conquista, apesar de seus nervos abalados e coração murcho há muito já terem esquecido como é um verdadeiro e profundo sentimento.
- Em que está pensando, Ellen? - perguntou Nelly, inclinando-se preocupada sobre a amiga e pegando-a pela mão.
- Sobre a reunião em que estivemos e que me perturbou demasiado.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:38 pm

- Entendo. Esse novo mundo irá perturbá-la.
Cuidado, Ellen, para que Satanás não coloque a tentação na forma daquele homem fátuo e imoral que insiste em persegui-la!
- Você está sonhando acordada, Nelly!
Jamais esquecerei quem sou e as ideias que defendo.
- Não seja tão auto-confiante.
Lembre que o orgulho é um pecado mortal e leva à queda.
Você não é monja; nenhum juramento, nada pode impedi-la de deixar a comunidade casando com a pessoa que lhe agradar.
Sua única defesa é a liberdade do coração.
Estou com o pressentimento de que o Barão representa perigo para você; mesmo que não seja ele, por aqui há muitos homens perigosos.
O amigo dele, por exemplo, embora já não seja muito jovem, ainda é muito bonito.
Ele também lançou sobre você olhares muito estranhos.
Ellen endireitou-se de supetão e exclamou, rindo nervosamente:
- Oh! Mas não será este, em todo caso, que me fará desistir da nossa santa missão e dos princípios nos quais fui educada.
Odeio aquele homem!
Se eu algum dia vacilar, a imagem daquele homem desumano me fará retornar ao caminho certo!
- Você o odeia?
Porquê? - balbuciou Nelly.
- Como, porquê?
Você não ouviu que aquele senhor se chama Vladimir Aleksandrovitch Artemiev?
Ele é o assassino da pessoa que mais amei e respeitei na vida. É meu pai!
Nelly não conteve o grito de surpresa.
Mas não teve tempo de responder, pois a equipagem parou diante da residência.
Essa informação deixou-a preocupada e a fez perder o sono.
Por isso, após vestir-se para dormir, foi ao quarto de Ellen.
Encontrou-a de robe, sentada no divã, imersa em pensamentos sombrios.
- Posso incomodá-la um pouco?
Gostaria de conversar sobre o estranho acaso que, logo na sua primeira aparição na sociedade, colocou-a frente a frente com o seu pai.
- Sim, foi uma coincidência muito estranha!
Eu não estava preparada para isso e a visão daquele homem me abalou tanto que mal consegui me dominar.
- Entendo perfeitamente o que deve ter sentido.
Mas, conte-me, se não for indiscrição da minha parte, você pretende revelar-se ao seu pai?
Um fogo sombrio acendeu-se nos olhos azuis de Ellen.
- Naturalmente!
Vim aqui só para isso.
Pretendo jogar-lhe na cara a sua vilania e depois dizer:
"Sou sua filha, mas para você, serei sempre uma estranha como fui antes".
- E se ele, apesar de tudo, exigir seus direitos?
- Que tente!
Ele não tem prova alguma de ser meu pai.
Por causa de sua imperdoável leviandade, não levou consigo a certidão de casamento nem se preocupou em buscar a certidão de óbito da esposa e da filha.
Além disso, ele não vai querer ser desmascarado diante da sociedade que o considera um solteirão e divulgar essa velha história que não lhe faz as honras.
Não e não!
A americana Rutherford-Ardi, que conquistou uma posição na sociedade, dona de grande fortuna, jamais será uma Artemiev.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:38 pm

Mas ele deve conhecer a verdade.
Você, Nelly, diz que ele gostou de mim?
Tanto melhor!
Em sua infinita vaidade, na triunfal caminhada de conquista em conquista, ele nem por um momento terá dúvidas de que conseguirá me humilhar e destruir, como fez com inúmeras idiotas antes de mim.
Pretendo até incentivá-lo, fingindo ser uma conquista fácil.
Assim que estiver convencido de ter alcançado seu objectivo, eu lhe direi: sou sua filha!
Eu me delicio por antecipação com o momento de ver aquele patife corar de vergonha, por pretender transformar em amante a própria filha, aquela pequena Loló que um dia carregou nos braços e embalou no colo e em quem, agora, em vez do puro carinho paterno, preparava-se para dar o beijo fatal de amante.
Oh! Quero humilhar aquele desumano, pisoteá-lo na lama de sua própria vergonha e tirar daquele rosto fátuo a fingida mocidade.
Vou envelhecê-lo na hora em que ele lembrar que tem uma filha de mais de vinte anos.
Nesse momento, minha mãe estará vingada!
Ellen calou-se.
Sua voz e o corpo todo tremiam de emoção e grossas lágrimas escorriam por suas faces, enquanto a amiga a olhava com tristeza.
Nelly entendia que no fundo daquela ira soava a aguda amargura da solidão passada e o lamento por não poder cair nos braços de um pai amoroso.
No coração da moça abandonada ardia a necessidade de amar e ser amada e essa severidade poderia transformar-se facilmente em carinho e compreensão, se o imprestável pai implorasse perdão.
- Você está brincando com fogo, Ellen!
Se pretende permanecer fiel a nossa causa, não desafie o destino, tema a fraqueza, que é bem natural, mas que a obrigará a perdoá-lo como o faria sua mãe, cujas palavras cristãs e misericordiosas você tantas vezes me repetiu.
Ellen estremeceu e ficou pálida.
Com sofrida nitidez veio-lhe à mente a noite da morte de Vitória, quando a mãe conversara com ela, tratando-a pela primeira vez, não como criança, mas como amiga.
Lembrou que, quando fez uma observação severa sobre Artemiev, expressando a esperança de um dia vingar-se dele por tê-las abandonado, sua mãe observou com desaprovação:
- Você não deve odiar seu pai, por mais indigno que ele tenha sido.
Jamais esqueça que vocês estão unidos por laços sagrados.
Você não pode julgá-lo.
Ele será suficientemente castigado quando estiver cansado das diversões, saturado da vida imoral e ficar só.
Ele próprio criará para si uma existência solitária, cheia de remorso e privada da verdadeira afeição.
Uma voz misteriosa me diz que, embora me considere morta, ele não se casará novamente.
Portanto, quando chegar a velhice e as doenças, e chegar o momento de passar para o mundo invisível, quando o Senhor exigirá dele um relatório de seus actos, estará sozinho.
Se algum dia o acaso reunir você e ele, não será para pagar o mal com o mal, mas para cumprir a lei do Divino Salvador:
"Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores."
Abatida por essas recordações Ellen ficou calada e cabisbaixa, mas essa fraqueza durou pouco.
Logo endireitou-se e seus olhos brilharam quando respondeu, severa e de lábios trémulos:
- Minha mãe foi uma santa e, além disso, amava-o de todo coração!
Mas eu jamais me apaixonarei por alguém.
Reneguei as alegrias da família para não sofrer amargas decepções e permanecerei sozinha pelo resto da vida.
Não vou fraquejar e jamais o perdoarei.
Nelly nada respondeu.
Levantou-se em silêncio, beijou a amiga e saiu do quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:38 pm

Ellen deitou-se, mas teve um sono agitado e pesadelos.
Ela via o pai ou o Barão que a perseguiam alternadamente.
Acordou e durante muito tempo não conseguiu adormecer, tentando colocar em ordem os confusos sentimentos que a incomodavam.
O ambiente em que estava agora diferia radicalmente da austera comunidade onde crescera e da sociedade de Boston, que conhecia.
Sentiu-se fora do seu meio, envolta em estranhos encantos.
Nesse local a vida fervilhava tensa, com suas emoções, ilusões, amarguras, problemas.
Aquele poderoso sentimento, que escraviza o ser humano e o eleva ao céu ou precipita-o no inferno, jorrava em fúria, como um vulcão.
Recordando sua missão, foi tomada de desânimo.
E se o chamado da Natureza for mais forte que todas as palestras e conversas?
O amor, mesmo humilhado, enlameado, vendido e mal interpretado, continua existindo e dirigindo o Mundo; sua pregação, embora baseada na verdade dos factos, poderá cair em terreno estéril, poucas moças desejarão ver o noivo como inimigo, opressor e muito menos, livrar-se dele.
Pela primeira vez sentiu-se desiludida com a causa que defendia e seu fervor e autoconfiança recrudesceram.

(1 - Revel - Antigo nome de Tallinn, capital da Estónia).
(2 - "Self-made men" - Aquele que venceu por esforço próprio).
(3 - Himeneu - Deus do casamento na mitologia grega).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:39 pm

Capítulo 6

Os dias seguintes trouxeram para a senhorita Rutherford uma série de problemas.
O ataque de desilusão e fraqueza, sentido após a recepção na casa da Baronesa Nadler, desaparecera por completo.
Estava novamente cheia de coragem, confiança, sentindo-se pronta para a luta.
Os problemas abalaram-na levemente, mas indicaram novos pontos de vista para a posição que ela se preparava para defender.
Certa manhã, informaram a Ellen que uma dama queria lhe falar.
Como ela dissera que todos os dias, das doze às três horas da tarde, estaria à disposição das pessoas interessadas em consultá-la, supôs que aquela seria a sua primeira cliente.
Animou-se e foi ao gabinete onde a visitante a aguardava.
Mas, pela aparência, aquela pouco correspondia às suas expectativas e não parecia com as damas que Ellen atendia em Boston.
Seu bom humor transformou-se imediatamente em discreta amabilidade.
Diante dela estava uma mulher jovem, bonita, vestida com refinado luxo.
Seu vestido escuro de seda trazia a marca de uma óptima costureira; o magnífico chapeuzinho, revestido de cetim, repousava sobre cabelos negros como piche e dois maravilhosos brincos de solitários brilhavam em suas orelhas.
- Em que lhe posso ser útil, senhora? - disse Ellen, fazendo mentalmente a si própria a mesma pergunta:
"O que poderia querer do 'Paraíso sem Adão' essa mulher rica e bela, transpirando saúde, paz e vaidade?"
- Senhorita, soube que irá realizar algumas palestras sobre a emancipação das mulheres.
Tenho muito interesse nesse assunto e vim conversar para chamar sua atenção sobre uma particularidade do jugo conjugal que a lei ignora e nossos tiranos usam contra nós, com revoltante insolência.
- Eu lhe ficarei muito grata.
Por favor, conte-me.
A dama aproximou-se de Ellen.
- A senhorita prega a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, certo?
- Sem dúvida!
Considero isso uma lei básica.
- Tinha certeza disso! - exclamou a dama calorosamente.
Agora já não duvido que irá interessar-se sobremaneira sobre esta importante questão.
Quando o marido trai, a esposa também não é obrigada a permanecer fiel a ele.
A partir do momento em que ela tem provas da traição do marido, dependerá da sua boa vontade pagar-lhe ou não na mesma moeda; se ele descobrir, deverá calar-se e não fazer escândalo.
Baseando-se na lei fundamental da igualdade entre os sexos, decorre que, se o homem se considera livre, então a mulher também pode considerar-se isenta, de quaisquer obrigações.
- Desculpe, mas não posso considerar correcto esse seu raciocínio! - disse Ellen após ouvi-la com surpresa.
Na nossa opinião, uma mulher traída pode divorciar-se do marido adúltero ou perdoá-lo, mas sem direito de levar uma vida imoral.
Além disso, a partir do momento em que ambos tiverem igual liberdade, o homem deixa de ser o opressor e a mulher a vítima.
A senhora está completamente equivocada quanto ao sentido e objectivo das minhas palestras.
Não quero provar que a mulher é digna de pena quando não encontra no matrimónio a felicidade esperada; mas, para evitar desilusões, ela deve buscar, através do próprio trabalho, uma posição independente.
Sua moral deve permanecer intocável e ela digna do respeito dos filhos, por piores que tenham sido os erros do pai.
À medida que Ellen falava, o rosto da bela dama foi ficando vermelho e em seus olhos brilhou uma chama de raiva.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 7:39 pm

- E essa besteira que chama de defesa das mulheres oprimidas?
De um "Paraíso sem Adão"?
- Exactamente, minha senhora!
O "Paraíso sem Adão" significa uma mulher sem amantes.
- Então, devo lhe dizer, senhorita, que nada entende daquilo que prega!
Como é possível?
O patife do marido trai a pobre esposa, abandona-a, rouba-a por causa de alguma fulana, enquanto ela, como uma perua, apodrece na solidão, temendo manchar a sua tão pouco valorizada virtude.
Ou pior, vai trabalhar em farrapos, completamente ignorada, enquanto ele zomba dela com suas enfeitadas amantes!
A senhorita não pretende pregar a liberdade, mas a humilhação e a completa escravidão!
Posso adiantar-lhe que nenhuma mulher que tenha respeito próprio irá às suas palestras!
Qualquer mulher sensata não cederá o seu direito de vingar-se e pagar ao traidor na mesma moeda, sem ligar se a lei permite ou não.
Após medir Ellen com um olhar de desprezo, a dama voltou-se e saiu, batendo a porta atrás de si.
Ficando só, Ellen caiu na poltrona e gargalhou.
Nelly, que ouviu a conversa do quarto contíguo, entrou no gabinete e também não conseguia conter o riso.
- Mas que imbecil! - disse ela.
Acho que ela não vai querer entrar para a nossa comunidade.
- Pudera! Ela está à procura de um "paraíso" abarrotado de "Adãos" e isso não faz parte do nosso programa - respondeu Ellen, enxugando com um lenço os olhos húmidos de tanto rir.
Ainda estavam conversando, divertindo-se com essa estranha versão da emancipação feminina, quando trouxeram mais um cartão de visitas.
- Outra cliente! - disse Ellen após examinar o cartão.
Faça-a entrar!
Precisamos conhecer os gostos do nosso público! - acrescentou, zombeteira.
Instantes depois, entrou no gabinete uma mulher alta e volumosa, com uma expressão maldosa, teimosa e sensual no rosto carnudo.
Estava também muito bem vestida, mas faltavam-lhe a delicadeza e a naturalidade dos gestos da primeira visitante.
Além disso, estava demasiadamente maquilhada.
Pretendendo ser ainda mais cuidadosa, Ellen recebeu-a com muita discrição e perguntou-lhe o que desejava.
A dama iniciou um longo relato, num péssimo francês mesclado de palavras em russo, que Ellen não entendia.
Mas o sentido geral do palavrório era que todos os homens eram patifes ingratos e que, se abandonam filhos e esposas que sacrificaram tudo por eles, a opinião pública, se não a lei, deveria obrigá-los a redimirem sua culpa.
Imaginando estar diante de uma esposa abandonada como sua mãe, Ellen sentiu pena e simpatia.
Dominando a desagradável impressão do primeiro momento, respondeu à dama que a defesa dessas criaturas inocentes e ofendidas era exactamente a principal causa de sua pregação e que o objectivo do "Paraíso sem Adão" consistia em acolher e ajudar esposas abandonadas, garantindo também aos seus filhos uma vida honesta e independente.
Tentava explicar em poucas palavras o estatuto da comunidade, mas a dama, que a ouvia atentamente, interrompeu-a:
- Desculpe!
A senhorita não me entendeu bem! - exclamou exasperada.
Minha sina é bem mais trágica!
A traição de que fui vítima é ainda mais revoltante do que as banalidades, naturalmente desagradáveis, que está me contando.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:14 pm

Sem dúvida, um marido que abandona os filhos é digno de repreensão mas, em tais casos, as crianças perdem somente o apoio material.
A esposa, além de nada ganhar do marido, muitas vezes fica lhe devendo, incluindo nestes casos o dote ou até o vestido de noiva.
Às vezes ela própria é culpada, se deixa de agradá-lo.
As crianças, por sua vez, mantêm o sobrenome do pai; além disso, a lei obriga o marido a sustentar a família, descontando metade de seu salário, se ele trabalhar.
Mas, ouça o que aconteceu comigo!
Eu era muito jovem quando me casei com um patife, que tinha o dobro da minha idade, de carácter asqueroso e extrema avareza.
Jovem, bonita e adorando a vida, sentia-me muito infeliz.
Um dia, num baile de máscaras, encontrei por acaso um rapaz encantador e inteligente e nos apaixonamos.
Eu era absolutamente inocente e segui apenas a voz do coração, pois Pierre era pobre e seu emprego mal dava para se manter sozinho.
Meu marido não suspeitava do nosso caso e, quando dei à luz a um menino, achou que fosse dele.
Pouco depois meu marido faleceu.
Eu, livre e rica, estava convencida de que o homem por quem havia sacrificado tudo e com o qual tinha uma ligação viva e sagrada casaria comigo, logo que a decência o permitisse.
Ele me jurava isso e visitava-me diariamente, ficando às vezes o dia inteiro.
Mas, quando terminou meu luto, alegou problemas familiares para adiar o casamento.
Como eu o considerava meu noivo e, além disso, estava grávida, deixei-o morar na minha casa.
Eu o vestia, alimentava e até lhe dava dinheiro para satisfazer seus caprichos.
Assim se passaram quatro anos.
Ele continuou me enganando com promessas, enquanto eu, cega de amor, acreditava nele e continuava cobrindo-o de presentes.
Após alguns meses do nascimento do meu terceiro filho, Pierre disse-me que partiria numa viagem de férias de três semanas, para eliminar definitivamente os obstáculos que impediam o nosso casamento e, com esse objectivo, tomou-me emprestados dois mil rublos.
Imagine o meu estado quando mais tarde recebi dele o pagamento do empréstimo e uma carta, na qual ele dizia que tinha se casado e despedia-se de mim, desejando-me toda a felicidade!
Oh! Se naquele instante ele caísse nas minhas mãos, eu mataria aquele patife que destruiu minha vida, meu futuro, por três anos viveu às minhas custas no conforto e abundância e por fim me abandonou com três órfãos a quem negou até o seu nome!
Ela falava gesticulando muito e com tal animação que Ellen não conseguiu dizer nenhuma palavra, o que, aliás, nem tentou.
Muda de espanto e nojo, ouvia a desavergonhada confissão daquela mulher, que relatava, sem escrúpulos, a uma estranha toda a vergonha e sujeira na qual estava afundada e ainda se considerava "vítima".
Mas a dama entendeu errado o silêncio de Ellen.
Animava-se cada vez mais, aumentava o tom de voz e foi ficando vermelha de indignação.
- Pode imaginar tanta esperteza, traição, hipocrisia e desumanidade?
Envergonhar uma infeliz mulher, gastar seu dinheiro, iludi-la com falsas promessas e, depois de viver com ela alguns anos, largá-la e vender-se a outra, abandonando duas pobres crianças órfãs e sem nome!
Tais actos deveriam ser desmascarados e levados a conhecimento público.
Você, senhorita Rutherford, que veio defender abertamente as mulheres oprimidas, que é representante do "Paraíso sem Adão", ou seja, do "Adão" do tipo do meu miserável sedutor, tem obrigação de condenar tais safadezas e exigir uma lei que proteja os indefesos obrigando o homem a redimir sua culpa se ele não quiser fazê-lo voluntariamente!
- Senhora, pelo amor de Deus, não fique tão exaltada!
Dá para ouvi-la até do saguão e não acho que gostaria que os criados ficassem confidentes dos seus... problemas - Ellen conseguiu interrompê-la, pois a voz da visitante atingira o ápice e soava como um clarim.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:14 pm

Quanto a defender casos como o da senhora, recuso-me terminantemente.
Eu sou pela justiça; pelo seu relato constata-se que a vítima foi o seu finado marido.
A senhora o traía com seu amante, apropriou-se traiçoeiramente do nome dele para o seu filho ilegítimo e envergonhou sua memória levando abertamente uma vida imoral.
Fez tudo isso conscientemente.
Portanto, a senhora não deveria surpreender-se com o facto de seu amante, não lhe tendo confiança nem respeito, ter escolhido para si uma outra esposa, para não profanar a santidade do matrimónio unindo-se a uma mulher que durante muitos anos foi sua amante.
Posso somente aconselhá-la a arrepender-se pelo passado e dedicar-se à educação dos filhos.
A senhora deve ensinar ao seu filho que é muito ruim seduzir uma mulher casada e dizer a sua filha que não siga seu exemplo e se torne uma mulher honesta e útil.
A voz clara de Ellen soava severa e nos seus límpidos e sérios olhos luzia o ostensivo desprezo e o nojo que sentia pela visitante.
Esta, no início, ficou estupefacta com a inesperada reprimenda, mas logo mudou para uma ira insana.
O rosto gordo ficou tão roxo que se notava, através da grossa camada de maquilhagem, que os olhos se injectaram de sangue.
Agitando os punhos fechados exclamou com ferocidade:
- Como ousa me insultar por confiar em você?
Está dizendo que sou imoral, defende o velho idiota do meu marido e justifica o patife que roubou a minha felicidade e meu dinheiro?
Sua charlatã!
Você deve ser uma aventureira americana que veio aqui para caçar marido.
Ela parou, confundida com a atitude de Ellen que, sem sair da poltrona media-a com um olhar orgulhoso e gélido.
- Senhora! A senhora mesma confessou que traía o marido e reconheceu que seus filhos são ilegítimos.
Não permitirei ser insultada sob meu próprio tecto por me negar a incentivar a depravação e defender mulheres caídas que lamentam a desonra após ficarem se jogando nos braços dos homens; elas só percebem que foram humilhadas e enganadas quando são expulsas do charco em que outrora sentiam-se aconchegadas.
Defender tais vilezas não faz parte do meu programa, nem das actividades da nossa comunidade, que se ocupa somente de esposas legítimas e honestas ou de moças inocentes que, por causa de uma educação errada e deficiente, ficam indefesas na luta da vida.
Agora, muito obrigada e até logo!
Ellen levantou-se, cumprimentou a visitante com um leve aceno de cabeça e saiu do quarto.
Pálida de emoção, foi ao quarto de Nelly que tinha ouvido a conversa e observou:
- O seu público está bem representado!
Santo Deus! Não vimos clientes como essas em Boston, em Bremen ou em Berlim.
Começo a acreditar que o Barão estava certo quando nos aconselhou não vir aqui.
- Realmente, é inacreditável.
Aquela malfeitora ainda ousa passar-se por vítima!
Brrr! Para mim, por hoje chega.
Nelly, mande dizer que não recebo mais ninguém hoje - disse Ellen num tom insatisfeito, jogando-se na poltrona.
Antes que Nelly apertasse a campainha para chamar a criada, Ellen recebeu um pacote embalado em papel seda e uma carta.
- O mensageiro trouxe isso e foi embora sem esperar resposta - disse a camareira, colocando o pacote na mesa.
Esquecendo aqueles desagradáveis momentos, Ellen, curiosa, rasgou o papel seda da embalagem.
Dentro encontrou uma linda cestinha de bronze, cheia de rosas e orquídeas.
Por entre as flores havia um cartão de visita no qual, sob a coroa de baronato, constava:
"Evgueny Ravensburg".
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:14 pm

No verso estava escrito:
"Espero que a cruel lei que expulsa os pobres Adãos do paraíso não irá privá-los do consolo de depositar rosas sem espinhos aos pés de sua encantadora oponente."
Ellen soltou uma gargalhada, depois corou.
Em seguida, inclinou-se e aspirou o aroma das flores.
Naquele instante, Nelly, ao ler a inscrição no cartão, pôs a mão no seu ombro e disse num tom significativo:
- Não se deixe embalar pelo aroma dessas rosas; ele é muito prejudicial.
Ellen levantou a cabeça, com ar insatisfeito.
- Você sempre vê fantasmas onde não existem!
Acha importante essa amável brincadeira, à qual o Barão não deve dar o menor valor?
Em seguida, pretendendo aparentemente mudar de assunto, pegou a carta e abriu-a.
Era da Baronesa Nadler, informando que os pedidos para a realização das palestras foram atendidos, e a autorização obtida; a generosidade da pregadora, que doara toda a féria da recepção para entidades filantrópicas, causou boa impressão.
A Baronesa acrescentava que a venda de ingressos já começara e com tanto sucesso que ela pensava em acrescentar mais cem lugares, mesmo apertando um pouco as filas de cadeiras.
Junto à carta havia um ingresso para o teatro francês.
Como no dia seguinte estava marcada uma reunião do comité da sociedade beneficente presidido pela Baronesa, ela não poderia ir ao espectáculo; por isso, oferecia-lhe o seu camarote.
Sem consultar ninguém, Ellen respondeu imediatamente à Baronesa, dizendo agradecer muito e aceitar com prazer seu amável convite.
Essa decisão arbitrária provocou insatisfação em toda a pequena comunidade.
Nelly reclamou primeiro, achando que não ficava bem para elas ficarem zanzando por teatros.
Já que chegaram lá por uma causa importante, deviam dar exemplo de uma vida austera, avessa às leviandades mundanas.
A senhora Forest, já envelhecida e arredia, e a senhorita Emmi, de carácter sombrio e fechado, recusaram-se terminantemente a ir ao teatro.
Mas Ellen, geralmente complacente, desta vez teimou e disse que não era monja, que não queria privar-se desse inocente prazer e, por isso, iria sozinha se as outras insistissem na recusa.
Vendo sua teimosia e crescente irritação, Nelly cedeu e, de má vontade, concordou em acompanhar a amiga.
No dia seguinte, Ellen ocupou-se activamente do traje para ir ao teatro.
Pela manhã visitou lojas e retornou abarrotada de pacotes e caixas de papelão, para grande desapontamento das senhoritas Sinclair e Emmi, ocupadas na elaboração do relatório à senhora Oliver sobre a viagem e as palestras realizadas na Alemanha.
Sem ligar para seus olhares sombrios, Ellen já se preparava para desempacotar suas compras quando lhe informaram que uma dama desejava vê-la.
Irritada, lembrou que ainda era a hora que marcara para as consultas.
Tendo recebido uma educação de rígido controle da mente, logo voltou para aquilo que considerava seu dever principal e, cinco minutos mais tarde, entrava amável e séria em seu gabinete.
Dessa vez, a conversa a satisfez inteiramente.
A cliente era realmente uma mulher honesta, que sofrerá muito na vida e estava seriamente interessada nos objectivos da comunidade "Paraíso sem Adão".
Financeiramente garantida e completamente só, desejava entrar para a comunidade por uns dois ou três anos a fim de estudar bem sua estrutura para depois tentar fundar uma instituição semelhante na Rússia, adaptada aos costumes e necessidades locais.
Ellen prometeu escrever imediatamente à senhora Oliver e informar a resposta a sua interlocutora, sem qualquer dúvida quanto à aceitação da proposta.
Então a dama, que se chamava senhora Smirnov, poderia viajar à América junto com uma representante da comunidade. Combinado o local e a data do encontro, despediram-se como boas amigas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:14 pm

Ellen voltou para junto de Nelly muito satisfeita e transmitiu-lhe a conversa que acabara de ter.
Esquecendo o recente desentendimento, as amigas conversavam animadamente sobre a futura "irmã" quando vieram trazer mais um cartão de visitas.
- Colette Legrand, actriz dramática - leu Ellen, surpresa.
Meu Deus, o que esta mulher quer de mim?
Pressinto que será idêntica às clientes de ontem.
- Neste caso, dispense-a!
Agora são quinze para as três da tarde; você pode alegar que o horário de consultas já encerrou.
- Não, acho que vou atendê-la.
Se for uma "Madalena", disposta a arrepender-se, então não devemos impedi-la de procurar o caminho da verdade, desde que não seja em nossa comunidade - concluiu Ellen, rindo.
Colette andava pelo escritório.
Examinando as fotos do abrigo penduradas nas paredes, chegou à conclusão de que a casa e sua decoração eram bem "luxuosas" e "habitáveis".
Em seguida, sentou-se e começou a folhear as brochuras, cantarolando entre os dentes o tema de uma alegre cançoneta.
Lia, bem distraída, a tradução de uma das palestras da senhorita Rutherford, quando um leve farfalhar de vestido fê-la levantar a cabeça.
Entrou Ellen e, por um instante, elas se examinaram com curiosidade.
No rico, mas espalhafatoso traje da actriz e no seu olhar ousado havia algo que incomodava a jovem pregadora.
O desembaraço de Colette, que se dirigia a ela com a mão estendida, não lhe agradou.
- Sente-se, por favor!
A que devo o prazer de sua visita? - disse Ellen indicando a poltrona e fingindo não perceber a mão estendida da visitante.
Estava tímida e indecisa, sem saber que tom usar em relação à dama do submundo.
Mas Colette não percebeu a segunda intenção na atitude da americana.
Ela atribuiu seu embaraço ao deslumbramento diante de seu traje da última moda, que acabara de chegar de Paris.
Colette instalou-se confortavelmente na poltrona, dizendo com displicente alegria:
- Minha cara senhorita!
Vim conversar sobre diversos assuntos mas, primeiramente, gostaria de pedir-lhe para me arranjar um ingresso para a sua palestra, pois não consegui comprá-lo em lugar algum.
- Infelizmente, não posso satisfazer o seu pedido, pois não tenho ingressos.
A venda é administrada pela Baronesa Nadler e a sociedade filantrópica para quem se destina a renda.
A senhora deverá pedir a elas.
- A Baronesa Nadler!? - Colette fez uma careta de desprezo.
Aquela velha fingida fará de tudo para me deixar sem lugar, pois vai querer reunir somente pessoas do seu meio e filantropos inveterados.
Ah, ah, ah! Sobre ela se pode dizer:
"O diabo, quando envelhece, torna-se filantropo."
- A senhora não sabe o que está falando!
A Baronesa é jovem ainda e seu comportamento está acima de qualquer suspeita.
- Verdade?
É isso mesmo que pensa?
Percebe-se logo que acabou de chegar da América e não conhece a pequena crónica de São Petersburgo.
Eu poderia lhe contar muita coisa sobre aquela "não-me-toques", que nem sempre foi assim; mas esse relato ocuparia tempo demais.
Não é novidade que a Baronesa e seus semelhantes nos desprezam e tentam provar que não temos lugar na sua "sociedade" e isso se explica facilmente.
Elas têm inveja da admiração, amor e atracção que os homens sentem por nós, actrizes; não conseguem perdoar nosso talento e superioridade intelectual.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:15 pm

Por isso tentam, de todas as maneiras, humilhar-nos perante a opinião pública.
Se um homem do seu meio se casa com uma actriz, essas damas imediatamente levantam um escândalo.
- Mais uma vez, não posso concordar com a senhora.
Nos tempos atuais as actrizes têm conseguido óptimos partidos, inclusive príncipes de sangue real.
O que realmente não se pode falar é de preconceitos contra elas.
Mas não entendo o que isso tem a ver com minhas palestras e o "Paraíso sem Adão", que represento aqui.
- Devo confessar que a senhorita representa algo bastante absurdo - e Colette deu-lhe uma piscada.
Gostaria de conversar sobre esse assunto quando a senhorita estiver casada!
Ah, ah, ah! Pelo amor de Deus, não se zangue!
Noto que a senhorita entrega-se de corpo e alma à sua causa.
Vou contar-lhe o motivo que me trouxe aqui e o que existe em comum entre a minha visita e suas palestras.
De tudo o que me falaram e que li nas suas brochuras, concluí que a senhorita prega a igualdade e o direito de toda mulher a uma vida honrosa e tranquila numa união legal.
Isso diz respeito a uma actriz da mesma forma que a uma senhora da sociedade e aristocrata.
É o bê-á-bá da justiça.
Digo mais:
as aristocratas, que em sua maioria são ricas e feias, podem muito bem permanecer livres, pois os homens se casam com elas somente por interesse ou necessidade; entretanto, a mulher realmente amada é obrigada a esconder-se; em nove casos entre dez, a união dos corações não é sacramentada pela lei.
Esse é o assunto que a senhorita deveria colocar como o tema principal em suas palestras.
Agora vou falar sobre o meu caso pessoal.
Estou cansada desta vida atribulada e exaustiva, de trabalho incessante pelo pão de cada dia e um discreto conforto.
Finalmente encontrei um homem por quem me apaixonei, tanto que estou disposta a sacrificar por ele a minha liberdade e sepultar meu talento entre as estreitas paredes de um discreto lar.
Digo discreto, pois apesar de ser rico, o homem que amo, não poderá me proporcionar tudo o que usufruo agora.
Mas não importa!
Quero me estabelecer, anseio por um cantinho e um marido amoroso com uma boa posição social.
Satisfaço-me com pouco e irei custar-lhe muito menos do que agora...
- Mas, considerando esse tocante desinteresse monetário, o que impede a sua felicidade? - interrompeu Ellen, irónica.
- Ridículos preconceitos, minha cara senhorita! Vladimir Artemiev, aquele que já considero meu noivo, me adora como Romeu a Julieta mas, por ser fraco, tem medo da opinião pública.
Ele é óptima pessoa, ainda muito bonito e, cá entre nós, muito bem conservado.
Infelizmente, também é fútil, vaidoso e extremamente saturado da vida.
Portanto, se a senhorita, como defensora das mulheres subjugadas, do alto de seu púlpito reconhecer as qualidades das actrizes e provar que, sendo elas dignas de amor, também são dignas de serem esposas, isso o impressionaria muito e acabaria com suas últimas dúvidas.
O nome de Artemiev fez Ellen estremecer.
Ficou olhando com indescritível nojo, vergonha e curiosidade a mulher sentada à sua frente.
Essa era, portanto, a amante do seu pai, uma daquelas mulheres por quem ele sacrificara sua mãe, tão boa e casta.
Essa desavergonhada "sacerdotisa do amor" pretendia ser sua madrasta e ainda lhe pedia ajuda para a realização dos seus planos!
Absorta em suas próprias conclusões, sem notar a repentina emoção de sua interlocutora, Colette prosseguiu:
- Minha cara senhorita, esteja certa de que irei recompensá-la!
Se defender a minha causa e com sua ajuda acontecer meu casamento, vou presenteá-la com um par de brincos que serão notados até na América.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:15 pm

Nós, mulheres, devemos ajudar uma à outra e você, como defensora dos nossos direitos, tem dupla obrigação em fazê-lo.
Apesar da amargura que fervia dentro dela, o ridículo da situação fez a mente flexível de Ellen agir rapidamente.
A história falsa e idiota daquela mulher decaída, que lhe prometia jóias pagas por seu próprio pai para que ela, a filha, o fizesse casar, desanuviou sua indignação.
Mal contendo o riso, Ellen respondeu com um leve sorriso:
- Não tenho dúvidas quanto à sua generosidade; mas, não posso falar em seu favor, pois sou contra o casamento.
Na minha opinião, esta união traz infelicidade à mulher, pois tira-lhe a liberdade e a paz e nada oferece em troca.
Nossa comunidade acolhe somente mulheres infelizes, cuja vida foi destruída pelo mau comportamento dos maridos e educa as moças de forma a convencê-las de que a verdadeira felicidade consiste na independência proporcionada pelo trabalho e pelo coração livre.
Resumindo, prepara-as para uma vida casta, mas solitária.
A senhora percebe que desse programa nada lhe serve, pois leva uma vida alegre e solta e seu amante lhe proporciona o luxo de que tanto gosta.
Na minha opinião, só tem a perder se casar, pois ele logo se arrependerá e irá descontar na senhora seu desrespeito, que a senhora chama de preconceito.
- Em outras palavras, você quer dizer que ele me despreza?
Minha cara senhorita, acho que está enganada!
Vejo que conhece pouco os homens.
Eles sempre respeitam aquilo que os diverte; quanto mais caro ou difícil for este divertimento, mais o valorizam e procuram.
Estou falando por experiência própria.
Nenhum dos homens que tive e, sem querer gabar-me, tive muitos aos meus pés, me desprezou.
Nós nos divertíamos muito bem juntos e eles me cobriam de presentes, pois afinal de contas, eu precisava sobreviver.
- Isso está correto!
Mas o que acabou de dizer significa que a senhora é uma mulher que pertence a todos, ou no mínimo, a cada um que lhe paga.
- Só faltava que eu me sacrificasse de graça! Eu, hein!
- A senhora agora percebe que nossos pontos de vista são diametralmente opostos.
Tenho a opinião de que é preciso ganhar o pão de cada dia honestamente, sem se vender e não permitindo aos homens desprezar-nos ou nos tratar como animais - contestou Ellen com severidade, já começando a zangar-se.
Colette soltou uma gargalhada.
- Pelo jeito, você defende rigidamente o desprezo e não consegue conter a língua.
Mas não me ofendo, pois noto que você, definitivamente, nada entende da vida.
Não dou a mínima ao respeito destes senhores!
Quando, após um bom jantar, consigo tirar de algum deles um bom cachê, eu mesma começo a desprezá-los.
Além disso, o amor tem o seu encanto e a mulher não pode viver sem amor.
Repito: depois do casamento você me entenderá melhor e achará o seu paraíso sem Adão muito monótono e insípido. Bem, agora adeus!
Mas pense sobre a minha proposta.
Colette cumprimentou-a alegremente e saiu, enquanto Ellen ficou profundamente pensativa.
As estranhas visitantes dos últimos dois dias mostraram-lhe a questão feminina de um ângulo absolutamente diferente do visto pelo "Paraíso sem Adão".
Como devia ser poderoso o sentimento do amor, essa irrefreável necessidade de submeter-se ao jugo matrimonial, já que todas as mulheres anseiam por isso e nenhum exemplo, nenhum desprezo, nenhuma tirania consegue dissuadi-las!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:15 pm

Moças ricas e pobres, mulheres honestas e vendidas, viúvas, separadas e até as que provaram a taça amarga, ninguém quer permanecer livre.
Será que as mulheres são realmente uma raça inferior, que anseia pela escravidão como seu meio ambiente natural?
Por amor ou por interesse, todas colocam o pescoço no laço.
Que quadro aterrador ela precisaria inventar para obrigá-las a recuperar a sensatez?
Pela memória de Ellen passaram novamente todas as suas visitantes.
Todas suportaram pesadas ofensas de homens; mesmo assim, somente uma procurou a salvação na orgulhosa independência e no trabalho honesto.
Uma arranjou um amante para se vingar do marido, e a terceira, que fora cruelmente ridicularizada e humilhada, ansiava por voltar para aquele que lhe cuspia no rosto.
Por fim, a mulher que acabara de sair, simplória e alegre "dama de diversões", sequer fazia ideia de quão profundamente era desprezada a sua dignidade humana.
Leviana e cega, sonhava em ser rica, gastava em panos e prazeres seu mísero e vergonhoso "salário" e, cantando e dançando, dirigia-se para o abismo:
velhice, miséria e morte no hospital.
Esse caminho, trilhado por muitas mulheres, não a assustava e ela não odiava os homens que, sem dúvida, a abandonariam sem pena nem solidariedade quando ela murchasse, envelhecesse e não conseguisse mais diverti-los.
Tudo isso representava um enigma para Ellen.
Entretanto, se a inata natureza mesquinha e o instinto invencível empurravam irrefreavelmente a mulher para a submissão, será que ela própria resistiria?
Ou cederia, mais cedo ou mais tarde à superioridade dos homens, embora naturalmente de forma honrosa?
Ela também encontraria um senhor?
Em sua mente surgiu imediatamente a zombeteira imagem do rosto fino, nobre e dos olhos escuros do Barão Ravensburg...
Ellen estremeceu como se levasse uma mordida e passou as mãos no rosto.
Estaria enlouquecendo, entregando-se a tais pensamentos idiotas?
Como podia igualar-se àquelas mulheres, decaídas exactamente por não terem carácter suficiente, respeito próprio nem educação salutar?
Ela, pelo contrário, estava armada para a luta cotidiana; seus olhos abertos, a força de vontade temperada como aço e a mente desenvolvida faziam-na duplamente independente.
Não! Ela desejava permanecer livre e assim permaneceria!
Não seria o Barão, aquele leviano esbanjador, que a faria mudar de opinião!
Ellen recuperou o bom humor e levantou orgulhosa a linda cabecinha.
Em seguida, foi ao refeitório, onde todos da casa estavam reunidos para o almoço, para contar-lhes sua conversa com Colette.
Nesse dia, começou bem cedo a cuidar do traje para ir ao teatro.
Queria ficar bonita, não para seduzir algum coração masculino, mas para sua própria satisfação artística.
Colocou um vestido de renda negra, forrado de seda da mesma cor; o corpete era bordado com pérolas, semi-aberto na parte frontal, com mangas curtas que desnudavam os braços até os cotovelos.
Uma nuvem de rendas destacava maravilhosamente o branco luminoso do rosto e os vastos cabelos com reflexos dourados, presos com um pente de brilhantes.
Na longa luva negra brilhava um bracelete de ouro enfeitado por uma estrelinha de rubis e brilhantes.
Um luxuoso leque de renda completava esse rico e rigoroso traje.
Ela examinou satisfeita a imagem deslumbrante no espelho.
Sim, estava linda!
Se algum homem se apaixonasse por ela, pior para ele! Iria desprezá-lo e torturá-lo, descontando nele todas as ofensas que suportaram suas irmãs, por não poderem vingar-se na mesma moeda.
Naquele instante, Nelly entrou no quarto.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:15 pm

Ao ver a amiga, primeiro ficou muda de espanto; em seguida, ficou repentinamente irada e exclamou:
- Ellen! Você pretende ir ao teatro nesse estranho traje?
Justo você, a representante e pregadora da nossa rigorosa comunidade, asilo de sofrimentos e desilusões, pretende aparecer em rendas e brilhantes?
Será que esqueceu de quem é?
Ellen voltou-se rapidamente e suas faces se cobriram de forte rubor.
- Não esqueci de nada!
Veja! Aqui está o símbolo da nossa comunidade - disse ela apontando para a medalha de ouro com a imagem da colmeia, pendurada num laço esmaltado azul e emaranhada por entre as rendas.
Num auditório eu sou a palestrante, mas num teatro sou simplesmente uma mulher da sociedade e não quero que fiquem me apontando com o dedo.
Inclusive você, Nelly, não pode ir ao teatro como um espantalho.
Esse seu vestido de lã, a gola de linho e os punhos das mangas sem qualquer adereço a fazem parecer uma "quaker"(1) ou até uma monja.
Qualquer um pode dizer que essa discrição é premeditada, para chamar atenção sobre você servindo como uma espécie de propaganda.
Não acho que você esteja querendo isso.
Então, permita-me consertar um pouco seu traje.
Fazendo a insatisfeita amiga sentar-se, Ellen colocou-lhe sobre os ombros um luxuoso agasalho, prendeu na gola um broche de ametista e pôs em suas mãos um leque de plumas.
- Agora melhorou!
Tome, pegue essa bolsinha de pelúcia:
dentro estão o seu lenço e um binóculo.
Bem, já é hora de irmos.
Apanhando uma bolsinha de veludo vermelho, Ellen enrolou-se numa linda estola e, pegando a amiga pela mão, saíram.
Naquele mesmo dia, Vladimir Aleksandrovitch Artemiev estava sozinho em casa.
Ao retornar do serviço, mandou dizer que não estava para ninguém.
Enrolando-se num robe, ficou deitado no divã do gabinete, perdido em pensamentos.
Nos últimos dois dias sentia-se meio inquieto.
Mais fortes do que nunca, perseguiam-no as lembranças de um passado há muito sepultado do outro lado do oceano.
Essas tristes recordações reviveram quando encontrou Ellen.
Algo nela lhe parecia muito familiar, agradava e atraía, apesar da irritação provocada pela crítica ao comportamento dele em relação à esposa e filha.
A censura, naturalmente não tinha endereço certo, pois Ellen não tinha como saber nada sobre seu passado.
Mesmo assim, suas palavras vinham-lhe à mente com insistência, estragando o seu bom humor e tornando-o insociável.
Já passara a noite anterior sozinho e há dois dias não visitava Colette.
Seu criado achava que ele estava doente e mantinha-o sob discreta observação.
Para espantar os incómodos pensamentos, Artemiev pegou uma revista a fim de distrair-se com a leitura quando, repentinamente, do quarto contíguo ouviram-se passos rápidos e uma voz sonora perguntou alegremente:
- Olá, Vladimir!
O que está acontecendo?
Por que não apareceu ontem na casa do general Petrov?
Todos ficaram surpresos com a sua ausência.
- Olá, Evgueny! - respondeu Artemiev preguiçosamente, apertando a mão do amigo - Ontem não me senti disposto a sair.
Mas, já que esteve lá, conte-me as novidades.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:15 pm

O Barão sentou-se, pegou um charuto e passou a contar alegremente os divertidos mexericos mundanos.
Os dois eram amigos há muito tempo; apesar da diferença de idade, a amizade era sincera e começara por causa de um incidente numa caçada.
Na época, o Barão era um jovem de vinte anos, recém-admitido ao serviço, e participava de uma caçada ao urso organizada na Finlândia por um rico fazendeiro sueco.
Quando o urso foi provocado pelos batedores de caça e ergueu-se nas patas traseiras para atacar, o Barão, no afã da juventude, adiantou-se.
A gigantesca fera, com as garras em riste, avançou directo sobre ele; o Barão atirou mas a arma falhou.
Ele corria enorme perigo quando um tiro habilmente disparado por Artemiev atingiu a fera entre os olhos, matando-a instantaneamente e salvando o imprudente caçador.
Desde então uma profunda gratidão afeiçoara o Barão a Artemiev.
Este, no início menosprezava a amizade do jovem, considerando-o um "garoto"; depois acostumou-se e ocupou-se dele, orientando o rapaz para o caminho da "existência agradável", que ele próprio seguia.
Com o tempo, a diferença de idade desapareceu.
Seus gostos coincidiam e passaram a sair e divertir-se juntos.
Sua amizade era tão grande que Ravensburg podia entrar na casa de Artemiev a qualquer hora, sem avisar.
Tinha uma chave da entrada dos fundos e podia até usar o quarto azul para encontros toda vez que recebia a visita da velha tia e das duas irmãs que chegavam da Finlândia e ficavam por mais de duas semanas, sem suspeitar que incomodavam o rapaz, pois a rígida educação alemã impedia-o de demonstrar qualquer insatisfação.
Após contar tudo sobre a festa do dia anterior, o Barão ficou mordendo os bigodes em silêncio.
- Vladimir, sabe o que fiz ontem?
- Alguma bobagem, provavelmente - respondeu Artemiev laconicamente, oferecendo-lhe fósforos para o charuto.
- Que nada!
Enviei uma cesta de flores com um cartão de visitas à senhorita Rutherford.
- Oh, céus!
Esse presente foi para a comunidade ou exclusivamente para ela?
- Naturalmente que foi só para ela!
E acrescentei no cartão que colocava aos pés dela rosas sem espinhos.
Artemiev soltou uma gargalhada.
- Você é um espertalhão!
Guardou os espinhos caso ela queira desfrutar melhor das rosas - disse zombeteiro.
- Oh, a montanha ainda está longe de Maomé! - suspirou o Barão.
A moça é resistente e, antes que eu e ela desfrutemos juntos das rosas, é provável que eu tenha de convidá-lo para ser meu padrinho de casamento.
Artemiev ergueu-se.
- Mas, como?
Você já está tão maduro? Coitado!
Você morreu antes da batalha, já que fala com tanta resignação em subir ao altar e lhe colocarem grilhões pelo resto da vida.
- Mas, se não houver outro jeito?
- Qual nada! Deve-se sempre adiar as decisões desesperadas até o último momento.
Tente conduzir o caso de forma diferente.
Talvez a americana, sendo inimiga do casamento, aceite amá-lo sem casar.
Depois, ela retornará ao paraíso dela convencida na prática da instabilidade da paixão.
A finalidade do "Paraíso sem Adão" é abrigar mulheres que sofreram desastres amorosos.
Para agradar àquela cruel virgem, você lhe poderia propor fundar um "Paraíso sem Eva".
Todos os homens infelizes iriam apoiá-lo e essa instituição teria muito sucesso, ainda mais que agora estão na moda diversas esquisitices. Ouça isso!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:16 pm

Ele pegou o jornal e começou a ler um artigo que falava da chegada do senhor Brown e seus companheiros, ridicularizando seus objectivos e anunciando que os esquisitos ianques receberam autorização para realizar palestras em inglês, no mesmo salão onde sua, não menos esquisita, conterrânea, senhorita Rutherford, iria discorrer sobre a emancipação feminina.
- Eis um grupo de idiotas que, para matar o tempo, não encontrou nada melhor do que falar besteiras - observou Artemiev, dando de ombros e jogando longe o jornal.
- Peço que fale com respeito do clube dos "castos".
A partir desta manhã sou membro da sociedade da castidade masculina - respondeu o Barão, assumindo um ar de importância e tirando as cinzas do charuto.
- Você? Está brincando! - exclamou Vladimir Aleksandrovitch, às gargalhadas.
- Nem um pouco!
Fiz isso para poder cortejar a senhorita Ellen.
O chefe dos castos recebeu-me amavelmente, inscreveu-me como membro e me forneceu um emblema da sociedade.
Aqui está - o Barão tirou do bolso uma grande medalha de prata numa fita verde e vermelha.
Veja, é a senhora Putifar e José, que tenta escapar de suas garras, como um protótipo da castidade.
- Que encantador!
Você conhece o símbolo das sacerdotisas do "Paraíso sem Adão"?
Seria a imagem da senhora Putifar chorando a fuga de José? - perguntou Artemiev, enxugando os olhos.
- Melhor do que isso!
E uma colmeia cercada de abelhas que surram os inúteis zangões.
- Muito edificante! Mas, diga-me, Evgueny, que obrigações lhe foram impostas por essa sua nova condição?
- Primeiramente, me arrepender dos pecados do passado e me purificar através do jejum e orações; deixar para sempre a vida desregrada e, finalmente, escolher para esposa uma virgem virtuosa, ter filhos a cada ano e viver enfocado, no estreito círculo dos prazeres conjugais.
- Que quadro atraente!
Reconheço que você tem muita imaginação.
E bem provável que estes dignos e virtuosos pecadores sejam admitidos no "Paraíso sem Adão", para consolar as inconsoláveis.
Mas fico imaginando os absurdos que serão ditos nessas palestras!
- De qualquer forma, serão bem curiosas.
Consegui dois ingressos para nós, e confesso que foi difícil obtê-los.
Para a palestra da senhorita Ellen estão vendendo um ingresso masculino para cada dez femininos, enquanto que para a palestra do senhor Brown as damas estão disputando os ingressos a tapa.
Você vai comigo, Vladimir, certo?
Pode ser que, de repente, sinta vontade de entrar para a sociedade dos castos.
- Colette não vai gostar disso.
- E também Varvára Arkadievna.
Mas, ouça, alguém está tocando a campainha da porta dos fundos!
Muito provavelmente deve ser a sua carinhosa amiga, portanto me retiro para não atrapalhá-los.
- Fique, por favor!
Hoje não estou disposto a amabilidades e com Colette isso se faz, principalmente, com ouro.
Era realmente a bela actriz.
Entrou toda radiante em seu traje de veludo azul-escuro e enorme chapéu enfeitado de plumas.
- Ah! Os amigos!
Foi bom encontrá-los juntos - disse estendendo a mão ao Barão.
- Como vai, meu gatinho? - acrescentou ela dando um tapinha familiar no rosto de Artemiev.
Como vai?
Não o vejo há uma eternidade e já imaginava que tivesse morrido.
Mas, como o vejo bem vivo, proponho aos dois um passeio pela alameda Nevsky.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:16 pm

O tempo está lindo!
Artemiev não respondeu sim nem não; propôs que tomassem por enquanto uma xícara de café, que Colette aceitou de pronto.
Bebericando o café e mordiscando biscoitos, ela continuava tagarelando sem parar.
De repente, lembrou-se de algo e exclamou:
- Adivinhem de onde vim?
Aposto que não conseguem adivinhar!
Depois de os amigos perderem-se em conjecturas, Colette anunciou solenemente:
- Sabia que jamais iam adivinhar!
Vim para cá directo do "Paraíso sem Adão".
- Mas, que diabo!
O que foi fazer lá?
Não me diga que pretende entrar para a comunidade! - exclamou Vladimir Aleksandrovitch.
- Não, fui conversar com a senhorita Rutherford e dar-lhe algumas sugestões sobre as palestras.
Mas a pobrezinha é burra de dar dó e parece que não entendeu nada do que lhe disse.
- É bem provável!
Suas opiniões divergem frontalmente das da senhorita Rutherford - observou zombeteiramente o Barão.
- Exactamente!
Ela me falou sobre o respeito dos homens e a necessidade de trabalhar para ser independente, como se eu não fizesse isso.
- Você realmente trabalha para tal! - sorriu o Barão.
- Claro que trabalho!
Ou pensa que ser actriz é tão simples?
Isso não é motivo para risos - disse Colette com irritação.
Também não tenho do que me arrepender, como disse aquela tagarela americana.
Me arrepender do quê?
De ter uma vida alegre e amar Artemiev?
Isso nunca foi pecado.
Vladimir Aleksandrovitch alisava a barba loura e um sorriso zombeteiro vagava em seus lábios.
- A senhorita Rutherford não lhe aconselhou a ser mais fiel em suas ligações?
- Não seja cruel, Vladimir!
Se você merecer, ser-lhe-ei fiel até a morte - respondeu Colette, abraçando-o e beijando-o na face.
- Que ameaça terrível! - brincou Artemiev, livrando-se do abraço de Colette.
Acho que um passeio vai desanuviar suas tenebrosas ideias quanto à fidelidade.
Amigos, me aguardem trocar de roupa e iremos dar um passeio na alameda Nevsky, conforme propôs Colette.
A noite, os amigos foram juntos ao teatro Mikhailovsk.
Encontrando Ellen e a senhorita Sinclair, já no primeiro intervalo, dirigiram-se ao camarote para cumprimentá-las.
- Podemos entrar no paraíso? - perguntou discretamente o Barão.
- Entrar podem, mas ficar é proibido - respondeu a voz sorridente de Ellen.
Tagarelaram alegremente e quando o Barão, com o mesmo respeito, pediu permissão para um renegado oferecer balas às impiedosas Evas, isso foi-lhe gentilmente concedido.
No intervalo seguinte, os amigos foram novamente até o camarote.
Até Nelly relaxou um pouco e conversou amigavelmente com Artemiev.
Mas a presença deste irritava Ellen.
Seu olhar voltava-se constantemente para ele; estudava os traços do seu rosto e tentava recordar como era em suas memórias de infância.
Ao lado dele imaginava involuntariamente a imagem de Colette e um ódio agudo apertava-lhe o coração.
Ele amava aquela imprestável prostituta, dava-lhe veludo e jóias, enquanto que para ela e sua santa mãe negava o mínimo necessário, até que as deixou e esqueceu...
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:16 pm

O Barão notou com surpresa a insistência de Ellen em observar seu amigo e o estranho fogo que se acendia em seus olhos.
Isso provocou nele um repentino ciúme e, pela primeira vez, sentiu hostilidade para com Vladimir Aleksandrovitch.
Este também notou a atenção de Ellen; conhecendo tão pouco da verdade quanto o Barão, Artemiev ficou agradavelmente lisonjeado e passou a conversar com ela.
Falaram sobre as palestras e o sucesso da venda dos ingressos.
Em seguida, Artemiev observou:
- Também terei o prazer de ser um de seus ouvintes.
Mas senhorita Rutherford, sendo tão inteligente, não percebe que representa "uma voz clamando no deserto"?
Que, mesmo com sua eloquência, ninguém vai querer renegar a felicidade familiar e o ser amado por causa de pequenas rusgas?
Os olhos sorridentes de Ellen assumiram imediatamente uma expressão severa e fixaram-se em Vladimir Aleksandrovitch quando respondeu num tom seco e metálico:
- O senhor se esquece de que cresci numa casa onde essas "pequenas rusgas", juntando-se às centenas, representam algo semelhante a uma gigantesca cripta.
Lá, entre as esposas humilhadas e abandonadas, entre crianças doentias e tristes, aprendi que para o homem a tal "felicidade familiar" representa, na maioria dos casos, nada mais que uma carga incómoda e opressora:
à saída da igreja, o noivo, antes completamente apaixonado, que nada tinha a perder ou ganhar, transforma-se em desagradável feitor, que vinga cruelmente em seres inocentes a perda da própria liberdade, mesmo que a tenha perdido voluntariamente.
Após ver de perto tantas desgraças, me vejo na obrigação de gritar a todas as irmãs:
"Confie em Deus, mas não vacile!
Seja cuidadosa e independente!
Conquiste seu lugar no banquete da vida!
Jamais confie no ser egocêntrico, que lhe rouba o coração e o futuro e depois, quando você começar a incomodá-lo, irá afastá-la do caminho e condená-la com os filhos à miséria.
Enquanto isso, ele continuará a festejar com as sacerdotisas do amor e as vestirá de veludo e cobrirá de jóias, esquecendo os farrapos da esposa."
À medida que Ellen falava, uma palidez mortal espalhava-se pelo rosto de Artemiev.
As palavras impressionaram-no tanto que ele mal conseguia ocultá-lo e sentiu um verdadeiro alívio com a intervenção do Barão, que tentava rebater as conclusões de Ellen.
O bom humor de Artemiev acabou por completo.
O público e a peça perderam qualquer interesse para ele e, sem esperar o fim do espectáculo, foi embora.
Vladimir Aleksandrovitch ficou por muito tempo andando pelo gabinete, recordando as desagradáveis lembranças novamente provocadas pelas palavras de Ellen.
Aquelas palavras coincidiam tão surpreendentemente com o seu passado que não seria preciso mudar uma vírgula se ela quisesse denunciar seu comportamento em relação a Vitória e sua filha.
Que moça estranha e encantadora, um rosto infantil e uma mente masculina!
Ela passou a interessá-lo cada vez mais e esse interesse parecia mútuo, pelo olhar que Ellen lhe dirigia.
Em seus lábios apareceu um sorriso de jactância.
Será que ele estava vencendo a disputa com seu amigo, mesmo ele sendo bem mais jovem?
A vaidosa antecipação da conquista fê-lo esquecer imediatamente as incómodas dores de consciência.
Afinal, por que não se casar com Ellen, se ela o amava?
Por diversas vezes tivera vontade de casar novamente e criar uma nova família para preencher o vazio e o tédio que frequentemente o espantavam de casa.
Estava com quarenta e nove anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:16 pm

Era hora de estabelecer-se e uma esposa bonita e inteligente como Ellen iria criar para ele um lar muito agradável...
De repente, o sorriso de prazer provocado por esse sonho de futuro desvaneceu-se e o rosto de Artemiev ficou sombrio.
Mas, que loucura!
Onde foram parar seu cuidado e experiência de vida, se admitia a possibilidade de casar-se com uma mulher que mal conhecia?
Ellen era encantadora; mas também poderia ser uma aventureira, procurando um "marido" que abandonaria assim que adquirisse nome e posição.
"Não e não!", pensou ele.
"Devo testar aquela mulher para ver se possui a moral ilibada que apregoa.
Não quero chifres, nem mesmo colocados por Evgueny.
É preciso primeiro fazer-lhe a corte e tentar atraí-la para cá.
Durante o baile de máscaras da Baronesa Nadler ela poderia fazer isso sem medo de ser descoberta.
Vou tentar.
Se ela aceitar deixar o baile para passar uma horinha comigo, será o fim!
Ela receberá o que merece e depois poderá voltar ao seu 'paraíso', chorar o próprio destino e discursar.
Além do mais, estarei fazendo um favor a Evgueny, prevenindo-o a tempo."

(1 - Quaker (ou quacre) - Membro de uma seita protestante fundada na Inglaterra no século XVII e muito difundida nos Estados Unidos).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:16 pm

Capítulo 7

Na véspera da palestra, as damas da comunidade ocupavam-se activamente da preparação do salão.
As filas de cadeiras tiveram de ser mais apertadas pelo excesso de ingressos vendidos.
Além disso, Ellen ordenou que fossem instalados praticáveis ao longo das paredes, nos quais foram colocadas poltronas destinadas aos homens; para os "castos" foi preparado um camarote especial, à esquerda do púlpito da oradora.
As paredes foram enfeitadas por quadros a óleo trazidos da América.
Num deles havia a imagem de Adão e Eva no paraíso e Deus perguntando a Adão por que ele O desobedecera.
Adão, envergonhado, apontava traiçoeiramente para Eva e, na fita que saía de sua boca estava escrito:
"A esposa que me deste ofereceu-me o fruto da árvore e eu comi."
Nos outros quadros havia imagens do abrigo "Paraíso sem Adão":
uma bela casa branca, jardins, terraços, biblioteca, classes e oficinas.
Finalmente, havia dois painéis instalados de cada lado do púlpito; um apresentava uma mulher apedrejada por infidelidade, outro um marido inglês, puxando a esposa por uma corda no pescoço para vendê-la publicamente.
Já estavam terminando a decoração quando chegou a Baronesa Nadler acompanhada de Ravensburg.
- Viemos antes do público para ver o salão onde se realizará a execução da parte traiçoeira do género humano - disse ela, rindo.
Ellen recebeu-os amavelmente e começou a explicar os quadros, divertindo-se com as observações do Barão, que examinava tudo num misto de ira e zombaria, enrolando os bigodes e acompanhando a mostra com intermináveis "Humm!"
Por fim, ele perguntou por que os homens iriam ocupar lugares tão honrosos e visíveis.
- Porque os réus devem estar à vista de todos! - respondeu Ellen maliciosamente.
Todos riram e separaram-se alegremente até o dia seguinte.
O início da palestra estava marcado para as oito horas, mas o público começou a lotar o salão muito antes.
A pequena quantidade de homens pertencia à alta sociedade; entre eles havia civis e militares.
Todos pareciam muito interessados e no rosto da maioria lia-se uma curiosidade irónica.
Do lado feminino reuniu-se um grupo muito heterogéneo, de idades de dezasseis a sessenta anos.
A maioria das damas estava muito bem vestida, mas viam-se também trajes pobres e puídos, rostos jovens mas pálidos, cansados e murchos prematuramente pela dura batalha pela sobrevivência.
Essas mulheres olhavam com impaciência e concentração para o púlpito e, mais raramente, para o estrado onde solenemente sentavam-se os cavalheiros.
O senhor Brown e seus companheiros foram os primeiros a ocupar o camarote que lhes fora reservado e o grupo, calado e sério, provocava curiosidade geral que os "castos" pareciam ignorar.
Finalmente, um sininho anunciou o início da palestra e abriu-se uma porta lateral.
Ellen subiu no estrado e cumprimentou o público com dignidade.
Seu traje destacava-se pela simplicidade puritana e caía-lhe muito bem.
Um vestido fechado de seda preta, sem qualquer enfeite, envolvia a elegante figura e da vasta gola de renda elevava-se orgulhosamente a cabecinha loura.
Ellen estava muito pálida e o Barão e Artemiev ficaram extremamente surpresos com a completa mudança em sua aparência.
Não havia nem sinal da moça alegre, simples e coquete.
No púlpito estava uma mulher enérgica, determinada, cujos grandes olhos luziam com autoconfiança e destemor.
Pela primeira vez, eles viram diante de si a fanática pregadora da comunidade "Paraíso sem Adão".
Por instantes, os olhos de Ellen vagaram pela multidão que se agitava aos seus pés como uma hidra de cem cabeças.
Em seguida começou a falar com sua voz harmoniosa de timbre metálico, cujos sons comoventes alcançavam até as últimas fileiras.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:17 pm

- Prezadas senhoras e senhores!
O assunto que irei tratar não é novo; mas como se refere a um acontecimento monstruoso, exactamente a escravidão de metade do género humano, deixada pela lei e pelos costumes à disposição da outra metade, o interesse dessa questão somente se apagará quando forem eliminados os abusos que o provocaram.
A história da mulher na humanidade é um longo martírio.
Sobre isso, muito se falou, mas pouco se tem feito no sentido de mudar a ordem social vigente, o que é condenável tanto pelo bom senso como pela justiça.
Isso acontece porque os homens não querem absolutamente abrir mão do poder que lhes bajula a vaidade e satisfaz seu egoísmo; também porque, até hoje, as mulheres não estão suficientemente unidas para defender seus direitos.
Acabei de utilizar a palavra "escravidão" e não foi uma metáfora.
A escravidão da mulher realmente existe, consiste no cruel costume da antiguidade que transforma um ser humano em objecto de seu senhor.
Até a presente data, a mulher continua a ser escrava e propriedade de seu marido, como o eram os antigos escravos ou negros libertados.
Uma lei inglesa, revogada recentemente, dava ao marido o direito de vender a própria esposa em praça pública, para onde ele a levava com uma corda no pescoço, como se ela fosse uma vaca ou um cavalo.
Aliás, por que não?
Por muito tempo duvidou-se de que a mulher possuía alma.
Inclusive, actualmente, os homens, os "reis da criação", não admitem que as mulheres tenham nervos, paciência que pode esgotar-se, gostos e tendências individuais que precisam ser satisfeitos como os deles próprios.
Como prova de que falo somente aquilo que está comprovado por fatos, citarei as leis que estabelecem as relações entre os sexos, referentes às propriedades e ao uso dos direitos sociais.
Após relatar com precisão o resumo das leis dos principais povos europeus que estabelecem os direitos das mulheres, Ellen prosseguiu:
- O que acabo de mencionar é suficiente para provar a revoltante injustiça que oprime a mulher desde seu nascimento.
Mas seria difícil expor numa única palestra as questões cada vez mais críticas que já foram bem estudadas por mentes mais proeminentes.
Passo, portanto, ao tema directamente ligado ao objectivo que me propus alcançar e aos interesses que represento aqui.
Muitos se perguntam com certa razão:
como explicar que tantas mulheres suportem caladas, quase sem queixas as injustiças cometidas contra elas e sequer procurem meios para livrar-se?
Existem muitos motivos para tal passividade, os quais veremos agora.
A lei da natureza, tão poderosa e cruel quanto as estabelecidas pelo homem, empurra a mulher para o amor e seu coroamento final:
o casamento. Em vez de adverti-la sobre os sofrimentos a que ela está se submetendo e as desilusões que inevitavelmente a aguardam, pois os casamentos felizes são extremamente raros, o que confirma a regra geral, essa união lhe é apresentada como a felicidade suprema, a meta final e a única existência honrosa para uma mulher.
Desde o nascimento, a menina é vista como um ser destinado somente ao casamento.
Mal lhe desperta a consciência e todos à sua volta dizem-lhe que ser agradável e submissa são regras de sua vida e ser digna de ser escolhida por um homem é o principal objectivo que precisa alcançar.
Ninguém lhe sugere perguntar-se: será que aquele homem é digno de mim?
Ninguém lhe explica que, esteja casada ou não, aos vinte e um anos torna-se independente, responsável por seus actos e não deve permanecer uma nulidade, aguardando nova tutela.
As consequências dessa absurda educação não se fazem esperar.
Assim que a moça conclui sua formação superficial, inicia-se a louca corrida de uma festa para outra e a estafante perseguição pelo "marido".
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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