Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:48 pm

Todo o resto é sacrificado por esse objectivo supremo e no coração da jovem nascem, pela primeira vez, acordos com a consciência.
O forte desejo de "estabelecer-se na vida" atrofia seus mais delicados sentimentos e a moça se casa não porque o homem lhe agrada ou ela o ama, mas porque ele desejou tê-la.
Nesse ponto, abre-se um amplo campo para arranjos sem escrúpulos.
Vemos jovens entregando-se a velhos porque estes são ricos, mesmo quando são insignificantes e até nojentos.
Um homem, por mais reles que seja, dispõe de um bem sem preço:
ele pode dar-lhe o título de "dama".
Esse título, que dá liberdade às moças, livra-as da constrangedora obrigação de insinuar-se e da odiosa perspectiva de virar "solteirona".
Para a criatura cega e leviana, na qual a mulher se transforma por essa educação, existem muitas tentações como o dote, o vestido de noiva e a cerimónia solene em que ela desempenha o papel principal.
O grande acto místico toma-se uma óptima oportunidade de trajar um radiante vestido de seda, o véu e a coroa que lhe assentam tão bem.
Suas amigas já o vestiram antes e ela também não quer ficar para trás.
Se todas aquelas noivas que seguem alegremente para o altar resolvessem dar uma olhada no futuro e aproveitassem os exemplos de suas predecessoras, elas naturalmente pesariam tudo com sensatez antes de pronunciar o "sim" fatal que as exclui da lista de seres independentes.
Infelizmente, as mulheres pouco pensam sobre isso.
Iludidas pelo preconceito nelas incutido, cegas pelo amor que cobre com um véu cor-de-rosa os espinhos do futuro, elas se amarram para sempre.
Enfim, o passo decisivo, seja por interesse ou por amor, foi dado; as festas acabam, o tentador vestido branco é retirado e começa a vida cotidiana com suas desilusões.
A felicidade vai murchando como as flores de laranjeira da coroa da noiva, que duram um único dia.
O tão cobiçado papel de mulher casada revela-se, entretanto, nada brilhante.
A ninguém mais no mundo o despotismo e o cruel egoísmo masculino se revelam tão livremente.
Enquanto que em todos os lugares fora do lar as leis cerceiam as grosseiras paixões dos homens, em casa eles são os senhores absolutos.
Esposa e filhos são seus escravos e devem pagar por tudo e por todos.
É simplesmente incrível a que ponto de selvageria quase animal esse poder absoluto consegue levar o homem de classe baixa.
Nosso abrigo acolheu a esposa de um operário que tinha os dentes quebrados a socos e os pulmões atingidos a tal ponto que hoje está morrendo de tuberculose; a criança daquela infeliz levou um pontapé tão forte do pai que teve a coluna vertebral fracturada.
O garoto de sete anos virou um débil mental, corcunda, e sua morte está próxima.
Esses crimes são muito frequentes e permanecem impunes, porque ninguém quer se meter em briga familiar ou repreender o marido, quando este exerce seu direito legal de castigar a esposa que, na opinião dele, tem alguma culpa.
Obviamente, nas famílias das classes altas o jugo masculino se expressa sob formas menos grosseiras.
Nestas, para a esposa oficial é reservado o papel de administradora da casa e de melhor criada.
Se ela quiser a aprovação do seu "dono" e obter dele o lisonjeiro título de "boa esposa", deverá cuidar para que as refeições sejam bem preparadas e servidas no horário certo, que as crianças estejam tranquilas e bem vestidas e, finalmente, para que o orçamento da casa não tenha prejuízos; o sultão, possuindo refinados gostos e uma inerente necessidade de diversões, guarda suas reservas para gastos pessoais.
Para manter o bom humor, ele precisa ser membro de clubes da moda; para provar seu amor à arte, tem de ajudar talentos artísticos em ascensão - mulheres, obviamente.
Enfim, para não mofar no tédio do lar, precisa visitar alguma alegre dama do submundo ou alguma famosa sacerdotisa do amor livre.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:48 pm

Isso é considerado chique e ele, naturalmente, jamais se privaria disso.
A esposa é um ser que ele vê todo dia e usa para as necessidades domésticas; no fundo do seu espírito oculta-se uma certa raiva contra ela por ousar ter algum direito sobre o marido que ele, entretanto, não reconhece.
Em suma, a esposa logo perde qualquer atractivo.
Enquanto isso, sobre ela recai a honrosa obrigação de ser o pára-raios de todos os problemas externos e todo tipo de frustrações que o marido não pode descontar no chefe, nos companheiros e nas outras pessoas.
A tempestade desencadeia-se no lar e o granizo cai sobre a escrava doméstica.
O ríspido toque de campainha já prenuncia a chegada do furacão.
Demoraram demais para abrir a porta; se, infelizmente, o almoço está pronto, o sombrio olhar do feitor procura na mesa alguma coisa para implicar, algo que foi esquecido ou está sobrando.
Se a comida está mal preparada, as repreensões cairão como um dilúvio sobre a dona da casa.
É preciso pôr a culpa em alguém!
Uma boa cozinheira pode ofender-se e ir embora, mas com a esposa não existe este risco.
Para que, afinal, Deus proporcionou ao homem essa pobre diaba senão para maltratá-la?
No salão e até no "banco dos réus" ouviu-se um riso contido.
Somente os "castos" aplaudiram com ar sério.
Um sorriso momentâneo passou pelo semblante de Ellen quando encontrou o olhar radiante de Ravensburg que a encarava com um certo desafio.
Mas, quase imediatamente, reassumiu a postura séria e prosseguiu:
- É compreensível que os "reis da criação" gostem deste estado de coisas e que jamais queiram perdê-lo.
Talvez nós, mulheres, agiríamos da mesma forma se estivéssemos no lugar deles.
Julguem por si mesmas:
não é o supra-sumo do egoísmo exigir de alguém todas as virtudes e considerar-se dispensado de qualquer uma delas?
Ou jogar em cima da outra pessoa todas as obrigações, livrando-se até das menores?
Para manter para sempre o direito do mais forte, os homens apelaram para tudo:
estabeleceram suas próprias leis, cercaram a mulher de obstáculos quase intransponíveis, cercearam-lhe o caminho até para a educação, tratam-na como inimiga e ridicularizam seu trabalho.
Mas, por mais resistente que seja um obstáculo imposto pela lei, se for um anacronismo ostensivo poderá ser mais facilmente eliminado do que um enraizado costume.
Por isso os nossos senhores preocuparam-se em dirigir a educação feminina para um único objectivo:
tornarem-se suas companheiras.
Como ideal de virtude feminina, eles destacaram a docilidade, a paciência e a dedicação; como ideal de felicidade, uma vida discreta à sombra do lar.
Já as mulheres inteligentes e enérgicas, que escolheram o único caminho que tinham para a independência e rejeitaram o matrimónio, os homens cobrem de ridículo.
O homem, por puro egoísmo, pode continuar solteiro, para não assumir uma família que poderia constrangê-lo mesmo que só na aparência, e deliciar-se com ligações passageiras.
Ninguém o ridicularizará por isso.
Talvez isso aconteça pela poligamia ser tão honrosa que elimina a condenação da vida de solteiro.
Já para as mulheres o tratamento é completamente diferente.
A moça que não conseguiu casar-se é alvo de todo tipo de escárnio, zombarias e piadas de mau gosto, por mais casta e honesta que seja sua vida.
Em sua busca pela opressão, o homem esquece que qualquer mulher, com um certo esforço e aplacando a consciência, conseguiria casar-se.
Entretanto, o facto de ter ousado permanecer livre não é perdoado e ela recebe o apelido de "solteirona".
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:48 pm

O homem prefere desculpar e condescendentemente envolver num véu poético as aventuras de alguma vadia, as traições da esposa devassa de outrem ou as aventuras de uma moça considerada como tal somente na carteira de identidade, que veste descaradamente o véu e a grinalda, símbolos da castidade, quando encontra um depravado semelhante a ela que aceita cobrir com seu nome o seu vergonhoso passado.
Para todas essas desavergonhadas o homem encontra atenuantes; elas serviram para o seu prazer e isso basta para desculpá-las.
Mas para a "solteirona" não existe perdão.
Ela é ridicularizada e alvo de piadas sujas, um ser inútil e supérfluo.
Na Antiguidade pensava-se diferente, as vestais e mulheres druidas eram veneradas e respeitadas exactamente por sua castidade.
Os antigos entendiam a lei mística segundo a qual as mulheres que se privam das paixões corporais emitem radiações puras; por isso eram colocadas a serviço de divindades.
Até a cristandade venerava as monjas!
Então, por que desprezar a mulher que permanece casta?
Ao ridicularizar assim a moça solteira, os homens feriram as mulheres com uma flecha envenenada, pois a zombaria é uma arma cruel, que causa os mais doloridos ferimentos.
Somente aquelas especialmente corajosas e independentes de espírito conseguem colocar-se acima desse preconceito.
A maioria só pensa em evitar essa desgraça, essa suposta vergonha e casar-se, não importa como ou com quem, desde que possa livrar-se do odioso apelido de "solteirona".
Essas infelizes dão um triste espectáculo quando, desde a mais tenra mocidade até o limite da idade madura, dedicam-se à humilhante caça ao marido.
Elas se rebaixam diante dos homens, dignos ou não, adulam suas fraquezas, adaptam-se aos seus gostos, imploram como esmola que ele as tome, apelando frequentemente para meios desonestos.
Por todas essas humilhações, a mulher recebe somente venenoso escárnio, críticas e desprezo do homem, que se diverte com a humilhante dança que provoca à sua volta.
Em geral, o homem é cruel com as mulheres e raramente sente por elas verdadeiro amor, pois o sentimento que se apaga após alguns meses não pode ser chamado de "amor".
Também não sente pena nem amor das infelizes e decaídas criaturas que obriga a servi-lo para seu divertimento.
Realmente, ele as veste e cuida delas enquanto aproveita sua juventude e beleza; mas, assim que a beleza começa a murchar e a paixão passa, imediatamente surge em toda sua crueza o desprezo inevitavelmente oculto no fundo desse tipo de corte.
Depois, ninguém se interessa mais pelo destino desses brinquedos usados, que frequentemente definham em algum sótão ou num hospital, torturadas por dupla agonia, pois, além da dor física, são perseguidas pela lembrança da própria beleza.
Devo frisar que esse tipo de mulher não se encaixa em minha palestra, bem como aquelas que se vingam do marido traidor arranjando um amante.
Perante Deus e perante seu próprio pecado, o erro do marido jamais pode servir-lhes de justificativa.
São tão desprezíveis quanto as rivais que elas próprias desprezam.
Tais mulheres deixam de ser vítimas e não vamos nos ocupar delas.
Estamos aqui para falar da mulher direita, da esposa subjugada que, apesar dos sofrimentos e desilusões, jamais se esquece que a honestidade e o cumprimento do dever são o único bem eterno, que nenhum tirano lhe poderá tomar.
Se tem filhos, então deve pertencer a estes.
Aos olhos das crianças a imagem da mãe deve ser pura, sem manchas nem sombras; elas devem igualmente amá-la e respeitá-la.
Se o pai esquece de que é pai, a mãe tem a obrigação de lembrar o seu sagrado dever para preencher, com amor e cuidado, o vazio da família, abandonada por quem pretendia ser seu chefe.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:48 pm

Ao pronunciar a frase "se o pai esquece de que é pai", Ellen lançou um olhar para Artemiev, que estava muito pálido e com a mão nervosa revirava a correntinha do relógio, embora convencido de que aquelas palavras não se dirigiam a ele; ela não podia saber que ele era um pai e marido que esquecera seu dever.
Mas essa frase causou nele uma funda impressão e trouxe-lhe à mente a imagem da cabecinha loura e do rostinho sorridente da filha abandonada.
Naquele instante ouviu-se um soluçar abafado que foi ficando cada vez mais forte.
Ellen calou-se.
Todos se voltaram curiosos na direcção de onde partia o choro e logo duas damas apressaram-se a levar até a saída uma jovem mulher de vestido preto que chorava convulsivamente.
Foram precisos alguns minutos para restabelecer o silêncio; calaram-se as vozes e os sussurros e Ellen pôde, finalmente, prosseguir seu discurso.
- O que acabamos de presenciar foi uma ilustração viva para o tema da palestra.
Muito provavelmente minhas palavras tocaram feridas recentes demais para essa dama revelar-se diante de estranhos...
Sim - prosseguiu com profunda amargura na voz -, todo homem, antes de ocupar qualquer cargo, é obrigado a passar por um curso de especialização e fazer um teste, para que o governo tenha certeza de não estar confiando assuntos estatais a algum ignorante e que o funcionário a quem entrega parte de seu poder tem capacidade para usá-lo.
Somente o lugar de esposo e pai pode ser ocupado sem o certificado de habilitação.
Qualquer um se considera capaz de ser chefe de família e tiranizar seres humanos, seus semelhantes, mas que, infelizmente, possuem menos direitos que ele.
Chamo a atenção de todos sobre as consequências desse tipo de situação, suficientemente tristes para nos obrigar a pensar sobre elas.
É chegada a hora de corrigirmos isso.
Muitos indícios nos fazem acreditar que está próximo o momento da libertação da mulher desse jugo milenar.
Na próxima palestra falarei sobre os meios para acelerar a chegada dessa libertação, sobre a vitória da justiça e também sobre os métodos que a Providência parece utilizar para elevar a humanidade até esse estágio de progresso.
Após resumir cuidadosamente a questão explanada e agradecer aos ouvintes pela atenção, Ellen fez uma reverência e saiu sob uma chuva de aplausos; os insistentes pedidos da plateia fizeram-na voltar outras vezes.
Finalmente, pálida e cansada, retirou-se para o aposento contíguo, onde suas colegas chegaram para cumprimentá-la pelo sucesso e junto a elas apareceu a Baronesa Nadler.
Da sala ouviam-se comentários em voz alta sobre a conferência; uns riam e outros discutiam.
No saguão estavam Artemiev e o Barão, aguardando a saída do público que se aglomerava junto à porta e o vestíbulo.
- O que acha dessa diabinha, Vladimir?
Ela fala muito bem e, o principal, com muita gana.
Irá amotinar as damas e nenhuma delas vai nos querer, a não ser que... alguém se sacrifique, case com a senhorita Rutherford e a proíba de fazer palestras - observou Ravensburg, meio sério meio rindo.
- Não se entusiasme demais com o papel de missionário; pode lhe custar muito caro - respondeu Artemiev, zombeteiro.
Quanto à indignação das damas, não há com que se preocupar.
Graças a Deus, nossas "Evas" valorizam demais o casamento, mesmo um pouco manchado pelos pecadinhos dos maridos.
Não será por algumas palestras que mudarão de ideia, mesmo que fossem feitas por Demóstenes (1).
Naquele instante eles foram cumprimentados por duas damas conhecidas que saíam da sala.
Uma delas era de meia idade e muito bem trajada; a outra era uma jovem de uns dezassete anos.
O rosto dessa última estava corado e os olhos brilhantes indicavam grande emoção.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:49 pm

- Oh, Inna Petrovna, como está corada!
Suspeito que cada fio de cabelo seu ficou de pé, a tal ponto a senhorita Rutherford a assustou com o casamento - observou o Barão maliciosamente.
Mas uma noiva só deve aceitar a metade do que ela disse.
- Pelo contrário, acredito em tudo o que ela falou.
É a pura verdade.
Quero inscrever-me na comunidade delas e jamais casarei, porque não tenho medo de virar "solteirona".
Quanto mais penso sobre Nicolai Lvovitch, mais encontro nele semelhanças com os homens descritos pela senhorita Ellen.
Ele agrada a todas as mulheres.
A senhora Muller está sempre aos cochichos com ele, enquanto Vava Obzorov lança-lhe olhares até na minha presença.
Com tudo isso, ele ainda fica emburrado e mente descaradamente.
Na segunda-feira passada, não veio nos visitar à noite, alegando estar trabalhando, mas tio Kirill viu-o no teatro Nemetti, no camarote da senhora Muller.
Essa palestra me abriu os olhos.
Se estou sendo ignorada agora, imagine o que vai acontecer depois?
Não, não quero mais me casar e vou romper meu compromisso com ele.
Na voz da moça soavam lágrimas mal contidas.
Naquele instante, sua mãe, que até então não lhe prestara atenção, procurando com os olhos alguém na multidão, captou as últimas palavras da moça e voltou-se para ela, como se picada por uma cobra.
- Inna! Você enlouqueceu para falar tanta besteira! - exclamou com ira.
Ainda bem que somente seus amigos a ouviram, senão algum outro poderia transmitir suas palavras a Nicolai Lvovitch.
Agora, fique quieta!
Lá vem o seu noivo - acrescentou ela imperiosamente.
Inna, que se preparava para retrucar, calou-se humildemente sob o olhar irado da mãe.
Baixou a cabeça e mordeu os lábios nervosamente.
Da multidão junto ao vestíbulo destacou-se um elegante rapaz louro.
Ele acabara de cumprimentar uma bela mulher de grandes olhos escuros e envolta em rendas que respondeu ao seu cumprimento com um olhar ardente.
Fazendo uma profunda reverência à senhora, o rapaz aproximou-se de Inna e ofereceu-lhe a mão.
Era um belo jovem de uns vinte e cinco anos; mas seu rosto pálido, prematuramente murcho e o olhar cansado e indiferente indicavam ter ele passado pelas alegrias da vida não como simples espectador.
Todos dirigiram-se ao vestíbulo e começaram a vestir-se.
Ao ajudar Inna a pôr o sobretudo forrado de peles, Nicolai Lvovitch notou o rosto corado e ardente da noiva.
Com um zombeteiro "Oh!", inclinou-se para ela e disse:
- Inna Petrovna, você está muito emocionada!
É verdade que a senhorita Rutherford conseguiu incendiar os portões do paraíso, mas por que não manter a esperança de que sua "escravidão" seja bem mais amena?
Inna nada respondeu.
Sem lhe prestar atenção, Nicolai Lvovitch voltou-se para o Barão e Artemiev.
- Que americana encantadora!
Que olhos! Que cinturinha divina!
E as mãozinhas?
Como as de uma fada - dizia entusiasmado.
- Hmm! Essas mãozinhas de fada ferem como chicotadas e sem qualquer constrangimento, o que obriga a esquecer sua forma clássica - observou Vladimir Aleksandrovitch.
Devemos reconhecer que ela carregou nas tintas para nos descrever.
Se fosse velha e feia, todos a teriam alvejado com peixes podres e maçãs estragadas; mas, como é encantadora, deve ser encilhada de forma diferente.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:49 pm

Colocaremos em prática o projecto de Evgueny Pavlovitch.
Alguns cavalheiros sorteiam a senhorita Rutherford entre si e quem ganhar terá obrigatoriamente de se casar com ela de qualquer forma, para depois proibi-la de fazer palestras.
- Esse projecto parece óptimo e merece ser estudado - respondeu Nicolai Lvovitch rindo e seguindo sua noiva até a saída.
Inna não abriu a boca.
Fazendo uma fria reverência ao noivo, embarcou na equipagem.
Artemiev, que a observava, acendeu um cigarro e disse zombeteiro:
- A pequena ficou muito motivada pelas sábias palavras da senhorita Rutherford.
Aliás, Anna Ivanovna recebeu somente o que merecia pela própria estupidez.
Como foi trazer uma moça de dezassete anos para ouvir esses absurdos?
Essa é a idade mais perigosa, pois ainda não tem medo de ficar "solteirona".
- Qual nada!
Anna Ivanovna saberá como tirar da cabeça da filha qualquer sombra de indignação.
Ela teve trabalho demais para agarrar esse noivo, para deixá-lo escapar faltando duas semanas para o casamento.
Mas, cá entre nós, Nicolai Lvovitch será um marido bem desagradável e a pequenina não está totalmente errada.
- Ele é jovem demais e está muito fascinado pela roda dos prazeres para se contentar com uma esposa tão inocente.
Procura algo mais emocionante, que mexa com seus nervos, enquanto Inna, por mais encantadora que seja, ainda continua criança.

(1 - Demóstenes (384 a.C. - 322 a.C.) - Famoso orador da Grécia Antiga, defensor da democracia).
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:49 pm

Capítulo 8

Nos dois dias seguintes à palestra, Ellen esteve tão ocupada que nem conseguiu atender ao convite da Baronesa Nadler para visitá-la.
Recebeu uma avalanche de cartas, nas quais uns comentavam seu discurso e exigiam explicações complementares; outros queriam saber detalhes sobre o abrigo e a vida na América.
Além disso, apareceu uma multidão de visitantes e o período de atendimento frequentemente se prolongava além da hora.
Ellen sentia-se cada vez mais exausta, pois as mulheres em sua maioria vinham por simples curiosidade, para comprar quadros do abrigo ou inscrever-se como membro da comunidade só para receber o distintivo.
Por enquanto não haviam aparecido candidatas sérias.
Eram cerca de seis horas da tarde.
Abatida e cansada, Ellen dispensou a última visitante e já se preparava para descansar um pouco, quando lhe informaram que uma dama lhe implorava para recebê-la.
Decidida a dispensar rápido a insistente visita, foi até a recepção e reconheceu na recém-chegada a jovem mulher cujo choro convulsivo a obrigara a deixar a sala da palestra.
O mau humor de Ellen imediatamente mudou para uma carinhosa compaixão e entre elas começou uma animada conversa.
A visitante não era bela, mas parecia muito inteligente e simpática.
Fora saber se poderia viver no abrigo por uns dois ou três anos.
Ela não somente aceitava pagar anualmente por sua manutenção como estava pronta a fazer uma doação à comunidade, se o valor não estivesse acima de suas posses.
As explicações de Ellen entusiasmaram-na.
Interessada cada vez mais pela jovem pregadora, a mulher lhe confiou a sua triste história.
Há quatro anos ela se casara.
Nos primeiros tempos, sua vida, se não era feliz, pelo menos era suportável.
Naqueles anos morreu sua mãe e ela trouxe a irmã mais nova para morar em sua casa.
Esta irmã, aproveitando os últimos meses de sua gravidez, seguida de longa doença, seduziu seu marido.
Embevecidos de paixão, os amantes partiram para a Sibéria(1) para onde seu marido fora transferido, passando a viver lá como casados e em pleno conforto, pois cuidaram de levar um capital considerável da esposa abandonada.
Desde então, essa mulher vivia sozinha com sua filha, mas um inesperado acaso devolveu-lhe parte de seus bens:
ganhou setenta e cinco mil rublos na lotaria.
Esse capital estava depositado no banco e ela podia dispor dele quando quisesse.
Além disso, não tinha parentes próximos e a impertinente curiosidade, a falsa comiseração dos amigos, tornaram-se-lhe odiosas e há muito pensava em deixar a pátria.
Ellen fora para ela uma espécie de revelação.
Decidira morar alguns anos no abrigo, e depois instalar-se em definitivo, trocando até de cidadania, se a vida e o clima não fossem prejudiciais à sua filha.
As conversas com Ellen, com a senhora Forest e Nelly dissiparam as últimas dúvidas da visitante.
Ficou decidido que, se a senhora Oliver respondesse positivamente ao telegrama que lhe enviariam naquela mesma tarde, a dama que se chamava senhora Efimov, viajaria em três semanas directo para Boston, alegando ir fazer um tratamento em Nice.
No dia seguinte, Ellen teve o dia livre e pôde, finalmente, atender ao convite da Baronesa para visitá-la.
Ao chegar para o almoço, encontrou o deslumbrado pretendente à mão de Lídia Andreevna, Ravensburg, Artemiev e uma jovem dama, prima da anfitriã, hóspede na casa dela por algumas semanas, com dois filhos.
O menino, de seis anos, sofria de uma doença dos olhos e viera se tratar com um famoso oftalmologista e a menina, encantadora, tinha quatro anos.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:49 pm

Ela brincava alegremente com Vladimir Aleksandrovitch quando Ellen chegou.
Ao ver aquela relação amigável entre a criança e seu pai, Ellen ficou perturbada.
Um sentimento agudo, amargo, quase odioso, apertou-lhe o coração e seu rosto fresco repentinamente empalideceu.
Mas, ao notar o olhar sombrio e perscrutador do Barão, imediatamente dominou-se, indo participar alegremente da conversa, o que talvez não teria feito em outras circunstâncias.
Artemiev imediatamente aproximou-se para cumprimentá-la.
Ele não havia notado sua reacção mas percebeu-lhe a palidez.
Sentando-se ao seu lado, disse maliciosamente:
- Senhorita Rutherford, ainda está pálida e cansada!
Deve ser por causa da palestra em que nos tratou com tanta crueldade.
Pelo jeito, esfolar viva a metade do género humano é uma tarefa bastante árdua e a senhorita ainda não conseguiu se refazer desta operação.
- Entretanto, se todos os homens que esfolei se sentem tão bem como o senhor e o Barão, me desgastei à toa.
Em todo caso, fique tranquilo!
Os "reis da criação" nada têm a ver com meu cansaço e palidez.
Isso se deve a inúmeras visitas de clientes e à enorme correspondência que recebi nos últimos dias.
- Ah! Sinto muita pena, senhorita Rutherford!
A senhorita defende uma causa perdida, mas ainda carrega na consciência uma fila de vidas destruídas, suicídios, separações e casamentos desfeitos, sem contar o duro trabalho de ouvir inúmeras confissões.
Ouça um conselho de amigo e desista dessa luta inútil, pois nós sempre fomos e sempre seremos os mais fortes.
Renda-se, deponha as armas e escolha para escravo algum desprezível "Adão", que a senhorita converterá ao seu credo e educará seus filhos para serem dignos do senhor Brown.
Ellen riu tão alegremente que contagiou seus interlocutores, mas em seguida, balançou a cabeça e acrescentou:
- Acho que nenhum "Adão" sensato irá me querer como esposa.
Estou tão despreparada para adorar algum patrão, adular suas fraquezas, suportar seus caprichos e obedecer-lhe, que nós brigaríamos dia e noite.
- Oh! Não tema nada disso e somente escolha.
Cada "Adão" tentará alegremente incutir-lhe respeito e obediência.
Imagine como será interessante e novo para você obedecer a alguém! - observou calorosamente o Barão, olhando entusiasmado para o rosto animado e os grandes olhos brilhando de maliciosa alegria.
Suas últimas palavras fizeram Ellen sorrir zombeteiramente.
- Imagino como vai ser divertido!
Com o meu carácter eu teria de, cedo ou tarde, "viajar" para acalmar os nervos.
- Como assim?
Não entendo - disse o Barão.
- Mas estou sendo bastante clara.
Sou, por natureza, extremamente ciumenta e não reconheço qualquer privilégio dos homens.
Portanto, se meu marido ousasse me trair, eu o estrangularia, do mesmo modo como o senhor fez com sua esposa.
Depois, iria me distrair numa viagem, para esquecer esse horrível acontecimento - contestou Ellen com um sorriso, olhando para o seu constrangido interlocutor.
O mordomo interrompeu a conversa e avisou que o almoço estava servido.
Após a refeição, todos passaram para o "boudoir" da Baronesa e se dividiram em pequenos grupos.
Evgueny Pavlovitch aproximou-se novamente de Ellen, atraído por um sentimento que se tornava cada vez mais poderoso.
A conversa novamente girava em torno da palestra de Ellen e do discurso que o senhor Brown faria na semana seguinte.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:49 pm

Em seguida, o Barão disse que lera o folheto "Abaixo o jugo masculino!", da senhorita Rutherford, e começou a analisar as teses defendidas pela autora.
- Em primeiro lugar, não concordo com o que a senhorita diz sobre a criação da mulher.
Eva não foi criada a pedido de Adão e para ele; pelo contrário, Deus criou Adão para livrar-se das importunações da mulher! - exclamou alegremente o Barão.
- Não me diga!
Eis uma descoberta que todas as igrejas cristãs receberão com bastante hostilidade.
Eu desejo somente livrar-me da dominação dos homens, enquanto o senhor tenta derrubar as sagradas tradições - contestou Ellen, rindo.
- Apenas tento consertá-las.
Há-de convir que não havia ninguém no paraíso durante a criação do homem; o relato do casal primevo poderia ser distorcido com o passar dos séculos.
Para restabelecer a verdade, é preciso voltar à própria fonte.
Entretanto os cientistas atuais afirmam que o relato sobre a criação do Mundo origina-se da índia.
- Os teólogos negam isso.
- Negar não significa provar.
Encontrei numa lenda indiana um conto verossímil sobre a criação dos nossos primeiros progenitores, então considero verdadeiro esse relato até que se prove o contrário.
- Essa lenda afirma que Adão foi criado para o prazer de Eva?
- Exactamente.
Se me permite, posso lê-la.
Sua veracidade salta aos olhos.
- Estou ouvindo.
O Barão tirou do bolso um caderninho impresso que era um exemplar de uma revista e abriu-o.
A Baronesa Nadler perguntou-lhe o que ia ler.
- Uma descoberta absolutamente nova, sobre a criação dos primeiros seres humanos - respondeu Ellen, rindo.
- Oh! Nesse caso, também queremos ouvir! - interessou-se a Baronesa.
Todos se aproximaram, o Barão abriu a revista e leu:
"A CRIAÇÃO DA MULHER
(lenda indiana)
Certa vez, o todo-poderoso Mahadeva (2) desceu à Terra para admirar a mais linda de suas criações: a Índia.
Uma brisa leve e perfumada acompanhou o voo do deus; as palmeiras majestosas inclinavam diante dele seus ramos e, até onde alcançasse a vista de Mahadeva, em todos lugares cresciam e floriam lírios bancos, delicados e perfumados.
Mahadeva colheu uma das flores e jogou-a no mar.
O vento agitou as águas azuladas, as ondas cobriram o maravilhoso lírio com sua espuma prateada e imediatamente a flor transformou-se numa mulher.
Ela era suave e perfumada como um lírio, leve como o sopro do zéfiro, ligeira como as ondas, branca e brilhante como a brisa do mar, mas também, como o próprio mar, traiçoeira e inconstante.
Primeiro, a mulher examinou a própria imagem na água cristalina e exclamou:
- Oh! Como sou bela!
Em seguida, olhou em volta e acrescentou:
- Como o mundo é belo!
Depois, saiu da água e subiu na margem.
Ao vê-la, as flores na terra desabrocharam e, da abóbada estelar, biliões de olhares admiravam a nova criação de Mahadeva.
Naquele instante, no escuro negror do céu acenderam-se as estrelas.
Vénus ficou vermelha de inveja e por isso até hoje brilha mais do que os outros planetas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:50 pm

A mulher, toda entusiasmada, passeava pelas campinas floridas e pelos bosques umbrosos, admirando tudo o que via.
Mas, logo se cansou do silêncio que a cercava e exclamou:
- Ó todo-poderoso Mahadeva!
Você me criou linda; então, por que ao meu redor tudo está vazio e silencioso e não há ninguém para me admirar?
Ao ouvir sua queixa, Mahadeva criou inúmeros pássaros que cantavam sem parar sobre a encantadora beleza da mulher.
Esta, radiante e sorridente, ouvia os hinos elogiosos que se espalhavam no éter.
Mas, bastou um dia para ela se cansar de tudo isso.
- Ó todo-poderoso Mahadeva! - clamou ela novamente.
De que adianta os pássaros louvarem meus encantos se não há ninguém para me abraçar e acarinhar?
Então, Mahadeva criou uma linda cobrinha que envolveu a mulher e se arrastava aos seus pés.
Por meio dia a mulher ficou satisfeita, mas depois começou novamente a reclamar:
- Se eu fosse realmente tão linda como dizem, todos tentariam imitar-me.
Pelo jeito, falta-me muita coisa para alcançar a perfeita beleza.
Para satisfazer seu desejo, Mahadeva criou o macaco, que imitava cada gesto, cada movimento da mulher para grande satisfação dela.
Mas não se passaram seis horas para que ela se cansasse disso.
- Sou linda, todos cantam sobre isso, me acariciam, me abraçam, arrastam-se aos meus pés, me imitam, admiram e invejam.
Começo a ficar com medo.
Quem me defenderá, se alguém por inveja me ofender ou quiser me prejudicar? - suspirou ela em desespero.
Mahadeva reconheceu que tal medo era absolutamente natural e criou um poderoso leão, a quem incumbiu de guardar e proteger a mulher.
Ela ficou contente com seu guarda-costas por três horas; depois, ficou triste novamente e até chorou.
- Muito bem, sou bela!
Todos me admiram e me adoram, mas eu mesma não amo ninguém.
Não é possível amar esse horrível leão!
Ela nem acabara de falar, quando viu um bonito cãozinho que começou a esfregar-se nela.
- Oh! Que animal encantador! - exclamou a mulher pegando o cãozinho no colo e olhando-o.
Agora tinha tudo e não havia mais o que pedir.
Mas exactamente isso irritou a mulher.
Para descontar sua raiva, ela bateu no cão, que fugiu ganindo, deu um pontapé no leão, que se afastou majestosamente, pisou no rabo da cobra, que serpenteou pela relva e desapareceu na floresta.
Vendo isso, o macaco sensatamente fugiu, enquanto os pássaros debandaram para todos os lados.
A mulher ficou só.
- Como sou infeliz! - exclamou, crispando as mãos em desespero e cobrindo-se de lágrimas.
Agradam-me e elogiam quando estou alegre; mas, basta estar de mau humor que todos me abandonam, fogem e não querem saber de mim.
Ó todo-poderoso Mahadeva!
Imploro-lhe, atenda meu último pedido.
Dê-me um ser no qual sempre poderei descontar a minha ira, que não me deixe apesar de todos meus caprichos e suporte pacientemente todas as minhas manias e exigências!
O todo-poderoso Mahadeva pensou muito e lhe deu um marido."
Houve um riso geral ao fim da leitura e iniciou-se uma discussão.
Uns defendiam a autoridade da Bíblia, outros a grande verossimilhança da lenda indiana.
O tema polémico despertou uma infinidade de piadas e indirectas maliciosas.
Após o chá, Ellen retornou para casa de muito bom humor.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:50 pm

Na manhã seguinte, quando se preparava para ir às compras, entregaram-lhe um bilhete com as seguintes palavras:
"Pelo amor de Deus, conceda-me alguns minutos para conversarmos.
Inna Adrianov."
Ellen conhecia a moça, pois a encontrara na casa da Baronesa Nadler e em outra casa conhecida.
Recordando que ela estava noiva, ficou extremamente surpresa.
Mas, como simpatizava com Inna, foi imediatamente ao consultório e mandou que a deixassem entrar.
Pálida, de olhos vermelhos e inchados, Inna entrou correndo, agarrou as mãos de Ellen e apertou-as convulsivamente; estava tão emocionada que nos primeiros momentos nem conseguia falar.
- Acalme-se, querida Inna!
Diga-me, a que devo o prazer de sua presença em minha casa? - disse Ellen, amigavelmente, fazendo a visitante sentar-se.
- Escapei de casa dizendo que ia à igreja e estou aqui, senhorita Rutherford, à procura de ajuda e conselhos - balbuciou Inna, tentando controlar a emoção.
O caso é o seguinte:
meu casamento está marcado para a próxima quinta-feira, mas quero cancelá-lo, pois estou convencida de que serei muito infeliz.
- Então, você não ama seu noivo?
- Não, ainda o amo.
Ele é muito bonito e sabe ser encantador quando quer.
Quando me propôs casamento, senti-me muito feliz; mas já se passaram três semanas que fiquei noiva e a cada dia fico mais desiludida.
Quando estamos sós, ele fica surpreendentemente frio e encontra diversos pretextos para se afastar.
Começo a desconfiar que ele inventa desculpas para se divertir longe de mim.
Por fim, recebi cartas anónimas, descrevendo diversos horrores, a vida imoral e as ligações escandalosas de Nicolai Lvovitch.
Se ele é assim agora, o que acontecerá depois?
Que destino me aguarda?
Ontem, não consegui me conter.
Vi como ele passou a tarde inteira fazendo a corte e trocando olhares com uma dama, nossa conhecida.
Por isso, quando ela foi embora, perguntei-lhe directamente se ele me amava ou não.
A senhorita devia ter visto o olhar de surpresa e zombaria que ele me lançou!
Em seguida, respondeu com frieza e indiferença:
"Pelo amor de Deus, Inna, não me venha com sentimentalismos!
Vou ser franco.
Isso é tedioso demais, especialmente quando casarmos.
Além do mais, os actos valem mais que lindas palavras.
Vou me casar com você e, consequentemente, darei uma prova indubitável de que a amo."
Mas algo em sua voz e em seu olhar me ofendeu sobremaneira.
Vendo que ele olhava para o relógio, pretendendo escapar rapidamente, quis gritar-lhe:
Não quero você!
Procure uma outra esposa, menos sentimental.
- Mas, se a situação está desse jeito, por que não conta à sua mãe o seu desejo de cancelar essa obrigação?
Ela poderia dar um jeito nisso - observou Ellen.
- Minha mãe? Nunca!
Quando lhe contei que não queria me casar com Nicolai Lvovitch, ela ficou terrivelmente irada!
"O que foi?
Você enlouqueceu ou ficou boba, se está querendo desistir de um partido tão brilhante, que faz a inveja de todas as suas amigas!
Arrumar um escândalo desses às vésperas do casamento, quando os convites já foram enviados, o dote e até o vestido de noiva já está pronto!"
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:50 pm

Oh! Ela fez uma cena daquelas.
Não, não posso contar com a mamãe.
Só conto com sua ajuda e conselhos, pois sua palestra abriu-me os olhos e incutiu-me tanto amor e confiança em você que não consigo expressar em palavras.
Passando de repente os braços em volta do pescoço de Ellen, Inna encostou a cabeça em seu ombro e cobriu-se de lágrimas.
A senhorita Rutherford beijou-a carinhosamente e passou a consolá-la e inquiri-la cuidadosamente, para sonhar quanta energia se ocultava naquela alma e o grau de seu desenvolvimento.
Queria saber de que armas dispunha a moça para decidir-se entrar na luta e conquistar uma situação independente.
Mas cada resposta de Inna comprovava que a moça era de carácter fraco, temerosa, entusiasmada, ignorante e preguiçosa, ou seja, estava despreparada para uma luta séria e não tinha a perseverança necessária.
Mais tarde, com toda certeza, lamentaria amargamente a decisão radical, tomada num momento de excitação, e ainda poderia acusar Ellen de tê-la incitado a destruir a própria vida e desistir do entediante, mas respeitável e confortável futuro garantido pelo casamento.
A corajosa americana suspirou e olhou com profunda solidariedade a cabecinha baixa de sua interlocutora:
sua opinião havia amadurecido.
Para que essa débil chama que iluminara por instantes a alma de Inna se transformasse numa fogueira que lhe despertaria as forças e a energia, ela deveria antes beber da amarga taça de desilusões, passar por severas experiências de vida e, após a luta, renascer como uma mulher consciente e enérgica, capaz de abandonar a "personalidade antiga" e iniciar uma nova vida.
- Querida Inna, agradeço-lhe pela confiança que me obriga a ser totalmente sincera.
Mas a consciência não me permite aconselhar você a tomar qualquer decisão ousada, que poderia lamentar mais tarde e a levaria a um caminho para o qual não está preparada.
Você é muito jovem para arriscar um rompimento com toda sua família; a sua obediência de filha recomenda-lhe atender aos conselhos de sua mãe.
- Mas e meus maléficos pressentimentos?
- Não se entregue a eles, apesar de terem alguma coisa de bom, pois a preservam da cegueira fatal e mostram que não está indo para uma festa, mas aprontando-se para assumir pesadas obrigações.
Quem conhece o perigo, já o evitou pela metade.
Se você tem consciência de que a felicidade não cairá do céu como um bombom, talvez consiga obter essa felicidade pelo tacto, paciência e sensatez.
A juventude passa, todas as diversões, cedo ou tarde, acabam cansando e o mais desenfreado pândego começa, por fim, a valorizar a agradável tranquilidade do lar.
Portanto, minha cara Inna, mantenha-se serena, corajosa e paciente.
Talvez tudo aconteça melhor do que espera.
Aos poucos você conquistará o coração e o respeito do seu marido e sua felicidade conjugal poderá ser construída na única base resistente e verdadeira.
A medida que Ellen falava, o rosto de Inna desanuviava-se.
A confiança e a esperança luziam em seus lindos olhos, de brilho inocente e infantil.
- Oh, senhorita Ellen!
Como é bondosa e inteligente!
Seguirei religiosamente cada conselho seu.
Por favor, aceite-me como sua amiga e permita-me escrever-lhe contando tudo; seja minha conselheira e amparo quando minha vida se tornar por demais difícil!
Sinto-me muito infeliz!
- Prometo, Inna!
Vamos nos corresponder.
Se você ficar mal e não aguentar mais a vida conjugal, recorra directamente a mim.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:50 pm

Eu a ajudarei a ir para a América, serei sua irmã e nossa comunidade servir-lhe-á de fiel abrigo.
Você não precisará pagar nada, se a questão monetária a constranger.
Sou rica, jamais me casarei e ficarei feliz em arranjar na nossa comunidade um lugar para uma amiga que já considero como a uma irmã.
Portanto, querida Inna, entre na nova vida sem ilusões, mas também sem desesperos, pois sempre haverá uma saída.
Radiante, cheia de esperanças e boas resoluções, quase tão entusiasmadas quanto eram sombrias as anteriores, Inna foi para casa, após despedir-se calorosamente da nova amiga.
No dia seguinte, para grande surpresa de Ellen, Anna Ivanovna Adrianov convidou-a e a Nelly para almoçar em sua casa.
Apertando a mão da moça ela disse:
- Além do desejo de recebê-la em minha casa, querida senhorita Rutherford, gostaria de lhe agradecer pela influência benfazeja sobre minha filha, que mudou para melhor e ontem à noite comportou-se perfeitamente com o noivo.
Devemos tudo isso à senhorita.
A conversa que teve com Inna e que ela me contou, convenceu-me de que é realmente uma mulher nobre, não uma cega fanática pela causa que defende, que sabe adaptar suas ideias às diferentes pessoas com quem trata.
A senhorita percebeu que Inna não tem capacidade para nada, a não ser casar.
Repito, estou muito grata por não ter se aproveitado da excitação dela e promover, às suas custas, o "Paraíso sem Adão".
- Na verdade, não mereço esses elogios.
Agi somente de acordo com os estatutos da nossa comunidade.
Nosso objectivo é apoiar as mulheres em sua luta para conquistar independência intelectual e material, mas sem forçá-las para esse caminho - contestou Ellen com um leve sorriso.
- Oh! Uma outra arregimentadora fanática interpretaria de modo diferente esses seus estatutos.
Aliás, eu concordo com suas ideias:
o casamento está longe de ser um paraíso.
Na minha juventude passei por esse inferno e sei bem que muitas desilusões aguardam Inna durante a vida conjugal, mas... o que se há-de fazer?
Ela deve agir do mesmo modo que muitas outras moças.
- Mas se a senhora prevê um triste destino para sua filha, não tem medo nem pena de condená-la a essa desgraça?
- Sim e não!
Lamento profundamente que Inna tenha de enfrentar lutas e amarguras.
É dura a escola pela qual ela precisa passar para adaptar-se aos gostos do marido; mas espero que, seguindo o seu conselho, ela consiga criar uma existência suportável.
As próprias mulheres são culpadas pela ruína de suas vidas, pois não existe uma pessoa que não tenha fraquezas e uma outra pode aproveitar-se disso para controlá-la.
Quanto a deixar Inna recusar o noivo somente para satisfazer a própria fantasia, eu jamais faria isso.
Todos somos escravos de preconceitos e ela não é excepção.
Se aos dezassete anos ela encara com indiferença a possibilidade de ficar solteirona, aos trinta pensará diferente e me recriminará por ter cedido ao seu capricho.
Na América vocês vivem em condições completamente diferentes.
Por exemplo, no seu caso, senhorita Rutherford, aos vinte anos está completamente desenvolvida, é doutora em direito, resumindo, uma mulher independente.
A senhorita sempre poderá conquistar uma posição na vida, mas isso exigiu uma educação apropriada; enquanto isso, nós fomos educadas somente para casar e até a implantação de uma nova ordem, devemos nos conformar tanto com as qualidades quanto com os defeitos do jugo conjugal.
Ellen reconhecia com um sorriso que a senhora Adrianov estava certa.
Elas ainda falaram sobre Inna e seu carácter e depois separaram-se na melhor das relações.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:50 pm

Durante o almoço, além da família do noivo, estava somente Ravensburg, que cortejava abertamente a linda apóstola da independência feminina, mas ela aceitava a corte com malícia e zombaria, o que enfurecia e irritava o apaixonado Barão.
Após o almoço, enquanto tomavam café na pequena sala de estar, Inna, que tratava a senhorita Rutherford com devoção, implorava a ela que comparecesse ao seu casamento.
Ellen recusou rindo, dizendo que a presença da pregadora do "Paraíso sem Adão" num casamento seria extremamente ridícula e fora de propósito.
Mas a senhora Adrianov juntou-se ao pedido da filha e o Barão as apoiou, observando:
- Venha ao casamento!
A senhorita nem pode imaginar como é solene e bela a cerimónia nupcial conforme o rito ortodoxo russo!
Fui convidado como padrinho e ficaria feliz em vê-la de branco.
Essa cor deve lhe assentar muito bem - acrescentou ele com olhar apaixonado.
- O senhor será o padrinho?
Qual será a sua obrigação?
- Segurar a coroa sobre a cabeça da noiva.
- Uma coroa de espinhos?
Bem, isso tem um grande significado simbólico!
Todos riram, mas o Barão disse significativamente:
- Não zombe, senhorita Rutherford, senão o deus do amor, para se vingar, pode submetê-la ao seu poder e obrigá-la a colocar alegremente na própria cabeça uma "coroa de espinhos" semelhante.
Oh! Nesse dia, a senhorita estará ainda mais encantadora!
Acho que num vestido de noiva a senhorita poderia tentar até um santo.
O Barão inclinou-se e olhou apaixonadamente nos olhos da moça, mas esta corou e desviou o olhar.
- Eu não sabia que o senhor é poeta, Barão!
Aliás, posso satisfazer o seu desejo de me ver usando branco.
Como a querida Inna e sua mãe desejam que eu compareça ao casamento, aceito o convite; para tais celebrações nosso estatuto prescreve vestido branco.
Quanto à vingança do Amor, isso não temo, pois ele é do sexo masculino e aos homens está rigorosamente proibida a entrada no "Paraíso sem Adão".
- O futuro dirá quem de nós tem razão.
Mas venha ao casamento e, quem sabe?
Talvez lhe agrade o pomposo rito e poderá desejar ser a protagonista de algo semelhante.
Ellen balançou a cabeça.
- Um curto sonho e um longo arrependimento - recitou ela, zombeteira, versos de Schiller(3).
As flores de laranjeira murcham rapidamente; quando caem as flores e folhas, os galhos secos ficam muito parecidos com o enfeite que cresce na cabeça do cervo.
- O risco é mútuo.
Tanto a esposa como o marido podem presentear um ao outro com enfeites desse tipo - contestou o Barão.
Os dias que se seguiram foram muito animados.
Ellen frequentava muito a sociedade, pois desde sua palestra ela estava "na moda" e todos a convidavam às suas casas.
Entretanto, aparecia mais frequentemente na casa da Baronesa Nadler e na dos Adrianov.
Nesses locais, quase sempre encontrava Artemiev.
Movido por um sentimento inexplicável, Vladimir Aleksandrovitch procurava companhia ou, simplesmente, encontrar a jovem americana.
Quando notava que ela empalidecia e ficava constrangida diante do seu olhar, sentia o coração encher-se de orgulhosa satisfação.
O que sentiria se soubesse o verdadeiro motivo da emoção da moça?
Esses encontros quase diários irritavam Ellen.
Ao ver Artemiev, ela ficava tomada de uma agitação febril e em sua memória apareciam, com dolorosa clareza, cenas de infância:
ora suas brincadeiras com o pai, que a cobria de carinhos e parecia amá-la demais, ora sua vida triste e severa no abrigo, entre as crianças abandonadas.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 7:51 pm

A visão do homem que era do seu sangue e, ao mesmo tempo, um estranho, fazia um sentimento amargo apertar seu coração e anuviava seu olhar.
Certa noite, Artemiev estava, como de costume, na casa da Baronesa Nadler, brincando com a pequena Lília, filha de uma parente hospedada na casa.
Depois de correr e brincar bastante com a bola, Vladimir Aleksandrovitch colocou a menina no colo e ficou ouvindo-a tagarelar alegremente.
Ellen, que o observava com um sentimento desagradável, notou repentinamente a estranha expressão com que Artemiev olhava para o rostinho animado da criança; uma amarga tristeza aparecia nas dobras de sua boca e escurecia-lhe o olhar.
O coração de Ellen bateu forte.
Percebeu que na alma fútil e egocêntrica daquele pândego permanecia viva uma lembrança; a criança provocava essas recordações amargas.
Sim, somente ela entendia o significado da emoção de Artemiev.
De repente, sentiu um louco desejo de jogar-se em seus braços e gritar:
"Sou sua filha!
Os carinhos que você desperdiça com uma estranha me pertencem!
Devolva a parte do seu amor a que tenho direito!"
Como por influência de uma corrente invisível, Artemiev, naquele instante, levantou a cabeça e olhou para Ellen.
Os lábios dela tremiam nervosamente e o olhar, geralmente frio e hostil, luzia com uma expressão tão carinhosa, amorosa e de tal pureza infantil, que Vladimir Aleksandrovitch recordou imediatamente a cabecinha cacheada, de faces rosadas e olhos azuis que há muitos anos o olharam, com esse mesmo olhar claro, cheio de ingénuo afecto.
Artemiev estremeceu e olhou quase horrorizado para a jovem americana.
Mas esta já se refizera e endireitou-se com ar indiferente.
Pelo grande esforço de vontade e rápida reacção, o sangue afluiu-lhe ao rosto e a testa cobriu-se de suor frio.
Não parecia loucura enternecer-se com tais bobagens?
Para ele não havia perdão nem esquecimento.
Entre ela e o pai estava a pálida sombra da mãe e todo o amargo passado que ela havia suportado ficando praticamente órfã.
Não, ela não desejava o amor tardio deste traidor que as abandonara e esquecera!
O que realmente queria era um dia atirar em seu rosto a verdade e deliciar-se com sua vergonha e arrependimento tardios.
Ao pensar sobre o momento da vingança, ela foi invadida por uma aguda satisfação e em seus olhos acendeu-se um fogo sombrio, surpreendendo Artemiev, que não lhe tirava os olhos.
Ellen voltou para casa pensativa.
Precisava redigir algumas cartas urgentes e preparar o texto para a segunda palestra, mas não conseguia iniciar o trabalho.
Seus pensamentos estavam longe.
Lembrava a cena nocturna e a constatação de que sua imagem ainda vivia no coração de Artemiev.
Uma tristeza amarga dominou-a.
Em seguida, recordou a conversa matinal com Inna e um forte rubor apareceu em suas faces e um novo e estranho sentimento, misto de medo e satisfação, invadiu sua alma.
Pela manhã Ellen tinha negócios a tratar na cidade.
Aproveitando a ocasião, passou na casa da senhora Adrianov para entregar-lhe o livro prometido; encontrou somente Inna, pois a mãe saíra para providenciar os últimos preparativos do futuro apartamento dos noivos.
Inna parecia alegre e levou Ellen ao seu quarto para mostrar-lhe o vestido de noiva.
O casamento estava marcado para dali a dois dias.
O dormitório e o lindo "boudoir" de Inna estavam completamente desarrumados.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:09 pm

Da mesa e das estantes foram retirados diversos bibelôs, das paredes saíram paisagens e retratos; sobre as cadeiras, o sofá e até na mesa estavam amontoadas diversas caixas de papelão, trouxas e grandes cestas.
- O resto do meu enxoval será levado amanhã - explicou Inna.
Ah! Gostaria muito de mostrar-lhe os meus vestidos de gala e aquele que vou usar no baile do tio Nicolai, o "hoffmeyster"(4), mas já está tudo empacotado.
Entretanto, ainda posso mostrar o penhoar que usarei no dia seguinte ao casamento, quando, pela primeira vez, me tornarei "madame" - acrescentou com inocente jactância.
Ellen examinou cuidadosamente o penhoar, cheio de babados, o vestido de cetim branco e outros enfeites do traje místico da noiva.
- Querida Inna, fico feliz em ver que seus maus presságios se desanuviaram e que você dará com alegria o passo decisivo - observou ela com um sorriso, enquanto Inna recolocava cuidadosamente na caixa o vestido nupcial.
O rostinho de Inna imediatamente ficou sério.
Levando Ellen até o divã, abraçou-a carinhosamente.
- Se fiquei mais tranquila e vejo o futuro com alguma esperança, devo tudo a você.
Suas palavras justas e sábias restabeleceram meu equilíbrio espiritual.
O tagarelar das assim chamadas minhas amigas, profetizando inúmeras desgraças e sussurrando aos meus ouvidos incríveis indecências sobre Nicolai, só me irritava e levava ao desespero.
Entretanto, após julgar friamente suas intrigas, entendi que todos os "bons conselhos" delas não eram nada benéficos.
Além disso, nos últimos tempos, Nicolai tornou-se mais amável e atencioso comigo; ele me parabenizou pela agradável mudança em meu estado de espírito e em minhas acções.
Isso prova que estou no caminho certo.
Confesso que todos esses preparativos, o monte de presentes e a agitação à minha volta me divertem e me entusiasmam sobremaneira.
- Tanto melhor!
Seja corajosa e paciente e, com a ajuda de Deus, tudo correrá bem - respondeu Ellen, incentivando-a.
Inna abraçou-a novamente e beijou-a com carinho.
- Senhorita Rutherford!
Se pudesse tê-la sempre ao meu lado para aconselhar-me, confiar-lhe tudo o que me incomodar e orientar-me, tenho certeza de que tudo correria bem. Oh, como gostaria que a senhorita jamais partisse!
- Isso é impossível!
Preciso retornar a Boston em breve, mas vamos nos corresponder.
Tanto lá como aqui serei sua fiel amiga.
- Fico-lhe agradecida e tenho certeza disso.
Mas sei também que existe um modo de segurá-la aqui - respondeu Inna apertando a cabeça no ombro de Ellen.
Existe alguém que a adora e estou convencida de que ele lhe fará uma proposta de casamento antes de sua partida.
Ellen estremeceu nervosamente e ergueu-se.
- Acho que sei a quem você se refere, Inna, mas espero que esse "alguém" seja sensato o suficiente para evitar receber um "não".
- Porque a senhorita lhe diria "não"?
Na verdade, Evgueny Pavlovitch não é feio.
Conheço-o há muito tempo e o tio Jorge, amigo dele e um homem sério, elogia muito o Barão.
É verdade que leva uma vida um pouco desregrada, mas todos fazem isso.
Além disso, dizem que ele sofre a má influência de Vladimir Aleksandrovitch.
Mas, diante de uma esposa tão linda e perfeita como a senhorita, irá endireitar-se, pois tenho certeza de que o Barão a ama apaixonadamente.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:09 pm

- Em nosso abrigo vi tantas vítimas dessas eloquentes palavras e tantos escombros dessas "grandes paixões" apagando-se na indiferença que não acredito em sua longevidade - disse Ellen com amargura.
Além disso, não me pertenço.
Toda a minha vida está consagrada à causa que represento e que não posso abandonar vergonhosamente; sem falar que me sentiria extremamente ridícula se fizesse aquilo que aconselho os outros a não fazer. Portanto, vamos esquecer essa questão que você levantou sem pensar.
- Não. Eu queria fazê-la ficar aqui - disse Inna.
Depois, me parece que a vida sem amor e sem um objectivo pessoal deve ser terrivelmente vazia.
No abrigo, entre todos aqueles corações quebrados e almas dilaceradas a pessoa deve sentir-se como num pesadelo.
- É um abrigo para aqueles que sofreram um naufrágio.
Tentar curar suas feridas é um objectivo nobre.
- Naturalmente, nobre e grandioso!
Mas bastará para preencher toda a existência?
A sua vida não está quebrada e a senhorita é bela e saudável; em seu coração, a qualquer momento, pode acender-se o amor.
- Sim, Inna. Eu jamais suportei a traição masculina e jamais amei alguém.
Mas me defendo desse sentimento e desconfio dele como se fosse o meu pior inimigo.
Pelo exemplo de minha mãe conheço o sofrimento que causa o amor e quanto é terrivelmente poderoso esse sentimento.
Por causa do eleito do seu coração ela abandonou seus entes queridos, riqueza, tudo...
Como recompensa foi ignorada e abandonada comigo ao Deus dará.
Mesmo assim, o amor superou todas as ofensas e humilhações e, no momento de sua morte, encontrei-a debruçada sobre o retrato de seu carrasco.
Na época eu era jovem demais para entender esse sentimento, mas depois compreendi tudo.
O diário de minha mãe confirmou que ela morreu pela tristeza da separação e ainda assim, nos últimos momentos de sua vida ansiava ver aquele homem; se ele aparecesse, ela o perdoaria por tudo.
- Sim, foi terrível!
Onde está seu pai agora?
- Parece que faleceu.
Em todo caso, para mim ele está morto.
Agora você entende, Inna, que depois desse exemplo, não quero amor nem casamento.
Ainda mais que minha educação e situação financeira me permitem permanecer livre.
Se você fosse semelhante a mim, eu não lhe aconselharia a casar.
Mas suas condições são completamente diferentes e espero que o destino lhe seja compassivo.
- Oh! Não tenho grandes ilusões!
Mesmo agora, o ciúme frequentemente me tortura; ao ver a senhora Muller piscar para Nicolai ou a senhora Obzorov flertar desavergonhadamente com ele, sinto todas as fibras do meu corpo tremerem.
No fundo d'alma temo que me aconteça o mesmo que ocorreu com a prima Zizi, cujo marido volta para casa ao amanhecer parecendo um fantasma que saiu do túmulo; muitas vezes a faz esperar até as nove da noite para o almoço e depois manda um bilhete dizendo que "não vai jantar em casa".
Certa vez, quando voltou para casa completamente bêbado, minha prima jogou-lhe no rosto um copo d'água e eles partiram para luta corporal.
Quando a pobre Zizi me contou isso, rios de lágrimas saíam de seus olhos e ela queria exigir o divórcio, mas minha mãe e a sogra conseguiram apaziguá-los.
- Eles agora vivem em paz?
- Sim! Zizi está sendo consolada por seu primo, um hussardo(5).
Confessou-me que ele é louco por ela e vive só para ela.
Sente-se tão feliz que nem liga para as aventuras do marido e até pede a Deus que ele não volte mais para casa.
- Que coisa feia!
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:09 pm

Como ela não tem vergonha de lhe confessar isso?
Prefiro o "Paraíso sem Adão" a este inferno, cheio de humilhações, intrigas e paixões vis que envergonham a palavra "amor".
Ellen pensava sobre o que lhe dissera Inna quanto ao sentimento do Barão e a proposta que ele provavelmente iria fazer-lhe.
Em sua memória surgiu a imagem atraente de Evgueny Pavlovitch com aquele olhar ardente de paixão que obrigava seu coração a bater mais forte, por causa daquele sentimento, misto de tristeza e felicidade.
Mas Ellen era bem disciplinada mentalmente para não se entregar por muito tempo a essas divagações perigosas.
Energicamente obrigou-se a escrever algumas cartas e, após uma prece, foi dormir.
Na manhã seguinte, quando a costureira apareceu para experimentar o vestido que Ellen usaria no casamento de Inna, Nelly entrou no quarto.
Calada, olhou com desaprovação para a amiga.
Apesar dos rogos de Inna e das explicações de Ellen, a senhorita Sinclair declarou definitivamente que considerava indecente uma irmã da comunidade "Paraíso sem Adão" comparecer a uma cerimónia de casamento.
- Chega, você parece Catão(6)!
Não encare isso com tanta severidade! - disse Ellen com um sorriso.
É preciso ser um pouco liberal e entender que se pode assistir a um casamento, mas não casar.
E como fazer um testamento e não morrer uma semana depois.
Dizendo isso, Ellen tirou o vestido e vestiu o penhoar.
Em seguida, sentou-se no divã e atraiu a amiga para perto de si.
Nelly balançou a cabeça.
- O que me motiva a desaprovar a sua fantasia de comparecer ao casamento não é preconceito, mas precaução.
Eu temo, Ellen, porque gosto de você e receio que a emoção a faça sofrer.
Na minha opinião, devemos evitar tudo que impressiona a nossa imaginação e excita nossos sentimentos.
Não esqueça de que nos afastamos da vida comum e todos esses ritos, com sua pompa mundana e simbolismo místico, agem sobre o coração e a mente, provocando desejos que devem se manter sepultados e semeando sonhos sobre muitas coisas que nós voluntariamente rejeitamos.
"A carne é fraca!"
Você, Ellen, mais que qualquer outra pessoa, deve evitar tentações; quase diariamente, nas reuniões sociais a que comparece, encontra um homem perigoso, que alimenta por você uma forte paixão e espreita-a como uma águia à sua presa.
Por mais que você negue, esse homem lhe agrada.
Portanto, afaste-se dele e não confie em si mesma.
Sobretudo, evite ideias traiçoeiras, que podem ser mais perigosas que todo o resto.
Ellen baixou a cabeça e uma profunda palidez espalhou-se pelo seu rosto fresco.
- Tem razão, Nelly!
Reconheço e vou lutar contra isso.
Até o presente momento fui longe demais para recuar, mas daqui por diante me tornarei mais caseira e tentarei abreviar nossa estada nesse país.
- Queira Deus!
Se pudesse, eu partiria amanhã.
Mas assim você não poderá conversar com seu pai, pois não terá nenhuma oportunidade de fazê-lo sem testemunhas.
- Oh, não!
Por nada desse mundo partirei sem antes jogar a verdade na cara daquele velho devasso que imagina que gosto dele, esquecendo que poderia ter uma filha da minha idade.
Preciso encontrar um meio de conversar com ele, Nelly!
Na pior das hipóteses, eis o que planeei.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:09 pm

Daqui a duas semanas a Baronesa vai dar um grande baile de máscaras.
Irei ao baile e, mascarada, posso conversar com o meu digníssimo papai sem ser atrapalhada.
- Mas, e se depois dessa conversa ele quiser mantê-la aqui como sua filha?
- Com que direito? - perguntou Ellen com desprezo.
Não uso o nome dele; sou a senhorita Rutherford-Ardi, cidadã americana, sob a protecção das leis do meu país.
Ele precisaria provar seus direitos legais, o que provocaria um terrível escândalo.
Além disso, ele não tem qualquer direito moral para tanto, nunca foi para mim um verdadeiro pai, jamais pensou em averiguar se eu e minha mãe tínhamos realmente falecido e sequer sentiu nossa ausência.
Agora, após saber que sua filha está viva, quero permanecer para ele como morta e estranha.
- Está convencida disso? - perguntou Nelly, olhando-a com dúvida.
Ontem à noite fiquei observando-o enquanto brincava com a menina.
Um surpreendente carinho misturado com amargura brilhava em seu olhar e estou certa de que naquele instante ele pensava exactamente em você.
Aliás, você mesma o viu.
Mas houve um momento em que pensei que você ia acabar se revelando, a tal ponto ficou pálida e a emoção se lia claramente em seu rosto.
Será que irá conseguir se manter firme caso ele se dirija directamente a você com palavras de amor e rogos de perdão?
Os lábios de Ellen tremiam nervosamente e duas lágrimas brilharam em seus longos cílios.
Mas ela dominou energicamente a emoção e empertigou-se:
- Espero permanecer firme, porque desejo isso.
Entretanto, sei que precisarei de toda minha energia, pois hoje percebi que, apesar de tudo, existe entre nós uma ligação e que uma força invisível e poderosa me empurra para aquele homem a quem odeio e desprezo.
Ao ver como ele acariciava aquela criança, senti uma amarga solidão que jamais sentira antes.
Oh, Nelly! Para que serve a nossa pregação contra o amor se dentro de nós mesmas oculta-se essa força infernal, que nos impõe a necessidade de amar e ser amada?
O coração da senhorita Sinclair apertou-se e ela pensou:
"Ellen não compreende a si mesma!
Ela anseia não só pelo amor do pai, mas em seu coração despertou a sede de outro sentimento.
Ai! Se estivéssemos longe daqui, daquele Mefistófeles(7) que irá destruí-la!"
Em seguida, desejando distrair a amiga dos perigosos pensamentos, disse alto:
- Vamos deixar por enquanto essas questões!
Vim conversar sobre um caso muito desagradável.
- O que aconteceu?
- E sobre a nossa camareira, Arabella.
Essa imprestável garotinha está de amores com o cocheiro; foram vistos aos beijos na escadaria.
Esse mau exemplo pode reflectir-se também sobre Meg, que toda hora sai do vestíbulo para conversar com o mordomo, um ex-militar ainda jovem.
Imagine o escândalo que será para a comunidade esse comportamento.
Arabella já ficou ousada e falou um monte de insolências quando a senhora Forest a repreendeu.
- Não me diga!
Vou agora mesmo dizer-lhe umas coisas que irão esfriar o ânimo dela.
Vou ameaçá-la de expulsão da comunidade ou de imediato retorno a Boston! - exclamou Ellen vermelha de indignação, esquecendo imediatamente os assuntos pessoais.
Mandou chamar Arabella.
Minutos mais tarde ela entrou no quarto e perguntou calmamente o que Ellen desejava.
Era uma loira alta e bonita de uns vinte e três anos.
Trajava um vestido de lã negra e um avental de cambraia branca; na cabeça não usava a touquinha obrigatória e trazia preso ao peito um botão de rosa.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:10 pm

Ellen examinou-a com olhar frio e severo.
- Por que está sem a touquinha e usando esse vestido de festa?
A comunidade não lhe deu isso para coquetices.
O que significam essas flores?
Não quero ver isso nunca mais!
Arabella, saiba que, se continuar com esse seu comportamento indecente e leviano, vou imediatamente despachá-la para Boston.
Entendeu? Agora saia e não ouse me aparecer sem a touquinha!
Esse vestido você só pode usar aos domingos ou para ir à igreja.
Arabella ficou vermelha, mas mesmo assim, respondeu com insolência:
- Devo dizer-lhe, senhorita Rutherford, que é possível que eu jamais retorne a Boston.
Decidi casar-me com Kirill Antonovitch.
Ele me agrada e me propôs casamento.
Quanto ao que lhe foi informado pela espiã Meg, é tudo verdade: eu beijei Kirill, pois o considero meu noivo.
- Verdade? Então acha que pode tomar decisões sem consultar ninguém?
- Por que precisaria consultar alguém?
Sou maior de idade.
Quanto à comunidade, ela não tem o direito de me impedir se eu desejar permanecer aqui.
O abrigo me explora, pois estou trabalhando sem receber salário - disse Arabella, cada vez mais ousada.
- Isso está cada vez melhor!
Ouviu, Nelly?
Aí está uma aluna digna da comunidade - observou Ellen com desprezo.
Mas, Arabella contestou com raiva:
- O "Paraíso sem Adão" é uma palhaçada!
Toda a criadagem zomba dessa ridícula organização!
O frio e orgulhoso olhar de Ellen fê-la parar imediatamente.
- A partir desse momento, você não pertence mais à comunidade.
Pode, hoje mesmo, deixar esse "ridículo" abrigo, a cujo tecto jamais retornará.
Estou demitindo-a por comportamento indecoroso.
Arabella empalideceu, balbuciou algo parecido com uma desculpa e pediu um tempo para pensar.
- Nem uma hora!
Pegue suas coisas e vá embora!
Seu Kirill Antonovitch pode abrigá-la onde quiser.
Vou escrever a sua mãe que você foi afastada e perdeu para sempre o direito de retornar à comunidade que deixa tão vergonhosamente - declarou Ellen.
Tirando da escrivaninha um papel timbrado da organização, escreveu os motivos da exclusão de Arabella Blood, leu o documento e exigiu que a culpada o assinasse.
Esta ainda quis protestar, alegando o direito de exigir um tempo para pensar, mas sob a ameaça de ser deportada para Boston no mesmo dia, assinou o documento.
Duas horas mais tarde, Arabella deixou o abrigo e instalou-se na casa da tia de Kirill, que lhe prometeu solenemente casar.
Em compensação, Meg, assustada com a sina da amiga, jurou com lágrimas nos olhos nunca mais olhar para o mordomo e, graças a essa promessa, foi perdoada.
- Graças a Deus, a ordem foi restabelecida e você mesma se convenceu de como são perigosas as relações com os "Adãos"! - observou Nelly, sorrindo zombeteira.

(1 - Sibéria - Região que vai dos montes Urales até o oceano Pacífico e do Árctico à China e à Mongólia, sendo dividida entre Rússia e Cazaquistão).
(2 - Mahadeva - Título do deus hindu Shiva que significa "O Grande Deus"; da mesma forma que Parvati é Mahadevi, ou "A Grande Deusa").
(3 - Friedrich von Schiller (1759 - 1805) - Escritor alemão, autor de dramas históricos, poesias líricas, de ensaios de estética e filosofia.
Depois de Goethe, é considerado o maior vulto da literatura alemã
).
(4 - "Hoffmeyster" - Termo alemão utilizado para designar o chefe ou encarregado de administrar uma propriedade rural).
(5 - Hussardo (ou hússar) - Soldado de cavalaria ligeira, na Europa, antes da Primeira Guerra Mundial, com o uniforme típico da cavalaria húngara).
(6 - Marco Pórcio Catão (234 a.C. - 149 a.C.) - Político e escritor romano que, no desempenho de altos cargos, combateu o luxo e a corrupção).
(7 - Mefistófeles - Demónio intelectual das lendas germânicas e personagem que encarna a figura do Diabo no drama de Goethe, intitulado "Fausto").
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:10 pm

Capítulo 9

Ellen vestia-se para ir ao casamento, muito mais preocupada com a observação da amiga do que gostaria de confessar.
Seu traje, simples e severo à primeira vista, era, entretanto, luxuoso.
Usava um vestido fechado de seda branca, sem qualquer adorno, excepto as rendas junto à gola e nos punhos e o cinto de uma larga fita com longas pontas.
No pescoço pôs um fio de pérolas grandes, com um medalhão em forma de coração, enfeitado por um grande solitário e três pérolas em forma de pêra.
Essa jóia magnífica ela ganhara do falecido tio.
"Certo dia eu falei para sua mãe", disse o velho Crawford entregando-lhe o presente.
"Use isso e lhe trará sorte."
Ellen olhou-se no espelho, em silêncio, com ar sombrio.
Repentinamente pensou que só lhe faltavam o véu e a coroa para transformar-se em linda noiva.
O que iria acontecer se seu pai não a deixasse em paz ou o Barão continuasse a adorá-la?
Ellen estremeceu como picada por uma cobra e recuou.
"O que está acontecendo?
Estou perdendo o juízo ou realmente o ar daqui está me fazendo mal?"
Em seguida, repentinamente irritada com Nelly, pensou:
"Foram aquelas suas palavras absurdas que me influenciaram e me confundiram a mente."
Por vontade do pai, Ellen fora baptizada no rito ortodoxo, pelo velho padre da embaixada russa que logo depois veio a falecer; mas fora educada na doutrina calvinista(1)sempre frequentou a igreja protestante e somente por vontade de Vitória não se confirmou.
Agora ela entrava, pela primeira vez, num templo ortodoxo.
A Baronesa Nadler já quisera mostrar-lhe a Catedral de Santo Isaac, mas Ellen, com um sentimento obscuro, sempre se esquivou desse convite.
Tendo sido uma das primeiras a chegar, viu-se praticamente sozinha na luxuosa e magnificamente iluminada igreja.
Examinou com curiosidade e emoção os desenhos trabalhados em ouro do iconóstase(2), os altos castiçais de prata cheios de velas acesas, as grandes imagens cobertas de prata, as sérias faces bizantinas(3) que pareciam olhá-la com severidade sob a auréola coberta de pedras preciosas.
De repente, um sentimento de tristeza e amargura encheu sua alma.
Ela fora arrancada até da própria fé pelo pai traidor que a abandonara.
Engolindo as lágrimas que lhe chegavam à garganta, baixou a cabeça.
Mergulhada nos próprios pensamentos, Ellen não notou a chegada de numerosos convidados e voltou a si somente quando ouviu uma voz contida perto dela:
- Por que está tão triste, senhorita Rutherford?
Será que está arrependida por privar-se voluntariamente de ser a heroína de uma cerimónia semelhante?
Verá como esta cerimónia é bela e solene, nem um pouco terrível como imagina.
Ellen reconheceu imediatamente aquela voz; um pouco constrangida, voltou-se para o Barão, mas não teve tempo de responder-lhe, pois naquele momento, na multidão de convidados passou um sussurro e o coro cantou a entrada do noivo.
Sua atenção concentrou-se no que acontecia ao seu redor e o noivo que, a alguns passos dela, conversava com os padrinhos e duas parentas.
Um pouco mais tarde, chegou Inna, de braço dado com o general, enfeitado de medalhas.
A noiva estava muito pálida; no vestido nupcial de longa cauda e véu abaixado, parecia uma criança triste e temerosa.
Aparentemente, seu coraçãozinho palpitava diante do destino incerto que a aguardava.
A medida que se consumava o rito sagrado, o constrangimento e a febril emoção de Ellen aumentavam cada vez mais.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:10 pm

Diante dela, pela primeira vez, realizava-se a solene cerimónia religiosa, profundamente mística, que se distinguia radicalmente do despojado culto protestante, que parecia miserável e frio.
O acto religioso impressionou demais a natureza ardente e impressionável de Ellen.
O maravilhoso canto coral, o odor do ládano (4), o traje luxuoso do padre, as velas acesas nas mãos dos noivos e a profunda solenidade do acto, tudo isso agia sobre ela e um tremor nervoso sacudiu-a.
Em sua excitada imaginação aparecia sua falecida mãe, que se casara pelo mesmo rito religioso.
Na pequena capela da embaixada russa não havia essa enorme multidão, mas o noivo, sem dúvida, exibia aquele mesmo rosto impassível e indiferente, de pessoa mundana cumprindo apenas uma formalidade e nada mais.
Naquele instante, o padre uniu as mãos dos nubentes e conduziu-os na volta tripla ao redor do altar, enquanto os padrinhos seguravam as coroas acima das cabeças dos noivos.
De repente, Ellen notou Artemiev no lado oposto da igreja.
Estava pálido, parecia cansado e pensativo.
Estaria pensando na loura noiva, que um dia colocara com amor e confiança a própria mão na sua, que ele depois abandonara e esquecera?
Finalmente a cerimónia acabou e todos cercaram os noivos para as congratulações.
Em seguida, parte dos convidados foi embora, enquanto os mais íntimos foram à casa dos Adrianov onde foram servidos champanhe, frutas e doces.
A palidez de Inna mudara para um rubor febril.
Com alegria nervosa, pegou o buquê preso ao seu cinto, dividiu-o e distribuiu as flores entre as amigas, beijando-as e desejando-lhes um rápido casamento.
Vendo essa distribuição de flores, Ellen afastou-se e, sentando-se junto à mesa, começou a folhear um álbum.
Ravensburg, que a observava, aproximou-se de Inna, soprou-lhe algo no ouvido e ela aquiesceu de pronto.
Após despedir-se de algumas damas que partiam, aproximou-se de Ellen, tirou a coroa de flores da própria cabeça, colocou-a delicadamente nos cabelos da amiga e prendeu-a com dois longos grampos.
Ellen estava tão profundamente imersa nos próprios pensamentos que nada notou; só levantou a cabeça ao ouvir as palavras do Barão, que anunciava solenemente:
- Vejam! Nossa linda inimiga foi vencida!
A coroa de noiva enfeita sua cabeça.
O encanto fatal foi quebrado e a mais orgulhosa das Valquírias(5) reconhece seu destino de esposa e mãe!
O espelho em frente reflectia a imagem de Ellen e a do Barão, ardendo de paixão e entusiasmo, cujo olhar não se desprendia da moça.
Ellen levantou-se, branca como seu vestido.
- Inna, que brincadeira mais sem graça - disse ela, cerrando o cenho.
Tirando a coroa de flores e colocando-a sobre a mesa, voltou-se para o Barão, olhando-o com hostilidade:
- O encanto a que o senhor se refere é indestrutível, porque eu ainda temo essas coroas de flores, que ocultam correntes de ferro.
Prefiro, a tudo isso, minha liberdade pessoal.
Fui educada para não ter nenhum senhor além de mim mesma, e não reconhecer outra lei senão a minha própria vontade.
Desejo toda felicidade aos noivos, mas em nada os invejo e permanecerei fiel às minhas convicções e à minha missão:
lutar contra os homens e sua tirania.
O Barão empalideceu, percebendo que a severa contestação dirigia-se a ele e era uma resposta indirecta ao amor que ele abertamente lhe dedicava.
Seus sentimentos e seu amor-próprio foram ofendidos, ainda mais quando notou um leve sorriso de zombaria no rosto de Artemiev que se aproximava.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:10 pm

Reprimindo a tempestade que se desencadeou em seu espírito, Evgueny Pavlovitch tentou assumir um tom de brincadeira:
- Oh! Como somos infelizes!
Fomos definitivamente condenados pela mais encantadora das filhas de Eva, injusta e ilógica, como uma verdadeira mulher, apesar do diploma de advogada.
Senhorita Rutherford, é injusta e ilógica por odiar inocentes e vingar nos filhos os pecados de seus pais.
Ellen notou sua palidez e emoção e seu coração apertou-se dolorosamente.
Será que ele realmente a amava?
Repentinamente abrandou a própria severidade.
- Eu não odeio ninguém e não me vingo em inocentes - disse ela baixinho.
Somente uma pessoa me fez mal:
meu pai, que abandonou a mim e a minha mãe.
Ela faleceu e eu temo encontrar um marido como meu pai e suportar aquele sofrimento espiritual que matou rainha mãe.
Ellen voltou-se e dirigia-se até a anfitriã quando foi parada por Artemiev.
As palavras dela, por alguma razão, perturbaram Vladimir Aleksandrovitch e ele perguntou com voz surda:
- Senhorita, onde se encontra seu pai agora?
- Ele morreu após cumprir seu papel de carrasco - respondeu Ellen, dirigindo fixamente um olhar severo e penetrante como lâmina de aço nos olhos constrangidos de seu interlocutor.
- Se não for indiscrição de minha parte, permita-me perguntar: quem foi seu pai?
- Um homem desprezível, sem consciência nem honra, cuja morte não deixou qualquer vestígio na minha vida - respondeu ela com gélido desprezo.
Em seguida, despedindo-se de Artemiev e dos outros presentes, Ellen foi embora.
Retornou para casa, sombria e triste.
Quando Nelly perguntou se ela se divertira, respondeu:
- Não! Você tinha razão!
Eu não devia ter ido a esse casamento.
Essa cerimónia me impressionou muito e mexeu com meus nervos.
Além disso, acabei tendo um pequeno confronto com o Barão e com meu pai.
Ela descreveu tudo o que acontecera e acrescentou:
- Tive o prazer de dizer na cara de Artemiev que ele é um miserável.
Ele, aparentemente, ficou muito perturbado.
Quanto ao Barão, estava tão afoito que parecia pronto a me pedir em casamento; a minha resposta machucou bastante o seu coração.
- Talvez ele realmente a ame - observou Nelly, pensativa.
- Provavelmente o grande amor dele é apenas orgulho, desejo de me conquistar, afastar-me da causa que defendo e assim provar minha fraqueza de mulher que se rende à primeira investida.
Quando esse capricho for satisfeito, deixarei de ser novidade e serei ignorada como todas as outras - respondeu Ellen com irritação, despedindo-se da amiga.
Chegando em seu quarto, deitou-se na cama, mas o sono escapava-lhe.
Estava nervosa e agitada e milhares de ideias contraditórias enxameavam em sua cabeça.
A imagem de Ravensburg perseguia-a insistentemente, sussurrando-lhe maliciosamente ideias tentadoras e atraindo-a como o fogo atrai a borboleta.
Debalde tentava convencer-se de que aquele esbanjador, saturado da vida, amava-a só fisicamente e que seu coração era incapaz de um verdadeiro amor.
Mesmo assim, a luta em seu espírito continuava.
Não estaria despertando aquele instinto, a necessidade de amar e ser amada, aquela tentação que destrói a mulher e que a mirava através dos olhos ardentes daquele homem?
Decididamente aquele lugar estava sendo pernicioso para ela.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:10 pm

Precisava partir enquanto era tempo e esse veneno não havia contaminado sua alma.
Com sua energia inata, Ellen decidiu-se rapidamente.
Faria somente mais uma palestra, que marcaria o mais breve possível; logo após o baile à fantasia, iria embora de São Petersburgo.
No dia seguinte, conversaria com a senhora Forest para tomarem as providências necessárias para apressar a partida.
Tranquilizada por tal decisão, finalmente adormeceu.
A pobre Ellen, uma delicada, mas orgulhosa doutora em direito e filosofia, esquecera apenas de se perguntar:
pode-se fugir do destino?
As pessoas cegas imaginam que o controlam, enquanto ele, frio e zombeteiro, acciona leis ocultas, correntes imperceptíveis, poderosas tendências do passado esquecido e as pessoas, obedientemente, seguem pelo caminho predestinado, cujo objectivo é a elevação do espírito às regiões misteriosas.
A mísera humanidade segue em frente, para cumprir a misteriosa troca de forças cósmicas que consomem uma à outra.
Das cinzas, nascem outras forças e combinações químicas, para novas torrentes.
Enquanto isso, o homem segue em frente, sem saber se um abismo se abrirá sob seus pés ou se uma onda repentina vai jogá-lo longe do objectivo que persegue.
Ele segue em frente, miserável e cego, sem ter consciência da mão férrea que o dirige e mantém todo o seu ser físico, moral e intelectual, fazendo dele alguma "matéria" universal...
Mas Ellen ainda estava cheia do orgulho humano.
Esquecida de que, comparada ao Infinito, ela era menos que uma partícula de pó, imaginava que, dispondo do próprio destino, poderia dizer-lhe:
"Quero fugir de você e estou marcando a hora em que a minha vida transcorrerá pacificamente, do modo que eu mesma escolher."
Na manhã seguinte, Ellen foi ver a amiga e comunicou-lhe sua decisão de deixar São Petersburgo logo após o baile à fantasia.
- Graças a Deus! - respondeu Nelly com um suspiro de alívio.
Eu gostaria já de estar do outro lado do oceano, pois confesso que não consigo livrar-me do mau pressentimento de que você vai permanecer aqui.
Não pense que é por egoísmo, ou que invejo a felicidade que você vai encontrar aqui.
Mas o Barão me parece um daqueles incorrigíveis pândegos, que sempre fazem uma mulher infeliz.
Além disso, tive um sonho com você que não anunciava nada de bom.
Vendo Ellen soltar uma gargalhada, a senhorita Sinclair ficou agitada e acrescentou:
- Não ria dos sonhos!
Já tive um que curou minha falta de fé e me convenceu de que, às vezes, eles predizem o futuro.
- Então, o que você sonhou?
- Aconteceu antes da nossa bancarrota.
Sonhei que estava passeando em nosso jardim.
O céu estava negro e aproximava-se uma tempestade.
De repente, fui atingida por um relâmpago, acompanhado de trovão, um vento agitado me levantou do chão e me arremessou por terra, fazendo-me desmaiar.
Ao recobrar os sentidos, vi que da nossa casa só restaram ruínas carbonizadas; entre os destroços estava caído meu pai, com uma atadura ensanguentada na cabeça, enquanto Harry havia montado um cavalo e desaparecido ao longe.
Despertei suando frio, e me consolei achando que fora, simplesmente, um pesadelo, mas três semanas depois aconteceu a falência...
O resto da história você conhece.
- E o que você sonhou sobre mim? - perguntou Ellen, que ouvia tudo atenta e preocupada.
- Sonhei que estávamos nos preparando para embarcar no navio quando, de repente, uma terrível lufada de vento levou você para algum lugar e comecei a correr como louca, tentando alcançá-la.
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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 8:11 pm

Cheguei a um campo cheio de tocos de árvores e coberto de espinhos e a encontrei lá, parada, chorando amargamente.
Quando quis levá-la comigo e perguntei o motivo de suas lágrimas, você levantou um pouco o vestido e vi que, em vez de pernas, tinha grossas raízes que penetravam profundamente no solo e a impediam de mover-se. Gritei de horror, mas você me disse:
"Foram Ravensburg e meu pai quem me deformaram assim".
Fui embora sozinha.
Depois, a cena mudou.
Nós já estávamos em nosso abrigo quando, repentinamente, vejo você entrar, pálida, triste, doente e dizer:
"Nelly! Eu cortei as raízes, mas se você soubesse como é doloroso!"
- Você teve um pesadelo!
Espero que a desgraça que ele promete nunca se cumpra, pois desejo fugir e jamais me casar com o Barão.
- Mesmo assim, ele lhe agrada...
Seja sincera: você poderia apaixonar-se por ele?
Ellen corou.
- Não quero sequer pensar em tal possibilidade.
Veja bem, Nelly, você já amou e não quero desafiar o destino; tenho medo de ser dominada por aquela terrível força que nos cega, escraviza a nossa vontade e zomba do bom senso.
Com medo de ceder, eu simplesmente estou fugindo!
Conforme decidira, Ellen passou a sair raramente de casa, declinando convites para não se encontrar com Ravensburg.
No dia da palestra do senhor Brown, que convidara as damas da comunidade, Ellen fora fazer compras.
Ao voltar, soube por Nelly que o presidente da sociedade dos castos viera convidá-la pessoalmente e presenteara as damas com um exemplar do livro editado por ele, que tratava da igualdade dos sexos.
- E um homem maravilhoso - acrescentou a senhorita Sinclair.
Conversamos longamente e ele disse que simpatiza tanto com os princípios de nossa comunidade que, se algum dia se casar, será com alguém da nossa organização.
Ellen, que havia recuperado a tranquilidade nesses dias, olhou maliciosamente para a amiga.
- Vejam só! Isso é quase uma proposta de casamento!
Quem sabe se não teremos de telegrafar a Boston informando sua deserção?
- Não se envergonha de falar essas bobagens?! - perguntou Nelly, corando.
Não tema por mim, mas tente não desertar você mesma.
Quanto ao senhor Brown, sua pretensão de ter uma esposa que compartilhe suas opiniões é bastante natural.
A noite, a representante do "Paraíso sem Adão" foi à palestra.
O público superlotava o salão, decorado com mais simplicidade do que na palestra de Ellen; não havia nenhum quadro enfeitando as paredes.
O Barão, que aguardava a chegada da senhorita Rutherford, aproximou-se imediatamente para cumprimentá-la.
Os esforços inúteis que fizera para encontrá-la excitaram ainda mais a sua paixão e o fizeram esquecer a negativa recebida.
Ellen recebeu-o com um encantador sorriso e, notando que ele usava o distintivo da sociedade dos castos, perguntou com olhar malicioso:
- O senhor colocou esse emblema só como zombaria?
- Absolutamente, não! - respondeu o Barão, a quem a recepção amistosa devolvera o bom humor.
Porque eu, a exemplo de José, o protótipo da castidade masculina, não posso escapar dos abraços de Putifar para casar com a virtuosa filha do grande sacerdote de Heliópolis?
Li o romance baseado nesse tema bíblico.
Nele, consta que José viveu com Asnath(5) uma vida conjugal exemplar.
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Ave sem Ninho

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Re: Conde J. W. Rochester - PARAÍSO SEM ADÃO / Wera Ivanovna Krijanovskaia

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