Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

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Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:02 am

Reflexos de um passado
Nilton de Almeida Júnior

Inspirado pelo Caboclo Sete Montanhas

Índice
Apresentação

Capítulo I - O Sonho de Amanda
Capítulo II - Recordações de Urânia
Capítulo III - Laços reencarnatórios
Capítulo IV - O desencarne de Sandra
Capítulo V - Conhecendo o Lar de Maria
Capítulo VI - Reencontrando um amigo na floresta
Capítulo VII - Lembranças de Sandra
Capítulo VIII - No Vale das Sombras
Capítulo IX - Visitando a Crosta
Capítulo X - Vingança e obsessão
Capítulo XI - Jade, o triste passado de Amanda
Capítulo XII - A vingança de Zuma
Capítulo XIII - Amanda na terapia
Capítulo XIV - Progressos e limitações da terapia
Capítulo XV - Subtileza da obsessão
Capítulo XVI - A subtil intervenção da Espiritualidade
Capítulo XVII - A consulta de Urânia
Capítulo XVIII - A Sessão e os seus preparativos
Capítulo XIX - O desenrolar da sessão
Capítulo XX - A corrente de descarga de Urânia
Capítulo XXI - Efeitos da corrente
Capítulo XXII - O retorno de Zuma e Muzala
Capítulo XXIII - Atendimento à distância
Capítulo XXIV - Subtileza da Espiritualidade
Capítulo XXV - Hábitos difíceis de serem modificados
Capítulo XXVI - Amanda decide ir ao Terreiro
Capítulo XXVII - A consulta de Amanda
Capítulo XXVIII - A primeira desobsessão de Amanda
Capítulo XXIX - Zuma e Muzala despertam
Capítulo XXX - A segunda desobsessão de Amanda
Capítulo XXXI - O Perdão
Capítulo XXXII - Amanda descobre a verdade a respeito de Mauro e Fabiana
Capítulo XXXIII - Mauro vai à Sessão
Capítulo XXXIV - A terceira desobsessão de Amanda
Capítulo XXXV - O arrependimento de Zuma
Capítulo XXXVI - Umbanda: um mundo cheio de luz
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Ave sem Ninho

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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:02 am

Apresentação

Amigo leitor,
Mais uma vez, por meio da inspiração, venho contar uma história ditada pelo amigo e mentor espiritual Caboclo Sete Montanhas.
Origem de grande parte das doenças mentais, seja por invigilância do obsidiado, seja por deliberada vingança, a obsessão é tão antiga quanto a humanidade e poderia ser considerada o mal do século.
Sendo de origem espiritual, ela é resistente a qualquer tratamento que tenha actuação restrita à matéria.
Inicialmente, é necessário reconhecer que é o obsidiado a peça fundamental no processo de cura.
Tudo depende dele, porque para alcançar a cura é necessária a modificação de hábitos, atitudes, pensamentos e sentimentos que, se não forem educados, criam o ambiente propício para a instauração e a perpetuação do processo obsessivo.
Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo XXVIII, em nota explicativa acerca das preces pelos obsidiados, encontramos a instrução de que "(...) da mesma forma que as doenças são o resultado das imperfeições físicas que tornam o corpo acessível às influências perniciosas exteriores, a obsessão é sempre o resultado de uma imperfeição moral que o expõe a um mau espírito.
A uma causa física se opõe uma f orça física:
a uma causa moral, é preciso opor uma força moral.
Para preservar as doenças, fortifica-se o corpo; para se garantir da obsessão, é preciso fortalecer a alma; daí, para o obsidiado, a necessidade de trabalhar pela sua própria melhoria, o que basta, o mais frequentemente, para livrá-lo do obsessor sem o socorro de pessoas estranhas.
Esse socorro torna-se necessário quando a obsessão degenera em subjugação e em possessão, porque, então, o paciente perde, por vezes, a vontade e o seu livre-arbítrio.
(...)"O tratamento da obsessão requer muita paciência e amor, pois estamos lidando com dois ou mais enfermos:
o encarnado e o(s) desencarnado(s), que por vezes têm razões mais do que justas para tentarem "fazer justiça com as próprias mãos".
O processo obsessivo só existe pela ausência de amor de ambas as partes; enquanto um deles não for tocado pelo perdão, sempre haverá a força do ódio a uni-los em dolorosa caminhada reencarnatória.
É neste cenário que nossa trama se desenvolve.
Amanda, Urânia, Humberto, Sandra, Heitor, Zuma e Muzala são personagens de uma história que tem início há várias encarnações e que precisam munir-se de muita coragem para mudarem posturas e atitudes fortemente arraigadas.
Somente o amor e a intervenção da espiritualidade superior trarão para esses personagens o perdão, a cura e a certeza de que, muitas vezes, a felicidade ou a infelicidade que nos visitam nada mais são do que reflexos de um passado.

Um abraço a todos e boa leitura.
Nilton de Almeida Júnior
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:02 am

Capítulo I - O Sonho de Amanda
Tudo parecia familiar, pois aquela situação sempre se repetia.
Era uma sensação de déjà-vu,1 uma certa ansiedade preenchia o ar.
Ao mesmo tempo em que sentia o suor escorrer pela face devido ao abafamento que se fazia, sentia um certo frio por estar com a roupa, molhada pelo suor, colada em seu corpo.
Não conseguia mover os braços e pernas, pois sentia-os rígidos como uma engrenagem emperrada.
Parecia estar entalada em uma espécie de túnel ou passagem muito estreita, húmida e escura.
Procurava acalmar-se controlando a respiração, quando uma sensação já conhecida e muito temida começava a se fazer presente.
Era algo pegajoso, frio e escorregadio que vinha subindo, saindo de dentro da terra, envolvendo-a, enroscando-se em seus pés e subindo pelas pernas.
Não conseguia mover a cabeça para baixo de modo a verificar o que era aquilo, e mesmo que o conseguisse não poderia enxergar coisa nenhuma, pois a escuridão não permitiria enxergar nada.
Um misto de medo e nojo apossou-se dela, pois, apesar de não ver, sabia perfeitamente o que se passava.
Uma cobra estava enlaçando-a pouco a pouco... não!... eram suas pernas e pés que estavam se fundindo e ela própria estava se transformando em uma imensa cobra a enrodilhar-se sobre si mesma.
Sentia a pele transformando-se em placas de escamas, as carnes moldando-se à nova forma que vinha gradativamente assumindo todo o seu ser, enquanto estranhas gargalhadas ecoavam na escuridão.
O coração acelerado quase não dava conta de toda aquela enxurrada de adrenalina na corrente sanguínea; o suor abundante escorria pela testa para depois cair nos olhos, provocando ardor e desconforto; tentava gritar, mas não conseguia, a voz simplesmente havia desaparecido.
O escorrer de um líquido quente fê-la ter a certeza de que tinha urinado de pavor, sentia as mãos queimando como se estivesse segurando brasas.
A transformação a essa altura já tinha chegado ao pescoço; ela reuniu o pouco de forças que ainda lhe restavam e soltou, por fim, um grito.
Acordou gritando, assustada, ensopada de suor e muito cansada.
Passou as mãos pelo corpo para certificar-se de que tudo não passara de um sonho.
Passou também as mãos pelo colchão para certificar-se de que não tinha realmente urinado.
Tudo estava bem, tudo estava em ordem.
Tudo não tinha passado de um sonho, sempre o mesmo sonho que vinha se repetindo cada vez com mais frequência.
Levantou-se, foi até a cozinha, pegou um copo no escorredor de louças em cima da pia, foi até a geladeira e serviu-se de água.
Bebeu aos poucos, enquanto olhava pela janela o céu sem estrelas à sua frente.
Olhou para o relógio na parede, eram 3 horas da manhã.
Suspirou, abanou a cabeça pensativamente e voltou para o quarto, arrastando os pés envoltos nas pantufas de coelho cor-de-rosa.
Acordou às 6 horas com o despertador fazendo um barulho ensurdecedor.
Teve vontade de jogá-lo longe, mas entendeu que era hora de levantar para mais um dia.
Um daqueles dias depois de uma noite mal dormida.
"...Maldito pesadelo... como faço para me livrar de você?", pensou ela enquanto tentava acertar cambaleante o caminho do banheiro.
O banho melhorou sua disposição; ela terminou de arrumar-se e dirigiu-se para a cozinha, onde encontrou a família à mesa tomando o desjejum.
— Bença pai, bença mãe... — cumprimentou ela, enquanto se ajeitava na cadeira.
— Deus te abençoe, filha — responderam quase em uníssono os pais de Amanda.
— Outra vez aquele sonho mau, filha?... — perguntou Urânia.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:02 am

...Parece que escutei você gritando e logo depois a luz da cozinha acendeu...
— É, mãe... outra vez... a mesma coisa... mais uma pra contar hoje na análise...
— Análise, análise... — resmungou atrás do jornal Humberto.
...Você já vai nesse analista há dois anos e continua na mesma... já disse e repito, arrume um marido e logo logo isso passa!
— HUMBERTO! — gritou, com a voz estridente, a mãe de Amanda.
A jovem nada respondeu, simplesmente se ocupou em sorver o café com leite que a mãe preparara.
O desjejum daquela família correu como de costume, Amanda calada, Humberto resmungando entre os dentes e Urama tentando servir de intérprete entre pai e filha, que há muito tempo simplesmente viviam sob o mesmo tecto, nada mais.
Amanda é filha única de um casal que fez de tudo para engravidar, em 25 anos, é estudante de Arquitectura e trabalha como auxiliar administrativo em um escritório.
Detesta seu serviço; entretanto, como anseia por sua independência financeira e o mercado de trabalho não oferece muitas chances, vai engolindo sua frustração profissional.
Urânia, sua mãe, tinha problemas em manter a gestação até o final e, na quinta tentativa, passou os nove meses em repouso absoluto de modo a permitir a chegada da tão esperada criança.
Humberto sentiu seu espaço dentro de casa ameaçado após o nascimento daquela menina que demandava toda a atenção da esposa.
Uma pequena erupção rosada apareceu nos punhos de Amanda, ela imaginou ser alguma reacção ao perfume que tinha aplicado sobre a pele; terminou o desjejum, pegou a mochila, deu um beijo no rosto da mãe, acenou para o pai e despediu-se indo em direcção à porta.
— Hoje vai ser um dia daqueles... — diz ela enquanto caminha. — ...vou chegar tarde, hoje tenho análise...
Caminhou em direcção ao ponto do ônibus, seu andar era rígido, quase militar.
Levava a mochila às costas sem muito cuidado.
Não era feia, entretanto fazia questão de não realçar seus atributos físicos.
Usava sempre roupas folgadas, camisões de malha de algodão, calças compridas e ténis.
Não despertava, dessa maneira, a atenção dos homens, mas isso de forma alguma a incomodava, na verdade a aliviava.
A pequena erupção que apareceu em seus punhos estava ficando avermelhada e cocava abundantemente.
"...Droga, o que será isto..., nunca fui alérgica a perfume...", pensou ela enquanto olhava para os punhos na parada de ônibus.
Amanda era daquelas pessoas por quem não se sente muita simpatia à primeira vista.
Sempre séria, calada e extremamente irritável.
Não era de todo uma pessoa má, entretanto refugiava-se em sua máscara de antipatia para esconder o conflito que carregava internamente.
Julgava que, mantendo-se afastada de todos, ninguém notaria sua fragilidade e que com o tempo o seu dilema iria solucionar-se.
Paralelamente ao conflito interno de Amanda, e, ao mesmo tempo, um pouco por causa do estado de irritação que ele provocava, ela era acompanhada por obsessores que se alimentavam de sua irritação, afinizavam-se com o seu estado mental, de tudo reclamando e com nada se satisfazendo, julgando-se eternas vítimas de um mundo que não os compreendia, em uma comprovação mórbida de que os semelhantes atraem os semelhantes.
Como todo obsidiado, Amanda não tinha consciência do processo do qual era ao mesmo tempo agente e vítima.
Vítima, porque sofria com a aura doentia que a envolvia; seus obsessores eram, de facto, seus inimigos, perseguiam-na por vingança.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:03 am

Agente, porque ela foi a geradora dessa perseguição; alheia às palavras do Cristo:
"Vigiai sempre", permitiu que fosse enredada pelo baixo padrão vibratório dos obsessores, criando uma espécie de círculo vicioso.
Ao viverem rodeando Amanda, os obsessores absorviam o magnetismo animal que todo encarnado possui e do qual muitos desencarnados desequilibrados sentem falta.
Dessa forma, inteligentemente, os obsessores procuram cada vez mais insuflar pensamentos e atitudes que favoreciam o estado de depressão e irritação de Amanda.
Assim efectuavam sua vingança e, ao mesmo tempo, podiam contar sempre com a sua "hospedagem" e emissão de magnetismo animal, pois o calor irradiado por Amanda dava a eles uma sensação de quase ter novamente um corpo material.
É claro que os obsessores não tinham o mínimo interesse em alterar aquela situação.
Em seu modo particular de pensar, estavam fazendo justiça ao acompanhar aquela mulher.
Ela lhes fornecia o magnetismo e eles, em troca, insuflavam seu ego com pensamentos do tipo:
"só você tem razão..."; "...cuidado, na verdade eles têm é medo de você... não vê que você é muito mais inteligente do que eles..."; "ninguém te compreende..."; "você não precisa de ninguém".
Esses pensamentos lhe eram sugeridos e ela os assumia como sendo seus.
A obsessão começa sútil e imperceptivelmente.
A maneira mais comum de acesso, por ser a mais fácil de conseguir entre os encarnados, é atiçar a vaidade da vítima, pois assim ela vai permitindo ser manipulada à medida que seu ego é massageado.
Ao mesmo tempo, Deus não perde de vista nenhuma de suas criaturas e usa vários artifícios para se fazer presente em nossas vidas.
Entretanto, para percebê-lo é necessário estar sensível aos seus sinais.
Amanda, apesar da aparência frágil, era personagem de um passado delituoso, espírito endividado que já começava a sentir a necessidade de perdoar e ser perdoado.
Ao mesmo tempo em que a obsessão é a concretização de uma vingança, ela é também a oportunidade que Deus dá a obsessores e obsidiados de resolverem suas pendências, e é nessa hora que entra o papel da religião.
A religião bem orientada e bem vivida educa a criatura, a experiência em família dá a oportunidade de resgate.
Obsessores e obsidiados precisam exercitar o equilíbrio emocional, o perdão e o amor.
Ela esticou o braço dando sinal para o ônibus que se aproximava; como sempre abarrotado, o veículo parou a poucos metros de onde ela estava.
Ela caminhou até a porta traseira do ônibus, subiu e assim começou mais um monótono dia de sua vida.

l. Paramnésia, ilusão da memória que faz a pessoa pensar já ter visto determinada coisa ou situação.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:03 am

CAPÍTULO II - Recordações de Urânia
Urânia viu-se sozinha, como sempre acontecia, após Humberto sair para o escritório de advocacia.
Apesar do semblante calmo, tinha a consumir-lhe os pensamentos a preocupação com a filha.
Preocupação comum a todas as mães, pois ansiava ver a filha terminando a faculdade, com um emprego melhor, actuando em sua área e com "a graça de Deus", como costumava dizer, casada.
Enxugou as mãos no pano de pratos, pois tinha acabado de lavar a louça.
Ajeitou os cabelos, passando primeiro as mãos pela testa e pressionando-os levemente para trás com movimentos curtos em direcção ao alto da cabeça, como sempre fazia de forma a ordenar os pensamentos.
Foi até a despensa, pegou uma medida de feijão, para logo depois sentar-se à mesa começando a separar os grãos das impurezas, já preparando o jantar.
Os grãos negros espalhados na mesa contrastavam com o fundo branco de fórmica.
O som monótono dos grãos escolhidos ao caírem na vasilha plástica estrategicamente colocada no colo de Urânia, o silêncio que imperava, tudo isso fez com que entrasse em uma espécie de transe; e ela voltou 30 anos no tempo...
Chorava, abraçada ao jovem esposo, a perda do quarto bebé espontaneamente abortado, apesar de todo cuidado médico.
Estava no quarto que fora seu quando, em solteira, ainda morava com os pais.
— Não fique assim, meu amor.
Vamos dar graças a Deus que você está bem e que ainda temos chances de tentar outro bebé mais tarde — dizia ele, tentando acalentar a esposa, sabendo que nessas horas nada que se diga ou se fale realmente adianta.
Só o tempo tem o poder de realizar essa cura.
Ela simplesmente concordava fazendo um gesto com a cabeça, completamente impotente perante a dureza da realidade.
Bateram à porta do quarto, Humberto respondeu que podiam entrar.
A porta abriu-se e mostrou as figuras de Selma e Sandra, respectivamente mãe e tia de Urânia.
O rosto dela se iluminou ao ver as duas senhoras, algumas lágrimas teimavam em cair, mas visivelmente aquelas presenças trouxeram alívio ao seu espírito.
Após algum tempo de conversa, Selma tomou um ar mais sério e perguntou à filha:
— Urânia, eu sei que você duvida muito dessas coisas, apesar de você mesma ter os seus pressentimentos e visões...
Sei também que nada pode reverter o que aconteceu, mas pensei que um passe te faria bem...
Você gostaria que sua tia chamasse a Vovó para falar contigo?
Urânia não era pessoa religiosa, apesar de acreditar na existência de Deus ou de uma "Energia", como ela mesma descrevia.
Não participava de nenhum segmento religioso; respeitava as religiões, mas não seguia nenhuma.
Era, entretanto, médium vidente e auditivo; a mediunidade é fenómeno inerente a todo ser humano, independentemente de sua convicção religiosa ou até mesmo de sua vontade.
Ela é património do espírito.
Creia, a criatura na existência do mundo espiritual ou não, é influenciada por ele.
Era comum para Urânia ver ou ouvir coisas e pessoas que só ela via ou ouvia; entretanto, não dava muita atenção e seguia sua vida sem dar crédito à sua sensibilidade.
Não viu nada demais em permitir que a tia lhe aplicasse o passe e mais por consideração do que por crença permitiu que assim fosse.
Sandra preparou-se para receber a Preta Velha, e Selma ajudou na preparação.
Trouxeram um banquinho, acenderam uma vela; a bolsa da tia de Urânia parecia não ter fundo, tamanha era a quantidade de coisas que saía de dentro dela:
saia, bata, lenço, uma caixa de madeira, uma sacola com colares coloridos, galho de arruda, livro de orações...
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:03 am

As irmãs consideraram o ambiente preparado, rezaram um Pai-Nosso pedindo a presença do guia de Sandra, que se concentrou para dar passagem à incorporação da Preta Velha Vovó Miquilina.
A entidade aproximou-se da médium, que sentiu sua presença.
Apesar da extrema boa vontade, Sandra era médium cheia de vícios de incorporação desnecessários, típicos de muitos médiuns de Umbanda que assimilam atitudes e procedimentos sem questionar e acabam assumindo hábitos de alguém que, por sua vez, copiou de alguém que copiou de outro alguém.
Incorporar é entrar em sintonia com a mente do espírito que vai comunicar-se.
O processo é mental.
Apesar de muita controvérsia a respeito do assunto, não tira a consciência e nada tem de anormal.
No caso do médium de Umbanda, que empresta todo o seu corpo ao espírito comunicante, a activação simultânea dos chacras altera ligeiramente o metabolismo.
Entretanto, esse processo é absolutamente natural e automático, ocorrendo da seguinte maneira:
=> Médium concentrado permitindo a incorporação,
=> Guia aproxima-se fazendo com que o médium perceba a sua presença
=> Os perispíritos do médium e do guia aproximam-se ocorrendo a chamada incorporação.
=> Ocorrem, na mente do médium, pensamentos que não são seus.
=> A comunicação entre o médium e o guia se dá pela mente do médium.
Ao sentir a presença da Preta Velha, Sandra deu um pequeno pulo para trás e esfregou as mãos enquanto sua respiração se acelerou.
Sacudiu a cabeça, estalou a língua, espremeu os olhos e voltou para a posição inicial:
de mãos postas e em pé em frente ao altar improvisado, que consistia em uma vela e um copo d'água.
Repetiu esses gestos por umas cinco vezes, até que, finalmente, a incorporação fez-se de forma violenta, jogando o tronco da médium para frente, sacudindo as mãos e fazendo os punhos prateados pelas pulseiras tilintarem com estardalhaço. Urânia, Selma e Humberto pularam de susto.
— Graça di Deus...
Bindito e lovado seje u nomi di Nossu Sinhô Jesus Cristo! — disse a entidade incorporada, em sua costumeira saudação.
— Para sempre seja louvado, Vovó! — respondeu Selma, já conhecendo a resposta para essa saudação.
Selma fez o trabalho de cambona, ajudou a entidade a sentar-se no banquinho, serviu os apetrechos do guia:
galho de arruda, copo d'água, vela, a caixa de madeira...
Urânia e Humberto acompanharam tudo calados e meio distantes.
A mãe de Urânia acabou de ajeitar o lenço carijó2 na cabeça da médium incorporada e disse para a entidade:
— Pronto, Vovó, nós chamamos a Senhora aqui para dar uma palavrinha com aquela filha ali...
Urânia acomodou-se em uma cadeira que foi colocada em frente à médium incorporada.
Estava um pouco tensa e apertava as mãos enquanto as repousava sobre os joelhos.
A Preta Velha, em sua visão espiritual, viu pela aura de Urânia que sua saúde estava por demais enfraquecida.
A coloração da aura era pálida e apresentava pontos escuros como manchas que se agrupavam principalmente na região do útero e ovários.
Teve a informação de que era necessário sério acompanhamento médico para que o equilíbrio se estabelecesse no corpo de Urânia.
Foi informada de que o espírito da criança abortada era o mesmo dos abortos anteriores.
Era um espírito que trazia dívidas a serem acertadas com Urânia e Humberto, e vinha relutando em reencarnar.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:03 am

O desequilíbrio no aparelho reprodutor de Urânia tinha ligação com o passado que envolvia os três personagens.
Entretanto, a médium não conseguia captar todas essas informações com a necessária clareza.
Muitos médiuns de Umbanda, por insistirem em pensar que o estudo é desnecessário e que é o guia que deve saber de tudo, tornam-se instrumentos falhos, e a espiritualidade faz o que pode dentro das limitações de seus aparelhos.
— Fia pricisa muito di ajuda...
Veia vê a fia muito nicissitada...
— Tá vendo, minha filha...? — comenta Selma — ...tem alguma coisa aí...
— Fia tem um incosto qui tá atrapaiando tudo...
A médium distorceu a percepção que teve sobre a criança que foi abortada, pois percebeu que um passado delituoso ligava a sobrinha à criança; por precipitação e falta de estudo, logo interpretou como sendo um espírito que a perseguia, por algum motivo.
— ...Tem qui fazê muita reza pra esse esprito larga você.
— E como fazemos, Vovó? — perguntou Selma.
— Fia vai reza pelo esprito que tá encostado, vai toma três banho de sal grosso, sete banho de lágrima de Nossa Senhora e vai fazê uns banho de assento e lavagem com casca de jequitibá.
Sandra poderia ter ajudado mais o desenvolver daquela consulta.
Entretanto, o médium, sem o embasamento teórico necessário, limita a actuação do guia, que fica restrito à capacidade de verbalização e entendimento do médium.
No caso de Sandra, a Preta Velha restringia-se a receitar e alertar a sobrinha a orar.
A entidade poderia, se tivesse um aparelho mais preparado, ter alertado Urânia da necessidade dela educar a sua sensibilidade, de preparar-se para, no futuro, ser responsável pela orientação de um espírito que tinha com ela e o esposo fortes ligações cármicas, poderia ter explicado para que servia cada um dos banhos por ela receitados.
Por exemplo: o banho de sal grosso tem efeito de limpeza na aura; lágrima de Nossa Senhora é erva de lemanjá e tem o poder de harmonizar e atrair boas vibrações; a lavagem vaginal com o chá feito da casca de jequitibá é recomendada para inflamações e distúrbios no útero e ovários, logo, teria efeito directo nos órgãos que necessitavam de intervenção urgente.
— Pra que serve isso tudo, Vovó? — perguntou Selma.
— Oh fia... as pranta são tudo boa pra ajuda ocês... — foi tudo o que a médium conseguiu verbalizar.
O umbandista precisa conscientizar-se da grandeza e complexidade que envolve o trabalho com a espiritualidade e de que ele, como intermediário entre os guias espirituais e os consulentes, é peça fundamental para que essa comunicação se dê da forma mais clara e precisa possível.
Ele é o representante de sua religião e é imperioso que conheça cada segredo, cada fundamento, para que fortaleça cada vez mais a sua convicção e faça com que as pessoas percebam que a Umbanda não é o aglomerado de sandices, atrocidades e ignorância que muitos erroneamente pensam ser.
Todo trabalho espiritual é assistido por uma equipe, logo a Preta Velha não estava ali sozinha, e, diante das limitações de seu aparelho, procurou irradiar com sua aura benéfica o máximo que podia de energias necessárias para o restabelecimento de Urânia.
Entidades especializadas em trabalhos de cura e harmonização aplicavam passes na região abdominal da sobrinha de Sandra e começaram a diluir as manchas espirituais ali presas.
Enquanto isso, no plano espiritual, outra equipe cuidava do espírito da criança que teve o reencarne provisoriamente adiado.
Após ter benzido Urânia com a arruda, com a vela e com a fumaça do cachimbo, a Preta Velha desincorporou ou "subiu", como se diz na linguagem dos adeptos umbandistas.
Sandra também tinha sua forma peculiar de passar pelo processo de desincorporação.
Assim como parecia complicado para o guia sintonizar-se, também era complicado fazer o processo inverso.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:04 am

Depois de muito sacudir a cabeça e as mãos, quando parecia que tudo estava bem, vinha nova repetição de sacolejos e pulinhos deixando a médium extremamente cansada, enquanto Selma ficava chamando o nome da irmã, temerosa de que ela não voltasse do transe.
Por fim, a médium jogava o tronco para trás enquanto a cambona a amparava com o próprio corpo, ao mesmo tempo em que chamava por seu nome e assoprava em seus ouvidos.
Sandra arregalava os olhos e arfava ofegante, como se tivesse mergulhado em um tanque e ficado debaixo d'água mais tempo do que deveria.
— SANDRA?!... SANDRA?! — chamava Selma, aflita, o nome da irmã.
— Hum?! — respondeu a médium, agora apertando os olhos forçando a visão, como quem quisesse enxergar melhor.
— Tudo bem?
Você está se sentindo bem?
— Já acabou?
A Vovó já foi? — perguntou Sandra, ainda ofegante, enquanto com os olhos percorreu todo o quarto, como se tivesse acabado de entrar ali.
— Já... já veio... já deu o passe em nossa menina... receitou umas coisinhas e subiu.
— Pra que servem essas coisas que ela receitou, tia? — perguntou Urânia ajeitando-se na cama, enquanto segurava a mão do esposo.
— Que coisas?... — perguntou Sandra franzindo a testa.
...Meu amor, eu não lembro de nada... quando a Velha baixa, ela me tira completamente a noção...
Sandra jamais admitia que participava de tudo o que acontecia enquanto estava incorporada.
Ela fazia parte de uma "escola" de médiuns que pensam que, se admitirem a consciência, irão cair em descrédito.
Pensava também que isso não é coisa que se discuta e que, com o tempo, cada vez mais a consciência iria diminuir.
Acontece que ela já trabalhava há mais de dez anos e nada.
A consciência continuava lá.
Esse tabu até hoje ronda o meio umbandista, ninguém toca no assunto pois suscita controvérsias, mexe com a vaidade e questiona verdades que muitas vezes são impostas por puro egocentrismo.
Felizmente, em muitas casas nas quais o estudo sério é levado adiante, os médiuns trocam experiências e opiniões, e a assunção da consciência gera maior certeza e confiança nos trabalhos em nível individual e colectivo.
Sandra iria perceber isso um dia.
O estado de saúde de Urânia teve uma melhora sensível.
Os banhos de sal grosso desfizeram formas de pensamento e miasmas agregados na aura; os banhos com folhas de lágrima de Nossa Senhora completaram a limpeza do banho de sal grosso, restabelecendo a harmonia geral do corpo perispiritual e deste reflectindo no corpo material; as lavagens e banhos de assento com casca de jequitibá desinflamaram, cicatrizaram e curaram os órgãos do aparelho reprodutor.
Paralelamente, Urânia fez um sério e longo tratamento de saúde e cinco anos mais tarde, com alegria, recebeu o resultado dos exames de sangue e de urina.
Estava grávida.
Deu à luz uma menina.
A criança cresceu cheia de cuidados, haja vista ter sido esperada com tanta ansiedade após tantas tentativas frustradas.
E no excesso de zelo, muitas vezes os pais dizem muito o sim, quando deveriam dizer o não também.
O excesso de sim tira o senso de limite e a criança cresce pensando que o mundo, fora dos limites do lar, também vai tratá-la da mesma forma e, quando encara o mundo, a frustração apresenta-se.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 02, 2016 10:04 am

O excesso de não tolhe a iniciativa da criança e ela cresce não vendo a hora de soltar-se dos grilhões familiares, ou se torna eternamente dependente da autorização de outrem para poder ser feliz.
Amanda cresceu muito rodeada de sim, e quando teve que começar a enfrentar o mundo fora dos limites do lar, escondeu-se em uma carapaça de antipatia ao perceber que as outras pessoas não estavam à sua disposição durante as 24 horas do dia, como sua mãe costumava fazer.
Desde cedo, ela desenvolveu com a mãe uma relação permeada de cumplicidade e da tirania tão comum nas crianças quando percebem a força que possuem o beicinho e o choro manhoso para conseguirem tudo o que querem.
Dez anos após o nascimento de Amanda, Urânia recebia com tristeza a notícia do falecimento de sua tia.
Lutou contra o tumor que rapidamente lhe consumiu a vida, após três anos de ter sido diagnosticado o câncer no intestino.
Urânia não aceitou aquele golpe da vida, revoltou-se e blasfemou.
— Para que adianta ser médium?
Para que se envolver com essas coisas, se na hora que mais se precisa, esses guias nunca fazem nada?!
Onde estavam os guias dela para permitirem que sofresse desse jeito? — gritava enquanto quase arrancava os cabelos de desespero e desequilíbrio.
— Não fale assim, minha filha... é até pecado... — limitava-se a responder Selma, sem forças para dialogar.
A partir daí, Urânia reforçou sua opinião de que nenhuma religião a satisfazia.
Não conseguia admitir a ideia cristã de que só o sofrimento purifica e começou a desenvolver a ideia de que, se a mediunidade não servia para livrar o médium de certos problemas, qual era sua serventia, então?
As lágrimas estavam impedindo que ela enxergasse com clareza de modo a distinguir entre os grãos de feijão e as impurezas.
Tremenda é a capacidade da mente humana, em poucos minutos ela fez uma viagem no tempo e reviveu emoções que tanto marcaram sua vida.
Levantou o olhar e, como há muito tempo não fazia, orou e pediu com sinceridade ao céu que a orientasse e que lhe desse forças, pois sentia-se sem rumo e muito só.
Através do embaçado das lágrimas, divisou alguém na cadeira a sua frente, ao mesmo tempo em que sentiu um cheiro familiar.
Limpou os olhos com as costas da mão e não se assustou, nem por um momento, ao ver a tia sentada na cadeira a sua frente a sorrir.
Elas não se falaram, mas Urânia entendeu tudo o que a tia quis dizer.
A comunicação no mundo espiritual se dá por meio do pensamento e da emoção.
Foi uma visão rápida, somente o perfume de Sandra ficou um pouco mais de tempo no ar.
Urânia entendeu que era hora de encontrar um tempo para Deus e que ela teria de rever alguns conceitos que até então julgara como eternos.
O telefone tocou, chamando-a de volta à vida comum.
— Alô.
— Alô, filha?
De repente me deu uma vontade louca de falar com você...

2. Tecido quadriculado branco e preto.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:46 am

CAPÍTULO III - Laços reencarnatórios
Humberto, Urânia e Amanda eram personagens de uma história que se emaranhava nas teias do tempo.
Laços de dependência, mágoa e traição ainda os atavam na grande roda das reencarnações.
A sabedoria de Deus fez com que o cérebro humano fosse capaz de decodificar as informações referentes somente à encarnação actual, ou seja, a cada encarnação a lembrança das encarnações precedentes fica embotada, sem, entretanto, deixar de nos influenciar por meio das simpatias ou antipatias, medos ou interesses, traços de personalidade e todo material psíquico ou emocional que vez por outra emerge do chamado inconsciente.
Dessa forma, temos a oportunidade de reencontrar desafectos e amizades de outras existências, cabendo-nos procurar modificar alguns sentimentos e apurar outros.
Em outra época, Humberto chamava-se Tadeu.
Era um jovem e um promissor comerciante que havia feito um contrato com outro, de desposar uma de suas filhas.
Amadeu, o comerciante mais idoso, tinha duas filhas:
Jane e Jade e que hoje conhecemos como Urânia e Amanda.
Jade era a filha mais nova e, por determinação paterna, somente poderia casar-se depois que a irmã mais velha o fizesse.
A filha mais nova de Amadeu era possuidora de uma beleza física devastadora e sabia muito bem usar de todo o seu encanto para conseguir seus intentos.
A boca bem desenhada por lábios carnudos e provocantes, sobrancelhas arqueadas e bem-feitas que emolduravam os olhos penetrantes e ao mesmo tempo súplices, a pele era como a do pêssego maduro e o corpo transpirava elegância ao mínimo movimento que fizesse.
Jane não tinha tantos atributos físicos como a irmã mais nova, apesar de também ser uma mulher muito bonita.
Ela não possuía a determinação de Jade e, mesmo sendo a irmã mais velha, desenvolveu com a irmã mais nova uma relação de dependência mascarada de protecção.
O casamento não envolvia sentimento.
Era um acordo comercial que visava aumentar o património de ambas as partes.
Tadeu casou-se com Jane, por quem sentia certa simpatia e que não o fazia sentir-se tão ameaçado, como o fazia a estonteante Jade, que ao mesmo tempo não lhe inspirava confiança.
Se existe a expressão "amor à primeira vista", também deveria existir a expressão "antipatia à primeira vista" e foi isso que aconteceu entre Jade e Tadeu.
Tadeu não aprovava o relacionamento tão dependente de Jane para com Jade e de tudo fazia para que aquela situação se modificasse.
Jade, por sua vez, procurava fazer de tudo para que a irmã não tivesse um relacionamento saudável com o esposo, pois queria continuar sendo a dona dos pensamentos de Jane, como sempre o fora até a chegada do intrometido Tadeu.
Essa situação se repetia hoje nas vidas de Humberto, Urânia e Amanda, pois, assim como Jane, Urânia ficava dividida entre o fogo cruzado que se travava entre Humberto e Amanda, como outrora ficava entre o de Tadeu e Jade.
No auge de seu desequilíbrio, Jade, ao escutar uma conversa entre a irmã e o esposo, que tratava de planos para engravidar e, assim que a criança nascesse, da mudança para outra localidade, onde Tadeu também tinha terras e comércio e que precisavam da presença de seu dono para poderem prosperar, arquitectou sombrio plano que foi um dos motivos para que, em sua próxima encarnação, retornasse justamente como a filha do útero que ela mesma prejudicou.
Era de seu conhecimento que os negros se reuniam à noite para cantar e dançar de modo a lembrar das terras que foram forçados a deixar do outro lado do oceano.
Jade, curiosa que só, já tinha observado de longe e às escondidas que tais reuniões consistiam em estranhos cantos e danças, alguns dos participantes costumavam entrar em transe.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:47 am

Ardilosa e inteligentemente, deduziu se tratar de uma espécie de feitiçaria e que se seu pai, o mais católico dos comerciantes daquela região, soubesse do que aqueles batuques realmente tratavam, Muzala, a escrava encarregada da cozinha e, pelo que ela pôde deduzir, espécie de oficializante daquele ritual, estaria em maus lençóis.
Essa escrava passou a substituir a mãe, depois que ela morreu, nos serviços dentro da casa-grande.
A mãe de Muzala gozava de grande prestígio entre os patrões por sua lealdade e foi esse vínculo que garantiu a permanência da filha junto à família dos donos da fazenda.
Jade sabia do conhecimento que Muzala detinha sobre as plantas e ervas, ela mesma já tinha sido curada de muitas indisposições físicas com a ajuda dos preparados e chás trazidos pelas mãos da própria mucama.
Ouvia, como era de seu costume, por detrás das portas e paredes as conversas das escravas, e sabia que existiam ervas capazes de interromper e até evitar a gravidez.
Sorrateira como uma serpente, envolveu Muzala em sua fala mansa e deixou bem claro para a escrava que, se ela não lhe fizesse as infusões solicitadas, a ira de seu pai e a inquisição iriam se fazer presentes.
Alegando estar preocupada com o estado de saúde de Jane, oferecia à irmã diariamente um preparado de ervas que Muzala lhe entregava.
— Tem certeza de que ainda preciso beber essa tisana amarga? — perguntou Jane.
— E desde quando eu faço para você qualquer coisa que não seja
necessária? — respondeu Jade com um sorriso.
Quanta maldade pode um sorriso esconder?
Quantas encarnações
seriam necessárias para que Jade e Jane compreendessem que ninguém é feliz quando vive sob o jugo do outro?
As ervas provocavam sangramentos e eólicas terríveis, fazendo com que Jane estivesse todo o tempo acamada.
Assim, os planos de um filho e de uma viagem iam sendo adiados, para desespero de Tadeu, que não via a hora de ver-se livre da presença de Jade.
O excesso de substâncias que tinham efeito directo no aparelho reprodutor de Jane acabou por estragar-lhe a constituição física, ressecando-lhe as entranhas e alterando o padrão vibratório dos órgãos reprodutivos, condição que a acompanhou até a actual encarnação.
Jane desencarnou vítima de profunda anemia, para desespero de Jade e angústia de Tadeu, que com a convivência aprendera a amar a doce esposa.
Após algum tempo, liberta do corpo carnal, Jane teve consciência de toda a trama de que fora vítima.
Um misto de mágoa, raiva e dor apossou-se dela ao ver que sua vida poderia ter sido bem diferente e talvez mais feliz, não fosse a maléfica influência de sua irmã.
Passou a atormentá-la em seus sonhos, nos quais aparecia com sua aparência enfermiça a chamar-lhe de serpente traiçoeira.
Tão grandes foram as impressões que esses sonhos deixaram na mente de Jade que elas a acompanhavam na actual encarnação.
Jane queria vingança e jurou fazer da vida da irmã aquilo mesmo que a irmã fizera com ela: torná-la infeliz.
Se uma coisa dava orgulho a Jade era a sua beleza.
Pois Jane começou a arquitectar sombrio plano que faria com que a beleza da irmã fosse justamente o motivo de sua desgraça.
Queria vê-la desacreditada e difamada perante a preconceituosa sociedade.
Juntamente com outros espíritos, que também perseguiam a irmã, começou a influenciar Leôncio, o irmão casado de Tadeu, que detinha o olhar por muito tempo no decote generoso de Jade sempre que podia.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:47 am

Com a morte da irmã, o remorso apoderou-se de Jade e ela resolveu1 que se entregaria à vida religiosa, acreditando que bastava enclausurar-se em um hábito para que seus pecados pudessem ser perdoados.
Enquanto esperava a resposta do convento, mudou completamente seu modo de vestir-se e de caminhar, porém os olhos não deixavam esconder que, por vezes, aquela mulher fogosa ainda se movia lá dentro.
Certo dia, quando caminhava sozinha pelo leito do rio, deparou-se com Leôncio, que, sabendo do seu costume de caminhar acompanhando o curso das águas, resolveu fingir que a encontrara por acaso.
Ele fora influenciado espiritualmente por aqueles que a perseguiam e por Jane, que queria simplesmente que seu pai os visse conversando a sós e em local e atitude suspeitos, expulsasse-a de casa e a deserdasse por desonrar seu nome.
Bom dia, senhora... que surpresa! — saudou ele, tentando disfarçar a ansiedade.
— Bom dia, Sr. Leôncio — respondeu ela parando a distância e baixando os olhos.
Sob a influência de Jane, ele se aproximou e tentou iniciar uma conversa um tanto quanto íntima demais, dizendo que ela era muito jovem, bonita e desejável para se esconder em uma vida religiosa.
Ela percebeu o cheiro de bebida e deduziu que o irmão do cunhado estava levemente embriagado.
A influência dos obsessores, o desejo de Leôncio por Jade e a bebida em excesso tornaram-se uma mistura por demais explosiva.
A situação saiu do controle de Jane e o estupro foi inevitável.
Jade, congelada de pavor, imaginava estar sendo vítima da ira de Deus, ou dos deuses dos escravos, por ter chantageado Muzala e ser a responsável pela morte da irmã.
Sentiu-se culpada pela beleza de que era possuidora e que enfeitiçava os homens.
Aquela trágica experiência a marcaria para o resto de sua vida e teria repercussões também em sua próxima volta à experiência reencarnatória.
Jane a tudo assistia impotente e desesperada, não imaginava que seu plano tivesse aquele desfecho.
Passou de ofendida a parceira da dor da irmã.
Queria fazer voltar o tempo e poder modificar tudo.
Lamentavelmente era muito tarde.
A vingança, longe de ser um prato que se come frio, é um prato que não se come.
Ela cega as criaturas e as torna insensíveis aos sentimentos que nos elevam e libertam do ciclo das encarnações expiatórias.
A ninguém cabe o direito de executar o carma de ninguém; a própria criatura encontra seus momentos de expiação e resgate em um tempo que é regido por um relógio que desconhecemos e sobre o qual nenhum controle exercemos.
Jade passou a ter uma vida reclusa e solitária: carregava a tristeza da responsabilidade pela morte da irmã e a dor da violência de que fora vítima.
Passou a evitar cada vez mais os homens e a tratá-los com verdadeiro nojo e distância.
Por várias vezes tentou o suicídio, pois também era vítima do assédio dos espíritos de escravos desencarnados, que nutriam por ela verdadeiro ódio diante da perseguição feita à sua líder espiritual.
A história desses três personagens tem raízes ainda mais profundas em encarnações ainda mais antigas, mas a ideia de como as diferentes encarnações são, como capítulos de um grande livro que é escrito nas páginas do tempo, já foi transmitida.
Jade e Tadeu precisavam voltar a se encontrar e entender que a paz é possível, mesmo tendo-se pontos de vista divergentes, que todo ser humano é criatura capaz de amar e perdoar.
Quem sabe se a experiência da paternidade não daria a Tadeu/Humberto o dom da tolerância?
Quem sabe a experiência da maternidade não faria com que Jane/ Urânia e Jade/Amanda não equilibrassem o sentimento que as unia?
Quem sabe se, na condição de filha de Tadeu/Humberto, Jade/Amanda não aprenderia a perdoar e amar?
O esquecimento temporário das encarnações precedentes é prova da sabedoria e bondade divinas, que nos dá a oportunidade de resgatar antigas dívidas para com nosso semelhante e nós mesmos.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:47 am

CAPÍTULO IV - O Desencarne de Sandra
Deitada no leito do hospital, Sandra aguardava a visita periódica do médico.
Estava ansiosa e resignada, pois gostaria de poder passar o feriado da Semana Santa em casa; entretanto, tinha consciência de que seu caso requeria cuidados.
Sentia dores no abdómen inchado e magoado pela colostomia, uma fraqueza tomava conta de todos os seus membros e não queria dar ainda mais trabalho à irmã que incansavelmente alternava entre as actividades domésticas e as idas e vindas ao hospital.
Tinha certeza de que tudo pelo que tinha passado nada tinha a ver com castigo divino ou coisa parecida.
Sua fé dava-lhe a certeza de que Deus estava tentando dizer-lhe alguma coisa por meio da enfermidade.
Sentia vez por outra a presença de seus guias e isso lhe dava imenso alívio.
Aprendera com o tempo e a dedicação que os guias e mentores espirituais não interferem em nosso carma, eles nos dão força para passar por aquilo que precisamos passar; tinha certeza de que a doença é a maneira que o espírito tem de livrar-se de cargas energeticamente instáveis acumuladas ao longo das encarnações e que baixam vibracionalmente do espírito para a matéria, de forma a expurgar a instabilidade e voltar ao equilíbrio.
Malgrado essa explicação meramente técnico-religiosa, esse processo é extremamente doloroso, física e psicologicamente.
— Como você está se sentindo, mana? — pergunta Selma, acariciando o braço, tingido por hematomas, de Sandra.
— Me sinto bem, mas um tanto boba... tenho um pouco de frio e sinto os pés dormentes... — responde a enferma, com a voz sumida e ofegante.
— Deixa ver... — Selma toca com as costas da mão a testa e o pescoço da irmã.
...Não parece ter febre... mas realmente você está muito fria... vou chamar a enfermagem...
Prontamente, o enfermeiro de plantão atendeu ao chamado do quarto 302.
Verificou a temperatura e a pressão arterial da enferma, que estavam abaixo do normal.
Chamou a emergência e Sandra foi removida para a UTI sob o olhar apreensivo de Selma.
Ela acompanhou todo o movimento até ser colocada no leito da UTI.
Nessa hora fechou os olhos materiais e não mais os abriu; sua passagem foi rápida e indolor.
Seus órgãos simplesmente foram diminuindo o ritmo até pararem.
O coração teimava em não responder, apesar dos estímulos eléctricos dados pela equipe médica.
Causa mortis:
falência múltipla dos órgãos.
Quinze dias após o desenlace, Sandra abriu os olhos e percebeu que estava em um quarto diferente daquele onde esteve internada por pelo menos um mês.
Percorreu o olhar pelo recinto à busca de algo familiar, mas percebeu que realmente estava em outro lugar, talvez outro quarto ou outro hospital.
Sentia-se bem, apesar de meio zonza como se tivesse tomado um calmante extremamente forte.
Olhou os braços e percebeu que não estava ligada a nenhum medicamento intravenoso; viu também que os hematomas diminuíram, sentia sede e vontade de urinar, lembrou-se da colostomia e preocupou-se com a higienização da cirurgia; levantou o lençol rosado que a cobria e viu que o saquinho estava vazio e limpo.
Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e uma enfermeira sorridente a saudou.
— Olá, como vai, dorminhoca?
Ao olhar para a enfermeira, uma robusta senhora de uns 80 anos, a pele negra contrastando com o uniforme impecavelmente branco, um olhar amigo e um sorriso confiante, sentiu uma onda de amor invadir-lhe o ser.
Estranhou uma enfermeira tão idosa, parecia que a conhecia, não sabia dizer de onde.
— É bom dia ou boa tarde?
Estou sem noção de tempo...
Onde estou? Poderia falar com minha irmã?... — falou Sandra, enquanto tentava se acomodar melhor, sentando na cama.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:48 am

A enfermeira ajudou-a a sentar-se, acomodou o travesseiro nas suas costas, sempre sorrindo, e disse:
— É bom dia!...
E você, como se sente?
— Bem. Muito bem... mas onde estou?
Por acaso fui removida do hospital onde estava?
Que hospital é este?
— Podemos dizer que foi removida... seu tratamento agora será feito por aqui.
— Que lugar é este?
Pode me ajudar a ir ao banheiro?
A enfermeira ajudou Sandra a levantar-se e amparou para dar seus passos vacilantes em direcção ao banheiro, enquanto respondeu:
— Este hospital se chama Lar de Maria.
— Nunca ouvi falar... onde fica?
Que bairro é este?
Por que não ouço barulho do trânsito?
— Tá bom, tá bom... uma coisa de cada vez...
Este é um hospital especializado no seu tipo de tratamento, aliás, várias são as especialidades tratadas aqui...
Estamos, realmente, bem longe da cidade e é por isso que não ouvimos o som característico do trânsito — respondeu pacientemente a enfermeira, enquanto ajudava Sandra a retornar ao seu leito.
— Posso falar com minha irmã?
Preciso de notícias de minha família... tenho a impressão de estar perdendo algo que aconteceu entre o momento em que Selma foi chamar a enfermagem e agora...
— É mesmo?
Isso é absolutamente normal no seu caso... tome, beba este caldo e mais tarde conversaremos, tá bom? — disse a simpática senhora, enquanto com um belo sorriso oferecia uma espécie de caldo de boa aparência e odor.
— Que caso?
O que aconteceu?
— Acalme-se, tudo está em ordem... — respondeu a enfermeira com autoridade recheada de amor, à qual Sandra simplesmente obedeceu.
...Voltarei mais tarde para conversarmos, agora preciso cuidar de outras actividades, tome esse caldo que vai te fazer bem... até breve!
— Sim, senhora... posso saber seu nome?
— Miquilina, eu chamo-me Miquilina.
E o sorriso foi mais belo ainda, ao responder a essa pergunta.
Sandra sentiu um arrepio correr-lhe a coluna até a base da nuca.
Olhou bem nos olhos da enfermeira e ficou sem saber o que dizer.
— O que foi? Aconteceu algo? — perguntou Miquilina.
— Não... nada... é que só conheci uma pessoa até agora com esse nome, só isso.
— É verdade... meu nome não é muito comum... até logo!
Sandra ficou pensativa depois da saída de Miquilina.
Mil coisas se passaram em sua cabeça.
Ao mesmo tempo em que faziam sentido, ela custava a compreender muitas coisas.
Levantou novamente o lençol e checou a cirurgia, apalpou-se e viu que tinha aparentemente a temperatura normal, o cheiro do caldo era muito agradável e despertou seu apetite, provou meio desconfiada uma colherada e teve um bem-estar muito grande quando sentiu aquele caldo morno descer pela garganta e aquecer levemente suas entranhas até chegar ao estômago.
Quando deu por si, tinha tomado todo o prato.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:48 am

Riu de si mesma, quando teve vontade de lamber a louça como se fosse uma criança, e assim o fez.
Um leve torpor tomou conta dela, aconchegou-se de novo como quem quer curtir um pouquinho a preguiça e, sem sentir, adormeceu para só despertar no dia seguinte.
Um raio de sol brincava em seu rosto quando ela despertou.
Levantou-se e olhou pela janela para perceber que um jardim se descortinava logo ali, pertinho, e ela não tinha notado na manhã anterior.
Estava se levantando, quando a porta abriu para deixar entrar a enfermeira de sorriso encantador.
— Bom dia! Como passamos a noite?
Muito bem, obrigada, Miq...
Ela não conseguiu pronunciar o nome da enfermeira.
— O que foi, minha filha?
Aconteceu alguma coisa? — perguntou Miquilina, aproximando-se de Sandra.
Nada, não é nada... estou meio confusa, só isso.
Seu nome me perturba um pouco, me desculpe...
— Creio que o sol da manhã e o vento fresco vão te fazer sentir melhor...
Venha, vamos dar uma voltinha lá fora... venha com Miquilina, venha...
Aquela maneira carinhosa de falar tinha cativado Sandra desde o dia anterior.
Ela tinha a certeza de que conhecia Miquilina de algum lugar, só não queria admitir aquilo de que ela já tinha certeza.
Aquela situação ia contra tudo o que ela esperava que pudesse acontecer após o desencarne.
O jardim era muito bonito, canteiros bem cuidados e coloridos se estendiam ao sol como tapetes de várias formas e tamanhos.
Bancos sob respeitosas árvores convidavam ao descanso e à reflexão.
Sentiu uma paz e tranquilidade até então desconhecidas.
Pessoas iam e vinham, percebeu que nem todos usavam o uniforme típico dos hospitais, viu que algumas pessoas vestiam branco, mas pareciam estar usando roupas de santo, com a cabeça coberta com torsos, algumas mulheres usavam roupas tipo baiana, saias tipo carijó, outras pessoas (homens ou mulheres) traziam a cabeça enfeitada com flores ou penas.
Tudo observava, sob o olhar atento de Miquilina, que, com a paciência dos grandes mestres, esperava que Sandra chegasse a suas próprias conclusões, sem pressa, tudo dentro do tempo de maturação de sua pupila.
— Miq... enfermeira, isto aqui não é um hospício ou alguma dessas comunidades alternativas cheias de hippies, não é?...
Afinal de contas, onde estou? — perguntou Sandra, sem tirar os olhos de um homem que passou à sua frente.
Ele tinha no peito um colar de dentes e sementes, os braços fortes, um olhar firme, porém gentil, e os cabelos lisos cortados curtos como uma cuia que envolvia sua cabeça.
— Não, minha filha, isto aqui não é uma comunidade alternativa.
Não estamos em nenhum hospício e você precisa parar de fugir da realidade.
Por que você não faz logo a pergunta que está martelando aí dentro dessa cabecinha?
— Não pode ser... eu sinto sede, eu sinto fome, eu sinto sono, minha cirurgia está aqui...
Ela coloca a mão no local da colostomia.
— E o que ocê esperava, fia, quiria qui dirrepenti tudo si mudificassi i tudo ficassi inda mais difici pra suncê?
Miquilina falou à maneira dos Pretos Velhos e Sandra arregalou tanto os olhos que pareceu que eles queriam saltar das órbitas.
— Vovó?!...
A senhora é a Vovó Miquilina?
Sandra já não continha as lágrimas e Miquilina a ajudou a sentar-se em um banco próximo.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:48 am

— Sim, minha filha, sou eu.
Trabalhamos juntas estes anos todos e estou encarregada de auxiliar sua adaptação ao mundo espiritual.
— Ainda estou confusa... como vim parar aqui?
Por que tudo parece tão real?
Olha só, eu respiro, eu estou tremendo...
— Minha filha, isto é real! Por que tudo seria diferente?
Por acaso a morte modifica alguma coisa?
Você simplesmente passou para o lado de cá, mas continua a mesma.
— Não sei, esperava usar camisolões, um ambiente cheio de fumaça, anjos voando para todo lado, uma voz vinda não sei de onde a falar comigo, sei lá o que... mas olhe para mim, ainda estou inclusive operada!
Miquilina não conseguiu prender o riso, que se fez farto diante da sinceridade quase infantil de Sandra.
Depois de recompor-se, respondeu:
— Filha, nossa mente é que molda nosso ambiente quando passamos para o lado de cá.
Dessa forma, seguindo a regra de que a morte não modifica ninguém, se você veio de uma condição onde sentia fome, sede, frio e tudo mais que um encarnado sente durante toda a sua passagem pela carne, é normal que sua mente ainda funcione do mesmo jeito que funcionou durante os seus 55 anos imersa na matéria.
Leva um tempo até sua mente moldar-se a sua nova condição...
Ao ver Sandra apalpar a cirurgia, ela continua:
— ...o processo cirúrgico te deixou tão impressionada que sua mente plasmou uma cirurgia no seu corpo perispiritual.
Confie, pois com o tratamento e com o tempo você comprovará o que estou dizendo.
Venha, vamos até a sala de curativos, está na hora de seu tratamento começar.
Sandra deixou-se levar pela mão como uma criança.
Ainda relutava um pouco em aceitar toda aquela situação, mas seu íntimo lhe dizia para confiar e seguir os conselhos de Miquilina.
Assim o fez.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:49 am

CAPÍTULO V - Conhecendo o Lar de Maria
Caminharam sem pressa pelas alamedas do imenso jardim do hospital.
Sandra segurava a mão de Miquilina com força, parecia que queria testar se aquilo estava realmente acontecendo.
Gostaria de estar sonhando e a qualquer momento despertar e encontrar a irmã velando seu sono.
Era difícil para ela entender como tudo era tão parecido com a vida na Terra, pois, apesar de ter sido médium praticante da Umbanda, como muitos, não era afeita a leituras.
Preferia pensar que bastava o guia ter sabedoria, esquecendo-se de que, se o médium que faz o papel de instrumento não estiver bem preparado, pouco ou quase nada pode o guia fazer.
É como dar a um adolescente de hoje em dia, acostumado aos recursos de um microcomputador com acesso à internet, uma máquina de dactilografia para fazer os trabalhos escolares.
Tanto o adolescente como o guia terão de se adaptar às limitações do instrumento que, por ora, está disponível.
A dificuldade de Sandra agravava-se com a forte influência católica que tinha na sua concepção acerca do "pós-túmulo".
Acreditava na existência do céu católico com muitas nuvens, crianças, anjos e uma vida cheia de contemplação e de felicidade ao lado daqueles que nos precedem na viagem que não tem volta.
Entretanto ali estava, sentia sede, sentia frio, tinha necessidades fisiológicas, até aquele momento não tinha encontrado ninguém conhecido e ainda estava convalescendo da cirurgia!
Se aquilo era o céu, com certeza era bem diferente de tudo aquilo que lhe haviam ensinado.
Enquanto essas ideias iam sendo processadas na mente de Sandra, ela e Miquilina percorriam o corredor que levava à sala de atendimento aos recém-chegados do orbe.
— Bom dia, Sandra, como se sente? — saudou a enfermeira que veio ao seu encontro.
- Para faiar a verdade, não sei como me sinto... — respondeu com um suspiro.
É normal na sua situação de recém-desencarnada...
Venha, vamos ver como está esta cirurgia... — disse a enfermeira, convidando Sandra a entrar em uma espécie de consultório.
Tudo era muito limpo e claro, Miquilina acompanhou toda a consulta em silêncio.
A enfermeira observou a colostomia e os poucos hematomas que ainda tingiam os braços de Sandra.
Aplicou passes dispersivos com movimentos horizontais e uniformes, de modo a diluir as concentrações energéticas que moldavam aquelas marcas no corpo perispiritual da recém-desencarnada; logo depois, aplicou passes longitudinais ao longo de todo o corpo, visando a equilibrar o fluxo de energia, e terminou concentrando energias onde aparecia a marca da cirurgia.
— Por hoje é só.
Procure caminhar ao sol e, se sentir vontade, abrace uma árvore e procure assimilar a energia que dela provém... beba água em abundância e principalmente ore e se instrua de modo a adaptar-se quanto antes à sua nova condição — disse de forma simpática e serena a enfermeira Wanda, enquanto caminhavam para fora do consultório.
Sandra sentiu-se revigorada e bem disposta após o passe recebido.
Queria conhecer o local em que se encontrava, fazia um dia bonito e gostaria de aproveitar aquela manhã para fazer um reconhecimento de toda a área.
Miquilina observava em silêncio todo o processo mental de sua pupila; lentamente começou a utilizar a forma perispiritual de Preta Velha, pois essa era a vestimenta que apresentava normalmente na espiritualidade.
Um pano branco bem amarrado na cabeça dava um ar respeitoso ao seu andar altivo e a roupa tipo baiana combinava muito mais com sua personalidade cativante do que o uniforme de enfermeira que até então estava vestindo.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:49 am

— Posso fazer uma pergunta? — disse Sandra, levando a ponta do dedo indicador direito à boca, como se estivesse roendo a unha, um gesto característico que fazia quando queria ter um desejo realizado.
— Pode, claro que pode... — respondeu Miquilina, já adivinhando qual seria a pergunta.
— É assim que acontece com todos que desencarnam?
Todo mundo que trabalha vem para cá?
É aqui que é aquele lugar que chamam de "Nosso Lar"3?
Eu já passei pelo Umbral?
Sandra começou a lembrar de todos os fragmentos de informações que tinha, provenientes das escassas leituras kardecistas que fizera.
Miquilina suspirou enquanto cocava pensativamente a testa, antevendo o longo caminho a percorrer no aprendizado de Sandra.
— Temos que ir por partes, filha... — respondeu a Preta Velha, ajeitando o pano da cabeça.
...Cada desencarne é distinto, cada um faz a passagem de uma maneira; você aceitou resignadamente sua enfermidade, confiou na sabedoria divina, não se apegou ao corpo cansado e maltratado e desligou-se com facilidade.
— Então é para cá que vêm os médiuns que trabalharam?
— Sim e não.
— Não estou entendendo — Sandra comentou enquanto roía a unha do dedo indicador, apoiando o cotovelo nas costas da outra mão.
— Aqui é um plano espiritual para onde muitos desencarnados são encaminhados, mas não é o único.
Lembra que te falei que a mente molda nosso ambiente quando passamos para o lado de cá?
Você, ao desencarnar em decorrência de uma doença, continuou a plasmar sua existência dentro de um ambiente hospitalar.
É seguindo a lei de que os semelhantes se atraem, veio ser atendida neste plano espiritual em forma de hospital.
— Não entendo... o que é plasmar?
— Plasmar significa moldar, modelar.
A mente molda o corpo perispiritual.
É por isso que você ainda se sente operada, pois para sua mente você ainda está convalescendo e por isso tem as sensações que teria se ainda tivesse um corpo material.
— É para cá que vêm os médiuns depois que morrem?
Miquilina sorri o sorriso paciente das mães ao ensinarem as primeiras palavras aos seus filhos.
Senta-se no banco do jardim e convida Sandra a sentar-se também.
— Veja bem, para Deus não existem privilegiados.
Por isso, não existe um "céu para os médiuns que trabalharam" e outro lugar para aqueles que não trabalharam.
Também não existe um céu só para umbandistas, outro só para kardecistas, outro só para católicos, outro só para evangélicos... cada pessoa, ao desencarnar, é atraída magneticamente para o plano espiritual com o qual tem afinidade, independentemente da religião que professou na Terra.
Essa divisão só existe lá embaixo...
— Onde fica "Nosso Lar"?
— Nosso Lar é também um local como este, um plano espiritual que recebe recém-desencarnados.
— Os planos espirituais são sempre hospitais?
— Não, mas como o desencarnado precisa de um tempo para adaptar-se à sua nova condição, o ambiente assim cria uma atmosfera psicológica propícia para o restabelecimento.
O olhar de Sandra tornou-se melancólico ao lembrar-se daqueles que a precederam no desencarne.
Para Sandra, nada era mais importante do que a família.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 03, 2016 8:49 am

Seria capaz de tudo pela união, protecção e bem-estar dos entes queridos.
Gostaria muito de ter notícias de seus pais e, respirando fundo, conseguiu coragem para questionar a instrutora espiritual.
— Vovó... onde estão meus pais?
— Estão bem.
Vivem em outro plano espiritual, em uma colónia que trata de crianças desencarnadas.
— Crianças?...
— Sim, crianças... o trabalho do mundo espiritual é infindável!
Você verá... aquele céu de contemplação está longe daquilo que os trabalhadores encontram na realidade que fica escondida pelo véu da morte.
—... E por que ainda não vieram me ver? — perguntou Sandra com a voz embargada.
— Esperam que você esteja mais adaptada a este plano.
Não é aconselhável que as emoções do reencontro desequilibrem a sua constituição perispiritual... e também estão muito atarefados por lá...
— Atarefados?
Mas e EU? Eu sou da família!
Miquilina sorri diante da infantilidade da pupila.
Pega em suas mãos carinhosamente e responde com a paciência da semente que se rompe e fura a terra em busca da luz do sol.
— Criança... há muito que aprender... ou melhor, há muito que reaprender.
Para Deus, nosso Pai, não há privilegiados e todos somos família, já que somos todos irmãos, não acha?
É natural que os laços sanguíneos temporariamente criados na Terra ainda teimem em ser perpetuados do lado de cá, mas tenha a certeza de que, assim como você está recebendo muito amor e dedicação, muitos outros espíritos também estão recebendo de seus pais tratamento semelhante... e te asseguro, eles são verdadeiros mestres no trato com os pequeninos...
Sandra baixou os olhos húmidos e apertou com força as mãos da Preta Velha.
Entendeu que muitos conceitos começavam a ser por ela revistos a partir daquele instante.
Lembrou-se das palavras do dirigente do centro onde trabalhara:
"...Ouve e respeita sempre os mais velhos dentro do culto..."; bem, com certeza a autoridade da Preta Velha era inquestionável.
Suspirou e esboçou um sorriso.
— Ai, Vovó... tem paciência comigo, tá?
Miquilina afagou carinhosamente o rosto de Sandra, com um gesto a convidou para prosseguirem a caminhada pelo jardim do hospital.
A guia espiritual prosseguiu mostrando pacientemente para Sandra as diversas actividades que tomavam lugar naquele plano espiritual.
Entidades de Umbanda transitavam atarefadamente, eram Caboclos, Pretos Velhos Boiadeiros, Exus...
Sandra tudo observava com curiosidade.
Não tinha í menor ideia de como era a actividade dos guias quando não estavam incorporados.
Para ela tudo era novidade, e muitas dúvidas começaram a fervilhar em sua mente.
Miquilina adiantou a resposta para a pergunta que Sandra ia fazer.
— Calma... uma coisa de cada vez.
Você acaba de descobrir que desencarnou e já quer voltar à Terra?
Vem, vamos naquela direcção... tem alguém que você vai gostar de conhecer, ou será que é reconhecer?
Miquilina pronuncia essa última palavra com um sorriso maroto e Sandra teve a curiosidade atiçada.
Elas seguiram por um caminho que apontava para um lugar em que grandes árvores cresciam majestosas e acolhedoras.

3. Colónia espiritual, citada no livro Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier, editado pela FEB.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:27 am

CAPÍTULO VI - Reencontrando um amigo na floresta
Uma bonita e acolhedora floresta começou a descortinar-se diante de nossas duas personagens.
Mangueiras, eucaliptos, aroeiras, jequitibás, jaqueiras, ervas de toda espécie; o capim macio roçava os pés de Sandra e o forte cheiro de mato penetrava pelas narinas revigorando todo o seu organismo.
Sentiu-se levemente zonza e apoiou-se no braço de Miquilina, que, adivinhando sua inquietação, logo explicou:
— Não estamos mais no hospital.
Você sentiu a diferença vibratória ao transpormos o portal que separa o plano espiritual, onde estávamos, e este, em que agora estamos...
Apesar de serem próximos, a diferença vibratória é sensível.
Estamos pisando em solo sagrado, criança.
Estamos entrando nos domínios de Oxóssi e Ossãe.
Sandra sentiu o coração acelerado e parecia que a qualquer momento ele iria subir por seu esófago e sair pela boca, tamanha era a sua emoção.
Um misto de respeito e medo a fazia começar a perder a respiração.
Pequenos pássaros esvoaçavam por entre as copas das grandes árvores, emitiam sons como a darem sinais de que seu espaço havia sido devassado.
Vez por outra, um movimento na folhagem próxima dava a nítida impressão de que alguém as espreitava.
Assobios e estalar de galhos por toda parte faziam os cabelos de Sandra eriçarem-se completamente.
— Filha, acalme-se... — disse com voz macia, porém enérgica, Miquilina.
... A mata está sentindo o seu desequilíbrio.
Do que você tem medo?
Quando estiver pisando em solo sagrado, tenha a certeza de que nada pode te fazer mal, se você não veio para fazer o mal.
Isso é uma regra da magia... suas intenções te identificam e te protegem.
— Desculpe, Vovó... nunca senti a força da mata tão presente... tenho a sensação de que cada árvore, cada planta, até o vento daqui pulsa com vida.
E pulsa mesmo... até na Terra eles têm essa característica, acontece que na condição de desencarnada sua sensibilidade aumenta.
Você aprenderá a controlar e a conviver com essa sensibilidade da mesma forma que aprendeu a conviver com sua mediunidade, aprenderá que esses fenómenos são parte do nosso quotidiano e passará a vê-los como coisa muito normal.
Foram caminhando e, à medida que a mata se tornava mais espessa, maior era a vibração daquele lugar.
Sandra chegava a poder enxergar a aura de algumas plantas; o chão transmitia uma energia que envolvia seu corpo e a fazia sentir-se extremamente jovem e saudável.
Ao mesmo tempo que mantinha sua identidade, sentia-se cada vez mais parte integrante daquele mundo, podia saber com antecedência quando um pássaro iria cantar ou alçar voo.
Estava plenamente envolvida pela força da mata.
Chegaram a uma clareira.
O sol passava por entre as folhas por fachos de luz, dando ao local uma atmosfera ainda mais mágica.
O som de água correndo por entre pedras dava a certeza da existência de um rio nas proximidades.
Havia muita paz e harmonia naquele momento.
Sandra sorria, simplesmente sorria e admirava a paisagem.
Miquilina segurou sua mão docemente e elas pararam.
— Aqui é o máximo permitido para você, por enquanto — disse Miquilina solenemente.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:27 am

— Por quê? — perguntou Sandra sempre olhando em volta, querendo tudo observar.
— Chegamos a um ponto de nossa jornada, que é o máximo que você pode suportar de vibração.
Prosseguir nada adiantaria, você não irá conseguir assimilar, ainda, o que tem mais adiante.
— E o que tem mais para lá? — ela perguntou mordendo o dedo indicador, fazendo o gesto característico já conhecido de Miquilina.
— Estamos nas imediações das aldeias.
A intimidade dos caboclos e caboclas das matas, o elemento de onde eles retiram o seu axé e seu poder.
E lá onde eles recebem as instruções dos Orixás das florestas.
A vibração lá é poderosíssima e somente suportada por aqueles que têm o devido preparo, e isto envolve adiantamento espiritual para compreender tudo o que por lá é feito e dito.
— A senhora está falando da Cidade da Jurema?
Mas o que acontece por lá? — insistiu Sandra, com uma interrogação imensa no semblante.
— Como expliquei, é a intimidade deles... e ninguém invade a intimidade de ninguém, a menos que seja convidado e possa compreender o que lá dentro acontece.
A simples curiosidade não é boa companhia nessa horas, filha.
Satisfaça-se em poder chegar até aqui, nem todos os médiuns tem essa oportunidade.
O que acontece lá?
Bem, posso te adiantar que Jesus e os orixás se encantam na verdade e na simplicidade, creia que vezes os temos bem debaixo de nosso nariz e nem percebemos... bem, mais ou menos isso que tem depois desta clareira... muita verdade, muita simplicidade e muito, muito axé.
Sandra baixou os olhos compreendendo que por pouco não passara dos limites.
Sentiu um arrepio subir pelo braço esquerdo, lembrou-se de que esta era a primeira sensação que tinha quando seu caboclo estava prestes a incorporar.
Nesse momento, um estalo na folhagem próxima as fez olharem para a direcção de onde o ruído provinha.
A folha da guiné desprende forte odor quando manipulada, e, ao olharem na direcção do grande pé de guiné que balançava, de trás da touça saiu um homem que aparentava ter uns trinta e poucos anos, os cabelos lisos castanho-escuros caíam sobre os ombros, os olhos pequenos, o rosto quadrado, o tronco roliço, braços fortes e pele morena.
Tinha o peito nu e trajava um saiote de penas verdes.
No pescoço, uma guia verde com urna única conta branca; na mão, um ofá.4
Seu olhar era firme porém amigo.
Sua presença inspirava confiança e sinceridade.
Sandra reconheceu a entidade à sua frente e exclamou perguntando:
— Seu Pena Verde!?...
É o senhor??!
— Oke Caboclo! Salve Seu Pena Verde! — disse Miquilina, saudando com alegria a entidade que acabara de chegar.
O semblante do Caboclo abriu-se em um sorriso franco e ele estendeu os braços na direcção de Sandra.
Ela, num impulso, correu em sua direcção e o abraçou como uma criança abraça saudosa o pai que chega em casa, aconchegando-se no peito largo e acolhedor.
Seu Pena Verde foi o Caboclo que trabalhou com Sandra durante seu trabalho mediúnico.
Era um mensageiro de Oxóssi, o segundo orixá de Sandra.
Tinha grande conhecimento sobre o uso litúrgico e medicinal das ervas e raízes e poderia ter disseminado e utilizado este conhecimento por meio de sua mediunidade se ela tivesse se dedicado ao estudo e aprimoramento desse tipo de conhecimento.
Muitas vezes a forte intuição sobre o uso de determinada planta era abalada ou desacreditada pela própria médium, que desconhecia algumas plantas imprescindíveis ao ritual ou pelo medo de receitar um chá de alguma erva tóxica.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:28 am

Sandra ficava esperando que a incorporação inconsciente se desenvolvesse, para que o Caboclo pudesse agir sem sua interferência.
Entretanto, a inconsciência não chega e essa interferência precisa ser trabalhada de modo a ser positiva no trabalho mediúnico.
A mente do médium funciona como um imenso arquivo, uma base de dados que o guia precisa de modo a poder trabalhar mediunicamente na transmissão de mensagens e conselhos.
Sem essa base de dados, o guia simplesmente se restringe a aplicar passes e transmitir magnetismo.
Como Seu Pena Verde poderia receitar, por sua médium, chás e banhos com ervas que Sandra nem sabia que existiam?
Era preciso que ao menos os nomes dessas plantas estivessem guardados na mente de Sandra (na base de dados), para que o Caboclo pudesse efectuar a receita.
A falange de Caboclos e Caboclas agrega, em sua maioria, espíritos que tiveram experiências reencarnatórias em tribos indígenas brasileiras.
Foram sacerdotes, sacerdotisas, guerreiros, pajés, caciques e até mesmo indivíduos sem posição social ou política, proeminente em suas sociedades, pois o que permite o ingresso de um espírito em uma falange de Umbanda não é a sua posição social, e sim a sua disposição à prática da caridade e a obediência a Deus e aos Orixás.
A ideia que o umbandista tem do Caboclo é baseada em uma imagem daquilo que a maioria das pessoas tem do índio brasileiro, ou seja, muita coisa fica por conta de uma projecção imaginária de como seria um índio e da influência dos escritores românticos.
Interessante frisar que o vocábulo "caboclo" significa índio manso, logo, um índio que abandonou hábitos selvagens, como a antropofagia, aceitou as regras de convivência do branco e não se apresenta completamente despido, fala em Deus, Jesus Cristo e já não é um mensageiro de Tupã, mas sim de um orixá africano.
Se o umbandista fizesse uma pesquisa sobre os hábitos e história de nossas tribos, entenderia que a actuação do médium incorporado com um Caboclo tem muito mais influência africana do que indígena.
As danças apresentadas nos terreiros em nada lembram as danças apresentadas pelas diferentes tribos encontradas no Brasil.
Os pontos cantados e riscados também não fazem referência à grafia e simbologia encontradas em nossas tribos e, mais uma vez, demonstram forte influência dos orixás africanos.
O cocar, que alguns terreiros permitem ser utilizado por médiuns incorporados e que consiste em uma alegoria de penas dispostas verticalmente em torno da cabeça, também muito difere da variedade de adereços utilizados pela maioria das tribos brasileiras que os utiliza com outros tipos de plumas dos que são encontrados no comércio, com as penas dispostas em forma oval, emoldurando o rosto e não apenas o alto da cabeça.
Tudo isso, longe de desmerecer o transe mediúnico, somente demonstra quanto é forte e importante a influência do médium durante o transe, quanto é necessário o estudo para que o médium possa entender o que se passa com ele, o que ele representa e como ele é peça fundamental na desmistificação e esclarecimento de nossa religião.
Sandra tinha isso tudo passando em sua mente, ao mesmo tempo que se sentia extremamente feliz em poder estar frente a frente com seus guias. Ela afastou a cabeça do tórax do Caboclo, enxugando as lágrimas, e sorriu exclamando:
— Nossa... que surpresa... por essa não esperava... nunca imaginei...
— Seja bem-vinda à nossa mata espiritual — disse em tom solene o Caboclo.
— Obrigada, meu Pai... peço sua bênção...
Ela respeitosamente beijou a mão forte que enlaçava a sua.
— Que meu Pai te abençoe.
— Trouxemo-la aqui, para que a vibração local ajude a cicatrização do corte no intestino — comenta Miquilina com Pena Verde.
— Já estou sabendo...
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:28 am

Deixe ver como está... — Pena Verde aponta para o ventre de Sandra.
— Ela já iniciou o tratamento com passes no ambulatório do hospital... — disse Miquilina enquanto ajudava Sandra a deitar-se em uma grande pedra que estava forrada com folhas de bananeira.
Seu Pena Verde examinou com atenção a cirurgia, aplicou passes e auxiliou Sandra a ficar em pé.
— Está quase formoso... — disse ele para a recém-desencarnada — ...todo restabelecimento depende única e exclusivamente do paciente, portanto cabe a você fazer com que a harmonia permaneça contigo.
A enfermidade é uma desarmonia energética que tem raízes nas emoções descontroladas, no acúmulo de mágoa e raiva.
A maneira que o espírito tem de livrar-se dessa desarmonia energética é descarregá-la através do corpo material, e isso gera o desequilíbrio chamado pelos encarnados de doença.
Você expurgou, com o câncer que te consumiu as entranhas, grande carga energética em desequilíbrio; faça por onde não voltar a acumulá-la novamente.
Perdoe sempre e siga adiante.
— É, meu Caboclo, hoje entendo que confundi perdoar com simplesmente engolir as insatisfações, e de tanto "engolir", acabei prejudicando meu aparelho digestivo... percebi tardiamente que deveria ter procurado esclarecer assuntos que nunca ficaram resolvidos e eu pensava que bastava fingir que eles não estavam lá... o acompanhamento psicológico e as discussões em grupo no hospital é que me fizeram perceber isso.
— Isso mesmo, filha, os médicos e as religiões falam a mesma coisa, porém de maneiras diferentes... que bom que você entendeu a mensagem... não importa quem foi o portador..
Sandra observava atentamente a figura do Caboclo à sua frente, lembrou-se da imagem de gesso no altar que mantinha em casa e verificou que as duas figuras eram bem distintas.
A imagem de gesso tinha um imenso cocar verde no alto da cabeça, um saiote também verde.
Ajoelhado, segurava no peito com a mão direita uma pedra.
O caboclo à sua frente não usava cocar, tinha uma guia no pescoço, não segurava uma pedra, porém uma ferramenta do orixá Oxóssi.
Seu Pena Verde acompanhou o processo mental de Sandra e se adiantou à sua pergunta.
— As imagens de gesso, representando as entidades, nada mais são do que a representação de um dos componentes de uma vasta falange.
Existem vários espíritos que atendem pelo nome de Pena Verde, cada um é uma individualidade, cada um é uma personalidade distinta e cada um tem uma aparência diferente.
São espíritos que assumiram o nome do comandante de sua falange, o mesmo acontece com todos os outros guias de Umbanda.
— Quer dizer, então, que aquela imagem que tenho, quer dizer... tinha... lá em casa, não é o senhor?
— É um Pena Verde, mas como você pode observar não é a minha figura... você mesma sentia isso, quando incorporada percebia meus cabelos caindo nos ombros, sentia também os meus olhos miúdos diferentes dos seus grandes olhos.
— Eu sentia sim... e espremia os olhos sentindo eles se apertarem... mas também sentia alguma coisa em minha cabeça... achava que era um cocar, mas vejo que o senhor não usa nada na cabeça...
— Isso faz parte da participação da mente do médium na incorporação.
Para você e para muitas pessoas, índio só é índio se tiver pelo menos uma pena na cabeça... por isso você contribuía com aquilo que achava que era essencial para a figura de um indígena...
— Nunca tinha parado para pensar sobre isso... acho mesmo que nem me permitia pensar sobre isso... imagina!, eu interferindo na incorporação...
Começava a conscientização de Sandra em relação às responsabilidades do médium em sua jornada.
Miquilina e Pena Verde entreolham-se em uma muda comunicação.
Era hora de voltar para o hospital.
A Preta Velha informou a sua pupila que era hora de retornar; elas despediram-se do Caboclo e voltaram margeando o rio que corria límpido e sereno.
Sandra ainda pôde ver crianças brincando na beira da água e caboclas colhendo ervas e flores antes de ser repentina, mas sutilmente, transportada de volta para o jardim do hospital.

4 Ferramenta do orixá Oxóssi que simboliza um arco e uma flecha
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:28 am

CAPÍTULO VII - Lembranças de Sandra
Fazia seis meses desde a passagem de Sandra para o plano espiritual.
Ela já não tinha nenhum sinal de doença ou da colostomia.
Os passes e o tratamento à base de água solarizada, juntamente com as palestras e actividades do hospital, foram de grande ajuda no seu restabelecimento.
Ela ia gradativamente sendo envolvida pelas actividades ali desenvolvidas, mas não tinha ainda assumido nenhuma responsabilidade.
A espiritualidade não força ninguém a fazer aquilo que não quer ou que não está apto a fazer; ela espera que a própria pessoa entenda a necessidade de ser útil e de contribuir para a grande obra do universo, dando exemplos e ensinando no dia-a-dia, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos em doses homeopáticas de paciência e amor.
Sandra entrou no quarto, sentou-se na cama, olhou através da janela para o azul do céu que começava a tingir-se de cor-de-rosa com a aproximação do final do dia.
Tinha os olhos húmidos e o rosto abatido pela tristeza.
Levou a mão ao peito, suspirou profundamente, como se todo o ar da atmosfera pudesse caber dentro de si e chorou.
Grossas lágrimas lavaram seu rosto, embaralhando a sua visão.
Sentiu uma mão quente e amiga tocar a sua e tentou se recompor.
— Não deixe que o desequilíbrio se aposse de você dessa maneira, minha filha... — disse a voz pausada e amiga de Miquilina.
— Eu tento, Vovó... eu tento... mas há dias que sinto uma saudade tão grande de minha família, de minha irmã... chego a ouvir a voz dela me chamando... ouço aqui dentro de mim... parece que está faltando um pedaço meu que ficou lá na Terra... — respondeu Sandra, enxugando o nariz e os olhos com as costas da mão.
— Eu sei, filha, eu sei como é... isso acontece porque você está captando as vibrações do pensamento que sua irmã está emitindo.
Hoje faz exactamente seis meses que você desencarnou.
Sua irmã também sente sua falta e o pensamento e a saudade são a ponte que faz com que você sinta tudo isso que está sentindo.
Procure assimilar os pensamentos de amor que ela te envia, mas não dessa forma... procure fortalecer-se com a energia que deles provém, caso contrário você só consegue desgastar-se energeticamente.
— Mesmo estando com meus pais sempre que possível, sinto falta de minha irmã, de minha sobrinha...
— E de seu marido? — interrompe Miquilina.
...Você não se interessa pelo que se passa com Armando?
Você não perguntou sobre ele esse tempo todo...
O rosto de Sandra modificou-se.
Lembrar a figura de Armando não era a melhor das sensações para ela.
Seu esposo precedera-a no retorno ao mundo espiritual, porém para Sandra, longe de ser motivo de saudade e tristeza, a morte de Armando tinha sido uma libertação.
Armando foi um esposo extremamente violento e repressor, a máscara de educação e compreensão não resistiu muito além do primeiro ano de casamento para ceder lugar à sua verdadeira personalidade.
Conheceram-se quando ainda jovens em um baile de carnaval.
Era noite de sábado; ela, vestida de cigana; e ele, de marinheiro.
Jovens e cheios de vida, seus destinos mais uma vez se cruzavam para que pudessem resgatar antigas dívidas e equilibrar as emoções que mutuamente despertavam.
Na época em que Amanda era Jade e Urânia era Jane, Sandra era Lunda, uma escrava que prestava serviços dentro da casa-grande.
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