Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:53 am

— Bem, você fala que Mauro e essa...
Fabiana estão tendo um relacionamento, não é?
— Sim, eles estão.
— Mas você nunca viu os dois juntos.
Você não tem como provar.
Você apenas desconfia, certo?
— Mas, vó, eu sei que eles estão juntos... — respondeu Amanda com um gemido.
— Pare de gemer e me responda com sinceridade!
Você já viu os dois juntos em uma situação que os comprometa?
— Não — disse a neta com a voz sumindo.
— Olha só, se você quiser ter certeza de que ele é fiel ou de que ele é um safado...
Selma deixou no ar o suspense para testar se a neta estava mordendo a isca.
—Fala logo, vó!
Como eu faço para desmascarar os dois? — exclamou Amanda mordendo uma almofada.
— Podemos saber de tudo por meio dos guias lá do centro — sussurrou a avó, tentando dar um ar de mistério.
Essa não era bem a resposta que Amanda esperava e muito menos Zuma e Muzala, que perceberam de imediato as intenções de Selma.
— Lá vem a senhora de novo com esse negócio de ir ao centro.
Vó, eu não acredito nessas coisas.
— Tá bom, tá bom... pode não acreditar, mas que elas existem, existem.
Amanda voltou a deitar na cama e ao seu sofrimento.
Selma saiu do quarto com a certeza de que tinha apenas lançado sementes em um solo fértil, o tempo se encarregaria de fazê-las germinar.
Uma mulher ciumenta não resiste à tentação de verificar por meio do oculto se seu parceiro é infiel.
Fechou a porta do quarto e voltou para a cozinha.
— Mãe, que cara é esta? — indagou Urânia, ao ver Selma se ajeitando na cadeira com um sorriso no rosto.
Selma relatou rapidamente o que tinha ocorrido no quarto.
— Mamãe, como pode a senhora com essa idade inventando uma coisa dessas?
Mentindo para sua neta?
— Foi a maneira que eu encontrei para fazer com que ela se interessasse em ir ao centro, minha filha!
Tinha que encontrar um jeito de fazer com que ela fosse por livre e espontânea vontade.
O negócio é ela ir, depois a gente vê como vai ficar.
A estratégia de Selma teve efeitos que Zuma e Muzala definitivamente não gostaram.
Amanda era uma pessoa ciumenta, tudo o que os obsessores faziam era alimentar essa sua tendência para que seu desequilíbrio gerasse condições favoráveis para que eles manipulassem a sua vontade.
A filha de Urânia, por mais que não tivesse sido incentivada a frequentar centros ou qualquer outro local de religião, viu na proposta da avó uma grande chance para desmascarar a sua rival.
Muzala enviava ordens mentais para que ela não procurasse qualquer tipo de ajuda no centro; entretanto, o ciúme falava mais alto.
Ela levantou-se e dirigiu-se à cozinha sob o pretexto de beber um pouco de água.
— Vó, aquilo que a senhora disse é verdade?
— O que foi que eu disse, meu anjo? — disse a avó, servindo-se de uma xícara de chá.
— Que lá no centro podem dizer se o Mauro está com a Fabiana.
Selma arregalou os olhos enquanto sorvia o chá. Quase se engasgou,
pois não esperava que o efeito de suas palavras fosse chegar tão rápido.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:53 am

— É sim, minha filha... — disse Selma, enxugando o queixo com um guardanapo.
— Mãe... — disse Urânia sem olhar para a mãe, enquanto passava manteiga em um pedaço de pão, em tom de advertência.
— Como é que isso funciona?
O santo fala tudo o que a gente quer saber?
— Bem, Amanda... também não é assim.
Como fala tudo o que a gente quer saber? há coisas que eles não podem falar... mas há coisas que podem — respondeu a avó alisando a toalha da mesa.
— Mas como é que faz?
— Ah! Você tem de ir lá e falar com o médium.
— E como faço para saber se o que o médium fala é verdade?
— Nessa hora, você tem que confiar.
Entra aqui a questão de ter fé ou não ter fé.
E claro que você precisa analisar se as coisas que estão te falando fazem sentido.
Sempre analise tudo o que lhe é dito.
Essa é uma regra em toda comunicação espiritual.
Mas lá no centro, eu confio muito.
Lá eles todos participam de sessões de estudo.
— Sessão de estudo?!
Como é isso? — interferiu Urânia, pousando a xícara na mesa.
— Tem que estudar para ser médium? — perguntou Amanda, franzindo a testa.
Selma endireitou-se na cadeira, assumiu um ar sério e disse:
— Em uma conversa com D. Luiza ela estava me explicando que ser médium é ser um instrumento, um intermediário na comunicação entre os desencarnados e os encarnados.
Podemos comparar o médium a um aparelho de televisão.
Imaginemos que as emissoras de TV são os espíritos comunicantes e que os consulentes são os telespectadores.
Dessa forma, as emissoras de TV, que são os espíritos comunicantes, estão a todo tempo emitindo seus sinais no espaço.
Os aparelhos de TV, que são os médiuns, ao entrarem em sintonia com as emissoras, transmitem para os telespectadores, que são os consulentes, imagem e som.
Da mesma maneira que uma boa recepção de imagem e som depende do bom estado do aparelho de TV, a qualidade da recepção da mensagem transmitida pelo médium depende do bom estado do aparelho mediúnico.
Um aparelho de TV que é bem cuidado, limpo, tem seus fios e cabos em bom estado, tem a antena alinhada e bem conectada, de modo que não haja interferências em seu funcionamento, sua imagem tem equilíbrio de cores e contraste, e é livre de fantasmas e distorções, seu som é claro e regulado no volume e balanço.
Esse aparelho recebe boa manutenção.
Bem, os médiuns também precisam de 'manutenção' para que suas transmissões de mensagem sejam de boa qualidade.
A manutenção do médium é o estudo constante, o resguardo de determinadas actividades que possam comprometer a sua capacidade mediúnica, os banhos e os rituais propiciatórios, a assiduidade aos trabalhos, o cultivo de bons pensamentos, a boa vontade e muita humildade.
Dessa forma, o médium consegue a sintonia com seus guias, recebe e transmite mensagens com o mínimo de interferência.
Nunca o médium deve pensar que sabe tudo.
Sempre existe um aspecto ou outro no assunto mediunidade que desconhecemos ou dominamos pouco.
Não importa quanto tempo se tenha de experiência mediúnica, sempre existe algo a aprender.
Urânia e Humberto estavam boquiabertos durante toda a fala de Selma.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:53 am

— Minha nossa, mamãe!
Não sabia que a senhora estava tão bem informada assim.
Bem diferente dos tempos em que a senhora ajudava tia Sandra.
— Aqueles eram outros tempos, filha... é uma pena que sua tia não tenha encontrado um local como esse que agora estou frequentando.
D. Luiza me esclareceu muita coisa...
— Vó, eu não entendi metade das coisas que a senhora falou.
Quero saber o seguinte:
lá no seu centro vou saber o que eu quero?
— Digamos que você vai saber aquilo que precisa.
Melhor assim?
— Quando a senhora vai estar lá?
— Sábado que vem.
Quer ir comigo?
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:54 am

CAPÍTULO XXVII - A consulta de Amanda
Zuma e Muzala tentaram tudo para que Amanda desistisse de ir ao centro.
Fizeram com que tivesse uma noite cansativa e cheia de pesadelos, fomentaram um início de briga entre ela e Humberto.
Entretanto, Urânia e Selma conseguiram contornar todos os empecilhos provocados pelos obsessores.
— Filha, não vai tomar seu banho para irmos ao centro? — perguntou Urânia, parando na porta do quarto, ao perceber que Amanda estava tendo dúvidas quanto a ir ou não à sessão.
—Já vou, mãe... vai se arrumando que eu já vou—respondeu Amanda sem demonstrar muito interesse.
— Eu já estou pronta, Amanda.
Estou te apressando porque lá tem hora marcada para chegar e não se pode chegar atrasado.
— Acho que não quero mais ir — respondeu Amanda com afectação.
Urânia respirou fundo, ajeitou o coque, como sempre fazia quando
queria ordenar as ideias e entrou no quarto da filha.
— Veja bem, Amanda, precisamos colocar algumas coisas nos seus lugares.
Talvez eu esteja começando a ter essa conversa com você um pouco tarde, mas aprendi que as coisas só acontecem quando elas têm de acontecer.
— Não estou entendendo — disse Amanda, olhando a mãe de cima a baixo.
— Durante toda a nossa convivência tenho feito vista grossa para como você se desfaz das pessoas toda vez que se sente ameaçada.
— Mãe, não estou a fim de conversar agora — disse a filha de Urânia, jogando-se na cama preguiçosamente.
— Mas eu quero e vou conversar, queira você ou não.
— liiii...! Olha que vai acabar perdendo a hora da macumba, heim?!
— Amanda, eu não vou admitir que você fale comigo neste tom!
— Mamãe, a senhora é que nunca falou comigo nesse t... — Urânia interrompeu Amanda colocando o dedo indicador nos lábios.
— Calada, Amanda! Calada!
Agora eu estou falando.
E acredite, eu nunca falei tão sério em toda a minha vida.
— Você já não é mais a mesma.
Você mudou desde que começou a frequentar a macumba.
— A macumba abriu-me os olhos, Amanda... — disse Urânia com a voz mais calma.
Reconheço que errei quando te criei não tendo uma orientação religiosa.
Errei também quando cedia a todos os seus caprichos e deixei que você interferisse demais na minha vida com seu pai.
Preocupei-me em te dar educação formal, mas não consegui te passar a suficiente educação dos sentimentos.
Veja seu relacionamento com Mauro!
Esse seu descontrole só faz mal a você mesma, minha filha!...
Amanda baixou os olhos sem encontrar palavras para retrucar.
Urânia prosseguiu.
Sentou-se na cama ao lado da filha e tocou-a no queixo, levantando seu rosto gentilmente.
— Você tem um problema sério e precisa tratar-se.
Acredite, as figuras que vejo rondando você não são boas companhias e te fazem muito mal.
Afastei-me por muito tempo da orientação religiosa, por conta de minha própria incompreensão, mas foi a sua enfermidade que me abriu os olhos.
Acontece que somente você pode ajudar-se.
Quero te pedir um favor... vamos ao centro?
Submeta-se ao tratamento que vão te receitar e depois decida por você mesma se te fez bem ou não.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:54 am

— Mas, mãe, eu estava indo para saber sobre o Mauro e a cachorra.
— Mude esse palavreado, Amanda, não gosto do jeito com que você está se dirigindo a essa moça.
Quanto a saber sobre o Mauro e a Fabiana, não creio que lá naquele centro se prestem a te responder esse tipo de pergunta.
— Como assim? A vovó disse que...
— Foi a maneira que sua avó achou de fazer com que você se interessasse em ir ao centro, minha filha.
— Mas não é para isso que as pessoas vão à macumba?
Não é para saber se têm macumba em cima, para fazer macumba prós outros, saber se o marido bota chifres na gente, arrumar marido...
— Não, Amanda.
Não é para isso que as pessoas vão ao centro, pelo menos não a esse centro.
Sei que existem lugares que se prestam às mais variadas práticas, mas lá é diferente, você vai ver.
— Estou com medo de ir, mamãe... tem certeza de que eu preciso ir?
— E desde quando eu faço para você qualquer coisa que não seja necessária?
— Hum! Que esquisito, parece que esta cena já aconteceu antes — disse Amanda, sentindo os pêlos dos braços arrepiarem-se.
Urânia também teve a mesma impressão.
Acontece que elas tinham repetido o diálogo que tiveram quando Jane perguntou a Jade se a infusão de ervas que a irmã lhe oferecia era realmente necessária e sua memória reencarnatória foi activada dando a sensação de déjà vu.
A mãe duvidava que a filha fosse capaz de ir ao centro.
Só acreditou quando a viu sentada na assistência, aguardando o início da sessão.
Amanda estava apreensiva por desconhecer o ambiente.
Tinha a mediunidade em desequilíbrio, o que gerava nela um certo mal-estar por estar imersa em um ambiente cuja aura estava vibrando em uma frequência diferente da sua.
Não fosse ainda pela esperança de saber a verdade sobre Mauro e Fabiana, não teria sequer passado pelo portão do centro.
Tinha as mãos cobertas por um suor frio e seu coração teimava em bater fora do ritmo.
Zuma e Muzala embrenharam-se na escuridão do Vale das Sombras na tentativa de dificultar o trabalho das entidades que, sabiam com certeza, iriam ao seu encalço.
Pontualmente, às três horas da tarde, teve início a sessão.
Tudo corria tranquilamente e da mesma maneira que Urânia tinha visto na primeira vez que fora ao centro.
Seu Mata Virgem dirigiu-se a todos com uma mensagem sobre o cuidado que os adeptos das religiões afro-brasileiras precisam ter para com o meio ambiente.
De como, para as religiões que vivem das forças da natureza, é imperioso que haja uma conscientização sobre os perigos da poluição e dos maus-tratos que muitos adeptos ainda causam às matas, rios e mares.
Amanda estava muito incomodada, sua ligação com Zuma e Muzala não permitia que ela ficasse tranquila.
Levantava-se para ir ao banheiro, bebia água, ia até o lado de fora, sua cabeça parecia que ia estourar.
Tinha a impressão de que aquela tarde não teria fim.
Era uma sessão de Pretos Velhos e Urânia lembrou com saudades dos tempos em que sua tia trabalhava com Vovó Miquilina.
Enquanto isso, escondidos pela espessa bruma do Vale das Sombras, Zuma e Muzala ainda tentavam conectar-se telepaticamente com Amanda, na tentativa de que ela se sentisse tão mal que exigisse da mãe que a levasse de volta para casa.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:54 am

Sem que percebessem, uma solitária figura os observava em oração.
Amanda não via a hora de estar novamente trancada em seu quarto.
Naquela sessão também estava presente Sandra, que, acompanhada por Seu Pena Verde, observava o desenrolar dos acontecimentos.
Instruída por seus mentores, procurava enviar para a sobrinha pensamentos de confiança e de tranquilidade para que ela conseguisse captar os bons fluidos do ambiente e que permitisse receber a ajuda de que tanto precisava.
Seu Mata Virgem invocou para aquela sessão a vibração do orixá lemanjá, a mãe de todas as cabeças, mãe de todos os ori.11
Pediu por todos que se encontram em desequilíbrio, pelos loucos e obsidiados que pudessem, com a ajuda da mãe de todas as cabeças, encontrar a orientação para as suas. Urânia vislumbrou rapidamente, por sua visão mediúnica, que entidades de identificação feminina apareceram no ambiente, traziam conchas, algas, corais, água e energizavam todo o ambiente.
Uma sensação de bem-estar e de felicidade invadiu a todos que conseguiram sintonizar-se com a vibração ali presente.
Uma entidade aproximou-se de Amanda e aplicou-lhe passes em seu chacra frontal; ela sentiu um pouco de sono e acomodou-se no banco da assistência apoiando a cabeça no ombro de Urânia.
Selma batia palmas e cantava acompanhando com entusiasmo os pontos que eram puxados; ela sempre se envolvia e se emocionava quando lemanjá era reverenciada, pois era o orixá de sua saudosa irmã.
Logo após a desincorporação das lemanjás, Seu Mata Virgem deu início à chamada dos Pretos Velhos e Pretas Velhas.
Os cambonos começaram sua actividade posicionando os tamboretes que seriam utilizados pelos médiuns que dariam consulta, colocando-os nos devidos lugares em que eles se sentariam.
Traziam as sacolas com material dos Pretos Velhos, suas ervas e tábuas para que riscassem seus pontos.
Enquanto isso, as entidades iam incorporando em seus aparelhos, cada uma com seu trejeito.
Umas lentas, denotando o cansaço da velhice; outras já incorporavam sentadas devido à dificuldade que têm em caminhar; outras eram mais ágeis e até ensaiavam uns passos ritmados firmando seus trabalhos e espalhando energia por meio da dança ritualística.
Urânia lembrou-se da falecida tia e chorou silenciosamente enquanto Amanda cochilava em seus ombros.
À medida que iam incorporando, as entidades iam sendo atendidas pelos cambonos, ficando prontas para o atendimento aos consulentes.
Seu Mata Virgem despediu-se temporariamente dos médiuns presentes, desincorporou, e D. Luiza deu passagem para a incorporação de Pai Benedito, um simpático velhinho que com ela trabalhava.
A médium encurvou-se um pouco e caminhava como se toda a sola dos pés a incomodasse, ao mesmo tempo que seu semblante irradiava paz e sabedoria.
Um cambono trouxe o material do Preto Velho, ajudou-o a sentar-se em seu tamborete e, ao comando da entidade, começou a chamar os consulentes para as consultas.
Urânia despertou gentilmente a filha quando percebeu que estava chegando o momento de sua consulta.
Amanda levantou-se, foi até o banheiro e lavou o rosto.
Quando voltou para o salão, um cambono estava chamando o seu nome, que estava sendo lido de uma lista previamente preenchida pelos consulentes assim que chegavam no centro.
— Consulta com Pai Benedito de Aruanda, senhora Amanda! — chamou o cambono olhando para a assistência.
Urânia levantou o braço e apontou para a filha.
Elas se dirigiram para a médium incorporada próximo ao altar.
Amanda buscou a mão da mãe pedindo ajuda.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:55 am

Alguém trouxe mais um tamborete para Urânia, que se sentou ao lado de Amanda.
Ela sentou-se no banco em frente a Pai Benedito, que, pitando seu cachimbo, observava a jovem à sua frente.
A fumaça do cachimbo era espessa e perfumada, pois misturadas ao fumo havia folhas secas de alfazema.
D. Luiza reconheceu Urânia e imaginou que a jovem que a acompanhava era a filha de quem ela tinha falado e para quem foi feita a corrente de descarga com a peça de roupa.
Entretanto, deixou que o guia agisse, pois não era prudente atropelar a consulta.
Estendeu as mãos e Amanda, reticente, pousou suas mãos frias nas mãos da médium.
Um sopro gelado percorreu todo o corpo de D. Luiza.
Seus cabelos da nuca eriçaram-se e seus ombros estremeceram levemente.
Ela ficou zonza e precisou concentrar-se para manter seu equilíbrio.
Respirou fundo e olhou firmemente para a jovem à sua frente, seu rosto estampava receio e desconfiança.
Fechou os olhos e segurou com firmeza as mãos de Amanda, pedindo ao seu guia que a orientasse e que pudesse servir de instrumento de ajuda para o esclarecimento daquela jovem.
Sentiu a presença do Preto Velho mais forte e voltou a abrir os olhos.
Quando fitou novamente Amanda, pôde ver manchas escuras em várias regiões de seu corpo fluídico.
Havia manchas de coloração verde-escura e marrom na região do coração e do estômago; entretanto, onde havia maior concentração de manchas era em seu sistema nervoso central.
O cérebro de Amanda mal podia ser visto pela visão mediúnica de D. Luiza, pois estava todo tomado por um emaranhado marrom esverdeado que se assemelhava a uma teia pegajosa.
Pai Benedito esclareceu a sua médium que aquele material escuro era fruto da emissão constante de pensamentos de vingança, de frustração, de raiva e ciúme.
Amanda já trazia por si mesma a tendência à emissão desse tipo de pensamento; entretanto, seus obsessores potencializaram essa sua capacidade e ela, cada vez mais, envolvia-se nas emanações que ela mesma criava, tornando-se manipulada pelos seus perseguidores.
As manchas localizadas na região do coração e do estômago estavam alterando o giro dos chacras cardíaco e solar, tornando-os lentos e influenciando negativamente em sua acção sobre os órgãos a eles subordinados.
Se não houvesse intervenção adequada, o músculo cardíaco e os órgãos digestivos sofreriam alterações profundas em sua composição energética que gerariam doenças de diagnóstico difícil e impreciso pela ciência oficial.
O sistema nervoso central, congestionado pela presença da teia viscosa, teria as conexões entre as células nervosas alteradas, gerando uma espécie de curto-circuito que desencadearia reacções musculares semelhantes a um ataque epiléptico e que também acabaria por produzir nódulos e coágulos gerando condições propícias para aneurismas.
— Fia, há muito tempo que pricisava di toma um passe — disse o Preto Velho, depois de uns minutos que pareceram intermináveis para Amanda e Urânia.
Amanda olhou para a mãe com a expressão de quem não tinha entendido nada.
— Ele está dizendo que você precisava já há bastante tempo de tomar um passe — disse Urânia acalmando a filha.
— E por quê? — indagou Amanda.
— Pruque todos pricisam de ter uma orientação riligiosa, seje ela qual for.
A riligião dá pra suncês um sentimento de segurança e educa os instinto — disse Pai Benedito com simpatia.
— Mas eu estou bem... não estou precisando de nada — retrucou Amanda, revelando insegurança na voz.
— Fia sabe que isto num é verdadi.
Fia cresceu sem cunhecê as coisa di Deus, mas mesmo assim senti a farta dele na sua vida... só que a fia num sabe que senti farta.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:55 am

Se a fia tivesse um poquinho di fé, teria mais cunfiança em si mesma e num teria tanto medo di si relaciona cum as pessoa e cum os perna de calça.
Amanda olhou novamente para Urânia.
— Perna de calça — quer dizer homem... pessoa do sexo masculino — sussurrou Urânia.
O Preto Velho olhou dentro do copo de água que estava no ponto riscado e continuou com a consulta.
— Fia tem se sentido insegura com seu perna de calça.
Amanda teve sua atenção despertada pelo assunto que começava a ser abordado pelo Preto Velho e olhou admirada para a mãe.
— Nenhuma riligião foi criada para criar a descunfiança e a separação das pessoa.
O ócio faz cum que a cabeça dos fio fique vazia e dê lugá pra ideias que só trazem tristeza e aborrecimento.
Amanda tinha os lábios trémulos, não sabia por que, mas sentia um profundo respeito pela entidade que falava pela médium e estava emocionada, pois sentia que o Preto Velho podia lê-la como se fosse um livro.
Não conseguiu prender as lágrimas que correram lentamente pelo seu rosto.
— Chore, fia... chore sim, mas chore lavando sua alma.
Qui seu choro seje de desabafo e prepare o coração para o perdão e para a paz.
A fia pricisa de paz e paz só se consegue perdoando.
Ninguém podi dá aquilo qui num tem; como a fia quê té um namoro tranquilo se a fia num tem tranquilidade pra dar?
— Mas eu estou doente... eu estou afastada do meu serviço por problemas de saúde.
— Fia, pare de ter pena de si mesma.
Sua enfermidade é de origi espritual, a fia já foi avisada disso.
Até as dor de cabeça da fia são por conta disso.
Fia tem sido acumpanhada por entidades que te perseguem há muito tempo.
Essa perseguição é por vingança, fia... são espritos que buscam fazê justiça cum as própria mão.
Mas a fia num é tão inocenti como pensa.
Toda obsessão tem um motivo e só sofre de obsessão quem tem envolvimento com os obsessor.
Prucure lutar contra os sentimento de medo diante das novidadi da vida, tente ter mais carinho para com o pai de suncê, pense que sua saúde dependi principalmente de suncê mesma.
Pai Benedito aplicou passes dispersivos visando preparar a aura de Amanda para a corrente de descarga que lhe seria aplicada.
Receitou chá da erva Espinheira Santa para regularizar as funções do aparelho digestivo que ele detectou estar precisando de cuidados.
Ela levantou-se e voltou para a assistência, aguardando o momento da corrente de descarga.

11. Cabeça no idioma Yorubá.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:55 am

CAPÍTULO XXVIII - A primeira desobsessão de Amanda
Pai Benedito determinou que Amanda passaria por três correntes de descarga.
A dor de cabeça que ela sentia melhorou instantaneamente após o passe aplicado pelo Preto Velho.
Isso serviu para despertar um pouco a confiança de Amanda nos trabalhos que estavam sendo feitos, pois suas dores de cabeça costumavam durar pelo menos 24 horas e dessa vez a simples imposição de mãos aliviaram o seu mal-estar.
Ela sentou-se no banco e ficou pensando sobre como o Preto Velho poderia saber que ela estava com dores de cabeça.
Selma, não se contendo de curiosidade, perguntou o que o Preto Velho tinha dito e o que ela estava achando de tudo aquilo.
— Estou bem, vó.
Até minha dor de cabeça melhorou.
Não entendo algumas coisas, mas vejo que aqui é tudo muito tranquilo.
Esperava encontrar uma coisa mais tumultuada — disse Amanda, jogando os cabelos para trás, sem encarar a avó.
Selma entendeu que a neta estava bem, mas que não estava disposta a conversar.
Resolveu não insistir, pois preferia manter a neta tranquila até o final da sessão.
Amanda foi a única consulente indicada para as correntes naquela tarde.
Enquanto isso, logo após a determinação de Pai Benedito de que Amanda passaria pelas correntes de descarga, iniciaram-se as buscas aos obsessores.
A ligação entre Amanda, Zuma e Muzala deixava um rastro magnético que indicava a região do Vale das Sombras, onde eles se encontravam.
Zuma e Muzala corriam freneticamente por um terreno pantanoso e fétido.
Árvores com troncos retorcidos enfiavam suas raízes na lama como se fossem mãos se agarrando desesperadamente ao chão.
Ao longe se ouvia o latido de cães e o falatório de alguns homens, como se estivessem praticando algum tipo de caçada, dando aos algozes de Amanda a certeza de que alguém estava em seu encalço.
— Fuja, meu filho!
Fuja, porque agora nós somos o alvo — comentou Muzala, olhando para trás enquanto andava apressadamente.
— Veremos quem conhece melhor esse pântano... daqui eu não saio.
Na crosta era fim de tarde, mas no Vale das Sombras a atmosfera formada pelos pensamentos e emanações dos espíritos que ali viviam fazia com que a escuridão ali fosse permanente.
O pântano em que Zuma e Muzala foram buscar abrigo era conhecido como o Pântano da Noite Eterna, tamanha era a ausência de luz naquelas paragens.
— Enfim chegamos! — exclamou Muzala detendo-se na frente de uma árvore com um tronco gigantesco e que tinha uma abertura que lhe dava a aparência de uma caverna.
Aquele tronco servia de abrigo a várias entidades que, estando magneticamente ligadas ao pântano, ali se protegiam da chuva que caía diuturnamente.
Entraram apressadamente e procuraram aquietar-se como podiam, pois as entidades que já estavam ali não demoraram a demonstrar sua insatisfação em ter que dividir o espaço com mais aqueles dois.
Um enorme cão negro parou em frente à árvore onde Zuma e Muzala tinham se escondido.
Ele era preso por uma coleira e uma corrente cuja ponta era segura pelas mãos fortes de um homem alto de olhar penetrante, nariz em perfeita harmonia com os traços marcantes do rosto que era emoldurado por brilhante cavanhaque.
O cão sentou-se aguardando a voz de comando do homem que o controlava.
O homem deu um enigmático sorriso e soltou a coleira da corrente que controlava os movimentos do animal.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 12, 2016 9:55 am

Ao sentir-se livre, o cão entendeu a instrução e avançou para dentro do tronco da árvore à sua frente.
O alarido que isso provocou era ensurdecedor; entretanto, o animal não se abalou e seguiu farejando tudo e todos que encontrou até parar na frente de Zuma e Muzala que, acuados, não tiveram coragem de enfrentar o enorme cão que, rosnando e babando, não deu a eles outra chance senão esperar pelo que eles já sabiam que ia acontecer.
A um sinal da entidade que controlava o cão, dois homens que o acompanhavam entraram pela abertura na árvore e aproximaram-se de Zuma e Muzala.
Ao perceber que aquele era o momento de sua captura, Zuma deu um grito que mais parecia um brado de guerra e tentou partir para a luta corporal com os dois homens que se aproximavam, mas foi impedido pelo cão que, saltando sobre ele, derrubou-o prendendo-o ao chão.
Zuma debatia-se debaixo do animal que, rosnando, tinha-o sob suas pesadas patas.
Todas as entidades que assistiam à cena gargalhavam fartamente ante a queda de Zuma.
Somente Muzala, atónita, puxava os cabelos e olhava fixamente para o vazio.
Zuma foi envolvido em uma rede que lhe tolhia os movimentos e que somente podia ser desembaraçada pelos Exus que a utilizavam.
Muzala teve as mãos amarradas, porém não ofereceu resistência.
A estranha comitiva seguiu em direcção à crosta, enquanto no terreiro se preparavam para a corrente de descarga.
Pessoas que ficariam até o final dos trabalhos, mas que não passariam pela corrente, aguardariam do lado de fora, pois não é salutar que uma corrente de descarga seja feita na presença de pessoas que não trabalharão nela ou que não são necessitadas.
Nesse tipo de trabalho, entra-se em contacto com energias e vibrações perniciosas, e a curiosidade é completamente dispensável.
Amanda foi chamada a sentar-se em um tamborete que foi colocado no meio do terreiro.
Um médium aproximou-se e esclareceu-lhe calmamente que o trabalho que seria feito com ela era apenas uma limpeza que visava à sua reorganização energética.
Que ela procurasse se acalmar, pois estava entre amigos que só lhe queriam bem.
Apontou para o altar, onde se encontravam as imagens católicas e a orientou a fixá-las pedindo para que Deus se fizesse presente por intermédio de seus enviados e que ela, ao sair dali, estivesse melhor do que quando chegou.
Ela, meio ansiosa, em princípio, não registou muito do que lhe foi dito mas obedeceu às instruções recebidas.
Os médiuns deram as mãos à sua volta formando um círculo que tinha em seu centro a filha de Urânia.
Pai Benedito deu início à corrente entoando os pontos cantados característicos e os médiuns começaram a sentir o aumento da vibração.
Muzala foi a primeira a incorporar.
Foi trazida por um dos Exus que a capturaram.
A médium que lhe emprestou a constituição física assumiu uma expressão catatónica e caiu pesadamente no chão, ora gemendo, ora rindo desequilibradamente.
Zuma, revoltadíssimo, exigia mais cuidado da equipe espiritual.
Foi trazido por dois Exus que o seguravam fortemente.
A médium que o incorporou foi Vivian, que caiu debatendo-se e amaldiçoando tudo e todos.
Sandra observava, junto com Seu Pena Verde, em oração, todo o movimento daquele trabalho.
Foi quando então viu que ali também estava presente Miquilina e percebeu que a Preta Velha chorava discretamente.
Amanda também emocionou-se com o estado em que as duas médiuns ficaram.
Não entendia o porquê daquilo mas de alguma forma sentiu algo que não sabia identificar na presença dos dois espíritos que se apresentaram naquela hora.
Após os cânticos para incorporação dos espíritos perturbadores, Pai Benedito orientou que fosse feita a Prece de Cáritas.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:00 am

O doutrinador fez a prece comovidamente, enquanto no plano espiritual, dois Pretos Velhos aplicavam passes nos obsessores incorporados.
Aproveitavam as emanações provenientes dos encarnados presentes e as misturavam com emanações das flores e ervas utilizadas pelos Pretos Velhos durante a sessão.
Essa mistura de fluidos humanos e vegetais era absorvida pelas médiuns incorporadas com os obsessores e estes a absorviam pela ligação temporária de perispíritos.
O efeito dessa mistura nos obsessores era a de uma leve sonolência, para depois dar início ao reequilíbrio energético do perispírito que assumia coloração e textura de melhor aparência.
Os Pretos Velhos, responsáveis pelas médiuns que emprestaram seus aparelhos para o trabalho com os obsessores, incorporaram para que elas tivessem sua constituição reequilibrada.
Zuma e Muzala foram levados para um posto localizado nas imediações do Vale das Sombras, pois seus corpos perispirituais não permitiam que fossem levados a outro local que não ao Vale.
Amanda voltou para seu lugar na assistência sentindo-se leve.
Pai Benedito deu por encerrados os trabalhos daquela tarde e a sessão terminou com uma prece de agradecimento após a sua desincorporação.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:01 am

CAPÍTULO XXIX - Zuma e Muzala despertam
No dia seguinte, Amanda despertou com a sensação de que nunca tinha dormido tão bem em toda a sua vida.
Sentia-se revigorada aquele mau humor matinal tinha desaparecido.
Não percebo mas não estava com a mania de limpeza exagerada de antes.
A manhã domingo estava ensolarada e ela tomava o desjejum com os pais.
— Afinal, como foi a sessão ontem? — perguntou Humberto, enquanto passava manteiga no pão.
— Foi uma sessão bonita.
Lembrei muito de minha tia, quando começaram a cantar para os Pretos Velhos — disse Urânia.
— Mas... aconteceu alguma coisa? — comentou Humberto, fazer um gesto com a cabeça que apontava para Amanda.
— Foi receitado que ela passe por correntes de descarga, são um te de três.
Agora faltam duas.
— Então? — disse Humberto, virando-se para a filha.
O que você achou?
Como se sente?
— Não sei...
Amanda não estava acostumada a conversar com o pai em uma conversação normal, sem brigas.
—...eu não conheço esse tipo coisa.
— Mas você não pode negar que faz muito tempo que não saía quarto, que não tomava café connosco... — interferiu Urânia.
— Tá legal... mas não se pode afirmar que foi a macumba de ontem fez isso.
— Ah posso! Posso sim! — retrucou a mãe com veemência.
Como você explica sua dor de cabeça ter passado sem remédio?
Amanda não encontrou explicação para aquele argumento da mãe tentar mudar de assunto, assinalando como ela tinha mudado radicalmente sua opinião sobre a religião, quando o interfone tocou.
Era Selma que fazia anunciar.
Logo depois a porta da sala se abria e a avó de Amanda entrava trazendo nas mãos um livro.
— O que traz a senhora aqui tão cedo, mãe? — perguntou Urânia fechando a porta.
— Vim para saber de Amanda.
Ela melhorou?
— Estávamos justamente conversando sobre isso.
A meu ver ela está óptima, está bem melhor...
— E você, minha filha?
Como está? — Agora Selma se dirigia a Urânia, acariciando-lhe o rosto.
— Estou bem, mamãe.
Estou mais tranquila em ver Amanda melhor e sem a influência daqueles dois... — Urânia sussurrou essas últimas palavras referindo-se a Zuma e Muzala.
Não os estou vendo por aqui hoje.
***
Enquanto isso, no plano espiritual, no posto para onde Zuma e Muzala foram levados, solitária figura os observava com carinho.
Eles jaziam adormecidos, tendo um sono que há muito tempo não tinham.
Apesar de estar situado dentro do Vale das Sombras, a atmosfera dentro do posto era muito mais agradável que a atmosfera do Vale.
O clima de tensão e de ansiedade gerado pela escuridão eterna, pelos gemidos, gritos e gargalhadas que ecoavam na bruma espessa não ultrapassava os limites do posto que eram bem estabelecidos por fortes muros magneticamente imantados e guardados por experientes sentinelas.
Ao perceber que Zuma dava sinais de que iria despertar, a entidade que os observava deixou o quarto, enquanto um negro alto e forte entrou para atender Zuma, que se sentava na cama assustado.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:01 am

Devia ter uns 45 anos, media 1,90 m, tinha enormes braços musculosos, mãos de gigante, completamente calvo, olhos que reflectiam um brilho inteligente e um sorriso amigo, porém firme, denotando determinação e coragem.
Aproximou-se de Zuma e saudou-o com um aceno de cabeça.
— Onde estou?
O que quer de mim? — perguntou Zuma sem encarar o homem à sua frente.
— Bom dia — disse homem com sua voz grave e aveludada.
Você está em um dos postos de atendimento que ficam dentro do Vale das Sombras.
Fique tranquilo, pois queremos apenas o seu bem-estar.
— Bem-estar... bem-estar... todos vocês têm a mesma conversa.
Não quero que queiram meu bem-estar.
Quero que me deixem em paz.
— Se você quer realmente paz, deveria buscá-la nas mais corriqueiras acções.
Não me parece que suas actividades sejam as mais pacíficas.
— Vai começar a me julgar agora?
Pensei que os espíritos de luz não eram afeitos a julgamentos do próximo... espere um pouco... estou te conhecendo... — disse Zuma, tendo os olhos, ora fixando aquelas mãos, ora fixando a sua brilhante careca.
Você estava ontem no pântano.
Você é um dos que entraram na gruta com aquele animal.
Seu Marabô deu um largo sorriso, denotando ter o completo controle da situação.
Olhou Zuma directamente nos olhos e disse:
— Exactamente, sou eu mesmo.
Deixe-me esclarecer que não estou aqui julgando ninguém, não é minha função julgar, mas sou um daqueles que executam a justiça.
Sou um Exu, apenas cumpro meu papel de zelar pela ordem e pela justiça.
— Exu? Onde estão os chifres e o rabo? — perguntou Zuma com desdém.
— Não temos chifres nem rabo e você sabe muito bem disso.
Seus conhecimentos sobre a vida do lado de cá do túmulo vão muito além do que você pensa em querer deixar transparecer.
Sabemos de seus poderes de hipnose e manipulação da plástica perispiritual.
Zuma encolheu-se abraçando os joelhos, como se fosse um animal que tentava se esconder.
Seu olhar demonstrava estar avaliando a melhor maneira de sair daquele local.
— Não sei do que o senhor está falando — disse Zuma, demonstrando falso respeito depois que foi informado de que estava diante de um Exu.
— Não se faça de tolo.
Você sabe muito bem do que estou falando.
Zuma mal conseguia dissimular o sorriso de deboche, pois sabia que não adiantaria tentar esconder-se atrás de uma capa de falsa ingenuidade.
Nesse momento, Muzala despertou e assustou-se ao também reconhecer em Seu Marabô a mesma entidade que entrou na gruta na companhia do enorme cachorro.
O Exu apresentou-se novamente, informando a sua função dentro do posto e especificamente dentro do tratamento de Amanda.
Esclareceu que aquela perseguição já estava se estendendo por muito tempo e que a intervenção estava sendo feita por pedidos de ajuda vindos tanto de encarnados como de desencarnados.
Ofereceu a ajuda e o abrigo do posto, pois seria bem mais fácil, para todos, se eles cooperassem.
— Nunca! — esbravejou Zuma.
Perdoar? Aquela víbora não merece perdão... não me venha pedir em favor dela, o senhor mesmo deve saber o que ela fez com a própria irmã.
— Tanto sei que posso te dizer que aquela que foi irmã, agora é a mãe.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:01 am

Você está parado no tempo, Zuma.
Essa vingança paralisou você no passado e te impede de enxergar como o tempo muda tudo, como as pessoas amadurecem, erram e acertam — respondeu serenamente Seu Marabô.
— Pedidos vindos de desencarnados? — sussurrou Muzala consigo mesma.
— Estou comunicando a vocês que com a sua cooperação tudo ficará mais fácil... mas o livre-arbítrio dá a vocês a opção de escolha.
Podem até voltar para o Vale se assim o decidirem, mas eu aviso:
assim como os capturamos uma vez, faremo-lo quantas vezes for necessário.
— Pedidos vindos de desencarnados?... será que...? — continuava a sussurrar Muzala.
Na casa de Urânia, o café da manhã prosseguia.
Amanda estava visivelmente mais simpática e acessível, demonstrou interesse pelos acontecimentos do dia anterior e fazia perguntas que Selma respondia com alegria.
Urânia já tinha acabado seu desjejum e apenas ouvia a conversa entre sua filha e a avó, aproveitando para aprender um pouco com o que a mãe tinha para contar.
Enquanto ouvia a conversa observou sobre a mesa o livro que Selma tinha levado e começou a folheá-lo.
Quando deu por si já tinha lido toda a introdução e o primeiro capítulo, e perguntou para a mãe:
— Mãe, que livro é este?
— É um romance, mas é um livro muito didáctico para quem quer aprender sobre a Umbanda.
— É seu? — perguntou Urânia sem tirar os olhos das páginas.
— É sim, comprei lá no centro.
— Empresta-me?
Estou gostando da história.
— Eu o trouxe justamente para isto.
Estava para trazer este livro há mais tempo, mas sempre esquecia de trazer.
— Que livro é esse? — perguntou Amanda, interessando-se pela conversa.
— Chama-se É Preciso Saber Viver,12 é muito interessante.
Urânia debruçou-se sobre o livro, Selma e Amanda voltaram a conversar, enquanto Humberto lavava a louça do café da manhã.

12. Romance mediúnico, escrito pelo autor desta obra, lançado pela Madras Editora.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:01 am

CAPÍTULO XXX - A segunda desobsessão de Amanda
O domingo e a segunda-feira passaram sem novidades.
Na madrugada de terça-feira, Zuma e Muzala deixavam o posto para desaparecerem na escuridão do Vale.
Não deram ouvidos aos avisos de Seu Marabô, que voltou a avisá-los de que, se insistissem na vingança, seriam novamente capturados, de que poderiam ficar no posto desintoxicando o perispírito das vibrações do Vale para depois serem transferidos para outro plano espiritual.
Eles, sem olharem para trás, sumiram na bruma que tudo envolvia e não tardaram a procurar por Amanda, que dormia tranquilamente.
Ela despertou no meio da noite, sobressaltada e suando frio; sentia que alguém a observava, mas olhava à sua volta e nada via de anormal.
Levantou-se, foi até a cozinha e tomou um copo de leite.
Voltou para o quarto porém não conseguiu ter um sono tranquilo, acordou várias vezes; e ter o descanso interrompido dessa forma rendeu-lhe uma pequena dor de cabeça, que afectou seu humor matinal.
Passou o dia calada e preocupada com a assepsia de suas mãos.
Urânia gelou quando, ao entrar no quarto para verificar se a sua dor de cabeça tinha passado, viu Muzala acocorada no canto com seu olhar de louca a observar Amanda.
Correu para o telefone e ligou para Selma, que disse de certa forma já esperar por isso.
— Como assim, mamãe?
Ela não está passando pelas correntes de descarga? — indagou Urânia indignada.
— Sim, minha filha, está sim.
Porém esse é um tratamento que depende muito do doente.
Amanda e os obsessores têm vínculos que só se Desfazem com o esforço dela em melhorar.
Os obsessores ficam irritadíssimos quando sua vítima recebe ajuda e fazem de tudo para prejudicar o tratamento.
Não se assuste se ela tiver uma recaída.
— Ai, meu Deus!
E eu que pensei que tudo estava bem.
— Tudo está bem, Urânia.
Tenha calma, confie no tratamento que está sendo feito.
Urânia desligou o telefone preocupada com a filha.
Passou o dia apreensiva, vendo com tristeza Amanda voltar pouco a pouco à mania de limpeza e a trancar-se no quarto mal-humorada e inacessível.
Lembrou-se de D. Luiza e procurou agir como ela faria, decidiu que não perderia a calma.
Elevou o pensamento em oração e invocou a protecção dos guias espirituais para que o melhor acontecesse, que Amanda tivesse forças para resistir àquela retaliação.
Os dias arrastaram-se pesadamente enquanto Amanda oscilava entre as atitudes provocadas pela influência dos obsessores e as provocadas pelas advertências de Urânia, que procurava chamar a filha à normalidade sempre que via que ela estava passando dos limites, pois sabia que, ao falar com a filha, estava também falando com os obsessores.
Zuma e Muzala não percebiam, mas a casa de Urânia estava sendo frequentada por outras entidades que, por vibrarem em sintonia diferente da sua, não eram por eles notadas.
Seu Marabô observava-os de perto, aplicava passes dispersivos em Amanda, o que não permitia que seu sistema nervoso ficasse novamente congestionado.
Miquilina e Seu Pena Verde também vinham e concentravam seus esforços em aplicar passes em Humberto, procurando influenciá-lo com pensamentos de paciência e tolerância para com a filha.
Os obsessores perceberam que já não tinham o domínio que estavam acostumados a ter, e isso os frustrou sobremaneira, fazendo com que eles ficassem muito mais tempo em contacto com Amanda
tentando controlá-la.
Chegou o sábado e Urânia via preocupada que Amanda não demonstrava a menor intenção de ir à sessão.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:01 am

Foi Humberto que, influenciado por Miquilina, aproximou-se da filha e pediu que terminasse o tratamento que tinha iniciado, que atendesse ao pedido da mãe e que ele mesmo se comprometia a mudar sua atitude, sendo mais compreensivo e mais amigo.
Essa atitude espontânea de Humberto sensibilizou Amanda e diminuiu ainda mais a influência de Zuma e Muzala, pois fez com que ela aceitasse continuar com seu tratamento espiritual.
Antes que Zuma proferisse uma praga, Seu Marabô e outro Exu fizeram-se visíveis aos obsessores de Amanda e os capturaram, imobilizando-os com uma espécie de algema magnética.
Com um leve gesto de Seu Marabô, os Exus e obsessores foram teletransportados para o terreiro, onde já havia grande movimento tanto de encarnados como de desencarnados que tratavam dos preparativos de limpeza arrumação e rituais específicos de firmeza do terreiro; os desencarnado:
preparavam magneticamente o ambiente e já tratavam da vigilância espiritual.
Zuma e Muzala não suportaram a movimentação inesperada e veloz no espaço tempo e desfaleceram por alguns momentos.
Quando despertaram, perceberam que tinham sido capturados e que não conseguiam sair de uma área limitada por uma grade magnética que os impedia de sair.
Virai que estavam no terreiro e logo perceberam que de nada adiantaria a sua revolta, pois a força ali presente era maior do que a deles.
Muzala acocorou-se em um canto e Zuma andava de um lado para o outro como uma fera enjaulada.
Com a retirada dos obsessores, o ambiente na casa de Urânia melhorou e Amanda sentiu-se melhor para poder ir à sessão.
Humberto resolveu que também iria, pois fazia muito tempo que não se consultava ou tomava um passe.
Selma não conseguia esconder a satisfação em ver toda a família mobilizada em favor de Amanda.
Entrou no salão reservado para a assistência toda empinada ao lado da filha, do genro e da neta.
Sandra também estava presente e emocionada com o envolvimento de Humberto.
— Veja como Deus usa o mal para fazer o bem, minha filha — disse Miquilina para Sandra.
A obsessão de Amanda está sendo um veículo para aproximar Urânia e Humberto do caminho religioso.
— É verdade, vovó.
Apesar de originada pela vingança e pelo ódio, a obsessão de minha neta fez despertar a fé de minha sobrinha e aproximou pai e filha.
A sessão já estava começando.
A música da Ave-Maria já preenchia o ambiente e todos se calaram em respeito e concentração.
Era uma sessão de Boiadeiros, o ambiente espiritual estava repleto de entidades de aparência simples.
Eram entidades provenientes de várias partes do território nacional.
Tinha desde o gaúcho dos pampas até o nordestino; tinha o peão do interior; tinha o homem simples do campo, iletrado, mas cheio de sabedoria.
Como de costume, foi feita a leitura de um texto espiritualista antes da chamada do guia-chefe.
Seu Mata Virgem também proferiu uma mensagem de alerta e incentivo aos jovens, que sempre respeitassem a autoridade dos mais velhos e que aliassem às suas forças a sabedoria daqueles que têm mais tempo na caminhada do mundo.
Os trabalhos foram firmados sob imantação de Omulu, o orixá que rege a saúde, os órgãos e seu funcionamento.
Orixá responsável pelas doenças e sua cura, é o senhor da transformação, da terra e das camadas do interior da terra.
O Caboclo dedicou aquela sessão a todos os enfermos e agonizantes para que Omulu lhes brindasse com o descanso ou a cura necessária.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:02 am

Amanda sentiu novamente aquele sono incontrolável e, apoiando a cabeça no ombro da mãe, cochilou até que fosse chegado o momento de sua consulta.
Inconsciente e parcialmente liberta de seu corpo, ela recebia passes que eram aplicados
em seu sistema nervoso directamente no perispírito.
Despertou naturalmente quando sua vez de ser consultada estava próxima.
Consultou-se com o Boiadeiro de Vivian, que praticamente repetiu a consulta dada por Pai Benedito na semana anterior.
Depois do passe aplicado pelo Boiadeiro, Amanda sentiu um bem-estar muito grande, gostou da abordagem e da linguagem objectiva da entidade.
Como de costume, à medida que as pessoas iam se consultando, retiravam-se e somente poucos assistentes permaneciam até o final da sessão.
Acabaram-se as consultas e era chegado o momento das correntes de descarga.
Os Boiadeiros desincorporaram, Amanda e mais dois homens que também ficaram para passar pela corrente foram convidados a sentarem-se no meio do terreiro.
O Boiadeiro do Sertão, entidade que trabalhava com D. Luiza, estava no comando e solicitou que os médiuns dessem as mãos em volta das três pessoas ali presentes.
Iniciaram os cânticos próprios das correntes e os médiuns iam incorporando as entidades que eram ali levadas para doutrinação.
Zuma foi o último a incorporar, debatia-se e gritava demonstrando o descontrole das emoções.
Seu Marabô tinha-o sob controle, enquanto Muzala estava sob a responsabilidade do Exu que acompanhava Seu Marabô naquela missão.
Durante a feitura da prece, os médiuns em concentração procuravam vibrar com harmonia e perdão, tentando transmitir esses sentimentos para as entidades ali incorporadas.
Flocos de luz caíam sobre os presentes e tinham efeito calmante nos obsessores.
Muzala respirou fundo e adormeceu nos braços da entidade que a amparava; Zuma levou um pouco mais de tempo, mas acabou sucumbindo ao efeito calmante dos fluidos que caíam generosamente sobre todos.
O Boiadeiro do Sertão convocou novamente a presença dos Boiadeiros para o encerramento daquela corrente.
À medida que os obsessores eram desconectados da ligação com os médiuns que os incorporaram, os Boiadeiros incorporavam em seus aparelhos reequilibrando seu fluxo energético, retirando resíduos espirituais, e também limpavam o ambiente.
Bradavam como se estivessem tocando uma boiada imaginária, controlando os animais e encaminhando-os para que não ficassem dispersos no campo.
Outros rodopiavam pelo terreiro espalhando fluidos de vitalidade; a vibração era quase palpável.
Amanda saiu daquela sessão confiante e tranquila.
A consulta dada pelo Boiadeiro da Calunga deu-lhe esclarecimentos sobre o conturbado relacionamento entre ela e o pai, a cumplicidade entre ela e a mãe e a perseguição espiritual que ela sofria. Não entrou em detalhes, mas esclareceu como as encarnações anteriores influenciam a actual encarnação e a importância da reencarnação e do esquecimento para que o perdão e o entendimento possam acontecer.
Ela passou a olhar Humberto com outros olhos; o facto de ele ter se disponibilizado a participar do tratamento espiritual fez com que a distância que havia entre eles começasse a diminuir.
Iniciava-se ali um novo capítulo na vida de Amanda.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:02 am

CAPÍTULO XXXI - O Perdão
A Zuma estranhou não terem sido levados para o posto como foi feito na primeira vez.
Depois que foi desconectado de Vivian, foi conduzido, juntamente com Muzala e os outros obsessores, pelos Boiadeiros e Exus por uma fenda que se abriu na porteira enquanto os pontos de fechamento da corrente eram entoados.
Zuma entendeu que aquela passagem era um portal que ligava o plano material e o plano espiritual, uma espécie de atalho controlado pelos Exus, os Senhores de todos os caminhos.
Não tinha opção a não ser obedecer à poderosa falange que ali se encontrava, pensou que seria levado novamente para o posto e que a doutrinação continuaria na espiritualidade.
Resolveu que fingiria arrependimento para que o deixassem em paz e tivesse logo uma oportunidade de fugir.
Para sua surpresa, ele e Muzala não foram conduzidos ao posto. Foram deixados sozinhos nas imediações do Pântano da Noite Eterna.
Ao perceberem-se livres, novamente entraram no pântano e procuraram abrigo na grande árvore, julgaram que não seria prudente procurar Amanda naquela noite, pois, com certeza, tinham saído da sessão acompanhados por algum espírito protector.
Confiavam na força do tempo, Amanda não conseguiria manter pensamentos de harmonia e perdão por muito tempo.
Bastaria um pouco de contrariedade, dor ou a lembrança de que Mauro devia estar adorando estar sozinho, para que seu padrão mental voltasse a sintonizar-se com o deles e assim tudo voltaria ao começo.
Amanda não teria paz.
Urânia não conseguia esconder a satisfação em ver Humberto mobilizado com o tratamento de Amanda.
Até então ele demonstrava interesse perguntando o que poderia ser feito, incentiva-a a ir ao centro e até deixou de retrucar tudo o que a filha falava, mas era só isso, não havia por parte dele uma acção que realmente o envolvesse.
Ela vivia desde o nascimento da filha entre o fogo cruzado de ciúme e acusações de Humberto e Amanda, e essa era a primeira vez que o clima entre os dois anunciava tempos de paz e tolerância.
O passe também fez bem a Humberto, que acordou bem disposto e andava cantarolando pelo corredor em direcção à cozinha onde Amanda e Urânia já estavam preparando o desjejum.
Nesse momento, Zuma e Muzala também chegaram e já foram preparando o ambiente para iniciar uma discussão entre pai e filha.
Sabiam que Humberto não gostava que desarrumassem o jornal antes que ele o lesse.
Viram que Amanda vinha com a leiteira fumegante para colocá-la sobre a mesa, entreolharam-se com cumplicidade e Muzala, aproximando-se de Amanda, pôs a mão na base da coluna da filha de Urânia, liberando uma descarga de fluidos que, ao serem absorvidos pelo chacra básico, subiram pela coluna provocando um estremecimento do corpo que se irradiou pelos braços.
Amanda sentiu algo como um calafrio e um susto que fizeram com que soltasse a leiteira, derramando todo o leite sobre a mesa, encharcando o jornal de domingo que Humberto fazia questão de ler cada linha, cada anúncio, cada matéria.
Tudo foi feito para parecer que Amanda tinha se assustado com a entrada do pai na cozinha.
Em outra oportunidade, Humberto aproveitaria esse acontecimento para iniciar sua série de acusações e piadinhas sobre a capacidade da filha em gerenciar coisas corriqueiras, sua inteligência e até mesmo dizer que ela o tinha feito de propósito somente para ter o prazer de vê-lo contrariado.
Urânia ficou parada, observando a reacção dos dois.
Amanda inicialmente deu um salto para trás, afastando-se do leite quente que entornava, e logo depois esticou-se para tentar salvar o jornal do pai.
Humberto parou na porta da cozinha, em sua mente tudo passou em fracções de segundo.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:02 am

Viu a cena de mais uma briga entre ele e a filha, um domingo estragado pelo clima que decorreria dessa briga, Urânia, desconcertada e infeliz, tentando servir de ponte entre ele e Amanda; ao mesmo tempo, viu-se novamente no terreiro e lembrou-se da consulta que recebeu do Boiadeiro do Sertão.
"O moço vai pricisá de muita paciência, a cura da sua fia vai depende de sua ajuda.
Os obsessô sabe que seu pavio é curto e vão fazê de tudo para provoca brigas e dicussão entre ocês dois.
As coisa mais boba, que parece comum, pode servi de desculpa para um desentendimento e assim o moço e a fia se desequilibram e os obssesô encontram campo para continua a perturbação.
Quero que o moço pare de pensa que tudo o que fia faz é para competi com ocê.
Cada um tem seu lugá no coração da esposa e da mãe.
Tem o lugá do esposo e o lugá da fia.
Esta encarnação é mais uma oportunidade para que ocês entendam isso.
Se o moço quer paz, seje o primero a pedir e a fazê a paz."
Ao lembrar-se dos conselhos recebidos no dia anterior, seu rosto, que tinha se congestionado levemente, distendeu-se em uma expressão serena e exclamou:
— Cuidado!
Não se preocupe, é melhor comprar outro jornal... não quero que se machuque!
— Desculpa... — disse Amanda em um lamento, segurando o jornal ensopado pelo leite que escorria, formando uma poça branca no chão.
Foi sem querer... levei um choque e não consegui manter a mão fechada para segurar a leiteira... não sei o que aconteceu...
— Não faz mal, podemos comprar outro jornal... você está bem? Não se queimou? — disse Humberto, aproximando-se da filha e observando suas mãos.
— Estou bem... mas olha só o estrago que fiz...
— Não faz mal, vamos limpar para podermos tomar nosso café tranquilos — completou Humberto com sinceridade na voz.
Urânia aproximou-se e começou a limpar a mesa, Amanda limpava o chão e Humberto desceu para comprar outro jornal na banca em frente ao prédio.
Elas limparam tudo enquanto Zuma e Muzala estavam boquiabertos, olhando tudo o que eles menos esperavam acontecer bem diante dos seus olhos.
Logo depois Humberto voltou trazendo outro jornal, foi até o tanque na área de serviço, lavou as mãos e sentou-se à mesa.
Tomavam o café calados, quando Amanda quebrou o silêncio:
— Pai, eu quero dizer uma coisa... — disse, pigarreando.
— E o que é que você quer dizer? — disse Humberto sem tirar os olhos do jornal.
— Eu quero dizer que foi muito bom o senhor ter me pedido para ir ao centro ontem.
Foi muito bom também o senhor ter ido ao centro.
A consulta que tive ontem foi a complementação de todos esses anos que fiz de análise.
Toda essa coisa de religião é nova para mim, não entendo muito dessa história de reencarnação, mas percebi que precisamos nos dar uma chance, que não podemos desperdiçar a oportunidade que estamos tendo de viver como pai e filha e precisamos nos entender...
Enquanto Amanda falava, os olhos de Humberto foram lentamente deixando o jornal e pousaram no rosto da filha que o fitava com segurança.
— Eu pensava que o senhor não se importava comigo... — continuou ela.
Mas o seu pedido para que eu continuasse com o tratamento mudou minha opinião.
Eu quero a partir de hoje viver em paz com meu pai.
— Mas eu sempre me importei com você, minha filha... — disse Humberto depois que engoliu em seco.
Eu também reconheço que nunca permiti que nos aproximássemos.
Nunca fiz análise, mas sei muito bem que o que interferiu em nosso relacionamento foi o ciúme que sempre senti de você com sua mãe... eu sempre me senti de fora desse relacionamento e isso me incomodava muito... a consulta que tive ontem também me abriu os olhos.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 13, 2016 10:03 am

Eu sempre quis me aproximar de você, só não sabia como.
Urânia nada disse.
Apenas chorou silenciosa e tranquilamente enquanto ouvia o marido e a filha, finalmente, começarem a se entender.
Agradeceu a Deus e aos guias por aquela vitória, só esperava que não fossem apenas belas palavras que o tempo se encarregaria de apagar.
Zuma e Muzala tentavam sintonizar com a mente de Amanda para influenciar-lhe a disposição e fazê-la entender a resposta do pai como mais um deboche.
Foi quando ouviram uma gargalhada que fez o ar estremecer, olharam em volta, e subitamente por trás deles Seu Marabô surgiu com seu largo sorriso mostrando uma fileira perfeita de dentes brancos que contrastavam com sua pele negra.
— Desapontados, meus caros? — disse o Exu em tom debochado.
Eles viraram-se para a direcção de onde vinha aquela voz.
— Parece que seus planos sofreram alterações, não acham?
— Veremos até quando essa trégua vai durar — retrucou Zuma.
— Não é uma trégua — disse Seu Marabô.
É um acordo sincero e não há nada que vocês possam fazer para mudar essa situação.
Ouçam o que lhes digo, desistam dessa vingança e aceitem a oportunidade de regeneração.
— Nunca! — gritou Zuma.
— Agora saiam daqui — disse com firmeza o Exu.
Dêem a esta família as benesses da sua ausência.
Não perceberam ainda que já não conseguem influenciar a menina?
Saiam, vão procurar abrigo na escuridão do seu pântano!
Os obsessores perceberam que não estavam em condições de sustentar um confronto com o Exu.
Sintonizaram-se com o Vale das Sombras e o magnetismo umbralino os atraiu para a escuridão do astral inferior.
Amanda descobre a verdade a respeito de Mauro e Fabiana Urânia e Humberto estranharam a movimentação que se fazia sentir no quarto da filha.
Eram seis horas da manhã de quarta-feira; o pai de Amanda levantava para mais um dia de serviço quando teve a atenção despertada ao ouvir o som de portas batendo e gavetas sendo remexidas, coisas sendo mudadas de lugar, parecia que alguém estava de mudança.
Aproximaram-se do aposento da filha e bateram à porta.
— Pode entrar! — gritou Amanda de dentro do quarto.
— Que movimentação é essa tão cedo? — disse Urânia empurrando a porta.
Você sabe que horas são?
— São exactamente seis e seis da manhã — respondeu Amanda depois que encontrou o relógio de cabeceira atrás de uns livros.
Urânia percebeu pelo tom de voz da filha que ela estava de bom humor e continuou:
— Mas a que se deve tanta movimentação tão cedo?
— Perdi o sono e resolvi dar um jeito nesta bagunça.
Este quarto desarrumado estava mostrando exactamente como estava a minha cabeça, entende?
Bem, já que minha cabeça está se arrumando, acho que é hora de arrumar o quarto também.
— Esse tratamento espiritual era o que faltava na sua análise.
Acho que você devia ensinar essa receita para seu analista — interveio Humberto bem-humorado.
— Sabe que eu já pensei nisso? — respondeu a filha num sorriso.
Imagina a cara do Sérgio quando souber que uma consulta com uma entidade resumiu tudo o que ele estava tentando fazer com que eu sacasse em três anos de terapia.
— 'Mas são coisas diferentes, apesar de complementares...' — completou Urânia.
Se assim fosse, todos os terapeutas poderiam considerar-se desempregados.
Não se pode misturar as estações.
Cada remédio atua em uma coisa, apesar de um tratamento auxiliar no desenvolvimento do outro.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 9:24 am

— Eu sei, eu sei... — disse Humberto apertando as bochechas da esposa em um gesto carinhoso.
Nós só estamos brincando... vem, vamos preparar esse café logo... estou com fome...
Depois do café, Humberto saiu para trabalhar.
Beijou a esposa e a filha e Amanda voltou para a arrumação de seu quarto.
Quando terminou, era quase meio-dia, sentou-se na cama, cocou a cabeça e suspirou profundamente.
Urânia passou pelo corredor e viu a filha com a mão apoiando o queixo em atitude contemplativa.
— Filha, o quarto está um brinco.
Agora só falta acabar de arrumar a cabeça.
Amanda fechou os olhos por um instante e quando voltou a abri-los estava fitando a mãe com o olhar mais carente que Urânia tinha visto.
— Eu sei... — disse ela num suspiro.
Passei a noite toda pensando no meu relacionamento com Mauro, por isso não consegui dormir e resolvi arrumar o quarto.
Coloquei as coisas nos lugares, joguei outras tantas coisas fora na tentativa de assim arrumar as ideias e conseguir tomar uma atitude.
— E então?
Chegou a alguma conclusão?
— Daqui a duas semanas é o dia da minha perícia.
Espero que o médico do INSS me dê alta para que eu volte a trabalhar.
Não posso mais ficar parada, preciso ocupar minha mente, quero trabalhar e quero voltar
para a faculdade...
— E o Mauro? O que vai fazer dele?
— Estou com vergonha... — disse ela baixando os olhos.
Sinto-me tão ridícula, agora que olho para trás e lembro de tudo o que eu disse sobre ele e a Fabiana.
Ele deve estar me odiando.
—Engano seu, filha. Ele te ama — afirmou Urânia, tocando o queixo da filha e levantando seu rosto.
— Como você sabe?
— Ele liga a cada dois dias para saber de você.
Ele não te esquece, só não aparece porque a última briga que vocês tiveram foi tão feia que ele resolveu que é você que tem que fazer o movimento em direcção a ele.
Ele não quer mais se machucar.
— Liga a cada dois dias?
E como eu nunca vi isso?
— E você por acaso saía do quarto?
Atendia o telefone?
— É verdade... que mala que eu fiquei, heim?...
E a Fabiana?
— Que Fabiana que nada!
Eles não têm e nunca tiveram nada.
A Fabiana é amante do Mendonça.
— Amante do Mendonça? Mas ele é casado!
Amanda descobre a verdade a respeito de Mauro e Fabiana.
— Sim, é casado, mas desde quando isso é impedimento para a sem-vergonhice?
Todo o erro do Mauro foi tentar encobrir esse namoro para proteger o Mendonça.
Foi por isso que, aproveitando o seu afastamento do serviço, ele passou a almoçar com a Fabiana para dar a impressão de que havia alguma coisa entre eles.
— E por que ele não me contou?
— Mas é tudo o que ele tentava fazer e você simplesmente não ouvia!
Urânia contou para a filha que mantinha Mauro ciente de todo o tratamento que estava sendo feito.
Disse também que Mauro, por sua vez, rezava por Amanda no centro que ele frequentava.
Amanda resolveu que iria ligar para ele.
Encheu-se de coragem, pegou o telefone e naquele mesmo dia, à noite, Mauro apareceu para alegria de Urânia e Humberto e desespero de Zuma e Muzala, que não se conformavam com o rumo dos acontecimentos.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 9:25 am

CAPÍTULO XXXIII - Mauro vai à Sessão
As mudanças estavam acontecendo rapidamente.
Amanda não acreditava que estava vivendo tempos tão felizes.
O romance com Mauro estava voltando a equilibrar-se, o relacionamento com o pai tomava-se cada vez mais próximo e sereno, estava fazendo planos para o futuro e ela mesma estava mais centrada e tranquila consigo mesma.
É esse justamente o objectivo do tipo de tratamento espiritual a que ela foi submetida. Higienizar magneticamente a pessoa para que ela tenha condições de reequilibrar-se espiritual, social, psicológica e até biologicamente.
Zuma e Muzala, apesar de ainda influenciarem um pouco a disposição de Amanda, já não tinham sobre ela o domínio de antes.
Ela estava mais confiante e segura de si mesma, consciente de seu papel como filha, como mulher e como pessoa.
Tudo graças aos conselhos e orientações recebidos nas consultas.
As correntes e os passes também tinham diminuído a intensidade dos laços que a uniam aos obsessores; a extinção desses laços somente poderia ser efectuada por ela mesma à medida que desenvolvesse o perdão, que evitasse pensamentos e sentimentos egoístas ou melancólicos.
Os obsessores insistiam em sua perseguição por meio da perturbação de seu sono, pois esta ainda era a maneira que eles conseguiam sintonizar com sua mente, fazendo com que aquele pesadelo recorrente voltasse a perturbar sua constituição psíquica.
Nessas horas em que ela sempre acordava gritando, Urânia e agora também Humberto acudiam a filha levando seu carinho.
Seguindo a orientação de D. Luiza, Amanda em oração pedia perdão aos obsessores por qualquer dívida que tivesse contraído, pois se estava sendo perseguida é porque algum motivo havia.
Ao mesmo tempo procurava também perdoar os obsessores que a perseguiam, pois estavam tomando para si a atribuição que só a Deus pertence, que é a aplicação da lei de retorno.
Esse procedimento feito com sinceridade interrompe o círculo vicioso que é a perseguição pela obsessão.
O processo obsessivo só se mantém pela falta de amor entre obsessores e obsidiado.
Enquanto um desses personagens não for iluminado pelo perdão, haverá sempre o elo escravizante do ódio a mantê-los no erro.
Depois da oração, tudo se acalmava e ela voltava a dormir confiante de que tudo não tinha passado de um sonho ruim.
Chegaram cedo ao terreiro, pois aquele sábado amanheceu chuvoso.
Uma chuva fina e insistente, que peneirava sobre a cidade tornando-a cinzenta, fazia com que as pessoas andassem pelas ruas apressadas e cabisbaixas procurando abrigo.
Humberto decidiu que sairia de casa mais cedo, pois dessa forma poderia ir com menos velocidade, diminuindo assim a possibilidade de um acidente por causa das pistas molhadas e escorregadias.
O carro estava pesado e apertado, pois Mauro também foi à sessão.
Acomodaram-se nos primeiros bancos e esperaram pacientemente o início da sessão.
Amanda estava tranquila, pois já não apresentava o mal-estar que sentira nas primeiras vezes que tinha ido ao centro; pôde verificar o semblante das pessoas com mais calma, pôde sentir que tudo ali transpirava respeito e harmonia.
Zuma e Muzala aparentavam cansaço e não ofereceram resistência quando os Exus apareceram no pântano e os levaram para o terreiro onde já estavam quando a família de Selma chegou.
Médiuns e assistentes foram chegando e assumindo seus lugares.
Amanda tinha as mãos molhadas por uma transpiração que ela nunca teve; apesar disso, sentia-se bem e aquele sono incontrolável não apareceu, como das outras vezes, durante a leitura feita no início dos trabalhos, que falou sobre o perdão e a caridade.
Acompanhou todo o desenrolar do ritual com interesse, estava começando a se interessar por aquela religião que a estava ajudando a modificar sua postura perante a família e a vida.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 9:25 am

Enquanto observava, ficava pensando em como o ritual funciona: ele dá às pessoas a sensação de segurança diante do desconhecido.
O ritual segue um encadeamento de actos, gestos e formalidades que direcciona o pensamento de modo a canalizá-lo para um objectivo.
Durante sua pouca existência, não tinha sido apresentada a nenhuma religião; até então não tinha notado como uma lacuna precisava ser preenchida em sua vida.
Essa lacuna estava sendo preenchida pela orientação religiosa que agora estava recebendo.
Lembrou as aulas de filosofia da faculdade e compreendeu a frase dita por Einstein:
"A ciência sem religião é capenga; a religião sem ciência é cega".
Analisou seu tratamento com Dr. Sérgio e o tratamento que estava recebendo em um terreiro de Umbanda.
Observou que o objectivo dos dois tratamentos era o seu bem-estar, não obstante a linguagem e métodos completamente diferentes e assim mesmo complementares.
Em um gesto natural e espontâneo agradeceu a Deus a oportunidade de poder vivenciar as duas abordagens: a científica e a religiosa.
Amanda estava achando tudo muito belo e mágico.
Sentiu-se em harmonia com o ambiente quando o turíbulo espalhou a sua perfumada fumaça por todo o salão.
Era uma sessão de caboclos, Seu Mata Virgem incorporou e D. Luiza exalava o vigor, a pujança e a energia do Caboclo.
Ele invocou para afirmação daqueles trabalhos a protecção de Oxum, o orixá das águas doces, da fertilidade, do amor e da maternidade.
Lá fora a chuva caía abençoando a terra; dentro do terreiro Oxum se fazia presente através de seus filhos e filhas, que se envolviam com a intensa vibração e eram tomados pelo orixá.
Amanda emocionou-se lembrando os últimos tempos, tumultuados e cheios de uma raiva que ela não sabia de onde vinha.
Lembrou sua falta de paciência e sua competição infantil com Humberto, lembrou-se de Fabiana e pediu perdão por todos os pensamentos de ira a ela endereçados, percebeu sua insegurança infundada a respeito da lealdade de Mauro.
Do lado de fora, a chuva irrigava a terra enquanto lavava a atmosfera; dentro do terreiro, as lágrimas irrigavam o coração de Amanda, preparando-o para tempos de perdão e de paz, enquanto lavavam sua alma de toda mágoa e sofrimento.
Urânia, em um gesto solidário, segurou a mão da filha, que correspondeu com um sorriso molhado pelo pranto, mas pleno de paz.
Oxum deixou no ambiente a sua vibração de amor.
Os rostos transmitiam felicidade.
Seu Rompe Mato aproveitou a vibratória e iniciou a puxada de pontos convocando as Caboclas, que incorporaram com a leveza dos pássaros e das flores, dançaram com graça e flecharam com doçura.
Toda aquela sessão estava impregnada de feminilidade.
Mauro também acompanhava com interesse o desenrolar da sessão, pois, diferente do ritual católico, em que em todas as igrejas o procedimento é sempre o mesmo, no ritual umbandista cada terreiro tem características próprias, tendo procedimentos para a abertura e desenvolvimento dos trabalhos muito diferentes entre uma casa e outra.
Para o namorado de Amanda a leitura feita no início dos trabalhos era uma novidade.
Ele também observava que as incorporações aconteciam de forma tranquila, equilibrada.
Estando acostumado a presenciar incorporações turbulentas, em que o médium perdia o controle de si caindo por cima dos outros, tropeçando e precisando ser amparado até que a incorporação fosse efectuada, tudo ali para ele soava como novo, apesar de já ter observado, na corrente que ele presenciou junto com Urânia, que a orientação dos trabalhos naquela casa era diferente da casa que ele frequentava.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 9:25 am

Terminada a chamada dos caboclos e caboclas, os médiuns incorporados já estavam posicionados e prontos para o atendimento.
Um cambono aproximou-se da assistência e fez a chamada baseado na lista preenchida por ordem de chegada.
Mauro foi orientado a ser atendido por Seu Mata Virgem, pois era a primeira vez que ele assistia a uma sessão naquele terreiro.
Aproximou-se respeitosamente do Caboclo, estendeu as mãos tendo os braços junto ao corpo e aguardou que a entidade se pronunciasse.
O Caboclo observou-o com atenção enquanto pitava o charuto puxando a fumaça para depois soltá-la lentamente pelo canto da boca.
Era uma observação tranquila que não tinha a menor intenção de crítica ou desdém, ele parecia satisfeito com o que observava.
— Salve, fio! Com a graça di Deus, tudo sempre tem um fina feliz quando os fio se empenham — disse o Caboclo depois de sua longa observação.
— É verdade, Caboclo.
Foi difícil mas parece que tudo está chegando ao final... eu acho — respondeu Mauro, entendendo que o Caboclo se referia ao tratamento de Amanda.
— Nunca perca a fé, fio.
Por mais que as coisa pareça difíci, é priciso que se mantenha sempre a fé, a cunfiança.
Ninguém trabaia sozinho e saiba que sua perseverança e suas oração em muito ajudaro a fia.
— Eu gosto muito dela, Caboclo, sinto que não é de hoje.
Tenho certeza de que nos conhecemos em outra vida.
Sinto que tenho com ela uma dívida que preciso urgentemente sanar, só não sei como.
Sinto-me um pouco responsável por tudo isto... não sei explicar.
— Fio, todas as experiência reencarnatória são cheia de reencontros e de oportunidade de resgate.
Seus pressentimento tem fundamento, pois realmente o fio e a fia têm sentimentos pra educa.
Seu Mata Virgem prosseguiu com sua orientação, esclarecendo Mauro brevemente sobre a encarnação em que ele era Leôncio.
O Caboclo sabiamente não mencionou, nem para D. Luiza, a violência sexual que Jade sofreu, pois esse detalhe apenas iria aumentar o sentimento de culpa que Mauro carregava inconscientemente e em nada iria auxiliar Amanda ou quem quer que fosse reviver tema tão traumático.
A espiritualidade é prudente, pois somente nos traz revelações que estamos aptos para assimilar e que serão úteis para o nosso aprimoramento.
Mauro estava muito feliz com a consulta que estava recebendo e disse no final de sua conversa com o amigo espiritual:
— Gostei muito de sua casa, Caboclo.
Como o senhor deve saber, frequento uma casa da qual gosto muito, mas que trabalha de maneira diferente...
— Graças a Deus, fio!
Eu senti felicidade em sabe que o fio está contente com este canzuá.13
Cada terrero trabaia de uma manera, mas todos têm só um objectivo, presta a caridade.
— Mas é diferente, Caboclo... é diferente...
— Fio, é como fazê arroz.
Tem gente que faz arroz só cum água e sal, tem gente que coloca otros tempero... mas, no final das conta, é tudo arroz...
Mauro parou por um instante, sorrindo, enquanto assimilava o ensinamento recebido na simplicidade daquele exemplo.
Agradeceu pela consulta e Seu Mata Virgem deu por encerrado aquele atendimento.
Amanda ainda estava se consultando com o guia de Vivian.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 14, 2016 9:25 am

Humberto, Urânia e Selma já tinham se consultado.
Ele percebeu que Urânia não tirava os olhos da direcção em que Amanda se encontrava e perguntou à sogra:
— Alguma coisa errada, D. Urânia?
Está vendo algo?
Urânia, sorrindo, voltou o rosto para ele.
Mauro tinha cativado a mãe de Amanda.
Com seu jeito calmo e observador já tinha aprendido a reconhecer quando Urânia estava tendo algum contacto visual com a espiritualidade.
"Está tudo bem... é que, desde que Amanda se levantou para se consultar, uma espécie de luz a acompanhou.
Há horas que fica um azul-marinho bem brilhante e há horas que fica vermelha.
Vejo perfeitamente uma forma masculina.
É um homem alto, forte, parece-me um tipo de guerreiro.
— Que interessante... quem será?
Está lá ainda?
— Sim, está lá o tempo todo.
Quem é eu não sei, eu não entendo muito dessas coisas e somente as vejo.
Tudo o que eu sei é que é alguém do bem.
Logo depois Amanda voltava para seu lugar na assistência.
Como sempre, as pessoas iam embora logo depois da consulta e somente alguns poucos consulentes ficavam até o final.
O tempo chuvoso fez a noite cair mais cedo e mais fresca do que o usual para uma tarde de primavera.
O cheiro da folhagem molhada entrava pela janela, e, ao comando de Seu Mata Virgem, o ogan entoou o ponto de subida dos caboclos e caboclas que ainda estavam incorporados.
Terminada a desincorporação, os médiuns prepararam-se para a última corrente de Amanda.
Ela sentiu o coração aumentar seu ritmo quando foi chamada para o meio do terreiro.

13. Terreiro, Roça, Barracão, local em que se realizam cerimónias religiosas afro-brasileiras.
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