Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:29 am

Armando era Heitor, o temido feitor que abusava do poder que tinha para saciar-se sexualmente com as escravas da fazenda; tinha uma preferência doentia por Lunda sem saber que essa obsessão era o princípio daquilo que várias encarnações depois seria um grande amor. Lunda era pouco mais velha que Jane, porém, na condição de escrava, tinha sido criada para cuidar e servir as sinhazinhas, coisa que fazia com carinho, pois sempre nutriu pelas filhas do fazendeiro Amadeu uma forte simpatia.
Nutria por Heitor um sentimento ambíguo, ao mesmo tempo que se sentia quase lisonjeada por ser por ele assediada, não gostava de dividir essa preferência com outras escravas e temia o carácter violento do feitor de escravos.
Heitor tinha consciência de que Lunda exercia um certo fascínio sobre ele, ainda não tinha percebido que era amor, pois sua mente tacanha e preconceituosa não admitia que estava apaixonado por uma negra.
Sandra e Armando continuaram a encontrar-se depois dos quatro dias de reinado de Momo.
Ele era todo gentileza e amabilidade, mescladas com uma picante pitada de ciúme ao que Sandra atribuía ser natural entre aqueles que se amam.
Um ano depois ficaram noivos e o enxoval já estava completo.
O casamento foi agendado para o dia 2 de fevereiro do ano seguinte, pois Sandra queria casar-se no dia de Nossa Senhora dos Navegantes, santa católica sincretizada com lemanjá, seu primeiro orixá.
Não demorou muito para que a convivência mostrasse quem estava por trás da máscara.
Armando, que inicialmente entendia e aceitava a opção religiosa da esposa, começou a questionar a necessidade de tanta dedicação.
Começou a não querer que a esposa participasse das actividades do terreiro a que pertencia, alegando não acreditar em nada daquilo.
Proibiu Sandra de sair sozinha de casa, vigiava todos os seus passos; não raro suas discussões terminavam em agressões físicas; tinha inúmeras amantes e enveredou pelo vício do álcool.
Era a personalidade doentia de Heitor, o feitor, falando mais alto, era o assédio de obsessores, era o desequilíbrio das emoções e do sentimento que sentia pela esposa, era a falta de uma religião a orientar e educar o ser humano.
À sua maneira, Armando amava Sandra.
De maneira bem grotesca, diga-se de passagem, mas o sentimento de amor em desequilíbrio tende a tornar-se possessão.
Essa união não gerou filhos.
A bebida e a vida de excessos que Armando levava fizeram com que sua passagem pela Terra, nessa encarnação, fosse breve.
Desencarnou aos 40 anos, tendo o fígado, o baço, o coração e o aparelho reprodutor completamente danificados pelos excessos, para o alívio de Sandra e de sua família.
Com a ajuda de Miquilina, Sandra tomou consciência de sua encarnação como Lunda.
Compreendeu que sua missão com Armando ainda não estava acabada, eles precisavam aprender a educar as emoções e começou a tentar entender a atitude do esposo.
A violência deixa marcas profundas, difíceis de serem apagadas; entretanto, é necessário seguir adiante com a vida, pois o tempo segue para a frente e não espera por ninguém.
— Como está ele, Vovó? — perguntou Sandra com a testa franzida e a boca rígida e cianótica.
— Nada bem, filha... esse tempo todo de desencarnado e ainda não tomou consciência de sua condição.
— Como assim?...
São mais de 20 anos!
E todas as preces e missas que foram feitas em seu favor? — perguntou Sandra com vivido espanto.
— Lembra o que te expliquei assim que você chegou aqui?...
Nossa mente é poderosa e molda o ambiente à nossa volta...
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:29 am

Armando não acreditava na vida após a morte, para ele a vida acabava na escuridão do túmulo.
As preces e orações a ele endereçadas não surtiram quase efeito, pois ele mesmo as repelia não aceitando qualquer ideia que lembrasse Deus ou qualquer menção à religiosidade.
Foi presa fácil de obsessores e encontra-se em profundo sofrimento.
Sandra sentiu que ainda amava o esposo.
Amava e sentia falta do Armando que tinha conhecido em um baile ao som de marchinhas carnavalescas.
Queria que aquela parte de sua vida, que envolvia brigas, violência, bebedeiras e tristeza, fosse apagada de sua memória.
Queria que os quatro anos em que conheceu a felicidade se estendessem por toda a sua vida.
Teve vontade de rever Armando; em seu íntimo, reacendeu a chama da esperança de novamente ser feliz ao seu lado.
— Onde ele está? — perguntou Sandra com sincero interesse.
— Encontra-se nas regiões umbralinas, ou no Vale das Sombras, como são chamadas aquelas paragens.
Vale das Sombras?
Que nome triste... apesar de bonito... — murmurou Sandra ajeitando-se na cama.
— Que tal reiniciar sua missão de reeducar as suas emoções e as de Armando? — disse Miquilina, fazendo Sandra entender que era chegada a hora de fazer-se útil.
A noite já tinha caído e as estrelas enfeitavam o céu sem nuvens.
Miquilina e Sandra caminhavam por uma estrada iluminada somente pela luz azulada da lua, deixando atrás de si os muros do Lar de Maria.
Sandra nunca tinha saído dos limites do hospital, porém caminhava confiante na protecção da Preta Velha.
Sentiu que, à medida que se afastavam, o ar ficava pesado, quase palpável.
Entendeu que era a diferença vibratória entre os planos espirituais, provavelmente já tinham passado por algum portal energético.
A terra era seca e levantava uma poeira fina ao caminharem.
As poucas árvores tinham os troncos tortos e ressecados, aquele lugar parecia não ter vida.
Ao longe escutavam-se gemidos seguidos de estridentes gritos e sinistras gargalhadas.
Miquilina em momento nenhum se abalava, serenamente pitava seu cachimbo.
A fumaça proveniente da queima das ervas desprendia energias que formavam um forte campo magnético em torno das duas personagens.
Chegaram a uma espécie de ribanceira; ao olhar para baixo nada se via, somente escuridão.
Miquilina bateu três sonoras palmas; logo um redemoinho se formou e gradativamente assumiu uma forma humana.
Um olhar penetrante emoldurado por grossas e bem desenhadas sobrancelhas, um sorriso sensual e provocante delineava os lábios carnudos, cabelos negros e brilhantes penteados para trás, sem camisa, o tronco musculoso, calça comprida preta e botas também pretas.
Girava sobre uma perna enquanto mantinha a outra encolhida e as mãos na cintura.
Era o Exu que trabalhara com Sandra.
Ela logo o reconheceu e abriu largo sorriso ao vê-lo.
— Boa noite, Velha Miquilina!
A que devemos a honra da sua visita? — disse o Exu Veludo, num misto de irreverência e respeito.
— Laroyê Exu!
Salve Exu Veludo!
Temos um trabalho a realizar por aqui... — respondeu Miquilina serenamente, enquanto dava uma baforada no cachimbo. — ...nossa menina veio à procura de Armando.
— Boa noite, moça!
Como vai?" — disse o Exu virando-se elegantemente em direcção a Sandra, que olhava boquiaberta a figura à sua frente.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:29 am

Ela estava fascinada pelo magnetismo que a entidade exalava.
Ele transmitia ao mesmo tempo medo e tranquilidade, prepotência e humildade, amizade e perigo.
Transmitia, enfim, a dualidade característica de Exu.
—Bem, obrigada, meu senhor.
É tudo o que ela consegue balbuciar diante do poder da entidade.
Dentro do quadro hierárquico dos trabalhadores da Umbanda, os Exus e Pombas Giras estão no primeiro degrau da escala.
Isso de modo nenhum os desmerece ou menospreza perante toda a organização do culto, pois:
"Umbanda sem Exu não se faz nada".
É verdade, sem o trabalho e a ajuda desses seres seria impossível existir e/ou fazer Umbanda.
Nessa falange, encontramos espíritos das mais variadas procedências e experiências de vida, temos padres, médicos, enfermeiros, mendigos, gigolôs, policiais, pais e mães-de-santo, ladrões, dançarinas, estivadores, boémios, gente comum...
Enfim, qualquer espírito desencarnado com o sincero desejo de evoluir através do trabalho árduo e rígida disciplina pode filiar-se à falange de Exus para depois de longo aprendizado virem a ser um deles.
Sendo uma falange composta de elementos de origem variada, seu comportamento varia de entidade para entidade.
Existem aqueles faladores, alegres, brincalhões, que gostam de rir e fazerem os outros rir, e existem também aqueles sérios e compenetrados.
O verdadeiro Exu é sensual sem ser vulgar, não faz o mal nem recebe pagamento para fazê-lo, não mente e não trata de assuntos que desconhece, não engana e sabe que a desobediência a essas regras está sujeita a severas punições por parte do orixá a que é subordinado.
São amigos, são companheiros e suas emoções são muito parecidas com as dos encarnados, dado o seu desenvolvimento e padrão vibratório estarem muito próximos.
Conhecem muito bem a magia, manipulam todos os elementos, seus corpos astrais lhes permitem entrar em qualquer ambiente à cata de malfeitores espirituais, desfazem feitiços e são os responsáveis pela segurança espiritual das porteiras de templos e residências.
— Você está preparada para ver o que se passa lá embaixo? — perguntou o Exu para Sandra, enquanto apontava na direcção da escuridão.
— Creio que esteja... — respondeu ela, engolindo em seco.
... Confio na ajuda de vocês...
Sandra tentava convencer a si mesma de que era preciso passar por aquilo.
— Nada tema, criança... — disse Miquilina.
...Lembre que nada pode te fazer mal, se você não veio para o mal.
As palavras da Preta Velha acalmaram Sandra, que, enchendo-se de coragem, disse:
— Bem... se tiver que ser feito... vamos?!
— Vocês irão. — respondeu Miquilina.
Para penetrar na escuridão do Vale você contará com a companhia do Exu Veludo.
Tenha certeza de que, ao retornarem, estarei aqui para voltarmos ao hospital.
Sandra não teve tempo para retrucar.
Seu Veludo estendeu para ela uma espécie de manto com um capuz de cor escura.
Ele mesmo usava agora uma capa e um cinturão no qual tinha preso um facão.
Lá embaixo a escuridão e a bruma escondiam a ansiedade que escapava por gritos e gemidos.
Eles iniciaram sua caminhada ribanceira abaixo e logo foram tragados pela inóspita paisagem.
Sandra instintivamente procurou a mão de Seu Veludo.
Ele correspondeu, envolvendo com sua mão forte a mão daquela que um dia lhe serviu de aparelho, transmitindo ondas de coragem e equilíbrio.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:29 am

Capítulo VIII - No Vale das Sombras
Sandra sentiu o peso da atmosfera daquele lugar cair pesadamente sobre seus ombros.
Não tinha noção de quanto tempo estavam caminhando, mas de vez em quando olhava para cima e só via o céu escuro.
Nem a lua, nem as estrelas para guiar a caminhada.
Desciam em silêncio, forçava a visão para enxergar onde estava pisando, mas não conseguia divisar um palmo à sua frente, e essa situação a deixava ansiosa.
— Pare de canalizar sua energia para um dos sentidos que você vai menos utilizar nessas paragens — disse o Exu, percebendo a inquietação da desencarnada.
— Mas como? Preciso ver onde estou... — disse Sandra, desanimada.
— Você está pensando como se estivesse no corpo físico ainda.
A visão física em nada vai ser útil, se aqui há carência de luz.
Procure desviar sua sensibilidade para outros canais de percepção, a audição, o olfacto, a intuição... deixe sua sensibilidade aflorar... não exija muito daqueles sentidos que pouco ou nada podem fazer por você nesse momento... use sua sensibilidade... concentre-se e procure activar seus chacras.
Ela seguiu o conselho do amigo espiritual e viu que ele tinha razão.
A medida que canalizava correctamente sua energia, tudo se modificava.
Sentiu-se novamente senhora de si e começou a ter noções do ambiente que a cercava.
Ao concentrar-se em seu chacra frontal, gradativamente sua visão espiritual se activou, começou a perceber odores e a ter informações tácteis.
A visão, que agora já não estava sobrecarregada pela ansiedade de Sandra, gradativamente começou a activar-se:
ela conseguia divisar imagens em preto, branco e cinza, dada a total falta de luz naquele local.
O ar pegajoso e húmido dava a impressão de estar passando em meio a teias de aranha; o chão era coberto por uma lama grossa e malcheirosa.
Tinha a impressão de estar andando por becos e ruelas de uma cidade esquecida por Deus.
Vultos passavam sorrateiros e escorregadios, fugindo ao divisarem a figura imponente do Exu; andava com cuidado para não tropeçar nos corpos que jaziam inertes no caminho; tudo exalava ansiedade, medo e insegurança.
Sandra viu estranhas construções que lembravam casas demolidas ou em precário estado de conservação, por cujas janelas estranhas figuras com aspecto sujo e dementado observavam a sua passagem; em outras era nítida a impressão de estar ocorrendo alguma forma de violência, devido aos gritos e impropérios que enchiam o ar de desequilíbrio.
Chegaram a uma espécie de praça, grande e lúgubre.
Entidades vestidas como os carrascos da Idade Média carregavam ou arrastavam ossadas humanas, grupos de maltrapilhos rastejavam na lama tentando fugir de ratos que lhes mordiam as carnes ulceradas, os gritos alucinantes feriam a sensibilidade de Sandra.
— Por Deus!...
Que lugar é este?
Estamos no inferno?
— Estamos na Cidade da Loucura, uma instância dentro do Vale das Sombras que agrega espíritos que abusaram do poder de que foram portadores e só levaram seu semelhante ao sofrimento.
São espíritos que se deixaram envolver pelas emoções descontroladas e se embrenharam pelo vício das drogas, do álcool ou do sexo.
— Essa atmosfera de malignidade me oprime...
Por que Vovó Miquilina não veio? — perguntou Sandra puxando as dobras do manto que a cobria, numa tentativa de se esconder.
— Ela nos acompanha de longe, não se preocupe.
Nossos corpos astrais conseguem vibrar no mesmo diapasão da vibratória pesada dessas paragens.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 04, 2016 9:30 am

Miquilina e outros guias como ela precisam baixar muito sua vibratória para poderem locomover-se por aqui e isso é para eles demasiado penoso... para isso, nós, Exus, com nossa vibratória densa, entramos em ambientes como esses... essa é uma das razões para que se diga que, na Umbanda, sem Exu não se faz nada...
O Exu termina essa frase com enigmático e bonito sorriso.
— Mas eu não entendo como Deus, sendo todo poder e bondade, pode abandonar essas criaturas à sua própria sorte... esse local é um foco gerador de violência e enfermidades — retrucou Sandra encolhendo os ombros.
O Exu assume um ar sério e, em um tom amigo, porém enérgico, explica que Deus não abandona nenhuma de suas criaturas, que até naquele local de trevas e sofrimento o bem se faz presente.
Segundo a lei universal, cada um colhe de acordo com aquilo que planta, e os semelhantes se atraem.
A maldade e o desequilíbrio tornam o corpo espiritual denso e pesado; aquele ambiente agressivo ajuda a "desfazer" essa densidade, assim como o atrito constante faz com que os seixos dos rios fiquem lisos e limpos.
Aquele sofrimento é o único caminho para se chegar até as consciências de mentes endurecidas e estagnadas no vício e na maldade, pois é com o retorno de nossas acções que aprendemos que só devemos fazer aos outros aquilo que queremos que os outros nos façam.
Aquele local tenebroso não era obra de Deus, mas a criação mental daquelas mentes doentias que plasmavam no astral aquilo que lhes ia no íntimo.
— Quer dizer que ninguém aqui é prisioneiro? — perguntou surpresa Sandra.
— Não, minha amiga... esses espíritos estão ligados a esse plano pelo próprio magnetismo e não por um poder tirânico superior.
Os semelhantes atraem-se, lembra?
À medida que forem se libertando da sentença aplicada pela própria consciência culpada, irão se tornando mais leves e serão encaminhados para planos mais amenos.
— É difícil enxergar bondade e justiça nessas cenas surrealistas, Seu Veludo...
O Exu gargalhou gostosamente diante dessa afirmação de Sandra, que, apesar de sarcástica, não deixava de ter razão.
Ela olhou para ele desacreditando no que via, como podia ele rir em uma situação daquelas?
O Exu ainda é uma figura muito mal compreendida; é tido como personalidade do mal, que só sabe beber, fumar, xingar, que foi, quando encarnados gente ruim, vagabundo, malandro, bandido, proxeneta.
Sua gargalhada, às vezes soturna, e a aparência grotesca de alguns fazem com que muitos os associem erroneamente ao demónio católico; sua irreverência pode dar a impressão de irresponsabilidade.
Entretanto, é dessa forma que eles fazem o trabalho de limpeza e policiamento do astral.
Sua roupagem fluídica varia de acordo com sua evolução e sua função.
As imagens de seres disformes e animalizados, verdadeiras anomalias da forma perispiritual, não correspondem à realidade.
As formas de caveiras, chifres, rabo, pés de bode, duas cabeças... são apenas vestimentas, variações da forma perispiritual, possíveis graças à plasticidade do perispírito em moldar-se de acordo com o comando da mente, que os Exus utilizam para amedrontar e intimidar os seres que vivem no astral inferior.
Ao contrário do que muitos pensam, o Exu tem plena consciência do papel que desempenha e sabe que ele, assim como todas as criaturas criadas por Deus, está sujeito à lei de causa e efeito.
É um espírito em evolução; ainda não é puro, mas não é de todo mau.
É responsabilidade do médium que trabalha com esse tipo de entidade educar-se para poder educar também o seu Exu.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:45 am

Como rege a lei de que os semelhantes se atraem, muitos médiuns trabalham com Exus que têm as mesmas falhas morais que eles, justamente para que um eduque o outro e assim evoluam juntos.
Atravessaram a grande praça, o vento quente não aliviava a sensação de desconforto que sentiam, um cheiro acre, misto de suor, fezes e urina, penetrava pelas narinas e deixava a boca amarga.
Sandra começou a reconhecer, com a ajuda de seu cicerone, entidades que como eles ali estavam, mas que não pertenciam àquele plano.
Eram espíritos em abnegado trabalho socorrista, que ali procuravam por irmãos que já estivessem em condições de ser removidos para um dos postos de socorro situados nas regiões fronteiriças com o Vale das Sombras, procuravam por espíritos que seriam levados à crosta para algum trabalho de desobsessão, eram Exus e Pombas giras, eram Boiadeiros, eram enfermeiros dos hospitais espirituais que trabalhavam com suas vestimentas perispirituais temporariamente modificadas em verdadeiro exemplo de desprendimento e humildade.
Eles pararam diante das ruínas de um casebre, Sandra pressentiu que estava muito próximo o momento de seu reencontro com Armando.
Toda sua vida com o esposo passou como um flash em sua memória, seu coração ficou descompassado e ela levou as mãos ao peito.
— Tem certeza de que quer continuar? — perguntou o Exu olhando firme e serenamente dentro dos olhos de Sandra.
Ela hesitou por meio segundo, mas imediatamente lembrou as palavras de Miquilina recordando-a de que era chegada a hora de acertar sua história com Armando.
Percebeu que aquela pergunta era uma oportunidade de Deus, por intermédio do Exu, para dar um passo adiante em seu progresso ou permanecer estacionada na angústia da inércia de quem sabe que existe um trabalho a ser feito e falta coragem de fazê-lo.
— T... tenho... conto com o seu apoio e protecção... — respondeu ela com o olhar súplice e húmido de medo e emoção.
O olhar que o Exu retribuiu foi tão cheio de amizade, carinho e entendimento que ela sentiu a onda de energia penetrar seu ser, insuflando coragem.
Atravessaram o pequeno espaço que separava a rua da entrada da casa e empurraram a porta, maltratada pelo tempo e pelas emanações nocivas daquelas paragens, que se abriu gemendo nos gonzos e deixando ver aquilo que se escondia no interior da casa.
A escuridão reinava e Sandra precisou novamente concentrar-se em seu chacra frontal para que sua visão espiritual se fortalecesse.
O ambiente retratava o desequilíbrio de quem ali habitava, objectos e roupas espalhados pelo chão e em cima dos móveis, o mau cheiro era insuportável, ao abrir a porta, alguém correu para esconder-se em um cómodo contíguo, uma voz feminina e rouca esbravejou, incitando quem quer que fosse que estivesse entrando que voltasse, pois fosse quem fosse não era bem-vindo.
Seu Veludo fez valer sua autoridade sacando do facão que tinha na cintura e posicionando-se de modo a revidar qualquer ataque.
Ao perceberem que estavam na presença de um Exu, houve um certo burburinho de reclamações e xingamentos, mas ninguém ousou enfrentar a imponente figura de Seu Veludo.
Sandra observava admirada aquele filme em preto-e-branco, do qual ela mesma estava fazendo parte naquele momento.
Pelos cantos da parede pôde divisar formas humanas a chafurdarem no lodo viscoso que se estendia desde o exterior até dentro daquele recinto.
Não quis acreditar, mas parecia que alguns estavam tendo relações sexuais com outros que simplesmente tinham a aparência catatónica, o olhar parado fixando o vazio.
Ela quis gritar, o suor molhou sua testa, porém a mão de Seu Veludo, ao pousar em seu ombro, a fê-la recompor-se.
Seu olhar percorreu toda a sala buscando a saída, quando se deparou com um rosto conhecido.
Estava bem desgastado, olheiras negras como a noite circundavam os olhos que no dia do casamento se encheram de lágrimas quando ele disse o sim, o rosto pálido, a pele e os cabelos opacos e sem viço.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:45 am

Encontrava-se bem sofrido e acabado pelo ambiente ao qual ele mesmo se vinculou magneticamente muito antes de seu desencarne e ajudava a manter enquanto insistisse em alimentar sua própria obsessão.
Estava agachado em um canto da sala, tentava desenvencilhar-se de uma mulher que insistia em acariciar-lhe o corpo, oferecendo-se para a troca de energias.
Sandra percebeu a angústia nos olhos de Armando. Era visível que ele estava sofrendo.
Ela caminhou em direcção ao esposo sob o olhar atento do Exu Veludo; a entidade feminina que assediava Armando percebeu a aproximação de Sandra, pelo manto que a cobria ela entendeu que se tratava de alguém vindo de um plano superior e logo se afastou escondendo o rosto.
Sandra parou em frente a Armando.
Agora ele apoiava os cotovelos nos joelhos e tinha a cabeça entre as mãos.
Ela ficou sem saber o que falar ou fazer, instintivamente olhou para Seu Veludo que, com o olhar e o sorriso, incitou-a a continuar.
— Como vai, Armando? — disse ela com o peso da ansiedade na voz.
Ele lentamente levantou a cabeça e percorreu com o olhar a figura à sua frente até encontrar um rosto que era familiar, mas que ele não sabia de onde reconhecia.
— Quem é a senhora?...
Mais uma daquelas que de vez em quando aparecem sem ninguém saber de onde veio? — disse ele apertando os olhos, tentando enxergar melhor na escuridão daquele lugar.
— Você não me reconhece? — respondeu ela entre surpresa e aliviada.
— Dona, eu nem sei como vim parar aqui... não sei onde estou... acho que em alguma favela... a senhora sabe que bairro é este?
Tudo o que sei é que estava em um churrasco em Vila Isabel... de repente senti um mal-estar e depois só sei é que estou aqui... essas mulheres são insaciáveis, desculpe falar sobre isso com a senhora... quando será que o dia vai clarear?
Esta noite parece não ter fim... me sinto cansado e sem forças... amanhã tenho de trabalhar... já sei que vou chegar em casa e aguentar a cara feia de minha mulher, só porque eu saí para me divertir um pouquinho... e por falar em minha mulher... sabe que a senhora lembra um pouco a minha mulher?
Sandra entendeu que Armando não tinha consciência de que tinha desencarnado há mais de vinte anos.
Dada a confusão mental em que se encontrava, ele ainda vivia como se estivesse em mais uma de suas noitadas.
Tudo o que ele guardava da tarde em que seu coração falhou foi o rápido mal-estar que sentiu em uma das comemorações de fim de semana a que ele fazia questão de ir enquanto deixava a esposa sozinha em casa.
Ao desencarnar, foi magneticamente atraído para aquele lugar em que, a princípio, sentiu-se muito bem, pois os prazeres e oportunidades eram incontáveis.
Com o passar do tempo e a falta da figura da esposa a quem ele realmente amava, apesar de insistir em dar vazão ao chamado insistente e incontrolável do instinto, acabou sendo presa fácil de obsessores.
Ele não tinha nenhuma crença religiosa que o preparasse para o além-túmulo, sua crença em Deus não era lá tão firme e essas foram as razões principais para que ele não percebesse o próprio desenlace.
O abuso no uso das forças genésicas desequilibrou seu fluxo energético e ele passou a precisar cada vez mais das energias trocadas pelo sexo; ao mesmo tempo, também perdia muita energia ao fazer sexo sem amor e novamente necessitava de mais sexo para recompor-se e vivia assim em um desgastante círculo vicioso desde que fora magneticamente atraído para a Cidade da Loucura.
Um ano antes do desencarne de Sandra, Armando tinha começado seu doloroso processo de despertar.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:45 am

As práticas sexuais na Cidade da Loucura começaram a se tornar intensamente incómodas, pois seu fluxo energético há muito não alimentava suficientemente o corpo perispiritual.
Entretanto, sua consciência culpada prendia-o às entidades que por ali viviam e que começaram a fazer dele seu prisioneiro, pois muitas tinham sido suas vítimas quando Armando era Heitor, o feitor, e que o perseguiam desde aquela época.
— Armando, Armando... o que você foi fazer...
— Ihh... Dona!...
A senhora é crente?
Olha, eu não estou bem...
— Não, Armando... eu não sou crente... eu sou alguém que gosta muito e se preocupa com você.
Sou alguém que foi capaz de anular-se, esquecer as próprias vontades, fechar os ouvidos para os conselhos e apelos da família e preferiu ficar com você... apesar de tudo...
— Olha, dona, eu não estou entendendo o rumo desta prosa... a senhora está falando igual a minha mulher... mas a senhora não é a minha mulher... ou é?
Eu não sei mais nada... eu quero sair daqui, eu ando por essas ruas horríveis e só encontro gente querendo fazer sexo, ou brigando... só sei que sempre acabo voltando para esse quarto fedorento, sem saber como fiz para voltar...
Ele falava em tom de lamento e tornou a colocar a cabeça entre as mãos voltando a sua posição inicial.
— ...Sou aquela que suportou sozinha a sua violência... e a escondia... pra te proteger... hoje sei que estávamos tentando resgatar antigas dívidas... mas não tive a coragem necessária para te fazer compreender isto...
Enquanto Sandra falava e rememorava o passado, sua mente, ao reviver cenas tão marcantes, começou a alterar a sua forma perispiritual e ela assumiu a aparência que tinha no tempo em que era casada com Armando.
Ela se abaixou aproximando-se do esposo sem saber ainda que sua aparência tinha se modificado.
Tocou sua mão, mas ele a retirou na esperança de que ela se afastasse, pois, para ele, aquela mulher estranha parecia saber muito mais sobre ele do que poderia imaginar, e ele não estava disposto a falar sobre as suas fraquezas.
Sandra recordou uma música que retratava muito bem aquele período de sua vida, e na tentativa de se fazer reconhecida, ela cantou a canção que muitas vezes entoou para ele quando brigavam e que tão bem retractou aquele período de sua existência.
Pois Armando, na tentativa de se livrar da culpa que sentia, projectava nela o medo de acontecer com ele aquilo que ele mesmo fazia com a esposa.
"Condeno os teus ciúmes que mataram nosso amor..."
Enquanto ela cantava, Armando lentamente voltou o olhar para a mulher à sua frente.
Ao ver o rosto da esposa, ele arregalou desmesuradamente os olhos de susto, de alívio e de vergonha.
— Sandra!?...
O que você está fazendo aqui?
— Eu vim pra te buscar... chega de sofrer, meu amor...
— Buscar!?... A mim?...
Como você chegou aqui?
Onde está a mulher que há pouco estava falando comigo?
Ele falou atropelando as palavras e as frases, tentava ajeitar os farrapos que cobriam seu corpo e arrumar os cabelos desgrenhados na esperança de que novamente tomasse o controle de si mesmo.
— Sou eu mesma, Armando... aqui cheguei com a ajuda de amigos e com a permissão de Deus para que você possa dar continuidade ao seu crescimento.
Já sei de tudo... já vi e ouvi tudo o que preciso para saber que você está doente, doente na alma... não estou aqui para te julgar... estou aqui para oferecer ajuda se você assim o permitir.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:46 am

Ela falava com a segurança e a serenidade de quem tem a certeza do que está falando, apesar de ter o rosto lavado de lágrimas.
Diante da firmeza das palavras de Sandra e devido ao seu cansaço de tantos anos de desequilíbrio, a máscara de bom moço que ele ainda tentava vestir desabou com um choro convulsivo que brotou, depois de tanto tempo reprimido.
— Perdoa-me, Sandra?... Ajuda-me?
Você não tem ideia dos horrores por que passei desde que vim parar aqui... já fui violentado das mais diversas formas.
Física, moral e psicológica... tenho minhas partes em carne viva... tenho visões em que negros furiosos me perseguem e novamente sou violentado... se este local não é o inferno, é bem parecido... terei ficado louco?
Terão colocado algo em minha bebida?
Socorre-me... tira-me daqui, pelo amor de Deus!...
Armando tinha chegado ao ponto em que a espiritualidade estava esperando.
Depois de tantas tentativas que foram feitas, pelos missionários que militam naquelas paragens, em despertá-lo e orientá-lo, e ele sempre os repelindo, foi decidido que, para ele somente o completo mergulho no mais profundo dos sofrimentos que aquela atitude poderia levar, era o que o faria recomeçar o caminho de volta.
Armando harmonizou-se tanto com a vibratória daquele lugar que seu corpo perispiritual estava tomado por parasitas e larvas espirituais que se alimentavam das energias provenientes de suas emoções e instintos em descontrole.
Quando alguém tentava incitá-lo ao progresso, lembrando-o de Deus, ele costumava responder:
"Deus? Se é que ele existe, deve estar muito longe daqui..."
E continuava a mergulhar cada vez mais em seu desvario.
Portanto, quando Armando pediu ajuda em nome de Deus e seu pedido foi feito com sinceridade, essa foi a brecha que a espiritualidade superior estava esperando para poder prestar o socorro necessário.
— Viemos aqui para isso, meu amor... viemos aqui para isso — Sandra falou enquanto olhava para Seu Veludo, que tudo acompanhou sempre com aquele sorriso no rosto.
O Exu apontou o facão para o alto para logo depois atirá-lo na direcção de Armando.
A arma caiu certeira fincada no chão, entre os pés dele e uma bolha luminosa, e envolveu-o isolando-o do resto da sala.
Ocorreu uma balbúrdia entre os presentes, alguns saíram correndo, outros se encolheram a esconder o rosto da luz que emanava da bolha, outros xingavam e maldiziam a acção dos "enviados lá de cima".
Lentamente, uma outra bolha começou a se formar.
Iniciou pequena como um grão de areia parado no ar, começou a brilhar e crescer até deixar transparecer a figura de Miquilina, que estava emitindo uma luz azul e branca, as cores de lemanjá, orixá de que era mensageira.
— Acompanhamos toda a sua caminhada, minha filha, estamos muito felizes com o desenrolar e a nova orientação dada a esse assunto, não poderíamos deixar de nos fazer presentes para te dar a certeza de que estamos a todo momento contigo.
— Meu Deus... é Nossa Senhora Aparecida!
Ela veio me salvar, ela veio em meu socorro... minha mãe tinha muita fé em Nossa Senhora Aparecida! — disse Armando.
No meio de seu desequilíbrio, ele associou a cor da pele da Preta Velha e as cores azul e branca por ela emitidas e imaginou estar tendo uma visão da padroeira do Brasil.
Seu Veludo entendeu a confusão feita por Armando e soltou gostosa gargalhada que estremeceu o ambiente, fazendo com que os outros espíritos se escondessem de medo.
Miquilina também entendeu o que aconteceu, olhou com doçura para Armando e simplesmente sorriu.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:46 am

— Ela está rindo para mim... a Santa está rindo para mim... — ele balbuciou ajoelhando-se no chão sujo.
O Exu continuou rindo enquanto se aproximava e ajudou Armando a levantar-se.
Miquilina desapareceu lentamente, da mesma forma que apareceu e Sandra caminhava logo atrás de Seu Veludo, que ajudava Armando a caminhar para fora da casa.
Lá fora uma equipe de socorro estava esperando por eles.
Armando foi colocado em uma espécie de transportador e foi levado pelos enfermeiros para um posto de socorro próximo.
Sandra sentiu o coração aliviado, não fazia ideia de quanto lhe faria bem enfrentar e esclarecer as coisas com Armando.
Foi justamente o não esclarecer as coisas e sempre "engolir" os aborrecimentos que a fez desenvolver um câncer no intestino, e agora ela estava aprendendo a sempre esclarecer tudo, sempre com muito amor. Foram caminhando pela rua enquanto conversavam.
— O que acontece agora, Seu Veludo?
— Agora, Armando receberá tratamento em um posto de socorro até desintoxicar-se e poder ser atendido em um dos hospitais da espiritualidade.
Você poderá visitá-lo sempre que necessário, sua presença será importantíssima para a sua adaptação, pois ele terá dificuldades em compreender que está desencarnado há mais de vinte anos.
O retorno pareceu ser mais rápido do que a descida.
Ao chegarem de volta aonde tinham iniciado a sua missão, o sol já queria começar sua caminhada pelo céu e a aurora tingia o firmamento com seus dedos cor-de-rosa.
Miquilina aguardava pelos dois viajantes sempre sorrindo.
— Exu Mo juba, Seu Veludo!
Muito obrigada por tudo! — disse a Preta Velha com sinceridade.
— Meus respeitos, para a Senhora também!
Estou sempre pronto para servir — respondeu ele solenemente.
Sandra retirou o manto que utilizava e o devolveu ao Exu.
Ele despediu-se das duas sempre com aquele enigmático e bonito sorriso.
Um redemoinho começou a se formar à sua volta e a envolvê-lo, denotando que ele estava dando por encerrada aquela missão.
Ele lembrou os últimos acontecimentos e gargalhou alegremente de dentro do redemoinho dizendo para Miquilina:
— Nossa Senhora Aparecida?
HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ...!
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:46 am

CAPÍTULO IX - Visitando a Crosta
A brisa mansa e fresca do início da manhã brincava entre as flores molhadas pelo orvalho e espalhava no ar um perfume doce e agradável.
O colorido do jardim em plena florescência encaixava-se em perfeita harmonia com a paz que Sandra trazia no semblante.
Ela deixava a brisa balançar seus cabelos, enquanto com os braços abertos permitia que os raios do sol a aquecessem e energizassem.
Mantinha agora a aparência que possuía durante o tempo de casada, pois assim acontece na vida espiritual:
cada entidade assume a forma que mais lhe agrada ou a que é necessária para o seu desenvolvimento.
Fazia um mês desde o resgate de Armando.
Ele pouco a pouco tomava consciência de sua situação e cada vez mais sua mente culpada o punia com as bênçãos do remorso e do arrependimento.
Sandra visitava-o a cada dois dias; ela ficou incumbida de torná-lo ciente de sua situação de desencarnado.
Assim, ela dividia seu tempo entre o atendimento a Armando e as palestras e actividades do Lar de Maria.
Um arrepio conhecido subiu pelo seu braço e ela sorriu dizendo:
— Oke Caboclo! Salve, Seu Pena Verde!
Que surpresa boa!
— Salve, minha filha, como vai? — respondeu a voz do Caboclo por trás de Sandra.
Ainda com os braços abertos e sorrindo, ela virou-se para a direcção de onde veio a voz do Caboclo e abriu os olhos para deparar-se com a bela figura de Seu Pena Verde.
Correu para ele tal como sempre fazia quando o encontrava e o abraçou com carinho que ele correspondeu de maneira sincera e fraterna.
— Estou bem, muito bem... me sinto útil, me sinto leve e me sinto feliz — comentou ela enquanto eles caminhavam pelo gramado.
— Isso é muito bom... o espírito só é feliz quando se sente útil, o céu de contemplação e tédio não condiz com a realidade do além-túmulo.
A vida na espiritualidade é movimento constante.
— E eu não sei disso, meu Caboclo?!...
Mas por que será que as pessoas insistem em querer acreditar na inactividade e na inércia ou mesmo inexistência da vida depois da morte?
— Porque as pessoas só acreditam naquilo que lhes vai dentro da alma.
O homem procura em Deus aquilo que eleja tem dentro de si mesmo.
— Como assim, Seu Pena Verde? — perguntou ela com vivido interesse.
— Conta a Bíblia que "Deus fez o homem à sua imagem e semelhança".
Entretanto, o inverso dessa sentença também é uma grande verdade, pois é o homem que entende, concebe ou faz Deus a sua imagem e semelhança.
— Não sei se estou acompanhando o Senhor... — falou ela piscando e sacudindo a cabeça, tentando ordenar as ideias.
— Estou tentando dizer que, de acordo com o estado evolutivo do homem, ele tem sua concepção de Deus muito próxima daquilo que ele mesmo é.
Homens violentos e vingativos adoram deuses violentos e vingativos; homens sensuais adoram deuses sensuais; homens guerreiros adoram deuses guerreiros; homens de amor e bondade adoram deuses de amor e bondade.
E só observar os exemplos de Deus nas diferentes sociedades, como o Javeh para os judeus do tempo de Moisés, os polémicos deuses gregos e romanos, os deuses nórdicos e o Deus trazido por Jesus...
Percebe a diferença?
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:46 am

— Percebo... — ela falou com os dedos indicador e médio tocando levemente o lábio inferior e com o olhar parado, como se estivesse processando lentamente toda aquela informação recebida. — ...afinal de contas, como é Deus?
— Deus é aquilo que você pensa que ele é.
Ele até não existe, caso seja essa a sua opção.
Deus dá-nos as benesses da escolha.
Tudo o que ele quer é que suas criaturas fiquem sintonizadas com ele e, para isso, ele se apresenta de acordo com a capacidade de entendimento do homem que o adora.
Deus é compreensão infinita.
— Então, é assim que a espiritualidade também age... cabe a cada ser humano entender e procurar o além-túmulo que o satisfaça... foi assim com Armando; mesmo nem sabendo que já tinha desencarnado, sua mente levou-o para aquilo que ele esperava encontrar depois da morte.
O tempo encarrega-se de nos ensinar, seja pela dor, seja pelo amor...
— Isso mesmo, Sandra, costumamos sempre dizer:
"Vamos dar tempo ao tempo, para ver o tempo que o tempo dá".
Sandra sorriu tranquila, colheu uma flor e ofereceu ao caboclo, que aceitou a oferta com um sorriso.
O sol realçava as cores do dia e ela comentou maravilhada como as cores são mais bonitas no plano espiritual; ela, inclusive, notava tons e cores diferentes dos percebidos pelos encarnados.
A lembrança da vida na terra fez Sandra sentir saudades da família ainda encarnada e ela perguntou sobre a situação da irmã e da sobrinha.
— Esta é uma das razões que me trazem aqui.
Estou convidando você para descer até a crosta.
— Jura?!... Ai... que bom!
E quando vamos?
— Neste momento.
Estamos descendo agora.
É preciso te alertar que o reencontro com os entes queridos, ainda encarnados, é mais ou menos como uma via de mão única.
— Como assim? — perguntou ela ofegante, com a alegria do iminente retorno à crosta.
— Você os verá, mas nada garante que eles a perceberão, e, se perceberem, qual será o grau de percepção da sua presença.
Não poderá interferir na vida deles, pois cabe a eles decidir de acordo com suas próprias consciências o rumo de suas vidas.
— Complicado, né, Seu Pena Verde?...
— Não podemos interferir no livre-arbítrio dos encarnados.
Podemos aconselhar, orar, enviar bons pensamentos... mas a vida de cada um é um caminho a ser trilhado sozinho.
O sol ia alto no céu quando encontramos Sandra e Seu Pena Verde no jardim da casa de Urânia.
Aquele belo dia ensolarado no plano terreno também tinha seus encantos, cores e perfume, mas, comparado com a leveza e a vibração do plano espiritual, eram nítidas a diferença e beleza deste último.
Urânia tinha seu jardim em muito bom estado, tentava dar aos afazeres domésticos a organização que não tinha em seus sentimentos.
Sandra sentia a alegria que se sente ao retornar para casa depois de uma longa viagem.
Apesar de sentir a diferença vibratória e ar mais denso, rever os lugares em que viveu, amou, sofreu, chorou, enfim, lugares repletos de significado e lembranças, fazia bem e dava-lhe cada vez mais a certeza de que é necessário seguir adiante.
O tempo não pára e não espera; cabe a cada um seguir em frente reparando erros e enxugando as lágrimas.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:46 am

Seu Pena Verde, com a experiência e a sabedoria dos grandes mestres, aproveitava cada momento, cada situação para com singeleza ministrar belas lições.
Ele apontou para uma folha escondida em meio a uma planta e Sandra viu um casulo começando a romper-se, e, de dentro dele, um ser, a princípio disforme, parecia sofrer imensamente ao tentar sair pela pequena fresta aberta.
— É uma borboleta! — disse Sandra aproximando-se da folhagem como quem quer enxergar melhor.
— Observe como ela luta para libertar-se do casulo que um dia serviu de abrigo para a sua metamorfose e hoje já não é mais tão confortável.
— É mesmo... mas também um buraquinho tão pequenininho!
Não é de admirar que demore tanto a sair daí de dentro... ah!
Coitadinha, Seu Pena Verde, a gente não pode ajudar só um pouquinho e abrir mais aquele casulo para ela sair logo? — perguntou Sandra, entrelaçando os dedos na altura do queixo e afinando a voz em atitude súplice.
Seu Pena Verde sorriu com a satisfação do caçador que vê sua armadilha funcionar com perfeição.
Seus olhos brilharam e caíram sobre Sandra com doçura.
Ela percebeu que foi pega de surpresa e preparou-se para receber o ensinamento que estava escondido naquela simples cena.
— É esta justamente a nossa situação diante da vida dos encarnados.
Essa borboleta nada mais está fazendo do que seguir o curso natural de seu desenvolvimento, e nós, de nenhum modo, podemos interferir facilitando a sua empreitada sob pena de fazê-la fracassar e não alcançar seu objectivo, morrendo mesmo antes de estar pronta para alçar voo.
Sandra escutava atentamente as palavras do caboclo, enquanto observava a borboleta esforçando-se para sair do casulo.
Seu Pena Verde continuou.
— Observe como ela tem o corpo e as asas amarrotadas e ainda húmidas.
A pequena abertura por onde ela tenta sair é estreita, justamente para que, ao passar por ali, ela retire o excesso de muco que cobre seu corpo e asas.
O esforço que ela faz é o esforço necessário para exercitar seu corpo, pernas e asas e despertar lentamente um corpo que estava inerte por tanto tempo.
Ela sai pouco a pouco e assim gradativamente seu corpo e asas vão secando e bastará mais alguns momentos depois de liberta para descansar, acabar de secar e poder voar livremente por aí.
A pequena borboleta já estava quase totalmente liberta e uma lágrima desceu pelo rosto de Sandra, que continuava ouvindo as palavras do Caboclo.
— Se, na ilusão de estarmos ajudando-a, interferirmos neste momento que é só dela, abrindo mais a fresta por onde ela tenta passar, ou a puxamos para fora, suas asas e corpo jamais secarão como deveriam, seu corpo não terá a agilidade necessária para locomover-se com sua nova forma e ela morrerá, frustrando todo um trabalho que estava delineado desde quando ela ainda era uma lagarta rastejante.
Liberta de seu casulo, a borboleta abria e fechava suas asas coloridas de laranja-e-preto que brilhavam na luz do dia.
— Assim é com os encarnados e até com alguns desencarnados também — continuou o Caboclo com eloquência.
As situações da vida nada mais são do que casulos criados pelo próprio espírito e de onde só ele pode libertar-se, pois é o esforço que ele faz para desenvencilhar-se ou solucionar essas situações que o tornarão mais forte e preparado para continuar sua evolução.
Se a espiritualidade interferir nesse processo, isentando o homem de passar por aquilo que, apesar de ser doloroso, é necessário, ele jamais deixará de ser uma lagarta, sempre fechado em seu casulo de problemas, vícios, egoísmo, e nunca alçará o voo da bela borboleta.
Nesse momento, a borboleta, já completamente refeita do seu esforço, saiu voando para seguir seu destino.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:47 am

— Nossa função é orientar, é ajudar o homem para que crie cada vez mais condições favoráveis para evoluir com equilíbrio.
Cada coisa a seu tempo.
O progresso não dá saltos e cada momento deve ser vivenciado de modo a se extrair dele o máximo de aprendizado possível.
Modificar, alterar o curso do desenvolvimento é, longe de ser caridade, forçar o homem ao sofrimento e a estagnação.
— Meu Deus... — comentou Sandra — agora entendo por que muitas vezes me pegava encafifada quando não conseguia corresponder às expectativas de um consulente.
As pessoas chegavam para pedir coisas que só elas podiam resolver, ou que não tinham solução, pois o único remédio era aceitar e saíam frustradas dizendo que o centro era fraco, era água com açúcar ou que o médium não tem santo... eram todos borboletas a lutar para saírem dos casulos que eles mesmos criaram.
— Exacto, são todos como borboletas a lutar para saírem dos casulos criados por eles mesmos.
Sair do casulo não é tarefa das mais fáceis, mas é imprescindível para que o espírito evolua, pois evolução é o destino de todo espírito.
O trabalho de consultas em Umbanda é também um trabalho de educação e conscientização dos adeptos.
É necessário que o médium esteja consciente do que se passa em seu município, em seu estado, em seu país e no mundo, pois a grande maioria dos consulentes dos centros de Umbanda leva para a consulta problemas puramente materiais.
Desemprego, enfermidades de fundo orgânico, traições conjugais, exames para subir no emprego, vizinhos bisbilhoteiros, desavenças familiares, falta de dinheiro...
Como dizer para um chefe de família desempregado que ele vai conseguir um bom emprego logo, se sabemos que o índice de desemprego sobe a cada dia?
Como fazer a pessoa com uma doença crónica compreender que ela tem de aprender a conviver com sua enfermidade?
Nós não vamos solucionar todos os problemas que nos são apresentados, mas vamos levar alívio para muitos.
No fundo as pessoas querem é ser ouvidas, é saber que alguém se preocupa com elas.
A palavra amiga do guia dá-lhes a força para tomarem as decisões que precisam; cada um carrega sua cruz e os guias aproveitam a problemática material para exemplificar as coisas do espírito.
Sandra admirou a facilidade com que o Caboclo usava um simples e corriqueiro momento, como o nascimento de uma borboleta, para dar uma lição de vida.
Sorria enquanto bebia cada palavra do guia espiritual.
Enquanto isso, dentro da casa, a harmonia não se fazia presente.
A conversa de Sandra e Seu Pena Verde foi interrompida pelos gritos que perturbavam a tranquilidade daquela manhã ensolarada.
Eles se dirigiram para o interior da residência e depararam-se com uma típica cena de tirania infantil.
— Deixa eu ver, minha filha... — dizia Humberto tentando ser paciente — ...quem sabe eu não posso te ajudar.
— Não! Eu quero que a MINHA mãe me ajude — respondeu Amanda, debruçando-se sobre a mesa e escondendo o caderno que continha a lição de casa.
Eu já falei que sua mãe não pode te atender agora... — afirmava ele, falando entre os dentes, pois aquela conversa já estava se alongando por uns dez minutos sem que se chegasse a um acordo.
— Pois eu não quero que você me ajude, eu quero que MINHA mãe me ajude!
Eu quero minha mãe! ]
— Olhe bem como você fala, mocinha, sou seu pai e não um de seus amiguinhos do colégio.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sex Ago 05, 2016 8:47 am

Você me deve respeito!
Já falei que agora sua mãe não pode te ajudar.
Vamos, me mostre sua dúvida que eu te ajudo. — Humberto já estava por um fio para perder a paciência.
— Não! Eu não quero você!
Saia daqui! Manhêeeeeeeeee!
Oh mãaaaaaae! Mãaaaaae!
Mãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaae!!!!!!!!!
A voz de Amanda encheu o ambiente ensurdecedoramente, Humberto perdeu a paciência e esmurrou a mesa.
A menina desandou a chorar aquele choro gritado e manipulador de quem sabe que está errado e quer passar por vítima.
— Está chorando porquê, se ainda não apanhou? — falou Humberto com ironia para a criança que agora chorava mais alto.
— Mas o que é que está acontecendo? — acudiu Urânia, que largou os afazeres domésticos e foi correndo ver a causa daquele escândalo.
— É sua filha que não quer deixar-me ajudá-la no trabalho de casa. Estou com a maior boa vontade e ela fica fazendo má-criação — respondeu Humberto irritado.
— O papai b... brig... gou comigo... ele brig... gou c... comigo... — soluçava a criança, não escondendo o excesso de dengo, tentando comover a mãe.
O nariz escorria e os olhos estavam vermelhos de tanto ela esfregá-los com as mãos. — ...eu q... queria que você me ajudasse... só vo... você...
—Humberto?!
Precisava deixar a menina deste jeito? — disse irritada Urânia para o esposo.
... liga não, filha... eu venho já, já te ajudar, viu?
Você não quer um biscoito?
Vem, mamãe vai te dar algo para comer...
A criança deixou-se levar pela mãe para a cozinha.
Intimamente sorria, pois tinha ganho a batalha.
Conseguiu que o pai não a ajudasse no trabalho do colégio e ainda ficasse sem razão perante a mãe.
— É por isso que essa menina não me respeita!
Você sempre faz isso, sempre fica do lado dela.
Não vê que ela te manipula 24 horas por dia? — esbravejava Humberto, possesso de raiva.
Essa menina está sempre se colocando entre nós!
Estavam simplesmente repetindo as atitudes de Jane, Jade e Tadeu.
A reencarnação apaga temporariamente da memória os acontecimentos do passado, mas os vínculos permanecem influenciando nossas atitudes.
Urânia, Amanda e Humberto precisavam retomar o caminho que leva à compreensão e ao perdão.
Mais tarde, pelo telefone, Urânia comentou com a mãe sobre mais aquela briga de Amanda e Humberto.
Selma suspirava e dizia da saudade que sentia da Preta Velha Miquilina, que, com certeza, saberia encontrar a solução para acalmar os ânimos de pai e filha.
Ao ouvir a referência a consultas espirituais, Urânia inflamou-se.
— Ora, mamãe, a senhora não aprende, não é?
Se santo fosse bom, a titia estava até hoje com a gente.
De que adiantou ser médium, dedicar-se, se na hora H o santo não fez nada por ela?
Eu não quero saber de nada mais dessas coisas... não quero ver nada, não quero ouvir nada.
Sandra ouviu essas palavras da sobrinha com profundo pesar.
Via a sobrinha enredar-se em espesso casulo de onde só ela poderia um dia libertar-se para alçar enfim seu voo rumo ao progresso.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:12 am

CAPÍTULO X - Vingança e obsessão
Sandra ficou a observar mãe e filha caminharem de mãos dadas em direcção à cozinha, enquanto Humberto saía pela porta da frente com o rosto congestionado pelo nervosismo.
Ela observou em um canto da sala uma presença que não havia notado antes.
Acocorada, esfregando as mãos enquanto sorria um sorriso desequilibrado, uma mulher malvestida e suja acompanhava com estranha alegria o desenrolar daquela cena.
Instintivamente, ela procurou Seu Pena Verde, que de pronto respondeu, esclarecendo:
— Nada tema. Ela não pode perceber nossa presença, estamos vibrando em faixas diferentes.
— Mas o que faz uma entidade dessas aqui? — perguntou Sandra com ansiedade.
— Está aqui porque tem vínculos espirituais com os moradores dessa casa.
Nenhum obsessor entra na vida de alguém por acaso.
Se há obsessão, é porque há ambiente propício para isso.
Não se esqueça da lei de afinidade: semelhantes atraem semelhantes.
— Tenho uma vaga percepção de que conheço essa mulher.
Seu olhar me é familiar... — disse Sandra levando o dedo indicador à boca e arqueando a sobrancelha.
— Então, concentre-se nesse olhar e veja o que você consegue buscar em sua memória reencarnatória.
Sandra respirou fundo e focalizou sua atenção no olhar da entidade que continuava a esfregar as mãos sem perceber o que se passava à sua volta.
A tia de Urânia foi gradativamente sendo transportada pela memória em uma viagem de volta no tempo e viu-se novamente na pele de Lunda, a escrava que acompanhava as sinhazinhas Jane e Jade.
Lunda entra na cozinha da casa-grande e surpreende uma conversa não muito amistosa entre Jade e Muzala.
A primeira fazia questão de lembrar a segunda de sua condição de escrava e ameaçava, como sempre, contar ao pai sobre os batuques na senzala.
Jade passou a aproveitar-se do medo que Muzala tinha de ser punida por estar praticando o culto aos deuses africanos, o que poderia custar-lhe a vida por ser acusada de estar praticando feitiçaria, pois o fazendeiro Amadeu era radicalmente contra a religião dos escravos.
Jade aproveitava-se dessa situação e exagerava sempre que era possível para tornar a vida dos escravos, principalmente a de Muzala, um inferno.
Fazia-os trabalhar sempre além do necessário, as ameaças de açoite no tronco eram invariavelmente cumpridas e Jade passou a ser odiada pelos escravos da fazenda.
Durante a conversa entre Jade e Muzala, os olhos da escrava brilhavam de ódio enquanto a jovem déspota exigia que um vestido que ela nem iria usar fosse imediatamente engomado, somente porque sabia que isso iria atrapalhar os planos da escrava em colher ervas que precisavam ser apanhadas antes do pôr-do-sol.
— Faça imediatamente o que eu mando, sua negra feiticeira e insolente!
Seus sortilégios não poderão ter a sua atenção hoje, pois eu não quero que você saia.
Isto é para o seu próprio bem; meu pai não vai gostar de ter que te colocar no tronco...
Jade terminou essa frase com um sorriso frio como o aço de um punhal.
— Sim, senhora — respondeu a escrava olhando dentro dos olhos de Jade, não escondendo o ódio que sentia.
Nesse momento, Sandra reconheceu, no rosto da entidade agachada no canto da sala da casa da sobrinha, o mesmo olhar de ódio no rosto de Muzala.
Ali estava à sua frente, dementada e cega pelo rancor, a escrava que Jade/Amanda chantageara.
— Isso mesmo, minha filha... — comentou Seu Pena Verde, trazendo Sandra de volta à realidade.
...Muzala não perdoou e ainda persegue Jade, que hoje se encontra como Amanda, aquela que um dia irá sentir os efeitos de suas acções do passado.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:12 am

— Mas eu pensava que todos os que um dia passaram pela prova da escravidão, hoje são os bondosos Pretos Velhos.
Pelo menos foi assim que aprendi... — disse Sandra, tendo a decepção na voz.
— Esse pensamento não é de todo incorrecto.
Falta apenas acrescentar que somente aqueles que passaram pela prova da escravidão, aceitando, compreendendo, perdoando e lutando pelo progresso espiritual, é que hoje são os que baixam na vestimenta de Pretos Velhos.
Muitos escravos levados pela revolta e pelo ódio até hoje perseguem aqueles que os maltrataram e perseguiram.
Não podemos deixar de entender que essas entidades têm sua cota de razão, mas também é nosso dever fazê-las compreender que só o amor é capaz de quebrar o círculo vicioso do ódio e da obsessão.
— Seu Pena Verde, estou muito preocupada com minha sobrinha e sua família.
O que podemos fazer?
Quais são os planos de Muzala?
Como podemos intervir? — argumentou Sandra com aflição, despejando no Caboclo uma saraivada de questões.
— Sua preocupação é por nós compartilhada, minha filha — disse serenamente o Caboclo. — entretanto, lembro a lição agora há pouco vivida lá no jardim, Muzala e Amanda enredaram-se por conta própria em espesso casulo, do qual só o esforço de cada uma pode libertá-las.
Podemos orar e procurar influenciar os atores desse drama de modo a fazer com que eles percebam a necessidade de orientação, mas não podemos interferir no desenrolar de suas acções.
Urânia e Humberto também têm, por sua vez, assuntos pendentes com Amanda.
Observe a conversa que está sendo travada entre Urânia e Selma.
Sandra, ao escutar o tom da voz da sobrinha e as palavras por ela proferidas, ao dizer à mãe que não queria saber de assuntos ligados a religião, levou a mão ao peito e proferiu silenciosa oração, pedindo ao alto forças para a sobrinha e sua família.
Já sabia que toda ajuda só pode ter efeito quando o necessitado realmente aceita o auxílio.
O Caboclo estendeu a mão e ela aceitou o apoio.
Ficou pensando na irmã enquanto Seu Pena Verde, com um rápido gesto com o braço que estava livre, movimentou partículas no tempo e no espaço e eles foram transportados para a casa de Selma.
Ela tinha acabado de desligar o telefone e apoiava pensativamente o queixo na mão direita.
Sandra olhava para a irmã e tinha a visão embaçada pelas lágrimas.
Fazia sete meses desde o seu desencarne.
Sentiu uma vontade enorme de abraçar a irmã e de beijar-lhe os cabelos, de sentir o calor do seu corpo e o seu perfume.
Instintivamente o fez sob a permissão do olhar emocionado do Caboclo.
Aquele gesto fez um enorme bem às duas irmãs; Sandra recebeu e transmitiu fluidos de força e ânimo, uma verdadeira troca energética tão comum quando seres que se amam se encontram.
De alguma forma, Selma sentiu alívio quanto à preocupação com a filha e chorou emocionada ao lembrar-se da irmã.
Um choro equilibrado de quem sabe que a distância e o tempo não enfraquecem os laços do verdadeiro amor; pediu em pensamento que os guias de Sandra a ajudassem a fazer com que a filha entendesse que a religião não é a solução para problemas por nós criados ou necessários para o nosso crescimento, ela é o meio do qual retiramos forças e orientação para modificar aquilo que podemos melhorar e aceitar aquilo que precisamos aceitar.
Sandra olhou em volta e reviu o lar para onde ela não voltou quando internou-se pela última vez.
Tudo estava igual como era antes, os mesmos móveis nos mesmos lugares, os retratos da família sobre o aparador da sala, os bibelôs e miniaturas de cristal na estante, o cheiro de óleo de móveis, a mancha no forro do sofá, o arranhão no vidro da mesa. Teve a impressão de que o tempo não passara naquela casa.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:12 am

A casa que a acolheu logo assim que enviuvou e de onde só saiu para morrer.
Caminhou em direcção à cozinha, sentiu o cheiro da despensa, parecia que a casa inteira lhe dava boas-vindas com todos os seus cheiros, sons e luminosidade.
Percorreu o corredor e foi até seu quarto, sua cama e suas coisas ainda estavam lá do mesmo jeito que ela tinha deixado.
A cama forrada com a colcha de matelassê, o armário, a cómoda, a poltrona que ficava no canto do quarto e o quadro de uma marina na cabeceira da cama.
Tudo intacto, como se estivesse aguardando a qualquer momento que ela fosse entrar no quarto.
Sentiu-se aliviada ao ver que sua memória estava sendo preservada e ao sentir-se respeitada por ninguém ter mexido em seus pertences.
Lembrou-se das conversas sobre morte e luto de entes queridos, em que se dizia que não se deve mexer nas coisas do falecido, pois isso lhe causa imenso sofrimento.
Ao mesmo tempo lembrou-se do seu despertar no Lar de Maria e percebeu que vivia independentemente dos seus pertences deixados na Terra.
Percebeu que, mesmo sentindo-se bem ao rever o lar terreno, já não mais pertencia àquele local e não havia sentido manter suas coisas à espera de seu retorno, que jamais aconteceria.
Lamentou quanto a irmã deveria estar sofrendo ao ser lembrada diariamente da sua morte ao olhar para aquele quarto vazio e saber que ela não estava mais lá.
— Seu Pena Verde, o que é certo? Mexer ou não mexer nas coisas do falecido? Existe um tempo para um resguardo?
— O certo é o desapego às coisas materiais, é saber que ao desencarnar nada mais do mundo material nos pertence.
Cabe aos que ficaram determinar quando é o melhor momento para mexer nos pertences do falecido.
Esse momento é extremamente triste e carregado de lembranças, algumas dolorosas, e, na maioria das vezes, não é o mexer nos pertences que faz mal ao falecido, mas a emoção em descontrole do encarnado, que chega até o desencarnado e gera o desequilíbrio.
Nesse momento, Selma entrou no quarto, sentou-se na poltrona e olhou para o quadro na parede à sua frente.
Era uma imagem do oceano que transmitia imensa paz.
Ela olhava para esse quadro sempre que desejava fazer uma oração a lemanjá.
Seu semblante estava preocupado, mas Sandra pôde perceber a luz que começava a ser emitida do chacra frontal da irmã, pois começou a orar sinceramente.
— Bondosa Mãe lemanjá, a Senhora, que como eu é mãe, entende como me sinto.
Meu coração não sabe precisar o quê, mas sinto que a família de minha filha precisa de ajuda.
Sei que o que está para acontecer é sério e que a compreensão da vida espiritual é peça importantíssima para a solução do que está por vir.
Minha filha não aceita qualquer orientação religiosa e preciso de sua ajuda.
"Sei que minha irmã ainda não está em condições de ajudar-me, mas peço que seus guias intervenham a nosso favor!
Peço a Vovó Miquilina e a Seu Pena Verde que olhem pela família de minha filha!"
A oração sincera e espontânea movimenta todo o plano espiritual.
Aquele pedido, proveniente de um coração realmente preocupado, encontrou eco no plano espiritual e a resposta foi uma chuva de fluidos benéficos que caíram sobre Selma, transmitindo bem-estar e confiança.
Aquele assunto já estava sendo tratado mesmo antes daquela oração, a espiritualidade já sabe com antecedência todas as nossas necessidades.
Seu Pena Verde convidou Sandra a retornar para o plano espiritual, por ora nada mais tinham a fazer, a não ser aguardar as determinações dos planos superiores.
De volta ao Lar de Maria, Sandra procurou Miquilina pedindo orientação sobre o acompanhamento espiritual de Amanda, pois muito a preocupava a presença de Muzala na casa da sobrinha.
— O caso inspira cuidados... — disse Miquilina.
...entretanto, confiemos na providência divina, minha filha.
Deus usa o mal para fazer o bem.
A presença de Muzala, apesar de doentia e de seus propósitos serem claramente os de uma vingança, acabará por fazer Urânia e Amanda aproximarem-se de sua mediunidade e de Deus.
— Mas, Vovó...
— Confie em Deus, minha filha!
Confie em Deus.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:12 am

CAPÍTULO XI - Jade, o triste passado de Amanda
O sorriso frio e cínico de Jade ainda ecoava na memória de Muzala, enquanto ela, com o coração cheio de rancor, preparava o vestido que, sabia, não seria usado pela exigente sinhá.
Respirou fundo e aproximou-se da janela para tomar ar fresco, olhou para o céu e admirou-se ao notar que estava da cor do chumbo, escuro e pesado como se a qualquer momento fosse cair.
Identificou seus sentimentos em desalinho com a movimentação agitada dos elementos lá fora.
O vento levantava a poeira em redemoinhos e fazia as folhas secas arrastarem-se pesadamente no chão.
Os pássaros procuravam abrigo em local seguro enquanto as árvores agitavam seus galhos como a pedir socorro ante à tormenta que ameaçava desabar.
Os homens voltavam do canavial apressados e temerosos da fúria da natureza.
Um raio rachou o céu acinzentado e espalhou-se como uma imensa mão de muitos dedos a tentar segurar o mundo.
Logo depois, um estranho trovão preencheu a atmosfera dando a impressão de que o firmamento estava sendo rasgado, enquanto os cães escondiam-se uivando de pavor.
Impassível, Muzala não mexia um músculo do seu corpo, fechou os olhos e sentiu o corpo vibrar ao entrar em sintonia com a natureza agitada.
Era filha de Xangô, o orixá do fogo e do trovão, aquele que destruiu os inimigos com os raios que saíram quando ele bateu vigorosamente com o seu machado nas rochas.
Orixá da justiça, rei poderoso e temido que cuspia fogo.
Ela pressentiu que a agitação de seus sentimentos e da natureza anunciava algo de muito ruim prestes a desabar sobre ela, assim como a tempestade começava a desabar lá fora.
Era uma chuva de verão e na velocidade com que se formou, também desfez-se e logo o azul rosado do céu de fim de tarde contrastava com os caminhos enlameados que os escravos percorriam deixando as marcas dos pés descalços por onde passavam.
O vestido de Jade ficou pronto.
Ela, como esperado por Muzala, nem prestou atenção ao aviso da escrava de que havia terminado sua missão, dispensando-a com um aceno esnobe.
Muzala deu seu trabalho por terminado, voltou para a cozinha e chorou de raiva.
Não conseguia entender o porquê da perseguição gratuita de Jade, ela acompanhava passo a passo todos os movimentos dos escravos quando percebia qualquer preparação ou comentário sobre os rituais na senzala.
O que Jade não sabia era que as folhas para o ritual daquela noite tinham sido colhidas por Zuma, o filho de Muzala, que era o encarregado de colhê-las e aguardava a mãe na cozinha para informar-lhe que as folhas haviam sido encontradas.
Jade espreitava atrás da porta, pois aprazia-lhe ouvir o choro da escrava frustrada em seus planos e ficou deveras contrariada ao saber que, apesar da sua artimanha, as folhas tinham sido colhidas.
— Se minha mãe estivesse viva, saberia encontrar uma maneira de fazer com que a Sinhá nos deixasse em paz — pensava em voz alta a inconformada Muzala.
— É verdade, minha avó, com seu jeito manso, conseguia dobrar a vontade dos patrões, mas não se preocupe, mãe... — dizia o filho da escrava.
... Fiz as oferendas e meu Pai permitiu que as folhas fossem colhidas, tudo está bem agora.
— Que falta que ela faz! Não sei, meu filho, algo me diz que uma coisa ruim vai acontecer... tenho medo das artimanhas dessa infeliz.
— Mas a senhora conseguiu a roupa e o cabelo dela? — Zuma sussurrou essa última frase, enquanto inclinava-se na direcção de Muzala, como quem não estivesse querendo ser escutado.
A mãe leva o dedo indicador à boca sinalizando silêncio, pois sabia que as paredes daquela casa tinham ouvidos.
Estava claro que os escravos planejavam fazer um feitiço que visava atingir Jade de modo a neutralizar a sua acção.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:12 am

A magia simpática baseia-se na crença de que uma prática mágica realizada sobre um objecto pode ter efeito sobre outro objecto ou pessoa que esteja ligado a ele por associação ou similaridade.
O trabalho que seria feito pelos escravos tinha a intenção de fazer Jade enfraquecer-se e não ter forças para ficar bisbilhotando os seus afazeres.
O ranger da porta se abrindo anunciou a sentença que ligaria Muzala, Zuma e Jade por longo tempo na roda das encarnações depurativas.
Os olhos de Muzala brilharam de raiva e de medo ao perceber que Jade estava todo o tempo escutando atrás de porta a sua conversa com o filho.
— Sobre o que estão falando?
A pergunta feita em tom ameaçador fez Zuma tremer e gaguejar ao responder.
— N...nada sinhá! E...est...tamos só proseando.
— É mesmo? — disse ironicamente a filha do fazendeiro.
E sobre o que proseavam?
Posso saber?
— Sobre a lida, sinhá, sobre a lida — respondeu Muzala baixando os olhos.
— Impossível — retrucou, altiva, Jade.
Ouvi perfeitamente quando seu filho perguntou sobre uma roupa e cabelos.
Que assunto sobre a lida e que envolva roupas e cabelos podem interessar a seu filho, se ele não é um escravo da casa grande?
Aliás, o que ele faz aqui?
Não deveria estar servindo na colheita?
— F...foi a chuva, sinhá... — respondeu com a voz trémula o filho de Muzala.
...o feitor mandou que voltássemos pois o céu estava desabando e os animais estavam muito inquietos.
— Mas o que isto tem a ver com roupas e cabelos?
Isso mais parece uma de suas feitiçarias.
Por que estavam sussurrando?
— Por nada, sinhá... só não queremos perturbar a sinhá com nossa conversa.
— Não tente mudar o rumo dessa conversa, Zuma!
Ouvi muito bem sobre ervas que foram colhidas, sei muito bem que seus encantamentos são feitos com o poder das ervas e vocês já sabem que meu pai é contra esse tipo coisa.
Agora me diga, foi vosmecê quem colheu essas ervas?
O silêncio pesou no ambiente.
Muzala sentiu, agora com mais certeza, que algo de muito ruim estava para acontecer; seu coração apertou-se dentro do peito sinalizando que estava prestes a sofrer.
— vou repetir a pergunta.
Foi vosmecê quem colheu ervas para fazerem feitiços, Zuma?
— Sim, sinhá — Zuma respondeu quase sem voz, e Muzala não conseguiu conter as lágrimas que corriam pesadas e sem controle.
Jade tinha a habilidade de fazer com que um pequenino acontecimento tomasse imensas proporções, quando observado pelo seu ponto de vista.
Seu pai, o fazendeiro Amadeu, acreditava sem questionar em tudo o que a filha caçula contava e ela, aproveitando-se disso, sempre exagerava nos tons da sua narrativa e, dessa forma, conseguiu fazer com que o tronco, outrora quase sem uso, se transformasse no símbolo de sua tirania.
Esse prazer na perseguição aos escravos remetia aos tempos da Roma antiga, quando Jade, naquele tempo esposa de um senador, sentia verdadeiro prazer ao assistir na arena do massacre dos que eram jogados aos leões; desde aquele tempo era xenófoba e seu desequilíbrio aumentava a olhos vistos.
A luz das tochas criava uma atmosfera ainda mais sombria e dramática àquela noite.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:13 am

Olhos tristes e avermelhados pelo choro fixavam sem esperança o tronco em que se encontrava amarrado, desde a noite anterior, o filho de Muzala.
Cansado e com dores em todo o corpo, Zuma prendia o choro que lhe apertava a alma.
Muzala estava desconsolada.
Em vão havia implorado a Jade e ao pai pelo fim do castigo imposto.
Entretanto, graças à influência de Jade, Amadeu estava irredutível.
Não aceitava que estivessem fazendo adorações a deuses pagãos em suas Berras e esse castigo serviria de exemplo.
Muzala não foi posta ao suplício, justamente por uma artimanha de Jade, que queria demonstrar a ela o tamanho de sua força.
O som das botas do feitor aproximando-se fez Zuma voltar os olhos para a direcção da mãe que era amparada por duas escravas.
A lua havia se escondido em um protesto mudo, as estrelas brilhavam menos e os escravos podiam sentir o peso da injustiça no ar que respiravam.
Dentro da casa-grande, em seu quarto, Jade andava de um lado para o outro qual fera enjaulada.
Gostaria de assistir ao açoite, imaginava a expressão de dor do filho de Muzala enquanto sua carne era maltratada pela ponta da chibata, imaginava a expressão de medo no rosto dos escravos, porém seu pai não permitiu que ela assistisse aos açoites julgando que sua pequenina não suportaria a visão do sofrimento.
Heitor, o feitor, exalava cheiro de bebida.
Não lhe agradava a missão de castigar os escravos no tronco.
Ele preferia deitar-se com as escravas a ter de suportar a visão de corpos magoados e sangrando.
Antes de dar cabo de sua incómoda missão, aqueceu os ânimos com alguns goles de aguardente.
Olhou a ansiosa plateia e decidiu que, quanto mais cedo começasse, mais cedo acabaria.
Trazia nas mãos o temido instrumento de coerção.
O chicote de couro tinha a ponta dividida em três ramificações, nas quais, em cada extremidade, havia uma pequena esfera de metal.
Dessa forma, um golpe atingia de uma só vez três pontos do corpo do supliciado.
As esferas de metal cortavam a carne ao atingirem a pele e ao serem puxadas de volta com o movimento da mão do carrasco.
A sentença dada foi de 50 chibatadas.
Heitor respirou fundo e levantou o braço, jogando com esse movimento o chicote para trás de si.
Manejou com agilidade o braço na direcção de Zuma e o zunido do couro cortando o ar gelou a alma dos negros que sentiram como se o castigo estivesse sendo aplicado em cada um individualmente.
Zuma não conseguiu refrear a dor física e moral que lhe corroía o ser.
Gritava de dor e de ódio enquanto suas costas, rubras pelo sangue que escorria, eram o feio retrato da maldade, da incompreensão e da injustiça.
Amadeu não permitiu que a contagem das chibatadas chegasse aos 30, mas não conseguiu evitar que Zuma chegasse consciente até os 25.
— Basta, Heitor! — gritou com sua voz de trovão o pai de Jade.
Chega de castigo... e que Deus me perdoe! — Rodou nos calcanhares retornando às pressas para a casa-grande.
O filho de Muzala foi levado desacordado para a senzala, onde teve seus ferimentos lavados e tratados com ervas cicatrizantes.
Muzala pessoalmente o atendeu sempre chorando e amaldiçoando aquela que era a responsável por todo aquele sofrimento.
Na casa-grande, Jade pedia detalhes do açoite, enquanto Amadeu implorava a Deus para apagar de sua memória a imagem daquele desatino.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:13 am

Para agravar a situação, Zuma era diabético.
Antes de ser acorrentado ao tronco, teve seus pés presos por pesados anéis de ferro que feriram em demasia seus tornozelos.
Três dias após o açoite, Zuma encontrava-se em estado febril, delirava e seus ferimentos não respondiam ao tratamento com unguentos e ervas.
O filho de Muzala ardeu em febre, enquanto a inflamação em suas feridas se alastrava em seu corpo levada pela corrente sanguínea.
Morreu lentamente, tendo na mente o desejo de vingança.
Por esses dias, Jane também já sentia os efeitos daninhos da infusão de ervas que sua irmã lhe oferecia.
Jade, após a morte de Zuma, passou a ficar temerosa em andar sozinha pela fazenda, pois via no olhar de cada escravo um julgamento.
Porém, ainda não havia sido tocada pelo remorso, apenas temia pela sua integridade física; continuava, entretanto, a exigir de Muzala o "remédio" da irmã.
Os meses foram passando, transformaram-se em anos, até que Jane faleceu vítima do desequilíbrio de Jade.
A morte de Jane realmente abalou a estrutura de Jade, pois ela não contava que sua tentativa de garantir o fracasso do casamento da irmã acabaria tão tragicamente.
De facto, nutria por Jane um bom sentimento; entretanto, não sabia dosá-lo.
Ainda não tinha aprendido a amar com desprendimento.
O abalo emocional de Jade, em decorrência da morte da irmã, era a brecha que Zuma esperava para poder iniciar sua vingança.
O filho de Muzala acompanhava a filha de Amadeu, durante todo o tempo.
Quando viu que Jade estava emocionalmente enfraquecida, sentiu que era hora de agir.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:13 am

CAPÍTULO XII - A vingança de Zuma
Jade jazia em seu leito, sem forças para suportar o abatimento que sofria.
Fazia três dias desde o enterro da irmã e ela encontrava-se extremamente cansada pois não conseguia dormir direito.
Amadeu foi pessoalmente levar para a filha caçula um chá calmante, no qual ele mesmo tinha colocado uma dose de ópio com a intenção de que a droga a fizesse dormir tranquila.
Percebeu que, desde o dia da morte de Jane, pesadelos estavam perturbando o seu sono.
Ela tomou o chá enquanto o pai procurava, ao animar a filha, também encontrar uma razão para manter a fé em Deus.
O efeito do ópio não demorou a aparecer e Amadeu fechou a porta do quarto da filha, indo para os seus aposentos tentar, por sua vez, conciliar o sono.
Liberta do corpo pelo efeito da droga, ela encontrou Zuma, que a observava sequioso de vingança.
Jade ainda estava confusa, como se estivesse despertando de um estranho sono, porém reconheceu o filho de Muzala e pensou em fugir ou gritar, mas não tinha forças, pois o efeito do ópio não permitia que ela pensasse e agisse com a mesma rapidez.
Ele estava com as mãos, pés e costas feridos, tinha um sorriso nervoso enquanto se aproximava lentamente.
— Está me reconhecendo, sinhá?
— Como você veio parar aqui? — perguntou ela tentando recompor-se do susto.
— Isto não interessa agora.
Eu não devo mais satisfações a vosmecê.
— Não se aproxime de mim!
Você está morto!
Morto, entendeu?
Afaste-se de mim!
— Está com medo, sinhá?
Onde foi parar sua coragem?
Ah... E sua irmã?
Sabe por onde ela anda?
Eu vi tudo o que vosmecê fez...vosmecê é traiçoeira como uma serpente.
Zuma dizia isso e não parava de aproximar-se, para desespero de Jade.
Tentando fugir, ela tropeçou e caiu.
Sentia o bafo de Zuma no seu pescoço, enquanto ele continuava sussurrando que ela era uma serpente.
— Afaste-se de mim! Solte-me, seu imundo! SOCORRO!
Nessa hora, o corpo material de Jade recebia as sensações desse encontro e debatia-se na cama.
— Serpente... você é uma serpente traiçoeira!
Jade acordou gritando e encontrou o pai tentando despertá-la.
Os dois abraçaram-se e choraram.
Jane estava vendo toda essa cena; tinha assistido ao seu enterro e estava seguindo a irmã na tentativa de entender o que estava acontecendo, pois não sabia o porquê de ela tentar falar com as pessoas e ninguém notar-lhe a presença.
Todos, inclusive seu esposo, referiam-se a ela como "a falecida", e ela não entendia como poderia o filho de Muzala ali estar, se ele é que era o falecido.
É normal que o recém-desencarnado acompanhe o seu funeral.
Jane o fez; entretanto, sua convicção religiosa não a tinha preparado para o além-túmulo.
Inicialmente pensou estar sonhando e Zuma incumbiu-se de actualizar Jane sobre todos os acontecimentos.
A partir desse dia, os encontros de Zuma e Jade eram constantes.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:13 am

Ele fazia questão de incutir na mente de Jade que ela era uma serpente, tinha se associado a poderosas falanges do astral inferior e era detentor de conhecimentos de licantropia;5 sua intenção era fazer Jade enlouquecer.
Jane, por sua vez, também se deixou envolver pelo desequilíbrio dos sentimentos de vingança e assediava a irmã em seus sonhos reiterando as palavras de Zuma, chamando-a de serpente traiçoeira.
Jade sofreu grande transformação após esses acontecimentos.
Sua atitude mudou.
O remorso corroía-lhe o espírito tal como ácido.
Tinha consciência de que foram as infusões de ervas que tinham agravado o estado de saúde da irmã, ao mesmo tempo não tinha com quem dividir essa culpa.
Ver a angústia do pai só aumentava o seu remorso.
Passou a procurar todos os dias a companhia do padre e começou a desenvolver a ideia de vestir o hábito, na esperança de, com isso, ter seus pecados perdoados.
A aparência de Jane após o desencarne permanecia enfermiça.
Ela continuava sentindo o mal-estar que a acompanhou nos últimos meses de encarnada, um cansaço e uma intensa fraqueza proveniente da anemia.
Ela não tinha o discernimento de que a enfermidade é propriedade da matéria e de que o espírito liberto da carne tem condições de manter na erraticidade a aparência que lhe aprouver, pois o perispírito molda-se de acordo com a sua vontade.
Muitos desencarnados, assim que o conseguem, passam a adoptar a aparência com que mais se identificam.
Entretanto, esse não era o caso de Jane.
Ela apegou-se em demasia aos problemas do seu tempo de encarnada, não estava permitindo a aproximação de espíritos amigos, pois seus projectos de vingança a isolavam da ajuda necessária e, assim, Jane sofria ainda as dores e incómodos que sentia antes de desencarnar, prolongando o próprio sofrimento na busca do prazer efémero da vingança.
Foi ela quem sugeriu a ideia de fazer com que Jade se arrependesse de sua beleza por meio de uma situação vexaminosa junto a Leôncio; queria ver a irmã assustada, mas não esperava que a situação saísse do controle.
Quando viu que Jade corria real perigo, apelou para Zuma que a ajudasse em fazer com que a irmã apenas levasse um susto.
Ele, depois de soltar sonora gargalhada, respondeu com desdém:
— Ora, ora, sinhá!
Foi a sinhá mesmo que sugeriu isso, eu quero mesmo que sua irmã sofra!
Que sofra na carne a dor, a vergonha e a humilhação!
— Zuma, pelo amor de Deus!
Fomos longe demais! Faça-o parar... eu te imploro...
— Sinhá... — disse ele entre feliz e comedido ante o desespero de Jane —,... nada mais podemos fazer... eleja está quase acabando...
Leôncio levantou-se, limpou com as costas da mão a saliva que escorria de sua boca e saiu cambaleante.
Foi a última vez que foi visto por Jade.
Ela virou-se de lado e chorou copiosamente, sentiu o imenso vazio que a violência deixa na vítima.
Não conseguia atinar, a princípio, o porquê de aquilo estar acontecendo, mas logo depois de algum tempo associou esse sentimento ao que os escravos tinham quando iam injustamente para o tronco.
Jane, ajoelhada ao seu lado, chorava junto com ela e partilhava de sua dor.
Arrependera-se imediatamente de suas intenções de vingança e desejou sinceramente que fosse perdoada.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Sab Ago 06, 2016 9:13 am

Zuma exultava em seu desequilíbrio, tinha a certeza de que estaria próximo o dia em que iria completar sua vingança ao enlouquecer aquela que tanto sofrimento lhe causara.
Aquele abalo emocional deixaria Jade ainda mais vulnerável; ela começou a desenvolver pensamentos suicidas.
Não conseguia olhar-se no espelho tamanha a vergonha que sentia e mandou que retirassem de seu quarto a penteadeira diante da qual ela costumava passar horas admirando-se.
Seus pesadelos continuavam atormentando seu sono, alimentava-se pouco e sua saúde começou também a inspirar cuidados.
Pediu a Muzala que lhe preparasse uma infusão de ervas que lhe tirasse a vida, o que lhe foi negado.
A escrava não hesitou em procurar o velho Amadeu; este passou a observar os passos da filha dia e noite.
Ela piorava a olhos vistos.
Via animais venenosos por toda a parte, via a falecida irmã chorar ao seu lado e o remorso a fazia sentir-se ainda pior.
Zuma e seu bando estavam exultantes; Jane chorava e não tinha forças nem conhecimento para enfrentar aquela situação.
Jade enlouqueceu. Sua mediunidade desenvolveu-se em desalinho graças à influência e aos laços espirituais criados entre ela e Zuma.
Dizia coisas desconexas, via cobras e serpentes enrodilharem-se em seu corpo, por vezes seu próprio corpo era o de uma grande serpente, seus cabelos também eram sentidos como inúmeras serpentes a tentarem morder-lhe o rosto.
Ela gritava, dava socos na cabeça ou tentava arrancar os cabelos.
As doses de ópio cada vez mais fortes já quase não faziam efeito.
Ela era um farrapo humano.
Muzala nada dizia, mas interiormente sentia que a "justiça" estava sendo feita.
Com todo sofrimento imposto a Muzala e Zuma, pelo desatino de Jade, mesmo sendo eles vítimas do preconceito e da intolerância, faltou-lhes a consciência de que toda acção tem uma reacção.
Nada fica sem resposta e todas as consequências das acções de Jade a ela retornariam um dia pela incorruptível lei do retorno.
Ao tentar apressar a ordem natural desse processo, vítimas e algozes alternam seus papéis na grande roda das reencarnações sucessivas em um enorme círculo vicioso que somente o amor e a tolerância têm o poder de fazer parar.
O desequilíbrio mediúnico causou danos ao sistema nervoso de Jade.
Ela contava 40 anos de idade quando uma estranha febre afectou seu batimento cardíaco, e ela faleceu para encontrar Zuma e todos os escravos falecidos que não a tinham perdoado e que foram aliciados pelo filho de Muzala.
Seu sofrimento estava somente começando.
Foi levada para sombrias regiões do astral inferior e passou pelas mais estranhas torturas psicológicas.
Amadeu resolveu não mais impedir que os negros fizessem seus batuques na senzala.
A visão da tristeza e do abatimento sofrido pelos escravos, depois da morte de Zuma e o remorso que ele sentia, quando lembrava a noite do açoite do filho de Muzala, fizeram com que ele permitisse que os negros tivessem ao menos a lembrança da terra natal como alento.
Um dia, Jane vagava pelo caminho que levava até a senzala, quando ouviu o som dos atabaques que tanto incomodavam a irmã.
Nunca teve a curiosidade de saber o que se passava por lá, porém nesse dia foi diferente.
Sentiu vontade e aproximou-se.
Viu os negros dançando, formando uma roda, e Muzala comandava aquela cerimónia.
Não entendia a língua em que aqueles cânticos eram entoados, mas sentiu-se atraída e deixou-se ficar.
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