Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Página 3 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:45 am

Viu que a movimentação no lado espiritual também era grande.
Viu as mais diferentes entidades aproximarem-se da roda, algumas pessoas entravam em transe e ela admirava-se ao notar que o processo de incorporação assemelhava-se muito às técnicas utilizadas por Zuma quando actuava em Jade.
Sentiu um vento frio envolver seu corpo quando uma das entidades desincorporou.
Viu nitidamente a entidade desligando-se fluidicamente do sistema nervoso da médium, pelos chacras que se encontravam em intensa actividade.
Percebeu que a entidade se aproximava dela.
Sabia que era uma bela negra; apesar de não conseguir divisar seu rosto, trajava-se com um vermelho intenso, movimentava-se graciosamente enquanto se aproxima.
Viu que trazia nas mãos um instrumento que consistia em um tufo de pêlos, como um rabo de cavalo, presos por um cabo, que ela agitava enquanto dançava.
Pequenos raios saíam da ponta de seus dedos.
Não ouviu sua voz, mas sabia que a entidade falava com ela, transmitindo-lhe paz e confiança.
Mais tarde descobriria que esteve diante do orixá lansã, a deusa dos raios e das tempestades, a senhora dos eguns, os espíritos desencarnados e encarregada por encaminhá-los ao seu destino.
Sentiu um torpor invadir-lhe o ser e quando despertou já não estava na fazenda, tinha sido encaminhada a um plano espiritual de repouso e aprendizado.
A vida seguiu seu curso, Jane, Jade e Tadeu foram um a um sendo encaminhados de forma a que tivessem nova oportunidade reencarnatória.
Muzala retornou ao plano espiritual e, ao reencontrar o filho, renovou com ele os votos de perseguição.
O ódio envenena o coração e embota a razão.
Muzala e Zuma levariam um pouco mais de tempo para compreender isso.

5. Técnica utilizada por entidades trevosas, que influenciam psicologicamente a sua vítima fazendo-a crer ser um animal.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:46 am

CAPÍTULO XIII - Amanda na terapia
Amanda não foi uma criança de trato fácil, por força de sua própria personalidade e também por conta da insegurança de Urânia, pois a dificuldade que teve para que sua gravidez chegasse a termo também interferiu, fazendo com que ela cercasse a filha de mimos e vontades desnecessárias que incrementavam ainda mais a distância entre a filha e o pai, o qual, a cada dia, certificava-se de que a menina era uma intrusa em sua vida.
Cresceu sofrendo de terrores nocturnos, influenciada pela presença de Muzala e Zuma, e assim Amanda foi vivenciando sua infância, adolescência e início da vida adulta.
Deitada no diva, ela relatava para o terapeuta, mais uma vez, suas impressões a respeito do recorrente pesadelo que a atormentava.
Falava da dificuldade cada vez maior de relacionar-se com o pai, de como havia dias em que a simples presença dele a irritava, como ele se colocava entre ela e a mãe, de modo a sempre querer saber sobre o que estavam conversando e como sempre arrumava uma maneira de fazer com que elas nunca estivessem a sós.
Tinha consciência de que não desgostava do pai, sabia reconhecer que, por vezes, tinha o desejo de poder abraçá-lo e acariciá-lo, assim como fazia com a mãe com tanta intimidade; entretanto, entre eles havia algo que não facilitava a comunicação e de certa forma até os afastava.
Enquanto ela falava, o terapeuta fazia pequenas anotações ou questionava um ou outro ponto da fala de Amanda, visando fazê-la pensar sobre seu próprio discurso.
A sala em que a sessão terapêutica acontecia era pequena, porém aconchegante.
Não era demasiado escura para não induzir ao sono, mas também não era excessivamente clara.
Tinha a luminosidade perfeita para que se sentisse à vontade e sem a sensação de se estar demasiado exposto ou escondido.
O diva espaçoso e aconchegante dava a quem nele se recostava a sensação de protecção.
Ao entrar naquela sala, ela sentia que podia dizer tudo o que queria sem censuras.
A terapia tinha feito progressos, entretanto muito pouco se comparados ao grande caminho que tinha percorrer para que pudesse receber alta.
Sérgio, o terapeuta, achou por bem começar a devolver para Amanda todo o material que até agora havia colectado a partir da observação de sua cliente.
Era chegada a hora de fazer com que ela "olhasse no espelho" e enfrentasse os próprios fantasmas.
— Quando você vai parar de negar a si mesma? — questionou o terapeuta por detrás dos óculos de leitura que se dependuravam das orelhas até a ponta do longo nariz.
— Não estou entendendo... — respondeu ela, encolhendo-se no diva.
— Já falei, outras vezes, que você nega a identificação que tem com seu pai.
Existem aspectos da sua personalidade que você não aceita e os transfere para a figura paterna.
Dessa forma, tenta livrar-se do lado de sua personalidade que você julga negativo, associando-o com a figura que a incomoda de modo a enfraquecê-la.
É um comportamento neurótico.
O que o caracteriza é a sua repetição e assim você está todo esse tempo fixada na resolução do Complexo de Édipo.
— Continuo sem entender...
— Esse sonho está simbolizando que você se nega a crescer e a enfrentar o mundo.
Que está neuroticamente fixada na ligação infantil que tem com sua mãe.
Você relata estar em um canal estreito e húmido, que remete à experiência do nascimento e expulsão do útero materno.
A criança cresce e o útero, um dia aconchegante e protector, passa a ser pequeno e sufocante e ela precisa nascer.
Entretanto, esse processo de nascimento é doloroso e cheio de incertezas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:46 am

Você tem medo de enfrentar o mundo que existe fora dos limites seguros de sua casa, nega-se a reconhecer uma terceira pessoa na relação existente entre você e sua mãe e agarra-se ao útero materno na forma desse sonho.
Porém, também já sente que os limites de sua casa já não são suficientes para você.
— Mas e a sensação de ser uma cobra, de uma cobra enrolar-se em minhas pernas?
— É aqui que entra a sua identificação com seu pai.
A cobra é um símbolo fálico.
Nesse sonho, ela significa a sua identificação com seu pai, e como você nega que em sua personalidade há muito da personalidade de seu pai, tomar consciência disso é sentir seu corpo transformar-se na cobra, transformar-se no falo, transformar-se no pai que você rejeita, apesar de não poder negar que é parte dele também.
Tomar consciência dessa identificação causa-lhe imenso desconforto.
— Poderia explicar melhor esse negócio de Complexo de Édipo? — perguntou Amanda, interessada nas questões levantadas pelo terapeuta.
— A resolução do Complexo de Édipo trata do conflito vivido pela criança quando desenvolve sentimentos ambíguos de amor e ódio em relação ao pai, pois rivaliza com ele o amor da mãe.
É uma fase obrigatória em todo crescimento saudável e marca o ingresso da criança na ordem social.
Vou contar-lhe a história de Édipo...
Laio e Jocasta eram respectivamente o rei e a rainha de Tebas.
Quando Jocasta anunciou estar esperando uma criança, Laio dirigiu-se à sacerdotisa em Delfos para saber que destino os deuses reservavam para o bebé.
Ela, em meio à fumaça densa das ervas aromáticas, fez a seguinte profecia:
"A criança é um menino.
Ele matará o pai e desposará a própria mãe".
Laio e Jocasta aguardaram o fim da gravidez, esperando que a sacerdotisa tivesse errado em sua previsão e ansiosos pelo nascimento de uma menina.
Depois de muitas horas de esforço pela dificuldade do parto, Jocasta trazia à luz um menino.
Laio não hesitou quando deu a seguinte ordem ao escravo:
— Essa criança não tem bons presságios.
Leve-a embora e liquide.
O escravo saiu levando a criança em um cesto, enquanto pensava na ingrata tarefa que lhe tinha sido confiada.
Quando chegou no alto do monte, depositou o cesto no chão e ficou a olhar o pequenino que chorava de fome.
Não tinha coragem de matá-lo, mas também sabia que não poderia ir contra uma ordem de seu rei.
Sem esperança, entre o remorso e a obediência, amarrou o pequenino pelos pés, pendurou-o em uma árvore e ali o deixou entregue à própria sorte.
Depois de muito tempo, o choro do recém-nascido foi ouvido por um pastor que por ali passava.
A criança estava faminta e tinha os pés inchados por estar tanto tempo presa pelos calcanhares, daí ter recebido o nome de Édipo, pois seu nome significa "aquele que tem os pés inchados".
O pastor que encontrou Édipo pendurado na árvore não tinha condições de criá-lo, pois o menino tinha ficado com os pés defeituosos e não poderia trabalhar no campo com o pai adoptivo.
Decidiu levá-lo à presença do rei de Corinto, que não tinha filhos, pois sua mulher era estéril.
Ele aceitou a criança tratada pelos médicos da corte, que, com massagens e exercícios, conseguiram fazer que Édipo andasse com o auxílio de um bastão.
O rei Pólipo e a rainha Mérope criaram Édipo como sendo seu próprio filho, e assim Édipo cresceu.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:46 am

Certo dia, Édipo estava em uma missão, tentando resolver negócios para seu pai e foi parar em Delfos, onde procurou a sacerdotisa para orientar-se quanto a questões da missão a ele confiada.
A sacerdotisa, em transe, proferiu a seguinte sentença:
"Você matará seu pai e desposará sua própria mãe".
Édipo resolveu nunca mais voltar para casa, na esperança de evitar a tragédia profetizada.
Enviou um mensageiro para a casa dos pais e nunca mais voltou.
Cavalgou por muito tempo até que, em uma encruzilhada, precisou dar passagem a uma comitiva.
Enquanto recuava, sua bengala caiu no meio do caminho e ele precisou apear para pegá-la.
Caminhou com dificuldade, enquanto o cocheiro impaciente o empurrou por estar fazendo o rei Laio esperar.
Édipo, irritado, golpeou o cocheiro com sua bengala, matando-o.
O rei, que a tudo assistia, também veio tomar satisfações com o estranho e entraram em calorosa discussão e também o rei foi morto pela ira de Édipo.
Somente um escravo, que acompanhava o rei, fugiu e escondeu-se no palácio dizendo que o rei e o cocheiro foram mortos por uma quadrilha.
Com a morte de Laio, assumiu o trono de Tebas o irmão de Jocasta, que prometeu a mão da rainha para aquele que conseguisse decifrar o enigma da esfinge que vinha liquidando todos os jovens que tentavam entrar na cidade.
Édipo ficou sabendo do desafio da esfinge, conseguiu decifrar o enigma e achou por bem aceitar a mão de Jocasta em casamento, pois assim acreditava estar evitando a profecia feita pela sacerdotisa em Delfos.
Édipo desposou Jocasta e dessa união nasceram quatro filhos.
Passaram-se anos nos quais Tebas foi uma cidade próspera e feliz.
Subitamente, uma peste abateu-se sobre o local e o povo sofria com a seca e a fome.
Procuraram o oráculo de Delfos e lá ficaram sabendo que todo aquele sofrimento era devido à morte do rei Laio, que não tinha sido vingada.
Sem saber como vingar a morte de Laio, pois não tinham ideia de quem seria o assassino, Édipo e Jocasta resolveram procurar a orientação de outro oráculo.
Ao perguntarem ao velho vidente quem era o assassino de Laio, tiveram a seguinte resposta:
— Você, Édipo, matou seu pai Laio e desposou sua mãe, Jocasta.
Essa revelação caiu como uma bomba sobre o reino.
Procuraram os reis de Corinto, Pólipo e Mérope, que esclareceram finalmente não serem os verdadeiros pais de Édipo.
Trouxeram à presença do rei Édipo o escravo, único sobrevivente do massacre sofrido pela comitiva de Laio, e ele contou, afinal, a verdade de que o rei tinha sido assassinado não por uma quadrilha, mas por apenas um homem e que esse homem era Édipo.
Jocasta, enlouquecida ante a dura revelação, enforca-se, e Édipo fura os olhos negando-se a aceitar a amarga realidade.
***
— Que história horrível! — exclama Amanda, revirando-se no diva. O que isso tem a ver comigo?
— Essa história tem a ver com todo mundo, Amanda.
Ela é uma alegoria usada para explicar o processo de amadurecimento da criança e o momento em que ela intrometa os conceitos e padrões sociais.
Todo mundo passa por esse processo.
A criança nasce e em um primeiro momento ela só se relaciona com a mãe, que a alimenta e cuida.
Com o passar do tempo, a criança cresce, torna-se gradativamente mais independente e começa a perceber que a mãe divide sua atenção com mais alguém, que o mundo é algo mais do que a sua relação com a própria mãe.
Esse outro alguém é o pai, com quem a criança passa a dividir as atenções maternas.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:46 am

O pai é aquele que traz limites para a criança, ele simboliza a cisão no relacionamento simbiótico entre a criança e a mãe e a entrada da criança no mundo dos relacionamentos.
A princípio, a criança rivaliza com o pai; aos poucos ela vai percebendo que não há outra forma de solucionar o impasse criado a não ser aceitar a figura do pai, reconhecer a sua autoridade e as limitações que ela impõe.
Nesta hora ela incorpora os valores da sociedade, ela aceita os padrões estabelecidos e está pronta para viver em sociedade.
"A Grosso modo, isso significa 'resolver o Complexo de Édipo'.
Existe uma fase da vida da criança em que ela desenvolve em relação ao pai um sentimento agressivo e de rivalidade, ela deseja livrar-se dele e ter a mãe só para si.
A relação edipiana é aquela em que a criança deseja a mãe, ela nos remete ao interdito do incesto.
Resolver o Complexo de Édipo é não fazer como Édipo, é reconhecer e introjectar a figura do pai e da mãe em nome da manutenção do equilíbrio entre as instâncias psíquicas.
Você ainda não se permitiu passar dessa fase infantil, está fixada no conflito pelo qual todo mundo passa.
Oscilando entre a certeza de que precisa reconhecer a autoridade da terceira pessoa e o perigo de perder sua identidade ao persistir na relação simbiótica que tem com sua mãe.
É hora de crescer, Amanda!
Comece a perceber que seu pai é a oportunidade de crescer libertando-se do aconchego excessivo que a mãe oferece.
Tudo é preciso ser vivido com equilíbrio e a entrada do pai na relação mãe/filho é o que faz a manutenção desse equilíbrio."6
— Quer dizer que tudo aquilo que eu disse sobre meu pai, na verdade, eu estava falando sobre mim mesma?
— Seu mecanismo de defesa é livrar-se da culpa que sente ao insistir em sua relação infantil com sua mãe, transferindo para seu pai os sentimentos de inveja, medo, raiva que você mesma sente.
— Isso tudo é muito estranho... não consigo elaborar toda essa informação...
— Você, inclusive, está transferindo esses sentimentos para a figura masculina em geral.
Amanda puxa as mangas da blusa tentando esconder as mãos.
Sente que Sérgio irá tocar em assuntos que ela evita e tem medo de se sentir exposta.
— Não estou com vontade de falar sobre isso...
Serenamente, o terapeuta continuou.
— Seu sonho também revela sua dificuldade em relacionar-se com o sexo oposto, sua insegurança e inexperiência no tema sexualidade.
Você esconde-se nessas roupas largas que não revelam sua silhueta, porque não quer despertar o interesse de ninguém.
Assim como um dia transferiu para seu pai os sentimentos de inveja, medo e raiva, hoje os transfere para toda figura masculina.
Mais uma vez, repetindo a situação edipiana, não aceitando o outro e agarrando-se à mãe.
Você não se permite relacionar com nenhum homem, pois vê em toda figura masculina a figura do pai.
Esse comportamento neurótico é um mecanismo de defesa de sua mente inconsciente, entretanto a necessidade de relacionar-se e os próprios impulsos naturais estão gerando a tensão e o conflito em que você se encontra.
— Isso tudo é muito estranho... não consigo elaborar toda essa ir mação...
— Então, continue tentando elaborar... seu tempo acabou.
Nos mos na próxima semana.

6. Existem outros aspectos e fases no relacionamento entre as três figuras do Complexo de Édipo que não serão tratados aqui, por fugirem do objectivo da obra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:46 am

CAPÍTULO XIV - Progressos e limitações da terapia
A terapia progrediu bastante depois da última sessão.
Amanda começou a enfrentar sentimentos e sensações que ela reprimia e que precisavam ser vivenciados.
Seu diálogo com o pai já ia um pouco mais além do bom-dia e Urânia sentia-se feliz, pois parecia que tudo estava sendo resolvido com o natural passar do tempo.
A intervenção terapêutica é benéfica à medida que permite que o analisado entenda, vivencie, exteriorize, enfim, trabalhe traumas, recalques, medos, fobias e toda carga emocional que precise ser escoada correctamente pelo aparelho psíquico.
É um trabalho lento e realmente muito tem ajudado o ser humano em sua busca de autoconhecimento e no tratamento das doenças mentais e disfunções dos relacionamentos.
Entretanto, poderiam ter uma eficácia e alcance de cura muito maior se não limitassem o objecto de sua actuação, a psique humana, dentro do curto período existente entre o nascimento e o túmulo.
As teorias psicológicas não reconhecem que a consciência permaneça depois do desencarne que é influenciada na actual encarnação pelas experiências das encarnações anteriores.
Apesar de aparentemente terem funcionado e auxiliado Amanda a entender e enfrentar seus recalques e questionamentos, as sessões de análise não estavam levando em consideração que o comportamento dela era reflexo das suas experiências como Jade.
A própria relação de conflito entre Jade e Tadeu remetia a outra encarnação ainda mais antiga, quando Jade, na figura da esposa de um senador romano, envolveu um opositor do esposo em grande trama de calúnias, fazendo-o enfraquecer-se política e socialmente.
O opositor do senador, antiga encarnação de Tadeu, sabia que tudo tinha sido arquitectado pela mulher do senador, quando não foi correspondida em seus desejos de uma relação extraconjugal.
O comportamento da irmã de Jane não foi o esperado dentro dos planos de resgate e aperfeiçoamento traçados pelos mentores espirituais para aquela encarnação; entretanto, ela também foi vítima de violência física, moral e psicológica.
O trauma do estupro era a verdadeira causa de sua aversão pela figura masculina, dificuldade de relacionamento amoroso e sexual.
Somente o reencontro com o seu agressor, dentro de uma nova situação que permitisse o esquecimento do passado, poderia devolver o equilíbrio ao aparelho psíquico de Jade/Amanda.
É aqui que reconhecemos a sabedoria do Criador quando nos brinda com a dádiva do esquecimento das encarnações anteriores.
Urânia, Amanda e Humberto estavam tendo a oportunidade de recomeçar onde Jane, Jade e Tadeu falharam.
Jade e Leôncio, por sua vez, também precisavam reencontrar-se para poderem reorganizar os sentimentos que haviam despertado um no outro.
O casamento de Leôncio era mais um dos muitos casamentos realizados por intermédio de contractos entre as famílias, e, na verdade, ele e a esposa viviam felizes somente na aparência.
Leôncio nutria em relação a Jade uma sincera atracção que foi deturpada pela influência de Zuma; Jade tinha por Leôncio um afecto que foi maculado pela violência da qual foi vítima.
Depois de seu ato violento e desequilibrado, Leôncio não esquecia o rosto assustado de Jade, paralisado pelo medo e totalmente indefesa diante da sua truculência.
Chegou em casa assustado e trancou-se na biblioteca, onde ficou a andar de um lado para o outro, ofegante e ansioso.
Ele sentia pela moça forte atracção; Zuma e Jane somente apimentaram mais o desejo que jazia em seu interior.
Os obsessores aproveitam nossas tendências e as ampliam de modo a desequilibrá-las e nos fazerem cair em tentação, daí ser muito importante o "orai e vigiai" pregado por Jesus.
Assim sendo, Leôncio não foi somente um joguete de Zuma e Jane.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:47 am

Ele também, de certa forma, alimentou os pensamentos libidinosos que lhe foram sugeridos pelos obsessores.
Temeroso de uma retaliação por parte de Amadeu, inventou uma viagem e, quando retornou, ficou sabendo da notícia de que uma desgraça havia caído sobre a família do fazendeiro, pois em pouco tempo tinha perdido uma filha e a outra havia enlouquecido.
Guardou seu segredo e levou-o para o túmulo, mas nunca mais conseguiu perdoar-se por ter magoado aquela que, se tivesse podido optar, seria a mãe de seus filhos.
Em sua actual encarnação, Leôncio chamava-se Mauro e contava 27 anos de idade.
Era um rapaz calado, guardava em si uma angústia e uma saudade de algo que ainda não tinha vivido.
Estava ansioso com o primeiro dia de trabalho, fora admitido para a mesma seção em que Amanda trabalhava.
Chegou cedo e começou a familiarizar-se com o local e com as pessoas.
Todos vinham dar boas-vindas e conhecer o mais novo funcionário, somente uma pessoa não participava daquele protocolo.
Amanda permanecia calada e distante, mergulhada em seus afazeres, isolando-se de tudo e de todos.
As pessoas já estavam acostumadas e, por força do hábito, isolavam-na de todos os acontecimentos no escritório.
Mauro no primeiro dia não notou sua presença, mas na semana seguinte precisou obter dela uma informação a respeito do serviço e foi aí que sua memória reencarnatória activou-se, dando reinicio ao programa de harmonização entre Amanda e Mauro.
Ele teve a nítida impressão de que a conhecia, apesar de saber que nunca a vira antes.
Sentia algo estranho naquele olhar distante, alguma coisa nele o chamava e o acusava.
Ela sentiu-se perto de um perigo iminente, tinha a impressão de que algo inesperado e incontrolável poderia acontecer a qualquer momento.
Mauro tentava entender o que se passava, buscando explicações nas doutrinas espiritualistas, pois sua família era umbandista.
Amanda levava para a análise as impressões que a figura de Mauro despertavam, imaginando tratar-se de mais uma versão da resolução do Complexo de Édipo.
A emoção que Mauro despertava em Amanda era diferente de todas as outras que ela até então experimentara.
Mesmo tentando esconder-se em roupas sem atractivo e procurando ser despojada de vaidade, ela, por vezes, era assediada na faculdade ou na rua, o que a deixava sobremaneira irritada.
Com Mauro foi diferente.
Ele não tomou nenhuma atitude ostensiva nesse sentido em relação a ela, mas a sua presença, a sua voz, o seu olhar, algo nele a perturbava.
Mauro também, por sua vez, ficava perguntando a si mesmo o que tinha visto naquela jovem calada e mal-humorada, que todos procuravam evitar.
Tinha a sensação de ser responsável por Amanda, tinha vontade de conhecê-la melhor e atribuiu essa situação à aura de mistério que a circundava.
Tentou iniciar uma conversa, que ela respondia monossilabicamente; foi advertido pelos colegas de trabalho que domesticar Amanda era uma missão impossível.
Respaldado em suas leituras a respeito de reencarnação e lei do Carma, acreditava que seu caminho e o de Amanda não haviam se cruzado sem um motivo.
Era impelido a aproximar-se dela e o fez de maneira sútil e paciente.
Percebeu que se impor não era a maneira acertada de tocar-lhe o coração.
Foi educado, foi gentil, e, dessa maneira, Amanda foi deixando-se envolver e pouco a pouco apaixonou-se pelo primeiro e único homem de sua vida.
Era, entretanto, extremamente ciumenta.
A precocidade de Mauro era fruto de seu amadurecimento na encarnação precedente quando, na pessoa de Leôncio, conheceu o arrependimento e o remorso.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:47 am

Ele não dividiu com ninguém o peso da lembrança daquele dia na beira do rio, mas depois do ocorrido, com o penoso e insistente martelar daquela cena em sua memória, reconheceu seu desatino e amadureceu com tristeza.
Urânia sentia-se feliz, via a filha fazer progressos na sua tentativa de relacionar-se melhor com o pai e via com bons olhos como Mauro tratava Amanda.
Humberto também estava mais tranquilo vendo a filha menos dependente da mãe.
Inutilmente, Selma aconselhava a filha a agradecer, de alguma maneira, a graça que recebera.
Urânia continuava reticente em relação a religião.
— Mãe, se eu tiver que agradecer a alguém, será ao Dr. Sérgio, o terapeuta de Amanda. — dizia Urânia enquanto Selma meneava tristemente a cabeça encanecida pelos anos.
Enquanto isso, Zuma e Muzala continuavam rondando sua vítima.
Apesar dos progressos realizados, os pesadelos continuavam e a erupção em seus punhos, que foi diagnosticada como uma alergia, de tempos em tempos aparecia, levando Amanda a toda sorte a tratamentos e exames que aliviavam os sintomas, mas sem descobrirem a causa nem muito menos a cura da incómoda coceira nos punhos da jovem.
Eles não estavam dispostos a abandonar seus planos de perseguição.
O ódio fixou-os no passado e não perceberam quanto tempo haviam desperdiçado em uma vingança que também os fazia sofrer, pois os lembrava a todo instante os momentos de tortura e angústia por que passaram.
Mauro e Amanda começaram a idealizar planos para em um futuro casarem-se.
Os obsessores decidiram que era chegada a hora de avançar em seus planos de vingança.
Amanda não podia ser feliz, pois eles não lhe davam esse direito.
Como todo relacionamento tem seus momentos de instabilidade, depois de uma briga do casal os obsessores aproveitaram o descontrole emocional da jovem para fazer, mais uma vez, a recorrente alergia eclodir.
Ela entrou em casa e não cumprimentou os pais, trancou-se em seu quarto e entregou-se ao descontrole das emoções.
Adormeceu atormentada enquanto à sua volta lúgubres vultos bailavam uma dança macabra.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:47 am

CAPÍTULO XV - Subtileza da obsessão
Naquela noite, seu sonho foi diferente.
Andava apressada por ruas estreitas e enlameadas de uma estranha cidade.
Tropeçava, caía e voltava a caminhar, fugindo de algo que ela não via, mas que a alcançaria a qualquer momento.
Tinha as mãos sujas de sangue, tentava limpá-las, porém não adiantava.
Tanto esfregava as mãos e os punhos que acabava ferindo-os e mais sangue escorria por suas mãos.
— Não adianta... — dizia uma voz vinda da escuridão.
...Você jamais conseguirá limpar suas mãos do sangue que fez derramar.
— Quem é você? — questionou ela.
— Sou a voz da justiça.
— O que foi que fiz?
— Espalhou a dor e o sofrimento.
Nunca será perdoada!
Serpente traiçoeira, eu te amaldiçoo para o resto de sua existência.
Ela tentava limpar as mãos em uma espécie de tanque que encontrou, no qual repousava um líquido escuro.
— Não adianta lavar-se, infeliz, nada pode limpar a sua sujeira... não adianta lavar as mãos de uma pecadora.
Esse sonho se repetiu por toda a noite.
Amanda despertou tensa e abatida.
Em sua mente ecoava a voz do sonho dizendo:
"Você jamais conseguirá limpar suas mãos".
A água do chuveiro levava a espuma do sabonete, enquanto ela, embaixo do jacto morno, olhava para as mãos.
Tomou o café na companhia dos pais como de costume.
Na condução, voltou a lembrar-se do sonho e observava os punhos, avermelhados pela alergia, durante a viagem.
Chegou ao escritório e a primeira coisa que fez foi ir ao banheiro e lavar as mãos.
O dia prosseguiu sem novidades.
Conversou com Mauro e fizeram as pazes, voltou ao trabalho, mas ao longo do dia uma sensação de que tudo estava empoeirado e sujo de vez em quando a surpreendia, e uma vontade muito grande de lavar as mãos surgia.
Chegou a fazê-lo algumas vezes, mas começou a tentar controlar aquela vontade insistente.
No caminho de volta para casa, não via a hora de poder lavar-se por completo.
Tudo a incomodava, a roupa suada, a poeira da rua, a fumaça dos carros...
Tomou um banho, vestiu uma roupa limpa e sentiu-se melhor.
Conversou com os pais enquanto jantava, falou com Mauro ao telefone, lavou novamente as mãos e recolheu-se.
O som do relógio despertando anunciou mais um dia de trabalho.
A ideia de limpar-se foi a primeira coisa que veio em sua mente.
Tinha a sensação de que, se não tivesse as mãos limpas, ela inteira estaria suja.
Tomou um banho demorado e deu especial atenção ao asseio de suas mãos e punhos.
Na condução, sentiu enorme incómodo com o excesso de proximidade das pessoas; no serviço, lavar as mãos começou a ser tarefa obrigatória a cada instante que mexia nas gavetas dos arquivos.
Com o passar dos dias, a ideia de limpeza foi impondo-se em sua mente.
Passado um mês, Amanda andava com uma pequena garrafa plástica contendo álcool e uma flanela, para limpar tudo aquilo que ela considerava sujo.
Mauro, Humberto e Urânia em, princípio, tomaram essa nova atitude como mais um capricho da voluntariosa Amanda, porém a coisa era mais séria do que aparentemente se pensava.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Dom Ago 07, 2016 9:47 am

A actuação de Zuma e Muzala estava criando raízes ainda mais profundas na mente de Amanda.
A estratégia dos obsessores é sempre a mesma, chegar sorrateira e imperceptivelmente, para pouco a pouco ir estabelecendo seu domínio sobre a mente do obsidiado.
Começam com uma influência discreta que vai evoluindo e pode chegar à completa subjugação de sua vítima.
A obsessão é, na maioria dos casos, o resultado de uma vingança.
O obsessor age junto a um encarnado visando prejudicar-lhe a saúde física, a saúde mental, os relacionamentos familiares, sociais ou profissionais.
O obsessor visa prejudicar o obsidiado, pois há entre eles o vínculo de um passado delituoso e nessa história não há santos ou demónios pois tanto obsessor como obsidiado são espíritos enfermos precisando de orientação.
Muitas vezes a cobrança feita pelos obsessores é justa, apesar de utilizarem meios incorrectos para o acerto de contas, pois quase sempre o obsidiado foi e é tão doente quanto o obsessor e somente a Deus encarregamos a missão de cobranças e acertos de contas.
Tanto pelo ponto de vista do obsessor como do ponto de vista do obsidiado, um que alega razões justas para a sua acção e o outro que sofre a perseguição de um desafecto, a obsessão só existe porque há falta de amor entre os envolvidos.
Enquanto uma das partes não se iluminar com o perdão, a força do ódio irá uni-los com sofrimento e, somente o advento do amor pode libertar essas almas em desequilíbrio.
O caso de Amanda inspirava intervenção imediata.
Entretanto, a intervenção espiritual somente alcança êxito quando o obsidiado acredita e aceita a ajuda oferecida.
Ele precisa colocar-se à disposição da ajuda e não bloquear o trabalho socorrista com a descrença ou atitudes que impeçam o acesso dos emissários do alto.
O obsidiado precisa modificar hábitos e atitudes que alimentam o processo obsessivo; no caso de Amanda, ela precisava exercitar a humildade, a tolerância para com as diferenças, a paciência, ter uma orientação religiosa, pois ela não tinha apego a nenhuma forma de religiosidade e a religião para pessoas como Amanda funciona como um freio aos instintos em descontrole, educando assim o espírito.
Durante todo esse tempo e desde o desenlace de Sandra, Selma não abandonou a sua fé.
Continuou a orar pela família da filha e agora, mais do que nunca, pedia a intervenção dos guias e protectores pela saúde de sua neta.
Ela foi a primeira a perceber os primeiros indícios de desequilíbrio e, como sempre, tentava alertar Urânia, que não aceitava a ideia de procurar ajuda na religião.
Mantinha os nomes e endereço da filha, genro e neta nos trabalhos de irradiação do centro que frequentava.
Quando soube que a neta já não conseguia ficar sem lavar as mãos por pelo menos três vezes antes de sentar-se à mesa, perguntou em uma das consultas que tomava:
— Vovô... — disse ela ao Preto Velho que a consultava — ...estou muito preocupada com minha neta, ela anda fazendo umas coisas tão esquisitas...
— Que passa com a fia? — perguntou a entidade.
— Ela está com umas manias de limpeza... para ela nada está suficientemente limpo... vive lavando as mãos... já não sai de casa sem um pano e um vidro de álcool para desinfectar tudo o que ela possivelmente possa tocar... eu sinto que algo está errado... ela está angustiada e não transmite paz de espírito... sua presença é perturbadora...
— Pensa na fia... — disse o Preto Velho, enquanto estendia as mãos do médium para que Selma repousasse nelas as suas.
A imagem de Amanda na tela mental de Selma estava carregada de emoção, haja vista o vínculo familiar que as unia.
O Preto Velho pôde fazer uma avaliação superficial do caso, baseado nas informações que obtinha da leitura da aura de Selma, que se impregnava com informações a respeito de Amanda à medida que sua avó pensava nela com ardor.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:46 am

O médium, incorporado, sentiu que o caso demandava um tratamento sério e imediato; e procurando informar a consulente sem, entretanto, assustá-la, disse:
— Ixisti uma influência, sim, fia...
— É mesmo, vovô?! — exclamou Selma arregalando os olhos.
Mas por quê?
— Fia, as obsessão ainda é acuntecimento comum no mundo di suncês.
Ela acuntece pruque muitos esprito ainda não aprendera a perdoar.
— Mas ela não faz nada de mal para ninguém!
Ela nem conhece tanta gente assim, será que é coisa de mulher?
Será alguma antiga namorada do perna de calça1 dela?
— As obsessão as vez têm raiz nas outra incarnação.
Lembra que o veio disse que elas acuntece pruque tem esprito que num sabe perdoar?
— O que posso fazer para tirar isso da minha neta?
— Esta fia pricisa de ajuda, mas também pricisa de educar as emoção e de ter fé em alguma coisa... essa fia cresceu sem ter fé...
Selma reconhece que as palavras do Preto Velho reflectiam a verdade, baixou a cabeça e chorou em silêncio.
— É verdade, vovô, minha neta não recebeu nenhuma orientação religiosa.
Minha filha afastou-se de toda e qualquer religião e com isso não permitiu que a filha tivesse essa convivência.
Ela enxugou as lágrimas e continuou desabafando.
— Amanda cresceu cheia de vontades e hoje, apesar de muito amá-la, sei que ela é uma pessoa de difícil convivência, ela é egoísta e preconceituosa, mas também sei que não é uma pessoa má...
— Ninguém é de tudo ruim, fia.
Todos têm os dois tipo de semente dentro de si, as semente boa e as semente ruim.
Com o livre-arbítrio cada um de suncês podi iscolhê quais as semente que pode brotar.
A fia foi criada sem cunhecê religião, mas já tá crescida e podi iscolhê se quer ou não ter religião.
Ela e a mãe pricisam entende que ser unida não é pensar e agir tudo igual... tem que respeita as diferença e apesar delas cuntinuá se amando.
Selma ficou olhando, admirada, como a entidade falava com naturalidade e objectivamente descrevendo uma situação que envolvia pessoas que o médium incorporado não conhecia.
Cada vez mais sua confiança nas entidades crescia e pedia em pensamento pela família de sua filha.
O médium, incorporado, estava sentado em um banquinho pintado de branco, ao seu lado uma tábua em que estava riscado o ponto do Preto Velho, em cima da tábua havia um copo com água, uma vela, a pemba8 usada para riscar o ponto, o coité9com café amargo, ao lado da tábua uma quartinha de barro com rosas brancas e arruda.
O Preto Velho apanhou uma rosa, deu umas baforadas com a fumaça do cachimbo e a entregou para Selma.
— Esta rosa é pra fia de suncê.
Diga a ela que a visita que ela teve foi um aviso de que está na hora dela fazer as paz com Deus e com a sua mediunidade.
— Que visita, vovô?
— A fia vai entende, ela vai lembra que recebeu uma visita que num via há muito tempo.
— E minha neta, vovô?
Como faço para ajudar minha neta?
— Essa fia tem que cumeçá a praticar a tolerância, tem que para de guarda mágoa, tem que encontra Deus em algum lugar.
Será necessário muita paciência e amor com ela pois sua dívida é grande.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:46 am

Ela está desenvolvendo mediunidade e não sabe.
Oriente essa fia, vai sé muito bom se a fia cumeçá um tratador espritual.
Selma saiu da consulta mais tranquila, apesar de saber que não seria fácil tratar desse assunto com a neta e a filha; olhava com carinho para a rosa branca na sua mão e pensava na melhor maneira de fazê-la chegar às mãos de Urânia. Entrou no elevador ensaiando uma maneira de iniciar o assunto que fazia sua filha torcer o nariz.
As portas prateadas do elevador abriram-se quando o botão que indicava o quarto andar apagou-se; ela andou pelo corredor e encontrou a filha que já a aguardava na porta do apartamento.
— Mãe, você está cheirando a fumaça de cachimbo... você está chegando do centro, não é?
— Claro! Você sabe que todo sábado à tarde eu vou à sessão, me faz muito bem tomar o passe e conversar com os guias.
— Mamãe, mamãe... já cansei de falar sobre isso...
— Isto foi enviado para você... — Selma estendeu a mão entregando a rosa.
— Para quê? — pergunta Urânia.
— É simplesmente um presente, uma lembrança de uma visita que você recebeu, uma visita que não via há muito tempo... sabe quem é?
— Quem mandou isso?
— Vovô Benedito, o Preto Velho com quem costumo tomar consulta.
Então já sabe do que se trata?
Urânia lembrou instantaneamente que rosas brancas eram as flores preferidas de sua falecida tia, lembrou-se daquela manhã em que a viu em sua cozinha e aceitou a flor com as mãos trémulas.
— Mãe, não brinque assim...
— Não estou brincando, filha... e eu nem sei do que se trata...
Ela contou para a mãe o ocorrido e Selma sorriu satisfeita com mais uma demonstração de carinho e existência da espiritualidade.

7. Expressão que as entidades usam para se referirem a pessoas do sexo masculino, o esposo ou namorado de alguém.
8. Espécie de giz cónico arredondado utilizado nos trabalhos de Umbanda.
9. Cumbuca, vasilha feita da casca do fruto da cuieira. Utilizada para servir de beber às entidades. Cuité.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:47 am

CAPÍTULO XVI - A subtil intervenção da Espiritualidade
Selma contou para a filha os detalhes da consulta.
Apesar de Urânia estar resistente, era-lhe difícil refutar a evidência de que algo que ela teimava em não querer compreender estava acontecendo, e ela não queria dar o braço a torcer ao pensar na possibilidade de a filha estar sendo vítima de um ataque obsessivo.
Segurava a rosa fluidificada, a mãe falava com eloquência enquanto ela observava a filha em seu ritual de limpeza antes de sentar-se à mesa para jantar.
Amanda entrava no banheiro e lavava as mãos, ao tocar na maçaneta para fechar a porta sentia que sujara as mãos novamente e voltava para a pia para as lavar, repetindo-se enfadonhamente nesse ritual.
Por fim, segurava a maçaneta com as mãos envolvidas em um pano e depois passava álcool nas mãos para tudo segurar com o auxílio de uma toalha.
Mais uma vez, apesar do aviso contundente, Urânia não deu ouvidos e simplesmente deixou que o tempo passasse.
Estava confiante de que a terapia iria encontrar uma resposta e uma orientação para mais essa fase na vida da filha.
O tempo passou transformando os dias em meses; tristemente a pequena excentricidade de Amanda transformou-se em uma doença.
Ela já não queria sair de casa alegando que a sujeira da rua podia impregnar suas roupas, passava horas a lavar as mãos e, ao fechar a torneira novamente, sentia-se suja e tinha as mãos machucadas de tanto esfregá-las na tentativa de limpar-se.
Estava licenciada do serviço e nem à terapia queria ir mais, já que o consultório parecia sujo.
Tinha emagrecido enormemente, pois também achava que a comida estava contaminada, não aceitava contacto físico com as pessoas porque o suor era sujo, sofria enormemente ao gastar todo o seu tempo isolando-se do mundo na tentativa de manter-se limpa.
Nem seu relacionamento com Mauro resistiu a tanto desequilíbrio; ele ainda frequentava sua casa, mas a moça estava realmente em sério processo obsessivo e já não mais agia com discernimento.
Trancava-se no quarto, o único lugar em que não via insectos tentando subir pelas suas pernas ou braços; Mauro já tinha sido alertado pelos guias do centro que sua família frequentava que o caso de Amanda era um típico caso de obsessão; entretanto, sabendo da dificuldade de falar sobre esse assunto com a mãe da noiva, seguia orando e pedindo para que alguma coisa fizesse Amanda despertar para a realidade.
Zuma e Muzala por sua vez também estavam cada vez mais desequilibrados.
A vingança tanto faz mal a sua vítima como ao vingador.
Ela fixa o executor no sofrimento de estar a todo instante lembrando de uma situação dolorosa que deveria ter servido como oportunidade de progresso ao exercitar o perdão, a tolerância e a humildade.
Eles conseguiram infiltrar-se de tal maneira na mente de Amanda que ela passava grande parte do dia tendo delírios com animais venenosos e insectos, falava de cobras e de vultos a perseguirem-na, gritando e amaldiçoando-a.
Zuma ainda trazia nas costas, nos pés e punhos as marcas do suplício, Muzala ainda tinha palpitações e tremores da angústia de ter presenciado o sofrimento e morte do filho.
Sabiam que a avó e o noivo de sua vítima estavam pedindo ajuda e irradiando pensamentos em favor da sua recuperação, mas eles também sabiam perfeitamente que o tratamento só teria efeito quando Amanda tomasse consciência de que ela era a peça fundamental para seu restabelecimento; dessa forma começaram a influenciar Amanda a não querer a presença da avó e do noivo por perto.
A mão da espiritualidade utiliza as mais diversas formas para nos impulsionar em direcção ao progresso. Utilizando o mal para fazer o bem, fazia com que a obsessão de Amanda servisse para aproximar ela e Urânia da religião e da mediunidade. Agora, a ferramenta da espiritualidade seria a dúvida para gerar ordem e orientação.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:47 am

Na casa de Urânia trabalhava Ondina, a empregada doméstica que vinha acompanhando de longe o desenrolar da doença de Amanda.
Ondina era uma mulher de baixa estatura, com 1,48 m, tinha 53 anos, usava sempre um lenço a esconder os cabelos negros que começavam a embranquecer, tinha os olhos pequenos, porém vivos e brilhantes, um sorriso simpático apesar dos poucos dentes que trazia na boca.
Apresentava o conhecimento adquirido com a dureza da vida. Viúva, mantinha com a força do trabalho a pequena casa na qual morava com os netos.
Era rezadeira, sabia rezas para ventre virado, olho grande, espinhela caída, nervo torcido... tinha conhecimento do uso de ervas para chás e unguentos para os mais variados fins.
Lidava com a mediunidade de maneira empírica; todo conhecimento que tinha sobre esse assunto era proveniente de sua prática, porém nenhum conhecimento teórico, nenhuma leitura, simplesmente as deduções a que ia chegando, muitas vezes com a ajuda de outras opiniões que assimilava sem questionar.
Não obstante, Ondina era uma grande auxiliadora das falanges do bem à medida que trabalhava mediunicamente com o sincero propósito de levar bem-estar às pessoas.
Sob o olhar impaciente de Urânia, Selma costumava ter longas conversas com Ondina a respeito de sonhos, simpatias, benzeduras e assuntos afins.
Amanda passava por severa crise.
Tinhas as mãos feridas de tanto lavar-se, mas, mesmo assim, insistia na limpeza neurótica de tudo que a cercava; por vezes delirava tendo a sensação de estar sendo atacada por insectos a subirem em seu corpo; debatia-se, puxava os cabelos, gritava em pleno desequilíbrio emocional e mediúnico... quando conseguia adormecer, o pesadelo que sempre a atormentava surgia em sua tela mental.
Humberto insistia em que a filha precisava de internação urgente, mas Urânia relutava em aceitar esse tipo de intervenção.
A filha de Selma chorava enquanto abafava os ouvidos com as mãos, tentando não ouvir os gritos que Amanda emitia nos momentos de crise.
Zuma e Muzala, completamente ligados ao sistema nervoso de Amanda, controlavam-na como a uma marionete e tinham a efémera sensação de estarem fazendo justiça.
Ondina limpava os vidros da janela e ao mesmo tempo observava o desconforto da patroa.
Desceu da escada, foi até a cozinha e voltou com um copo de água, que ofereceu a Urânia.
Ela aceitou sem dizer uma palavra.
— O que está acontecendo com minha filha?
— A senhora tem certeza de que não sabe? — respondeu Ondina, dobrando com o pano com que limpava os vidros da janela.
— Ela foi criada com todo carinho e dedicação, procurei dar tudo de mim, dei amor, dei atenção... minha única filha... — Mais lágrimas brotaram e Urânia escondeu o rosto nas mãos.
— E, D. Urânia...
Deus tem muitas maneiras de tentar dizer pra gente coisas que teimamos em não querer escutar.
— Por favor, Ondina... não é hora para você tentar me convencer a acreditar em influências espirituais...
— Desculpa-me, Dona Urânia, mas quando se trata do bem de um filho, acho que uma mãe não pode medir esforços... os espíritos influenciam na vida da gente, sim.
Muito mais do que se pensa, eu sei isso de cadeira... eu vejo isso todo dia... e sei que sua casa está muito carregada... a senhora não notou que eu passei a vir trabalhar com minha guia?
Ela mostra o fio de contas brancas, a guia de Oxalá, escondida dentro da blusa.
— E se fosse minha filha que estivesse desse jeito, eu faria de tudo para ver ela boa de novo.
Urânia olhou a empregada de cima a baixo, tentando compreender de onde Ondina havia tirado coragem de falar com ela daquela maneira.
Todavia, reconheceu que a arrumadeira não deixava de ter um pouco de razão ao falar na persistência das mães na procura do bem-estar dos filhos.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:47 am

Tomou um gole de água enquanto observava Ondina guardar novamente a guia de contas brancas dentro da blusa.
— O que você sugere que eu faça, Ondina?
Você internaria sua filha em um hospício?
— Amanda não está maluca, D. Urânia.
O que ela tem é um baita encosto que precisa ser despachado... eu sei que a senhora não acredita nessas coisas, mas eu estou falando para a senhora porque eu vejo uns vultos pretos andando por esta casa... é uma coisa ruim que tem aqui dentro... e pensar que tudo isso acontece por sua culpa...
— E como posso eu ser culpada da enfermidade de minha filha?
Urânia estava visivelmente irritada e demonstrava isso batendo nervosamente com a ponta do pé no chão.
— Ué! E a senhora não é médium
A sua mãe não vive dizendo que a senhora quando moça via e ouvia coisa do outro mundo?
Não sabe que quando a pessoa é médium e não desenvolve, alguém da família pega toda a carga?
— Você está dizendo que Amanda ficou assim porque...
— ...Porque a senhora é médium e não desenvolveu o seu dom, e agora sua filha está pegando toda a carga.
Lá em casa eu é que seguro tudo que entra, eu é que pego toda a carga.
Eles também são médium, mas ainda não desenvolveram, então eu é que seguro as pontas.
Urânia fitou a empregada esfregar a vidraça enquanto lhe dizia tudo aquilo com a maior naturalidade.
Lembrou as conversas que ouvia entre a mãe e a tia nas quais esse assunto era ventilado e lá dentro de sua mente a semente da dúvida começou a encontrar terreno fértil para germinar.
As convicções de Ondina e a certeza com que ela se expressou serviram para abalar a, até então, intransponível barreira de intransigência que Urânia tinha em relação à mediunidade e à religião.
Somente apelando para o instinto de protecção materno é que se pôde fazer com que Urânia permitisse pensar em procurar ajuda na espiritualidade.
É evidente que as ponderações de Ondina revelaram somente uma parte da realidade.
Ela tirou as suas conclusões tendo apenas como base a visão unilateral do fenómeno mediúnico.
Dentro da concepção espiritualista de justiça divina, não cabe a ideia de que alguém pague pelos erros ou pelas faltas de outrem.
Cada um acerta as suas próprias contas e responde pelos seus próprios erros e acertos.
Sendo assim, como pode um filho pagar pelos erros de seu pai ou de sua mãe?
Se foi Urânia que não atendeu ao chamado da mediunidade, por que Amanda é que estaria sendo castigada com a enfermidade?
Um médium não isenta a si ou a sua família de passar pelas agruras previstas em seu caminho reencarnatório depurativo.
Cada um passa por aquilo que lhe compete ou que procurou.
Amanda não estava sendo castigada pela ausência de fé de Urânia e, mesmo que Urânia tivesse desenvolvido sua mediunidade, isso não isentaria Amanda de sofrer a perseguição de Zuma e Muzala, pois já foi visto que eles estão ligados fortemente por laços de emoções distorcidas que precisam ser corrigidas.
Entretanto, o desenvolver sadio da mediunidade daria a Urânia as ferramentas e o conhecimento necessários para perceber o que se passava com a filha, orientando obsessores e obsidiada na senda do perdão e da caridade.
Amanda sofria com o desequilíbrio, porque ela mesma era também médium, e não porque sua mãe o era e não praticava seus dons.
A conversa com Ondina repetiu-se na memória de Urânia.
Ela passou as mãos na cabeça arrumando os cabelos em direcção ao coque que usava.
Enxugou o rosto, respirou fundo, levantou-se, foi até o telefone e discou o número do telefone de Selma.
— Alô!?... bença mãe.... quando é a próxima sessão lá no seu centro?
Ondina observou pelo canto dos olhos todo esse movimento.
Sem falar nada ou fazer qualquer gesto, simplesmente deixou aparecer os poucos dentes que tinha quando sorriu meneando a cabeça, satisfeita.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:47 am

CAPÍTULO XVII - A consulta de Urânia
'A sessão é no próximo sábado, por quê?", — perguntou Selma num meio sorriso.
— Por nada, eu andei pensando e achei que poderíamos tentar uma ajuda com os seus santos.
Amanda está surtando outra vez e eu já não sei mais a quem recorrer.
Ondina há pouco me disse que tudo isso é porque eu não desenvolvi.
Bem, não vai ser por minha culpa que minha filha vai ficar assim.
Vou fazer tudo para tê-la de volta, nem que para isso tenha de ir ao inferno!
Os dias passaram vagarosos para Selma, que não via a hora que Urânia tomasse sua consulta e começasse a tratar de si e da filha.
Zuma e Muzala deram uma trégua nos ataques obsessivos, fazendo com que Amanda ficasse mais calma na tentativa de que Urânia mudasse os planos de ir ao centro.
Ela, entretanto, estava decidida a fazer de tudo pela saúde da filha.
Foi em uma tarde quente de primavera que Urânia voltou depois de muitos anos a um terreiro de Umbanda.
Selma ainda custava a acreditar que a iniciativa de ir ao centro tinha partido da própria filha.
O terreiro era um local simples, um salão amplo com algumas janelas que davam para um quintal em que se encontravam algumas árvores e ervas.
Os ventiladores de tecto faziam o ar circular, porém o vento que produziam era morno, pois o sol castigava o telhado próximo a eles.
As paredes eram Pintadas de branco, em que se viam quadros com motivos religiosos.
Imagens de santos católicos ocupavam o altar na parede ao fundo.
A figura de Jesus ficava acima de tudo; flores, copos de água e velas dividiam o espaço sagrado com harmonia.
O ambiente era limpo, claro e transmitia bem-estar.
Selma cumprimentava as pessoas e Urânia, desconfiada, sem retirar a alça da bolsa dos ombros, como se a qualquer momento estivesse pronta para sair.
A sessão iniciou pontualmente às três horas da tarde.
Os médiuns, em Silêncio, formavam duas filas, uma de cada lado do salão, e voltados para o altar aguardavam em oração o final da Ave-Maria que preenchia o ambiente saindo das caixas de som.
A dirigente do centro segurava o turíbulo que balançava, fazendo as chamas do carvão levantarem-se.
Ao final da Avé Maria, uma médium aproximou-se do turíbulo e depositou uma mistura de ervas que logo desprendeu uma olorosa fumaça ao entrar em combustão.
A fumaça de odor agradável saía abundante do turíbulo que percorreu todo o recinto, sendo levado pela dirigente do centro, que defumou o salão e os médiuns formados, um a um, enquanto um cântico de defumação era entoado por todos.
O ritual prosseguiu até que o guia-chefe do terreiro incorporou.
Proferiu uma breve mensagem a todos os presentes e iniciou a chamada dos guias para os trabalhos de consulta.
Era uma gira de caboclos.
O som das palmas e do atabaque dava ritmo aos cânticos.
Os caboclos e caboclas incorporavam em seus aparelhos, que, dando passividade à actuação dos guias, dançavam, bradavam, assoviavam, assumindo uma postura altiva, séria, como se carregassem a responsabilidade de um conhecimento a que somente eles tinham acesso.
Urânia observava o desenrolar daquele ritual com interesse.
Sentia-se bem, apesar do calor que fazia naquela tarde primaveril, pois o ambiente transmitia paz e serenidade.
Após a incorporação das entidades, era chegada a hora das consultas e como aquela era a primeira vez que Urânia comparecia naquele terreiro, ela foi orientada a tomar seu passe com o guia-chefe.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:47 am

A médium que dirigia o ritual trazia o semblante calmo, os colares coloridos em contraste com o branco da roupa, uma das mãos para trás do corpo e a outra segurava o charuto aceso que, quando levado à boca, tornava-se eficiente ferramenta de trabalho, pois a fumaça do tabaco atua como excelente defumador individual que higieniza o consulente, auxiliando o trabalho de aplicar passes.
Urânia atravessou o terreiro em direcção à médium incorporada, com passos lentos e inseguros.
Sentia-se bem, mas aquela situação ia contra tudo aquilo que ela tinha pregado por tanto tempo desde a morte de sua tia.
Ela parou em frente à médium e não sabia muito bem o que fazer, segurava as mãos e olhava meio sem jeito para o rosto de D. Luiza.
O olhar da médium observava atentamente a mulher à sua frente; D. Luiza também era médium vidente, e, com a incorporação, a sua sensibilidade ficava ampliada.
Médium educada, ela deixava as imagens que surgiam na sua frente irem descortinando-se e a tudo observava sem transparecer espanto ou descontrole de emoções.
Percebeu o emaranhado de emoções oprimindo a consulente, mas ao mesmo tempo sentiu que ela não estava muito disposta a ouvir coisas diferentes das que já tinha se condicionado a escutar.
A médium incorporada estendeu as mãos e Urânia, reticente, repousou suas mãos frias nas mãos de D. Luiza.
— Quanta dúvida né, fia? — disse o Caboclo após o minuto que se passou e que para Urânia pareceu uma eternidade.
Urânia estava ansiosa e retribuiu a frase da entidade com um sorriso amarelo.
— A fia entendi o que eu diz? — perguntou o Caboclo depois de uma baforada de fumaça de charuto.
A consulta de Urânia 97
— Um pouco... eu não estou acostumada com essas coisas...
— Mas num é a primera vez qui a fia cunversa com uma entidade...
A médium incorporada olhou directamente para os olhos de Urânia, que baixou os seus, incapaz de encarar aquele olhar perscrutador.
— ...A fia traz muitas dúvida, prucura esclarecimento, pricisa de paz e busca ajuda pra arguém... pra um ente quirido.
Urânia não conseguiu reter duas grossas lágrimas que rolaram pesadas pelo seu rosto trémulo.
Lutava contra si mesma.
Em seu interior, travava-se uma acirrada batalha entre a razão e a fé.
Durante todos os anos após a morte da tia, quando ela renegou toda ideia de religiosidade, ela cria que podia explicar o fenómeno religioso como uma tremenda carência das pessoas que precisavam de uma força exterior que lhes guiasse os passos, que Deus era uma projecção do inconsciente colectivo e que a religião das pessoas deveria ser a ciência.
Entretanto, apesar desse discurso, ela convivia com os sintomas de sua própria mediunidade.
Não tinha visões com tanta frequência, mas sua intuição era infalível, seus sonhos eram em sua maioria premonitórios, tinha uma sintonia constante com a mãe e com as alterações de humor da filha.
Seu dia-a-dia demonstrava-lhe a todo instante que o mundo é algo bem mais do que os olhos e os sentidos físicos conseguem captar; ela, porém, desiludiu-se quando não aceitou a sofrida doença e morte de sua tia.
Em seu desconhecimento do delicado processo de resgate cármico no planeta, ela preferia acreditar que médiuns, por serem dotados com a capacidade de vidência, audiência, comunicações com o mundo espiritual, curas, deveriam, por obrigação, ser capazes de evitar o sofrimento e a doença em suas vidas.
Urânia sentia a força que emanava da médium atuada pela entidade e relutava em aceitar que estava buscando ajuda justamente naquilo que ela rejeitou durante tanto tempo: na religião.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:48 am

— A fia está lutando consigo mesma faz tempo, né, fia?
— Estou tão cansada...
— Deus se faz presente na vida dos fio a todo instante, os acuntecimento nas vida de suncês são oportunidade de crescimento.
Urânia tenta refazer-se apegando-se em sua racionalidade e respondeu, limpando o rosto:
— Mas eu não vim até aqui para falar de mim.
Eu vim em nome de minha filha.
A médium sentiu-se aliviada ao ouvir a afirmação de que aquela consulente vinha à procura da solução para uma situação que envolvia uma terceira pessoa.
Urânia deixou-se envolver pela necessidade de desabafar e verbalizar toda a sua ansiedade.
A médium e o caboclo simplesmente permitiram que ela escoasse a angústia que a oprimia.
— Durante todo esse tempo, venho tentando proteger minha filha das ilusões que o excesso da religião provoca.
Não quero que ela viva na espera de uma vida calma, tranquila e sem sustos que a fé proclama.
Sei que existe um Deus e que existem muitas coisas que a própria ciência ainda não explica.
O que tento evitar é a desilusão, é a frustração...
Ela respirou fundo, fazendo uma pausa para ver se estava sendo ouvida e para ver se seria interrompida.
Ao ver o aceno de cabeça da médium para que prosseguisse, ajeitou os cabelos como de costume e prosseguiu.
...Não concordo com essa coisa de que para irmos para o céu precisamos sofrer.
Como posso pagar, nesta vida, por coisas que fiz em uma outra vida da qual não me recordo?
Para que preciso desenvolver mediunidade se, na hora que mais se precisa, a mediunidade de nada serve?
Não pedi para ser médium e agora fico sabendo que a culpa da doença de minha filha é minha porque eu não desenvolvi!
Enquanto Urânia fazia seu desabafo, D. Luiza era intuída pelo guia espiritual de que seria necessária uma dose extra de paciência com aquela consulente, pois ela era a oportunidade para a solução de um sério e longo processo obsessivo que havia se transformado em possessão.
Com a sabedoria que só os humildes têm, o guia não se opôs ao discurso ácido de Urânia, pois sabia que ele era fruto do sofrimento e da ignorância, ao mesmo tempo em que tinha consciência de que, se fizesse oposição ostensiva, poderia fazer com que ela saísse revoltada e contrariada da consulta e nunca mais voltasse a procurar ajuda.
— Vi a dedicação que minha tia devotava ao centro, ela não faltava a uma sessão, até deixava de comparecer às festas de família por conta do compromisso religioso.
Pobre coitada... tanta dedicação lhe rendeu um câncer que a consumiu rapidamente.
Ajudou tanta gente e na hora em que ela precisava de ajuda... cadê a ajuda?
Cadê os anos de dedicação ao centro? De que serviu a mediunidade?
— Apesar de sua sinsibilidade e de todo esse tempo cunvivendo com a mediunidade, a fia sabe muito pouco dos mistério do serviço mediúnico — disse serenamente o caboclo, deixando Urânia perceber que agora era hora de ela escutar o que ele tinha a dizer.
— A mediunidade é dom naturá do ser humano.
Ninguém pricisa pidir para ser médium pruque todo mundo já é médium por natureza.
E por isso que a mediunidade, por si somente, não isenta o médium do carma qui ele tem.
O trabaio sincero e disinteressado angaria a simpatia dos bons esprito.
A cunvivência com os guia de luz traz pró médium o cunhecimento e o entendimento para ele passa prós cumpanheiro de jornada e pra usa nas hora de nicissidade e provação.
Por mais qui os guia acompanhem seus cavalo em todos os momento, por mais que os guia sofram com o sufrimento dos seus aparelho, a nenhum guia é dado o poder de isenta o médium daquilo qui ele tem qui passa para queimar o seu carma.
— Mas é justamente isto que eu não entendo!
Por que só evoluímos com o sofrimento?
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:48 am

Só vai para o céu quem sofre?
Não concordo com essa apologia do sofrimento.
Para que repetirmos tantas vezes as encarnações?
Não seria melhor simplesmente morrermos? — retrucou Urânia.
— Fia, o sufrimento não é condição obrigatória para a evolução do esprito.
Ele é apenas consequência do disiquilíbrio.
Disiquilíbrio das emoção, dos relacionamento.
Os fio pode evoluí na aligria também, pois Deus num é um tirano que se delicia quando seus filho chora e pede por clemência.
Deus num quê a morte do pecador, mas qui ele viva e se arrependa.
É por isso que a vida dos fio é uma repetição de situações dentro do tempo e do espaço.
É como uma espiral que dá voltas em si mesma na midida em que cresce.
O movimento circular são as situação que vão si repitindo na midida em que o tempo passa e dando sempre oportunidade para cunsertarem aquilo que escangalhara.
"O sufrimento é o resultado do disiquilíbrio gerado pelo afastamento da ordi do universo, que é o amor a todas as criatura.
As doença são forma do esprito se descarregar de emoções em descontrole que pricisam ser educadas, o ódio, o rancor, a mágoa, a tristeza em excesso acabam por afectar o funcionamento dos órgão do corpo."
Urânia compreendeu que o Caboclo se referia à situação vivida por sua tia.
Lembrou o casamento frustrado de Sandra e tudo pelo que ela passou no conturbado relacionamento que tinha com Armando.
— Minha tia não merecia ter passado por tudo aquilo e aceitava dizendo que estava saldando dívidas... mas que dívidas são essas se não nos lembramos delas?
— O cérebro dos fio foi feito para ler e lembrar somente dos acuntecimento desta encarnação.
O esquicimento do passado dá aos fio a opurtunidade de refazê laços afectivos que a descunfiança, a traição, a mágoa e o ódio danificara.
A convicção com que a entidade incorporada emitia suas respostas era envolvente e Urânia sentia-se impelida a concordar com os argumentos do Caboclo.
Entretanto, sua mente racional relutava com a fé que tentava ressurgir timidamente.
Percebeu que o foco da consulta retornou a ser ela e não Amanda.
Aliviada por ter expressado suas ideias e por ter percebido que foi ouvida, falou mansamente:
— E minha filha?
É por causa dela que venho aqui.
Já estou perdendo as esperanças.
É por minha culpa que ela está doente?
— Pense nesta fia, mentalize a sua fia — sugeriu o Caboclo, enquanto voltava a segurar as mãos de Urânia e a médium fechava os olhos concentrando-se.
Dona Luiza sentiu um arrepio que subiu pela coluna e arrepiou os pêlos da nuca, fazendo-a sacudir levemente os ombros, uma onda gelada a envolveu e sentiu-se um pouco zonza.
Esses eram os sinais físicos que sua mediunidade lhe dava quando estava sendo avisada da presença de um caso que demandava intervenção espiritual.
Sua visão espiritual trouxe a imagem de uma mulher jovem em avançado estágio de obsessão; percebeu o comprometimento do sistema nervoso e teve a certeza de que se tratava de um típico caso de cobrança de desafectos de outra encarnação.
— Esta fia pricisa de muita ajuda, fia.
— Afinal, o que ela tem?
— A enfermidade desta fia é de orígi espritual.
Ela é vítima de obsessão.
É uma perseguição que vem de outra incarnação, os perseguidores desta fia pensam estar acertando as conta.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Seg Ago 08, 2016 9:48 am

— Quanta injustiça!
Como pode Deus permitir uma coisa dessas?
Minha filha é incapaz de fazer mal a uma mosca.
— Fia, entenda que nada acuntece por acaso e nada acuntece sem a permissão de Deus.
A sabedoria divina é infinita e sua justiça cobre todo o universo.
Se ixisti obsessão é pruque ixisti entre o obsessor e o obsidiado uma ligação.
A enfermidade dessa fia tem orígi no passado dela com os obsessor dela, e nada tem que ver com suncê ter desenvolvido ou não o seu dom.
— Quer dizer que, mesmo que tivesse desenvolvido, como minha mãe e minha tia queriam, minha filha estaria passando por isso hoje?
Tá vendo? De que adianta desenvolver, então?
— Fia, não queira lidar com a espritualidade da mesma manera que a fia trata com um comerciante.
Acabei de ixplicá pra fia que a mediunidade não faz de suncês pessoas especiais que cunsegue burlar as leis de acção e reacção.
O seu desenvolvimento mediúnico não vai fazê com que todos os seus dissabores acabe, mas vai dar para suncê o esclarecimento do pruque de muitos dissabores e vai dar o entendimento para diminuir e até detecta eles.
Se a fia soubesse disso pudia ter evitado que a obsessão de sua fia chegasse ao ponto que tá hoje.
Urânia olhava espantada para o rosto da médium enquanto ouvia essas últimas palavras do Caboclo.
Incrivelmente, ele lhe aplicava um correctivo, porém sem nenhuma empáfia, falava a verdade directamente sem rodeios e com uma dose de carinho que a deixava sem palavras para retrucar.
Compreendeu que estava lidando com uma situação em que razão e fé andavam lado a lado, pois ao mesmo tempo que as explicações dadas pela entidade eram perfeitamente aceitáveis, elas só eram aceitáveis se embasadas na certeza de que o mundo é bem mais do que nossos sentidos físicos e a ciência oficial reconhecem.
— O que faço agora para salvar minha filha?
— O remédio para a obsessão é o perdão.
É priciso qui o coração de obsessores e obsidiados sejam tocados pelo perdão.
Só a reeducação dos sentimento e das atitude, o estudo e a disciplina da mediunidade pode abrir caminho para o perdão e o entendimento.
O obsidiado é arguém que está com sua mediunidade em descontrole.
Essa fia pricisa passar por rituais de limpeza e ao mesmo tempo educar-se mediúnica e religiosamente.
Tem que té uma crença seje ela qual for, pois a religião educa a criatura na midida que coloca freios nos instinto e nos vício.
Essa fia num é má, mas tem qui desenvolve mais a humildade, a paciência e a tolerância com as diferença.
Uma de suas prova nesta incarnação é se entende com o pai.
A mãe de Amanda rendeu-se ao ouvir da boca de uma pessoa que mal a conhecia, com acerto, um comentário correto a respeito da filha.
Sentiu que precisava fazer algo pela filha e que esse algo era relacionado a sua mediunidade e com a de Amanda.
O Caboclo aplicou passes dispersivos em Urânia para que ela pudesse depois absorver os fluidos que ele transmitiu pela imposição de mãos.
Ele deteve-se na região do chacra cardíaco e frontal.
Ao final, pediu que Urânia aguardasse o término da sessão para poder passar por uma corrente de descarga.
Ela assentiu com a cabeça, sorriu em agradecimento pela consulta, voltou cabisbaixa e a passos lentos para o seu lugar na assistência.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:31 am

CAPÍTULO XVIII - A Sessão e os seus preparativos
Foi com visível surpresa que Sandra recebeu a notícia de que a sobrinha havia decidido ir à sessão com a mãe.
— Que bom, vovó!
Que notícia maravilhosa! — dizia ela enquanto batia palmas encolhendo os ombros em um gesto de contida alegria.
E como foi que isso aconteceu?
— Contamos com os préstimos dos guias de Ondina, que a influenciaram sutilmente em uma conversa que teve com Urânia.
Aquela notícia alimentou de esperanças Sandra, que esperou ainda mais ansiosa pelo sábado, quando foi informada por Miquilina de que ela estaria presente naquela sessão.
Seria a primeira vez que Sandra compareceria a uma sessão depois de desencarnada.
Enquanto isso, Zuma e Muzala tentaram demonstrar seu descontentamento para com Ondina, mas não conseguiram fazer com que suas mentalizações de mal-estar a alcançassem, pois a faxineira emanava uma forte aura protectora, que era reforçada com o uso da guia correctamente energizada e utilizada.
Frustrados e irritados, perceberam que a melhor atitude a tomar seria temporariamente diminuir o assédio obsessivo em Amanda, pois assim Urânia poderia desistir da ideia de ir ao centro.
Com a trégua recebida, a neta de Selma, naquela semana, dormiu mais tranquila, tendo noites sem pesadelos e alimentando-se melhor, pois o apetite voltou com o descanso do corpo e a ausência das visões de baratas, moscas e toda sorte de insectos a sua volta.
Urânia percebeu a pequena melhora ocorrida em sua filha, mas a conversa tida com Ondina estava repetindo-se em sua memória como uma ideia fixa.
Decidiu que não voltaria atrás e que essa seria também a oportunidade de provar à mãe o engodo que era a religião.
A semana arrastou-se pesadamente para Sandra e Selma, até que finalmente o sábado tão esperado chegou.
— Falta muito tempo para irmos? — inquiriu ansiosa Sandra, ao ver Miquilina calmamente contemplar o azul do céu.
A Preta Velha fazia pequeno descanso depois de atender a um chamado em uma das enfermarias femininas do Lar de Maria.
— Está quase na hora, minha filha... pode ir se preparando — disse Miquilina com um sorriso, enquanto ajeitava o turbante branco.
Miquilina sabia a razão da ansiedade de Sandra.
Sua pupila estava ansiosa por rever a irmã e a sobrinha; estava feliz em saber que enfim Urânia procurava ajuda espiritual e, além disso tudo, esta seria a primeira vez que Sandra assistiria a uma sessão pelo lado dos desencarnados.
O relógio na parede branca marcava 13 horas quando Miquilina e Sandra pisavam o gramado em frente ao terreiro.
O dia estava claro e bonito, porém extremamente quente para um dia de primavera.
O sol bem no meio do céu coloria as plantas e as flores, convidando todos a bendizerem o bom gosto do Criador.
O terreiro situava-se em um terreno amplo que era dividido em duas partes.
A primeira metade, a que dava para a rua, era onde ficava o terreiro, as ervas ritualísticas e árvores.
Na parte dos fundos, separada por um muro baixo, ficava a residência de D. Luiza.
O local era simples e bem cuidado, dando ao visitante a sensação de bem-estar ao deparar-se com um jardim de plantas bem tratadas, e, especialmente naquele dia ensolarado, as árvores transformavam-se em abençoado abrigo.
Somente alguns médiuns estavam presentes e faziam os últimos retoques nos preparativos para a sessão.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:32 am

Lá dentro, sentia-se cheiro suave de lavanda do óleo de móveis recém-passado nos bancos da assistência, no ambiente claro e limpo somente uma suave música quebrava o silêncio.
Enquanto D. Luiza na cozinha ritual preparava um padê10, alguém arrumava flores em uma jarra, outro verificava as ervas e o carvão para o defumador e mais outra pessoa colocava velas no altar para serem acesas no momento propício.
Enquanto isso, no lado espiritual a movimentação também era grande.
Dentro do salão em que se realizariam as consultas, trabalhadores espirituais faziam um isolamento magnético utilizando fluidos que retiravam de plantas que encontravam no jardim, como o peregum e a espada-de-são jorge e das firmezas plantadas no interior do templo.
Caboclos e Caboclas já se faziam presentes.
Traziam ervas, aplicavam passes calmantes em alguns enfermos espirituais que se encontravam na assistência, trazidos por enfermeiros dos hospitais espirituais.
Ao mesmo tempo, lá fora a actividade também era intensa, Exus e Pombas Giras já estavam posicionados fazendo a vigilância do ambiente e impedindo a entrada de qualquer entidade que pudesse perturbar o equilíbrio da sessão.
Um vigilante detectou a presença de Miquilina e Sandra.
Aproximou-se e, percebendo a vibratória de Preta Velha, apresentou-se.
— Salve, minha Senhora, a que devemos a honra de sua visita? — disse ele com um tom de voz misto de respeito e deboche.
— Exu mo juba — respondeu humildemente Miquilina.
Sou Miquilina da Guiné e venho acompanhada daquela que quando encarnada foi o aparelho com quem trabalhei.
Ela tem parentes encarnados que passam por dificuldades e que estarão presentes na sessão de hoje.
Pedimos licença para entrar.
O Exu mediu Sandra com o olhar, fez um muxoxo, sorriu com desdém retorcendo o canto da boca e aquiesceu com a cabeça.
Sandra, ao perceber que estava sendo observada, baixou os olhos e só voltou a levantá-los depois que passou pela figura altiva do Exu.
Nesse momento, D. Luiza, auxiliada por duas médiuns, vinha trazendo a oferenda para a porteira.
Elas pararam em frente à casa de Exu, uma delas bateu três vezes na porta do pequeno recinto, como se estivesse anunciando sua chegada, abriu a porta e fizeram a oferenda pedindo a Exu para que a sessão ocorresse em um clima de paz e harmonia, que os guias e orixás pudessem ter seus caminhos abertos para comunicarem-se com os encarnados por meio daquele terreiro.
A primeira médium tinha na mão uma quartinha com água com a qual despejou pequenas quantidades no chão; a chefe do terreiro ofereceu o alguidar com a farofa de azeite-de-dendê em frente à segurança principal, tocando levemente com a oferenda três vezes no chão antes de depositá-la.
A segunda médium trazia um pouco de aniz e de aguardente, que depositou respectivamente na taça e no cuité que estavam ao lado do padê, acendeu uma vela de sete dias preta e vermelha e ofereceu cigarros e charutos.
D. Luiza verificou nos búzios se a oferenda tinha sido aceita.
A resposta foi positiva, elas agradeceram e voltaram para o interior do terreiro.
Uma oferenda dinamiza e concentra energias, propiciando o fortalecimento do axé.
Dessa forma, não se pode negar a importância da oferenda nos cultos afro-brasileiros.
O alimento funciona como elo de ligação entre o homem e as divindades e, quando feito de acordo com os preceitos, movimenta forças poderosas e possibilita o contacto com o sagrado.
Durante o preparo da comida ritualística, a pessoa que a está preparando está contribuindo com parte de sua energia, que, somada com a energia condensada no alimento, transforma-se em poderoso catalisador de forças.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:32 am

A farinha de mandioca, impregnada de forças telúricas, misturada com o azeite-de-dendê, que tem o poder de agradar e apaziguar entidades e orixás considerados "quentes", somados com o magnetismo da médium que o preparou, emitia no astral uma forte luminosidade e desprendia ondas magnéticas tão fortes e envolventes que logo activaram as firmezas existentes na casa de Exu e por conseguinte fortalecia magneticamente os Exus e Pombas Giras ali presentes, transmitindo-lhes enorme bem-estar, aumentando a sua percepção espiritual, dando-lhes assim melhores condições para efectuar seu trabalho.
Sandra observava tudo isso atentamente e comentou:
— Não sabia que era assim que acontecia...
Observou admirada as entidades aproximarem-se da oferenda e absorverem as emanações que se desprendiam das bebidas e da comida ali presentes.
— Observe, minha filha... acrescentou Miquilina — ...que não se trata aqui de satisfazer o prazer efémero de sentir o cheiro da bebida ou da comida.
Os materiais aqui ofertados contribuem para o reforço magnético das firmezas do terreiro.
O álcool da bebida, o azeite-de-dendê, a mandioca transformada em farinha... são todos provenientes do reino vegetal e, portanto, carregados de energias telúricas e astrais, pois as plantas, raízes, flores e sementes absorvem as emanações do sol, da lua e dos astros que gravitam na imensidão do universo.
Essa combinação de elementos, aliada ao magnetismo do médium em concentração, fornece a energia necessária para que os guardiões astrais façam seu trabalho.
— Mas, vovó, tem gente que acha que quando faz uma oferenda dessas está saciando a vontade da entidade de beber bebida alcoólica.
— Eu sei, filha, e é verdade que muitas entidades realmente gostam dessas emanações, mas independente disso, o álcool, por ser tão volátil, é óptimo material para desfazer manchas e miasmas.
— Vovó, e o uso do sangue?
Afinal, a Umbanda faz ou não faz o uso de sacrifício animal?
É verdade aquela história de que toda casa tem que, pelo menos uma vez ao ano, matar um franguinho para os Exus?
Que o centro que não faz matança é "água com açúcar"?
A Preta Velha sorriu pacientemente, enquanto ajeitava o caimento de sua bata sobre a saia rodada, e continuou a explicar calmamente:
— Para entender isso você terá de ouvir tudo o que eu vou dizer sem me interromper, pois minhas palavras só farão sentido se absorvidas de uma só vez.
Sandra assentiu com a cabeça, denotando estar sinceramente interessada.
Miquilina assumiu um ar solene e disse:
— Para a magia africana, os elementos são classificados em três grupos de cores:
elementos ou componentes vermelhas; elementos ou substâncias brancas; elementos ou substâncias pretas.
Esses três grupos se subdividem em outros três cada um, fazendo com que cada grupo de cores tenha elementos provenientes dos reinos animal, vegetal e mineral.
O grupo de substâncias vermelhas inclui componentes amarelos e alaranjados e o grupo de substâncias pretas inclui as azuis e as verdes.
Miquilina fez uma pequena pausa para observar a reacção de Sandra e para dar tempo para que ela absorvesse aquela informação.
Quando sentiu que podia prosseguir, respirou fundo e continuou.
— Dessa forma, temos substâncias vermelhas de origem animal, vermelhas de origem vegetal e vermelhas de origem mineral, e assim é com as substâncias brancas e pretas, de modo que existem nove tipos de substâncias, ou, como se costuma dizer, nove diferentes tipos de sangue utilizados na magia africana.
Como exemplo de sangue vermelho animal, temos o sangue humano, o do animal e o menstrual.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:32 am

Como exemplo de sangue vermelho vegetal, temos o dendê, o mel, o sumo de plantas e flores vermelhas ou amareladas, o pó vermelho do urucum.
Como exemplo de sangue vermelho mineral, temos as pedras vermelhas, o cobre, o bronze, o ouro...
Resumindo, o que quero dizer é que para fazermos magia é preciso utilizar a combinação dos elementos dos três grupos de cores.
Temos nove tipos diferentes de sangue e o animal é apenas um deles! O que acontece na Umbanda é que ela valoriza os outros tipos de sangue e substitui o sangue animal pelo sangue vegetal ou mineral, pois um substitui perfeitamente o outro e tem o mesmo axé do seu grupo.
Logo, em Umbanda não há necessidade da utilização de sangue animal. Entendeu?
— Entendi... — respondeu Sandra tocando levemente o lábio inferior com a ponta do dedo indicador, demonstrando estar lentamente processando toda aquela informação.
...E a senhora pode me dizer quais são as substâncias animais, vegetais e minerais dos grupos branco e preto?
Miquilina tocava lenta e demoradamente na ponta de cada dedo enquanto falava:
— Bem, como sangue branco animal temos o sémen, a saliva, a linfa, o hálito, o líquido do caracol; como sangue branco vegetal temos a seiva, o sumo, o álcool proveniente das palmeiras, a manteiga vegetal conhecida como ori; e como sangue branco mineral temos a prata, o sal, a pemba... já no grupo do sangue preto temos como sangue animal as cinzas de animais, como sangue vegetal o sumo escuro dos vegetais e como sangue mineral o carvão, o ferro, pedras pretas e escuras.
Sandra estava fascinada com aquela enxurrada de conhecimentos que lhe estavam sendo transmitidos.
Lembrou seu tempo de encarnada e de como poderia ter sido muito mais útil se tivesse sido uma médium dedicada ao estudo da mediunidade e de sua religião, seus fundamentos e mistérios.
Entretanto, enveredou pelo cómodo caminho de deixar ao guia toda a responsabilidade pelo conhecimento, tomando-se assim um aparelho aquém das expectativas de aproveitamento do seu potencial mediúnico.
— O tempo não pára e não espera por ninguém, filha — disse Miquilina, percebendo o processo mental de Sandra.
Agora é hora de seguir adiante — complementou com seu sorriso contagiante.
Elas foram caminhando em direcção ao interior do templo; no percurso, transitavam juntamente com outras entidades que, atarefadas, iam e vinham dando os últimos retoques nos preparativos da sessão.
Muitos saudavam Miquilina, que, respeitosamente, correspondia a todos os cumprimentos de apreço e de boas-vindas.
— Que alegria tê-la connosco hoje!
Epá as Almas! — saudou animadamente uma entidade de aparência viril.
— Muito me alegro também em retornar a essa casa — respondeu a Preta Velha.
Estavam diante do Caboclo chefe do terreiro.
Seu Mata Virgem apresentava-se na figura de um homem jovem, aparentando uns 40 anos.
Pele morena, cabelos lisos cortados rentes à cabeça como uma cuia a envolvê-la, olhos miúdos e levemente puxados, rosto quadrado e lábios finos, o tronco roliço e braços fortes.
Tinha o peito nu e no pescoço uma guia de contas verdes, trajava uma espécie de saiote feito de folhas, o que o fazia exalar um agradável, porém forte, cheiro de mato.
— Como o Senhor já deve saber, venho acompanhada por aquela que foi meu cavalo e que vem em missão de aprendizado e para rever parentes encarnados que comparecerão aqui hoje buscando orientação para um sério caso de obsessão que já se alonga por anos.
— Já tomamos conhecimento do caso.
É realmente um sério problema que se agrava com a falta de orientação religiosa e com a falta de confiança na espiritualidade — disse Seu Mata Virgem pousando o olhar tranquilo em Sandra, que, sem palavras para descrever a emoção que sentia, instintivamente baixou a cabeça e pediu a bênção do chefe do terreiro.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:32 am

— Que NZambi te abençoe, minha filha — respondeu o Caboclo.
O tempo foi passando e Sandra observava o vaivém de encarnados e desencarnados no preparativo da sessão.
Lembrava-se de quando a chefe do terreiro que frequentava pedia silêncio e concentração durante todo o tempo e muitos médiuns reclamavam dizendo que era excesso de disciplina.
Constatava agora quanto é importante manter o ambiente tranquilo e equilibrado, zelar pelo silêncio, pela concentração e pelo bom ambiente, pois no lado espiritual o trabalho não pára.
Percebeu como é importante chegar cedo ao terreiro e ir ambientando-se e impregnando-se com os fluidos ali reinantes, pois os guias já se encontram em actividade muito antes de seus cavalos chegarem esbaforidos e com a mente atribulada com os problemas do dia-a-dia.
O restante do corpo mediúnico foi chegando e assumindo suas actividades; também começaram a chegar os consulentes.
Sandra sentiu um nó na garganta ao ver a irmã e a sobrinha aparecerem na soleira da porta.
O relógio na parede marcava 14 horas e 30 minutos.

10. Comida oferecida a Exu, que consiste em uma farofa geralmente feita com azeite-de-dendê.
avatar
Ave sem Ninho

Mensagens : 72024
Data de inscrição : 07/11/2010
Idade : 61
Localização : Porto - Portugal

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Conteúdo patrocinado


Conteúdo patrocinado


Voltar ao Topo Ir em baixo

Página 3 de 6 Anterior  1, 2, 3, 4, 5, 6  Seguinte

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum