Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:32 am

CAPÍTULO XIX - O desenrolar da sessão
Selma entrou sorrindo ao cumprimentar as pessoas.
Urânia, desconfiada, percorreu com os olhos todo o recinto.
Procurou um banco com lugares disponíveis e logo se sentou, pois sentia-se muito em evidência permanecendo em pé.
Com a alça da bolsa ainda nos ombros, observou os quadros na parede enquanto com um lenço enxugava o suor do rosto.
Selma acomodou-se ao seu lado e tinha nas mãos uma prancheta em que havia pedaços de papel branco e lápis.
— Para que isso, mamãe? — perguntou ela baixinho no ouvido de Selma.
— São os papéis nos quais escrevemos os nomes de pessoas que por alguma razão não puderam comparecer ou que estão desencarnadas.
Depois esses papéis são recolhidos e colocados lá na firmeza que será feita no início dos trabalhos.
Fazemos pedidos de saúde, de paz, de harmonia... quer escrever o nome de alguém?
— Nossa, que calor está fazendo, não acha? — respondeu Urânia, desconversando e dando a entender que não estava disposta a escrever o nome de ninguém naqueles papeizinhos.
Alguém lá de dentro do terreiro pediu silêncio na assistência, pois o burburinho gerado pela espera e pela reunião de pessoas em um espaço delimitado estava prejudicando a concentração dos médiuns, que já estavam começando a assumir seus lugares dentro do terreiro.
Quando o relógio marcava 14 horas e 55 minutos, a um sinal de D. Luiza um médium accionou o botão do aparelho de som e das caixas instaladas na parede começou a sair a melodia da Ave-Maria.
Nesse momento, o silêncio das pessoas era total e somente a música preenchia o ambiente.
No lado espiritual, também todos pararam o que estavam fazendo para deixarem-se impregnar pelas benéficas ondas magnéticas provocadas pela harmonia daqueles acordes.
Sandra observava que também as entidades que trabalhariam incorporadas tomavam suas posições próximo a seus médiuns.
Os médiuns em concentração tinham os chacras em intensa actividade; porém, ela observou que em alguns médiuns o giro dos chacras era menos intenso do que em outros.
Miquilina esclareceu que os rituais propiciatórios como o banho lustrai antes da actividade mediúnica, a alimentação saudável e leve, o repouso, o chegar cedo ao terreiro são actividades que facilitam a sintonia com os guias espirituais.
Alguns médiuns recebiam passes que os auxiliavam a equilibrar-se energeticamente.
Quando terminou de tocar a Ave-Maria, uma médium aproximou-se de D. Luiza e depositou no turíbulo uma mistura de ervas que desprendeu espessa e olorosa fumaça.
Era uma mistura de ervas ritualísticas que tem a função de preparar e purificar o ambiente.
A dirigente do terreiro levava o turíbulo a todos os cantos do salão, fazendo a fumaça espalhar-se por toda parte.
As ervas armazenam em seu caule, raízes e folhas as energias telúricas e astrais que captam da terra e da atmosfera.
Quando ocorre a combustão provocada pela defumação, a liberação brusca da energia contida na planta promove efeitos no ambiente, criando condições favoráveis ou não para determinado fim.
Dessa forma, um defumador pode ser de atracção, quando ele propicia a aproximação de entidades e energias benéficas; de repulsão, quando promove o afastamento de energias e entidades indesejáveis e de limpeza, quando promove a purificação do ambiente ao desfazer manchas astrais, formas pensamento e miasmas.
Sandra observava como a defumação agia em determinadas pessoas, pois algumas delas traziam o pensamento conturbado por problemas pessoais, dos quais não conseguiam se desvencilhar, o que influenciava sobremaneira na concentração.
Ao perceberem o odor agradável da mistura de ervas, iam sendo induzidas ao relaxamento e à concentração.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:33 am

Quando se deixavam envolver pela fumaça, esta, em contacto com sua aura, fazia com que manchas provocadas pelos pensamentos em desalinho fossem desfeitas.
À medida que o ritual avançava, aumentava a vibração do ambiente, que era sentida pelos médiuns em concentração.
A melodia e a letra dos cânticos entoados envolviam a todos emocionalmente.
O ponto de incorporação do guia-chefe começou a ser puxado e D. Luiza posicionou-se para dar passividade à incorporação.
Seu coração e sua respiração estavam com o ritmo intensificado.
Seus chacras coronário, frontal e laríngeo, os três mais utilizados na psicofonia, apresentavam intensa actividade e emitiam bela luminosidade no astral.
Ela buscava sintonizar-se com seu guia, que já posicionado e concentrado buscava também se sintonizar com a mente de D. Luiza.
Sandra observava que os chacras presentes no corpo perispiritual da entidade e os chacras presentes no perispírito da médium começaram a girar em velocidade muito próxima, entrando em sintonia porque o magnetismo gerado por eles era semelhante.
Assim como os chacras têm estreitas ligações com o sistema nervoso, a médium começou a ter as sensações e alterações provocadas pela interferência do guia em sua constituição física.
Ao contrário do que Sandra esperava ver, Seu Mata Virgem não entrou no corpo de D. Luiza como se estivesse vestindo uma roupa.
A pupila de Miquilina percebeu que a incorporação acontece com a aproximação energética dos perispíritos do médium e do espírito comunicante.
A mente de D. Luiza começou a funcionar como um rádio que estivesse recebendo a interferência de uma segunda emissora, como se uma outra individualidade dividisse com ela o comando de seu corpo e ela era ao mesmo tempo observadora e participante daquele processo.
Diferentemente do que ocorre na mesa Kardecista, o médium de Umbanda permite ao espírito comunicante não somente a utilização de seu aparelho fonador, auditivo ou visual, mas de todo o seu corpo; e foi assim que, permitindo a actuação do guia, D. Luiza estremeceu levemente ao receber a descarga bioeléctrica provocada pelo encaixe magnético da aproximação de perispíritos, deu um pequeno salto para diante, deixando-se cair no chão com uma perna flexionada, a outra esticada para frente, os braços como se estivesse segurando e apontando um arco e flecha imaginários, enquanto com um longo brado anunciava a presença do guia-chefe do terreiro para o comando da sessão.
Sob a influência de Seu Mata Virgem, D. Luiza assumia um porte altivo, pois andava a passos largos e firmes, a coluna erecta e o semblante sério, apesar de sereno.
Após as saudações ritualísticas feitas ao altar, ao atabaque, à porteira e a todos os presentes, posicionou-se no centro do terreiro, uma cambona acendeu o charuto que lhe foi oferecido e ele dirigiu-se a todos com uma mensagem sobre a importância do merecimento de cada um nos pedidos que são feitos aos orixás e às entidades.
Que toda prece tem resposta, mas que às vezes a resposta é "não" ou "ainda não", pois nem sempre quem pede se coloca em condições ou em atitudes que mereçam ser possível o alcance do pedido feito.
Enquanto isso, na assistência, havia entidades que, observando a aura e os pensamentos dos presentes, faziam um verdadeiro levantamento dos porquês que levaram aquelas pessoas a procurarem o centro.
Verificavam quais eram os casos de obsessão, de tratamento de saúde, de orientação espiritual, de aconselhamentos, etc.
Depois levariam essas informações para as entidades incorporadas em seus médiuns durante as respectivas consultas.
Após sua mensagem, Seu Mata Virgem riscou um ponto para a imantação dos trabalhos daquela tarde e dos papéis de irradiação e preces que foram recolhidos da assistência.
A um comando de Seu Mata Virgem, o ogan começou a puxada de pontos de caboclos e caboclas.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:33 am

Eram cânticos que exaltavam a coragem, a sabedoria e o poder das entidades, que, sob a forma perispiritual do índio nativo e sob o comando e influência dos orixás, trazem mensagens de incentivo e de orientação àqueles que buscam sua ajuda.
Sandra observava que o processo de incorporação se dava da mesma forma que ocorreu com D. Luiza, ou seja, a incorporação é o acoplamento magnético dos perispíritos do médium e do espírito comunicante.
Miquilina observava atentamente o processo mental de Sandra e oportunamente comentou:
— É assim que acontece em todo tipo de incorporação.
Não há como ser diferente.
— É mais complicado e ao mesmo tempo mais simples do que eu supunha — respondeu Sandra, admirada.
O encarnado não faz ideia de como é diferente observar os trabalhos mediúnicos a partir do lado de cá.
Sempre tive a impressão de que incorporar era como ficar temporariamente louca, pois tinha pensamentos que me eram impostos, já que era claro, para mim, que eles não eram meus.
Eram como "vozes" que surgiam dentro de minha cabeça.
Tinha espasmos musculares antes da incorporação e o coração parecia que ia sair pela boca.
Apesar disso, a sensação da incorporação não era ruim.
Pelo contrário, sentia o carinho e o bem-estar da presença dos guias.
Uma sensação de segurança e de confiança.
— É isso mesmo, minha filha.
Ainda há muito para o encarnado aprender e desvendar sobre a incorporação.
— Vovó, se toda incorporação tem o mesmo processo, como acontece a incorporação inconsciente?
— Incorporação inconsciente!
Grande tabu e desejo da maioria dos médiuns de incorporação — disse Miquilina levantando as mãos para o alto, fazendo um gesto característico de exclamação e prosseguiu:
— Toda incorporação ocorre como você está podendo observar, ou seja, é com o esforço da concentração do médium e do espírito que a rotação dos chacras de ambos atinge uma velocidade próxima, criando assim a sintonia necessária para que os pensamentos e desejos de um sejam percebidos pelo outro.
Os chacras localizam-se em regiões que correspondem, no corpo físico, a áreas de grande concentração de feixes nervosos chamadas gânglios.
Assim, as sensações que o médium têm são provenientes da excitação do sistema nervoso por meio da actuação nos chacras.
Dessa forma, antes de a mensagem do guia sair pela boca do médium, ela passa pela mente dele.
São os tais "pensamentos impostos", aos quais você se referiu.
Isso ocorre quase simultaneamente, tamanha é a rapidez desse processo.
Bem, a diferença entre a incorporação consciente e a inconsciente é justamente a velocidade com que os pensamentos do guia passam pela mente do médium, pois, se for muito rápido, eles podem passar despercebidos e assim a pessoa diz que não lembra ter feito ou dito determinada coisa.
Essa velocidade na passagem do pensamento do guia pela mente do médium é directamente influenciada pela capacidade de sintonia entre os perispíritos.
Quanto mais próxima a rotação dos chacras do médium e do guia, maior a sintonia entre ambos e maior a velocidade e a facilidade com que os pensamentos do guia passam pela mente do médium; logo, menor é o grau de consciência do médium nessa comunicação, pois sua resistência aos pensamentos do guia é menor.
Essa sintonia quase perfeita é difícil de ser conseguida pois vários são os factores que alteram a capacidade do médium em alcançar a sintonia mais próxima da faixa vibracional do guia.
Entre eles, o mais comum é o tipo de mediunidade mesmo, pois a mediunidade inconsciente é realmente muito rara.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:33 am

— Mas, vovó, não seria muito melhor se a resistência do médium à influência do guia fosse a menor possível?
Assim teríamos mensagens muito mais confiáveis — retrucou Sandra, quase inconformada com aquela revelação.
— E o médium seria simplesmente um canal, que nada aprenderia e, por conseguinte, não tiraria o principal proveito da tarefa mediúnica, que é o aprendizado, o crescimento por intermédio do serviço.
Sandra fez uma expressão de que não tinha entendido aquela última colocação de Miquilina e a Preta Velha prosseguiu:
— Imagine se existisse um médium que trabalhasse com um guia que conhecesse o preparo de todos os tipos de doce e fosse procurado pelas pessoas que quisessem que ele ensinasse as mais diferentes receitas.
Uma pessoa procuraria aquele guia para aprender a fazer doce de abóbora, outra para aprender a fazer doce de coco, outra para aprender a fazer doce de leite e outra para aprender a fazer doce de figo.
Para cada pessoa, o guia ensinaria a receita do doce que ela estivesse pedindo.
Cada consulente sairia da consulta sabendo a respeito da receita do doce que estivesse procurando; entretanto, o médium consciente sairia daquela sessão com as receitas de doce de abóbora, coco, leite e figo. Entendeu?
A consciência na incorporação é a oportunidade que o médium tem para aprender com os ensinamentos que seu guia transmite.
Ela é necessária porque o médium, como espírito encarnado, precisa de orientação tanto como o consulente que ele atende.
Sandra reconheceu a coerência no argumento de Miquilina e adicionou mais uma pergunta.
— E o que a senhora tem a comentar sobre a mediunidade semiconsciente?
— Como o próprio nome diz, ela é uma intermediária entre a modalidade consciente e a inconsciente.
Na mediunidade semiconsciente, comparando com a consciente, o guia tem um maior controle sobre as necessidades fisiológicas do médium, há uma maior resistência à dor; a noção de tempo fica embotada, mas o médium ainda apresenta alguma resistência aos pensamentos do guia.
Enquanto isso, os médiuns foram sendo atuados por seus guias, Urânia foi ficando menos ansiosa e acompanhava o desenrolar da sessão com interesse.
Chegou o momento das consultas e um médium responsável pela organização do acesso das pessoas aos guias incorporados convidou Urânia a tomar sua consulta.
Como era sua primeira vez naquele terreiro, ela foi encaminhada a tomar seu passe com Seu Mata Virgem, o guia-chefe do terreiro.
Ela caminhou com passos lentos e inseguros, enquanto era seguida por Miquilina e Sandra, até a médium incorporada.
D. Luiza observou-se enquanto ela procurava não ficar tão desconfortável.
Sandra olhava atentamente os chacras da médium em intensa actividade e emitindo forte luminosidade.
Dentro da mente de D. Luiza começaram a aparecer imagens tão nítidas que ela tinha a impressão de estar vendo-as com os olhos físicos.
Ela viu as cenas dos pesadelos de Amanda, viu as figuras de Zuma e Muzala e viu Amanda em seu desequilíbrio, sofrendo com as visões de insectos a atacarem-na.
Percebeu que aquela consulente trazia um grave problema a ser solucionado e ao mesmo tempo teve consciência de que se trata de alguém de difícil acesso no tocante ao assunto religião.
Toda essa informação foi passada por uma das entidades que estavam na assistência, colhendo informações para serem encaminhadas para os guias de consulta.
Sandra pôde perceber a dinâmica da manutenção da incorporação e como a actuação nos chacras laríngeo, frontal e coronário é ininterrupta.
Emocionou-se quando ouviu a sobrinha falar de seu casamento e de sua devoção à religião.
Viu que a sobrinha ainda tinha um longo caminho a percorrer caso continuasse com sua resistência em aceitar a sua própria mediunidade, porém sentiu-se aliviada quando ela aceitou ficar até o final da sessão para passar por uma corrente de descarga.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 09, 2016 9:33 am

CAPÍTULO XX - A corrente de descarga de Urânia
A sessão foi transcorrendo normalmente.
À medida que as pessoas tomavam sua consulta, iam embora, esvaziando cada vez mais o recinto e somente algumas poucas pessoas ficavam até o término dos trabalhos, dentre elas aquelas que passariam pela corrente de descarga. Urânia esperava pacientemente e Selma rezava para que a paciência da filha não acabasse e ela, subitamente, resolvesse ir embora.
Terminadas as consultas, os caboclos e caboclas desincorporaram e somente D. Luiza permaneceu incorporada com Seu Mata Virgem, que deu a ordem para que todos se preparassem para as correntes.
Os médiuns retiraram suas guias do pescoço, trouxeram três tamboretes, e, próximo a cada tamborete, foram colocados um copo com água e uma vela acesa. Convidaram Urânia e mais duas pessoas, uma jovem de mais ou menos uns
25 anos e um homem de 50 anos, para retornarem para o salão e sentarem-se nos tamboretes colocados no meio do terreiro.
A água, depositada em cada copo, contendo minerais é catalisador natural de energias e, dessa forma, colocada estrategicamente próximo de cada uma das pessoas que estavam passando pela corrente, agia de forma a atrair e a dissolver a negatividade presente na sua aura.
Sentaram-se, um em cada tamborete; o homem, posicionado um pouco mais à frente e entre as duas mulheres, formava com elas um triângulo.
Os médiuns deram-se as mãos formando um círculo em volta deles.
O lado esquerdo do corpo humano tem polaridade negativa, enquanto o lado direito tem polaridade positiva.
Dessa forma, quando damos as mãos unimos o pólo negativo com o positivo formando uma corrente magnética e com a devida concentração é possível a geração de grande quantidade de magnetismo que pode ser utilizado pela espiritualidade e pelos próprios encarnados para os mais variados fins, dependendo da inteligência e da intenção do manipulador.
Seu Mata Virgem orientou cada uma das três pessoas no meio do círculo para que se acalmassem, pois estavam entre amigos e nessa hora a simples curiosidade não é boa companhia.
Que fechassem os olhos e confiassem na ajuda que foram ali buscar, que pensassem nos problemas que os tinham levado até ali, que mentalizassem os seus lares e que se colocassem disponíveis para uma reforma íntima e que vibrassem com harmonia, com perdão e com amor.
Os médiuns de incorporação já estavam sentindo os efeitos da presença dos espíritos obsessores que eram trazidos para a doutrinação.
Sentiam angústia, raiva, medo, depressão, indiferença, descrença; alguns tinham também o desconforto das sensações do pré-desenlace:
dores, sufocamento e toda sorte de mal-estar. Paciente e disciplinadamente eles aguardavam a ordem do dirigente do terreiro para poderem dar passagem à incorporação.
Enquanto as consultas iam acontecendo e à medida que era determinado quem ficaria para a corrente de descarga, entidades especializadas no resgate e apreensão de obsessores iam aos locais da espiritualidade, ou do mundo material, onde os obsessores daquelas pessoas se encontravam e os traziam para a doutrinação.
Muitos vinham extremamente contrariados e dessa forma eram trazidos amarrados, algemados ou presos com cordões, algemas ou redes magnéticas que são confeccionados com o material fornecido pelo magnetismo humano e vegetal tão presente nos trabalhos de Umbanda.
A jovem que estava passando pela corrente era médium, porém sem qualquer orientação, nunca procurara tratamento ou estudo para sua sensibilidade e era presa fácil para entidades que se divertiam à sua custa, fazendo-a agir das mais extravagantes maneiras:
bebendo em excesso, fumando em excesso, gastando dinheiro em excesso, "amando" em excesso e, dessa forma, sofrendo em excesso. Estava ultimamente sendo perseguida por duas entidades femininas que haviam se suicidado e estavam passando para ela toda a sua melancolia e sofrimento, ao mesmo tempo que lhe sugavam o fluido vital pela da mediunidade em descontrole.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:33 am

O homem de 50 anos era obsidiado pelo falecido primo, que não aceitava que ele tivesse se casado com a jovem viúva.
Aproveitava-se de sua hipocondria, insuflando-lhe toda sorte de pensamentos de doença, fazendo-o sentir os mais variados sintomas, viver rodeado de remédios, ir a todo tipo de médicos, fazer todo tipo de exames e tratamentos sem nada encontrar e muito menos obter melhora.
Dessa forma, a vida íntima do casal estava fortemente prejudicada, a auto-estima da vítima abalada e completamente intoxicado pela alta concentração de remédios no organismo.
Urânia não era a pessoa obsidiada propriamente dita; entretanto, sua mediunidade sem tratamento, sua revolta para com os acontecimentos naturais da vida e sua convivência com a aura doentia de Amanda faziam com que ela também precisasse de uma limpeza energética de modo a reorganizar-se magneticamente.
Seu Mata Virgem começou a entoar os pontos de descarga espiritual, e os médiuns começaram a incorporar os obsessores.
Caíam no chão como a tentar se libertar das amarras magnéticas, gritavam, choravam, riam, debochavam.
No lado espiritual, Exus e Pombas Giras posicionados e armados com seus apetrechos:
tridentes, garfos, facões, punhais, bastões, instrumentos de aspecto exótico e indescritível na linguagem humana, que emitiam raios que paralisariam qualquer tentativa de ataque das falanges do mal.
Sandra observava que o processo de incorporação era o mesmo, tanto para entidades de luz como para obsessores.
E a aproximação da vibratória dos chacras que permite a sintonia entre os perispíritos e promove a incorporação.
Nessa hora, percebeu como é importante a consciência durante a incorporação, pois assim o médium auxilia na doutrinação do obsessor, porque suas mentes estão em sintonia e ele pode insuflar-lhe bons sentimentos e controlar-lhe as acções de modo que não perturbe o andamento dos trabalhos.
Obsessores são entidades ainda apegadas ao mundo material e sentem falta do magnetismo humano.
A incorporação promove o contacto com esse magnetismo e assim se consegue transmitir-lhes para eles energias que visam acalmar-lhes as emoções e equilibrar-lhes a constituição perispiritual.
Alguns Exus incorporaram em seus médiuns enquanto outros, permanecendo no lado espiritual, aplicavam passes nos médiuns que estavam incorporados com obsessores.
Esses médiuns absorviam o passe e automaticamente adicionavam a ele seu magnetismo, o que facilitava a absorção das energias espirituais pelos obsessores que se acalmavam ou eram paralisados, permitindo que a doutrinação fosse feita.
A uma ordem de Seu Mata Virgem o doutrinador fez a prece de Cáritas seguida da Ave-Maria, o que foi feito de forma sincera e não apenas mecanicamente, repetindo palavras decoradas.
Enquanto a prece era acompanhada por todos os presentes, as firmezas do terreiro e o ponto riscado no início da sessão emitiam, ainda mais, luz no astral, impregnando tudo e todos de fluidos benfazejos e higienizantes.
Obsessores controlados e/ou anestesiados, era hora de encerrar aquela corrente.
Seu Mata Virgem fez uma chamada de Exus e Pombas Giras que incorporaram imediatamente em seus cavalos, retirando restos de vibrações enfermiças e limpando todo o ambiente com seu jeito irreverentemente sério.
Terminado aquele trabalho, o chefe do terreiro orientou que a jovem e o homem voltassem para mais duas correntes, conforme já havia sido dito nas consultas.
Para Urânia ele disse que a limpeza dela estava feita, entretanto ela tinha ainda um sério problema a enfrentar em casa.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:33 am

— A fia sabe que é a outra fia que pricisa de tratado.
Foi feita uma pequena limpeza em suncê, mas a grande limpeza só poderá ser feita quando a outra fia puder comparece, ou pelo menos se conscientiza que tem que se trata.
Só mata a sede aquele que bebe a água.
A fia não podi bebé a água por ela.
Então é só ela qui podi se cura, é claro que para isto ela pricisa de ajuda e é para isto que nós estamo aqui.
"Faça um defumador de casca de alho em sua casa.
Quando a fia estive drumindo, faça uma oração ao seu lado, converse com ela orientando para perduá os inimigo e a si mesma.
Conte com nossa ajuda, mas faça também a sua parte.
Aceite a sua mediunidade, não queira que Deus se adapte ao seus desejo, prucure se encaixa dentro do pograma que Deus tem pra suncê.
Procure dentro do seu dia um tempo pra Deus, alegre sua vida com a certeza da fé, acredite em Deus, em seus mensageros, e transmita esta certeza para aqueles com quem suncê cunvive.
Esta atitude vai ajuda a melhora o ambiente de sua casa."
Urânia estava emocionada, sentiu que aquele trabalho tinha surtido algum efeito nela mesma.
Só não sabia qual era esse efeito, mas sentia-se melhor do que quando havia chegado ao centro.
— Eu sei que não será fácil, mas tentarei seguir seus conselhos — disse a filha de Selma segurando as mãos de D. Luiza.
A casa de Urânia era frequentada espiritualmente por Zuma, Muzala e pelas entidades enfermiças que eles dominavam e atraíam para junto de Amanda, para que a sua presença a influenciasse maleficamente.
As entidades que trabalharam na corrente de Urânia levaram para a desobsessão as entidades que foram atraídas por Zuma e Muzala.
Estes dois, por estarem fortemente ligados magneticamente a Amanda, somente seriam capturados quando ela mesma estivesse sendo tratada por sua livre e espontânea vontade.
Caberia a Urânia procurar manter o bem-estar proporcionado pela limpeza espiritual por que passara.
Era preciso que ela entendesse que não basta^ passar apenas pela limpeza e voltar à vida comum sem nada modificar.
É preciso mudar atitudes, procurar aplicar no dia-a-dia os conselhos recebidos na certeza de que é a modificação íntima que opera os tão chamados milagres.
Urânia e os outros dois consulentes voltaram para a assistência, os médiuns recolocaram suas guias, Seu Mata Virgem anunciou a finalização dos trabalhos daquela tarde.
O ponto de subida do guia-chefe foi entoado e logo depois da desincorporação a sessão foi encerrada com uma prece de agradecimento.
No trajecto de retorno à casa, Urânia pouco falou sobre a sessão.
Estava pensativa, e Selma, apesar de muito curiosa para saber as impressões da filha, respeitou o seu silêncio e conversaram amenidades até despedirem-se na portaria do prédio.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:33 am

CAPÍTULO XXI - Efeitos da corrente
Humberto cochilava na poltrona da sala.
A televisão exibia sem muita novidade a programação nocturna de sábado.
Ele tinha se acomodado para ler o jornal enquanto esperava o retorno da esposa.
O periódico jazia sobre o seu colo enquanto a cabeça havia pendido para trás, apoiada no encosto alto do antigo móvel.
Urânia olhou o esposo dormindo e percebeu que também Amanda deveria estar recolhida, pois o silêncio seria total não fosse o som da televisão.
Ela tocou no ombro de Humberto, despertando-o gentilmente.
O esposo de Urânia tinha os cabelos precocemente embranquecidos e o rosto cansado.
A estranha enfermidade da filha estava consumindo-o de preocupação e ele tinha a convicção de que Amanda demandava intervenção profissional imediata, entretanto via que Urânia não suportaria a internação da filha e resolveu tentar ajudar a esposa no que fosse possível para o tratamento ambulatorial de Amanda.
Apesar do seu difícil relacionamento, a convivência com a sua enfermidade e o seu sofrimento o fez aprender a respeitar a intimidade e a cumplicidade que existia entre mãe e filha.
Não era praticante de nenhuma religião, mas admirava a convicção da sogra e viu com simpatia a ideia de Urânia ter procurado ajuda na espiritualidade.
— Que horas são? — disse ele esfregando os olhos com as costas dos dedos enquanto bocejava reacomodando-se na poltrona.
— São nove e quinze, você caiu no sono enquanto lia... — disse ela já sentada no sofá e diminuindo o volume da televisão com o controle remoto.
... Já jantou?
— Estou te esperando para jantar.
Já pedi comida chinesa, é só servir...
Como foi lá no centro?
— Digamos que tenha sido diferente... — disse ela olhando nos olhos do esposo, demonstrando uma certa satisfação.
... Fazia tempo que eu não ia a um lugar desses, mas posso te garantir que o que vi hoje foi diferente.
Hoje ninguém veio com aquela velha história de "tem que botar roupa branca".
Ela disse essa frase fazendo uma careta e esganiçando a voz.
... E o lugar também transmite muita serenidade.
Ele se levantou e ofereceu a mão para a esposa, que aceitou e os dois continuaram a conversa na cozinha.
— É um lugar simples, sem luxo, as pessoas também são simples, mas transmitem muita certeza naquilo que estão fazendo e foi isso que me chamou a atenção, pois é diferente do lugar que tia Sandra frequentava.
Mamãe disse que tínhamos que chegar antes do início da sessão, que seria às três horas, e a sessão começou pontualmente na hora marcada!
Havia toda uma preocupação com a disciplina, com o volume das conversas... para mim foi tudo diferente daquilo que eu esperava encontrar.
— Mas, afinal, o que é que falaram sobre Amanda? — perguntou Humberto mastigando um pedaço de frango.
— A entidade disse que ela é obsidiada por espíritos inimigos e que é médium — disse Urânia dando de ombros.
— Só isso? Isso eu já sabia! Ondina e sua mãe não param de falar nisso.
Quero saber o que é que pode ser feito para ajudar Amanda.
Urânia olhou admirada para aquela reacção do esposo e pensou consigo mesma:
"como pode até Humberto saber de uma coisa que esteve todo o tempo debaixo de meu nariz e eu mesma não pude perceber?"
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

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— Bem, foi isso que despertou a minha simpatia... — disse ela, depois de um gole de suco de laranja.
... A entidade não veio com aquela velha conversa de que a solução de todos os problemas é botar roupa branca e desenvolver mediunidade.
Ela disse que o caso de Amanda é sério, mas que muita coisa depende do esforço dela.
E aí ela começou a falar sobre algumas atitudes dela como seja a conhecesse...
— E o que foi que ele disse?
— Ah... ele disse que ela tem que ser mais humilde, mais paciente, mais tolerante... e que nesta encarnação ela veio para se entender com você.
Bem, não podemos dizer que ele esteja errado, não é?
— Disseram isso? Quem é essa entidade?
— É um caboclo. Se chama Mata Virgem.
— O que mais aconteceu? — Humberto estava ansioso, pois receava que Urânia repentinamente resolvesse não mais falar sobre aquele assunto.
— Eu passei por uma espécie de descarrego e ele receitou um defumador.
Ela foi descrevendo tudo o que aconteceu naquela tarde e Humberto demonstrou estar satisfeito com o que ouvia.
Ele comentou que Amanda teve uma tarde muito tranquila, sem crises, e que tinha se alimentado bem.
Continuaram a conversar sobre como o desequilíbrio de Amanda tinha evoluído e de suas dúvidas sobre a eficácia do tratamento proposto por Seu Mata Virgem.
Apesar de entenderem que Mauro resolvesse se afastar, esperavam sinceramente que ele permanecesse investindo no relacionamento com Amanda, pois foi depois de conhecê-lo que a filha modificou-se e para melhor.
Estava mais sociável e menos arredia ao convívio com as opiniões diferentes da sua.
Depois do jantar, enquanto Humberto voltava a mergulhar nas já lidas notícias do jornal, agora com a intenção de provocar o sono, Urânia dirigiu-se ao quarto da filha para verificar como ela estava passando.
Abriu lentamente a porta do quarto e a luz que vinha do corredor iluminou levemente o recinto onde dormia Amanda.
O quarto deixava transparecer o desalinho de emoções e do pensamento de quem nele habitava.
Roupas espalhadas pelo chão em meio a almofadas e sapatos.
O armário com suas portas abertas davam a impressão de que um vendaval havia passado recentemente.
As escuras cortinas fechadas não permitiam a entrada da luz, e não fosse a fraca luminosidade que invadia o quarto, seria impossível divisar a silhueta de Amanda envolta no lençol e imersa em pesado sono.
Urânia aproximou-se da cama cuidadosamente para não tropeçar em nada, evitando assim despertar a filha.
Acariciou sua fronte e lembrou-se do conselho de Seu Mata Virgem para que ela procurasse doutrinar a filha enquanto esta estivesse dormindo.
— Oh filhinha, volta para a gente... — disse Urânia com os olhos marejados.
...Você não faz ideia das coisas que sou capaz de fazer para voltar a te ver bem.
A voz de Urânia estava trémula e carregada de emoção.
Amanda registrou a sua presença e movimentou-se no leito.
A mãe parou de falar, acariciou a cabeça da filha para que ela se acomodasse e não despertasse, pois temia que alguma crise pudesse ser deflagrada.
Saiu do quarto fechando a porta atrás de si e dirigiu-se aos seus aposentos.
Tomou um banho e começou a sentir o relaxamento muscular trazendo o sono.
Vestiu sua camisola, dirigiu-se à sala e convidou o marido a dormir mais confortavelmente na cama.
Dormiram abraçados como há muito tempo não faziam.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:34 am

O ambiente na casa era de tranquilidade.
* * *
Foi em uma bela manhã de domingo que Amanda despertou sentindo um leve bem-estar.
Uma fresta entre a cortina e a janela deixava que um raio de sol brincasse em seu rosto.
Ela estava deitada de bruços, abriu os olhos, tirou o cabelo da testa, virou-se e olhou para o tecto.
Percorreu todo o ambiente com os olhos e sentiu-se incomodada com a desarrumação à sua volta.
Decidiu levantar-se, tomar café e arrumar o quarto.
Eram oito horas da manhã quando Urânia encontrou a filha na cozinha remexendo na geladeira.
— Bom dia, minha flor! — disse Urânia, animando-se ao ver a filha fora do quarto.
— Bom dia, mãezinha — respondeu ela ao virar-se, mordendo uma maçã.
— Como está se sentindo hoje? — Urânia procurava sondar que alterações a filha poderia ter passado desde o dia anterior, fazia isso enquanto colocava água no fogo para fazer café.
— Estou bem.
Amanda não conseguia verbalizar o bem-estar que estava sentindo.
Ela apenas não sentia aquela necessidade esmagadora de higienizar-se incessantemente, as visões de insectos e vermes simplesmente não estavam lá.
A ausência da influência de Zuma e Muzala arejava a sua aura, mas ela não tinha a noção de como agia excentricamente quando era por eles influenciada.
A corrente de descarga pela qual Urânia passou promoveu uma limpeza no ambiente da casa e retirou parasitas que foram ali colocados pelos obsessores.
Essa limpeza, entretanto, era somente paliativa.
Seria necessário que Amanda, Urânia e Humberto contribuíssem para a manutenção daquele padrão vibratório.
O sucesso de um trabalho de desobsessão não depende somente do ato mágico, dos banhos e defumadores.
É imprescindível que o obsidiado e seus familiares contribuam para o sucesso dessa empreitada.
Zuma, Muzala e Amanda estavam fortemente ligados pelos vínculos da mágoa e do rancor, e seria necessário um pouco mais do que apenas uma corrente de descarga para que esses laços começassem a enfraquecer e a modificar-se.
Amanda ajudou Urânia a pôr a mesa do café da manhã, Humberto chegou da rua trazendo pão quente, eles sentaram-se à mesa e fizeram planos para o almoço.
Mauro ligou e ficou feliz ao ouvir a voz de Amanda ao telefone.
Ela arrumou o quarto e Urânia ligou para Selma para contar sobre a mudança ocorrida no estado geral da filha.
Enquanto isso, no Vale das Sombras, duas entidades remoíam o ódio e maquinavam a volta às suas nefastas actividades.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:34 am

CAPÍTULO XXII - O retorno de Zuma e Muzala
Na escuridão do Vale e envolvidos pela espessa bruma, Zuma e Muzala confabulavam sobre como dar continuidade ao seus planos de vingança.
Excessivamente centrados em seus próprios egos e incapazes de superar a traumática experiência expiatória da escravidão, reviviam neurótica e repetidamente o sofrimento a que foram expostos.
Era como se para eles o passado fosse presente e o tempo estivesse estacionado naqueles dias de dor.
Assim, seu sofrimento, sua frustração e sua raiva nunca passavam e o objecto daquela carga emocional negativa era Amanda, que outrora fora Jade.
— Se ela pensa que vai livrar a pele da irmã, está muito enganada — disse Zuma, ainda se referindo aos antigos laços de família de Urânia e Amanda quando eram Jane e Jade.
— Ela nunca foi religiosa... comentou Muzala, com desdém, enquanto tentava ajeitar os cabelos desgrenhados.
...A sua fé só vai até onde o seu orgulho permitir.
Quero ver se ela vai sujeitar-se a ficar pedindo favores para as pessoas que ela mesma chama de ignorantes.
— Talvez tenhamos que aprisionar novos escravos para continuar a perturbação... devem ter feito alguma limpeza por lá.
— Escravo é o que não falta neste Vale — respondeu Muzala com um ar altivo.
Não precisamos ir muito longe para encontrar recém-chegados em estado de perturbação, suicidas ou loucos vagando amedrontados por aí.
A vida além da sepultura é apenas uma continuidade da vida na carne.
Ninguém se modifica com a passagem para o outro lado e as reacções emocionais descontroladas também mantêm o mesmo padrão de quando presos na matéria.
Todo agressor um dia foi agredido.
E é por isso que Zuma e Muzala, que um dia sentiram o jugo da escravidão, aprisionavam espíritos dementados, fazendo-os vítimas úteis aos seus propósitos.
O Vale das Sombras é uma imensa região dentro das zonas umbralinas, por onde vagam entidades em diferentes estágios de desequilíbrio.
Espíritos que desencarnam e que, por razões várias, não dispõem de boa saúde mental são presas fáceis para espíritos que, como Zuma e Muzala, aproveitam-se da fragilidade de suas presas utilizando-as para os mais nefastos fins.
Especificamente no caso de Amanda, utilizavam-se de espíritos que desencarnaram sob efeito de drogas e alucinogénios, ou de alcoólatras que ainda guardavam as apavorantes visões das crises de abstinência, nas quais viam animais de aparência repelente por toda parte.
Esses espíritos em evidente desequilíbrio e sofrimento, muitos ainda sentindo o desconforto do desenlace, espalham o mal-estar onde quer que sejam instalados.
Sugam o fluido vital dos desencarnados, assim como uma esponja que se encharca quando é colocada em contacto com a água.
Quais parasitas, fixam-se no seu hospedeiro e lhe transmitem todo o seu desconforto.
Devido ao seu estado de confusão mental, fazem aquilo que seus "senhores" ordenam e obedecem-lhes qual marionetes.
Não são maus, entretanto servem aos propósitos do mal, à medida que são vítimas de sua própria invigilância e negligência moral.
— E quando voltaremos a cuidar dela? — perguntou Muzala com um estranho brilho no olhar.
— Logo voltaremos lá.
Vamos deixar que pensem que a ajuda que foram pedir deu certo.
Assim, quando voltarmos a atacar, vão ver que nada adiantou e vão voltar a desacreditar.
Sem o saber, Zuma e Muzala eram observados de perto por alguém que os devotava sincero afecto e ansiava por vê-los livres do rancor que aprisiona o espírito no sofrimento.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:34 am

A entidade, vibrando em outra frequência, não era percebida pelos dois obsessores; chorava enquanto acompanhava aquele diálogo e orou ao criador para que seus pupilos encontrassem a paz e o entendimento no perdão que regenera os corações endurecidos.
* * *
Urânia pediu à mãe que fizesse o defumador receitado por Seu Mata Virgem, ao que ela atendeu de muito bom grado.
Sob o olhar curioso de Amanda, que não estava entendendo a repentina mudança de atitude da mãe para com a religiosidade da avó, Selma passeou pelo apartamento levando consigo aquela lata com brasas onde eram jogadas cascas de alho que desprendiam uma fumaça de odor duvidoso e forte.
O defumador de cascas de alho é um repelente de energias e espíritos perturbadores.
Ele acelera a vibratória do ambiente fazendo com que as manchas espirituais e miasmas que impregnam os ambientes enfermiços sejam desfeitos e que os espíritos perturbadores se sintam incomodados, afastando-se, arejando assim o ambiente e permitindo que a vida volte à normalidade à medida que as pessoas façam por onde manter o ambiente higienizado espiritualmente, mudando atitudes e hábitos que permitiam a sintonia com os obsessores.
Com a limpeza efectuada, Amanda melhorou sensivelmente.
A não ser pela mania de limpeza, poder-se-ia dizer que estava caminhando para a cura.
Cogitou voltar a fazer análise e começou a demonstrar para Mauro que tinha interesse em reatar o relacionamento.
Ele, apesar de ainda enamorado, estava reticente e esperava por demonstrações mais consistentes de melhora para poder reatar o namoro.
Como o abandono de hábitos antigos é tarefa de difícil empreitada, a indecisão de Mauro começou a despertar a insegurança e o ciúme de Amanda, o que novamente abriu brechas para o assédio de Zuma e Muzala, que voltaram a frequentar a casa logo que as pessoas começaram a esquecer que um dia foram pedir ajuda em um terreiro.
Sob o olhar preocupado de Selma, que insistia para que a filha voltasse ao terreiro, dando assim continuidade ao tratamento, Amanda regrediu rapidamente ao antigo quadro de desequilíbrio, que, dessa vez, parecia estar mais acentuado.
A enferma recusava-se a ingerir qualquer tipo de alimento, sob a alegação de que tudo que tocasse ficava contaminado.
Quando forçada a fazê-lo, o alimento retornava logo depois com a contracção involuntária de suas entranhas.
Emagreceu tremendamente e foi necessária a sua internação.
No hospital, seu diagnóstico era confuso.
Nenhum médico tinha certeza sobre como conduzir o caso, justamente porque não sabia com o que estava lidando.
Nenhum medicamento surtia efeito, ela apenas não retinha o alimento.
Não havia nenhum sinal de infecção, não havia febre.
Recebendo hidratação através do soro, Amanda jazia deitada semi-adormecida, tendo em sua cabeceira a companhia dos obsessores.
— Acho que logo, logo, vamos ter nossa queridinha do lado de cá — sussurrou Muzala, sorrindo um sorriso nervoso.
— Também acho... — respondeu Zuma, compenetrado, tendo o olhar fixo na enferma.
...Continuando assim, ela vai passar para o lado de cá e vamos poder fazer dela tudo o que ela merece... essa cobra.
Ele disse essa última palavra bem perto do ouvido de Amanda, que registrou suas vibrações nocivas e estremeceu no leito.
Urânia percebeu o desconforto da filha e aproximou-se para verificar o que estava acontecendo.
Ajeitou o travesseiro e acariciou sua testa verificando se havia febre.
A temperatura parecia normal.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:34 am

Observou o semblante de Amanda e deixou rolar o pranto de preocupação. Sentia que algo de muito grave e muito ruim rondava sua filha.
Novamente fez um retorno ao passado lembrando toda a alegria que sentiu ao finalmente conseguir levar a gravidez a termo, rememorou seus primeiros passos, o ciúme de Humberto, os conselhos da falecida tia sobre como mimava a menina em excesso, de quando ela chamava a Preta Velha para dar um passe em Amanda sempre que esta tinha crises de medo, lembrou o dia em que depois de muito tempo viu a falecida tia sentada à sua frente na cozinha enquanto separava as impurezas do feijão e lembrava o passado, como agora mesmo o fazia.
Lembrou que naquele dia a tia deixou o recado de que "era hora de encontrar um tempo para Deus e que ela teria de rever alguns conceitos que ela tinha até então julgado como eternos".
Essas tinham sido exactamente as palavras da falecida.
Com o rosto lavado pelas lágrimas e sozinha no quarto do hospital com a filha, rezou pedindo para novamente ver a tia.
Queria poder naquela hora estar com Sandra para que ela a ajudasse a encontrar uma solução, uma cura para a doença de Amanda.
"Deus...", rezou, sussurrando, enquanto olhava para o vazio acima de si mesma, "...não tenho muito o costume de falar com o Senhor... mas permita que minha tia apareça para mim outra vez!
Permita que ela venha ajudar-me a salvar minha filha!
Minha filha é tudo o que tenho, não deixe que ela sofra.
"Se Amanda é perseguida por espíritos malfeitores, peço que os afaste dela.
Deixe-me ver minha tia, por favor!
Tia Sandra!
Vem me ajudar, vem ajudar sua neta..."
Sandra captou o chamado de Urânia; entretanto, quando se preparava para descer à crosta, foi advertida por Seu Pena Verde a não fazê-lo.
— Por que não, meu Caboclo?
Ela custa a lembrar-se de Deus e quando se lembra não seria a hora de mostrarmos a ela que Deus responde aos chamados de seus filhos?
— Deus sempre responde, minha filha.
Toda prece tem resposta. Entretanto, as respostas podem ser, além do "sim", o "não" ou o "ainda não".
É bem verdade que Urânia precisa de uma demonstração da existência de Deus, mas ela precisa entender que Deus e a espiritualidade não são governados pelos caprichos dos encarnados.
Ela chama por você, mas você não está em condições de ajudá-la, está?
Sandra percebeu sua imaturidade.
Lembrou como o caso de Amanda era sério e como Zuma e Muzala eram de difícil trato, exigindo uma intervenção muito mais séria, um trabalho de equipe e bem estruturado.
— O senhor tem razão, desculpe-me...
— Tenha confiança, minha filha.
Sua sobrinha já está sendo atendida.
Miquilina já enviou Exus para cuidarem do assunto.
Parece-me que agora Urânia realmente colocou-se em posição de ser ajudada e de ajudar a menina.
Toda prece tem resposta e a prece de sua sobrinha está sendo respondida agora mesmo.
No quarto do hospital, Zuma e Muzala divertiam-se vendo Urânia orar olhando para cima.
— Agora é tarde para rezar, queridinha... — dizia Muzala com escárnio.
Urânia em concentração começou a activar, sem o saber, seus chacras mental e coronário, pois estava em sincera e espontânea comunicação com o mundo espiritual.
Uma das entidades enviadas por Miquilina, que não estava perceptível para Zuma e Muzala, aproximou-se de Urânia e com passes magnéticos acelerou ainda mais o seu chacra frontal, fazendo com que ela pudesse ter a percepção do que se passava espiritualmente naquele recinto.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:34 am

Ela sempre fora médium vidente, porém sua insistência em não aceitar a mediunidade e sua negação, em determinada fase de sua vida, da existência do mundo espiritual fizeram com que ela pouco a pouco fosse embotando essa faculdade que permaneceu latente esperando uma brecha para manifestar-se.
Urânia teve a mesma sensação que tinha quando jovem e via coisas que somente ela percebia.
Parecia que o mundo à sua frente estava envolvido em brilhante película, e de repente tinha a impressão de que uma cortina invisível havia sido aberta e ela podia ver coisas e seres que aparentemente não estavam lá antes.
Essa sensação lhe era familiar e pensou que sua prece tinha sido atendida.
Instintivamente olhou para a filha, na certeza de que veria a tia ao seu lado e arregalou os olhos gelando de susto.
Viu nitidamente Zuma e Muzala ladeando a cabeceira de Amanda.
Zuma, ainda com os ferimentos das correntes nos punhos e com o olhar transbordando ódio, enquanto Muzala, com os cabelos e roupas em desalinho e o olhar de louca, tiveram a impressão de estar sendo percebidos pela mãe de sua vítima pois seus olhares se cruzaram.
Foi uma visão rápida pois Urânia, ao assustar-se, desconcentrou-se.
Entretanto, não foi a visão de Zuma e Muzala que mais a assustou, pois ela já os tinha visto antes.
Já os conhecia desde os tempos em que Amanda era criança e teimava em dizer para si mesma que aquilo era fruto de seu inconsciente.
O que assustou Urânia foi a visão da entidade que estava dividindo a cama com Amanda.
Ela viu nitidamente uma mulher de aparência doentia, que, acoplada ao corpo de sua filha, lhe sugava todas as energias.
A pobre entidade havia sido colocada ali por Zuma e Muzala.
Funcionava como um parasita que retira do hospedeiro toda a sua força.
Era uma suicida que, no auge do desespero, tinha ingerido grande quantidade de veneno que lhe destruiu todo o trato digestivo.
Assim, Amanda ia lentamente absorvendo toda a vibratória doentia daquele espírito em sofrimento, enquanto ia adoecendo e caminhando para o desenlace em virtude do enfraquecimento do corpo.
A mãe de Amanda estremeceu e arrepiou-se da cabeça aos pés.
As raízes dos cabelos da nuca e dos braços pareciam doer de tão eriçados.
Naquele momento teve a certeza da gravidade do caso e de que o tratamento médico seria inútil sem uma intervenção espiritual capacitada e séria.
Aquele susto e aquela visão serviram para que a convicção de Urânia a respeito da existência do mundo espiritual e da importância de que a mediunidade entrassem de uma vez por todas em sua cabeça.
Como em um flash, ela reviveu toda a consulta que teve com Seu Mata Virgem e passou a entender muita coisa que ele tinha dito e que ela teimava em não aceitar.
Lembrou quando ele a aconselhou a doutrinar a filha enquanto ela estivesse dormindo e agora entendia o porquê, pois, ao doutrinar a filha, estaria também doutrinando os obsessores.
Sob o olhar descrente de Zuma e Muzala, pegou o telefone e discou o número do telefone de Sandra.
— Alô?... Mãe?!
A senhora pode ir comigo à casa de D. Luiza?
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 10, 2016 9:35 am

CAPÍTULO XXIII - Atendimento a distância
A viagem do hospital até o terreiro parecia interminável.
Urânia repetia na memória o fugaz instante em que teve a visão de Zuma, Muzala e da enferma que sugava as energias de sua filha.
Ia dirigindo com cautela, porém apressada, enquanto contava e recontava para Selma a sua visão.
Mauro tinha ficado com Amanda no hospital e D. Luiza as esperava, pois Selma havia telefonado solicitando um atendimento de emergência.
Estacionaram o carro na calçada em frente ao terreno onde ficava o terreiro e Selma bateu palmas anunciando sua chegada.
Minutos depois, D. Luiza veio ao encontro das duas mulheres que aguardavam do lado de fora do portão.
Urânia mal disfarçava sua ansiedade enquanto Selma se adiantava em relatar os últimos acontecimentos para D. Luiza, que tudo ouvia tentando entender a catadupa de informações que lhe eram passadas.
Acostumada a ser solicitada para atendimentos de emergência, não se deixava influenciar pela ansiedade das pessoas que buscavam ajuda nessas condições.
Pelo contrário, procurava insuflar a calma para que as pessoas pudessem expressar-se com objectividade e clareza e para que pudesse manter-se em sintonia com seus guias e assim captar-lhes as intuições.
Era assim que, em muitas ocasiões, atendia as pessoas e simplesmente as ouvia sem a necessidade de incorporar seus guias, pois o que as pessoas precisavam era de serem ouvidas, de desabafarem e de ouvirem palavras de incentivo ou mesmo de orientação.
Depois, caso fosse necessário, orientava-as a retornarem em um dia de sessão, quando então poderiam ter uma consulta com as entidades.
Raros eram os casos em que a urgência era tão grave assim.
Não obstante, havia casos em que D. Luiza captava a urgência do assunto e sem titubear procedia ao atendimento que pudesse ser feito.
A chefe do terreiro foi caminhando com Selma e Urânia em direcção ao templo.
Abriu as portas e foi como se toda a paz que ficava guardada lá dentro tivesse se derramado sobre elas, pois Urânia, apesar de apreensiva, conseguiu concatenar as ideias e começou a contar pausadamente a sua versão da história.
D. Luiza tudo ouvia atentamente deixando que ela falasse, só interferindo para esclarecer algum ponto da narrativa que não estivesse claro.
E foi assim que Urânia falou não somente da visão que teve recentemente, mas sim de toda a sua convivência com a mediunidade que ela nunca aceitou.
Relatou a consulta que teve com Seu Mata Virgem e voltou ao dia actual, quando foi forçada pelas contingências a encarar a mediunidade e o mundo espiritual como realidades incontestáveis.
Só lamentava que, para que essa consciência se tornasse presente, a vida de sua filha tivesse ficado ameaçada.
D. Luiza pediu um momento para que pudesse preparar-se, pois teria que abrir um jogo para poder orientá-las.
Trinta minutos depois, D. Luiza reapareceu.
Tinha tomado um banho e feito orações para que pudesse atender aquela situação.
Fez as costumeiras saudações à porteira, preparou a mesa e chamou Urânia para a leitura dos búzios.
As caídas foram confirmando que o caso de Amanda estava realmente sério e que sua vida corria perigo.
Ante o assombro de Selma e Urânia, D. Luiza pediu calma e esclareceu que ainda havia tempo para que Amanda reagisse, mas que seria necessário bastante empenho de Urânia.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:56 am

Solicitou que elas retornassem à noite, pois seria necessária a convocação de mais alguns médiuns para a realização de um trabalho em favor de Amanda.
Pediu também que fosse trazida uma peça de roupa usada pela filha de Urânia.
Elas saíram do terreiro mais confiantes, porém ainda preocupadas.
Voltaram ao hospital e verificaram que o quadro permanecia o mesmo.
Decidiram que Selma ficaria com a neta enquanto Urânia voltaria para o terreiro.
Mauro ofereceu-se para acompanhar a futura sogra e, foi assim que na hora aprazada, eles chegaram ao terreiro, onde encontraram D. Luiza acompanhada por mais cinco médiuns que ela convocara para aquele atendimento.
O pequeno grupo, depois de pedir licença à porteira para a abertura dos trabalhos, iniciou a reunião com uma prece pedindo ao astral superior que enviasse seus mensageiros.
Seu Mata Virgem apresentou-se, por meio da incorporação em D. Luiza, e pediu uma tábua, na qual riscou um ponto invocando a protecção do orixá Ogum, o guerreiro vencedor de demandas.
Chamou Urânia e perguntou se ela levara o que lhe havia sido pedido pela manhã.
— Trouxe, sim, Seu Mata Virgem — disse ela mostrando a blusa que Amanda usara naquele mesmo dia.
Uma das médiuns aproximou-se e gentilmente tomou das mãos de Urânia a peça de roupa.
Ela trazia um tamborete que foi colocado no meio do terreiro e sobre ele a roupa usada por Amanda.
Sob a orientação do caboclo, acenderam uma vela e deram-se as mãos procedendo como em uma corrente de descarga.
A peça de roupa, impregnada pelo magnetismo de Amanda, funcionava como elo de ligação entre ela e o grupo ali reunido.
Com a informação do "endereço vibratório" daquela roupa magnetizada seria possível alcançá-la e enviar o auxílio para que ela pudesse começar a reagir ao ataque obsessivo.
Também a concentração de Selma, voltada para o ambiente do terreiro e pedindo pela recuperação da neta era um reforço para os trabalhos que estavam sendo feitos naquela noite.
Enquanto isso, no hospital, o quarto em que estava Amanda era visitado por entidades trajadas como guerreiros.
Era um grupo formado por três espíritos de aparência forte e viril.
Apareceram repentinamente afastando Zuma e Muzala, enquanto um deles retirou a suicida do leito, e dirigiram-se para o terreiro levando consigo a entidade que seria tratada e doutrinada.
Zuma e Muzala, devido às fortes ligações emocionais com Amanda, somente poderiam ser tratados quando ela se dispusesse a se tratar também.
Os médiuns, em concentração e de mãos dadas em volta daquela blusa de malha, começaram a sentir o aumento da vibração no ambiente.
Uma onda energética passava entre as pessoas de mãos dadas como se estivesse procurando um lugar para se alojar.
Eles sentiam algo circular entre eles à medida que se arrepiavam e sentiam calafrios.
Eram os espíritos especializados em promover a incorporação, que estavam procurando qual médium poderia melhor servir de aparelho para aquela entidade.
Vivian, uma médium com grande experiência em correntes de descarga, sentiu profundo mal-estar.
Ficou lívida, parecendo que todo o sangue de seu corpo tinha desaparecido.
Suas mãos eram muito frias e tinha no estômago uma forte contracção, parecendo que suas entranhas estavam sendo cruelmente reviradas.
Com a respiração ofegante, caiu no chão adoptando a mesma posição do espírito que Urânia tinha visto acoplada ao corpo de Amanda.
Os outros médiuns permaneciam concentrados, aguardando o comando de Seu Mata Virgem, que se aproximou da médium incorporada com a entidade em visível sofrimento.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:56 am

Aplicou-lhe passes calmantes e logo depois solicitou que fosse feita uma prece em intenção daquela entidade.
Vivian procurava, por sua vez, insuflar pensamentos de ânimo e energia para a entidade que nela estava incorporada.
Percebeu que se tratava de uma suicida e captou-lhe todos os pensamentos de derrota e de desânimo.
Sentia-se muito mal, pois as dores provocadas pelo ácido ingerido ficaram retidas em sua memória e repetiam-se insistentemente, fazendo-a reviver a todo instante o momento de desequilíbrio que a levou a atentar contra a própria vida.
Não fosse isso o bastante, acompanhou todo o processo de decomposição de seu corpo, sentiu o frio provocado pela perda de temperatura corporal, o mau cheiro do apodrecimento e a sensação de ter vermes alimentando-se de seus despojos.
Fátima sabia de sua condição de desencarnada e arrependia-se amargamente pelo gesto derradeiro, o que só aumentava o seu mal-estar.
Foi capturada por Muzala, para que seu estado doentio agravasse a perturbação de Amanda.
Sabia que não estava fazendo bem para sua hospedeira; entretanto, de alguma forma, subtrair as forças de Amanda podia não resolver seu problema, mas aliviava-lhe o mal-estar de ter novamente contacto com as emanações fluídicas geradas pelo corpo da encarnada.
Vivian procurava orientar aquele espírito acompanhando a prece que era proferida pelo doutrinador.
A entidade, apesar de muito confusa, agora tentava ligar-se a Vivian, pois sentia nela emanações vitais mais fortes do que as de Amanda.
Isto ajudou a fazer com que outras entidades que permaneceram no hospital pudessem retirar com facilidade os laços fluídicos que ligavam Amanda a Fátima.
Zuma e Muzala olhavam impotentes a limpeza que estava sendo feita em Amanda.
— Podem limpar quanto quiserem.
Ela ainda é nossa.
Ela vai voltar a desequilibrar-se e nós voltaremos a atacar.
É tudo uma questão de tempo — disse Zuma, acocorado no canto do quarto.
No hospital, um médico trabalhador do Lar de Maria aplicava passes em Amanda, que estava agitada no leito.
Mais tarde, sua respiração tornou-se profunda e reconfortante, seus músculos abdominais descongestionaram-se e ela dormiu pesadamente.
No terreiro, Seu Mata Virgem aplicava passes em Vivian, que jazia no chão, incorporada com Fátima e que agora lhe absorvia as energias.
Vivian sentiu a forte ligação que se efectuou entre ela e aquele espírito.
Começou a dizer-lhe mentalmente que estava sendo apenas um instrumento para que ela fosse auxiliada pelo plano espiritual.
Deu-lhe ordens mentais para que se dispusesse a ser levada pelos amigos espirituais ali presentes e começou a tentar sintonizar-se com seus guias, para que eles a auxiliassem a se desembaraçar dos laços que tinham sido feitos entre ela e aquela entidade em sofrimento.
Fátima não queria desvencilhar-se de Vivian e não demonstrou intenção em obedecer-lhe o comando.
As pessoas presentes perceberam a luta que Vivian estava travando para desenvencilhar-se daquela incorporação.
A médium sentia o corpo e os membros pesados como se fossem de chumbo, os olhos fechados não obedeciam às tentativas de serem abertos e tudo o que ela conseguia fazer era gemer angustiadamente.
Apesar de preocupada com aquela situação, Vivian tinha certeza de que nada de ruim lhe aconteceria.
Sabia que a incorporação é uma questão de sintonia, que, assim como um rádio precisa estar sintonizado com as ondas emitidas pela emissora para poder transmitir o som, o médium só incorpora e mantém a incorporação porque se mantém sintonizado com o espírito comunicante.
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Ave sem Ninho

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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:56 am

Dessa forma, para cessar aquela incorporação, tudo o que ela precisava fazer era desfazer a sintonia com aquela entidade que teimava em manter-se sintonizada com ela, e sintonizar-se com seus guias.
Seu Mata Virgem iniciou um cântico de chamada de Boiadeiros, no que foi acompanhado por todos os presentes.
Isso facilitou para que Vivian se sintonizasse com o Boiadeiro da Calunga, um dos guias que com ela trabalhava, mensageiro de lansã, seu primeiro orixá.
O corpo e os membros da médium começaram a estremecer à medida que a vibratória do Boiadeiro ia se sobrepondo à vibratória de Fátima.
Enfermeiros espirituais recolheram a suicida em uma maça e a levaram adormecida para o Lar de Maria.
Vivian, já liberta de sua influência e envolvida pelos fluidos do guia espiritual, levantou-se do chão, virou-se para o altar e colocou-se em posição para dar passagem à sua incorporação.
Ele tomou seu aparelho com firmeza, seus chacras giravam com intensa velocidade, levantou um braço como se estivesse rodando um laço imaginário, o outro posicionou-se atrás do corpo e deu um brado como se estivesse tocando uma boiada. Outros médiuns também incorporaram seus Boiadeiros enquanto o Boiadeiro da Calunga trabalhava, fazendo com que sua médium retornasse ao estado de normalidade energética que a incorporação de Fátima tinha alterado.
As pessoas podiam sentir como o ambiente tinha mudado, como estava mais limpo e arejado depois que a entidade que incorporou em Vivian tinha desincorporado.
Urânia e Mauro tudo observavam com atenção. Urânia chegou a rever a figura de Fátima quando ela incorporou na médium.
O Boiadeiro da Calunga pediu permissão a Seu Mata Virgem, para que pudesse falar com Urânia.
Permissão consentida, Urânia aproximou-se da entidade.
— Boa noite, Dona — disse o Boiadeiro com simplicidade.
— Boa noite — respondeu Urânia com a voz quase sumindo.
— Dona, me chamo Boiadeiro da Calunga.
Espero que a parti de tudo o que acunteceu hoje, a Dona realmente dê um passo adiante, deixe de lado as descunfiança e o medo.
— Eu tentarei... — disse ela baixando os olhos.
— Confie que a menina vai melhora, ela vai pricisá de se mudificá também... mas quem num prucura se melhora, num cresce... num é verdade?...
Tudo o que a Dona viu hoje, lá e aqui só servi pra mostra qui a mediunidade ixiste, queira o médium ou não... mas isso a Dona já sabe, num é verdade?
Urânia olhou entre surpresa e admirada para a médium à sua frente.
Ela tinha repetido basicamente a mesma consulta que Seu Mata Virgem tinha lhe aplicado e tocou no assunto sobre as visões que teve, uma no hospital e a outra ali mesmo no centro.
O Boiadeiro deu por encerrado o seu recado.
Seu Mata Virgem aproximou-se e deu continuidade ao atendimento.
—Fia... — disse o Caboclo —, isto é um começo, mas num é suficienti para qui a fia fique boa.
— Como assim, Seu Mata Virgem? — respondeu Urânia em tom de espanto.
— Nós fizemu a limpeza que era necessária pra que ela saia do hospitá... mas ainda tem obsessão perturbando a fia...
— Mas já que estamos aqui, por que não livramos ela de vez dessa sina?
É isso que não entendo...
— Como eu já disse pra fia, o remédio para a obsessão é o perdão.
Num adianta trazer obsessores qui estão ligados a ela por laços de ódio recíprocu.
É priciso qui ela também seja esclaricida para que o trabaio tenha efeito.
Urânia reconheceu mais uma vez a sua impaciência e pediu desculpas pelo seu desconhecimento.
Seu Mata Virgem esclareceu que todo processo obsessivo sempre desgasta fisicamente o obsidiado.
Orientou que seguissem à risca as recomendações médicas, que era necessário que ela fortificasse o sangue e que levassem Amanda ao centro tão logo fosse possível.
Quanto à roupa levada por Urânia, ela ficaria sob o ponto de Ogum, que foi riscado no início dos trabalhos, simbolizando que Amanda estaria sob a protecção daquele orixá.
Após a desincorporação dos Boiadeiros, Seu Mata Virgem deu por encerrado aquele atendimento.
Concluíram os trabalhos com uma prece de agradecimento.
Mauro e Urânia passaram no hospital e receberam de Selma a notícia de que uma sensível melhora tinha ocorrido.
Amanda dormia serenamente.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:57 am

CAPÍTULO XXIV - Subtileza da Espiritualidade
No dia seguinte, o médico apareceu para sua visita de rotina e não escondeu sua surpresa ao ver Amanda sentada na poltrona que ficava no canto do quarto.
Sua aparência demonstrava que tinha melhorado consideravelmente.
Estava mais corada, falante e com humor sensivelmente melhor.
Dr. Fábio era um simpático jovem de 35 anos, cabelos cor de ferrugem, o rosto pintado por algumas sardas e os olhos pequenos de um azul desconcertante.
— Bom dia!
Vejo que temos melhora no quadro de nossa paciente — exclamou ele enquanto fechava a porta atrás de si.
— Bom dia, doutor! — respondeu Selma com um sorriso.
A avó tinha passado a noite com a neta e aguardava a chegada de Urânia para que pudesse voltar para casa.
— Bom dia, doutor—limitou-se a dizer Amanda sorrindo e ajeitando-se na poltrona.
— Vejo que está melhor... levantou-se da cama e está mais corada — disse Fábio, aproximando-se de Amanda.
Conseguiu alimentar-se hoje?
— Consegui... — respondeu a paciente.
...Comi dois biscoitos de água e sal com margarina e café com leite.
O médico demonstrou satisfação ao ouvir aquela resposta e solicitou que ela se acomodasse na cama para a inspecção de rotina.
Verificou seus batimentos cardíacos, sua pressão, apalpou o abdómen e checou os reflexos da pupila à luz da pequena lanterna que apontou para os olhos castanhos de Amanda.
— Como você está?
Como se sente? — perguntou Fábio com ar intrigado.
— Sinto-me bem.
O incómodo no estômago e o enjoo passaram.
Apenas me sinto um pouco fraca.
— É normal que se sinta fraca.
Você vem rejeitando alimentação há dias!
— Afinal de contas, Dr. Fábio, o que é que eu tenho?
Já fiz tantos exames, mas até agora não chegaram a nenhuma conclusão...
— Seus exames não acusaram qualquer anormalidade, Amanda.
Excepto uma pequena anemia, clinicamente você está bem.
Verifiquei, ao apalpar seu abdómen, que ele está menos tenso e que você hoje não sentiu incómodo ao toque.
Acreditamos que todo esse quadro seja decorrente de uma virose.
— Virose... virose... — retrucou Selma. — Sempre que vocês médicos não conseguem explicar o porquê de uma doença, logo colocam a culpa na coitada da virose.
— Vó?! — exclamou Amanda, corando diante da espontaneidade de Selma.
— Apesar de todo avanço já alcançado pela medicina, ainda existem coisas que não compreendemos... — disse Fábio, pigarreando.
— É, doutor, o senhor disse tudo.
Existem coisas que só Deus consegue explicar.
— A senhora tem razão, D. Selma.
Desculpem perguntar... vocês são religiosos?
— Sim, doutor, por quê?
— Veja bem, apesar de médico e de procurar ter sempre uma visão racional e científica das coisas, principalmente quando se trata de meu ambiente de trabalho, há momentos em que precisamos reconhecer a limitação que essa visão racional e científica impõe.
Tenho certeza de que tudo é passível de explicação à luz da ciência; acontece que existem coisas que não são explicáveis apenas porque a ciência ainda não conseguiu entendê-las.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:57 am

A existência do mundo espiritual é uma delas.
Selma sorriu serena e demoradamente, como se aquelas palavras estivessem vibrando dentro dela e alimentando ainda mais sua certeza na existência de uma realidade paralela a esta em que nos encontramos.
Amanda ouvia sem acreditar que aquela afirmação tivesse saído da boca de um médico.
— Veja bem... — prosseguiu Fábio —, ninguém conseguia enxergar os micróbios, mas eles já existiam muito antes da invenção do microscópio, certo?
A televisão e o rádio funcionam captando ondas que se deslocam na atmosfera e ninguém as vê; o próprio ar que respiramos e sem o qual não sobrevivemos é invisível, inodoro e insípido, ou seja, não é somente porque nossos sentidos físicos não conseguem captar a existência de alguma coisa que podemos dizer que essa coisa não existe.
— Qual é a sua religião, doutor? — perguntou Selma, já antevendo a resposta.
— Sou Espírita.
— De mesa ou de terreiro?
Ele pigarreou mais uma vez, ajeitando a gola do jaleco branco, como se estivesse arrumando também os pensamentos e as palavras.
— Veja bem... — começou a responder, utilizando a expressão que era sua marca característica.
Espiritismo é a doutrina que foi codificada por Alan Kardec.
Tem um triplo aspecto, pois pode ser entendida como filosofia, ciência ou religião.
No Brasil, acostumou-se chamar de Espiritismo toda seita ou religião que lida com espíritos.
Porém não é assim que as coisas são.
As religiões que fazem rituais, que usam roupas especiais, usam instrumentos... não praticam Espiritismo.
Praticam Espiritualismo, lidam com a mediunidade, mas são diferentes prática e filosoficamente da doutrina codificada por Kardec.
— Já entendi... o senhor é de centro de mesa — disse Selma com as mãos nas cadeiras.
Fábio riu e compreendeu que a avó de Amanda tinha entendido a sua mensagem; entretanto, ela fazia parte de um grande grupo de pessoas que não fazem distinção entre Espiritismo e Espiritualismo e que denominam como Espiritismo toda religião que lide com a comunicação entre o mundo material e espiritual, porque foi assim que aprenderam e agora parecia ser muito tarde para que aprendessem diferente.
— Eu frequento terreiro — completou ela, ajudando Amanda a descer da cama.
— Eu não entendo muito de rituais afro-brasileiros, mas acho que o caso de sua neta pode encontrar solução no campo religioso.
— Que esquisito — disse Amanda.
Um médico receitando um tratamento na macumba.
— Esquisito por quê? — retrucou Fábio, sorrindo. — Alan Kardec era médico!
E eu não disse para ir à macumba.
Disse que talvez vocês pudessem encontrar solução no campo religioso.
Sem o saber Fábio estava sendo influenciado a falar sobre essas coisas, para que Amanda, ao ouvir tais assertivas vindas de um médico, começasse a pensar de maneira diferente sobre a possibilidade de procurar tratamento espiritual.
Ela não tinha orientação religiosa e tinha uma certa resistência ao assunto mediunidade, tanto pela lembrança reencarnatória de quando era Jade como pela atitude que sempre viu na mãe sobre esse tema.
Nesse momento, a porta do quarto abriu-se e fez surgir a figura de Urânia.
Tinha o rosto mais tranquilo e seus olhos se iluminaram quando viu a filha bem disposta e caminhando pelo recinto.
— Bom dia a todos! — disse ela, sorrindo para Amanda.
— Que bom que você chegou, filha! Estávamos falando sobre fazer um tratamento de Amanda em um centro espírita.
Urânia ficou desconcertada ao ouvir a mãe puxar essa conversa na frente do médico.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:57 am

Sorriu ajeitando o coque e tentando encontrar um meio de mudar o rumo do assunto.
Selma percebeu o processo mental da filha e acrescentou:
— Não precisa ficar sem graça, o Dr. Fábio é espírita.
Foi ele quem sugeriu a ida a um centro.
Urânia continuava desconcertada, enquanto Fábio tentava retomar o controle da conversa.
— Sou Espírita e, depois de ser informado por sua mãe que vocês são praticantes de uma religião espiritualista, sugeri que talvez alguma ajuda no campo religioso fosse útil, pois, como estava dizendo para sua filha, os exames que realizamos não demonstraram nada de anormal a não ser uma pequena anemia.
Ao ouvir aquelas últimas palavras de Fábio, Urânia lembrou-se imediatamente da orientação dada por Seu Mata Virgem de que Amanda precisava fortificar o sangue.
Sua visão mediúnica foi activada e viu, por trás do médico, um homem com a aparência de um índio vestido de folhas.
Era Seu Mata Virgem que estava actuando em Fábio, inspirando-o para que pudesse influenciar Amanda em ir ao centro com a avó e a mãe.
Foi uma visão rápida, mas com duração suficiente para que Urânia reconhecesse a entidade ali presente.
— Na verdade, doutor, eu não sou muito praticante dessas coisas... — disse Urânia ainda olhando para o vazio atrás de Fábio.
Eu tinha e ainda tenho algumas reservas.
Minha mãe é que é praticante... eu só procurei esse tipo de ajuda quando já não tinha mais a quem recorrer.
Fábio, ainda influenciado por Seu Mata Virgem, repetiu para a mãe de Amanda as palavras de orientação da noite anterior.
Esclareceu como o desequilíbrio mediúnico e os processos obsessivos desgastam fisicamente o obsidiado, e que, por isso, todo tratamento espiritual precisa ser feito paralelamente a um tratamento médico.
Acrescentou que tal tratamento deveria ser feito quanto antes.
Mais uma vez, Seu Mata Virgem fez-se visível à percepção mediúnica de Urânia, que, diante de tantas provas, resolveu não mais lutar contra a realidade da vida espiritual e de sua mediunidade.
Selma preparava-se para ir para casa.
Fábio esclareceu que Amanda provavelmente teria alta no dia seguinte, caso continuasse em seu quadro actual.
Ficaria em observação por mais 24 horas para verificar como reagiria à ingestão normal de alimentos.
O médico saiu do quarto e nunca soube que, naquela manhã, tinha sido veículo para a comunicação de uma entidade de Umbanda.
Urânia despediu-se da mãe e passou o dia a meditar sobre os últimos acontecimentos que envolviam sua mudança de atitude perante a religião.
Amanda estava adorando ter o dia inteiro somente para ela e para a mãe, parecia uma criança a todo instante chamando a mãe de volta ao mundo real e tirando-a dos pensamentos que fervilhavam dentro de sua cabeça.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:57 am

CAPÍTULO XXV - Hábitos difíceis de serem modificados
No terreiro desde a noite anterior, impregnada pelo magnetismo de Amanda e recebendo a imantação do orixá Ogum pelo contacto com o ponto riscado, a roupa usada pela filha de Urânia servia como informação do endereço vibratório que a energia dinamizada pelo ponto riscado deveria procurar.
Assim funciona a magia assimilativa:
objectos, roupas, cabelos, unhas, sangue, saliva, fezes, urina, sémen e tudo o que sai do corpo ou que fica em contacto prolongado com seu possuidor é impregnado pelo seu magnetismo e funciona como informação do endereço vibratório para os trabalhos de magia, sejam eles benéficos, sejam maléficos.
A magia assimilativa busca a fonte geradora da energia que impregna o objecto colocado em contacto com o trabalho feito.
Ogum é um orixá masculino.
É a representação do guerreiro, figura presente em todas as manifestações da mitologia universal.
A tradução do seu nome significa luta, batalha.
Por ser um guerreiro e estar associado à luta e à conquista, é inevitavelmente relacionado aos militares.
É um dos orixás mais populares.
No Rio de Janeiro é sincretizado com São Jorge.
Ogum é o deus do ferro, do aço e dos metais em geral.
É aquele que brande a espada e forja o ferro, transformando-o em instrumento de luta; é patrono de todos aqueles que manejam ferramentas.
Dessa forma o seu poder se expande para além do campo de batalha, pois Ogum é o orixá que cuida dos conhecimentos práticos, sendo assim o patrono da tecnologia.
No dia-a-dia, Ogum não é apenas aquele que combate e derrota inimigos; é também aquele que promove o progresso abrindo caminhos para a construção de uma estrada, incentiva o desenvolvimento dos meios de transporte e o deslocamento de coisas e pessoas.
É o orixá da manutenção da vida, pois é ele quem promove a circulação do sangue nas veias.
Significa o avanço cultural do homem, que, passando a dominar o conhecimento sobre o ferro e os metais, ampliou seu poder sobre o mundo selvagem que o cercava, desenvolvendo ferramentas que transformaram o seu dia-a-dia, auxiliando-o no trato com a terra e trazendo melhor aproveitamento e produção agrícola.
Os pontos riscados são códigos registrados no mundo astral.
Traçados com o material específico, os desenhos que os compõem são símbolos mágicos que, quando agrupados, movimentam energias poderosas, funcionando como um foco de atracção e emissão de forças.
Ao ponto riscado, acrescentam-se outros elementos que visam complementar e reforçar a imantação que está sendo feita.
São elementos tais como água de diversas procedências, pedras, conchas, ervas, flores, pós diversos, velas, etc.
A roupa impregnava-se com a imantação do ponto riscado.
Do outro lado da cidade, Amanda, pela semelhança magnética, também recebia as irradiações captadas e distribuídas pelo ponto desenhado por Seu Mata Virgem, absorvendo-as e retornando gradativamente ao estado considerado como normal de saúde.
O afastamento da suicida que lhe sugava as energias, a ligação magnética com o ponto riscado, a melhora em seu estado de saúde e o bem-estar geral que isso provocou em Amanda fizeram com que Zuma e Muzala se afastassem, pois tinham dificuldade em sintonizar-se com a mente de sua vítima.
Decidiram que deveriam, mais uma vez, deixar o tempo passar, pois a filha de Urânia não conseguiria ficar por muito tempo feliz e equilibrada.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:58 am

Sua insegurança, seu mau humor, seu ciúme, sua falta de fé encarregar-se-iam de criar novamente uma aura propícia para nova ligação mental com seus obsessores.
Ao se completarem as 24 horas anunciadas por Fábio, Amanda recebeu alta.
Foi orientada a manter a dieta prescrita e gradativamente retornar aos hábitos alimentares.
Chegando em casa estranhou a manifestação de receptividade paterna, que julgou excessiva, mas preferiu não comentar pois já tinha sido advertida pela mãe a não criar polémicas visando manter o padrão vibratório bom.
Estranhou essa orientação e mudança de atitude materna, mas preferiu não comentar isso também.
Nos dias que se passaram, Amanda foi gradativamente voltando ao seu estado normal de humor, enquanto Zuma e Muzala, tramando novas situações para levar a filha de Urânia à loucura e à morte, voltaram a frequentar a casa de sua vítima.
Foram percebidos pela visão mediúnica de Urânia, que tratou de puxar conversa com a filha logo depois que viu Zuma sussurrando algo no ouvido de Amanda durante uma discussão dela com Mauro ao telefone.
— Filha, você não acha que está dando importância demais para essa festa no escritório?
Essas reuniões são normais e quem não participa acaba sendo tachado de anti-social, perde oportunidades de travar conhecimentos e de se aproximar de pessoas influentes.
— Não adianta, mãe, não adianta você tentar proteger o Mauro... essa porcaria de festinha é tudo pretexto para ficar perto daquela lacraia da Fabiana.
Hábitos difíceis de serem modificados 139
— Amanda... esse rapaz já deu provas mais do que suficientes de que gosta realmente de você.
Esse seu excesso de insegurança vai acabar desgastando esse namoro que tem tudo para te fazer feliz.
Diga-me... você tem como provar que entre ele e essa Fabiana tem alguma coisa?
— E precisa provar, mãe?
É só ver como ela se insinua para ele e... — Urânia interrompeu a fala de Amanda.
— Você não respondeu à minha pergunta.
Você tem como provar que entre Mauro e Fabiana existe alguma coisa?
— Ahhh! P... pr... provar... provar, não consigo.
Mas eu sinto, eu sei!
E eles fazem as coisas bem feitas... mas eu sou mais inteligente... eu sei de tudo! — disse Amanda, arregalando os olhos.
Urânia observava o descontrole emocional da filha e pensava consigo mesma como pôde ficar tanto tempo sem perceber o perigo que a rondava durante todo aquele tempo.
Agora para ela era clara e nítida a influência espiritual que ela sofria, mas como fazer para que Amanda aceitasse o tratamento que se fazia urgente?
Sua filha agora já era adulta, com convicções próprias.
Convicções que ela mesma tinha ajudado a fortalecer e que agora precisavam ser revistas.
— Filha... não deixe que esse ciúme te desequilibre novamente.
Toda vez que briga com Mauro, você cai em depressão ou aparece alguma doença esquisita que ninguém explica.
— Ai, ai, ai... — disse Amanda levando as mãos para o alto e jogando o olhar para cima em um gesto típico de impaciência.
Lá vem você de novo com essa história do casal de negros que me perseguem... do trabalho que fizeram com aquela blusa, que eu adorava, e que até hoje está lá no centro que a vovó frequenta... que eu deveria fazer um tratamento na macumba... aliás, eu ainda não me acostumei com essa sua mudança de atitude perante a religião.
— Mudei de atitude, sim.
Tenho razões para isso e só eu sei o que senti quando vi o que vi lá no hospital.
Quanto à blusa que você diz adorar, não era tanto o seu amor por ela e você sabe disso.
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Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:58 am

Aliás, ela está lá na casa de sua avó, que já foi apanhá-la no centro e pode traze-la a qualquer momento... é só ela lembrar.
E não se esqueça de que o tratamento na macumba foi inicialmente uma sugestão do próprio médico que te atendia.
Urânia percebeu que aquela atitude de Amanda era influência de Zuma e Muzala e resolveu agir com firmeza, não cedendo aos caprichos e argumentos que a filha sempre utilizava para manipulá-la.
— Aquele médico de cara enferrujada é um louco — disse Amanda com desdém, levantando-se do sofá e dando por encerrada aquela conversa.
Percebeu que teria que usar outros artifícios para continuar a influenciar a mãe.
Urânia olhou com tristeza a filha abrir a porta do quarto usando a bainha da blusa para não encostar na maçaneta.
Parecia que mais um ataque obsessivo estava a caminho.
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Re: Reflexos de um passado - Caboclo Sete Montanhas / Nilton de Almeida Júnior

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 11, 2016 9:58 am

CAPÍTULO XXVI - Amanda decide ir ao Terreiro
Os dias passavam pesadamente para Urânia, Humberto e Selma, que assistiam o desenrolar de acontecimentos que eles já sabiam muito bem como terminariam.
Dessa vez o mau humor de Amanda estava mais acirrado, nem a mãe escapava de sua ira.
Entretanto, agora as pessoas sabiam com o que estavam lidando e, apesar de não ser uma situação de fácil controle, ao menos sabiam como agir.
Sob a orientação de D. Luiza, procuravam não se envolver com os ataques verbais provenientes da obsidiada.
A dirigente do centro tinha esclarecido que a fúria dos obsessores era inevitável, pois afinal de contas seus planos estavam sendo sabotados por pessoas que tinham interesse no bem-estar de Amanda e na modificação da situação por eles provocada.
Deitada na cama, Amanda deixava-se envolver pelas sugestões mentais de Zuma e Muzala e imaginava situações envolvendo Mauro e Fabiana.
Eram cenas tão reais que ela chegava a ouvir os diálogos e acreditava que aquilo estava realmente acontecendo.
Seus batimentos cardíacos estavam extremamente acelerados, seu aparelho digestivo sofria com a produção excessiva de suco gástrico, que agia sem piedade provocando a ardência característica que anunciava o desenvolvimento de uma úlcera.
Batidas na porta anunciavam que alguém pedia licença para entrar no quarto.
Ela ignorava e esperava que a pessoa desistisse ao não receber resposta, pois agora era acometida por fortes dores de cabeça.
— Posso entrar? — disse Selma, empurrando a porta do quarto lentamente.
— Entre, mas não sente na cama, nem toque em nada, a senhora deve estar suja da rua.
— Pode deixar, minha filha... — disse Selma pacientemente.
Não farei nada que possa macular suas coisas, apesar de estar com minhas mãos absolutamente limpas.
Acabei de lavá-las.
— Vó, eu não estou disposta a conversar com ninguém... quero ficar sozinha.
— Mas você está trancada neste quarto desde antes de eu ter chegado duas horas atrás!
Estamos lanchando, conversando e tendo uma maravilhosa tarde de domingo.
Tem certeza de que vai desperdiçar esta oportunidade?
— Não tenho fome.
— Não é apenas pela fome, meu amor!
É pela companhia, é por estarmos juntos, é pela família.
— Família, que família?
Estou cada vez mais sozinha.
Até minha mãe, que sempre me apoiou, agora está passando para o lado daquele cachorro.
Subitamente, Selma vislumbrou uma possibilidade de fazer com que a neta aceitasse ir ao centro.
Cocou o queixo pensativamente e disse, pausadamente.
— Ele continua se engraçando para o lado daquela menina?
Selma sabia por Urânia o motivo da última briga do casal.
— Como é mesmo o nome dela?
— Fabiana... — respondeu Amanda retorcendo os lábios.
Aquela vaca.
— Sabe, Amanda, acho que podemos dar um jeito de saber se eles realmente estão te traindo — disse a avó com um olhar matreiro.
Amanda, que tinha os olhos fixos no tecto, voltou o olhar para a avó parada ao lado de sua cama.
Sentou-se, ajeitou os cabelos, fungou e disse:
— Como assim?
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