Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:41 am

Vingança Além do Túmulo
Assis Azevedo

Pelo Espírito João Maria

Índice
Capítulo I - Às vésperas do casamento
Capitulo II - Suicídio da noiva
Capítulo III - Exílio de Hugo
Capítulo IV - Carla no mundo espiritual
Capítulo V - Vingança
Capítulo VI - A mãe de Carla é internada
Capítulo VII - Albert à beira da loucura
Capítulo VIII - Hugo tenta esquecer a tragédia
Capítulo IX - Comentário sobre o suicídio
Capítulo X - Desespero no além
Capítulo XI - De volta ao passado
Capítulo XII - Hugo sonha com Carla
Capítulo XIII - Hugo e Viviane
Capítulo XIV - O Espiritismo
Capítulo XV - Perturbação de Carla
Capítulo XVI - Pai descobre porque a filha se suicidou
Capítulo XVII - Eu não morri!
Capítulo XVIII - Carla no cemitério
Capítulo XIX - Hugo estuda o Espiritismo
Capítulo XX - Hugo retorna à casa dos pais
Capítulo XXI - O psiquiatra
Capítulo XXII - Trama dos espíritos maléficos
Capítulo XXIII - Influência dos espíritos maus
Capítulo XXIV - O enviado do Senhor
Capítulo XXV - Recuperação de Albert
Capítulo XXVI - Porque aconteceu
Capítulo XXVII – Viviane
Capítulo XXVIII - Albert resolve buscar recursos
Capítulo XXIX - O sofrimento de Carla
Capítulo XXX - O verdadeiro amor
Capítulo XXXI - Albert desencarna
Capítulo XXXII - Carla nas zonas umbralinas
Capítulo XXXIII - Casa dos aflitos Jesus de Nazaré
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Ave sem Ninho

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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:41 am

Capítulo I - Às vésperas do casamento
O carro parou defronte a um portão blindado.
Lentamente, este se abria accionado por um pequeno controle, que apareceu de repente na mão do motorista.
Após o portão deslizar sobre o trilho, o motorista dirigiu o carro sobre um passadiço de concreto, ladeado por um formoso jardim, e o estacionou na entrada de uma belíssima mansão.
Enquanto isso, se ouvia o tradicional barulho de ferro sobre ferro do portão rodando novamente sobre o trilho, fechando-se para o mundo e isolando a monumental residência erguida sob a orientação de um perfeito artista da construção moderna.
Um rapaz abriu a porta do automóvel último modelo e saiu correndo, passando pelo restante do jardim e por uma passarela que se ligava a vários corredores.
Ele continuou correndo sem parar.
Subiu uma escada de mármore de dois em dois degraus, parando ofegante em frente de uma porta que se encontrava fechada.
Bateu de leve e ouviu alguém falar em voz alta:
- Entre!
Hugo abriu a porta e encontrou um senhor com aproximadamente sessenta e cinco anos de idade, branco, cabelos lisos e brancos como algodão.
Atrás de uma escrivaninha e com óculos no rosto, o homem folheava desinteressadamente um livro.
O cómodo era o luxuoso escritório privativo do dono daquela mansão.
- Papai! - gritou o rapaz, tentando controlar o desespero que lhe ia na alma naquele momento.
Por que o senhor fez isso comigo?
O progenitor tirou os óculos e calmamente os colocou sobre a escrivaninha.
Ergueu a cabeça e, enquanto fechava o livro, fuzilou o rapaz com seus olhos azuis, mostrando no fundo deles um brilho cruel.
Afastou um pouco a cadeira da mesa e encarou directamente os olhos do rapaz com um sorriso irónico nos lábios finos, que demonstravam uma vontade férrea misturada a uma frieza cadavérica.
O empresário, presidente de uma fábrica de carros de luxo com filiais espalhadas pelo mundo inteiro, como se nada tivesse acontecido para justificar o desespero do rapaz, perguntou-lhe:
- O que aconteceu, meu filho?
O filho era alto, louro e tinha olhos azuis, talvez, herdados dos pais que descendiam de europeus.
A idade variava entre os trinta e trinta e cinco anos.
Era médico e director de um dos maiores hospitais particulares da cidade, graças a seus pais, principalmente à sua mãe, que lutou muito para que o filho seguisse a sua vocação, mesmo contra a vontade do marido, que desejava que o único herdeiro assumisse os negócios da família.
Albert, pai de Hugo, homem de família tradicional e rica, disse calmamente:
- Juro, meu filho, que não estou lhe entendendo.
O rapaz tirou um lenço do bolso do paletó e o levou ao rosto, enxugando as lágrimas, que desciam sem sua permissão.
Albert nada falou.
Manteve-se calmo, enquanto brincava com seus óculos e observava o filho, que continuava tentando enxugar as lágrimas.
- O senhor gosta de me ver chorando, não é, pai? - perguntou o rapaz entre soluços.
Sempre fui um fraco, obedecendo cegamente todas as suas ordens, ou melhor, seus caprichos de homem orgulhoso e acostumado a mandar.
Não é isso, senhor Albert?
Silêncio.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:41 am

- Responda-me, pai!
Neste exacto momento, uma mulher muito bela e elegante, com biótipo de uma legítima italiana, entrou no escritório.
Era branca, tinha cabelos castanhos e curtos, olhos amendoados e altura mediana.
Sua beleza era tão radiante que não era possível definir sua idade.
Ao ver o médico chorando correu para abraçá-lo.
- O que houve, meu filho?
- Pergunte ao seu marido!
A mulher encarou o marido, que se matinha impassível, e perguntou-lhe:
- O que houve, Albert?
Posso saber?
- Papai, por favor.
Conte para a mamãe a canalhice que o senhor fez.
Albert levantou-se, fuzilando o filho com o olhar de uma pessoa que perdera por completo o controle dos nervos, aproximou-se e deu-lhe um tapa com as costas da mão direita, deixando um pequeno corte feito pelo seu anel no rosto de Hugo.
- Respeite-me, seu fedelho! - disse ele, com ódio.
Iolanda correu e ficou entre os dois homens, ordenando em voz alta.
- Pare com isso, Albert!
- Então, controle a língua do seu filho!
O rapaz parou de chorar, levou a mão ao rosto e calou-se, apertando os maxilares com tanta força, que qualquer pessoa que se encontrasse no escritório poderia ouvir o ranger de seus dentes.
- Maldito! - gritou o rapaz, demonstrando todo o desprezo que sentia por aquele homem que lhe dera a vida.
Carla se suicidou e levou consigo o nosso filho por sua culpa!
- Que história é essa, meu filho? - perguntou Iolanda assustada.
Ontem à tarde ela esteve aqui, e passou um bom tempo conversando com o seu pai.
Até se despediu de mim com um beijo quando foi embora.
Não estou entendendo...
O rapaz voltou a chorar e tentou explicar tudo à sua mãe:
- Ela tomou uma forte dose de veneno letal, vindo a falecer hoje, pela manhã.
O rapaz respirou profundamente e disse, olhando para o pai:
- Num último sopro de sua vida, ela ainda me disse:
"Hugo, jamais deixarei de amá-lo.
Entretanto, odiarei o seu pai por toda a eternidade".
Iolanda olhou para o marido, interrogando-o em silêncio.
Já sentado, Albert respondeu ao olhar interrogativo da esposa:
- Não tenho nada a ver com a morte dessa moça.
O marido levantou-se e encaminhou-se para a porta de saída, porém, antes de deixar o escritório, disse com ar de enfado:
- Somente os covardes se suicidam.
Isso prova que aquela desclassificada não servia para ser nossa nora.
O homem passou a mão no terno, dando por encerrada a conversa, e saiu batendo a porta.
Mãe e filho abraçaram-se e choraram.
- Onde está o corpo, meu filho?
- No IML.
- Tenha fé em Deus.
Logo, você esquecerá essa moça.
- Mãe, eu não quero esquecer a Carla, entendeu?
Jamais esquecerei a única mulher que amei nesta maldita vida, principalmente sabendo que ela levou consigo nosso filho.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:42 am

Iolanda entendeu que seu filho sofria muito e não sabia o que fazer para ajudá-lo.
Há momentos na vida em que ficamos totalmente impotentes ante alguma adversidade que nos acontece, ou melhor, não sabemos o que fazer para resolver o que não tem solução.
- Como está a família dela?
- Inconsolável.
- Não entendo por que uma moça tão linda e cheia de vida tomaria uma atitude dessas.
- Seu marido, o famoso Dr. Albert, sabe a resposta, dona Iolanda - disse o filho, ironicamente, enquanto enxugava as lágrimas, com o olhar perdido numa janela que se abria para belíssimo jardim.
- Meu filho, seu pai não tem nada a ver com isso.
- Então, por que ontem ela passou a tarde conversando com o papai e antes de morrer disse-me que jamais o perdoaria?
Iolanda ficou em silêncio, sem saber o que responder, pois pressentia que alguma coisa muito séria havia acontecido entre o marido e a namorada do filho.
Carla era a filha caçula de uma família também rica, mas considerada uma plebeia pelo pai de Hugo, pois não tinha berço e seus pais eram "novos ricos" - como se diz por aí.
Uma hora depois, o casal estava sentado na sala privativa da família quando Hugo apareceu com uma mochila nas costas.
Iolanda levantou-se surpresa e receosa abraçou o filho, perguntando-lhe:
- Você vai viajar, Hugo?
Albert manteve o olhar num jornal que fingia ler e nada falou.
Com os olhos vermelhos de tanto chorar, Hugo permaneceu imóvel, também em silêncio.
- Posso ajudá-lo, filho? - perguntou Iolanda.
Hugo não respondeu.
- Sua mãe lhe fez uma pergunta Hugo.
Responda-lhe! - ordenou o pai, aborrecido.
Hugo respirou profundamente e falou, tentando encontrar uma calma que estava longe de sentir:
- Vou embora para sempre desta casa e da vida de vocês.
- Se sair por aquela porta sem minha autorização, esqueça que é meu filho.
- Meu filho, durma um pouco e depois conversaremos.
Não tome uma decisão neste estado em que se encontra - disse-lhe a mãe, fazendo um afago em sua cabeça loura.
Hugo nada falou, apenas girou os calcanhares e encaminhou-se para a saída da mansão.
Iolanda correu e perguntou:
- Filho, você não vai levar seu carro?
Hugo respondeu sem se virar:
- Não possuo mais nada nesta vida.
Adeus, mamãe.
- Pelo menos nos diga para onde vai.
Não recebeu resposta.
A mulher voltou furiosa para junto do marido e, num acesso de raiva, tirou-lhe o jornal da mão e disse energicamente:
- Albert, escute-me, por favor!
O homem fitou a mulher com os seus olhos frios em silêncio.
Iolanda sentou-se e começou a chorar, sentindo uma dor indescritível no coração, por ver seu filho sair de casa sabe Deus para onde.
Entre lágrimas e soluços, ela perguntou:
- O que você disse para a Carla ontem, à tarde?
O todo poderoso, dono de mais da metade das acções da fábrica de carros, levantou-se calmamente e respondeu em voz baixa:
- Além de umas verdades, disse que ela não reunia atributos para se casar com o nosso filho e ser nossa nora.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:42 am

- Você sabia que ela estava grávida?
- Foi por isso mesmo que me adiantei e mandei chamá-la para uma conversa, antes que fosse tarde demais.
- Você é um monstro!
- Não penso assim.
Prometi a ela que a criança passaria a morar nesta casa com todos os direitos, inclusive, levaria nosso nome, contudo, não a aceitaríamos como nora, porque não foi isso que sonhei para o Hugo.
Iolanda colocou as duas mãos no rosto e sem olhar para seu marido, perguntou-lhe:
- Você sabe a extensão do mal que causamos ao nosso único filho, humilhando a moça que ele amava? - perguntou a mulher.
Albert sentou-se, cruzou as pernas e respondeu-lhe, de braços cruzados:
- Isso não me interessa.
Essa gentinha estava de olho na fortuna e no nome que ia herdar quando o Hugo se casasse com aquela moça.
- Você é um monstro!
Albert levantou-se novamente e começou a encaminhar-se para a saída, fingindo não ouvir o que a esposa falava.
Iolanda também se levantou e acompanhou o marido.
- Vamos visitar o corpo da moça?
- Iolanda, deixe de pieguice!
Quem se suicida é um pobre coitado, fraco de carácter, e um inútil incapaz de viver neste mundo.
Entendeu, mulher?
Vá sozinha e me deixe em paz!
- Ela estava esperando nosso neto - insistiu a mulher.
- Eu não tenho neto!
O homem foi se distanciando, enquanto Iolanda chamava o motorista, aflita.
- Madame, a senhora me chamou?
- Sim. Vamos para a residência da namorada de Hugo.
Você sabe onde ela mora?
- O Dr. Hugo pediu-me para levá-la em casa algumas vezes.
- Pedro, você sabe me dizer qual o transporte que o Dr. Hugo tomou?
- Um táxi.
- Obrigada.
Vou retocar a maquiagem e dentro de alguns minutos estarei pronta para irmos na casa de Carla.
- O que aconteceu com a Dra. Carla?
Iolanda baixou a cabeça, pensou e depois respondeu:
- Ela morreu, Pedro.
- Não é possível, patroa!
A Dra. Carla não parecia doente.
Era muito alegre e cheia de vida.
- Pois morreu, meu caro Pedro.
- De quê?
- Suicidou-se.
Agora, deixe-me subir, senão vamos nos atrasar.
O motorista ficou parado, em silêncio, talvez fazendo uma oração simples como ele.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:42 am

Capítulo II - Suicídio da noiva
Na véspera de sua morte, a Dra. Carla, namorada do Dr. Hugo, foi convidada pelo Dr. Albert a comparecer em sua mansão, para conversarem sobre algo importante.
A bela moça - morena clara, alta, com cabelos lisos e castanhos, formada há dois anos em Medicina - terminava sua especialização em Cirurgia Plástica e era residente no hospital dirigido pelo namorado.
A tarde, no dia marcado, encontrava-se confortavelmente sentada numa poltrona do escritório do pai de Hugo, sorridente e feliz.
Ela amava de todo o coração aquele rapaz bom e amigo, que prometera casar-se com ela no mês seguinte, pois já não podia esconder a gravidez de quase quatro meses.
Albert cumprimentou a moça com uma educação esmerada e fez o possível para deixá-la à vontade.
Sentou-se numa cadeira próxima à moça e perguntou-lhe, com um sorriso aparentemente despreocupado:
- Minha filha, eu posso saber de quantos meses você está grávida?
- Vou completar quatro meses de gestação, Dr. Albert – respondeu a moça exultante de alegria, pois, naquele momento, achava que o pai do rapaz também estava alegre por ser avô em breve.
Ninguém pode saber com precisão o que um homem pensa, ou seja, o que realmente sente no exacto momento em que fala ou manifesta carinho, amor, dor, ódio ou desprezo, enfim, tudo o que lhe vai ao coração quando entabula um diálogo com o próximo.
- Você tem certeza que esta criança é meu neto? - perguntou o pai de Hugo rindo, apontando para a barriga da moça.
- O senhor me ofende ao fazer esta pergunta, Dr. Albert - respondeu a moça também rindo, achando que o homem brincava com ela.
Uma criada pediu licença e adentrou o escritório com uma bandeja, oferecendo água, café e suco para os dois.
Albert tomou um pouco d'água e depois pôs café numa xícara e o adoçou com duas gotas de adoçante artificial, estendendo-a para a moça e perguntando:
- Quer mais uma gota de adoçante?
- Como o senhor sabe que não gosto de açúcar?
- Fácil! As mulheres têm medo de engordar, principalmente quando estão grávidas.
- É verdade.
Mas prefiro suco, se o senhor não se importar.
- Claro que não me importo.
Fique à vontade.
E dirigindo-se para a empregada:
- Por favor, Margarida, sirva a doutora.
- A empregada serviu suco para Carla e café para o patrão, deixando depois a bandeja numa pequena mesa.
Após tomar uma xícara de café, Albert levantou-se e foi até a janela de seu espaçoso escritório, simulando observar o tempo.
Logo depois voltou e postou-se de pé, em frente à moça.
A médica começou a perder a segurança e ficou com receio de que o pai de Hugo quisesse lhe dizer algo mais sério.
- Carla, você é uma moça inteligente, mas não tanto para me enganar.
A médica colocou o copo sobre uma pequena mesa.
Sentindo uma ligeira tontura, tentou se controlar e perguntou:
- O que o senhor quer dizer com isso, Dr. Albert?
O homem sentou-se no braço de um sofá postado ao lado da cadeira da moça, cruzou os braços e respondeu-lhe com a maior naturalidade do mundo, sorrindo cinicamente:
- Você é uma pilantra, que deseja se casar com o meu filho por causa da fortuna e do nome tradicional da nossa família.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:42 am

A moça apertou os dentes, para não tremer, enquanto apertava com força os braços da cadeira em que estava sentada.
Ficou por alguns minutos em estado de torpor, sem saber o que falar.
Sentiu pequenas gotículas de suor descer pelo seu rosto, como se o tempo estivesse muito quente, porém, aguentou firme para não perder os sentidos.
O homem continuou falando implacavelmente o que pensava, conforme o seu orgulho de família privilegiada, rica e influente na sociedade local e no mundo.
- Sendo assim, minha cara, perca a esperança de casar-se com o meu filho, porque você jamais será nossa nora.
Quanto ao filho que está esperando, vou mandar o Hugo trazê-lo para nossa casa, aonde terá o nosso nome e será educado como um órfão de mãe, pois faremos com que ele acredite mais tarde que você morreu após dar-lhe a vida.
Albert se levantou e disparou o golpe mortal, aproximando-se calmamente mais um pouco da namorada do filho, como se o que estava acontecendo fosse uma simples conversa:
- Diga quanto você quer para desaparecer da vida do meu filho para sempre.
Sei que mulheres como você sempre têm um preço.
A médica tentou falar, todavia, não conseguiu balbuciar nenhuma palavra.
Encarou aquele homem e teve vontade de torcer o pescoço dele, mas se controlou, pois sabia que isso era impossível.
Levantou-se e saiu do escritório correndo e sem pedir licença.
Passando pela sala, onde estava Iolanda, cumprimentou-a rapidamente beijando-lhe o rosto; em seguida correu em direcção ao seu carro e partiu vacilante.
Sua vista estava embaçada, a cabeça doía e parecia que havia inchado, ouvindo mil e um sons, que quase a deixavam louca.
Chegou em casa, foi directo para seu quarto e deitou-se na cama de bruços, dando toda vazão à sua dor, chorando e soluçando.
Naquele momento desejou morrer.
Sumir para sempre deste mundo.
Não conseguiu fazer uma prece, pois não era religiosa, como é comum nas pessoas jovens, principalmente as que se dedicam à ciência.
Quando a humanidade se depara com algo adverso à sua pretensão ou ante um problema qualquer que atravessa o seu caminho, tirando-lhe a ilusão que construiu ao longo de anos, o seu mundo acaba e com ele aparece o que todo mundo chama de sofrimento, que causa danos inseparáveis naqueles que não acreditam absolutamente em nada além de suas convicções.
Carla ergueu-se cambaleante, sentindo um peso anormal sobre o corpo, e com sacrifício desceu as escadas.
Entrou no carro novamente e começou a dirigir sem rumo certo, até chegar a uma avenida que ficava à beira-mar, naquela cidade
abençoada por uma aquinhoada beleza natural.
Estacionou o veículo, abriu a porta e ficou com o olhar fixo naquele mar, observando o céu se esconder nas ondas, formando um gigantesco salão azul com um piso móvel de diversas cores.
"Acho que se eu começar a nadar agora, alguém vai me ajudar a entrar naquele céu", pensou a moça.
O celular tocou, ela verificou o número da pessoa que estava ligando e desligou.
"É o Hugo.
Coitado, não sabe o pai que tem", comentou para si.
A noite chegava cobrindo o mundo com o seu manto escuro, enquanto a cidade começava a iluminar-se aos poucos, com sua luz artificial.
A moça fechou a porta do carro, ligou o motor e procurou a direcção de sua casa.
O choro foi substituído por um imenso vazio no seu coração, não mais conseguindo sentir dor ou alegria.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:43 am

"Estou morta", pensou.
Passou numa farmácia, tirou da bolsa o seu talão de consultas e um pequeno carimbo com sua assinatura, prescreveu o nome de um medicamento, em seguida carimbou-o e o entregou ao atendente da farmácia.
Após receber o medicamento, pagou-o e guardou-o na bolsa, dirigindo-se em seguida para sua residência.
Chegando em casa subiu directamente para o seu quarto, que ficava na parte superior da bela residência, e sentou-se na cama, ficando com as mãos sobre a cabeça baixa por alguns minutos.
Logo depois tirou os sapatos brancos e ficou descalça.
- Filha! - sua mãe a chamava do lado de fora do quarto.
- Mãe, não quero falar com ninguém.
Depois explico.
- O Hugo já telefonou várias vezes.
O que digo para ele?
- Nada.
Ou melhor, que estou doente e que amanhã cedo nos veremos no hospital para conversarmos sobre a minha viagem.
- Viagem?
Você vai viajar, minha filha?
- Vou. Depois conversaremos, mãe.
Agora, deixe-me só, por favor.
- Nós a esperamos para jantar.
- Mãe, não quero jantar.
Depois farei um lanche.
- Você precisa se alimentar.
Cuidado com a criança, por favor.
Isabel, mãe de Carla, ficou preocupada.
- O que houve, Isabel? - perguntou o marido, que estava lendo um jornal numa sala privativa.
Parece-me que você está preocupada.
- A Carla não quer sair do quarto.
Imagine que ela não quer atender os telefonemas do namorado e nem jantar.
- Tenha paciência com ela.
Você sabe muito bem que a mulher fica enjoada quando está nesse estado.
Lembra-se de você, quando estava grávida?
- Ora, se me lembro!
Acho que você tem razão.
- Então tenha calma.
- Estranho.
- O que é estranho?
- Ela falou que vai viajar.
Por acaso você está sabendo de alguma coisa?
- Não. Mas é assim mesmo: esse pessoal novo pensa diferente de nós.
Carla andava pelo quarto sem parar.
Sentava-se e apertava a cabeça com as mãos, sentindo uma dor indescritível que se irradiava para todo o corpo, às vezes, até sufocando-a e deixando-a ansiosa.
Ela foi até a janela do seu quarto e observou durante alguns minutos as luzes do bairro onde nascera e crescera.
Sorriu quando se lembrou do dia em que passou no vestibular de Medicina e chegara em casa toda suja.
"Como estava feliz, meu Deus", pensou.
Sentou-se novamente na cama, mas logo se levantou inquieta.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:43 am

Foi até ao banheiro e abriu uma pequena farmácia, que fizera para guardar os medicamentos que ganhava dos representantes farmacêuticos -amostras grátis - e ficou examinando-a.
Depois fechou o pequeno armário e caminhou pelo quarto, começando a perder a lucidez e o equilíbrio, comum às pessoas que estão atravessando sérios problemas.
Voltou ao banheiro e abriu novamente o armário, pegando algumas caixinhas de comprimidos e, com uma calma impressionante, retirou-os e colocou-os sobre a cama.
Em seguida abriu sua bolsa e retirou o medicamento que comprara.
Foi ao seu pequeno refrigerador e tirou uma garrafa com água, que colocou em um copo.
Lentamente foi sorvendo os comprimidos com água, depois abriu o medicamento que comprara na farmácia, fitou-o, colocou-o num copo com água e o ingeriu de uma vez.
Antes de terminar essa macabra operação, ela começou a rir, enquanto falava em voz baixa:
"Vou para o inferno, seu velho nojento, mas levo comigo o seu neto".
E ria como uma louca.
Carla deitou-se rindo, mas já praticamente sem voz, pois sentia um frio esquisito e o estômago queimar, causando uma dor insuportável.
Correu para o banheiro, suspendeu a tampa do aparelho sanitário e vomitou, enquanto comprimia com as mãos o estômago e o frio se apoderava dela com mais intensidade.
Como médica, ela sabia que estava morrendo e pensou:
"Não posso ser covarde e pedir socorro; vou mostrar àquele asno, quem é mais forte: ele ou essa filha do povo".
Isabel, que fora dormir preocupada com a filha, não conseguia pregar os olhos.
Quase ao amanhecer, levantou-se sem fazer barulho e olhou para o quarto da filha, vendo luz.
"Graças a Deus, que ela está bem.
Deve estar estudando", pensou.
"Mesmo assim vou levar um copo de leite para ela.
Pelo menos para alimentar o meu neto", disse ela carinhosamente, em voz baixa.
Isabel preparou um copo de leite, biscoitos, suco e pão assado, colocou tudo numa bandeja e subiu a escada que terminava no quarto da filha.
Bateu na porta e ninguém falou, então resolveu abri-la, pois não estava trancada.
A porta abriu-se e apresentou um espectáculo inédito aos olhos de Isabel.
Carla estava deitada de lado, encolhida com a mão na barriga e com uma espuma amarelada saindo de sua boca.
O lençol da cama encontrava-se encharcado de sangue, pois abortara a criança.
Observava-se sobre a cama e no piso do quarto algumas caixas vazias de um poderoso medicamento, empregado no tratamento de perturbações psíquicas e dores, e um pequeno frasco de um tipo de veneno doméstico usado contra insectos.
Um copo e uma garrafa vazia estavam espalhados pelo chão.
Isabel soltou a bandeja, que fez um barulho macabro no silêncio daquela madrugada fatídica.
Levou a mão à boca e soltou um grito com todas as forças, ecoando pela casa inteira, talvez sendo levado pelo vento da madrugada, revelando a dor daquela mãe que anunciava a morte da filha.
Em poucos minutos, seu irmão, os empregados e seu pai já se encontravam no quarto.
Com a cabeça da filha no colo, chorando sem consolo, o pobre pai perguntava em voz alta:
- Meu Deus! O que fiz para o Senhor fazer isso comigo?
Passaram uns vinte minutos...
Cada foi removida imediatamente para o hospital onde trabalhava.
Hugo não saía de perto da namorada.
Logo, ligada a vários aparelhos, a moça abriu os olhos e olhou para o namorado, que não falava e se limitava apenas a chorar e a orar baixinho.
Repetia uma oração qualquer que aprendera com a sua mãe.
- Hugo, jamais deixarei de amá-lo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Ter Ago 16, 2016 9:43 am

Mas odiarei seu pai, por toda a eternidade.
Após falar essas palavras com dificuldade, sua cabeça pendeu para um lado.
- Dr. Hugo, a Dra. Carla morreu! - disse um jovem médico.
- Não! - gritou o rapaz desesperado.
Fizemos tudo que estava ao nosso alcance, desde uma lavagem estomacal, até os procedimentos legais de desintoxicação.
Infelizmente, nossa amiga estava determinada a por um fim à sua vida - informou o médico.
Ela pensou nos mínimos detalhes e não se apavorou, pois não pediu socorro a tempo, deixando-se consumir lentamente por uma poderosa mistura química.
Hugo levantou-se, pegou o seu carro e dirigiu completamente descontrolado até a sua casa, pensando:
"Vou matar aquele velho prepotente, assassino do seu próprio neto!
Vou esganá-lo com as minhas próprias mãos".
Enquanto isso, do lado espiritual, Carla viu o próprio corpo sendo levado para o IML e começou a chorar, pois não conseguia ficar em pé.
Sentia dores incapazes de serem descritas por alguém, causadas pelo letal coquetel químico que ingerira.
Ela chorava com as mãos no abdómen e pedia com voz pastosa:
"Por favor, acudam-me!
Estou morrendo!
Salvem pelo menos o meu bebé".
Ninguém a ouvia.
O corpo dela já estava no necrotério sendo submetido à autópsia.
"Esse povo está ficando louco", pensava.
Aproximou-se de seu corpo, que estava sendo dissecado pelos legistas, e comentou com um deles:
- Essa pobre moça se parece muito comigo.
Não ouviu resposta.
Algumas pessoas mal encaradas a observavam, entretanto, ela gritava quando tentavam se aproximar:
- Não se aproximem, demónios!
Nunca acreditei nessas bobagens das igrejas!
Vou chamar os seguranças do hospital e mandar enxotá-los daqui!
- Agora, você é nossa.
Fique calma - disse uma daquelas pessoas com o aspecto horrível.
- Vamos connosco e deixe de bancar a orgulhosa.
Chegou a nossa vez, beleza - disse um homem com um olhar de lascívia, parecendo o chefe daqueles bandidos.
- Não ousem se aproximar de mim!
O meu noivo é o dono de tudo isso e ele pode mandar prendê-los no momento que desejar!
- Coitado dele, querida.
Quem manda aqui, somos nós.
Entendeu? - disse uma moça com um ar de louca, fazendo gestos obscenos.
Aos poucos, ainda muito fraca, Carla foi adormecendo enquanto os bandidos do além caíram sobre ela, colocando a boca em determinados locais daquele corpo espiritual, como se estivessem se alimentando de algo.
- Pessoal, vamos aproveitar também aquele corpo apetitoso que está sendo cortado.
Em questão de segundos, muitos espíritos, que ainda não haviam sido recolhidos para as colónias espirituais, cheiravam o corpo - forma como esses espíritos se alimentam e fortalecem as energias vitais que ainda lhes restam, pois ainda estão ligados ao mundo material.
Ao lado, uma equipe espiritual de socorristas do bem se mantinha em silêncio.
- Irmão José, não iremos fazer nada? - perguntou um deles ao espírito que parecia o chefe daquela equipe.
- Infelizmente, não.
Pelo menos por enquanto.
E vocês sabem o porquê - respondeu o irmão José com lágrimas nos olhos.
Todos da equipe baixaram a vista e começaram a fazer uma prece.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:17 am

Capítulo III - Exílio de Hugo
O ônibus rodava vencendo os vários quilómetros que separavam os seus passageiros dos destinos escolhidos.
Um deles, um rapaz de boa aparência, estava sentado com a cabeça recostada na janela.
Ele não parava de chorar baixinho e de enxugar o rosto com uma toalha que trazia enrolada no pescoço.
Enquanto fitava o asfalto que passava rápido, vislumbrava sem muito interesse a paisagem que se descortinava aos seus olhos.
Ora surgia uma vegetação verde, ora seca; ora pedregulhos, ora pequenas serras cortadas.
Todavia ele não se interessava muito pelas paisagens.
Seus pensamentos estavam voltados para alguém que estava distante dali e não era esquecida por ele.
Após um dia e uma noite de viagem, um rapaz moreno que se sentava ao lado dele, com cabelos castanhos escuros e aparentando uma idade de trinta anos, perguntou-lhe:
- Amigo, desculpe-me incomodá-lo, mas depois de todo esse tempo ao seu lado, fiquei curioso para saber o seu destino final.
Quem sabe podemos trocar informações, pois também estou viajando para um lugar desconhecido por mim.
Hugo enxugou discretamente os olhos, voltou a cabeça para o assento ao lado, onde o vizinho de viagem fitava-o com um sorriso simpático, e falou pela primeira vez desde que entrou naquele ônibus interestadual:
- Não sei.
- Meu nome é Júlio.
E você?
Como é conhecido? - perguntou.
- Hugo.
- Bonito nome.
- Você conhece alguma pequena cidade que esteja precisando de um médico? - perguntou Hugo sem encarar o rapaz, depois de um longo silêncio sem ser interrompido pelo colega de viagem.
Júlio pensou, passou a mão na cabeça como se estivesse tentando se lembrar de algo para responder a pergunta do rapaz, e depois informou, apontando para a rodovia federal:
- Nesse mesmo itinerário, tem uma cidadezinha ao lado da rodovia que é muito simples, porém aconchegante.
Seus habitantes dedicam-se às pequenas lavouras, à criação de gado bovino e suíno e ao comércio do que produzem.
É bem possível que o pessoal daquela cidade esteja precisando de um médico.
- Você me avisa quando estivermos perto dela?
- Esse ônibus costuma parar numa pequena rodoviária, situada ao lado de um posto de gasolina.
- Então, não se esqueça de me avisar quando chegarmos.
- Não esquecerei.
Mas prepare-se, pois a próxima parada é a sua.
Hugo passou a toalha no rosto, como se quisesse melhorar a aparência e se preparar para descer do ônibus.
- Amigo, antes de você descer, posso lhe fazer uma pergunta? - perguntou Júlio.
- Sim.
- Parece-me que você é médico.
E pelos seus trajes, modo de falar e educação, também acho que é rico - comentou Júlio sorrindo.
Estou curioso para saber por que você quer se esconder neste fim de mundo.
Hugo olhou para o amigo de viagem e pela primeira vez apreciou a simpatia e a inteligência do rapaz, que conseguiu penetrar no seu âmago e descobrir o que ia à sua alma.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:18 am

- Coisas da vida - respondeu evasivamente.
Júlio ainda abriu a boca para falar algo, mas preferiu não articular nenhuma palavra, pois sentiu que o rapaz não saciaria sua curiosidade.
O ônibus parou numa pequena pensão de beira de estrada - que também se fazia às vezes de rodoviária -, ao lado de um posto de gasolina.
- Pessoal! - gritou o motorista.
Vamos permanecer vinte minutos neste restaurante.
Hugo desceu com sua pequena mochila nas costas, despediu-se de Júlio e encaminhou-se para o posto de gasolina.
Um frentista aproximou-se dele e perguntou-lhe:
- Deseja alguma coisa, patrão?
- Como chego ao centro desta cidade?
- Fácil, patrão! Gordo! - gritou o frentista.
Observando o vai-e-vem de veículos que transitavam na rodovia, Hugo também viu se aproximar um rapaz baixo e gordo, com a metade da barriga de fora que não podia ser coberta pela camisa.
- O que aconteceu, Zé Amanso? - perguntou o Gordo.
Pelo grito, parece que tem alguém morrendo!
- Pronto, chefe - disse o frentista batendo continência e encarando o passageiro desconhecido.
O Gordo tem um automóvel e pode levá-lo até lá.
Hugo olhou para o Gordo e perguntou sem preâmbulos:
- Amigo, você pode me levar até o centro da cidade?
O Gordo passou o palito que mastigava para o outro lado da boca e respondeu com um sorriso que mais parecia uma careta:
- São vinte reais, patrão.
- Vamos. Cadê o carro?
- Ali está - e apontou para um carro em péssimo estado de conservação.
Hugo sorriu e rapidamente o comparou aos carros que possuíra.
Sim, esse é o termo certo, pois naquele momento não tinha mais nem um calhambeque daqueles.
Entraram no carro e saíram da rodovia, desembocando numa rua de barro misturado em alguns pontos com terra batida.
Aos solavancos e quase meia hora depois, o Gordo falou para o médico, tirando a mão direita do volante e apontando algumas casas que começavam a aparecer:
- Pronto, meu patrão!
Estamos chegando na melhor cidade deste país!
À proporção que o carro rodava, Hugo pôde ver que estava numa pequena cidade do interior, com suas ruas assimétricas e esburacadas, que desembocavam numa praça e de onde se podia contemplar uma pequena igreja.
Não passou despercebido ao forasteiro que havia várias lojinhas ao redor da igreja, formando o comércio local.
O médico meteu a mão no bolso, tirou algumas cédulas, pagou o dono do carro e agradeceu.
Quando ia se virando para ir embora, perguntou:
- Moço, você sabe onde posso encontrar um hotel ou uma pensão?
- Chefe, nesta cidade não há esses luxos.
- Obrigado.
- Um momento...
O Gordo passou a mão na cabeça, num gesto típico do homem do campo, e perguntou:
- Você tem parentes por aqui?
- Não.
- Sendo assim, vou levá-lo para se hospedar na casa da minha madrinha Viviane.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:18 am

Ela está com um quarto desocupado.
Hugo nada falou e apenas acompanhou o Gordo.
Este atravessava uma rua, pulando umas poças de lama que estavam no seu caminho.
Os dois homens chegaram numa casa de alvenaria pintada de branco e com detalhes amarelo.
Hugo observou que a casa tinha um alpendre e um pequeno jardim que alegrava aquela residência de interior.
- Madrinha Viviane! - gritou o Gordo.
- Já vai - respondeu alguém, com voz de mulher.
Vá entrando, meu filho.
Já vou atendê-lo.
Os homens entraram na casa e ficaram no alpendre.
Hugo olhou para o quintal e viu vários pés de manga, caju, jaca, e uma plantação de feijão, milho e outras culturas.
Notou também que o terreno tinha um declive.
- Boa tarde.
Hugo voltou-se e viu uma senhora simples, aparentemente com trinta e dois anos, bonita, branca, de altura mediana e cabelos castanhos claros e lisos.
Seu corpo era bem distribuído e era sorridente e simpática.
Os rapazes responderam ao cumprimento de Viviane.
- O que você quer comigo, Gordo?
- Apresento-lhe um amigo que acabou de chegar da cidade grande e pretende passar um tempo por aqui.
A bela mulher fitou os olhos do rapaz e estendeu-lhe a mão, sentindo um grande bem-estar e uma saudade inexplicável.
Ela tentou disfarçar e cumprimentou o rapaz:
- Muito prazer em conhecê-lo, senhor.
A mulher passou a mão no cabelo, fazendo uma espécie de coque, e comentou olhando de viés para o Gordo:
- Ainda não consegui entender o que você quer.
- Madrinha, sua casa é bastante grande e tenho certeza de que a senhora tem um quarto desocupado.
- Sim. Tenho mesmo um quarto amplo desocupado.
E daí?
- A senhora pode alugar esse quarto para o nosso amigo?
Como todo mundo sabe, nesta porcaria de cidade não tem um hotel ou uma pensão.
A mulher pensou, fitou o forasteiro com seus olhos verdes e faiscantes e, com a sinceridade do povo simples do interior, perguntou:
- O senhor veio visitar a nossa cidade ou comprar alguma coisa?
- Nem uma coisa nem outra.
Vim para ficar.
- O senhor aparenta ser um homem educado e rico.
Não entendo por que escolheu esse fim de mundo para morar.
Hugo ficou em silêncio.
Ele olhou para o Gordo, que estava distraído com um pequeno lago artificial, e falou em voz alta:
- Gordo!
- Sim, patrão?
- Vamos embora.
- Um momento, senhor...
- Hugo.
- Senhor Hugo - falou Viviane, fazendo um movimento gracioso com a mão, como se estivesse com medo de algo.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:18 am

- Eu não disse que não havia um lugar para o senhor ficar, pelo menos enquanto se arruma algo melhor.
Hugo e o Gordo se entreolharam.
- Isso quer dizer que a senhora vai me hospedar?
- Por enquanto.
Por favor, entre e vou levá-lo ao quarto que está desocupado.
O gordo despediu-se, colocando o seu carro à disposição do novo amigo.
Hugo acompanhou Viviane e, chegando em uma grande sala, dessas típicas de casas do interior, sentou-se na cadeira indicada pela dona da residência.
- Senhor Hugo, eu não o conheço, e é por isso que desejo saber algo de sua vida, para poder ficar tranquila e hospedá-lo em minha casa.
O rapaz não gostou da sinceridade da mulher e quase se levantou para ir embora, pois não estava a fim de falar sobre sua vida com ninguém.
Viviane notou que o rapaz não gostou da maneira sincera que ela se expressara e apressou-se em se explicar:
- Senhor, sou viúva e tenho uma filha de dez anos.
Além de minha filha e meu irmão Jacó, também mora connosco uma moça que me ajuda nos afazeres da casa.
A mulher fitou o homem e continuou:
- Senhor Hugo, não me interessa saber quem você é.
Mas como vou conceder-lhe um quarto em minha casa, talvez eu tenha o direito de saber quem vai morar connosco, debaixo do mesmo tecto. Entendeu?
Hugo pensou e entendeu que a mulher estava com a razão.
Ele levantou-se e enxugou uma lágrima que teimava em escorrer pela face.
A mulher notou, mas se manteve discreta.
- Senhora...
- Por favor, chame-me de Viviane.
Somente Viviane, como sou conhecida neste lugar.
- Viviane, eu estou fugindo.
A mulher ergueu-se demonstrando que estava bastante preocupada com aquela revelação.
- Calma, Viviane.
Eu estou fugindo de mim mesmo.
- Por quê?
- Há três dias perdi a mulher que mais amei nesta droga de vida.
Como não encontrei mais graça naquela maldita cidade, resolvi sumir.
Hugo enxugou o rosto com a toalha que trazia no pescoço e prosseguiu:
- Fui para o terminal rodoviário da cidade onde residia e entrei no primeiro ônibus que pudesse me levar para bem distante.
- Então veio para esta cidade?
Esta não era a minha intenção.
Resolvi descer no meio da viagem e vir para esta cidade por indicação de um passageiro, que parece conhecer muito bem esse lugar.
- Entendo.
- Sou cardiologista e pretendo ficar por aqui, até o dia em que Deus quiser - completou o rapaz.
- Hugo, você é rico?
- Minha família é rica, mas eu não tenho mais nada nesta vida.
Não pretendo voltar para casa e nem me interessa saber qualquer notícia que me lembre o momento trágico que vivi.
Vou viver do pouco que ganhar nesta região, até que um dia a Carla venha me buscar.
- Quem é Carla?
- Minha noiva.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:18 am

"Coitado... É um caso de amor não correspondido", pensou Viviane.
- Mas ela precisa saber onde você está morando, para poder vir buscá-lo ou visitá-lo, sei lá - a mulher tentou descobrir mais alguma coisa sobre aquela pessoa misteriosa.
Hugo sorriu.
- A Carla está morta.
Viviane baixou a cabeça e depois, sem fazer comentários, convidou o rapaz a dirigirem-se ao fundo da vasta residência.
- Você me convenceu a hospedá-lo.
Vamos conhecer o seu quarto.
O quarto era espaçoso e ventilado, pois uma janela que se abria para o alpendre recebia o vento das plantações ao redor da casa.
Tinha um banheiro privativo e uma pequena saleta, espécie de um pequeno escritório.
- Fique à vontade, Dr. Hugo.
Este é o melhor quarto da minha casa.
Era aqui que eu e o meu marido vivíamos, quando ele ainda era vivo.
Depois que o mataram, resolvi mudar de quarto.
- Quanto vou pagar-lhe por todo este luxo? - perguntou o médico, sentando-se na confortável cama.
- Depois conversaremos sobre isto.
Apenas descanse e avise-me quando estiver com fome, que farei algo para você comer - disse a mulher fechando a porta.
Hugo tirou os sapatos e deitou-se na cama, fitando as telhas do tecto desforrado da casa.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:18 am

Capítulo IV - Carla no mundo espiritual
Iolanda não escondia sua aflição.
Seu nariz e olhos estavam vermelhos de tanto chorar a falta do seu querido filho, que há dias havia desaparecido sem deixar notícias para a família.
Não parava de andar pela casa e de perguntar aos empregados se Hugo havia telefonado.
Ora chorava, ora tentava dormir à base de calmantes, e assim se passaram alguns meses sem que recebesse qualquer notícia do único filho que tivera.
Albert trancara-se num mutismo tão profundo, que passava dias sem falar com ninguém, à excepção da directoria, empregados da fábrica e de outras pessoas ligadas aos seus vários negócios.
Certa tarde a mulher entrou no escritório dele e sentou-se num sofá posicionado perto da escrivaninha em que o mesmo trabalhava, permanecendo em silêncio.
Após quase uma hora, Albert começou a ficar impaciente com o silêncio irritante da esposa.
Ele pôs os óculos sobre a mesa, passou a mão no rosto e perguntou, olhando para Iolanda com um ar incomodado:
- Quer falar algo, Iolanda?
- Não.
- Então, por favor, deixe-me trabalhar.
Não preciso de ninguém me vigiando.
A mulher levantou-se, aproximou-se da mesa do marido e disse-lhe em voz baixa, mas segura:
- Assassino.
Você é um assassino porque causou duas mortes:
a morte de Carla e a do seu neto.
Além disso, também é responsável pelo desaparecimento do nosso filho.
Albert encarou-a de cima a baixo.
Seus olhos mudaram de cor, talvez de ódio por estar sendo acusado pela própria esposa do suicídio da médica grávida de seu neto e pelo desaparecimento do filho.
- Iolanda, saia do meu escritório! - ordenou o marido autoritário, em voz alta.
Vá com suas lamúrias idiotas para outro lugar!
Em seguida, ergueu-se e num gesto brusco, porém seguro do que fazia, segurou nos ombros da mulher e disse-lhe olhando-a nos olhos:
- Não tenho culpa se aquela idiota da Carla foi fraca a ponto de se suicidar e o louco do seu filho ter sumido de casa sem deixar endereço.
Espero que ele também tenha tido a coragem de buscar a morte como consolo, pois este mundo foi feito para homens como eu. Entendeu?
Albert dirigiu-se até a porta e a abriu, convidando a esposa a se retirar do seu gabinete.
Iolanda encaminhou-se para a porta como uma sonâmbula, como se estivesse hipnotizada, sem nada falar.
O homem voltou a sentar-se em sua escrivaninha.
Enquanto isso, na residência da família de Carla, uma grande tristeza envolvera a casa desde o dia em que a médica morrera.
Isabel, mãe de Carla, estava hospitalizada numa clínica de repouso - um hospital para doentes mentais -, pois não suportara perder a filha naquelas condições.
Edmundo, pai de Carla, também perdeu o gosto pelos negócios.
Se antes ele era um homem bem sucedido no ramo de imóveis, depois da tragédia passou a beber além do normal, tornando-se alcoólatra.
Não ligava para mais nada, até mesmo para a esposa, que ficava cada dia mais desequilibrada.
Quem tomava conta dos negócios era o filho mais velho, entretanto o rapaz não tinha a vocação do pai, e pouco a pouco a família começou a se desfazer de parte dos seus bens para poder cobrir as dívidas que contraíra.
O descontrole abateu-se sobre a família de um modo geral.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:19 am

Altas horas da noite, Edmundo chegou e entrou em casa cantarolando uma música qualquer.
Augusto, filho mais velho do casal, viu o pai chegar e notou que ele estava bêbado.
Aproximou-se dele e abraçando-o, tentou levá-lo para o quarto.
Quando sentiu o abraço do filho, Edmundo começou a chorar e a soluçar enquanto falava, atropelando as palavras por causa do efeito do álcool que ingerira:
- Meu filho, por favor, vá chamar sua irmã Carlinha.
Diga que estou esperando-a no jardim.
Augusto sentiu pena daquele homem forte, que vencera na vida trabalhando duro e lutando para conseguir reunir um considerável património, agora, totalmente comprometido com os credores.
Infelizmente, este homem se encontrava ali, bêbado, fraco e precocemente envelhecido, pois não suportara a perda da filha predilecta, da qual tinha tanto orgulho por ser médica.
- Pai, a Carla já não está connosco - disse-lhe o filho, também sentindo a triste realidade.
- Onde ela está?
Augusto era um rapaz de trinta e dois anos, moreno, altura mediana, cabelos pretos e lisos, educado e muito religioso.
Formara-se em Odontologia, mas deixara o consultório entregue a um amigo, enquanto tentava ajudar a família a sair daquele estado precário, principalmente, dos problemas financeiros em que se encontravam.
- Pai, a Carla está em outro mundo.
Um mundo que a ciência não consegue explicar, pois ainda não reuniu provas cabais de sua existência, e que está situado numa outra dimensão.
Edmundo ergueu-se meio trôpego, fez um gesto com a mão e falou com a língua enrolada:
- Filho, eu bebo e você é quem fica bêbado!
Vou dormir agora.
Cuidado, senão daqui a pouco vou ser obrigado a interná-lo junto com sua mãe.
Ele saiu cambaleante, gargalhando e dirigindo-se ao seu quarto com dificuldade.
O outro mundo ao qual seu filho se referira era para ele uma piada.
- O Augusto realmente gosta muito da Carla.
Essa é a única explicação para essa loucura dele.
Coitado, tão jovem! - disse ao fechar a porta do quarto.
Augusto ficou sentado no banco do jardim, enquanto ouvia seu pai rir e subir com passos incertos a escada para o quarto dele.
- Acho que vou me cuidar, senão quem vai parar num sanatório sou eu, principalmente depois que comecei a ler aqueles livros esquisitos que o Ricardo me emprestou - disse ele num murmúrio.
No dia seguinte, antes do almoço, Augusto esperava que o pai acordasse para colocá-lo a par da situação dos negócios da família.
Edmundo desceu do seu quarto com as mãos trémulas, foi até a geladeira e bebeu água.
Olhou para o lado e viu o filho encarando-o em silêncio.
Não ligou e foi directo para uma espécie de bar, que ficava na sala de visita.
Pegou uma garrafa, com um resto de bebida importada, e tomou-a toda em um só gole.
Depois de enxugar a boca, olhou para o filho e se justificou:
- Isso é para rebater a ressaca - disse ao rapaz, que somente o observava em silêncio.
Edmundo sentou-se num sofá com a garrafa na mão e perguntou, sorrindo com ironia:
- Algum problema, doutor?
- Sim. E de difícil solução.
- Então diga logo.
Tenho um encontro com alguns companheiros.
Sabe, filho, vou viver a minha vida e o resto que se dane.
- Pai, estamos falidos - disse Augusto calmo e seguro.
- E você?
O que está fazendo para resolver isso?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:19 am

- Pai, eu sou dentista.
Não tenho vocação para os negócios.
Tentei fazer alguma coisa, porém, não consegui.
- Quer dizer que estamos falidos?
- Exactamente.
E talvez só nos reste algum dinheiro depois que vendermos esta casa.
- Não acredito que após a morte da Carla, em poucos meses, a situação esteja tão caótica assim.
- Verifiquei a contabilidade da imobiliária e dos outros negócios ligados ao património da família e constatei que esta situação vem se arrastando há mais de dois anos.
O senhor sempre conseguiu revertê-la, pois conhece muito bem esse ramo de negócios e tem conhecidos e amigos nos bancos.
- E por que você não conseguiu salvar as empresas?
- Porque não sou empresário, e quando tentei substituí-lo por alguns dias, após a morte da minha irmã, não tive competência suficiente para negociar as dívidas com os credores e implementar novos negócios, como o senhor sempre fez.
Edmundo, que já estava começando a ficar eufórico por conta da bebida que ingerira ao acordar, pegou outra garrafa e tomou outro gole, dizendo ironicamente:
- Pois, meu filho, isso não me interessa mais.
Vocês que se virem, porque eu não tenho mais alegria.
Minha vida se acabou quando sua irmã morreu e sua mãe se internou numa clínica para doentes mentais.
- E o que faremos, papai?
- Não sei - respondeu o pai, abrindo a porta e saindo para juntar-se aos amigos de vício.
Augusto ficou sentado, pensando:
"Meu Deus, ilumine minha mente!
Preciso encontrar um meio de ajudar minha família".
Enquanto isso, no mundo espiritual, o espírito Carla chorava e se contorcia de dor, sentada numa cama próxima à mãe, na clínica de repouso onde Isabel estava internada.
- Mamãe, por favor, ajude-me!
Não aguento mais tanta dor!
Acho que vou enlouquecer ou morrer!
Cadê o Hugo, que não está ligando para mim, mamãe?
Em seu quarto na clínica, Isabel começou a gritar.
As enfermeiras correram apavoradas em direcção aos gritos.
- Enfermeiras, por favor, ajudem minha filha!
Ela está deitada nessa cama ao lado, chorando e completamente ensanguentada!
- Coitada da dona Isabel.
Enlouqueceu mesmo - disse uma delas.
- Tenho muita pena.
Mas o que podemos fazer? - disse outra.
- Acho que agora, medicamento algum vai surtir efeito.
Ela enlouqueceu de vez - sentenciou a que parecia ser a enfermeira-chefe.
O espírito Carla passou as mãos no baixo ventre e se apavorou ao vê-las sujas de sangue.
Logo começou a gritar, em total estado de desequilíbrio e com as mãos na cabeça:
- Mãe, estou perdendo o meu filho!
Estou sangrando muito, mãe! Vou abortar!
Isabel se ergueu e sentou-se na mesma cama onde a filha estava chorando e gritando de dor.
Carinhosamente começou a fazer-lhe um carinho e a embalá-la como fazia quando ela era uma criança.
- Não chore, minha filha.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:19 am

A mamãe não vai abandoná-la.
Tenha fé em Deus, que você ficará boa.
Neste momento a porta se abriu e um médico, provavelmente um psiquiatra, entrou no quarto.
Ele aproximou-se da mulher do rei dos imóveis e pediu com calma e simpatia:
- Dona Isabel, por favor, vá para sua cama.
- Doutor, o senhor não está vendo que estou cuidando da minha filha, que está bastante doente? - questionou Isabel, fazendo gestos com as mãos, como se estivesse embalando alguém.
O senhor deveria me ajudar a estancar essa hemorragia dela.
- Vou ajudá-la, Dona Isabel.
Mas agora, por favor, vá descansar um pouco, enquanto cuido da sua filha.
Isabel se levantou e deitou-se na cama ao lado, porém, antes falou para um ser invisível:
- Minha filha, o Dr. Jacinto vai cuidar de você.
Tenha calma e durma um pouco.
O médico fez um gesto com a cabeça para as enfermeiras e autorizou a intervenção das mesmas.
Numa acção rápida e prática, as enfermeiras injectaram um medicamento na paciente.
Dentro de poucos minutos Isabel dormia sob o efeito de uma alta dose de tranquilizante.
Após medicarem a paciente, o médico e as enfermeiras saíram do quarto.
Eles comentavam entre si:
- Coitada da dona Isabel, doutor.
Acho que ela enlouqueceu mesmo - disse uma das enfermeiras.
- Concordo - disse a outra.
O médico caminhava pensativo e não fez nenhum comentário.
"Acho que a dona Isabel está precisando falar urgentemente com alguém que entenda desse tal de Espiritismo", pensou.
Edmundo voltou para casa somente à noite, em estado lastimável e bêbado.
Assim que entrou em casa, disse para a empregada:
- Neuza, não vou jantar.
Preciso dormir, pois estou bastante cansado.
Ao subir para o quarto, o homem olhou para a ampla sala e viu o espírito Carla encolhida no sofá, gemendo e falando coisas que ele não entendia.
- Acho que hoje passei da conta.
Bebi demais e estou vendo até fantasmas - pensou em voz alta.
Ao chegar em seu quarto, deitou-se de qualquer maneira e, quando olhou para o lado, ouviu a filha suplicar-lhe:
- Pai, ajude-me, por favor!
Edmundo pulou da cama, corno se não tivesse bebido uma única dose de bebida, e disparou correndo escada abaixo, abrindo a porta e sentando-se num banco do jardim.
- Neuza! - gritou Edmundo.
- Sim, patrão.
- O Augusto está em casa?
- Deve estar no quarto.
- Chame-o, por favor.
A empregada desapareceu por um corredor.
Após alguns minutos, Augusto encontrava-se sentado ao lado do pai no jardim.
- O que houve, pai? - perguntou o rapaz.
Parece que viu alma do outro mundo.
- Você adivinhou.
O pai contou o que viu e concluiu:
- Hoje, vou dormir por aqui.
Não entro nessa casa nem amarrado.
Augusto riu às gargalhadas.
- Por acaso contei alguma piada, meu filho?
- Não. Mas o senhor confirma o que estou lendo num livro sobre uma tal de "Doutrina Espírita".
Edmundo olhou para o filho desconfiado e disse:
- Por hoje, não quero mais ouvir essas histórias.
- Ok, pai.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qua Ago 17, 2016 10:19 am

Capítulo V - Vingança
Um ano se passou desde a morte da Dra. Carla.
Certa noite um grito ecoou na mansão do empresário Albert.
Imediatamente os empregados correram em direcção ao lugar de onde havia partido o clamor, inclusive sua esposa que, após o filho haver saído de casa, com destino ignorado, dormia em quarto separado.
Bateram na porta do quarto do dono da mansão e em seguida entraram.
- O que houve, Albert? - perguntou a esposa apreensiva.
Você está bem?
O marido estava sentado na cama, molhado de suor, com os olhos fechados e tapando os ouvidos com as mãos, num verdadeiro estado de pânico.
Uma das empregadas correu, segurando um copo d'água nas mãos trémulas e olhos arregalados de medo e o entregou ao patrão, esperando com esse gesto agradar aquele homem em péssimo estado, mais parecendo um louco.
- Beba essa água, patrão.
Ao invés de pegar o copo com água, Albert deu um tapa na mão da empregada, jogando o copo longe, que se quebrou e molhou parte do colchão e do tapete.
Repentinamente ele se levantou e gritou:
- Seus inúteis!
Saiam todos do meu quarto, imediatamente!
Os empregados abandonaram o quarto comentando o ocorrido.
Na residência corria um boato, entre eles, que o patrão estava enlouquecendo, porque havia feito um pacto com o demónio e não pagara a dívida.
O povo tem imaginação fértil, principalmente quando se trata de inventar histórias a respeito de pessoas ricas e famosas.
Normalmente essas lendas nascem a partir da crendice popular que envolvem tradições sociais e religiosas.
O padre da família havia sido chamado para expulsar o "demónio" daquela casa, porém o exorcismo não deu resultado, apesar do sacerdote ter recebido uma altíssima quantia como benefício para sua igreja.
Trémulo e com os olhos arregalados, Albert aproximou-se da esposa, que continuava no aposento, e disse-lhe:
- Você está proibida de entrar nesse quarto.
Entendeu?
Iolanda abriu a porta e saiu em silêncio, pensando:
"O Albert precisa urgentemente fazer um tratamento psiquiátrico".
Num canto do quarto, atrás de uma grossa cortina, o espírito Carla sorria e chorava.
Era ela que aparecia quase todos os dias para Albert, em sonho, assustando-o a ponto de ele começar a perder o controle nervoso.
"Maldito, sei que vou morrer!
Mas antes disso acontecer, transformarei sua vida num inferno", prometia aquele espírito sofredor, escondido atrás das cortinas para o seu desafecto não vê-lo, acreditando que ainda estava vivo para o mundo material.
Após ficar sozinho, esfregando as mãos no pijama e visivelmente nervoso, Albert começou a andar pelo quarto, pensando:
"Essa mulher maldita está me tirando o juízo!
Que ela vá para o inferno!
Nunca me arrependi do que fiz, porque tenho certeza que o meu filho iria cair no conto do vigário, e com isso, nossa fortuna iria parar nas mãos daquela gentinha".
Ao captar esse pensamento, sentada na cama, Carla começou a gritar completamente descontrolada, chorando com as mãos na cabeça.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:37 am

Seu maior sofrimento era causado pelo estado de perturbação em que se encontrava, principalmente por pensar que ainda estava viva.
- Maldito é você!
Velho nojento, orgulhoso e avarento!
Eu amo o seu filho e não me interessa o seu dinheiro!
Eu sou médica e tenho coragem para trabalhar e viver com os frutos do meu próprio suor!
Albert parecia assimilar o que o espírito falava, pois respondia em voz baixa:
- Cadela! Você teve sorte, pois se não tivesse dado cabo à sua própria vida, eu mesmo faria isso com as minhas mãos.
Eu e minha família não construímos um império, para vê-lo nas mãos de pessoas desclassificadas e aventureiras como você e sua família.
Carla correu e agarrou o pescoço do empresário, tentando sufocá-lo com as mãos, enquanto dizia:
- Vou matá-lo, cão imundo!
Albert sentiu falta de ar e correu para janela, abrindo as cortinas na esperança de respirar o ar da madrugada, porém não conseguia, formando-se nesse momento uma perfeita simbiose entre, ele e o espírito Carla.
Além de agarrar o pescoço do homem por trás, ela também passou as pernas na cintura dele, em forma de alicate, como se estivesse montada nele.
Albert sentiu um peso horrível nas costas e uma dor insuportável no estômago, além de ficar perturbado, ansioso e suar frio.
Já quase sem fala, o pai de Hugo entrou em pânico e gritou com todas as forças de seus pulmões.
O espírito repassava para ele o mal-estar que sentia, inclusive, dando a impressão que sujava o pijama dele, quando ela tentava estancar a hemorragia e agarrava-se ao empresário com as mãos sujas.
A criadagem correu e encontrou o patrão de bruços e desmaiado sobre o piso do quarto.
Prezado leitor, para o melhor entendimento desta obra, solicitamos permissão para fazermos algumas elucidações a respeito do que está acontecendo entre Albert e Carla no campo extra-físico, à luz de uma Doutrina que apareceu no século dezanove, publicada e divulgada pelo então professor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, discípulo de Pestalozzi, actualmente cognominado de Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita.
Allan Kardec recebeu a missão de organizar e publicar, posteriormente, as informações dos Espíritos Superiores que elaboraram essa Doutrina, conhecida como Espiritismo, tão incompreendida e ironizada pelas religiões e seitas existentes no globo terrestre.
Esta Doutrina é composta por cinco obras básicas, todas escritas por Kardec, que cada dia mais fortalece a certeza de que somos espíritos eternos.
Nas considerações gerais das questões cento e sessenta e três, cento e sessenta e quatro e cento e sessenta e cinco, intituladas "Perturbação Espiritual", de "O Livro dos Espíritos" - uma das obras básicas do Espiritismo -, os espíritos nos informam:
"(...) Essa perturbação apresenta circunstâncias particulares de acordo com o carácter dos indivíduos e, principalmente, o género de morte.
Nas mortes violentas, por suicídio, suplício, acidente, apoplexia, ferimentos, etc., o espírito fica surpreso, espantado e não acredita estar morto.
Sustenta essa ideia com insistência e teimosia.
Entretanto, vê, o seu corpo, sabe que é o seu e não compreende que esteja separado dele (...)".
Era o que ocorria com Carla.
Ela desencarnara há mais de um ano; no entanto, ainda não havia entendido que passara para o mundo espiritual.
Outro acto infeliz era o fato dela ter tirado a própria vida num momento de fraqueza, por não ter suportado o peso de sua provação, que seria, talvez, vencer as dificuldades que a impediriam de se casar com o homem que amava.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:37 am

Ela imputou toda essa responsabilidade ao pai do namorado, como é tão comum no espírito imperfeito e moralmente atrasado, que transfere seus erros e responsabilidades para alguém, como um meio de fuga ou por covardia.
Infelizmente, a nossa irmã Carla não foi suficientemente forte para evitar tirar a própria existência e, com isso, resguardar a vida de um ser inocente que a escolhera como mãe.
Como resultado desse ato tresloucado, ela atentou contra as leis de Deus, tirando o maior bem que ele pode nos dar - um novo corpo -, para continuarmos com o nosso aprendizado.
Também esse acto infeliz interrompeu a existência de um irmão que reencarnaria em breve.
Voltemos à mansão para saber o que está acontecendo com o nosso Albert.
Albert abriu os olhos e viu o seu médico de confiança sentado num confortável sofá ao lado.
- O que aconteceu, doutor? - perguntou o empresário, sentando-se na cama abatido e pálido.
- Eu é que pergunto:
O que houve, Dr. Albert?
Albert começou a andar no quarto como se procurasse algo.
Depois se sentou, passou as mãos na cabeça e falou com voz trémula:
- Artur, estou ficando louco.
O médico manteve-se calado, deixando o empresário à vontade para falar o que quisesse.
Sonho diariamente com uma mulher diabólica que não me deixa dormir, e agora, vejo-a em meu quarto até mesmo quando estou acordado, como se fosse um fantasma.
Albert suspirou e continuou.
- Se continuar assim, sei que não vai demorar muito para eu ser internado num manicómio ou fazer uma loucura comigo.
- Que tipo de loucura? - perguntou o Dr. Artur preocupado com o cliente.
- Morrer. Suicidar-me.
Não aguento mais passar noites em claro com medo de dormir, principalmente agora, que vejo essa maldita mulher em estado de vigília.
Pensativo, o médico se ergueu e dirigiu-se a uma bandeja, colocando água num copo.
Sorvendo um pequeno gole do líquido, voltou para perto do empresário e sentou-se ao lado dele.
- Dr. Albert, lamento informá-lo que não entendo absolutamente nada sobre problemas do sistema nervoso, principalmente de distúrbios mentais.
Mas vou indicá-lo a um bom profissional da área.
- Você acha que estou ficando maluco?
- Não sei lhe responder, meu caro Dr. Albert.
- Por que, Artur?
Você estudou Medicina e deve ter ideia sobre qualquer doença.
O médico falou em voz baixa:
- Não acredito que a ciência tenha avançado tanto, a ponto de entender certos mistérios que envolvem nossa mente.
- O que você quer dizer? - perguntou Albert, demonstrando curiosidade pelo comentário do médico.
O médico ergueu-se, ficou de pé em frente ao seu paciente, meteu as mãos no bolso da calça e fez um ar pensativo.
- Meu caro Dr. Albert, minha especialização médica não é psiquiatria, porém, tenho lido bastante sobre esse assunto, e sinceramente, não encontro nenhuma explicação plausível para as enfermidades mentais.
- Por favor continue, doutor.
- A ciência tem progredido bastante na descoberta de medicamentos paliativos – anti-depressivos, calmantes e outros - que conseguem melhorar bastante o estado daqueles que sofrem alguma alteração no quadro clínico mental.
- Ainda não consegui entender suas ilações, doutor.
O que o senhor quer me dizer?
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:37 am

- Nada. Esqueça.
Vou pedir para que o meu amigo o procure ainda hoje.
O médico escreveu algo num receituário e o entregou ao Dr. Albert e, com o ar constrangido, despediu-se e foi embora, deixando o seu cliente meio desconfiado.
Enquanto os homens conversavam, o espírito se encontrava sentado atrás da cortina, com as costas na parede e com as mãos no ventre, gritando e chorando de dor.
"Meu filho, a mamãe não vai lhe abandonar!
O miserável do seu avô vai pagar muito caro pelo mal que nos fez", pensava.
Albert deitou-se e começou a cochilar quando fechou os olhos.
Ele viu Carla sentada perto de sua cama, gritando e contorcendo-se de dor.
A moça estava um trapo, descabelada e com um olhar de louca, soltando pela boca uma baba amarela e uma espuma esbranquiçada.
O homem assustou-se e abriu os olhos imediatamente.
Saltou da cama e saiu correndo pelos corredores da mansão, em pleno dia, antes das dez horas.
Iolanda, que estava sentada em seu pequeno escritório, verificando alguns documentos que lhe pertenciam, viu a porta se abrir de repente e o marido entrar gritando:
- Iolanda, ajude-me!
Essa louca quer me matar!
- De quem você está falando, Albert? - perguntou a mulher assustada.
- Desse demónio da Carla!
- O que ela lhe fez?
- Quando eu tentava dormir um pouco, após a saída do Dr. Artur, a vi num estado horrível, parecendo que tinha vindo do inferno só para atanazar a minha vida.
Iolanda ficou calada.
Albert não conseguia ficar quieto.
-Tome o medicamento que o médico lhe receitou.
- Já tomei, mas não fez efeito nenhum, pois continuo nesse estado.
A esposa pediu ao marido para sentar-se um pouco.
Ela o abraçou pelas costas e fez um carinho em sua cabeça, enquanto orava.
Iolanda era uma mulher religiosa, ainda que por conveniência; todavia, acreditava em Deus e tinha um coração muito bom.
Era querida pelos empregados e não poupava esforços para ajudar aqueles que lhe pediam.
Aos poucos o marido foi se acalmando.
Logo ele se levantou e saiu do escritório da mulher em silêncio.
- Agora, tente dormir um pouco - pediu a esposa.
Não esqueça de fazer uma oração, pedindo a Deus por essa criatura sofredora.
Quem sabe assim, você fica curado.
Albert fitou a esposa e falou mais calmo:
- Iolanda, eu quero que essa desgraçada vá para o inferno e fique por lá.
- Albert, pense nos ensinamentos que Jesus Cristo nos deixou em Seu Evangelho.
- Não conheço esse tal de Jesus e nem me interessa saber quem Ele é.
Meu dinheiro é minha religião, entendeu?
Após essas últimas palavras, ainda de pijama, o marido deixou o escritório da mulher, desceu os degraus da mansão e começou a andar pelo jardim, provocando medo e compaixão em seus criados.
O jardineiro olhou para o patrão meio desconfiado e automaticamente fez o sinal da cruz, falando baixinho:
- Vá para as profundezas do inferno, satanás!
Uma moça que limpava as escadas começou a tremer de medo e correu para o escritório da patroa esbaforida:
- Patroa, quero as minhas contas!
Não vou mais trabalhar nesta casa!
Iolanda sorriu com a ignorância daquele povo simples, que no fundo tinha alguma razão.
- Maria, tenha paciência.
Depois conversaremos sobre isso.
- Não demore muito, patroa.
Resolvi mesmo ir embora.
- Ok. Agora, acalme-se, por favor.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:38 am

Capítulo VI - A mãe de Carla é internada
No passado, a bela mansão que abrigava a clínica de repouso onde a mãe de Carla estava internada havia sido a residência de uma família rica e tradicional.
A sumptuosa habitação foi adquirida por um grupo empresarial e transformada numa clínica de recuperação para pessoas com problemas mentais, que tivessem recursos suficientes para pagar os altos custos do tratamento.
Era uma clínica bastante ampla, com requintes de luxo, que mais se assemelhava a um hotel para turistas, pois naquela casa nada lembrava um hospital, a começar pelos dormitórios, compostos por luxuosas suítes, com uma ou duas camas.
Os médicos, enfermeiras, farmacêuticos e outros especialistas da área de saúde vestiam-se como pessoas normais, sem aparentar que pertenciam aos quadros de funcionários da clínica.
Numa ampla e aconchegante sala de espera, Edmundo aguardava sua vez para poder visitar a esposa Isabel e a oportunidade de falar com o Dr. Jacinto, que lhe enviara um recado dizendo que desejava falar com ele.
O pai de Carla estava sóbrio naquela tarde de domingo, porque não queria causar uma má impressão ao médico.
- Sr. Edmundo, pode entrar - uma enfermeira bonita, bem vestida e elegante o chamou em voz baixa.
Sua esposa o espera no pátio.
Edmundo caminhou até o final do corredor e adentrou uma porta que se abria para um pequeno pátio muito arejado e fresco - devido às plantas que ornamentavam o ambiente -, onde os pacientes relaxavam e faziam suas pequenas caminhadas. De longe ele avistou uma pessoa que identificou imediatamente como sendo a sua esposa.
Alguns minutos depois, ambos se abraçaram, enquanto Isabel chorava e falava coisas desconexas.
- Acalme-se, Isabel. Estou aqui, e nada vai lhe acontecer.
- Edmundo, por favor, leve-me para longe deste lugar.
Eu não estou maluca.
- Sente-se e vamos conversar, minha querida.
Sei que você não está louca, mas precisa repousar para aprender a lidar com o episódio que levou nossa filha à morte - disse o marido sem muita convicção, tentando acalmar a esposa, que aparentemente estava com muito medo de algo.
- Todo mundo me trata como louca, depois que comecei a ver a nossa filha sofrendo, gritando e pedindo ajuda.
- Você já me contou essas histórias várias vezes, Isabel.
- Então, o que você acha? - perguntou a esposa com voz arrastada, em virtude dos medicamentos prescritos que a mantinham sedada.
Edmundo começava a perder a paciência com a esposa.
Não aguentava vê-la sofrer daquela maneira sem poder fazer absolutamente nada para ajudá-la.
Ele também estava quase ficando louco, pois a pressão dos problemas, principalmente nos negócios, que iam de mal a pior, deixavam toda aquela situação insuportável.
- Calma, calma.
- Sei que você também não acredita em mim.
Senti isso, na última vez que veio me visitar. - disse a mulher chorando.
Já faz mais de um ano que estou internada e todos pensam que estou piorando e que o meu caso não tem mais solução.
Nesse exacto momento, aproximou-se um homem de óculos, vestindo calça social e uma camisa azul - com um pequeno detalhe em alto relevo no bolso -, muito simpático e sorridente, estendendo a mão para o marido de Isabel.
- Muito prazer em revê-lo, senhor Edmundo.
O marido de Isabel se levantou e estendeu a mão ao médico, correspondendo ao cumprimento dele.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

Mensagem  Ave sem Ninho em Qui Ago 18, 2016 10:38 am

- O senhor quer falar comigo, Dr. Jacinto?
- Quero. Após visitar sua esposa, procure-me no consultório que fica no final daquele corredor - disse o médico, apontando o lugar onde deveriam se encontrar.
Ao término da visita, Edmundo abraçou a esposa e a beijou, despedindo-se e prometendo que logo voltaria para conversar com mais calma sobre aqueles problemas apresentados por ela, como se ele quisesse injectar nela um optimismo que estava longe de sentir.
Após alguns minutos, Edmundo e o médico conversavam sobre coisas triviais, sentados em confortáveis poltronas, num pequeno consultório da clínica.
- Edmundo, o que você acha do estado de saúde de sua esposa? - perguntou o médico, mudando o assunto de surpresa.
- Ora, doutor!
Nas últimas vezes que vim visitar minha mulher, o senhor disse-me que ela havia piorado, porque via a filha gritando e chorando deitada na cama ao lado dela.
Agora, o senhor me faz essa pergunta?
Por direito, quem deveria fazê-la seria eu.
O médico fitou o seu interlocutor, pensou como se estivesse procurando palavras adequadas para continuar aquele diálogo e disse-lhe:
- É verdade. O senhor tem razão.
O Dr. Jacinto ergueu-se, passou a mão na cabeça, tentando encontrar uma maneira cordial, que não causasse um impacto negativo, para abordar o assunto que desejava tratar com o seu convidado.
Sentou numa cadeira simples, mais perto do marido da Isabel, e à queima roupa perguntou em voz baixa:
- Meu caro Edmundo, você conhece uma religião denominada Espiritismo?
- Já ouvi falar.
Inclusive, meu filho anda lendo uns livros estranhos e falando que devo me cuidar, para não ficar louco como a mãe dele.
Acho que ele também precisa de um tratamento.
O Dr. Jacinto ficou em estado de alerta, após ouvir esse comentário.
Tentou dissimular o interesse que sentiu naquele momento, mormente em saber quais livros o filho de Edmundo estava lendo.
- O senhor sabe o nome desses livros estranhos?
Edmundo pensou, como se estivesse querendo se lembrar do nome dos livros, depois fitou o médico e respondeu meio vacilante:
- Lembro-me que ele fala sempre num tal de "O Livro dos Espíritos" e outros, como um "O Evangelho Segundo o Espiritismo".
Livro desse pessoal que é médium.
Enfim, coisas de doido mesmo, doutor.
O Dr. Jacinto começou a rir, enquanto se erguia e sentava-se em sua cadeira atrás da mesa.
- Falei alguma coisa engraçada, doutor?
- Você fala de uma maneira, como se o seu filho estivesse precisando de um tratamento psiquiátrico só porque está lendo esses livros.
- E não estou certo? - perguntou Edmundo fazendo um gesto com as mãos, enquanto aparecia no rosto um trejeito que indicava ironia.
- Não, você não está certo.
Estamos falando de uma doutrina chamada "Doutrina Espírita".
- É esse o nome certo, doutor.
Exactamente esse aí.
Imagine estudar uma "doutrina de espíritos"?
Isso é coisa de quem está maluco.
Edmundo levantou-se e estendeu a mão para o médico, despedindo-se.
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Re: Vingança Além do Túmulo - João Maria / Assis Azevedo

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